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Hipertensão arterial sistêmica
É o diagnóstico que você mais vai fazer e o que mais vai errar — e o erro quase nunca está no raciocínio, está na medida. Manguito, braço, cinco minutos, e o que fazer quando o número alto ainda não é doença.
Sociedade Brasileira de Cardiologia, Sociedade Brasileira de Hipertensão e Sociedade Brasileira de Nefrologia — Brandão AA, Rodrigues CIS, Bortolotto LA, Nadruz W et al. Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2025. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, 2025;122(9):e20250624
Ministério da Saúde, Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hipertensão Arterial Sistêmica, aprovado pela Portaria SECTICS/MS nº 49, de 23 de julho de 2025
Ministério da Saúde — Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília, 2024. ISBN 978-65-5993-710-3, 1ª edição, 254 páginas
Sociedade Brasileira de Cardiologia e sociedades associadas — Feitosa ADM, Barroso WKS, Mion D Jr, Nobre F, Mota-Gomes MA, Jardim PCBV et al. Diretrizes Brasileiras de Medidas da Pressão Arterial Dentro e Fora do Consultório – 2023. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, 2024;121(4):e20240113
Ministério da Saúde, Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde — Relatório de Recomendação nº 817: monitorização residencial da pressão arterial para diagnóstico de hipertensão arterial sistêmica em adultos com suspeita da doença. Brasília, março de 2023
Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica — Estratégias para o cuidado da pessoa com doença crônica: hipertensão arterial sistêmica. Cadernos de Atenção Básica nº 37. Brasília, 2013. ISBN 978-85-334-2058-8, 128 páginas
Sociedade Brasileira de Cardiologia, Sociedade Brasileira de Hipertensão e Sociedade Brasileira de Nefrologia — Barroso WKS, Rodrigues CIS, Bortolotto LA et al. Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial – 2020. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, 2021;116(3):516-658
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Homem de 47 anos, circunferência do braço de 42 cm, tem pressão medida na unidade com o manguito adulto padrão, cuja bolsa mede 12 por 23 cm. A média das duas últimas medidas é 146 por 92 mmHg. Qual é o efeito esperado do manguito sobre esse número, e o que fazer?
O paciente que você vai ver
Terça-feira de manhã, unidade básica de saúde, sala 3. Sebastiana tem 54 anos, é merendeira de uma escola municipal há dezenove, e não veio por causa de pressão. Veio buscar o resultado do exame de sangue que a enfermeira pediu no dia da campanha de vacinação, e aproveitar para pedir uma receita da pomada do joelho. Ela entra apressada porque deixou o portão da escola com a colega e precisa voltar antes do recreio.
A técnica de enfermagem já aferiu a pressão na sala de acolhimento: 158 por 96. Está anotado na folha, com a letra apertada de quem anota trinta por manhã. Não está escrito em qual braço, nem quantas medidas, nem qual manguito.
Sebastiana se sente bem. Nunca teve nada. Não fuma, bebe cerveja em festa de família, dorme mal desde que a filha teve o bebê, e sim, o marido reclama que ela ronca. Pesa 84 quilos com 1,58 m de altura. A mãe morreu de derrame aos 66 anos, o pai teve infarto e sobreviveu, e ela sabe disso de cor porque cuidou dos dois. Quando você pergunta se alguém já disse que a pressão dela era alta, ela responde que sim — no ano passado, na farmácia, deu 15 por 9, mas foi porque ela tinha subido a ladeira.
Você olha para o número na folha e para a mulher na cadeira. Ela está com pressa, se sente bem, tem uma pomada para pedir e trinta e cinco minutos de intervalo antes de voltar ao trabalho. E existe uma chance real de que a decisão que você tomar nos próximos quinze minutos mude o que vai acontecer com ela nos próximos vinte anos — em qualquer das duas direções. Pode faltar um diagnóstico que ela tem. Pode sobrar um diagnóstico que ela não tem.
A primeira coisa a fazer não é decidir. É medir de novo, direito.
Quem adoece disso
Hipertensão é a doença mais prevalente da clínica brasileira, e a estimativa depende de como se pergunta. Nos inquéritos por telefone do Ministério da Saúde, em que o diagnóstico é referido pelo próprio entrevistado, a prevalência ficou em torno de 24,5% dos adultos entre 2006 e 2019 e subiu para 27,9% em 2023. Nos estudos de amostras urbanas brasileiras em que a pressão foi de fato medida, a prevalência gira em torno de 36%. A diferença entre os dois números é a doença que existe e ninguém contou — e é a razão de o rastreamento anual em todo adulto a partir dos 18 anos ser conduta, e não zelo.
A distribuição não é uniforme. Em 2023, entre as capitais, a menor prevalência ficou em São Luís, com 19,2%, e a maior no Rio de Janeiro, com 34,4%. Cresce em proporção quase linear com a idade e chega a 65,1% acima dos 65 anos. Homens têm prevalência maior desde o fim da adolescência; mulheres sobem mais depressa com a idade e alcançam ou ultrapassam os homens depois dos 60. Na prática do ambulatório isso significa que, num paciente acima dos 65, a hipertensão é o achado esperado, e a normotensão é que merece uma segunda olhada.
O desfecho justifica o trabalho. Dados do estudo de carga global de doença apontam a hipertensão como o principal fator de risco responsável pela mortalidade total no Brasil, com 104,8 mortes por 100 mil habitantes em 2019, e a Organização Mundial da Saúde estima que 54% das mortes cardiovasculares no país sejam atribuíveis a ela. Não é uma doença de ambulatório de rotina que às vezes complica: é o principal motivo pelo qual seus pacientes vão morrer.
E o funil vaza em todas as etapas. A estimativa da Organização Mundial da Saúde para o Brasil, usando dados de 2019, é de que 67% dos hipertensos estejam diagnosticados, 62% recebam tratamento e apenas 33% estejam com a pressão controlada. O protocolo do Ministério trabalha com números ainda mais duros: cerca de 40% dos hipertensos recebem terapia medicamentosa, e desses 35% controlam a pressão. Traduzindo para a sua consulta: de cada três hipertensos que passarem por você hoje, dois vão sair sem controle — e o gargalo maior não está no arsenal terapêutico, que existe e é gratuito, está no diagnóstico que não se faz, na dose que não se sobe e no comprimido que não se toma.
Por que acontece o que acontece
A pressão arterial é o produto de duas coisas: quanto sangue o coração ejeta por minuto e quanta resistência esse sangue encontra. Na hipertensão primária do adulto, o débito costuma estar normal e o que subiu foi a resistência — e a resistência mora nas arteríolas, que são pequenas, silenciosas e não doem. Está aí a explicação da única característica clínica que define a doença: ela não produz sintoma até produzir dano. Uma arteríola espessada não avisa nada; um ventrículo que hipertrofia contra ela também não, até falhar.
A segunda coisa a entender é que a pressão não é um número, é uma distribuição. Ela varia batimento a batimento, sobe ao levantar, cai no sono, dispara com dor, com bexiga cheia, com conversa e com café. Quem controla essa variação minuto a minuto é o barorreflexo, e ele trabalha rápido demais para que qualquer medida isolada represente a média do dia. Toda a arquitetura do diagnóstico — três medidas, média das duas últimas, duas ocasiões, monitorização de 24 horas — é uma tentativa de estimar uma distribuição a partir de amostras. É por isso que um valor alto não fecha diagnóstico: não é cautela burocrática, é estatística de amostragem.

A reação de alerta é fisiológica e mensurável. Entrar num consultório, sentar diante de um profissional de saúde e ser examinado ativa o simpático em quem é predisposto, e a pressão sobe naquele intervalo. O efeito é considerado significativo quando a sistólica de consultório fica 20 mmHg acima da média de 24 horas, ou 15 mmHg acima da residencial. Isso explica três coisas práticas: por que existe hipertensão do avental branco; por que a medida feita sozinho, em sala reservada, com aparelho automático, produz números mais reprodutíveis; e por que a técnica de enfermagem costuma provocar menos reação de alerta do que o médico.
O mascarado é o mesmo mecanismo ao contrário, e é o mais interessante fisiologicamente. A pressão do paciente é alta na vida que ele leva — no trabalho, com o cigarro, com o álcool, com o estresse, com a apneia da madrugada — e o consultório é justamente o intervalo em que ele está sentado, quieto, sem fumar, depois de cinco minutos de repouso. A amostra é viciada para baixo. Como a exposição que produz dano é a média do dia, e não o instante da consulta, o prognóstico do mascarado se parece com o do hipertenso sustentado, e não com o do normotenso que ele aparenta ser.
Do lado do volume, quem governa a pressão de longo prazo é o rim. A relação entre pressão arterial e excreção de sódio — quanto maior a pressão, mais sódio o rim elimina — é o mecanismo que devolveria a pressão ao normal sozinho, se estivesse funcionando bem. Na hipertensão, essa curva está deslocada: é preciso uma pressão maior para excretar a mesma carga de sódio. Daí saem duas condutas do capítulo: a restrição de sódio, que reduz a carga que precisa ser excretada, e o diurético tiazídico, que aumenta a excreção na mesma pressão. E daí sai também por que a redução de sal produz efeito mensurável — algo próximo de 5,9 por 2,2 mmHg — sem nenhum comprimido.
O sistema renina-angiotensina-aldosterona é o outro eixo, e é o que a maior parte da farmacologia do capítulo ataca. A angiotensina II contrai a arteríola e estimula a aldosterona, que retém sódio e água e espolia potássio. Bloquear a enzima conversora ou o receptor derruba a resistência e a retenção ao mesmo tempo — e explica os efeitos adversos que você vai ver: a tosse do inibidor da enzima conversora vem do acúmulo de bradicinina, que ele deixa de degradar, e a hiperpotassemia vem de tirar o estímulo à aldosterona. Quando esse sistema está hiperativo por conta própria, com aldosterona alta e renina suprimida, o quadro é o hiperaldosteronismo primário — daí o potássio baixo ser pista de causa secundária, e daí a espironolactona ser o quarto fármaco de escolha na hipertensão resistente, que é justamente a forma mais dependente de volume.
O envelhecimento arterial explica o formato da hipertensão do idoso. Com a perda de elastina e o acúmulo de colágeno, a aorta enrijece; a onda de pulso viaja mais rápido, a onda refletida volta cedo demais e se soma à sistólica em vez de à diastólica. O resultado é sistólica alta com diastólica normal ou baixa, que é a hipertensão sistólica isolada, e uma pressão de pulso larga. A mesma rigidez explica a pseudo-hipertensão do idoso, em que o manguito precisa de mais pressão para colabar uma artéria endurecida, e explica por que a velocidade de onda de pulso — a partir de 10 m/s no trajeto carotídeo-femoral — conta como lesão de órgão-alvo.
Por fim, o dano. Pressão alta crônica impõe pós-carga ao ventrículo esquerdo, que hipertrofia — e a hipertrofia é o que o eletrocardiograma procura pelos índices de Sokolow-Lyon e de Cornell. No rim, a pressão transmitida ao glomérulo lesa a barreira de filtração, e a albumina escapa: é a albuminúria, que aparece antes de a filtração glomerular cair. Na retina, os mesmos vasos ficam visíveis a olho nu, e é por isso que o fundo de olho continua no painel mínimo de uma doença sem sintoma. A albuminúria é também a lesão que responde mais rápido quando a pressão cai, em semanas a poucos meses — o que a torna o melhor parâmetro para saber, cedo, se o tratamento está funcionando.
Como se apresenta de verdade
A distância entre o livro e a porta, nesta doença, é maior do que em qualquer outra: o livro descreve um quadro clínico e a porta não traz quadro nenhum. O que entra no consultório é uma pessoa que veio por outro motivo.
