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Clínica MédicaCardiologia

Estenose aórtica e insuficiência mitral

Valvopatias: estenose aórtica e insuficiência mitral

O último lugar da medicina em que o estetoscópio ainda abre a investigação — e o interno é quem encosta primeiro. Aqui o exame não confirma o que o exame de imagem já disse: ele decide quem vai ao ecocardiograma, quando, e com que pergunta escrita no pedido.

Fontes deste capítulo

Sociedade Brasileira de Cardiologia — Atualização das Diretrizes Brasileiras de Valvopatias – 2020 (Arq Bras Cardiol. 2020;115(4):720-775; DOI 10.36660/abc.20201047)

Sociedade Brasileira de Cardiologia e Sociedade Interamericana de Cardiologia — Atualização das Diretrizes Brasileiras de Valvopatias: Abordagem das Lesões Anatomicamente Importantes (Arq Bras Cardiol. 2017;109(6 Supl.2):1-34)

Sociedade Brasileira de Cardiologia e Sociedade Interamericana de Cardiologia — Diretriz Brasileira de Valvopatias – SBC 2011 / I Diretriz Interamericana de Valvopatias – SIAC 2011 (Arq Bras Cardiol. 2011;97(5 supl.1):1-67)

Ministério da Saúde — Relação Nacional de Medicamentos Essenciais, RENAME 2024 (1ª edição, versão eletrônica; ISBN 978-65-5993-710-3)

Sociedade Brasileira de Cardiologia — Diretriz de Avaliação Cardiovascular Perioperatória da Sociedade Brasileira de Cardiologia – 2024 (Arq Bras Cardiol. 2024;121(9):e20240590)

01

Responda antes de ler

Mulher de 68 anos, sem queixas, mantém as mesmas atividades do ano anterior. Ecocardiograma solicitado por sopro sistólico: área valvar aórtica 1,3 cm², gradiente médio entre ventrículo esquerdo e aorta 31 mmHg, velocidade máxima do jato 3,5 m/s, fração de ejeção 64%, sem outras alterações. Não há programação de qualquer outra cirurgia cardíaca. Qual a conduta?

02

O paciente que você vai ver

Quarta-feira, dez e vinte da manhã, sala 4 do ambulatório de um hospital de ensino. A agenda tem catorze pacientes e o preceptor está na sala ao lado com um retorno de nefrologia. Seu Otacílio tem 74 anos, é marceneiro aposentado, mora com a mulher num sobrado de dois lances de escada e veio pelo motivo mais banal que existe: renovar a receita da pressão. Trouxe a caixa vazia da hidroclorotiazida e um papel dobrado com um exame de sangue de fevereiro.

Ele conversa bem, ri da fila, e a resposta à pergunta padrão é a resposta padrão: está tudo bem, doutor, no que depender de mim eu estou ótimo. A pressão hoje é 138 por 76 mmHg, a frequência é 72 bpm, ele não tem edema e a saturação é 97%. Se a consulta terminasse aqui, ela teria durado seis minutos e nada de errado teria acontecido.

Só que ao auscultar o precórdio existe um sopro. É sistólico, é áspero, é mais alto no segundo espaço intercostal direito, e sobe para as duas clavículas. Você tira o estetoscópio, encosta de novo, e desta vez percebe que a segunda bulha, naquele foco, quase não se ouve. Volta ao pulso radial e nota que ele demora a subir — não é o pulso rápido e cheio de um idoso hipertenso.

Na evolução da consulta de julho do ano passado, no mesmo prontuário, está escrito: sopro sistólico +/6. Três palavras e um sinal, sem foco, sem irradiação, sem manobra, sem exame pedido. Na de janeiro, a mesma frase. Ninguém mentiu; ninguém escreveu nada que fosse errado; e ninguém, em dois anos, perguntou a única coisa que muda o prognóstico deste homem.

Você pergunta. Não pergunta se ele tem falta de ar — ele já disse que não. Pergunta o que ele fazia no ano passado e não faz mais. E aí a consulta muda de assunto: ele parou de subir a ladeira da padaria porque cansa, faz uns oito meses, e passou a ir pelo caminho plano, que é mais longo. Há cerca de três meses, carregando um botijão de gás do portão até a cozinha, escureceu a vista e ele precisou sentar no degrau. Não chegou a cair. Não contou para ninguém porque passou em um minuto e porque, no entendimento dele, foi o botijão.

Nada precisa ser feito nos próximos dez minutos. Otacílio vai sair andando daqui de qualquer jeito, e é justamente esse o problema: a doença que ele tem tem uma curva de sobrevida que muda de inclinação no dia em que aparece o primeiro sintoma, e esse dia foi há oito meses, na ladeira da padaria. O que decide o desfecho não é um exame caro nem uma droga nova. É se alguém, nesta consulta, escreve o sopro por inteiro, pede o exame com a pergunta certa e transforma um retorno de rotina num encaminhamento datado.

03

Quem adoece disso

A primeira coisa que a epidemiologia brasileira faz com este capítulo é proibir o empréstimo. A febre reumática responde por até 70% das valvopatias no território nacional, e a diretriz de 2011 escreve isso justamente para avisar que dados de estudos internacionais não se aplicam sem correção: o doente reumático tem média de idade menor, imunologia própria e evolução própria. Na prática do plantão, significa que a regra mental importada — sopro em jovem tende a ser inocente, sopro em idoso tende a ser calcificação — perde metade da sua validade aqui. O adulto de 34 anos com sopro no Brasil não pertence à mesma população de onde saiu essa regra.

O tamanho da diferença está medido. Estudos com escolares em capitais brasileiras estimaram a prevalência de cardite reumática entre 1 e 7 casos por mil, contra 0,1 a 0,4 caso por mil nos Estados Unidos: o piso brasileiro é dez vezes o piso americano e o teto é dezessete vezes e meia o teto americano. A atualização de 2020 acrescenta que essa faixa vem de estudos clínicos e que o número pode ser até dez vezes maior quando se rastreia a população com ecocardiograma — o que colocaria a doença valvar reumática perto de 7% das crianças na ponta superior da estimativa. A consequência é direta: no Brasil, cardiopatia reumática não é diagnóstico de exclusão nem raridade histórica; é hipótese de rotina diante de qualquer sopro em pessoa nascida e criada aqui.

Na outra ponta da vida está a estenose aórtica calcificada, que atinge de 3% a 5% das pessoas com mais de 75 anos. Numa unidade básica com quatrocentos idosos nessa faixa cadastrados, isso são doze a vinte pessoas com a doença — e a maioria delas não vai chegar dizendo que tem falta de ar, porque idoso sedentário raramente esbarra no próprio limite. A diretriz de 2011 já registrava esse ponto ao descrever que, na população geriátrica, achados de lesão valvar importante aparecem com frequência em quem se declara assintomático ou oligossintomático. É por isso que a estenose aórtica é procurada, e não encontrada: quem espera a queixa espontânea perde o intervalo em que a operação ainda vale a pena.

Entre os dois extremos ficam as duas causas restantes, e cada uma manda uma pergunta para a anamnese. A valva aórtica bicúspide existe em cerca de 2% da população, com aortopatia associada em 70% dos casos, e é a razão pela qual sopro aórtico em adulto de 40 anos pede também a medida da aorta, não só da válvula. O prolapso da valva mitral tem prevalência de 1% a 2,5% na população geral, idade média de apresentação em torno de 50 anos, e é a segunda causa de insuficiência mitral no país, atrás da reumática. Uma dessas duas está por trás de quase toda insuficiência mitral primária que você vai ver antes dos 60 anos.

Por fim, o dado que decide o que adianta escrever no encaminhamento: cerca de três quartos da população brasileira dependem exclusivamente do sistema público, e o documento de 2011 já previa dificuldade em suprir a demanda de portadores de doença valvar. O tratamento definitivo destas duas doenças é uma operação, não um comprimido — e operação tem fila. Isso muda o que o interno faz de útil: identificar cedo, encaminhar com o exame já feito e com o laudo anexado, e manter o paciente vivo e compensado enquanto a fila anda são, juntos, mais determinantes do desfecho do que qualquer ajuste de prescrição que se faça nesta consulta.

04

Por que acontece o que acontece

As duas doenças deste capítulo sobrecarregam o mesmo ventrículo de maneiras opostas, e quase tudo o que se vê no leito decorre dessa oposição. A estenose aórtica é sobrecarga de pressão: a saída está estreita, e o ventrículo precisa gerar pressão maior a cada sístole para empurrar o mesmo volume por um orifício menor. A resposta é hipertrofia concêntrica — a parede engrossa para dentro, a cavidade não aumenta, e a massa muscular cresce sem que cresça o leito capilar que a alimenta. A insuficiência mitral é sobrecarga de volume: parte do sangue volta para o átrio a cada sístole, e o ventrículo se enche do que veio do pulmão mais do que voltou. A resposta é dilatação excêntrica — a cavidade cresce, a parede acompanha de leve, e o coração passa a bombear um volume total maior para entregar o mesmo volume adiante.

Da hipertrofia concêntrica saem os três sintomas da estenose aórtica, e cada um tem mecanismo próprio. A dispneia vem primeiro da disfunção diastólica: o músculo engrossado é rígido, a complacência cai, e a curva de pressão e volume do ventrículo se desloca para cima e para a esquerda — o mesmo volume passa a custar uma pressão de enchimento maior, essa pressão sobe para o átrio esquerdo e daí para o capilar pulmonar. Só mais tarde entra a disfunção sistólica, quando a hipertrofia deixa de dar conta da pós-carga imposta. Isso explica por que o paciente pode ter falta de ar com fração de ejeção intacta: o problema, na primeira fase, é encher, não esvaziar.

A angina da estenose aórtica costuma existir sem nenhuma placa coronária, e o mecanismo tem dois lados. De um lado, o consumo: massa muscular maior gasta mais oxigênio para a mesma quantidade de trabalho. Do outro, a oferta: a perfusão do miocárdio acontece na diástole e depende da diferença entre a pressão na aorta e a pressão dentro do ventrículo naquele momento. Com pressão diastólica final ventricular elevada, essa diferença encolhe justamente na camada mais interna da parede, que é a que fica mais longe do epicárdio e recebe por último. Um músculo mais faminto irrigado por um gradiente menor: é essa a conta, e é por isso que o cateterismo do paciente com estenose aórtica e angina pode voltar com coronárias limpas sem que a dor fosse falsa.

A síncope é o sintoma mais mal compreendido dos três, e é o que mais interessa ao interno porque é o que mais se confunde com desmaio comum. Ao esforço, os músculos vasodilatam e a resistência periférica cai muito. Num coração normal, o débito cardíaco sobe e compensa a queda; num ventrículo que ejeta por um orifício estreito, o débito não sobe, porque a obstrução é fixa. Pressão de perfusão cerebral igual a débito sobre resistência: com um dos termos travado e o outro despencando, a pressão cai. A diretriz brasileira acrescenta dois detalhes que fazem diferença na anamnese: em cerca de metade dos casos existe também um reflexo cardioinibitório associado, e o uso de vasodilatadores é agente deflagrador comum. Ou seja, o remédio pode ser a causa do sintoma.

Aí está a trava que este capítulo mais precisa deixar clara. Vasodilatador reduz a resistência periférica, e o coração normal responde aumentando o volume ejetado. Na estenose aórtica importante, a válvula não deixa o volume aumentar — a resistência cai e nada compensa. A pressão despenca, a perfusão coronária despenca junto, o miocárdio hipertrofiado isquemia, contrai pior, ejeta menos ainda, e a pressão cai mais. É uma alça que se fecha em minutos e não tem freio próprio: uma vez que ela começa, o vasodilatador já foi absorvido e não há como retirá-lo. Por isso o nitrato sublingual, que é a coisa mais natural do mundo diante de dor torácica, é exatamente a coisa que não se faz aqui antes de saber como é essa válvula.

O sopro da estenose aórtica tem uma propriedade cruel: ele é feito de fluxo, e não de gravidade. A intensidade do sopro depende da quantidade de sangue que atravessa a válvula por unidade de tempo. Enquanto o ventrículo aguenta, ele empurra mais forte, o fluxo é alto, e o sopro é rude e alto. Quando o ventrículo começa a falhar e o volume ejetado cai, passa menos sangue pelo mesmo orifício estreito, e o sopro fica mais fraco e mais curto — no paciente que piorou. O mesmo raciocínio explica o gradiente: gradiente de pressão é fluxo elevado ao quadrado dividido por área, de modo que, com pouco fluxo, uma válvula muito estreita produz gradiente baixo. É por isso que existe a estenose aórtica de baixo fluxo e baixo gradiente, e é por isso que ela engana duas vezes — no estetoscópio e no laudo.

Na insuficiência mitral, o mecanismo que decide tudo é o destino do sangue que volta. Quando a regurgitação se instala devagar, ao longo de anos, o átrio esquerdo dilata e ganha complacência: ele absorve o volume que retorna sem que a pressão suba muito, e a pressão não chega ao capilar pulmonar. O paciente fica anos sem sintoma. Enquanto isso, o ventrículo trabalha em condição facilitada, porque parte do volume sai por um orifício de baixa pressão em vez de sair contra a aorta — a pós-carga efetiva é menor do que parece. A fração de ejeção, calculada sobre o volume total ejetado, sai alta por artifício. Daí a régua contraintuitiva desta doença: fração de ejeção de 60% na insuficiência mitral importante não é normal, é o primeiro sinal de que o ventrículo já perdeu força, e é por isso que o corte de indicação cirúrgica fica em 60% e não nos 50% habituais.

A insuficiência mitral aguda é a mesma lesão sem o tempo que produz a compensação. Uma cordoalha rompe, um músculo papilar infarta e se rompe, uma vegetação de endocardite perfura uma cúspide — e de uma sístole para a outra um átrio de tamanho normal, rígido, recebe um volume que não cabe. A pressão sobe verticalmente, atravessa a veia pulmonar sem amortecimento e alcança o capilar: edema pulmonar em minutos, num coração que o raio X ainda mostra do tamanho certo. O sopro, aqui, é o oposto do que se espera de uma lesão grave: como a pressão do átrio sobe muito e rápido, a diferença de pressão entre ventrículo e átrio se anula antes do fim da sístole, e o sopro fica curto, discreto, às vezes inaudível. Um paciente em edema agudo, com coração de tamanho normal e sopro pequeno, é insuficiência mitral aguda até prova em contrário — e sopro pequeno, nesse contexto, é sinal de gravidade, não de tranquilidade.

Estenose aórtica com hipertrofia ventricular concêntrica versus insuficiência mitral crônica com dilatação de átrio e ventrículo.
À esquerda, a obstrução à ejeção na estenose aórtica aumenta a sobrecarga de pressão. À direita, a regurgitação mitral crônica impõe sobrecarga de volume, com remodelamento de átrio e ventrículo. A insuficiência mitral aguda pode ser grave sem a dilatação crônica mostrada no segundo painel. Ilustração didática original.
05

Como se apresenta de verdade

Estas duas doenças se apresentam de quatro maneiras, e só uma delas é a do livro. Existe o sopro achado por acaso em quem se diz bem; existe o cansaço que o paciente atribuiu à idade; existe a apresentação por complicação, quando a primeira manifestação é uma arritmia, uma embolia ou uma internação por congestão; e existe a emergência, que é a insuficiência mitral aguda. O que separa as quatro não é qual válvula está doente: é quanto tempo o coração teve para se acomodar.

O sopro, escrito pelo que ele responde

Sopro sistólico é achado, não diagnóstico, e a diferença entre uma linha inútil e uma linha que muda a conduta está em cinco respostas. Onde é mais alto. Em que momento do ciclo começa e termina. Para onde vai. O que acontece com as bulhas. E o que muda quando se pede uma manobra. Nenhuma dessas cinco exige equipamento, e nenhuma delas está na frase sopro sistólico mais dois sinais de mais.

