Cirurgia GeralCirurgia do Aparelho Digestivo

A comida que volta inteira

Acalasia e distúrbios motores do esôfago

Caracterizar disfagia e regurgitação, excluir obstrução relevante e integrar endoscopia, estudo contrastado e manometria antes de decidir o tratamento.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da doença de Chagas. Aprovado pela Portaria SCTIE/MS nº 57, de 30 de outubro de 2018. Brasília: Ministério da Saúde; 2018. 135 p.

Marin-Neto JA, Rassi A Jr, Oliveira GMM, et al. Diretriz da SBC sobre Diagnóstico e Tratamento de Pacientes com Cardiomiopatia da Doença de Chagas – 2023. Arq Bras Cardiol. 2023;120(6):e20230269. DOI 10.36660/abc.20230269.

Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde; 2024.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Protocolos de Acesso Ambulatorial: Consultas Especializadas — Hospitais Federais no Rio de Janeiro. Brasília: Ministério da Saúde; 2015. 188 p. ISBN 978-85-334-2208-7.

Isordil (dinitrato de isossorbida) — bula profissional. EMS Sigma Pharma Ltda. Comprimido 10 mg e comprimido sublingual 5 mg.

01

Responda antes de ler

Homem de 61 anos, natural do norte de Minas Gerais, morou em casa de pau a pique até os vinte anos. Investiga disfagia de padrão motor. Foram colhidas duas sorologias para doença de Chagas de princípios metodológicos diferentes: uma veio reagente e a outra, não reagente. Qual é a conduta correta?

02

O paciente que você vai ver

Quarta-feira, dez e vinte da manhã, ambulatório de cirurgia do aparelho digestivo de um hospital de ensino que recebe encaminhamento de dezenove municípios. Doze nomes esperam na fila da manhã, e a sala 2 é sua. A preceptora atende do outro lado do corredor e passa aqui a cada dois pacientes. O quarto envelope da pilha traz uma folha de referência escrita à caneta pela médica da unidade básica: doença do refluxo refratária, solicito avaliação para cirurgia antirrefluxo.

Orfeu Chapadão tem 54 anos, é motorista de caminhão-pipa e mora num município a cento e dez quilômetros daqui. Entra sozinho, senta, e a primeira coisa que faz é tirar da sacola quatro caixas de omeprazol de 20 mg — três vazias e uma pela metade. Diz que toma há quatro anos, todo dia, e que já tomou de manhã e à noite. Diz também, sem que você pergunte, que melhorou um pouco no começo.

A queixa que ele traz não é azia. Você pergunta o que o incomoda e ele responde que a comida entala. Você pergunta desde quando e ele diz que não sabe direito, que foi devagar, uns três ou quatro anos. Pergunta o que entala e ele diz: tudo. Arroz, carne, pão. E água também, às vezes. Essa última frase é a mais importante da consulta, e ela apareceu no primeiro minuto, de graça, sem que ninguém a procurasse.

Ele conta que aprendeu a comer. Come em pé quando pode, come devagar, bebe muita água junto — e às vezes levanta os braços acima da cabeça e estica o pescoço até a comida descer. Nenhuma dessas manobras está escrita em lugar nenhum do prontuário porque ninguém perguntou. Elas são a história natural da doença contada pelo paciente em forma de hábito, e valem mais que qualquer exame que você vai pedir hoje.

Depois vem a parte que ele acha vergonhosa. À noite, deitado, a comida volta. Não é vômito — não tem náusea, não tem esforço, não tem gosto de ácido. Volta inteira, do jeito que desceu, às vezes horas depois do jantar. Ele acorda com o travesseiro molhado e com pedaço de arroz na fronha. Passou a dormir com dois travesseiros e a jantar mais cedo. A esposa dorme no outro quarto há um ano.

Ele tossiu duas vezes no ano passado por causa de pneumonia. A primeira internação foi de três dias, a segunda de cinco. As duas foram tratadas como pneumonia adquirida na comunidade, com antibiótico, e as duas melhoraram. Ninguém amarrou as pneumonias à comida que volta à noite, porque ninguém perguntou pela comida que volta à noite. Na alta, na segunda vez, a orientação escrita foi parar de fumar — e Orfeu nunca fumou.

Ele perdeu peso. Diz que emagreceu, mas não sabe quanto; diz que a calça sobra. A balança da sala marca 61 quilos e ele tem 1,72 metro de altura. Não há registro de peso anterior no prontuário. Esse é o dado que muda o ritmo da consulta, porque perda de peso com disfagia, em homem de 54 anos, é uma combinação que tem um dono até prova em contrário, e o dono não é o esôfago que não relaxa.

Nasceu e cresceu numa região onde a casa era de pau a pique. Diz que conhece o barbeiro — e chama pelo nome que se usa por lá. Nunca fez sorologia para nada. Nunca fez endoscopia. O pai morreu aos 58 anos, de repente, trabalhando na roça, e ninguém sabe dizer de quê. Essas quatro frases não estavam na folha de referência e você as obteve em quarenta segundos, com duas perguntas.

Nas próximas duas horas você vai decidir três coisas, e a ordem entre elas é o capítulo inteiro. A primeira é se este quadro é de obstrução mecânica ou de distúrbio motor — e a pergunta que separa já foi respondida. A segunda é qual exame vem primeiro, e por que não é o que confirma o diagnóstico. A terceira é o que se pergunta e o que se pede a mais porque este paciente nasceu onde nasceu. Nenhuma das três exige tecnologia que a unidade dele não tenha.

03

Quem adoece disso

A acalasia é rara em qualquer lugar do mundo, e o número que se repete nos livros é de uma a duas pessoas novas por cem mil habitantes por ano. Nenhum documento brasileiro em uso mede a incidência de acalasia no país, nem a idiopática nem a de qualquer outra causa. Não há registro nacional, não há inquérito, não há linha de cuidado. O que existe no Brasil, e existe em escala grande, é a causa secundária — e é por ela que este capítulo começa a contar.

A doença de Chagas destrói o plexo nervoso da parede do esôfago do mesmo jeito que destrói o do cólon e o do coração. A diretriz brasileira sobre a cardiomiopatia chagásica, de 2023, projeta o tamanho disso e o faz com premissas declaradas: assume que 30% das pessoas infectadas desenvolvem a forma cardíaca e 10% a forma digestiva. Para 2020, com a taxa de infecção mais conservadora que ela usa, isso dá cerca de 1,37 milhão de infectados e cerca de 137 mil pessoas com a forma digestiva. Com a taxa mais alta, o número de pessoas com forma digestiva passa de 320 mil.

Essas duas premissas dizem uma coisa que o interno precisa carregar antes de qualquer conta: a forma cardíaca é três vezes mais comum que a digestiva. Quem tem megaesôfago chagásico pertence a um grupo em que a maioria dos doentes tem o coração acometido, e não o esôfago. É por isso que a investigação do esôfago chagásico não termina no esôfago, e é por isso que este capítulo manda olhar o coração de todo paciente em que a sorologia vier reagente.

A mesma projeção mostra a curva descendo. O número estimado de pessoas com a forma digestiva cai de cerca de 137 mil em 2020 para cerca de 72 mil em 2055, na taxa conservadora, porque a transmissão vetorial domiciliar foi interrompida em boa parte do país e a população infectada envelhece sem reposição. A doença não está crescendo. Está concentrando-se numa coorte cada vez mais velha, o que muda o paciente típico: em vinte anos, quem chegar com megaesôfago chagásico terá setenta anos e comorbidades, e a conversa sobre operar será outra.

Enquanto isso, a acalasia idiopática segue existindo e é a que sobra quando a sorologia é não reagente. Ela aparece em qualquer idade, com dois picos frouxos entre os vinte e os quarenta e depois dos sessenta, e não distingue sexo de maneira relevante para a prática. Não tem prevenção, não tem rastreamento e não tem cura: o que existe é alívio da obstrução, e o alívio é durável em parte das pessoas e temporário em outra parte.

O dado epidemiológico que mais muda conduta, porém, não é sobre acalasia nenhuma. É sobre o que a acalasia imita. Disfagia em adulto acima de cinquenta anos, com perda de peso, tem uma causa que precisa ser excluída antes de qualquer outra — o câncer de esôfago —, e há uma entidade específica que existe justamente para enganar quem pula essa etapa: um tumor infiltrando a região da transição entre esôfago e estômago pode produzir um quadro clínico, radiológico e até manométrico praticamente igual ao da acalasia. Ela tem nome, pseudoacalasia, e é a razão de a endoscopia vir antes.

Há um dado epidemiológico de mão dupla aqui. A acalasia é fator de risco reconhecido para carcinoma de células escamosas do esôfago — o risco relativo é alto, a incidência absoluta segue baixa, e a doença aparece tipicamente depois de uma ou duas décadas de estase. E, no outro sentido, o câncer produz a imitação descrita acima. O mesmo par de doenças aparece nas duas pontas do capítulo: uma antes do diagnóstico, como armadilha, e outra depois do tratamento, como seguimento.

Quanto ao acesso, existe um documento federal de 2015, voltado à fila de consultas especializadas em hospitais federais, que nomeia a acalasia numa linha própria do aparelho digestivo alto e lista o que espera junto do encaminhamento: endoscopia, exame radiológico contrastado do esôfago, pHmetria e manometria esofágica. É o único documento federal encontrado por este capítulo que nomeia a doença fora do contexto de Chagas — e o que ele escreve nas colunas de história clínica e de critério tem um problema, tratado no bloco de fluxos e tabelas.

04

Por que acontece o que acontece

O esôfago é um tubo que empurra. Ele não tem função de armazenar, não absorve nada e não decide nada: recebe o bolo alimentar da faringe e o transporta até o estômago com uma onda de contração que percorre a parede de cima para baixo, enquanto a válvula muscular do fim do tubo — o esfíncter esofágico inferior — abre no momento certo e fecha depois. Duas coisas precisam funcionar juntas: a onda que empurra e a porta que abre.

Quem coordena esse par é uma rede de neurônios que mora dentro da própria parede, entre as duas camadas de músculo, chamada plexo mientérico. Ela tem dois tipos de comando: os que contraem e os que relaxam. O comando de relaxar é o mais delicado, porque depende de neurônios que liberam óxido nítrico e peptídeo intestinal vasoativo — os neurônios inibitórios. São eles que mandam a porta abrir na hora em que a onda chega.

Comparação funcional entre esôfago com transporte coordenado e esôfago com retenção de conteúdo e abertura distal reduzida na acalasia.
A acalasia combina ausência de peristalse normal e relaxamento insuficiente da junção esofagogástrica, favorecendo retenção e regurgitação de alimento. A dilatação é variável, e regurgitar alimento retido não equivale necessariamente a refluxo ácido. A investigação deve confirmar o distúrbio e excluir obstrução mecânica, inclusive pseudoacalasia.

Na acalasia, esses neurônios inibitórios morrem. O que sobra é o comando de contrair, sem contrapeso. O resultado tem duas metades, e as duas aparecem no nome da doença: o esfíncter não relaxa quando deveria — acalasia quer dizer, literalmente, ausência de relaxamento — e o corpo do esôfago perde a onda coordenada, ficando ou parado ou com contrações que não transportam nada. É um tubo que virou um saco com a saída fechada.

Na doença de Chagas, o mecanismo é o mesmo com uma causa nomeada: o parasita destrói as células nervosas da parede. O protocolo federal descreve exatamente isso — destruição das células nervosas, incoordenação motora e visceromegalia — e diz que o processo pode resultar em megaesôfago, em megacólon, ou nos dois. Por isso o paciente chagásico com disfagia costuma ter também constipação de anos, e por isso a pergunta sobre o intestino faz parte do exame do esôfago.

A partir daí, tudo o que o paciente vive é consequência mecânica de estase. A comida fica parada acima da porta fechada, e o esôfago se dilata para acomodá-la. Quando a pessoa deita, a coluna de comida parada não tem mais gravidade a favor e volta pela boca — inteira, do jeito que desceu, sem náusea, sem esforço abdominal e sem gosto ácido, porque ela nunca chegou ao estômago e nunca encontrou ácido nenhum. É esse detalhe que separa regurgitação de vômito e que separa esta doença do refluxo.

É também esse detalhe que explica a pneumonia. O material regurgitado à noite, com a pessoa deitada e dormindo, entra na via aérea. A aspiração é pequena e repetida, e cada episódio produz um quadro respiratório que se resolve com antibiótico — e volta. Duas pneumonias em um ano, num adulto que não fuma e não tem doença pulmonar, com regurgitação noturna na história, não são duas pneumonias: são o mesmo mecanismo funcionando duas vezes.

