Clínica Médica › Cardiologia
Insuficiência cardíaca aguda descompensada
O paciente que chega congesto e não está afogando
Rohde LEP, Montera MW, Bocchi EA, Clausell NO, Albuquerque DC, Rassi S, et al. Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca Crônica e Aguda. Arq Bras Cardiol. 2018;111(3):436-539. DOI 10.5935/abc.20180190. Parte 2, itens 1 a 3: admissão, manejo da descompensação e plano de alta.
Marcondes-Braga FG, Moura LAZ, Issa VS, Vieira JL, Rohde LE, Simões MV, et al. Atualização de Tópicos Emergentes da Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca – 2021. Arq Bras Cardiol. 2021;116(6):1174-1212. DOI 10.36660/abc.20210367. Itens 6.4 e 7.3.
Albuquerque DC, Souza Neto JD, Bacal F, Rohde LEP, Bernardez-Pereira S, Berwanger O, et al; Investigadores Estudo BREATHE. I Registro Brasileiro de Insuficiência Cardíaca – Aspectos Clínicos, Qualidade Assistencial e Desfechos Hospitalares. Arq Bras Cardiol. 2015;104(6):433-442. DOI 10.5935/abc.20150031.
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais – RENAME 2024. Brasília: Ministério da Saúde; 2024. Componente Básico da Assistência Farmacêutica e Componente Especializado.
Bula profissional de furosemida, solução injetável a 10 mg/mL, da Blau Farmacêutica S/A. Modelo de bula para profissionais de saúde, RDC 47/09.
Furosemida comprimido 40 mg. Bula profissional. Geolab Indústria Farmacêutica S/A, versão V.04_12/2024, atualizada conforme Bula Padrão aprovada pela Anvisa em 6 de setembro de 2024. Comparada com a versão V.01_03/2022 do mesmo fabricante, alinhada à Bula Padrão de 29 de dezembro de 2021, e com a bula profissional de furosemida comprimido 40 mg da Hipolabor Farmacêutica Ltda.
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Homem de 66 anos com insuficiência cardíaca conhecida chega ao pronto-socorro andando, acompanhado da filha, com falta de ar que vem piorando há nove dias. Dorme com três travesseiros, contra dois há um mês, e ganhou 6 kg em três semanas na balança de casa. Fala frases inteiras. Pressão 122 por 78 mmHg, frequência cardíaca 96 bpm, frequência respiratória 24 irpm, saturação 93% em ar ambiente. Jugular ingurgitada a 45 graus, refluxo hepatojugular positivo, edema de tornozelos, mãos quentes, enchimento capilar normal. Ausculta pulmonar com raros estertores em bases. Ele vinha tomando furosemida 40 mg por via oral pela manhã. Qual é a conduta inicial correta?
O paciente que você vai ver
Quarta-feira, três e vinte da tarde, pronto-socorro clínico de um hospital geral de porte médio. Anastácio tem 66 anos, 74 quilos, foi cobrador de ônibus até a empresa acabar com a função, e chega andando, pela porta da frente, acompanhado da filha. Senta na cadeira antes que alguém peça, apoia as duas mãos nos joelhos e responde à triagem com frases inteiras. Saturação de 93% em ar ambiente, frequência respiratória de 24, pressão de 122 por 78, frequência cardíaca de 96. A pulseira que ele recebe é verde.
É importante dizer, já no primeiro parágrafo, o que este paciente não é. Ele não está sentado à força porque deitar o afoga; senta porque cansou de andar do estacionamento até a porta. Não tem estertoração em toda a extensão dos dois pulmões, não usa musculatura acessória, não está pálido e suado, e não precisa de decisão em dez minutos. O paciente que precisa é assunto do capítulo de edema agudo de pulmão, e a diferença entre os dois começa antes do exame: um se instalou em minutos, o outro vem se instalando há nove dias.
Nove dias é o número que a filha traz. Ela conta que o pai começou a acordar de madrugada com falta de ar por volta do fim do mês passado, que passou a dormir com dois travesseiros e depois com três, que o sapato parou de fechar e que a barriga cresceu. Ela sabe o peso porque a balança de banheiro é dela: 68 quilos há três semanas, 74 hoje. Anastácio confirma tudo com a cabeça e acrescenta uma frase que ele considera sem importância: para amarrar o sapato, precisa parar no meio e recuperar o fôlego.
Na maca ao lado, esperando radiografia, está um homem que também tem insuficiência cardíaca e também está internando por isso. A diferença entre os dois não é o diagnóstico. É que um está congesto com a pressão em 122 e as mãos quentes, e o outro está congesto com a pressão em 88 e as mãos frias — e o que se prescreve para cada um nas próximas seis horas é diferente em quase tudo. Reconhecer qual dos dois está na sua frente é a competência central deste capítulo.
A segunda competência é uma pergunta que quase ninguém faz. Anastácio tem insuficiência cardíaca há quatro anos e ficou estável esse tempo todo. Alguma coisa mudou nas últimas semanas, e essa coisa quase sempre existe, quase sempre tem nome e quase sempre não aparece no prontuário. Descobrir o que foi não é curiosidade acadêmica: se o gatilho continuar puxado, o tratamento da congestão fracassa e o paciente volta.
A terceira competência é decidir onde ele passa a noite. Nem todo mundo que chega assim precisa de leito. Uma parte considerável melhora em algumas horas, sai com a receita ajustada e o retorno marcado, e é isso que o serviço deveria estar organizado para oferecer. Outra parte precisa de leito e vai receber alta rápida demais. Este capítulo tenta instalar as três decisões: qual perfil, qual gatilho, e onde este paciente dorme.
Quem adoece disso
O retrato brasileiro da internação por insuficiência cardíaca cabe num único estudo. O registro BREATHE acompanhou 1.263 pacientes internados por descompensação em 51 centros públicos e privados das cinco regiões do país, entre fevereiro de 2011 e dezembro de 2012. A idade média foi de 64,1 anos, com desvio-padrão de 15,9, e 60% eram mulheres. Pouco mais da metade tinha disfunção sistólica do ventrículo esquerdo, o que significa que quase metade não tinha: a insuficiência cardíaca que interna no Brasil não é só a de fração de ejeção reduzida.
A mortalidade dessa internação foi de 12,6% — 157 mortes, das quais 17 nas primeiras 24 horas. Para comparar, o registro norte-americano que serve de referência no mesmo documento registrou cerca de 4%. A diferença é grande demais para caber inteira na gravidade dos pacientes, e o próprio registro brasileiro sugere onde parte dela mora: no que foi e no que não foi prescrito.
O achado que este capítulo existe para atacar está na tabela de causas de descompensação. Má aderência medicamentosa apareceu em 29,9% dos casos, infecção em 22,7%, aumento da ingestão de sódio e água em 8,9%, arritmia em 12,5%, doença valvar aguda em 6,6% e embolia pulmonar em 0,4%. E a categoria isoladamente maior de toda a tabela, com 32,4%, chama-se apenas outros. É a maior fatia do gráfico e a única sem nome. Um terço das descompensações brasileiras entrou no registro nacional sem causa nomeada — o que é, ao mesmo tempo, um problema de registro e um problema de prática, porque o fator que não recebe nome também não recebe tratamento.
Depois da alta, o risco não acaba: a diretriz brasileira estima que metade dos pacientes é readmitida em 90 dias, e que a maior parte dessas readmissões é precoce — 31,7% delas em 7 dias e 61% em 15. Aplicando essas frações à metade que readmite, cerca de 16 em cada 100 pessoas que recebem alta estão de volta dentro de uma semana, e cerca de 30 em cada 100 dentro de quinze dias. Não é coincidência que o mesmo documento descreva o período vulnerável pós-alta com readmissão de até 30% e mortalidade associada de 10%: os dois cálculos, feitos em seções diferentes, chegam ao mesmo lugar.
Há também um número que puxa para o outro lado, e ele muda o desenho do serviço. A diretriz estima que aproximadamente 77% dos pacientes chegam com perfil de risco baixo ou intermediário baixo, sem comorbidade cardiovascular descompensada; desses, cerca de metade poderia receber alta depois do atendimento, sem internar, e até 80% teriam alta em até 72 horas, se o serviço estivesse organizado em unidade observacional. Traduzido: perto de quatro em cada dez pessoas que chegam descompensadas talvez não precisem de leito — e a maioria vai ocupar um, por falta de um protocolo, não por gravidade.
Por que acontece o que acontece
Congestão e hipervolemia não são a mesma coisa, e confundir as duas é a origem de metade dos erros de prescrição neste cenário. Congestão quer dizer pressão de enchimento elevada — sangue represado atrás de um ventrículo que não consegue esvaziar bem. Hipervolemia quer dizer água a mais no corpo inteiro. É perfeitamente possível ter a primeira sem a segunda, e o paciente que tem só a primeira não precisa perder litros: precisa que o volume que ele tem volte a caber onde cabia.
A diretriz brasileira separa dois modos de a insuficiência cardíaca aguda se instalar, e a separação é fisiopatológica antes de ser cronológica. No paciente sem história prévia de insuficiência cardíaca, o mecanismo dominante é aumento súbito da pós-carga ou perda aguda de contração; a volemia total não muda, ela se redistribui da periferia para o pulmão, os sintomas aparecem em horas, a pressão sistólica costuma estar alta e não há ganho de peso nem edema de membros. No paciente com insuficiência cardíaca conhecida, o mecanismo dominante é retenção de água e de sódio: a volemia total aumenta de verdade, os sintomas se instalam em dias, há ganho de peso e há edema. O primeiro é o quadro do capítulo de edema agudo de pulmão. O segundo é o deste capítulo, e a diretriz o descreve como o mais frequente dos dois.
Por que dias e não minutos. O ventrículo que falha esvazia menos, a pressão dentro dele sobe no fim da diástole e essa pressão se transmite para trás — átrio, veias pulmonares, capilar. Enquanto isso, o rim lê o débito cardíaco baixo como se fosse perda de volume e responde retendo sódio e água, ativando o eixo renina-angiotensina-aldosterona e a vasoconstrição simpática. A retenção aumenta o volume, o volume aumenta a pressão de enchimento, a pressão piora a função ventricular. Cada volta desse ciclo leva horas, não segundos, e por isso o paciente demora dias para chegar ao pronto-socorro e demora dias para sair.
Uma parte grande do volume que descompensa não está em lugar nenhum visível: está no leito venoso esplâncnico, o reservatório abdominal que guarda sangue e o devolve à circulação central quando a veia se contrai. Estímulo simpático — dor, ansiedade, esforço, uma noite mal dormida, uma infecção — contrai esse reservatório e joga volume para o tórax sem que uma gota tenha entrado no corpo. É por isso que um paciente pode descompensar em um fim de semana sem ter comido sal a mais, e é por isso que sentar o paciente e acalmá-lo tem efeito hemodinâmico real, não só psicológico.
A congestão não fica no pulmão. A pressão venosa elevada se transmite para a veia renal, e um rim que precisa filtrar contra uma pressão de saída alta filtra menos — independentemente do fluxo que chega nele. É esse o mecanismo dominante da piora da função renal na insuficiência cardíaca descompensada: a diretriz brasileira aponta a pressão venosa central, associada ou não a baixo fluxo, como determinante mais importante da síndrome cardiorrenal, que coexiste com a insuficiência cardíaca aguda em até 40% dos pacientes. Guarde isso, porque é a base da decisão mais contraintuitiva do capítulo: em boa parte dos casos, a creatinina que sobe no meio do tratamento sobe porque o paciente ainda está congesto, e não porque foi seco demais.
O diurético de alça age de dentro do túbulo, e não do sangue. Ele é secretado no túbulo proximal e só funciona quando a concentração dele na luz tubular ultrapassa um limiar; abaixo desse limiar, nada acontece. A bula do produto descreve essa relação como uma curva sigmoide, com taxa mínima efetiva de excreção urinária em torno de 10 microgramas por minuto — o que tem duas consequências práticas. A primeira é que dose insuficiente não produz meia resposta: produz nenhuma. A segunda é que, uma vez ultrapassado o platô da curva, aumentar mais a dose de um bólus isolado não aumenta significativamente o efeito, e o que rende é aumentar a frequência.
Depois que a furosemida é eliminada, o néfron faz o contrário do que fez. No intervalo entre uma dose e a seguinte, com a droga já abaixo do limiar, o túbulo reabsorve sódio com voracidade aumentada — o fenômeno de retenção pós-diurética, ou efeito de freio. Numa dose única diária, o rim tem entre 18 e 20 horas para desfazer o que a diurese fez em quatro. É a explicação farmacológica de por que um paciente congesto em furosemida uma vez ao dia pode não descongestar nunca, e de por que a diretriz prescreve, na fase aguda, intervalos de 4 em 4 ou de 6 em 6 horas em vez de dose única.
Por fim, o motivo de a dose ter de subir com o tempo: o uso crônico de diurético de alça hipertrofia as células do túbulo distal, que passam a reabsorver mais sódio para compensar o que a alça perdeu. Quem toma furosemida há anos tem um néfron remodelado, e por isso responde menos à mesma dose — é a resistência ao diurético que a diretriz lista, junto com hiponatremia, hipotensão, hipoalbuminemia, baixo débito e insuficiência renal. O antídoto farmacológico dessa adaptação específica é bloquear o segmento que se hipertrofiou, e é isso que o tiazídico associado faz.

Como se apresenta de verdade
A apresentação deste paciente se lê em duas camadas superpostas. A primeira é a congestão: quanta, onde, e há quanto tempo. A segunda é a perfusão: se o que sai do coração ainda basta. As duas camadas juntas dão os quatro perfis que organizam todo o resto do capítulo — e nenhuma delas se lê num exame de sangue.
A congestão que se conta: a história vale mais do que o estetoscópio
Pergunte pelo travesseiro, não pela ortopneia. Quantos travesseiros o senhor usa para dormir? Aumentou? Quando? A resposta datada — dois travesseiros até o mês passado, três desde a semana retrasada — é um dado hemodinâmico com data, e vale mais do que qualquer adjetivo. Na mesma linha, pergunte se ele acorda à noite com falta de ar e precisa sentar ou ir até a janela: a dispneia paroxística noturna é o sintoma mais específico de pressão de enchimento elevada que a anamnese oferece.
