Cirurgia GeralCirurgia do Aparelho Digestivo

Hemorragia digestiva baixa

Avaliar repercussão e sangramento em curso, escolher angio-TC ou colonoscopia pela situação clínica e revisar antitrombóticos com critério.

Fontes deste capítulo

Triantafyllou K, Gkolfakis P, Gralnek IM, Oakland K, Manes G, Radaelli F, et al. Diagnosis and management of acute lower gastrointestinal bleeding: European Society of Gastrointestinal Endoscopy (ESGE) Guideline. Endoscopy. 2021;53(8):850-868. DOI 10.1055/a-1496-8969. ISSN 0013-726X

Oakland K, Chadwick G, East JE, Guy R, Humphries A, Jairath V, et al. Diagnosis and management of acute lower gastrointestinal bleeding: guidelines from the British Society of Gastroenterology. Gut. 2019;68(5):776-789. DOI 10.1136/gutjnl-2018-317807

Strate LL, Gralnek IM. ACG Clinical Guideline: Management of Patients With Acute Lower Gastrointestinal Bleeding. American Journal of Gastroenterology. 2016;111(4):459-474

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolos da unidade de emergência / Hospital São Rafael – Monte Tabor, Ministério da Saúde. 10. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2002. 204 p. Série A. Normas e Manuais Técnicos. ISBN 85-334-0572-3

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Especializada e Temática. Guia para uso de hemocomponentes. 2. ed., 1. reimpr. Brasília: Ministério da Saúde, 2015. 136 p. ISBN 978-85-334-2161-5

01

Responda antes de ler

Homem de 73 anos chega às 19h20 com três episódios de sangue vermelho vivo pelo reto em quatro horas, o último com coágulos, e uma lipotimia. Pressão arterial 96x58 mmHg, frequência cardíaca 108 bpm, saturação 96% em ar ambiente, abdome indolor. Usa varfarina por fibrilação atrial e tomou diclofenaco três vezes esta semana. Ao toque retal, sangue vermelho vivo com coágulos e um mamilo hemorroidário interno visível, sem sangramento ativo. O tomógrafo está livre e o endoscopista chega em quarenta minutos. Qual a sequência correta agora?

02

O paciente que você vai ver

São 19h20 de uma terça quando o senhor Hegino Pintadas atravessa a porta da emergência apoiado na filha. Ele tem 73 anos, é aposentado da lavoura, e nas últimas quatro horas evacuou sangue vermelho vivo três vezes. A primeira ele achou que fosse hemorroida — já teve, e sangra de vez em quando no papel. A segunda veio com coágulos escuros e encheu o vaso. Na terceira ele escureceu a vista, sentou no chão do banheiro e a filha o encontrou pálido, suado e frio.

A recepção mede: pressão 96 por 58, frequência cardíaca 108, frequência respiratória 20, saturação 96% em ar ambiente, temperatura 36,2. Ele está lúcido, orientado, conversando. As conjuntivas estão descoradas, as mãos frias, e o enchimento capilar leva três segundos. O abdome é indolor — e essa ausência de dor vai importar muito daqui a pouco. Ele não vomitou nenhuma vez.

Na primeira frase da anamnese aparece o dado que reorganiza a noite inteira: ele usa varfarina, todo dia, desde um acidente vascular cerebral há seis anos, por fibrilação atrial. Não sabe dizer o valor da última relação normatizada internacional; sabe que colheu sangue no posto há três semanas e que ninguém ligou. Também usa diclofenaco por conta própria para a dor no joelho, dois ou três comprimidos em dias ruins, e esta semana foi de dias ruins.

A sala reage do jeito que costuma reagir. Alguém diz que é hemorroida, porque ele já tem. Outro alguém pega o telefone para pedir colonoscopia de urgência. Um terceiro pergunta se não seria melhor esperar a hemoglobina para decidir. As três reações contêm um erro de ordem, e é a ordem que este capítulo ensina.

A primeira pergunta diante de sangue vermelho pelo ânus não é de onde vem. É se ele aguenta esperar a resposta. Reanimação vem antes de investigação, e essa inversão não é retórica: ela determina qual exame se pede primeiro, porque cada exame tem uma exigência diferente sobre o estado do paciente. Colonoscopia exige preparo, e preparo exige um paciente que consiga beber quatro a seis litros de solução. Angiotomografia exige sangramento ativo no momento da injeção do contraste. Arteriografia exige as duas coisas — sangramento ativo e uma equipe pronta. Nenhum deles exige um diagnóstico prévio, e é por isso que a tentação de escolher pela hipótese, e não pela hemodinâmica, atrasa tanta gente.

A segunda pergunta é a que salva vida, e ela é contraintuitiva a ponto de parecer errada: este sangue vermelho não estará vindo de cima? Hematoquezia com instabilidade hemodinâmica é sangramento alto até prova em contrário — a mesma frase, com as mesmas palavras, que abre a apresentação do capítulo Hemorragia digestiva alta, o primeiro desta apostila. Ela existe nos dois lugares de propósito. Entre 8% e 9% dos pacientes que chegam com sangramento pelo reto têm a fonte no trato digestivo alto; entre os que chegam com hematoquezia volumosa e instáveis, essa proporção sobe para cerca de 15%. Um em cada sete. O senhor Hegino tem úlcera de estresse possível por anti-inflamatório, está anticoagulado e chegou com sinais de má perfusão — ele está exatamente dentro do grupo em que a pergunta precisa ser feita em voz alta.

A terceira pergunta é a que a família já respondeu por conta própria e errou: isto pode ser hemorroida? Pode, e ele tem uma. Mas hemorroida é diagnóstico de exclusão anatômica, não explicação de conveniência, e há circunstâncias em que atribuir a ela deixa de ser aceitável. Um homem de 73 anos, com sangramento volumoso, coágulos, lipotimia e taquicardia, não está tendo um episódio orificial, ainda que a inspeção anal mostre um mamilo hemorroidário protruso. O mamilo pode estar lá e não ser a fonte. A frase que resume isso e que vale a pena carregar para o resto da vida profissional está escrita no capítulo Doença anorretal benigna, da apostila de Coloproctologia, e é dele: não dizer "é só hemorroida" antes de examinar, e não dizer "é só hemorroida" depois de examinar, porque a palavra que fecha a pergunta do cólon é a palavra "só".

Você é o interno. Nos próximos noventa minutos vai decidir quantos acessos passar, se transfunde e com que gatilho, o que fazer com a varfarina, se pede endoscopia alta antes de qualquer coisa, e se este paciente vai para a tomografia ou para a fila da colonoscopia. Vai também escrever no prontuário três informações que ninguém lembra de registrar e que o cirurgião de amanhã vai procurar: quantos episódios, com que aspecto, e em que horário. Nada disso depende de saber ainda a causa. Tudo isso depende de perguntar as coisas na ordem certa.

Este capítulo é sobre a ordem. Ele começa onde o sangue aparece, passa pelo que se mede antes de investigar, distingue as causas que sangram no jovem das que sangram no idoso, mostra o que o toque retal e a anuscopia respondem na emergência e o que eles não respondem, e termina no momento em que o cirurgião entra — que é mais tarde do que a maioria imagina.

03

Quem adoece disso

A maior série brasileira sobre o assunto é uma coorte de 2.145 internações por hemorragia digestiva num hospital terciário de Salvador, entre janeiro de 2012 e dezembro de 2023. A idade média foi de 70 anos, com desvio-padrão de 16, e 1.214 pacientes eram homens. A origem baixa respondeu por 40,3% das internações — mais do que a alta não varicosa, com 37,5%, e quase o triplo da alta varicosa, com 14,4%. Sobram 5,6% de origem no intestino médio e 2,2% não investigadas. Quem trabalha em pronto-socorro brasileiro atende mais sangramento baixo do que qualquer outra categoria isolada, e quase nunca recebe uma aula sobre ele.

A mortalidade hospitalar global da coorte foi de 12,4%, com 265 óbitos, e a separação por origem é o argumento central deste capítulo. Morreu 19,1% de quem sangrou por varizes, 14,6% de quem sangrou por causa alta não varicosa e 7,2% de quem sangrou por origem baixa. A origem baixa é a mais frequente e a menos letal — e a consequência prática disso não é relaxar, é inverter a pergunta: se o paciente com sangue vermelho pelo ânus está morrendo, a primeira hipótese a testar é que a origem não seja baixa coisa nenhuma.

A coorte também mostra movimento no tempo, e o movimento tem endereço clínico. Comparando 2012-2017 com 2018-2023, a proporção de sangramento baixo caiu de 42,1% para 38,0%, enquanto a do intestino médio subiu de 3,8% para 7,9%. As duas mudanças andam juntas porque são a mesma mudança: com melhor acesso à cápsula endoscópica e à enteroscopia, sangramentos que antes eram rotulados como "baixos de origem não determinada" passaram a ser localizados no delgado. O que mudou foi a régua diagnóstica, não a doença. A mortalidade hospitalar caiu de 14,2% para 10,1% entre os dois períodos, com p igual a 0,005, e a idade média subiu de 68,7 para 71 anos.

As causas de sangramento baixo dessa coorte, em ordem de frequência, foram doença diverticular do cólon, câncer colorretal, proctocolite actínica, hemorroidas, angiodisplasia colônica, colite isquêmica, úlceras colorretais, sangramento pós-polipectomia, doença inflamatória intestinal e úlcera de anastomose. A terceira colocação da proctocolite actínica é uma particularidade brasileira que vale registrar: ela é sequela de radioterapia pélvica, sobretudo por câncer de colo uterino e por câncer de próstata, e aparece mais alto nesta lista do que nas séries do hemisfério norte. Diante de sangramento retal em quem irradiou a pelve há meses ou anos, a proctocolite actínica sobe na lista e a suspeita de recidiva tumoral sobe junto.

Fora do Brasil, os números de incidência dão a escala. Uma revisão populacional estima 1,22 episódio de sangramento baixo por 1.000 pessoas-ano, com intervalo de confiança de 95% de 1,16 a 1,29, contra 0,39 para o sangramento alto — o baixo é cerca de três vezes mais comum na população geral, ainda que ocupe menos leito. No Reino Unido, a mortalidade hospitalar do sangramento baixo é de 3,4%, e esse número esconde uma diferença que muda a conduta na enfermaria: entre os pacientes que já estavam internados por outro motivo quando começaram a sangrar, a mortalidade sobe para 18%. Cinco vezes. O sangramento que começa dentro do hospital é outro problema, com outro prognóstico, e não deve ser tratado com a tranquilidade estatística do sangramento que chega pela porta.

Dois números completam o painel e são os que mais mudam decisão. O primeiro: cerca de 6% dos pacientes que se apresentam com sangramento digestivo baixo têm câncer colorretal por trás. Um em cada dezesseis. O segundo: o sangramento baixo responde por cerca de 3% dos encaminhamentos cirúrgicos de urgência — o que significa que a maioria absoluta destes pacientes não vai ser operada, e que a pressa de chamar o cirurgião costuma ser deslocada. O cirurgião entra tarde neste capítulo de propósito, e a seção de conduta diz exatamente quando.

Falta declarar qual régua o Brasil usa, e a resposta é desconfortável. Não existe diretriz brasileira de sociedade sobre hemorragia digestiva baixa. O único documento federal com um protocolo específico do tema é o volume Protocolos da Unidade de Emergência, publicado pelo Ministério da Saúde em 2002 na Série A, Normas e Manuais Técnicos — um fluxograma de uma página que continua sendo, vinte e quatro anos depois, a única referência normativa nacional dedicada ao assunto. Ele traz um erro de dose de fator mil, discutido e recalculado no bloco de critérios. As réguas que efetivamente governam a conduta deste capítulo são estrangeiras: a diretriz da Sociedade Europeia de Endoscopia Gastrointestinal de 2021, a diretriz da Sociedade Britânica de Gastroenterologia de 2019 e a diretriz do Colégio Americano de Gastroenterologia. O que é brasileiro aqui é a epidemiologia, o elenco de medicamentos disponível e a régua de transfusão do Guia para uso de hemocomponentes do Ministério da Saúde.

Isso tem uma consequência prática que não é acadêmica. Escores, cortes e prazos vêm de documentos escritos em unidades e em sistemas de saúde que não são os nossos, e transportá-los sem conferir produz erro de escala. O próximo bloco explica os mecanismos; o bloco de investigação mostra o escore que decide alta; e o bloco de critérios traz a conferência aritmética de cada corte, com a conta à vista, porque um deles está publicado na unidade errada e leva a mandar para casa exatamente o paciente que não pode ir.

04

Por que acontece o que acontece

Comece pela definição, porque ela mudou e a mudança tem consequência. O corte clássico é o ângulo de Treitz: o que sangra acima dele é alto, abaixo é baixo. Essa divisão sobreviveu enquanto os dois únicos exames disponíveis eram a endoscopia alta e a colonoscopia, e o intestino delgado era um território sem instrumento. Hoje se usa uma divisão em três: alto é o que sangra acima da papila duodenal, médio é entre a papila e a válvula ileocecal, e baixo é o cólon e o reto. A faixa do meio é a que escapa das duas endoscopias e explica o paciente que colonoscopa normal, endoscopa normal e continua sangrando. Na coorte baiana ela subiu de 3,8% para 7,9% em doze anos, e o que subiu foi a capacidade de encontrá-la.

O segundo mecanismo é o do tempo de trânsito, e ele explica quase todas as armadilhas de cor. Fezes escurecem quando a hemoglobina é degradada pelo ácido gástrico e pelas bactérias, e isso exige permanência dentro do tubo: cinquenta a cem mililitros já bastam para enegrecer as fezes, e a cor permanece por vários dias depois de o sangramento ter cessado. No sentido inverso, uma perda alta e veloz atravessa o tubo sem sofrer degradação nenhuma e chega vermelha à ampola retal. Existe ainda a inversão menos lembrada, que é o espelho da primeira: sangramento lento no cólon direito, com trânsito arrastado, pode chegar escuro e ser confundido com melena. A cor informa sobre o tempo de trânsito. Ela não informa sobre a altura da lesão, e tratá-la como se informasse é o erro de raciocínio mais caro deste capítulo.

