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Endocardite infecciosa
É o diagnóstico que se perde por não ser pensado: febre arrastada, emagrecimento e um sopro que ninguém valorizou. Em quem tem válvula doente, prótese, dispositivo ou usa droga injetável, febre sem foco é endocardite até prova em contrário — e a prova é a hemocultura, colhida antes do antibiótico.
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Bulas para o profissional de saúde aprovadas pela Anvisa: oxacilina sódica pó para solução injetável 500 mg (Blau Farmacêutica); ampicilina sódica pó para solução injetável 500 mg e 1000 mg (Cilinon, Blau Farmacêutica); cloridrato de vancomicina pó para solução injetável 500 mg (Blau Farmacêutica); sulfato de gentamicina solução injetável 40 mg/mL, ampolas de 2 mL (Hipolabor Farmacêutica).
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Responda antes de ler
Homem de 48 anos, marceneiro, está no décimo primeiro dia de internação por febre a esclarecer. A febre começou três semanas antes de internar, é vespertina, com sudorese noturna e emagrecimento. Teve febre reumática aos 11 anos. Na admissão foram colhidas duas hemoculturas, depois da primeira dose de ceftriaxona, e ambas voltaram negativas. Ele já está no terceiro esquema antibiótico e tem duas tomografias sem foco. A ausculta da admissão registra sopro sistólico já conhecido, não reavaliado desde então. Qual é a leitura correta e a conduta agora?
O paciente que você vai ver
Quarta-feira, sete e quarenta da manhã, enfermaria de clínica médica de dezoito leitos num hospital geral de porte médio. Você é o interno da equipe e a visita começa às oito. O leito 6 é o do Aparecido Bulhões, 48 anos, marceneiro, internado há onze dias com o diagnóstico de febre a esclarecer. Onze dias é tempo suficiente para um paciente virar paisagem: a equipe passa, olha a curva térmica, comenta que ele continua com pico à tarde, e segue.
A história que está no prontuário é curta. Ele começou a ter febre havia umas três semanas antes de internar. Febre baixa, quase sempre no fim do dia, com suor à noite que molhava a camiseta, e um cansaço que ele descreve de um jeito que ninguém anotou: parou de subir a escada da oficina de uma vez só. Perdeu peso — quanto, ninguém perguntou; a esposa diz que a calça está caindo. Procurou a unidade básica duas vezes e saiu com sintomático. Na terceira vez foi ao pronto-socorro, mediu 38,4 graus, colheram exames, começaram ceftriaxona e internaram. As hemoculturas foram colhidas depois da primeira dose, porque o antibiótico chegou antes do carrinho de coleta.
No terceiro dia de internação a febre não cedeu e o esquema foi trocado por piperacilina com tazobactam. No sétimo, entrou vancomicina. Hoje é o décimo primeiro dia, ele tem três esquemas no prontuário, duas tomografias sem foco, e as duas hemoculturas colhidas na admissão voltaram negativas. A evolução de ontem, escrita às pressas, diz que ele permanece febril e que aguarda-se resultado de sorologias.
Duas coisas não estão em lugar nenhum daquelas onze folhas. A primeira é que ele teve febre reumática aos onze anos e ficou dois anos tomando injeção mensal na unidade de saúde, o que a esposa conta em vinte segundos quando alguém pergunta. A segunda é que ele tem um sopro sistólico em foco mitral, audível sem esforço, que o médico do pronto-socorro registrou na admissão com quatro palavras — sopro sistólico já conhecido — e que ninguém auscultou de novo desde então.
Junte as duas e o capítulo aparece inteiro. Um homem com válvula doente, com três semanas de febre arrastada, suor noturno, emagrecimento e um sopro, tratado empiricamente com três antibióticos sem que ninguém tenha escrito a palavra endocardite no prontuário. As hemoculturas que decidiriam o caso foram colhidas depois do antibiótico e vieram negativas — e a equipe leu esse negativo como ausência de bacteremia, quando ele é apenas o resultado esperado de colher depois.
O que este capítulo faz é impedir que a visita de hoje passe pelo leito 6 do mesmo jeito. A pergunta que abre tudo não é qual antibiótico trocar. É: este paciente tem endocardite, e como eu provo isso agora que a chance mais barata de provar já foi gasta?
Quem adoece disso
A endocardite infecciosa é incomum e por isso é esquecida: a revisão brasileira do Instituto do Coração estima a incidência entre três e dez episódios por cem mil pessoas por ano, conforme a fonte. O número parece pequeno até você traduzi-lo para a enfermaria: numa cidade de quinhentos mil habitantes, são de quinze a cinquenta casos por ano, quase todos passando por um hospital só, quase todos com febre e sem foco na entrada. A consequência prática não é epidemiológica, é de suspeita — a doença é rara o bastante para que você atenda poucos casos no internato inteiro, e grave o bastante para que errar um mude a vida do paciente.
O mesmo documento registra que a endocardite era, pelo levantamento de estatísticas cardiovasculares brasileiras referente a 2019, a décima primeira causa de morte cardiovascular no país, e que o Brasil não tem registro nacional nem estudo regional de prevalência — o que significa que a régua epidemiológica daqui vem de mortalidade e de casuística hospitalar, não de incidência medida. É por isso que este capítulo cita séries de serviço em vez de taxa de população: elas são o que existe.
Quem adoece disso no Brasil ainda não é o mesmo perfil dos países ricos, e a diferença muda a suspeita. Lá, a doença migrou para o idoso com dispositivo intracardíaco, com cateter de longa permanência e com valvopatia degenerativa. Aqui a febre reumática continua sendo a principal causa de doença valvar crônica, com prevalência e mortalidade em elevação e acometendo sobretudo adultos jovens, como registra a diretriz perioperatória brasileira. Numa série de 328 pacientes operados por endocardite entre 1982 e 2020 num hospital universitário do interior paulista, 15% tinham febre reumática, 28% tinham valvopatia conhecida e 35% chegaram à cirurgia com insuficiência cardíaca congestiva. O adulto jovem com sopro antigo, no Brasil, não é uma curiosidade histórica.
Três grupos concentram risco desproporcional e valem ser sabidos de cor, porque neles a pergunta muda de tom. O paciente em hemodiálise tem, pelas estimativas reunidas na revisão brasileira, risco entre cinquenta e cento e oitenta vezes maior do que a população geral, e chega a representar um quinto dos casos nas casuísticas recentes — com o agravante de que a febre, principal sinal da doença, está presente em apenas 45% a 70% deles. O portador de prótese valvar responde por 10% a 30% dos casos nos países desenvolvidos, com letalidade entre 23% e 48%. E quem usa droga injetável tem doença de câmaras direitas, com acometimento tricúspide em 46% a 78% dos casos e Staphylococcus aureus em 60% a 70%.
Some tudo e a régua deste capítulo aparece sozinha. Endocardite é doença de baixa frequência e alta letalidade, cujo diagnóstico depende de um exame barato colhido no momento certo, num paciente cuja apresentação é febre inespecífica — a combinação exata que produz diagnóstico tardio. O que separa o caso reconhecido do caso perdido não é o tomógrafo: é alguém perguntar se aquela válvula é doente e mandar colher hemocultura antes de prescrever.
Por que acontece o que acontece
O endotélio íntegro é relativamente resistente à infecção, mas lesão valvar prévia não é uma condição obrigatória. Em muitos casos, fluxo turbulento sobre valva doente ou contato com material protético favorece lesão endocárdica, exposição de componentes subendoteliais e depósito de plaquetas e fibrina. Essa superfície facilita a adesão de microrganismos durante bacteremia. Agentes virulentos, especialmente Staphylococcus aureus, também podem infectar valvas previamente normais; ausência de sopro antigo ou de cardiopatia conhecida não exclui a doença.
O agregado de plaquetas e fibrina oferece uma superfície de adesão, mas bacteremia e predisposição não produzem endocardite inevitavelmente. O risco depende do microrganismo, da intensidade e persistência da bacteremia, do hospedeiro e da presença de próteses ou dispositivos. Essa combinação explica por que uma história de risco aumenta a suspeita sem funcionar como requisito diagnóstico e por que uma bacteremia por S. aureus exige atenção mesmo sem valvopatia conhecida.
A origem da bacteremia explica os agentes, e os agentes explicam a velocidade do quadro. Os estreptococos do grupo viridans habitam a boca e a faringe, chegam ao sangue por doença periodontal e por trauma da gengiva, e são pouco virulentos: produzem a doença arrastada, de semanas a meses, com febre baixa, emagrecimento e mal-estar — o quadro do paciente do leito 6. O Staphylococcus aureus vem da pele, do cateter, da punção venosa não estéril, e é o oposto: progride entre uma e seis semanas, é capaz de infectar valva previamente normal, e destrói tecido, produzindo abscesso perivalvar e êmbolo séptico. Quando alguém diz que endocardite tem duas caras, aguda e subaguda, está descrevendo a virulência do agente, não duas doenças.
A vegetação, uma vez infectada, é um santuário farmacológico. Dentro dela as bactérias alcançam densidades altíssimas e entram em fase estacionária, com metabolismo lento; a malha de fibrina impede a chegada de neutrófilos; e a penetração do antimicrobiano depende de difusão passiva, sem vasos. Três consequências práticas saem daí, e são a razão de o tratamento ser como é. Primeira: o antibiótico precisa ser bactericida, porque não há fagócito para terminar o serviço. Segunda: precisa ser endovenoso e em dose alta, para manter concentração acima do necessário o tempo todo. Terceira: precisa durar semanas, não dias — o que explica por que um paciente que se sente bem no décimo dia continua internado até a sexta semana.
A mesma vegetação explica os três desfechos que matam. Ela pode se desprender: fragmentos embolizam e produzem infarto, abscesso ou aneurisma infeccioso onde param. As embolias para o sistema nervoso central ocorrem em 20% a 40% dos pacientes, e quando a vegetação é de câmaras direitas, o destino é o pulmão — daí a tosse com escarro sanguinolento e a dor pleurítica de quem usa droga injetável. Ela pode destruir: perfurar um folheto, romper uma corda tendínea, gerar regurgitação aguda numa câmara que não teve tempo de se adaptar, e produzir edema pulmonar em horas. E pode escavar para fora do anel valvar, formando abscesso perivalvar — que é a razão de um bloqueio atrioventricular novo no eletrocardiograma de um paciente com endocardite ser um achado cirúrgico, e não uma arritmia para observar.
Há ainda uma via imunológica, e ela é a que produz os sinais que os livros antigos celebram. A bacteremia persistente mantém a produção contínua de anticorpos e a formação de imunocomplexos, que se depositam em glomérulo, em pele e em sinóvia. Daí a glomerulonefrite com hematúria e proteinúria, os nódulos de Osler — nodulações dolorosas nas polpas digitais — e o fator reumatoide positivo. Já as lesões de Janeway, máculas hemorrágicas indolores em palmas e plantas, e as manchas de Roth, hemorragias retinianas de centro pálido, são embólicas. A distinção importa menos pela prova do que pelo raciocínio: os dois mecanismos coexistem porque a bacteremia é contínua, e é a continuidade dela que faz da hemocultura o exame que decide.
Na endocardite, a infecção endovascular pode manter bacteremia contínua; não é necessário esperar um pico de febre para colher hemoculturas. O uso prévio de antibiótico reduz o rendimento microbiológico, mas não torna toda coleta negativa nem é a única causa de endocardite com culturas negativas. Por isso, obtenha os conjuntos de culturas prontamente antes do antimicrobiano quando possível, sem atrasar tratamento de um paciente instável, e investigue outras explicações se as culturas permanecerem negativas.
Por fim, o mecanismo explica por que a profilaxia antibiótica mudou tanto. Se a bacteremia é o segundo evento necessário, faz sentido bloqueá-la antes de um procedimento que sabidamente a provoca. Só que a mesma diretriz brasileira de valvopatias que mantém a profilaxia registra as medidas de bacteremia do dia a dia: escovar os dentes produz bacteremia em até 50% das vezes, usar fio dental em 20% a 68%, e a própria mastigação em 7% a 51%. Calculado ao longo de um ano, o total de bacteremia cotidiana é cerca de seis vezes maior que o de uma extração dentária isolada. Quer dizer: a dose única antes do dentista cobre uma fração pequena da exposição real, e a boca saudável cobre o resto do ano. É essa aritmética, e não uma mudança de opinião, que reorganizou a prevenção.
Como se apresenta de verdade
Não existe apresentação típica de endocardite; existe uma síndrome febril que se arrasta e um punhado de contextos em que ela precisa ser lembrada. A revisão brasileira do Instituto do Coração diz isso de forma direta: nem sempre a síndrome clássica de febre, anemia, sopro cardíaco e fenômenos embólicos está presente ou é reconhecida. Reconhecer, aqui, é reconhecer a versão incompleta.
As seis seções abaixo percorrem as formas que exigem decisões diferentes. Vale um aviso antes de começar: em cinco delas o achado que fecha a suspeita não está no exame físico nem no exame de imagem — está na pergunta sobre a válvula, sobre a prótese, sobre o cateter e sobre a agulha.
A forma subaguda: três semanas de febre e um sopro antigo
É a apresentação do paciente do leito 6 e a mais perdida de todas, porque cada sintoma isolado é banal. Febre, quase sempre baixa e vespertina, presente em mais de 80% dos casos. Sudorese noturna. Emagrecimento sem causa. Cansaço desproporcional. Anorexia. Dor articular difusa. Nada disso leva alguém ao pronto-socorro com pressa, e é exatamente por isso que o intervalo entre o início e o diagnóstico se mede em semanas.
O agente típico é o estreptococo do grupo viridans, que vem da boca e é pouco virulento, e o hospedeiro típico é alguém com doença valvar prévia. A revisão brasileira registra que, nessas infecções, a febre é menos intensa do que na doença estafilocócica e vem acompanhada de sintomas inespecíficos — calafrio, fadiga, anorexia, perda de peso —, e que o retardo do diagnóstico é comum justamente por isso.