Pergunte pelo peso com um número e uma data. Insuficiência cardíaca descompensada por acúmulo de volume ganha peso antes de ganhar sintoma, e o ganho costuma preceder a internação em dias a semanas. Se não há balança em casa — o que é a regra —, use o proxy do vestuário e do corpo: o sapato que não fecha, o cinto que mudou de furo, o anel que não sai, a marca da meia que ficou, a calça que apertou na cintura sem ter apertado na coxa. Cada um desses é um número disfarçado de história.
Pergunte pela bendopneia, que é a falta de ar que aparece ao inclinar o tronco para a frente — para amarrar o sapato, para calçar a meia, para pegar algo no chão. O paciente raramente traz esse sintoma espontaneamente, porque ele o atribui à idade ou à barriga. Ao inclinar-se, o retorno venoso abdominal aumenta e a pressão de enchimento sobe ainda mais num ventrículo que já não tem folga; o sintoma aparece em segundos e passa ao endireitar. Quando existe, é congestão.
E pergunte o que mudou. A insuficiência cardíaca crônica agudizada, por definição, estava compensada antes. A pergunta certa não é o senhor tem falta de ar, é desde quando isso está diferente e o que aconteceu por volta dessa data. A resposta costuma ser o gatilho, e o gatilho costuma estar no bloco de investigação deste capítulo.
A congestão que se vê: jugular, fígado e o que a ausculta não entrega
A turgência jugular a 45 graus é o sinal físico mais diretamente ligado à pressão que interessa, e é o que mais se deixa de examinar por pressa. Com o paciente a 45 graus, cabeça levemente rodada para o lado oposto, luz tangencial, procure a coluna pulsátil na jugular interna — não a externa, que é mais visível e menos confiável. O que se busca não é uma veia saliente, é o ponto mais alto da oscilação.
Quando a jugular não é vista, faça o refluxo hepatojugular: pressão firme e sustentada no quadrante superior direito por cerca de meio minuto, com o paciente respirando normalmente e sem prender o ar. Se o nível da coluna sobe e permanece alto enquanto a pressão é mantida, o teste é positivo. Ele é útil justamente no paciente em que a jugular basal é difícil de ver, e é um dos critérios maiores de Framingham — cuja tabela completa, com a régua diagnóstica, pertence ao capítulo da doença crônica desta apostila, e não a este.
Os estertores pulmonares crepitantes são o sinal em que se confia demais. A radiografia normal não afasta congestão, e a ausculta limpa também não: no paciente com insuficiência cardíaca crônica, a drenagem linfática pulmonar se adapta ao longo de meses e escoa água que, num pulmão virgem, borbulharia. É rotina encontrar paciente com pressão de enchimento francamente elevada, jugular ingurgitada, fígado congesto e ausculta pulmonar quase limpa. Crepitação presente ajuda; crepitação ausente não afasta nada.
Complete a leitura na periferia e no abdome. O edema de membros inferiores é bilateral, gravitacional e migra com a posição — no acamado, procure na região sacral, não no tornozelo. O fígado congesto é palpável, liso e doloroso à compressão, e a dor no hipocôndrio direito é queixa frequente e frequentemente atribuída a outra coisa. Ascite e derrame pleural, quando aparecem, dizem que a congestão é antiga.
A perfusão: os sinais de que o débito não basta mais
Baixo débito não é sinônimo de hipotensão, e essa é a confusão que mais atrasa a reclassificação de um paciente. A diretriz brasileira lista, entre os sinais e sintomas de baixo débito, a sistólica abaixo de 90 mmHg — e também, para quem já era hipertenso, qualquer sistólica abaixo de 110 mmHg, número que pareceria normal em outra ficha. Um paciente que vivia em 160 e chega em 105 caiu um terço da própria pressão habitual.
Os sinais de mão são os mais rápidos e os mais subestimados. Encoste o dorso da sua mão no antebraço e depois no dorso da mão do paciente, procurando o ponto em que a temperatura muda: quanto mais proximal esse ponto, pior a perfusão. Some enchimento capilar lento, sudorese fria e livedo. Fadiga desproporcional à dispneia, sonolência, desorientação nova e lentidão de raciocínio são o mesmo sinal expresso no cérebro — e no idoso costumam ser lidos como demência ou como delirium sem causa.
A pressão de pulso proporcional é o cálculo de beira de leito que separa congestão quente de congestão fria quando a pressão sistólica ainda parece aceitável. Calcula-se subtraindo a diastólica da sistólica, dividindo pela sistólica e multiplicando por cem; abaixo de 25% o achado sugere débito baixo. Num paciente com pressão de 130 por 105, a conta dá 19,2% — débito provavelmente baixo, com uma sistólica que ninguém chamaria de hipotensão. É exatamente esse paciente que se perde quando se olha só o primeiro número.
Vale registrar que a acurácia do exame clínico para essa classificação é limitada: a própria diretriz estima algo em torno de 50% na comparação com monitorização hemodinâmica, e menor ainda justamente nos pacientes com baixo débito. Isso não é motivo para abandonar o exame — é motivo para repeti-lo, anotar o que foi encontrado e reclassificar quando os números da resposta ao tratamento contradisserem a impressão inicial.
Os quatro perfis, e o que cada um já decide antes da prescrição
Cruzando congestão com perfusão saem quatro caixas. Quente e congesto: congestão presente, perfusão preservada — é o perfil mais frequente na admissão brasileira, com 67,4% dos pacientes no registro nacional, e é o de melhor prognóstico. Frio e congesto: congestão com baixo débito, 17,8% na admissão, e o pior prognóstico entre os quatro. Frio e seco: 5,2%, paciente hipoperfundido sem congestão, em que a primeira pergunta é se ele foi seco demais. Quente e seco: 9,6%, o paciente que está compensado e cujo sintoma provavelmente tem outra causa.
A soma dessas quatro frações fecha em exatamente 100%, o que confirma que a classificação foi aplicada como partição — todo paciente entrou em uma e só uma caixa. É uma checagem boba de fazer e vale fazer sempre: tabela de perfis que não fecha em 100% está classificando o mesmo paciente duas vezes.
A caixa decide antes de a prescrição existir. Quente e congesto autoriza diurético endovenoso em dose cheia e tolera bem os fármacos orais. Frio e congesto pede que se pense em perfusão antes de pensar em volume, porque hipotensão é, ela própria, causa de resistência ao diurético — e é aqui que se telefona pedindo ajuda. Frio e seco pede volume, não diurético. Quente e seco pede que se reconsidere o diagnóstico.
Uma advertência de nomenclatura: os dois documentos brasileiros usam palavras diferentes para a mesma caixa. A diretriz escreve quente-congesto e frio-congesto; o registro nacional escreve quente-úmido e frio-úmido. São sinônimos, e a caixa é a mesma.
As apresentações que não parecem congestão
A insuficiência cardíaca direita predominante chega sem dispneia. O paciente traz edema, ganho de peso, distensão abdominal, saciedade precoce, náusea e dor em hipocôndrio direito, com pulmão limpo e sem ortopneia — e passa por hepatopatia, por síndrome nefrótica ou por má digestão até que alguém olhe a jugular. Anasarca com jugular ingurgitada é insuficiência cardíaca até prova em contrário.
No obeso, os sinais físicos falham em bloco: a jugular não se vê no pescoço curto, o edema de membros já existia, a ausculta é abafada e o peso oscila por outras razões. Aqui a história datada e os exames de imagem à beira do leito valem mais do que a inspeção. No paciente com doença pulmonar obstrutiva crônica, o problema é o inverso: a dispneia tem dono conhecido, e a congestão entra por baixo dela sem ser notada.
No idoso, a apresentação pode ser inteiramente atípica — queda, confusão nova, recusa alimentar, prostração, ou simplesmente parou de fazer o que fazia. A insuficiência cardíaca é um dos diagnósticos que se perde por não gerar a queixa que o médico está esperando ouvir.
Por fim, o paciente que já vem descongestionado por conta própria: aumentou o diurético sozinho, ou o serviço anterior deu duas ampolas e mandou para casa. Ele chega com sintomas melhores, ureia alta, sódio baixo e sede — e o erro é continuar tratando o quadro da semana passada.
O que este capítulo não trata, e para onde vai cada coisa
O paciente que chega afogado — sentado à força, incapaz de completar uma frase, com estertoração difusa, sudorese fria e necessidade de decisão em minutos — é o do capítulo de edema agudo de pulmão desta apostila, onde estão o suporte com pressão positiva não invasiva, os vasodilatadores endovenosos e a régua da pressão da primeira hora. Se o seu paciente está nesse estado, pare de ler este capítulo e vá para aquele.
As quatro classes que mudam a mortalidade quando a fração de ejeção é reduzida — dose inicial, passo de titulação, dose-alvo e o caminho administrativo de cada uma dentro do SUS — pertencem ao capítulo dedicado à doença crônica, o segundo desta apostila. Aqui não se titula: aqui se decide o que manter, o que reduzir pela metade e o que suspender enquanto o paciente está descompensado — e quando recomeçar.
A investigação e a classificação da injúria renal aguda em pré-renal, renal e pós-renal são do capítulo de nefrologia. Deste capítulo é apenas uma decisão, e ela é estreita: manter ou não o diurético diante de uma creatinina que subiu durante a descongestão.
Os gatilhos têm capítulo próprio quando são o problema principal. Fibrilação atrial de alta resposta, síndrome coronariana com e sem supradesnível de ST, crise hipertensiva, endocardite infecciosa, valvopatia aguda, pneumonia, sepse e distúrbio do potássio estão cada um no seu lugar nesta apostila. Deste capítulo é a obrigação de procurá-los todos, nomear o que foi encontrado e escrever isso no prontuário.
Como fechar o diagnóstico
A investigação deste paciente tem três alvos simultâneos e um relógio. Os alvos são confirmar que a dispneia é cardíaca, dizer em que perfil ele está e nomear o que o descompensou. O relógio da diretriz brasileira é de 60 a 120 minutos entre a chegada e a definição do perfil clínico-hemodinâmico, do perfil de risco e do fator descompensador — a mesma janela em que a primeira dose de diurético já deve ter sido dada.
Nada disso pede exame caro. O que pede é ordem: colher tudo na mesma punção, pedir o eletrocardiograma antes da radiografia, e não deixar a investigação do gatilho para depois da prescrição, porque depois da prescrição ela não acontece.
O que se colhe na primeira punção
A diretriz brasileira lista, para a admissão do paciente com insuficiência cardíaca aguda: ureia e creatinina; sódio, potássio e magnésio; glicemia; hemograma completo; coagulograma; proteína C-reativa; proteínas totais e frações; transaminases e bilirrubinas; hormônio estimulante da tireoide em quem tem mais de 60 anos ou suspeita de doença tireoidiana; troponina quando há suspeita de doença coronariana, miocardite ou Takotsubo; e gasometria venosa com lactato.
Vale entender por que cada item incomum está ali, porque isso muda o que você faz com o resultado. Proteínas totais e frações entram por causa da albumina: hipoalbuminemia é um dos fatores de resistência à furosemida listados pela própria diretriz, e uma albumina baixa explica uma diurese que não vem. Transaminases e bilirrubinas entram porque o fígado congesto de longa data altera prova hepática, e porque uma elevação abrupta de transaminases num paciente hipotenso é hepatite isquêmica, que reclassifica o perfil para frio na hora. Hormônio tireoidiano entra porque tireotoxicopatia é fator de descompensação nomeado, e hipotireoidismo é comorbidade frequente.
Lactato e gasometria fazem o mesmo trabalho que as mãos frias, com um número. Lactato elevado consta entre os sinais de baixo débito da diretriz e entre os marcadores de alto risco admissional. É um exame que o serviço mais simples costuma ter e que raramente é pedido nesse cenário — e que resolve, com um valor, a dúvida entre quente e frio quando o exame das extremidades ficou ambíguo.
Sobre a coleta em si: colha antes de dar a primeira dose de furosemida sempre que isso não custar mais do que alguns minutos. Sódio, potássio, ureia e creatinina medidos depois de duas ampolas medem o efeito da droga, não o estado do paciente — e a partir daí você perdeu a base contra a qual comparar tudo o que vem depois.
Peptídeos natriuréticos: três faixas, e as situações em que eles mentem
A diretriz brasileira organiza o peptídeo natriurético em três faixas. Abaixo de 100 pg/mL de BNP, ou abaixo de 300 pg/mL de NT-proBNP, o valor tem alta sensibilidade para afastar insuficiência cardíaca aguda — é o uso mais forte do exame. Entre 100 e 500 de BNP, ou entre 300 e 900 de NT-proBNP, o valor é intermediário e exige correlação clínica. Acima de 500 de BNP, ou de 900 de NT-proBNP, o achado indica fortemente insuficiência cardíaca aguda.
O exame vale a pena quando existe dúvida diagnóstica, e a dúvida é a situação típica deste capítulo: o paciente com doença pulmonar obstrutiva crônica e insuficiência cardíaca que chega dispneico, e em que a pergunta é qual das duas descompensou. É diferente do paciente afogado, em que a postura e a estertoração já responderam — ali o marcador consome tempo e dinheiro sem mudar conduta, e o capítulo de edema agudo de pulmão diz isso com todas as letras.
O exame mente para baixo em quadros de instalação muito rápida, quando o peptídeo ainda não teve tempo de subir — a diretriz cita o edema agudo em flush, a insuficiência mitral aguda e o cor pulmonale agudo. Mente para cima na idade avançada, na fibrilação atrial, na insuficiência renal, na embolia pulmonar e na sepse. E tem uma armadilha específica: no paciente em uso de sacubitril-valsartana, a inibição da neprilisina eleva o BNP sem elevar o NT-proBNP, de modo que nesse paciente o exame a pedir é o NT-proBNP.
Uma advertência prática para o Brasil: no serviço que não tem o exame, a ausência dele não impede nada. O diagnóstico de insuficiência cardíaca aguda é clínico, e a própria diretriz registra que os achados clínicos agrupados pelos critérios de Framingham alcançam acurácia diagnóstica em torno de 75%. O peptídeo aumenta a certeza; ele não é pré-requisito para tratar.