Falta explicar por que o omeprazol parecia funcionar, porque é isso que atrasa o diagnóstico por anos. A estase produz fermentação bacteriana do alimento retido, e o líquido que fica no esôfago dilatado tem acidez suficiente para irritar a mucosa e produzir queimação e esofagite verdadeiras. O inibidor de bomba não muda a porta fechada, mas reduz a irritação — e o paciente relata melhora parcial. Melhora parcial é a resposta mais perigosa que existe, porque convence os dois lados de que o caminho está certo e compra mais um ciclo de oito semanas.

Por fim, a estase crônica tem um preço tardio. Décadas de alimento retido, fermentação e inflamação sobre a mucosa escamosa transformam a acalasia num fator de risco reconhecido para carcinoma de células escamosas do esôfago. O risco relativo é alto e a incidência absoluta continua baixa, o que significa que a doença não muda de gravidade — muda de horizonte. O paciente que você trata hoje aos 54 anos é o paciente que alguém vai reavaliar aos 70, e o que se faz nesse intervalo é assunto sem régua brasileira, tratado no bloco de fluxos e tabelas.

05

Como se apresenta de verdade

A apresentação da acalasia é feita quase inteira de perguntas, e nenhuma delas custa dinheiro. O paciente já sabe as respostas; o que falta é alguém perguntar na ordem certa. Este bloco é a consulta de Orfeu decomposta em seis coisas que se apuram com a boca e com uma balança.

Antes de tudo, uma separação que não é deste capítulo. Dificuldade que aparece no primeiro segundo da deglutição, com engasgo, tosse imediata, comida saindo pelo nariz ou voz molhada logo depois de engolir, é disfagia alta, de origem orofaríngea — o problema está na boca, na faringe ou no comando neurológico delas, e não neste tubo. Ela pertence ao capítulo Câncer de cavidade oral e vias aerodigestivas superiores, na apostila de Cirurgia de Cabeça e Pescoço, quando a causa é tumoral, e aos capítulos de polineuropatias e de miastenia da apostila de Neurologia, quando a causa é neuromuscular. Este capítulo cede a eles a disfagia orofaríngea e fica com a esofágica: aquela em que o paciente engole, sente a comida descer alguns centímetros e parar.

A pergunta que separa: o que entala, desde o começo

Existe uma pergunta que divide a disfagia esofágica em duas doenças diferentes, e ela cabe em oito palavras: entala sólido, líquido, ou os dois desde o começo?

Disfagia para sólidos e líquidos desde o início aponta para distúrbio motor. O motivo é mecânico e simples: o problema não é o tamanho do que passa, é que não há onda empurrando e a porta não abre. Água tem o mesmo destino que carne quando ninguém a empurra e a saída está fechada. Por isso o paciente com acalasia diz, como Orfeu disse, que entala tudo — e diz isso espontaneamente, sem ser induzido.

Disfagia que começou nos sólidos e foi progredindo para pastosos e depois para líquidos aponta para obstrução mecânica: alguma coisa está estreitando o corredor, e o estreitamento avança. Enquanto o lúmen é largo, só a carne para; quando aperta, para o arroz; quando aperta mais, para a água. A sequência temporal é o achado, não o sintoma isolado.

E aqui está a trava mais importante do capítulo: obstrução mecânica em adulto com perda de peso é câncer de esôfago até prova em contrário. Essa frase não admite exceção por idade jovem, por ausência de tabagismo ou por sintoma antigo. A prova em contrário se chama endoscopia, e ela vem antes de qualquer tratamento dirigido a distúrbio motor.

A pergunta tem um complemento que vale o mesmo: e piorou como, ao longo do tempo? Distúrbio motor típico se instala em anos, com platôs e oscilações, e o paciente aprende a conviver. Obstrução que cresce piora em semanas a meses, sem platô e sem manobra que resolva. Orfeu descreveu quatro anos e manobras aprendidas — mas descreveu também perda de peso, e é por isso que a endoscopia dele não vai esperar.

A regurgitação do não digerido, e por que ela não é vômito

O sintoma que fecha o quadro clínico da acalasia é a regurgitação de alimento não digerido. Ele é específico e é pouco perguntado, e a razão de ser pouco perguntado é que o paciente tem vergonha de contar e o médico registra como vômito.

Faça a diferença por características, não pelo nome que o paciente usa. Regurgitação de acalasia vem sem náusea prévia, sem esforço de vômito, sem contração abdominal, sem gosto ácido e sem bile. O material é reconhecível: arroz que é arroz, pedaço de carne que é pedaço de carne, às vezes muitas horas depois da refeição, às vezes de refeições de véspera. Vômito verdadeiro tem náusea antes, esforço, e o conteúdo já foi trabalhado pelo estômago.

A regurgitação da doença do refluxo é diferente das duas: é pequena, ácida ou amarga, tipicamente logo depois de comer ou ao deitar, e o paciente descreve gosto, não descreve comida. Quando o paciente descreve gosto, pense em refluxo; quando ele descreve comida, pense em estase.

Pergunte pelo travesseiro. É a pergunta mais produtiva deste capítulo e ninguém a faz. Mancha no travesseiro, fronha com restos de comida, necessidade de dormir sentado ou com dois travesseiros por causa do que sobe — tudo isso é regurgitação noturna documentada pelo paciente há anos, sem que ele soubesse que era um sintoma.

Pergunte também o que ele faz para a comida descer. As manobras são um sinal físico contado em palavras: comer em pé, comer devagar, beber grandes volumes de líquido junto, levantar os braços, estender o pescoço, torcer o tronco. Quem descreve manobras aprendidas tem obstrução funcional há tempo suficiente para ter aprendido.

O que o paciente conta como se fosse outra doença

Boa parte dos pacientes com acalasia chega com um rótulo que não é o dela, e o rótulo mais comum é doença do refluxo. A queixa de queimação retroesternal é frequente e verdadeira, porque a estase e a fermentação do alimento retido irritam a mucosa. O paciente diz azia, o médico prescreve inibidor de bomba, e a melhora parcial confirma o erro para os dois.

O segundo rótulo é pulmonar. Tosse noturna crônica, rouquidão matinal, chiado, pneumonias de repetição e até diagnóstico de asma de início tardio aparecem em pacientes cuja via aérea recebe material regurgitado toda noite. O interno que atende a queixa respiratória e não pergunta pelo travesseiro trata a consequência a vida inteira.

O terceiro rótulo é psiquiátrico, e é o mais injusto. Dificuldade de engolir que não se explica, sensação de bola na garganta, medo de comer fora de casa, evitação social de refeições — tudo isso vira ansiedade no prontuário quando a endoscopia, feita sem preparo e sem procurar estase, é lida como normal. Endoscopia normal não exclui distúrbio motor, e isso está detalhado no bloco de como fechar o diagnóstico.

O quarto rótulo é o mais grave e o mais difícil de desfazer: doença do refluxo refratária encaminhada para cirurgia antirrefluxo. Operar uma acalasia como se fosse refluxo, apertando ainda mais a junção que já não abre, transforma disfagia em obstrução quase completa. É a razão pela qual esta apostila recomenda manometria antes de qualquer cirurgia antirrefluxo, e ela não é preciosismo de especialista — é a diferença entre duas operações opostas.

A folha de encaminhamento de Orfeu diz doença do refluxo refratária, solicito avaliação para cirurgia antirrefluxo. Ela é o quarto rótulo, escrito por alguém competente que fez o que a queixa aparente pedia. O que faltou não foi conhecimento: faltaram três perguntas.

O peso, e por que ele não tranquiliza nunca

Pese o paciente. Não pergunte quanto ele acha que perdeu — coloque-o na balança, anote o número no prontuário com a data, e pergunte por marcadores objetivos: em que furo do cinto ele está hoje e em que furo estava, se a aliança gira, se a roupa de trabalho sobra.

Perda de peso na acalasia existe e é explicável: a pessoa come menos porque comer é difícil e desagradável, e parte do que come volta. Costuma ser lenta, de poucos quilos ao longo de anos, e frequentemente acompanha uma mudança consciente de dieta para pastoso e líquido.

Perda de peso rápida e não intencional, de muitos quilos em poucos meses, num adulto com disfagia, é outra coisa. Não importa o quanto o restante da história pareça motor: essa combinação classifica o paciente como investigação de neoplasia, com o prazo mais curto que o serviço conseguir.

A regra prática que resolve o caso duvidoso: o peso nunca é usado para tranquilizar. Peso estável não exclui câncer, e peso caindo não confirma acalasia. Ele só serve numa direção — quando cai, encurta o prazo do exame.

As perguntas que só existem porque o paciente é brasileiro

Em qualquer paciente com disfagia esofágica de padrão motor, a história epidemiológica de doença de Chagas entra na anamnese como item fixo, e não como curiosidade regional. São quatro perguntas, e levam menos de um minuto.

Onde o senhor nasceu e morou até os vinte anos, e como era a casa — de tijolo, de madeira, ou de barro? Casa de pau a pique, sapê ou adobe é o dado que importa, porque é onde o vetor vive. O senhor conhece o barbeiro, o chupança, o bicho de parede? Use os nomes regionais e mostre o tamanho com os dedos: reconhecimento vale mais que a pergunta abstrata.

Alguém da sua família tem ou teve doença de Chagas? A infecção é familiar por exposição compartilhada e por transmissão vertical, de modo que um caso na família aumenta muito a chance no paciente à frente. O senhor recebeu transfusão de sangue antes de 1992? Essa data é o marco da triagem sorológica obrigatória dos bancos de sangue no país, e o protocolo federal lista essa população nominalmente entre as que devem ser testadas.

E pergunte pelo intestino, sempre. Constipação de anos, com intervalos de vários dias, uso crônico de laxante ou história de fecaloma é megacólon até que se prove o contrário — e megacólon com megaesôfago no mesmo paciente é a forma digestiva da doença de Chagas até prova em contrário.

Por fim, pergunte pelo coração e pela família dele: palpitação, desmaio, tontura ao esforço, e morte súbita em parente jovem. O pai de Orfeu morreu aos 58 anos, de repente, trabalhando. Isso não fecha diagnóstico nenhum, mas muda o que se pede hoje.

Os outros distúrbios motores, na medida em que mudam a sua decisão

Acalasia é o distúrbio motor que o interno precisa saber reconhecer inteiro, porque tem tratamento definido e consequência grave se ignorado. Os outros aparecem menos, confundem mais e mudam pouco a conduta de quem está na porta — mas convém saber que existem, para não os inventar nem os temer.

O espasmo esofágico distal se apresenta com dor torácica que não é do coração e disfagia intermitente, muitas vezes desencadeada por líquidos muito quentes ou muito gelados e por estresse. A dor pode ser forte o bastante para levar o paciente à emergência, e a conduta correta na emergência é a de dor torácica, não a de esôfago: primeiro afasta-se causa cardíaca, e essa avaliação pertence à apostila de Cardiologia. Só depois de coração excluído a dor esofágica entra na conversa.

O esôfago hipercontrátil produz contrações de amplitude muito alta, com dor e disfagia semelhantes, e só se diagnostica por manometria. Não há nada a fazer com ele na enfermaria ou no pronto-socorro além de não confundir a dor com isquemia.

A motilidade esofágica ineficaz é o oposto: contrações fracas demais para transportar. Ela quase sempre acompanha refluxo e doenças do tecido conjuntivo, e o que ela não faz precisa ser dito com a mesma clareza: sozinha, não contraindica a cirurgia antirrefluxo nem escolhe o tipo de válvula. O que a manometria procura antes dessa cirurgia é a acalasia e o esôfago sem peristalse efetiva, em que a válvula aperta a junção de um esôfago que não empurra. A indicação cirúrgica, com o consenso brasileiro de 2010, que manda não escolher o tipo de fundoplicatura pela dismotilidade, é de Quem não melhorou não é quem se opera, capítulo 13 desta apostila.

O que os quatro têm em comum, para o interno, é o caminho: nenhum deles se diagnostica sem manometria, e nenhum deles autoriza pular a endoscopia. A conduta de quem está na porta é sempre a mesma nos primeiros dois passos, e só diverge depois que o diagnóstico existe.

06

Como fechar o diagnóstico

Três exames respondem a perguntas diferentes, e a inversão da sequência entre eles é o erro que este bloco existe para impedir. O primeiro exame não é o que faz o diagnóstico. O primeiro exame é o que exclui o que mata.

