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Clínica MédicaCardiologia

Síndrome coronariana aguda sem supra de ST

O eletrocardiograma pode estar normal e o paciente estar infartando. Aqui o diagnóstico é uma curva, não uma foto — e o que a estratificação de risco decide não é a droga: é o relógio do cateterismo.

Fontes deste capítulo

Sociedade Brasileira de Cardiologia — Diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia sobre Angina Instável e Infarto Agudo do Miocárdio sem Supradesnível do Segmento ST – 2021 (Arq Bras Cardiol. 2021;117(1):181-264)

Ministério da Saúde / Conitec — Protocolo Clínico Síndromes Coronarianas Agudas, elaborado a partir das diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia e baseado no protocolo clínico da Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais, coordenado pelo Hospital das Clínicas da UFMG

Ministério da Saúde — Relação Nacional de Medicamentos Essenciais, Rename 2024, 1ª edição eletrônica, estabelecida pela Portaria GM/MS nº 6.324, de 26 de dezembro de 2024

Ministério da Saúde / Conitec — Relatório de Recomendação nº 41, março de 2013, sobre ticagrelor para prevenção de eventos trombóticos na síndrome coronariana aguda, com a Portaria SCTIE nº 8, de 5 de março de 2013; e Relatório de Recomendação nº 578, novembro de 2020, sobre cloridrato de prasugrel para pacientes diabéticos com síndrome coronariana aguda submetidos a angioplastia primária

Sociedade Brasileira de Cardiologia — Diretriz Brasileira de Atendimento à Dor Torácica na Unidade de Emergência – 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250620)

01

Responda antes de ler

Mulher de 70 anos internada há 14 horas por infarto sem supradesnivelamento, com cateterismo agendado para o dia seguinte. Às 3h da manhã volta a ter dor torácica intensa, que não cede após dois comprimidos sublinguais de dinitrato de isossorbida. Pressão 96x58 mmHg, frequência 104 bpm, novo eletrocardiograma com infradesnivelamento de 2 mm em derivações que antes estavam normais. Qual a conduta?

02

O paciente que você vai ver

São 19h10 de uma quinta-feira. O hospital tem unidade coronariana com seis leitos, atende uma região de duzentos mil habitantes e não tem hemodinâmica. Você é o interno da sala amarela, com uma clínica plantonista que está resolvendo uma pneumonia na sala ao lado.

Maurílio tem 63 anos, dirige van escolar, pesa 78 quilos e chegou andando, com a carteira de trabalho no bolso e o crachá da escola. Está calmo, e essa é a primeira coisa que confunde: ele não está pálido, não está suando, não está com a mão sobre o peito. Conta que hoje às 15h, parado no trânsito, sentiu um aperto no meio do peito que durou uns vinte e cinco minutos e passou sozinho. Veio porque na terça e na quarta tinha sentido a mesma coisa subindo a rampa da garagem — coisa que nunca acontecia em onze anos de van.

Pressão de 142 por 86 mmHg nos dois braços, frequência de 78 bpm, saturação de 97% em ar ambiente, ausculta pulmonar limpa, sem terceira bulha, sem estase jugular. O eletrocardiograma sai às 19h16 e não tem supradesnivelamento em derivação nenhuma. Tem infradesnivelamento de 1 mm em V4, V5, V6, DI e aVL, com ondas T achatadas.

Repare no que esse traçado fez e no que não fez: ele fechou a porta da reperfusão de emergência, e não abriu nenhuma outra. Maurílio pode ter uma artéria parcialmente ocluída neste momento, pode estar infartando sem que nada no papel diga isso ainda, e pode ir para casa se alguém decidir pela foto em vez de pela curva. O capítulo trata do que acontece entre este traçado e a hora em que se sabe o nome do que ele tem.

03

Quem adoece disso

O infarto é a principal causa de morte no Brasil: em 2017, segundo o DATASUS, respondeu por 7,06% de todos os óbitos do país — 92.657 pessoas. E responde por 10,2% das internações no SUS, proporção que sobe para 25% entre os internados com mais de 50 anos. Um em cada quatro leitos ocupados por adulto de meia-idade ou idoso no sistema público está ocupado por isso.

O número que muda o que você faz no plantão é a proporção entre as duas síndromes. No registro BRACE, que avaliou internações por síndrome coronariana aguda em 72 hospitais brasileiros, a forma sem supradesnivelamento respondeu por 45,7% das internações — quase metade —, das quais cerca de dois terços por infarto e um terço por angina instável. Ou seja: o quadro deste capítulo é mais comum que o do vizinho, e é ele que vai encher a sua sala de observação.

O mesmo registro traz o achado desconfortável: uso reduzido das terapias que comprovadamente mudam prognóstico, com diferenças regionais importantes — e um escore de desempenho mostrando que quanto maior a aderência aos tratamentos comprovados, menor a mortalidade. Aqui não falta droga cara nem tecnologia rara: falta a prescrição inteira, dada na hora certa, ao paciente certo. Isso é trabalho de interno tanto quanto de cardiologista.

E há uma assimetria de tempo que explica por que esta doença engana. O infarto com supra mata cedo, e quem sobrevive às primeiras horas tende a ficar bem. O sem supra mata menos na primeira hora e mais ao longo do primeiro ano, porque a artéria continua doente, o paciente costuma ser mais velho e ter mais comorbidade, e a maior parte do benefício depende de coisas que acontecem depois da alta. É por isso que, aqui, a receita que sai com o paciente vale tanto quanto a prescrição da chegada.

04

Por que acontece o que acontece

Ruptura ou erosão de uma placa pode ativar plaquetas e coagulação, formando trombo e reduzindo a perfusão do miocárdio. A síndrome sem supra persistente é uma apresentação clínica e eletrocardiográfica, não a prova de que a artéria esteja apenas parcialmente obstruída. Trombos intermitentes, embolização distal, oclusão completa com circulação colateral e territórios pouco representados no ECG podem produzir esse quadro. Também há outras causas de lesão e isquemia que precisam ser diferenciadas ao longo da investigação.

O fluxo pode variar quando o trombo cresce, sofre lise ou emboliza, e essa dinâmica ajuda a explicar a dor que aparece e desaparece. Um ECG pode ser pouco alterado durante um intervalo sem sintomas e mudar na recorrência; por isso o traçado seriado tem valor diagnóstico e prognóstico. Essa é uma explicação possível para a oscilação, não um mecanismo que possa ser provado apenas pelo relato de dor intermitente.

Artérias coronárias em corte longitudinal com trombo oclusivo e trombo parcial com fluxo residual.
Oclusão total e trombose parcial são mecanismos possíveis da síndrome coronariana aguda. O desenho não estabelece equivalência obrigatória entre anatomia e presença de supra de ST: uma oclusão pode ocorrer sem os critérios clássicos de supra. A decisão clínica integra sintomas, ECG, evolução e contexto. Ilustração didática original.

Fibrinolítico não é tratamento de rotina da síndrome coronariana aguda sem supra persistente: os estudos não demonstram benefício que compense o risco hemorrágico nesse grupo. A justificativa não é presumir que toda artéria esteja aberta. Antiagregação, anticoagulação quando indicada e avaliação invasiva são escolhidas conforme diagnóstico e risco; dor refratária, instabilidade ou forte suspeita de oclusão exigem avaliação urgente para tratamento mecânico, sem aguardar uma janela eletiva.

A isquemia progride do subendocárdio para o subepicárdio, e o subendocárdio é a camada mais vulnerável: mais distante das artérias epicárdicas, mais comprimida na sístole, de maior demanda. Com fluxo residual, circulação colateral e intermitência — que gera pré-condicionamento isquêmico —, a progressão se alonga. É a isquemia que fica confinada ao subendocárdio que produz infradesnivelamento de ST em vez de supra: a corrente de lesão não atravessa a parede toda.

A função ventricular acompanha a isquemia numa ordem: primeiro disfunção diastólica, depois, se o insulto continuar, disfunção sistólica. Isso tem consequência de beira de leito — a terceira bulha e os estertores que aparecem no meio da internação podem ser a primeira manifestação de uma isquemia que ninguém viu no traçado, e por isso a ausculta repetida vale como parâmetro de reavaliação.

Nem toda limitação de fluxo vem de trombo. Espasmo, embolia coronariana e dissecção espontânea produzem o mesmo quadro clínico com outra causa — e por isso existem casos de infarto com coronárias sem obstrução significativa. Anemia, hipertensão, taquicardia, cardiomiopatia hipertrófica e estenose aórtica alteram a relação entre oferta e consumo e podem produzir isquemia sem doença obstrutiva relevante.

Essa mesma equação explica o infarto de tipo 2, que é o desequilíbrio entre oferta e consumo sem aterotrombose como causa direta. Ele importa aqui porque a troponina não sabe distinguir tipo 1 de tipo 2 — quem distingue é você, olhando se há taquiarritmia, sepse, anemia grave ou crise hipertensiva explicando o consumo. O tratamento de um é antitrombótico; o do outro é tratar a causa, e dar antitrombótico ali costuma só sangrar.

Por fim, o mecanismo explica a droga. O trombo se forma sobre plaqueta ativada e trombina gerada, e são exatamente essas duas coisas que a prescrição inicial ataca: ácido acetilsalicílico e inibidor de P2Y12 na plaqueta, heparina ou fondaparinux na cascata. Nitrato e betabloqueador não mexem no trombo — mexem no consumo de oxigênio, reduzindo frequência, pressão e contratilidade, e é por isso que aliviam a dor sem mudar mortalidade.

05

Como se apresenta de verdade

O espectro desta síndrome é largo por definição: ela vai da angina que mudou de padrão ao paciente em choque, e o mesmo rótulo cobre os dois. O que segue são as formas em que ela entra pela porta, organizadas pelo que cada uma muda na sua conduta.

A dor que mudou de padrão — o que a palavra instável quer dizer

A apresentação mais comum não é uma dor nova: é uma dor conhecida que mudou. Três formas, e todas contam. Angina em repouso, prolongada, acima de 20 minutos. Angina de início recente, em classe funcional limitante, nas últimas duas semanas. E angina em crescendo: a que aparecia no quarteirão e agora aparece na esquina, ou a que cedia com um nitrato e agora precisa de três.

O tempo importa duas vezes. Agravamento dos sintomas nas últimas 48 horas é critério de alto risco; dor prolongada em repouso também. Dor de até 20 minutos com alívio espontâneo ou com nitrato, em paciente sem outros marcadores, cai na faixa de baixo risco. É a mesma queixa, e a diferença entre observação e cateterismo em 24 horas está no relógio da história, que só se levanta perguntando.

O paciente que chega sem dor

Boa parte dos pacientes está assintomática quando você examina, porque o trombo suboclusivo é intermitente. Isso não é melhora: é a fase entre dois episódios. O erro de sequência aqui é caro — examinar um paciente confortável, ver um eletro sem supra e concluir que não é o coração. A ausência de dor no momento do exame não é dado de exclusão de nada, e a decisão continua sendo da história e da segunda troponina.

O eletro que não ajuda — e o que ele diz de prognóstico mesmo assim

De 1% a 6% dos pacientes têm traçado normal ou não diagnóstico na admissão. Isso não empata os desfechos: quem chega com inversão de onda T ou eletro normal tem mortalidade em torno de 1,2%, contra 8% de quem chega com infradesnivelamento e 11,6% de quem chega com bloqueio de ramo esquerdo, hipertrofia ventricular ou ritmo de marca-passo. O traçado mais difícil de interpretar é o de pior prognóstico, e diante dele o primeiro movimento é procurar um traçado antigo, não um segundo médico.