O terceiro mecanismo é o do divertículo que sangra, e é preciso separá-lo com todas as letras do divertículo que inflama, porque as duas coisas têm o mesmo substrato anatômico e nada em comum na conduta. O divertículo do cólon é uma herniação de mucosa e submucosa através dos pontos em que os vasos retos atravessam a camada muscular. Quando o colo do divertículo se oclui e a parede inflama, o quadro é diverticulite: dor, febre, leucocitose, e o assunto é do capítulo Diverticulite aguda, na apostila de Urgência e Emergência Cirúrgica. Quando, em vez disso, o vaso reto se estira sobre a cúpula do saco herniado e a sua parede se rompe para dentro da luz, o quadro é sangramento diverticular: hemorragia arterial, abrupta, volumosa e caracteristicamente indolor, sem febre e sem leucocitose. Diverticulite quase nunca sangra de forma significativa, e sangramento diverticular quase nunca dói. Uma segunda assimetria vale ser lembrada: os divertículos são muito mais numerosos no cólon esquerdo, mas os que sangram estão desproporcionalmente no cólon direito, onde a parede é mais fina e os vasos retos têm maior calibre.

O quarto mecanismo é o da angiodisplasia, e ele é venoso, o que muda tudo. A hipótese fisiopatológica mais aceita é de obstrução intermitente das veias submucosas pela contração da camada muscular ao longo de décadas, com dilatação retrógrada progressiva de vênulas e capilares até formar um enovelado ectásico logo abaixo da mucosa. Como o regime de pressão é venoso, o sangramento é mais lento, tende a ser intermitente e recorrente, e com frequência se apresenta como anemia ferropriva por perda oculta em vez de hematoquezia dramática — o que faz o paciente chegar pela porta da clínica, não pela do trauma. Predomina no cólon direito e no idoso, e tem associações clássicas com estenose aórtica, com doença renal crônica e com doença de von Willebrand adquirida. A investigação da anemia ferropriva por perda digestiva oculta é do capítulo Anemia ferropriva, na apostila de Hematologia e Hemoterapia; o que fica aqui é a angiodisplasia que se exterioriza como sangramento agudo.

O quinto mecanismo é o da colite isquêmica, que é a única das grandes causas em que a dor vem antes do sangue. O cólon é irrigado por dois territórios arteriais que se encontram em zonas de fronteira — o ângulo esplênico e a junção retossigmoide —, e essas zonas são as primeiras a sofrer quando a perfusão cai. Na maioria dos casos não há oclusão de vaso nenhum: é hipoperfusão não oclusiva, precipitada por hipotensão, desidratação, arritmia, cirurgia de aorta, vasoconstritor ou esforço físico extremo. O quadro típico é cólica em flanco ou fossa ilíaca esquerda seguida, dentro de vinte e quatro horas, de diarreia com sangue vermelho ou vinhoso, em geral de pequeno volume. O sangue aqui é marcador de lesão de mucosa, não problema de volume, e o paciente raramente instabiliza pelo sangramento. Isso a separa da isquemia mesentérica aguda, que acomete o delgado, cursa com dor desproporcional ao exame e é catástrofe cirúrgica — essa é do capítulo Abdome agudo inflamatório, obstrutivo, perfurativo e vascular, também em Urgência e Emergência Cirúrgica.

O sexto mecanismo é iatrogênico e cresce com o número de colonoscopias que o serviço faz. O sangramento pós-polipectomia tardio ocorre entre um e catorze dias depois do exame, quando a escara sobre o pedículo se desprende e expõe o vaso que a corrente elétrica havia coagulado. O gatilho mais comum é a retomada do anticoagulante ou do antiagregante, prescrita na alta do exame e cumprida à risca pelo paciente. Por isso todo sangramento retal em quem colonoscopou nas últimas duas semanas tem uma causa provável e um endereço terapêutico definido, e por isso a pergunta "o senhor fez algum exame do intestino nos últimos quinze dias?" pertence à primeira anamnese, não à quinta.

O sétimo mecanismo é o do paciente anticoagulado, e ele é o mais mal compreendido. Anticoagulante não cria lesão: ele revela lesão que já existia e que sangraria menos, ou nem sangraria, sem ele. A consequência prática é que suspender a droga não substitui achar a fonte, e que encontrar o divertículo não isenta de revisar a indicação e a dose da anticoagulação. Nos dados disponíveis, a comparação entre anticoagulantes orais diretos e antagonistas da vitamina K não mostrou diferença no risco global de sangramento baixo, com razão de chances de 0,88, embora dabigatrana e rivaroxabana tenham mostrado mais sangramento digestivo maior em geral, com razão de chances de pelo menos 1,27. Para a aspirina em dose baixa, um estudo de Taiwan encontrou sangramento baixo em 0,20% dos usuários no primeiro ano de seguimento. São números pequenos por paciente e grandes por população — e é dessa aritmética que sai o pronto-socorro cheio de idosos anticoagulados sangrando pelo reto.

Corte ampliado de divertículo colônico com mucosa e submucosa evaginadas através da muscular própria e vaso na parede comunicando-se com a luz por pequena erosão.
No divertículo adquirido típico, mucosa e submucosa atravessam pontos de fraqueza da camada muscular. O vaso associado à parede diverticular pode sofrer lesão e sangrar para a luz, como ilustra a erosão focal. O desenho explica um mecanismo de hemorragia, sem pressupor diverticulite concomitante ou permitir estimar o volume perdido.

O oitavo mecanismo é hemodinâmico e fecha o bloco porque é o que justifica a ordem de tudo o que vem depois. O cólon é um reservatório complacente: pode acumular volume expressivo de sangue sem que o paciente exteriorize nada por horas, e o número de episódios relatados subestima sistematicamente a perda. Em paralelo, a hemoglobina da chegada engana pelo motivo mais simples da fisiologia da hemorragia aguda — plasma e hemácia se perdem juntos, na mesma proporção, de modo que a hemoglobina só cai quando o compartimento intravascular é reexpandido, por reposição ou pelo próprio deslocamento de líquido intersticial. É a mesma armadilha descrita no capítulo Hemorragia digestiva alta, e vale aqui pela mesma razão. O parâmetro que não espera é o índice de choque — frequência cardíaca sobre pressão arterial sistólica —, e acima de 1 o paciente conta como instável, independentemente do que diga o hemograma. No senhor Hegino, 108 dividido por 96 dá 1,13. O hemograma dele ainda não voltou, e a decisão já pode ser tomada.

05

Como se apresenta de verdade

A apresentação da hemorragia digestiva baixa é enganosa em duas direções ao mesmo tempo. Ela exagera quando o volume assusta e a origem é orificial e banal, e ela minimiza quando o paciente exterioriza pouco porque o cólon está segurando o que perdeu. Nenhuma das seções abaixo se organiza pela cor do sangue, porque a cor é o dado menos confiável de todos. Elas se organizam pela pergunta que cada quadro obriga a fazer.

Duas listas de fronteira precisam ficar declaradas antes das seções, porque elas decidem o que este capítulo faz e o que ele manda para outro endereço. O que ele cede: a doença orificial — hemorroida, fissura, abscesso e fístula — e a técnica do exame anorretal ambulatorial são do capítulo Doença anorretal benigna; o rastreamento, a indicação de colonoscopia no paciente sintomático, o estadiamento e a conduta oncológica são do capítulo Câncer colorretal, os dois na apostila de Coloproctologia; a hemorragia digestiva alta, varicosa e não varicosa, é do capítulo Hemorragia digestiva alta, o primeiro desta apostila; a diverticulite aguda é do capítulo Diverticulite aguda e a isquemia mesentérica aguda é do capítulo Abdome agudo inflamatório, obstrutivo, perfurativo e vascular, os dois na apostila de Urgência e Emergência Cirúrgica; a doença inflamatória intestinal é do capítulo Doenças inflamatórias intestinais, na apostila de Gastroenterologia; a investigação da perda oculta e o tratamento da ferropenia são do capítulo Anemia ferropriva, na apostila de Hematologia e Hemoterapia; e a dose de vitamina K e de complexo protrombínico na reversão do anticoagulante é do capítulo Coagulograma, na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito.

O que este capítulo assume, por não ter dono em nenhum outro capítulo deste nível: o sangramento diverticular como entidade distinta da diverticulite, que o capítulo de diverticulite trata apenas como diferencial de porta; a angiodisplasia colônica; a colite isquêmica; o sangramento pós-polipectomia; a proctocolite actínica como causa de sangramento; a decisão de quando reverter a anticoagulação num sangramento baixo, sendo do capítulo Coagulograma a decisão de com o quê e quanto; e o reconhecimento do sangramento do intestino médio, que não tem capítulo próprio. Uma fronteira é fina de propósito e vale nomeá-la: a do sangramento alto que se exterioriza vermelho pelo ânus. Ela é a costura entre este capítulo e o de Hemorragia digestiva alta, e os dois dizem a mesma frase com as mesmas palavras para que ninguém a perca.

As três exteriorizações, e por que nenhuma delas localiza a lesão

Hematoquezia é sangue vermelho ou vinhoso eliminado pelo ânus, isolado ou misturado às fezes. Costuma indicar origem baixa e é o motivo pelo qual a maioria destes pacientes procura o serviço. Sangue vivo apenas no papel higiênico ou pingando no vaso ao fim da evacuação, sem se misturar às fezes, aponta para lesão do canal anal — hemorroida interna e fissura são as duas causas dominantes — e essa apresentação é do capítulo Doença anorretal benigna, na apostila de Coloproctologia. Melena é fezes pretas, brilhantes e de odor característico, e costuma indicar origem alta; mas, como o escurecimento depende do tempo de permanência, sangramento lento no cólon direito também pode produzi-la.

O separador clinicamente útil não é a cor. É a hemodinâmica somada ao contexto. Sangue vermelho pelo ânus em paciente taquicárdico ou hipotenso deve ser tratado como sangramento alto até a endoscopia dizer o contrário — a frase é a mesma que abre a apresentação do capítulo Hemorragia digestiva alta, e é a costura entre os dois capítulos. Sangue vermelho pelo ânus em paciente com pressão e frequência normais, que evacuou uma vez e parou, é outro problema, com outra pressa e outro destino.

Há uma terceira apresentação que quase nunca é reconhecida como hemorragia digestiva: o paciente que chega com síncope, tontura postural ou queda, sem sangue nenhum à vista, e cuja perda está toda dentro do cólon. Nesse cenário o toque retal deixa de ser exame complementar e passa a ser exame de triagem. Quem não faz o toque não fecha o diagnóstico, e demora horas para desconfiar.

Um dado numérico ajuda a calibrar a expectativa: a maioria dos sangramentos digestivos baixos cessa espontaneamente. Isso não é permissão para observar sem investigar — é a explicação de por que tantos exames são feitos com o paciente já sem sangramento ativo, e de por que a angiotomografia precisa ser pedida no momento certo, e não no momento conveniente.

A armadilha que mata: o sangramento alto que chega vermelho

Entre 8% e 9% dos pacientes que se apresentam com sangramento digestivo baixo têm a fonte no trato digestivo alto. Entre os que chegam com hematoquezia grave e instabilidade hemodinâmica, esse número sobe para até 15%. É o erro que manda o paciente para a fila da colonoscopia enquanto ele sangra de uma úlcera duodenal — e a colonoscopia, além de não achar nada, exige um preparo de quatro a seis litros que consome horas e piora a hemodinâmica.

A suspeita se levanta à beira do leito, com cinco dados que não custam exame nenhum. Primeiro, hipotensão ou taquicardia desproporcionais ao volume exteriorizado. Segundo, antecedente de doença ulcerosa péptica ou de hepatopatia com hipertensão portal. Terceiro, uso de antiagregante, de anticoagulante ou de anti-inflamatório não esteroide. Quarto, relação entre nitrogênio ureico e creatinina acima de 30, que tem razão de verossimilhança de 7,5 para origem alta — e que exige uma conversão de unidade antes de ser aplicada no Brasil, feita com a conta explícita no bloco de critérios. Quinto, e no sentido contrário: sangue vermelho vivo com coágulos torna a origem alta improvável, com razão de verossimilhança de 0,05.

Existe um sexto dado, e ele é o mais discutido. A aspiração por sonda nasogástrica positiva para sangue indica origem alta com razão de verossimilhança de 11 — é um achado forte quando presente. O problema é o negativo: o valor preditivo negativo é de apenas 64%, com razão de verossimilhança de 0,6, o que significa que um aspirado limpo não afasta origem alta. A leitura correta é assimétrica: aspirado positivo, ou não diagnóstico porque veio sem sangue e sem bile, obriga endoscopia alta antes da colonoscopia; aspirado negativo não autoriza nada. A diretriz europeia de 2021 nem menciona a sonda como recurso diagnóstico, e propõe outro caminho, discutido no bloco de divergências.

O que se faz com a suspeita depende do estado do paciente, e as duas diretrizes que governam este ponto discordam sobre a ordem. Quando ele está instável, uma delas manda fazer angiotomografia primeiro e endoscopia alta imediatamente se a tomografia não localizar a fonte; a outra manda considerar a endoscopia alta a menos que a tomografia já tenha mostrado sangramento no trato baixo. Quando ele estabiliza depois da reanimação, as duas concordam que a endoscopia alta pode ser a primeira investigação. A escolha entre as duas ordens está no bloco de divergências, sem lado vencedor.

Uma nota de segurança que pertence a este ponto: o paciente com sangramento alto volumoso e consciência rebaixada aspira. A avaliação de via aérea e a decisão sobre proteção antes de qualquer endoscopia são do capítulo Hemorragia digestiva alta, que as trata em detalhe; aqui basta registrar que, no instante em que se decide investigar o alto, todo o raciocínio de proteção daquele capítulo passa a valer.