Onde e para onde separam as duas doenças na maior parte das vezes. A estenose aórtica é mais audível no segundo espaço intercostal direito, junto ao esterno, e irradia para as carótidas, de modo que o mesmo ruído aparece quando se encosta o estetoscópio no pescoço. A insuficiência mitral é mais audível no ictus, na região do quinto espaço à esquerda, e irradia para a axila e para a região infraescapular do mesmo lado. Há uma exceção que confunde e tem nome: o fenômeno de Gallavardin, em que o componente musical do sopro aórtico é transmitido para a ponta e imita um sopro mitral. O que desfaz a confusão é a irradiação para a carótida, que a insuficiência mitral não tem.

Quando, dentro da sístole, é o achado mais discriminativo dos cinco. O sopro da estenose aórtica é ejetivo: começa depois da primeira bulha, cresce até um pico e diminui até acabar antes da segunda bulha, porque ele acompanha a curva de fluxo pela válvula. Quanto mais grave a estenose, mais tarde o pico — pico telessistólico é sinal de doença avançada. O sopro da insuficiência mitral é regurgitativo: começa junto com a primeira bulha e se mantém em platô até a segunda, porque o ventrículo já está acima da pressão atrial desde o primeiro instante da sístole e continua até o último. Um cresce e decresce; o outro é um chuveiro ligado do começo ao fim.

As bulhas fecham o raciocínio. Na estenose aórtica importante, a segunda bulha perde intensidade no foco aórtico, porque a cúspide calcificada fecha com menos ruído, e pode ficar única ou com desdobramento paradoxal, já que o ventrículo esquerdo demora tanto a esvaziar que o componente aórtico atrasa e passa para depois do pulmonar. Na insuficiência mitral importante, a primeira bulha fica hipofonética e a segunda pode ficar hiperfonética quando já existe hipertensão pulmonar; a diretriz brasileira registra que a perda de intensidade da primeira bulha, em quem antes a tinha, é marcador de gravidade e pode indicar ruptura de cordoalha ou disfunção ventricular. Uma quarta bulha nova sugere ventrículo rígido; uma terceira bulha nova, ventrículo sobrecarregado de volume.

As manobras são o que o interno mais deixa de fazer e o que mais rende. Pedir ao paciente que se agache e depois levante: agachar aumenta o retorno venoso e a resistência periférica, e o sopro da insuficiência mitral fica mais intenso; levantar rápido reduz os dois, e o sopro da estenose aórtica fica mais intenso relativamente porque a obstrução dinâmica de outras causas se comporta ao contrário. A expiração sustentada realça o que é esquerdo e a inspiração profunda realça o que é direito — regra simples e quase sempre suficiente para separar um sopro tricúspide de um mitral. E a manobra que não é manobra: encostar o estetoscópio na carótida enquanto se palpa o pulso do outro lado, para conferir se o ruído irradia e se o pulso demora.

A tríade que muda o prognóstico, e por que ela nunca chega sozinha

Angina, síncope e dispneia são os três sintomas da estenose aórtica, e o dia em que o primeiro deles aparece divide a doença em duas. Antes, o risco de morte é baixo e a operação é uma escolha que se pode discutir. Depois, o risco sobe de forma acentuada, e a operação passa a ser a única coisa que muda o desfecho — a diretriz brasileira coloca o paciente com estenose aórtica importante e qualquer um dos três como indicação inequívoca de intervenção, classe I com nível de evidência A na régua nacional. Nenhum exame define esse dia. Quem define é a anamnese.

E a anamnese falha por um motivo previsível: o paciente não relata o sintoma, ele evita o esforço que o produz. A diretriz brasileira dá nome a isso: pseudo-assintomático é o paciente de sintomatologia duvidosa, que pode ser levado ao teste ergométrico ou ergoespirométrico exatamente para descobrir se a ausência de queixa é real. Antes de pedir o teste, porém, existe uma pergunta de graça, e ela não é você tem falta de ar. É: o que o senhor fazia no ano passado e não faz mais? Ou, na versão que funciona melhor com idoso: quantas paradas o senhor faz naquela subida hoje, e quantas fazia antes?

Cada um dos três sintomas tem uma pergunta específica que os torna visíveis. A dispneia se procura em atividade concreta com marco geográfico: a ladeira, o lance de escada, o corredor até o ponto de ônibus. A angina se procura sem a palavra dor, porque muitos descrevem aperto, peso, queimação ou falta de ar, e se procura ligada a esforço, não em repouso. E a síncope se procura pelo evento, não pelo nome: o senhor já teve escurecimento de vista, já precisou sentar de repente, já apagou, alguém já disse que o senhor ficou branco? Perda de consciência ao esforço, em quem tem sopro sistólico aórtico, é achado que suspende a rotina da consulta.

Existe ainda uma ordem histórica útil, e ela vale como alerta de gravidade: angina costuma vir primeiro, síncope depois, e dispneia por insuficiência cardíaca por último. Quando o paciente chega com o terceiro, o ventrículo já mudou. Isso não muda a conduta — os três indicam intervenção do mesmo jeito —, mas muda a urgência com que você persegue o encaminhamento.

Dois achados que o laudo não substitui: o pulso e o ictus

O pulso carotídeo da estenose aórtica importante é lento para subir e de amplitude pequena, o pulso parvus et tardus, e ele se examina com dois dedos sobre a carótida, não no rádio, porque a onda vai se deformando ao longo da árvore arterial. Palpar carótida e ouvir o precórdio ao mesmo tempo dá uma informação que nenhum exame de imagem entrega em consulta de dez minutos: um sopro sistólico áspero acompanhado de pulso que demora a chegar é estenose até que se prove o contrário. A armadilha é o idoso hipertenso com artéria rígida, em quem o enrijecimento da parede pode restituir uma subida rápida e mascarar o achado — o que significa que a ausência de parvus et tardus no idoso não exclui nada.

O ictus separa as duas doenças pelo tipo de sobrecarga. Na estenose aórtica pura, o ventrículo hipertrofia sem dilatar, e o ictus fica no lugar, porém mais forte e mais sustentado: propulsivo, empurrando o dedo por mais tempo. Na insuficiência mitral crônica importante, o ventrículo dilata, e o ictus se desloca para fora da linha hemiclavicular e para baixo, ocupando mais de uma polpa digital. A diretriz brasileira lista esse desvio como característica de insuficiência mitral primária importante. É um achado que se perde por não se procurar: exige o paciente em decúbito lateral esquerdo, com a mão espalmada, e uns quinze segundos.

Um terceiro achado fecha o par e quase não é ensinado: o frêmito. Sopro que se palpa como vibração no foco aórtico corresponde, na prática, a sopro de intensidade elevada, e sopro de intensidade elevada em foco aórtico com irradiação carotídea raramente é inocente. Frêmito palpável em paciente que se diz assintomático é motivo suficiente para pedir ecocardiograma nesta consulta, sem discussão.

A insuficiência mitral aguda, que não se parece com valvopatia

Este é o quadro que mais mata por atraso, e ele chega sem nada que lembre doença valvar. Paciente com dispneia intensa que começou em horas, estertores por todo o pulmão, saturação baixa, taquicárdico, muitas vezes hipotenso, quase sempre sentado e sem conseguir deitar. O raio X mostra congestão pulmonar exuberante com área cardíaca de tamanho normal, porque não houve tempo de dilatar nada. E a ausculta, que deveria ser o que grita, é o que sussurra: o sopro é curto, protossistólico ou mesossistólico, discreto, e pode simplesmente não ser ouvido no meio do ruído respiratório.

A explicação está no mecanismo, e ela precisa estar clara para que o achado não tranquilize: o sopro é feito da diferença de pressão entre ventrículo e átrio, e num átrio pequeno e rígido essa diferença se anula cedo dentro da sístole. Sopro discreto, aqui, é consequência da gravidade, não da leveza. A regra prática que resulta disso é uma frase: em edema agudo de pulmão, procurar o sopro é obrigatório, e sopro pequeno não descarta nada.

As três causas que produzem este quadro são reconhecíveis pela história das últimas semanas. Ruptura de cordoalha tendínea, que costuma acontecer sobre um prolapso mitral já existente e pode ocorrer em pessoa previamente hígida, muitas vezes sem gatilho. Ruptura de músculo papilar, complicação mecânica de infarto, tipicamente entre o segundo e o sétimo dia, em paciente que estava melhorando e piorou de repente — cenário que pertence ao capítulo de complicações mecânicas do infarto e que aqui interessa apenas como causa da válvula incompetente. E endocardite infecciosa com perfuração de cúspide, em paciente com febre prolongada, muitas vezes com valvopatia prévia conhecida, cenário cujo diagnóstico e tratamento da infecção pertencem ao capítulo próprio.

O que muda de conduta é o relógio. A insuficiência mitral crônica dá anos; a aguda dá horas, e o tratamento definitivo é cirúrgico. Tudo o que se faz clinicamente é ponte.

Quando a doença estreia por uma complicação

Uma parcela dos pacientes não chega com sopro nem com cansaço: chega com o que a valvopatia produziu. Fibrilação atrial de início recente é a mais frequente, e na insuficiência mitral ela é mais do que uma arritmia — a diretriz brasileira a lista como complicador, e complicador é o que transforma acompanhamento em indicação de intervenção. Palpitação nova em paciente com sopro mitral não é caso de tratar a arritmia e mandar embora com controle de frequência: é caso de perguntar o que a válvula está fazendo e pedir o ecocardiograma. O anticoagulante, nesses pacientes, segue regra própria e não a do escore usual, o que é assunto do capítulo de fibrilação atrial desta apostila.

Hipertensão pulmonar é a segunda estreia. Uma pressão sistólica pulmonar que alcance 50 mmHg com o paciente em repouso, ou 60 mmHg durante o esforço, é complicador tanto na insuficiência mitral quanto em outras lesões, e clinicamente aparece como cansaço desproporcional, edema, turgência jugular e hepatomegalia — o paciente que se investiga como insuficiência cardíaca direita e cuja causa está do lado esquerdo. O crescimento do átrio esquerdo, a partir de 60 mL por metro quadrado de superfície corporal, entra na mesma lista de complicadores e é um dado que costuma estar no laudo do eco e ser lido por ninguém.

Existe ainda a estreia embólica e a estreia infecciosa. Acidente vascular cerebral em paciente jovem com sopro obriga a procurar a válvula e a pensar em fibrilação atrial e em endocardite. Febre arrastada, com perda de peso, em quem tem valvopatia conhecida, é endocardite até que se prove o contrário, e o exame que muda é a hemocultura antes do antibiótico. Nos dois casos, a valvopatia não era desconhecida do paciente: era desconhecida do prontuário.

O mesmo diagnóstico em três pacientes diferentes

No idoso, a doença dominante é a estenose aórtica calcificada, e a dificuldade é o denominador: cansaço, dispneia e tontura são queixas tão comuns nessa faixa que se atribuem à idade, ao sedentarismo ou ao anti-hipertensivo. Além disso, a baixa demanda funcional esconde o sintoma, e a rigidez arterial pode apagar o pulso característico. O que resta como sinal confiável é o sopro com irradiação carotídea, a segunda bulha abafada e a pergunta sobre o que ele deixou de fazer. E há um detalhe que muda a leitura de todo o resto: no idoso com pressão alta, uma pressão sistólica que baixa sozinha, sem que se tenha mexido em remédio nenhum, pode ser a válvula limitando o débito — não é melhora, é progressão.

No adulto jovem brasileiro, a etiologia dominante é reumática, e ela tem duas assinaturas. A primeira é o acometimento simultâneo de mitral e aórtica, que a diretriz descreve como característica da lesão reumática; achar duas válvulas doentes no mesmo paciente jovem praticamente entrega a etiologia. A segunda é a coexistência de estenose e insuficiência na mesma válvula, a dupla disfunção, descrita na diretriz de 2011 como a apresentação mitral reumática mais comum, manifestando-se entre a segunda e a quinta décadas. Nesse paciente, além de tratar a válvula, existe uma tarefa que só o clínico faz e que ninguém cobra: verificar se a profilaxia secundária da febre reumática está sendo feita, e retomá-la se não estiver.

Na gestante, o problema é hemodinâmico e previsível: a gravidez aumenta o volume circulante e o débito cardíaco e reduz a resistência periférica. Lesões regurgitantes, como a insuficiência mitral, tendem a ser bem toleradas porque a queda da resistência favorece o fluxo anterógrado. Lesões estenóticas são o oposto: a válvula não deixa o débito subir na proporção exigida, e a paciente descompensa, tipicamente no segundo trimestre ou no periparto. A régua completa da valvopatia na gestação está na seção própria da diretriz brasileira e no acompanhamento obstétrico especializado; o que este capítulo fixa é o gatilho — sopro novo ou piora funcional em gestante com valvopatia conhecida pede ecocardiograma e conversa com quem vai conduzir o parto, e não observação até a próxima consulta de pré-natal.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação aqui responde a quatro perguntas, e elas têm ordem. Existe lesão valvar? Ela é anatomicamente importante? Qual é a causa? E há sintoma ou complicador que a torne cirúrgica agora? O exame que responde às três primeiras é um só, e o que responde à quarta não é exame nenhum — é a consulta.

O erro típico do interno neste tema não é desconhecer a doença: é pedir o exame certo com a pergunta errada, receber um laudo com quinze medidas e não saber qual delas move a conduta. Esta seção é sobre ler o laudo, não sobre fazer o exame.

O primeiro exame é o ecocardiograma transtorácico, e o pedido é metade do resultado

Diante de um sopro que não é claramente inocente, o exame é o ecocardiograma transtorácico com Doppler, e não há substituto. Ele responde às três perguntas de uma vez: se existe lesão, quão grave ela é e por que ela existe. A diretriz brasileira de 2011 já colocava em classe I, nível de evidência B, o diagnóstico e a avaliação da gravidade da estenose aórtica e de suas repercussões ventriculares — e o ecocardiograma segue, na atualização de 2020, como o primeiro e principal exame tanto para quantificar quanto para definir a etiologia da insuficiência mitral.

O que muda o resultado prático é o que está escrito no pedido. Um pedido que diz apenas ecocardiograma volta com um laudo padrão que pode não trazer o que você precisa. Um pedido que descreve o sopro por inteiro, informa peso e altura e faz uma pergunta explícita volta respondido. Peso e altura não são burocracia: a área valvar aórtica indexada e o volume ejetado indexado dependem da superfície corporal, e sem esses dados o ecocardiografista calcula com o que estiver anotado ou não calcula. Numa mulher de 1,58 m e 52 kg, a superfície corporal fica em torno de 1,5 m²; num homem de 1,75 m e 95 kg, em torno de 2,1 m². A mesma área valvar de 1,05 cm² é 0,69 cm²/m² na primeira e 0,50 cm²/m² no segundo — moderada em um caso e importante no outro, pelo critério indexado.

As perguntas que valem a pena escrever no pedido são quatro, e cabem em duas linhas: qual a área valvar aórtica absoluta e indexada, o gradiente médio e a velocidade máxima; qual o grau da insuficiência mitral pelos parâmetros quantitativos; qual a fração de ejeção e o diâmetro sistólico do ventrículo esquerdo; e qual a pressão sistólica de artéria pulmonar estimada. Acrescente uma frase de contexto clínica: sopro sistólico aórtico com irradiação carotídea, dispneia aos esforços há oito meses, episódio de pré-síncope ao esforço. O ecocardiografista que sabe o que você está procurando procura melhor.

Quando o transtorácico não resolve, existem caminhos, e cada um tem indicação restrita. O transesofágico entra quando a janela é ruim ou quando é preciso detalhar o mecanismo da regurgitação antes de uma plástica. A ressonância magnética cardíaca entra, segundo a diretriz de 2020, em dissociação entre clínica e ecocardiograma, em imagem de qualidade limitada, para confirmar a graduação antes de intervenção programada na mitral e para avaliar disjunção do anel mitral no contexto de doença mixomatosa. A tomografia de tórax entra para o escore de cálcio valvar em situação específica, tratada adiante. Nenhum deles é passo de rotina.