A forma típica é a ausência de forma
A apresentação mais comum da hipertensão é um número num prontuário, colhido durante uma consulta que era sobre outra coisa. Isso tem uma consequência de organização, não de semiologia: se ninguém medir, ninguém acha. O protocolo do Ministério manda rastrear anualmente, com duas medidas em consultório, todo adulto a partir dos 18 anos sem diagnóstico prévio.
A ausência de sintoma também explica por que o paciente resiste ao diagnóstico e por que abandona o tratamento. Ele não deixou de sentir nada quando começou a tomar o comprimido, porque não sentia nada antes. Esse é o problema clínico central do capítulo, e ele é de comunicação, não de farmacologia.
Os sintomas que o paciente atribui à pressão
Cefaleia, epistaxe, tontura, zumbido, nuca pesada, vista embaçada. É o repertório que chega dizendo “doutor, minha pressão subiu”, e quase sempre a relação é a inversa da suposta: a dor, a ansiedade ou o susto elevaram a pressão naquele momento. Medir pressão durante dor ou estresse emocional produz valor alto que não representa o paciente, e o próprio caderno de atenção básica avisava para evitar aferir nessas condições.
Isso não autoriza desprezar a queixa. Autoriza separar duas condutas: tratar o sintoma e remarcar a medida para uma condição neutra. O que não se faz é diagnosticar hipertensão com o número colhido no meio de uma crise de enxaqueca — nem, no outro extremo, dar um comprimido sublingual para derrubar aquele número.
Sintoma que muda o rumo é outro: cefaleia com sudorese e palpitações em crise sugere feocromocitoma; ronco alto com pausas e sonolência diurna sugere apneia obstrutiva do sono; fraqueza muscular e cãibras com potássio baixo sugerem hiperaldosteronismo.
O idoso e a hipertensão sistólica isolada
Com o envelhecimento arterial, a sistólica sobe e a diastólica tende a cair. O resultado é a hipertensão sistólica isolada — sistólica de 140 ou mais com diastólica abaixo de 90 —, que se classifica em estágio 1, 2 ou 3 pelo valor da sistólica, como qualquer outra. A prevalência de hipertensão passa de 65% acima dos 65 anos.
Duas cautelas específicas. A primeira é a pseudo-hipertensão do idoso com rigidez arterial expressiva, em que o manguito precisa de mais pressão para ocluir uma artéria endurecida e o número sai superestimado. A segunda é a hipotensão ortostática, que no idoso é regra e não exceção — mede-se deitado e em pé antes de aumentar qualquer dose.
O jovem, e o que a idade de início muda
Hipertensão que aparece antes dos 30 anos entra na lista de suspeita de causa secundária, e o mesmo vale para o início depois dos 50 com lesão de órgão-alvo. No jovem, a pergunta obrigatória é sobre o que ele usa: esteroide anabolizante, anfetamínico para emagrecer, cocaína, descongestionante nasal crônico, anti-inflamatório de academia, contraceptivo hormonal.
Há ainda a hipertensão sistólica espúria do jovem — mais comum em homens atletas —, em que a amplificação da onda de pulso eleva a sistólica braquial acima da central. É a principal indicação de medir pressão central, e é a razão de não rotular como hipertenso, sem confirmação, um rapaz de 22 anos com sistólica alta e diastólica normal.
O obeso, o roncador, e a pressão que não cai à noite
Entre 60% e 77% das pessoas com obesidade têm hipertensão, e a obesidade é também o cenário em que a medida erra mais, por manguito inadequado. É o paciente em que a hipertensão mascarada é mais frequente, junto com o diabético.
A apneia obstrutiva do sono aparece com ronco na maioria das noites, pausas ou engasgos, sono não reparador, sonolência diurna, noctúria e cefaleia matinal. Questionários têm baixa precisão para triagem, e o exame que confirma é a polissonografia, ou a poligrafia quando a probabilidade pré-teste é alta; o manejo está em Apneia obstrutiva do sono, na apostila de Pneumologia. A pista pressórica é a monitorização ambulatorial que mostra pressão que não desce durante o sono.
O que já trata e continua alto — a forma mais comum no ambulatório
Este é o paciente que o interno mais atende, e o rótulo errado sai fácil. Antes de chamar de resistente, é preciso afastar a pseudorresistência, que responde por cerca de metade dos casos rotulados como resistentes na primeira avaliação. Ela tem quatro causas, e três delas são nossas: falha na técnica de medida, efeito do avental branco, inércia terapêutica — a prescrição que nunca subiu — e falta de adesão.
A hipertensão arterial resistente verdadeira é a pressão fora da meta apesar de três ou mais classes sinérgicas, em doses máximas preconizadas ou toleradas, incluindo preferencialmente um diurético tiazídico ou similar, um bloqueador do sistema renina-angiotensina e um bloqueador de canal de cálcio de ação prolongada, por pelo menos 30 a 60 dias. Quem está controlado usando quatro ou mais fármacos também é resistente. Refratária é o degrau seguinte: pressão não controlada com cinco ou mais fármacos, incluindo um antagonista mineralocorticoide.
Prevalência em estudos populacionais: 6% a 18% dos hipertensos; uma metanálise encontrou 10,3% de resistente verdadeira e outros 10,3% de pseudorresistente. No Brasil, o estudo multicêntrico ReHOT encontrou 11,7%.
Como fechar o diagnóstico
Em quase toda doença deste livro, o exame que fecha o diagnóstico é um exame que se pede. Aqui não: é um exame que se faz, com as mãos, na sala de consulta, e por isso ele é o único que pode ser malfeito por você. Um interno que não sabe pedir tomografia pede errado uma vez e alguém corrige; um interno que mede pressão errado vai medir errado duzentas vezes por ano, e ninguém corrige, porque o resultado tem cara de resultado.
O restante da investigação responde a três perguntas independentes, que se resolvem em paralelo e não em fila: a pressão está mesmo alta fora daquela sala, o corpo já sofreu com ela, e existe uma causa que possa ser tratada.
A medida é o exame — e o número que ela produz depende de quem mede
O procedimento tem seis passos que aparecem nas duas réguas brasileiras de 2025, palavra por palavra, e é por isso que vale decorá-los: braço nu, apoiado na altura do coração, palma para cima; ambiente silencioso e com temperatura confortável; nada de fumo, comida ou cafeína nos trinta minutos anteriores e nada de exercício nos noventa; sentado com as costas apoiadas, pernas descruzadas e pés no chão; cinco minutos de repouso, bexiga vazia e ninguém falando; três medidas com um minuto de intervalo entre elas.
O valor que vale é a média das duas últimas, não a primeira e não a menor. Se as medidas diferirem mais de 10 mmHg entre si, mede-se de novo. Na primeira consulta, mede-se nos dois braços, e o braço de maior valor vira o braço daquele paciente para o resto da vida — diferença de sistólica acima de 15 mmHg entre os braços aponta risco cardiovascular aumentado e levanta a hipótese de doença arterial obstrutiva.
O manguito é o detalhe que mais estraga número. A bolsa inflável precisa ter largura de pelo menos 40% da circunferência do braço e comprimento de pelo menos 80% dela; para o braço de 27 a 34 cm, isso significa uma bolsa de 12 por 23 cm, o manguito adulto comum. No braço de 35 a 45 cm, o manguito adulto comum superestima a pressão — e o braço grosso pertence ao paciente obeso, que já é o de maior probabilidade pré-teste de ser hipertenso. Foi assim que se criou uma geração de hipertensos de manguito.
O aparelho de escolha hoje é o oscilométrico automático de braço, validado, com calibração conferida ao menos uma vez por ano. Ele reduz o erro do observador, dispensa o estetoscópio e permite a medida desacompanhada, em sala reservada — o que, por si só, derruba a reação de alerta. O aneroide continua servindo, desde que calibrado a cada seis meses e usado com deflação lenta, de cerca de 2 mmHg por segundo: deflação rápida subestima a sistólica e superestima a diastólica na mesma medida.
Em idoso, em diabético, em quem tem disautonomia e em quem já toma anti-hipertensivo, a medida se faz também deitado e em pé, com 1 e 3 minutos. Sistólica que cai 20 mmHg ao levantar, ou diastólica que cai 10 mmHg, define hipotensão ortostática, e essa é a informação que impede você de subir a dose de um paciente que está caindo em casa.
Por que um valor alto não fecha diagnóstico, e as duas saídas que fecham
A pressão arterial é uma variável com variabilidade grande dentro do mesmo dia e entre dias. Um único valor alto no consultório mede o paciente naquele minuto, com aquele observador, naquela sala. Por isso a regra é confirmar, e por isso existem exatamente duas saídas.
A primeira é a medida repetida no consultório: 140 por 90 ou mais em duas ocasiões diferentes, separadas por dias ou semanas. Quanto mais alto o valor, mais curto o intervalo — estágio 1 pode esperar 7 a 14 dias, estágio 2 não. As três exceções que dispensam a segunda visita são a pressão de 180 por 110 ou mais, a lesão de órgão-alvo documentada e a doença cardiovascular estabelecida.
A segunda saída é a medida fora do consultório, e ela é superior à primeira para prever risco cardiovascular. O que muda é o corte: fora do consultório o número de referência cai. A monitorização ambulatorial define hipertensão a partir de 130 por 80 na média de 24 horas, 135 por 85 na vigília e 120 por 70 no sono; a residencial, a partir de 130 por 80 na média. Um paciente com 138 por 88 no consultório e média residencial de 132 por 84 é hipertenso pelas duas réguas — o número menor não o absolve, porque o corte também é menor.
A automedida com o aparelho que o paciente comprou na farmácia não é nenhuma das duas. Sem protocolo de número de medidas, horários e dias, ela não tem valor de normalidade definido, e a diretriz a coloca no lugar honesto: triagem para pedir um método confirmatório. Serve para levantar suspeita e não serve para dar alta.
O teste ergométrico não entra na conta: a resposta pressórica normal ao exercício não tem padronização suficiente para diagnosticar hipertensão.
Avental branco e mascarada — e por que a segunda é a que mata
Cruzar a medida de dentro com a de fora do consultório produz quatro fenótipos, e dois deles são discordantes. A hipertensão do avental branco é a pressão alta no consultório e normal fora dele; aparece em 7% a 15% dos hipertensos de consultório, é mais comum no estágio 1 e nas formas sistólica ou diastólica isoladas. A hipertensão mascarada é o inverso: normal no consultório, alta fora. Aparece em 8% a 22%, é mais comum em quem tem diabetes e obesidade, e chega a 62% entre os pré-hipertensos.
A do avental branco é a que assusta, e a mascarada é a que mata. A razão é de exposição: o paciente de avental branco tem risco intermediário entre o do normotenso e o do hipertenso sustentado, e passa a vida sendo visto. O mascarado tem prognóstico parecido com o do hipertenso sustentado e passa a vida sendo absolvido — cada consulta termina com um número bom, e ninguém pede exame, ninguém procura lesão de órgão-alvo, ninguém trata. A diretriz recomenda que ele seja estratificado exatamente como o hipertenso sustentado, incluindo a busca de lesão de órgão-alvo.
Suspeite de mascarada quando o número do consultório é bom mas alguma outra coisa não fecha: hipertrofia ventricular no eletrocardiograma, albuminúria, retinopatia, risco cardiovascular alto, diabetes, obesidade. E suspeite também no paciente já tratado: a mascarada não controlada aparece em 4% a 23% dos que tomam remédio, e é a explicação de um órgão-alvo que continua piorando com pressão de consultório impecável.
