115 min de leitura

Clínica MédicaCardiologia

Taquiarritmias supraventriculares e ventriculares

Uma pergunta decide tudo antes de qualquer nome, e ela cabe em uma linha: o paciente está instável? Respondida ela, começa o que a urgência não precisou saber e a hora seguinte precisa — que arritmia era aquela, por que o flutter não obedece como a reentrada nodal, e por que complexo largo é ventricular até prova em contrário.

Fontes deste capítulo

Sociedade Brasileira de Cardiologia — Atualização da Diretriz de Ressuscitação Cardiopulmonar e Cuidados Cardiovasculares de Emergência da Sociedade Brasileira de Cardiologia – 2019 (Arq Bras Cardiol. 2019;113(3):449-663)

Ministério da Saúde — Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, volume de Suporte Avançado de Vida, fichas AC14 (taquiarritmia com pulso) e AC15 (algoritmo geral das taquiarritmias com pulso)

Sociedade Brasileira de Cardiologia — Diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia sobre a Análise e Emissão de Laudos Eletrocardiográficos – 2022 (Arq Bras Cardiol. 2022;119(4):638-680)

Ministério da Saúde — Relação Nacional de Medicamentos Essenciais, Rename 2024, Brasília, 2024

Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas e Sociedade Brasileira de Cardiologia — Diretriz Brasileira de Fibrilação Atrial – 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250618)

01

Responda antes de ler

Homem de 67 anos com miocardiopatia dilatada é atendido por taquicardia de complexo largo, regular e monomórfica, com hipotensão, revertida com cardioversão elétrica sincronizada. Ficou estável e vai permanecer internado. Você prepara o registro do atendimento. Qual conjunto de informações é o que mais muda o cuidado desse paciente nos meses seguintes?

02

O paciente que você vai ver

Sexta-feira, 23h10. O hospital é geral, tem cento e quarenta leitos, atende uma cidade de duzentos e cinquenta mil habitantes, e o pronto-socorro clínico fica no térreo, ao lado da rampa das ambulâncias. A sala vermelha tem dois leitos. Você é o interno da noite. O residente desceu para a tomografia com um politraumatizado e avisou que demora; o plantonista está na sutura de um ferimento de face na sala amarela.

A técnica de enfermagem da classificação de risco entra empurrando uma maca e diz o essencial em cinco palavras: "o monitor não desce de cento e oitenta".

Na maca está Otoniel Brizolla Piancó, 61 anos, torneiro mecânico aposentado por invalidez, 78 quilos. Está acordado, olhando para você, e responde à primeira pergunta com uma frase inteira: começou há uns quarenta minutos, do nada, enquanto ele assistia televisão. Não dói o peito. Cansa. Ele repete duas vezes que cansa, e a segunda vez sai mais curta que a primeira.

O monitor mostra 188 batimentos por minuto. A pressão arterial, medida no braço direito com manguito adequado, é 88 por 54. Em ar ambiente a saturação fica em 94%, e ele respira 26 vezes por minuto. A glicemia capilar é 118. A temperatura axilar é 36,2. A pele está fria e úmida do umbigo para baixo, e o enchimento capilar do leito ungueal volta em três segundos.

O eletrocardiograma de doze derivações sai da máquina enquanto você ainda está com a mão no pulso dele. O traçado é regular, e os complexos são largos — largos de um jeito que não deixa dúvida, empastados, todos com a mesma forma, sem onda P visível em derivação nenhuma. A régua do papel diz que cada complexo ocupa quase cinco quadradinhos pequenos.

A história pregressa cabe em seis linhas e ele a entrega sozinho, sem que você precise puxar. Infarto de parede anterior há quatro anos, com colocação de dois stents na capital. Insuficiência cardíaca desde então, com fração de ejeção que ele lembra ser "trinta e alguma coisa". Hipertenso. Não é diabético. Usa losartana, ácido acetilsalicílico, sinvastatina e espironolactona. Usava carvedilol até dois meses atrás, quando a farmácia da unidade básica ficou sem, e ele não voltou para buscar.

Você pergunta se já aconteceu antes. Ele diz que não, e completa uma informação que ninguém pediu: o cardiologista da capital falou, na última consulta, que ele deveria fazer um exame do coração para ver se precisava de "um aparelho", mas a fila não andou.

É isso que está na sua frente às 23h14: um homem de 61 anos, com infarto antigo e ventrículo doente, acordado e falando, com pressão sistólica de 88 e um coração a 188 por minuto cujos complexos são largos e todos iguais. A técnica de enfermagem já está de pé ao lado do carrinho, com a mão apoiada na tampa, e faz a única pergunta que interessa nos próximos sessenta segundos: se ela abre a gaveta das ampolas ou se liga o desfibrilador.

03

Quem adoece disso

A população deste capítulo é pequena e a letalidade dela é concentrada. Metade de todas as mortes cardiovasculares é súbita, e a sobrevida de quem tem uma parada cardiorrespiratória fora do hospital fica entre 6% e 10% — números que a diretriz brasileira de dispositivos implantáveis usa para justificar tudo o que vem depois. Quase toda parada por ritmo chocável começou como uma taquicardia que ainda tinha pulso. Em algum momento, alguém esteve na frente dela do jeito que você está agora.

A distribuição das arritmias que chegam é o que torna a regra do complexo largo aritmética, e não estilo. Quatro em cada cinco traçados largos têm origem ventricular, e a proporção sobe para nove em cada dez quando existe cardiopatia estrutural. Em outras palavras: diante de um traçado largo num paciente com infarto antigo, apostar em taquicardia supraventricular com condução aberrante é apostar contra nove em dez. E a aposta é assimétrica — tratar uma supraventricular como ventricular custa uma dose de amiodarona; tratar uma ventricular como supraventricular pode custar o paciente.

No lado estreito, a divisão também é conhecida. A taquicardia de complexo estreito e regular mais frequente é a por reentrada nodal, responsável por mais da metade dos casos; depois vêm a reentrada atrioventricular, que usa uma via acessória, e a taquicardia atrial. Isso quer dizer que, na maioria das vezes em que você tem um traçado estreito e regular na mão, o circuito passa por dentro do nó atrioventricular — e é essa passagem que torna a manobra vagal e a adenosina eficazes.

As taxas de reversão são a parte que muda o que você espera de cada gesto. As manobras vagais revertem cerca de um quarto das taquicardias supraventriculares, segundo o protocolo nacional de suporte avançado. A adenosina, nos ensaios que a diretriz brasileira de 2019 cita, reverteu 59,6% com a dose de 6 mg e 64,91% com a de 12 mg, enquanto o diltiazem a 0,25 mg por quilo chegou a 95% no mesmo estudo. São números para calibrar a expectativa, não para escolher a droga sozinho: a adenosina dura segundos e o antagonista do cálcio dura horas, e essa diferença de meia-vida decide tanto quanto a taxa de sucesso.

Existe uma epidemiologia brasileira que muda a leitura de um traçado largo. Na cardiopatia chagásica, a arritmia ventricular é manifestação de doença e não acidente: o protocolo nacional trata a taquicardia ventricular sustentada como arritmia potencialmente letal e reserva a amiodarona para ela, com acompanhamento em serviço especializado. Perguntar onde a pessoa nasceu e onde morou na infância não é curiosidade: em um complexo largo, é dado que reposiciona a probabilidade antes de qualquer critério eletrocardiográfico.

04

Por que acontece o que acontece

A fisiopatologia útil deste capítulo não é a que explica por que uma frequência alta derruba o débito cardíaco. É outra, mais estreita e mais operacional: o que mantém o ritmo girando. Toda taquiarritmia sustentada precisa de algo que a alimente batimento após batimento, e a natureza desse algo é exatamente o que decide se existe droga capaz de pará-la, se a corrente elétrica resolve, e se bloquear o nó atrioventricular vai interromper a arritmia, apenas revelá-la, ou piorá-la.

São três motores possíveis. O primeiro é a reentrada: um circuito fechado, com duas vias de velocidades e períodos refratários diferentes, dentro do qual o estímulo gira e do qual sai despolarizando o miocárdio a cada volta. O segundo é o automatismo aumentado: um foco que dispara sozinho, mais rápido que o nó sinusal, sem circuito nenhum. O terceiro é a atividade deflagrada, em que oscilações do potencial de membrana depois da repolarização disparam um novo batimento — o mecanismo da torção das pontas. Circuito se interrompe; foco se acalma ou se remove a causa; atividade deflagrada se previne encurtando a repolarização. Três motores, três lógicas de tratamento, e nenhum choque elétrico resolve os três da mesma maneira.

O nó atrioventricular faz parte do circuito, ou é só a porta?

Esta é a pergunta que organiza metade do capítulo, e a diretriz brasileira de 2019 a formula de maneira direta ao dividir as taquicardias supraventriculares em dois grupos. No primeiro, o circuito da arritmia usa o nó atrioventricular para existir: a reentrada nodal, em que as duas vias do circuito estão dentro do próprio nó, a reentrada atrioventricular, em que o nó é o braço descendente de uma alça que sobe por uma via acessória, e a taquicardia juncional. No segundo grupo estão as arritmias em que o nó não participa do circuito: a taquicardia sinusal, a taquicardia atrial, a atrial multifocal, a fibrilação atrial e o flutter. Nessas, o nó é apenas a porta por onde o átrio conversa com o ventrículo.

A consequência prática é limpa. Se o nó faz parte do circuito, bloqueá-lo por um segundo interrompe a arritmia, e ela acaba. Se o nó é só a porta, bloqueá-lo não desfaz nada lá em cima: a atividade atrial continua exatamente como estava, e o que muda é quanta dela chega ao ventrículo. É por isso que a mesma injeção de adenosina termina uma reentrada nodal e apenas desnuda o flutter — e é por isso que ela funciona ao mesmo tempo como tratamento e como exame, dependendo de qual dos dois grupos estava na sua frente. A diretriz de 2019 lista quatro respostas possíveis à adenosina, e cada uma nomeia um grupo diferente.

Por que o flutter não obedece do mesmo jeito

O flutter atrial comum é uma macrorreentrada que ocupa uma extensa região do átrio direito e passa obrigatoriamente por um corredor anatômico, o istmo cavotricuspídeo. O circuito gira ali em cima com uma frequência própria e notavelmente estável: as ondas F do flutter comum têm frequência entre 240 e 340 por minuto, e as do flutter reverso, entre 340 e 430. O ventrículo não participa desse giro; ele recebe o que o nó atrioventricular deixa passar. O nó, nesse arranjo, é um divisor — e a frequência que você lê no monitor é a frequência atrial dividida por dois, por três ou por quatro.

Três traçados sintéticos de flutter a 300 impulsos atriais por minuto com conduções AV 2:1, 3:1 e 4:1.
Nos exemplos, a atividade atrial permanece em 300/min, enquanto a resposta ventricular é 150, 100 e 75/min. Parte das ondas atriais fica sobreposta aos QRS. O desenho explica a condução AV; não autoriza bloqueio nodal em qualquer taquicardia nem substitui a avaliação de estabilidade e de pré-excitação. Traçado ou esquema sintético para ensino.

Duas coisas seguem daí. A primeira é que a condução dois para um esconde metade das ondas F por baixo dos complexos e da onda T, e produz uma taquicardia regular, de complexo estreito, que se parece com uma reentrada nodal — a diferença é que ela não termina quando o nó é bloqueado, apenas se desmascara. A segunda é o avesso: se alguma coisa desacelerar o circuito atrial até uma frequência que o nó consiga conduzir integralmente, a divisão vira um para um e o ventrículo passa a receber tudo. É o efeito adverso que a diretriz brasileira de fibrilação atrial de 2025 destaca nos antiarrítmicos da classe I C, o chamado flutter de classe I C, capaz de produzir resposta ventricular alta e mal tolerada justamente porque a droga funcionou no átrio.

Quando a origem é o próprio ventrículo

A definição brasileira de taquicardia ventricular é curta e vale decorar: três ou mais batimentos sucessivos, com frequência acima de 100 por minuto, originados abaixo do feixe de His. O estímulo não desce pela via rápida — propaga-se pelo músculo, de célula em célula — e por isso o complexo é largo. A partir dessa origem comum, o que separa os dois grandes tipos é a estabilidade do substrato. Na monomórfica, existe um circuito fixo, quase sempre em torno de uma cicatriz de infarto ou de uma área de fibrose, e como o caminho é sempre o mesmo, todos os complexos saem com a mesma forma. Na polimórfica, não há caminho fixo: o substrato é instável e a forma do complexo muda de batimento para batimento.

Essa diferença de forma não é estética, e é o ponto em que o capítulo inteiro se bifurca. Existem duas polimórficas, e o que as separa não está na taquicardia: está no eletrocardiograma que o paciente tinha antes dela. Se o intervalo QT do traçado basal era longo, a polimórfica é a torção das pontas, mecanismo de atividade deflagrada, e o tratamento é encurtar a repolarização — magnésio, potássio no limite superior da normalidade, retirada das drogas culpadas e, se preciso, estimulação artificial acelerando o coração. Se o QT basal era normal, a polimórfica costuma ser isquêmica, e aí a lógica se inverte: o magnésio não previne a recorrência e as drogas que prolongam o intervalo, contraindicadas na primeira situação, passam a ter lugar. Um mesmo traçado durante a crise, dois tratamentos opostos, e a chave está guardada num papel que talvez ninguém tenha feito.

05

Como se apresenta de verdade

O que segue não são seis diagnósticos: são seis situações de traçado, na ordem em que aparecem no plantão, com o que a história acrescenta a cada uma. Nenhuma delas precisa estar resolvida para que a urgência seja tratada — a urgência se resolve com duas medidas e uma pergunta. Elas precisam estar resolvidas para que a hora seguinte não seja um chute.