O laudo da estenose aórtica em cinco números, lidos nesta ordem

Lesão importante, na régua vigente, exige duas coisas ao mesmo tempo: que o orifício esteja estreito e que o sangue o atravesse depressa. O estreitamento se prova por qualquer um de dois números — orifício de 1,0 cm² para baixo, ou orifício corrigido pela superfície corporal de 0,6 cm²/m² para baixo. A pressa se prova por qualquer um de outros dois — gradiente médio de 40 mmHg para cima, ou jato aórtico de 4,0 m/s para cima. Um quinto número entra quando a área é difícil de medir: a razão entre a velocidade na via de saída do ventrículo e a velocidade na valva aórtica, abaixo de 0,25, indica lesão importante, e ela tem a vantagem de não depender da medida do diâmetro da via de saída, que é a maior fonte de erro do cálculo de área.

A ordem de leitura importa mais do que parece. Comece pela velocidade máxima, porque é a medida mais direta e menos derivada de todas — é o que o aparelho mede, não o que ele calcula. Depois o gradiente médio, que vem da velocidade e por isso carrega o mesmo erro. Depois a área, que é calculada pela equação de continuidade e depende de três medidas, entre elas o diâmetro da via de saída elevado ao quadrado — de modo que um erro de 10% nesse diâmetro vira um erro de 21% na área. Só então a área indexada, e por fim a razão de velocidades, que é a sua rede de segurança quando os outros números discordam entre si.

Duas advertências de leitura. A primeira: o gradiente que entra nesses critérios é o gradiente médio, medido por Doppler, e não o gradiente de pico. O mesmo documento que usa 40 mmHg para o gradiente médio ecocardiográfico usa 50 mmHg para o gradiente de pico medido no estudo hemodinâmico, e aplicar um número ao outro exame classifica o paciente errado. Se o laudo trouxer só gradiente máximo, o número não é comparável com a régua. A segunda: as faixas abaixo de importante são área entre 1,0 e 1,5 cm² com gradiente médio de 25 a 39 mmHg para lesão moderada, e área acima de 1,5 cm² com gradiente médio abaixo de 25 mmHg para lesão discreta — e essas faixas servem para uma coisa concreta, que é definir de quanto em quanto tempo o paciente volta.

O diagnóstico diferencial mora aqui dentro, e ele se resolve com os mesmos números. Esclerose aórtica é o espessamento e a calcificação da válvula sem obstrução: existe o sopro, existe a calcificação no laudo, e a velocidade máxima fica abaixo de 2,5 m/s — não é estenose e não tem indicação cirúrgica, mas também não é achado inocente, porque associa-se ao mesmo perfil de risco vascular. Sopro de hiperfluxo, por anemia, febre ou hipertireoidismo, é ejetivo, curto, sem irradiação carotídea marcante, com válvula normal no eco, e desaparece quando a causa é corrigida. A cardiomiopatia hipertrófica obstrutiva produz sopro sistólico que aumenta com a manobra de Valsalva e ao levantar — o oposto do que faz a estenose valvar, que diminui quando cai o retorno venoso — e o eco mostra a hipertrofia septal com obstrução dinâmica, não a válvula.

Quando os números discordam: baixo fluxo e baixo gradiente

A situação em que o laudo engana tem definição precisa: um orifício de 1,0 cm² para baixo, portanto já no território da lesão importante, acompanhado de um gradiente médio que ficou aquém dos 40 mmHg, portanto no território da lesão moderada. Os dois números não podem estar certos ao mesmo tempo, e a saída não é escolher o mais tranquilizador. É perguntar quanto sangue está atravessando aquela válvula.

Se a fração de ejeção está abaixo de 50%, o cenário é o de baixo fluxo e baixo gradiente com disfunção ventricular, e o exame que decide é o ecocardiograma sob estresse com dobutamina. Ele responde duas coisas de uma vez. A primeira é se existe reserva contrátil, definida como um acréscimo de 20% ou mais no volume sistólico ejetado, ou uma elevação superior a 10 mmHg no gradiente médio. A segunda é o que acontece com a área quando o fluxo aumenta: se a área se mantém ou se reduz, com tolerância de aumento de até 0,2 cm², a estenose é importante de verdade e o ventrículo está doente por causa dela; se a área aumenta 0,3 cm² ou mais, a válvula era moderada o tempo todo e o problema é do músculo — a chamada estenose pseudo-importante. Quando não há reserva contrátil, a diretriz manda confirmar a gravidade pelo escore de cálcio valvar na tomografia, e registra que esses pacientes também se beneficiam de intervenção.

Se a fração de ejeção está acima de 50%, o cenário é a forma paradoxal, e ela exige quatro condições simultâneas para ser aceita como importante. São elas: orifício corrigido pela superfície corporal de 0,6 cm²/m² para baixo; escore de cálcio valvar elevado; sistólica que não ultrapasse 140 mmHg no momento do exame; e volume ejetado indexado abaixo de 35 mL/m². A exigência da pressão tem lógica direta: pressão alta no momento do exame aumenta a pós-carga total e reduz o gradiente transvalvar, produzindo baixo gradiente por hipertensão, não por gravidade. Paciente com pressão de 170 mmHg no dia do eco precisa ter a pressão tratada e o exame repetido antes de qualquer decisão. Se todos os parâmetros se cumprem exceto o volume ejetado, que está normal, a entidade é outra — normofluxo com baixo gradiente —, e sobre ela a própria diretriz escreve que as evidências são escassas.

O escore de cálcio valvar aórtico, medido por tomografia de tórax multidetectora, tem cortes diferentes por sexo na régua vigente: acima de 1.300 unidades em mulheres e acima de 2.000 unidades em homens reforçam a possibilidade de lesão importante. Vale saber que esse número mudou entre edições brasileiras — a atualização de 2017 trabalhava com um valor único acima de 1.650 unidades, acrescentando que mulheres tendem a calcificar menos, com média em torno de 1.200. Material de estudo que ainda cite 1.650 está na régua anterior.

O laudo da insuficiência mitral: cinco parâmetros e uma fração de ejeção que mente

A insuficiência mitral importante se define por cinco parâmetros ecocardiográficos, e basta consistência entre eles: área do jato regurgitante correspondendo a 40% ou mais da área do átrio esquerdo, fração regurgitante de 50% ou mais, volume regurgitante de 60 mL ou mais por batimento, vena contracta de 0,7 cm ou mais, e área efetiva do orifício regurgitante de 0,40 cm² ou mais. Os dois primeiros são estimativas grosseiras e dependem do ajuste do aparelho; os três últimos são quantitativos e são os que se procura no laudo. A área do jato, em particular, é a medida que mais engana: jato excêntrico, que corre rente à parede do átrio, parece pequeno e subestima uma lesão grave.

As faixas abaixo de importante existem e servem para marcar retorno: moderada é jato de 20% a 40% da área atrial, fração regurgitante de 30% a 49%, volume regurgitante de 30 a 59 mL, vena contracta de 0,3 a 0,69 cm e orifício regurgitante de 0,20 a 0,39 cm²; discreta é tudo abaixo disso, com orifício regurgitante menor que 0,20 cm². Vale um aviso de leitura, porque o número aparece impresso de forma inconsistente: o orifício regurgitante se mede em centímetros quadrados, e 0,20 cm² equivalem a 20 mm². Um valor escrito em milímetros quadrados na casa dos décimos está cem vezes fora da escala, e a comparação correta é sempre contra 0,40 cm², ou 40 mm², para lesão importante.

O terceiro grupo de números do laudo é o que decide cirurgia no paciente sem sintoma, e é onde a fisiologia inverte a intuição. Os complicadores da insuficiência mitral primária importante são fração de ejeção de 60% ou menos, diâmetro sistólico do ventrículo esquerdo de 40 mm ou mais, pressão sistólica de artéria pulmonar de 50 mmHg em repouso ou de 60 mmHg ao esforço, volume do átrio esquerdo de 60 mL/m² ou mais, e fibrilação atrial de início recente, considerada como iniciada há menos de um ano. Repare no primeiro: 60%, e não 50%. A razão está no mecanismo — parte do volume sai pelo orifício regurgitante, que oferece pouca resistência, de modo que a fração de ejeção calculada superestima a força real do ventrículo. Quando ela cai a 60%, a lesão miocárdica já começou. Fração de ejeção de 58% num laudo é normal em quase toda a cardiologia e é indicação de encaminhamento aqui.

Há uma inconsistência de redação nesse ponto dentro do próprio documento brasileiro, e ela tem paciente dentro. O texto corrido da seção descreve o complicador como fração de ejeção menor que 60%, ao passo que a tabela de complicadores escreve menor ou igual a 60%, e a tabela de recomendações escreve entre 30 e 60%. O paciente com 60% exatos é complicador por duas leituras e não é pela terceira; e o paciente com fração de 26% não aparece em nenhuma linha da tabela de recomendações, embora esteja dentro da definição do texto. A redação de menor que 60% é herdada da edição de 2011, que escrevia exatamente assim; as tabelas foram atualizadas e a frase não. Diante do laudo com 60% redondos, a leitura segura é tratá-lo como complicador e encaminhar, porque as duas versões tabulares concordam nisso.

Por fim, o diferencial da insuficiência mitral se faz por um dado que não está no eco: o tempo. A distinção entre forma primária, que é doença da válvula, e secundária, que é válvula normal em ventrículo doente, muda todo o tratamento, e o ecocardiograma a entrega ao descrever o mecanismo — folheto retraído, cordoalha rota ou prolapso na primária; anel dilatado, cúspides tracionadas e alteração da contração segmentar na secundária. E a distinção entre crônica e aguda se faz pelo tamanho do átrio esquerdo e do ventrículo: átrio grande significa anos de doença, átrio normal em paciente muito sintomático significa lesão recente.

O que o eletrocardiograma e o raio X ainda entregam — e três exames que não se pedem

O eletrocardiograma não faz o diagnóstico e continua valendo a pena por três razões. Ele mostra sobrecarga de câmaras esquerdas, com alteração de repolarização em padrão de sobrecarga na estenose aórtica importante; ele flagra fibrilação atrial, que na insuficiência mitral é complicador com valor de decisão; e ele mostra distúrbios de condução, que na estenose aórtica calcificada aparecem porque o cálcio avança do anel aórtico sobre o feixe de condução — bloqueio de ramo ou bloqueio atrioventricular novo em paciente com sopro aórtico é dado que sugere doença avançada.

O raio X de tórax entrega duas informações que mudam raciocínio. Na estenose aórtica, a área cardíaca costuma ser normal, porque a hipertrofia é concêntrica e cresce para dentro — de modo que coração de tamanho normal não afasta doença grave. Na insuficiência mitral crônica, a silhueta aumenta às custas de ventrículo e átrio esquerdos. E a combinação que mais importa é aquela já descrita: congestão pulmonar intensa com área cardíaca normal, que aponta para lesão aguda.

Três exames merecem atenção pelo que custam quando pedidos fora de hora. O teste ergométrico é ferramenta legítima para desmascarar o pseudo-assintomático e para buscar complicadores no assintomático — capacidade funcional limitada, resposta pressórica inadequada, arritmia ventricular ou infradesnivelamento de segmento ST —, e a própria diretriz o coloca como contraindicado em paciente sintomático ou com disfunção ventricular esquerda. Pedir esteira para o paciente que já contou a síncope não acrescenta informação e o expõe. Um detalhe de leitura: a definição de resposta pressórica inadequada aparece de dois jeitos no mesmo documento — o texto corrido fala em queda de 20 mmHg na sistólica, e a tabela de complicadores define como ascensão menor do que 20 mmHg ou queda maior que 10 mmHg. Quem lê só o texto perde o paciente cuja pressão sobe pouco e nunca chega a cair.

O cateterismo cardíaco para medir gradiente é classe III quando os testes não invasivos são adequados e concordantes com os achados clínicos: nesse cenário, ele não acrescenta e submete o paciente a risco. Sua indicação legítima é a discrepância entre clínica e ecocardiograma. Já a coronariografia é outra conversa e tem indicação ampla — ela é feita antes da cirurgia valvar em quem tem fatores de risco para doença coronária, porque a decisão do cirurgião muda se houver lesão obstrutiva a revascularizar no mesmo tempo cirúrgico. E o peptídeo natriurético não é critério de gravidade valvar na régua brasileira; ele aparece nas recomendações apenas na coluna europeia, como um dos marcadores de valvopatia crítica no assintomático. Pedir peptídeo esperando que ele diga se a válvula é importante é gastar exame e não decidir nada.

O que existe no serviço em que você está

O ecocardiograma transtorácico é o único exame verdadeiramente indispensável deste capítulo, e é também o gargalo mais comum. Em muitos serviços a fila é de meses, e é aí que a diferença entre um pedido de rotina e um pedido priorizado se converte em desfecho. Priorização não se consegue com carimbo: consegue-se escrevendo, no próprio pedido, o achado que justifica pressa — sopro sistólico aórtico com irradiação carotídea e segunda bulha abafada, com síncope ao esforço há três meses, é uma frase que muda a posição na fila em qualquer regulação que funcione. E quando existe ecocardiografia à beira do leito no seu serviço, mesmo um exame limitado que mostre válvula muito calcificada com abertura restrita e ventrículo hipertrofiado já é suficiente para suspender vasodilatador e apressar o exame formal.

Tomografia para escore de cálcio e ecocardiograma sob estresse com dobutamina são exames de serviço terciário e não estarão disponíveis na maioria das unidades onde o interno atende. Isso não muda a conduta do interno, porque nenhum dos dois é passo dele: os dois pertencem à etapa de decisão da intervenção, que acontece no serviço de referência. O que muda é o que se escreve no encaminhamento — a suspeita de baixo fluxo e baixo gradiente precisa estar nomeada por escrito, porque é ela que faz o serviço de destino programar o exame adicional em vez de repetir o transtorácico.

A ressonância magnética cardíaca tem indicação restrita e específica, já descrita, e não substitui o ecocardiograma como triagem. Pedi-la como primeiro exame diante de um sopro atrasa o diagnóstico em meses e consome uma vaga escassa. A regra que resolve quase tudo: o exame que abre é o transtorácico, o exame que confirma a gravidade quando os números discordam é o de estresse ou o escore de cálcio, e o exame que planeja a operação é decidido por quem vai operar.

07

As réguas deste capítulo, com a data de cada uma

Compare mecanismo, sintomas, resposta ventricular e evolução do ecocardiograma. Na estenose aórtica, o ventrículo enfrenta uma obstrução à ejeção; na insuficiência mitral, parte do volume retorna ao átrio e a fração de ejeção pode parecer preservada apesar de disfunção incipiente. O encaminhamento nasce dessa integração, não apenas da intensidade do sopro. Os números que definem lesão importante e indicação cirúrgica mudaram entre as três edições brasileiras de valvopatias, e o material de estudo que circula nos serviços é de várias gerações ao mesmo tempo. As tabelas abaixo mostram o que mudou, quem muda de classe quando se troca de régua, e o que fazer à beira do leito com o laudo que já está na sua mão. A régua a usar é a de 2020; as anteriores estão aqui porque é preciso reconhecê-las quando aparecem.