Do outro lado, a do avental branco não controlada — pressão alta na unidade e normal em casa, em quem já trata — aparece em 5% a 29% dos tratados e não parece aumentar eventos em comparação com a hipertensão controlada. É exatamente aqui que subir dose por reflexo produz hipotensão, queda e fratura num paciente que já estava bem.
A lesão de órgão-alvo que se procura com o que existe na unidade básica
Procurar lesão de órgão-alvo não é refinamento acadêmico: ela muda três decisões concretas. Fecha o diagnóstico numa consulta só, empurra o paciente para a faixa de risco alto e antecipa o início do remédio. O painel mínimo cabe na atenção primária e é o mesmo nas duas réguas de 2025.
O eletrocardiograma procura hipertrofia ventricular esquerda por três critérios: índice de Sokolow-Lyon, soma da onda S em V1 com a R em V5 ou V6, acima de 35 mm; onda R em aVL de 11 mm ou mais; e índice de Cornell, soma da S em V3 com a R em aVL, acima de 28 mm em homens e de 20 mm em mulheres. Procura também infarto antigo e arritmia.
O rim entra por duas portas independentes, e as duas são obrigatórias. A creatinina com estimativa da filtração glomerular pelo CKD-EPI define doença renal crônica a partir do estágio 3a, com filtração abaixo de 60 mL/min/1,73 m². A relação albuminúria/creatininúria em amostra isolada é anormal a partir de 30 mg/g, e é lesão de órgão-alvo mesmo com filtração glomerular normal. Quem pede só creatinina perde metade da informação renal do paciente — e a albuminúria é, junto com a velocidade de onda de pulso, o parâmetro que responde mais rápido ao controle da pressão, em semanas a poucos meses.
A retina fecha o painel com o fundo de olho, procurando retinopatia hipertensiva. E os grandes vasos entram com o índice tornozelo-braquial: pressão sistólica do tornozelo dividida pela do braço, com lesão a partir de valores abaixo de 0,9. Ausculta de carótidas e de artérias renais, palpação de pulsos e medida da circunferência abdominal completam o exame físico que já estava previsto na consulta.
Repita a avaliação de lesão de órgão-alvo ao longo do tempo. Em quem tem pressão mal controlada ou lesão já detectada, a cada seis meses a um ano, até que a meta seja atingida e a lesão estabilize ou regrida.
Causa secundária: investigar todo mundo é desperdício, investigar ninguém é erro
A hipertensão secundária responde por 5% a 10% dos casos. Investigar todos os hipertensos significaria dosar aldosterona, renina e metanefrinas em nove pacientes para achar um — com o custo, a fila e os falso-positivos que vêm junto. Não investigar ninguém significa deixar de curar a doença de um em cada dez, porque secundária quer dizer causa tratável, com remissão ou melhora do controle depois da intervenção.
A investigação, portanto, é dirigida por pista. As pistas que valem: hipertensão que começa antes dos 30 ou depois dos 50 anos com lesão de órgão-alvo; pressão que piora sem explicação em quem estava controlado; hipertensão resistente ou refratária; hipopotassemia espontânea ou desproporcional ao diurético; sopro abdominal; assimetria ou ausência de pulsos nos membros inferiores; massa abdominal; alteração de sedimento urinário ou de função renal; piora da função renal depois de introduzir bloqueador do sistema renina-angiotensina; edema agudo de pulmão súbito e recorrente; a tríade de cefaleia, sudorese e palpitações; e o fácies ou biótipo que denuncia doença endócrina.
O primeiro passo quase nunca é um exame caro. Os exames de rotina que você já pediu fazem a triagem: potássio baixo aponta para hiperaldosteronismo primário; creatinina alterada e sedimento urinário anormal apontam para doença renal parenquimatosa; a própria anamnese pergunta por ronco, pausas respiratórias e sonolência diurna, que apontam para apneia obstrutiva do sono.
As causas mais frequentes são poucas. Entre as não endócrinas: doença renal parenquimatosa, estenose de artéria renal, apneia obstrutiva do sono e coarctação de aorta. Entre as endócrinas: hiperaldosteronismo primário, feocromocitoma e paraganglioma, hipotireoidismo e hipertireoidismo, hiperparatireoidismo, síndrome de Cushing e acromegalia — a investigação endócrina do hiperaldosteronismo, do Cushing e do feocromocitoma está em Síndrome de Cushing e hiperaldosteronismo (HAS secundária), na apostila de Endocrinologia. E há a causa que não é doença nenhuma: o que o paciente toma. Anti-inflamatório não esteroidal em uso contínuo, corticoide, descongestionante nasal, anorexígeno, contraceptivo hormonal, esteroide anabolizante, cocaína, excesso de álcool e de sal. Perguntar isso custa dois minutos e resolve mais casos do que qualquer dosagem hormonal.
O que existe no Sistema Único de Saúde — porque exame que não se consegue não é conduta
Todo o painel de rotina está disponível na atenção primária: urina, potássio, creatinina com filtração estimada, relação albuminúria/creatininúria, glicemia e hemoglobina glicada, perfil lipídico, ácido úrico e eletrocardiograma. Isso não é pouco: é o suficiente para estratificar risco, detectar as duas lesões renais e a lesão cardíaca, e triar as causas secundárias mais comuns.
A monitorização residencial da pressão arterial foi incorporada ao Sistema Único de Saúde pela Portaria SECTICS/MS nº 22, de 10 de maio de 2023, e a incorporação vale para fins diagnósticos. Isso é preciso ser dito com a letra que está escrita: a indicação garantida é o diagnóstico, e não o seguimento. A própria diretriz de 2025 registra o ponto e pede aos gestores locais que garantam o acesso também para avaliar eficácia terapêutica, diagnosticar hipertensão resistente e acompanhar quem tem lesão de órgão-alvo progredindo com pressão controlada.
Na farmácia da unidade existem, pelo componente básico, hidroclorotiazida de 12,5 e 25 mg, espironolactona de 25 e 100 mg, furosemida de 40 mg, anlodipino de 5 e 10 mg, nifedipino de 10 mg, verapamil, captopril de 25 mg, enalapril de 5, 10 e 20 mg, losartana de 50 mg, atenolol, propranolol, metoprolol, carvedilol, doxazosina, metildopa e hidralazina. É um arsenal completo para as cinco classes principais.
Duas ausências importam. A primeira: a diretriz de 2025 prefere, entre os diuréticos, os tiazídicos e seus similares, e é a clortalidona e a indapamida que carregam a melhor evidência dessa família; na 1ª edição da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024, o tiazídico listado é a hidroclorotiazida. A segunda: a mesma diretriz recomenda, com força forte, a associação em comprimido único, porque a adesão sobe quando o número de comprimidos cai. As duas combinações fixas submetidas à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias — benazepril com anlodipino, pela Portaria SECTICS/MS nº 31, e losartana com hidroclorotiazida, pela Portaria SECTICS/MS nº 32, ambas de 28 de junho de 2023 — receberam recomendação desfavorável e não foram incorporadas. O interno que prescreve na unidade básica escreve dois comprimidos, e é com isso que vai trabalhar a adesão.
Ecocardiograma, ultrassonografia com Doppler de artérias renais, polissonografia e dosagens hormonais existem no sistema, mas por referência e com fila. Por isso a regra da investigação dirigida por pista não é economia: é o que faz caber.
Três réguas brasileiras para o mesmo paciente
A unidade de aprendizagem é uma sequência de consultas: medir corretamente, confirmar o diagnóstico quando necessário, avaliar risco e lesão de órgão, negociar tratamento e conferir sua resposta. Em cada etapa, separe elevação crônica da pressão de lesão aguda em curso; esta última exige o percurso de Crise hipertensiva. Hipertensão é um diagnóstico definido por um ponto de corte, e ponto de corte é uma convenção — alguém decidiu onde traçar a linha. No Brasil, em 2025, duas linhas foram traçadas em lugares diferentes por dois documentos vigentes, publicados com dois meses de diferença: o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Ministério da Saúde, aprovado em julho, e a Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial das sociedades de cardiologia, hipertensão e nefrologia, publicada em setembro. Elas concordam no número que define a doença e discordam em quase tudo que vem depois: como se chama a faixa logo abaixo, qual calculadora estima o risco, e — o que mais muda a vida do paciente — em que valor o tratamento pode parar de subir. A tabela principal põe as duas lado a lado, com a coluna que interessa ao interno: quem muda de lado conforme a régua escolhida.
- 1Meça direito: cinco minutos sentado, braço apoiado na altura do coração, manguito do tamanho do braço, três medidas, média das duas últimas.
- 2Valor abaixo de 140 por 90 e sem lesão de órgão-alvo: não é hipertensão hoje. Classifique a faixa, oriente estilo de vida e marque o retorno — anual se estiver abaixo de 130 por 85.
- 3Valor de 140 por 90 ou mais: marque a segunda avaliação em 7 a 14 dias e use o intervalo para pedir os exames de rotina e estimar o risco cardiovascular.
- 4Valor de 180 por 110 ou mais, ou lesão de órgão-alvo documentada, ou doença cardiovascular estabelecida: o diagnóstico fecha nesta consulta, sem segunda medida.
- 5Segunda avaliação confirmando 140 por 90 ou mais: diagnóstico feito. Classifique em estágio 1, 2 ou 3 pelo maior valor, sistólico ou diastólico.
- 6Segunda avaliação discordando da primeira, ou paciente com risco alto e pressão normal no consultório: peça medida fora do consultório e classifique o fenótipo antes de decidir.
- 7Diagnóstico fechado: escolha a meta, escreva a receita e agende o retorno. Pressão sem data de retorno é pressão que volta ao pronto-socorro em dez anos.