Quando a primeira manifestação já é a complicação

Uma parte dos pacientes não se apresenta com dor, e sim com o que a isquemia provocou: dispneia com estertores novos, sopro de regurgitação mitral que apareceu, terceira bulha, hipotensão, bradicardia ou taquicardia. Todos esses são achados de exame físico que constam da coluna de alto risco, e nenhum deles depende de exame complementar.

O extremo é a instabilidade hemodinâmica ou o choque cardiogênico, que junto com dor refratária, arritmia maligna, parada, complicação mecânica, insuficiência cardíaca aguda e alteração recorrente de ST-T com elevação intermitente forma a lista da estratégia invasiva de urgência. Nesses pacientes o cateterismo é imediato, e onde não há hemodinâmica eles devem ser transferidos.

A angina que aparece depois do infarto e depois do stent

Dois pacientes chegam com uma história curta e um antecedente que muda tudo. O primeiro é o que infartou há dias ou semanas e voltou com dor: angina pós-infarto está na coluna de alto risco e obriga a cinecoronariografia sem passar por teste funcional. O segundo é o que colocou stent e voltou com dor igual à de antes — nele a pergunta é se a antiagregação dupla foi interrompida, e a resposta costuma ser uma frase como acabou a caixa, ou o dentista mandou parar. Angioplastia ou revascularização prévias também pontuam como risco intermediário por si sós.

A troponina que chega antes da suspeita

Existe uma apresentação que não começa no paciente: começa no resultado. Alguém pediu troponina num paciente internado por outra coisa, ela veio alterada, e agora o telefone toca. A pergunta a fazer não é qual a conduta para troponina alta — é se há isquemia, e isso se responde com quadro clínico, eletrocardiograma e a segunda dosagem. Sem curva e sem quadro isquêmico, o nome é lesão miocárdica, e a conduta é tratar a causa. Chamar isso de síndrome coronariana aguda produz um paciente anticoagulado, um cateterismo marcado e uma sepse tratada tarde.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação aqui tem uma característica que a distingue da do infarto com supra: nenhum exame isolado fecha o diagnóstico, e o exame que mais informa é o mesmo exame feito duas vezes. O eletrocardiograma responde uma pergunta e cala sobre o resto; a troponina responde outra, e só quando comparada consigo mesma. Quem procura uma foto que decida vai encontrar um paciente liberado com uma troponina normal de admissão.

O eletro decide uma coisa, e a segunda cópia decide outra

O primeiro ECG deve ser obtido e interpretado em até 10 minutos, procurando supra e outros sinais de isquemia ou oclusão. Ele não encerra a investigação quando é normal ou inespecífico: sintomas recorrentes, deterioração ou alta suspeita pedem novos traçados, derivações complementares quando pertinentes e avaliação imediata pela equipe. Alterações de ST e T informam diagnóstico e risco. Oclusões da circunflexa ou da coronária direita podem não produzir o padrão clássico nas 12 derivações.

O que transforma o eletro no exame mais útil desta síndrome é a repetição por evento. Repita entre 15 e 30 minutos em quem segue sintomático, e repita imediatamente a cada recorrência de dor, comparando com o traçado guardado, na mesma derivação. Alteração dinâmica — o infra ou a inversão que aparecem com a dor e regridem quando ela passa — é achado de alto risco e muda o prazo do cateterismo. Um traçado por plantão não detecta isso; um traçado por episódio detecta.

A troponina é uma curva, e por isso não se pede uma só

As troponinas são os biomarcadores de escolha, com acurácia superior à da CK-MB massa, e permanecem elevadas por até sete dias depois do infarto. Elevação acima do percentil 99 do ensaio define lesão miocárdica. O que define lesão aguda é comportamento dinâmico: ascensão, ou queda. Valor persistentemente elevado, sem variação, é lesão crônica.

Daí a regra que organiza o bloco inteiro: colhe-se na admissão e repete-se, e a diretriz brasileira recomenda o algoritmo de investigação em 3 horas, com o paciente monitorado dentro de um protocolo de diagnóstico acelerado. A maior limitação das troponinas convencionais é a baixa sensibilidade quando o quadro começou há menos de 6 horas — exatamente no paciente que chegou cedo e mais tem a ganhar. E o resultado precisa voltar em até 60 minutos da coleta; onde o laboratório não entrega nesse prazo, o teste à beira do leito deve ser considerado, porque protocolo com resultado de três horas não é protocolo acelerado.

Duas curvas de troponina acima do percentil 99: uma dinâmica e outra relativamente estável.
Elevação ou queda significativa favorece lesão miocárdica aguda; relativa estabilidade pode sugerir lesão crônica, dependendo do momento da coleta e do contexto. Infarto exige também evidência de isquemia. Os valores são esquemáticos, e os intervalos e deltas relevantes dependem do ensaio e do protocolo. Ilustração didática original.

O que a troponina ultrassensível mudou — e o que veio junto

A troponina ultrassensível detecta concentrações 10 a 100 vezes menores que a convencional, e é expressa em nanogramas por litro em vez de nanogramas por mililitro. Em quem chega com menos de 3 horas de sintoma, ela melhora em 61% o poder diagnóstico de infarto naquele momento, e em 100% se a coleta for 6 horas após o início. Foi ela que tornou possíveis os algoritmos acelerados.

Veio junto uma consequência que o interno precisa entender antes de pedir o exame: o aumento da sensibilidade reduziu o percentual de pacientes diagnosticados como angina instável e aumentou o de infarto sem supradesnivelamento. A doença não mudou; a régua mudou. E, quanto mais baixo o limiar de detecção, mais gente com miocárdio que sofre por outro motivo aparece com o exame alterado. Uma troponina detectável não é um diagnóstico — é uma pergunta, e quem a pediu sem ter uma pergunta clínica antes agora tem um resultado que precisa explicar e um paciente que não pode mais ir para casa sem explicação.

O que eleva troponina e não é coronariopatia

A troponina identifica lesão do miócito com precisão, e não identifica o mecanismo dela. A lista das causas está no próprio documento e cabe na cabeça se organizada por três perguntas. Faltou oferta? Espasmo coronariano, doença microvascular, embolia ou dissecção coronariana, bradiarritmia sustentada, hipotensão ou choque, insuficiência respiratória, anemia grave. Sobrou consumo? Taquiarritmia sustentada, crise hipertensiva. Nem uma coisa nem outra, e o músculo sofre assim mesmo? Insuficiência cardíaca, miocardite, cardiomiopatias, síndrome de Takotsubo, contusão miocárdica, cardioversão elétrica — e, fora do coração, sepse, doença renal crônica, acidente vascular cerebral e hemorragia subaracnóidea, embolia pulmonar, doença infiltrativa, quimioterápicos, doente crítico e atividade física extrema.

Elevação sem isquemia demonstrada por quadro clínico, eletro ou imagem chama-se lesão miocárdica aguda, e não infarto. A distinção não é semântica: ela existe para evitar intervenção invasiva desnecessária e para não desviar a atenção da doença que de fato está descompensando o paciente. Dois rótulos ajudam a organizar o que sobra: MINOCA, o infarto com coronárias sem obstrução significativa, presente em cerca de dois terços dos casos com apresentação de infarto sem supra; e TINOCA, o grupo maior das troponinas positivas sem obstrução coronariana, que inclui o MINOCA e as causas não isquêmicas.

O que não pedir, e o que custa pedir

Onde existe troponina ultrassensível, nenhum outro marcador deve ser solicitado de rotina para o diagnóstico de infarto, e a mioglobina é recomendação classe III. A CK-MB massa continua sendo pedida por hábito e traz um problema próprio: eleva-se por dano em músculo liso e esquelético, e em cerca de 4% dos pacientes vem positiva com troponina normal. Quando as duas estão dentro da janela cinética e discordam, decide-se pela troponina — o resultado extra só serviu para criar dúvida.

O ecocardiograma transtorácico não é exame de triagem aqui: ele entra no diferencial com doença de aorta, pericárdio, embolia pulmonar e valvopatia, e de urgência diante de complicação mecânica. Teste funcional em paciente com angina instável de alto risco é recomendação classe III — quem tem critério de alto risco vai direto à angiografia, sem passar por prova de esforço. E a troponina pedida sem pergunta clínica é o exame que mais gera internação evitável nesta síndrome: em quem tem baixa probabilidade, um valor discretamente acima do percentil 99 costuma refletir comorbidade, e o custo aparece em leito ocupado, anticoagulante prescrito e cateterismo marcado.

Três achados da lista nacional que mudam a receita

Três achados da lista nacional mudam a prescrição real. O primeiro: o clopidogrel de 75 mg está na relação nacional, no componente especializado, vinculado justamente ao protocolo de síndromes coronarianas agudas — enquanto ticagrelor e prasugrel não constam da lista, e as duas tiveram recomendação de não incorporação ao SUS: o ticagrelor em 2013, por deliberação unânime seguida de portaria publicada, com o argumento da pequena magnitude do efeito diante do clopidogrel e do excesso de sangramento; o prasugrel em 2020, por atender a um subgrupo específico e com incertezas quanto a benefício e segurança. A diretriz de sociedade prefere ticagrelor ao clopidogrel; a lista nacional só tem o segundo. Saber disso evita a receita que a farmácia devolve.

O segundo: a enoxaparina está na lista apenas nas seringas de 40 mg e de 60 mg. Como todas as apresentações comerciais são de 100 mg por mL, dose por peso é sempre possível numa seringa graduada — mas vale conferir o que o seu serviço padroniza antes de escrever 0,78 mL. O fondaparinux não consta. O terceiro: não há betabloqueador injetável na lista nacional, e não há nitrato endovenoso. Onde a diretriz oferece a via venosa como alternativa, a rede oferece o comprimido e o sublingual — e uma conduta que depende de apresentação que o serviço não tem não é conduta, é intenção.

07

O risco não escolhe a droga — escolhe o relógio

A ausência de supra persistente inicia uma avaliação seriada; não é certificado de baixo risco nem prova de obstrução parcial. Relacione a evolução da dor, do ECG e da troponina com a estabilidade clínica. O risco muito alto exige avaliação invasiva imediata, enquanto a pessoa estável permite organizar a investigação e o tratamento conforme o risco. Todo mundo com esta síndrome recebe praticamente a mesma prescrição inicial: antiagregação, anticoagulação, anti-isquêmico e estatina. O que a estratificação de risco decide é outra coisa, e é a única decisão realmente difícil da noite: em quanto tempo esta artéria vai ser olhada por dentro, e onde este paciente espera até lá. Por isso o fluxo abaixo não termina num diagnóstico — termina num horário e num leito.

  1. 1Porta. Dor ou desconforto compatível com isquemia abre o protocolo, e o eletrocardiograma de 12 derivações sai e é interpretado por um médico em até 10 minutos do primeiro contato.
  2. 2Sem supra persistente: manter avaliação clínica, ECG seriado e biomarcador. Esse achado não exclui oclusão coronariana. Instabilidade, dor refratária, arritmia ameaçadora ou sinais de oclusão pouco representada no ECG exigem avaliação invasiva imediata. Guardar o traçado com horário para comparação.
  3. 3Troponina na admissão, e a segunda com hora escrita na prescrição — três horas depois no algoritmo da diretriz nacional de sociedade. Enquanto ela não volta, o tratamento começa: ácido acetilsalicílico, anticoagulante, anti-isquêmico. Esperar resultado não é sinônimo de não fazer nada.
  4. 4Comparar troponinas com o ensaio, os horários e o contexto. Ascensão ou queda significativa com evidência de isquemia sustenta infarto. Valores estáveis sugerem lesão crônica, mas não a confirmam por duas amostras sem considerar o momento da apresentação. Angina instável é hipótese clínica após excluir lesão aguda; troponina elevada de outra causa não autoriza tratamento antitrombótico indiscriminado.
  5. 5Estratificação. Instabilidade hemodinâmica, dor refratária, arritmia maligna, complicação mecânica, insuficiência cardíaca aguda ou alteração recorrente de ST-T com elevação intermitente colocam o paciente na rota imediata. Fora dela, o que decide o prazo é a soma de troponina, alteração dinâmica de ST, escore e comorbidade.
  6. 6O telefonema. Pergunte com número: em que dia e a que hora este paciente entra na hemodinâmica? Anote a resposta, o nome de quem respondeu e a hora. Esse número é o que define se ele está em estratégia invasiva ou em manejo clínico de fato — e é isso, e não o rótulo do prontuário, que muda a prescrição.
  7. 7A reavaliação como porta de escape. Dor que volta, alteração nova no traçado, queda de pressão ou arritmia reclassificam o paciente para cima a qualquer hora do dia ou da noite, e quem reclassifica é quem está no plantão.
11,6%

Bloqueio de ramo, hipertrofia ventricular ou ritmo de marca-passo — 11,6%

O traçado mais difícil de ler é o de maior mortalidade hospitalar. Não é coincidência: ele esconde a isquemia e costuma marcar coração já doente. Diante dele, procure traçado antigo antes de qualquer conclusão.