  1. 1Descreva o sopro por inteiro antes de pedir qualquer coisa: foco de maior intensidade, momento dentro da sístole, irradiação, comportamento das bulhas e o que muda com agachar e levantar. Palpe a carótida e o ictus. Essa descrição é o que vai justificar a prioridade do exame.
  2. 2Procure o sintoma pelo que o paciente deixou de fazer, não pela pergunta direta. Angina, síncope, pré-síncope e dispneia aos esforços, cada uma perguntada por evento concreto. Um sintoma presente muda a consulta de rotina em encaminhamento.
  3. 3Suspenda, ainda na consulta, o que pode matar antes do diagnóstico: nitrato, e qualquer vasodilatador iniciado ou aumentado por conta do sopro, enquanto não se souber como é a válvula aórtica.
  4. 4Peça ecocardiograma transtorácico com peso e altura anotados e com quatro perguntas escritas: área valvar aórtica absoluta e indexada, gradiente médio e velocidade máxima; grau quantitativo da insuficiência mitral; fração de ejeção e diâmetro sistólico do ventrículo esquerdo; pressão sistólica de artéria pulmonar.
  5. 5Com o laudo, classifique a gravidade anatômica antes de qualquer outra coisa. Lesão não importante encerra a etapa e vira data de retorno; lesão importante segue no roteiro.
  6. 6Confronte os números entre si. Área pequena com gradiente baixo é bandeira de baixo fluxo: nomeie a suspeita por escrito, porque é ela que faz o serviço de referência programar o exame adicional certo.
  7. 7Em quem não tem sintoma, o que se procura é complicador, e são cinco: fração de ejeção, diâmetro sistólico, pressão pulmonar, volume atrial e ritmo. Um complicador vale tanto quanto um sintoma para encaminhar.
  8. 8Escreva o encaminhamento com laudo anexado, etiologia provável, sintomas com data de início, comorbidades e a lista de medicamentos em uso. E marque o retorno no seu serviço com data, mesmo tendo encaminhado.
0,40,81,01,52,0area valvar aortica, em cm2regua de 2011: importante ate 0,8regua atual: importante ate 1,0faixa em disputa: 0,8 a 1,0

0,9 cm²: moderada em 2011, importante hoje

A área valvar aórtica que define lesão importante subiu de menos de 0,8 cm² na primeira diretriz brasileira para 1,0 cm² ou menos na régua atual. A faixa entre os dois valores é estreita e é justamente onde mora o laudo de quem ainda não foi encaminhado: um paciente com 0,9 cm² e um episódio de síncope ao esforço é indicação cirúrgica formal na régua vigente e era acompanhamento ambulatorial na régua de 2011. O intervalo de retorno muda junto, de um ano para seis meses.

Os mesmos parâmetros nas três edições brasileiras, e quem muda de classe entre elas

A linha do laudoRégua de 2011Régua de 2017Régua vigente, de 2020Quem muda de classe quando se troca de régua
Área valvar aórtica que define lesão importanteAbaixo de 0,8 cm², com área indexada abaixo de 0,6 cm²/m²Menor ou igual a 1,0 cm², com indexada menor ou igual a 0,6 cm²/m²Menor ou igual a 1,0 cm² e/ou indexada menor ou igual a 0,6 cm²/m², com gradiente médio de 40 mmHg ou mais, ou velocidade máxima de 4,0 m/s ou maisO paciente com 0,9 cm² era lesão moderada em 2011 e é lesão importante hoje. Se ele tem sintoma, deixou de ser caso de acompanhamento e passou a ser indicação cirúrgica formal — é a mudança de maior consequência da série
Faixa de área que define lesão moderadaDe 0,8 a 1,5 cm²Não redefinida nesta ediçãoDe 1,0 a 1,5 cm², associada a gradiente médio de 25 a 39 mmHgA faixa moderada encolheu por baixo. Toda a fatia entre 0,8 e 1,0 cm² migrou para lesão importante, e com ela migrou o intervalo de retorno: de um ano para seis meses
Gradiente médio entre ventrículo esquerdo e aortaAcima de 40 mmHg para lesão importante, de 25 a 40 mmHg para moderada, com o texto registrando que 40 e 50 mmHg vinham ambos sendo aceitos na literaturaIgual ou acima de 40 mmHgIgual ou acima de 40 mmHg, com a faixa moderada terminando em 39 mmHgO laudo com gradiente médio de exatamente 40 mmHg cai em moderada na régua antiga e em importante na atual. É o valor mais comum de aparecer arredondado num laudo
Velocidade máxima do jato aórticoAcima de 4,0 m/s para importante, de 3,0 a 4,0 m/s para moderadaIgual ou acima de 4,0 m/sIgual ou acima de 4,0 m/sMesmo deslocamento de um símbolo: 4,0 m/s exatos era moderada e é importante. E, nas duas réguas antigas, o valor exato pertencia a duas faixas ao mesmo tempo
Escore de cálcio valvar aórtico por tomografiaA edição decide sem esse parâmetroAcima de 1.650 unidades, valor único para os dois sexos, com a ressalva de que mulheres calcificam menos, com média em torno de 1.200 unidadesAcima de 1.300 unidades em mulheres e acima de 2.000 unidades em homensA mulher com escore de 1.400 unidades não confirmava lesão importante pela régua de 2017 e confirma pela atual; o homem com 1.700 confirmava e deixou de confirmar. É a linha em que a régua antiga erra nos dois sentidos
Impedância valvuloarterialA edição decide sem esse parâmetroAcima de 5,0 mmHg/mL/m², listada entre os critérios de lesão importante e entre os parâmetros da forma paradoxalSai da lista de critériosNinguém muda de classe, mas o laudo que traz esse número não classifica ninguém sozinho hoje. Vale saber para não tratar o achado como se ainda decidisse
Corte de gradiente que indica o ecocardiograma sob estresse com dobutaminaDescrita a indicação sem um corte numérico fechadoÁrea menor ou igual a 1,0 cm², fração de ejeção abaixo de 50% e gradiente médio menor ou igual a 40 mmHgÁrea menor ou igual a 1,0 cm², fração de ejeção abaixo de 50% e gradiente médio abaixo de 40 mmHgO paciente com gradiente médio de exatos 40 mmHg e fração de 45%: pela régua de 2017 ele era simultaneamente lesão importante e lesão de baixo gradiente, porque um critério pedia 40 ou mais e o outro aceitava 40 ou menos. A troca de um símbolo, em 2020, fechou esse vão
Área efetiva do orifício regurgitante na insuficiência mitralImportante a partir de 0,4 cm²; moderada de 0,2 a 0,39 cm²; discreta abaixo de 0,2 cm²Importante a partir de 0,40 cm²Importante a partir de 0,40 cm²; moderada de 0,20 a 0,39 cm²O corte não mudou em quinze anos. O que mudou foi a impressão da faixa discreta na tabela de acompanhamento de 2020, que aparece com unidade trocada — a referência íntegra é a tabela de 2011, e a comparação correta é sempre contra 0,40 cm², ou 40 mm²
Complicador de função ventricular na insuficiência mitral primária assintomáticaFração de ejeção menor que 60% ou diâmetro sistólico do ventrículo esquerdo acima de 40 mmFração de ejeção menor ou igual a 60%; diâmetro sistólico maior ou igual a 40 mmNas tabelas, fração de ejeção menor ou igual a 60% e diâmetro sistólico maior ou igual a 40 mm; no texto corrido da seção, fração de ejeção menor que 60%O paciente com fração de exatos 60% e o com diâmetro sistólico de exatos 40 mm. A redação do texto corrido de 2020 é a de 2011, palavra por palavra: a tabela foi atualizada e a frase ficou para trás
Intervalo de reavaliação da estenose aórtica assintomática sem complicadorA cada 6 meses na importante, a cada ano na moderada, a cada 2 a 3 anos na discretaNão redefinido nesta ediçãoA cada 6 meses na importante, a cada ano na moderada, a cada 2 a 3 anos na discretaNinguém. É a única linha da tabela estável nas três edições, e é a que o interno mais esquece de escrever na alta do ambulatório

O sopro respondido pelas cinco perguntas, e o que cada resposta decide

A pergunta que se faz com o estetoscópio na mãoResposta que aponta estenose aórticaResposta que aponta insuficiência mitralO que a resposta muda na conduta
Onde é mais alto?Segundo espaço intercostal direito, junto ao esternoIctus, quinto espaço intercostal esquerdo, na linha hemiclavicular ou fora delaDefine qual válvula você vai nomear no pedido do ecocardiograma, e portanto qual pergunta o laudo vai responder
Quando começa e quando termina, dentro da sístole?Começa depois da primeira bulha, cresce até um pico e decresce, terminando antes da segunda. Pico cada vez mais tardio indica doença mais avançadaComeça junto com a primeira bulha e se mantém sem crescer nem decrescer até a segundaÉ a resposta mais discriminativa das cinco, e a única que separa as duas doenças mesmo quando a irradiação é atípica
Para onde irradia?Para as duas carótidas; o ruído reaparece com o estetoscópio no pescoçoPara a axila e para a região infraescapular do mesmo ladoDesfaz o fenômeno de Gallavardin, em que o sopro aórtico é ouvido na ponta e imita sopro mitral. Irradiação carotídea não pertence à insuficiência mitral
O que aconteceu com as bulhas?Segunda bulha abafada ou única no foco aórtico, podendo haver desdobramento paradoxal; quarta bulha por ventrículo rígidoPrimeira bulha hipofonética, com a perda de intensidade valendo como marcador de gravidade; segunda bulha hiperfonética quando já há hipertensão pulmonar; terceira bulha por sobrecarga de volumeSegunda bulha abafada em foco aórtico é um dos poucos achados de exame físico que a diretriz lista como característica de lesão importante — vale como argumento escrito no pedido do exame
O que muda com agachar e levantar?Pouco em intensidade absoluta; o que se procura aqui é o contraste com a obstrução dinâmica, que faz o opostoAumenta ao agachar, porque sobem o retorno venoso e a resistência periféricaSopro sistólico que aumenta ao levantar rápido e à manobra de Valsalva desloca a suspeita para cardiomiopatia hipertrófica obstrutiva, que tem outro tratamento e outra proibição
O que dizem o pulso e o ictus?Pulso carotídeo de pequena amplitude e subida lenta; ictus no lugar, porém forte e sustentado. A rigidez arterial do idoso pode apagar o pulso característicoPulso sem particularidade; ictus deslocado para fora e para baixo, ocupando área maiorUm pulso lento com sopro áspero irradiando para a carótida basta para pedir o ecocardiograma nesta consulta. Um ictus deslocado indica ventrículo já dilatado, o que muda a urgência do encaminhamento

A mesma regurgitação em dois relógios: aguda contra crônica

PerguntaInsuficiência mitral agudaInsuficiência mitral crônica importanteO erro que a diferença produz
Em quanto tempo se instalou?Minutos a horas: ruptura de cordoalha, ruptura de músculo papilar pós-infarto, perfuração de cúspide por endocarditeAnos, com o paciente assintomático durante boa parte delesTratar a aguda como descompensação de doença crônica e programar exame para o dia seguinte
Como está o átrio esquerdo?Tamanho normal e rígido: não teve tempo de dilatar, e por isso não amortece nadaDilatado, com volume frequentemente acima de 60 mL/m², absorvendo o volume regurgitante sem elevar muito a pressãoLer átrio de tamanho normal como sinal de doença leve, quando é o que explica a gravidade do quadro
Como é o sopro?Curto, protossistólico ou mesossistólico, discreto, às vezes inaudível sob o ruído respiratórioHolossistólico, em platô, audível no ictus com irradiação axilarDescartar valvopatia porque o sopro é pequeno. Aqui, sopro pequeno é consequência da equalização precoce de pressões, ou seja, de gravidade
O que mostra o raio X de tórax?Congestão pulmonar intensa com área cardíaca de tamanho normalSilhueta aumentada às custas de átrio e ventrículo esquerdos, com ou sem congestãoAtribuir a congestão a pneumonia ou a exacerbação de doença pulmonar porque o coração não está aumentado
O que decide a intervenção?O quadro clínico: instabilidade e edema pulmonar em paciente com regurgitação nova são indicação de cirurgia de urgênciaSintoma atribuível à valvopatia, mesmo em classe funcional II, ou complicador ecocardiográfico no assintomáticoEsperar completar a investigação anatômica no paciente agudo e instável, quando o que decide já está diante de você
Qual é o prazo?Horas. O tratamento clínico é ponte: reduzir a pós-carga, tratar a congestão, sustentar a perfusão e chamar a cirurgiaSemanas a meses para operar de forma programada, e anos de acompanhamento antes dissoUsar o vocabulário do crônico — encaminhar, marcar, aguardar vaga — num quadro que se mede em horas

As três edições são documentos da mesma sociedade, e a mais nova não anula a leitura das anteriores: a de 2011 traz a descrição clínica mais longa das lesões e a aritmética do risco cirúrgico contra o risco de morte súbita, e a de 2017 introduziu o algoritmo de cinco passos que a atual declara manter. O que não se deve importar delas são as faixas numéricas.

A tabela de comparação foi montada a partir da leitura integral das três edições, com eixos próprios: as linhas são o que aparece num laudo brasileiro, e não a organização por lesão dos documentos originais.

Todo número desta seção é ecocardiográfico e transtorácico, salvo indicação em contrário. O gradiente medido no estudo hemodinâmico tem corte próprio, de 50 mmHg de pico, e não é intercambiável com o gradiente médio do Doppler.

08

A conduta, hora a hora

A linha do tempo desta doença tem duas velocidades, e as duas aparecem abaixo. A primeira é a de Otacílio: 74 anos, sopro sistólico aórtico com irradiação carotídea, segunda bulha abafada, pulso lento, dispneia aos esforços há oito meses e um episódio de pré-síncope ao esforço há três. Nela, o relógio corre em semanas, e o que decide o desfecho é administrativo tanto quanto clínico. A segunda é a da insuficiência mitral aguda, em que o relógio corre em horas e nada do que se faz clinicamente é tratamento — é ponte.

Não existe medicamento que abra uma válvula estenosada nem que feche uma válvula incompetente. Toda a prescrição abaixo faz uma de três coisas: evita o dano que uma droga errada causaria, controla congestão e comorbidade enquanto o paciente espera, ou impede que a válvula piore por uma causa evitável.

  1. Minuto zero da consulta — o que se decide sem nenhum exame

    Com o sopro descrito e a tríade perguntada, duas decisões já estão tomadas antes de qualquer laudo. A primeira é que este paciente vai ao ecocardiograma, e com prioridade. A segunda, mais urgente, é o que sai da prescrição: em suspeita de estenose aórtica importante, vasodilatador é a droga que pode matar antes do diagnóstico, e a própria diretriz brasileira nomeia o uso de vasodilatadores como deflagrador comum de síncope nesta doença. Isso não significa suspender o anti-hipertensivo de quem está estável há anos — significa não introduzir nem aumentar vasodilatador, e explicar ao paciente, por escrito, que ele não deve usar nitrato sublingual por dor no peito antes de ser avaliado. Registre no prontuário o sopro por inteiro, a data de início de cada sintoma e a decisão de não prescrever vasodilatador com a razão ao lado.

    Prescrição
    • Não introduzir nem aumentar nitrato, sildenafila ou outro vasodilatador enquanto a válvula aórtica não estiver caracterizada; orientar por escrito que o paciente não use nitrato sublingual por conta própria (Atualização das Diretrizes Brasileiras de Valvopatias, SBC, 2020, Quadro 24, que registra vasodilatadores como agentes deflagradores comuns de síncope na estenose aórtica)
    • Manter os anti-hipertensivos em uso em paciente estável e sem hipotensão, revendo a dose se houver tontura postural, e reavaliar a pressão a cada consulta — queda espontânea da sistólica, sem mudança de prescrição, é sinal de progressão da obstrução, não de melhora
    • Não solicitar teste ergométrico em paciente que já relatou sintoma atribuível à valvopatia ou que tenha disfunção ventricular: a diretriz o contraindica nesse cenário (Atualização 2020, Quadro 25)
  2. Mesma consulta — o pedido do ecocardiograma, escrito para voltar respondido

    O pedido é a única parte do processo que está inteiramente sob o seu controle, e é o que determina se o laudo vai responder à sua pergunta ou não. Anote peso e altura, porque as medidas indexadas dependem da superfície corporal. Escreva a suspeita e o achado que a sustenta, porque é isso que a regulação usa para priorizar. E faça as perguntas de forma explícita, para que nenhuma delas volte em branco. Se houver ecocardiografia à beira do leito no seu serviço, um exame limitado já ajuda: válvula muito calcificada com abertura restrita basta para consolidar a proibição do vasodilatador e apressar o exame formal.