O sopro é a segunda manifestação mais frequente, e é onde a armadilha mora. Ele pode ser antigo, da valvopatia que predispôs à doença, e nesse caso a expressão sopro já conhecido no prontuário funciona como um selo que dispensa a ausculta seguinte. Pode também ser novo, ou ter mudado de intensidade porque um folheto foi destruído ou uma corda tendínea se rompeu. A única maneira de saber é auscultar de novo, com o paciente sentado e depois deitado, e comparar com o que está escrito. Em paciente febril há mais de duas semanas, ausculta cardíaca não é rotina de exame: é o exame.
A esplenomegalia acompanha as formas de evolução mais lenta e é resultado da estimulação prolongada do sistema reticuloendotelial por bactérias e imunocomplexos. A revisão brasileira observa que a frequência dela caiu nas últimas décadas com o diagnóstico mais precoce e o uso amplo de antibióticos — o que é uma boa notícia sobre a doença e uma má notícia sobre o exame físico, porque significa que a ausência dela não vale nada.
Um dado laboratorial banal fecha o padrão: anemia é frequente nas endocardites de evolução prolongada, com leucograma pouco alterado, e as provas de atividade inflamatória estão quase invariavelmente elevadas. O paciente com três semanas de febre, anemia normocítica nova, velocidade de hemossedimentação alta e leucócitos normais não tem um exame inespecífico; tem o retrato laboratorial da forma subaguda.
A forma aguda: o Staphylococcus aureus e a valva que era normal
Aqui o relógio é outro. A infecção estafilocócica progride entre uma e seis semanas, com febre alta, prostração e aparência de doente, e tem maior chance de septicemia, de destruição da anatomia valvar, de abscesso perivalvar e de embolia séptica. Diferentemente do estreptococo, o Staphylococcus aureus é capaz de infectar valva previamente normal — o que significa que a ausência de doença valvar conhecida não exclui a hipótese neste subgrupo.
Há um atalho diagnóstico que todo interno deveria saber, e ele é operacional. Bacteremia por Staphylococcus aureus é, ela própria, motivo para procurar endocardite. A revisão brasileira reúne estudos de necrópsia que encontraram de 18% a 55% de endocardite por esse agente sem suspeita clínica, e uma série em que 23% de 69 pacientes com bacteremia estafilocócica tinham endocardite ao ecocardiograma transesofágico. Quando a hemocultura de um paciente qualquer da enfermaria cresce Staphylococcus aureus, a pergunta seguinte não é qual o foco; é também onde está o coração nessa história.
Como o exame transesofágico não está disponível para todos os casos na maioria dos serviços brasileiros, a mesma revisão define quem deve ser priorizado para ele diante de bacteremia estafilocócica: portador de prótese valvar; bacteremia persistente por mais de quatro dias ou febre persistente por mais de 72 horas apesar de antibiótico adequado; bacteremia de fonte desconhecida; e infecção adquirida na comunidade. Essa lista de quatro itens é a régua prática de encaminhamento, e cabe num bolso.
A forma aguda também é a que mais frequentemente já chega com complicação estabelecida. Insuficiência cardíaca por regurgitação aguda, êmbolo cerebral, abscesso esplênico ou dor lombar de espondilodiscite podem ser a queixa de entrada, com a febre em segundo plano. O paciente que chega em choque com foco cutâneo, cateter ou uso de droga injetável e tem um sopro novo não está no capítulo de sepse por um foco qualquer: está aqui.
Os achados periféricos: raros hoje, e ainda assim procurados
Precisa ser dito com honestidade: os sinais que dão nome a esta doença nos livros são infrequentes na prática atual, e nenhum deles é patognomônico — a própria revisão brasileira registra que não há qualquer manifestação clínica exclusiva da endocardite. Procurá-los não é decoreba de prova; é o que resta de exame físico com rendimento diagnóstico numa doença cujo achado principal é um som no precórdio.
São quatro grupos, e vale saber o mecanismo de cada um porque ele diz onde olhar. Hemorragias lineares no leito ungueal e petéquias, estas mais vistas em conjuntiva, palato, mucosa oral e extremidades, são microembólicas ou vasculíticas. As lesões de Janeway são máculas hemorrágicas ou eritematosas, indolores, em palmas e plantas, e são embólicas. Os nódulos de Osler são nodulações subcutâneas eritematosas e dolorosas nas polpas digitais e na porção proximal dos dedos, e a patogênese está mais ligada a depósito de imunocomplexos do que a êmbolo. As manchas de Roth são hemorragias retinianas de formato oval com centro pálido, vistas à fundoscopia.

A rotina que faz esses achados aparecerem é curta e cabe na visita. Descubra as mãos inteiras e olhe unha por unha e as polpas digitais, apertando-as — o nódulo de Osler dói, e a dor é o que o diferencia da lesão de Janeway. Vire as mãos e olhe as palmas; peça para tirar a meia e olhe as plantas. Olhe a conjuntiva puxando a pálpebra inferior e peça para o paciente abrir a boca com uma lanterna, procurando petéquia em palato. Palpe o baço. E peça a fundoscopia quando a suspeita estiver de pé.
Um achado a mais, que não é periférico e vale por todos: microhematúria e proteinúria no sedimento urinário, de glomerulonefrite imunomediada ou de embolia renal. É um exame de dois reais que, num febril sem foco com sopro, funciona como critério menor e como aviso de que o rim já entrou na história.
Quando a doença se apresenta pela complicação
Uma parcela dos pacientes não chega com febre como queixa principal. Chega com o que a vegetação fez em outro lugar, e a febre é descoberta na triagem. Reconhecer esse padrão é o que evita internar um paciente no serviço errado.
O sistema nervoso central é o destino mais temido, com embolia em 20% a 40% dos casos. As formas anatômicas incluem infarto cerebral, aneurisma infeccioso, abscesso, hemorragia intraparenquimatosa ou subaracnóidea e meningite. Um déficit focal agudo, uma crise convulsiva, uma ataxia ou uma confusão mental num paciente com febre e sopro não são um acidente vascular isolado: são a apresentação de uma endocardite até que alguém prove o contrário — e o manejo agudo do déficit focal em si é do capítulo de doença cerebrovascular.
O baço e o rim vêm em seguida. Embolia esplênica causa dor no quadrante superior esquerdo ou dor torácica pleurítica e pode formar abscesso, que perpetua a febre mesmo com antibiótico correto. Dor lombar ou em flanco sugere infarto renal, às vezes com hematúria. A revisão brasileira faz uma ressalva que muda conduta: a causa mais comum de insuficiência renal nesses pacientes não é o êmbolo, e sim a instabilidade hemodinâmica ou a toxicidade do próprio tratamento, sobretudo pelo aminoglicosídeo.
Quando a valva acometida é a tricúspide ou a pulmonar, o destino do êmbolo é o pulmão, e o quadro é de tosse com escarro sanguinolento, dispneia e dor torácica pleurítica, com alterações na radiografia de tórax em mais da metade dos casos. Nesses pacientes o sopro pode simplesmente não ser detectado à admissão, e o fenômeno embólico é o que leva ao diagnóstico. Uma radiografia com múltiplos infiltrados nodulares periféricos, alguns escavados, em jovem febril, tem nome antes de ter laudo.
Duas complicações cardíacas mudam o destino do paciente no mesmo dia e serão retomadas no bloco de conduta. A insuficiência cardíaca por regurgitação aguda é a principal indicação de cirurgia e pode instalar-se em horas, com edema pulmonar num coração que não teve tempo de dilatar. E o bloqueio atrioventricular novo ao eletrocardiograma indica extensão da infecção para o tecido de condução, isto é, abscesso perivalvar — motivo para transesofágico imediato, não para observação.
Os hospedeiros que enganam: prótese, dispositivo, diálise e idoso
No portador de prótese valvar, a primeira pergunta é quando ela foi implantada, porque o tempo separa duas doenças diferentes. A revisão brasileira adota a designação de endocardite precoce até o décimo segundo mês de pós-operatório, período em que predominam bactérias hospitalares — Staphylococcus aureus e estafilococos coagulase-negativos —, e depois disso o perfil se aproxima ao da valva nativa, com estreptococos do grupo viridans de origem oral. O risco é maior nos três primeiros meses, mantém-se elevado até o sexto e cai gradualmente depois do primeiro ano.
O portador de marca-passo ou de cardiodesfibrilador tem uma doença com nome e classificação próprios. A diretriz brasileira de dispositivos separa infecção restrita à bolsa do gerador, que responde por cerca de 60% dos casos, de infecção de bolsa com acometimento intravascular, cerca de 20%, e de acometimento exclusivamente intravascular, os outros 20% — este último por contaminação hematogênica a partir de foco distante. A consequência prática é dura: febre em portador de dispositivo, sem bolsa alterada, ainda pode ser endocardite de cabo-eletrodo, e o diagnóstico exige transesofágico.
O paciente em hemodiálise é o mais silencioso dos quatro. Além do risco muito aumentado, a febre — que é o sinal cardinal — aparece em apenas 45% a 70% deles. A revisão brasileira lista, no lugar da febre, os gatilhos de suspeita nessa população: bacteremia por agente típico como estafilococo ou enterococo; hipotensão durante a sessão de diálise, sobretudo em quem era hipertenso; recidiva de bacteremia depois de tratamento adequado; e episódio novo de insuficiência cardíaca. Qualquer um desses quatro, num paciente com cateter de longa permanência, obriga a procurar vegetação.
No idoso vale a mesma calibração de qualquer infecção grave: a resposta febril é atenuada e a apresentação costuma ser comportamental, com queda funcional, recusa alimentar e confusão nova. Some-se a isso que a valvopatia degenerativa, sobretudo a estenose aórtica calcificada, é hoje um fator predisponente frequente nessa faixa etária, e que o Streptococcus gallolyticus, antigo Streptococcus bovis, causa bacteremia e endocardite principalmente acima dos 60 anos.
Esse último agente traz uma obrigação que se esquece e que custa caro. A associação entre bacteremia ou endocardite por Streptococcus gallolyticus e doença do cólon — pólipo, adenoma, câncer — é descrita em 18% a 62% dos casos, e o tumor pode estar silencioso no momento do diagnóstico da infecção. Achar esse agente na hemocultura obriga a investigar o cólon, com colonoscopia, mesmo que o paciente não tenha nenhuma queixa digestiva.
Quem usa droga injetável: a endocardite direita
É a apresentação que mais se afasta do modelo clássico, e a que mais depende de uma pergunta que ninguém faz com naturalidade. A infecção nasce de injeção intravenosa não estéril, com a própria pele do paciente como fonte, o que explica o Staphylococcus aureus como agente em 60% a 70% dos casos, seguido de estreptococos e enterococos. Pseudomonas aeruginosa, fungos e infecções polimicrobianas também ocorrem, com evolução mais grave.
A vegetação fica na valva tricúspide em 46% a 78% dos casos, e a consequência clínica é que o paciente não tem sopro audível, não tem congestão sistêmica no começo e não tem nenhum dos sinais periféricos, porque os êmbolos vão para o pulmão e não para a circulação sistêmica. O quadro que chega ao pronto-socorro é febre alta com queixa respiratória: tosse, dor pleurítica, às vezes hemoptise. É comum ser tratado como pneumonia — e, num sentido radiológico, não está errado; está incompleto.
Duas informações mudam a leitura do prognóstico e valem ser ditas ao paciente e à equipe. A endocardite de câmaras direitas tem mortalidade menor do que a de valva mitral ou aórtica, o que dá margem para tratar clinicamente com mais frequência. E entre pessoas vivendo com o vírus da imunodeficiência humana, o uso de droga injetável é a principal condição predisponente para endocardite — o que quer dizer que a sorologia entra na investigação por indicação própria, não por preconceito.
A pergunta que abre tudo isso é a mesma que o capítulo de febre sem foco no adulto ensina a fazer na triagem, sobre uso de droga injetável. A diferença de escopo é esta: lá, a resposta positiva acrescenta endocardite, abscesso e infecção de partes moles a uma lista. Aqui, ela define a valva, o agente, o órgão-alvo do êmbolo e o exame de imagem que se pede primeiro.
Como fechar o diagnóstico
Este é o bloco que decide o capítulo, e ele tem uma peculiaridade: aqui o exame mais importante custa quase nada e é o mais fácil de estragar. A revisão brasileira do Instituto do Coração resume o diagnóstico em dois pilares — hemocultura e ecocardiograma —, com os demais métodos entrando como auxiliares. A ordem entre os dois pilares não é indiferente: a hemocultura vem primeiro, porque é a única que o antibiótico apaga.
As seis seções abaixo seguem a ordem em que as decisões se tomam à beira do leito: colher, olhar o coração, classificar, completar o retrato, resolver o caso sem crescimento bacteriano e, por fim, saber o que existe no serviço em que você trabalha.
Passo 1 — A hemocultura: três pares, punções diferentes, antes do antibiótico
A hemocultura é o principal exame para o diagnóstico etiológico da endocardite, e a técnica de coleta muda o resultado mais do que qualquer outra variável. A revisão brasileira estabelece o desenho: colher três pares de hemocultura, cada par com um frasco de meio aeróbio e um de anaeróbio, por punções venosas periféricas independentes, com higienização da pele com antisséptico, e preferencialmente antes da introdução de antibióticos.
Vale separar as três exigências, porque cada uma responde a um problema diferente. As punções independentes existem para distinguir patógeno de contaminante de pele: um estafilococo coagulase-negativo que cresce em um frasco de uma punção é quase sempre contaminação; o mesmo agente crescendo em três punções separadas é o agente da doença — e a diferença entre uma coisa e outra são seis semanas de vancomicina. O par aeróbio mais anaeróbio existe porque agentes de crescimento exigente não crescem no meio errado. E o número três, em vez dos dois pares que se colhem na sepse, existe porque na endocardite a bacteremia é contínua e sustenta a positividade das três, ao mesmo tempo em que a distinção de contaminante fica mais confiável quanto mais punções houver.