8%

Infradesnivelamento do segmento ST — 8%

É o achado que mais pesa na estratificação desta síndrome: acima de 0,5 mm ele pontua no escore, e alteração dinâmica de ST põe o paciente na faixa de alto risco, com cateterismo em menos de 24 horas.

7,4%

Elevação transitória do segmento ST — 7,4%

Supra que aparece e some não é rota de fibrinólise, e também não é achado para observar de longe: alteração recorrente de ST-T com elevação intermitente é indicação de estratégia invasiva de urgência.

1,2%

Onda T invertida ou eletrocardiograma normal — 1,2%

A faixa de menor mortalidade, e a que mais engana: menor não é nula, e o traçado normal aparece em 1% a 6% dos pacientes desta síndrome. É a coluna em que mora o paciente que recebe alta e volta pior.

Faixa de riscoO que põe o paciente nelaEm quanto tempo a artéria é olhada por dentroO que muda na sua prescrição enquanto isso
Muito altoInstabilidade hemodinâmica ou choque; dor refratária ao tratamento; arritmia maligna ou parada cardiorrespiratória; complicação mecânica; insuficiência cardíaca aguda; alteração recorrente de ST-T com elevação intermitente do STImediato — a diretriz de sociedade fala em intervenção coronariana em até 2 horas, e onde não há hemodinâmica esses pacientes devem ser transferidosSegundo antiagregante fica para a sala de cateterismo, com a anatomia conhecida. Heparina não fracionada é a preferida em quem vai ao estudo hemodinâmico de imediato, para não haver troca de heparina no meio do caminho
AltoTroponina positiva; alteração dinâmica de ST ou de onda T; escore GRACE acima de 140; angina pós-infarto; insuficiência cardíaca agudaEstratégia invasiva precoce, em menos de 24 horas, na régua da sociedade; o documento nacional escreve até 72 horas, e 24 quando houver múltiplos fatores de riscoSe o cateterismo tem hora marcada nas próximas 24 horas, o inibidor de P2Y12 pode esperar a anatomia. Se não tem, o paciente está em manejo clínico e recebe o segundo antiagregante agora
IntermediárioDiabetes ou insuficiência renal; fração de ejeção abaixo de 40% ou insuficiência cardíaca; angioplastia ou revascularização cirúrgica prévias; escore GRACE entre 109 e 140; sintomas recorrentes ou teste funcional positivoCinecoronariografia em até 72 horas — ou estratificação não invasiva, com teste funcional depois de no mínimo 12 horas sem isquemia em repouso e aos mínimos esforçosDupla antiagregação e anticoagulante mantidos, com a mesma dose de quem vai cateterizar. A diferença entre as duas faixas está no prazo, não no rigor do tratamento clínico
BaixoNenhuma característica das faixas acima; dor em repouso de até 20 minutos com alívio espontâneo ou com nitrato; eletrocardiograma normal ou inalterado durante o episódio; marcadores normais nas duas coletasNão vai ao cateterismo nesta internação. Teste ergométrico depois de 9 a 12 horas em observação, que dentro de uma unidade de dor torácica pode ser feito como critério de altaAntiagregação dupla e anticoagulante não são obrigatórios em quem sai com investigação negativa. O que é obrigatório é a receita da prevenção secundária quando houver doença coronariana provável, e a palavra de retorno por escrito

Troponina: o que a curva responde, e o que o valor sozinho nunca respondeu

O que você tem na telaO que isso éO que fazer agora
Primeira dosagem normal, em paciente com menos de 3 horas de sintomaNada, ainda. A limitação clássica das troponinas convencionais é a baixa sensibilidade abaixo de 6 horas de quadro; a ultrassensível melhora muito esse desempenho, mas nenhuma delas exclui doença com uma coleta sóRepetir na hora escrita na prescrição e manter o paciente monitorado. Nenhuma alta se apoia numa única troponina de quem chegou cedo
Acima do percentil 99 do ensaio na admissão, subindo na segunda coletaLesão miocárdica aguda. Se há sintoma isquêmico, alteração nova de ST ou de onda T, ou alteração segmentar nova de contratilidade, o nome é infarto agudo do miocárdio sem supradesnivelamentoEstratificar risco e definir o prazo do cateterismo. É neste momento que o paciente muda de faixa e o relógio encurta
Acima do percentil 99 na admissão e praticamente igual na segunda coletaLesão miocárdica crônica. Valores persistentemente elevados, sem ascensão nem queda, descrevem um miocárdio que sofre há tempo — não um evento de hojeProcurar a causa e não anticoagular por reflexo. Anotar no prontuário qual é a troponina basal deste paciente, para o plantonista da próxima vez
Duas dosagens normais, e a dor continua ou volta em repousoAngina instável: isquemia miocárdica sem necrose. Ela existe, tem risco que vai de baixo a alto, e não some porque o exame de sangue veio normalManter na estratificação. Troponina normal exclui infarto, não exclui síndrome coronariana aguda — e não autoriza tirar o paciente do protocolo
Valor muito alto de uma vez, em paciente com sepse, taquiarritmia, embolia pulmonar, insuficiência cardíaca descompensada, anemia grave ou doença renal crônicaProvável lesão miocárdica sem isquemia coronariana, ou isquemia por desequilíbrio entre oferta e consumo. A troponina identifica lesão com precisão e não identifica o mecanismo delaTratar a causa. Diferenciar isquêmico de não isquêmico existe para evitar intervenção invasiva desnecessária e para não deixar de tratar a doença que de fato está matando o paciente
CK-MB massa positiva com troponina normal, ambas dentro da janelaFalso-positivo de CK-MB, que ocorre em cerca de 4% dos pacientes: ela também se eleva por dano em músculo liso e esqueléticoDecidir pela troponina. Onde há troponina ultrassensível, nenhum outro marcador deve ser pedido de rotina para diagnóstico de infarto

Miligrama, mililitro e comprimido: a conta refeita na apresentação real

Fármaco e apresentaçãoO que a caixa ou o frasco contémDose nesta síndromeA conta já feita
Ácido acetilsalicílico — comprimido de 100 mg e comprimido de 500 mg (Componente Básico)São as duas únicas apresentações da relação nacional. Não existe comprimido de 81 mg no BrasilAtaque de 150 a 300 mg em quem não usava, mastigado; manutenção de 75 a 100 mg por dia, por tempo indeterminadoAtaque praticável: 200 mg, que são 2 comprimidos de 100 mg, ou 300 mg, que são 3. Manutenção: 1 comprimido de 100 mg. Metade do comprimido de 500 mg dá 250 mg e serve de alternativa quando só houver essa apresentação
Clopidogrel — comprimido de 75 mg (Componente Especializado, vinculado ao próprio protocolo de síndromes coronarianas agudas)Apresentação única de 75 mgQuando indicado, ataque de clopidogrel de 300 a 600 mg e manutenção de 75 mg/dia, conforme estratégia e momento da angiografia. Não fazer pré-tratamento automaticamente antes de angiografia precoce com anatomia desconhecida. A omissão de ataque por idade ≥75 anos aplica-se à fibrinólise do IAM com supra, não a toda SCA sem supra.300 mg = 4 comprimidos. 600 mg = 8 comprimidos. Manutenção = 1 comprimido por dia. O hospital entrega 30 comprimidos no dia da alta até que o componente especializado assuma
Enoxaparina — seringa preenchida de 20, 40, 60, 80 e 100 mg (a relação nacional lista as de 40 mg e 60 mg)Todas as apresentações são de 100 mg por mL: 40 mg em 0,4 mL, 60 mg em 0,6 mL, e assim por diante1 mg/kg por via subcutânea de 12 em 12 horas, até a revascularização, por 8 dias ou até a alta. Acima de 75 anos, 75% da dose. Com clearance entre 15 e 29 mL/min, 1 mg/kg a cada 24 horas. Abaixo de 15 mL/min, não usarComo a concentração é 100 mg/mL, o número de miligramas dividido por 100 é o volume em mililitros: 60 kg = 60 mg = 0,60 mL; 78 kg = 78 mg = 0,78 mL; 95 kg = 95 mg = 0,95 mL. Aos 80 anos e 70 kg, 75% de 70 mg = 52,5 mg = 0,53 mL
Heparina não fracionada — frasco-ampola de 5 mL a 5.000 UI/mL (25.000 UI); a relação nacional lista a apresentação de 5.000 UI em 0,25 mLFrasco de 5 mL = 25.000 UI. Ampola de 0,25 mL = 5.000 UI, ou seja, 20.000 UI/mLBolus de 60 a 70 UI/kg endovenoso antes da coronariografia, seguido de infusão de 12 a 15 UI/kg/h, com alvo de tempo de tromboplastina entre 1,5 e 2,5 vezes o controleDiluindo um frasco de 25.000 UI em 250 mL, a solução fica com 100 UI/mL: 70 kg a 12 UI/kg/h = 840 UI/h = 8,4 mL/h; 82 kg = 984 UI/h = 9,8 mL/h. O bolus de 4.200 UI de um paciente de 70 kg cabe em 0,21 mL da apresentação concentrada — volume pequeno demais para injetar direto, e por isso se dilui antes
Dinitrato de isossorbida — comprimido sublingual de 5 mg (Componente Básico)Comprimido único de 5 mg. O mononitrato oral de 20 mg e 40 mg é para depois, não para a dor da sala1 comprimido sublingual para alívio da angina, repetível a cada 5 minutos, sem ultrapassar 3 comprimidosTeto: 15 mg em 15 minutos. Contraindicado com sistólica abaixo de 100 mmHg, ou com sildenafila nas últimas 24 horas e tadalafila nas últimas 48
Metoprolol e atenolol — comprimidos de 100 mg (tartarato de metoprolol), de 25, 50 e 100 mg (succinato de liberação prolongada) e de 50 e 100 mg (atenolol)Todos por via oral. A relação nacional não traz apresentação injetável de betabloqueadorMetoprolol 50 a 100 mg de 12 em 12 horas; atenolol 25 a 50 mg de 12 em 12 horas, começando nas primeiras 24 horas em quem não tem contraindicaçãoA via endovenosa descrita na diretriz — 5 mg a cada 5 minutos até 15 mg de metoprolol, ou até 10 mg de atenolol — depende de apresentação que não está na lista nacional: confira o que existe no seu carrinho antes de prescrever
Sulfato de morfina — solução injetável de 10 mg/mL (Componente Especializado, vinculado ao protocolo de dor crônica)1 ampola de 1 mL = 10 mg2 a 4 mg por via endovenosa, diluídos, a cada 5 minutos, no máximo 25 mg, e só na dor refratária ao nitrato e ao betabloqueadorDiluindo 1 ampola (10 mg) em 9 mL de água destilada tem-se 1 mg/mL: 2 mg = 2 mL; 4 mg = 4 mL. Uso rotineiro precoce associou-se a mais mortalidade hospitalar e a menor efeito antiplaquetário do clopidogrel
Estatinas — sinvastatina de 10, 20 e 40 mg (Componente Básico) e atorvastatina de 10, 20, 40 e 80 mg (Componente Especializado, vinculada ao protocolo de dislipidemia)Comprimidos. A de alta potência que existe na lista nacional é a atorvastatinaEstatina de alta potência iniciada ainda na internação, independentemente do colesterol de entradaAtorvastatina 80 mg = 1 comprimido de 80 mg, ou 2 de 40 mg. A prescrição de alta precisa dizer que é para continuar, porque esta é a droga que o paciente mais abandona por se sentir bem

O sumário de recomendações de antiplaquetários da diretriz de sociedade prescreve ácido acetilsalicílico em dose de ataque de 162 a 300 mg e manutenção de 81 a 100 mg por dia — enquanto o corpo do mesmo documento, em duas passagens, escreve 150 a 300 mg de ataque e 75 a 100 mg de manutenção. Os números 81 e 162 são a apresentação americana, de 81 mg e de dois comprimidos de 81 mg; no Brasil o ácido acetilsalicílico da relação nacional vem em 100 mg e em 500 mg. Não há como montar 81 mg (0,81 comprimido) nem 162 mg (1,62 comprimido) com o que existe na farmácia. O mesmo 81 mg reaparece no protocolo nacional, na orientação de baixa dose para quem usa anticoagulante oral. Na prática brasileira as doses praticáveis são 200 ou 300 mg de ataque e 100 mg de manutenção, e é o que este capítulo prescreve.