A ordem é: endoscopia, depois esofagografia contrastada, depois manometria. Ela não é hierarquia de importância nem de custo — é ordem de risco. Enquanto houver a chance de o paciente ter um tumor infiltrando a junção, nenhum tratamento dirigido a distúrbio motor pode começar, porque todos eles abrem ou afrouxam a porta e nenhum deles trata câncer.

Endoscopia digestiva alta — o exame que exclui o que mata

A endoscopia é o primeiro exame de todo adulto com disfagia esofágica, independentemente de o padrão parecer motor. Ela existe aqui para uma finalidade principal e algumas secundárias, e vale saber qual é qual.

A finalidade principal é ver a mucosa e biopsiar. Câncer de esôfago, estenose péptica, anel, esofagite eosinofílica e esofagite infecciosa são todos diagnósticos de mucosa, e nenhum deles aparece na manometria. Um paciente com acalasia e um paciente com tumor infiltrando a cárdia podem ter a mesma queixa, a mesma radiografia e resultados manométricos parecidos — o que os separa é o que o endoscopista vê e o que o patologista lê.

A finalidade secundária é descrever a estase. Na acalasia estabelecida, o endoscopista encontra restos alimentares e líquido retido no esôfago de um paciente que jejuou, o esôfago dilatado ou tortuoso, e uma junção esofagogástrica fechada que oferece uma resistência característica e depois cede à passagem do aparelho. Esse conjunto sugere fortemente o diagnóstico — mas não o fecha.

E aqui vem a armadilha que atrasa anos de diagnóstico: endoscopia normal não exclui acalasia. Em fase inicial, com o esôfago ainda não dilatado, o exame pode ser inteiramente descrito como normal. Se o quadro clínico é de disfagia para sólidos e líquidos desde o começo, endoscopia normal significa que não há tumor e não há estenose — significa que a investigação continua, não que ela terminou.

O que classifica risco na regulação é o texto da indicação, e a fila se organiza por ele. Disfagia para sólidos e líquidos há quatro anos, com regurgitação de alimento não digerido e perda ponderal, é uma frase que reorganiza fila; dificuldade para engolir não é. Registre o tempo, o que mudou, o peso aferido hoje e as duas pneumonias.

Peça jejum prolongado e avise o endoscopista. Um esôfago cheio de comida retida é risco real de aspiração durante a sedação, e a equipe precisa saber disso antes, não durante. Escrever suspeita de acalasia, esôfago provavelmente com estase, no pedido, é informação de segurança e não pretensão diagnóstica.

Esofagografia baritada — o desenho do corredor

O exame radiológico contrastado do esôfago é barato, disponível em quase todo município e mostra a coisa toda de uma vez: o calibre do tubo, a forma da junção, a presença de tortuosidade e o comportamento do contraste ao longo do tempo.

O achado clássico é o afilamento gradual e simétrico do esôfago distal até um ponto muito estreito na junção, com dilatação a montante. A imagem é descrita há décadas como bico de pássaro, e essa é a expressão que aparece nos laudos brasileiros. Acima do estreitamento, o contraste fica retido e forma uma coluna com nível; nos casos avançados, o esôfago perde o eixo e assume forma sigmoide, dobrando-se sobre si mesmo.

Ela também mostra o que a endoscopia não mostra bem: a extensão da dilatação e o grau de tortuosidade, que são exatamente os dados que o cirurgião usa para decidir o que oferecer. Um esôfago moderadamente dilatado e um esôfago sigmoide de calibre enorme são doenças com a mesma fisiopatologia e prognósticos cirúrgicos diferentes.

O que ela não faz é distinguir acalasia de pseudoacalasia. O afilamento por tumor infiltrando a parede produz uma imagem que pode ser indistinguível do afilamento por esfíncter que não relaxa. Um estreitamento assimétrico, irregular ou muito longo levanta suspeita, mas nenhum padrão radiológico afasta neoplasia. Radiografia contrastada não vê mucosa e não colhe biópsia — e é por isso que ela não substitui a endoscopia em ninguém.

Há um uso brasileiro relevante para ela que este capítulo registra com franqueza: o protocolo federal da doença de Chagas menciona o uso de radiografia convencional ou contrastada, mas apenas como ferramenta para excluir neoplasia, e não descreve nenhuma classificação radiológica do megaesôfago. A graduação radiológica clássica do megaesôfago chagásico, brasileira e usada nos serviços do país, não aparece no protocolo que governa a doença — a nota correspondente está no bloco de fluxos e tabelas.

Manometria esofágica — o exame que fecha o diagnóstico

A manometria mede pressão dentro do esôfago em vários pontos ao mesmo tempo, enquanto o paciente engole goles de água. É ela que responde às duas perguntas que definem a doença: a onda existe? e a porta abre?

Na acalasia, a resposta é não e não. O esfíncter esofágico inferior não relaxa adequadamente na deglutição e o corpo do esôfago não gera peristalse que transporte. Essas duas alterações juntas fecham o diagnóstico, e nenhum outro exame as demonstra.

A manometria de alta resolução, além de confirmar, subclassifica a acalasia em três tipos conforme o padrão de pressão no corpo do esôfago — sem contração, com pressurização de todo o corpo, ou com contrações espásticas. A nomenclatura vem da classificação internacional de Chicago, e a subclassificação importa porque prevê resposta ao tratamento e orienta a escolha entre as opções. Para o interno, o que importa é saber que ela existe, que o laudo virá com essa linguagem, e que essa é a informação que o cirurgião ou o endoscopista vai usar.

A manometria também é o exame que diagnostica os outros distúrbios motores — espasmo distal, esôfago hipercontrátil e motilidade ineficaz — e nenhum deles tem outro caminho diagnóstico. Se a queixa é motora e a endoscopia é normal, a manometria não é opcional: é o exame que resta.

Ela é exame de serviço especializado e não se pede da unidade básica. O papel do interno é escrever o encaminhamento com a informação que faz o exame ser marcado e ser útil: o padrão da disfagia, o resultado da endoscopia com data, o resultado do contrastado, e a pergunta específica. Manometria pedida sem endoscopia prévia costuma voltar sem ser feita, e com razão.

As duas sorologias, e por que uma não decide nada

Todo paciente com disfagia de padrão motor e história epidemiológica compatível recebe sorologia para doença de Chagas. E recebe duas, de princípios metodológicos diferentes, colhidas na mesma requisição.

A regra de leitura é a mesma que o capítulo Cardiomiopatias, na apostila de Cardiologia, ensina para o coração, e este capítulo a repete com as mesmas palavras porque ela é a mesma: dois testes reagentes confirmam, dois não reagentes afastam, e resultado discordante pede nova coleta com os dois testes. Um exame isolado não fecha e não afasta em nenhuma direção.

O erro de fechar com um só tem dano nos dois sentidos, e ambos são reais. Rotular alguém como chagásico por uma sorologia isolada cria um paciente com diagnóstico crônico que talvez não tenha a doença, com todas as consequências de seguimento e de vida que isso traz. Afastar por uma sorologia isolada devolve para casa alguém que precisaria de estadiamento cardíaco por décadas.

Comunique triagem como triagem. Enquanto houver um só resultado, a frase correta no prontuário e para o paciente é que existe um exame alterado que precisa ser confirmado — não que ele tem doença de Chagas.

E saiba o que a sorologia não faz: ela não gradua o esôfago, não mede o esfíncter e não muda o tratamento da disfagia. Ela muda outra coisa, que é o que vem no próximo item.

Sorologia reagente: o que muda, e é mais do que o esôfago

Confirmada a doença de Chagas, três coisas entram na conduta e nenhuma delas é sobre engolir.

A primeira é o coração. Peça eletrocardiograma de doze derivações em todo paciente com sorologia reagente. É o exame que primeiro se altera na cardiopatia chagásica, é barato e existe em qualquer unidade. A leitura sistemática do traçado é do capítulo ECG na prática, na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito, e este capítulo cede a ele o método de leitura. O estadiamento da cardiopatia chagásica, a decisão sobre ecocardiograma, sobre Holter, sobre anticoagulação e sobre dispositivo pertencem inteiros ao capítulo Cardiomiopatias, na apostila de Cardiologia, e este capítulo cede a ele o coração chagásico. O que fica aqui é a obrigação de pedir o eletrocardiograma e de encaminhar, porque a maioria dos doentes chagásicos tem coração acometido e não esôfago.

A segunda é o cólon. Constipação crônica, uso de laxante e história de fecaloma levantam megacólon chagásico, e ele muda o risco cirúrgico e o manejo diário. O protocolo federal descreve o manejo do megacólon como dietético e evacuatório — fibras, líquidos, atender ao desejo de evacuar, evitar medicamentos constipantes, laxativos emolientes ou osmóticos, supositórios e enemas —, e reserva a cirurgia para casos selecionados. O manejo cirúrgico do megacólon não tem dono neste nível e não é assumido aqui: este capítulo fica com o esôfago e registra o cólon como o que ele é, um órgão vizinho que se investiga na mesma consulta.

A terceira é o tratamento antiparasitário — e o que ele muda no esôfago é nada. O protocolo federal afirma, com essas palavras, que a fisiopatologia aponta para provável ausência de efeito do tratamento antiparasitário na evolução natural da doença digestiva, e que o tratamento deve ser conduzido independentemente da manifestação digestiva. O benznidazol não desfaz plexo destruído. Ele se discute pelas regras da forma indeterminada ou da cardíaca, tratadas no bloco de fluxos e tabelas e no de conduta.

Existe uma quarta coisa, que não é exame: a família. A exposição é compartilhada, e irmãos, filhos e a mãe do paciente têm indicação de testagem. Oferecer isso na mesma consulta, por escrito, é a única intervenção deste capítulo que alcança alguém que ainda não adoeceu.

O que não se pede, e por quê

A pHmetria esofágica de vinte e quatro horas mede exposição ácida e correlaciona sintoma com episódio de refluxo. Ela responde à pergunta do capítulo Sete anos de omeprazol, na apostila de Gastroenterologia, e não à deste. Num paciente com regurgitação de alimento não digerido e suspeita de acalasia, ela não acrescenta e pode confundir, porque a fermentação do material retido produz queda de pH que o exame registra como refluxo e que refluxo não é.

A tomografia de tórax e abdome não é exame de rotina na investigação de disfagia. Ela entra quando a endoscopia ou a biópsia levantam neoplasia e o paciente vai ser estadiado — e o estadiamento não é deste capítulo.

A radiografia simples de tórax não investiga disfagia, mas às vezes já foi feita por outro motivo e traz achados que ninguém leu com esta pergunta em mente: mediastino alargado, nível hidroaéreo retrocardíaco, ausência da bolha gástrica, ou consolidações repetidas em segmentos posteriores compatíveis com aspiração. A leitura sistemática do exame é do capítulo Radiografia de tórax, na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito, e este capítulo cede a ele o método; o que fica aqui é a lembrança de reler o filme antigo do paciente com a pergunta certa.

Sorologias e provas de atividade inflamatória em geral não têm papel. O hemograma serve para uma coisa concreta — anemia num paciente que perde peso reforça a urgência da endoscopia — e a albumina serve para outra, que é dimensionar desnutrição antes de uma eventual cirurgia.

E o exame que mais frequentemente é pedido no lugar certo pela razão errada: manometria antes de endoscopia. Ela não afasta câncer, não vê mucosa e não colhe biópsia. Pedida primeiro, ela não adianta o diagnóstico e atrasa o único exame que decide o prazo.

07

A ordem, os exames, o elenco e a conta

Disfagia pede investigação; resposta parcial a IBP não prova refluxo como causa. Sintomas sugerem mecanismos, mas não excluem diagnósticos por regras absolutas.

  1. 1Distinguir dificuldade para iniciar a deglutição de sensação de alimento parado após engolir, avaliando aspiração e capacidade de manter ingestão.
  2. 2Caracterizar sólidos, líquidos, progressão, regurgitação, perda de peso e duração. Padrão motor é sugestivo, não diagnóstico isolado.
  3. 3Realizar endoscopia para avaliar mucosa e obstrução e obter biópsias quando indicadas. Planejar o exame com atenção à estase e ao risco de aspiração.
  4. 4Endoscopia e biópsias negativas reduzem a suspeita de neoplasia, mas não excluem toda pseudoacalasia; perda rápida de peso, início recente, idade e dificuldade na junção podem exigir TC ou ecoendoscopia.
  5. 5Integrar esofagograma, preferencialmente temporizado quando apropriado, e manometria de alta resolução para caracterizar esvaziamento e distúrbio motor.
  6. 6No contexto epidemiológico, investigar Chagas e manifestações associadas; o resultado etiológico não substitui a avaliação funcional e nutricional.
  7. 7Discutir dilatação, miotomia endoscópica ou cirúrgica conforme subtipo, anatomia, condições e experiência do serviço; não encaminhar para antirrefluxo sem diagnóstico adequado.
  8. 8Acompanhar peso, ingestão, aspiração e sintomas após tratamento, incluindo refluxo; orientar retorno rápido se a via oral falhar.