Três detalhes operacionais decidem o rendimento e quase nunca são conferidos. O primeiro é o volume de sangue por frasco: é o fator isolado que mais aumenta a sensibilidade, vem impresso no rótulo do frasco que o seu laboratório utiliza, e quase sempre se enche menos do que o pedido, por receio de anemizar o paciente. O segundo é o sítio: não se colhe hemocultura por aspiração de cateter, pelo risco de contaminação da amostra — e o cateter, quando ele próprio é o suspeito, tem coleta pareada com regra específica, descrita no capítulo sobre febre em quem já está internado. O terceiro é o intervalo: o momento ideal entre as coletas não é precisamente definido, e a orientação brasileira sugere pelo menos 30 a 60 minutos entre elas, com a ressalva explícita de que esse intervalo pode ser reduzido nos casos agudos e graves, pela urgência de iniciar o antibiótico.
É aqui que este capítulo se separa do capítulo de febre sem foco no adulto, e a diferença precisa ficar clara. Lá, a regra é colher e não atrasar a primeira dose: no paciente com disfunção orgânica, o antibiótico não espera. Essa regra continua valendo, e vale também aqui — endocardite com sepse ou com embolia não espera nada. O que muda é o outro extremo do espectro, que é o mais comum na endocardite: o paciente subagudo, estável, febril há semanas, sem disfunção orgânica. Nele, a revisão brasileira autoriza explicitamente aguardar os primeiros dias de incubação das hemoculturas antes de começar o tratamento — e, se permanecerem negativas, colher novas amostras e só então iniciar esquema empírico. Ali, esperar é conduta, não omissão.
A razão dessa exceção é aritmética, não filosófica. Uma dose de antibiótico dada antes da coleta pode custar o agente, e sem agente o tratamento vira empírico por quatro a seis semanas, com espectro maior, mais toxicidade e nenhuma possibilidade de ajuste. O paciente que espera doze horas com febre baixa e pressão normal não perde nada; o paciente cuja hemocultura foi colhida depois da ceftriaxona perde a chance de ter um tratamento dirigido pelos dois meses seguintes. Colher antes é o gesto mais barato e mais irreversível deste capítulo.
Duas informações de laboratório fecham o passo. Cinco a sete dias de incubação nos sistemas automatizados costumam bastar para isolar a maioria dos agentes envolvidos, inclusive o grupo HACEK, de crescimento lento — não é preciso pedir incubação prolongada de rotina, mas é preciso avisar o laboratório de que a suspeita é endocardite. E não há diferença de sensibilidade entre sangue arterial e venoso, o que dispensa a punção arterial que ainda se pede em alguns serviços.
Passo 2 — O ecocardiograma: transtorácico primeiro, transesofágico quando
O ecocardiograma responde a perguntas que a hemocultura não responde: existe vegetação, qual o tamanho dela, há abscesso, há deiscência de prótese, há regurgitação nova, e como está a função ventricular. Ele também é o exame que estratifica risco embólico e acompanha a resposta ao tratamento. O que ele não faz é excluir a doença.
A sequência habitual começa pelo transtorácico, que é rápido, não invasivo e tem boa sensibilidade para vegetação, especialmente nas valvas do lado direito do coração. Obesidade, doença pulmonar obstrutiva crônica e deformidade de parede torácica pioram a janela. O transesofágico entra quando a imagem transtorácica é tecnicamente inadequada ou quando a suspeita persiste apesar de um transtorácico negativo.
Há duas situações em que a ordem se inverte e o transesofágico é o primeiro exame: suspeita de endocardite em prótese valvar e suspeita de complicação cardíaca, como abscesso perivalvar. Na prótese, a revisão brasileira é enfática — o diagnóstico ecocardiográfico é mais difícil, a sensibilidade e a especificidade de ambos os métodos são menores que na valva nativa, e a realização do transesofágico é mandatória segundo a recomendação europeia. É também o exame de escolha quando o suspeito é o cabo-eletrodo de um marca-passo, porque a vegetação aderida ao cabo não se vê pela janela transtorácica.
A regra que mais se esquece é a da repetição. Se o transesofágico for negativo e a suspeita clínica persistir, ele deve ser repetido dentro de sete dias — a vegetação pode simplesmente ainda não ter tamanho detectável na primeira semana. E dois eventos durante o tratamento obrigam a repetir o exame mesmo que o primeiro tenha sido conclusivo: persistência de febre e bloqueio atrioventricular novo ao eletrocardiograma, os dois sugestivos de abscesso.
Nenhum exame normal fecha a porta, e o número que traduz isso precisa estar na cabeça de quem pede: o ecocardiograma pode ser falso-negativo em cerca de 15% dos casos de endocardite, particularmente naqueles com lesão valvar grave preexistente, como prolapso de valva mitral, lesões degenerativas e próteses. Ou seja, o falso-negativo é mais provável exatamente em quem tem mais risco da doença. Há ainda a dificuldade inversa, de diferenciar vegetação de trombo, de prolapso de cúspide com corda rota, de tumor cardíaco, de alteração mixomatosa e de vegetação não infecciosa. O laudo do ecocardiograma responde a uma pergunta; ele não substitui a pergunta.
Uma frase precisa ser escrita porque separa dois exames que têm o mesmo nome e propósitos opostos. O transesofágico que este capítulo pede procura vegetação, abscesso e deiscência de prótese num paciente febril. O transesofágico do capítulo de fibrilação atrial procura trombo no apêndice atrial esquerdo para autorizar uma cardioversão. Mesmo aparelho, mesma sonda, perguntas diferentes — e o pedido precisa dizer qual é a sua, porque o ecocardiografista faz o exame que está escrito.
Passo 3 — Os critérios de Duke: o que fazem, o que não fazem e qual versão está na sua mão
Os critérios existem para organizar achados heterogêneos numa classificação reprodutível. A história é curta e vale saber: em 1981, von Reyn e colaboradores propuseram uma classificação em endocardite provável, possível e rejeitada; em 1994, Durack e colaboradores, da Universidade Duke, redefiniram os critérios agregando o ecocardiograma aos dados clínicos e laboratoriais; em 2000, Li e colaboradores propuseram as modificações que produziram a versão hoje chamada de Duke modificado. O desenho é sempre o mesmo: critérios maiores, que são microbiológicos e de envolvimento endocárdico, e critérios menores, que são clínicos, vasculares, imunológicos e microbiológicos de segunda linha. As combinações que definem endocardite definida, possível e rejeitada estão no bloco de fluxos e tabelas.
O que eles fazem é dar nome ao caso e permitir comparar séries. O que eles não fazem está escrito com todas as letras na revisão brasileira, e é a frase mais importante desta seção: os critérios foram originalmente criados para uniformizar o diagnóstico entre estudos epidemiológicos e ensaios clínicos, e por isso decisões à beira do leito, como o início da terapia antibiótica, não devem ficar restritas a esse modelo. A justificativa é numérica: a sensibilidade dos critérios na prática clínica é de cerca de 40%, sobretudo na admissão do paciente.
Quarenta por cento é um número que precisa ser digerido devagar. Ele quer dizer que, no dia em que o paciente entra — que é o dia em que a hemocultura ainda não voltou, o ecocardiograma ainda não foi feito e nenhum fenômeno vascular apareceu —, mais da metade dos pacientes que realmente têm endocardite não preenche critério de doença definida. Concluir dali que o paciente não tem a doença é usar um instrumento de pesquisa para tomar uma decisão que ele não foi feito para tomar. A classificação amadurece com o tempo: um caso possível na admissão vira definido no terceiro dia, quando as três hemoculturas crescem o mesmo estreptococo.
Existe hoje mais de uma versão em circulação, e é preciso saber qual está na sua mão. Em 2023 foi publicada uma atualização estrutural, os critérios Duke-ISCVID, que ampliou os maiores e os menores: incorporou diagnóstico molecular e sorológico para agentes exigentes, admitiu tomografia cardíaca e tomografia por emissão de pósitrons com fluordesoxiglicose como critério maior de imagem, criou um critério maior cirúrgico baseado na inspeção intraoperatória, acrescentou dispositivo cardíaco implantável e prótese transcateter à lista de predisposições e — o ponto que mais muda o cotidiano — retirou as exigências formais de intervalo entre coletas e de punções venosas separadas para o critério microbiológico. No mesmo ano, a diretriz europeia de endocardite publicou critérios próprios, que ela chama de critérios diagnósticos modificados de 2023, em vez de adotar a atualização americana publicada meses antes.
Os documentos brasileiros ainda usam a versão de 2000, e isso não é um descuido a esconder do aluno: é um fato datado que muda o que você lê. A revisão brasileira do Instituto do Coração reproduz os critérios de Duke modificados por Li e colaboradores, com as modificações assinaladas. A diretriz brasileira de dispositivos cardíacos eletrônicos implantáveis, de 2023, aplica os critérios modificados da Universidade Duke adaptados ao portador de dispositivo. E as duas diretrizes brasileiras que tratam de profilaxia — a de valvopatias, de 2020, e a perioperatória, de 2024 — não trazem critérios diagnósticos: a palavra Duke não aparece em nenhuma das duas.
A regra prática é a mesma de outros termos que envelheceram no vocabulário — quem aprendeu úlcera por pressão e hoje escreve lesão por pressão já passou por isso. Use a versão atual para raciocinar, saiba a antiga para ler o prontuário e o documento nacional, e nomeie a versão quando escrever. Na prática do internato, a diferença que mais aparece é uma só: pela régua de 2000, a hemocultura persistentemente positiva exigia intervalo maior que 12 horas entre as amostras ou uma maioria de quatro ou mais coletas com pelo menos uma hora entre a primeira e a última; pela régua de 2023, essa exigência formal caiu. Isso não é licença para colher tudo na mesma punção — as punções independentes continuam sendo o que separa agente de contaminante, e é por isso que a orientação brasileira de três pares por punções distintas segue de pé.
Passo 4 — O que mais pedir, e o que não pedir
O painel que acompanha a suspeita é curto e cada item responde a uma pergunta. Hemograma, procurando a anemia da doença arrastada e a leucocitose com desvio da forma aguda. Velocidade de hemossedimentação e proteína C reativa, que estão quase invariavelmente elevadas e servem de linha de base para o acompanhamento, não de porteiro diagnóstico. Ureia e creatinina, porque a função renal decide dose de aminoglicosídeo e de glicopeptídeo e é fator prognóstico pré-operatório. Sedimento urinário, procurando hematúria e proteinúria. E sorologia para o vírus da imunodeficiência humana, com consentimento, sobretudo em quem usa droga injetável.
O eletrocardiograma merece parágrafo próprio porque quase ninguém o pede com a pergunta certa. Ele não faz diagnóstico de endocardite; ele procura bloqueio atrioventricular novo, que sinaliza extensão perivalvar da infecção. Um eletrocardiograma na admissão serve de referência, e a repetição diária durante a internação é barata e muda conduta: o aparecimento de bloqueio é indicação de transesofágico imediato e de conversa com a cirurgia cardíaca no mesmo dia.
Imagem se pede com uma pergunta na mão. A radiografia de tórax cabe diante de queixa respiratória, e é obrigatória na suspeita de endocardite direita, procurando os infiltrados nodulares periféricos da embolia séptica. Tomografia de crânio ou de abdome quando há sintoma neurológico, cefaleia intensa ou focal, ou dor abdominal, para procurar infarto, abscesso e aneurisma infeccioso. Ressonância magnética, na endocardite, tem aplicação praticamente restrita às complicações neurológicas — e é ali que ela pesa, porque ajuda a decidir o momento da cirurgia em quem teve êmbolo cerebral.
A tomografia por emissão de pósitrons com fluordesoxiglicose tem um lugar preciso e um lugar onde não serve. Um estudo brasileiro de 2020, com 188 pacientes com endocardite de prótese e 115 com endocardite de valva nativa, encontrou sensibilidade de 93% e especificidade de 90% para o diagnóstico em prótese, com redefinição diagnóstica em 76% dos casos antes classificados como possíveis pelos critérios de Duke modificados. No mesmo estudo, a sensibilidade para infecção de valva nativa foi muito baixa, com melhor desempenho apenas na detecção de embolia séptica. Junte isso à baixa disponibilidade e ao custo no Brasil e a indicação fica estreita e clara: caso suspeito de endocardite de prótese em que a investigação ecocardiográfica foi negativa ou inconclusiva.
Do lado do que não pedir, quatro itens. Proteína C reativa como decisor de início ou suspensão de antibiótico: ela sobe em qualquer inflamação e, como número isolado, produz decisões erradas nos dois sentidos. Painel sorológico amplo pedido em bloco na admissão: sorologia se pede com hipótese, e a de agentes intracelulares tem indicação própria, descrita no passo seguinte. Cultura de ponta de cateter como substituto de hemocultura: ela informa sobre o cateter, não sobre o endocárdio. E repetição de tomografia sem pergunta nova — a varredura seriada de um paciente que continua febril não acha vegetação; ela só adia a decisão de fazer o transesofágico.
Há ainda um exame que não se pede, mas que se aproveita quando existe: a cultura da vegetação retirada na cirurgia. Ela tem sensibilidade baixa, abaixo de 30%, e menor ainda quando as hemoculturas foram negativas. Sua utilidade é outra — mostrar se o microrganismo continuava viável no momento da operação, o que interfere no tempo de antibiótico do pós-operatório. A revisão brasileira faz uma ressalva importante para não se errar por excesso: a simples detecção de cocos ao exame histológico do tecido valvar não basta para prolongar o tratamento, porque bactérias mortas persistem por longos períodos numa vegetação já estéril.
Passo 5 — Quando a hemocultura não cresce
Endocardite com hemocultura negativa ocorre em 2,5% a 30% dos casos, e o intervalo é largo porque depende de quantos pacientes chegaram àquele serviço já tratados. Não é uma variante benigna: segundo alguns autores, esses casos associam-se a maior risco de destruição valvar, de embolização séptica e de mortalidade, comparados aos de agente conhecido.
As causas se dividem em duas, e a divisão organiza a conduta. A primeira, e de longe a mais comum no Brasil, é antibiótico administrado antes da coleta. A segunda são agentes que não crescem nos meios habituais ou não são identificados pelas técnicas de rotina. Diante de um caso negativo, a primeira pergunta é sempre a primeira causa: houve dose antes? Quantos dias? Se sim, a conduta razoável, no paciente estável, é suspender e recolher — decisão que precisa ser tomada em conjunto com quem assiste, e não sozinho pelo interno.