Estreito e regular, com começo e fim de interruptor

É a apresentação mais comum do grupo estreito, e a história a denuncia antes do papel. O paciente sabe a hora em que começou, com precisão de minutos, porque foi de uma vez — não houve subida. Quando termina, também termina de uma vez, e algumas pessoas descrevem uma sensação de queda ou de vazio no peito no instante em que para. A frequência costuma ficar entre 150 e 220, o ritmo é rigorosamente regular, e a onda P, quando existe, está escondida dentro ou logo depois do complexo.

É a reentrada nodal em mais da metade das vezes, e a reentrada atrioventricular por via acessória na maior parte do restante. Aos vinte anos, sem cardiopatia, em crises que já aconteceram outras vezes e passaram sozinhas, o cenário é quase sempre esse. O detalhe que muda o capítulo é o eletrocardiograma de depois: se, em ritmo sinusal, aparecer intervalo PR curto e uma subida empastada no início do complexo — a onda delta —, a via acessória existe fora da crise, e a lista de drogas proibidas para aquele paciente muda para sempre.

Há um detalhe da história que vale perguntar sempre e que quase ninguém oferece espontaneamente: o que o paciente faz quando a crise começa. Muita gente que convive com essa arritmia há anos descobriu sozinha alguma manobra que funciona — prender a respiração e fazer força, tossir, molhar o rosto com água gelada, deitar com as pernas para cima. Quando o relato aparece, ele tem valor diagnóstico direto, porque manobra vagal que interrompe a crise é evidência de circuito dependente do nó atrioventricular, colhida em casa e de graça. E tem valor terapêutico: ensinar a manobra correta a quem já vinha improvisando é uma das poucas coisas que este atendimento pode entregar para as próximas crises.

Vale saber o que essa apresentação costuma não ter, porque a ausência também informa. Ela não costuma vir com dor torácica de característica isquêmica, não costuma vir com dispneia progressiva de dias, e não costuma ter início gradual. Quando algum desses elementos aparece junto, a hipótese de reentrada simples enfraquece e o pensamento precisa se abrir para taquicardia sinusal reacional com onda P escondida, para arritmia secundária a isquemia aguda e para descompensação de insuficiência cardíaca com taquicardia atrial associada — três situações em que bloquear o nó não resolve nada e pode piorar.

Estreito e regular a cerca de 150, que é o flutter até que se prove

Uma taquicardia estreita, regular, cuja frequência fica teimosamente perto de 150 e quase não varia com o repouso, com a dor ou com a hidratação, é flutter atrial com condução dois para um até prova em contrário. A conta é a do capítulo anterior: um circuito atrial girando na sua faixa habitual, dividido por dois, cai exatamente nessa vizinhança. A regularidade é o que mais engana, porque a associação mental de todo interno é fibrilação atrial com ritmo irregular — e o flutter de condução fixa é regular como um metrônomo.

Duas manobras desfazem a confusão à beira do leito, e nenhuma custa nada. A primeira é procurar a serra: nas derivações inferiores e em V1, com o papel correndo mais devagar ou com a tira longa, as ondas F aparecem entre os complexos em quem sabe que elas podem estar lá. A segunda é bloquear transitoriamente o nó e olhar: a frequência ventricular cai, o circuito atrial continua girando, e a atividade que estava escondida atrás dos complexos fica exposta. O flutter não termina com essa manobra — e é justamente por não terminar que ele se identifica.

Reconhecer o flutter muda o atendimento em dois pontos concretos, e nenhum deles é a droga da urgência. O primeiro é o risco embólico: flutter e fibrilação atrial compartilham a mesma preocupação com trombo e a mesma régua de decisão antes de qualquer tentativa de reversão, e essa régua é o assunto do capítulo de fibrilação atrial desta apostila. O segundo é o prognóstico do tratamento definitivo: como o circuito passa por um corredor anatômico conhecido, o flutter comum é uma das arritmias mais tratáveis por ablação, com resultados melhores do que os da fibrilação atrial — informação que muda o teor do encaminhamento que você escreve.

Largo e regular: a história decide antes do critério

Complexos largos, todos com a mesma forma, ritmo regular, frequência em geral entre 140 e 200. É a apresentação da cena que abre este capítulo, e é a que não admite otimismo. Existem três explicações possíveis para um complexo largo — origem ventricular, origem supraventricular com um ramo bloqueado, ou descida por uma via acessória — mas elas não são equiprováveis. Quatro em cada cinco são ventriculares, e nove em cada dez quando existe cardiopatia estrutural.

Antes de qualquer critério eletrocardiográfico, três informações da história reposicionam a probabilidade mais do que qualquer algoritmo: infarto prévio, insuficiência cardíaca ou miocardiopatia conhecida, e idade acima dos cinquenta. A quarta, no Brasil, é a origem geográfica e a moradia na infância, pela cardiopatia chagásica. Um paciente que reúne duas dessas tem taquicardia ventricular até que alguém prove o contrário com um traçado, e a prova quase nunca chega a tempo de mudar a conduta da primeira hora. A boa notícia é que ela não precisa: a conduta que serve para a ventricular também não faz mal à supraventricular com aberrância, e o contrário não é verdade.

Largo e mudando de forma: as duas polimórficas

Aqui os complexos são largos e não se repetem: a amplitude e o eixo mudam de batimento para batimento, e na torção das pontas o traçado parece girar em torno da linha de base, com fusos que sobem e descem. É frequentemente autolimitada e recorrente — o que produz uma cena típica, de um paciente que apaga, volta, apaga de novo, com o monitor alternando entre corridas caóticas e ritmo sinusal. Essa autolimitação é o que a diferencia da fibrilação ventricular.

A distinção entre as duas polimórficas se faz no traçado que existia antes, e não no que está correndo agora. Na torção das pontas, o eletrocardiograma basal mostra intervalo QT longo, e costuma haver um culpado identificável: droga que prolonga a repolarização, potássio baixo, magnésio baixo, cálcio baixo, bradicardia. A sequência que a precede também é característica — batimento prematuro, pausa, batimento sinusal, novo prematuro que cai no lugar errado. Na polimórfica de QT normal, a suspeita muda de lado e passa a ser isquemia aguda, o que redireciona o paciente para o caminho da dor torácica.

Existe uma terceira apresentação polimórfica que vale reconhecer porque tem etiologia própria e um nome que o documento brasileiro de laudos define: a taquicardia ventricular bidirecional, em que os complexos alternam batimento a batimento entre uma forma positiva e uma negativa no plano frontal. O padrão nasce de bloqueio alternado das divisões do ramo esquerdo e aparece, classicamente, em três contextos — intoxicação digitálica, miocardiopatia avançada e taquicardia catecolaminérgica familiar, situação sem cardiopatia estrutural em que o achado antecede arritmia polimórfica. Nenhum desses três se trata com o algoritmo padrão, e reconhecer o padrão é o que faz alguém perguntar sobre digital ou sobre histórico familiar de morte súbita.

Largo, irregular e muito rápido: a pré-excitada

É a combinação mais rara deste capítulo e a mais perigosa, e ela se anuncia por três características juntas: complexos largos, ritmo francamente irregular e frequência muito alta, às vezes acima de 250, com complexos que variam de largura de um batimento para outro. O substrato é fibrilação atrial conduzida ao ventrículo por uma via acessória em vez do nó atrioventricular. Como a via acessória não tem a propriedade de segurar impulsos que o nó tem, ela deixa passar uma fração muito maior da bagunça atrial.

O paciente típico é jovem, sem cardiopatia, e pode estar razoavelmente bem no primeiro momento — o que torna a armadilha completa, porque tudo convida a tratar como fibrilação atrial comum. É o único quadro do capítulo em que a droga certa das outras arritmias é a errada desta: qualquer coisa que bloqueie o nó atrioventricular tira da disputa o caminho que estava competindo com a via acessória e aumenta a fração que chega ao ventrículo. A bula do verapamil registra a contraindicação de forma nominal, listando flutter ou fibrilação atrial associada a feixe anômalo entre as situações em que o medicamento não deve ser usado, e a diretriz brasileira de 2019 põe a fibrilação atrial pré-excitada entre as contraindicações absolutas da adenosina.

Duas observações práticas fecham a seção. A primeira é que essa arritmia costuma ser a segunda manifestação, e não a primeira: muitos desses pacientes já tiveram crises de taquicardia regular de complexo estreito antes, tratadas em algum pronto-socorro sem que ninguém tenha olhado o traçado sinusal depois. A fibrilação atrial pré-excitada é o que acontece quando a mesma via acessória, um dia, recebe uma fibrilação em vez de um circuito organizado. A segunda é que a razão pela qual ela é perigosa tem nome fisiológico: o nó atrioventricular tem condução decremental, isto é, quanto mais rápido o estímulo chega, mais devagar ele passa, e é essa propriedade que protege o ventrículo da bagunça atrial. A via acessória, sendo músculo comum, não tem essa propriedade — ela conduz na velocidade que receber.

O paciente que já chegou revertido

Uma fração grande das taquiarritmias paroxísticas termina sozinha — no caminho, na fila, no elevador, na hora em que a técnica está colando o eletrodo. Quando isso acontece, o paciente à sua frente está bem, o exame físico é normal, o eletrocardiograma é de ritmo sinusal, e a tentação de escrever "palpitação, sem alterações" é grande. O problema é que a arritmia existiu, e a única testemunha material dela pode ser a tira que o monitor da classificação de risco imprimiu por dez segundos e ninguém guardou.

Nesse cenário, o eletrocardiograma sinusal deixa de ser um exame normal e passa a ser o exame principal, porque ele guarda as marcas do que aconteceu. Quatro achados mudam completamente o desfecho da noite: intervalo PR curto com empastamento inicial do complexo, que denuncia via acessória; intervalo QT longo, que aponta para a família da torção das pontas; ondas Q de infarto antigo ou distúrbio de condução, que sustentam substrato ventricular; e alterações do segmento ST ou da onda T, que mudam a rota para a da síndrome coronariana. Procurar os quatro leva dois minutos e é o único trabalho realmente insubstituível que se faz num paciente que já voltou ao normal.

06

Como fechar o diagnóstico

O exame que resolve este capítulo custa cerca de trinta reais e leva dez minutos. Tudo o que vem depois — as seis seções abaixo — é sobre como extrair dele mais do que o laudo automático extrai, e sobre os poucos exames de sangue que efetivamente mudam qual droga você vai escrever.

Medir a largura: onde, em qual derivação, e o erro de medir numa só

A largura do complexo é a primeira das duas medidas que decidem, e ela tem um corte único: 120 milissegundos. Na velocidade de registro habitual, isso corresponde a três dos quadradinhos menores da grade. A diretriz brasileira de laudos eletrocardiográficos de 2022 e a de ressuscitação de 2019 fecham o intervalo do mesmo lado: complexo estreito é o de duração menor que 120 milissegundos, e largo é o de duração maior ou igual a 120. O valor exato de 120 é largo.

O erro que se comete na prática não é de aritmética, é de amostragem. A duração do complexo se mede na derivação em que ele parece mais largo, do primeiro desvio da linha de base até o retorno a ela, e derivações diferentes mostram larguras diferentes porque o vetor de despolarização é tridimensional e o eletrodo é um ponto de vista. Medir só em D2 porque é a tira que está impressa maior é como medir a altura de uma pessoa pela sombra de uma hora só. Percorra as doze, escolha a mais larga, meça ali. E quando o traçado for ruim, o eletrodo estiver solto e a medida ficar entre dois e três quadradinhos, considere largo — a assimetria de consequências resolve a dúvida, porque as duas classificações erradas não custam a mesma coisa.

Vale saber por que a medida importa mesmo depois de o paciente estar bem. A largura de 120 milissegundos aparece de novo, com outro sentido, no eletrocardiograma em ritmo sinusal: complexos alargados fora da crise indicam bloqueio de ramo pré-existente, e um bloqueio de ramo pré-existente é a única coisa capaz de tornar plausível a hipótese de supraventricular com aberrância naquele paciente específico. Sem ele, a hipótese perde quase todo o apoio.

Medir a regularidade, e a irregularidade que engana

A segunda medida parece trivial e não é. Regularidade se afere marcando três a quatro intervalos consecutivos na borda de uma folha de papel e deslizando a marca ao longo da tira, ou com o compasso quando existe um. A olho, frequências acima de 160 parecem regulares quase sempre, porque a variação de dez ou quinze milissegundos entre um intervalo e outro é invisível na velocidade padrão. Quem tem dúvida imprime a tira longa e mede.

Existem três irregularidades e elas não significam a mesma coisa. A irregularidade caótica, sem nenhum padrão repetível, é a da fibrilação atrial e a da taquicardia atrial multifocal. A irregularidade em blocos, em que os intervalos se agrupam em dois ou três valores que se repetem, é a do flutter com condução variável — o circuito atrial é constante e o que muda é o divisor. E existe a irregularidade grosseira, com complexos largos que mudam de largura de um batimento para outro, que é a assinatura da fibrilação atrial pré-excitada e a única das três que muda a conduta imediatamente.

Um alerta sobre a regularidade no complexo largo: a taquicardia ventricular monomórfica costuma ser regular, mas não é obrigatoriamente perfeita. Pequenas variações de intervalo, de dez a vinte milissegundos, são compatíveis com ela e não devem ser lidas como argumento a favor de origem supraventricular.

Junto com a regularidade, vale medir a frequência com atenção ao número que ela produz, porque certas faixas carregam hipótese embutida. Uma frequência ventricular teimosamente ao redor de 150 pede que se procure flutter com condução dois para um. Uma frequência acima de 250 em complexo largo e irregular aponta para condução por via acessória, porque o nó atrioventricular dificilmente entrega tanto. E uma frequência que varia com o repouso, com a analgesia ou com a hidratação — em vez de ficar cravada num valor — sugere que aquilo é resposta fisiológica e não circuito, o que muda a conduta de bloquear o nó para tratar a causa.