Eletrocardiograma e radiografia: uma pergunta cada
O eletrocardiograma responde a uma pergunta antes de qualquer outra: o ritmo é a causa? Fibrilação atrial de alta resposta é fator de descompensação em 12,5% dos casos do registro brasileiro, e é o gatilho que se trata desfazendo-o, não secando o paciente. A segunda pergunta é se há isquemia aguda. Supradesnivelamento de ST tira o caso das mãos deste capítulo: o roteiro passa a ser o da síndrome coronariana aguda com supra, e o relógio passa a ser o dela. A terceira é bradiarritmia ou bloqueio avançado, que também descompensa e também não se trata com furosemida.
Eletrocardiograma inteiramente normal é incomum neste cenário — a diretriz estima algo próximo de 13% — e praticamente afasta doença miocárdica crônica. É um dos poucos exames em que o resultado normal é informação forte.
A radiografia de tórax responde a outra coisa: existe uma explicação torácica alternativa para essa dispneia? Pneumonia, derrame volumoso, pneumotórax, massa. A congestão que ela mostra é bem-vinda, mas a ausência dela não vale como argumento — em insuficiência cardíaca crônica agudizada a radiografia pode estar limpa com o paciente francamente congesto.
Um detalhe de execução que a diretriz registra e que o serviço costuma inverter: no paciente de baixo risco, a radiografia se faz no gabinete, em posteroanterior e perfil, porque a incidência decúbito distorce a área cardíaca e mascara derrame; no paciente instável, faz-se no leito e aceita-se a distorção. Decidir isso antes evita mandar para o raio-X quem não deveria sair da maca.
Ecocardiograma e ultrassom à beira do leito
A régua da diretriz é objetiva: ecocardiograma transtorácico em todos os pacientes dentro das primeiras 48 horas da admissão, com prioridade para quem tem choque cardiogênico ou insuficiência cardíaca aguda nova. Ele define a etiologia, quantifica a disfunção, avalia a congestão e procura fator mecânico — e é o exame que diz se você está diante de fração de ejeção reduzida ou preservada, o que muda tudo o que vem depois da alta.
O ultrassom de tórax é outra coisa e serve a outro momento. Ele pode ser feito por não especialista em ecocardiografia, tem boa acurácia para detectar congestão pulmonar e sistêmica e, por ser portátil, pode ser repetido — o que o torna instrumento de monitorização da resposta, e não só de diagnóstico. A diretriz é explícita em que ele não substitui o ecocardiograma transtorácico.
O ganho concreto de acrescentar imagem à beira do leito está na classificação de perfil. Como o exame clínico isolado acerta em torno de metade das vezes, e erra mais justamente no paciente de baixo débito, a combinação de avaliação clínica com ultrassom melhora significativamente a definição do modelo clínico-hemodinâmico — que é a informação que decide a prescrição.
O cateter de artéria pulmonar tem lugar definido e estreito: está indicado quando há instabilidade hemodinâmica sem definição da condição volêmica ou do débito, ou na avaliação para transplante e suporte circulatório. Uso de rotina para definir perfil ou guiar terapia na insuficiência cardíaca aguda é recomendação classe III — ou seja, não fazer.
Ureia, creatinina e a conta que decide onde este paciente dorme
O escore de risco mais validado citado pela diretriz brasileira para mortalidade intra-hospitalar na insuficiência cardíaca aguda usa três variáveis apenas: ureia, pressão sistólica e creatinina. Ele separa cinco faixas, do risco baixo, com mortalidade de 2,14%, ao alto, com 21,9% — uma variação de mais de dez vezes obtida com três números que qualquer serviço tem.
E aqui mora a armadilha mais consequente deste capítulo. O escore original é construído sobre BUN, o nitrogênio ureico do sangue, com corte em 43 mg/dL. O laboratório brasileiro não reporta BUN: reporta ureia. E ureia e BUN não são o mesmo número — a molécula de ureia pesa 60,06 g/mol e carrega 28,01 g/mol de nitrogênio, de modo que ureia em mg/dL equivale a BUN multiplicado por 2,144. Um BUN de 43 mg/dL corresponde a 92 mg/dL de ureia.
Aplicar o corte de 43 diretamente a um resultado de ureia brasileiro classifica como alto risco quase todo mundo. Uma ureia de 60 mg/dL, que é elevação modesta, corresponde a um BUN de 28 — bem abaixo do corte. Uma ureia de 92 é que corresponde ao corte. O documento brasileiro, ao apresentar o escore, glosa a sigla como se as duas coisas fossem a mesma; mas em outra tabela do mesmo capítulo, ao listar os indicadores de baixo risco, ele escreve ureia abaixo de 92 mg/dL — que é exatamente o 43 convertido. A conversão foi feita num lugar do documento e não no outro. Use sempre o número de 92 quando o exame na sua mão disser ureia.
A creatinina entra no escore para separar as duas faixas mais graves, com corte na casa de 2,7. Vale notar que a mesma seção da diretriz usa outro corte de creatinina, de 2,0 mg/dL, na tabela de indicadores clínicos de baixo risco. São duas réguas distintas para a mesma variável dentro do mesmo capítulo, e a razão é legítima — uma vem de um escore estatístico, a outra de um consenso clínico —, mas o leitor precisa saber qual está usando. Neste capítulo, a régua de decidir internação é a do escore; a de 2,0 entra como sinal de alerta, não como corte.
A caça ao gatilho: sete perguntas, feitas sempre
Cerca de metade dos pacientes tem um fator clínico identificável responsável pela descompensação, diz a diretriz — e às vezes o quadro predominante é do fator, não da insuficiência cardíaca. A consequência é dura, e a diretriz a escreve: quando o fator descompensador persiste, o quadro pode se tornar refratário ao tratamento. Procurar o gatilho não é elegância diagnóstica, é condição de eficácia.
Pergunta um, os remédios. Não pergunte se ele toma direito — ninguém responde não. Peça as caixas, conte os comprimidos que sobraram, pergunte quando acabou o último, e pergunte quanto custou a última retirada na farmácia. Má aderência medicamentosa foi a causa nomeada mais frequente no registro brasileiro, com 29,9%, e o registro é explícito em que aderência não é responsabilidade exclusiva do paciente: no mesmo estudo, apenas parte dos internados havia recebido orientação de alta sobre como tomar a medicação.
Pergunta dois, remédio novo. Anti-inflamatório não esteroide de farmácia, corticoide para dor nas costas, glitazona, bloqueador de canal de cálcio não di-hidropiridínico, antiarrítmico. A diretriz classifica como classe III — não fazer — o uso de medicamentos que retêm sal e água ou que deprimem a contração em portadores de insuficiência cardíaca, especialmente durante a descompensação. Pergunte por nome comercial e por aparência do comprimido, não por classe.
Pergunta três, infecção. Foi 22,7% no registro brasileiro. Febre pode faltar no idoso e em quem tomou dipirona antes de vir. Procure foco urinário, pulmonar, cutâneo e dentário, e lembre que a insuficiência cardíaca descompensada com infecção pode ser sepse, que tem capítulo próprio nesta apostila.
Pergunta quatro, ritmo. Fibrilação atrial ou flutter de alta resposta, taquicardia sustentada, bradicardia importante, marca-passo em modo inadequado. Isso se responde no monitor e no eletrocardiograma, e responde-se em minutos.
Pergunta cinco, isquemia. Dor torácica, equivalente anginoso, alteração nova no traçado, troponina. A etiologia isquêmica respondeu por cerca de 30% dos casos do registro brasileiro, e é aquela em que o gatilho tem tratamento com hora marcada.
Pergunta seis, sal e água. Foi 8,9% no registro — número que provavelmente subestima, porque depende de o paciente admitir. Pergunte pelo que mudou: festa, viagem, mudança de casa, alguém novo cozinhando, comida industrializada porque a cuidadora saiu de férias. Pergunte também pelo excesso de líquido, que é o erro mais comum de quem se acha bem orientado.
Pergunta sete, o resto. Anemia, disfunção tireoidiana, embolia pulmonar, álcool, valvopatia agudizada, endocardite, gestação, crise hipertensiva não controlada. E, quando nada aparecer, escreva que nada apareceu: fator descompensador não identificado é uma conclusão legítima, registrada, que orienta quem receber o paciente amanhã. É melhor do que a linha em branco que produziu, no registro nacional, a maior fatia da tabela de causas.
Quatro decisões, e os números que cada uma exige
Aqui o foco é a trajetória da internação: reconhecer congestão e perfusão, tratar o precipitante, acompanhar a resposta e preparar a alta. O capítulo de Edema agudo de pulmão aprofunda o suporte respiratório inicial; o de Insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida organiza o tratamento longitudinal depois da estabilização. Este paciente obriga a quatro decisões, e nenhuma delas depende de exame que o seu serviço não tenha. Em que perfil ele está; qual gatilho puxou; que dose de diurético, por qual via e em que intervalo; e onde ele passa a noite. A quarta é a que mais muda o desfecho e a que menos se discute na visita. As contas abaixo foram refeitas comprimido a comprimido e ampola a ampola contra a apresentação registrada no elenco nacional, num adulto de 74 quilos — e as divergências encontradas dentro dos próprios documentos oficiais estão nas notas ao final.
- 1Classifique o perfil antes de prescrever, e escreva a classificação no prontuário com as palavras congesto ou seco e quente ou frio. Não é formalidade: é o que autoriza e o que proíbe cada linha da prescrição seguinte.
- 2Meça a pressão e cheque as extremidades no mesmo minuto. Sistólica acima de 110 mmHg com mãos quentes é o cenário confortável. Entre 90 e 110 mmHg, ou com mãos frias e enchimento capilar lento, o paciente é frio até prova em contrário — e a prova é o lactato.
- 3Pese o paciente na admissão, na balança, com o mesmo avental que ele usará amanhã, e escreva o número. Sem peso de entrada não existe alvo de descongestão nem alta segura, e essa é a medida que mais se deixa de fazer.
- 4Colha sangue antes da primeira dose de furosemida sempre que isso não custar mais que alguns minutos: sódio, potássio, magnésio, ureia, creatinina, hemograma, glicemia, albumina, transaminases, bilirrubinas e lactato.
- 5Dê a primeira dose de furosemida por via endovenosa, não oral. No paciente congesto, a parede intestinal está edemaciada e a absorção do comprimido é errática — a via oral funciona bem em quem está seco e mal em quem está molhado, que é justamente quem precisa dela.
- 6Calcule a dose a partir da dose oral que ele já tomava, e não a partir de uma dose padrão. Quem não usava diurético começa com 20 a 40 mg; quem usava recebe, no mínimo, o equivalente ao que tomava em casa — e nunca menos.
- 7Prescreva o intervalo junto com a dose. Na fase aguda o esquema é de 4 em 4 ou de 6 em 6 horas, e não uma vez ao dia: o efeito de freio do túbulo desfaz, no intervalo longo, o que a diurese fez.
- 8Procure o gatilho enquanto o diurético corre, com as sete perguntas do bloco anterior, e escreva no prontuário o que encontrou — ou que não encontrou nada.
- 9Decida o que fazer com os fármacos orais que ele já tomava, um por um, com a régua da tabela: manter, reduzir pela metade ou suspender. Suspender por reflexo é erro tão grande quanto manter por inércia.
- 10Meça a resposta em números às 2 e às 6 horas — débito urinário, peso e, se houver o exame, sódio urinário. Impressão de que melhorou não é resposta diurética.
- 11Reavalie o perfil de risco pelo menos uma vez por turno. O paciente de baixo risco pode migrar para alto, e a decisão de destino tomada na chegada não vale para o dia inteiro.