Do segundo grupo, três nomes importam. O grupo HACEK, que reúne bactérias gram-negativas de crescimento lento que colonizam a orofaringe, responde por no máximo 5% das endocardites e costuma ser identificado até o quinto dia nos sistemas automatizados, com prognóstico relativamente favorável e letalidade em torno de 15% — quer dizer que, na prática, ele deixou de ser causa frequente de cultura negativa. Coxiella burnetii e Bartonella são intracelulares e não crescem nos métodos de rotina, e é para elas que a sorologia por imunofluorescência indireta serve: títulos de anticorpo da classe IgG anti-fase I acima de 1:800 têm valor preditivo positivo de 98% na infecção por Coxiella burnetii.
Que isso não é assunto de país estrangeiro, um dado brasileiro resolve: num estudo prospectivo de 51 casos consecutivos de endocardite com hemocultura negativa no Instituto do Coração, 20% tinham infecção por Bartonella e 8% por Coxiella burnetii. Somados, mais de um quarto dos casos sem crescimento tinham agente identificável por sorologia. Pedir essas duas sorologias diante de hemocultura negativa não é sofisticação: é o que fecha um quarto dos casos.
A endocardite por Coxiella burnetii tem uma cara própria que vale reconhecer, porque ela quase nunca é lembrada. É de curso crônico, em geral com mais de doze meses até o diagnóstico, em paciente com valvopatia prévia em 90% dos casos, com insuficiência cardíaca progressiva ou sintomas inespecíficos — fadiga, perda de peso, sudorese noturna, febre baixa. Ao exame, esplenomegalia; no laboratório, anemia, plaquetopenia, elevação discreta de transaminases e hipergamaglobulinemia. E o dado epidemiológico que fecha: contato com animais de fazenda e vida em ambiente rural. Só 20% a 30% desses pacientes têm vegetação ao ecocardiograma, o que explica por que o diagnóstico demora.
Passo 6 — O que existe no serviço público, e o que isso muda
A separação mais útil para quem trabalha na rede é esta: a prevenção está na farmácia do município, e o tratamento não está na lista nacional. Pela Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024, os antibióticos da profilaxia constam do Componente Básico, que é o de responsabilidade municipal — amoxicilina em cápsula e comprimido de 500 mg e em suspensão oral de 50 mg/mL, ceftriaxona em pó para solução injetável de 250 mg, 500 mg e 1 g, cloridrato de clindamicina em cápsulas de 150 mg e 300 mg, azitromicina em comprimido de 500 mg e claritromicina em comprimido e cápsula de 500 mg.
Já os antimicrobianos que tratam a doença não figuram na relação nacional: oxacilina, ampicilina, vancomicina, cefazolina, gentamicina injetável, daptomicina, cefepima e meropenem não constam de nenhum componente da Rename 2024 — a gentamicina aparece ali apenas em apresentação oftálmica. Isso não significa que faltem no hospital; significa que são compras da instituição, e não itens de uma lista nacional padronizada. A consequência prática para o interno é direta: a padronização que vale para o seu tratamento é a da comissão de controle de infecção do seu hospital, e é o protocolo institucional que diz qual glicopeptídeo, qual carbapenêmico e em que apresentação existem naquele carrinho.
Há um detalhe da profilaxia que essa mesma leitura revela e que os esquemas nacionais não mencionam. A clindamicina em apresentação injetável não consta da relação de 2024 — o que existe ali são as cápsulas orais e a apresentação tópica dermatológica. As diretrizes brasileiras oferecem clindamicina parenteral 600 mg como alternativa para alérgicos à penicilina que não podem receber a dose por via oral; num serviço que se abastece apenas pela lista nacional, essa alternativa não está no armário, e o esquema que sobra é a cefazolina ou a ceftriaxona, com a ressalva de evitar cefalosporina em quem teve anafilaxia, angioedema ou urticária com penicilina.
Do lado dos exames, a leitura é semelhante e conhecida de quem faz plantão. Hemocultura existe em qualquer hospital com laboratório, e é o exame de melhor razão entre custo e decisão de todo o capítulo — o gargalo não é disponibilidade, é técnica de coleta. Ecocardiograma transtorácico é acessível na maioria dos serviços de médio porte. O transesofágico depende de ecocardiografista treinado, de sedação e de agenda, e em muitos hospitais é exame de dia útil, o que significa que a suspeita levantada na sexta à noite precisa de um pedido escrito e de um telefonema, não de uma anotação na evolução. A tomografia por emissão de pósitrons é pouco disponível e cara, e é justamente por isso que a indicação dela tem de ser estreita.
Uma última consequência organizacional, e ela é do interno. Endocardite é doença de várias especialidades ao mesmo tempo: clínica, infectologia, ecocardiografia e cirurgia cardíaca. Em hospital sem cirurgia cardíaca, a decisão que o interno precisa reconhecer não é qual técnica operatória usar — é que este paciente precisa ser transferido, e que a transferência demora. Levantar o telefone no dia em que aparece a primeira indicação cirúrgica, e não no dia em que ela se torna urgente, é uma decisão clínica, e está no bloco de conduta.
Da suspeita à decisão: o fluxo, os critérios, o frasco e a régua da profilaxia
Sustente a hipótese com contexto, microbiologia e imagem, acompanhando a possibilidade de complicação. Uma valva previamente normal não exclui endocardite; uma hemocultura ou um ecocardiograma negativos, isoladamente, também não. A ordem das medidas depende da estabilidade: colher culturas prontamente é valioso, mas não pode produzir atraso perigoso de antibiótico em choque. Quatro consultas de pé, na ordem em que se usam. O fluxo é a sequência da beira do leito. A primeira tabela diz o que conta como critério e o que a revisão de 2023 mudou. A segunda diz quantos critérios fecham cada categoria. A terceira converte a prescrição em número de frascos, que é o que a farmácia entende. A quarta separa quem ainda tem indicação de profilaxia de quem deixou de ter, e desde quando.
- 11. Diante de febre sem foco, pergunte pela válvula: valvopatia conhecida, febre reumática na infância, prótese, plástica valvar, endocardite prévia, cardiopatia congênita, marca-passo ou cardiodesfibrilador, cateter de longa permanência, hemodiálise, uso de droga injetável.
- 22. Ausculte o precórdio você mesmo, sentado e deitado, e compare com o que está escrito. Sopro descrito como já conhecido não dispensa a ausculta de hoje.
- 33. Antes de qualquer antibiótico, colha três pares de hemocultura, por três punções venosas periféricas independentes, com antissepsia e com o volume que o frasco pede. Não colha de cateter.
- 44. Decida o relógio. Com disfunção orgânica, embolia ou insuficiência cardíaca, o antibiótico entra na primeira hora e a cultura sai antes, se der. Sem disfunção, no subagudo estável, é legítimo aguardar os primeiros dias de incubação antes de tratar.
- 55. Peça eletrocardiograma na admissão e repita diariamente. Bloqueio atrioventricular novo é abscesso perivalvar até prova em contrário.
- 66. Peça ecocardiograma transtorácico. Vá direto ao transesofágico se houver prótese valvar, cabo de dispositivo, ou suspeita de abscesso.
- 77. Exame normal não encerra nada: se a suspeita persiste, repita o transesofágico em até sete dias.
- 88. Classifique pelos critérios e escreva a classificação na evolução, com a data. Caso possível na admissão é caso a reavaliar em 48 horas, não caso descartado.
- 99. Se as hemoculturas não crescerem, pergunte primeiro se houve antibiótico antes da coleta; depois peça sorologia para Coxiella burnetii e Bartonella.
- 1010. Procure ativamente as três complicações que mudam o destino: insuficiência cardíaca, embolia e abscesso perivalvar. Qualquer uma delas obriga a acionar cirurgia cardíaca no mesmo dia.
- 1111. Na alta, feche o ciclo que ninguém fecha: registre a condição valvar no sumário, oriente saúde bucal, e diga por escrito qual profilaxia esse paciente passa a ter, e antes de quais procedimentos.
O que conta como critério, e o que a revisão de 2023 mudou
| Grupo do achado | Como conta na versão de 2000, que os documentos brasileiros usam | O que a revisão de 2023 fez com ele |
|---|---|---|
| Hemocultura com agente típico | Critério maior: duas hemoculturas positivas para estreptococo do grupo viridans, Streptococcus gallolyticus, grupo HACEK, Staphylococcus aureus ou enterococo comunitário sem foco primário | Ampliou a lista de agentes típicos, incluindo Staphylococcus lugdunensis, Enterococcus faecalis e praticamente todos os estreptococos, e criou uma lista adicional dependente de material protético |
| Hemocultura persistentemente positiva | Critério maior: duas coletas com mais de 12 horas de intervalo, ou três de três, ou a maioria de quatro ou mais com pelo menos uma hora entre a primeira e a última | Retirou a exigência formal de intervalo entre coletas e de punções venosas separadas para preencher o critério |
| Agente que não cresce em meio comum | Critério maior: cultura positiva para Coxiella burnetii ou sorologia com título anti-fase I acima de 1:800 | Acrescentou detecção molecular no sangue para Coxiella burnetii, Bartonella e Tropheryma whipplei, e sorologia para Bartonella |
| Ecocardiograma | Critério maior: massa oscilante aderida a valva, a jato de regurgitação ou a material implantado; abscesso; deiscência nova de prótese | Manteve, e admitiu a tomografia cardíaca como método de imagem capaz de preencher o mesmo critério |
| Medicina nuclear | Não constava | Passou a ser critério maior: captação anormal de fluordesoxiglicose em valva nativa, prótese, cabo de dispositivo ou material protético |
| Achado da cirurgia | Só contava como critério anatomopatológico, com histologia ou demonstração direta do agente | Criou critério maior próprio para a inspeção intraoperatória compatível, mesmo sem confirmação por imagem ou por histologia |
| Regurgitação nova | Critério maior: nova regurgitação valvar, sendo explícito que mudança de sopro não basta | Manteve como maior quando documentada por imagem; sopro novo à ausculta, sem ecocardiograma disponível, passou a valer como critério menor |
| Predisposição (menor) | Uso de droga injetável ou cardiopatia predisponente, sem detalhamento | Detalhou: endocardite prévia, prótese, plástica valvar, cardiopatia congênita, regurgitação ou estenose mais que discreta, dispositivo cardíaco endovascular e cardiomiopatia hipertrófica obstrutiva |
| Febre (menor) | Temperatura acima de 38 graus | Mantida sem alteração |
| Fenômeno vascular (menor) | Embolia arterial, infarto pulmonar séptico, aneurisma infeccioso, hemorragia intracraniana, hemorragia conjuntival e lesão de Janeway | Acrescentou abscesso cerebral e esplênico e púrpura purulenta, e admitiu achados detectados apenas por imagem |
| Fenômeno imunológico (menor) | Glomerulonefrite, nódulo de Osler, mancha de Roth ou fator reumatoide positivo | Manteve, definindo a glomerulonefrite como mediada por imunocomplexo |
| Evidência microbiológica (menor) | Hemocultura positiva que não preenche critério maior, ou sorologia compatível com agente de endocardite | Acrescentou detecção molecular ou sequenciamento a partir de sítio estéril |
Quantos critérios fecham cada categoria, e o que cada categoria autoriza
| Categoria | O que fecha | O que ela autoriza, e o que não autoriza |
|---|---|---|
| Definida, por anatomia patológica | Vegetação, abscesso intracardíaco ou êmbolo com histologia de endocardite ativa, ou demonstração direta do agente no material | Encerra a discussão diagnóstica. Só existe depois de cirurgia ou autópsia, portanto nunca está disponível na admissão |
| Definida, por critérios clínicos | Dois critérios maiores; ou um maior e três menores; ou cinco menores | Autoriza o plano completo: esquema dirigido, duração de semanas, vigilância de complicação e discussão cirúrgica |
| Possível | Um critério maior e um menor; ou três menores | Não autoriza descartar. Obriga a reavaliar com novas culturas, com ecocardiograma transesofágico e com o tempo — a maioria dos casos verdadeiros entra por aqui |
| Rejeitada | Diagnóstico alternativo firme que explique o quadro; ou remissão completa com menos de quatro dias de antibiótico; ou ausência de evidência anatomopatológica em cirurgia ou autópsia com menos de quatro dias de tratamento; ou não preencher sequer os critérios de caso possível | Encerra a hipótese, desde que a razão esteja escrita. A quarta linha, sozinha e no primeiro dia, é a que mais engana |
Da prescrição ao frasco: o que sai da farmácia, para um adulto de 70 quilos
| O que está escrito na prescrição | Apresentação registrada no Brasil | Por dose | Por dia |
|---|---|---|---|
| Oxacilina 2 g por via endovenosa a cada 4 horas | Pó para solução injetável, frasco-ampola de 500 mg | 4 frascos | 24 frascos, seis doses, 12 g |
| Ampicilina 2 g por via endovenosa a cada 4 horas | Pó para solução injetável, frasco-ampola de 500 mg ou de 1 g | 2 frascos de 1 g, ou 4 de 500 mg | 12 frascos de 1 g, seis doses, 12 g |
| Vancomicina 15 mg/kg por via endovenosa a cada 12 horas | Pó para solução injetável, frasco-ampola de 500 mg | 1.050 mg, isto é, 2,1 frascos — na prática arredonda-se para 1 g, que são 2 frascos | 4 frascos, 2 g |
| Gentamicina 3 mg/kg por via endovenosa, dose única diária | Solução injetável de 40 mg/mL, ampola de 2 mL, contendo 80 mg | 210 mg, isto é, 5,25 mL, o equivalente a 2,6 ampolas | 3 ampolas abertas, com sobra descartada |
| Gentamicina 1,5 mg/kg em dose única de profilaxia | Solução injetável de 40 mg/mL, ampola de 2 mL | 105 mg, isto é, 2,6 mL, o equivalente a 1,3 ampola | Dose única |
| Ceftriaxona 1 g por via endovenosa | Pó para solução injetável de 250 mg, 500 mg ou 1 g | 1 frasco de 1 g, ou 2 de 500 mg | Conforme o esquema |
| Amoxicilina 2 g por via oral, dose única de profilaxia | Cápsula ou comprimido de 500 mg; a lista nacional não traz apresentação de 875 mg nem de 1 g | 4 cápsulas de uma vez | Dose única |
| Clindamicina 600 mg por via oral, dose única de profilaxia | Cápsula de 150 mg ou de 300 mg | 2 cápsulas de 300 mg | Dose única |
Profilaxia antes de procedimento: quem tem indicação, quem deixou de ter, e desde quando
| Condição do paciente | Régua brasileira em vigor | Régua internacional | O que mudou, e quando |
|---|---|---|---|
| Prótese valvar cirúrgica ou transcateter, ou valvopatia corrigida com material protético | Indicada | Indicada | Nunca saiu de nenhuma lista; é o núcleo duro do alto risco |
| Endocardite prévia | Indicada | Indicada | Nunca saiu de nenhuma lista |
| Cardiopatia congênita cianogênica não corrigida, corrigida com material protético nos primeiros seis meses, ou com lesão residual | Indicada | Indicada, com recortes distintos por sociedade | Mantida em todas as réguas desde 2007, com diferenças de detalhe entre elas |
| Valvopatia adquirida com estenose ou regurgitação, em valva nativa | Indicada | Não indicada | Retirada lá fora em 2007 pela sociedade americana e em 2009 pela europeia; a brasileira manteve, e diz por quê |
| Valvopatia em paciente transplantado cardíaco | Indicada | Não indicada pela sociedade europeia nem pela britânica | Diferença que persiste; é um dos poucos itens em que a lista brasileira e a americana coincidem contra as demais |
| Cardiomiopatia hipertrófica | Indicada | Não consta da lista de alto risco americana nem da europeia, que se limitam a prótese ou material protético, endocardite prévia e determinadas cardiopatias congênitas | A restrição ao alto risco é de 2007 na régua americana e de 2009 na europeia; a lista brasileira manteve o item |
| Prolapso de valva mitral sem regurgitação, sopro inocente, revascularização miocárdica prévia, stent coronariano | Não indicada | Não indicada | Saiu de todas as listas em 2007 |
| Marca-passo, cardiodesfibrilador, stent vascular, filtro de veia cava, derivação do sistema nervoso central, cateter venoso | Não indicada | Não indicada | Explicitamente fora da régua brasileira, apesar de dispositivo ser fator de risco reconhecido para a doença — profilaxia de procedimento não se confunde com risco de doença |
| Defeito septal corrigido com material protético ou dispositivo | Não indicada (a Tabela 14 da SBC 2024 põe o defeito septal corrigido entre os que não recebem) | Indicada nos primeiros 6 meses depois do procedimento (AHA, ESC); depois, não | Na criança, esta apostila adota os 6 meses, pela régua pediátrica — Cardiopatias congênitas acianóticas (comunicação interventricular, interatrial e persistência do canal arterial) e insuficiência cardíaca na criança, na apostila de Cardiologia Pediátrica |
| Procedimento dentário com manipulação de gengiva, região periodontal ou perfuração de mucosa oral | Indicada nos pacientes de risco, em dose única 30 a 60 minutos antes | Indicada nos pacientes de alto risco | É o único procedimento em que todas as réguas ainda concordam |
| Procedimento geniturinário ou gastrointestinal com lesão de mucosa | Indicada nos de alto risco, como recomendação de força intermediária, com reforço seis horas depois | Não indicada | Retirada lá fora em 2007; a brasileira manteve por considerar a gravidade do desfecho |
| Anestesia local em tecido não infectado, radiografia odontológica, aparelho ortodôntico, queda de dente de leite | Não indicada | Não indicada | Nunca teve indicação; consta das duas réguas apenas para dizer que não tem |
A tabela de conversão vale mais pelo total do que pelas linhas. Um esquema de oxacilina 2 g a cada 4 horas consome 24 frascos-ampola por dia — porque a única apresentação registrada no Brasil é a de 500 mg —, o que dá 168 por semana e mais de mil ao longo de seis semanas de tratamento. Quem prescreve sem fazer essa conta descobre o problema pela farmácia, no meio da noite, quando o estoque acaba. Avisar a farmácia hospitalar no dia em que o esquema começa, com a duração prevista escrita, é parte da prescrição.