Por fim, uma advertência que a diretriz de 2019 faz e que fecha as duas medidas: cabe sempre tratar o indivíduo, e não o eletrocardiograma. Um paciente com bloqueio de ramo prévio que desenvolve taquicardia sinusal por sepse produz um registro de complexo largo e frequência alta que pode ser lido como arritmia potencialmente letal. A checagem que desfaz isso é olhar o paciente e a história antes de olhar o papel: existe febre, existe foco, existe hipovolemia, existe dor? Se existe, a taquicardia pode ser a resposta correta de um coração a um problema que está em outro lugar.

A adenosina como exame: as quatro respostas e o que cada uma nomeia

A diretriz brasileira de 2019 lista quatro resultados possíveis quando se bloqueia transitoriamente o nó atrioventricular, seja pela massagem do seio carotídeo, seja pela adenosina, num paciente com taquicardia de complexo estreito. O primeiro é a redução transitória da frequência com a onda P sinusal ficando evidente e o ritmo voltando ao patamar anterior: era taquicardia sinusal, e a conduta passa a ser procurar a causa. O segundo é o aparecimento de bloqueio atrioventricular que revela atividade atrial rápida e organizada por trás dos complexos: era taquicardia atrial ou flutter, e a arritmia volta ao que era quando a droga acabar.

O terceiro é o término da taquicardia: o circuito dependia do nó, e portanto era reentrada nodal ou reentrada atrioventricular. O quarto é a ausência de resposta, que não é um resultado negativo e sim um resultado que mantém o diagnóstico aberto — inclusive, lembra a diretriz, a hipótese de taquicardia ventricular com complexo aparentemente estreito. É o momento de refazer as duas medidas no traçado de doze derivações antes de escolher a droga seguinte.

Nada disso funciona se ninguém estiver olhando. O efeito da adenosina dura menos de cinco a dez segundos, e a janela em que a resposta é visível é mais curta do que o tempo de imprimir um eletrocardiograma. A regra é operacional: a tira de ritmo precisa estar correndo, em papel, antes de a seringa ser empurrada, e alguém precisa estar com os olhos no monitor durante a injeção. Uma adenosina dada sem registro gasta a dose, expõe o paciente ao desconforto e não produz informação nenhuma.

Dissociação, fusão e captura: os três achados que fecham a origem ventricular

A diretriz brasileira de 2019 é honesta sobre os algoritmos de diagnóstico diferencial do complexo largo: diz que são complexos e muitas vezes imperfeitos. Isso não significa que o traçado não tenha nada a dizer. Existem três achados que, quando presentes, praticamente encerram a discussão a favor da origem ventricular — e a razão de os três serem tão fortes é a mesma: todos demonstram que os átrios e os ventrículos estão batendo independentemente, o que só acontece quando a arritmia nasceu embaixo.

O primeiro é a dissociação atrioventricular propriamente dita: ondas P visíveis, com ritmo próprio e frequência menor, atravessando os complexos sem relação fixa com eles. Procura-se onde a linha de base é mais limpa, normalmente V1 e as derivações inferiores, e o achado é sutil — uma deformidade que aparece e some no mesmo ponto da onda T. O segundo é o batimento de fusão, definido no documento de laudos como o batimento em que a despolarização vinda do ventrículo se soma à que veio de cima, produzindo um complexo de morfologia híbrida, intermediária entre o sinusal e o da taquicardia. O terceiro é o batimento de captura, em que um estímulo supraventricular consegue atravessar a junção e despolarizar o ventrículo por inteiro, produzindo, no meio de uma corrida de complexos largos, um complexo estreito isolado.

Os três são específicos e pouco sensíveis: quando aparecem, valem muito; quando não aparecem, não valem nada. E há uma consequência prática que interessa mais do que a lista: para procurá-los é preciso ter uma tira longa, de pelo menos dez segundos, em mais de uma derivação. O eletrocardiograma padrão de doze derivações, com três segundos por derivação, frequentemente não contém nenhum dos três simplesmente porque foi curto demais.

Uma armadilha específica merece registro porque é do tipo que só se aprende errando. A diretriz de 2019 lista, entre as causas de complexo largo que não são taquicardia ventricular, a taquicardia mediada por marca-passo e a taquicardia supraventricular com hipercalemia. A primeira se resolve olhando para o tórax do paciente e procurando a cicatriz do gerador, e ela exige interrogação do aparelho, não antiarrítmico. A segunda se resolve com uma dosagem de potássio, e é um lembrete de que nem todo complexo largo veio de um circuito: um potássio muito alto alarga o complexo de qualquer origem e produz um traçado que imita arritmia ventricular. Tocar o tórax e colher o potássio são dois gestos de dez segundos que mudam o diagnóstico de categoria.

A história pregressa pesa mais do que qualquer critério do traçado

Esta seção é curta porque a mensagem é uma só, e ela contraria a intuição de quem está aprendendo a ler eletrocardiograma. Nenhum critério morfológico do traçado tem, isoladamente, o poder discriminante que tem a pergunta "este paciente já infartou?". A diretriz brasileira de 2019 registra que a proporção de origem ventricular sobe de cerca de 80% para 90% na presença de cardiopatia estrutural, e essa é a maior variação de probabilidade que qualquer informação isolada produz neste cenário.

As perguntas que realmente mudam a estimativa, em ordem de peso, são: infarto prévio; insuficiência cardíaca ou miocardiopatia conhecida; idade; e, no Brasil, origem em área endêmica de doença de Chagas com moradia em casa de pau a pique na infância. A elas se soma uma pergunta de sinal contrário: existe eletrocardiograma antigo mostrando bloqueio de ramo com a mesma morfologia do complexo de agora? Se existir, e se as morfologias forem idênticas, a hipótese supraventricular com aberrância deixa de ser um argumento de conveniência e passa a ter base. Sem esse traçado antigo, ela é apenas o desejo de que o caso seja mais simples do que é.

Vale registrar o que essa investigação não decide. Ela não decide a conduta da primeira hora, que é a mesma com ou sem o nome — e essa independência é deliberada, porque o custo de esperar o nome se mede em minutos de perfusão. Ela decide o que se prescreve depois, o que se escreve no encaminhamento e o que o cardiologista vai conseguir responder na consulta que talvez demore quatro meses.

Os exames que mudam a droga

A lista útil é curta, e cada item responde a uma pergunta que altera a prescrição. Potássio e magnésio séricos são os dois primeiros, e não porque um valor baixo seja surpresa: é porque a torção das pontas se trata repondo os dois mesmo com dosagem normal, e porque um potássio baixo mantém a arritmia recorrendo depois de qualquer reversão bem-sucedida. Creatinina e ureia entram porque o sulfato de magnésio se acumula na insuficiência renal e porque a dose de várias drogas depende delas — o ajuste fino pertence ao capítulo de ajuste de dose na disfunção renal, e a reposição do potássio, ao capítulo de potássio na enfermaria, ambos na apostila de prescrição.

O eletrocardiograma em ritmo sinusal é o terceiro exame, e é o mais importante da lista, embora não seja de sangue: sem ele não se sabe se o QT era longo, o que decide qual polimórfica você tratou. Hemograma e função tireoidiana entram no segundo tempo, junto com a revisão da lista de medicamentos em uso — inclusive os que o paciente não considera remédio, como xarope de gripe, inibidor de apetite e chá para emagrecer. A troponina merece uma frase de cautela: ela sobe por taquicardia sustentada sem que exista lesão coronariana aguda, e uma troponina discretamente elevada depois de trinta minutos a 190 por minuto não fecha diagnóstico de infarto. Ela pede interpretação junto com o segmento ST e com a história, e essa é conversa do capítulo de dor torácica.

Sobre a rotina do serviço, há um dado que não é laboratorial e vale mais que vários exames: o que existe no carrinho. A relação nacional de medicamentos essenciais de 2024 não traz adenosina em componente algum, e não traz nenhum betabloqueador por via intravenosa — o metoprolol consta apenas como comprimido de succinato e de tartarato, e o propranolol apenas como comprimido de 10 e 40 miligramas. Do lado do que existe, a lista garante amiodarona e verapamil por via injetável, sulfato de magnésio nas duas concentrações, e lidocaína a 1% e a 2%. A consequência é direta: em boa parte dos serviços brasileiros, a droga do algoritmo internacional para a taquicardia estreita e regular não está na gaveta, e a segunda linha padronizada é o antagonista do cálcio.

A lista essencial descreve o que o país garante, não o que o seu hospital tem — e a distância entre as duas coisas é grande nos dois sentidos. Hospital de referência costuma comprar adenosina e diltiazem fora da lista essencial; num pronto atendimento de município pequeno, o carrinho tende a se resumir a amiodarona, magnésio e sulfato de atropina. Duas ausências valem antecipação. A procainamida, que vários algoritmos internacionais colocam como primeira escolha no complexo largo estável, não tem comercialização no Brasil, e a diretriz de 2019 registra essa ausência ao colocar a amiodarona no lugar. A flecainida e a ibutilida, citadas pela mesma diretriz como muito eficazes na reversão química, também não estão disponíveis no país — o que explica por que a leitura de material estrangeiro sobre este tema produz um plano que não se executa aqui.

A régua prática não é decorar a relação nacional. É abrir a gaveta do carrinho no primeiro dia de escala, conferir o que existe, e saber de antemão qual será o seu plano quando faltar o item central. Se não houver adenosina, o plano para a taquicardia estreita e regular estável já começa no antagonista do cálcio, com a avaliação de função ventricular feita antes. Se não houver desfibrilador com modo sincronizado funcionando, o plano para o instável é transferência com regulação, e essa informação precisa ser sabida antes de o paciente chegar, não descoberta com ele na maca.

07

Do traçado ao nome, e do nome ao que muda

Leia o ritmo em uma ordem que permita agir: pulso, estabilidade, regularidade e largura do QRS. A localização provável do circuito ajuda a escolher a intervenção, mas a instabilidade não espera a classificação completa. Ao estudar as drogas, relacione cada uma ao mecanismo e às situações em que bloquear o nó atrioventricular pode causar dano. A sequência abaixo não é o algoritmo da urgência — esse já foi resolvido antes de o capítulo começar, com duas medidas e uma pergunta. É o roteiro da hora seguinte, o que se faz depois que a arritmia parou, e é nele que o nome aparece. A tabela principal liga cada padrão de traçado ao nome provável e ao que o nome muda; as duas tabelas seguintes trazem o que precisa estar afixado no carrinho, a conversão de miligrama para mililitro e para ampola e a pergunta que separa as arritmias que o bloqueio do nó interrompe das que ele apenas revela.

  1. 1Reverteu, espontaneamente ou por droga ou por choque. Antes de o paciente sair do leito e antes de qualquer conversa: eletrocardiograma de doze derivações em ritmo sinusal, agora. Depois de o paciente sentar, andar até o banheiro e trocar de maca, esse traçado deixa de ser comparável.
  2. 2Guarde a tira da crise. Se o registro existe apenas na memória do monitor, imprima e assine. Se o único registro é o da classificação de risco, vá buscá-lo. O par de traçados — crise e ritmo sinusal — é o produto insubstituível deste atendimento, e é o que permite a alguém dizer, semanas depois, qual arritmia era.
  3. 3No traçado sinusal, meça o intervalo QT e corrija pela frequência. Um QT longo depois de uma taquicardia de complexo largo e polimórfico transforma retrospectivamente o que você tratou, e muda a lista de medicamentos que aquele paciente não pode mais receber.
  4. 4No mesmo traçado, procure intervalo PR curto com empastamento inicial do complexo. Se houver, existe via acessória, e a prescrição de alta muda: nenhum bloqueador do nó atrioventricular sem avaliação especializada.
  5. 5Ainda no mesmo traçado, procure ondas Q de infarto antigo, bloqueio de ramo, sinais de sobrecarga ventricular e alterações do segmento ST ou da onda T. Cada um desses achados leva o caso para um capítulo diferente, e a decisão de destino sai daí.
  6. 6Colha potássio, magnésio, creatinina e ureia. Reponha potássio e magnésio mirando o limite superior da normalidade quando a arritmia foi ventricular, mesmo com dosagem normal. Revise a lista de medicamentos do paciente à procura de quem prolonga a repolarização.
  7. 7Escreva no prontuário o nome que o par de traçados permite escrever — e, quando ele não permitir, escreva isso com todas as letras. "Taquicardia de complexo estreito e regular, revertida com adenosina, provável reentrada dependente do nó atrioventricular, sem traçado prévio para comparação" é uma frase honesta e útil. "Taquicardia supraventricular" sem qualificação é um rótulo que não sobrevive à primeira pergunta do cardiologista.

Sincronizado quer dizer que o aparelho espera a onda R

Em cima, o aparelho marcou cada complexo e vai disparar sobre a onda R, no instante em que o ventrículo já está despolarizado. Embaixo, sem sincronismo, o choque cai onde calhar — e a seta mostra o pior lugar possível, a fase vulnerável da repolarização, onde um estímulo elétrico pode desencadear fibrilação ventricular. Como a maioria dos monitores abandona o modo sincronizado assim que descarrega, a tecla precisa ser reativada e olhada na tela a cada nova tentativa, e não só na primeira. Há uma única exceção deliberada, e ela é o avesso: no ritmo polimórfico, o aparelho não consegue reconhecer ondas R que mudam de forma a cada batimento, fica procurando e não dispara. Nesse caso o correto é desligar o sincronismo e desfibrilar.