| Fármaco e apresentação no elenco nacional | O que uma ampola ou um comprimido contém | Dose, e o documento de onde ela vem | A conta feita, num adulto de 74 kg | A trava |
|---|---|---|---|---|
| Furosemida solução injetável 10 mg/mL, ampola de 2 mL — Componente Básico | Uma ampola inteira carrega 20 mg em 2 mL. É a mesma concentração da apresentação hospitalar e da da farmácia básica | Início de 20 mg segundo a tabela de posologia da diretriz, ou de 20 a 40 mg segundo o corpo do mesmo texto, com intervalo de 4 em 4 ou de 6 em 6 horas e teto de 240 mg ao dia | Um dia inteiro no teto consome 24 mL, isto é, doze ampolas. Repartido de 6 em 6 horas dá quatro tomadas de 60 mg, ou três ampolas por tomada; de 4 em 4 horas dá seis tomadas de 40 mg, ou duas ampolas cada | O injetável tem velocidade máxima de 4 mg por minuto na bula, o que transforma cada 60 mg numa injeção de quinze minutos. Acima de 5 mg/dL de creatinina esse teto cai para 2,5 mg por minuto, e os mesmos 60 mg passam a levar vinte e quatro |
| Furosemida comprimido 40 mg — Componente Básico | Um comprimido inteiro carrega 40 mg, e é a única apresentação oral do elenco nacional — não existe comprimido de 20 mg | Manutenção crônica de 20 a 40 mg ao dia pela bula; na insuficiência cardíaca, a diretriz admite até 240 mg ao dia, sempre na menor dose que mantenha o paciente seco | Uma dose diária de 240 mg são seis comprimidos. Para 20 mg, parte-se o comprimido ao meio: a bula descreve a apresentação como comprimido circular plano com vinco | A biodisponibilidade oral é de 50% a 70% em pessoa sadia e pode cair a 30%. Trocar 40 mg oral por 40 mg endovenoso não é troca de via: é aumento de 1,4 a 2 vezes na quantidade que chega ao rim |
| Hidroclorotiazida comprimido de 12,5 mg e de 25 mg — Componente Básico | O comprimido de 25 mg é o mais distribuído; o de 12,5 mg existe no elenco e resolve o ajuste fino | Na tabela de diuréticos da diretriz para a insuficiência cardíaca aguda: início de 25 mg por via oral, intervalo de 24 em 24 ou de 12 em 12 horas, teto de 100 mg ao dia | Vinte e cinco miligramas ao dia é um comprimido; 50 mg ao dia são dois; o teto de 100 mg ao dia são quatro comprimidos de 25 mg, ou dois de 25 mg de 12 em 12 horas | Entra como bloqueio sequencial do néfron em quem já usa alça cronicamente, e não como diurético isolado. Dado 30 minutos antes da furosemida, e com potássio e sódio dosados em 24 horas: a associação é a que mais produz hipocalemia e hiponatremia |
| Espironolactona comprimido de 25 mg e de 100 mg — Componente Básico | Um comprimido de 25 mg, ou um de 100 mg, que equivale a quatro vezes a dose inicial da tabela | Na mesma tabela de diuréticos: início de 25 mg por via oral, intervalo de 24 em 24 ou de 12 em 12 horas, teto de 50 mg ao dia. Como antagonista da aldosterona em fração de ejeção abaixo de 35%, a diretriz recomenda usá-la após o diurético endovenoso, na ausência de contraindicações | Vinte e cinco miligramas ao dia é um comprimido; o teto de 50 mg ao dia são dois comprimidos de 25 mg. O comprimido de 100 mg não tem uso nesta indicação e é fonte de erro de dispensação | Tem dois papéis diferentes e doses diferentes para cada um: dose baixa para reduzir mortalidade, dose maior para potencializar a diurese. Não somar com suplemento de potássio nem com sal light, e dosar potássio antes |
| Acetazolamida comprimido de 250 mg — Componente Especializado | Um comprimido de 250 mg. Está no elenco nacional, mas dentro do grupo de órgãos sensitivos, com o protocolo de glaucoma como documento norteador | A diretriz brasileira de insuficiência cardíaca não a inclui na tabela de diuréticos, e não há nela dose de referência para esta indicação | Não há conta a fazer aqui: sem dose em documento brasileiro para insuficiência cardíaca, este capítulo não prescreve o fármaco | O ponto prático é de disponibilidade: mesmo constando do elenco, ela é dispensada pelo caminho administrativo do glaucoma, o que a torna indisponível na farmácia da unidade básica para esta finalidade |
| Diuréticos da tabela oficial sem correspondente no elenco nacional | Bumetanida, clortalidona, indapamida, amilorida e triantereno aparecem na tabela de posologia da diretriz e não constam da relação nacional de 2024 | As doses estão na tabela da diretriz, mas a busca exata pelo elenco inteiro não retorna nenhum dos cinco | Dos oito diuréticos daquela tabela, três têm apresentação no elenco nacional — furosemida, hidroclorotiazida e espironolactona — e cinco não têm | Isso não muda a indicação clínica; muda o que existe na farmácia. No serviço que segue o elenco nacional, o bloqueio sequencial do néfron se faz com hidroclorotiazida, porque é o tiazídico que existe |
Os quatro perfis à beira do leito: como se reconhece, o que entra, o que não entra
| Perfil, e quanto pesa na admissão brasileira | Como se reconhece sem exame | O que entra | O que não entra, e por quê |
|---|---|---|---|
| Quente e congesto — 67,4% das admissões do registro nacional, e o de melhor prognóstico | Jugular ingurgitada a 45 graus, refluxo hepatojugular, edema, ganho de peso datado, ortopneia progressiva. Extremidades quentes, enchimento capilar normal, sistólica acima de 110 mmHg, paciente lúcido e orientado | Furosemida endovenosa em dose cheia, calculada a partir da dose oral prévia, em intervalos curtos. Manutenção dos fármacos orais que ele já tomava. Vasodilatador associado se a pressão permitir | Reposição de volume, em qualquer forma, inclusive a disfarçada de veículo de antibiótico. E dose tímida de diurético por medo da creatinina, que é o erro característico desta caixa |
| Frio e congesto — 17,8% das admissões, e o pior prognóstico entre os quatro | Tudo o que está acima, mais mãos e antebraços frios, enchimento capilar lento, sudorese fria, fadiga desproporcional, sonolência ou confusão nova, sistólica abaixo de 90 mmHg — ou abaixo de 110 mmHg se ele era hipertenso. Pressão de pulso proporcional abaixo de 25%. Lactato elevado confirma | Suporte à perfusão antes de tudo, porque hipotensão é ela própria causa de resistência ao diurético. Furosemida mantida, com a expectativa de que responda mal enquanto a perfusão não melhorar. Um telefonema pedindo ajuda no minuto cinco | Betabloqueador e bloqueio do eixo renina-angiotensina na dose de casa: a régua da diretriz manda reduzir pela metade ou suspender diante de sinais de baixo débito. Vasodilatador endovenoso, cuja indicação e cujos limites são do capítulo de edema agudo de pulmão |
| Frio e seco — 5,2% das admissões | Sinais de baixo débito sem jugular ingurgitada, sem edema, sem ganho de peso. Mucosas secas, turgor reduzido, ureia desproporcionalmente alta em relação à creatinina, sódio alto. Frequentemente vem de quem aumentou o diurético por conta própria | Reposição cuidadosa de volume, com reavaliação a cada infusão e não em bloco. Suspensão do diurético e revisão de todas as drogas hipotensoras | Diurético, que é o reflexo errado diante de um paciente com insuficiência cardíaca e mal estado geral. Este é o paciente que piora com a prescrição padrão da enfermaria |
| Quente e seco — 9,6% das admissões | Perfusão preservada e nenhum sinal de congestão. Peso estável, jugular normal, sem edema, sem ortopneia nova | Uma reavaliação do diagnóstico: se não está congesto nem hipoperfundido, a dispneia dele provavelmente tem outra causa. É a hora de olhar pulmão, anemia, tireoide, ansiedade e descondicionamento | Furosemida. Este paciente está compensado, e secá-lo o transforma no perfil frio e seco da linha acima |
Onde este paciente dorme: alta, observação ou leito
| A pergunta | O que responde | O que a resposta autoriza |
|---|---|---|
| Há alguma condição de risco imediato de vida? | Choque, hipoxemia refratária, arritmia maligna, isquemia aguda, emergência hipertensiva, causa mecânica, embolia pulmonar, sepse, rebaixamento de consciência | Qualquer uma delas encerra a discussão: leito monitorizado, e o capítulo que comanda passa a ser o daquela condição |
| Qual é o perfil de risco clínico admissional? | São de baixo risco: insuficiência cardíaca crônica agudizada, perfil quente-congesto, sistólica acima de 110 mmHg, frequência cardíaca abaixo de 130 bpm, frequência respiratória abaixo de 32 irpm, saturação acima de 90% sem suporte, creatinina abaixo de 2,0 mg/dL, ureia abaixo de 92 mg/dL, sem comorbidade descompensada. São de alto risco: insuficiência cardíaca aguda nova, perfil frio-congesto, sistólica abaixo de 90 mmHg, frequência acima de 130 bpm ou abaixo de 40 bpm, saturação abaixo de 90% mesmo com oxigênio, necessidade de droga endovenosa contínua, disfunção de dois ou mais órgãos, troponina elevada, lactato elevado, infecção aguda, agitação ou alteração da consciência | Baixo risco autoriza tratar em unidade observacional, com reavaliação seriada. Alto risco pede leito, e frequentemente leito monitorizado |
| O que dizem ureia, sistólica e creatinina juntas? | Ureia abaixo de 92 mg/dL com sistólica de 115 mmHg ou mais é o estrato de menor mortalidade, em torno de 2,1%. Ureia abaixo de 92 com sistólica mais baixa sobe para cerca de 5,5%. Ureia acima de 92 com sistólica preservada fica perto de 6,4%. Ureia acima de 92 com sistólica baixa e creatinina abaixo de 2,7 mg/dL vai a cerca de 12,3%, e com creatinina acima disso chega a 21,9% | Mortalidade de 2% e de 22% não pedem o mesmo destino nem a mesma frequência de reavaliação. Este é o cálculo de trinta segundos que mais muda a decisão de internação, e o que menos se faz |
| Ele respondeu ao tratamento nas primeiras horas? | Débito urinário, alívio da ortopneia, queda da frequência respiratória, saturação em ar ambiente, capacidade de falar frases longas e de deitar | Resposta franca em paciente de baixo risco com gatilho identificado e tratado, com receita ajustada, retorno marcado em até sete dias e alguém em casa, permite alta do pronto-socorro. Resposta ausente ou parcial, não |
| Quem vai ver este paciente na semana que vem, e onde? | Nome do serviço, data marcada, transporte possível, medicamento disponível na farmácia que ele frequenta, e alguém que saiba pesá-lo | Sem isso, a alta é adiamento. Metade dos pacientes readmite em 90 dias e quase um terço dessas readmissões acontece na primeira semana: a consulta de sete dias é parte do tratamento, não cortesia |
A resposta diurética, medida em vez de presumida
| O que medir | Quando | O que é resposta adequada | O que fazer se não for |
|---|---|---|---|
| Débito urinário, em mililitros, anotado hora a hora | Duas horas depois da primeira dose, e outra vez ao completar seis | A diretriz fixa como alvo cerca de 1 litro nas primeiras 6 horas, e também 1,5 a 2,5 mL por quilo por hora. Num paciente de 74 kg os dois alvos praticamente coincidem, em torno de 2,25 mL/kg/h | Dobrar a dose da próxima tomada, e não esperar o dia seguinte. Duas horas sem diurese depois de uma dose endovenosa adequada é dose insuficiente, não paciente refratário |
| Peso, medido sempre no mesmo aparelho, no mesmo horário e com a mesma vestimenta | Diariamente, e mais de uma vez ao dia se a decisão for rápida | Perda progressiva e proporcional ao balanço registrado. A diretriz reconhece perda acima de 4,5 kg em 5 dias em resposta ao tratamento como achado diagnóstico de peso | Peso estável com balanço negativo documentado significa que o balanço está errado, não que o paciente não perdeu. Confira a anotação antes de mudar a dose |
| Sódio urinário em amostra isolada, se o serviço tiver | Cerca de 2 horas depois da dose endovenosa | Sódio urinário alto indica que a droga chegou ao túbulo e funcionou. É a medida mais precoce de resposta que existe, e antecede o débito | Sódio urinário baixo com débito baixo é dose insuficiente ou droga que não chegou. Vale antes de qualquer diagnóstico de refratariedade |
| Ortopneia, contada em travesseiros, e esforço respiratório | Em 24 horas | A diretriz espera que em 24 horas não haja mais ortopneia nem esforço respiratório, e que em até 72 horas o mínimo esforço já não produza dispneia | Sintoma que não cede em 24 horas com diurese adequada pede reavaliação do diagnóstico e busca de fator agravante não identificado |
| Potássio, sódio, ureia e creatinina | A cada 24 horas na fase de descongestão intensa, e antes de cada mudança grande de dose | Potássio entre 4,0 e 5,0 mmol/L. Creatinina que sobe pouco e não progride, com o paciente descongestionando | Hipocalemia se repõe e não faz parar o diurético. Creatinina que sobe com congestão persistente ou piora clínica é sinal de que a estratégia está errada, e não de que a dose está alta |
| Frequência cardíaca, frequência respiratória e pressão sistólica | A cada turno, e a cada 15 minutos enquanto se ajusta droga endovenosa | A diretriz fixa como alvos de descongestão frequência cardíaca abaixo de 100 bpm, frequência respiratória abaixo de 22 irpm e sistólica entre 110 e 130 mmHg | Queda da sistólica abaixo de 100 mmHg com taquicardia durante a diurese sugere que o paciente atravessou o ponto: reavalie o perfil antes da próxima dose |
| Sinais de congestão residual: jugular, refluxo hepatojugular, edema | Todo dia, e obrigatoriamente na véspera da alta | Jugular normal, refluxo negativo, edema resolvido, paciente deitando plano sem desconforto | Congestão residual na alta é o preditor mais consistente de reinternação precoce, e a melhora do sintoma acontece antes da resolução da congestão. Alta com jugular ingurgitada é alta antecipada |
O escore de risco admissional citado pela diretriz brasileira usa BUN com corte em 43 mg/dL e chama a variável de ureia entre parênteses, como se as duas fossem intercambiáveis. Não são: a ureia pesa 60,06 g/mol e carrega 28,01 g/mol de nitrogênio, e a razão entre as duas é 2,144. Um BUN de 43 mg/dL equivale a 92,2 mg/dL de ureia. O laboratório brasileiro reporta ureia; aplicar o corte de 43 a esse resultado empurra para o estrato grave quase qualquer paciente internado, porque uma ureia de 60 mg/dL corresponde a um BUN de 28. A prova de que a conversão é essa está no próprio documento: a tabela de indicadores clínicos de baixo risco, poucos parágrafos antes, escreve ureia abaixo de 92 mg/dL, que é o mesmo 43 já convertido. A conversão foi feita numa tabela e não na outra.
A tabela do escore fecha todos os intervalos dos dois lados. O estrato de menor risco pede BUN menor ou igual a 43 e sistólica maior ou igual a 115; o seguinte pede BUN menor ou igual a 43 e sistólica menor ou igual a 115. Um paciente com sistólica de exatamente 115 mmHg satisfaz os dois, e um com BUN de exatamente 43 satisfaz todos os cinco estratos no critério de ureia. A leitura útil é tratar cada corte como estrito de um lado — e, na dúvida, usar o estrato mais grave. As mortalidades da tabela, essas, são internamente coerentes e crescem sem inversão de 2,14% a 21,9%.
A tabela de indicadores de risco clínico admissional deixa faixas inteiras sem classificação. Baixo risco exige sistólica acima de 110 mmHg; alto risco exige sistólica abaixo de 90 mmHg. Todo paciente entre 90 e 110 mmHg — que é exatamente a zona de transição deste capítulo, aquela em que o exame das extremidades decide sozinho — não é classificado por nenhuma das duas colunas. O mesmo vale para a frequência respiratória: baixo risco pede abaixo de 32 irpm, alto risco pede acima de 32 irpm com esforço respiratório, de modo que quem respira 34 sem esforço fica de fora das duas. Na faixa não coberta, classifique pelo perfil clínico-hemodinâmico e reavalie com mais frequência.