A dose de gentamicina é o ponto em que a revisão brasileira do Instituto do Coração se contradiz dentro do próprio artigo, e vale conferir com a calculadora. O texto corrido diz que a dose única diária é a estratégia preferida para o paciente com risco renal e endocardite não complicada; as duas tabelas do mesmo artigo prescrevem o aminoglicosídeo dividido em três tomadas. Pior: a tabela do esquema empírico traz 1 mg/kg uma ou três vezes ao dia, e a tabela do tratamento dirigido traz 3 mg/kg por dia. Para 70 quilos, a primeira tabela autoriza 70 mg ou 210 mg por dia conforme quem lê — três vezes de diferença —, e a leitura de uma vez ao dia entrega 33% do que a segunda tabela pede. Prescreva pela dose diária total em mg/kg, não pelo número de tomadas, e escreva a dose calculada em miligramas na prescrição.
A mesma tabela de tratamento dirigido traz um teto que ela própria estoura. Ela prescreve vancomicina 15 mg/kg a cada 12 horas e, na mesma linha, fixa o máximo em 2 g por dia. Dois gramas por dia significam 1 g por dose, e 1 g corresponde a 15 mg/kg em 66,7 quilos: qualquer adulto acima disso recebe, pela regra por quilo, mais do que o máximo declarado. Não é erro de digitação, é o que acontece quando dose por peso e teto fixo convivem sem uma frase que diga qual dos dois manda. Na prática, manda o nível sérico: o alvo de vale de 10 a 15 microgramas por mililitro é a régua real, e é ele que autoriza passar do teto.
As tabelas de profilaxia das duas diretrizes brasileiras dão a dose pediátrica em miligramas por quilo e a dose do adulto em valor fixo, sem escrever que a primeira não pode ultrapassar a segunda. A conta mostra onde isso morde: a cefazolina ou ceftriaxona a 50 mg/kg cruza a dose adulta de 1 g aos 20 quilos, e uma criança de 30 quilos receberia 1,5 g, 50% acima do adulto; a clindamicina a 20 mg/kg cruza os 600 mg aos 30 quilos, e aos 40 quilos entregaria 800 mg; a amoxicilina a 50 mg/kg cruza os 2 g aos 40 quilos. A correção é uma frase que as tabelas não trazem: nenhuma dose pediátrica ultrapassa a dose do adulto.
A bula da gentamicina aprovada pela agência reguladora traz, no mesmo parágrafo, a dose de 3 mg/kg por dia e uma administração simplificada por faixa de peso: 60 mg três vezes ao dia para quem pesa até 60 quilos, e 80 mg três vezes ao dia para quem pesa mais. As duas regras não se encontram no ponto de corte. Aos 60 quilos exatos, o esquema simplificado entrega 180 mg, isto é, exatamente 3 mg/kg; cem gramas acima disso, ele salta para 240 mg, que são 3,99 mg/kg — um aumento de 33% na dose diária por causa de cem gramas de peso corporal. Em quem tem função renal limítrofe, essa descontinuidade não é acadêmica.
Duas conferências que deram certo, registradas porque a ausência de erro também é resultado. A partição das apresentações da infecção de dispositivo na diretriz brasileira de 2023 fecha em 100%: 60% de acometimento isolado da bolsa do gerador, 20% de bolsa com acometimento intravascular e 20% de acometimento intravascular exclusivo. Já os três números de incidência de endocardite de prótese, no mesmo parágrafo da revisão brasileira, não fecham entre si: somando o primeiro ano, de 1,4% a 3%, com quatro anos a 0,2% a 0,6% ao ano, chega-se a 2,2% a 5,4% em cinco anos, contra os 3% a 6% que o parágrafo declara. A diferença no piso é de 0,8 ponto percentual e vem de as três frases citarem estudos diferentes sem dizer isso.
Um alerta de leitura sobre a tabela de critérios adaptada da diretriz brasileira de dispositivos, de 2023. Ela lista quatro critérios menores — predisposição, febre, fenômeno vascular e evidência microbiológica — e omite o fenômeno imunológico, que a versão modificada que ela diz seguir inclui. E, entre os caminhos para endocardite confirmada, ela traz dois — dois critérios maiores, ou um maior e três menores — e não traz o de cinco critérios menores, que existe na versão original e aparece na tabela da revisão do Instituto do Coração. Quem usar aquela tabela para classificar uma endocardite de valva nativa vai classificar a menos. Para o paciente sem dispositivo, use a versão completa.
Uma última divergência, e ela é entre dois documentos da mesma sociedade, com quatro anos de distância. A diretriz de valvopatias de 2020 recomenda, com grau máximo, consultas odontológicas trimestrais para o valvopata, e explica no texto que a frequência sobe de duas para quatro vezes ao ano justamente porque a bacteremia cotidiana é o que mais pesa. A diretriz perioperatória de 2024, tratando do mesmo paciente e do mesmo risco, recomenda cuidados dentários diários e avaliação bianual pelo dentista. As duas frequências não são a mesma, e a palavra bianual admite as duas leituras possíveis — duas vezes ao ano ou uma a cada dois anos —, e nenhuma delas coincide com quatro vezes ao ano. Enquanto o ponto não é resolvido, oriente pela régua explícita e datada: quatro consultas por ano, que é a que traz grau de recomendação e a justificativa escrita.
A conduta, hora a hora
A cronologia abaixo parte do instante em que a palavra endocardite aparece na sua cabeça. Toda dose vem com o documento que a sustenta, e as apresentações estão convertidas em frascos no bloco de fluxos e tabelas. Duas fronteiras valem antes de começar: o pacote da primeira hora do paciente séptico é do capítulo de sepse, e as regras gerais de descalonamento e de duração de antibiótico na enfermaria são do capítulo de antibioticoterapia. Aqui a duração não se abrevia por melhora clínica — ela é fixada pelo agente, pela valva e pela presença de prótese.
Hora 0 — antes da primeira dose
Tudo o que este capítulo pode oferecer de melhor acontece nos primeiros vinte minutos, e não custa nada. Colha as culturas, ausculte o coração você mesmo, procure os sinais periféricos com o paciente descoberto, e escreva no prontuário a palavra endocardite com um ponto de interrogação. A hipótese escrita é o que faz o plantonista da noite não trocar o antibiótico às cegas.
Prescrição- Três pares de hemocultura, cada par com frasco aeróbio e anaeróbio, colhidos por três punções venosas periféricas independentes, com antissepsia e com o volume indicado no frasco; intervalo sugerido de 30 a 60 minutos entre as coletas, reduzível no paciente grave (revisão da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, 2022)
- Não colher hemocultura por aspiração de cateter, pelo risco de contaminação da amostra (revisão da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, 2022)
- Hemograma, velocidade de hemossedimentação, proteína C reativa, ureia, creatinina, eletrólitos, transaminases e bilirrubinas
- Sedimento urinário, procurando hematúria e proteinúria de glomerulonefrite imunomediada ou de embolia renal (revisão da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, 2022)
- Eletrocardiograma de 12 derivações na admissão, como linha de base para comparar com os dos dias seguintes
- Sorologia para o vírus da imunodeficiência humana, com consentimento, sobretudo em quem usa droga injetável (revisão da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, 2022)
- Peso e altura anotados: quase toda dose deste capítulo é por quilo
Hora 1 a 2 — quem não pode esperar, e com o quê
A decisão de tratar empiricamente não é do relógio, é do estado do paciente. Sepse, embolia em curso, insuficiência cardíaca nova ou prótese valvar recente colocam o paciente na coluna de quem não espera. A revisão brasileira orienta escolha dirigida aos agentes mais prováveis conforme o contexto — uso de droga endovenosa, presença de prótese e tempo desde o implante, internação recente, bacteremia ou endocardite prévias.
Prescrição- Valva nativa, ou prótese implantada há mais de 12 meses: ampicilina 2 g por via endovenosa a cada 4 horas, mais oxacilina 2 g por via endovenosa a cada 4 horas, mais gentamicina — os dois primeiros por 4 a 6 semanas, o aminoglicosídeo por 2 semanas (revisão da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, 2022)
- A gentamicina, aqui, na dose diária total de 3 mg/kg, preferencialmente em dose única diária: a estratégia de dose única é autorizada em bula aprovada pela agência reguladora e é a que a própria revisão brasileira recomenda para reduzir risco renal, embora as tabelas dela tragam o esquema fracionado (ver as notas do bloco de fluxos e tabelas)
- Alternativa sem cobertura para enterococo, quando se quer evitar aminoglicosídeo: oxacilina 2 g por via endovenosa a cada 4 horas, mais ceftriaxona 1 g por via endovenosa a cada 12 horas, por 4 a 6 semanas (revisão da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, 2022)
- Prótese implantada há menos de 12 meses: vancomicina 15 mg/kg por via endovenosa a cada 12 horas, ou daptomicina 8 a 10 mg/kg por dia, associada a cefepima ou meropenem e a gentamicina, por 6 semanas (revisão da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, 2022)
- Se o paciente estiver séptico, o pacote da primeira hora do protocolo gerenciado de sepse corre em paralelo e é do capítulo de sepse — o que é deste capítulo é que as três hemoculturas saiam antes da primeira dose, se isso não atrasar a dose
Primeiras 24 horas — olhar o coração e ligar para quem precisa saber
Duas coisas acontecem no primeiro dia e nenhuma delas é trocar antibiótico. A primeira é ver a valva. A segunda é avisar, por telefone e por escrito, o serviço que fará o transesofágico e, se o caso já tiver cara de cirúrgico, a cirurgia cardíaca — sobretudo se o seu hospital não tiver uma.