| A decisão | Protocolo do Ministério da Saúde (julho de 2025) | Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial (setembro de 2025) | Quem muda de lado |
|---|---|---|---|
| Como se chama a faixa entre 120 e 139 de sistólica | Duas faixas separadas: normal, de 120 a 129 por 80 a 84; e normal alta, de 130 a 139 por 85 a 89 | Uma faixa só, chamada pré-hipertensão, de 120 a 139 por 80 a 89 | Quem tem 126 por 82: é normal para o Ministério e é pré-hipertenso para a cardiologia. A diferença decide se ele sai da consulta com um rótulo e um retorno programado |
| Quantas medidas fecham o diagnóstico | Duas a três medidas com intervalo de 1 dia a 4 semanas; no estágio 1, duas medições separadas por 7 a 14 dias | Duas ocasiões diferentes, com intervalo de dias a semanas | Ninguém, na prática: as duas convergem em duas ocasiões. O que muda é o rito de fila, porque o protocolo do Ministério manda ver o médico de imediato a partir de 160 por 100 |
| Quando uma consulta basta | Pressão de 180 por 110 ou mais, ou evidência de doença cardiovascular ou lesão de órgão-alvo | Estágio 3, ou lesão de órgão-alvo, ou doença cardiovascular estabelecida — nesses casos a medida fora do consultório é dispensada | Ninguém. É o único ponto em que as duas réguas se encaixam sem sobra |
| Qual calculadora estima o risco | Calculadora da Iniciativa HEARTS, da Organização Pan-Americana da Saúde, anualmente dos 40 aos 74 anos, apontada pelo ELSA-Brasil como a mais bem calibrada para brasileiros | Escore PREVENT, da American Heart Association, com risco alto a partir de 20% em dez anos; sem a calculadora, uma tabela de estágio contra fatores de risco | O paciente de risco intermediário. As duas calculadoras usam variáveis diferentes e nenhuma delas foi construída com população brasileira — a diretriz da cardiologia diz isso com todas as letras |
| Meta de pressão para o hipertensor adulto sem comorbidade | Meta inicial abaixo de 140 por 90, independentemente de comorbidade e de risco; abaixo de 130 por 80 se o tratamento for bem tolerado e o paciente tiver menos de 65 anos | Abaixo de 130 por 80 para todo paciente com hipertensão, independentemente de o risco ser baixo, moderado ou alto | O paciente de 58 anos com 136 por 84 em uso de dois comprimidos. Pela régua do Ministério ele chegou onde precisava; pela régua da cardiologia ele está fora da meta e merece um terceiro fármaco |
| Meta dos 65 aos 79 anos | Reduzir a sistólica inicialmente para a faixa de 130 a 140; abaixo de 130 se tolerar e não houver sinal de hipoperfusão; diastólica abaixo de 80, sem descer de 120 por 70 | Abaixo de 130 por 80 para a grande maioria dos idosos hipertensos, com base nos estudos SPRINT Senior e STEP e em metanálises que não mostraram aumento de efeitos adversos com o controle mais intenso nessa faixa | O idoso de 72 anos com 134 por 78. Está na meta do Ministério e fora da meta da cardiologia — e a decisão de acrescentar droga a um idoso não é neutra |
| Meta do idoso frágil | Meta flexível, idealmente de 140 a 149 de sistólica e 70 a 79 de diastólica | Não há faixa numérica própria: para o idoso frágil, o muito idoso e quem tem a expectativa de vida comprometida, a orientação é reduzir a pressão até o valor que ele tolerar, e a monoterapia é a estratégia recomendada acima dos 80 anos | O paciente de 84 anos institucionalizado. Uma régua lhe dá uma faixa de conforto explícita; a outra deixa a decisão com você |
| Quando começa o medicamento | Grau 1 com risco baixo ou idoso frágil: monoterapia com mudança de estilo de vida. Grau 1 com risco moderado ou alto, ou lesão de órgão-alvo, e graus 2 e 3: dois fármacos desde o início | Medidas não medicamentosas a partir de 120 por 80; medicamento a partir de 140 por 90 no diagnóstico; e na faixa de 130 a 139 por 80 a 89 com risco alto, medicamento se não controlar em 3 meses | O paciente com 134 por 86 e risco alto: as duas réguas o tratam, mas o Ministério permite iniciar já em monoterapia e a cardiologia pede três meses de estilo de vida antes |
| O que define hipertensão resistente | Pressão que permanece em 140 por 90 ou mais apesar de três ou mais classes em doses máximas; ou controlada com quatro ou mais fármacos | Pressão acima da meta proposta para aquele paciente — isto é, acima de 130 por 80 — com três classes sinérgicas em doses máximas toleradas por 30 a 60 dias, afastada a pseudorresistência | Todo paciente entre 130 por 80 e 140 por 90 em uso de três fármacos: resistente por uma régua, controlado pela outra. É a diferença entre investigar causa secundária e dar alta do ambulatório |
Sair do consultório muda o corte — e o corte de quem já trata é outro
| Onde se mede | Valor que define hipertensão | O que o número comprova |
|---|---|---|
| Consultório | 140 por 90 mmHg ou mais | É a medida que sustenta praticamente todos os ensaios clínicos de tratamento, e por isso continua sendo a base da decisão |
| Monitorização ambulatorial, média de 24 horas | 130 por 80 mmHg ou mais | Melhor correlação com prognóstico do que a medida de consultório; é o padrão-ouro para avaliar a pressão durante o sono |
| Monitorização ambulatorial, período de vigília | 135 por 85 mmHg ou mais | É o trecho comparável à medida de consultório, e a diferença de 5 mmHg entre eles é o desconto da reação de alerta |
| Monitorização ambulatorial, período de sono | 120 por 70 mmHg ou mais | A pressão que não cai à noite tem valor prognóstico próprio, independente da média de 24 horas |
| Monitorização residencial | 130 por 80 mmHg ou mais | Custa menos que a ambulatorial, melhora a adesão e serve ao seguimento de longo prazo |
| Automedida com o aparelho do paciente, sem protocolo | Não há valor de normalidade definido | Serve como triagem para pedir um método confirmatório, e não para diagnosticar nem para dar alta |
| Em quem já usa anti-hipertensivo | 130 por 80 mmHg ou mais, dentro ou fora do consultório | É o corte que a diretriz de 2025 usa para chamar de não controlada a pressão de quem trata |
Os quatro fenótipos, e por que o segundo é o perigoso
| No consultório | Fora do consultório | Nome | O que fazer |
|---|---|---|---|
| Abaixo de 140 por 90 | Abaixo de 130 por 80 | Normotensão verdadeira | Repetir a medida anualmente. Não é alta definitiva: a pré-hipertensão pode virar hipertensão a qualquer ano |
| Abaixo de 140 por 90 | 130 por 80 ou mais | Hipertensão mascarada | Prevalência de 8% a 22%, e chega a 62% no pré-hipertenso. O prognóstico é parecido com o da hipertensão sustentada, e o paciente não sabe que é doente porque a consulta o absolve. Estratificar e tratar como hipertenso |
| 140 por 90 ou mais | Abaixo de 130 por 80 | Hipertensão do avental branco | Prevalência de 7% a 15%, mais comum no estágio 1. O risco fica entre o do normotenso e o do hipertenso sustentado: acompanhar, estratificar e reavaliar a lesão de órgão-alvo, sem tratar por reflexo |
| 140 por 90 ou mais | 130 por 80 ou mais | Hipertensão sustentada | Diagnóstico fechado nas duas medidas. Tratar |
| Em tratamento, abaixo de 130 por 80 | 130 por 80 ou mais | Mascarada não controlada | Prevalência de 4% a 23% entre os tratados. O paciente parece um sucesso de ambulatório e não é. Suspeitar quando há lesão de órgão-alvo progredindo com pressão de consultório boa |
| Em tratamento, 130 por 80 ou mais | Abaixo de 130 por 80 | Avental branco não controlada | Prevalência de 5% a 29%. Não parece aumentar eventos em comparação com a hipertensão controlada — é aqui que subir dose por reflexo produz hipotensão e queda |
Desvio de técnica, para onde o número vai, e a régua que corrige
| O desvio | Para onde o número vai | A régua que corrige |
|---|---|---|
| Manguito estreito demais para o braço | Superestima a pressão — e o braço grosso é justamente o do obeso, que já tem probabilidade alta de ser hipertenso | Escolher o manguito pela circunferência do braço. A bolsa deve ter largura de pelo menos 40% da circunferência e comprimento de pelo menos 80% dela; para um braço de 27 a 34 cm, a bolsa é de 12 por 23 cm |
| Medir sempre no mesmo braço sem ter comparado os dois | Subestima em quem tem assimetria: a diferença de sistólica entre os braços passa de 15 mmHg em parte dos pacientes, e isso muda o estágio | Medir nos dois braços na primeira consulta e adotar para sempre o braço de maior valor |
| Uma medida só, sem média | Vai para qualquer lado: a própria diretriz manda medir de novo quando duas medidas da mesma consulta diferem mais de 10 mmHg | Três medidas com um minuto de intervalo, média das duas últimas, medidas adicionais se a diferença passar de 10 mmHg |
| Braço pendurado, sem apoio, fora da altura do coração | Altera a coluna hidrostática e desloca o valor sem que nada tenha acontecido com o paciente | Braço nu, apoiado, na altura do coração, palma para cima. Na medida em pé, o examinador sustenta o braço |
| Medir sem os cinco minutos de repouso, com bexiga cheia, pernas cruzadas ou conversando | Sobe. Cada um desses itens é um passo separado do procedimento padronizado, e nenhum é decoração | Cinco minutos sentado, costas apoiadas, pés no chão, pernas descruzadas, bexiga vazia e ninguém falando |
| Deflação rápida na técnica auscultatória | Subestima a sistólica e superestima a diastólica ao mesmo tempo | Desinflar a cerca de 2 mmHg por segundo, e registrar o valor com intervalos de 2 mmHg em vez de arredondar para 0 ou 5 |
| Confiar na medida de consultório de quem tem reação de alerta | Sobe: o efeito do avental branco é considerado significativo a partir de 20 mmHg de sistólica em relação à média de 24 horas, ou 15 mmHg em relação à residencial | Medida fora do consultório, ou medida desacompanhada em sala reservada com aparelho automático |
As duas réguas de 2025 não se anulam: a do Ministério organiza um sistema com milhares de equipes e prioriza uma meta alcançável em escala; a das sociedades persegue o menor risco cardiovascular demonstrado em ensaio clínico. Registre no prontuário qual você adotou e por quê — a incoerência entre consultas do mesmo paciente é pior do que qualquer uma das duas.
Há um terceiro documento em circulação nas unidades: o Caderno de Atenção Básica nº 37, do Ministério da Saúde, de 2013. Ele classifica a faixa de 130 a 139 por 85 a 89 como pressão limítrofe, estratifica o risco pelo escore de Framingham e fixa a meta em 140 por 90 na hipertensão não complicada. É um documento de doze anos atrás, anterior às duas réguas acima, e serve hoje para reconhecer a origem de uma conduta antiga — não para escolher a de hoje.
A tabela de indicações de monitorização ambulatorial e residencial da diretriz de 2025 descreve a faixa de pré-hipertensão como 130 a 139 por 85 a 89 mmHg, que é a definição da diretriz de 2020 e da diretriz de medidas de 2023, de onde a tabela foi herdada. O corpo do próprio documento, o fluxograma de triagem, o quadro de classificação e a recomendação final dizem 120 a 139 por 80 a 89. Vale a definição repetida quatro vezes: quem está com 124 por 82 está na faixa em que a hipertensão mascarada chega a 62% e tem indicação de medida fora do consultório.
A mesma diretriz descreve o índice tornozelo-braquial como a razão da pressão sistólica do braço pela do tornozelo. Está invertido: o índice é tornozelo dividido por braço. Com tornozelo de 80 mmHg e braço de 120, a conta correta dá 0,67, que a própria tabela do documento classifica como obstrução moderada e que o quadro de lesão de órgão-alvo conta como lesão, porque é menor que 0,9. A conta na ordem impressa dá 1,5, que a mesma tabela chamaria de normal. Faça a divisão pelo tornozelo.
Em quem já toma anti-hipertensivo, a diretriz de 2025 considera elevada a pressão de 130 por 80 tanto no consultório quanto fora dele. Isso significa que a mesma medida de 134 por 84 recebe dois nomes conforme o paciente esteja ou não em tratamento — e é uma fonte silenciosa de confusão no prontuário.
O protocolo do Ministério não é uniforme consigo mesmo neste ponto. O corpo do item 10.a diz que a meta inicial é abaixo de 140 por 90 e que 130 por 80 é o segundo degrau, para quem tolerar e tiver menos de 65 anos; a nota que acompanha o fluxograma de tratamento do mesmo documento diz, sem faixa etária, que a meta terapêutica é atingir pressão inferior a 130 por 80, e reserva a faixa de 140 a 149 por 70 a 79 ao idoso frágil. Na prática isso significa que dois leitores do mesmo protocolo podem intensificar ou não o tratamento do mesmo paciente de 70 anos com 136 por 84 — e os dois estarão citando o documento certo.
A dose da hidroclorotiazida também sai diferente conforme o capítulo. O quadro de diuréticos da diretriz de 2025 imprime a faixa diária como um travessão seguido de 50 mg, sem o piso, e adverte na mesma linha que doses maiores aumentam o efeito diurético e os efeitos metabólicos sem acrescentar efeito anti-hipertensivo. O quadro de medicações do Sistema Único de Saúde, no capítulo de atenção primária do mesmo documento, dá 25 a 50 mg por dia — inclusive para a apresentação de 12,5 mg, o que significaria dois a quatro comprimidos por dia. A Relação Nacional de Medicamentos Essenciais lista as duas apresentações, de 12,5 e de 25 mg. Prescreva pelo efeito: 12,5 a 25 mg por dia em tomada única resolve o efeito anti-hipertensivo, e subir além disso compra hipopotassemia e hiperuricemia sem comprar pressão.