A prevalência de baixo débito não fecha dentro do mesmo capítulo da diretriz. Numa seção, o texto atribui congestão a cerca de 90% dos pacientes e baixo débito a 10%. Duas seções adiante, o mesmo capítulo afirma que cerca de 20% apresentam o modelo de congestão associado a baixo débito. Como quem é frio-congesto é necessariamente de baixo débito, a segunda afirmação não cabe dentro da primeira: o subconjunto não pode ser o dobro do conjunto. O número externo apoia o valor maior — no registro nacional, os dois perfis frios somam 23,0% —, e é ele que este capítulo adota. Na mesma linha, a congestão aparece como 90% numa seção e como cerca de 85% em outra.
A fórmula da pressão de pulso proporcional está impressa sem parênteses no rodapé do quadro de congestão e baixo débito, como pressão sistólica menos pressão diastólica dividida pela sistólica vezes cem. Lida na ordem em que está escrita, ela subtrai da sistólica o quociente da diastólica pela sistólica multiplicado por cem — e o resultado difere do valor correto por exatamente a sistólica menos 100. As duas leituras coincidem apenas quando a sistólica é de 100 mmHg; acima disso a leitura literal superestima, e abaixo subestima. Num paciente com pressão de 130 por 105, o valor correto é 19,2%, abaixo do corte de 25% que sugere baixo débito, enquanto a leitura literal devolve 49,2 e sugere o contrário. A conta certa é a diferença entre as duas pressões dividida pela sistólica.
O registro nacional traz, na descrição da amostra, que 73,1% dos pacientes tinham mais de 75 anos, com idade média de 64,1 anos e desvio-padrão de 15,9. Os três números não coexistem. Para que a média fosse 64,1 com 73,1% da amostra em 75 anos ou mais, o restante teria de ter média de 34,5 anos — e, mesmo no arranjo que minimiza a dispersão, isto é, com todo o grupo idoso concentrado exatamente em 75 anos, o desvio-padrão resultante seria de 17,97, acima do publicado. Sob distribuição normal com aquela média e aquele desvio, a fração acima de 75 anos seria de cerca de 24,7%, e não de 73,1%. O valor de 73,1% deve corresponder a outro corte etário; a média e o desvio são internamente consistentes e é por eles que este capítulo descreve a população.
A tabela de causas de descompensação do registro nacional soma 113,4% — infecção 22,7%, má aderência 29,9%, sódio e água 8,9%, doença valvar aguda 6,6%, arritmia 12,5%, embolia pulmonar 0,4% e outros 32,4%. O excesso de 13,4 pontos indica que um mesmo paciente foi contado em mais de uma causa, o que é clinicamente plausível e não está declarado no texto. Mais relevante do que o excesso é o que a soma revela: a categoria outros, com 32,4%, é a maior de todas, maior do que a má aderência que o resumo do estudo aponta como principal causa. Um terço das descompensações entrou no registro sem causa nomeada.
Duas conferências do mesmo registro fecharam exatamente, e vale registrar as duas. A primeira: os quatro perfis hemodinâmicos somam 100,0% — 67,4, 9,6, 17,8 e 5,2 —, o que confirma que a classificação foi aplicada como partição. A segunda: a figura de etiologias e a tabela de etiologias por região trazem percentuais diferentes para as mesmas doenças, e a diferença tem explicação aritmética exata. Refeitas as contas a partir dos números absolutos, a tabela usa denominador de 1.263 pacientes e a figura usa 1.255, que é o total menos os 8 casos sem informação. Isquêmica: 380 casos dão 30,1% em 1.263 e 30,3% em 1.255; hipertensiva: 256 dão 20,3% e 20,4%. As duas apresentações estão certas, cada uma no seu denominador, que nenhuma delas declara.
Ainda no registro nacional, a frase que descreve as etiologias por região repete a palavra Norte nas duas metades, atribuindo a essa região tanto o predomínio da etiologia hipertensiva quanto o da chagásica. A tabela desfaz a ambiguidade: 61 dos 164 pacientes do Norte tinham etiologia hipertensiva, o que dá 37,2%, e 28 dos 66 pacientes do Centro-Oeste tinham doença de Chagas, o que dá 42,4%. O segundo Norte da frase é Centro-Oeste.
O mesmo registro apresenta a mortalidade intra-hospitalar como percentual do total de pacientes incluídos, mas a conta não usa esse total. Foram 17 mortes nas primeiras 24 horas e 140 depois, somando 157; a tabela declara 12,6% com denominador de 1.245. Sobre os 1.263 incluídos, 157 mortes dariam 12,4%; sobre os 1.261 que restaram após as duas exclusões, 12,5%. A diferença é pequena e não muda nenhuma decisão clínica, mas o número publicado é a mortalidade entre os que tinham desfecho conhecido, e não entre todos os incluídos.
As taxas de orientação na alta não fecham entre o corpo dos resultados e a discussão do mesmo artigo. Os resultados afirmam que 63,7% dos pacientes receberam orientação sobre a tomada correta da medicação, e o resumo do estudo diz que os indicadores de alta foram atingidos em menos de 65% — coerente. A discussão, porém, afirma que apenas pouco mais de 50% receberam essa mesma orientação, e traz 43,5% para a orientação sobre piora dos sintomas, contra 44,2% na figura. Onde os números divergirem, prevalecem os da seção de resultados e da figura, que são os que o resumo confirma.
A tabela de posologia dos diuréticos da diretriz e a bula do produto discordam sobre o número de tomadas por dia, e a diferença é de três vezes. A diretriz prescreve furosemida endovenosa em intervalos de 4 em 4 ou de 6 em 6 horas, ou seja, de quatro a seis tomadas diárias. A bula do injetável descreve escalonamento por acréscimos de 20 mg a cada duas horas até obter diurese satisfatória e, definida a dose individual, manda administrá-la uma ou duas vezes ao dia. Seguindo o escalonamento da bula a partir de 40 mg, chega-se a 120 mg por dose após cinco acréscimos, em dez horas; administrada duas vezes ao dia, essa dose totaliza exatamente 240 mg, o teto diário da diretriz. Um acréscimo a mais e o esquema da bula ultrapassa o teto da diretriz. Este capítulo adota o intervalo curto da diretriz, que é o que responde ao efeito de freio tubular, com o teto diário de 240 mg.
A mesma tabela de posologia contém uma incoerência interna entre dois diuréticos de alça. Ela fixa o teto diário da furosemida em 240 mg e o da bumetanida em 10 mg. Na equivalência habitualmente adotada entre os dois fármacos, de 1 mg de bumetanida para 40 mg de furosemida, o teto da bumetanida corresponde a 400 mg de furosemida — 1,67 vez o teto que a própria tabela impõe ao outro fármaco da mesma classe. A observação é acadêmica no Brasil, porque a bumetanida não consta do elenco nacional; ela importa como alerta de que tetos de fármacos diferentes na mesma tabela não foram harmonizados entre si.
As duas versões da bula do comprimido de furosemida do mesmo fabricante, publicadas sob endereços que trazem 2021 no caminho do arquivo, não têm o mesmo conteúdo. A versão alinhada à bula padrão de dezembro de 2021 não contém a advertência de prolongamento do intervalo QT com risco de arritmia ventricular do tipo torsades de pointes; a versão alinhada à bula padrão de setembro de 2024 contém. A diferença é clinicamente relevante justamente neste capítulo, em que se produz hipocalemia de propósito. A data do endereço não datou nenhuma das duas: quem datou foi o carimbo de versão impresso em cada página e a data da bula padrão declarada ao fim do documento.
A posologia pediátrica da furosemida tem uma regra por peso e um teto diário que colidem a partir de um peso baixo, e o ponto de colisão é o mesmo nas duas vias. Por via endovenosa, a bula manda 1 mg por quilo até um máximo diário de 20 mg, isto é, uma ampola: a partir de 20 kg, uma única dose calculada por peso já atinge o teto do dia inteiro. Por via oral, a regra é 2 mg por quilo até um máximo de 40 mg ao dia, e o teto passa a valer também a partir de 20 kg. A coerência entre as duas vias, essa, é exata: 40 mg por via oral, com biodisponibilidade de 50% a 70%, entregam de 20 a 28 mg, contra os 20 mg da via endovenosa. O que falta em ambas é a frase que diga ao prescritor que, acima de 20 kg, é o teto que vale e não a conta por quilo.
Sobre a conversão entre as vias, que é a decisão central deste capítulo, a aritmética é a seguinte. Com biodisponibilidade oral de 50% a 70%, uma dose endovenosa numericamente igual à dose oral prévia entrega de 1,43 a 2 vezes mais fármaco à circulação; uma dose endovenosa igual ao dobro da oral entrega de 2,86 a 4 vezes mais. Na síndrome nefrótica, com biodisponibilidade de 30%, os mesmos esquemas entregam 3,33 e 6,67 vezes. Ou seja: a regra de nunca prescrever menos do que a dose oral prévia já é, em termos de fármaco entregue, uma escalada — e é por isso que ela funciona em quem vinha subdosado por má absorção intestinal. Quem dobra a dose em miligramas precisa saber que está multiplicando por até quatro o que chega ao rim.
A conduta, hora a hora
A prescrição deste paciente tem oito decisões, e sete delas são tomadas na primeira hora. A ordem abaixo é a ordem em que elas devem ser tomadas, e não a ordem em que aparecem na folha de prescrição.
Minutos 0 a 10 — antes de qualquer droga
Classifique o perfil e escreva a classificação. Congesto ou seco, quente ou frio: quatro palavras que determinam tudo o que vem depois. Meça a pressão nos dois braços, encoste a mão no antebraço do paciente para achar o ponto em que a temperatura muda, olhe a jugular a 45 graus e faça o refluxo hepatojugular. Pese o paciente na balança e escreva o número — sem peso de entrada não há alvo de descongestão nem critério de alta. Oxigênio só se a saturação estiver abaixo de 90%: neste paciente, que não está afogando, oxigênio de rotina não melhora nada e atrapalha a leitura da evolução. Se ele estiver com esforço respiratório importante, incapaz de completar frases ou com estertoração difusa, pare aqui: o paciente é do capítulo de edema agudo de pulmão.
Prescrição- Perfil clínico-hemodinâmico registrado no prontuário. Peso de admissão anotado. Monitorização com oximetria e pressão não invasiva. Oxigênio por cateter nasal apenas se saturação abaixo de 90%, com alvo acima de 90%.
Minutos 10 a 20 — acesso e coleta
Um acesso venoso periférico basta neste paciente. Colha nessa punção tudo o que a diretriz pede na admissão, antes da primeira dose de diurético: sódio, potássio, magnésio, ureia, creatinina, hemograma, glicemia, albumina, transaminases, bilirrubinas, proteína C-reativa, coagulograma e lactato; troponina se houver qualquer suspeita de isquemia; hormônio estimulante da tireoide se ele tem mais de 60 anos ou queixa sugestiva. Peça também o peptídeo natriurético, se o serviço tiver e se houver dúvida diagnóstica real. Eletrocardiograma de doze derivações antes da radiografia, porque é ele que pode mudar o capítulo.
Prescrição- Acesso venoso periférico. Coleta única com sódio, potássio, magnésio, ureia, creatinina, hemograma, glicemia, albumina, transaminases, bilirrubinas, proteína C-reativa, coagulograma e lactato. Eletrocardiograma de 12 derivações agora. Radiografia de tórax em seguida, no gabinete se o paciente estiver estável.
Minutos 20 a 30 — a primeira dose de furosemida
Endovenosa, e não oral: no congesto, a parede intestinal edemaciada torna a absorção do comprimido errática justamente em quem mais precisa dela. A dose sai da dose oral prévia, não de um padrão. Quem não usava diurético recebe 20 a 40 mg. Quem já usava recebe, no mínimo, o equivalente em miligramas ao que tomava em casa — e vale saber que essa equivalência em miligramas já é uma escalada, porque a biodisponibilidade oral do comprimido é de 50% a 70% e a endovenosa é total. Prescreva o intervalo junto: de 4 em 4 ou de 6 em 6 horas na fase aguda, nunca dose única diária, com teto de 240 mg no dia. Respeite a velocidade: 4 mg por minuto, o que faz de 60 mg uma injeção de quinze minutos, e 2,5 mg por minuto se a creatinina passar de 5 mg/dL. Se for diluir, dilua em solução salina — a solução tem pH próximo de 9 e o fármaco precipita abaixo de pH 7 —, e não misture furosemida com outro medicamento na mesma seringa ou no mesmo equipo.
Prescrição- Furosemida endovenosa: 40 mg (4 mL, 2 ampolas) agora se não usava diurético; se usava 40 mg por via oral ao dia, 40 mg endovenosos de 12 em 12 horas; se usava 80 mg ao dia, 40 mg endovenosos de 6 em 6 horas. Injetar em no mínimo 10 minutos. Sem diluição em soro glicosado. Sem associação na mesma seringa.
Minutos 30 a 60 — os fármacos orais que ele já tomava
Aqui o reflexo erra dos dois lados: erra quem mantém tudo por inércia e erra quem corta tudo por precaução. A régua da diretriz é explícita e é por perfil, não por diagnóstico. Betabloqueador: manter, com recomendação de grau máximo, quando não houver hipotensão sintomática nem sinal de hipoperfusão; reduzir pela metade ou suspender na admissão em quem tem sinais de baixo débito; reduzir pela metade em quem tem hipotensão sem baixo débito; suspender em choque cardiogênico ou séptico, estenose aórtica crítica, asma descompensada e bloqueio atrioventricular avançado. Não se inicia betabloqueador em paciente congesto — isso é do capítulo da fração de ejeção reduzida, e se faz depois. Inibidor da enzima conversora ou bloqueador do receptor: iniciar ou manter na ausência de hipotensão sintomática. Antagonista da aldosterona em fração de ejeção abaixo de 35%: usar depois do diurético endovenoso. E suspenda o que faz mal: anti-inflamatório, glitazona, verapamil, diltiazem, nifedipino, propafenona e tricíclico são classe III no portador de insuficiência cardíaca, especialmente durante a descompensação. Na mesma passada, resolva a anticoagulação, que é linha de prescrição e não detalhe: profilaxia de trombose venosa profunda com heparina não fracionada em dose baixa ou heparina de baixo peso molecular é recomendação de grau máximo para todo paciente que não esteja em anticoagulação plena, e o paciente internado por descompensação é imóvel, congesto e idoso. Anticoagulação plena, essa, é para quem tem fibrilação atrial, trombo intracavitário ou prótese valvular mecânica. E com clearance de creatinina abaixo de 30 mL/min a diretriz manda preferir a heparina não fracionada.