Padrão do traçadoNome provávelComo se confirma, se derO que o nome muda depois
Estreito, regular, início e fim súbitosReentrada nodal em mais da metade; reentrada atrioventricular por via acessória na maior parte do restoTermina ao bloquear o nó; a distinção entre as duas se faz por estudo eletrofisiológico, não à beira do leitoAbre a porta da ablação, que é curativa; e obriga a procurar pré-excitação no traçado sinusal
Estreito, regular, frequência perto de 150 e pouco variávelFlutter atrial com condução dois para umNão termina ao bloquear o nó: a frequência cai e as ondas F aparecem entre os complexosPassa a valer a mesma régua embólica da fibrilação atrial, discutida no capítulo próprio desta apostila
Estreito e irregular, sem padrão repetívelFibrilação atrial; flutter de condução variável; taquicardia atrial multifocalA distinção se faz pela linha de base entre os complexos e pela morfologia da onda PLeva o caso inteiro para o capítulo de fibrilação atrial, que é onde vivem o escore de risco e a anticoagulação
Largo, regular, complexos todos iguaisTaquicardia ventricular monomórfica em quatro de cada cinco casos, e em nove de cada dez com cardiopatia estruturalDissociação atrioventricular, batimento de fusão ou batimento de captura na tira longaIndica investigação de prevenção secundária de morte súbita, com avaliação de cardioversor-desfibrilador implantável
Largo, mudando de forma a cada batimentoTaquicardia ventricular polimórfica: torção das pontas se o QT basal era longo, provável isquemia se era normalO intervalo QT do eletrocardiograma em ritmo sinusal, medido depoisDefine duas listas opostas de drogas proibidas e permitidas, e no QT normal redireciona para a rota da isquemia
Largo, irregular, muito rápido, largura variando entre batimentosFibrilação atrial conduzida por via acessóriaEmpastamento inicial do complexo e intervalo PR curto no traçado sinusal, depois da reversãoMarca o paciente como alguém para quem bloqueador do nó atrioventricular é contraindicado, e o encaminha para ablação

Miligrama, mililitro e ampola: as contas refeitas contra a apresentação de bula

Fármaco e apresentaçãoA dose como se escreveEm mililitrosEm ampolasNa Rename 2024
Adenosina 3 mg/mL, ampola de 2 mL — 6 mg por ampola6 mg na primeira dose; 12 mg na segunda e na terceira2 mL; depois 4 mL e 4 mL1 ampola; depois 2 e 2, num total de 5Não consta em nenhum componente
Adenosina 3 mg/mL — dose reduzida3 mg em uso de dipiridamol ou carbamazepina, no transplantado cardíaco e em acesso venoso central1 mLMeia ampolaNão consta
Cloridrato de amiodarona 50 mg/mL, ampola de 3 mL — 150 mg por ampola150 mg em 10 minutos; até 450 mg no total pelo protocolo nacional de suporte avançado3 mL por dose, 9 mL no total1 ampola por dose, 3 no totalComponente Básico: injetável 50 mg/mL e comprimido de 200 mg
Cloridrato de amiodarona — diluiçãoA bula exige glicose a 5% exclusivamente e concentração não inferior a 600 mg por litro150 mg admitem no máximo 250 mL de diluente; em 100 mL a concentração fica em 1.500 mg por litro1 ampola em 100 mLIdem acima
Sulfato de magnésio 10%, ampola de 10 mL — 1 g por ampola1 a 2 g na torção das pontas10 a 20 mL1 a 2 ampolasComponente Básico: injetável a 10%, declarado como 0,81 mEq de magnésio por mL
Sulfato de magnésio 50%, ampola de 10 mL — 5 g por ampolaA mesma dose de 1 a 2 g2 a 4 mLUm quinto a dois quintos de uma ampolaComponente Básico: injetável a 50%, declarado como 4,05 mEq de magnésio por mL
Cloridrato de verapamil 2,5 mg/mL2,5 a 5 mg lentos; repetir 5 a 10 mg após 15 a 30 minutos, até 20 mg no total1 a 2 mL na primeira dose; 8 mL somam os 20 mgNão afirmado: a bula da apresentação injetável não foi lidaComponente Básico: injetável 2,5 mg/mL e comprimidos de 80 e 120 mg
Metoprolol e propranolol por via intravenosaMetoprolol 5 mg lentos até 15 mg; propranolol 1 mg a cada 5 minutos até 5 mgDepende da apresentação disponível no serviçoNão aplicávelNenhum betabloqueador injetável consta: metoprolol só como comprimido, propranolol só como comprimido de 10 e 40 mg

O nó atrioventricular faz parte do circuito, ou é só a porta?

ArritmiaO circuito usa o nó?O que bloquear o nó produz
Reentrada nodalSim — as duas vias do circuito estão dentro do próprio nóA taquicardia termina. É tratamento e é diagnóstico ao mesmo tempo
Reentrada atrioventricular por via acessória, com o estímulo descendo pelo nóSim — o nó é o braço descendente da alçaA taquicardia termina, e o paciente continua tendo a via acessória depois
Taquicardia sinusalNão — o nó apenas conduzA frequência cai por instantes, a onda P fica evidente e o ritmo volta ao que era. Sinal de que a conduta é tratar a causa
Taquicardia atrial e flutter atrialNão — o circuito ou o foco está no átrioAparece bloqueio transitório que desnuda a atividade atrial. Diagnóstico, não tratamento
Fibrilação atrial com condução pelo nóNãoA resposta ventricular cai enquanto a droga durar. É controle de frequência, e a arritmia segue
Fibrilação atrial conduzida por via acessóriaNão — e a via acessória compete com o nóPerigo: tira da disputa o caminho concorrente e pode acelerar a resposta ventricular. Contraindicação formal
Taquicardia ventricularNão — a origem está abaixo do feixe de HisNada de útil. E o bloqueador do nó por via intravenosa pode derrubar a pressão de quem já tem pouco débito

A primeira nota é sobre o que a tabela principal não faz. Ela não substitui a pergunta da instabilidade, que continua vindo antes de tudo e que não depende de nenhuma das colunas: paciente instável por causa da arritmia recebe cardioversão elétrica sincronizada, sob sedação, qualquer que seja o ritmo, sem esperar droga. A tabela começa a valer no minuto seguinte a essa decisão.

Um paciente com exatamente 100 batimentos por minuto está taquicárdico? Depende de qual documento da mesma sociedade se consulta. A diretriz brasileira sobre emissão de laudos eletrocardiográficos, de 2022, define taquicardia sinusal como o ritmo sinusal com frequência superior ou igual a 100 — o valor exato entra. A atualização da diretriz de ressuscitação, de 2019, abre o capítulo das taquicardias dizendo que ritmo taquicárdico é aquele cuja frequência é superior a 100 — o valor exato fica de fora. E a ficha AC14 do protocolo nacional de suporte avançado usa como critério de inclusão frequência maior que 100 com sintomas, também excluindo o valor exato. Cem batimentos por minuto é, portanto, taquicardia sinusal para quem lauda e não é taquicardia para quem atende. Na prática nada muda, porque ninguém trata frequência de 100; a lição é sobre desigualdade estrita, que é o mesmo defeito que aparece em cortes onde a decisão realmente muda.

Um erro de faixa dentro de um único parágrafo da diretriz de laudos de 2022. O texto diz que, no flutter atrial comum, as ondas F têm frequência entre 240 e 340 por minuto, e que, no flutter atrial reverso, as ondas F têm frequências mais elevadas, entre 340 e 430. As duas faixas são fechadas nos dois extremos e compartilham o valor 340: uma onda F de exatamente 340 por minuto pertence às duas classes ao mesmo tempo. O defeito é mais fundo do que o número, porque o que separa o flutter comum do reverso não é frequência nenhuma — é o sentido do giro no istmo cavotricuspídeo, anti-horário em cerca de 90% dos casos e horário no restante. Usar a frequência como critério de classificação, além de deixar um valor em dois lugares, mede a coisa errada.

A definição de taquicardia ventricular sustentada, na mesma diretriz de 2022, tem dois problemas na mesma frase. Ela classifica a arritmia como sustentada ou não sustentada conforme o período seja "ou não superior a 30 s e/ou sem sintomas de instabilidade hemodinâmica". Primeiro: como a desigualdade é estrita, uma corrida de exatamente 30 segundos não é superior a 30 segundos e cai na classe não sustentada, ao contrário da convenção internacional, que usa trinta segundos ou mais. Segundo, e mais grave: a conjunção "e/ou" deixa sem resposta o caso que mais importa, o da corrida curta que derruba o paciente. Uma taquicardia ventricular de 12 segundos com síncope é não sustentada pela duração e sustentada pelo critério hemodinâmico, e a frase não diz qual dos dois vence. A leitura segura é a que a literatura consolidou: trinta segundos ou mais, ou menos que isso quando exigiu intervenção imediata por colapso hemodinâmico.

A conta mais séria deste capítulo é a do sulfato de magnésio, e ela está inteira dentro de uma única bula. O documento estabelece, na seção de infusão intravenosa, que a velocidade de injeção não deve exceder 150 mg por minuto, e explicita a equivalência entre parênteses: 1,5 mL da solução a 10%, que são exatamente 150 mg. A equivalência confere. Oito parágrafos adiante, na seção de outros usos, a mesma bula prescreve, para taquicardia atrial paroxística, de 3 a 4 g — 30 ou 40 mL da solução a 10%, e essa conversão também confere — administrados "cautelosamente por via intravenosa, durante 30 segundos". Trinta segundos são meio minuto: 3 g em meio minuto são 6.000 mg por minuto, e 4 g são 8.000 mg por minuto. Isso é 40 a 53 vezes o teto que a própria bula declarou. A palavra "cautelosamente" não conserta a aritmética.

A mesma régua alcança a diretriz de 2019, com magnitude bem menor e consequência real. Ela prescreve, para a torção das pontas, 1 a 2 g de sulfato de magnésio a 50% em 5 a 20 minutos. No extremo rápido dessa janela, 1 g em 5 minutos são 200 mg por minuto e 2 g em 5 minutos são 400 mg por minuto — acima do teto de 150 mg por minuto da bula. Para respeitá-lo, 1 g precisa de pelo menos 6 minutos e 40 segundos, e 2 g de pelo menos 13 minutos e 20 segundos: ou seja, os primeiros dois terços da janela recomendada rompem o limite do fabricante. A ficha AC14 do protocolo nacional vai além e prescreve 1 a 2 g "em bolus", que por definição é mais rápido que qualquer um desses tempos. Há ainda um segundo ponto: a bula exige diluir a até 20% antes da via intravenosa, e a solução a 50% que a diretriz nomeia está acima disso. Como a torção das pontas instável é situação de risco imediato de vida, a decisão de correr mais rápido pode ser defensável — mas ela precisa ser tomada sabendo que é uma decisão, e não seguindo uma dose como se não houvesse conflito.

A amiodarona tem dois desencontros, ambos verificáveis. O primeiro é de intervalo: o Quadro 5.10 da diretriz de 2019 diz que a dose de ataque de 150 mg pode ser repetida a cada 10 a 20 minutos, enquanto a bula determina que a injeção intravenosa não deve ser repetida antes de 15 minutos da primeira, mesmo que tenha sido apenas uma ampola, pelo risco de colapso circulatório. Existe, portanto, uma janela de 5 minutos em que a diretriz autoriza o que a bula proíbe. O segundo é de teto por peso: a bula prescreve manutenção de 10 a 20 mg por quilo por dia e, entre parênteses, na mesma linha, declara o teto de 1.200 mg em 24 horas. As duas metades da frase brigam a partir de 60 quilos, porque 20 mg por quilo em alguém de 70 quilos são 1.400 mg. Somando o ataque máximo previsto pela própria bula — 5 mg por quilo repetidos até três vezes — a um paciente de 70 quilos chega-se a 2.450 mg em 24 horas, acima do teto de 2,2 g que a diretriz de 2019 estabelece. Na prática hospitalar brasileira ninguém chega perto disso, mas quem escreve a prescrição precisa saber que os dois documentos não fecham.

Conferências que fecharam, e que vale registrar porque o valor de uma auditoria está tanto no que ela confirma quanto no que ela encontra. As equivalências de miligrama para mililitro e para ampola da adenosina estão corretas na bula em todos os pontos: 3 mg são meia ampola, 6 mg são uma e 12 mg são duas, com a concentração de 3 mg por mL em ampola de 2 mL. A relação nacional de 2024 declara o sulfato de magnésio a 10% como 0,81 mEq de magnésio por mL e o a 50% como 4,05 mEq por mL; recalculando pela massa molar do sal heptaidratado, os valores são 0,811 e 4,057, e a razão entre as duas apresentações é exatamente cinco — que é a razão que mata quando alguém troca uma ampola pela outra. E a concentração mínima de infusão da amiodarona, de 600 mg por litro, é respeitada com folga pela diluição de 150 mg em 100 mL que a diretriz de 2019 indica, que resulta em 1.500 mg por litro; a diluição de 150 mg em 250 mL, comum na prática, cai exatamente no limite.

Sobre a energia da cardioversão no traçado estreito e irregular, há uma discrepância de citação que não é aritmética mas é do mesmo gênero. A diretriz brasileira de fibrilação atrial de 2025 afirma que, havendo instabilidade hemodinâmica, a cardioversão sincronizada deve ser feita de imediato com 200 J bifásicos, e apoia a frase em duas referências, uma delas a atualização da diretriz de ressuscitação de 2019. Essa atualização, no entanto, recomenda para a mesma situação a faixa de 120 a 200 J bifásicos, com classe IIa e nível de evidência A — e a ficha AC14 do protocolo nacional repete a mesma faixa. Um documento de 2025 converteu uma faixa em um número único citando como fonte um documento que publica a faixa. Escolher 200 J na sala de emergência é defensável e provavelmente é o que a maioria faz; atribuir esse número à diretriz de 2019 é que não se sustenta.

Falha de uma tentativa farmacológica não define, por si só, instabilidade hemodinâmica. Instabilidade se reconhece por hipotensão com repercussão, choque, alteração de consciência, isquemia ou insuficiência cardíaca aguda atribuíveis à arritmia. Na taquicardia regular persistente, reavalie o diagnóstico, as contraindicações e o que já foi administrado. Cardioversão sincronizada pode ser indicada também no paciente estável quando o tratamento farmacológico falha ou é contraindicado; deve ser organizada com monitorização, sedação quando viável e supervisão, evitando empilhar bloqueadores nodais sem plano. Essa decisão não exige rebatizar o paciente como instável.