A conduta, hora a hora
A linha do tempo da hipertensão não se conta em horas, e é isso que a torna difícil de aprender no internato. O paciente não piora enquanto você decide; ele piora vinte anos depois, e quem colhe o resultado costuma ser outro médico. A consequência prática é que cada consulta precisa terminar com uma decisão escrita, e não com um “vamos observar”. Os oito marcos abaixo cobrem da primeira aferição ao seguimento estabelecido, e cada dose vem com o documento que a sustenta.
Uma advertência de escopo antes de começar: nada aqui vale para a pressão que sobe com lesão aguda de órgão em curso — dor torácica, dispneia com espuma, déficit neurológico novo. Aquilo é emergência hipertensiva, tem outra régua e outro tempo. Aqui o paciente está sentado à sua frente, sem sintoma nenhum, e a decisão é de meses.
Também não vale para a gestante. A queda fisiológica da pressão na primeira metade da gravidez muda o significado de cada número, e a classificação obstétrica não é esta.
Consulta 0 — a medida, que é o procedimento mais importante do capítulo
Antes de qualquer diagnóstico existe um procedimento, e ele é malfeito na maioria das unidades. O paciente senta, com as costas apoiadas, pernas descruzadas e pés no chão, e fica cinco minutos calado, de bexiga vazia. O braço está nu, apoiado, na altura do coração, palma para cima. O ambiente é silencioso. Não fumou nem comeu nos trinta minutos anteriores, e não fez exercício nos noventa. O manguito é escolhido pela circunferência do braço, não pelo que estava pendurado no aparelho. Fazem-se três medidas com um minuto de intervalo, e usa-se a média das duas últimas; se a diferença entre elas passar de 10 mmHg, mede-se mais. Na primeira vez, mede-se nos dois braços, e o braço de maior valor passa a ser o braço daquele paciente dali em diante. Diferença de sistólica acima de 15 mmHg entre os braços não é curiosidade: aponta risco cardiovascular maior e pode significar doença arterial obstrutiva. Em idoso, em diabético, em quem tem disautonomia e em quem já usa anti-hipertensivo, mede-se também deitado e depois em pé, com 1 e 3 minutos, procurando a sistólica que cai 20 mmHg, ou a diastólica que cai 10 mmHg, ao levantar.
Prescrição- Nenhuma medicação neste marco. O que se escreve no prontuário é a medida: valor, braço, posição, tamanho do manguito e número de aferições.
- Aparelho: preferir o oscilométrico automático de braço, validado, com calibração conferida ao menos uma vez por ano (Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025, item 3.2.1 e recomendação forte de usar equipamento automático de braço; para a atenção primária, Figura 14.1 e item 14.3 do mesmo documento).
- Agendar a segunda avaliação de pressão: 7 a 14 dias se o achado for de estágio 1, mais cedo se for estágio 2 (Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hipertensão Arterial Sistêmica, Ministério da Saúde, aprovado pela Portaria SECTICS/MS nº 49, de 23 de julho de 2025, item 7).
Consulta 0, ainda na mesma consulta — as três situações em que o diagnóstico não espera
A regra geral é que um valor alto num dia não fecha diagnóstico. Existem três exceções, e reconhecê-las é o que separa a conduta correta da conduta tímida. A primeira é a pressão muito elevada: 180 mmHg de sistólica ou 110 de diastólica em consultório dispensam a segunda visita. A segunda é a lesão de órgão-alvo já documentada — hipertrofia ventricular ao eletrocardiograma, albuminúria, retinopatia, filtração glomerular reduzida. A terceira é a doença cardiovascular estabelecida: quem já infartou, quem já teve acidente vascular cerebral, quem tem doença arterial periférica. Nesses três casos o diagnóstico se fecha na primeira consulta e o tratamento começa no mesmo dia. O protocolo do Ministério acrescenta uma faixa intermediária de organização de fila: pressão de 160 por 100 ou mais tem recomendação de consulta médica imediata, ainda que a confirmação diagnóstica siga o rito das duas medidas.
Prescrição- Estágio 3 (a partir de 180/110 mmHg) sem sinal de lesão aguda: iniciar tratamento medicamentoso hoje, com combinação dupla em dose baixa, e reavaliar em 7 dias. Não existe indicação de derrubar a pressão na sala com medicação sublingual (Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025, item 3.7 e Figura 3.3).
- Lesão de órgão-alvo ou doença cardiovascular estabelecida: o diagnóstico está feito, e a medida fora do consultório deixa de ser necessária para confirmá-lo (mesmo documento, item 3.2.3).
Dias 1 a 14 — o que se pede enquanto o diagnóstico ainda não fechou
O intervalo entre a primeira e a segunda medida não é tempo morto. É nele que se faz a avaliação complementar mínima, que serve a três perguntas ao mesmo tempo: o rim está sofrendo, existe fator de risco associado, existe pista de causa secundária. O painel é curto e cabe na unidade básica. Nesse mesmo intervalo se calcula o risco cardiovascular e se decide se o paciente vai precisar de medida fora do consultório para confirmar o diagnóstico — e aqui vale fixar uma ideia que volta no bloco das metas: o risco alto não muda a decisão de tratar quem já tem hipertensão; ele muda a decisão de tratar quem está na faixa logo abaixo dela.
Prescrição- Exames de rotina, todos disponíveis na atenção básica: análise de urina; relação albuminúria/creatininúria em amostra isolada; potássio plasmático; creatinina plasmática com estimativa da filtração glomerular pelo CKD-EPI; glicemia de jejum e hemoglobina glicada; colesterol total, HDL e triglicerídeos; ácido úrico; eletrocardiograma convencional (Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025, Quadro 4.3 e Quadro 14.3).
- Repetir esse painel pelo menos uma vez por ano enquanto os resultados estiverem normais.
- Estratificação de risco cardiovascular: o protocolo do Ministério de 2025 recomenda a calculadora da Iniciativa HEARTS, da Organização Pan-Americana da Saúde, anualmente dos 40 aos 74 anos; a diretriz da cardiologia recomenda o escore PREVENT, da American Heart Association, com risco alto a partir de 20% em dez anos. Escolha uma, e registre no prontuário qual usou.
Segunda ocasião — o diagnóstico fecha, e a primeira coisa prescrita não é remédio
Confirmada a pressão de 140 por 90 ou mais em duas ocasiões separadas por dias a semanas, o diagnóstico está feito e é vitalício até prova em contrário. A partir daqui existem duas prescrições, e elas não competem: a de estilo de vida, que vale para todo mundo com pressão de 120 por 80 ou mais, e a medicamentosa. O erro comum do interno é tratar a primeira como conversa de corredor e a segunda como a consulta de verdade. Os números dizem o contrário: cada quilo perdido reduz cerca de 1,05 mmHg de sistólica e 0,92 de diastólica, a dieta com o padrão do estudo DASH reduz em torno de 8,7 por 4,5 mmHg em hipertensos, e reduzir o sal a uma colher de chá por dia responde por algo próximo de 5,9 por 2,2 mmHg. Somados, esses efeitos valem um comprimido — e não trazem efeito adverso metabólico junto.
Prescrição- Medidas não medicamentosas escritas na receita como itens numerados, e não ditas de passagem: sódio abaixo de 2 g por dia, o que corresponde a 5 g de sal, uma colher de chá contando todas as refeições; potássio dietético de pelo menos 3,5 g por dia, exceto em doença renal crônica ou hiperpotassemia; padrão alimentar DASH; álcool no máximo duas doses por dia para homens e uma para mulheres, sendo uma dose 10 a 12 g de álcool puro (200 mL de cerveja, 100 mL de vinho, 25 mL de destilado); atividade física aeróbica três a cinco vezes por semana, 30 a 60 minutos por sessão ou 150 minutos por semana; índice de massa corporal abaixo de 25 kg/m², e entre 22 e 27 no idoso; cessação do tabagismo (Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025, Capítulo 6).
- Medicamento a partir de 140/90 mmHg, junto com as medidas acima, já no diagnóstico (mesma diretriz, Tabela 5.1; e Quadro 14.7 para a atenção primária).
- Na faixa de 130-139/80-89 mmHg com risco cardiovascular alto: medidas não medicamentosas por 3 meses, e medicamento se a pressão não controlar nesse prazo (mesma tabela).
A receita, escrita por extenso — o esquema que existe na farmácia da unidade
Para a maioria dos pacientes a diretriz brasileira recomenda começar com dois fármacos em dose baixa, e não com um em dose cheia: a combinação reduz mais, reduz mais rápido e produz menos efeito adverso do que dobrar a dose de um só. A monoterapia fica reservada a quatro situações — estágio 1 de baixo risco, pessoa frágil, muito idoso a partir dos 80 anos e hipotensão ortostática sintomática — e à faixa de 130-139/80-89 com risco alto. As classes preferenciais são três: diurético tiazídico ou similar, bloqueador do sistema renina-angiotensina (inibidor da enzima conversora ou bloqueador do receptor) e bloqueador de canal de cálcio. O betabloqueador entra por indicação específica, e não por ser anti-hipertensivo: insuficiência cardíaca, fibrilação atrial, arritmia, doença coronariana, enxaqueca, tremor essencial, mulher que planeja engravidar.
Prescrição- Esquema inicial de dois fármacos, um exemplo executável no Sistema Único de Saúde: losartana potássica 50 mg, um comprimido por via oral pela manhã; e besilato de anlodipino 5 mg, um comprimido por via oral pela manhã. Ambos constam do componente básico da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais 2024, 1ª edição, e do Programa Farmácia Popular.
- Alternativa com diurético: hidroclorotiazida 25 mg, um comprimido por via oral pela manhã, associada a maleato de enalapril 10 mg, um comprimido por via oral de 12 em 12 horas.
- Faixas de dose diária: hidroclorotiazida até 50 mg em tomada única; maleato de enalapril 5 a 40 mg em 1 a 2 tomadas; losartana potássica 50 a 100 mg em 1 a 2 tomadas; besilato de anlodipino 2,5 a 10 mg em tomada única; para nifedipino, conferir a formulação de liberação prolongada, sua dose e intervalo específicos; não transpor a faixa entre formulações nem usar liberação imediata para controle crônico ou resgate (Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025, Quadros 7.2 a 7.5, e Quadro 14.8 para as apresentações do Sistema Único de Saúde).
- Captopril 25 mg de 8 em 8 horas existe na unidade e funciona, com faixa de 25 a 150 mg por dia em 2 a 3 tomadas; a meia-vida curta obriga a três tomadas e derruba a adesão. Prefira o enalapril quando os dois estiverem disponíveis.
- Mulher em idade fértil sem contracepção confiável: não prescrever inibidor da enzima conversora nem bloqueador do receptor de angiotensina — os dois são contraindicados na gravidez (Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hipertensão Arterial Sistêmica, Ministério da Saúde, 2025, Quadro 12).
- Não associe inibidor da enzima conversora com bloqueador do receptor: a combinação é contraindicada.