A segunda armadilha: quando atribuir à hemorroida deixa de ser aceitável

Hemorroida é comum, sangra, e frequentemente coexiste com a lesão que está de fato sangrando. A pergunta útil não é se há hemorroida — muitas vezes há —, é se ela explica o que se está vendo. Três circunstâncias tiram dela o direito de explicar, e vale decorá-las.

A primeira é o volume e a repercussão. Hemorroida interna sangra em quantidade que suja o papel, tinge a água do vaso e às vezes escorre; ela não costuma produzir coágulos volumosos, queda de pressão, taquicardia, lipotimia nem necessidade de transfusão. Sangramento com repercussão hemodinâmica atribuído a hemorroida é, quase sempre, um diagnóstico que ninguém procurou.

A segunda é a idade e a companhia. Os documentos brasileiros de acesso ambulatorial são explícitos ao listar as condições que, por si, indicam colonoscopia: hematoquezia persistente não atribuível a doença orificial; hematoquezia em paciente acima de 50 anos; hematoquezia com sinais de alarme para neoplasia colorretal; episódio de melena após exclusão de origem alta; e anemia ferropriva sem causa definida após a investigação inicial. Essa lista é do território do capítulo Câncer colorretal, o primeiro da apostila de Coloproctologia, que é dono do rastreamento, da indicação de colonoscopia no paciente sintomático, do estadiamento e da conduta oncológica. Ela é citada aqui porque o interno da emergência precisa reconhecê-la para não dar alta sem encaminhamento — não para reescrevê-la.

A terceira é temporal e específica da emergência: hemorroida não explica um sangramento que começou hoje, do nada, em quem nunca sangrou. O paciente que descreve um episódio inaugural, abrupto, sem esforço evacuatório e sem dor anal, está descrevendo um sangramento diverticular até que se prove o contrário, e a idade dele confirma ou não a hipótese.

Há uma consequência de registro que vale mais que a discussão diagnóstica. Encontrar uma hemorroida na inspeção e anotar apenas "hemorroida" fecha o prontuário e fecha a investigação. Encontrar uma hemorroida e anotar "mamilo hemorroidário interno visível à anuscopia, sem sangramento ativo no momento do exame; sangue vermelho vivo na ampola retal ao toque; investigação do cólon indicada" mantém as duas coisas verdadeiras ao mesmo tempo, que é o que de fato acontece.

As causas por idade: o que sangra no jovem não é o que sangra no idoso

Abaixo dos quarenta anos, a lista curta cobre a maioria. Doença orificial — hemorroida e fissura — encabeça, e é do capítulo Doença anorretal benigna. Doença inflamatória intestinal vem a seguir, e o sangue costuma vir acompanhado de diarreia, urgência, tenesmo, muco e sintomas sistêmicos; o diagnóstico e o manejo dela são do capítulo Doenças inflamatórias intestinais, na apostila de Gastroenterologia. Colite infecciosa entra no diferencial quando há febre e diarreia aguda. Divertículo de Meckel é raro e clássico: sangramento indolor, volumoso, em criança e adulto jovem, por mucosa gástrica ectópica ulcerando o íleo adjacente. Pólipos juvenis e malformações vasculares fecham a lista.

Isso não significa que jovem não investiga. O Projeto Diretrizes brasileiro sobre doença hemorroidária registra que achados endoscópicos significativos aparecem em até 21% dos pacientes jovens com sangramento retal, e o princípio que se extrai daí vale para toda idade: rastreamento tem faixa etária, investigação de sintoma não tem. Alguém de 32 anos com hematoquezia persistente é investigado por estar sintomático, e não por ter entrado em alguma faixa de rastreio.

Acima dos sessenta anos, a lista se inverte e fica mais perigosa. Doença diverticular é a primeira causa, e sangra de forma arterial, abrupta e indolor. Angiodisplasia vem em seguida, é venosa, tende a ser recorrente e frequentemente já produziu anemia antes do episódio agudo. Colite isquêmica aparece em quem tem doença aterosclerótica conhecida, arritmia, hipotensão recente ou cirurgia vascular. Neoplasia colorretal é a causa que não pode faltar na lista, sangra em geral de forma crônica e intermitente, mas eventualmente se apresenta como hemorragia volumosa. Sangramento pós-polipectomia entra sempre que houve colonoscopia nas duas semanas anteriores. Proctocolite actínica entra sempre que houve radioterapia pélvica.

Um comentário sobre a vinheta que costuma aparecer no plantão. A senhora Sancha Tarrafas, 81 anos, hipertensa, com fibrilação atrial e passado de infarto, chega com cólica em fossa ilíaca esquerda que começou depois de um dia de vômitos e pouca ingesta, seguida em algumas horas de diarreia com sangue vinhoso de pequeno volume. Pressão 118 por 70, frequência 88. Esse é o retrato da colite isquêmica, e o que ele exige é o oposto do que a palavra "hemorragia" sugere: reposição volêmica, correção do fator precipitante, suporte, e uma tomografia de abdome com contraste — não uma corrida para a colonoscopia. A colite isquêmica, como a colite da doença inflamatória intestinal e como a neoplasia, em geral não é passível de hemostasia endoscópica durável, e se trata pelo suporte da doença de base.

O intestino médio merece uma frase própria porque é o lugar onde este capítulo termina e não resolve. Quando a endoscopia alta e a colonoscopia são normais e o paciente continua sangrando, a fonte está entre a papila e a válvula ileocecal, e os instrumentos são a cápsula endoscópica e a enteroscopia. Não há capítulo dedicado a isso neste nível; o que este capítulo assume é a decisão de reconhecer o cenário, nomeá-lo no prontuário e pedir a avaliação especializada, em vez de repetir pela terceira vez os dois exames que já vieram normais.

O paciente anticoagulado e o antiagregado

A senhora Ibrantina Sambaíba tem 68 anos, usa rivaroxabana por fibrilação atrial e chega com dois episódios de sangue vivo em doze horas, pressão 124 por 76 e frequência 84. Ela não está instável. Ela está assustada, e a filha pergunta se "não é melhor parar o remédio". As duas perguntas — se para e por quanto tempo — são das mais frequentes da enfermaria, e as respostas dependem da gravidade do sangramento, não da presença da droga.

No sangramento maior, a orientação convergente é interromper temporariamente a droga na apresentação. No sangramento menor e autolimitado, existe divergência declarada entre as duas diretrizes que governam o tema, e ela está no bloco de divergências. O que vale registrar aqui é a lógica: interromper anticoagulação é uma intervenção com risco próprio, e num paciente com prótese valvar mecânica ou trombose venosa recente esse risco não é teórico.

A reversão é decisão separada da interrupção e não deve ser tomada por reflexo. A régua europeia manda corrigir a coagulopatia conforme a gravidade do sangramento e o risco trombótico, e reserva a administração de vitamina K endovenosa com concentrado de complexo protrombínico de quatro fatores — ou plasma fresco congelado quando o concentrado não estiver disponível — para os pacientes com instabilidade hemodinâmica. Para os anticoagulantes orais diretos, sugere agentes de reversão específicos em coordenação com o hematologista, quando o sangramento é persistente ou a instabilidade é recorrente. As doses de vitamina K e de complexo protrombínico por faixa de relação normatizada internacional, a escolha entre concentrado e plasma e o controle laboratorial depois da reversão são do capítulo Coagulograma, na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito, que é dono desse manejo e traz a tabela de dose. Este capítulo decide quando reverter num sangramento baixo; aquele capítulo diz com o quê e quanto.

Antiagregantes seguem lógica própria e vale decorá-la porque a omissão custa infarto. Aspirina em prevenção primária deve ser suspensa em definitivo depois de um sangramento diverticular. Aspirina em prevenção secundária não se suspende de rotina, e se for suspensa deve ser reiniciada assim que houver hemostasia. Terapia antiplaquetária dupla em quem tem stent coronariano não se interrompe de rotina, e a decisão é compartilhada com o cardiologista; se o inibidor do receptor P2Y12 for interrompido no sangramento instável, a aspirina é mantida, e o P2Y12 volta em até cinco dias. Anti-inflamatórios não esteroides que não sejam aspirina devem ser suspensos após sangramento diverticular ou por angiectasia — e essa é a única droga da lista que o senhor Hegino, no fim das contas, não vai levar de volta para casa.

A indicação de anticoagular, a escolha da droga e o cálculo do risco tromboembólico são dos capítulos Fibrilação atrial, na apostila de Cardiologia, e Trombose venosa profunda, na apostila de Cirurgia Vascular. Este capítulo assume apenas o que acontece com a anticoagulação durante e depois do sangramento baixo.

Quando o sangue começa dentro do hospital

O paciente que começa a sangrar já internado por outro motivo tem prognóstico diferente do que chega pela porta: no levantamento britânico, a mortalidade hospitalar do sangramento baixo é de 3,4% no geral e de 18% nesse subgrupo. A diferença não é do sangramento, é de quem sangra — pessoas mais doentes, mais frequentemente anticoaguladas, em pós-operatório ou em terapia intensiva, e com menos reserva para tolerar hipoperfusão.

As causas mais frequentes nesse cenário têm nome. Sangramento pós-polipectomia, quando a colonoscopia foi feita durante a internação. Colite isquêmica, em quem teve hipotensão, arritmia, sepse ou cirurgia de grande porte. Úlcera de anastomose, em quem foi operado do cólon. Colite associada a antibiótico. E sangramento diverticular desencadeado pela retomada de heparina profilática ou terapêutica.

A conduta imediata é a mesma dos pacientes que chegam pela porta, com uma diferença de registro que é operacional: no internado, a documentação do horário e do aspecto de cada episódio costuma se perder entre plantões. A passagem de plantão que transmite "sangrou de novo" sem horário e sem volume é a mesma que faz o cirurgião do dia seguinte pedir uma tomografia doze horas depois de o sangramento ter parado. O que transmitir e como está no capítulo Passagem de plantão, na apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado.

Vale lembrar o quadro que não é hemorragia digestiva e ocupa a mesma vaga mental: sangramento retal baixo em paciente com constipação e impactação fecal, por lesão de mucosa retal ou por úlcera estercoral. É pouco volumoso, tem contexto óbvio e resolve com o tratamento da constipação, que é do capítulo Constipação, imobilismo e suas consequências, na apostila de Síndromes do Paciente Internado.

06

Como fechar o diagnóstico

Este bloco tem uma inversão em relação à intuição do plantão. A investigação da hemorragia digestiva baixa não começa escolhendo o exame — começa medindo o paciente, porque é a medida que define qual exame é possível. Colonoscopia exige preparo e tempo. Angiotomografia exige sangramento ativo no momento da injeção. Arteriografia exige as duas coisas mais uma equipe disponível. Nenhum deles funciona com o paciente escolhido pela hipótese em vez de pelo estado.

A ordem das seções abaixo é a ordem real do atendimento: o que a mão responde agora, o que a punção responde em quarenta minutos, o que o escore decide sobre o destino, e só então qual exame, em que sequência e com qual pergunta.

O toque retal na emergência: o que responde e o que não responde

O toque retal é o único exame complementar deste capítulo que está disponível imediatamente, custa zero e é feito pelo interno. A técnica do exame proctológico completo — posicionamento, inspeção estática e dinâmica, descrição dos achados anorretais e a conversa que torna o exame aceitável para o paciente — é do capítulo Doença anorretal benigna, na apostila de Coloproctologia, que se chama, aliás, O exame que ninguém quer fazer. O que este capítulo assume é a leitura desse exame no contexto do sangramento agudo.

Três coisas o toque responde na emergência. A primeira: existe sangue, e de que aspecto. Sangue vermelho vivo, sangue vinhoso com coágulos e fezes enegrecidas na luva são três informações diferentes, e a que mais orienta é a presença de coágulos, que torna origem alta improvável. A segunda: existe massa palpável, endurecida, vegetante ou ulcerada. A descrição dela — distância da margem anal em centímetros, posição na circunferência, mobilidade, se o dedo a ultrapassa — pertence ao capítulo Câncer colorretal, que ensina o pedido e a conduta; aqui basta reconhecer e registrar. A terceira: existe impactação fecal, fissura dolorosa ou trombose hemorroidária externa que expliquem o quadro de forma trivial.

Há um quarto uso que a maioria desconhece e que este capítulo aproveita adiante: o achado do toque retal é uma variável pontuada no escore que decide se o paciente pode ir para casa. Sangue no toque soma ponto; ausência de sangue não soma. Isso significa que deixar de fazer o toque não é apenas omitir um exame — é impedir o cálculo de um escore, e portanto impedir uma decisão de alta segura.

O que o toque não responde é igualmente importante. Ele não localiza a lesão acima da ampola retal, não estima volume de perda, não exclui neoplasia proximal e não afasta origem alta. Toque sem sangue em paciente que acabou de evacuar sangue não significa nada além de que a ampola esvaziou.

A anuscopia na emergência: o que ela decide e o que ela não fecha

A anuscopia é o complemento natural do toque e permite ver o canal anal e a linha pectínea, onde estão as hemorroidas internas e as fissuras. Quando o dispositivo está disponível e o paciente tolera, ela responde uma pergunta objetiva: existe uma lesão orificial sangrando ativamente agora? Ver um mamilo hemorroidário com sangramento ativo é o único achado que efetivamente atribui o episódio à doença orificial, e mesmo ele não fecha a pergunta do cólon quando há sinal de alarme.

A indicação, a técnica, os graus de doença hemorroidária e o tratamento clínico e cirúrgico da doença orificial são do capítulo Doença anorretal benigna. Este capítulo cede a ele esse território inteiro e assume apenas a leitura de emergência: mamilo hemorroidário visível sem sangramento ativo é achado incidental num paciente que sangra em volume, não explicação.

Duas restrições práticas fecham a seção. A anuscopia não é exame para paciente instável — ela não muda a conduta de reanimação e consome tempo. E ela não substitui nem antecipa a retossigmoidoscopia ou a colonoscopia, que respondem outra pergunta, sobre outro segmento.