    Prescrição
    • Ecocardiograma transtorácico com Doppler, prioritário. No corpo do pedido: peso, altura, descrição completa do sopro, sintomas com data de início
    • Perguntas escritas no pedido: área valvar aórtica absoluta e indexada, gradiente médio e velocidade máxima do jato; graduação quantitativa de eventual insuficiência mitral, com vena contracta, volume regurgitante e área do orifício regurgitante; fração de ejeção e diâmetro sistólico do ventrículo esquerdo; pressão sistólica de artéria pulmonar estimada
    • Eletrocardiograma de doze derivações na mesma consulta, para sobrecarga de câmaras esquerdas, distúrbio de condução e fibrilação atrial (Atualização 2020, Quadros 9 e 22, que incluem o eletrocardiograma entre as características das lesões importantes)
    • Exames de suporte à decisão cirúrgica futura, colhidos agora para não atrasar depois: hemograma, creatinina com estimativa de filtração glomerular, sódio, potássio, glicemia, coagulograma e avaliação odontológica
  3. Com o laudo na mão — classificar, e decidir se encaminha

    Leia na ordem: velocidade máxima, gradiente médio, área, área indexada, razão de velocidades. Se a lesão for importante e houver sintoma atribuível à valvopatia, o encaminhamento é imediato, e essa é a recomendação de maior força da diretriz nacional — classe I, nível de evidência A, para dispneia em classe funcional II ou pior, síncope ou angina. Se não houver sintoma, procure complicador: fração de ejeção abaixo de 50%, ou qualquer um dos três marcadores de mau prognóstico — orifício menor que 0,7 cm², jato mais rápido que 5,0 m/s, gradiente médio maior que 60 mmHg. Se a lesão for importante sem sintoma e sem complicador, o paciente não vai à cirurgia agora, e a conduta é data marcada de retorno em seis meses. Se os números discordarem entre si, nomeie a suspeita de baixo fluxo e baixo gradiente por escrito.

    Prescrição
    • Estenose aórtica importante com dispneia, síncope ou angina: encaminhamento para avaliação de intervenção, sem aguardar exame adicional (Atualização 2020, Quadro 27, classe I nível A na régua brasileira)
    • Estenose aórtica importante assintomática com fração de ejeção abaixo de 50%: encaminhamento, classe I nível B (Atualização 2020, Quadros 25 e 27)
    • Estenose aórtica importante assintomática que exiba um dos três marcadores de mau prognóstico — orifício menor que 0,7 cm², jato mais rápido que 5,0 m/s, gradiente médio maior que 60 mmHg: encaminhamento, classe IIa (Atualização 2020, Quadro 27)
    • Insuficiência mitral primária importante com sintoma, ainda que em classe funcional II, ou com fração de ejeção de 60% ou menos, diâmetro sistólico do ventrículo esquerdo de 40 mm ou mais, pressão pulmonar sistólica estimada em 50 mmHg ou acima, volume atrial esquerdo de 60 mL/m² ou acima, ou fibrilação atrial iniciada há menos de um ano: encaminhamento (Atualização 2020, Quadros 13 e 14)
    • Lesão importante sem sintoma e sem complicador: retorno com data marcada e novo ecocardiograma em 6 meses na estenose aórtica e em até 1 ano na insuficiência mitral (Atualização 2020, Quadros 15 e 28)
  4. O encaminhamento — o que precisa chegar junto com o paciente

    A decisão sobre qual intervenção fazer não é sua, e a diretriz brasileira é explícita ao colocá-la num time multiprofissional. Mas a qualidade dessa decisão depende do que chega. Encaminhamento que diz apenas valvopatia aórtica para avaliação faz o paciente refazer o caminho inteiro e perder meses. O que o serviço de referência precisa receber cabe numa página: o laudo do ecocardiograma anexado em cópia, a descrição do sopro e do pulso, cada sintoma com a data em que apareceu, a etiologia provável, a lista completa de medicamentos com doses, as comorbidades que pesam no risco cirúrgico, a função renal recente, e a avaliação odontológica, que costuma ser exigida antes de qualquer cirurgia valvar e é a causa mais banal de adiamento.

    Prescrição
    • Encaminhamento para serviço com cirurgia cardiovascular e discussão em time multiprofissional, com laudo do ecocardiograma anexado (Atualização 2020, seções 2 e 8, que colocam a escolha da intervenção sob decisão do time)
    • Anexar ao encaminhamento: eletrocardiograma, creatinina e filtração glomerular estimada, hemograma, glicemia, avaliação odontológica e lista de medicamentos com doses
    • Registrar por escrito, quando houver, a suspeita de estenose aórtica de baixo fluxo e baixo gradiente, para que o serviço programe ecocardiograma sob estresse com dobutamina ou escore de cálcio valvar em vez de repetir o transtorácico
    • Coronariografia antes da cirurgia valvar em quem tem fatores de risco para doença arterial coronária — é pedido do serviço que vai operar, e mencioná-lo no encaminhamento evita uma consulta perdida
  5. Enquanto a fila anda — as duas profilaxias e o que impede a piora evitável

    Entre o encaminhamento e a operação existe um intervalo que costuma durar meses, e ele é do clínico. Três tarefas o ocupam. A primeira é a profilaxia secundária da febre reumática, no paciente com etiologia reumática: é o que impede um novo surto e uma nova lesão sobre a válvula já doente, e a diretriz é explícita ao dizer que a suspensão da profilaxia depois de cirurgia com implante de prótese é conduta classe III, ou seja, não se faz. A segunda é a profilaxia da endocardite, com a parte não farmacológica valendo mais que a farmacológica — a diretriz calcula que a bacteremia acumulada pelas atividades cotidianas, ao longo de um ano, supera em torno de seis vezes aquela produzida por uma única extração de dente, e por isso recomenda quatro consultas odontológicas por ano no valvopata, contra as duas da população geral, e contraindica tatuagem e piercing. A terceira é o controle da congestão e das comorbidades, sem tocar nas travas. O surto agudo, os critérios diagnósticos e a decisão de iniciar a profilaxia pertencem ao capítulo de febre reumática desta apostila; o que se descreve aqui é a tarefa de quem já tem a válvula lesada — não deixar a profilaxia cair enquanto o paciente espera, e mantê-la depois da operação.

    Prescrição
    • Profilaxia secundária da febre reumática: benzilpenicilina G benzatina 600.000 UI por via intramuscular até 25 kg, ou 1.200.000 UI acima de 25 kg, a cada 15 dias nos dois primeiros anos após o surto e a cada 21 dias nos anos seguintes — a diretriz registra que espaçar a aplicação para intervalos mensais deixa de proteger de forma adequada num país tão endêmico quanto o Brasil (Atualização 2020, Quadros 72 e 73; apresentações de 600.000 UI e 1.200.000 UI constam da RENAME 2024). O texto corrido da mesma seção escreve o corte de peso como 27 kg, enquanto os dois quadros escrevem 25 kg; na faixa entre os dois valores, a dose maior é a que os quadros sustentam
    • Em alergia à penicilina: sulfadiazina 500 mg por dia até 25 kg, ou 1 g por dia acima de 25 kg, por via oral (Atualização 2020, Quadro 72). Na RENAME 2024 o medicamento existe como comprimido de 500 mg no componente estratégico — 1 g por dia são dois comprimidos —, e não no componente especializado, ao contrário do que afirma o texto da diretriz. A outra alternativa oral que os quadros citam, a fenoximetilpenicilina, é prescrita neles em miligramas, apresentação que a lista nacional não tem: o que existe é pó para solução oral de 80.000 UI/mL. Como 1 mg de penicilina V potássica equivale a 1.600 UI, os 250 mg dos quadros são 400.000 UI, ou 5 mL da solução, e os 500 mg são 800.000 UI, ou 10 mL — e a própria diretriz registra que ela não deve substituir a penicilina benzatina, por recorrência bem maior
    • Duração da profilaxia secundária: até os 18 anos ou 5 anos após o último surto, o que for mais longo, sem cardite; até os 25 anos ou 10 anos após o surto, com cardite sem sequela ou com sequela muito leve, exceto lesões estenóticas; até os 40 anos no mínimo, e por toda a vida em caso de exposição ocupacional a estreptococos, quando houve cardite com sequela grave ou cirurgia cardíaca (Atualização 2020, Quadro 74)
    • Profilaxia de endocardite antes de procedimento odontológico com manipulação gengival, periodontal ou perfuração de mucosa, em valvopatia moderada ou importante e em portador de prótese: amoxicilina 2 g por via oral em dose única, 1 hora antes — quatro comprimidos de 500 mg, que é a apresentação da RENAME 2024; em criança, 50 mg/kg. Em alergia à penicilina, clindamicina 600 mg ou azitromicina 500 mg, dose única (Atualização 2020, Quadros 77 e 78, classe I nível C na régua brasileira)
    • Profilaxia não farmacológica, em toda consulta: higiene bucal, quatro consultas odontológicas por ano, e contraindicação formal de tatuagem e piercing, incluindo os de língua e mucosas (Atualização 2020, Quadro 75, classe I e classe III respectivamente)
    • Congestão, quando houver: furosemida 20 a 40 mg por dia por via oral, ajustada pelo peso e pelos sinais de congestão, com a advertência de que na estenose aórtica importante a depleção excessiva reduz o enchimento de um ventrículo rígido e produz hipotensão (RENAME 2024, furosemida 40 mg comprimido, componente básico)
  6. Hora zero da insuficiência mitral aguda — os primeiros dez minutos

    Muda tudo: o paciente, o lugar e o relógio. Dispneia intensa iniciada em horas, estertores difusos, saturação baixa, sopro sistólico discreto e área cardíaca normal no raio X. A conduta dos primeiros dez minutos é a de qualquer edema agudo — sentar o paciente, oxigênio, ventilação não invasiva com pressão positiva, acesso venoso, monitorização e eletrocardiograma —, e o manejo detalhado dessa fase pertence ao capítulo de edema agudo de pulmão desta apostila. O que este capítulo acrescenta é a pergunta que precisa ser feita nesses mesmos dez minutos: por que este pulmão encheu agora? Sopro sistólico novo em quem está no quinto dia de um infarto, ou febre arrastada com valvopatia conhecida, ou prolapso mitral prévio, muda a conduta de tratamento clínico para chamada cirúrgica.

    Prescrição
    • Suporte imediato: cabeceira elevada, oxigênio suplementar e ventilação não invasiva com pressão positiva, monitorização contínua, dois acessos venosos, eletrocardiograma de doze derivações e radiografia de tórax à beira do leito
    • Ecocardiograma transtorácico de urgência, no leito, com a pergunta explícita: existe regurgitação mitral nova, qual o mecanismo, e qual o tamanho do átrio esquerdo
    • Comunicação com a equipe de cirurgia cardiovascular na primeira hora, e não depois da estabilização: em regurgitação aguda com instabilidade, o tratamento definitivo é cirúrgico e o tempo é a variável de desfecho
    • Se houver suspeita de complicação mecânica de infarto, seguir o capítulo próprio: o diagnóstico diferencial entre regurgitação mitral aguda e comunicação interventricular é feito à beira do leito e muda o time que se chama
  7. Hora 1 a 3 da insuficiência mitral aguda — a ponte até o centro cirúrgico

    O objetivo hemodinâmico é um só e é fácil de enunciar: fazer o sangue preferir a aorta. Quanto menor a resistência à saída anterógrada, menor a fração do volume que volta para o átrio. Por isso a redução de pós-carga é o eixo, e é exatamente o oposto do que se faz na estenose aórtica — a mesma droga que salva aqui é a que mata lá, e a diferença entre as duas situações está na ausculta e no ecocardiograma de urgência, não na intuição. A redução de pós-carga exige pressão que a permita: com hipotensão franca, ela entra depois ou junto de suporte inotrópico e vasoativo, e a decisão passa a ser de terapia intensiva.

    Prescrição
    • Nitroprusseto de sódio em infusão contínua para redução de pós-carga, apenas com pressão que a tolere: diluir uma ampola de 2 mL a 25 mg/mL, ou seja, 50 mg, em 250 mL, o que resulta em 200 microgramas por mililitro. Iniciar com 0,3 a 1 micrograma por quilo por minuto — em um adulto de 70 kg, 0,3 corresponde a 6,3 mL/h e 1,0 corresponde a 21 mL/h nessa concentração —, titulando pela pressão. A dose média descrita é de 3 microgramas por quilo por minuto, que nesse mesmo paciente são 63 mL/h, e o teto no adulto é de 8, equivalentes a 168 mL/h (bula profissional de Nitrop, nitroprusseto de sódio di-hidratado 25 mg/mL, Hypofarma; diluição e velocidades recalculadas a partir da concentração da apresentação). Proteger da luz e vigiar acúmulo de tiocianato em infusão prolongada ou insuficiência renal
    • Furosemida endovenosa para a congestão, na menor dose que produza diurese, lembrando que o volume aqui está redistribuído e não sobrando — o eixo do tratamento é a pós-carga (RENAME 2024, furosemida 10 mg/mL solução injetável, componente básico)
    • Nitroprusseto de sódio não consta da RENAME 2024, o que não significa que falte no hospital: ele é medicamento de uso hospitalar, adquirido fora da lista de assistência farmacêutica ambulatorial. Confira a disponibilidade no seu serviço antes de precisar dela, não durante
    • Com hipotensão que impeça o vasodilatador: suporte com noradrenalina, disponível na RENAME 2024 como hemitartarato de norepinefrina 2 mg/mL solução injetável, e discussão imediata de terapia intensiva e de balão intra-aórtico com a equipe de referência
  8. Depois da válvula — a alta que o clínico escreve

    O paciente operado volta ao seu ambulatório, e três coisas precisam estar escritas na receita de alta. A anticoagulação, quando há prótese mecânica ou fibrilação atrial associada, segue regra própria: nesses cenários o anticoagulante oral direto não substitui o antagonista da vitamina K, e o detalhe do alvo e do controle pertence a Distúrbios da coagulação e uso de anticoagulantes, na apostila de Hematologia e Hemoterapia. A profilaxia secundária da febre reumática continua, e a diretriz é explícita ao classificar como conduta a não fazer a sua suspensão depois de cirurgia com implante de prótese — a válvula nova não protege as outras válvulas nem o miocárdio de um novo surto. E a profilaxia de endocardite passa a valer para sempre, porque prótese é o grupo de risco elevado.

    Prescrição
    • Manter a profilaxia secundária da febre reumática após a cirurgia valvar: suspendê-la depois de implante de prótese é recomendação classe III (Atualização 2020, Quadro 73)
    • Profilaxia de endocardite mantida indefinidamente no portador de prótese, com o esquema de amoxicilina 2 g em dose única antes de procedimento odontológico de risco (Atualização 2020, Quadros 77 e 78)
    • Prótese mecânica ou fibrilação atrial associada à valvopatia mitral: anticoagulação com antagonista da vitamina K, com varfarina sódica 1 mg e 5 mg disponíveis no componente básico da RENAME 2024. Anticoagulante oral direto não é alternativa nesses dois cenários (Diretriz Brasileira de Fibrilação Atrial, SBC e SOBRAC, 2025, seção de fibrilação atrial valvar)
    • Retorno ambulatorial com data escrita, ecocardiograma de base após a intervenção como nova referência para comparações futuras, e reforço, em toda consulta, da higiene bucal e das quatro consultas odontológicas anuais
09

Como saber se está funcionando

Aqui o verbo não é melhorar. Nenhum tratamento clínico faz uma válvula estenosada abrir, e o paciente encaminhado à cirurgia não está esperando um remédio fazer efeito: está esperando uma vaga. O que se acompanha, portanto, não é resposta terapêutica, e sim progressão — e o objetivo da reavaliação é detectar o dia em que o paciente cruza a linha que o torna cirúrgico, antes que ele cruze a linha que o torna inoperável.