Prescrição- Manter carvedilol na dose de casa (paciente quente, sistólica 122 mmHg, sem baixo débito). Manter enalapril na dose de casa. Manter espironolactona. Suspender o diclofenaco que ele vinha tomando por conta própria para dor no joelho, e registrar o motivo no prontuário. Profilaxia de trombose venosa profunda, por não estar em anticoagulação plena.
Primeira hora, em paralelo — a caça ao gatilho
Enquanto o diurético corre, percorra as sete perguntas: os remédios e as caixas, remédio novo, infecção, ritmo, isquemia, sal e água, e o resto. Cada resposta positiva gera uma linha de conduta própria, e algumas delas mudam o capítulo que comanda. Fibrilação atrial de alta resposta se trata como fibrilação atrial; supradesnivelamento de ST se trata como síndrome coronariana com supra; pneumonia se trata como pneumonia; endocardite se trata como endocardite; sopro novo com deterioração rápida pede ecocardiograma urgente e é assunto do capítulo de valvopatias. Escreva no prontuário o que encontrou, com o nome do fator. Se não encontrou nada, escreva que procurou e não encontrou — a linha em branco é o que produziu, no registro nacional, a maior fatia da tabela de causas.
Prescrição- Fator de descompensação identificado: interrupção da furosemida oral há doze dias, por falta na farmácia da unidade, com uso de anti-inflamatório no mesmo período. Registrado no prontuário e comunicado à farmácia da unidade básica para garantir a retirada.
Horas 2 a 6 — medir a resposta e corrigir a dose
Duas horas depois da primeira dose, olhe o débito urinário em mililitros. Se o serviço tiver sódio urinário em amostra isolada, peça: é a medida mais precoce de que a droga chegou ao túbulo e funcionou. Resposta insuficiente às duas horas se corrige dobrando a próxima dose, e não esperando o dia seguinte — esperar 24 horas para descobrir que a dose era baixa custa um dia de internação por paciente. Às seis horas, o alvo da diretriz é cerca de 1 litro de diurese, ou de 1,5 a 2,5 mL por quilo por hora; num paciente de 74 kg os dois alvos convergem em torno de 2,25 mL por quilo por hora. Se a resposta continuar ruim depois de dobrar, percorra a lista de causas de resistência antes de declarar refratariedade: hipotensão arterial, hiponatremia, uso crônico prévio de diurético, hipoalbuminemia, hipovolemia relativa, baixo débito e insuficiência renal — cada uma com correção própria. E some ao cálculo o que entra sem ser contado: o soro que carrega o antibiótico, o volume dos diluentes, a água dos medicamentos por sonda. Um paciente pode receber 800 mL por dia de líquido que ninguém prescreveu como líquido. Sobre a restrição, vale ler o que a diretriz de fato escreve, porque o hábito de serviço é mais rígido do que o documento: para o sódio, a recomendação é evitar ingestão excessiva, acima de 7 g de sal por dia, e o documento registra explicitamente que a restrição excessiva — abaixo de 5 g de sal por dia, contra cerca de 7 g de uma dieta de teor normal — pode se associar a exacerbação da ativação neuro-hormonal, mais hospitalizações e maior mortalidade na insuficiência cardíaca crônica, com a ressalva de que na doença gravemente sintomática há relatos de benefício na restrição mais intensa. Para a água, a diretriz afirma que as evidências não permitem recomendação específica e detalhada; o que existe é um estudo de porte moderado com redução de hospitalizações a 1.000 mL por dia contra 2.000 mL por dia. Traduzido para a beira do leito: restrinja o sal industrializado, controle o volume ofertado durante a fase congestiva, e não prescreva dieta hipossódica severa por reflexo.
Prescrição- Balanço hídrico rigoroso com anotação horária, incluindo os veículos de medicação endovenosa. Débito urinário às 2 e às 6 horas. Se diurese abaixo de 300 mL em 2 horas, dobrar a dose da próxima tomada. Dieta com controle de sódio, sem restrição severa. Oferta de líquidos limitada a 1.000 a 1.500 mL por dia enquanto durar a congestão, revista na alta.
Do primeiro ao terceiro dia — o bloqueio sequencial e a piora renal
Quem já usava diurético de alça há anos tem túbulo distal hipertrofiado e responde menos: é a resistência que a diretriz nomeia como uso crônico prévio de diuréticos, e cuja medida terapêutica indicada é associar tiazídico e espironolactona. No Brasil, o tiazídico que existe na farmácia básica é a hidroclorotiazida, em comprimidos de 12,5 e 25 mg, com teto de 100 mg ao dia pela tabela da diretriz. Dada meia hora antes da furosemida, ela bloqueia o segmento que se hipertrofiou. O preço é eletrolítico e é alto: essa associação é a que mais produz hipocalemia e hiponatremia, e obriga a dosar potássio e sódio em 24 horas. Sobre a creatinina que sobe no meio do tratamento: piora transitória da função renal durante descongestão eficaz não é motivo para reduzir o diurético — a exceção, e ela é a que importa, é a piora que ocorre em vigência de congestão persistente ou de deterioração clínica. Creatinina subindo com o paciente ainda congesto e ainda mal não é excesso de diurético: é congestão renal não tratada. Os demais fatores de resistência da lista têm correção própria e cada um vale ser conferido antes de declarar refratariedade — hiponatremia, hipotensão, hipoalbuminemia, baixo débito, hipovolemia relativa e insuficiência renal. E existe um limite para o tratamento clínico: quando o diurético deixa de responder, a diretriz coloca no horizonte a retirada mecânica de líquido — ultrafiltração venovenosa, e hemodiálise quando à hipervolemia se somar distúrbio metabólico. Isso não é decisão de interno sozinho, e o momento de telefonar é antes de o paciente ficar anúrico — não depois.
Prescrição- Hidroclorotiazida 25 mg por via oral, um comprimido, 30 minutos antes da dose matinal de furosemida, mantida enquanto durar a descongestão intensa. Sódio, potássio, ureia e creatinina em 24 horas e depois diariamente. Suspender qualquer suplemento de potássio e sal light durante a associação. Reposição de potássio conforme resultado, com magnésio dosado junto.
Do terceiro dia à alta — desmontar o tratamento e montar a saída
A passagem para a via oral acontece quando o paciente está descongestionado e comendo, e a diretriz pede pelo menos 24 horas de medicação em regime oral antes da alta, com estabilidade clínica e hemodinâmica há pelo menos 48 horas. A dose oral de saída é a menor que mantenha o peso seco — não a que ele usava antes, porque essa foi a que falhou. Reintroduza ou otimize as classes que mudam mortalidade antes da alta, e não depois: prescrição de bloqueio do eixo, de betabloqueador e de antagonista da aldosterona na alta são indicadores de qualidade assistencial explícitos, e no registro brasileiro pouco mais da metade dos internados estava em betabloqueador e menos da metade em bloqueio do eixo. Antes de assinar, cheque congestão residual: jugular, refluxo hepatojugular, edema, e se ele deita plano. E deixe marcada a reavaliação precoce, entre o sétimo e o décimo quarto dia, com dia e serviço escritos — não com a orientação de procurar a unidade se piorar. O que sustenta esse retorno é a parte que não é medicamento, e a diretriz a lista item por item: educação em autocuidado com monitorização de peso, orientação dietética, incentivo à atividade física ou reabilitação, desencorajamento de álcool e tabaco, aviso explícito para evitar anti-inflamatórios e simpaticomiméticos, encaminhamento para vacinação contra influenza e pneumococo, e orientações escritas sobre sinais de alarme com plano de emergência. Vale dimensionar o buraco: no registro brasileiro, 63,7% receberam orientação sobre como tomar a medicação, 34,9% sobre dieta e 16,2% sobre atividade física. Um paciente que recebe alta com receita perfeita e sem essas seis conversas recebeu metade do tratamento.
Prescrição- Furosemida 40 mg por via oral pela manhã e 20 mg às 14 horas, com peso diário anotado em caderno. Retorno na unidade básica em 7 dias, com data marcada e exames de sódio, potássio, ureia e creatinina. Orientação escrita de sinais de alarme: ganho de 2 kg em 3 dias, falta de ar ao deitar, aumento do inchaço. Encaminhamento para vacinação contra influenza e pneumococo.
Como saber se está funcionando
A tabela de medidas do bloco anterior cobre as primeiras 24 horas. Este bloco é sobre a trajetória: o que se espera dia a dia, e o que cada desvio significa. O erro característico da internação por descompensação não é a dose inicial — é a semana que segue sem ninguém perguntar se o plano está funcionando.
Uma regra atravessa todos os parâmetros abaixo: melhora de sintoma acontece antes da resolução da congestão. O paciente se sente bem com dois terços do caminho feito, e é nesse ponto que se decide dar alta. A congestão que sobra é a que traz o paciente de volta em sete dias.
Esperado: Queda diária consistente com o balanço registrado, até estacionar no peso seco — aquele em que não há mais jugular ingurgitada, refluxo, edema ou ortopneia. A diretriz reconhece perda acima de 4,5 kg em 5 dias em resposta ao tratamento como achado de peso diagnóstico
Se não melhora: Peso parado com balanço negativo anotado significa erro de anotação, e o primeiro lugar a olhar é o balanço, não a dose. Peso parado com balanço realmente equilibrado significa dose insuficiente ou resistência: dobre a dose e percorra a lista de fatores de resistência
Esperado: Sem ortopneia e sem esforço respiratório ao fim de 24 horas; sem dispneia ao mínimo esforço ao fim de 72. São os alvos escritos da diretriz
Se não melhora: Sintoma que não cede em 24 horas com diurese adequada exige reavaliar o diagnóstico e procurar fator agravante não identificado. Os agravantes que a diretriz manda procurar nesse ponto são três: infecção respiratória, broncoespasmo e tromboembolismo pulmonar
Esperado: Redução progressiva da coluna venosa até o normal, e refluxo hepatojugular negativo
Se não melhora: Jugular ingurgitada com sintoma resolvido é congestão subclínica, e é o padrão que a diretriz descreve como pouco reconhecido na alta e associado à readmissão. Alta com jugular alta é alta antecipada, mesmo com o paciente se dizendo bem
Esperado: Elevação pequena, não progressiva, com o paciente descongestionando e melhorando. Nos estudos que a diretriz cita, a remoção de fluido feita de forma mais intensa cobrou esse preço transitório na função renal e ainda assim conviveu com sobrevida maior
Se não melhora: A exceção que muda a conduta está escrita na própria diretriz: a piora da função renal só é sinal de alarme quando ocorre em vigência de congestão persistente ou de deterioração clínica. Nesse caso o problema não é a dose do diurético, e sim a estratégia inteira — reavalie o perfil, procure baixo débito e considere que a congestão venosa renal ainda não foi tratada
Esperado: Potássio entre 4,0 e 5,0 mmol/L, sódio estável, magnésio normal
Se não melhora: Hipocalemia se repõe e não faz parar o diurético — e a bula atual do comprimido de furosemida traz advertência de prolongamento do intervalo QT com risco de arritmia ventricular grave, o que torna a reposição uma questão de segurança e não de rotina. Hiponatremia progressiva é, ela própria, causa de resistência ao diurético e pede revisão da oferta de água livre antes de mais dose
Esperado: Os alvos de descongestão da diretriz: sistólica entre 110 e 130 mmHg, saturação acima de 90% em ar ambiente, e frequência respiratória abaixo de 22 irpm com frequência cardíaca abaixo de 100 bpm
Se não melhora: Sistólica caindo com taquicardia durante a diurese é o sinal de que o paciente atravessou o ponto e está migrando para o perfil frio. Reavalie extremidades e lactato antes da próxima dose, e reveja as drogas hipotensoras — inclusive o horário delas — antes de reduzir a classe que muda mortalidade
Esperado: Bloqueio do eixo renina-angiotensina, betabloqueador e antagonista da aldosterona prescritos, e ausência anotada com motivo. São indicadores de desempenho assistencial explícitos, e no registro brasileiro apenas 57,1% dos internados estavam em betabloqueador e 42,2% em inibidor da enzima conversora
Se não melhora: Classe ausente sem motivo escrito é achado clínico e vai no prontuário como tal. A titulação até a dose-alvo pertence ao capítulo da doença crônica; o que não pode acontecer aqui é o paciente sair sem a classe inteira
Onde o erro machuca
O dano: A parede intestinal edemaciada absorve mal e de forma imprevisível justamente em quem está molhado, e a biodisponibilidade do comprimido, que já é de 50% a 70% em pessoa sadia, cai ainda mais. Em dose única, o efeito de freio tubular tem entre 18 e 20 horas para reabsorver o sódio que a diurese eliminou em quatro. O resultado é um paciente que passa a internação inteira congesto com prescrição que parece correta no papel.
Como pegar a tempo: Na fase aguda, endovenosa e com intervalo curto — de 4 em 4 ou de 6 em 6 horas, como manda a tabela da diretriz. A via oral volta quando o paciente estiver descongestionado e comendo, e não antes.
O dano: Prescrever 20 mg endovenosos a quem tomava 80 mg por via oral por dia é reduzir o tratamento no momento em que ele precisava aumentar, e produz a internação que não descongesta. A regra escrita na diretriz é que a dose seja, no mínimo, equivalente à de uso prévio.
Como pegar a tempo: Pergunte a dose de casa em miligramas e em comprimidos antes de prescrever, e escreva a conta no prontuário. Vale saber que a equivalência em miligramas já é uma escalada: 40 mg endovenosos entregam de 1,4 a 2 vezes mais fármaco que 40 mg orais.
O dano: Boa parte da elevação de creatinina durante a descongestão é congestão venosa renal ainda não resolvida, e não depleção. Parar o diurético nesse momento mantém a pressão venosa alta, a filtração cai mais e o paciente fica congesto e azotêmico ao mesmo tempo — o pior dos dois mundos.