A punção única: o que colher e o que cada tubo responde

Aproveite a punção do acesso para colher tudo de uma vez: a segunda tentativa sempre cai num paciente em estado pior. Hemograma completo dá a hemoglobina de partida, que serve de referência para as próximas e não para a decisão imediata — na hemorragia aguda perde-se plasma e hemácia na mesma proporção, e o valor da chegada subestima a perda.

Tipagem com prova cruzada e reserva de hemocomponente junto à agência transfusional é o item mais esquecido da lista e o que mais compra tempo. Reservar é diferente de transfundir: reservar cedo não obriga a nada e evita a espera de quarenta minutos no momento em que a pressa aparecer.

Coagulograma com relação normatizada internacional e tempo de tromboplastina parcial ativada é obrigatório em quem usa anticoagulante e útil em quem tem hepatopatia. A interpretação do coagulograma, o que cada teste mede, e o que a relação normatizada internacional pode e não pode responder em quem usa anticoagulante oral direto — porque nesses ela pode estar normal com efeito anticoagulante pleno — são do capítulo Coagulograma, na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito.

Ureia e creatinina respondem duas perguntas ao mesmo tempo. A primeira é de função renal, que pesa na escolha do contraste da angiotomografia e na dose de qualquer droga. A segunda é a razão entre nitrogênio ureico e creatinina, que aponta origem alta quando acima de 30, com razão de verossimilhança de 7,5. Essa razão exige uma conversão antes de ser usada com laboratório brasileiro, porque o laboratório daqui reporta ureia, não nitrogênio ureico, e os dois diferem por um fator de 2,14. A conta está no bloco de critérios, e aplicar o corte sem converter faz metade dos pacientes parecerem sangramento alto.

Complete com lactato e gasometria quando houver instabilidade, e com eletrólitos e albumina, que entram na estratificação de gravidade. Não peça pesquisa de sangue oculto nas fezes: num paciente que está eliminando sangue visível, o exame está fora de indicação, e o único efeito previsível de um resultado negativo é produzir tranquilidade documentada em prontuário.

O escore que decide o destino — e a tabela que não se pode copiar como está

O escore de Oakland foi construído especificamente para hemorragia digestiva baixa e responde uma pergunta única: este paciente pode ir para casa e investigar em ambulatório? Ele soma sete variáveis, todas disponíveis na primeira hora — idade, sexo, internação prévia por sangramento baixo, achado do toque retal, frequência cardíaca, pressão arterial sistólica e hemoglobina —, e o corte é generoso com a segurança: pontuação igual ou menor que 8, na ausência de outra indicação de internação, autoriza alta com investigação ambulatorial. O total máximo possível é 35 pontos.

O peso das variáveis é o que ensina. Hemoglobina sozinha vale até 22 dos 35 pontos possíveis — quase dois terços do escore. Pressão sistólica vale até 5. Todas as demais somadas valem 8. Na prática isso significa que um paciente anêmico não sai de casa em nenhuma combinação das outras variáveis, e que um paciente com hemoglobina normal precisa acumular quase tudo o mais para ser internado pelo escore. É um escore desenhado para identificar quem é seguro mandar embora, não para prever quem vai precisar de intervenção.

Aqui aparece o achado que obriga a reescrever a tabela antes de usá-la. A diretriz britânica de 2019, cuja primeira autora é a mesma que derivou o escore, publica a linha da hemoglobina em gramas por litro, com faixas abaixo de 70, de 70 a 89, de 90 a 109, de 110 a 129, de 130 a 159 e igual ou acima de 160. A diretriz europeia de 2021 reproduz o mesmo escore com os mesmos números, mas rotula a coluna como gramas por decilitro. As duas unidades diferem por um fator de dez. Uma hemoglobina de 160 gramas por decilitro não existe em ser humano; 160 gramas por litro são 16 gramas por decilitro, que é normal. A conta do estrago, com um paciente concreto, está no bloco de critérios — e ela termina em alta hospitalar para uma pessoa que precisava ficar.

A mesma tabela europeia introduz cinco lacunas de fronteira que a britânica não tem, porque troca os sinais de maior ou igual e menor ou igual por maior e menor estritos. Idade exatamente 70, frequência cardíaca exatamente 110, pressão sistólica exatamente 160 e hemoglobina exatamente 160 não pertencem a faixa nenhuma; pressão sistólica abaixo de 50 e hemoglobina abaixo de 36 também não, porque as faixas mais baixas começam nesses valores em vez de serem abertas. O bloco de critérios lista as seis e mostra a versão sem lacunas.

A régua prática que se extrai disto é simples e vale para qualquer escore importado: converta a unidade para a do seu laboratório antes de tabular, e confira se as faixas cobrem todos os valores possíveis. Escore mal transcrito não erra por pouco — erra pelo peso inteiro da variável mal transcrita, e neste caso o peso é de 22 pontos num corte de 8.

Qual exame, em que ordem, e o que cada um exige do paciente

A colonoscopia é o exame de primeira escolha no paciente hemodinamicamente estável, e a razão é terapêutica antes de diagnóstica: ela é o único exame que encontra a fonte e a trata na mesma sessão. Ela exige preparo, e a diretriz europeia é explícita ao recomendar contra a colonoscopia ou a retossigmoidoscopia sem preparo em sangramento baixo agudo. O preparo é volumoso — de quatro a seis litros de solução à base de polietilenoglicol — e uma sonda nasogástrica associada a antiemético pode ser usada para viabilizá-lo em quem não tolera a via oral. Essa é, aliás, a única indicação de sonda nasogástrica que as diretrizes contemporâneas sustentam neste cenário.

Quanto ao momento, há convergência num ponto e divergência noutro. Convergência: a colonoscopia de urgência, feita nas primeiras vinte e quatro horas, não demonstrou melhorar mortalidade, ressangramento, necessidade de terapia adicional, tempo de internação nem necessidade transfusional em ensaios randomizados e em três metanálises. Divergência: a diretriz britânica recomenda internar o paciente com sangramento maior para colonoscopia na primeira lista disponível, e a europeia recomenda realizá-la em algum momento da internação, justamente porque não há evidência de qualidade de que a antecipação mude desfecho. A leitura conjunta é que a colonoscopia é obrigatória e a pressa é opcional.

A angiotomografia é o exame do paciente instável e do sangramento ativo. Ela é rápida, não exige preparo, e localiza extravasamento de contraste para a luz — o que significa que só é positiva se o paciente estiver sangrando no momento do exame. A diretriz europeia recomenda que pacientes com instabilidade hemodinâmica e suspeita de sangramento em curso façam angiotomografia antes de qualquer tratamento endoscópico ou radiológico. Fatores que aumentam a chance de exame positivo são exame feito nas primeiras quatro horas do sangramento, cirurgia intestinal recente, necessidade de mais de três concentrados de hemácias, uso de antiagregante ou de anticoagulante oral direto, e instabilidade hemodinâmica.

A arteriografia com embolização é terapêutica e vem depois de uma angiotomografia positiva. A recomendação de prazo é explícita e é uma das poucas com hora marcada neste capítulo: embolização em até 60 minutos no paciente hemodinamicamente instável, porque o tempo demonstrou influenciar desfecho. Ela se reserva ao sangramento agudo potencialmente ameaçador à vida, em instável com sangramento ativo demonstrado pela tomografia, ou em quem sangra de forma intensa e persistente sem resposta ao tratamento endoscópico.

A cintilografia com hemácias marcadas está fora. A diretriz europeia recomenda contra o seu uso em sangramento baixo agudo por acurácia limitada para localizar o sítio e por restrições logísticas: a angiotomografia localizou o sítio em 53% dos casos contra 30% da cintilografia, e a cintilografia ainda exige preparo do radiotraçador e de 60 a 90 minutos adicionais de aquisição de imagem. Ela continua sendo pedida em muitos serviços brasileiros por disponibilidade, e vale saber que a régua contemporânea a desaconselha.

Sobre a endoscopia digestiva alta, o que já foi dito na apresentação se resume assim: no instável, ela entra imediatamente se a angiotomografia não localizar a fonte, ou como primeira investigação quando o paciente estabiliza depois da reanimação; e ela é dispensável se a tomografia já mostrou um sítio definitivo no trato baixo. O restante do manejo do sangramento alto, uma vez confirmado, é do capítulo Hemorragia digestiva alta.

Quando tudo vem normal e ele continua sangrando

O cenário existe e tem nome. Endoscopia alta normal, colonoscopia completa e bem preparada normal, e o paciente segue eliminando sangue. A fonte está entre a papila duodenal e a válvula ileocecal, e essa faixa não é vista por nenhum dos dois exames.

Há uma providência que reduz a frequência desse impasse e depende do endoscopista: intubar o íleo terminal durante a colonoscopia. Sangue vindo de cima da válvula, encontrado ali, muda o mapa numa única manobra e evita repetir os dois exames.

Os instrumentos do intestino médio são a cápsula endoscópica e a enteroscopia, e as causas mais frequentes são angiodisplasia de delgado e tumores de delgado. Nenhum capítulo deste nível é dono desse território, e por isso este capítulo assume o mínimo que decide na urgência: reconhecer o cenário, nomeá-lo no prontuário como sangramento do intestino médio, evitar a terceira repetição dos mesmos exames, e acionar a avaliação especializada.

Vale uma nota sobre o exame que aparece no fluxograma federal de 2002 e não sobrevive à releitura: o enema opaco. Ele não localiza sangramento ativo, contamina o cólon com bário e inviabiliza a colonoscopia e a arteriografia que viriam em seguida. Não faz parte da investigação da hemorragia digestiva baixa aguda.

07

As quatro decisões, com a conta feita

Hematoquezia não demonstra por si origem colônica. A prioridade é a fisiologia, a persistência da perda e a possibilidade de localizar e tratar a fonte.

  1. 1Reconhecer hipoperfusão e acionar ajuda; índice de choque é apoio, não limiar único que define estabilidade ou segurança.
  2. 2Obter acessos, monitorização, exames e sangue conforme gravidade. Hemorragia ameaçadora não deve esperar Hb cair ao limiar transfusional de pacientes estabilizados.
  3. 3Considerar origem alta, especialmente com instabilidade, história de úlcera ou hepatopatia; exame e contexto orientam a sequência de investigação.
  4. 4No sangramento persistente e hemodinamicamente significativo, considerar angio-TC como exame inicial de localização, mesmo após melhora transitória da pressão.
  5. 5Extravasamento exige contato rápido com radiologia intervencionista ou equipe capaz de hemostasia. Se não houver recurso, coordenar alternativa ou transferência sem atrasar suporte.
  6. 6Em paciente estabilizado, com sangramento cessado ou sem necessidade imediata de localização, organizar colonoscopia após preparo adequado; urgência rotineira em menos de 24 horas não é necessária para todos.
  7. 7Interromper e discutir reversão de anticoagulante no sangramento maior conforme gravidade, agente, dose e horário, função renal e risco trombótico; planejar retomada após controle.
  8. 8Alta apenas em paciente selecionado, com evolução favorável, apoio clínico e seguimento. Oakland ajuda, mas não substitui julgamento ou garante ausência de doença importante.

Escore de Oakland transcrito para a unidade do laboratório brasileiro

VariávelFaixa na unidade usada no BrasilPontosObservação de transcrição
Idadeabaixo de 40 anos0
Idadede 40 a 69 anos1
Idade70 anos ou mais2A versão europeia escreve "acima de 70": exatamente 70 anos fica sem faixa
Sexofeminino0
Sexomasculino1
Internação prévia por sangramento baixonão0
Internação prévia por sangramento baixosim1
Toque retalsem sangue0Não fazer o toque impede o cálculo do escore
Toque retalcom sangue1
Frequência cardíacaabaixo de 70 bpm0
Frequência cardíacade 70 a 89 bpm1
Frequência cardíacade 90 a 109 bpm2
Frequência cardíaca110 bpm ou mais3A versão europeia escreve "acima de 110": exatamente 110 fica sem faixa
Pressão arterial sistólicaabaixo de 90 mmHg5A versão europeia abre a faixa em 50: abaixo de 50 fica sem faixa
Pressão arterial sistólicade 90 a 119 mmHg4
Pressão arterial sistólicade 120 a 129 mmHg3
Pressão arterial sistólicade 130 a 159 mmHg2
Pressão arterial sistólica160 mmHg ou mais0A versão europeia escreve "acima de 160": exatamente 160 fica sem faixa
Hemoglobinaabaixo de 7,0 g/dL22Publicada em g/L na diretriz britânica e rotulada como g/dL na europeia
Hemoglobinade 7,0 a 8,9 g/dL17
Hemoglobinade 9,0 a 10,9 g/dL13
Hemoglobinade 11,0 a 12,9 g/dL8
Hemoglobinade 13,0 a 15,9 g/dL4
Hemoglobina16,0 g/dL ou mais0
Totalmáximo possível 35 pontos≤ 8Corte para alta segura com investigação ambulatorial

Os quatro exames: o que cada um cobra do paciente e o que devolve

ExameO que exige do pacienteO que devolveQuando não serve
ColonoscopiaEstabilidade hemodinâmica e preparo de 4 a 6 litros de solução de polietilenoglicol, por via oral ou por sonda com antieméticoDiagnóstico e tratamento na mesma sessão: clipe, ligadura elástica, coagulação de contato, plasma de argônio na angiectasiaNo instável, e sem preparo — a diretriz europeia recomenda contra colonoscopia e retossigmoidoscopia sem preparo
AngiotomografiaSangramento ativo no momento da injeção do contraste e função renal aceitável; não exige preparoLocalização do extravasamento, mapa para a embolização e diagnóstico alternativo do abdomeSe o sangramento já cessou; o exame negativo não exclui a lesão, apenas diz que ela não sangra agora
Arteriografia com embolizaçãoSangramento ativo, equipe de radiologia intervencionista disponível e, em geral, angiotomografia positiva antesHemostasia no vaso sangrante; prazo recomendado de até 60 minutos no instávelComo exame diagnóstico de rastreio, e depois que o sangramento parou
Endoscopia digestiva altaVia aérea protegida se houver rebaixamento; nada maisExclusão ou confirmação da origem alta em 8% a 15% destes pacientesDispensável quando a angiotomografia já mostrou sítio definitivo no trato baixo
Cintilografia com hemácias marcadasSangramento ativo, preparo do radiotraçador e de 60 a 90 minutos adicionaisLocalização imprecisa: 30% contra 53% da angiotomografia na comparação diretaDesaconselhada pela diretriz europeia em sangramento baixo agudo
Cápsula endoscópica e enteroscopiaPaciente estável e ausência de suboclusãoO intestino médio, que escapa dos dois exames anterioresNa urgência do sangramento maciço