08

A conduta, hora a hora

Os marcos abaixo não estão organizados por relógio, e sim por arritmia — porque a decisão que depende do relógio, a da instabilidade, cabe no primeiro deles e não volta mais. Do segundo em diante, o pressuposto é que o paciente está estável, que o traçado de doze derivações já foi feito durante a crise e antes de qualquer medicação, e que alguém está com os olhos no monitor. Nenhum marco deve ser executado sem que o desfibrilador esteja ligado, com as pás ou as pás adesivas ao alcance da mão.

  1. Antes de qualquer nome — a decisão que encurta o capítulo a uma linha

    Monitorize o ritmo, ponha o oxímetro, meça a pressão, garanta uma veia grossa e cheque a glicemia capilar. Oxigênio só se a saturação estiver baixa ou o esforço respiratório aumentado. Então a pergunta: existe alteração do nível de consciência, hipotensão ou outro sinal de choque, dor torácica anginosa, congestão pulmonar ou insuficiência cardíaca aguda? Some dispneia e queda de saturação. Um item basta, e a diretriz de 2019 dá o número que ancora a suspeita — pressão sistólica abaixo de 90. Faltam duas perguntas de contexto antes de agir: a instabilidade é atribuível à taquicardia, ou existe uma causa que a explica melhor, como sepse, sangramento, hipovolemia, dor ou hipóxia? E o início foi súbito, com ritmo constante? Diante de instabilidade causada pela arritmia, a resposta é uma só e não tem ramificações: cardioversão elétrica sincronizada, sob sedação, qualquer que seja o ritmo, sem esperar droga nenhuma. Não atrase o procedimento por causa da sedação. Chame ajuda enquanto prepara. Se a pergunta foi respondida com "não", o paciente está estável, e o restante deste bloco passa a valer. É aqui que o interno mais hesita, e a hesitação tem sempre a mesma forma: querer o nome da arritmia antes de agir. O nome não muda esta linha. Vale ter em mente um número de contexto que a diretriz de 2019 oferece e que ajuda a calibrar a suspeita nos casos limítrofes: salvo disfunção ventricular importante, é consenso entre especialistas que apenas frequências acima de 150 produzem sintomas de comprometimento hemodinâmico. Isso significa que uma frequência de 115 com hipotensão pede que se procure outra causa para a hipotensão antes de cardioverter — e que uma frequência de 190 com hipotensão em quem tem ventrículo doente dispensa qualquer procura adicional. E uma advertência sobre a sedação: ela é obrigatória em quem está consciente e não pode ser motivo de atraso, o que na prática significa preparar a droga enquanto o aparelho carrega, e não antes de ligá-lo.

  2. Estreito e regular — parar o circuito que depende do nó

    Comece pela manobra vagal, feita direito e com a tira de ritmo correndo. A manobra de Valsalva se faz pedindo ao paciente que force a expiração contra a glote fechada: o dorso da mão dele na boca para impedir a saída de ar, o nariz ocluído, a mão do profissional sobre o abdome para criar resistência. A massagem do seio carotídeo é a alternativa, com o paciente em decúbito dorsal e o pescoço em hiperextensão, pressão estável abaixo do ângulo da mandíbula, na altura da cartilagem tireoide, por 5 a 10 segundos; se não houver resposta, pode-se repetir do outro lado após 2 minutos. Ela é resposta do tipo tudo ou nada: interrompa assim que a frequência começar a cair. As contraindicações são para saber de cor, e as duas fontes brasileiras não dizem exatamente a mesma coisa. A diretriz de 2019 contraindica sopro carotídeo, acidente vascular cerebral ou ataque isquêmico transitório prévios, infarto nos últimos seis meses e história de arritmia ventricular grave. A ficha AC14 acrescenta idade acima de 60 anos e qualquer suspeita de vasculopatia, incluindo obesidade e diabetes. Some as duas listas: quem sobra é um paciente jovem, sem sopro, sem histórico vascular — e é justamente ele quem mais responde. Toda massagem se faz sob monitorização eletrocardiográfica e pressórica. As complicações descritas não são triviais e justificam o rigor: hipotensão importante, bradicardia com bloqueio avançado, síncope, acidente vascular cerebral e arritmias. Duas regras de execução fecham o marco. A primeira: a tira de ritmo precisa estar correndo em papel durante a manobra, porque o que acontece com o traçado enquanto o nó é bloqueado é informação diagnóstica mesmo quando a arritmia não termina — e essa informação não se recupera depois. A segunda: não faça massagem carotídea bilateral simultânea, nunca, e espere os dois minutos antes de trocar de lado.

  3. Estreito e regular que não reverteu — a adenosina como procedimento

    A adenosina só funciona se for injetada como se injeta adenosina, porque a meia-vida é de menos de 5 a 10 segundos e a droga precisa chegar ao coração antes de ser degradada. Escolha a veia mais calibrosa e mais proximal disponível, de preferência na fossa antecubital. Use uma torneira de três vias com a seringa da droga em uma saída e uma seringa com 20 mL de soro fisiológico na outra. Empurre os 6 mg em um a dois segundos e, sem pausa, os 20 mL de soro; eleve o membro por 10 a 20 segundos. Avise o paciente antes, porque o efeito é assustador e passageiro. Se não reverter em um a dois minutos, a segunda dose é de 12 mg, com o mesmo cuidado, e o protocolo nacional admite considerar uma terceira, também de 12 mg — a bula registra que doses únicas superiores a 12 mg não são recomendadas. Reduza para 3 mg em três situações: uso de dipiridamol ou de carbamazepina, transplante cardíaco e injeção por acesso venoso central. Não use em bloqueio atrioventricular de segundo ou terceiro grau, disfunção do nó sinusal e fibrilação atrial pré-excitada, que são contraindicações absolutas; evite no asmático; e saiba que ela é ineficaz em quem usa metilxantinas. Se não houver adenosina no serviço, e frequentemente não haverá, o marco seguinte já é o caminho. Sobre o que esperar: efeitos colaterais ocorrem em até 60% dos casos e a lista é ampla — rubor facial, dor torácica, dispneia em cerca de 12%, cefaleia em 8% a 25%, tontura em 20%, e bloqueio atrioventricular transitório de qualquer grau, que é o efeito pretendido. A droga também pode desencadear extrassistolia ventricular e corridas curtas de taquicardia ventricular, o que é mais uma razão para o desfibrilador estar ligado. Nada disso é motivo para não usá-la; é motivo para avisar o paciente antes e para não interpretar a pausa de dois ou três segundos que às vezes se segue à reversão como uma complicação.

  4. Estreito e regular refratário — uma droga, até a dose máxima, e só uma

    Aqui a escolha depende do ritmo, da repercussão e das contraindicações; uma pergunta essencial é se existe disfunção ventricular. A ausência de congestão no exame não prova função sistólica preservada: integre história, exames prévios e ecocardiografia quando disponível. Procure jugulares ingurgitadas com o tronco a 45 graus, fígado palpável abaixo do rebordo, edema de tornozelos, ictus desviado ou área cardíaca aumentada, e história prévia de insuficiência cardíaca. Com função ventricular preservada, entram os bloqueadores do nó de ação prolongada. O verapamil se faz com 2,5 a 5 mg intravenosos lentos, repetíveis com 5 a 10 mg após 15 a 30 minutos, até um total de 20 mg; o diltiazem, com 0,25 mg por quilo em 2 minutos, repetível com 0,35 mg por quilo após 15 minutos. Ambos estão contraindicados em graus avançados de bloqueio, insuficiência cardíaca, choque cardiogênico e hipotensão, e o verapamil tem contraindicação nominal em flutter ou fibrilação atrial associada a feixe anômalo e em uso simultâneo de betabloqueador intravenoso. Com disfunção ventricular, reavalie o ritmo e discuta a estratégia com cardiologia; amiodarona ou digital podem ter papel em situações selecionadas de controle de resposta atrial, mas não substituem automaticamente o tratamento de toda taquicardia regular. E vale a regra que a diretriz de 2019 escreve em uma linha: exceto a adenosina, antiarrítmicos não se administram em sequência. Reavalie resposta e tolerância a cada dose; não é obrigatório chegar ao teto se houver deterioração. Se a terapia falhar ou for contraindicada, considerar cardioversão sincronizada com suporte e sedação quando viável, mesmo que a estabilidade se mantenha. Duas ressalvas de execução. A primeira é sobre a via: nem antagonista do cálcio nem betabloqueador intravenoso devem ser dados a quem tem suspeita clínica de disfunção sistólica, e a bula do verapamil contraindica nominalmente o uso simultâneo de betabloqueador por via intravenosa — de modo que a segunda droga, se houver, nunca é a outra classe. A segunda é sobre o que se espera: nessa altura o objetivo já pode ter deixado de ser reverter e passado a ser controlar a frequência enquanto o cardiologista é acionado, e essa mudança de objetivo precisa ser dita em voz alta para a equipe, porque ela altera o que se considera sucesso nos próximos vinte minutos.

  5. Largo e regular — tratar como ventricular, com a ampola certa e o relógio na mão

    A recomendação nacional é explícita: taquicardia de complexo largo deve ser interpretada como ventricular enquanto o diagnóstico não estiver esclarecido. A droga de primeira escolha no Brasil é a amiodarona, porque procainamida e ajmalina, que vários algoritmos internacionais preferem, não têm comercialização no país. São 150 mg — uma ampola de 3 mL — infundidos em 10 minutos. Três detalhes de preparo que a bula exige e os protocolos de emergência não repetem: dilua exclusivamente em glicose a 5%, nunca em soro fisiológico e nunca misturando outro produto na mesma seringa ou na mesma linha; não use concentração inferior a 600 mg por litro, o que significa no máximo 250 mL de diluente para os 150 mg; e não repita a injeção antes de 15 minutos, mesmo que tenha sido só uma ampola, pelo risco de colapso circulatório. O protocolo nacional permite repetir até o total de 450 mg. Vigie a pressão durante a infusão inteira — a hipotensão da amiodarona é dose e velocidade dependente. E mantenha o limiar de cardioversão baixo: se surgir qualquer sinal de instabilidade no meio da infusão, pare a droga e cardioverta. Na cardiopatia chagásica, a amiodarona é também a droga que o protocolo nacional reserva à taquicardia ventricular sustentada, com a ressalva de que essas pessoas precisam de acompanhamento em serviço especializado. Sobre alternativas, vale saber o que existe e o que não existe. A lidocaína continua sendo opção de segunda linha, com 1 a 1,5 mg por quilo em bolus, segunda dose de 0,5 a 0,75 mg por quilo e máximo de 3 mg por quilo, mas a própria diretriz registra o efeito pró-arrítmico e a eficácia limitada quando comparada às demais. A procainamida e a ajmalina, preferidas por vários algoritmos internacionais, não são comercializadas no Brasil. E há uma decisão que precede todas: em paciente estável com complexo largo, a cardioversão elétrica sob sedação adequada é descrita pela diretriz como conduta usualmente apropriada — ou seja, escolher a corrente em vez da droga num paciente estável não é agressividade, é uma das duas rotas previstas.

  6. Largo e polimórfico — o QT do traçado basal inverte tudo

    Se o paciente está instável, e a maioria está, o passo é desfibrilação não sincronizada, porque a morfologia que muda a cada batimento impede o aparelho de reconhecer a onda R: 200 J bifásicos ou 360 J monofásicos. Estável, a conduta se decide pelo intervalo QT de antes. Com QT longo — torção das pontas — a primeira linha é o sulfato de magnésio intravenoso, mesmo com magnésio sérico normal: 1 a 2 g da solução a 50% em 5 a 20 minutos, com mais 2 g após 15 minutos se necessário, e infusão contínua de 3 a 20 mg por minuto em alguns casos. Corra pela metade lenta da janela: a bula do sal fixa o teto de 150 mg por minuto, que 2 g em 5 minutos rompem por quase três vezes. Junto com o magnésio, três medidas que valem tanto quanto ele: reponha potássio mirando o limite superior da normalidade mesmo com dosagem normal, suspenda toda droga que prolongue a repolarização, e corrija a bradicardia — no refratário, o marca-passo transvenoso provisório estimulando a 100 a 120 por minuto encurta o intervalo e reduz o fenômeno R sobre T. Com QT normal, a lógica se inverte: a suspeita passa a ser isquêmica, o magnésio não previne recorrência, e o caminho é o da síndrome coronariana aguda. Nesse segundo cenário, as drogas que estavam proibidas no primeiro passam a ter lugar, porque não há intervalo prolongado para agravar. Dois detalhes de execução que se perdem com frequência. O primeiro: a torção das pontas é caracteristicamente autolimitada e recorrente, e é essa recorrência que mata — tratar o episódio que acabou sozinho e não remover a causa é garantir o próximo. O segundo: o isoproterenol pode servir de ponte, acelerando a frequência, enquanto o marca-passo provisório não é posicionado. E vale registrar por escrito, em lugar visível do prontuário, a lista de medicamentos que prolongam a repolarização e que aquele paciente não deve receber, porque a próxima prescrição será escrita por outra pessoa.

  7. Largo, irregular e muito rápido — a arritmia em que a droga certa das outras mata

    Fibrilação atrial conduzida por via acessória é o único quadro deste capítulo em que a lista de proibições importa mais que a de indicações. Nada que bloqueie o nó atrioventricular: nem adenosina, que tem contraindicação absoluta registrada, nem verapamil ou diltiazem, nem betabloqueador, nem digital. Bloquear o nó retira o caminho que competia com a via acessória pelos impulsos atriais e pode aumentar a fração que chega ao ventrículo, acelerando uma arritmia já muito rápida. A conduta é cardioversão elétrica sincronizada, com sedação, e o limiar para indicá-la é baixo mesmo em paciente aparentemente estável, porque a deterioração costuma ser abrupta. Chame o cardiologista. E registre no prontuário, em letras que sobrevivam à alta, que aquele paciente não pode receber bloqueador do nó atrioventricular — a informação vale mais para a próxima consulta do que para esta noite.