As faixas do escore de sangramento reproduzido na mesma diretriz deixam de fora justamente os valores redondos de beira de leito. O hematócrito vai de 37 a 39,9 e depois salta para acima de 40: um hematócrito de exatamente 40% não cai em faixa nenhuma. O clearance de creatinina vai de abaixo de 15 para 16 a 30, e deixa o 15 de fora. A frequência cardíaca vai de abaixo de 70 para 71 a 80, e deixa o 70. A sistólica vai de abaixo de 90 para 91 a 100, e deixa o 90. São quatro das oito variáveis, e a indeterminação soma 9 pontos conforme se arredonde para cima ou para baixo. A tabela do outro escore de sangramento, na página seguinte, traz as faixas etárias como 50 a 69 e 60 a 69 lado a lado: um paciente de 65 anos pontua 3 ou 6 dependendo de qual linha se lê, e a faixa de 50 a 59 não está impressa.

A mesma diretriz apresenta as formas de eletrocardiograma na admissão como uma partição da coorte de um registro clássico: desvio de ST acima de 1 mm em 14,3%, bloqueio de ramo esquerdo em 19%, inversão isolada de onda T em 21,9% e ausência dessas alterações em 54,9%. Somando, dá 110,1%. O único valor que fecha a conta em 100% é 9% de bloqueio de ramo esquerdo, e a diferença não é decorativa: muda o achado de um em cada cinco pacientes para um em cada onze.

A classe de recomendação do prazo do cateterismo aparece trocada entre a tabela e o sumário do mesmo documento. Na tabela que cruza risco e estratégia, a invasiva imediata figura como classe I, nível C, e a invasiva em até 72 horas como classe I, nível A; no sumário de recomendações do capítulo de cinecoronariografia, a imediata é classe I nível A e a de até 72 horas é classe I nível C. O nível de evidência da conduta mais urgente e o da menos urgente estão invertidos entre as duas apresentações. A conduta não muda — as duas são classe I —, mas quem cita nível de evidência numa discussão de caso precisa saber de onde tirou a letra.

Duas réguas nacionais discordam sobre o teto da heparina não fracionada. A diretriz de sociedade escreve bolus de 60 a 70 UI/kg com máximo de 5.000 UI e infusão de 12 a 15 UI/kg/h, com alvo de tempo de tromboplastina de 1,5 a 2,5 vezes o controle; o protocolo nacional escreve bolus de 60 UI/kg com máximo de 4.000 UI e manutenção de 12 UI/kg/h até 1.000 UI/h, com alvo de 1,5 a 2,0 vezes. Num paciente de 82 kg o bolus calculado é de 4.920 UI: passa inteiro pela primeira régua e é cortado em 920 UI pela segunda. Num de 95 kg, o cálculo dá 5.700 UI, e o corte é de 700 UI numa régua e de 1.700 na outra. Escolha uma régua, escreva qual no prontuário, e ajuste pelo tempo de tromboplastina — que é o que governa a dose depois da primeira hora.

No fluxograma de edema agudo do protocolo nacional de síndromes coronarianas, a nitroglicerina endovenosa aparece como 0,3 a 0,5 mcg/min, sem o por quilo. Numa diluição habitual de 50 mg em 250 mL, que dá 200 mcg/mL, 0,5 mcg/min sairia a 0,15 mL por hora — velocidade que bomba nenhuma entrega de forma confiável. Lida como 0,3 a 0,5 mcg/kg/min, num paciente de 70 kg, a mesma linha viraria 21 a 35 mcg/min, setenta vezes o número impresso; e o piso de 10 mcg/min da diretriz de sociedade já é vinte vezes o teto impresso. A titulação do nitrato endovenoso pertence ao capítulo de edema agudo de pulmão, e é lá que ela deve ser buscada; o que interessa aqui é que a nitroglicerina injetável não consta da relação nacional de medicamentos essenciais, e o nitrato desta síndrome, na maioria dos serviços, é o dinitrato de isossorbida sublingual.

08

A conduta, hora a hora

A linha do tempo abaixo é a de Maurílio: 63 anos, 78 quilos, dor em repouso de 25 minutos há quatro horas, agora sem dor, com infradesnivelamento de 1 mm em cinco derivações e sem supradesnivelamento. Hospital com unidade coronariana e sem hemodinâmica. Repare que quase tudo o que se faz nas primeiras horas é igual para angina instável e para infarto sem supra — porque a diferença entre os dois só chega com a segunda troponina, e o tratamento não espera por ela.

  1. Minuto 0 a 10 — o traçado, e a única pergunta que ele responde

    Dez minutos do primeiro contato é o prazo do traçado, já interpretado por um médico. Ele decide uma coisa só: se há supradesnivelamento persistente, que exigiria reperfusão em minutos. Não havendo, ele não descartou nada — de 1% a 6% dos pacientes desta síndrome têm traçado normal ou não diagnóstico na chegada.

    Prescrição
    • Eletrocardiograma de 12 derivações em até 10 minutos da chegada, guardado com hora, e repetido entre 15 e 30 minutos em quem segue sintomático (SBC, 2021)
    • Monitorização eletrocardiográfica contínua e acesso venoso, com a coleta na mesma punção: hemograma, ureia, creatinina, sódio, potássio, glicemia, coagulograma e troponina (SBC, 2021)
    • Glicemia capilar na admissão em todo suspeito, e controle com insulina intermitente acima de 180 mg/dL, tolerando valores um pouco mais altos em idoso, nefropata ou paciente em jejum, para não causar hipoglicemia (SBC, 2021)
  2. Minuto 10 a 20 — o primeiro antiagregante, e a pergunta que precede o segundo

    Antes da primeira dose de antitrombótico: os dois pulsos radiais e a pressão nos dois braços. Descartada a dissecção, o ácido acetilsalicílico entra. O segundo antiagregante não é automático — ele depende de uma informação que você levanta por telefone, não no paciente.

    Prescrição
    • Ácido acetilsalicílico o mais precoce possível em todos, sem contraindicação, em dose de ataque de 150 a 300 mg mastigados — na apresentação brasileira, 2 ou 3 comprimidos de 100 mg — e manutenção de 75 a 100 mg por dia (SBC, 2021; apresentações conferidas na Rename 2024)
    • Em alérgico ao ácido acetilsalicílico: monoterapia inicial com inibidor de P2Y12; onde só há clopidogrel, ataque de 300 mg e manutenção de 75 mg por dia (SBC, 2021; MS/Conitec, protocolo de SCA)
    • Clopidogrel 300 mg de ataque, que são 4 comprimidos de 75 mg, seguidos de 75 mg por dia — a considerar 600 mg em quem tem estratégia invasiva precoce, com o aumento de risco de sangramento pesado (MS/Conitec, protocolo de SCA)
    • Na SCA sem supra, idade de 75 anos ou mais não impõe, isoladamente, omissão do ataque de clopidogrel. A regra de 75 mg sem ataque pertence à fibrinólise do IAM com supra. Aqui, a escolha e o momento do P2Y12 dependem de risco hemorrágico, previsão de angiografia e estratégia da equipe (ACC/AHA, SCA 2025, seção 4.3.2).
    • Não pré-tratar com inibidor de P2Y12 o paciente instável ou de risco elevado indicado para estratégia invasiva imediata: a escolha fica para a sala de cateterismo, com a anatomia conhecida (SBC, 2021, classe I, nível B)
    • Prasugrel só depois da angiografia, e nunca sem anatomia conhecida; ticagrelor 180 mg de ataque e 90 mg de 12 em 12 horas — nenhum dos dois consta da relação nacional de medicamentos essenciais, e as duas tiveram recomendação de não incorporação ao SUS — o ticagrelor em 2013, com portaria publicada, e o prasugrel em 2020 (SBC, 2021; Conitec, relatórios nº 41 e nº 578; Rename 2024)
  3. Minuto 15 a 30 — a anticoagulação, com o peso e o rim na mão

    A anticoagulação entra em todos, o mais rápido possível, e é a parte da prescrição que mais erra por falta de duas contas: o peso aferido, não estimado, e o clearance de creatinina calculado, não presumido pela creatinina isolada.

    Prescrição
    • Enoxaparina 1 mg/kg por via subcutânea de 12 em 12 horas até a revascularização, por 8 dias ou até a alta hospitalar — 78 mg, ou 0,78 mL, para Maurílio (SBC, 2021, classe I, nível A)
    • Com 75 anos ou mais, 75% da dose. Com clearance entre 15 e 29 mL/min, 1 mg/kg a cada 24 horas. Abaixo de 15 mL/min ou acima de 150 kg, enoxaparina não: heparina não fracionada (SBC, 2021)
    • Heparina não fracionada quando o estudo hemodinâmico é imediato, para evitar a troca de heparinas: bolus de 60 a 70 UI/kg, com teto, seguido de 12 a 15 UI/kg/h com tempo de tromboplastina alvo entre 1,5 e 2,5 vezes o controle (SBC, 2021; teto de 4.000 UI e alvo de 1,5 a 2,0 vezes no MS/Conitec, protocolo de SCA)
    • Fondaparinux 2,5 mg por via subcutânea uma vez ao dia é a alternativa de menor sangramento no manejo conservador, e exige heparina não fracionada no momento da angioplastia pelo risco de trombose de cateter — mas não consta da relação nacional (SBC, 2021; Rename 2024)
    • Não trocar de heparina no meio do tratamento: a troca entre heparina não fracionada e enoxaparina é recomendação classe III (SBC, 2021)
  4. Minuto 20 a 45 — a dor, o betabloqueador e o oxigênio que faz mal

    Nitrato e betabloqueador são os anti-isquêmicos de primeira escolha na sala. A morfina fica para a dor que não cede, e o oxigênio só existe se houver hipoxemia — não é conforto, é intervenção com efeito adverso.