Disfagia esofágica: as duas histórias, e o que cada uma manda fazer

O que o paciente contaPara onde apontaO que reforçaO que se faz, e em que prazo
Entala sólido e líquido desde o começo, há anos, com oscilação e platôsDistúrbio motorRegurgitação de alimento não digerido, manobras aprendidas, tosse noturna, azia que melhorou pouco com inibidor de bombaEndoscopia primeiro, ainda assim; depois contrastado e manometria
Começou na carne, foi para o arroz, agora é o líquido, em poucos mesesObstrução mecânica que crescePerda de peso, idade acima de 50 anos, tabagismo, etilismo, anemiaEndoscopia com biópsia, no prazo mais curto que o serviço conseguir
Entala sólido de vez em quando, sempre igual, há anos, sem progressãoAnel, membrana ou estenose fixaImpactação alimentar episódica que resolve sozinha, alergia alimentar na infânciaEndoscopia eletiva com biópsia de esôfago mesmo se a mucosa parecer normal
Dói para engolir, mais do que custa engolirOdinofagia: lesão de mucosa, não obstruçãoUso de comprimido sem água, imunossupressão, aftas, lesão orofaríngeaEndoscopia; revisar medicamentos que possam ficar retidos
Engasga no primeiro segundo, tosse na hora, comida sai pelo narizDisfagia orofaríngeaDoença neurológica, sequela de acidente vascular cerebral, lesão de cabeça e pescoço, voz molhadaNão é deste capítulo: avaliação da causa e da segurança da via oral
Dor torácica forte com disfagia intermitente, desencadeada por líquido geladoEspasmo esofágico distal, entre outrosDor que assusta e leva ao pronto-socorro, exame cardíaco normalPrimeiro afastar causa cardíaca; só depois investigar o esôfago
Perdeu muito peso rápido e engole quase nadaPrioridade sobre qualquer hipótese motoraMassa palpável, adenopatia supraclavicular, rouquidãoEndoscopia imediata e avaliação nutricional na mesma consulta

Os cinco exames desta investigação: o que cada um decide e onde cada um é cego

ExameA pergunta que ele respondeO que ele não respondeOnde entra na sequência
Endoscopia digestiva alta com biópsiaExiste tumor, estenose, esofagite ou lesão de mucosa? Existe estase de alimento no esôfago em jejum?Não mede pressão, não avalia peristalse e não diagnostica distúrbio motor. Exame descrito como normal não afasta acalasia inicialSempre primeiro, em todo adulto com disfagia esofágica
Exame radiológico contrastado do esôfagoQual é o calibre, a forma e o eixo do esôfago? Há afilamento na junção com dilatação acima? Há retenção do contraste?Não vê mucosa, não colhe biópsia e não distingue afilamento por esfíncter fechado de afilamento por tumor infiltrando a paredeDepois da endoscopia, para desenhar a anatomia e dimensionar a dilatação
Manometria esofágicaO esfíncter inferior relaxa na deglutição? O corpo do esôfago gera onda que transporta? Qual o subtipo?Não vê mucosa, não afasta neoplasia e não substitui a endoscopia em ninguémTerceiro. É o exame que fecha o diagnóstico de qualquer distúrbio motor
Duas sorologias para doença de Chagas, de princípios diferentesEsta pessoa tem infecção crônica pelo parasita?Não gradua o esôfago, não mede o esfíncter e não muda o tratamento da disfagiaEm paralelo, sempre que houver história epidemiológica compatível
Eletrocardiograma de doze derivaçõesHá alteração de condução ou de repolarização que levante cardiopatia chagásica?Não estadia a cardiopatia e não substitui o ecocardiogramaAssim que as duas sorologias vierem reagentes
pHmetria esofágica de vinte e quatro horasHá exposição ácida anormal, e o sintoma coincide com o episódio de refluxo?Não avalia motilidade; a fermentação do alimento retido produz queda de pH que ela registra como refluxo e que refluxo não éNão entra na investigação de disfagia de padrão motor
Hemograma e albuminaHá anemia que encurte o prazo do exame? Qual o estado nutricional antes de uma eventual cirurgia?Não investigam disfagia e não afastam nadaJunto do pedido de endoscopia, quando há perda de peso

O que o SUS fornece para este capítulo, conferido na Rename 2024 por busca exata

Fármaco, com o nome que a Rename usaApresentação no elencoComponentePapel neste capítulo
nifedipino10 mg cápsula e 10 mg comprimidoBásicoRelaxante do esfíncter esofágico inferior, indicado pelo protocolo federal para sintomas de megaesôfago chagásico. Efeito sintomático, parcial e mal tolerado
dinitrato de isossorbida5 mg comprimido sublingualBásicoMesma finalidade e mesmas limitações. É a única apresentação sublingual do elenco, e o protocolo pede uma faixa que começa abaixo dela
benznidazol12,5 mg comprimido e 100 mg comprimidoEstratégicoTratamento antiparasitário da doença de Chagas. Não altera a doença digestiva, e a indicação se decide pelas regras da forma indeterminada ou cardíaca
nifurtimox120 mg comprimidoEstratégicoAlternativa ao benznidazol na intolerância importante, solicitada por via específica ao Ministério da Saúde
toxina botulínica A100 U e 500 U pó para solução injetávelEspecializadoO protocolo federal lista injeção no esfíncter como opção de tratamento do megaesôfago; nem ele nem a Rename declaram por qual via essa indicação seria dispensada
cloridrato de verapamil80 mg e 120 mg comprimido, e 2,5 mg/mL injetávelBásicoBloqueador de canal de cálcio do elenco, sem indicação declarada para esôfago em documento brasileiro. Registrado para que não seja usado por analogia
diltiazemnão consta do elenconão se aplicaBloqueador de canal de cálcio citado na literatura para distúrbios motores espásticos. Não está na Rename 2024, o que retira a opção de quem depende do SUS
omeprazol10 mg e 20 mg cápsulaBásicoNão trata acalasia. Entra só depois do tratamento que abre a junção, quando aparece refluxo verdadeiro — e o uso crônico é do capítulo Sete anos de omeprazol, na apostila de Gastroenterologia

Conversão miligrama, comprimido e apresentação, em Orfeu, que pesa 61 quilos

Fármaco e apresentação realO que o documento mandaQuantas unidades por diaA conta
Benznidazol, comprimido de 100 mg (adulto) e de 12,5 mg (pediátrico), componente estratégico5 mg/kg/dia, em uma a três tomadas, por 60 diasNenhuma combinação limpa: 3 comprimidos de 100 mg dão 300 mg e ficam abaixo do alvo; 3 de 100 mais 1 de 12,5 dão 312,5 mg e ficam acima5 × 61 = 305 mg/dia. 305 ÷ 100 = 3,05 comprimidos. Com 300 mg saem 4,92 mg/kg/dia; com 312,5 mg saem 5,12 mg/kg/dia
Benznidazol, mesmo comprimido de 100 mgAlternativa acima de 60 kg: 300 mg/dia pelo número de dias equivalente ao peso, limitado a 80 dias3 comprimidos de 100 mg por dia, durante 61 dias — e a dose cabe no comprimido300 × 61 = 18.300 mg. O outro esquema dá 5 × 61 × 60 = 18.300 mg. Os dois entregam exatamente o mesmo total, e é por isso que o segundo existe
Nifedipino, cápsula de 10 mg, componente básico10 mg trinta minutos antes de cada refeição, por via sublingual segundo o texto do protocolo1 cápsula antes de cada uma das três refeições: 3 por dia, 90 por mês10 × 3 = 30 mg/dia. A via sublingual só é executável perfurando a cápsula; o comprimido de 10 mg do mesmo elenco não serve para isso, e a Rename traz as duas apresentações sem distinguir a via
Dinitrato de isossorbida, comprimido sublingual de 5 mg, componente básico2,5 a 5 mg quinze minutos antes de cada refeição, por via sublingual1 comprimido antes de cada refeição na dose de 5 mg: 3 por dia, 90 por mês5 ÷ 5 = 1 comprimido inteiro. A dose de 2,5 mg pedida pelo mesmo protocolo dá 2,5 ÷ 5 = meio comprimido, e não há apresentação de 2,5 mg no elenco
Omeprazol, cápsula de 20 mg, componente básicoNão indicado para acalasia; entra depois do tratamento que abre a junção, se houver refluxo1 cápsula ao dia, 30 a 60 minutos antes da primeira refeição20 mg equivalem a 1 cápsula de 20 mg ou a 2 cápsulas de 10 mg, as duas apresentações do elenco

O PCDT de doença de Chagas de 2018 é a referência federal citada para megaesôfago chagásico. Os demais distúrbios motores apresentados neste capítulo usam as referências internacionais identificadas nas fontes. Diferencie a origem de cada recomendação ao discutir diagnóstico e tratamento.

O PCDT citado não desenvolve o papel da manometria na investigação do distúrbio motor. Sua abordagem de radiografia contrastada e endoscopia deve ser complementada pelo percurso diagnóstico apresentado aqui. A ausência de um exame nesse documento não demonstra que ele seja dispensável.

A graduação radiológica de Rezende não é detalhada no PCDT citado. O capítulo a apresenta como ferramenta de descrição do megaesôfago, junto ao quadro clínico e à investigação. A escolha de intervenção exige integrar esses dados, em vez de usar uma tabela isolada.

O protocolo usa a grafia “nifedipina”, enquanto a denominação comum brasileira e o elenco citado usam “nifedipino”. Reconheça as duas grafias ao localizar a referência, mas confirme nome, apresentação e via na prescrição.

O texto do PCDT especifica via sublingual para os vasodilatadores citados, enquanto a tabela omite a via. Essa diferença precisa ser esclarecida com a equipe antes de reproduzir o esquema. A escolha depende de indicação, apresentação disponível, condição cardiovascular e plano de monitorização.

O texto apresenta dinitrato de isossorbida de 2,5–5 mg, e a tabela resume 5 mg. A faixa e a dose fixa não devem ser interpretadas como equivalentes em todo paciente. Confirme a dose escolhida, sobretudo diante de cardiopatia e risco de hipotensão.

A apresentação sublingual citada contém 5 mg. Se a equipe considerar dose de 2,5 mg, precisa confirmar se o produto permite fracionamento e como administrá-lo. Não deduza a possibilidade de dividir um comprimido apenas a partir da dose desejada.

As grafias padronizadas são benznidazol e neurofibromatose. O PCDT contém variantes tipográficas que podem dificultar a busca textual. Ao consultar a fonte, confira o contexto e não interprete uma grafia diferente como outro medicamento ou diagnóstico.

O documento de acesso ambulatorial citado reúne acalasia e refluxo em uma mesma linha, mas descreve principalmente critérios de refluxo. No encaminhamento por disfagia, informe progressão, regurgitação, perda de peso e exames realizados. A descrição deve permitir reconhecer a suspeita de distúrbio motor ou obstrução.

Manometria e pHmetria respondem a perguntas diferentes. A expressão “24 horas” no documento de acesso refere-se ao monitoramento de pH descrito, sem definir a duração de toda manometria. Solicite o exame pela indicação e pela técnica, evitando copiar uma expressão ambígua.

As projeções da diretriz de cardiomiopatia chagásica dependem das premissas de prevalência e das proporções de formas clínicas. No exemplo de 2020, 1.365.585 infectados resultam em 136.559 casos digestivos ao aplicar 10%. São estimativas modeladas, não contagens observadas de pacientes.

A pequena queda da população projetada entre 2040 e 2045 na tabela corresponde à trajetória demográfica assumida. Não é, por si, erro de soma nem evidência de redução do risco individual de doença de Chagas.

A indicação e os esquemas de benznidazol são desenvolvidos nos capítulos de doença de Chagas e cardiomiopatias indicados. Aqui, a decisão sobre tratamento do distúrbio esofágico deve ser distinguida do tratamento etiológico: os dois têm objetivos e avaliações próprios.