  8. A cardioversão elétrica como procedimento, e o instante em que ela deixa de ser cardioversão

    Explique ao paciente acordado o que vai acontecer, em uma frase. Monitorize em derivação com onda R alta e bem definida, porque é ela que o aparelho vai rastrear. Sede: o midazolam é o que costuma existir, e a sedação não deve atrasar o procedimento em quem está mal. Ligue o modo sincronizado e confirme visualmente que os marcadores estão caindo sobre as ondas R, e não sobre as ondas T. As cargas iniciais do protocolo nacional são 50 a 100 J no estreito e regular, 120 a 200 J bifásicos ou 200 J monofásicos no estreito e irregular, e 100 J no largo e regular — a diretriz de 2019 admite, para o largo, 100 a 200 J no aparelho monofásico. Afaste todo mundo, confira você mesmo que ninguém encosta na maca, dispare. Se não reverteu, suba a carga gradativamente e reative o sincronismo antes de cada novo choque: a maioria dos monitores sai do modo sincronizado depois de cada disparo. Duas saídas desse procedimento levam para outros lugares. A primeira é o ritmo polimórfico, em que o aparelho procura ondas R que não existem de forma estável e não dispara: desligue o sincronismo e desfibrile. A segunda é a perda do pulso a qualquer momento — aí o atendimento deixa de ser deste capítulo e passa a ser o de parada cardiorrespiratória, com compressões imediatas e choque não sincronizado de alta energia. Duas contraindicações fecham o marco, e as duas são sobre não usar o aparelho. A diretriz de 2019 registra que tentar cardioversão elétrica na vigência de taquicardia sinusal, ou de outras arritmias em que a reentrada não é o mecanismo, é justamente o que não se faz: o choque interrompe circuitos, e onde não há circuito ele não tem o que interromper. E, num paciente com marca-passo ou desfibrilador implantado, posicione as pás a pelo menos alguns centímetros do gerador e conte com a necessidade de interrogar o aparelho depois. Registre no prontuário a carga de cada choque e o número de tentativas: essa informação faz parte do diagnóstico retrospectivo tanto quanto o traçado.

09

Como saber se está funcionando

Reverter não é terminar. Os sete parâmetros abaixo cobrem da primeira respiração depois da reversão até a troca de plantão, e cada um deles tem um número ou um achado que diz se está indo bem.

Os primeiros dez minutos depois da reversão — o ritmo que vem depois do ritmo

O instante seguinte à reversão não é silencioso, e ele precisa ser assistido com o monitor ligado e alguém ao lado. Duas coisas acontecem com frequência e assustam quem não as espera. A primeira é a pausa: o nó sinusal esteve suprimido durante toda a taquicardia e pode levar alguns segundos para reassumir, produzindo uma pausa que às vezes chega a três ou quatro segundos e que se resolve sozinha. A segunda é a extrassistolia ventricular abundante nos primeiros minutos, também transitória.

O que exige ação é a pausa que não termina, a bradicardia sintomática que se instala e a recorrência imediata. Meça a pressão logo depois da reversão e de novo em cinco minutos: a hipotensão pós-reversão é comum quando vários antiarrítmicos foram usados em sequência, que é uma das razões pelas quais eles não devem ser usados em sequência.

A pressão durante e depois da amiodarona

A hipotensão é o efeito adverso agudo mais frequente da amiodarona intravenosa e depende da velocidade da infusão. Meça a pressão antes de começar, aos 5 minutos e ao fim dos 10, e mantenha o manguito no braço. Uma queda de 20 a 30 mmHg na sistólica costuma responder ao simples ato de reduzir o gotejamento; uma queda maior, ou o aparecimento de sinais de baixo débito, muda o caso de categoria e recoloca a cardioversão elétrica na mesa.

Em quem tem disfunção sistólica acentuada, a bula e a diretriz pedem infusão especialmente cautelosa. Vale lembrar que a via intravenosa direta é desaconselhada de maneira geral pela bula justamente por causa desse risco, e que a injeção em bolus está reservada à fibrilação ventricular refratária.

O intervalo QT medido no traçado sinusal

Este parâmetro é o único da lista que não se mede no paciente, e sim no papel — e é o que mais muda o que se prescreve dali em diante. Meça o QT no eletrocardiograma em ritmo sinusal, do início do complexo ao fim da onda T, e corrija pela frequência. Um QT longo depois de uma taquicardia polimórfica confirma retrospectivamente a torção das pontas e obriga a revisar a prescrição inteira do paciente à procura de drogas que prolonguem a repolarização.

Um QT longo também é motivo para não iniciar nem manter amiodarona sem discussão com o cardiologista, porque ela prolonga o intervalo. É a situação em que a droga que serviu para a monomórfica é exatamente a que não serve para a polimórfica, e a diferença está guardada em um traçado que não é o da crise.

Potássio e magnésio, medidos e recolocados

Depois de qualquer arritmia ventricular, os dois íons se repõem mirando o limite superior da normalidade, mesmo quando a dosagem veio normal — a diretriz de 2019 é explícita quanto ao magnésio na torção das pontas e registra que a reposição de potássio deve ser feita com o mesmo objetivo, ainda que a evidência seja escassa. A dose, a via e a velocidade da reposição de potássio pertencem ao capítulo de potássio na enfermaria, na apostila de prescrição; aqui interessa apenas que a indicação existe e que ela não espera o resultado.

Em quem tem insuficiência renal, a reposição de magnésio pede cautela redobrada, porque o sal se acumula. O sinal clínico de excesso que se procura à beira do leito é a perda do reflexo patelar, e a bula do sal orienta testá-lo antes de cada dose repetida.

Recorrência dentro do plantão

Uma reentrada nodal que volta vinte minutos depois da adenosina é comum e não significa que o tratamento falhou: significa que a droga com meia-vida de segundos acabou e o gatilho continua lá. A conduta na recorrência não é repetir indefinidamente a adenosina, e sim passar para uma droga de ação prolongada, respeitando a regra de uma droga por vez e a avaliação de função ventricular.

Uma taquicardia ventricular que recorre, ao contrário, muda a natureza da noite. Recorrência de arritmia ventricular sustentada em curto intervalo é situação de terapia intensiva e de contato com o cardiologista, não de nova ampola no corredor. Enquanto o contato não acontece, o desfibrilador fica ao lado do leito e as pás adesivas ficam coladas.

A infusão que continua

Se a amiodarona seguiu para manutenção, o esquema da diretriz de 2019 é de 1 mg por minuto nas primeiras 6 horas e 0,5 mg por minuto nas 18 horas seguintes, com o teto de 2,2 g em 24 horas. Somando, a manutenção sozinha entrega 900 mg no dia. Confira de hora em hora três coisas: pressão arterial, frequência cardíaca e o sítio de infusão, porque a amiodarona é irritante para veia periférica e a flebite química aparece cedo.

A solução diluída se mantém em temperatura ambiente, protegida da luz, e deve ser administrada dentro de 24 horas. Prefira equipos sem plastificante quando o serviço tiver — a bula registra que a amiodarona extrai o plastificante do material plástico para dentro da solução.

O que precisa estar escrito quando o plantão trocar

A passagem de plantão de um paciente que teve taquiarritmia tem cinco itens obrigatórios, e nenhum deles é opinião. Primeiro: o traçado da crise, impresso, no prontuário, com data, hora e nome. Segundo: o traçado em ritmo sinusal, também impresso, com o intervalo QT já medido e anotado. Terceiro: exatamente o que foi administrado, em que dose, em que horário e com que resposta — inclusive as manobras vagais e as doses que não funcionaram, porque elas fazem parte do diagnóstico. Quarto: se houve cardioversão, a carga usada e o número de choques.

O quinto item é o nome, escrito com o grau de certeza que o par de traçados permite. Uma frase que descreve o traçado e a resposta é sempre melhor que um rótulo genérico. E, quando houver via acessória, quando houver QT longo ou quando houver contraindicação estabelecida a alguma classe de droga, isso precisa estar em lugar que a próxima equipe leia sem procurar.

10

Onde o erro machuca

Chamar de supraventricular com aberrância o complexo largo de um paciente com infarto antigo, e prescrever bloqueador do nó atrioventricular

O dano: É o erro mais caro do capítulo e ele tem uma estrutura reconhecível: o paciente está conversando, é simpático, a frequência não é tão alta, e a hipótese mais tranquilizadora parece razoável. A aritmética diz o contrário — quatro em cada cinco complexos largos são ventriculares, e nove em cada dez quando existe cardiopatia estrutural. O verapamil intravenoso numa taquicardia ventricular derruba a pressão de quem já tem débito baixo e pode transformar uma arritmia estável em parada.

Como pegar a tempo: Inverta a ordem da pergunta. Não pergunte se pode ser supraventricular com aberrância; pergunte o que sustentaria essa hipótese. Só duas coisas sustentam: um eletrocardiograma antigo mostrando bloqueio de ramo com a mesma morfologia, e ausência de qualquer cardiopatia estrutural. Sem esses dois, trate como ventricular. A conduta ventricular não faz mal à supraventricular; o contrário faz.

Empilhar antiarrítmicos: adenosina, depois verapamil, depois amiodarona, no mesmo paciente e no mesmo corredor

O dano: Cada droga acrescenta o próprio potencial pró-arrítmico, a própria hipotensão e a própria bradicardia pós-reversão. O paciente que reverte na terceira droga costuma reverter para uma bradicardia sintomática ou uma hipotensão que exige amina, e ninguém consegue mais dizer qual das três produziu qual efeito.

Como pegar a tempo: Após falha terapêutica, reavalie ritmo, repercussão, contraindicações e o que já foi administrado. Evite acrescentar antiarrítmicos de forma indiscriminada. Cardioversão sincronizada pode ser indicada no paciente estável quando o tratamento farmacológico falha ou é contraindicado; instabilidade é definida pelos sinais clínicos, não pela falha em converter. Organize sedação quando viável e suporte, sem atrasar o choque se houver deterioração.

Diluir a amiodarona em soro fisiológico, ou repetir a ampola dez minutos depois da primeira

O dano: A bula é explícita em exigir glicose a 5% exclusivamente como diluente e em proibir a mistura de qualquer outro produto no líquido de infusão. E determina que a injeção intravenosa não seja repetida antes de 15 minutos, mesmo que a primeira tenha sido uma única ampola, pelo risco de colapso circulatório irreversível. Os protocolos de emergência que prescrevem a dose não repetem nenhuma das duas exigências, e é por isso que elas se perdem.

Como pegar a tempo: Escreva o diluente na prescrição, sempre: amiodarona 150 mg em 100 mL de glicose a 5%, em 10 minutos. E anote no prontuário o horário exato da primeira injeção, para que a segunda tenha uma referência escrita e não a memória de quem estava na sala.

Correr o sulfato de magnésio como bolus, e sem conferir qual ampola está na mão

O dano: O erro tem duas metades. A primeira é a velocidade: a bula fixa 150 mg por minuto como teto da injeção intravenosa, o que significa quase sete minutos para 1 g e mais de treze para 2 g — muito mais devagar do que a palavra bolus sugere. A segunda é a ampola: as duas apresentações padronizadas diferem por um fator de cinco, e 10 mL da solução a 50% são 5 g, não 1 g. Uma troca de ampola numa sala escura entrega cinco vezes a dose pretendida.

Como pegar a tempo: Leia o rótulo em voz alta antes de aspirar e diga a concentração, não só o nome do sal. Prescreva sempre em gramas e em mililitros da concentração nomeada, e escreva o tempo de infusão em minutos. E lembre que a bula exige diluir a até 20% antes da via intravenosa, o que a solução a 50% não cumpre sem diluição.

Insistir em sincronizar um ritmo polimórfico enquanto o aparelho procura ondas R que não existem

O dano: Na taquicardia ventricular polimórfica a morfologia muda a cada batimento, e o algoritmo de sincronização não encontra um marcador estável. O aparelho carrega, o dedo aperta, e nada acontece — e cada tentativa frustrada consome segundos de um paciente que já está mal perfundido. O tempo perdido tentando sincronizar é a lesão.

Como pegar a tempo: Diante de complexos largos que mudam de forma, desligue o sincronismo e desfibrile: 200 J bifásicos ou 360 J monofásicos. É a única situação em que o choque deliberadamente não sincronizado é a conduta correta num paciente que ainda tem pulso, e vale ter isso decidido antes de estar com o aparelho na mão.

Escrever "taquicardia supraventricular" no prontuário quando o traçado não permite dizer isso

O dano: O rótulo genérico parece inofensivo e não é. Ele fecha a investigação sem ter feito nenhuma: o cardiologista que receber esse paciente daqui a três meses vai ler um diagnóstico, não uma descrição, e não terá como saber se o circuito dependia do nó, se havia via acessória, se era flutter ou se era taquicardia atrial. Cada uma dessas respostas leva a um tratamento definitivo diferente, e várias delas são curáveis por ablação.

Como pegar a tempo: Descreva em vez de rotular, e diga o que falta. Registre a largura do complexo, a regularidade, a frequência, o que foi feito e como a arritmia respondeu, e acrescente que não há traçado prévio para comparação quando não houver. Uma descrição honesta com uma lacuna declarada vale mais do que um nome que ninguém pode conferir.

11

O que dizer ao paciente e à família

Sete conversas, todas curtas, quase todas feitas em pé e algumas com o monitor apitando ao lado. Nenhuma delas melhora o desfecho clínico, e todas mudam a experiência de uma pessoa que está com medo de morrer.