Isso muda a natureza do seguimento. Em quase todo o resto da medicina, quem não piora entre consultas está bem. Nestas duas doenças, quem não piora entre consultas está simplesmente ainda dentro do intervalo em que a doença é silenciosa — e o intervalo tem prazo escrito.

O sintoma, perguntado por atividade concretaEm toda consulta, e o intervalo entre consultas é de seis meses na lesão importante assintomática, um ano na moderada e dois a três anos na discreta

Esperado: Que o paciente mantenha o mesmo repertório de atividades da consulta anterior. O parâmetro é a atividade nomeada, registrada por escrito na consulta passada: a ladeira, o lance de escada, o trajeto até o ponto de ônibus, com o número de paradas.

Se não melhora: Qualquer atividade que saiu do repertório desde a última consulta é sintoma, ainda que o paciente a atribua à idade e ainda que negue falta de ar. Na estenose aórtica importante, dispneia em classe funcional II ou pior, síncope ou angina fecham indicação de intervenção com a força máxima da régua nacional, e o que muda naquele dia é o encaminhamento, não a prescrição. Na insuficiência mitral primária importante, a diretriz manda valorizar a dispneia mesmo quando ela ainda não limita as atividades habituais. Se a dúvida persistir, o teste ergométrico ou ergoespirométrico existe para desmascarar o pseudo-assintomático — e é contraindicado em quem já tem sintoma claro ou disfunção ventricular.

O intervalo do ecocardiograma, definido pela gravidade da última vezEstenose aórtica: a cada 6 meses na importante assintomática sem complicador, a cada ano na moderada, a cada 2 a 3 anos na discreta. Insuficiência mitral primária: a cada 6 meses a 1 ano na importante assintomática sem complicador, a cada 1 a 2 anos na moderada, a cada 2 a 3 anos na discreta

Esperado: Que o exame seja feito dentro do intervalo e que a comparação seja possível — o que exige que o laudo anterior esteja anexado ou transcrito no prontuário com os números, e não apenas com a palavra importante.

Se não melhora: Intervalo perdido é o modo mais comum de a doença progredir sem testemunha, e ele quase nunca é decidido: acontece porque ninguém escreveu a data. Escreva no prontuário e na receita a data do próximo ecocardiograma, com mês e ano. Se o exame atrasou, a conduta não é esperar a próxima consulta: é pedir o exame agora e reavaliar o paciente com ele em mãos. E se o laudo novo não trouxer os mesmos parâmetros do anterior, a comparação não é válida — peça a repetição com as perguntas escritas.

A pressão arterial e o pulso, lidos ao contrário do habitualEm toda consulta, com o paciente sentado e depois em pé, e com palpação do pulso carotídeo

Esperado: Estabilidade. No paciente com estenose aórtica importante, o alvo não é uma pressão baixa: é uma pressão que mantenha a perfusão de um ventrículo hipertrofiado que depende de gradiente diastólico para se irrigar.

Se não melhora: Uma sistólica que cai sozinha, sem que se tenha mexido em nenhum medicamento, não é melhora do controle pressórico: é a válvula limitando o débito cardíaco, e é sinal de progressão. Nesse cenário, revise a dose dos anti-hipertensivos para baixo, não para cima, e antecipe o ecocardiograma. Hipotensão postural nova em quem usa diurético pede redução do diurético antes de qualquer outra hipótese. E lembre que a pressão sistólica também interfere na leitura do exame: acima de 140 mmHg no dia do ecocardiograma, o gradiente transvalvar sai subestimado, e um laudo de baixo gradiente feito com pressão alta precisa ser refeito com a pressão controlada.

O peso e os sinais de congestãoDiariamente pelo paciente, em jejum, na mesma balança; e a cada consulta pelo serviço, com exame de jugulares, ausculta pulmonar, palpação hepática e busca de edema

Esperado: Peso estável e ausência de congestão. Na insuficiência mitral crônica compensada e na estenose aórtica sem insuficiência cardíaca, o peso não deve variar.

Se não melhora: Ganho de dois quilos em três dias, ortopneia nova, dispneia paroxística noturna ou edema que reaparece indicam congestão e antecipam a consulta — mas o passo seguinte não é apenas aumentar o diurético: congestão nova em valvopata é motivo para reavaliar a válvula, porque pode ser o marco em que a lesão importante passou a ser sintomática. O erro inverso também tem sinal: peso caindo, sede, hipotensão postural e creatinina em ascensão indicam depleção iatrogênica. Na estenose aórtica importante, esse erro é mais perigoso do que parece, porque o ventrículo rígido depende de volume para se encher.

A tendência da fração de ejeção e do diâmetro sistólico, na insuficiência mitralA cada ecocardiograma, comparando com todos os anteriores e não apenas com o último

Esperado: Fração de ejeção acima de 60% e diâmetro sistólico do ventrículo esquerdo abaixo de 40 mm, estáveis ao longo dos exames seriados.

Se não melhora: Este é o parâmetro em que a diretriz brasileira autoriza explicitamente decidir pela curva, e não pelo ponto: diante de queda progressiva da fração de ejeção ou de dilatação progressiva do ventrículo em exames seriados, a intervenção deve ser considerada mesmo antes de os limites numéricos serem atingidos. Uma fração que caiu de 68% para 62% em dois anos é um sinal, ainda que 62% esteja dentro da faixa normal em qualquer outro contexto. Alcançados 60% ou 40 mm, o paciente é complicado e vai ao encaminhamento, com ou sem sintoma. E vale repetir a razão fisiológica, porque ela é o que impede o erro: parte do volume sai por um orifício de baixa resistência, de modo que a fração de ejeção medida é maior do que a força real do ventrículo.

O ritmo e o eletrocardiogramaEletrocardiograma a cada consulta de reavaliação, e a qualquer momento diante de palpitação, tontura, síncope ou piora funcional inexplicada

Esperado: Ritmo sinusal mantido, sem distúrbio de condução novo e sem mudança no padrão de sobrecarga.

Se não melhora: Fibrilação atrial de início recente, considerada como iniciada há menos de um ano, é complicador da insuficiência mitral primária e sozinha justifica encaminhamento — tratar a arritmia e devolver o paciente ao ambulatório sem reavaliar a válvula é perder o marco. Ela também muda o anticoagulante, porque a fibrilação do valvopata mitral e do portador de prótese não segue a regra usual, o que é assunto do capítulo de fibrilação atrial. Bloqueio de ramo ou bloqueio atrioventricular novo em paciente com estenose aórtica calcificada sugere avanço do cálcio sobre o sistema de condução e é dado que se leva ao serviço de referência.

A posição na fila, que é o parâmetro que ninguém medeA cada consulta, com a pergunta feita ao paciente e a confirmação registrada: houve contato do serviço de referência, houve consulta marcada, houve data de cirurgia

Esperado: Progressão documentada do encaminhamento, com data de consulta ou de procedimento anotada no prontuário.

Se não melhora: Encaminhamento sem retorno em oito a doze semanas, em paciente com lesão importante e sintomático, é achado clínico e exige ação: refaça o contato, reemita o encaminhamento com o laudo anexado e registre a tentativa. Piora funcional durante a espera muda a prioridade e precisa ser comunicada por escrito ao serviço de destino — a informação de que o paciente que estava em classe II passou a classe III altera a urgência. E se o paciente vai a uma cirurgia não cardíaca eletiva enquanto espera, a régua nacional de avaliação perioperatória é explícita: valvopatia estenótica pesa mais no risco do que a regurgitante, e estenose aórtica importante sintomática deve ser tratada antes do procedimento eletivo.

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Onde o erro machuca

Dar nitrato sublingual por dor torácica em quem tem sopro sistólico aórtico ainda não caracterizado

O dano: É o erro mais rápido e mais irreversível deste capítulo. O nitrato reduz a resistência periférica; o coração normal compensa aumentando o volume ejetado; a válvula estenosada não deixa. A pressão cai, a perfusão coronária do miocárdio hipertrofiado cai junto, o músculo isquemia, contrai pior, ejeta menos e a pressão cai mais. A alça se fecha em minutos e não tem freio: o comprimido já foi absorvido. A própria diretriz brasileira lista vasodilatadores entre os agentes deflagradores comuns de síncope na estenose aórtica, o que é a mesma fisiologia em versão mais branda. E a situação em que isso acontece é a mais banal possível: idoso com dor no peito, protocolo de dor torácica, nitrato antes da ausculta.

Como pegar a tempo: Ausculte antes de prescrever nitrato, sempre, e palpe a carótida. Sopro sistólico com irradiação carotídea, segunda bulha abafada ou pulso de subida lenta suspendem o nitrato até que o ecocardiograma diga como é a válvula. Escreva a proibição no prontuário e na receita, com a razão, porque quem vai atender o paciente na próxima madrugada não estará nesta consulta. E oriente o paciente por escrito a não usar nitrato por conta própria.

Registrar que o paciente está assintomático porque ele disse que está bem

O dano: Este é o erro que decide o desfecho da estenose aórtica, porque o aparecimento do sintoma é o que muda a inclinação da curva de sobrevida e é o que autoriza a operação. O paciente com doença crônica não relata sintoma: ele encolhe a própria vida até não esbarrar mais no limite, e depois responde com sinceridade que está bem. A diretriz brasileira dá nome a esse paciente — pseudo-assintomático — e prevê teste ergométrico para desmascará-lo. O dano é que a janela em que a operação vale a pena se fecha em silêncio, e o paciente volta meses depois já em insuficiência cardíaca, com risco cirúrgico maior e ventrículo que pode não recuperar.

Como pegar a tempo: Troque a pergunta. Em vez de o senhor tem falta de ar, pergunte o que ele fazia no ano passado e não faz mais, quantas paradas faz numa subida que antes vencia inteira, se já precisou sentar de repente, se já escureceu a vista. Anote a atividade nomeada no prontuário, com o desempenho de hoje, para que na próxima consulta exista com o que comparar. E lembre que a queixa mais fácil de perder é a síncope: o paciente a atribui ao calor, ao jejum, ao peso que carregava.

Ler o gradiente baixo como lesão leve e devolver o paciente para casa

O dano: Gradiente é fluxo ao quadrado dividido por área: com pouco fluxo, uma válvula muito estreita produz gradiente pequeno. O laudo com área de 0,8 cm² e gradiente médio de 28 mmHg não descreve uma lesão moderada — descreve uma lesão importante num ventrículo que já não consegue gerar fluxo, e esse é o paciente de pior prognóstico do capítulo. Chamar isso de estenose moderada e marcar retorno em um ano é o erro mais silencioso da série, porque nada na consulta contradiz a decisão: o número está lá, escrito, e parece tranquilizador. Vale o mesmo para a ausculta — o sopro que enfraqueceu num paciente que piorou não é melhora da válvula, é queda do fluxo que a atravessa.

Como pegar a tempo: Sempre que área e gradiente discordarem, nomeie a suspeita por escrito: um orifício que já entrou na faixa da lesão importante, ao lado de um gradiente médio que ficou aquém dos 40 mmHg, é baixo fluxo até prova em contrário. Olhe a fração de ejeção para saber qual das duas formas é, escreva a suspeita no encaminhamento e confira a pressão arterial do dia do exame, porque sistólica acima de 140 mmHg subestima o gradiente. E confira se o laudo traz gradiente médio ou apenas gradiente máximo: o corte de 40 mmHg vale para o médio, e o de 50 mmHg vale para o gradiente de pico do estudo hemodinâmico, que é outro exame.

Conduzir a insuficiência mitral aguda com o vocabulário da doença crônica

O dano: O paciente chega em edema agudo, o sopro é discreto, o coração no raio X tem tamanho normal, e o quadro é atribuído a pneumonia, a exacerbação de doença pulmonar ou a insuficiência cardíaca descompensada comum. Recebe diurético, melhora um pouco, e o ecocardiograma fica para o dia seguinte. O dano é o prazo: numa regurgitação aguda, o tratamento definitivo é cirúrgico, e a mortalidade de quem espera é alta. O sopro pequeno é o que mais engana, e ele engana porque a maioria aprendeu que sopro alto é sopro grave — aqui é o contrário, porque a pressão do átrio sobe tanto e tão rápido que a diferença de pressão que gera o ruído se anula ainda dentro da sístole.

Como pegar a tempo: Diante de edema agudo, ausculte procurando sopro e considere o achado de coração de tamanho normal com congestão intensa como bandeira de lesão aguda. Pergunte pelas três causas: infarto nos últimos dias, febre arrastada, prolapso mitral conhecido. Peça ecocardiograma de urgência no leito, com a pergunta escrita, e converse com a cirurgia cardiovascular na primeira hora — não depois de estabilizar. Estabilização, aqui, é ponte, não tratamento.

Deixar cair a profilaxia secundária da febre reumática no jovem com valvopatia

O dano: O paciente reumático de 24 anos com dupla lesão mitral é acompanhado por causa da válvula, e a injeção some da conversa: ninguém pergunta, o posto ficou sem penicilina em algum mês, o paciente mudou de bairro. Cada surto novo acrescenta lesão sobre a válvula já doente e antecipa a cirurgia. O erro tem uma versão ainda mais frequente e mais grave: suspender a profilaxia depois da troca valvar, com o raciocínio de que a válvula nova resolveu o problema. A diretriz brasileira classifica essa suspensão como conduta a não fazer, porque o surto reumático não poupa as outras válvulas nem o miocárdio.

Como pegar a tempo: Pergunte a data da última aplicação em toda consulta, e anote-a. O intervalo é de quinze dias nos dois primeiros anos após o surto e de vinte e um dias depois, e a diretriz é explícita ao dizer que aplicação mensal não protege adequadamente num país de alta endemicidade. Se houver falta de penicilina benzatina na rede, a alternativa para alérgicos e para o desabastecimento é a sulfadiazina, que consta da lista nacional como comprimido de 500 mg no componente estratégico. E, ao encaminhar para a cirurgia, escreva no encaminhamento que a profilaxia deve continuar depois dela.

Encerrar a consulta de lesão moderada sem data escrita de retorno e de novo exame

O dano: Lesão moderada é a que mais se perde, porque ela produz a sensação legítima de que nada precisa ser feito — e de fato nada precisa ser feito hoje. O que precisa ser feito é marcar quando o paciente volta, e a doença progride em silêncio no intervalo que ninguém definiu. Numa estenose aórtica moderada, a régua manda reavaliação clínica e ecocardiográfica anual; numa importante assintomática, semestral. Sem essa data escrita, o paciente reaparece dois ou três anos depois, já sintomático, com ventrículo pior e risco cirúrgico maior — e o prontuário mostrará uma sequência de consultas em que tudo estava bem.

Como pegar a tempo: Escreva a data do próximo ecocardiograma na receita, com mês e ano, e não apenas no prontuário: o papel que sai no bolso do paciente é o que sobrevive à troca de médico e de unidade. Transcreva os números do laudo atual no prontuário, e não a palavra moderada, para que a próxima comparação seja possível. E descreva o sopro por inteiro em toda consulta, com foco, momento na sístole, irradiação e bulhas — a frase sopro sistólico mais dois sinais de mais, repetida por anos, é a assinatura de que ninguém examinou de verdade.

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O que dizer ao paciente e à família

As conversas deste capítulo têm uma dificuldade que não aparece em outras doenças: o paciente quase sempre se sente bem, e você está pedindo a ele que leve a sério uma coisa que ele não sente. A palavra sopro, além disso, chega ao ouvido leigo como se fosse um defeito de nascença de gravidade indefinida, e a palavra cirurgia cardíaca chega como sentença. As falas abaixo são para dizer em português comum, sem eufemismo e sem promessa.