    Prescrição
    • Dinitrato de isossorbida 5 mg por via sublingual para alívio da angina, repetível a cada 5 minutos, sem ultrapassar 3 comprimidos (SBC, 2021; apresentação conferida na Rename 2024)
    • Nitrato contraindicado com sistólica abaixo de 100 mmHg, com infarto de ventrículo direito, e e em quem usou sildenafila há menos de 24 horas ou tadalafila há menos de 48 (SBC, 2021, classe III, nível A)
    • Betabloqueador por via oral nas primeiras 24 horas em quem não tem contraindicação — metoprolol 50 a 100 mg de 12 em 12 horas, ou atenolol 25 a 50 mg de 12 em 12 horas (SBC, 2021, classe IIa, nível B)
    • Betabloqueador endovenoso é classe III em quem tem fatores de risco para choque cardiogênico: idade acima de 70 anos, frequência acima de 110 bpm ou sistólica abaixo de 120 mmHg (SBC, 2021)
    • Oxigênio suplementar, 2 a 4 L/min, apenas com saturação abaixo de 90% ou sinais de desconforto respiratório: oferecê-lo a quem tem saturação de 90% ou mais não reduziu mortalidade nem eventos em um ano num ensaio com mais de 6 mil pacientes, e o excesso prolongado causa vasoconstrição sistêmica (SBC, 2021, classe I, nível C)
    • Morfina 2 a 4 mg por via endovenosa, diluída, a cada 5 minutos, até 25 mg, apenas na dor que persiste apesar da terapia anti-isquêmica otimizada — ela reduz o efeito antiplaquetário dos inibidores de P2Y12, e o uso rotineiro precoce associou-se a mais mortalidade hospitalar (SBC, 2021, classe IIb, nível B)
    • Anti-inflamatórios não esteroides estão proibidos, e os de uso prévio devem ser suspensos na internação (SBC, 2021, classe III)
  5. Hora 3 — a segunda troponina, e o nome que o caso passa a ter

    É esta coleta que separa angina instável de infarto sem supra, e ela só acontece se estiver escrita com hora na prescrição. Compare os dois valores lado a lado: o que interessa é a variação, não o número.

    Prescrição
    • Segunda troponina 3 horas após a admissão, dentro do algoritmo de investigação acelerada, com o paciente monitorado (SBC, 2021)
    • Resultado de marcador de necrose disponível em até 60 minutos da coleta; onde o laboratório não entrega nesse prazo, considerar teste à beira do leito (SBC, 2021)
    • Onde há troponina ultrassensível, nenhum outro marcador deve ser pedido de rotina para diagnóstico de infarto; e mioglobina é recomendação classe III (SBC, 2021)
    • Ecocardiograma transtorácico não é rotina diagnóstica aqui: entra no diferencial com doença de aorta, pericárdio, embolia pulmonar e valvopatia, e de urgência diante de complicação mecânica (SBC, 2021, classe I, nível C)
  6. Hora 3 a 24 — o telefonema, o leito e a estatina

    Com o diagnóstico e o risco definidos, a decisão que resta é o prazo do cateterismo — e ela se toma no telefone, com número. Enquanto o número não existe, o paciente está em manejo clínico, e é assim que ele deve ser tratado.

    Prescrição
    • Internação em unidade coronariana para risco intermediário e alto, sempre que possível, até que a conduta definitiva seja implementada; após angioplastia, permanência de 12 a 24 horas se não houver complicação (SBC, 2021)
    • Cinecoronariografia imediata no muito alto risco; em menos de 24 horas no alto risco; em até 72 horas no risco intermediário, nos sintomas recorrentes e no teste funcional positivo (SBC, 2021)
    • Estatina de alta potência iniciada ainda na internação, independentemente do colesterol de entrada — a de alta potência disponível na lista nacional é a atorvastatina (MS/Conitec, protocolo de SCA; Rename 2024)
    • Inibidor da enzima conversora indefinidamente em quem tem diabetes, insuficiência cardíaca, hipertensão, doença renal crônica ou fração de ejeção abaixo de 40%: captopril 12,5 a 25 mg de 8 em 8 horas, até 50 mg de 8 em 8; ou enalapril 5 a 10 mg de 12 em 12 horas, até 20 mg de 12 em 12 (MS/Conitec, protocolo de SCA)
  7. Dia 1 a 3 — o paciente que vai esperar, e o que isso obriga

    Em boa parte dos serviços brasileiros o cateterismo do alto risco não acontece em 24 horas. Isso não transforma o paciente em caso de enfermaria: transforma a reavaliação no exame que decide, e o plantonista no responsável por reclassificá-lo.

    Prescrição
    • Manter anti-isquêmico e antitrombótico plenos enquanto se espera: o tratamento clínico deixou de ser ponte e passou a ser o tratamento (SBC, 2021)
    • Reclassificar para estratégia invasiva de urgência diante de instabilidade hemodinâmica, dor refratária, arritmia maligna, parada, complicação mecânica, insuficiência cardíaca aguda ou alteração recorrente de ST-T com elevação intermitente (SBC, 2021, Tabela 1.8, classe I nível A)
    • No risco intermediário sem recorrência, teste funcional é alternativa legítima, desde que o paciente esteja livre de isquemia em repouso e aos mínimos esforços por no mínimo 12 horas (MS/Conitec, protocolo de SCA)
  8. Alta — a receita em que a prevenção secundária começa

    O documento de alta vale aqui tanto quanto a prescrição da chegada, porque é dele que depende quase todo o benefício do primeiro ano. O critério de tempo: síndrome sem supra não complicada, depois da estratificação, no mínimo 48 horas de internação, com estabilidade hemodinâmica, elétrica e clínica e sem isquemia recorrente nas últimas 48 horas.

    Prescrição
    • Ácido acetilsalicílico 75 a 200 mg por dia, por tempo indeterminado, para todos — 1 comprimido de 100 mg na apresentação brasileira (MS/Conitec, protocolo de SCA; Rename 2024)
    • Clopidogrel 75 mg por dia: 9 meses no infarto sem supra pela régua nacional, 12 meses de dupla antiagregação pela régua de sociedade, e no mínimo 4 semanas quando o risco de sangramento for aumentado. O hospital entrega 30 comprimidos no dia da alta até que o componente especializado assuma (MS/Conitec, protocolo de SCA; SBC, 2021)
    • Betabloqueador por tempo indeterminado em quem evoluiu com queda da fração de ejeção, com ou sem sinais de insuficiência cardíaca; sem disfunção ventricular, propranolol 20 mg de 8 em 8 horas ou atenolol 25 mg por dia, com titulação; com disfunção, carvedilol 3,125 mg de 12 em 12 horas ou succinato de metoprolol 12,5 a 25 mg por dia (MS/Conitec, protocolo de SCA)
    • Estatina mantida, com meta de LDL, e a explicação de que ela continua mesmo depois de o exame normalizar (MS/Conitec, protocolo de SCA)
    • O que precisa estar escrito no papel que o paciente leva: a data de término da dupla antiagregação, o exame que ainda falta com onde e quando, e a palavra de retorno (MS/Conitec, protocolo de SCA)
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Como saber se está funcionando

Depois que a prescrição está feita, o interno costuma achar que o caso ficou parado até o cateterismo. É o contrário: como o trombo é intermitente e o prazo do procedimento quase nunca é o do livro, a reavaliação passa a ser o exame que decide. Sete parâmetros, e cinco deles não custam nada.

A recorrência da dor — e o que ela faz com o relógioPerguntada de hora em hora nas primeiras 12 horas, e registrada com hora sempre que houver episódio

Esperado: Ausência de novos episódios em repouso depois do início do tratamento anti-isquêmico e antitrombótico. Estabilidade clínica sem isquemia recorrente nas últimas 48 horas é um dos critérios de alta.

Se não melhora: Dor recorrente que cede reclassifica o paciente para cima na estratificação e encurta o prazo do cateterismo. Dor refratária ao tratamento medicamentoso é outra coisa: é indicação de estratégia invasiva de urgência, com intervenção coronariana imediata, e onde não há hemodinâmica esse paciente deve ser transferido. Não aumente a morfina antes de pedir o traçado — analgesia a mais apaga o parâmetro que estava decidindo.

O eletrocardiograma da recorrência, comparado ao da dor anteriorImediatamente a cada episódio de dor, e entre 15 e 30 minutos em quem segue sintomático

Esperado: Traçado igual ao anterior, na mesma derivação e com a mesma calibração. O valor do exame aqui está na comparação, não no laudo isolado.

Se não melhora: Infra ou inversão que aparecem com a dor e regridem quando ela passa caracterizam alteração dinâmica de ST-T: achado de alto risco, cateterismo em menos de 24 horas. Alteração recorrente de ST-T com elevação intermitente do segmento ST está na lista da estratégia invasiva de urgência, não na de 24 horas.

A curva de troponina — e o momento de parar de dosarAdmissão e 3 horas depois; nova série apenas diante de evento clínico novo

Esperado: Duas dosagens que respondam à pergunta: com ascensão ou queda, lesão aguda; sem variação, lesão crônica; ambas normais com quadro isquêmico, angina instável.

Se não melhora: Depois que a curva respondeu, dosar de novo por rotina não acrescenta: as troponinas permanecem elevadas por até sete dias, e um valor alto no terceiro dia costuma ser o mesmo infarto, não um novo. A repetição volta a fazer sentido quando há dor nova, alteração nova no traçado ou piora hemodinâmica — aí a pergunta é outra e a curva é outra.

A ausculta e a classe de Killip, uma vez por plantãoNo exame de admissão e em toda passagem de plantão, além de qualquer piora

Esperado: Ausência de estertores, de terceira bulha e de sopro novo, com paciente confortável em decúbito.

Se não melhora: Estertores novos, terceira bulha ou sopro de regurgitação mitral que apareceu são achados de alto risco por si sós, e vêm do estetoscópio, não do laboratório. Insuficiência cardíaca aguda está na lista da estratégia invasiva de urgência. Sopro novo com piora hemodinâmica levanta complicação mecânica, e quem responde é o ecocardiograma de urgência.

O sangramento, procurado por pergunta dirigidaA cada reavaliação, com hemoglobina de controle em 24 horas e sempre que houver suspeita

Esperado: Hemoglobina estável, sítios de punção secos, ausência de sangramento digestivo, urinário ou de mucosas.

Se não melhora: Sangramento tem prognóstico adverso próprio nesta síndrome, e o paciente que está anticoagulado e duplamente antiagregado é o que menos conta espontaneamente. Pergunte por fezes escuras, urina avermelhada e gengiva sangrando, e olhe o sítio de punção com o curativo aberto. Diante de sangramento, revise dose por peso e por clearance antes de suspender tudo: a maioria dos excessos vem de dose não ajustada, não de indicação errada.

Creatinina e potássio — onde moram as dosesNa admissão e a cada 24 a 48 horas enquanto houver anticoagulante e inibidor do sistema renina-angiotensina

Esperado: Função renal estável, com clearance calculado e não presumido, e potássio abaixo de 5,0 mmol/L.

Se não melhora: Queda do clearance muda a enoxaparina antes de mudar qualquer outra coisa: entre 15 e 29 mL/min, 1 mg/kg a cada 24 horas; abaixo de 15, heparina não fracionada. O fondaparinux sai abaixo de 20 mL/min. E o antagonista da aldosterona só entra com creatinina e potássio dentro dos limites do protocolo: onde a dosagem frequente de potássio não for factível, o risco de hipercalemia pode superar o benefício.

A hora do cateterismo, e quem é dono delaDo momento do pedido até a confirmação, com registro em cada plantão

Esperado: Que exista uma hora, dita por alguém com nome, e que ela esteja escrita na evolução junto com a hora do pedido.

Se não melhora: Prazo que passa sem explicação é o modo mais comum de um paciente de alto risco virar um paciente de enfermaria. Reative o pedido a cada plantão, escale para a coordenação e para a regulação estadual, e registre cada tentativa. E reavalie a faixa de risco a cada dia de espera: quem teve dor recorrente ou alteração nova no traçado não está mais na fila em que entrou.