Prescrição- Ecocardiograma transtorácico ainda no primeiro dia; transesofágico como primeiro exame se houver prótese valvar, cabo de dispositivo implantado, ou suspeita de complicação perivalvar (revisão da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, 2022)
- No pedido, escreva a pergunta: procurar vegetação, abscesso, deiscência de prótese, regurgitação nova e função ventricular. Sem a pergunta escrita, o exame volta como avaliação de função
- Eletrocardiograma diário durante toda a internação, procurando bloqueio atrioventricular novo — sinal de extensão perivalvar da infecção (revisão da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, 2022)
- Radiografia de tórax, obrigatória quando a suspeita é de endocardite de câmaras direitas, procurando os infiltrados da embolia séptica pulmonar (revisão da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, 2022)
- Exame neurológico completo registrado, para servir de comparação: em 20% a 40% dos pacientes haverá embolia para o sistema nervoso central (revisão da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, 2022)
Dia 2 a 3 — a cultura voltou, e o esquema deixa de ser um chute
Este é o momento que justifica ter colhido antes de tratar. Com agente e perfil de sensibilidade na mão, o esquema encolhe, a toxicidade cai e a duração passa a ter uma régua. O ajuste é feito com a comissão de controle de infecção ou com a infectologia do serviço, e o interno é quem carrega a informação para a visita.
Prescrição- Estreptococo com concentração inibitória mínima abaixo de 0,125 para penicilinas, em valva nativa: ampicilina 2 g por via endovenosa a cada 4 horas ou ceftriaxona 1 g por via endovenosa a cada 12 horas, por 4 semanas; em prótese, 6 semanas (revisão da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, 2022)
- Gentamicina associada por 2 semanas nesse cenário apenas quando houver sepse, vegetação maior que 10 mm, concentração inibitória mínima elevada ou insuficiência cardíaca descompensada (revisão da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, 2022)
- Estafilococo sensível à oxacilina, em valva nativa: oxacilina 2 g por via endovenosa a cada 4 horas por 4 a 6 semanas. Em prótese: oxacilina pelo mesmo tempo, mais gentamicina por 2 semanas, mais rifampicina 300 mg por via oral a cada 8 horas por 6 semanas (revisão da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, 2022)
- Estafilococo resistente à oxacilina: vancomicina 15 mg/kg por via endovenosa a cada 12 horas, com nível sérico de vale entre 10 e 15 microgramas por mililitro; ou daptomicina 8 a 10 mg/kg por dia quando a concentração inibitória mínima da vancomicina for maior que 1 (revisão da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, 2022)
- Enterococo sensível a penicilinas: ampicilina 2 g por via endovenosa a cada 4 horas associada a gentamicina; em paciente com doença renal crônica ou risco de nefrotoxicidade, ampicilina associada a ceftriaxona 2 g por via endovenosa a cada 12 horas, por 4 a 6 semanas (revisão da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, 2022)
- Se o esquema empírico era vancomicina e o agente é estafilococo sensível à oxacilina, troque: a oxacilina tem maior poder bactericida (revisão da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, 2022)
Dia 3 a 5 — o subagudo estável cuja cultura não cresceu
É o cenário mais frequente na enfermaria brasileira, porque a maioria dos pacientes chega com antibiótico já iniciado. Aqui a conduta certa contraria o reflexo: em vez de aumentar espectro, volta-se um passo. A revisão brasileira autoriza, no paciente que usou antibiótico antes do diagnóstico ou que tem doença subaguda de baixo risco, aguardar os primeiros dias de incubação e, se as culturas permanecerem negativas, colher novas amostras antes de iniciar o esquema empírico.
Prescrição- Reveja a pergunta antes da prescrição: houve antibiótico antes da coleta, e há quantos dias? A suspensão para recoleta é decisão de equipe, e precisa estar escrita com o motivo
- Sorologia por imunofluorescência indireta para Coxiella burnetii, com título de IgG anti-fase I acima de 1:800 valendo como critério maior, e sorologia para Bartonella (revisão da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, 2022)
- Nova coleta de três pares de hemocultura, avisando o laboratório de que a suspeita é endocardite (revisão da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, 2022)
- Ecocardiograma transesofágico se ainda não foi feito, ou repetição em até sete dias se o primeiro foi negativo e a suspeita persiste (revisão da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, 2022)
- Se o agente for Streptococcus gallolyticus, programe colonoscopia: a associação com pólipo, adenoma ou câncer de cólon é descrita em 18% a 62% dos casos, e o tumor pode estar silencioso (revisão da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, 2022)
Primeira e segunda semanas — as três complicações e o momento cirúrgico
Esta é a decisão que o interno precisa reconhecer e acionar, e ela quase nunca é dele para tomar sozinho. A cirurgia na endocardite é precedida de avaliação ampla das complicações cardíacas e extracardíacas, e a intervenção precoce, feita antes do término do antibiótico, traz benefício em tempo de internação e em mortalidade, sobretudo quando realizada em até quinze dias do diagnóstico. Reconhecer o gatilho e telefonar é o gesto.
Prescrição- Insuficiência cardíaca refratária ou em progressão durante o tratamento: indicação cirúrgica (revisão da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, 2022)
- Falência clínica do antibiótico, definida como manutenção de febre ou de bacteremia após 7 a 10 dias de tratamento adequado: indicação cirúrgica (revisão da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, 2022)
- Destruição de tecido valvar com extensão perianular, isto é, abscesso ou fístula — suspeitada por bloqueio atrioventricular novo ou febre persistente e confirmada por transesofágico: indicação cirúrgica (revisão da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, 2022)
- Novo evento embólico em vigência de tratamento antibiótico: indicação cirúrgica (revisão da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, 2022)
- Endocardite por agente de difícil tratamento e maior virulência, como Staphylococcus aureus ou fungos: indicação cirúrgica (revisão da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, 2022)
- Vegetação com 10 mm ou mais entra na decisão pelo risco de embolização, conforme metanálises recentes (revisão da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, 2022)
- Depois de embolia para o sistema nervoso central, o momento da cirurgia varia de duas a quatro semanas e é individualizado conforme a extensão da lesão, a presença de transformação hemorrágica e a existência de aneurisma infeccioso (revisão da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, 2022)
- Em hospital sem cirurgia cardíaca, o telefonema para a referência é para o dia em que o primeiro gatilho aparece, não para o dia em que ele vira urgência
Semanas 2 a 6 — o tratamento longo, num paciente que se sente bem
A partir da segunda semana o paciente costuma estar afebril, comendo, andando pelo corredor e perguntando quando vai para casa. Este é o marco em que o tratamento é abandonado por acordo tácito entre um paciente que não se sente doente e uma equipe que não explicou por quê. O bloco de conversa traz as palavras; aqui ficam as tarefas.
Prescrição- A duração é do agente e da valva, não da febre: 4 a 6 semanas na maioria dos esquemas de valva nativa, 6 semanas em prótese, com o aminoglicosídeo limitado a 2 semanas quando indicado (revisão da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, 2022)
- Quando há cirurgia com processo infeccioso não controlado no momento do ato, considera-se o primeiro dia de pós-operatório como primeiro dia da contagem de 4 a 6 semanas (revisão da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, 2022)
- Na infecção de dispositivo cardíaco implantável, o tempo de tratamento é contado a partir da remoção completa do sistema (diretriz brasileira de dispositivos, 2023)
- Acesso venoso planejado para semanas, não a punção do dia: cateter central de inserção periférica evita a via perdida na terceira semana e a interrupção do esquema
- Função renal e nível sérico do glicopeptídeo monitorados; audiometria e vestibular perguntados ativamente enquanto o aminoglicosídeo estiver correndo (revisão da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, 2022)
- Hemoculturas de controle documentando a negativação — indicação bem definida em endocardite, como lembra o capítulo de antibioticoterapia na enfermaria
- Avaliação odontológica durante a internação, procurando e tratando o foco que originou a infecção
Alta — o que fica escrito, e o que o paciente leva
A endocardite não termina na alta: ela deixa um paciente que passou a pertencer a um grupo de risco, muitas vezes com valva operada, e cujo próximo procedimento dentário tem regra própria. O sumário de alta é o documento que carrega isso para a vida toda, e ele é escrito pelo interno.
Prescrição- No sumário: agente isolado com perfil de sensibilidade, esquema usado, datas de início e término, complicações, condição valvar residual e se houve cirurgia
- Em letra clara, a frase que o paciente vai mostrar ao dentista: este paciente tem indicação de profilaxia de endocardite antes de procedimentos com manipulação de gengiva, região periodontal ou perfuração de mucosa oral
- Amoxicilina 2 g por via oral, em dose única, 30 a 60 minutos antes do procedimento dentário; se o antibiótico não tiver sido usado antes, ele ainda pode ser dado em até 2 horas depois (diretriz perioperatória brasileira, 2024)
- Em alergia à penicilina, por via oral: azitromicina ou claritromicina 500 mg, ou cefalexina 2 g, ou doxiciclina 100 mg, em dose única — evitando cefalosporina em quem teve anafilaxia, angioedema ou urticária com penicilina (diretriz perioperatória brasileira, 2024). Esta apostila só aceita a cefalexina quando a reação foi de baixo risco e o culpado não foi a amoxicilina nem a ampicilina: é aminocefalosporina, com a cadeia lateral da ampicilina, e fica fora depois de reação a aminopenicilina, mesmo no exantema tardio leve, e em toda reação de risco maior (Reações de hipersensibilidade a drogas, na apostila de Imunologia)
- Quando a via oral não é possível: ampicilina 2 g por via endovenosa ou intramuscular; em alergia, cefazolina ou ceftriaxona 1 g (diretriz perioperatória brasileira, 2024)
- Encaminhamento odontológico com data marcada, e a orientação de higiene bucal diária, que previne mais bacteremia do que qualquer dose única (revisão da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, 2022)
- Orientação escrita de não fazer piercing nem tatuagem, formalmente contraindicados no valvopata (diretriz brasileira de valvopatias, 2020)
- Consulta de retorno com quem acompanhou, e a lista de sinais que trazem o paciente de volta antes: febre, falta de ar nova, perda de força ou de fala, dor no peito
Como saber se está funcionando
Endocardite é uma das poucas doenças da enfermaria em que a resposta ao tratamento se mede em dias, e não em horas — e em que a melhora clínica é o parâmetro menos confiável de todos. O paciente costuma ficar afebril e bem antes de a vegetação estar estéril, e é justamente aí que a vigilância afrouxa. A régua de acompanhamento tem sete parâmetros, e o mais importante deles não é a temperatura.
Uma regra vale antes da tabela: em endocardite, febre que persiste depois de sete a dez dias de antibiótico adequado não significa antibiótico fraco. Significa foco não controlado — abscesso perivalvar, abscesso esplênico, embolia nova — ou agente errado. A resposta correta a essa febre é imagem e conversa com a cirurgia, quase nunca aumento de espectro.
Esperado: Queda progressiva a partir do terceiro dia de esquema adequado, com desaparecimento da febre até o sétimo a décimo dia na maioria dos pacientes
Se não melhora: Febre mantida após 7 a 10 dias de antibiótico adequado é critério formal de falência clínica e entra na lista de indicações cirúrgicas. Antes de escalonar, procure abscesso perivalvar com transesofágico, abscesso esplênico com imagem abdominal, embolia nova e febre medicamentosa
Esperado: Negativação em 48 a 72 horas na maioria dos agentes; a data em que a cultura negativa é o marco que a duração do tratamento passa a contar em vários esquemas
Se não melhora: Bacteremia persistente por mais de quatro dias é sinal de foco não controlado e entra na indicação cirúrgica. Reveja dose e via, confirme sensibilidade, e procure segundo foco — cateter, prótese, dispositivo, abscesso
Esperado: Sopro estável, sem terceira bulha nova, sem estertores novos, sem turgência jugular nova
Se não melhora: Sopro novo ou que mudou de intensidade, com dispneia ou ortopneia, é regurgitação aguda por destruição valvar. Isso é insuficiência cardíaca por endocardite, a principal indicação cirúrgica, e não uma descompensação para ajustar diurético. Ecocardiograma no mesmo dia e telefone para a cirurgia
Esperado: Condução atrioventricular inalterada em relação ao traçado inicial
Se não melhora: Alargamento do intervalo ou bloqueio atrioventricular novo indica que a infecção alcançou o tecido de condução, isto é, abscesso perivalvar. Conduta: ecocardiograma transesofágico imediato e discussão cirúrgica no mesmo dia. Não é caso de observar a arritmia
Esperado: Queda progressiva das provas inflamatórias ao longo das duas primeiras semanas e estabilização ou subida lenta da hemoglobina
Se não melhora: Provas que não caem, ou que voltam a subir depois de terem caído, apontam para complicação nova — abscesso, embolia, infecção de cateter — ou para febre medicamentosa. Use a tendência, nunca o valor isolado, e nunca prolongue tratamento apenas porque um marcador continua alto
Esperado: Função renal estável e nível de vale entre 10 e 15 microgramas por mililitro
Se não melhora: Elevação de creatinina em paciente com aminoglicosídeo é motivo para reavaliar a necessidade dele, e não para ajustar cegamente: em endocardite, a causa mais comum de insuficiência renal é a instabilidade hemodinâmica ou a toxicidade do próprio tratamento, não o êmbolo. As regras gerais de ajuste de dose por função renal são do capítulo próprio; aqui a decisão é se o aminoglicosídeo ainda precisa estar na prescrição
Esperado: Ausência de déficit novo, de cefaleia intensa nova e de dor abdominal ou lombar nova
Se não melhora: Déficit focal, crise convulsiva, cefaleia intensa ou confusão nova exigem imagem do sistema nervoso central, procurando infarto, hemorragia, abscesso e aneurisma infeccioso. Dor no quadrante superior esquerdo sugere embolia ou abscesso esplênico; dor lombar sugere infarto renal ou espondilodiscite. Qualquer evento embólico novo em vigência de tratamento é indicação cirúrgica
Onde o erro machuca
O dano: É o erro que produz o paciente do leito 6, e o dano é de meses. Uma única dose interrompe a liberação de bactéria pela vegetação por tempo suficiente para negativar a coleta seguinte, sem curar nada. Sem agente isolado, o tratamento vira empírico por quatro a seis semanas, com espectro maior, mais toxicidade renal e auditiva, e nenhuma possibilidade de ajuste — e a equipe passa o resto da internação trocando esquema no escuro. Pior: o negativo costuma ser lido como ausência de bacteremia, o que enterra a hipótese.