Os documentos brasileiros consultados não estabelecem um programa completo de vigilância endoscópica para todos os pacientes com acalasia. A seção de divergências discute essa limitação. Sintomas novos ou piora após estabilidade exigem investigação, independentemente do intervalo de seguimento combinado.

08

A conduta, hora a hora

A conduta deste capítulo é quase toda de ambulatório e quase toda de papel: perguntas, um pedido bem escrito, orientações que começam hoje e um encaminhamento que chega ao destino com a informação certa. Não há droga que resolva e não há gesto que salve — há uma ordem que, se respeitada, impede que um câncer seja tratado como distúrbio motor e que um distúrbio motor seja operado como refluxo.

Os marcos abaixo seguem Orfeu, 54 anos, 61 quilos, 1,72 metro. As linhas de prescrição valem para ele; em outro peso, refaça a conta pela tabela de conversão. O que é do serviço especializado está declarado como tal, e o interno não decide nada disso — decide o que vem antes, que é tudo o que muda o prazo.

  1. Primeiros dez minutos da consulta, antes de qualquer pedido

    A separação entre distúrbio motor e obstrução mecânica é feita agora, com a boca, e ela determina o prazo de tudo o que vem depois. Ao mesmo tempo, o peso aferido hoje entra no prontuário, porque é ele que encurta prazo. Nada aqui depende de exame, de vaga ou de sistema de regulação.

    Prescrição
    • Perguntar, nesta ordem: entala sólido, líquido ou os dois desde o começo; desde quando; e o que mudou nos últimos meses
    • Perguntar pela regurgitação com as palavras do paciente: a comida volta? volta como desceu? tem gosto de ácido? tem náusea antes?
    • Perguntar pelo travesseiro, pelas manobras aprendidas para a comida descer e pela tosse à noite
    • Perguntar por internação prévia por pneumonia, com quantas e quando
    • Pesar na balança da unidade e registrar peso, altura e a data no prontuário, com a pergunta do furo do cinto de hoje contra o de um ano atrás
    • Registrar no prontuário a frase que classifica o caso: disfagia para sólidos e líquidos desde o início, com regurgitação de alimento não digerido e perda ponderal não quantificada
  2. Ainda na mesma consulta — o pedido de endoscopia

    A endoscopia é o primeiro exame e não espera o resultado de nada. Ela existe para excluir o que mata, e o que está escrito no pedido é o que decide em que fila ele entra. O pedido também carrega uma informação de segurança que a equipe de endoscopia precisa receber antes, não durante.

    Prescrição
    • Solicitar endoscopia digestiva alta com biópsia a critério do endoscopista
    • Escrever a indicação inteira: disfagia para sólidos e líquidos há quatro anos, progressiva, com regurgitação de alimento não digerido, duas pneumonias no último ano e perda ponderal com peso atual de 61 kg
    • Escrever, no mesmo pedido, a advertência de segurança: suspeita de acalasia, provável estase de alimento no esôfago, solicito jejum prolongado e cuidado com aspiração na sedação
    • Orientar jejum de pelo menos doze horas para sólidos e dieta líquida no dia anterior, explicando ao paciente por que o preparo é diferente do usual
    • Solicitar hemograma completo e albumina na mesma requisição, pela perda de peso
    • Suspender o omeprazol não é necessário e não muda a endoscopia; manter enquanto houver queimação, e registrar que ele não trata a doença de base
  3. Ainda na mesma consulta — o que se pede porque este paciente é quem é

    A história epidemiológica de doença de Chagas já foi colhida e é compatível: casa de pau a pique na infância, reconhecimento do vetor pelo nome regional, morte súbita do pai aos 58 anos. Isso não muda a ordem dos exames do esôfago, mas acrescenta uma linha à requisição e uma pergunta ao exame físico.

    Prescrição
    • Solicitar duas sorologias para doença de Chagas, de princípios metodológicos diferentes, na mesma requisição, escrevendo isso com essas palavras
    • Registrar na requisição a justificativa epidemiológica: natural de área endêmica, moradia de pau a pique até os vinte anos, reconhece o vetor
    • Perguntar pelo hábito intestinal — intervalo entre evacuações, uso de laxante, história de fecaloma — e registrar a resposta
    • Perguntar por palpitação, tontura ao esforço, desmaio e morte súbita na família
    • Auscultar o coração e verificar pulso e pressão em decúbito e em pé
    • Não pedir eletrocardiograma ainda: ele entra quando as duas sorologias voltarem, e pedir antes só produz um traçado sem pergunta
  4. Ainda na mesma consulta — o que Orfeu leva para casa hoje

    Entre hoje e a endoscopia vão passar semanas, e nesse intervalo o paciente continua comendo, continua regurgitando à noite e continua aspirando. As medidas abaixo não dependem de diagnóstico confirmado, não têm risco, e são as que o protocolo federal coloca em primeiro lugar no manejo do megaesôfago — antes de qualquer droga.

    Prescrição
    • Orientar refeições pequenas e frequentes, mastigação demorada e preferência por alimentos pastosos e líquidos, evitando o que irrita
    • Orientar ingerir líquido junto das refeições, em goles, para ajudar a coluna de alimento a passar
    • Orientar não deitar nas três horas seguintes à última refeição e elevar a cabeceira da cama — com calço no pé da cama, não com travesseiro
    • Orientar não fazer a última refeição do dia perto da hora de dormir, antecipando o jantar
    • Explicar por escrito, na receita, o que fazer se engasgar em casa e o que é motivo de procurar serviço: febre com tosse produtiva, falta de ar, ou incapacidade de engolir a própria saliva
    • Não iniciar nifedipino nem dinitrato de isossorbida agora: o diagnóstico não está feito, a endoscopia não foi feita e nenhuma das duas drogas muda o desfecho de quem tem um tumor
    • Agendar retorno com data marcada, não por demanda espontânea, e escrever a data no papel que ele leva
  5. Retorno com a endoscopia — sem lesão de mucosa, com estase descrita

    O laudo mostra resíduo alimentar, dilatação e resistência da junção à passagem, sem lesão mucosa demonstrada e com biópsias negativas. Isso favorece distúrbio motor, mas não exclui pseudoacalasia ou neoplasia infiltrativa por si só. Integrar qualidade do exame, idade, rapidez da evolução, perda de peso e dificuldade de transpor a junção. Prosseguir com manometria de alta resolução e exame contrastado, acrescentando tomografia, ecoendoscopia ou nova amostragem se a suspeita estrutural persistir.

    Prescrição
    • Registrar exatamente os achados, qualidade e limitações da endoscopia e biópsias. Escrever ausência de lesão demonstrada, evitando declarar neoplasia definitivamente excluída quando persistem sinais de pseudoacalasia.
    • Solicitar exame radiológico contrastado do esôfago, escrevendo a pergunta: avaliar calibre, eixo, afilamento distal e retenção de contraste
    • Encaminhar para serviço com manometria esofágica, anexando cópia do laudo de endoscopia com data e o resultado do contrastado quando sair
    • Escrever no encaminhamento a pergunta específica: disfagia para sólidos e líquidos com endoscopia sem lesão, investigar distúrbio motor do esôfago
    • Manter as medidas alimentares e posturais e reforçar que elas continuam valendo durante toda a espera
    • Reavaliar o peso a cada retorno, na mesma balança, e registrar a curva
  6. Quando as duas sorologias voltam reagentes

    Duas sorologias de princípios diferentes reagentes confirmam infecção crônica pelo parasita. A partir daqui, o paciente deixa de ter só um problema de esôfago: ele passa a pertencer a um grupo em que a forma cardíaca é três vezes mais comum que a digestiva, e a conduta se abre em três frentes ao mesmo tempo.

    Prescrição
    • Solicitar eletrocardiograma de doze derivações e encaminhar para avaliação cardiológica com o traçado em mãos
    • Encaminhar a avaliação e o estadiamento da cardiopatia chagásica ao serviço de cardiologia — a conduta cardíaca é do capítulo Cardiomiopatias, na apostila de Cardiologia
    • Registrar por escrito, no prontuário e no papel do paciente, a indicação de testagem sorológica para mãe, irmãos e filhos
    • Investigar megacólon pela história intestinal; havendo constipação crônica, orientar dieta com fibras, ingestão de líquidos, atender ao desejo de evacuar e evitar medicamentos constipantes, com laxativo osmótico se necessário
    • Não prescrever benznidazol para tratar o esôfago: o protocolo federal afirma que o tratamento antiparasitário não altera a evolução da doença digestiva
    • Registrar a decisão sobre o tratamento antiparasitário pela regra etária do protocolo: em adulto de 50 anos ou mais com forma crônica indeterminada ou digestiva, a orientação é não tratar de rotina — e Orfeu tem 54
    • Explicar ao paciente, com essas palavras, que o remédio contra o parasita não desfaz o que já foi feito no esôfago, e que isso não significa que não há tratamento
  7. Quando a manometria confirma acalasia

    O laudo confirma relaxamento inadequado do esfíncter esofágico inferior e ausência de peristalse efetiva no corpo do esôfago, com a subclassificação em linguagem da classificação internacional. O diagnóstico está fechado. A escolha do tratamento é do serviço especializado e depende do subtipo, do calibre do esôfago, da idade, do risco cirúrgico e do que o serviço oferece — mas o interno precisa saber o mapa para explicar ao paciente e para não prometer o que não existe.

    Prescrição
    • Encaminhar ao serviço de cirurgia do aparelho digestivo ou de endoscopia terapêutica de referência, com laudos de endoscopia, contrastado e manometria anexados
    • Explicar as opções em blocos, sem escolher por ele: dilatação com balão pela endoscopia, cirurgia que secciona a musculatura do esfíncter, e injeção de toxina botulínica no esfíncter — todas listadas pelo protocolo federal para o megaesôfago
    • Explicar a durabilidade de cada bloco: a cirurgia é a de resultado mais duradouro; a dilatação frequentemente precisa ser repetida; a toxina botulínica dura meses e é reservada a quem não suporta as outras
    • Explicar o que nenhuma delas faz: nenhuma devolve a onda peristáltica, e nenhuma cura a doença — todas abrem a porta que não abre
    • Manter as medidas alimentares e posturais durante toda a espera pelo tratamento, porque elas são o que reduz aspiração
    • Reservar nifedipino 10 mg antes das refeições, ou dinitrato de isossorbida 5 mg antes das refeições, para quem tem sintoma sem resposta às medidas não farmacológicas e não tem acesso ao tratamento definitivo — com a ressalva do próprio protocolo de que o efeito é apenas sintomático e de que a taxa de eventos adversos é alta
    • Não prescrever nifedipino a quem tem cardiopatia grave, pelo risco de hipotensão e retenção hidrossalina, conforme o próprio protocolo determina
  8. A qualquer momento, se a via oral deixar de sustentar o paciente

    Existe um ponto em que a fila deixa de ser aceitável, e ele não é definido por laudo: é definido pelo que o paciente consegue engolir e pelo que a balança mostra. Reconhecer esse ponto é a única decisão de urgência deste capítulo, e ela é do interno tanto quanto de qualquer um.

    Prescrição
    • Considerar internação quando o paciente não consegue engolir líquidos ou a própria saliva, quando há desidratação, ou quando a perda de peso é rápida e continua caindo entre retornos
    • Diante de febre com tosse produtiva, dispneia ou hipoxemia, tratar como pneumonia aspirativa e registrar a regurgitação noturna como o mecanismo — a orientação de que não fumar resolve não se aplica a quem nunca fumou
    • Solicitar avaliação nutricional formal quando houver perda maior que 10% do peso habitual ou albumina baixa, porque o estado nutricional muda o risco de qualquer tratamento que venha
    • Escrever no encaminhamento, com essas palavras, que o paciente não sustenta a via oral — é a frase que reordena fila
    • Não iniciar dieta enteral por sonda sem discutir com quem vai tratar: a via de acesso e o momento dependem do tratamento planejado
    • Registrar cada episódio de aspiração, com data, porque a soma deles é argumento clínico e não impressão
09

Como saber se está funcionando

Acalasia não tem cura e tem alívio, o que muda o sentido de reavaliar: não se procura resolução, procura-se a distância entre o que o paciente consegue engolir hoje e o que conseguia antes. Os parâmetros abaixo servem para o antes do tratamento — a espera, que no Brasil é longa — e para o depois, que é a maior parte da vida do paciente.