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Onde o erro machuca

Tratar toda troponina elevada como infarto tipo 1

O dano: O paciente com sepse, taquiarritmia, anemia grave ou doença renal crônica tem troponina alterada porque o miocárdio está sofrendo — e recebe antiagregação dupla e anticoagulante por causa disso. Ganha risco de sangramento, ocupa leito de unidade coronariana, entra em fila de cateterismo, e a doença que de fato está matando o paciente continua sendo tratada como coadjuvante.

Como pegar a tempo: Antes de rotular, responda três perguntas: há sintoma isquêmico? há alteração nova de ST ou de onda T? a segunda dosagem sobe ou cai? Sem curva e sem contexto isquêmico, o nome é lesão miocárdica, e a conduta é procurar e tratar a causa. Escreva no prontuário qual é a troponina basal daquele paciente.

Chamar de angina instável o paciente cuja segunda troponina ninguém colheu

O dano: Angina instável é definida pela ausência de necrose, e essa ausência só existe com duas dosagens. Uma troponina normal de admissão em quem chegou com menos de 6 horas de sintoma diz muito pouco. O paciente rotulado assim sai da linha do infarto, perde a estratificação de alto risco que a troponina positiva dispararia, e vai para casa ou para a enfermaria com o prazo de cateterismo errado.

Como pegar a tempo: Escreva a segunda coleta na prescrição, com hora, no mesmo momento em que pede a primeira. Se o resultado não voltar em até 60 minutos da coleta, isso é um problema do serviço a ser resolvido — e é a razão pela qual o teste à beira do leito deve ser considerado.

Dar a dose de ataque do segundo antiagregante sem perguntar quando é o cateterismo

O dano: Nos dois sentidos. Quem dá o ataque no paciente que vai à hemodinâmica hoje e acaba indo para cirurgia de revascularização compra sangramento perioperatório — no ensaio de pré-tratamento com prasugrel, sangramento maior foi 1,9 vez mais frequente, e metade dos episódios estava ligada à cirurgia. E quem segura o ataque em nome da anatomia, num serviço onde o cateterismo sai em três dias, deixa o paciente três dias com um antiagregante só.

Como pegar a tempo: A pergunta vem antes da dose, e ela é feita ao telefone: existe hora marcada nas próximas 24 horas, com nome de quem confirmou? Sem essa resposta, o paciente está em manejo clínico e recebe o segundo antiagregante agora. Com ela, e havendo chance real de cirurgia, espere a anatomia — e registre a decisão com hora.

Manter enoxaparina em dose plena sem calcular o clearance

O dano: A creatinina isolada engana em quem tem pouca massa muscular, que é justamente o idoso magro desta doença. Uma mulher de 71 anos, 58 quilos e creatinina de 1,8 mg/dL tem clearance estimado de 26 mL/min — faixa em que a dose é 1 mg/kg a cada 24 horas. Prescrita de 12 em 12 horas, ela recebe 116 mg por dia em vez de 58: o dobro, acumulando, numa paciente que provavelmente já está anêmica.

Como pegar a tempo: Peso aferido e clearance calculado antes da primeira dose de anticoagulante, não depois. Acima de 75 anos, 75% da dose. Entre 15 e 29 mL/min, intervalo de 24 horas. Abaixo de 15 mL/min ou acima de 150 kg, heparina não fracionada. E, escolhida a heparina, não se troca no meio: a troca é recomendação classe III.

Prescrever betabloqueador endovenoso e oxigênio por reflexo

O dano: São duas prescrições que parecem inofensivas e não são. Betabloqueador venoso em paciente com fatores de risco para choque cardiogênico — idade acima de 70 anos, frequência acima de 110 bpm ou sistólica abaixo de 120 mmHg — é recomendação classe III, e o sinal veio de um ensaio em que a dose venosa alta aumentou a incidência de choque. Oxigênio em quem tem saturação de 90% ou mais não reduziu mortalidade nem eventos em um ano, e o excesso prolongado provoca vasoconstrição sistêmica.

Como pegar a tempo: Betabloqueador por via oral nas primeiras 24 horas em quem não tem contraindicação, e a via venosa reservada a isquemia persistente com taquicardia e hipertensão, sem sinal de insuficiência cardíaca. Oxigênio com alvo escrito: só abaixo de 90% de saturação ou com desconforto respiratório. Cateter de oxigênio não é conforto — é prescrição, e tem indicação.

Dar alta porque a dor passou e a segunda troponina veio igual

O dano: Investigação negativa não é a mesma coisa que artéria normal, e o paciente que sai sem entender isso é o que volta tarde. Quase todo o benefício desta doença está no que o paciente vai tomar e fazer depois da porta. Alta sem receita de prevenção, sem exame marcado e sem palavra de retorno desperdiça as 48 horas de internação que acabaram de acontecer.

Como pegar a tempo: Alta segura tem três peças escritas no papel que o paciente leva. A receita, com o motivo de cada droga ao lado e a data de término da dupla antiagregação. O exame que falta, com onde e quando foi marcado. E a palavra de retorno: dor em repouso, dor de mais de 15 a 20 minutos, ou dor com suor frio e falta de ar mandam voltar no mesmo dia.

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O que dizer ao paciente e à família

As conversas desta doença têm uma dificuldade que as do infarto com supra não têm: aqui quase tudo o que você precisa dizer é uma incerteza. Não se sabe ainda se infartou; não se sabe quando será o cateterismo; não se sabe se a dor que passou vai voltar. As falas abaixo existem para dizer isso em voz alta, em português comum, sem transformar dúvida em susto nem em promessa.

O paciente quer ir embora porque a dor passou

Eu entendo, e vou ser honesto com o senhor sobre por que estou pedindo que fique. A dor passar é bom, mas não é o que responde à pergunta que me preocupa. O que a gente investiga aqui é se uma artéria do coração ficou entupida em parte e por um tempo — e isso pode doer, parar de doer e voltar a doer pior. O exame de sangue que mede se o músculo do coração sofreu só diz a verdade quando é feito duas vezes, com algumas horas entre elas: o primeiro pode vir normal em quem chegou cedo. É isso que estou esperando. Se as duas coletas vierem iguais e o eletro continuar sem mudança, eu mesmo assino a sua alta e explico o que fazer em casa. Se a segunda subir, o senhor está no lugar certo — e eu preferia muito mais que essa notícia chegasse aqui do que na porta de casa.

Não diga: Dizer que ele pode ir se quiser, assinar um termo e encerrar o assunto. O termo protege o serviço e não protege o paciente. E evite o oposto também: assustar com a palavra infarto antes de saber, porque o medo mal colocado faz o paciente parar de escutar exatamente na parte em que você explica o que vai acontecer.

Ele pergunta por que o eletrocardiograma deu normal e mesmo assim há dúvida

O eletro é uma fotografia do coração no segundo em que a máquina imprime. Ele é ótimo para achar o entupimento total, que precisa de tratamento em minutos — e esse o senhor não tem, isso eu já sei. O que ele não consegue mostrar bem é o entupimento parcial, aquele que aperta a artéria e afrouxa. Entre uma em cem e seis em cem pessoas com o problema que estou investigando têm eletro normal na chegada. Por isso vou repetir o exame, principalmente se a dor voltar: é a mudança entre um traçado e o outro que me informa, não um traçado sozinho.

Não diga: Dizer "o eletro está normal" e nada mais. O paciente ouve alta. Diga o que o exame respondeu e o que ele não respondeu, na mesma frase.

A segunda troponina subiu: dizer que infartou

Os exames confirmaram o que eu estava investigando: o senhor teve um infarto. Não é o tipo em que a artéria fecha de uma vez e a gente corre para desentupir na mesma hora — é o tipo em que ela entope em parte, o músculo sofre e o exame de sangue mostra isso subindo. O que muda a partir de agora: o senhor fica internado, começa hoje uma medicação que impede o coágulo de crescer, e vai fazer um exame que olha as artérias por dentro, chamado cateterismo. Ele não é hoje à noite, e isso não é descaso: é que nesse tipo de infarto o benefício está em fazer bem feito nas próximas horas, com o senhor monitorado, e não em correr. Enquanto isso o senhor fica aqui do meu lado, e qualquer dor nova o senhor me chama na hora.

Não diga: Chamar de "infartinho" ou de "princípio de infarto". O paciente entende que é pouco, e sai do hospital sem tomar o remédio. Este infarto mata menos na primeira hora e mais no primeiro ano.

Explicar por que o cateterismo não é agora — sem prometer hora que você não tem

O exame das artérias está pedido, e eu vou te dizer o que sei e o que não sei. Sei que ele está indicado, sei que a solicitação foi feita às tantas horas e sei que a equipe do outro hospital ficou de responder. Não sei ainda o horário. Assim que eu souber, eu venho aqui dizer, mesmo que a notícia seja que vai demorar. Enquanto ele não acontece, o tratamento não está parado: os remédios que ele está tomando agora são os mesmos que ele tomaria depois do exame, e são eles que impedem o quadro de piorar.

Não diga: Inventar um horário para acalmar a família. A hora inventada volta contra você em quatro horas, e o que se perde não é a credibilidade do plantão: é a disposição do paciente de avisar quando a dor voltar.

A troponina veio alterada, e não é infarto

Apareceu no sangue uma substância que o coração libera quando sofre. Isso chamou minha atenção, e eu repeti o exame algumas horas depois para ver se estava subindo — porque no infarto ele sobe rápido. No seu caso ele está parado no mesmo valor, e isso muda o significado: não é uma lesão de agora, é um desgaste que o rim doente e a pressão alta deixam marcado ao longo do tempo. Não vou tratar a senhora como infarto, porque o tratamento do infarto tem risco de sangramento e não ajudaria aqui. Mas esse resultado não é para ignorar: ele diz que a senhora tem mais risco cardiovascular do que a média, e é por isso que vamos ajustar a pressão, o colesterol e o acompanhamento do rim.

Não diga: Dizer "o exame veio alterado mas não é nada". Não é infarto e não é nada são coisas diferentes; a segunda é falsa e faz o paciente abandonar o seguimento que o resultado acabou de justificar.

Pedir consentimento para a antiagregação dupla, dizendo o risco

Vou explicar os dois remédios que começam hoje e ficam com a senhora por meses. Os dois deixam a plaqueta menos grudenta, e é isso que impede um coágulo novo de fechar a artéria. Juntos eles funcionam melhor do que um só — e junto vem o preço: sangramento é mais fácil. Machucado roxo por pouca coisa e gengiva sangrando ao escovar são esperados e não são motivo para parar. Fezes pretas como piche, vômito com sangue, sangue na urina, ou uma dor de cabeça forte e diferente de tudo: isso é para voltar no mesmo dia. O que eu peço é o combinado: a senhora não para por conta própria, e me procura antes de qualquer cirurgia ou extração de dente.

Não diga: Prometer que "não vai acontecer nada". O que se promete é vigilância, não ausência de risco — e quem foi avisado do risco procura ajuda cedo, enquanto quem não foi acha que fez algo errado e esconde o sangramento.

A investigação não fechou infarto e ele vai para casa

As duas coletas vieram iguais e os eletros também: a senhora não teve infarto, e é uma boa notícia. O que eu não posso dizer é que as artérias estão limpas — esse exame a gente não fez aqui, e ele vai ser marcado para as próximas semanas. Até lá a senhora vai com três remédios e uma combinação. Os remédios estão na receita, com o motivo de cada um escrito ao lado. A combinação é esta: se a dor voltar em repouso, ou durar mais de quinze ou vinte minutos, ou vier com suor frio e falta de ar, a senhora não espera a consulta — volta ao pronto-socorro e mostra este papel, que diz o que já foi investigado.