Antes da adenosina: a frase que evita um susto grande

A adenosina produz, em muita gente, uma sensação torácica intensa e uma impressão de morte iminente, além de rubor facial, falta de ar e uma pausa que o paciente às vezes percebe. Efeitos colaterais ocorrem em até 60% dos casos, e o mais assustador dura poucos segundos. O aviso prévio é obrigação, e a diretriz brasileira o diz com essas palavras.

Uma versão que funciona: "vou aplicar um remédio que age em cinco segundos e some. Nesses cinco segundos você provavelmente vai sentir um aperto forte no peito e uma sensação muito ruim, como se fosse acontecer alguma coisa. Não vai. Passa antes de eu terminar de falar isso. Eu vou estar aqui do lado o tempo todo." Dito antes, o efeito vira um evento previsto; dito depois, vira um trauma.

Explicar o choque a quem está acordado

O paciente instável está consciente e vai receber um choque. Ele tem direito de saber, e o tempo que isso consome cabe no preparo da sedação. A frase precisa dizer três coisas: o que vai acontecer, que ele vai estar dormindo, e por que não dá para esperar. "Seu coração está batendo muito rápido e por isso a pressão caiu. O jeito mais rápido e mais seguro de organizar isso é dar um choque no coração. Você vai dormir antes, não vai sentir. Não dá para esperar o remédio fazer efeito porque você está piorando."

Com a família, o mesmo conteúdo em outra ordem: primeiro o que está sendo feito, depois por quê. Quem espera do lado de fora ouviu a palavra choque e pensou em parada cardíaca; vale desfazer isso explicitamente, dizendo que o coração dele não parou e que o choque serve exatamente para que ele não pare.

Dizer o nome quando o nome existe, e dizer que não existe quando não existe

Depois que tudo passou, o paciente vai perguntar o que ele teve. Existe uma tentação forte de dar um nome definitivo porque um nome tranquiliza — e existe uma tentação igualmente forte de não dizer nada porque nada é definitivo. As duas são ruins. O caminho é dizer o que se sabe, com o grau de certeza que se tem.

"O seu coração entrou num ritmo acelerado que começa e para de repente. Pelo traçado, ele funciona como um curto-circuito: existe um caminho a mais dentro do coração e o estímulo fica girando nele. O remédio interrompeu o giro. Para saber exatamente onde fica esse caminho, e se dá para tratar de vez, é preciso um exame que o cardiologista pede." Isso é verdadeiro, é compreensível, e não promete o que a noite não entregou.

Quando ele pergunta se vai acontecer de novo

A resposta honesta quase sempre é que pode. O que muda a conversa não é a probabilidade e sim o plano: o que fazer quando acontecer. Combine com o paciente e com quem mora com ele um roteiro de três passos — sentar ou deitar, medir o pulso se souberem, e procurar atendimento se durar mais que alguns minutos ou se vier acompanhado de falta de ar, dor no peito ou escurecimento da vista.

Se a arritmia foi de complexo estreito e o paciente é jovem, vale acrescentar a informação que mais alivia: existem tratamentos definitivos, feitos por cateter, com taxa alta de cura. Não prometa fila nem prazo — a fila não é sua. Mas dizer que o problema tem solução muda a semana de quem vai esperar por ela.

A conversa sobre a via acessória, que é sobre o futuro

Quando o traçado em ritmo sinusal mostra pré-excitação, existe uma informação que precisa sair da sala com o paciente, e ela não é sobre esta noite. É a lista de remédios que ele não pode receber. Diga o nome do achado, escreva no relatório de alta e peça que ele mostre esse papel em qualquer atendimento futuro.

Uma frase que cabe: "o seu exame mostra que você tem um caminho elétrico a mais no coração, de nascença. Isso explica a crise. E significa que existem remédios comuns para o coração que, no seu caso, podem piorar em vez de melhorar. Está escrito aqui. Guarde e mostre." A frase transforma o paciente em portador da própria contraindicação, que é a única forma de ela sobreviver a três mudanças de serviço.

Falar com quem está na porta enquanto o monitor apita

Há um momento, no meio do atendimento, em que alguém da família aparece na porta da sala e não sai. Não é hora de conversa longa, e mandar embora é pior do que parece: quem fica sem informação assume o pior. Trinta segundos resolvem, e eles têm forma fixa — o que está acontecendo, o que está sendo feito, e quando haverá notícia.

"O coração dele está batendo muito rápido. Estamos dando um remédio para organizar o ritmo e o monitor mostra tudo em tempo real. Em uns quinze minutos eu venho falar com você, aconteça o que acontecer." E cumpra o prazo, inclusive quando não houver novidade: aparecer para dizer que ainda não se sabe é a parte que mais sustenta a confiança.

Entregar o caso em trinta segundos

Ao telefone com o cardiologista ou com a central de regulação, a informação precisa vir na ordem que permite decidir. Comece pelas duas medidas e pela pergunta da estabilidade, porque é isso que define urgência: largura do complexo, regularidade, frequência, pressão. Depois a história em uma frase, e só então o que já foi feito.

"Homem de 61 anos, infarto anterior há quatro anos, fração de ejeção em torno de 30%. Taquicardia de complexo largo, regular, 188 por minuto, todos os complexos iguais. Pressão de 88 por 54, pele fria, acordado. Cardiovertido com 100 J sincronizados após midazolam, reverteu para sinusal a 78. Traçado da crise e traçado sinusal impressos. Potássio e magnésio colhidos." Trinta segundos, e do outro lado da linha já dá para decidir o que fazer com ele.

12

Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Quanto vale a manobra vagal, e o que dizer ao paciente antes de fazê-la

Reverte cerca de um quarto dos casos, e é o primeiro passo

A ficha AC14 do protocolo nacional de suporte avançado, cujo rodapé registra elaboração em agosto de 2014 com revisão dois anos depois, em abril de 2015, coloca as manobras vagais como primeiro passo no paciente estável com taquicardia de complexo estreito e regular, e informa um número: revertem cerca de 25% das taquicardias supraventriculares. O número serve de justificativa para tentar antes de puncionar qualquer ampola.

Ministério da Saúde — Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, ficha AC14 (taquiarritmia com pulso), revisão de abril de 2015

A evidência sobre a Valsalva não é definitiva, e a técnica não está padronizada

A atualização da diretriz brasileira de ressuscitação, publicada em 2019, descreve a manobra de Valsalva como efetiva no tratamento das taquicardias supraventriculares mas registra, no mesmo parágrafo, que uma revisão do grupo Cochrane de 2015 não encontrou evidências definitivas a favor ou contra o seu uso, apontando necessidade de mais estudos e de padronização da técnica. O documento não repete o número de 25%.

Sociedade Brasileira de Cardiologia — Atualização da Diretriz de Ressuscitação Cardiopulmonar e Cuidados Cardiovasculares de Emergência – 2019, seção 5.9.1, item B

Como decidir

As duas posições não competem tanto quanto parecem: uma fala de eficácia esperada e a outra, da qualidade da evidência que sustenta essa expectativa. O que decide à beira do leito é o custo. A manobra vagal bem feita é gratuita, reversível, não atrasa nada se for feita enquanto o acesso venoso está sendo puncionado, e tem contraindicações conhecidas e checáveis em dez segundos. Faça — mas ajuste duas coisas ao que a incerteza da evidência recomenda. Primeiro, ajuste a expectativa: se ela falhar, isso não significa que a arritmia não é dependente do nó, e não é argumento para pular a adenosina. Segundo, ajuste a promessa ao paciente: diga que vai tentar uma manobra que às vezes resolve, não que vai resolver. E, seja qual for o resultado, tenha a tira de ritmo correndo — o que a manobra faz com o traçado é informação diagnóstica mesmo quando não reverte.

Quantas doses de adenosina antes de passar para outra droga

Duas doses: 6 mg e, se não responder, 12 mg

O Quadro 5.10 da atualização da diretriz brasileira de ressuscitação de 2019, que é a tabela de doses do documento, prescreve para a taquicardia supraventricular estável 6 mg em bolus rápido e, caso não haja resposta, repetir 12 mg. Não há terceira dose no quadro, o que fecha o esquema em 18 mg, isto é, três ampolas.

Sociedade Brasileira de Cardiologia — Atualização da Diretriz de Ressuscitação Cardiopulmonar e Cuidados Cardiovasculares de Emergência – 2019, Quadro 5.10

Até três doses: 6 mg, 12 mg e mais 12 mg

A ficha AC14 do protocolo nacional, na revisão de abril de 2015, prescreve 6 mg, depois 12 mg se não reverter em um a dois minutos e, se persistir ou recorrer, admite considerar uma terceira dose de 12 mg antes de passar ao bloqueador de ação prolongada — total de 30 mg, cinco ampolas. A bula brasileira do medicamento, com texto aprovado em junho de 2023, descreve o mesmo esquema de uma dose inicial de 6 mg seguida de uma segunda ou terceira de 12 mg, e acrescenta um limite por dose: doses únicas superiores a 12 mg não são recomendadas.

Ministério da Saúde — ficha AC14 do protocolo do SAMU 192, revisão de abril de 2015; e bula profissional da adenosina 3 mg/mL, Hipolabor, texto aprovado em junho de 2023

Como decidir

Repare no que as duas posições concordam, porque é a parte que resolve a maioria dos casos: a dose por injeção nunca passa de 12 mg, e a primeira é sempre de 6 mg. A discordância é sobre insistir ou trocar depois da segunda falha. Três perguntas decidem no paciente concreto. A técnica da segunda dose foi boa — veia calibrosa, injeção em um a dois segundos, 20 mL de soro logo atrás, membro elevado? Se não foi, a terceira dose bem feita é mais razoável que trocar de droga, porque a falha pode ter sido de execução. O paciente está tolerando bem? Se a frequência está caindo entre as doses, ou se houve algum bloqueio transitório, existe resposta parcial e a insistência tem sentido. E, por fim, existe alternativa na gaveta? Onde não há adenosina, a discussão é acadêmica; onde há, e a segunda dose não produziu nada — nem bloqueio, nem queda de frequência —, o resultado mais provável é o quarto da lista de respostas possíveis: diagnóstico ainda aberto. Aí trocar de droga é melhor do que repetir.

A carga inicial da cardioversão sincronizada na taquicardia de complexo largo, em aparelho monofásico

100 J, seja o aparelho bifásico ou monofásico

As fichas AC14 e AC15 do protocolo nacional de suporte avançado listam as cargas iniciais por padrão de traçado e, para o complexo largo e regular, prescrevem 100 J sem distinguir tecnologia — a expressão usada é bifásica ou monofásica. É a mesma tabela que separa explicitamente as duas tecnologias para o complexo estreito e irregular, o que mostra que a ausência de distinção no largo é deliberada e não esquecimento.

Ministério da Saúde — fichas AC14 e AC15 do protocolo do SAMU 192, revisões de abril e outubro de 2014

100 a 200 J no monofásico, 100 J no bifásico

A atualização da diretriz brasileira de ressuscitação de 2019, na seção sobre abordagem inicial da taquicardia de complexo largo, recomenda cardioversão sincronizada com choque de 100 a 200 J no aparelho monofásico ou 100 J no bifásico, com aumento gradativo da carga conforme a necessidade. A faixa mais alta no monofásico acompanha o princípio geral de que a mesma energia entregue por onda monofásica é menos eficaz.

Sociedade Brasileira de Cardiologia — Atualização da Diretriz de Ressuscitação Cardiopulmonar e Cuidados Cardiovasculares de Emergência – 2019, seção 5.9.4

Como decidir

A pergunta prática não é qual documento tem razão, e sim o que você faz diante do aparelho que existe no seu serviço. Comece descobrindo qual tecnologia ele usa — está escrito no painel ou no manual, e quase todo desfibrilador comprado nos últimos quinze anos é bifásico, o que torna a divergência irrelevante na maioria das salas. Se o aparelho for monofásico, os dois documentos autorizam começar em 100 J, e a diferença é apenas no teto da primeira tentativa. Aí vale ponderar duas coisas: as duas fontes mandam subir a carga gradativamente se não reverter, de modo que começar em 100 e subir não perde nada além de um choque; e cada choque adicional custa uma dose extra de sedação e mais alguns minutos de arritmia. Num paciente muito mal perfundido, com pouca margem para uma segunda tentativa, começar mais alto dentro da faixa que a diretriz autoriza é defensável. Num paciente com instabilidade limítrofe, começar em 100 e escalonar é igualmente defensável. Nenhuma das duas leituras, porém, admite disparar sem antes olhar a tela e confirmar que o modo sincronizado está ligado.

13

O raciocínio, em voz alta

Otoniel Brizolla Piancó, 61 anos, torneiro mecânico aposentado por invalidez, 78 quilos, o mesmo paciente da abertura. Infarto de parede anterior há quatro anos com dois stents, insuficiência cardíaca com fração de ejeção em torno de 30%, hipertenso, sem diabetes. Em uso de losartana, ácido acetilsalicílico, sinvastatina e espironolactona; parou o carvedilol há dois meses por falta na farmácia. Chegou às 23h05 com quarenta minutos de taquicardia. Monitor a 188, pressão de 88 por 54, saturação de 94% respirando ar ambiente, 26 incursões respiratórias por minuto, pele fria e úmida, enchimento capilar de três segundos, acordado e falando frases inteiras. Eletrocardiograma de doze derivações com taquicardia regular, complexos largos e monomórficos, sem onda P visível. São 23h14 e a técnica de enfermagem pergunta se abre a gaveta das ampolas ou liga o desfibrilador.