Um aviso sobre instrumento. Existe internacionalmente um escore sintomático de quatro itens — disfagia, regurgitação, dor torácica e perda de peso — usado para medir resposta ao tratamento da acalasia. Nenhum documento brasileiro consultado neste capítulo o adota, e ele não aparece em nenhum protocolo, diretriz ou norma nacional aqui usada. Este capítulo não o reproduz, e o que oferece no lugar são os mesmos quatro domínios perguntados em linguagem comum, com o dado objetivo que os ancora, que é o peso.

Peso, aferido na mesma balançaEm toda consulta, sem exceção, antes e depois do tratamento

Esperado: Antes do tratamento: estável. Depois de dilatação ou cirurgia bem-sucedida: recuperação de parte do peso perdido nos primeiros três a seis meses

Se não melhora: Queda continuada entre dois retornos, antes do tratamento, encurta o prazo do encaminhamento e é a frase que reordena fila. Queda depois de um tratamento que funcionou reabre a investigação: pode ser recidiva da obstrução, e pode ser outra coisa que apareceu no meio

O que ele consegue engolir hoje, contra o que engoliaEm toda consulta, perguntado por comportamento e não por sim ou não

Esperado: Pergunte pelo alimento concreto: come carne? come arroz? come pão? bebe água sem entalar? Antes do tratamento a resposta tende a piorar devagar; depois de um tratamento eficaz, a maioria volta a comer sólidos

Se não melhora: Piora rápida em semanas, num paciente que estava estável há anos, não é a evolução natural da acalasia. Reabre a hipótese de lesão nova e indica repetir endoscopia, independentemente de quando foi a última

Regurgitação noturna e o estado do travesseiroEm toda consulta, e sempre com a pergunta concreta sobre o travesseiro e sobre dormir sentado

Esperado: É o sintoma que melhor mede estase e o primeiro a melhorar quando a porta abre. Depois de tratamento eficaz, tende a desaparecer

Se não melhora: Persistência depois de tratamento indica esvaziamento ainda inadequado. Mantém o risco de aspiração e mantém todas as medidas posturais e alimentares, que não são temporárias

Tosse noturna, febre e episódios respiratóriosEm toda consulta, e ativamente na anamnese de qualquer intercorrência respiratória

Esperado: Ausência de novos episódios. Cada pneumonia registrada com data soma um argumento clínico

Se não melhora: Novo episódio de pneumonia em paciente com regurgitação noturna é falha do controle da estase e não falha do antibiótico. Escreva a associação no prontuário, porque é o que impede que o próximo médico trate a consequência de novo

Queimação retroesternal, depois do tratamentoEm todo retorno após dilatação ou cirurgia

Esperado: Sintoma novo e esperado: abrir a junção que estava fechada permite refluxo verdadeiro, que antes não existia. Aqui, e só aqui, o inibidor de bomba passa a ter indicação real

Se não melhora: Queimação persistente apesar do inibidor de bomba, ou disfagia que volta junto, exige reavaliação pelo serviço que tratou. O manejo do uso crônico do inibidor de bomba é do capítulo Sete anos de omeprazol, na apostila de Gastroenterologia

Tolerância às drogas que relaxam o esfíncter, quando usadasEm toda consulta enquanto estiverem prescritas

Esperado: Cefaleia, rubor, tontura e hipotensão são frequentes com as duas, e o protocolo federal registra que a alta taxa de eventos adversos prejudica a adesão sem conferir maior risco

Se não melhora: O próprio protocolo manda descontinuar a medicação se ocorrerem eventos adversos. Não insista: o benefício é sintomático e parcial, e a droga não está segurando desfecho nenhum

Seguimento endoscópico de longo prazoAssunto de toda consulta de acompanhamento, e sem intervalo definido

Esperado: A acalasia é fator de risco reconhecido para carcinoma de células escamosas do esôfago, e o risco cresce com décadas de estase

Se não melhora: Não há régua brasileira que defina se, quando e com que intervalo repetir endoscopia nesses pacientes. Qualquer sintoma novo — disfagia que piora depois de anos estável, dor, sangramento, perda de peso — indica endoscopia independentemente de intervalo. As duas posições defensáveis sobre a vigilância programada estão no bloco de divergências

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Onde o erro machuca

Tratar como refluxo, por anos, quem entala sólido e líquido desde o começo

O dano: É o erro que define este capítulo e o que custa mais tempo. O inibidor de bomba produz melhora parcial verdadeira, porque a fermentação do alimento retido irrita a mucosa — e a melhora parcial convence paciente e médico de que o caminho está certo. Cada ciclo de oito semanas compra mais oito semanas. Orfeu perdeu quatro anos, duas pneumonias e a companhia da esposa no quarto assim.

Como pegar a tempo: Faça a pergunta que separa antes da receita, em toda queixa de dificuldade para engolir: entala sólido, líquido, ou os dois desde o começo? Quando o paciente responde que entala tudo, inclusive água, a hipótese deixa de ser refluxo e nenhuma melhora parcial deve reabri-la.

Pular a endoscopia porque o quadro é típico de distúrbio motor

O dano: A pseudoacalasia existe justamente para punir isso: um tumor infiltrando a região da junção esofagogástrica produz quadro clínico, imagem radiológica e resultado manométrico que podem ser indistinguíveis dos da acalasia. Iniciar dilatação, cirurgia ou droga que relaxa o esfíncter em quem tem tumor não trata nada, atrasa o diagnóstico e pode complicar a lesão.

Como pegar a tempo: Investigar disfagia com endoscopia apropriada e, conforme achados, exames funcionais e dirigidos. Exame ou biópsia negativos não excluem toda neoplasia infiltrativa; perda de peso rápida, progressão curta e dificuldade de transpor a junção exigem considerar pseudoacalasia.

Encerrar a investigação porque a endoscopia foi descrita como normal

O dano: Na acalasia inicial, com esôfago ainda não dilatado, o exame pode ser inteiramente normal. O paciente sai com um laudo tranquilizador, o médico conclui que a queixa é funcional ou ansiosa, e a doença segue por mais anos. É o caminho mais comum para o rótulo psiquiátrico injusto.

Como pegar a tempo: Leia o que a endoscopia normal significa: não há tumor e não há estenose. Se a queixa é de disfagia para sólidos e líquidos, a investigação continua com contrastado e manometria. Escreva no prontuário que a endoscopia afastou lesão de mucosa e que a hipótese motora permanece.

Encaminhar para cirurgia antirrefluxo sem manometria prévia

O dano: Operar como refluxo um esôfago que não relaxa aperta ainda mais uma junção que já não abre, e transforma disfagia em obstrução quase completa. O paciente sai da cirurgia pior do que entrou, com um problema iatrogênico somado ao original e com um plano cirúrgico anterior a desfazer. A folha de encaminhamento de Orfeu pedia exatamente essa operação.

Como pegar a tempo: Manometria antes de cirurgia antirrefluxo não é preciosismo de especialista: é o exame que distingue duas operações opostas, porque exclui a acalasia e o distúrbio motor grave que contraindicam a válvula. A recomendação é desta apostila, não exigência de documento — nenhuma diretriz clínica brasileira a pede, e o documento federal de acesso de 2015 apenas a lista entre os exames complementares sugeridos —, e por isso nenhum encaminhamento para cirurgia antirrefluxo sai da sua mão sem endoscopia e sem a pergunta manométrica escrita.

Fechar ou afastar doença de Chagas com uma sorologia só

O dano: O dano existe nos dois sentidos e os dois são reais. Rotular por um exame isolado cria um paciente com diagnóstico crônico que pode não ter a doença, com consequências de seguimento, de trabalho e de vida. Afastar por um exame isolado devolve para casa alguém que precisaria de estadiamento cardíaco por décadas, num grupo em que a forma cardíaca é três vezes mais comum que a digestiva.

Como pegar a tempo: Peça sempre dois testes de princípios metodológicos diferentes, na mesma requisição, e leia o par: dois reagentes confirmam, dois não reagentes afastam, discordante pede nova coleta com os dois. Comunique triagem como triagem enquanto houver um só resultado.

Prescrever nifedipino ou dinitrato de isossorbida antes da endoscopia, ou como se fossem tratamento

O dano: As duas drogas relaxam o esfíncter e não mudam desfecho nenhum: o efeito é sintomático, parcial, e o próprio protocolo federal registra que a alta taxa de eventos adversos prejudica a adesão. Prescritas antes do diagnóstico, dão a impressão de que a doença está sendo tratada e adiam a investigação. Prescritas a quem tem cardiopatia grave, o nifedipino traz risco de hipotensão e retenção hidrossalina — e o próprio protocolo o contraindica nesse cenário.

Como pegar a tempo: Trate a medida alimentar e postural como o primeiro tratamento, que é o que o protocolo federal faz. Reserve as duas drogas para quem tem sintoma sem resposta às medidas não farmacológicas e não alcança tratamento definitivo, com o diagnóstico já feito e o coração já avaliado.

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O que dizer ao paciente e à família

As conversas deste capítulo são de três tipos, e nenhuma delas é a comunicação de um diagnóstico grave já confirmado — essa é do capítulo sobre comunicação de más notícias, na apostila de Comunicação, Ética e Segurança na Prática, e este capítulo cede a ele essa conversa e não a repete. O que fica aqui é o intervalo em que ainda não se sabe, o momento em que se explica que o remédio de quatro anos era o remédio errado, e a conversa sobre uma doença que tem alívio e não tem cura.

Duas regras atravessam todas elas. A primeira: não desfaça a confiança do paciente no médico anterior — a queixa que ele trazia levava ao diagnóstico que foi feito, e dizer o contrário só produz raiva sem benefício. A segunda: nomeie a incerteza em vez de escondê-la. O paciente que entende por que a endoscopia vem primeiro faz a endoscopia.

Ele pergunta por que precisa de endoscopia se já sabe que é do refluxo

O fato de entalar também água ajuda a pensar num problema do movimento do esôfago, mas o relato sozinho não fecha a causa. Vamos examinar por dentro e, conforme os achados, medir como o esôfago funciona. A endoscopia procura estreitamentos e lesões; se ela não explicar os sintomas, a investigação continua. Enquanto isso, precisamos cuidar da alimentação e saber se o senhor consegue engolir com segurança.

Não diga: Evite dizer que é só para descartar câncer sem mais nada, porque isso instala um medo que atravessa semanas de fila sem qualquer benefício. E evite prometer que não é nada, porque o senhor ainda não sabe.

Ele pergunta por que tomou omeprazol quatro anos à toa

Não foi à toa, e não foi erro de quem prescreveu. O senhor tinha queimação de verdade, e o remédio melhorou a queimação de verdade — só que a queimação era consequência, não a doença. O que segura a comida é uma válvula no fim do esôfago que não está abrindo, e nenhum remédio de estômago abre essa válvula. Por isso melhorou um pouco e nunca resolveu. Agora a gente vai atrás da válvula.

Não diga: Evite dizer que ele foi mal atendido ou que perdeu quatro anos. Ele vai ouvir isso como culpa de alguém e sair da consulta com raiva em vez de com um exame marcado.

Ele conta, com vergonha, que a comida volta à noite e molha o travesseiro

Isso não é sujeira e não é falta de educação: é o sinal mais importante que o senhor me deu hoje. A comida fica parada acima da válvula fechada, e quando o senhor deita ela volta porque não tem para onde ir. É por isso que o senhor teve pneumonia duas vezes — um pouquinho disso desce para o pulmão enquanto o senhor dorme. Vamos fazer três coisas ainda hoje para reduzir isso, antes mesmo do exame.

Não diga: Evite passar rápido por esse assunto para poupar o constrangimento dele. O sintoma é específico, é o que fecha o raciocínio, e tratá-lo como detalhe ensina o paciente a não contar.

Ela pergunta se doença de Chagas se pega dela para os filhos, e se a culpa é dela

A senhora pegou isso provavelmente ainda criança, na casa onde nasceu, e ninguém escolhe a casa onde nasce. Não passa no abraço, no beijo, no prato, no copo. Pode ter passado da mãe para o filho na gravidez, e é por isso que eu quero testar seus filhos e seus irmãos — não porque eles estejam doentes, mas porque, se algum tiver, é melhor descobrir cedo. Um exame de sangue resolve.

Não diga: Evite a palavra contágio sem explicar, e evite o tom de culpa retrospectiva. E não prometa que os exames dos filhos vão dar negativo.