Não diga: Encerrar com "está tudo bem, pode ir". Alta segura tem duas partes, e a segunda é a palavra de retorno: o que faz voltar, em quanto tempo, e para onde. Sem ela, o paciente de baixo risco de hoje é o que chega tarde na próxima vez.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

O paciente de alto risco vai ao cateterismo em 24 horas ou em 72?

Em até 24 horas

Troponina positiva, alteração dinâmica de ST ou de onda T, escore GRACE acima de 140, angina pós-infarto ou insuficiência cardíaca aguda colocam o paciente na faixa de alto risco, e a essa faixa corresponde estratégia invasiva precoce, com cinecoronariografia em menos de 24 horas — classe I, nível A. A metanálise que sustenta o corte encontrou menos eventos cardiovasculares maiores com a abordagem precoce de rotina, e o benefício persistiu apenas no subgrupo com GRACE acima de 140.

Sociedade Brasileira de Cardiologia — Diretrizes sobre Angina Instável e Infarto Agudo do Miocárdio sem Supradesnível do Segmento ST, 2021, Tabela 2.1 e item 12

Em até 72 horas, e em 24 só se houver vários fatores de risco

A estratégia invasiva está indicada em pacientes com critérios de alto risco, com coronariografia em até 72 horas — preferencialmente até 24 horas se houver múltiplos fatores de risco — e revascularização subsequente, se necessário. O prazo de menos de 2 horas fica reservado a quem tem angina refratária, insuficiência cardíaca, arritmia ou instabilidade hemodinâmica.

Ministério da Saúde / Conitec — Protocolo Clínico Síndromes Coronarianas Agudas, seção de estratificação de risco

Como decidir

As duas réguas concordam sobre quem é o paciente e discordam sobre a pressa. A de sociedade foi escrita olhando ensaios em que o cateterismo acontecia quando era marcado; a nacional foi escrita olhando uma rede em que ele acontece quando há vaga. Quem resolve o impasse não é nenhum dos dois documentos: é o prazo real do seu serviço, hoje. Levante por telefone antes de escolher — hemodinâmica no próprio hospital ou transferência, sala funcionando à noite e no fim de semana, vaga confirmada ou em análise. Se 24 horas é factível, use 24: o paciente de GRACE alto é exatamente aquele em quem o benefício apareceu. Se a resposta honesta é terça-feira, três coisas mudam de peso, e nenhuma delas é o prazo. Primeira: quem espera precisa de anti-isquêmico e antitrombótico plenos, porque o tratamento clínico deixou de ser ponte e passou a ser o tratamento. Segunda: a reavaliação vira o exame que decide — dor recorrente, alteração nova de ST ou instabilidade tiram o paciente da fila e o colocam na rota de menos de duas horas, e isso vale às três da manhã de sábado. Terceira: o prazo passa a ser de alguém — anote a hora do pedido, o nome de quem regulou e a hora prometida, e escale quando ela passar. O erro que mais custa vida aqui não é escolher 72 em vez de 24: é ninguém ser dono do número, e o paciente passar cinco dias com dor recorrente que nenhum plantão reclassificou.

Dar o segundo antiagregante na emergência, ou esperar a sala de cateterismo?

Esperar a anatomia, quando o cateterismo é para já

Não realizar pré-tratamento com inibidor do receptor P2Y12 em pacientes instáveis ou de risco elevado indicados para estratégia invasiva imediata; e não há indicação rotineira de iniciá-lo como pré-tratamento em quem tem estratégia invasiva precoce, em menos de 24 horas. As duas recomendações são classe I, nível B. O ensaio ACCOAST, com prasugrel, não mostrou diferença no desfecho primário e registrou sangramento maior 1,9 vez mais frequente com o pré-tratamento; o DUBIUS, com ticagrelor, foi interrompido por futilidade. Sem anatomia conhecida, o prasugrel está contraindicado.

Sociedade Brasileira de Cardiologia — Diretrizes sobre Angina Instável e IAM sem Supradesnível do Segmento ST, 2021, item 6.2.5.1 e sumário de terapia antiplaquetária inicial

Dar na emergência, junto com o ácido acetilsalicílico

O clopidogrel está indicado nas síndromes coronarianas agudas com e sem supra de ST em associação ao ácido acetilsalicílico, com dose de ataque de 300 mg na síndrome sem supra, e 600 mg a considerar em quem for tratado com estratégia invasiva precoce. O documento nacional não condiciona a dose ao horário do cateterismo. A própria diretriz de sociedade admite que o pré-tratamento pode ser considerado em quem não tem risco hemorrágico crítico e tem risco isquêmico moderado ou alto; e a análise do estudo CREDO mostrou benefício quando a dose de ataque foi dada de 6 a 24 horas antes do procedimento, e nenhum quando foi dada com menos de 6 horas.

Ministério da Saúde / Conitec — Protocolo Clínico Síndromes Coronarianas Agudas, item 2.4; e Sociedade Brasileira de Cardiologia, 2021, item 6.2.5.1.2

Como decidir

Repare que as duas posições respondem a perguntas diferentes, e que a pergunta que importa não é sobre a droga: é quando este paciente vai ao cateterismo. Se ele vai hoje, esperar custa pouco — o inibidor de P2Y12 leva de 30 a 60 minutos para bloquear a plaqueta, e escolher a droga com a anatomia na tela evita duas coisas caras: dar um antiagregante potente a quem vai para cirurgia de revascularização, e descobrir tarde que a lesão é de tronco. Se ele vai em três dias, ou não vai, esperar não é esperar: é deixar sem segundo antiagregante, por dias, um paciente que a diretriz manda tratar com dupla antiagregação independentemente da estratégia. Nesse cenário — que é o de boa parte dos hospitais brasileiros — ele está em manejo conservador de fato, e o clopidogrel entra agora. À beira do leito, três perguntas costumam bastar. Existe hora marcada de cateterismo nas próximas 24 horas, confirmada por alguém com nome? Existe chance alta de este paciente ir para cirurgia — doença conhecida de múltiplos vasos, diabetes, lesão de tronco prévia? Existe risco de sangramento que faça a dose de ataque doer mais do que ajudar — anemia, clearance baixo, sangramento digestivo prévio, idade avançada? Sim nas duas primeiras empurra para esperar; qualquer resposta vaga na primeira empurra para dar. E, seja qual for a escolha, escreva no prontuário a hora e o motivo: quem receber o paciente na sala precisa saber se a plaqueta já está bloqueada.

A antiagregação dupla dura nove meses ou doze?

Doze meses

Terapia antiplaquetária dupla por 12 meses após o evento agudo, independentemente da estratégia inicial — clínica, percutânea ou cirúrgica —, salvo contraindicações: classe I, nível A. Os regimes que sustentam o prazo foram testados assim: clopidogrel 300 mg de ataque e 75 mg por dia por 12 meses; ticagrelor 180 mg de ataque e 90 mg de 12 em 12 horas por 12 meses.

Sociedade Brasileira de Cardiologia — Diretrizes sobre Angina Instável e IAM sem Supradesnível do Segmento ST, 2021, sumário de recomendações de antiplaquetários

Nove meses — e quatro semanas se o risco de sangrar for alto

No infarto sem supradesnivelamento, clopidogrel 75 mg por dia por 9 meses; caso o paciente apresente risco de sangramento aumentado, o clopidogrel deve ser mantido por no mínimo 4 semanas. Diante da necessidade de continuar o tratamento, o hospital entrega 30 comprimidos ao paciente no dia da alta, até que o medicamento seja obtido pelo componente especializado da assistência farmacêutica.

Ministério da Saúde / Conitec — Protocolo Clínico Síndromes Coronarianas Agudas, tratamento medicamentoso pós-hospitalar

Como decidir

A diferença de três meses parece pequena e não é: ela cai inteira sobre a caixa de comprimidos de um paciente que, na maioria dos serviços, vai renovar a receita num lugar diferente daquele onde infartou. Quem decide o prazo é a soma de duas contas opostas, e as duas você faz no dia da alta. A conta isquêmica: houve stent, e de que tipo; a doença é de um vaso ou de vários; houve reinfarto ou trombose de stent antes; o paciente é diabético. A conta hemorrágica: hemoglobina na alta, clearance de creatinina, sangramento digestivo prévio, anticoagulante oral concomitante, idade. Onde a primeira pesa mais, use doze meses e escreva por quê. Onde a segunda pesa mais, o piso de quatro semanas do documento nacional é uma saída legítima e explícita — e é melhor um curso curto cumprido do que um curso longo interrompido no segundo mês por um sangramento que ninguém previu. O que não se faz é deixar em aberto. A interrupção não planejada da dupla antiagregação é causa evitável de reinfarto, e ela quase sempre nasce de uma receita de alta que não dizia até quando. Escreva a data de término no papel, com o número de comprimidos entregues, e diga em voz alta ao paciente que ele não pode parar sozinho — nem antes de um procedimento odontológico, nem porque a caixa acabou.

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O raciocínio, em voz alta

São 19h10 de uma quinta-feira num hospital regional com unidade coronariana e sem hemodinâmica. Maurílio tem 63 anos, 78 quilos, é motorista de van escolar, hipertenso e diabético tipo 2, ex-tabagista de trinta anos-maço, e toma losartana, metformina, sinvastatina e ácido acetilsalicílico 100 mg por dia. Procurou o pronto-socorro porque às 15h teve um aperto no peito parado no trânsito, que durou uns vinte e cinco minutos, veio com suor e passou sozinho — e porque na terça e na quarta tinha sentido a mesma coisa subindo a rampa da garagem, coisa que nunca acontecia. Agora está sem dor. Pressão 142 por 86 mmHg igual nos dois braços, frequência 78 bpm, saturação 97% em ar ambiente, ausculta pulmonar limpa, sem terceira bulha, sem turgência jugular. Acompanhe o raciocínio em voz alta.

  1. o que penso antes de qualquer exame

    O que me chama a atenção não é a dor de hoje: é a história das três últimas semanas. Um homem que subia a rampa sem sentir nada e há dois dias sente, e que ontem teve um episódio em repouso de vinte e cinco minutos, está descrevendo uma mudança de padrão. Essa mudança é o que a palavra instável quer dizer, e ela vem antes de qualquer exame. Ele estar sem dor agora não me tranquiliza nem um pouco: nesta síndrome a dor é intermitente porque o trombo é intermitente. O que eu preciso saber, nesta ordem: o eletro ou a condição clínica sugerem oclusão e necessidade de avaliação invasiva imediata? Se o paciente permanece estável, há evidência de lesão miocárdica aguda? E, sofrendo ou não, quanto risco ele tem de morrer ou reinfartar nos próximos dias?

  2. o eletro, e o que ele responde de verdade

    Traçado às 19h16, dezesseis minutos depois da chegada. Não há supradesnivelamento em nenhuma derivação — a rota do capítulo vizinho está fechada, e isso é a única coisa que este eletro decidiu. O que há é infradesnivelamento de 1 mm em V4, V5, V6, DI e aVL, com onda T achatada nas mesmas derivações. Isso não é normal, e não é pouco: infradesnivelamento de ST na apresentação carrega mortalidade em torno de 8%, contra 1,2% de quem chega com onda T invertida ou eletro normal. Peço para guardar este traçado com hora e escrevo na prescrição que ele será repetido a qualquer recorrência de dor — porque daqui para frente o que informa é a diferença entre dois traçados, não um traçado sozinho.

  3. a primeira troponina, e por que ela não decide nada ainda

    Colho junto com o acesso: hemograma, creatinina, sódio, potássio, glicemia, coagulograma e troponina ultrassensível. Volta em 40 minutos com 34 ng/L, acima do percentil 99 do ensaio do laboratório daqui, que é 14 ng/L. Um valor. Só isso não me diz se ele infartou: diz que há lesão do músculo, e lesão de músculo cardíaco tem uma lista de causas que inclui sepse, taquiarritmia, insuficiência cardíaca, embolia pulmonar e doença renal crônica. O que separa lesão aguda de lesão crônica é comportamento dinâmico: subir, ou cair. Prescrevo a segunda coleta para 3 horas depois — 22h10 — com hora escrita, e sigo tratando enquanto espero, porque esperar o resultado não é sinônimo de não fazer nada.