O sopro descoberto por acaso, em quem veio por outro motivo

Seu Otacílio, o senhor veio buscar receita de pressão e eu encontrei uma outra coisa, que eu preciso explicar. Quando eu escuto o seu coração, tem um barulho que não deveria estar aí. Isso se chama sopro, e o que ele quer dizer é que o sangue está passando com dificuldade por uma das quatro portas que o coração tem. Não é um problema novo — é uma coisa que vai se formando ao longo de muitos anos, e o senhor não sentiu nada até agora justamente porque o coração vai se acostumando aos poucos. Eu não sei ainda se é pouco ou se é muito. Quem responde isso é um exame de ultrassom do coração, que não dói, não precisa de agulha e leva meia hora. Eu vou pedir hoje. Enquanto ele não sai, eu quero que o senhor volte aqui se acontecer alguma das três coisas que eu vou escrever neste papel.

Não diga: Dizer que é só um sopro, ou que muita gente tem. As duas frases são verdadeiras para outros sopros e são a razão mais comum de o exame nunca ser feito. O paciente que sai da consulta tranquilizado não volta, e não volta especialmente quando piora, porque atribui a piora à idade.

Explicar que o momento da cirurgia é decidido pelo sintoma, e ensinar o paciente a reconhecê-lo

Esta doença tem uma coisa diferente das outras: o remédio não é o que decide, o tempo é. Enquanto o senhor não sente nada, a gente acompanha e o risco é baixo. No dia em que começa a aparecer sintoma, a conta vira, e aí a operação passa a ser o que protege o senhor. Por isso eu preciso que o senhor seja meu parceiro nessa parte, porque quem vai perceber primeiro é o senhor e não eu. São três coisas. Falta de ar para fazer o que o senhor fazia antes — subir a mesma ladeira, carregar a mesma sacola. Aperto ou peso no peito quando faz esforço. E escurecer a vista, ficar tonto de repente ou desmaiar, principalmente fazendo força. Se qualquer uma dessas três aparecer, o senhor não espera a consulta marcada: procura atendimento e mostra este papel.

Não diga: Entregar a orientação só falando. O que sai do consultório dentro do bolso do paciente é o que sobrevive à próxima troca de médico. Evite também listar sintomas genéricos, como cansaço — cansaço todo mundo tem, e o que discrimina é a comparação com o que ele fazia antes.

Quando o paciente pergunta se não tem um remédio que resolva

Não tem, e eu prefiro dizer isso com todas as letras. Nenhum comprimido abre essa porta do coração de novo. Os remédios que o senhor toma servem para outras coisas importantes — para a pressão, para o inchaço, para o senhor se sentir melhor —, mas nenhum deles mexe na válvula. O que conserta a válvula é uma operação, ou um procedimento por dentro do vaso da perna, e quem escolhe entre os dois é a equipe do hospital que vai fazer, olhando a sua idade, o seu risco e os seus outros problemas de saúde. O meu trabalho, daqui até lá, é três coisas: fazer o exame chegar, mandar o senhor para essa equipe com tudo escrito, e cuidar para que nada piore no caminho.

Não diga: Prometer que a cirurgia vai ser marcada rápido, ou dar prazo que não depende de você. E evitar o oposto, que é dizer que não há nada a fazer enquanto se espera: há, e é o que mantém o paciente operável quando a vaga chegar.

Depois de descobrir o episódio de perda de visão ou de consciência ao esforço

Aquilo que o senhor me contou, de escurecer a vista carregando o botijão, não foi o botijão. Foi o coração não dando conta de mandar sangue suficiente para a cabeça naquele momento de esforço, e isso muda a nossa conversa de hoje. Não é motivo para pânico e o senhor não vai ficar internado agora. É motivo para eu correr com o seu exame e para o senhor tomar alguns cuidados até lá. Não carregar peso, não subir escada com pressa, não fazer esforço sozinho em casa. E, enquanto isso não estiver esclarecido, eu peço que o senhor não dirija. Sei que é chato e sei o que isso atrapalha; eu prefiro dizer isso agora do que ter essa conversa com a sua família depois.

Não diga: Suavizar a restrição de dirigir para não desagradar, ou deixá-la implícita. E evitar prescrever qualquer coisa para tontura antes do ecocardiograma: sintoma que se apaga com remédio deixa de servir como marcador do dia em que a doença mudou.

O paciente já encaminhado, que volta perguntando quando é a cirurgia

Eu não tenho essa data, e prefiro dizer isso a inventar um prazo só para o senhor sair daqui mais calmo. O que eu tenho é o seguinte: o seu encaminhamento foi feito no dia tal, com o exame anexado, e o hospital ainda não chamou. Hoje eu vou refazer o contato e registrar isso no seu prontuário. Se alguma coisa piorar enquanto o senhor espera, isso muda a sua posição na fila — e por isso é importante o senhor me contar na hora, e não guardar para a próxima consulta. Enquanto a data não vem, o que a gente faz aqui não é enrolação: manter o senhor sem inchaço, cuidar dos dentes, manter a pressão certa e evitar remédio que faça mal para essa válvula é o que garante que, quando chamarem, o senhor esteja em condição de operar.

Não diga: Repassar ao paciente a frustração com a fila, ou dizer que não há nada que você possa fazer. A informação de que ele piorou é a única coisa capaz de mudar a prioridade, e ela só chega ao serviço de destino se alguém escrever.

A família, na madrugada, diante da insuficiência mitral aguda

Vou falar de forma direta porque o tempo aqui importa. Uma das válvulas do coração dele rompeu, e por isso o sangue está voltando para dentro do pulmão a cada batida — é isso que está enchendo o pulmão de líquido e tirando o ar dele. Isso não é uma piora de um problema antigo: aconteceu hoje. Os aparelhos e as medicações que a gente está usando agora seguram a situação, mas não consertam a válvula. O que conserta é uma cirurgia, e eu já falei com a equipe da cirurgia cardíaca. Eu não posso garantir o resultado e não vou dizer que vai dar tudo certo. O que eu consigo dizer é o que está sendo feito agora, e eu volto a falar com vocês assim que houver definição, mesmo que ela demore.

Não diga: Explicar mecanismo em detalhe nesse momento, e usar a palavra estável para tranquilizar. Evitar também deixar a família sem previsão de nova conversa: o silêncio de quarenta minutos, numa madrugada, é lido como abandono.

O jovem com lesão reumática, sobre a injeção que ele vai tomar por muitos anos

Essa lesão na sua válvula não veio de nascença: ela veio de infecções de garganta que voltaram várias vezes quando você era criança e deixaram marca no coração. Isso quer dizer que existe um jeito de impedir que fique pior, e é a injeção. Ela não trata a válvula que já está machucada, ela impede que apareça uma marca nova em cima da que já existe. Por isso o intervalo é de três em três semanas, e não de mês em mês — de mês em mês não protege o suficiente aqui no Brasil, onde essa bactéria circula muito. Eu sei que dói e sei que é chato voltar ao posto tantas vezes. Se faltar penicilina no posto, ou se você mudar de bairro, me avisa: existe alternativa e a gente resolve. O que não pode é parar sem falar comigo — inclusive depois, se você um dia operar essa válvula.

Não diga: Deixar de perguntar a data da última aplicação em toda consulta, e assumir que o paciente está em dia porque a profilaxia consta da receita antiga. Evitar também tratar a interrupção como falha de caráter: na maioria das vezes é falta de medicação no serviço, mudança de endereço ou dor, e as três têm solução prática.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

O que fazer com a estenose aórtica importante em quem não tem sintoma nem complicador

Vigiar, e operar apenas se houver complicador ou outra cirurgia cardíaca no mesmo tempo

O paciente com estenose aórtica importante, assintomático e sem complicadores tem indicação de cirurgia valvar apenas se for submetido a outros procedimentos cardiovasculares invasivos, como revascularização coronária, cirurgia de aorta ascendente ou intervenção em outra válvula. Fora dessa situação, a conduta é reavaliação clínica e ecocardiográfica a cada seis meses. O próprio documento registra que trabalhos avaliando o benefício de intervenção precoce nesse grupo estão em andamento.

Sociedade Brasileira de Cardiologia — Atualização das Diretrizes Brasileiras de Valvopatias – 2020, seção de estenose aórtica e Quadro 28

A aritmética que sustenta a espera é apertada, e o grupo não é tão benigno quanto se supunha

Operar profilaticamente todos os assintomáticos com lesão importante exporia 100% deles a uma mortalidade cirúrgica de 3% a 4%, somada a cerca de 1% ao ano de risco relacionado à presença de prótese, para o benefício de aproximadamente 1% ao ano, que é o risco anual de morte súbita nesse grupo. O mesmo documento acrescenta, porém, que estudos observacionais mais recentes sobre a história natural mostram que esse grupo não é tão benigno como se imaginava em décadas anteriores, e que manter todos em observação clínica pode não ser seguro.

Sociedade Brasileira de Cardiologia e Sociedade Interamericana de Cardiologia — Diretriz Brasileira de Valvopatias – SBC 2011 / I Diretriz Interamericana de Valvopatias – SIAC 2011, seção de tratamento da estenose aórtica

Como decidir

As duas posições vêm da mesma sociedade em décadas diferentes e discordam sobre o peso de um risco cirúrgico contra um risco natural — uma conta que muda conforme a mortalidade cirúrgica do serviço e conforme a confiabilidade do seguimento daquele paciente. Para quem está na sua frente, a decisão prática raramente é operar ou não operar, porque essa escolha é do time que vai intervir. A decisão que é sua é outra e é mais concreta: quão bem você consegue vigiar. Vigilância semestral confiável, com paciente que comparece, que reconhece os três sintomas e que tem acesso ao serviço, torna a espera segura. Paciente que mora longe, que já faltou a duas consultas, que não tem quem o traga ou cujo ecocardiograma leva um ano para sair não está sendo vigiado — está sendo esquecido com uma justificativa de diretriz. Nesse caso, o encaminhamento precoce para discussão no serviço de referência é o que reduz o risco, ainda que ele não produza cirurgia imediata. E, nos dois cenários, o dado decisivo continua sendo o mesmo: perguntar o sintoma de um jeito que ele apareça.

Operar a insuficiência mitral importante por prolapso em quem não tem sintoma nem complicador

Plástica em centro experiente, sem exigir nada além de anatomia favorável

Nas colunas brasileira e norte-americana do quadro de recomendações, o paciente assintomático com insuficiência mitral por prolapso, anatomia favorável e sem complicadores recebe recomendação classe IIa, nível de evidência B, para plástica da valva mitral em centros com experiência. O raciocínio que sustenta essa posição é o da própria diretriz ao descrever a plástica: ela é o tratamento de escolha, e o prolapso de cúspide posterior isolada é justamente o cenário de melhores resultados.

Sociedade Brasileira de Cardiologia — Atualização das Diretrizes Brasileiras de Valvopatias – 2020, Quadros 12 e 14, colunas da SBC e da AHA

Só quando o átrio esquerdo já se dilatou e o ritmo ainda é sinusal

Na mesma linha do mesmo quadro, a coluna europeia registra recomendação classe IIa com nível de evidência C, condicionada a duas exigências que as outras duas colunas não fazem: volume de átrio esquerdo de 60 mL/m² ou mais e ritmo sinusal. Ou seja, o mesmo paciente sem sintoma e sem complicador só entra na indicação se já houver remodelamento atrial documentado e ainda não houver fibrilação atrial.

Sociedade Brasileira de Cardiologia — Atualização das Diretrizes Brasileiras de Valvopatias – 2020, Quadro 14, coluna da ESC

Como decidir

A discordância não é sobre a doença, é sobre onde se opera. A posição mais ampla depende de uma premissa que está escrita nela mesma: centro com experiência. Uma plástica bem-sucedida devolve ao paciente uma válvula própria, sem anticoagulação e sem prótese; uma plástica que falha vira troca valvar no mesmo tempo cirúrgico, e aí o paciente assintomático recebeu uma prótese que não precisava ter recebido ainda. A régua europeia, ao exigir o átrio dilatado, está pedindo uma prova objetiva de que a lesão já produziu consequência antes de aceitar esse risco. Para o paciente à sua frente, três perguntas resolvem. Qual a taxa de plástica bem-sucedida do serviço para onde você encaminha, e ela é conhecida? O laudo traz o volume do átrio esquerdo indexado, e ele está acima de 60 mL/m²? E o seu seguimento é confiável o bastante para flagrar o dia em que a fração de ejeção começa a cair? Se a resposta às três for sim, esperar é razoável. Se a resposta à última for não, a discussão precoce com o serviço de referência vale mais do que a escolha entre as duas colunas.

A clipagem percutânea da valva mitral na insuficiência mitral secundária

Razoável em sintoma refratário, nas duas etiologias

A régua brasileira dá recomendação classe IIa, nível de evidência B, à clipagem percutânea em pacientes com sintomas refratários em classe funcional III ou pior, com alto risco ou contraindicação à cirurgia, tanto na insuficiência mitral secundária isquêmica quanto na dilatada. O quadro de tipo de intervenção acrescenta o perfil em que o procedimento é considerado após avaliação do time: principalmente fração de ejeção de 20% ou mais e diâmetro sistólico do ventrículo esquerdo abaixo de 70 mm.

Sociedade Brasileira de Cardiologia — Atualização das Diretrizes Brasileiras de Valvopatias – 2020, Quadros 20 e 21, coluna da SBC

Recomendação fraca e restrita à fração de ejeção muito baixa

Na mesma linha do mesmo quadro, a coluna europeia registra classe IIb, nível de evidência C, com a restrição de fração de ejeção abaixo de 30%, tanto na forma isquêmica quanto na dilatada. A coluna norte-americana não registra recomendação nessas linhas. Uma classe IIb significa que o procedimento pode ser considerado, ao passo que a classe IIa da coluna brasileira significa que é razoável fazê-lo — a diferença é de peso, não de sentido.

Sociedade Brasileira de Cardiologia — Atualização das Diretrizes Brasileiras de Valvopatias – 2020, Quadro 21, colunas da ESC e da AHA

Como decidir

Antes de escolher entre as duas colunas, verifique se a pergunta já não está respondida por outra via: na insuficiência mitral secundária a válvula é normal e o doente é o ventrículo, e a própria diretriz condiciona qualquer intervenção a sintomas persistentes apesar de tratamento clínico otimizado da insuficiência cardíaca, incluindo ressincronização quando indicada. Na prática do internato, a maioria dos pacientes que se discute nessa linha não está com o tratamento clínico otimizado — falta uma classe inteira de medicamento, ou as doses estão na dose de partida. Enquanto isso for verdade, a discordância entre as réguas é acadêmica, porque nenhuma das duas se aplica ainda. O que decide para o paciente à sua frente, portanto, é a ordem: otimizar primeiro, com dose e prazo escritos, reavaliar depois, e só então levar ao time o paciente que continua em classe funcional III apesar de tudo. Aí sim entram a fração de ejeção, o diâmetro ventricular e a disponibilidade local do procedimento — e a decisão deixa de ser sua.

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O raciocínio, em voz alta

Volte a Otacílio. 74 anos, 1,68 m, 68 kg, marceneiro aposentado, hipertenso em uso de hidroclorotiazida. Pressão 138 por 76 mmHg, frequência 72 bpm, sem edema, saturação 97%. Sopro sistólico áspero, máximo no segundo espaço intercostal direito, com irradiação para as duas carótidas, segunda bulha abafada naquele foco, pulso carotídeo de pequena amplitude e subida lenta, ictus no lugar e sustentado. Parou de subir a ladeira da padaria há oito meses; teve um episódio de escurecimento visual carregando um botijão há três meses. O ecocardiograma voltou em dezoito dias: velocidade máxima do jato aórtico 4,3 m/s, gradiente máximo 74 mmHg, gradiente médio 44 mmHg, área valvar aórtica 0,9 cm², válvula tricúspide muito calcificada com abertura restrita, hipertrofia concêntrica do ventrículo esquerdo, fração de ejeção 62%, diâmetro sistólico 31 mm, insuficiência mitral discreta, pressão sistólica de artéria pulmonar 34 mmHg. Acompanhe o raciocínio em voz alta.