Ele pergunta se tem cura, depois que a manometria confirmou

Cura, no sentido de o esôfago voltar a empurrar como antes, não tem — os nervos que faziam isso não voltam. Mas tratamento tem, e tratamento bom. O que se faz é abrir a válvula que não abre, e quem consegue isso volta a comer. Tem mais de um jeito de abrir, uns duram mais que os outros, e quem escolhe é a equipe que vai fazer, olhando o seu exame. O que eu posso garantir é que não é para conviver com isso do jeito que está.

Não diga: Evite as duas descrições erradas: que é doença sem tratamento, o que faz o paciente desistir, e que a cirurgia cura, o que faz o paciente se sentir enganado quando a disfagia voltar em algum grau.

Ele pergunta se o remédio da doença de Chagas resolve o esôfago

Não resolve, e eu prefiro ser direto: o remédio que mata o parasita não desfaz o estrago que já foi feito nos nervos do esôfago. Ele se discute por outro motivo, que é o coração e a infecção em si, e nessa conversa a sua idade entra na conta. Isso não quer dizer que não haja tratamento — quer dizer que o tratamento do esôfago é outro, e é o que a gente vai fazer.

Não diga: Evite prometer o benznidazol antes de confirmar a indicação e a disponibilidade: ele é distribuído por fluxo próprio, e prometer o que pode não vir é o jeito mais rápido de perder o paciente.

A esposa pergunta, no corredor, se ele vai morrer disso

A doença dele não é câncer, e a gente já confirmou isso com biópsia. É uma doença do movimento do esôfago, que tem tratamento e que ele vai continuar acompanhando pela vida toda. O que preocupa hoje não é a doença em si, é o pulmão: enquanto a comida voltar à noite, ele vai continuar tendo pneumonia. Por isso as orientações de comer e de dormir com a cabeceira alta valem desde já, e não são detalhe.

Não diga: Evite responder no corredor o que o paciente ainda não ouviu de você. Se a conversa é sobre o diagnóstico dele, chame-o para dentro.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Vigilância endoscópica de câncer de esôfago em quem já tem acalasia: repetir endoscopia programada, ou só diante de sintoma novo?

A favor da vigilância programada

A acalasia é fator de risco reconhecido para carcinoma de células escamosas do esôfago, o risco cresce com o tempo de estase e a doença aparece tipicamente uma ou duas décadas depois do início dos sintomas. O paciente já faz endoscopia no diagnóstico e já é seguido pelo serviço especializado, de modo que o custo marginal de repetir o exame em intervalos definidos é pequeno diante de um tumor que, quando dá sintoma, costuma dar sintoma tarde. Além disso, o sintoma sentinela do câncer — disfagia que piora — é o mesmo sintoma da doença de base, o que faz a vigilância clínica ser especialmente cega neste paciente.

Argumento fisiopatológico e de risco, sem documento brasileiro que o sustente. É uma posição defendida na literatura internacional e não normatizada no país.

Contra a vigilância programada

O risco relativo é alto, mas a incidência absoluta permanece baixa, e nenhum estudo demonstrou que repetir endoscopia de rotina reduza mortalidade nesta população. Vigilância sem benefício demonstrado consome vagas de endoscopia que faltam para investigar disfagia nova em quem ainda não tem diagnóstico nenhum, produz achados incidentais e ansiedade, e submete a sedação repetida um paciente com risco aumentado de aspiração pela própria estase. Nenhum documento brasileiro em uso estabelece essa vigilância — nem o protocolo federal da doença de Chagas, nem qualquer outro aqui consultado.

Ausência de recomendação em documento brasileiro vigente, verificada no protocolo federal da doença de Chagas (Portaria SCTIE/MS nº 57, de 30 de outubro de 2018), e argumento de alocação de recurso.

Como decidir

Considere duração da doença, situação clínica e possibilidade real de seguimento ao discutir vigilância. Registre o plano e seu motivo. Piora da disfagia, novos sintomas ou mudança após período estável exigem endoscopia conforme a investigação descrita, sem aguardar a data de uma revisão programada.

Adulto de 50 anos ou mais com forma digestiva da doença de Chagas: oferecer ou não oferecer o benznidazol, quando o próprio documento diz as duas coisas

Não tratar, seguindo a célula da tabela

A tabela de recomendações terapêuticas do protocolo federal é explícita: na fase crônica indeterminada ou digestiva, em adultos com 50 anos ou mais, a orientação é não tratar de rotina. O mesmo protocolo afirma, em texto corrido, que a fisiopatologia aponta para provável ausência de efeito do tratamento antiparasitário na evolução natural da doença digestiva, e que não há evidências de benefício do antiparasitário para as manifestações digestivas. Somando as duas afirmações, tratar um paciente de 54 anos cuja única manifestação é o megaesôfago expõe a eventos adversos frequentes — o próprio protocolo registra taxa em torno de 53% com o benznidazol — sem desfecho a ganhar.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da doença de Chagas, Portaria SCTIE/MS nº 57, de 30 de outubro de 2018, Tabela 2 e seção de abordagem terapêutica.

Oferecer, seguindo o rodapé da mesma tabela

A expressão usada na tabela não é não tratar: é não tratar de rotina, com chamada para uma nota de rodapé, e a nota diz decisão compartilhada com o paciente para o tratamento do benznidazol no caso de não haver contraindicações. Lida inteira, com a chamada e o rodapé, a linha não proíbe: ela retira o automatismo e devolve a escolha ao par médico-paciente. E há um argumento que o esôfago não esgota — o paciente com forma digestiva tem infecção crônica ativa e pertence a um grupo em que a forma cardíaca é três vezes mais comum, de modo que a decisão sobre tratar a infecção não se resolve olhando só para o órgão que deu sintoma.

Mesmo protocolo, Tabela 2 e a nota de rodapé assinalada por dois asteriscos na própria célula.

Como decidir

Encaminhe a decisão sobre tratamento etiológico à equipe que acompanha Chagas, com avaliação cardíaca, situação clínica e possibilidade de monitorar efeitos adversos. Explique que esse tratamento não tem como objetivo imediato melhorar a deglutição. Registre expectativas, dúvidas e decisão compartilhada, além do plano específico para o megaesôfago.

A via sublingual do nifedipino no megaesôfago: seguir a posologia do protocolo, ou recusar a via?

Seguir a posologia como está escrita

O protocolo federal é o único documento brasileiro que trata do assunto e é explícito: nifedipina na dose de 10 mg, por via sublingual, 30 minutos antes de cada refeição. A justificativa é farmacológica e coerente com o objetivo — a via sublingual entrega a droga rapidamente, e o que se quer é relaxamento do esfíncter no momento em que o alimento chega, não ao longo do dia. Os estudos que o próprio protocolo lista como base da recomendação avaliaram nifedipina sublingual em pacientes com megaesôfago chagásico. Prescrever diferente do único documento nacional é decidir por conta própria em terreno sem outra régua.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da doença de Chagas, Portaria SCTIE/MS nº 57, de 30 de outubro de 2018, seção de tratamento de complicações digestivas.

Recusar a via sublingual e discutir a indicação inteira

A administração sublingual de nifedipino foi abandonada na prática clínica por produzir queda pressórica rápida e imprevisível, e não é a via aprovada em bula das apresentações comercializadas no Brasil. A objeção ganha peso neste paciente específico: a forma cardíaca da doença de Chagas é três vezes mais comum que a digestiva, e o próprio protocolo, na mesma tabela, adverte que a droga não deve ser usada em cardiopatia grave pelo risco de hipotensão e retenção hidrossalina. Some-se que o elenco do SUS traz o nifedipino tanto em cápsula quanto em comprimido de 10 mg, e só a cápsula é fisicamente utilizável por via sublingual — quem dispensa não escolhe qual chega.

Rename 2024, que lista nifedipino 10 mg em cápsula e em comprimido no componente básico, e a advertência da própria Tabela 7 do protocolo federal. A afirmação sobre o abandono da via sublingual na prática é leitura deste capítulo e não citação de documento brasileiro.

Como decidir

Considere tratamento farmacológico do distúrbio motor apenas após diagnóstico, exclusão de neoplasia e avaliação das opções definitivas. A equipe deve revisar cardiopatia, risco de hipotensão e apresentação do medicamento. Se um vasodilatador for escolhido, escreva dose, via e horário por extenso e planeje monitorização; a tabela resumida não resolve essas decisões.

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O raciocínio, em voz alta

Quarta-feira, dez e vinte da manhã, ambulatório de cirurgia do aparelho digestivo. Orfeu Chapadão, 54 anos, motorista de caminhão-pipa, chega com folha de referência escrita à mão pela médica da unidade básica: doença do refluxo refratária, solicito avaliação para cirurgia antirrefluxo. Traz quatro caixas de omeprazol de 20 mg, três vazias, e diz que toma há quatro anos, que melhorou um pouco no começo e nunca mais. Pesa 61 kg e tem 1,72 m; não há peso anterior no prontuário. Nunca fez endoscopia. Nasceu e morou até os vinte anos em casa de pau a pique, reconhece o vetor pelo nome regional, e o pai morreu de repente aos 58 anos trabalhando na roça. Você é o interno da sala 2 e tem quinze minutos.

  1. o que eu penso agora

    O encaminhamento me entrega um diagnóstico pronto e uma cirurgia pedida, e eu não vou usar nenhum dos dois. A primeira coisa é descobrir o que ele engole, porque disso depende tudo. Refluxo refratário que nunca respondeu bem a quatro anos de inibidor de bomba já é, por si só, um rótulo suspeito: melhora parcial que nunca completa é o padrão de quem está sendo tratado da consequência.

  2. o que eu pergunto primeiro

    Entala sólido, líquido, ou os dois desde o começo? Ele responde que entala tudo — arroz, carne, pão e água também. Essa resposta muda a doença. Disfagia para sólidos e líquidos desde o início aponta para distúrbio motor, não para obstrução mecânica e não para refluxo. Pergunto há quanto tempo: três ou quatro anos, devagar, com oscilações. Pergunto o que ele faz para a comida descer, e ele descreve comer em pé, beber água junto e levantar os braços. São manobras aprendidas, e quem as aprendeu tem obstrução funcional há tempo.

  3. o que eu pergunto em seguida, e é o que fecha o quadro clínico

    A comida volta? Ele conta, com vergonha, que à noite volta inteira, sem náusea, sem esforço, sem gosto ácido, e que o travesseiro amanhece molhado com pedaço de arroz. Isso é regurgitação de alimento não digerido, e é o sintoma específico da estase — o material nunca chegou ao estômago e nunca encontrou ácido. Amarro a isso as duas pneumonias do ano passado, num homem que nunca fumou: não são duas pneumonias, são o mesmo mecanismo funcionando duas vezes, com aspiração noturna repetida.

  4. o que eu meço, e o que a medida muda

    Coloco Orfeu na balança: 61 kg, 1,72 m, sem peso anterior registrado. Ele diz que a calça sobra e não sabe quantos quilos perdeu. Aqui a consulta muda de ritmo. Disfagia com perda de peso em adulto de 54 anos é câncer de esôfago até prova em contrário, e essa regra não abre exceção porque o padrão da disfagia parece motor — existe uma entidade que serve exatamente para punir essa exceção, a pseudoacalasia, em que um tumor infiltrando a junção produz quadro clínico, radiológico e manométrico praticamente igual ao da acalasia.

  5. o que eu peço, e por que nesta ordem

    Endoscopia digestiva alta com biópsia, primeiro, antes de qualquer tratamento. Ela não vai fazer o diagnóstico da doença que eu suspeito — vai excluir a que eu não posso deixar passar. Escrevo a indicação inteira no pedido, porque é o que classifica risco na regulação: disfagia para sólidos e líquidos há quatro anos, com regurgitação de alimento não digerido, duas pneumonias no último ano e perda ponderal, peso atual 61 kg. E escrevo uma segunda frase, que é de segurança e não de diagnóstico: suspeita de acalasia, provável estase de alimento no esôfago, solicito jejum prolongado e cuidado com aspiração na sedação. Peço hemograma e albumina na mesma requisição.

  6. o que eu peço a mais porque ele é quem é

    Duas sorologias para doença de Chagas, de princípios metodológicos diferentes, na mesma requisição — escrito com essas palavras, porque uma só não decide em nenhuma direção. Justifico na requisição: natural de área endêmica, moradia de pau a pique até os vinte anos, reconhece o vetor. Pergunto pelo intestino, procurando megacólon, e pergunto por palpitação, tontura ao esforço e desmaio. Não peço eletrocardiograma ainda: ele entra quando as sorologias voltarem, e antes disso seria um traçado sem pergunta.