Como pegar a tempo: Antes de mexer na dose, responda a uma pergunta: ele ainda está congesto? Se estiver, e se estiver melhorando clinicamente, a elevação transitória não é motivo para reduzir. A exceção escrita na diretriz é a piora renal que ocorre com congestão persistente ou deterioração clínica, e essa exige reavaliar a estratégia inteira, não só a dose.
O dano: Retirar a droga de quem não tem nem hipotensão sintomática nem sinal de hipoperfusão piora o desfecho, e manter nessa situação é recomendação de grau máximo, com nível de evidência A, na diretriz brasileira. O betabloqueador suspenso na internação frequentemente não é reintroduzido na alta: no registro nacional, apenas 57,1% dos internados estavam recebendo a classe.
Como pegar a tempo: Decida por perfil, não por diagnóstico. Sem hipotensão sintomática e sem baixo débito, mantenha. Com hipotensão sem baixo débito, reduza pela metade. Com sinais de baixo débito, reduza pela metade ou suspenda. E, se suspender, escreva no prontuário a data prevista de reintrodução.
O dano: Gatilho não tratado produz refratariedade: é o que a diretriz registra ao explicar por que identificar o fator importa tanto quanto tratar a congestão. E o paciente volta: quase um terço das readmissões acontece na primeira semana depois da alta.
Como pegar a tempo: Percorra as sete perguntas na primeira hora e escreva o nome do fator no prontuário. Se nada aparecer, registre isso também — no registro brasileiro, a categoria sem nome ficou com 32,4% dos casos, maior do que qualquer causa nomeada.
O dano: A melhora sintomática precede a resolução da congestão, e a congestão que sobra é a que traz o paciente de volta. A diretriz descreve esse padrão como congestão subclínica pouco reconhecida na alta, e estima readmissão de até 30% no período vulnerável, com mortalidade associada de 10%.
Como pegar a tempo: Antes de assinar: jugular, refluxo hepatojugular, edema, e deitar plano. Peso registrado. Pelo menos 24 horas de medicação oral e 48 horas de estabilidade. Retorno em 7 a 14 dias com data no papel, e as quatro classes conferidas item por item.
O que dizer ao paciente e à família
Este paciente fala, e as conversas duram minutos, não segundos — é a diferença entre este capítulo e o do edema agudo de pulmão. Isso é uma vantagem e é também a razão de as conversas serem tão mal aproveitadas: quando há tempo, adia-se. No registro brasileiro, apenas parte dos internados recebeu orientação de alta sobre como tomar a medicação, e a orientação sobre reconhecer a piora dos sintomas alcançou menos da metade deles.
Perguntando sobre aderência, sem fazer o paciente mentir
“Seu Anastácio, quase todo mundo esquece algum comprimido, ou para quando acaba na farmácia. Não estou perguntando para brigar. O senhor trouxe as caixas? Me mostra qual acabou primeiro e há quanto tempo. Da última vez que o senhor foi buscar, tinha tudo?”
Não diga: Não pergunte se ele toma direito, porque a resposta é sim e ela não informa nada. E não trate a falta como culpa dele antes de saber se o remédio estava na farmácia — no registro nacional, a orientação de alta sobre como tomar a medicação alcançou pouco mais de metade dos internados.
Explicando por que ele vai receber remédio na veia e não comprimido
“O senhor está inchado por dentro também, inclusive no intestino, e por isso o comprimido não é bem absorvido agora. Vamos dar o mesmo remédio direto na veia, o que chega inteiro e chega rápido. Assim que o senhor desinchar e voltar a comer bem, o comprimido volta a funcionar e a gente troca de volta.”
Não diga: Não diga que o comprimido não funciona, porque ele vai receber comprimido na alta e precisa acreditar nele. A frase é que agora ele não é absorvido, não que ele é fraco.
Explicando por que a creatinina subiu e o remédio não vai parar
“O exame do rim piorou um pouco, e eu quero explicar por que não vou parar o diurético. O senhor ainda está com água represada, e essa água aperta o rim por trás — o rim está trabalhando contra uma pressão. Tirando a água, a pressão cai e o exame tende a voltar. Vou medir todo dia, e se o senhor piorar ou parar de desinchar, aí eu mudo o plano.”
Não diga: Não diga que o exame não importa. Ele importa, é acompanhado todo dia, e há uma situação em que ele muda tudo — quando piora com o paciente ainda congesto e ainda mal. Diga isso, porque diz ao paciente e à família o que vigiar.
Com a filha, que quer saber se pode levar o pai para casa hoje
“Hoje não dá, e vou dizer o que estou esperando para poder dizer que sim. Preciso que ele desinche de verdade, não só que melhore a falta de ar — isso melhora antes. Preciso de dois dias estáveis e de um dia inteiro com os remédios só por boca. E preciso que a senhora saiba pesá-lo em casa e saiba o que fazer se ele ganhar peso. Enquanto essas quatro coisas não estiverem prontas, ir para casa hoje significa voltar na semana que vem.”
Não diga: Não use falta de leito nem lotação como argumento para segurar ou para liberar. E não prometa data antes de o peso estar caindo.
Ensinando o peso diário, que é o exame que o paciente faz sozinho
“A partir de hoje o senhor tem um exame para fazer todo dia, e é de graça. Toda manhã, depois de urinar e antes do café, sempre com a mesma roupa, sobe na balança e anota o número neste caderno. Se em três dias o senhor ganhar dois quilos, isso é água voltando, não é gordura — e é hora de procurar a unidade sem esperar a falta de ar aparecer.”
Não diga: Não peça só que ele se pese: peça o horário, a roupa e o caderno. E confirme que existe balança, porque se não existir a orientação inteira é decorativa e é melhor descobrir isso agora.
Explicando o sal, sem transformar a comida num inimigo
“O que mais faz voltar o inchaço é o sal, e o sal que importa não é o do saleiro — é o dos alimentos prontos: caldo em cubo, tempero pronto, embutido, enlatado, macarrão instantâneo, salgadinho. Não estou pedindo comida sem gosto. Estou pedindo para trocar o tempero pronto por alho, cebola, limão e cheiro-verde, e para olhar o rótulo do que vem em pacote.”
Não diga: Não passe uma lista de proibições sem oferecer a troca, e não fale de sal com quem não cozinha. Pergunte quem faz a comida da casa e chame essa pessoa para a conversa.
Fechando a alta, com o retorno marcado e os sinais de alarme escritos
“Está tudo escrito nesta folha, e vou ler com o senhor e com sua filha. Aqui é a receita, com o horário de cada remédio. Aqui é a data do retorno, dia 22, na unidade, e é uma consulta marcada, não é para procurar quando piorar. E aqui são as três coisas que fazem o senhor voltar antes: ganhar dois quilos em três dias, precisar de mais travesseiro para dormir, ou o inchaço aumentar. Me diz de volta, com suas palavras, quais são as três.”
Não diga: Não termine sem o retorno com data. E não termine sem pedir que ele repita — a folha entregue e não lida é o que produz orientação de alta registrada e não recebida.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca Crônica e Aguda, Sociedade Brasileira de Cardiologia, 2018 — bólus, em intervalo curto
O documento prescreve furosemida por via intravenosa em bólus, com dose inicial de 20 a 40 mg, e sua tabela de posologia fixa intervalos de 4 em 4 ou de 6 em 6 horas, com teto de 240 mg ao dia. A infusão contínua não aparece como opção na tabela de posologia nem no texto corrido sobre diuréticos para controle da congestão. O raciocínio implícito é o do intervalo: repetir a dose antes que a concentração tubular caia abaixo do limiar é o que impede o túbulo de reabsorver, no intervalo longo, o sódio que a diurese eliminou.
Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca Crônica e Aguda. Arq Bras Cardiol. 2018;111(3):436-539, item 2.2.1 e Tabela 2.1
Bula profissional do injetável, modelo RDC 47/09 — infusão contínua, por argumento farmacocinético
A bula descreve a relação entre a concentração tubular de furosemida livre e o efeito natriurético como uma curva sigmoide, com taxa mínima efetiva de excreção urinária em torno de 10 microgramas por minuto, e conclui explicitamente que a infusão contínua é mais efetiva do que administrações repetidas em bólus, acrescentando que acima de certa dose em bólus não há aumento significativo do efeito. A mesma bula, na seção de posologia, orienta escalonar por 20 mg a cada duas horas até obter diurese satisfatória e depois administrar a dose encontrada uma ou duas vezes ao dia — o que é um terceiro esquema, diferente dos dois em disputa.
Furosemida solução injetável 10 mg/mL, bula profissional, seções de propriedades farmacodinâmicas e de posologia e modo de usar
As duas posições concordam no que importa e discordam no que é operacional: ambas dizem que o efeito depende de manter a concentração tubular acima do limiar, e discordam sobre como manter. Decida pelo que o seu serviço consegue executar com segurança. Bomba de infusão disponível, equipo exclusivo e enfermagem que confira a programação favorecem a contínua; sem bomba, o bólus em intervalo curto é o esquema que a diretriz prescreve e o que o serviço vai de fato cumprir. Dose única diária na fase aguda não é opção em nenhuma das duas leituras. E, seja qual for o esquema, respeite a velocidade máxima de 4 mg por minuto — 2,5 mg por minuto se a creatinina passar de 5 mg/dL —, dilua em solução salina e não misture a furosemida com outro fármaco no mesmo equipo, porque ela precipita abaixo de pH 7.
Diretriz brasileira de 2018, seção de plano de alta — otimizar antes de o paciente sair
O modelo de sistematização de alta do documento traz, entre os pré-requisitos clínicos, medicações modificadoras da doença iniciadas e otimizadas, além de estabilidade clínica e hemodinâmica há pelo menos 48 horas e medicação em regime oral há pelo menos 24 horas. Na mesma linha, o documento lista como indicadores de desempenho assistencial a prescrição de bloqueio do eixo, de betabloqueador e de antagonista mineralocorticoide na alta hospitalar — ou seja, mede a instituição pelo que sai escrito na receita de saída. E recomenda usar antagonista de aldosterona em fração de ejeção abaixo de 35% já depois do diurético endovenoso, dentro da internação.
Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca Crônica e Aguda, 2018, itens 2.3, 3.1 e 3.2 e Figura 3.1
Atualização de Tópicos Emergentes da mesma sociedade, 2021 — a quarta classe só depois de as três primeiras estarem na dose máxima tolerada
A recomendação de grau máximo para o inibidor de SGLT2 na fração de ejeção reduzida é escrita para o paciente sintomático que já esteja com dose máxima otimizada tolerada de betabloqueador, antagonista da aldosterona e bloqueio do eixo renina-angiotensina. Como cada uma dessas classes tem passo de titulação de duas a quatro semanas, a condição descrita não é alcançável dentro de uma internação de cinco dias — o que na prática empurra a construção da receita para o ambulatório.
Atualização de Tópicos Emergentes da Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca – 2021. Arq Bras Cardiol. 2021;116(6):1174-1212, item 7.3
Separe duas perguntas que costumam ser tratadas como uma só: quais classes estão presentes na receita, e em que dose. A presença é decisão desta internação — classe inteira ausente na alta é o achado que os indicadores medem, e no registro brasileiro apenas 57,1% dos internados estavam em betabloqueador e 42,2% em bloqueio do eixo. A dose-alvo é decisão do ambulatório, e o caminho de titulação está descrito no segundo capítulo desta apostila, o da doença crônica. Decida assim: introduza na internação as classes que o perfil permitir, com o paciente já descongestionado e sem hipotensão sintomática, na menor dose; não inicie betabloqueador em paciente ainda congesto; e escreva na alta, para quem vai receber o paciente, em que degrau cada classe está e qual é o próximo passo com data. Se a régua administrativa do seu estado exigir otimização prévia para liberar a quarta classe, isso muda quando ela entra, não se ela entra.
Seção de insuficiência cardíaca aguda da diretriz brasileira de 2018 — seguir, com uma exceção nomeada
O item sobre diuréticos para controle da congestão registra que a estratégia de dose mais alta foi associada a maior alívio de dispneia, maior perda de peso e maior perda de volume, apesar de piora transitória da função renal, e que retirar líquido de forma mais intensa se acompanhou de sobrevida maior — com uma exceção explícita: exceto se a piora de função renal ocorrer em vigência de congestão persistente ou deterioração clínica. O mesmo documento aponta a pressão venosa central como determinante mais importante da síndrome cardiorrenal, o que sustenta ler a creatinina que sobe como congestão renal ainda não tratada.
Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca Crônica e Aguda, 2018, itens 2.2.1 e 2.2.2
Seção de insuficiência cardíaca crônica da mesma diretriz de 2018 — a azotemia por depleção se trata reduzindo a furosemida
A régua de travas da titulação, na parte crônica do mesmo documento, orienta que, diante de creatinina em elevação, o diurético seja revisto primeiro: a azotemia pré-renal secundária a depleção é frequente, e quem se reduz nela é a furosemida — não o bloqueio do eixo. A mesma seção registra que a síndrome cardiorrenal piora o prognóstico intra-hospitalar e que, quando o diurético deixa de responder, entram em cena os meios mecânicos de retirar líquido.
Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca Crônica e Aguda, 2018, item 7.1 e item 2.2.2
As duas posições descrevem pacientes diferentes, e a pergunta que os separa é uma só: ele ainda está congesto? Examine antes de decidir — jugular, refluxo hepatojugular, edema, peso e capacidade de deitar plano. Creatinina subindo com congestão que ainda existe e paciente melhorando clinicamente é o cenário da primeira posição, e a conduta é seguir, medindo todo dia. Creatinina subindo com o paciente já descongestionado, com mucosas secas, sede, sódio subindo e pressão caindo é depleção, e a conduta é aliviar o diurético. E creatinina subindo com congestão persistente e paciente piorando não é nenhum dos dois: é a exceção que a própria diretriz nomeia, e ela obriga a reavaliar a estratégia inteira, procurar baixo débito e pedir ajuda. Em qualquer dos três, o exame de beira de leito decide antes do valor de laboratório.