Semana 4 — o primeiro reajuste, e os dois exames de segurança
O efeito pleno de um anti-hipertensivo se estabelece em uma a duas semanas e pode levar até dois meses; por isso o ajuste se faz, em regra, depois de quatro semanas de uso. Nessa consulta há duas perguntas. A primeira é se o paciente está tomando: perguntar sem julgamento, contar comprimido que sobrou, conferir a data da última retirada na farmácia. A segunda é se o remédio machucou. Quem começou bloqueador do sistema renina-angiotensina precisa de creatinina e potássio; uma piora discreta da função renal no início é esperada e depois estabiliza, e não é motivo para suspender. Quem começou tiazídico precisa de potássio e sódio. É nesta consulta que se combate a inércia terapêutica — a decisão de não decidir, que é a causa mais frequente de pressão descontrolada em consultório no mundo inteiro.
Prescrição- Creatinina e potássio plasmáticos 1 a 2 semanas depois de iniciar ou aumentar inibidor da enzima conversora, bloqueador do receptor ou espironolactona.
- Sódio plasmático quando o paciente estiver em uso de diurético tiazídico (Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hipertensão Arterial Sistêmica, Ministério da Saúde, 2025, item 12).
- Fora da meta e tomando corretamente: subir a dose dos dois fármacos já prescritos até a dose máxima recomendada antes de acrescentar um terceiro, e reavaliar mensalmente até atingir o alvo (mesmo documento, item 12).
- Suspender o que estiver elevando a pressão: anti-inflamatório não esteroidal em uso contínuo, descongestionante nasal, corticoide, anorexígeno, contraceptivo hormonal em algumas mulheres, excesso de álcool.
Mês 2 a 3 — a terceira classe, e a confirmação da meta fora do consultório
Se dois fármacos em dose otimizada não levaram à meta, acrescenta-se o terceiro, e o trio preferencial é sempre o mesmo: diurético tiazídico ou similar, bloqueador do sistema renina-angiotensina e bloqueador de canal de cálcio de ação prolongada. Antes de considerar que o esquema falhou, confirme a meta com medida fora do consultório — é recomendação forte, e existe justamente porque a pressão de consultório erra nas duas direções. Um paciente que parece descontrolado na unidade pode estar controlado em casa; outro que parece controlado pode estar alto o dia inteiro.
Prescrição- Terceiro fármaco em dose mínima, subindo gradualmente: se o esquema era losartana com anlodipino, acrescentar hidroclorotiazida 25 mg pela manhã.
- Solicitar monitorização residencial ou ambulatorial da pressão arterial para confirmar o alcance da meta. A monitorização residencial está incorporada ao Sistema Único de Saúde para fins diagnósticos desde a Portaria SECTICS/MS nº 22, de 10 de maio de 2023.
- Protocolo de coleta da monitorização residencial: 4 a 6 dias dentro de uma semana, três medidas pela manhã e três à noite, média abaixo de 130/80 mmHg (Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025, Quadro 14.5).
Mês 3 a 6 e daí em diante — o seguimento que não solta a corda
Atingida a meta, o intervalo entre consultas se abre, mas não desaparece. O primeiro ano é o mais caro: consultas a cada três a seis meses, exames laboratoriais anuais, reavaliação anual do risco cardiovascular e da lesão de órgão-alvo. Depois de estabilizado, o seguimento pode passar a semestral. Duas armadilhas moram aqui. A primeira é o paciente que some porque se sente bem — e some justamente por isso. A segunda é chamar de resistente quem apenas não toma o remédio: hipertensão arterial resistente exige três classes sinérgicas em doses máximas toleradas, por 30 a 60 dias, com adesão verificada e medida correta, e cerca de metade dos casos rotulados como resistentes na primeira avaliação são pseudorresistência.
Prescrição- Consultas trimestrais a semestrais no primeiro ano; semestrais depois de atingido o alvo (Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hipertensão Arterial Sistêmica, Ministério da Saúde, 2025, item 12).
- Exames laboratoriais e eletrocardiograma anualmente, ou pelo menos a cada dois anos.
- Quarto fármaco na hipertensão resistente verdadeira: espironolactona 25 mg por via oral pela manhã, faixa de 25 a 100 mg por dia em 1 a 2 tomadas, com potássio e creatinina conferidos 1 a 2 semanas depois (Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025, Quadro 7.2 e Quadro 14.8; a espironolactona de 25 mg e a de 100 mg constam do componente básico).
- Encaminhar ao especialista: hipertensão resistente confirmada, suspeita de causa secundária que exija exame indisponível na unidade, doença renal crônica em progressão.
Como saber se está funcionando
Numa doença sem sintoma, saber se o tratamento funcionou é uma decisão inteiramente de números — e os números demoram. O efeito pleno de um anti-hipertensivo começa em minutos, se estabelece em uma a duas semanas e pode levar até dois meses. Quem julga na primeira semana julga cedo; quem espera seis meses para julgar deixou o paciente exposto meio ano.
Esperado: Média abaixo de 130 por 80 mmHg, que é o corte da monitorização residencial tanto para diagnóstico quanto para controle.
Se não melhora: Antes de subir dose, confira o aparelho do paciente e o tamanho do manguito dele. Se a média domiciliar estiver boa e a do consultório ruim, você está diante de avental branco não controlada, e subir dose aqui produz queda em casa.
Esperado: Queda progressiva rumo à meta escolhida e registrada. Uma redução de 10 mmHg na sistólica já vale muito: associa-se a cerca de 33% menos insuficiência cardíaca e 27% menos acidente vascular cerebral em prevenção primária.
Se não melhora: Percorra a lista na ordem: técnica de medida, adesão, sal e álcool, substâncias que elevam a pressão, e só então dose ou classe. Não decidir é a decisão mais comum e a mais cara — a inércia terapêutica é a causa apontada como principal para o descontrole no mundo inteiro.
Esperado: Tomar pelo menos 80% dos comprimidos prescritos é o patamar convencionado como adesão alta; entre 50% e 79% é média, e abaixo de 50% é baixa.
Se não melhora: Não repita a receita mais alto. Simplifique: mesma hora, menos comprimidos, menos tomadas. Cerca de metade dos pacientes com doença crônica não usa o medicamento como prescrito, e na doença cardiovascular a baixa adesão pode alcançar 40% a 60% dos pacientes — a pergunta não é se o seu paciente é a exceção.
Esperado: Dentro da faixa de referência do laboratório.
Se não melhora: Potássio alto aponta para o bloqueio do sistema renina-angiotensina, para a espironolactona, para a associação dos dois ou para piora renal: reduza dose, suspenda suplemento e reavalie em uma semana. Potássio baixo espontâneo, ou desproporcional à dose de diurético, muda o rumo da consulta — é a pista mais barata de hiperaldosteronismo primário.
Esperado: Estabilidade. Uma queda discreta da filtração logo depois de começar o bloqueio é esperada e costuma estabilizar.
Se não melhora: Piora expressiva ou progressiva da função renal depois de introduzir inibidor da enzima conversora ou bloqueador do receptor não é apenas efeito adverso: é uma das pistas clássicas de estenose de artéria renal, e a mesma droga é contraindicada na estenose bilateral ou em rim único.
Esperado: Abaixo de 30 mg/g. É, junto com a velocidade de onda de pulso, o parâmetro de lesão de órgão-alvo que responde mais rápido ao controle da pressão — de semanas a poucos meses.
Se não melhora: Albuminúria que não cai com pressão de consultório na meta é um dos melhores motivos para desconfiar de hipertensão mascarada não controlada e pedir medida fora do consultório antes de mexer em qualquer outra coisa.
Esperado: Nenhuma tontura ao levantar, nenhuma queda, e nenhuma sistólica caindo 20 mmHg nem diastólica caindo 10 mmHg ao ficar em pé.
Se não melhora: Hipotensão ortostática documentada muda a meta daquele paciente, não só a dose. E a queixa de tontura merece medida, não suposição: nem toda tontura de hipertenso tratado é excesso de anti-hipertensivo, e retirar remédio de quem não tinha hipotensão é uma forma silenciosa de desistir do tratamento.
Onde o erro machuca
O dano: No braço grosso, o manguito estreito superestima a pressão, e o paciente sai com um diagnóstico que não tem e com um comprimido que não precisava — para o resto da vida, porque ninguém revê diagnóstico de hipertensão. No braço fino, subestima, e um hipertenso de verdade fica sem tratamento por anos. O erro é sistemático: sempre para o mesmo lado, sempre no mesmo tipo de paciente.
Como pegar a tempo: Meça a circunferência do braço na primeira consulta e anote no prontuário qual manguito serve. A bolsa precisa de largura de pelo menos 40% da circunferência e comprimento de pelo menos 80% dela. Se a unidade só tem um tamanho, isso não é detalhe de almoxarifado — é um pedido formal à gestão, e vale escrever.
O dano: Os dois lados do mesmo erro machucam. Rotular hipertenso a partir de um valor colhido durante dor ou ansiedade cria um doente crônico do nada. E mandar embora com “volta em três meses” quem chegou com 190 por 120, ou com lesão de órgão-alvo documentada, é adiar por um trimestre um tratamento que a régua manda começar na hora.
Como pegar a tempo: Grave as três exceções que dispensam a segunda medida: 180 por 110 ou mais, lesão de órgão-alvo documentada, doença cardiovascular estabelecida. Fora delas, confirme em segunda ocasião. E, se a medida foi colhida durante dor, susto ou luto, escreva isso ao lado do número.
O dano: A queda abrupta e não titulável tira a pressão de perfusão de um cérebro e de um coração já adaptados a trabalhar alto, e o dano é isquêmico — acidente vascular cerebral, isquemia miocárdica, queda. O paciente não tinha nenhum sintoma antes; passa a ter, e por causa da conduta.
Como pegar a tempo: Pressão alta sem lesão aguda de órgão não é urgência para ser resolvida na sala: é diagnóstico para ser confirmado e tratado em semanas. Sente o paciente, repita a medida com técnica correta depois de repouso, e trate de acordo com o estágio. Se o serviço tem o hábito da cápsula sublingual, este é o hábito a quebrar.
O dano: O rótulo dispara duas cascatas caras. Uma é a escalada de dose e de classes num paciente que na verdade não usa nenhuma delas — e no dia em que ele resolve tomar tudo, tem hipotensão. A outra é a investigação de causa secundária, com fila, exame de referência e ansiedade, num paciente que precisava de um lembrete e de um esquema mais simples. Cerca de metade dos rotulados como resistentes na primeira avaliação são pseudorresistência.
Como pegar a tempo: Antes da palavra resistente, quatro checagens: técnica de medida, efeito do avental branco confirmado com medida fora do consultório, doses realmente otimizadas — e não a mesma receita de dois anos —, e adesão medida por evidência, contando comprimido ou conferindo a retirada na farmácia.
O dano: Uma queda discreta da filtração glomerular logo depois de introduzir bloqueio do sistema renina-angiotensina é esperada e costuma estabilizar. Suspender por reflexo tira do paciente exatamente a classe que reduz proteinúria e retarda a progressão da doença renal, e ele fica sem ela para sempre, porque o susto vira anotação de intolerância no prontuário.
Como pegar a tempo: Meça creatinina e potássio 1 a 2 semanas depois de iniciar ou aumentar. Alta discreta e estável se acompanha. O que exige ação é a piora expressiva ou progressiva — e ela, além de mandar suspender, levanta a suspeita de estenose de artéria renal, que é diagnóstico e não apenas efeito adverso.
O dano: A hipotensão ortostática é comum no idoso, no diabético e em quem usa anti-hipertensivo, e o desfecho dela não é um número ruim: é queda, fratura de fêmur e a cascata de perda funcional que vem depois. O paciente sai da consulta com a pressão sentada na meta e cai no banheiro à noite.