  7. o que ele leva para casa hoje, sem esperar exame nenhum

    Entre hoje e a endoscopia vão passar semanas, e nesse intervalo ele continua aspirando toda noite. Oriento refeições pequenas e frequentes, mastigação demorada, preferência por pastoso e líquido, líquido em goles junto das refeições, jantar cedo, não deitar nas três horas seguintes e elevar a cabeceira com calço no pé da cama — não com travesseiro. Escrevo na receita o que é motivo de procurar serviço: febre com tosse produtiva, falta de ar, ou não conseguir engolir a própria saliva. Não inicio nifedipino nem dinitrato de isossorbida: o diagnóstico não está feito, e nenhuma das duas muda o desfecho de quem tem um tumor. Marco retorno com data escrita no papel.

  8. o que eu digo a ele, e o que eu não digo

    Explico a Orfeu que dificuldade também com líquidos e retorno de alimento não digerido levantam a possibilidade de problema no movimento e esvaziamento do esôfago. Isso não demonstra que refluxo seja impossível nem que a queimação anterior tivesse uma única causa. A endoscopia procura estreitamento e alterações da mucosa; outros exames podem ser necessários. Explico a importância de investigar sem prometer benignidade ou anunciar um diagnóstico ainda não confirmado.

  9. o que acontece depois, e onde termina a minha parte

    A endoscopia descreve estase, dilatação e resistência na junção, sem lesão mucosa e com biópsias sem neoplasia. Esses resultados apoiam distúrbio motor, mas não excluem toda obstrução infiltrativa ou pseudoacalasia. Avalio duração e perda de peso e discuto TC ou ecoendoscopia se persistirem sinais suspeitos. Peço estudo contrastado e manometria com pergunta clínica definida. As sorologias reagentes orientam investigação da doença de Chagas e de manifestações associadas; a decisão de antiparasitário é individualizada pelo serviço responsável. Confirmado o distúrbio motor, o tratamento é escolhido em equipe, acompanhando nutrição e aspiração. Para o tratamento etiológico e suas particularidades, consultar Doença de Chagas e leishmanioses, na apostila de Infectologia.

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Faça você

Terça-feira, oito e quarenta da manhã, mesmo ambulatório, outra sala. Jorgina Carambola tem 58 anos, é diarista, fuma meio maço por dia há quarenta anos e bebe cachaça aos fins de semana desde os vinte. Veio encaminhada da unidade básica com a queixa de dificuldade para engolir. Conta que há cerca de cinco meses começou a entalar carne — no começo só carne de churrasco, depois qualquer carne. Há dois meses passou a entalar arroz e pão. Nas últimas três semanas, engole líquido com dificuldade e para tossir depois. Perdeu 11 kg em cinco meses, medidos: tem em casa uma balança e anotou. Pesa 48 kg com 1,58 m. Não tem azia, não tem regurgitação de comida à noite, não aprendeu manobra nenhuma para a comida descer, e nunca teve pneumonia. Nasceu e mora na periferia da capital, em casa de alvenaria; não conhece o vetor e não tem história familiar de doença de Chagas. Ao exame, você palpa um linfonodo supraclavicular esquerdo de cerca de 2 cm, endurecido e pouco móvel. Escreva, em ordem: (1) o que separa esta história da história de Orfeu, item por item; (2) qual é a sua hipótese principal e por quê; (3) o que você pede hoje, com o que escreve no pedido; (4) o que você não pede, e por quê; (5) as frases que você diria a ela nesta consulta, e as que evitaria.

  1. o que penso agora

    Comece pela pergunta que separa, e note que ela responde ao contrário de Orfeu. A disfagia dela começou nos sólidos e progrediu para pastosos e depois para líquidos, em cinco meses. Escreva por que essa sequência temporal, e não o sintoma isolado, é o achado.

  2. o que confirma e o que falta

    Liste o que reforça a sua hipótese: a velocidade, a perda de peso quantificada, a idade, o tabagismo e o etilismo somados, e o achado do exame físico. Depois liste o que está ausente e por que a ausência importa: sem regurgitação de alimento não digerido, sem manobras aprendidas, sem pneumonia, sem história epidemiológica de doença de Chagas.

  3. o que peço, e com que prazo

    Escreva o exame que vem primeiro e o texto exato da indicação que você põe no pedido, incluindo o peso aferido hoje, o intervalo da perda ponderal e o achado do pescoço. Diga qual é o prazo que você vai defender e com que palavras vai defendê-lo na regulação.

  4. o que não peço, e por quê

    Diga se pede manometria hoje, e justifique. Diga se pede sorologia para doença de Chagas nesta paciente, e justifique pela história dela e não pela regra geral. Diga o que faz com o linfonodo — se ele muda o exame que você pede primeiro, ou se muda o que você escreve no pedido.

  5. o que digo nesta consulta

    Escreva duas ou três frases que você diria a Jorgina agora, nomeando a incerteza sem anunciar diagnóstico que você não tem, e dando o motivo da pressa. Diga também o que você evita dizer, e por quê.

  6. Continuidade do caso e prática do internato

    Explique a Orfeu a pergunta de cada exame e por que a endoscopia favorável não elimina toda necessidade de investigação.

  7. Questão integrativa 1

    Disfagia para líquidos torna refluxo impossível?

  8. Questão integrativa 2

    Endoscopia sem tumor visível exclui toda pseudoacalasia?

  9. Questão integrativa 3

    Qual é a função da manometria?

  10. Questão integrativa 4

    O estudo contrastado repete exatamente a endoscopia?

  11. Questão integrativa 5

    Sorologia de Chagas decide sozinha a técnica de tratamento esofágico?

  12. Questão integrativa 6

    O que o interno acompanha enquanto Orfeu espera os exames?

Ver como fecharíamos

(1) O que separa, item por item: a sequência da disfagia — em Jorgina começou nos sólidos e progrediu para líquidos, em Orfeu foram sólidos e líquidos juntos desde o começo; a velocidade — cinco meses contra quatro anos; a perda de peso — 11 kg quantificados em cinco meses contra perda lenta não quantificada; a ausência de regurgitação de alimento não digerido, que é o sintoma específico da estase e o que fecha o quadro clínico da acalasia; a ausência de manobras aprendidas, que só existem em quem convive com obstrução funcional há anos; a ausência de pneumonia de repetição; a ausência de história epidemiológica de doença de Chagas; e a presença de fatores de risco para carcinoma escamoso — tabagismo e etilismo somados por décadas. (2) A hipótese principal é câncer de esôfago. Disfagia progressiva de sólidos para líquidos em adulto, com perda de peso não intencional, é obstrução mecânica que cresce, e obstrução mecânica em adulto com perda de peso é câncer até prova em contrário. O linfonodo supraclavicular esquerdo endurecido e pouco móvel reforça a hipótese e sugere doença já disseminada. (3) Endoscopia digestiva alta com biópsia, no prazo mais curto que o serviço conseguir. No pedido, escreva a indicação inteira, porque é ela que classifica risco: disfagia progressiva de sólidos para líquidos há cinco meses, perda ponderal de 11 kg documentada, peso atual 48 kg, tabagismo de 40 anos-maço e etilismo, com linfonodo supraclavicular esquerdo endurecido de 2 cm. Peça hemograma e albumina na mesma requisição. (4) Não peça manometria: ela não vê mucosa, não colhe biópsia, não afasta neoplasia, e pedida primeiro só atrasa o exame que decide o prazo. A sorologia para doença de Chagas não se pede aqui por rotina — a indicação é história epidemiológica compatível, e Jorgina não a tem; pedir a todos porque o assunto do capítulo é distúrbio motor é confundir régua com hábito. O linfonodo não muda o exame que vem primeiro, mas muda o que se escreve no pedido e o prazo que se defende; a punção ou a biópsia dele, e o estadiamento, são decisões do serviço que vai tratar, e o estadiamento e o tratamento do câncer de esôfago não pertencem a este capítulo. (5) Diga que a dificuldade para engolir dela mudou depressa demais para esperar, que existe algo estreitando o caminho e que é preciso olhar por dentro e tirar um pedacinho para saber o que é, e que isso vai ser marcado com prioridade. Nomeie a incerteza: pode ser coisa que se trata e pode ser coisa séria, e a diferença se resolve com o exame, não com o tempo. Evite anunciar câncer sem biópsia, evite prometer que não é nada, e evite negociar o prazo — negocie a agenda dela em volta do exame, nunca o exame em volta da agenda. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. Sugere componente motor, mas não permite exclusão absoluta; investigar o conjunto. 2. Não. Lesão infiltrativa pode exigir investigação adicional se persistirem sinais de alarme. 3. Caracterizar o distúrbio motor e seu subtipo, integrada aos achados anatômicos e de esvaziamento. 4. Não. Mostra trânsito, esvaziamento e forma do esôfago, complementando a avaliação da mucosa. 5. Não. Etiologia, função, anatomia, estado clínico e recursos precisam ser integrados. 6. Ingestão, peso, hidratação, regurgitação e aspiração, orientando retorno e acelerando cuidado se não conseguir se alimentar.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

A regra de leitura é a mesma em qualquer órgão acometido: dois testes reagentes confirmam, dois não reagentes afastam, e resultado discordante pede nova coleta com os dois testes. Um exame isolado não decide em nenhuma das duas direções, e o dano existe nos dois sentidos. Rotular alguém como chagásico por um resultado isolado cria um paciente com diagnóstico crônico que talvez não tenha a doença, com consequências de seguimento, de trabalho e de vida por décadas. Afastar por um resultado isolado devolve para casa alguém que precisaria de estadiamento cardíaco, num grupo em que a forma cardíaca é cerca de três vezes mais comum que a digestiva. Enquanto houver discordância, a comunicação correta ao paciente é que existe um exame alterado a confirmar — triagem se comunica como triagem. A pesquisa de imunoglobulina M investiga fase aguda e não responde à pergunta de um paciente que se infectou há décadas.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Reescreva de memória, sem consultar: a pergunta de oito palavras que separa distúrbio motor de obstrução mecânica, e a conduta que cada resposta dispara; os três exames na ordem correta, com a pergunta que cada um responde e a que ele não responde; as quatro características que distinguem regurgitação de alimento não digerido de vômito e de regurgitação ácida; e a regra de leitura das duas sorologias para doença de Chagas, nos três resultados possíveis. Depois escreva o texto completo do pedido de endoscopia de Orfeu, com a indicação e com a advertência de segurança sobre estase e sedação, e confira se você incluiu o peso aferido. Por fim, refaça a conta do benznidazol para um adulto de 61 kg pelos dois esquemas do protocolo federal, dizendo quantos comprimidos de 100 mg e de 12,5 mg saem em cada um e por que os dois entregam o mesmo total.

Em 30 dias

Reveja três coisas que dependem do seu serviço e não do seu conhecimento, e anote as respostas. Primeira: qual é o tempo real de espera para endoscopia digestiva alta com a indicação de disfagia na sua unidade, e o que precisa estar escrito no pedido para encurtá-lo — peça para ver a fila com quem regula. Segunda: onde é o serviço com manometria esofágica mais próximo, como se encaminha para ele e o que ele exige junto do encaminhamento. Terceira: se a farmácia da sua unidade dispensa nifedipino em cápsula ou em comprimido, e se dispensa dinitrato de isossorbida em comprimido sublingual — as três respostas mudam o que você pode prescrever de verdade. Depois pegue dois pacientes reais que você atendeu com queixa de dificuldade para engolir e releia os prontuários com a pergunta que separa na mão: em quantos deles ela foi feita e registrada? E reveja, no capítulo Cardiomiopatias, na apostila de Cardiologia, o estadiamento da cardiopatia chagásica, porque o paciente com megaesôfago que você encaminhou vai voltar com um eletrocardiograma na mão.

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Agora atenda

Agora atenda: homem de 47 anos, pedreiro, chega ao ambulatório com dificuldade para engolir há cerca de dois anos. Diz que engasga com tudo, inclusive com água, e que aprendeu a comer devagar e em pé. Toma omeprazol comprado na farmácia há um ano e meio, diz que ajudou no começo. Perdeu peso, não sabe quanto. Nasceu no interior, em casa de barro, e a mãe tem doença de Chagas. Você tem quinze minutos e a preceptora vai passar aqui daqui a pouco. Faça a pergunta que separa, caracterize a regurgitação, pese o paciente, colha a história epidemiológica, e escreva o pedido do primeiro exame com a indicação que classifica risco e com a advertência de segurança.

Acalasia e distúrbios motores do esôfago – A comida que volta inteira — Internato | OsceLabs