Como pegar a tempo: Faça da coleta o primeiro gesto, não um item da prescrição. Diante de febre em quem tem válvula doente, prótese, dispositivo, cateter de longa permanência ou usa droga injetável, os três pares saem antes de qualquer dose, por três punções independentes. Se o paciente tem disfunção orgânica e a coleta atrasaria a dose, a dose ganha — e isso fica escrito. No paciente subagudo estável, esperar é conduta.
O dano: O sopro é a segunda manifestação mais frequente da doença, e ele pode ser antigo pela valvopatia que predispôs à infecção ou novo pela destruição de folheto ou ruptura de corda. Escrito uma vez como conhecido, ele vira paisagem: ninguém compara com o de ontem, e a regurgitação aguda que se instalou em quarenta e oito horas é descoberta pelo edema pulmonar. Numa série brasileira de 328 pacientes operados, 35% chegaram à cirurgia com insuficiência cardíaca congestiva.
Como pegar a tempo: Ausculte você mesmo, todos os dias, sentado e deitado, e descreva o que ouviu com palavras — foco, momento do ciclo, intensidade, irradiação —, não com a palavra conhecido. Comparar exige descrição. Sopro que mudou, com dispneia nova, é ecocardiograma no mesmo dia.
O dano: Endocardite com hemocultura negativa ocorre em 2,5% a 30% dos casos e, segundo alguns autores, associa-se a maior risco de destruição valvar, de embolização e de mortalidade do que a de agente conhecido. Tratar o negativo como exclusão faz duas coisas ruins: encerra a investigação e deixa o paciente em antibiótico empírico, que é o pior dos dois mundos. Um quarto dos casos negativos, num estudo brasileiro de 51 pacientes, tinha agente identificável por sorologia.
Como pegar a tempo: Diante de cultura negativa, faça duas perguntas nesta ordem. Houve antibiótico antes da coleta? Se sim, discuta suspender e recolher. Se não, peça sorologia por imunofluorescência para Coxiella burnetii, com o corte de 1:800 no título anti-fase I, e para Bartonella, e avise o laboratório de que a suspeita é endocardite.
O dano: É o padrão de onze dias do caso de abertura: três esquemas, duas tomografias, nenhuma ausculta nova, nenhum ecocardiograma. Cada troca dá à equipe a sensação de estar agindo e adia a única pergunta que resolveria o caso. O custo é tempo — e o tempo, aqui, é a janela em que a vegetação cresce, emboliza e escava o anel valvar. Em paralelo, cada espectro novo aumenta toxicidade e seleção de resistência sem tratar a doença certa.
Como pegar a tempo: Estabeleça uma regra pessoal: nenhum febril sem foco recebe um terceiro esquema antes de ter ecocardiograma e ausculta documentada. Quando pensar em trocar antibiótico, escreva antes, na evolução, qual hipótese a troca está tratando. Se não houver hipótese, o que falta não é antibiótico.
O dano: O exame pode ser falso-negativo em cerca de 15% dos casos, e o falso-negativo é mais provável exatamente em quem tem maior risco: portador de prótese, de lesão valvar grave prévia, de prolapso mitral e de lesão degenerativa. Em prótese, sensibilidade e especificidade dos dois métodos são menores que em valva nativa. Encerrar aí é dar alta, ou manter tratamento errado, num paciente com vegetação que ainda não apareceu.
Como pegar a tempo: Trate o transtorácico como triagem, não como veredito. Vá direto ao transesofágico quando houver prótese, cabo de dispositivo ou suspeita de abscesso. Se o transesofágico for negativo e a suspeita persistir, repita em até sete dias — e escreva a data prevista da repetição na evolução, para que ela não dependa de alguém lembrar.
O dano: Num paciente com endocardite, o distúrbio de condução novo não é um evento elétrico: é a infecção escavando para fora do anel valvar e alcançando o tecido de condução, isto é, abscesso perivalvar. É indicação cirúrgica, e o intervalo entre o traçado que mudou e a decisão de operar é medido em horas. Observar é assistir ao abscesso avançar; prescrever atropina ou marca-passo provisório sem investigar trata o sintoma da destruição.
Como pegar a tempo: Peça eletrocardiograma diário e compare com o da admissão — não com o de ontem apenas, mas com o inicial, porque o alargamento é progressivo e passa despercebido dia a dia. Qualquer alargamento novo dispara duas ações imediatas e simultâneas: ecocardiograma transesofágico e telefonema para a cirurgia cardíaca.
O que dizer ao paciente e à família
A endocardite tem uma característica que muda a conversa: o paciente melhora muito antes de estar curado. Da segunda semana em diante, ele está afebril, andando, comendo, sem dor, com um cateter no braço e uma pergunta que se repete todo dia. As falas abaixo são para esse paciente e para a família dele, e a primeira é a que sustenta as outras seis.
Explicar por que serão semanas de antibiótico na veia em alguém que se sente bem
“O senhor está melhor, e isso é verdade — a febre passou porque o remédio está funcionando. Só que a infecção não está no sangue, está grudada dentro de uma válvula do coração, dentro de um coágulo que funciona como um casulo. Nesse lugar não chega defesa do corpo, e o antibiótico só entra devagar. Por isso ele precisa ficar na veia, em dose alta, por semanas: é o tempo que leva para esterilizar aquele ponto. Se a gente parar quando o senhor se sentir bem, a bactéria que sobrou volta a crescer no mesmo lugar, e da segunda vez costuma ser pior, porque a válvula já está mais machucada.”
Não diga: Dizer apenas que é o protocolo, ou que são seis semanas porque sim. Sem o mecanismo do casulo, a alta a pedido na terceira semana é uma decisão razoável do ponto de vista do paciente. Evite também prometer a data exata da alta: ela depende da valva e do agente, e pode mudar.
Pedir para suspender o antibiótico e colher hemocultura de novo
“Preciso explicar uma coisa que vai parecer estranha. As culturas do senhor vieram negativas, mas isso provavelmente não quer dizer que não haja bactéria: o antibiótico foi dado antes da coleta e apagou o exame. Para acertar o tratamento, a gente precisa saber qual bactéria é, porque cada uma pede um remédio e um tempo diferentes. Então vamos fazer uma coisa controlada: suspender o antibiótico por um período curto, com o senhor monitorado aqui dentro, colher de novo e recomeçar em seguida. É um risco pequeno e calculado, e o ganho é passar o resto do tratamento com o remédio certo, e não com o remédio mais forte.”
Não diga: Suspender sem explicar, ou apresentar como se fosse rotina. É uma decisão de equipe, tomada com o assistente e registrada com o motivo. E não diga que o exame anterior foi mal feito: o que houve foi ordem trocada, não erro do laboratório.
Dizer que ainda não se sabe qual é a bactéria
“Hoje eu ainda não sei qual é o micróbio, e vou ser honesto: em uma parte dos casos a gente nunca descobre. Isso não significa que estamos parados. O remédio que a senhora está tomando cobre as bactérias mais prováveis para o caso dela, e enquanto isso pedimos exames de sangue específicos para dois micróbios que não crescem nos exames comuns. Todo dia eu venho aqui, escuto o coração, olho os exames e reavalio. Se alguma coisa mudar, a senhora vai saber por mim, não por um aparelho.”
Não diga: Preencher o silêncio com um nome provável. Dizer é estafilococo antes da cultura cria uma expectativa que depois precisa ser desfeita, e mina a confiança na conversa seguinte, que pode ser sobre cirurgia.
Introduzir a possibilidade de cirurgia sem transformar a conversa em susto
“Quero antecipar uma coisa, agora que ainda dá para conversar com calma. Numa parte dos pacientes com essa infecção, o antibiótico sozinho não resolve — porque a válvula ficou muito danificada, porque a infecção escavou um lugar onde o remédio não alcança, ou porque pedaços dela se soltaram. Nesses casos, a operação faz parte do tratamento, não é o fracasso dele. Ainda não é o seu caso. Estou dizendo hoje porque, se isso mudar, eu não quero que o senhor ouça a palavra cirurgia pela primeira vez num dia de urgência.”
Não diga: Guardar o assunto para quando a indicação aparecer. Numa doença em que a decisão cirúrgica pode surgir de um eletrocardiograma da manhã, a primeira menção precisa vir antes. Evite também estimar chances numéricas de operar: elas variam muito com agente e valva.
Comunicar à família um evento embólico para o cérebro
“Aconteceu uma coisa hoje que eu preciso explicar. A infecção forma um acúmulo na válvula, e um pedaço dele se soltou e entupiu um vaso no cérebro. Foi isso que causou a fraqueza no braço. Nós fizemos o exame de imagem e sabemos onde foi. Duas coisas mudam a partir de agora: a reabilitação começa cedo, e a decisão sobre operar o coração passa a depender também da área do cérebro que foi atingida — às vezes é preciso esperar de duas a quatro semanas para operar com segurança. Vou trazer a equipe de cirurgia para conversar com vocês, e vou estar junto.”
Não diga: Chamar de derrame e parar por aí, sem ligar o evento à doença de base — a família precisa entender que o cérebro e o coração são o mesmo problema. E não prometa recuperação completa nem prazo de melhora.
Perguntar sobre uso de droga injetável, e conversar sobre a próxima vez
“Vou fazer uma pergunta que faço para todo mundo com esse quadro, e ela é só para acertar o tratamento: você usa alguma droga injetada? Pergunto porque isso muda a bactéria que eu procuro, muda a válvula que eu olho no exame e muda o antibiótico. Nada do que você disser aqui vai para a polícia nem muda o seu atendimento. E, quando o senhor sair daqui, eu quero conversar sobre como reduzir o risco de isso acontecer de novo, do jeito que for possível para você — porque essa infecção volta pela mesma porta por onde entrou.”
Não diga: Fazer a pergunta com a família na frente, ou com tom de interrogatório. E não condicionar o cuidado à promessa de parar: a redução de risco é conversa da alta, e o tratamento não depende dela.
A conversa da alta: o cartão do dentista e a boca que importa mais que a dose
“O senhor sai daqui pertencendo a um grupo que precisa de um cuidado a mais para o resto da vida. Nesta folha está escrito que o senhor tem indicação de tomar um antibiótico em dose única antes de procedimentos no dentista que mexam na gengiva. Guarde e mostre para qualquer dentista. Mas eu preciso ser honesto sobre o que protege mais: escovar os dentes, usar fio dental e ir ao dentista com regularidade protegem mais do que aquela dose única, porque a bactéria entra na corrente sanguínea um pouco todo dia, e não só no dia do procedimento. E não faça piercing nem tatuagem.”
Não diga: Entregar a recomendação da dose sem a orientação de higiene bucal: dá ao paciente a impressão de que basta o comprimido antes do dentista. E não dê a lista para todo paciente com sopro — quem tem indicação está escrito no sumário, e ampliar por conta própria é o erro descrito no bloco de fluxos e tabelas.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Régua brasileira, mantida em 2020 e reafirmada em 2024: sim, e com justificativa escrita
A diretriz brasileira de valvopatias recomenda profilaxia com grau máximo para pacientes com valvopatia moderada a importante e para portadores de prótese submetidos a procedimentos odontológicos com alta probabilidade de bacteremia. A diretriz perioperatória de 2024 mantém a valvopatia nativa adquirida com estenose ou regurgitação na lista brasileira e explicita os três motivos: o baixo acesso à assistência odontológica no país, que produz pior saúde bucal e mais bacteremia; a raridade de eventos adversos graves com o antibiótico; e a inexistência de estudos de profilaxia feitos aqui. Registra ainda o argumento empírico de que abolir completamente a profilaxia, como fez a régua britânica, foi seguido de aumento no número de casos.
Atualização das Diretrizes Brasileiras de Valvopatias – 2020, capítulo 18 e Quadro 77; Diretriz de Avaliação Cardiovascular Perioperatória da Sociedade Brasileira de Cardiologia – 2024, seção 4.4 e Tabela 14
Régua americana desde 2007 e europeia desde 2009: não, a lista se restringe ao alto risco
As duas sociedades restringiram a indicação aos pacientes com maior risco de desfecho desfavorável — prótese valvar ou material protético, endocardite prévia e determinadas cardiopatias congênitas — e a valvopatia adquirida com estenose ou regurgitação ficou de fora das duas listas. O argumento é de proporção: a bacteremia do dia a dia é muito maior que a do procedimento, a evidência de benefício vem de modelos experimentais e de opinião, e estudos observacionais americanos após 2007 não mostraram aumento no número total de casos de endocardite nem de casos por agentes da cavidade oral. A recomendação americana foi reafirmada em 2021, quando também retirou a clindamicina das opções por risco de colite.
Wilson WR et al., Circulation 2021;143(20):e963-e978 (com correção em 2022); 2023 ESC Guidelines for the management of endocarditis, Eur Heart J 2023;44(39):3948-4042; comparação sistematizada na Tabela 14 da diretriz perioperatória brasileira de 2024
Decida pela assimetria dos erros no seu paciente, e leve em conta que a régua brasileira já é uma decisão de contexto, não um atraso. Se o paciente tem valvopatia reumática, dentição em mau estado e vai fazer extração, o custo de uma dose de amoxicilina é próximo de zero e o desfecho que ela tenta evitar tem letalidade alta — prescreva. Se o paciente tem prolapso mitral sem regurgitação, sopro inocente, marca-passo ou stent, não prescreva: essas condições estão fora das duas réguas, e prescrever ali é o erro comum, não o cuidadoso. E, em qualquer dos casos, gaste mais tempo com a saúde bucal do que com a dose: é a intervenção com maior efeito e é a única que age nos outros 364 dias do ano.
Esperar, no estável: a revisão brasileira autoriza aguardar a incubação
A posição é explícita: nos pacientes que usaram antibiótico antes do diagnóstico, ou que se apresentam com endocardite subaguda de baixo risco para complicações ou sepse, é possível aguardar os primeiros dias de incubação das hemoculturas antes de iniciar o tratamento; se permanecerem negativas, colhem-se novas amostras e só então se inicia o esquema empírico. O raciocínio é de valor de informação: o agente define o esquema, a duração e a necessidade de rifampicina ou de aminoglicosídeo, e essa informação vale mais do que meio dia de antibiótico num paciente sem disfunção orgânica.