O raciocínio, em voz alta
Odete tem 71 anos, 58 quilos, mora com uma neta e tem insuficiência cardíaca com fração de ejeção de 32% há seis anos, em uso de carvedilol, enalapril, espironolactona e furosemida 40 mg por via oral pela manhã. Chega ao pronto-socorro numa segunda-feira de manhã, trazida de carro, com falta de ar que piorou ao longo de duas semanas e inchaço que subiu do tornozelo à coxa. Está lúcida e fala frases curtas. Pressão 96 por 74, frequência cardíaca 104, frequência respiratória 26, saturação 92% em ar ambiente, temperatura 36,4 °C. A neta diz que a bisavó dela parou de conseguir varrer a casa e que dorme sentada na poltrona há cinco dias.
Classificar o perfil antes de prescrever
Congestão presente e volumosa: jugular ingurgitada a 45 graus, refluxo hepatojugular positivo, edema até a coxa, fígado palpável e doloroso, ortopneia franca. Perfusão: mãos e antebraços frios até o terço médio, enchimento capilar de três segundos, sonolência leve que a neta descreve como diferente. A pressão de pulso proporcional é a diferença entre 96 e 74, dividida por 96 e multiplicada por cem, o que dá 22,9% — abaixo de 25%. Odete é frio e congesto: 17,8% das admissões do registro brasileiro, e o pior prognóstico entre os quatro perfis.
Confirmar com um número o que as mãos disseram
Lactato de 3,1 mmol/L confirma a hipoperfusão. Ureia 104 mg/dL, creatinina 2,1 mg/dL, sódio 129 mmol/L, potássio 4,2 mmol/L, albumina 2,9 g/dL. Convertendo para a régua do escore: ureia de 104 mg/dL corresponde a um BUN de 48,5 mg/dL, acima do corte de 43; a sistólica é de 96 mmHg, abaixo de 115; e a creatinina de 2,1 está abaixo de 2,7. É o estrato intermediário alto, com mortalidade intra-hospitalar em torno de 12,3%. Odete interna, e interna em leito com monitorização.
Decidir o que fazer com os fármacos de casa, um por um
Ela tem sinais de baixo débito, e a régua da diretriz para essa situação é reduzir o betabloqueador em 50% ou suspendê-lo na admissão: o carvedilol é reduzido à metade, com data de reintrodução escrita no prontuário. O enalapril é suspenso enquanto a sistólica estiver abaixo de 100 mmHg com sinais de baixo débito, também com data de revisão. A espironolactona é mantida, com potássio dosado. Nenhuma dessas decisões é definitiva, e todas são registradas com o motivo.
Prescrever o diurético a partir da dose de casa, não de um padrão
Ela vinha de 40 mg por via oral ao dia. A dose endovenosa não pode ser menor do que isso, e como a via oral entrega apenas 50% a 70% do que o comprimido contém, 40 mg endovenosos já representam de 1,4 a 2 vezes mais fármaco chegando ao rim. Prescritos 40 mg endovenosos de 12 em 12 horas — 4 mL, duas ampolas por dose —, injetados ao longo de dez minutos, que é o que o limite de velocidade da bula exige. Com hipotensão e albumina baixa entre os fatores de resistência listados pela diretriz, a expectativa é de resposta ruim enquanto a perfusão não melhorar, e isso é dito à equipe de antemão.
Medir a resposta em duas horas, e corrigir
Débito de 180 mL em duas horas, contra o alvo de cerca de 1 litro em seis. Resposta insuficiente. A dose da tomada seguinte é dobrada para 80 mg — 8 mL, quatro ampolas —, injetados em vinte minutos, e não se espera o dia seguinte para descobrir isso. Em paralelo, os fatores de resistência corrigíveis são atacados: a hipotensão é discutida com o plantonista sênior, e a hiponatremia de 129 e a albumina de 2,9 são anotadas como explicações prováveis da resposta ruim.
Procurar o gatilho enquanto o diurético corre
As caixas mostram furosemida sobrando e carvedilol acabado há três semanas — a neta conta que a farmácia da unidade ficou sem o carvedilol e ninguém avisou. Não há febre, o exame de urina é normal, a radiografia não mostra consolidação, o eletrocardiograma mostra ritmo sinusal a 104 sem alteração isquêmica nova. O fator descompensador é a interrupção involuntária do betabloqueador, e ele é escrito com esse nome no prontuário, junto com o telefone da farmácia da unidade.
O terceiro dia: a creatinina sobe e a decisão aparece
Creatinina de 2,1 para 2,6 mg/dL. A pergunta que decide não é o valor: é se ela ainda está congesta. Jugular ainda ingurgitada, refluxo positivo, edema até o joelho, peso caiu 2,1 kg em três dias, e ela já deita com dois travesseiros em vez de sentada. Congestão persistente, mas paciente melhorando: é o cenário em que a diretriz manda seguir. O diurético é mantido, e a hidroclorotiazida 25 mg é acrescentada meia hora antes da dose da manhã, porque o uso crônico prévio de diurético está na lista de causas de resistência e o bloqueio sequencial é a medida indicada. Potássio e sódio passam a ser dosados diariamente.
O quinto dia: reconstruir a prescrição
Peso estacionou em 51,8 kg, com queda total de 6,2 kg. Jugular normal, refluxo negativo, sem edema, deita plano, pressão 108 por 68, mãos quentes, lactato normal. Ela migrou de frio-congesto para quente-seco, que é o destino desejado. A hidroclorotiazida é suspensa, a furosemida passa a 40 mg por via oral pela manhã e 20 mg às 14 horas, o enalapril é reintroduzido em dose baixa e o carvedilol volta à dose plena, agora com o comprimido garantido na farmácia.
A alta, com os quatro requisitos cumpridos
Estabilidade clínica e hemodinâmica há 48 horas, medicação por via oral há mais de 24 horas, congestão residual examinada e ausente, e as classes conferidas item por item na receita. Retorno marcado para daqui a sete dias, com data escrita, e exames de sódio, potássio, ureia e creatinina pedidos para o dia. A neta recebe o caderno de peso, repete de volta os três sinais de alarme e sai com o telefone da unidade anotado na mesma folha.
Faça você
Deodato tem 59 anos, 92 quilos, é vigilante noturno e tem insuficiência cardíaca com fração de ejeção de 38%, diagnosticada há dois anos, em uso de losartana, carvedilol e furosemida 40 mg por via oral pela manhã. Chega ao pronto-socorro numa sexta-feira às 19h, andando, sozinho, dizendo que há dez dias vem inchando os pés e acordando à noite com falta de ar. Pressão 148 por 92, frequência cardíaca 88, frequência respiratória 22, saturação 95% em ar ambiente, afebril. Jugular ingurgitada a 45 graus, refluxo hepatojugular positivo, edema de tornozelos, mãos quentes, enchimento capilar normal, lúcido e falando frases longas. Ureia 54 mg/dL, creatinina 1,3 mg/dL, potássio 4,1 mmol/L, sódio 138 mmol/L, hemograma normal, lactato normal. Eletrocardiograma em ritmo sinusal, sem alteração aguda. Ele diz que trabalha esta noite e pergunta se dá para resolver isso rápido, porque não pode faltar.
Diga o perfil, com as quatro palavras
Congestão presente ou ausente, perfusão preservada ou comprometida — e diga em que caixa Deodato está, com os achados que sustentam a classificação.
Calcule o risco admissional com os três números que você tem
Converta a ureia para a régua do escore, some a sistólica e a creatinina, e diga em que estrato ele cai e qual é a mortalidade intra-hospitalar estimada desse estrato.
Prescreva a primeira dose, com via, dose, intervalo e tempo de injeção
Parta da dose oral que ele já tomava, escreva a conta, e diga quantos mililitros e quantas ampolas são — e em quantos minutos essa dose precisa ser injetada.
Decida onde Deodato passa a noite, e o que precisa ser verdade para cada destino
Alta do pronto-socorro, unidade observacional ou leito de internação. Liste as condições que precisam estar satisfeitas para o destino que você escolher, incluindo o que precisa acontecer nas próximas horas.
Ver como fecharíamos
Perfil: quente e congesto. Há congestão inequívoca — jugular ingurgitada a 45 graus, refluxo hepatojugular positivo, edema, ortopneia progressiva em dez dias — e a perfusão está preservada: mãos quentes, enchimento capilar normal, lúcido, lactato normal, sistólica de 148 mmHg. A pressão de pulso proporcional confirma: 148 menos 92, dividido por 148 e multiplicado por cem, dá 37,8%, bem acima do corte de 25%. É o perfil mais frequente da admissão brasileira, com 67,4% dos casos, e o de melhor prognóstico. Risco admissional: a ureia de 54 mg/dL corresponde a um BUN de 25,2 mg/dL, dividindo por 2,144 — bem abaixo do corte de 43. A sistólica de 148 mmHg está acima de 115. Ele cai no estrato de menor risco do escore, com mortalidade intra-hospitalar estimada em torno de 2,1%. Pelos indicadores clínicos, ele também é de baixo risco: insuficiência cardíaca crônica agudizada, perfil quente-congesto, sistólica acima de 110, frequência abaixo de 130, respiratória abaixo de 32, saturação acima de 90% sem suporte, creatinina abaixo de 2,0, ureia abaixo de 92, sem comorbidade descompensada e sem condição de risco imediato de vida. Primeira dose: ele vinha de 40 mg de furosemida por via oral ao dia. A dose endovenosa não pode ser inferior a essa, e os mesmos 40 mg pela veia já entregam de 1,4 a 2 vezes mais fármaco, porque a biodisponibilidade do comprimido é de 50% a 70%. Como ele está francamente congesto e não respondeu à dose de casa nos últimos dez dias, o razoável é dobrar: 80 mg por via endovenosa, que são 8 mL, ou quatro ampolas de 2 mL. A 4 mg por minuto, essa dose leva vinte minutos de injeção. O intervalo é de 12 em 12 horas para começar, encurtando para 8 em 8 ou 6 em 6 horas se a resposta das primeiras duas horas for insuficiente, respeitando o teto de 240 mg ao dia. Mantêm-se losartana e carvedilol nas doses de casa: ele não tem hipotensão sintomática nem sinais de baixo débito, e manter o betabloqueador nessa condição é recomendação de grau máximo com nível de evidência A. Destino: Deodato é candidato à unidade observacional, e não a leito de internação — e possivelmente à alta do próprio pronto-socorro, que é a conduta que a diretriz descreve como possível em cerca de metade dos pacientes de baixo risco. Mas isso não se decide agora, e sim daqui a algumas horas, com quatro condições. Primeira: resposta diurética documentada em números, com diurese próxima de 1 litro em seis horas — num paciente de 92 kg, a faixa de 1,5 a 2,5 mL por quilo por hora corresponde a 138 a 230 mL por hora, e o alvo de 1 litro em seis horas equivale a 1,81 mL por quilo por hora, dentro da faixa. Segunda: gatilho identificado e tratado; aqui ele ainda não foi procurado, e a pergunta óbvia é o que mudou nos últimos dez dias — as caixas, um remédio novo, anti-inflamatório para dor, o sal do trabalho noturno, a pressão de 148 por 92 num paciente que deveria estar controlado. Terceira: alívio objetivo dos sintomas, com resolução da ortopneia e capacidade de deitar. Quarta: retorno marcado com data em até sete dias, receita ajustada, orientação escrita de sinais de alarme e alguém em casa. Faltando qualquer uma das quatro, ele fica. E a resposta à pergunta que ele fez é não: trabalhar esta noite não é opção, e o motivo precisa ser dito com o número — ele ganhou peso, está com água represada, e ficar dez horas em pé sem tratar isso é o caminho da volta ao pronto-socorro em pior estado.
O paciente está congesto e bem perfundido: jugular ingurgitada, refluxo hepatojugular positivo, edema, ganho de peso datado e ortopneia progressiva, com mãos quentes, enchimento capilar normal e sistólica de 122 mmHg. É o perfil quente-congesto, o mais frequente da admissão brasileira. A conduta é furosemida por via endovenosa, e não oral, porque a parede intestinal edemaciada torna a absorção do comprimido errática justamente em quem está congesto — e a dose não pode ser inferior à que ele já tomava em casa. A ausculta com poucos estertores não afasta nada: na insuficiência cardíaca crônica a drenagem linfática pulmonar se adapta e escoa água que borbulharia num pulmão virgem, e a própria diretriz brasileira registra que radiografia normal também não afasta congestão. Ventilação não invasiva e nitrato endovenoso são o tratamento do paciente que está afogando, com esforço respiratório e incapacidade de completar frases, e esse não é este paciente. Suspender por reflexo o betabloqueador e o bloqueio do eixo em quem não tem hipotensão sintomática nem sinal de hipoperfusão contraria a régua da diretriz, que nessa situação recomenda manter os dois com grau máximo.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Classifique um paciente pela congestão e pela perfusão e justifique cada achado usado. Explique como essa avaliação orienta a primeira conduta e quais precipitantes você procura. Depois monte uma evolução de enfermaria com sintomas, peso, diurese, pressão, função renal e eletrólitos, interpretando os dados em conjunto. Confira se você descreveu uma decisão para resposta insuficiente, em vez de apenas repetir a prescrição.
Em 30 dias
Simule dois dias de internação: no primeiro a congestão melhora com discreta mudança de creatinina; no segundo há hipotensão, extremidades frias e queda da diurese. Explique por que a mesma variação laboratorial não recebe uma resposta automática nos dois contextos. Prepare a alta apenas após reavaliar estabilidade e tratamento oral, com medicações conciliadas, acesso confirmado, plano de monitorização e retorno precoce. Peça ao paciente simulado que explique os sinais de descompensação com suas próprias palavras.
Agora atenda
Agora atenda: sexta-feira, 19h20, pronto-socorro clínico de um hospital geral. Chega andando um homem de 62 anos, 78 quilos, com insuficiência cardíaca conhecida, dizendo que há duas semanas vem inchando e que já não consegue dormir deitado. Fala frases inteiras, saturação de 94% em ar ambiente, pressão de 104 por 82, mãos frescas. A esposa trouxe uma sacola com as caixas de remédio. Classifique o perfil, procure o gatilho, prescreva a primeira dose com via, dose e intervalo, e decida onde ele passa a noite.