  1. O que eu decido antes de qualquer coisa, e por quê ele não é estável

    A pergunta não é qual arritmia é essa. É se ele está instável, e a resposta é sim. Ele tem pressão sistólica de 88, abaixo do limiar de 90 que a diretriz brasileira de 2019 usa como âncora, e tem sinais de má perfusão que confirmam o número: pele fria e úmida, enchimento capilar de três segundos, taquipneia. O fato de estar acordado e conversando não desfaz isso — nível de consciência é uma das portas da instabilidade, não a única, e basta uma. A segunda parte da pergunta também está respondida: o início foi súbito, o ritmo é constante, a frequência é de 188, e não existe febre, sangramento, dor ou hipovolemia que explique melhor. A instabilidade é da arritmia. Portanto a resposta à técnica é: ligue o desfibrilador. E depois abra a gaveta — mas para pegar sedativo, não antiarrítmico.

  2. O que o traçado já me diz, e o que ele não precisa me dizer agora

    Complexos largos, todos com a mesma forma, ritmo regular. Isso é taquicardia ventricular monomórfica até prova em contrário, e a prova não vai chegar nos próximos cinco minutos. A probabilidade a priori é de 80% para origem ventricular em qualquer complexo largo, e sobe para 90% quando existe cardiopatia estrutural — e ele tem infarto anterior com disfunção sistólica, que é o exemplo canônico. Eu poderia procurar dissociação atrioventricular, batimento de fusão ou batimento de captura na tira longa, e vou procurar depois, para o registro. Mas nada do que eu encontrar mudaria a conduta desta noite, porque a conduta do instável não depende do nome.

  3. O que eu peço à equipe, em voz alta, na ordem

    Pás adesivas coladas em posição anterolateral, monitor em derivação com onda R alta e bem definida, oxigênio por cateter porque a saturação está em 94% com esforço respiratório aumentado, segundo acesso venoso se der tempo, e midazolam preparado. Peço à técnica que imprima e guarde a tira de ritmo que já está correndo no monitor: é o único registro que vai existir do que aconteceu antes do choque, e ele vale mais do que tudo o que eu vou escrever depois. Aviso a sala que estou chamando o plantonista e peço que alguém desça na sala amarela. Enquanto isso, converso com o paciente.

  4. O que eu digo a ele, em quinze segundos

    "Seu coração está batendo muito rápido, e por causa disso sua pressão caiu. O jeito mais rápido e mais seguro de organizar isso é dar um choque no coração. Você vai dormir antes e não vai sentir nada. Não dá para esperar remédio porque você está piorando enquanto a gente conversa." Ele pergunta se vai acordar. Eu digo que sim, que é uma sedação curta, e que eu vou estar ali quando ele abrir os olhos. Isso encerra a conversa, e é o suficiente.

  5. A cardioversão, passo a passo, com a conferência que eu não pulo

    Midazolam intravenoso, titulado, com o paciente monitorizado e a bolsa-válvula-máscara ao lado. Ligo o modo sincronizado e olho a tela: os marcadores estão caindo sobre as ondas R, não sobre as ondas T. Carga inicial de 100 J, que é a que o protocolo nacional prescreve para o complexo largo e regular — e como o aparelho do serviço é bifásico, as duas fontes brasileiras concordam nesse número. Afasto todos, confiro eu mesmo que ninguém está encostando na maca nem no soro, e disparo. O traçado organiza. Ritmo sinusal a 78 por minuto, com uma pausa de dois segundos antes do primeiro batimento, que se resolve sozinha. Pressão de 104 por 68 no primeiro minuto.

  6. Os cinco minutos seguintes, que ainda são atendimento

    Eletrocardiograma de doze derivações em ritmo sinusal, imediatamente, com ele ainda deitado e antes de qualquer movimentação. O traçado mostra ondas Q em parede anterior, com bloqueio incompleto de ramo direito e intervalo QT corrigido de 430 milissegundos — normal. Isso me diz duas coisas: existe cicatriz, o que sustenta o substrato ventricular; e o QT não era longo, o que exclui retrospectivamente a família da torção das pontas. Colho potássio, magnésio, creatinina, ureia, hemograma e troponina. Meço a pressão de novo e olho a perfusão. A pele já está morna.

  7. O que eu prescrevo, e o que eu deliberadamente não prescrevo

    Não prescrevo antiarrítmico de rotina só porque cardiovertei: ele reverteu, está estável, e empilhar droga em cima de um choque que funcionou não tem indicação. Prescrevo reposição de potássio e magnésio mirando o limite superior da normalidade, que é o que a diretriz recomenda depois de arritmia ventricular mesmo com dosagem normal — a dose e a velocidade seguem o capítulo de potássio na enfermaria, na apostila de prescrição. Prescrevo monitorização contínua, repouso no leito, dieta zero por enquanto e retorno do carvedilol assim que possível, porque a suspensão do betabloqueador há dois meses é um fator que reposiciona o risco dele e é corrigível. Deixo o desfibrilador ao lado do leito com as pás adesivas ainda coladas nas primeiras horas.

  8. O que fica escrito, e por que isso vale um aparelho

    No prontuário: taquicardia de complexo largo, regular, monomórfica, 188 por minuto, com instabilidade hemodinâmica caracterizada por pressão sistólica de 88 e má perfusão periférica; cardiovertida com 100 J sincronizados após sedação com midazolam, com reversão para ritmo sinusal ao primeiro choque; traçado da crise e traçado em ritmo sinusal impressos e anexados; intervalo QT corrigido de 430 milissegundos no traçado sinusal; potássio e magnésio colhidos e repostos. E a frase que fecha: paciente com infarto prévio e disfunção sistólica, recuperado de taquicardia ventricular sustentada com repercussão hemodinâmica — indicação de avaliação para prevenção secundária de morte súbita. É esse par de traçados que transforma "ele passou mal à noite" em uma indicação formal, porque a diretriz brasileira de dispositivos implantáveis de 2023 constrói toda a prevenção secundária sobre exatamente esse antecedente. O aparelho que a fila não deixou ele fazer virou, nesta noite, uma indicação documentada.

14

Faça você

Cassiane Xerez Borborema, 24 anos, auxiliar administrativa, 58 quilos, chega ao pronto-socorro num sábado às 16h20, trazida pela irmã. Diz que o coração "disparou de uma vez" enquanto ela guardava compras, há cerca de uma hora. Não tem doença conhecida, não usa medicação contínua, não fuma, não usa drogas, tomou um café à tarde. Já aconteceu três vezes nos últimos dois anos, sempre passando sozinho em cinco ou dez minutos; desta vez não passou. Está acordada, ansiosa, conversando normalmente. Monitor a 194 por minuto. Pressão de 118 por 72, saturação de 98% em ar ambiente, frequência respiratória de 20, glicemia de 96, temperatura de 36,4, pele quente e seca, enchimento capilar em menos de dois segundos. O eletrocardiograma de doze derivações, feito durante a crise, mostra taquicardia regular de complexo estreito, sem onda P identificável. A manobra de Valsalva não reverte. Você administra adenosina 6 mg em bolus com 20 mL de soro fisiológico e elevação do membro, com a tira de ritmo correndo — e a taquicardia termina abruptamente, com uma pausa de um segundo e meio antes do primeiro batimento sinusal. Você repete o eletrocardiograma de doze derivações em ritmo sinusal: frequência de 72, e o traçado mostra intervalo PR de 100 milissegundos com um empastamento na porção inicial do complexo, presente em todas as derivações.

  1. Passo 1

    Classifique a taquicardia da crise nas duas dimensões que decidem, e diga a que grupo mecanístico ela pertencia — o dos circuitos que usam o nó atrioventricular ou o dos que não usam. Justifique pela resposta que ela teve à adenosina, e não pela aparência do traçado.

  2. Passo 2

    Nomeie o achado do eletrocardiograma em ritmo sinusal e diga o que ele significa anatomicamente. Explique por que esse achado só pôde aparecer depois da reversão e não durante a crise.

  3. Passo 3

    Liste as classes de medicamento que passam a ser contraindicadas para esta paciente por causa do achado do passo 2, e explique o mecanismo do dano em uma frase. Diga em que situação clínica futura essa contraindicação se torna perigosa.

  4. Passo 4

    Diga o que precisa estar impresso e anexado ao prontuário desta paciente ao fim do atendimento, e por quê. Depois escreva, em uma frase, o diagnóstico como você o registraria — com o grau de certeza que os dois traçados permitem.

  5. Passo 5

    Ela pergunta se vai acontecer de novo e se existe cura. Escreva o que você responde, em até quatro frases, sem prometer prazo de fila e sem prometer o que o atendimento desta tarde não entregou.

Ver como fecharíamos

Passo 1. Taquicardia de complexo estreito e regular, a 194 por minuto. O que a classifica não é a morfologia e sim a resposta: ela terminou abruptamente com a adenosina, e término é um dos quatro resultados possíveis do bloqueio transitório do nó atrioventricular — o que indica interrupção de um circuito de reentrada que dependia do nó para existir. Isso a coloca no grupo da reentrada nodal ou da reentrada atrioventricular por via acessória, e exclui taquicardia atrial, flutter e taquicardia sinusal, que não terminariam com a manobra e apenas se desmascarariam. Passo 2. Intervalo PR curto, de 100 milissegundos, com empastamento inicial do complexo — a onda delta — em todas as derivações: é pré-excitação ventricular. Anatomicamente, existe um feixe muscular acessório ligando átrio a ventrículo por fora do sistema normal de condução; como esse feixe não tem a propriedade do nó de retardar o impulso, parte do ventrículo começa a despolarizar antes da hora, o que encurta o PR e empasta o início do complexo. O achado não podia aparecer durante a crise porque, na reentrada atrioventricular ortodrômica, o estímulo desce pelo nó e sobe pela via acessória: enquanto o circuito gira nesse sentido, o ventrículo é ativado apenas pela via normal, e o complexo sai estreito, sem delta. Só o ritmo sinusal, em que os dois caminhos competem para descer, revela a via. Passo 3. Ficam contraindicados os bloqueadores do nó atrioventricular: adenosina, antagonistas do cálcio não di-hidropiridínicos como verapamil e diltiazem, betabloqueadores e digital. O mecanismo do dano é o mesmo para todos — bloquear o nó retira o caminho que competia com a via acessória, e a fração dos impulsos atriais que chega ao ventrículo pela via acessória aumenta. A situação futura em que isso mata é a fibrilação atrial: se essa paciente fibrilar, a via acessória pode conduzir centenas de impulsos por minuto ao ventrículo, e um bloqueador do nó dado nesse momento acelera a resposta ventricular em vez de reduzi-la. A bula do verapamil registra nominalmente a contraindicação em flutter ou fibrilação atrial associada a feixe anômalo, e a diretriz brasileira de 2019 põe a fibrilação atrial pré-excitada entre as contraindicações absolutas da adenosina. Passo 4. Precisam estar impressos e anexados os dois traçados: o da crise, de doze derivações, feito antes de qualquer medicação, e o do ritmo sinusal com a pré-excitação. Sem o primeiro ninguém consegue confirmar depois que houve taquicardia; sem o segundo, a via acessória some do registro. Registro possível: "taquicardia paroxística de complexo estreito e regular, 194 bpm, revertida com adenosina 6 mg — circuito dependente do nó atrioventricular; eletrocardiograma em ritmo sinusal com PR de 100 ms e onda delta, compatível com pré-excitação ventricular, o que torna provável reentrada atrioventricular por via acessória. Contraindicados bloqueadores do nó atrioventricular." Passo 5. Uma resposta possível: "Pode acontecer de novo, sim, e é provável que aconteça. O seu exame mostrou por que: existe um caminho elétrico a mais no seu coração, de nascença, e o estímulo às vezes fica girando nele. Isso tem tratamento definitivo, feito por cateter, com chance alta de resolver de vez — e é por isso que o cardiologista precisa te ver. Enquanto essa consulta não acontece, guarde este papel e mostre em qualquer atendimento, porque existem remédios comuns que, no seu caso, podem piorar em vez de melhorar."

Gabarito da questão de abertura
Comentário

O produto insubstituível de um atendimento de taquiarritmia é o par de traçados. O da crise é a única prova material do que aconteceu, e não pode ser reconstituído depois; o de ritmo sinusal guarda as marcas que redirecionam o cuidado — intervalo QT, pré-excitação, ondas de necrose, distúrbio de condução, alterações isquêmicas. No caso descrito, esse par sustenta o antecedente de taquicardia ventricular sustentada com repercussão hemodinâmica em portador de cardiopatia estrutural, que é exatamente a situação sobre a qual a diretriz brasileira de dispositivos implantáveis de 2023 constrói a indicação de prevenção secundária de morte súbita. Os demais dados são pertinentes e devem constar do prontuário, mas nenhum deles decide conduta meses depois nem pode ser recuperado apenas por eles.

15

Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
16

Plano de revisão

Em 7 dias

Compare uma taquicardia regular de QRS estreito, uma regular de QRS largo e uma irregular de QRS largo. Para cada uma, descreva o risco imediato, a hipótese inicial e o que precisa ser evitado. Consulte os traçados e o algoritmo para conferir. Explique por que uma taquicardia de QRS largo de origem incerta deve ser conduzida com cautela como ventricular e por que a cardioversão ou desfibrilação depende também de pulso, estabilidade e possibilidade de sincronização.

Em 30 dias

Retome o caso do capítulo e simule deterioração durante a observação. Diga como reconhece a instabilidade, quem aciona e como a equipe escolhe e prepara a terapia elétrica. Depois compare ausência de resposta à primeira intervenção com recorrência após resposta inicial: procure causa, reveja o ritmo e planeje monitorização. As doses e energias devem ser conferidas no algoritmo e no aparelho; o exercício avalia se você sabe decidir e reavaliar sem atrasar o suporte.

17

Agora atenda

Agora atenda. O paciente com taquiarritmia recompensa quem age antes de nomear e pune quem nomeia antes de medir. Neste atendimento, faça as duas medidas do traçado em voz alta antes de escolher qualquer conduta, responda à pergunta da instabilidade sem pedir exame nenhum, e não deixe a arritmia acabar sem que exista papel impresso do que ela era.

Taquiarritmias supraventriculares e ventriculares — Internato | OsceLabs