Fernandes JRC et al., Endocardite infecciosa, Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo 2022;32(2):183-194, seção de tratamento medicamentoso
Tratar já, sempre que houver suspeita de infecção com disfunção: a régua da porta e da sepse
A régua que governa o atendimento do febril na emergência é outra, e por bons motivos: colhe-se cultura antes, mas a administração do antimicrobiano não é postergada quando há disfunção orgânica, porque o atraso da primeira dose é fator modificável de mortalidade em sepse. Aplicada à endocardite, essa lógica sustenta tratar de imediato o paciente com sepse, com embolia em curso, com insuficiência cardíaca nova ou com prótese recente — e, na dúvida sobre gravidade, tratar.
Protocolo gerenciado de sepse, tal como usado no capítulo de febre sem foco no adulto e no de sepse desta coleção; a própria revisão brasileira reconhece a necessidade de esquema empírico diante de sepse e embolização
A pergunta que separa os dois lados não é sobre endocardite; é sobre disfunção orgânica. Faça a avaliação de gravidade primeiro, à beira do leito: fale com o paciente, conte a frequência respiratória, meça a pressão e compare com a habitual. Havendo qualquer disfunção, embolia ou insuficiência cardíaca nova, trate agora e colha o que der antes. Não havendo — o febril de três semanas, lúcido, com pressão normal —, o tempo é seu aliado, e usá-lo para obter o agente é decisão clínica, não procrastinação. Escreva na evolução qual dos dois caminhos você escolheu e por quê, porque o plantonista da noite precisa saber que a ausência de antibiótico é um plano, e não um esquecimento.
Critérios de Duke modificados, de 2000: é a versão que os documentos brasileiros aplicam
A revisão brasileira do Instituto do Coração reproduz os critérios modificados por Li e colaboradores, e a diretriz brasileira de dispositivos cardíacos eletrônicos implantáveis, de 2023, aplica a mesma versão adaptada ao portador de dispositivo. É a régua com que estão escritos os prontuários, as discussões de caso e as séries brasileiras, e é a que o interno vai encontrar na visita. Continuar usando-a mantém a comparabilidade com o que já foi publicado aqui.
Fernandes JRC et al., Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo 2022;32(2):183-194, Tabela 1; Diretriz Brasileira de Dispositivos Cardíacos Eletrônicos Implantáveis – 2023, Tabelas 40 e 41
Critérios Duke-ISCVID, de 2023: a atualização estrutural, com imagem e biologia molecular
Um grupo internacional revisou praticamente todos os domínios: ampliou a lista de agentes típicos, incorporou detecção molecular e sorológica para agentes exigentes, admitiu tomografia cardíaca e tomografia por emissão de pósitrons como imagem maior, criou critério maior baseado na inspeção cirúrgica, incluiu dispositivo cardíaco e prótese transcateter entre as predisposições e retirou as exigências formais de intervalo entre coletas e de punções separadas. O argumento é de sensibilidade: a versão de 2000 perdia casos que os métodos atuais identificam.
Fowler VG Jr et al., Clin Infect Dis 2023;77(4):518-526
Critérios próprios da diretriz europeia de 2023: nem uma coisa nem outra
Publicada meses depois da atualização internacional, a diretriz europeia optou por definir critérios diagnósticos próprios, que ela nomeia como critérios modificados de 2023, com algoritmos separados para valva nativa, prótese valvar e endocardite relacionada a dispositivo, em vez de adotar a versão americana. O documento recebeu correção formal publicada em 2025.
Delgado V et al., 2023 ESC Guidelines for the management of endocarditis, Eur Heart J 2023;44(39):3948-4042, com correção em Eur Heart J 2025;46(11):1082
Para o paciente à sua frente, a escolha importa menos do que parece, porque nenhuma das três versões decide o tratamento — todas classificam. Faça três coisas. Raciocine pela versão de 2023, que é mais sensível e não perde o paciente com prótese ou dispositivo. Escreva na evolução qual versão você usou, com a data, porque quem ler depois precisa saber por qual régua aquele possível foi classificado. E, sobretudo, não deixe a classificação decidir por você: com sensibilidade de cerca de 40% na admissão, a versão de 2000 chama de possível a maioria dos casos verdadeiros no primeiro dia. Alta suspeita com critério incompleto é motivo para investigar mais, nunca para descartar.
O raciocínio, em voz alta
Segunda-feira, 11h20, enfermaria de clínica médica. Neuza Tolentino, 63 anos, quatro anos em hemodiálise por nefropatia diabética, cateter tunelizado em jugular interna direita há sete meses. Internou ontem por febre de 38,7 graus que começou durante a sessão de sexta. O túnel do cateter não tem hiperemia nem secreção. A pressão caiu para 92 por 58 durante a última sessão, o que a enfermagem da diálise já vinha anotando há três semanas. Ela é hipertensa e essa queda é nova.
o que penso antes de examinar
Febre em paciente de hemodiálise com cateter de longa permanência tem duas hipóteses de peso, e elas não competem: infecção do cateter e endocardite. O risco de endocardite nessa população é estimado entre cinquenta e cento e oitenta vezes o da população geral. E há um detalhe na história que já vale por um exame: hipotensão durante a diálise, em quem era hipertensa, é um dos gatilhos de suspeita descritos para esse grupo.
o que examino
Ausculto o precórdio sentada e deitada, procurando sopro. Descubro as mãos e os pés, procurando lesão em palma e planta, nódulo doloroso em polpa digital e estria no leito ungueal. Olho conjuntiva e palato. Palpo o baço. Olho o túnel e o óstio do cateter. Acho um sopro sistólico em foco mitral, grau dois, que não está descrito em nenhuma evolução anterior.
o que peço, e em que ordem
Antes de qualquer dose: três pares de hemocultura, por três punções venosas periféricas independentes, com o volume que o frasco pede. Não colho do cateter. Junto: hemograma, provas inflamatórias, função renal, sedimento urinário e eletrocardiograma de base. Peço ecocardiograma transtorácico para hoje.
por que não começo antibiótico ainda
Reavalio gravidade à beira do leito: ela está lúcida, frequência respiratória de 18, pressão 118 por 70 fora da diálise, sem hipoxemia. Não há disfunção orgânica. Nesse cenário, aguardar a incubação das culturas é conduta descrita, e escrevo isso na evolução com essas palavras, para que o plantão da noite não interprete a ausência de antibiótico como esquecimento.
o que a resposta muda
Em 26 horas, os três pares crescem Staphylococcus aureus. Isso muda tudo de uma vez: agente típico em duas ou mais hemoculturas é critério maior, e bacteremia por esse agente é, sozinha, motivo para procurar endocardite. Pelos critérios, já tenho um maior. Somo os menores: febre acima de 38 graus e predisposição pelo dispositivo endovascular de longa permanência. Estou em endocardite possível, o que significa investigar mais, não descartar.
o exame que eu não posso pular
O transtorácico volta sem vegetação, com regurgitação mitral discreta. Isso não encerra nada: o exame é falso-negativo em cerca de 15% dos casos. E ela preenche dois dos quatro critérios de priorização para o transesofágico na bacteremia estafilocócica — bacteremia de fonte não estabelecida e febre que persiste. Peço o transesofágico e telefono para a agenda, porque na sexta à noite ele não sai.
o que faço enquanto espero
Com agente isolado, o tratamento deixa de ser um chute. O antibiograma mostra sensibilidade à oxacilina, então prescrevo oxacilina 2 g por via endovenosa a cada 4 horas — e aviso a farmácia de que serão 24 frascos por dia, por semanas. Discuto com a nefrologia a retirada do cateter. Peço eletrocardiograma diário e escrevo o motivo: procurar bloqueio novo.
o que fecha o caso
O transesofágico mostra vegetação de 12 mm na cúspide mitral posterior, sem abscesso. Dois critérios maiores — hemocultura típica e imagem — fecham endocardite definida. O tamanho maior que 10 mm entra na discussão de risco embólico com a cirurgia. A hemocultura de controle de 72 horas negativa, e é dela que passo a contar as semanas.
o que eu teria perdido se tivesse começado antibiótico na admissão
O agente. Sem ele, ela ficaria em esquema empírico com vancomicina por seis semanas, quando o estafilococo dela era sensível à oxacilina — que é mais bactericida. E o transesofágico continuaria sendo pedido por suspeita, não por indicação formal, o que na prática significa esperar mais uma semana pela agenda.
Faça você
Terça-feira, 2h40, pronto-socorro clínico. Cleiton Barrozo, 27 anos, chega com febre há cinco dias, tosse com escarro raiado de sangue e dor no lado direito do tórax que piora ao respirar fundo. Temperatura 39,1 graus, frequência cardíaca 112, frequência respiratória 24, pressão 116 por 70, saturação 94% em ar ambiente. A ausculta pulmonar tem crepitações esparsas à direita; a ausculta cardíaca não tem sopro. A radiografia de tórax mostra três opacidades nodulares periféricas, uma delas com centro escavado. O plantonista escreveu pneumonia adquirida na comunidade e prescreveu ceftriaxona com azitromicina. Antes da primeira dose, você senta ao lado dele e faz as perguntas que ninguém fez: ele usa cocaína injetável há dois anos, a última vez foi há oito dias, e tem marcas recentes em fossa cubital esquerda.
o que chama atenção antes de qualquer hipótese
Não há disfunção orgânica: lúcido, pressão normal, sem hipoxemia significativa. O relógio, portanto, não é o da primeira hora. O que chama atenção é a incompatibilidade entre a radiografia e o diagnóstico escrito: opacidades nodulares periféricas múltiplas, uma escavada, não é o padrão de pneumonia adquirida na comunidade.
o que a exposição reorganiza
O uso de droga injetável reorganiza a probabilidade da valva, do agente e do destino dos êmbolos, sem defini-los antes da investigação. A vegetação fica na tricúspide em 46% a 78% dos casos, o agente é Staphylococcus aureus em 60% a 70%, e os êmbolos vão para o pulmão em vez de irem para a circulação sistêmica. Isso explica a radiografia e explica por que não há sopro nem sinal periférico.
o que eu preciso decidir antes da prescrição que já está escrita
Se a primeira dose de ceftriaxona entrar agora, a chance de isolar o agente cai — e sem agente este paciente passa quatro a seis semanas em esquema empírico. Ele está estável, sem disfunção. A decisão é sobre ordem, não sobre esperar por esperar.
o exame de imagem que eu peço, e por quê
A vegetação suspeita é de câmaras direitas, e o ecocardiograma transtorácico tem boa sensibilidade justamente para as valvas do lado direito do coração. Não é caso de começar pelo transesofágico, salvo se o transtorácico for inconclusivo ou a suspeita persistir.
Ver como fecharíamos
A conduta é suspender a prescrição de ceftriaxona com azitromicina antes que a primeira dose seja administrada, colher três pares de hemocultura por três punções venosas periféricas independentes com o volume indicado no frasco, e só então iniciar o esquema empírico dirigido ao contexto de valva nativa em usuário de droga injetável — ampicilina 2 g por via endovenosa a cada 4 horas, mais oxacilina 2 g por via endovenosa a cada 4 horas, mais gentamicina na dose diária total de 3 mg/kg, preferencialmente em dose única diária. Junto vão hemograma, provas inflamatórias, função renal, sedimento urinário, sorologia para o vírus da imunodeficiência humana com consentimento, eletrocardiograma de base e ecocardiograma transtorácico. A internação é obrigatória: o diagnóstico presumido é endocardite de câmaras direitas com embolia séptica pulmonar, e a radiografia já mostra a complicação. Registre a hipótese com a palavra endocardite escrita no prontuário e o motivo pelo qual o esquema anterior foi trocado, para que o plantão seguinte não o restabeleça. Duas coisas ficam para depois, e é bom que fiquem: a conversa sobre redução de risco e sobre a próxima vez, que é da alta, e a decisão de operar, que só se coloca se houver insuficiência cardíaca, falência clínica, abscesso ou novo evento embólico em vigência de tratamento.
Hemocultura negativa após antibiótico não exclui endocardite e não prova que o antibiótico seja a única causa do resultado. Reveja coleta, exposição antimicrobiana e agentes de difícil cultivo. Em quadro subagudo, estável e cuidadosamente selecionado, a equipe pode discutir suspensão supervisionada para novas culturas; não se suspende tratamento necessário em instabilidade ou infecção grave apenas para aumentar rendimento. O ecocardiograma e a investigação dirigida devem avançar em paralelo.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Apresente uma suspeita de endocardite em três partes: o que a tornou provável, como pretende obter evidência e qual complicação procura agora. Explique por que colher hemoculturas antes do antibiótico melhora o rendimento e por que não é preciso aguardar pico febril. Depois diga o que muda se houver choque. Confira o papel do ecocardiograma e dos critérios diagnósticos sem transformar um exame negativo em exclusão automática.
Em 30 dias
Simule a reavaliação de uma pessoa em tratamento: a febre persiste, surge um novo bloqueio no ECG ou aparece dispneia. Relacione cada achado a falha de controle da infecção, extensão perivalvar ou disfunção valvar e diga que avaliação precisa ser acionada. Faça uma passagem de caso com agente, sensibilidade, datas das culturas, antibiótico, função renal e complicações. A decisão final deve integrar infectologia, cardiologia e cirurgia quando indicada, em vez de depender apenas da contagem de critérios.
Agora atenda
Agora atenda: quinta-feira, 8h10, ala de internação clínica num hospital geral de porte médio. No leito 4 está um homem de 52 anos, internado há nove dias com febre a esclarecer, já no segundo esquema de antibiótico, com duas hemoculturas negativas colhidas depois da primeira dose no pronto-socorro. Ele emagreceu, sua à noite e tem um sopro sistólico descrito na admissão como já conhecido. Colha a história que ninguém colheu, ausculte o coração você mesmo, procure os sinais periféricos com ele descoberto, e decida em que ordem pedir os exames. A pergunta que você precisa responder até o fim do atendimento é uma só: este paciente tem endocardite, e o que você faz agora que a chance mais barata de provar já foi gasta?