Como pegar a tempo: Meça deitado e depois em pé, com 1 e 3 minutos, em todo idoso e sempre que for aumentar dose. Sistólica que cai 20 mmHg, ou diastólica que cai 10 mmHg, muda a meta daquele paciente. E no idoso frágil existe uma faixa de conforto explícita no protocolo do Ministério, de 140 a 149 por 70 a 79 — usá-la não é desistir do tratamento.
O que dizer ao paciente e à família
A conversa da primeira consulta de hipertensão tem uma dificuldade que nenhuma outra tem: você vai pedir a uma pessoa que se sente perfeitamente bem que tome um comprimido todos os dias pelo resto da vida, para evitar uma coisa que ela não consegue imaginar. Se essa conversa não for bem feita, nada do resto do capítulo acontece.
Dizer o diagnóstico a quem não sente nada
““A sua pressão está alta — hoje, e também na medida de duas semanas atrás. Isso se chama hipertensão. Sei que a senhora não sente nada, e é assim mesmo: essa é uma doença que não dói. O problema dela não é o desconforto de hoje, é o que ela faz devagar no coração, no cérebro e no rim ao longo dos anos.””
Não diga: Dizer “a senhora está com pressão alta” e passar direto para a receita. E evitar o diminutivo: “uma pressãozinha alta” faz o paciente entender que é pequeno, e ele age de acordo.
Explicar por que o tratamento é para sempre — e o que isso não significa
““Não é um remédio para curar, é um remédio para controlar, como o óculos é para enxergar. Enquanto a senhora toma, a pressão fica boa; se parar, ela volta ao que era em poucos dias. Isso não quer dizer que a dose vai ser sempre essa: se a senhora perder peso e diminuir o sal, é bem possível que a gente reduza. O que não dá é para parar sozinha e descobrir depois.””
Não diga: Prometer que ela vai poder parar se emagrecer. Pode acontecer, e não se promete. Prometer o que não se controla é a forma mais rápida de perder a confiança na consulta seguinte.
Explicar por que ela não vai sentir diferença nenhuma tomando o remédio
““A senhora não vai se sentir melhor tomando isso, porque não estava se sentindo mal. Estou dizendo agora para a senhora não achar, daqui a um mês, que o remédio não está funcionando. Quem vai dizer se funcionou é o número da pressão, e não o que a senhora sente.””
Não diga: Deixar essa frase de fora. É a explicação que mais protege a adesão no primeiro mês, e a que mais se esquece de dar.
O paciente que quer tentar só a dieta primeiro
““Faz sentido, e mudança de hábito funciona de verdade: perder peso, tirar o sal e caminhar podem baixar a pressão tanto quanto um comprimido. A questão é o quanto a sua está alta. Com o valor que a gente mediu, esperar sem remédio deixaria o senhor exposto por meses. Minha proposta é começar os dois juntos e, se em alguns meses o peso e o sal responderem bem, a gente revê a dose.””
Não diga: Ceder sem prazo nem retorno marcado. E também evitar o oposto: tratar o pedido como teimosia. A preferência do paciente entra na decisão — o que não entra é a decisão sem data de reavaliação.
Pedir a medida em casa e o caderninho
““Quero que a senhora meça em casa, do jeito certo, e anote. Quatro a seis dias, três medidas de manhã antes do café e do remédio, e três à noite antes do jantar. Sentada, cinco minutos parada, sem falar. Traga o papel na próxima consulta. Esse número vale mais do que o que eu meço aqui, porque aqui a senhora está diante de um médico, e isso por si só sobe a pressão de muita gente.””
Não diga: Aceitar como resultado o número solto que o paciente traz de memória, ou o que a vizinha mediu no aparelho de pulso. Sem protocolo, a medida serve para levantar suspeita e não para decidir dose.
O paciente que parou porque a pressão normalizou
““A pressão normalizou porque o remédio estava fazendo efeito. É como tirar a mão de uma mola: enquanto a mão está lá, ela fica baixa; tirou, ela sobe de novo. O senhor não fez nada errado por não saber disso — quem tinha que ter explicado era a gente. Vamos recomeçar hoje e marcar retorno em um mês.””
Não diga: Repreender. O paciente que confessa que parou está te dando a informação mais valiosa da consulta, e quem é repreendido uma vez não confessa na próxima.
O medo de que o remédio estrague o rim, e a conversa sobre o sal sem moralismo
““Ouvi essa preocupação de muita gente. É o contrário: nesse grupo de remédios, a pressão alta sem tratamento é que estraga o rim, e o remédio protege. Vou pedir exames de sangue e de urina antes e algumas semanas depois, justamente para acompanhar isso — e vou te mostrar os resultados. Sobre o sal: não é para comer sem gosto. É trocar o tempero pronto e o embutido por alho, cebola, limão e cheiro-verde, e tirar o saleiro da mesa. A conta é uma colher de chá por dia, contando tudo.””
Não diga: Responder que “não faz mal” e mudar de assunto. E evitar a lista de proibições: dez alimentos proibidos ditos em trinta segundos não mudam a cozinha de ninguém — uma troca concreta muda.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Régua única e mais baixa: abaixo de 130 por 80 para todo hipertenso, qualquer que seja o risco
A diretriz das sociedades de cardiologia, hipertensão e nefrologia recomenda, com força forte e certeza alta, a meta abaixo de 130 por 80 mmHg para todos os pacientes com hipertensão, independentemente de o risco cardiovascular ser baixo, moderado ou alto — e a mesma meta para quem está na faixa de 130 a 139 por 80 a 89 com risco alto. A justificativa é a revisão sistemática com metanálise da própria sociedade e a leitura do estudo SPRINT, em que o braço intensivo alcançou média de 121,5 mmHg de sistólica contra 134,6 do braço padrão e teve menos eventos cardiovasculares e menos morte por qualquer causa em 3,26 anos. Para quem não tolerar, a regra é reduzir até o valor mais baixo tolerado — e o capítulo do idoso desta mesma diretriz mantém a meta abaixo de 130 por 80 para a grande maioria dos idosos hipertensos, reservando o “valor tolerado” ao idoso frágil, ao muito idoso e a quem tem a expectativa de vida comprometida.
Sociedade Brasileira de Cardiologia, Sociedade Brasileira de Hipertensão e Sociedade Brasileira de Nefrologia — Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025, Capítulo 5, itens 5.2 e 5.3; item 9.1.4.1 para o idoso; e quadro de recomendações do Capítulo 14
Régua em dois degraus: primeiro abaixo de 140 por 90, e só depois abaixo de 130 por 80 em quem tolerar e tiver menos de 65 anos
O protocolo do Ministério da Saúde afirma ser consenso entre a maioria das diretrizes que a meta inicial em consultório seja abaixo de 140 por 90, independentemente de comorbidade e de risco, e coloca a meta de 130 por 80 como segundo degrau — para quem tolerar bem o tratamento e tiver menos de 65 anos, especialmente com diabetes, doença renal crônica, doença coronariana ou acidente vascular prévio. Dos 65 aos 79 anos, manda reduzir inicialmente a sistólica para a faixa de 130 a 140, descer abaixo de 130 apenas se houver tolerância e nenhum sinal de hipoperfusão, e não empurrar ninguém abaixo de 120 por 70. Para o idoso frágil, dá uma faixa explícita de conforto: 140 a 149 de sistólica e 70 a 79 de diastólica.
Ministério da Saúde — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hipertensão Arterial Sistêmica, aprovado pela Portaria SECTICS/MS nº 49, de 23 de julho de 2025, item 10.a
As duas concordam que abaixo de 130 por 80 é melhor para quem chega lá sem preço. Discordam sobre quem paga esse preço. Decida por três coisas na frente do paciente. A primeira é a idade e a fragilidade: abaixo dos 65 anos, sem hipotensão ortostática e sem histórico de queda, a meta de 130 por 80 é defensável e provavelmente a certa; acima dos 75, institucionalizado ou já caindo em casa, a faixa de conforto do protocolo protege mais do que o número menor. A segunda é o custo de chegar lá: se a meta menor exige o terceiro ou o quarto comprimido em alguém que já esquece o segundo, você trocou risco cardiovascular de longo prazo por abandono de tratamento no mês que vem. A terceira é a reversibilidade do erro: errar para cima deixa o paciente exposto por anos e é silencioso; errar para baixo produz tontura, queda e fratura, que aparecem rápido e você reverte tirando dose. Escreva no prontuário a meta que você adotou. O pior desfecho não é uma régua ou a outra, é cada médico do posto usar a sua e o paciente ser intensificado numa consulta e desintensificado na seguinte.
Calculadora da Iniciativa HEARTS, por ter sido a mais bem calibrada em coorte brasileira
O protocolo do Ministério recomenda a calculadora da Iniciativa HEARTS, da Organização Pan-Americana da Saúde, com avaliação anual dos 40 aos 74 anos, hipertenso ou não. O argumento é de calibração: ao comparar o desempenho de escores internacionais em população brasileira, o Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto, a maior coorte de base comunitária do país, apontou essa ferramenta como a de melhor calibração para brasileiros. A calculadora funciona com ou sem colesterol total — sem laboratório, usa sexo, idade, tabagismo, sistólica, peso e altura —, o que a torna aplicável em unidade sem exame no dia.
Ministério da Saúde — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hipertensão Arterial Sistêmica, 2025, item 6
Escore PREVENT, por incluir função renal e metabolismo e estimar risco também em 30 anos
A diretriz das sociedades sugere o escore PREVENT, da American Heart Association, por ser o único que incorpora a síndrome cardiorrenal e metabólica: além de idade, sistólica, colesterol, tabagismo e diabetes, entram filtração glomerular estimada, relação albuminúria/creatininúria e hemoglobina glicada. Estima risco em 10 e em 30 anos dos 30 aos 79, o que identifica melhor o jovem de risco absoluto baixo e risco vitalício alto. O corte de risco alto é 20% em dez anos. A própria diretriz registra que faltam dados brasileiros nesse modelo e que o risco do nosso paciente pode estar subestimado, e oferece uma tabela de estágio contra fatores de risco para quem não tiver acesso à calculadora, admitindo que essa alternativa tem acurácia limitada e não validada.
Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025, itens 4.7 e 5.2 e Quadro 4.6
Isto só muda conduta em um lugar, mas muda muito: na faixa de 130 a 139 por 80 a 89, em que ser de risco alto é o que autoriza o medicamento. Acima de 140 por 90 o risco não decide se trata — decide o quanto você persegue a meta e o quanto investe em estatina e nos demais fatores. Na prática, três atalhos resolvem a maioria dos casos sem calculadora nenhuma, porque as duas réguas os aceitam: doença cardiovascular estabelecida, doença renal crônica e diabetes já colocam o paciente em risco alto ou muito alto, e o mesmo vale para lesão de órgão-alvo documentada. Se o paciente tem qualquer um desses, pare de calcular e trate. A calculadora serve para o paciente que não tem nenhum deles — e aí escolha a que a sua unidade consegue usar de fato, registre qual foi, e use a mesma no ano seguinte, porque risco medido com régua diferente a cada ano não mede tendência nenhuma.
A favor do comprimido único, pela adesão e pela velocidade de alcance da meta
A diretriz de 2025 recomenda, com força forte, a associação de medicamentos preferencialmente em comprimido único, com as classes preferenciais, para atingir metas rigorosas e reduzir eventos cardiovasculares e renais. O raciocínio é de adesão: esquemas menos complexos, com menos comprimidos e menos tomadas por dia, sustentam melhor o tratamento ao longo de anos — e adesão não é detalhe operacional. Um aumento de 20% na adesão foi associado a redução de 17% no risco relativo de acidente vascular cerebral e de 12% no de morte.
Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025, Capítulo 7, item 7.6.2, e Capítulo 13, itens 13.2 e 13.3
Contra a incorporação das combinações fixas avaliadas, por avaliação desfavorável da comissão nacional
As duas combinações fixas submetidas à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde receberam recomendação desfavorável e não foram incorporadas: benazepril com anlodipino, pela Portaria SECTICS/MS nº 31, e losartana com hidroclorotiazida, pela Portaria SECTICS/MS nº 32, ambas de 28 de junho de 2023. O próprio protocolo do Ministério de 2025 registra essas duas decisões e, por causa delas, recomenda a associação entre classes de forma individualizada — isto é, com os comprimidos separados que já existem no componente básico.
Ministério da Saúde — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hipertensão Arterial Sistêmica, 2025, item 10, subitem de definição do tratamento medicamentoso
Note que a discordância não é sobre farmacologia: ninguém discute que dois fármacos em dose baixa são melhores que um em dose cheia. É sobre a apresentação. Para o paciente que compra remédio, o comprimido único é uma opção real e vale a conversa sobre custo. Para o paciente que retira na unidade, ele não existe, e insistir nele é prescrever o que o paciente não vai conseguir. O que sobra é fazer com dois comprimidos o que o comprimido único faria sozinho: as duas drogas no mesmo horário, de manhã, presas a um gatilho que já existe na rotina dele — o café, a escovação, o remédio do diabetes. Escreva na receita o horário, e não apenas a frequência. E confira a retirada na farmácia antes de decidir que o esquema falhou, porque o que parece falha de esquema costuma ser falha de retirada.
O raciocínio, em voz alta
Volte a Sebastiana. 54 anos, merendeira, 84 kg e 1,58 m, pressão de 158 por 96 anotada na folha do acolhimento, sem sintoma, roncando à noite, mãe morta de acidente vascular cerebral aos 66 anos. Trinta e cinco minutos de intervalo antes de voltar para a escola.
o que penso ao olhar o número da folha
Penso que ainda não sei nada. O que tenho é uma medida, feita com pressa, sem registro de braço nem de manguito, numa mulher que subiu a rampa da unidade e sentou dois minutos antes. Sei que 158 por 96 seria estágio 1, mas o valor não é o problema agora — o problema é que ele não foi medido de um jeito que me deixe usá-lo. Vou repetir, e vou repetir direito.
o que faço antes de qualquer conduta
Peço que ela sente com as costas apoiadas, pés no chão, pernas descruzadas, e a deixo cinco minutos sem falar enquanto abro o prontuário. Meço a circunferência do braço: 33 cm, o manguito adulto comum serve. Meço nos dois braços: 154 por 94 à direita e 148 por 92 à esquerda. Fico com o direito. Duas medidas mais, com um minuto entre elas: 150 por 92 e 148 por 90. A média das duas últimas dá 149 por 91. É estágio 1, e agora é um número que eu posso usar.
o que a anamnese acrescenta que o número não dá
Ronco na maioria das noites, sono não reparador, sonolência de tarde — apneia obstrutiva do sono é uma possibilidade forte, e é ao mesmo tempo fator de risco e causa contribuinte. Índice de massa corporal de 33,6 kg/m², obesidade classe 1. História familiar de doença cardiovascular prematura? A mãe teve o derrame aos 66, então não conta como prematura pelo critério, que exige menos de 65 anos em mulheres. Não fuma. Álcool social. Nenhum medicamento que eleve pressão: a pomada do joelho é tópica, mas pergunto e ela conta que toma diclofenaco em comprimido “quando a dor aperta”, às vezes por semanas seguidas. Isso importa.
o que peço, e o que decido não pedir
Peço o painel de rotina: urina, relação albuminúria/creatininúria, potássio, creatinina com filtração estimada, glicemia e hemoglobina glicada, perfil lipídico, ácido úrico e eletrocardiograma. Não peço ecocardiograma, não peço Doppler de artérias renais, não dosou aldosterona nem renina: ela não tem nenhuma pista de causa secundária — começou depois dos 30 e antes dos 50, sem hipopotassemia conhecida, sem sopro abdominal, sem assimetria de pulsos, sem crise adrenérgica. A única pista que tenho é o ronco, e a conduta para o ronco não é laboratório: é perguntar melhor e, se a probabilidade se confirmar, encaminhar para polissonografia. Marco retorno em 12 dias, com nova medida.
como a resposta dos exames muda o que eu pensava
Volta assim: potássio 4,1; creatinina 0,9 com filtração estimada de 78; glicemia de jejum 118 e hemoglobina glicada 6,1%; colesterol total 232, HDL 42, triglicerídeos 190; ácido úrico 5,8; urina sem alterações. E dois achados que mudam o peso da consulta: relação albuminúria/creatininúria de 62 mg/g, e eletrocardiograma com soma da S de V1 com a R de V5 de 39 mm. Albuminúria acima de 30 mg/g é lesão de órgão-alvo. Índice de Sokolow-Lyon acima de 35 mm é lesão de órgão-alvo. Ela tem duas.
o que isso faz com o diagnóstico e com o risco
Faz três coisas de uma vez. Primeiro, o diagnóstico deixa de depender da segunda medida: lesão de órgão-alvo documentada fecha hipertensão na primeira consulta. Segundo, ela sai da faixa de risco baixo — com estágio 1 e lesão de órgão-alvo, ela é de risco alto, e isso vale nas duas tabelas brasileiras de estratificação. Terceiro, some a dúvida sobre avental branco: com lesão de órgão-alvo estabelecida, não estou mais tentando decidir se a pressão dela é real.
o que prescrevo, e o que digo
Estágio 1 com risco alto: começo com dois fármacos em dose baixa. Losartana potássica 50 mg pela manhã e besilato de anlodipino 5 mg pela manhã, os dois no mesmo horário, presos ao café. Suspendo o diclofenaco de uso intermitente e trato o joelho de outro jeito. Escrevo na receita, numerados, o sal de uma colher de chá por dia, a caminhada de 30 minutos cinco vezes por semana e a meta de perder peso. Peço monitorização residencial e explico o caderninho. Marco creatinina e potássio em duas semanas, e retorno em quatro. E digo a frase que protege o primeiro mês: que ela não vai se sentir diferente tomando o remédio, porque não estava se sentindo mal — e que quem vai dizer se funcionou é o número, não o corpo dela.
Faça você
Agora é Valdemar, 72 anos, aposentado da roça, mora sozinho desde que ficou viúvo. Vem ao ambulatório há três anos com diagnóstico de hipertensão. Usa hidroclorotiazida 25 mg pela manhã e enalapril 10 mg de 12 em 12 horas, retirados na farmácia da unidade — a última retirada foi há 27 dias, e a anterior há 30. A pressão de hoje, medida com técnica completa, média das duas últimas: 138 por 82. Ele conta que sentiu tontura duas vezes ao levantar da cama neste mês, e que quase caiu numa delas. Sem outros sintomas. Creatinina 1,1 com filtração estimada de 62, potássio 3,6, albuminúria de 24 mg/g, eletrocardiograma sem hipertrofia.
o que a pressão de hoje significa em cada uma das duas réguas
138 por 82 está abaixo de 140 por 90 e acima de 130 por 80. Pela régua do protocolo do Ministério, ele atingiu a meta inicial, e a meta de 130 por 80 é o segundo degrau, reservado a quem tolera e tem menos de 65 anos — ele tem 72. Pela régua da diretriz das sociedades, ele está fora da meta, que é abaixo de 130 por 80 para todo hipertenso. O mesmo paciente, o mesmo número, dois destinos de consulta.
o que a retirada na farmácia já respondeu
Retiradas com 27 e 30 dias de intervalo, para receitas mensais, indicam adesão alta — ele está tomando. Isso elimina de saída a hipótese que costuma explicar pressão fora de meta, e permite que a discussão seja realmente sobre dose e sobre alvo.
o que a tontura obriga a fazer antes de qualquer decisão
Duas tonturas ao levantar, com um quase-tombo, em paciente de 72 anos usando diurético e inibidor da enzima conversora, exigem a medida deitado e em pé, a 1 e a 3 minutos. Sem esse dado, qualquer decisão de subir ou descer dose é chute. E a mesma medida vale para o potássio de 3,6, que está no limite baixo e vem de um tiazídico.
o que a idade e a função renal acrescentam
Filtração glomerular estimada de 62 mL/min/1,73 m², sem albuminúria significativa, é limítrofe e pede acompanhamento, não intervenção. E a faixa etária dos 65 aos 79 tem, no protocolo do Ministério, uma orientação explícita: reduzir a sistólica inicialmente para a faixa de 130 a 140, e descer abaixo de 130 apenas se houver tolerância e nenhum sinal de hipoperfusão.
Ver como fecharíamos
A conduta é medir a pressão em pé antes de qualquer outra coisa. Se a sistólica cair 20 mmHg, ou a diastólica cair 10 mmHg, a hipotensão ortostática está documentada e ela — não a tabela de metas — passa a governar: nesse caso não se intensifica, e o passo seguinte é reduzir ou reorganizar o esquema, tipicamente diminuindo o tiazídico, que é também o responsável pelo potássio de 3,6. Se não houver ortostatismo, o paciente está numa faixa em que as duas réguas brasileiras discordam, e a decisão passa a ser individual: aos 72 anos, sem fragilidade, sem lesão de órgão-alvo e com adesão comprovada, buscar 130 por 80 é defensável, e o caminho é otimizar a dose do que ele já usa antes de acrescentar classe — o enalapril vai até 40 mg por dia. O que não se faz é acrescentar um terceiro fármaco a um paciente que teve dois episódios de tontura postural sem ter medido a pressão dele em pé. E, qualquer que seja a escolha, ela vai escrita no prontuário com o alvo definido, para que a consulta do mês que vem não recomece do zero.
Manguito estreito para um braço grosso exige mais pressão na bolsa para ocluir a artéria e superestima o valor. A bolsa precisa ter largura de pelo menos 40% da circunferência do braço e comprimento de pelo menos 80% dela; a bolsa de 12 por 23 cm serve para braços de 27 a 34 cm, e um braço de 42 cm pede o manguito de adulto grande. O erro é sistemático e recai justamente sobre o paciente obeso, que já tem alta probabilidade de ser hipertenso — trata-se de erro que cria diagnóstico. As tabelas de correção da pressão pelo perímetro do braço tiveram a validação questionada e não são reconhecidas pelas diretrizes atuais: o que corrige é trocar o manguito, não ajustar o número.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Demonstre a medida da pressão e explique como um erro de manguito, posição ou repouso pode mudar a classificação. Depois interprete uma situação de pressão elevada apenas no consultório e outra de medidas elevadas em casa. Consulte os cortes de MAPA e MRPA para conferir sua interpretação e diga quando a confirmação não deve atrasar o cuidado. Ao final, proponha uma primeira consulta que inclua risco, medicamentos em uso, contexto de vida e possibilidade de acompanhamento.
Em 30 dias
Simule duas consultas de retorno: uma pessoa permanece acima da meta e toma a medicação de modo irregular; outra atingiu a meta, mas tem tontura ao levantar. Justifique a decisão em cada caso antes de alterar a dose. Confira os exames necessários pelo medicamento usado e pelas condições clínicas, evitando solicitar um painel por reflexo. Registre meta individualizada, plano viável, sinais de retorno antecipado e data da próxima consulta; explique tudo em linguagem que o paciente consiga repetir.
Agora atenda
Agora atenda: mulher de 51 anos, auxiliar de limpeza, que chega à unidade básica para pegar o resultado de exames e tem pressão de 156 por 98 anotada no acolhimento. Não sente nada, tem pressa e quer saber se pode ir embora. Meça direito, decida se aquilo é diagnóstico, e diga a ela o que é preciso dizer.