  4. o tratamento que começa antes do diagnóstico fechar

    Ele já toma ácido acetilsalicílico 100 mg em casa e tomou hoje de manhã, então não repito dose de ataque. Confiro pulsos e pressão nos dois braços antes de qualquer antitrombótico — quarenta segundos que descartam dissecção. A pergunta seguinte é a que decide o segundo antiagregante: quando é o cateterismo? Ligo para a regulação com a história na mão. A resposta é que o pedido entra na fila de amanhã e não há garantia de horário. Com isso, ele não está em estratégia invasiva precoce coisa nenhuma: está em manejo clínico por tempo indeterminado, e o clopidogrel entra agora — 300 mg de ataque, que são quatro comprimidos de 75 mg, seguidos de 75 mg por dia. Anoto a hora da dose no prontuário, porque quem receber na hemodinâmica precisa saber.

  5. a anticoagulação, e a conta que a precede

    Creatinina 1,1 mg/dL. Pela fórmula de Cockcroft-Gault, com 63 anos e 78 quilos, o clearance estimado é de 76 mL/min: função renal que não impõe ajuste. Enoxaparina 1 mg/kg por via subcutânea de 12 em 12 horas, o que dá 78 mg — e, como toda apresentação é de 100 mg por mL, 78 mg são 0,78 mL na seringa graduada. Escrevo que ela vai até a revascularização, por 8 dias ou até a alta, o que vier primeiro. Não prescrevo heparina não fracionada junto nem depois: trocar de heparina no meio do tratamento é recomendação classe III, e o motivo é sangramento.

  6. o que não entra na prescrição, e por quê

    Saturação de 97% em ar ambiente: não prescrevo oxigênio, porque não há hipoxemia nem desconforto respiratório e o excesso tem dano próprio. Betabloqueador oral, sim: 78 bpm, 142 por 86 mmHg, sem congestão e sem nenhum dos três fatores que apontam risco de choque — idade acima de 70 anos, frequência acima de 110 bpm, sistólica abaixo de 120 mmHg. Por via endovenosa, não. E morfina fica guardada: só se a dor voltar e não ceder ao nitrato.

  7. a segunda troponina, e o momento em que o diagnóstico muda de nome

    22h10: 96 ng/L. Foi de 34 para 96 — 62 ng/L a mais, 182% acima do valor de admissão. Isso é ascensão, e ascensão em paciente com sintomas isquêmicos e alteração de ST no eletro tem nome: infarto agudo do miocárdio sem supradesnivelamento do segmento ST. Até as 22h09 ele era angina instável; às 22h10 passou a ser infarto, e nada no exame físico dele mudou. É por isso que os dois são conduzidos igual no início — a diferença entre eles não está no paciente, está no laboratório, e chega depois de a conduta ter começado.

  8. o risco, e o relógio que ele decide

    Agora estratifico, e faço na mão o escore que dá para fazer na mão. Pelo TIMI: 63 anos não pontua; marcador elevado pontua; infradesnivelamento acima de 0,5 mm pontua; uso de ácido acetilsalicílico nos sete dias anteriores pontua; três ou mais fatores de risco tradicionais pontuam; doença coronariana conhecida não; angina grave nas últimas 24 horas pontua. Cinco de sete: alto risco. Pela tabela que cruza risco e estratégia, troponina positiva com alteração de ST põe este paciente em invasiva precoce, cateterismo em menos de 24 horas. Ligo de novo para a regulação, agora com números: infarto sem supra confirmado por curva de troponina, TIMI 5, infra de 1 mm em cinco derivações. Anoto a hora do pedido, o nome de quem atendeu e a hora prometida.

  9. o que fica escrito para a noite

    Internação na unidade coronariana com monitorização contínua. Reavaliação de dor a cada hora, com hora anotada, e eletrocardiograma imediato a qualquer recorrência — comparado ao das 19h16, na mesma derivação. Atorvastatina em dose alta iniciada esta noite, independentemente do colesterol dele. Losartana e metformina revistas com o clínico pela manhã. E uma linha em letra grande na evolução, para quem entra às 7h: se ele tiver dor refratária ao tratamento, alteração nova de ST, arritmia ventricular ou queda de pressão, ele sai da fila de 24 horas e entra na de menos de duas — e essa reclassificação é de quem estiver no plantão, não do cardiologista da manhã.

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Faça você

Duas semanas depois, mesmo hospital, plantão da madrugada. Waldete tem 71 anos, 58 quilos, é aposentada, mora com a filha e tem hipertensão, diabetes há dezoito anos e doença renal crônica em acompanhamento ambulatorial. Toma losartana, metformina, sinvastatina, ácido acetilsalicílico 100 mg e furosemida. Chegou às 2h40 trazida pela filha por um mal-estar no peito, meio no estômago, com náusea e cansaço, que apareceu em repouso e durou cerca de vinte minutos — o segundo episódio da semana. Está sem dor agora. Pressão 138 por 78 mmHg simétrica, frequência 72 bpm, saturação 96% em ar ambiente, ausculta limpa, sem estertores, sem turgência jugular, extremidades quentes. Eletrocardiograma às 2h48: ritmo sinusal, sem supradesnivelamento, sem infradesnivelamento, ondas T normais; um traçado guardado de seis meses atrás é sobreponível. Creatinina 1,8 mg/dL, hemoglobina 11,4 g/dL. Troponina ultrassensível na admissão: 58 ng/L, com percentil 99 do ensaio em 14 ng/L. Repetida às 5h50: 61 ng/L.

  1. o que a história diz antes de qualquer número

    Dor em repouso, de vinte minutos, em segundo episódio na semana, numa diabética de longa data com doença renal crônica. A apresentação não é a de livro, e é justamente a que atrasa o diagnóstico: mal-estar epigástrico com náusea em idosa diabética é uma das formas em que a síndrome coronariana chega. O padrão mudou, houve dor em repouso e há fatores de risco em abundância. Isso basta para abrir o protocolo, e o eletro normal não fecha nada.

  2. o eletro normal, lido com o traçado antigo ao lado

    O ECG está sem alterações novas e é semelhante ao anterior. Isso reduz a probabilidade de algumas apresentações, mas não exclui síndrome coronariana aguda nem oclusão. Manter observação e seguir o protocolo de ECG seriado do serviço; obter novo traçado imediatamente se a dor voltar ou houver deterioração. O exame deve ser interpretado junto da história e da troponina.

  3. as duas troponinas, lado a lado

    A variação é de 3 ng/L, cerca de 5,2%, em três horas. Os valores comprovam lesão miocárdica, mas essa pequena variação não demonstra sozinha se a lesão é crônica ou aguda: é preciso conhecer o ensaio, seu delta validado, o tempo dos sintomas e valores prévios. A doença renal torna elevação crônica plausível, sem excluir um evento coronariano simultâneo.

  4. O escore só pode usar o que foi documentado

    Não atribua um TIMI de cinco a partir desta vinheta. Dois episódios na semana não comprovam dois episódios nas últimas 24 horas, e não foram fornecidos todos os fatores de risco necessários à contagem. Tampouco retire um ponto validado apenas supondo que o marcador elevado veio do rim. Complete os dados, interprete o escore conforme sua definição e integre o resultado à avaliação clínica; ele não fecha o diagnóstico nem substitui a reavaliação.

  5. conduta

    — sua vez —

Ver como fecharíamos

Waldete tem suspeita de síndrome coronariana aguda e lesão miocárdica de temporalidade ainda não definida. Os valores de 58 e 61 ng/L podem ser compatíveis com lesão crônica na doença renal, mas duas amostras com pequena diferença não autorizam excluir infarto, atribuir uma troponina basal permanente ou concluir automaticamente por angina instável. Conferir o ensaio e seu algoritmo, reconstruir o horário dos sintomas, procurar troponinas anteriores e decidir novas coletas e imagem conforme a avaliação da equipe. Manter observação monitorizada, ECG seriado e reavaliação imediata se houver recorrência de dor, alteração do traçado ou instabilidade. A vinheta não sustenta o TIMI de cinco: não documenta dois episódios nas últimas 24 horas nem todos os fatores de risco usados naquela soma. Não se deve inventar dados nem ajustar o escore retirando o marcador por uma hipótese não confirmada. A decisão sobre investigação invasiva depende da suspeita clínica, risco global e evolução, discutida com cardiologia; não há fundamento para programar espera de 72 horas apenas por essa subtração. A função renal precisa participar da prescrição. Cockcroft-Gault com os dados fornecidos estima cerca de 26 mL/min. Se a equipe indicar enoxaparina para a SCA, o esquema renal apresentado no capítulo é 1 mg/kg subcutâneo a cada 24 horas: 58 mg por dose, ou 0,58 mL somente se a concentração disponível for 100 mg/mL. Conferir a seringa e monitorar sangramento e função renal. A decisão de P2Y12 e de ataque depende da estratégia invasiva e do risco hemorrágico; a regra de omitir ataque aos 75 anos pertence à fibrinólise do IAM com supra. Registrar os horários, sintomas, exames, doses efetivamente administradas e hipótese provisória, com o plano de reavaliação e o responsável pela investigação. Os valores atuais devem permanecer no prontuário como medidas deste episódio, e não como prova definitiva de qual será a troponina basal de Waldete no futuro.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Dor isquêmica refratária com novas alterações de ST em síndrome coronariana sem supra exige estratégia invasiva imediata. Não se deve aguardar o horário eletivo nem condicionar a decisão a uma nova troponina. Dosagens seriadas podem acrescentar informação: uma nova elevação dinâmica, interpretada em relação à tendência anterior e à clínica, pode apoiar reinfarto; permanecer elevada por dias não torna toda repetição inútil. Analgesia continua indicada quando necessária, com monitorização e atenção à interação dos opioides com a absorção de inibidores de P2Y12. Alívio sintomático não substitui o tratamento da isquemia nem justifica adiar o procedimento.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Explique a diferença entre lesão miocárdica, infarto e angina instável usando sintomas, ECG e variação da troponina. Consulte o algoritmo disponível para o ensaio do laboratório e diga quando colher novamente. Depois descreva os achados que fariam você abandonar a espera programada e acionar o supervisor e a cardiologia imediatamente. Confira se sua resposta evitou duas conclusões erradas: troponina elevada sempre significa trombose coronariana e ausência de supra sempre permite esperar.

Em 30 dias

Retome Maurílio e compare estabilidade sem nova dor com dor refratária, alteração dinâmica do ECG e piora da perfusão. Em cada cenário, justifique o momento da avaliação invasiva. Depois acrescente disfunção renal ou previsão de angiografia muito precoce: consulte as tabelas para rever anticoagulação e a oportunidade do P2Y12 com a equipe. Escreva uma alta simulada que explique duração planejada dos antitrombóticos, prevenção secundária, acesso aos medicamentos e quando retornar por sintomas.

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Agora atenda

Agora atenda: mulher de 67 anos que chega ao pronto-socorro acompanhada do filho, com um episódio de aperto no peito em repouso que durou vinte minutos e já passou, e dois episódios parecidos na semana. Ela quer ir embora, porque a dor acabou e ela deixou a mãe sozinha em casa. Conduza da porta até a decisão de internar ou liberar: levante a mudança de padrão, decida o que pedir e quando repetir, prescreva com dose o que começa antes do diagnóstico fechar, e convença ela a ficar sem prometer o que você não sabe.

Síndrome coronariana aguda sem supra de ST — Internato | OsceLabs