Três doenças do mesmo cólon que se separam à beira do leito

AchadoSangramento diverticularDiverticulite agudaColite isquêmica
Dor abdominalAusente ou mínima — é a característica que mais separaDominante, em fossa ilíaca esquerda, com defesaCólica que precede o sangue em até 24 horas
SangramentoVolumoso, vermelho vivo, abrupto, com coágulosAusente ou mínimo; hematoquezia volumosa põe o diagnóstico em dúvidaPequeno volume, vinhoso, misturado a diarreia
Febre e leucocitoseAusentesPresentesVariáveis, geralmente discretas
Repercussão hemodinâmicaFrequente; é a causa que mais transfundeRara pelo sangramentoRara pelo sangramento; pode existir pela causa que precipitou a isquemia
Segmento mais envolvidoCólon direito sangra mais, embora os divertículos sejam mais numerosos à esquerdaSigmoideZonas de fronteira: ângulo esplênico e junção retossigmoide
Primeira condutaReanimar, estratificar, localizar por angiotomografia se instávelAntibiótico e estratificação por tomografia — capítulo Diverticulite agudaSuporte, corrigir o fator precipitante, tomografia com contraste
Papel da endoscopiaTerapêutica: clipe no colo ou na cúpula, ligadura elástica ou coagulaçãoContraindicada na fase aguda, salvo sigmoidoscopia cuidadosa por indicação específicaDiagnóstica; a lesão em geral não é passível de hemostasia durável

Elenco nacional: o que a Rename 2024 fornece para este capítulo

ItemConsta na Rename 2024Componente e apresentaçãoConsequência na prescrição
Polietilenoglicol para preparo de cólonNão constaO preparo que a diretriz europeia exige para colonoscopia em sangramento agudo não é fornecido pela lista nacional; o hospital compra fora dela
Manitol para preparo de cólonNão constaA alternativa historicamente usada no Brasil também está fora do elenco
Complexo protrombínico humanoConstaEstratégico, pó para solução injetável de 500 UI e 600 UIDisponível para reversão do antagonista da vitamina K; dose por faixa de relação normatizada internacional no capítulo Coagulograma
Fitomenadiona (vitamina K)Não consta sob esse nome nem como "vitamina K"A prescrição que sustenta a reversão depende de aquisição fora da lista nacional
Varfarina sódicaConstaBásico, comprimidos de 1 mg e 5 mgÉ o anticoagulante oral que a rede dispensa, e por isso o mais frequente nestes pacientes
Idarucizumabe e andexanet alfaNão constamQuem usa anticoagulante oral direto chega ao pronto-socorro com um sangramento cujo antídoto específico a rede pública não dispensa; o que sobra é o complexo protrombínico e o tempo
Ácido tranexâmicoConstaEstratégico, comprimido de 250 mgConsta, mas não se usa aqui: a diretriz europeia recomenda contra o seu uso no sangramento baixo, com recomendação forte e evidência de alta qualidade
Acetato de octreotidaConstaEspecializado, pó para suspensão injetável de 0,1 mg/mL, vinculado ao protocolo da acromegaliaDisponível apenas pela via do Componente Especializado e amarrado a outra indicação; não é droga de rotina no sangramento baixo
EpinefrinaConstaBásico, solução injetável de 1 mg/mLBase da injeção endoscópica, que nunca deve ser usada como método isolado
Concentrado de hemáciasFora do escopo da RenameHemocomponente é regido pelo Guia para uso de hemocomponentes e pelo comitê transfusional da instituição, não pela lista de medicamentos

No Oakland, as faixas de hemoglobina de 36–69, 70–89 e seguintes estão em g/L, apesar do rótulo g/dL na tabela europeia citada. Use a tabela convertida do capítulo: 9,5 g/dL equivale a 95 g/L e pertence à faixa correspondente. O erro de unidade pode reduzir indevidamente o escore e comprometer a decisão de alta.

A tabela do capítulo contempla os valores exatos de fronteira e os extremos ausentes na reprodução europeia. Confira especialmente idade de 70 anos, frequência de 110 bpm, PAS de 160 mmHg e hemoglobina de 160 g/L. Valores muito baixos de pressão ou hemoglobina também precisam ser pontuados, sem serem tratados como dados fora da escala.

Diferencie ureia e nitrogênio ureico (BUN). O corte citado de razão BUN/creatinina acima de 30 corresponde a ureia/creatinina acima de aproximadamente 64,3, quando ambos os resultados estão em mg/dL. Por exemplo, ureia de 60 e creatinina de 1,0 correspondem a BUN/creatinina de cerca de 28. A relação é um indício de origem alta e não substitui a avaliação.

O protocolo histórico de 2002 traz erro na equivalência de octreotida: 0,025 mg são 25 microgramas, não 25 mg. A diferença é de mil vezes. Essa correção de unidade não transforma o esquema antigo em indicação para o sangramento baixo atual; siga o percurso e a causa identificada.

O documento de 2002 apresenta 3 mg de somatostatina em volumes de 250 e 500 mL, produzindo concentrações de 12 e 6 microgramas/mL. A velocidade em mL/h não é intercambiável entre elas. Quando um agente estiver indicado, confira quantidade, diluição e dose por tempo na preparação efetiva.

A tabela britânica de Oakland citada totaliza 35 pontos máximos e inclui os limites das faixas. Na coorte brasileira, as proporções globais foram calculadas a partir dos tamanhos de cada período, e não por média simples: os 265 óbitos em 2.145 internações correspondem a 12,35%. Mantenha população e denominador ao interpretar esses números.

Confirme localmente soluções de preparo, agentes de reversão e recursos hemostáticos. A Rename de 2024 citada não funciona como inventário hospitalar, e a presença de um medicamento em um componente não garante sua disponibilidade imediata para qualquer indicação. O preparo e a investigação devem ser compatíveis com a condição clínica.

No adulto sem perda em curso, uma unidade de hemácias costuma elevar a hemoglobina em cerca de 1 g/dL, conforme o guia citado. Essa é uma estimativa para reavaliação, não uma previsão no sangramento ativo. A resposta depende da perda, da reposição e do tempo da coleta. Não use hemoglobina inicial preservada para afastar hemorragia importante.

Os limiares específicos de 7 e 8 g/dL apresentados para hemorragia digestiva baixa vêm das diretrizes estrangeiras citadas. O guia brasileiro oferece orientação transfusional geral e destaca sinais clínicos na hemorragia aguda. Identifique a fonte e o contexto do limiar, sem atribuir um corte específico a um documento que não o estabelece.

Os Protocolos da Unidade de Emergência citados são a 10ª edição, de 2002, do Hospital São Rafael–Monte Tabor e Ministério da Saúde. São usados como contexto histórico. A ausência de uma edição posterior identificada não comprova atualização de seus esquemas; o percurso principal utiliza as referências específicas apresentadas.

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A conduta, hora a hora

A linha do tempo abaixo é a do senhor Hegino Pintadas — 73 anos, três episódios de hematoquezia volumosa em quatro horas, lipotimia, pressão 96 por 58, frequência 108, em uso de varfarina e de diclofenaco. Ela serve como andaime para qualquer paciente com sangramento baixo, com a ressalva de que os prazos se comprimem quando o índice de choque passa de 1 e se alargam quando o sangramento cessou.

Duas regras organizam tudo o que vem abaixo, e as duas são de ordem. A primeira: nenhum exame de imagem antecede a estabilização — não porque o exame seja perigoso, mas porque o corredor da tomografia é o pior lugar do hospital para descobrir que o paciente parou de responder. A segunda: a pergunta sobre origem alta é feita nos primeiros minutos e não depois do primeiro exame negativo.

  1. Minuto 0 a 10 — reconhecer, acessar e medir o que não espera exame

    Dois acessos venosos periféricos calibrosos, um em cada braço, antes de qualquer outra coisa; em sangramento digestivo, o calibre importa mais que o local. Monitorização contínua de pressão, frequência e saturação. Calcule o índice de choque na primeira aferição: frequência dividida pela pressão sistólica. No senhor Hegino, 108 sobre 96 dá 1,13 — ele é instável por essa definição, mesmo lúcido e conversando, e isso muda a sequência de exames que virá adiante. Colha tudo na mesma punção. Ponha o paciente em jejum, porque ele pode precisar de endoscopia, de tomografia com contraste ou de preparo de cólon nas próximas horas, e nenhuma dessas coisas convive com almoço. Faça o toque retal agora, e não depois: ele responde três perguntas imediatas e é variável pontuada no escore que vai decidir o destino.

    Prescrição
    • Dois acessos periféricos calibrosos, um em cada membro superior
    • Monitorização contínua de pressão arterial, frequência cardíaca e oximetria; aferição a cada 15 minutos enquanto instável
    • Cateter vesical de demora se instável, para medida horária de diurese
    • Jejum absoluto por via oral
    • Coleta única: hemograma, tipagem sanguínea com prova cruzada e reserva de 2 concentrados de hemácias, relação normatizada internacional, tempo de tromboplastina parcial ativada, ureia, creatinina, eletrólitos, lactato
    • Oxigênio suplementar apenas se a saturação estiver abaixo de 94% em ar ambiente
  2. Minuto 10 a 30 — repor por alvo, e decidir se transfunde

    Cristaloide aquecido em alíquotas, com reavaliação depois de cada alíquota — não por prescrição de volume fixo em vinte e quatro horas. O objetivo é perfusão, e os marcadores são nível de consciência, enchimento capilar, diurese e lactato, não um número de pressão isolado. A transfusão obedece a gatilho e não a reflexo: hemoglobina igual ou abaixo de 7 g/dL no paciente sem doença cardiovascular, com alvo pós-transfusional entre 7 e 9; hemoglobina igual ou abaixo de 8 g/dL em quem tem doença cardiovascular aguda ou crônica, com alvo igual ou acima de 10. O senhor Hegino tem fibrilação atrial e acidente vascular prévio: ele entra na segunda régua. Lembre que uma unidade eleva a hemoglobina em cerca de 1 g/dL num adulto de estatura média, e que a resposta se confere com nova dosagem 1 a 2 horas depois. O detalhe operacional do hemocomponente — modalidades, aquecimento, cálcio, protocolo de transfusão maciça — é do capítulo Choque hemorrágico no trauma, na apostila de Trauma; e o reconhecimento da reação transfusional é do capítulo Reação transfusional, na apostila de Síndromes do Paciente Internado.

    Prescrição
    • Cristaloide balanceado ou soro fisiológico 0,9%, 500 mL em bolus, reavaliando perfusão a cada alíquota
    • Na hemorragia estabilizada, estratégia transfusional restritiva, em geral limiar próximo de 7 g/dL, individualizando quando há doença cardiovascular, isquemia, sintomas ou outras condições. Não usar alvo ≥10 g/dL para toda cardiopatia. Na exsanguinação, a decisão depende da fisiologia e perda em curso, sem aguardar hemoglobina atingir um corte.
    • Cada unidade infundida em 60 a 120 minutos; nova hemoglobina 1 a 2 horas após a última unidade
    • Não prescrever ácido tranexâmico: a diretriz europeia recomenda contra o seu uso no sangramento digestivo baixo, com recomendação forte e evidência de alta qualidade
    • Não transfundir plaqueta de rotina nem interromper terapia antiplaquetária dupla por reflexo
  3. Minuto 20 a 40 — a pergunta sobre origem alta, feita antes do primeiro exame

    Antes de pedir qualquer imagem, decida em voz alta se este sangramento pode ser alto. Some os cinco dados: instabilidade desproporcional ao volume exteriorizado, antecedente de úlcera péptica ou hepatopatia com hipertensão portal, uso de anti-inflamatório, antiagregante ou anticoagulante, razão nitrogênio ureico sobre creatinina acima de 30 depois de convertida a unidade brasileira, e ausência de coágulos vermelhos. O senhor Hegino soma quatro dos cinco. Isso não significa que a origem é alta; significa que a endoscopia alta entra na sequência e não fica para o dia seguinte. Se a suspeita for alta e ele estabilizar com a reposição, a endoscopia alta pode ser a primeira investigação. Se ele permanecer instável, a angiotomografia vem antes, e a endoscopia alta imediatamente depois caso a tomografia não localize nada. A escolha entre as duas ordens está no bloco de divergências.

    Prescrição
    • Converter a ureia antes de aplicar o corte: razão ureia sobre creatinina acima de 64,3 equivale a nitrogênio ureico sobre creatinina acima de 30
    • Acionar o endoscopista de sobreaviso agora, e não depois do primeiro exame negativo — o tempo de deslocamento dele corre em paralelo
    • Registrar em prontuário a probabilidade estimada de origem alta e o que a sustenta
    • Sonda nasogástrica apenas se o aspirado for mudar a conduta, sabendo que o aspirado limpo não afasta origem alta (valor preditivo negativo de 64%)
  4. Minuto 30 a 60 — o anticoagulante: interromper agora, reverter só com critério

    Suspenda a varfarina imediatamente. Interromper é decisão de baixo custo e alto retorno num sangramento maior, e vale igualmente para os anticoagulantes orais diretos. Reverter é decisão separada e não se toma por reflexo: a régua europeia manda corrigir a coagulopatia conforme a gravidade do sangramento e o risco trombótico, e reserva a vitamina K endovenosa somada ao concentrado de complexo protrombínico de quatro fatores — ou plasma fresco congelado quando o concentrado não estiver disponível — aos pacientes com instabilidade hemodinâmica. Para os anticoagulantes orais diretos, os agentes de reversão específicos entram em coordenação com o hematologista, quando o sangramento persiste ou a instabilidade é recorrente, e nenhum dos dois consta do elenco nacional. As doses de vitamina K e de complexo protrombínico por faixa de relação normatizada internacional, a conversão em frascos e o controle depois da reversão são do capítulo Coagulograma, na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito, que é dono desse manejo. Suspenda também o diclofenaco — e, neste caso, para sempre. Anti-inflamatórios não esteroides que não sejam aspirina devem ser evitados em definitivo depois de sangramento por diverticulose ou por angiectasia.