  1. o que penso antes de qualquer exame, com o estetoscópio ainda na mão

    Tenho um sopro sistólico áspero em foco aórtico que irradia para as carótidas, uma segunda bulha abafada e um pulso que demora a subir. Os três apontam para a mesma coisa e nenhum deles é sutil. A segunda bulha abafada, em particular, é um dos poucos achados de exame físico que a diretriz brasileira lista como característica de estenose aórtica importante — não é impressão minha, é critério. Isso é suficiente para duas decisões imediatas: pedir ecocardiograma com prioridade e não introduzir vasodilatador. A hidroclorotiazida que ele já usa há anos, e com a qual está estável, fica.

  2. a pergunta que muda o prognóstico, e por que ela não é você tem falta de ar

    Ele disse que está bem, e eu acredito que ele acredite nisso. Mas a estenose aórtica é a doença em que o paciente encolhe a própria vida em vez de relatar sintoma. Pergunto o que ele fazia no ano passado e não faz mais: a ladeira da padaria, abandonada há oito meses. Isso é dispneia aos esforços, e está datada. Pergunto por escurecimento de vista e por necessidade de sentar de repente: o episódio do botijão, há três meses, atribuído por ele ao peso. Isso é pré-síncope ao esforço. Dois dos três sintomas da tríade estão presentes, e o mais antigo tem oito meses. A partir daqui não estou mais decidindo se investigo — estou decidindo com que pressa encaminho.

  3. como leio o laudo, e em que ordem

    Começo pela velocidade máxima, que é a medida direta: 4,3 m/s, acima do corte de 4,0. Depois o gradiente médio: 44 mmHg, acima do corte de 40. Só então a área: 0,9 cm², abaixo de 1,0. Os três concordam, e concordância entre medidas de origens diferentes é o que dispensa exame adicional. Calculo a área indexada, porque ela não veio no laudo: superfície corporal de cerca de 1,77 m² para 1,68 m e 68 kg, o que dá 0,51 cm²/m², abaixo do corte de 0,6. Quatro parâmetros apontando lesão importante. E reparo numa armadilha de leitura que o próprio laudo oferece: o gradiente máximo é 74 mmHg e o médio é 44 mmHg — se eu usasse o número maior contra o corte de 60 mmHg dos marcadores de mau prognóstico, classificaria errado. O corte de 40 mmHg vale para o gradiente médio, e é dele que se trata.

  4. o que o número 0,9 diz sobre a régua que estou usando

    Vale registrar, porque muda a leitura de material antigo: 0,9 cm² é lesão importante na régua vigente, que corta em 1,0 cm² ou menos, e seria lesão moderada pela primeira diretriz brasileira, de 2011, que cortava abaixo de 0,8 cm². Neste paciente isso não altera a conclusão, porque o gradiente médio de 44 mmHg já ultrapassa o corte das duas edições. Mas em outro paciente, com área de 0,9 cm² e gradiente médio de 35 mmHg, a régua escolhida decidiria o encaminhamento — e a régua a usar é a de 2020.

  5. por que não peço mais nada antes de encaminhar

    Tenho lesão anatomicamente importante e sintoma atribuível a ela. Essa combinação é indicação de intervenção com a maior força da régua nacional, classe I com nível de evidência A, e nenhum exame adicional muda isso. Não peço teste ergométrico: ele serve para desmascarar o pseudo-assintomático, e a diretriz o contraindica em paciente sintomático. Não peço ecocardiograma sob estresse com dobutamina: ele serve para o baixo fluxo e baixo gradiente, e aqui os números não discordam. Não peço escore de cálcio valvar: ele serve para confirmar gravidade quando o gradiente não confirma. E não peço peptídeo natriurético, porque ele não é critério de gravidade valvar na régua brasileira. Peço, sim, os exames que o serviço cirúrgico vai exigir de qualquer jeito, para não perder uma consulta: função renal, hemograma, coagulograma, glicemia e avaliação odontológica.

  6. o que escrevo, e o que entrego na mão dele

    No encaminhamento: estenose aórtica importante, com os cinco números do laudo transcritos, laudo anexado em cópia, sintomas com data — dispneia aos esforços há oito meses, pré-síncope ao esforço há três —, exame físico descrito, comorbidades, função renal e lista de medicamentos com doses. Escrevo também que a etiologia mais provável é degenerativa calcificada, pela idade e pela descrição da válvula, o que importa para a escolha entre cirurgia e procedimento transcateter, decisão que não é minha. Na mão dele, um papel com três linhas: falta de ar para o que fazia antes, aperto no peito ao esforço, escurecimento de vista ou desmaio. Se qualquer uma piorar, procurar atendimento e mostrar o papel. E, escrito na receita, que ele não deve usar nitrato sublingual por conta própria.

  7. o que faço enquanto a fila anda

    Marco retorno em oito semanas, com data, mesmo tendo encaminhado — o encaminhamento não transfere o paciente, ele o coloca em duas listas. Nesse retorno, a pergunta é se o serviço chamou, e a resposta entra no prontuário. Oriento a não carregar peso, a não subir escada com pressa e a não dirigir até a avaliação especializada. Encaminho ao dentista, com quatro consultas por ano, e explico a profilaxia de endocardite antes de procedimento com manipulação gengival: amoxicilina 2 g em dose única uma hora antes, que são quatro comprimidos de 500 mg. E monitoro a pressão sabendo ler ao contrário: se a sistólica começar a cair sozinha, sem eu ter mexido em nada, não é o controle melhorando — é a válvula fechando.

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Faça você

Agora é dona Lindaura, no mesmo ambulatório, três semanas depois. 63 anos, 1,60 m, 64 kg, professora aposentada, sem hipertensão e sem diabetes. Foi encaminhada da unidade básica por sopro. Diz que está ótima, faz caminhada de quarenta minutos quatro vezes por semana e não parou nada no último ano. Ao exame: pressão 122 por 74 mmHg, frequência 76 bpm, ritmo regular, sem edema, jugulares planas, ausculta pulmonar limpa. Sopro holossistólico em platô, máximo no ictus, com irradiação para a axila esquerda; primeira bulha hipofonética; ictus deslocado 2 cm para fora da linha hemiclavicular no quinto espaço. Ecocardiograma de duas semanas atrás: prolapso da cúspide posterior da valva mitral com jato excêntrico dirigido para a parede lateral do átrio, vena contracta 0,8 cm, volume regurgitante 68 mL por batimento, área efetiva do orifício regurgitante 0,45 cm², fração regurgitante 54%, fração de ejeção do ventrículo esquerdo 61%, diâmetro sistólico do ventrículo esquerdo 38 mm, volume do átrio esquerdo 58 mL/m², pressão sistólica de artéria pulmonar 32 mmHg. Eletrocardiograma em ritmo sinusal. Ela trouxe também o ecocardiograma anterior, de dois anos atrás: fração de ejeção 69%, diâmetro sistólico 33 mm, volume atrial 47 mL/m². Os quatro primeiros passos estão feitos. O último está em branco.

  1. a gravidade anatômica

    Três parâmetros quantitativos ultrapassam os cortes de lesão importante: vena contracta de 0,8 cm contra o corte de 0,7; volume regurgitante de 68 mL contra 60; área efetiva do orifício regurgitante de 0,45 cm² contra 0,40. A fração regurgitante de 54% também está acima de 50%. Quatro medidas concordantes fecham insuficiência mitral anatomicamente importante, e a concordância entre elas importa porque o jato é excêntrico — jato que corre rente à parede atrial parece pequeno à inspeção visual e subestimaria a lesão se eu confiasse só na área do jato.

  2. a etiologia, e o que ela muda

    Prolapso da cúspide posterior, com jato excêntrico, é insuficiência mitral primária: a doença está na válvula, e não num ventrículo doente que dilatou o anel. Isso importa por dois motivos. Primeiro, porque toda a régua de complicadores e de indicação que vou aplicar é a da forma primária, que é diferente da secundária. Segundo, porque a diretriz descreve o prolapso isolado de cúspide posterior como o cenário de melhores resultados para a plástica valvar — que é o tratamento de escolha e devolve à paciente a própria válvula, preservando a valva nativa quando a anatomia e a experiência da equipe permitem reparo durável. Isso não significa ausência obrigatória de tratamento antitrombótico no pós-operatório ou se houver outra indicação.

  3. os sintomas, procurados do jeito certo

    Ela diz que está ótima, e eu não paro aí. Pergunto o que fazia no ano passado e não faz mais: nada mudou, mantém as quatro caminhadas de quarenta minutos. Pergunto por ortopneia, por despertar com falta de ar, por palpitação, por cansaço desproporcional em tarefa nova: nada. Diferente de Otacílio, aqui a ausência de sintoma é sustentável — há uma atividade aeróbica regular e mantida servindo de teste funcional espontâneo. Registro no prontuário a atividade nomeada e o desempenho, para que exista comparação na próxima consulta. Ela é, de fato, assintomática.

  4. os complicadores, um a um

    Pela régua brasileira apresentada neste capítulo, a fração de ejeção de 61%, o diâmetro sistólico de 38 mm e o volume atrial de 58 mL/m² estão próximos dos cortes de 60%, 40 mm e 60 mL/m². A pressão pulmonar de 32 mmHg não está próxima do corte de 50, e não há fibrilação atrial documentada. A ausência desses critérios isolados não elimina a relevância da progressão entre exames nem substitui avaliação especializada, inclusive considerando medidas indexadas ao tamanho corporal.

  5. o último passo é seu: com o exame de dois anos atrás na mesa, o que você faz hoje, e o que escreve

    Compare os dois exames antes de decidir e responda em cinco linhas. Primeira: o que aconteceu com a fração de ejeção, com o diâmetro sistólico e com o volume atrial entre os dois exames, e o que essa direção significa numa doença em que a fração de ejeção medida superestima a força real do ventrículo. Segunda: existe alguma passagem da régua brasileira que autorize considerar intervenção antes de os limites numéricos serem atingidos, e o que exatamente ela exige para isso. Terceira: você encaminha hoje, ou marca retorno — e, se marcar, para quando, e com base em qual linha da tabela de acompanhamento. Quarta: o que você escreve no prontuário para que o próximo médico consiga refazer essa comparação sem os papéis que ela trouxe. Quinta: quais orientações não medicamentosas saem hoje na receita, e por quê. Depois, volte ao caso e altere um único dado de cada vez, dizendo o que cada alteração produz: se a fração de ejeção fosse 59%; se o diâmetro sistólico fosse 41 mm; se o eletrocardiograma mostrasse fibrilação atrial iniciada há quatro meses; se ela tivesse deixado de fazer duas das quatro caminhadas; e se a etiologia fosse reumática em vez de prolapso.

Ver como fecharíamos

Lindaura apresenta insuficiência mitral primária importante por prolapso, com quatro parâmetros quantitativos concordantes. Entre os exames, a fração de ejeção caiu de 69% para 61%, o diâmetro sistólico aumentou de 33 para 38 mm e o volume atrial indexado subiu de 47 para 58 mL/m². Essa direção preocupa: na regurgitação mitral, a ejeção para um átrio de baixa pressão pode mascarar disfunção ventricular. Entretanto, dois exames separados por dois anos não demonstram, sozinhos, progressão contínua em avaliações seriadas nem eliminam variabilidade de medida. Encaminho agora para avaliação especializada em valvopatias, levando os dois exames, em vez de esperar aparecer um sintoma ou cruzar um corte. Avaliar qualidade das medidas, dimensões indexadas, capacidade funcional e possibilidade de reparo durável faz parte dessa decisão. Encaminhar não significa indicar cirurgia automaticamente. A régua brasileira apresentada admite considerar intervenção diante de progressão documentada; a decisão é da equipe com a paciente, integrando tendência, anatomia, risco e experiência do centro. Enquanto essa avaliação se organiza, planejo seguimento clínico e ecocardiográfico em seis meses, ou antes se surgirem sintomas ou se a equipe indicar. Registro data e valores dos dois exames, mecanismo primário, gravidade, ausência atual de sintomas após investigação dirigida, atividade que ela mantém e destino do encaminhamento. Explico que falta de ar, redução da caminhada, palpitações, síncope ou edema antecipam a avaliação. Oriento higiene bucal, cuidado odontológico regular e atividade compatível com a avaliação funcional; exercício intenso deve ser discutido com a equipe. Não prescrevo profilaxia antibiótica odontológica apenas por haver prolapso, sem uma indicação específica conforme o risco e o protocolo adotado. Com fração de ejeção de 59% ou diâmetro sistólico de 41 mm, há critério de disfunção pela régua apresentada e a avaliação para intervenção ganha prioridade. Fibrilação atrial nova ou perda de capacidade funcional também mudam a decisão. Se a etiologia fosse reumática, seria preciso rever mecanismo, possibilidade de reparo, profilaxia secundária e planejamento de eventual prótese, em vez de transportar automaticamente o prognóstico do prolapso isolado.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Os parâmetros são concordantes com estenose aórtica moderada, com fração de ejeção preservada e ausência de sintomas. Cabe seguimento clínico e ecocardiográfico, em geral anual, com orientação para antecipar a avaliação se surgirem dispneia, angina, síncope ou redução da capacidade funcional. Troca valvar não é indicada automaticamente pelo tamanho da área nesta paciente. Na estenose moderada, pode ser considerada quando há indicação de cirurgia cardíaca concomitante selecionada, como cirurgia de outra valva ou revascularização; isso não se estende a todo procedimento invasivo, como cateterismo. Não há discordância que exija dobutamina ou escore de cálcio para definir a conduta apresentada.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Explique como estenose aórtica e insuficiência mitral produzem sopros e repercussões diferentes. Depois descreva como procurar perda de capacidade funcional em alguém que se diz assintomático. Consulte os parâmetros ecocardiográficos e confira se mecanismo, gravidade e repercussão concordam. Sua apresentação deve separar insuficiência mitral primária de secundária e identificar quais achados mudam a prioridade do encaminhamento.

Em 30 dias

Compare os dois ecocardiogramas de Lindaura e escreva a tendência, a incerteza de medida e a conduta. Em seguida, altere separadamente a fração de ejeção para 59%, o diâmetro sistólico para 41 mm ou a capacidade de caminhar. Explique por que cada mudança importa e quando solicitar avaliação especializada. Confira a resposta comentada depois de terminar e registre um plano com sintomas de alerta, exame de controle e responsabilidade pelo seguimento.

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Agora atenda

Agora atenda: homem de 71 anos em consulta de rotina na unidade básica, trazido pela filha para renovar receita de pressão. Ele diz que está bem e reclama apenas de que a filha exagera. A filha conta, por cima da fala dele, que o pai deixou de ir à feira a pé e que teve um episódio de tontura forte no banho, há dois meses, que ele nega ter sido nada. Conduza a consulta inteira: descreva o sopro por completo, incluindo foco, momento na sístole, irradiação, comportamento das bulhas e o que muda com manobra; palpe pulso e ictus e diga o que encontrou; extraia a história de sintomas pelo que ele deixou de fazer, e não pela pergunta direta; decida o que sai e o que fica na prescrição hoje, com a razão dita em voz alta; escreva o pedido do ecocardiograma com as perguntas que ele precisa responder; e explique ao paciente e à filha, em português comum, por que uma pessoa que se sente bem precisa de exame com prioridade e o que deve fazer se aparecer qualquer um dos três sintomas que você vai deixar por escrito.

Valvopatias – Estenose aórtica e insuficiência mitral — Internato | OsceLabs