    Prescrição
    • Suspender a varfarina; anotar a data e a hora da última dose tomada
    • Suspender o diclofenaco em definitivo e registrar a orientação na alta
    • Reversão apenas se houver instabilidade hemodinâmica: vitamina K endovenosa somada a complexo protrombínico de quatro fatores, com dose do capítulo Coagulograma; plasma fresco congelado se o concentrado não estiver disponível
    • Manter aspirina de prevenção secundária, se houver; suspender em definitivo aspirina de prevenção primária depois de sangramento diverticular
  5. Hora 1 a 4 — escolher o exame pela hemodinâmica, não pela hipótese

    Sangramento em curso e hemodinamicamente significativo favorece angio-TC para localizar a fonte e orientar hemostasia; não exigir hipotensão persistente como único critério. Extravasamento deve mobilizar rapidamente radiologia intervencionista e tratamento disponível. Meta de tempo organiza o serviço, mas não garante resultado nem justifica espera. Se a imagem for negativa e o paciente continuar instável, reavaliar fonte alta e demais hipóteses com a equipe, considerando endoscopia e investigação adicional apropriadas. Após estabilização, sem sangramento significativo persistente, a colonoscopia com preparo pode ser realizada durante a internação conforme risco e logística, sem obrigação de menos de 24 horas para todos. Hegino precisa de ressuscitação e localização precoce pela perda e hipoperfusão; o índice de choque acima de um reforça a preocupação, mas não decide sozinho o percurso.

    Prescrição
    • Sangramento persistente hemodinamicamente significativo: angio-TC com protocolo apropriado, quando o transporte for seguro, em paralelo ao suporte e à organização de hemostasia.
    • Extravasamento na tomografia: acionar radiologia intervencionista com meta de embolização em até 60 minutos
    • Angio-TC negativa com instabilidade persistente: reavaliação urgente pela equipe, incluindo possibilidade de fonte alta e indicação de EDA; não interpretar resultado negativo como resolução.
    • Estável: colonoscopia com preparo, em algum momento da internação, com intubação do íleo terminal se nenhuma fonte colônica for encontrada
    • Não solicitar cintilografia com hemácias marcadas nem enema opaco
  6. Hora 4 a 24 — o preparo, e por que não se colonoscopa sem ele

    Quando o paciente estabiliza e a colonoscopia entra na fila, o preparo passa a ser a etapa que decide o rendimento do exame. A diretriz europeia recomenda contra a colonoscopia e a retossigmoidoscopia sem preparo em sangramento baixo agudo, e sugere preparo de grande volume, de quatro a seis litros de solução à base de polietilenoglicol. Em quem não tolera a via oral, uma sonda nasogástrica associada a antiemético viabiliza o preparo — e essa é a indicação de sonda que as diretrizes contemporâneas sustentam neste cenário. A fonte na maioria dos casos está proximal ao reto e ao sigmoide, de modo que o alvo é a colonoscopia completa; a retossigmoidoscopia isolada só se justifica quando a tomografia já apontou o sítio no reto ou no sigmoide. Uma nota de elenco que muda o planejamento: nenhuma solução de preparo de cólon consta da Rename 2024 — a disponibilidade depende do estoque do hospital, e não da lista nacional.

    Prescrição
    • Solução de polietilenoglicol, 4 a 6 litros, por via oral em 3 a 4 horas
    • Antiemético antes e durante o preparo
    • Sonda nasogástrica para infusão do preparo apenas se houver intolerância à via oral, e com o paciente capaz de proteger a via aérea
    • Manter acesso, monitorização e reserva de hemácias durante todo o preparo — é o período em que a hemodinâmica costuma piorar sem que ninguém esteja olhando
  7. Durante a colonoscopia e depois dela — o que se trata e o que não se trata por via endoscópica

    O sangramento diverticular é tratado por método mecânico ou térmico: clipe passado pelo canal do aparelho, aplicado diretamente sobre o vaso no colo ou na cúpula do divertículo, ligadura elástica, ou coagulação de contato. A angiectasia é tratada com coagulação por plasma de argônio. O sangramento pós-polipectomia tardio é tratado com clipe, ligadura elástica ou coagulação térmica de contato. Agentes hemostáticos tópicos entram como terapia de resgate quando a hemostasia falhou e o sangramento persiste. Injeção de adrenalina nunca é método isolado. Três causas frequentes não são passíveis de hemostasia endoscópica durável e se tratam pelo suporte e pela doença de base: colite isquêmica, colite da doença inflamatória intestinal e neoplasia colorretal. Reconhecer que a lesão encontrada é de uma dessas três muda o plano no meio do exame — o que se faz depois é tratar a causa, não insistir no clipe.

    Prescrição
    • Divertículo sangrante: clipe pelo canal ou montado em capuz, ligadura elástica ou coagulação de contato
    • Angiectasia: coagulação com plasma de argônio
    • Pós-polipectomia tardio: terapia mecânica ou térmica de contato
    • Adrenalina apenas combinada a um segundo método, nunca isolada
    • Marcar com tinta o sítio tratado quando houver risco de ressangramento e possibilidade de cirurgia posterior
  8. Dia 1 em diante — quando o cirurgião entra, e o que se registra enquanto ele não chega

    O cirurgião entra tarde neste capítulo, e isso é intencional. A recomendação é explícita nas duas diretrizes: nenhum paciente vai para laparotomia de urgência sem que todo esforço tenha sido feito para localizar o sangramento por métodos radiológicos ou endoscópicos, salvo circunstâncias excepcionais; e a cirurgia se reserva a sangramento por doença não tratável por via endoscópica ou radiológica, ou depois que essas falharam. O motivo é operacional: operar sem saber onde está a lesão significa colectomia às cegas, e a colectomia subtotal às cegas tem morbidade alta e ainda pode não parar o sangramento se a fonte for do intestino médio. Enquanto o cirurgião não entra, o que o interno faz é produzir o mapa que ele vai precisar. Registre, para cada episódio, o horário exato, o aspecto — vermelho vivo, vinhoso, com coágulos, escuro — e uma estimativa de volume, ainda que grosseira. Registre a evolução do índice de choque, o número de unidades transfundidas e a hemoglobina antes e depois de cada uma. Registre o que já foi excluído e por qual exame. Um prontuário com esses quatro itens transforma a decisão cirúrgica em decisão informada; sem eles, o cirurgião chega às três da manhã diante de um paciente pálido e de uma frase que diz "sangrou de novo".

    Prescrição
    • Anotar cada episódio com horário, aspecto e volume estimado
    • Anotar a evolução do índice de choque e a resposta a cada intervenção
    • Anotar o que já foi excluído, por qual exame e com que qualidade de preparo
    • Acionar a cirurgia quando houver sangramento maciço persistente sem controle endoscópico ou radiológico, ou lesão com indicação cirúrgica própria
    • Discutir com a equipe a meta de cuidado no paciente idoso com múltiplas comorbidades antes de indicar colectomia de urgência
09

Como saber se está funcionando

Ressangramento na hemorragia digestiva baixa é diagnóstico de beira de leito, e a maior dificuldade é que o cólon esvazia com atraso. Um episódio de hematoquezia pode ser sangue velho descendo, e a ausência de episódio pode ser sangue novo acumulando. Por isso nenhum parâmetro isolado decide, e por isso cada um deles precisa de um horário escrito ao lado.

Vale um alerta de sequência que pega quase todo mundo: a piora hemodinâmica costuma acontecer durante o preparo de cólon e durante o transporte para exames, que são exatamente os dois momentos em que a monitorização é frouxa e a enfermagem está ocupada com outra coisa. Prescreva vigilância nesses dois intervalos com a mesma seriedade com que a prescreve na sala vermelha.

Índice de choque, calculado e anotadoEm toda aferição de sinais vitais; a cada 15 minutos enquanto instável, a cada hora nas primeiras 6 horas após estabilizar, e antes e depois de cada transporte

Esperado: Queda progressiva e permanência abaixo de 1 depois da reposição

Se não melhora: Índice que sobe de novo depois de ter caído indica ressangramento ou reposição insuficiente. Reavaliar perfusão, repetir hemoglobina, reservar mais hemocomponente e reconsiderar angiotomografia — o exame só é positivo com sangramento ativo, e esta é a janela.

Aspecto, horário e volume estimado de cada episódioA cada evacuação, registrado pela enfermagem e conferido pelo médico na visita

Esperado: Clareamento progressivo do aspecto e espaçamento dos episódios

Se não melhora: Sangue vivo que volta a aparecer com coágulos, depois de um período de clareamento, é ressangramento até prova em contrário. Se o paciente ainda não colonoscopou, antecipe; se já colonoscopou e foi tratado, discuta nova colonoscopia conforme a estabilidade.

Hemoglobina1 a 2 horas após cada unidade transfundida; a cada 6 a 12 horas ao longo do primeiro dia; depois, diariamente enquanto o sangramento durar

Esperado: Elevação de cerca de 1 g/dL por unidade transfundida e estabilidade entre as dosagens

Se não melhora: Quando a hemoglobina fica abaixo do que as unidades transfundidas deveriam ter entregue, há perda em curso — não erro de laboratório. Some as unidades transfundidas: a necessidade de mais de três concentrados é um dos fatores que aumentam a chance de angiotomografia positiva.

Diurese e lactatoDiurese horária enquanto houver instabilidade; lactato na admissão e repetido a cada 4 a 6 horas enquanto estiver alterado

Esperado: Diurese acima de 0,5 mL/kg/h e lactato em queda

Se não melhora: Perfusão que não recupera com pressão aparentemente adequada é choque compensado. Reavalie a reposição, procure sangramento oculto no cólon e considere que a origem possa ser alta e não ter sido excluída.

Relação normatizada internacional em quem usava antagonista da vitamina KNa admissão, e 30 minutos após a reversão se ela tiver sido feita; depois, diariamente

Esperado: Correção documentada quando houve reversão, e ausência de nova elevação

Se não melhora: Relação que volta a subir depois do concentrado de complexo protrombínico indica que a vitamina K não foi prescrita ou não foi dada — o concentrado corrige por horas, a vitamina K sustenta a correção. A conduta detalhada é do capítulo Coagulograma.

Estado de consciência e capacidade de proteger a via aérea durante o preparo de cólonA cada hora durante todo o preparo, e imediatamente se houver vômito

Esperado: Paciente alerta, deglutindo, tolerando o volume

Se não melhora: Rebaixamento ou vômitos repetidos durante um preparo de quatro a seis litros criam risco de aspiração. Interrompa o preparo, reavalie a indicação e a via, e reconsidere a proteção da via aérea antes de insistir.

Sinais de complicação do procedimento nas 24 horas seguintes à colonoscopia ou à embolizaçãoExame do abdome a cada 6 horas nas primeiras 24 horas; temperatura a cada 6 horas

Esperado: Abdome flácido, indolor, sem distensão; ausência de febre

Se não melhora: Dor abdominal nova, distensão, defesa ou febre depois de colonoscopia terapêutica levantam perfuração. Depois de embolização, dor desproporcional levanta isquemia colônica pós-embolização. Os dois cenários pedem tomografia e avaliação cirúrgica, e nenhum deles é para observar até de manhã.

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Onde o erro machuca

Mandar para a colonoscopia o paciente que está sangrando de cima

O dano: Entre 8% e 9% dos pacientes com sangramento pelo reto têm a fonte no trato alto, e entre os que chegam com hematoquezia grave e instáveis essa proporção sobe para até 15%. Esse paciente perde horas num preparo de quatro a seis litros que ele não tolera, chega ao exame com a hemodinâmica pior do que na admissão, e a colonoscopia não encontra nada porque não há nada para encontrar naquele segmento. O tempo perdido é o tempo em que a úlcera continua sangrando.

Como pegar a tempo: Faça a pergunta nos primeiros minutos, não depois do primeiro exame negativo. Some os cinco dados: instabilidade desproporcional ao volume exteriorizado, antecedente de úlcera ou de hipertensão portal, uso de anti-inflamatório, antiagregante ou anticoagulante, razão nitrogênio ureico sobre creatinina acima de 30 depois de convertida, e ausência de coágulos vermelhos. Se somar, a endoscopia alta entra na sequência hoje.

Fechar o caso na hemorroida encontrada no exame

O dano: É o erro que atrasa diagnóstico de câncer colorretal, e a estatística é dura: cerca de 6% dos pacientes que se apresentam com sangramento digestivo baixo têm câncer colorretal por trás. Hemorroida coexiste com a lesão que está sangrando em muitos desses casos, e a palavra que fecha a investigação não é "hemorroida", é "só". Um paciente que sai com "sangramento hemorroidário" no diagnóstico e sem encaminhamento é um paciente que volta meses depois com massa palpável.

Como pegar a tempo: Trate hemorroida como diagnóstico de exclusão anatômica e memorize as condições que, por si, indicam colonoscopia — hematoquezia persistente não atribuível a doença orificial, hematoquezia acima de 50 anos, hematoquezia com sinal de alarme, melena após exclusão de origem alta, anemia ferropriva sem causa definida. Registre os dois fatos ao mesmo tempo: a hemorroida que se viu, e a investigação do cólon que fica indicada.

Transcrever o escore de Oakland da tabela publicada sem converter a unidade da hemoglobina

O dano: A tabela europeia de 2021 rotula a linha da hemoglobina como gramas por decilitro usando faixas que são gramas por litro. Aplicada a um resultado brasileiro, a hemoglobina simplesmente não cai em faixa nenhuma e some do cálculo — e ela sozinha vale até 22 dos 35 pontos possíveis. Numa mulher de 45 anos com hemoglobina de 9,5 g/dL, sangue ao toque, frequência 78 e pressão 132, o escore correto é 18, que interna; lendo a tabela ao pé da letra, o escore fica em 5, que é igual ou menor que 8 e autoriza alta para casa.

Como pegar a tempo: Antes de tabular qualquer escore importado, converta as unidades para as do seu laboratório e confira se as faixas cobrem todos os valores possíveis. Use a tabela convertida deste capítulo, que fecha também as seis lacunas de fronteira da versão publicada.

Colonoscopar sem preparo porque o paciente está sangrando e parece urgente

O dano: Sangue e fezes tornam a mucosa invisível, a lesão passa despercebida, e o risco de perfuração aumenta. O paciente sai do exame com um laudo que diz "exame limitado por preparo inadequado", e esse laudo será usado nas próximas semanas como se fosse uma colonoscopia normal. É um exame que produz falsa exclusão, que é o pior resultado possível.

Como pegar a tempo: A diretriz europeia recomenda contra colonoscopia e retossigmoidoscopia sem preparo no sangramento baixo agudo. Se o paciente não pode esperar o preparo, ele não precisa de colonoscopia agora — precisa de angiotomografia, que não exige preparo nenhum e responde a pergunta do paciente instável.

Pedir angiotomografia depois que o sangramento parou, e chamar o resultado negativo de exclusão

O dano: A angiotomografia só é positiva se houver extravasamento de contraste no momento da injeção. Pedida com o paciente já sem sangramento, ela vem negativa com altíssima probabilidade — e o negativo é então registrado como se tivesse excluído a lesão. A lesão continua lá, e a próxima decisão é tomada sobre uma informação falsa.

Como pegar a tempo: Peça a tomografia na janela em que o paciente está sangrando, de preferência nas primeiras horas do episódio, e no paciente instável. Escreva no laudo do prontuário que exame negativo significa "não sangrava no momento do exame", e não "não há lesão". Fora dessa janela, o exame que responde é a colonoscopia com preparo.

Suspender ou reverter a anticoagulação por reflexo, e não devolvê-la nunca mais

O dano: São dois danos opostos e igualmente frequentes. De um lado, reverter um paciente estável com sangramento menor expõe a trombose sem ganho demonstrado. De outro, e mais comum, o paciente recebe alta sem que ninguém tenha decidido quando o anticoagulante volta — e a decisão fica órfã entre o cirurgião, o clínico e o cardiologista, com o paciente sem anticoagulação por meses depois de um sangramento que já parou.

Como pegar a tempo: Separe as duas decisões. Interromper no sangramento maior é rotina; reverter é reservado à instabilidade hemodinâmica, com o esquema do capítulo Coagulograma. E escreva a data de retomada na própria evolução: reiniciar anticoagulação é recomendado em quem tem indicação de longo prazo, a partir do sétimo dia nos de baixo risco trombótico, e mais cedo nos de alto risco trombótico. Não deixar essa linha escrita é o mesmo que suspender para sempre.

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O que dizer ao paciente e à família

Há quatro conversas nesta noite e uma na manhã seguinte. Três acontecem enquanto o paciente ainda pode voltar a sangrar, e por isso todas elas precisam terminar com alguém sabendo o que fazer se isso acontecer. A que mais se erra é a última — a da alta —, porque é a única em que todo mundo está aliviado.

Um princípio atravessa as cinco: sangue assusta desproporcionalmente ao risco, e o susto é um dado clínico, não um obstáculo. Nomear o susto não é gentileza opcional; é o que faz o paciente contar o quarto episódio que ele omitiu por vergonha.

Com o senhor Hegino, nos primeiros minutos, enquanto se passa o segundo acesso

Senhor Hegino, o senhor está perdendo sangue pelo intestino e por isso ficou tonto no banheiro. A gente vai repor líquido agora e separar sangue no banco, para o caso de precisar. O senhor está consciente e conversando, e isso é bom sinal. Preciso fazer um exame pelo ânus, com o dedo e luva, que dura menos de um minuto: ele me diz se ainda há sangue ali e me ajuda a decidir se o senhor pode ir para casa hoje ou precisa ficar. Depois eu volto para explicar o que descobri.

Não diga: Não prometa que é hemorroida porque ele tem hemorroida. Não diga "é só um examezinho" — diga o que o exame decide. E não peça consentimento para o toque no meio do corredor com a família ouvindo.

Com a filha, na primeira conversa, quando ela pergunta se é grave

É um sangramento que precisa ser levado a sério e que na maioria das vezes para sozinho. O que me preocupa agora não é a cor do sangue, é a pressão e o pulso dele, que mostram que ele perdeu volume. Existem várias causas possíveis, e uma delas é o sangramento vir de mais acima, do estômago, e sair vermelho porque desceu rápido. Por isso talvez a gente comece pelo exame do estômago, mesmo o sangue saindo por baixo. Não é confusão nossa: é a ordem certa de excluir a possibilidade mais perigosa primeiro.

Não diga: Não use "é normal" para tranquilizar. Não prometa que ele não vai precisar de cirurgia. E não deixe a conversa terminar sem dizer o que ela deve chamar: se ele ficar confuso, muito pálido ou evacuar sangue de novo, ela chama imediatamente.

Ao telefone com o endoscopista de sobreaviso, às 20h10

Doutor, aqui é o plantão da emergência. Homem de 73 anos com três episódios de hematoquezia volumosa em quatro horas, o último com coágulos, e uma lipotimia. Pressão de entrada 96 por 58, frequência 108, índice de choque 1,13; agora, depois de mil mililitros de cristaloide, 108 por 64 e frequência 96. Usa varfarina por fibrilação atrial, relação normatizada internacional ainda pendente, e diclofenaco por conta própria esta semana. Toque retal com sangue vermelho vivo e coágulos, sem massa palpável. Estou pedindo a angiotomografia agora porque ele fecha critério de instabilidade; se ela não localizar, quero endoscopia alta na sequência, porque ele tem anti-inflamatório e anticoagulante e essa combinação me deixa com 15% de chance de origem alta. Já reservei duas bolsas.

Não diga: Não peça "uma endoscopia" sem dizer por quê. Não omita o índice de choque nem os valores antes e depois da reposição — a evolução é o que decide a pressa dele. E não termine sem combinar quem chama quem se o quadro mudar.

Com a senhora Ibrantina, 68 anos, em uso de rivaroxabana, que sangrou duas vezes e está estável

A senhora está com um sangramento no intestino que já parou e não repercutiu na pressão. O anticoagulante não causou isso: ele mostrou uma lesão que já existia e que sangraria menos sem ele. Suspender o remédio não é uma decisão sem risco — a senhora o toma para não ter derrame. Vamos suspender agora porque o sangramento é recente, investigar o intestino, e definir por escrito a data de voltar. Eu vou deixar essa data anotada no relatório, para a senhora e para o médico que a atender depois.

Não diga: Não diga "pare o remédio e depois a gente vê". Não deixe a decisão de retomada implícita. E não devolva a responsabilidade para a paciente com um "a senhora decide se quer continuar".

Com a família da senhora Sancha, 81 anos, com colite isquêmica e múltiplas comorbidades

O intestino dela sofreu por falta de irrigação por algumas horas, e o sangue que vocês viram é sinal da lesão da parede, não de uma hemorragia grande. O tratamento é hidratar, corrigir o que provocou a queda de pressão e observar. A maior parte dessas lesões cicatriza sozinha. Preciso ser honesto sobre a outra possibilidade: se a parte do intestino que sofreu não recuperar, pode ser necessária cirurgia — e cirurgia nela, com o coração dela, tem risco alto. Vamos acompanhar de perto e conversar de novo amanhã de manhã, com vocês e com ela junto.

Não diga: Não anuncie cirurgia como se já estivesse decidida, e não a exclua como se fosse impossível. Não converse sobre a paciente na frente dela usando terceira pessoa. E não use o telefone para dar a primeira notícia ruim se a família estiver a caminho.

Na passagem de plantão, às 7h da manhã seguinte

Hegino Pintadas, 73, leito 12, hemorragia digestiva baixa. Entrou às 19h20 com três episódios, índice de choque 1,13. Recebeu mil e quinhentos de cristaloide e duas unidades de concentrado, hemoglobina de 6,9 para 8,7 às 2h. Varfarina suspensa às 20h, relação normatizada internacional de 3,1 na entrada, não revertido porque estabilizou. Angiotomografia às 21h sem extravasamento. Endoscopia alta às 23h sem lesão sangrante. Último episódio de sangue às 0h40, vinhoso, pequeno volume; nada desde então. Preparo de cólon programado para as 8h, colonoscopia às 13h. O que me preocupa é a hemodinâmica durante o preparo: ele já perdeu volume e vai beber quatro litros.

Não diga: Não transmita "sangrou de novo" sem horário, aspecto e volume. Não omita o que já foi excluído e por qual exame — é isso que evita repetir tudo. E não deixe de nomear a preocupação: a passagem que só narra o passado não protege o turno seguinte.

Na alta, com o senhor Hegino e a filha

O senhor sangrou de um divertículo no intestino grosso, que é uma bolsinha na parede que rompeu um vaso. Foi tratado no exame e parou. Três coisas mudam a partir de hoje. Primeira: o diclofenaco não volta nunca mais, e eu escrevi isso na receita — se doer o joelho, o senhor me procura antes de comprar qualquer coisa. Segunda: a varfarina volta no dia que está escrito aqui, e o senhor precisa refazer o exame de sangue naquela semana. Terceira: se voltar a sair sangue vermelho, se o senhor ficar tonto ou muito pálido, o senhor volta direto para a emergência, não espera a consulta. Vou repetir os três pontos e quero que o senhor me diga com as suas palavras.

Não diga: Não entregue receita sem dizer o que saiu da lista antiga. Não deixe a data de retomada da anticoagulação implícita ou verbal. E não termine sem o retorno em voz alta — a repetição pelo paciente é a única verificação que existe de que a orientação foi entendida.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

No instável com hematoquezia: angiotomografia primeiro, ou endoscopia alta primeiro?

Angiotomografia primeiro; endoscopia alta imediatamente depois, se a tomografia não localizar

A diretriz britânica trata a instabilidade como indicação de localização radiológica antes de tudo: se o paciente está hemodinamicamente instável ou tem índice de choque acima de 1 depois da reanimação inicial, e se há suspeita de sangramento ativo, a angiotomografia é o meio mais rápido e menos invasivo de localizar a perda antes de planejar terapia endoscópica ou radiológica. A endoscopia alta entra imediatamente se a tomografia não identificar fonte. Se o paciente estabiliza depois da reanimação, a endoscopia alta pode ser a primeira investigação.

British Society of Gastroenterology, Gut 2019, recomendações 4 e 5 (recomendação forte, evidência de baixa qualidade)

Endoscopia alta na instabilidade, a menos que a tomografia já tenha localizado no trato baixo

A diretriz europeia parte da probabilidade de origem alta e não da via de localização: recomenda endoscopia digestiva alta em todo paciente que se apresenta com sangramento baixo e instabilidade hemodinâmica, exceto quando a angiotomografia já foi feita e mostrou fonte definitiva no trato baixo. O argumento é a prevalência — até 15% dos pacientes com hematoquezia grave e instáveis têm fonte alta — somado ao fato de que a endoscopia alta é diagnóstica e terapêutica na mesma sessão, ao contrário da tomografia.

European Society of Gastrointestinal Endoscopy, Endoscopy 2021 (recomendação forte, evidência de baixa qualidade)

Como decidir

No instável, organize ressuscitação e investigação capaz de localizar e tratar a perda, considerando também origem alta. A ordem entre angiotomografia e endoscopia alta depende da suspeita e da disponibilidade imediata, com acionamentos em paralelo. Colonoscopia com preparo não deve atrasar a abordagem inicial de quem não tolera essa espera.

Sangramento menor e autolimitado em quem usa anticoagulante oral direto: suspender ou manter?

Interromper na apresentação, sem exceção declarada

A diretriz britânica recomenda interromper a terapia com anticoagulante oral direto na apresentação do paciente com sangramento digestivo baixo, sem abrir exceção para o sangramento menor, e sugere reiniciar em no máximo sete dias depois da hemorragia. O raciocínio é de segurança: a droga não tem monitorização laboratorial de rotina que informe o grau de anticoagulação naquele momento, e o sangramento que parece menor pode ser o primeiro episódio de um sangramento diverticular que volta em volume.

British Society of Gastroenterology, Gut 2019, recomendação 14 (recomendação forte, evidência de baixa qualidade)

Não interromper quando o sangramento é menor e autolimitado, definido por escore de Oakland igual ou menor que 8

A diretriz europeia sugere não interromper o anticoagulante oral direto em pacientes que se apresentam com sangramento menor e autolimitado, e usa o próprio escore de Oakland igual ou menor que 8 como definição operacional desse grupo. A mesma sugestão é feita para os antagonistas da vitamina K no mesmo cenário. O raciocínio é de risco competitivo: nesse grupo, o risco tromboembólico da suspensão supera o benefício de uma medida que não muda a evolução de um sangramento que já cessou.

European Society of Gastrointestinal Endoscopy, Endoscopy 2021 (recomendação fraca, evidência de baixa qualidade)

Como decidir

Use o Oakland corretamente calculado como apoio à avaliação do sangramento e considere separadamente o risco trombótico. Prótese mecânica, determinadas valvopatias e TEV recente exigem atenção especial. A decisão sobre anticoagulante cabe à equipe e deve incluir reavaliação, investigação e sinais de retorno. Se houver manejo ambulatorial, confirme o seguimento e registre a justificativa.

Estratégia restritiva de transfusão no idoso e no cardiopata

Restritiva também nesses grupos, com o gatilho elevado apenas na doença cardiovascular conhecida

As duas diretrizes recomendam estratégia restritiva como padrão: gatilho de hemoglobina em 7 g/dL e alvo pós-transfusional de 7 a 9 g/dL no paciente estável sem doença cardiovascular, e gatilho de 8 g/dL com alvo igual ou acima de 10 g/dL em quem tem doença cardiovascular aguda ou crônica. O argumento é a coerência com o corpo de evidência acumulado em hemorragia digestiva e o dano documentado da transfusão liberal — sobrecarga volêmica, aloimunização, reação transfusional e consumo de hemocomponente escasso.

European Society of Gastrointestinal Endoscopy, Endoscopy 2021, e British Society of Gastroenterology, Gut 2019, recomendação 8

Cautela com a régua restritiva nesses dois grupos, pelos dados que a própria diretriz reporta

O texto que fundamenta a recomendação europeia relata, na mesma seção, achados que apontam na direção contrária para esses subgrupos: uma revisão sistemática com metanálise em cirurgia não cardíaca mostrou risco de síndrome coronariana aguda aumentado na estratégia restritiva comparada à liberal, com risco relativo de 1,78 e intervalo de confiança de 95% de 1,18 a 2,70; e uma metanálise de nove ensaios randomizados em idosos encontrou mortalidade em 30 e em 90 dias significativamente maior no grupo restritivo, com riscos relativos de 1,36 e 1,45. A mesma diretriz registra ainda que uma análise post hoc da auditoria britânica não encontrou diferença entre as duas estratégias para ressangramento nem para mortalidade hospitalar em sangramento baixo.

European Society of Gastrointestinal Endoscopy, Endoscopy 2021, seção de fundamentação da recomendação transfusional

Como decidir

No paciente estabilizado, sem doença cardiovascular e com perda cessada, o percurso usa gatilho de 7 g/dL e alvo de 7–9 g/dL. Condição cardiovascular, sinais de isquemia ou sangramento em curso exigem avaliação específica dos limiares apresentados. Documente a situação que justifica a estratégia e reavalie a resposta. Hipoperfusão não deve aguardar um número isolado para receber tratamento.

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O raciocínio, em voz alta

Senhor Hegino Pintadas, 73 anos, aposentado da lavoura. Chega às 19h20 com três episódios de sangue vermelho vivo pelo reto em quatro horas, o último com coágulos, e uma lipotimia no banheiro. Pressão 96 por 58, frequência cardíaca 108, frequência respiratória 20, saturação 96% em ar ambiente, temperatura 36,2. Lúcido, orientado, conjuntivas descoradas, extremidades frias, enchimento capilar de três segundos. Abdome indolor, sem massas. Usa varfarina desde um acidente vascular cerebral há seis anos, por fibrilação atrial, sem controle laboratorial recente. Tomou diclofenaco três vezes esta semana por dor no joelho. Já teve sangramento hemorroidário no papel, anos atrás.

  1. Minuto 2 — decido pela medida, não pela cor

    Antes de formular hipótese, calculo o índice de choque: 108 dividido por 96 dá 1,13. Acima de 1, ele é instável, mesmo lúcido e conversando. Isso já elimina duas condutas que estavam na mesa: nada de colonoscopia agora, porque ele não vai tolerar quatro a seis litros de preparo, e nada de esperar hemograma para decidir reposição. Passo dois acessos calibrosos, um em cada braço, monitorizo, deixo em jejum e colho tudo numa única punção — hemograma, tipagem com prova cruzada e reserva de duas bolsas, relação normatizada internacional, tempo de tromboplastina parcial ativada, ureia, creatinina, eletrólitos, lactato. Inicio cristaloide em alíquotas de 500 mL, reavaliando perfusão a cada uma.

  2. Minuto 6 — o toque retal, que decide três coisas de uma vez

    Explico o exame e faço. Ampola com sangue vermelho vivo e coágulos, sem massa palpável, sem fissura, sem trombose externa; à inspeção, um mamilo hemorroidário interno protruso, sem sangramento ativo. Três leituras. Primeira: há sangue, e com coágulos vermelhos — o que torna a origem alta menos provável, com razão de verossimilhança de 0,05, mas não a exclui num paciente instável. Segunda: não há massa, o que não afasta neoplasia proximal. Terceira, e a que quase todo mundo esquece: sangue no toque soma ponto no escore que decidiria a alta, e o achado fica registrado. A hemorroida que vi não explica lipotimia, coágulos e taquicardia num homem de 73 anos, e escrevo as duas coisas no prontuário sem que uma anule a outra.

  3. Minuto 20 — pergunto em voz alta se o sangue vem de cima

    Somo os fatores: instabilidade desproporcional ao que ele exteriorizou, uso de anti-inflamatório esta semana, uso de anticoagulante, e a razão entre nitrogênio ureico e creatinina, que vem depois. Não tem hepatopatia nem úlcera conhecida. São três dos cinco, e isso basta para colocar a endoscopia alta na sequência de hoje. O laboratório devolve ureia de 78 mg/dL e creatinina de 1,1. Converto antes de aplicar o corte: 78 dividido por 2,1439 dá nitrogênio ureico de 36,4; dividido por 1,1, a razão é 33,1, acima de 30. Se eu tivesse usado a ureia bruta, a razão seria 70,9 — pareceria muito mais alarmante e não seria a mesma medida. Quatro dos cinco fatores. Ligo para o endoscopista agora, e não depois do primeiro exame negativo.

  4. Minuto 35 — reponho por alvo e decido sobre a varfarina

    Hemoglobina de entrada 6,9 g/dL. Ele tem fibrilação atrial e acidente vascular prévio: doença cardiovascular estabelecida, portanto gatilho de 8 g/dL e alvo igual ou acima de 10. Transfundo duas unidades — cada uma eleva cerca de 1 g/dL num adulto de estatura média, e duas o levam a cerca de 8,9 —, infundidas em 60 a 120 minutos cada, com nova dosagem 1 a 2 horas depois da última. Suspendo a varfarina e anoto a hora da última dose. A relação normatizada internacional volta em 3,1. Não reverto: ele respondeu à reposição, a pressão subiu para 108 por 64 e a frequência caiu para 96, e a reversão é reservada à instabilidade que persiste. Suspendo o diclofenaco e escrevo que é definitivo. Não prescrevo ácido tranexâmico, que está formalmente desaconselhado neste cenário.

  5. Hora 1h40 — a angiotomografia, pedida na janela certa

    Ele fecha critério de instabilidade e o último episódio foi há cerca de uma hora, o que o coloca na janela em que a tomografia rende mais. Peço angiotomografia de abdome e pelve com contraste, sem preparo, e vou junto no transporte com o monitor ligado — o corredor da tomografia é onde a hemodinâmica piora sem testemunha. O exame não mostra extravasamento. Registro no prontuário com as palavras certas: o exame não mostrou sangramento ativo no momento da injeção; isso não exclui a lesão. Não peço cintilografia com hemácias marcadas, desaconselhada na régua contemporânea, nem enema opaco, que contaminaria o cólon com bário e inviabilizaria os dois exames seguintes.

  6. Hora 3h40 — a endoscopia alta, que fecha uma porta

    Como a tomografia não localizou e ele ainda tem quatro dos cinco fatores de risco para origem alta, a endoscopia digestiva alta é o próximo exame. Ele está lúcido, deglutindo a própria saliva, sem hematêmese: não indico intubação profilática, mas anoto o critério para não redescobri-lo às pressas — se rebaixar, se agitar, ou se vomitar sangue em volume que impeça limpar a boca, a via aérea é protegida antes do exame. A endoscopia mostra gastrite erosiva antral sem sangramento ativo e sem estigma de hemorragia recente. Uma porta fechada é informação, não fracasso: com a origem alta afastada num paciente que estabilizou, a investigação volta para o cólon.

  7. Hora 8 às 18 — o preparo e a colonoscopia

    Ele passa a noite sem novo episódio depois de um sangramento vinhoso de pequeno volume à 0h40. De manhã, com pressão 118 por 72 e frequência 84, programo o preparo: quatro litros de solução de polietilenoglicol em três a quatro horas, com antiemético, por via oral, que ele tolera. Mantenho acesso, monitorização e a reserva de hemácias durante todo o preparo, porque é o intervalo em que a vigilância costuma afrouxar. A colonoscopia às 13h encontra diverticulose difusa e um divertículo no cólon direito com vaso visível na cúpula, sem sangramento ativo. Tratamento com clipe aplicado sobre o vaso. O íleo terminal é intubado e não há sangue vindo de cima da válvula, o que afasta origem no intestino médio.

  8. Alta, no terceiro dia — as três linhas que decidem os próximos meses

    Hemoglobina estável em 9,4 sem nova transfusão, sem novo episódio há 48 horas. Escrevo três coisas e as leio em voz alta com ele e com a filha. Primeira: o diclofenaco sai em definitivo — anti-inflamatório não esteroide que não seja aspirina deve ser evitado depois de sangramento diverticular —, e ele me procura antes de comprar qualquer analgésico. Segunda: a varfarina volta em data escrita na receita, com refazer da relação normatizada internacional naquela mesma semana; reiniciar anticoagulação em quem tem indicação de longo prazo é recomendado, e a partir do sétimo dia nos de baixo risco trombótico. Terceira: sinais de retorno imediato, ditos com as palavras dele — sangue vermelho de novo, tontura, palidez. Peço que ele repita os três pontos, e ele repete dois; refaço o terceiro até sair completo. Encaminho para acompanhamento com coloproctologia e registro que a colonoscopia foi completa e com preparo adequado, para que ninguém a repita em três meses sem motivo.

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Faça você

São 22h de um sábado. Eutália Jeriquara tem 45 anos, é professora, e chega ao pronto-socorro assustada porque evacuou sangue vermelho vivo duas vezes hoje, a segunda com o vaso todo tingido. Ela tem hemorroida diagnosticada há três anos e sangra no papel de vez em quando, mas nunca assim. Não tem dor abdominal nem dor anal. Não usa anticoagulante, não usa anti-inflamatório, nunca internou por sangramento. Pressão 132 por 80, frequência cardíaca 78, saturação 98%, afebril. Corada. Abdome flácido e indolor. Ao toque retal: sangue vermelho vivo na luva, sem massa palpável; à anuscopia, mamilo hemorroidário interno sem sangramento ativo. O hemograma volta com hemoglobina de 9,5 g/dL, plaquetas normais. O plantonista sênior olha o resultado, diz que ela está estável e que hemorroida sangra mesmo, e pede que você escreva a alta com encaminhamento para proctologia.

  1. 1. Calcule o escore que decide se ela pode ir para casa — e diga em que unidade você está trabalhando

    Some as sete variáveis do escore de Oakland para a senhora Eutália, usando a tabela convertida para a unidade do laboratório brasileiro. Diga o total, diga qual é o corte de alta segura, e diga qual variável isolada pesa mais no resultado dela. Depois refaça a conta como ficaria se você tivesse copiado a tabela europeia ao pé da letra, com a hemoglobina em gramas por decilitro como está impressa lá, e diga quantos pontos separam as duas leituras e qual delas atravessa o corte.

  2. 2. Decida se a hemoglobina dela é explicável pela hemorroida

    Uma hemoglobina de 9,5 g/dL numa mulher de 45 anos não é achado neutro. Diga o que ela sugere sobre a duração do sangramento, e por que isso muda a interpretação do episódio de hoje. Diga também qual condição, presente nesta paciente, aparece na lista brasileira de indicações objetivas de colonoscopia — e de qual capítulo desta apostila essa lista é.

  3. 3. Diga por que o mamilo hemorroidário visto na anuscopia não fecha o caso

    Você viu uma hemorroida interna e ela não estava sangrando no momento do exame. Explique, em duas frases, a diferença entre esse achado e o achado que efetivamente atribuiria o episódio à doença orificial. Depois escreva a frase de prontuário que mantém as duas verdades ao mesmo tempo — a hemorroida existe, e a investigação do cólon fica indicada — sem que uma anule a outra.

  4. 4. Escolha o exame e a via, e justifique pela hemodinâmica

    Ela está estável, com índice de choque abaixo de 1 e sem sangramento ativo neste momento. Diga qual exame responde à pergunta dela, se ele exige preparo, e por que a angiotomografia seria um exame mal indicado agora. Diga também o que você escreveria no pedido para que o resultado negativo, se vier, não seja lido como exclusão.

  5. 5. Escreva a conduta imediata e a orientação de retorno

    Decida se ela interna ou vai para casa, e sustente a decisão com o escore e com a hemoglobina. Se for para casa, escreva os três sinais de retorno imediato e o prazo do exame. Se internar, escreva a prescrição da primeira hora. Em qualquer dos dois casos, diga o que você prescreve para a anemia dela e a qual capítulo desta coleção pertence essa investigação.

  6. Continuidade do caso e prática do internato

    Apresente Hegino pela perda em curso, perfusão e antitrombótico, justificando o exame que pode localizar uma fonte tratável agora.

  7. Questão integrativa 1

    Sangue vermelho pelo reto exclui origem alta?

  8. Questão integrativa 2

    É necessário manter PAS abaixo de 90 para indicar angio-TC?

  9. Questão integrativa 3

    Angio-TC negativa encerra o caso se a perfusão continua ruim?

  10. Questão integrativa 4

    Todos precisam de colonoscopia nas primeiras 24 horas?

  11. Questão integrativa 5

    Oakland baixo garante alta?

  12. Questão integrativa 6

    Por que o plano da varfarina inclui retomada?

Ver como fecharíamos

1. Pela tabela convertida: idade 45 anos soma 1; sexo feminino soma 0; sem internação prévia por sangramento baixo soma 0; sangue ao toque retal soma 1; frequência cardíaca 78 soma 1; pressão sistólica 132 soma 2; hemoglobina 9,5 g/dL cai na faixa de 9,0 a 10,9 e soma 13. Total de 18 pontos, contra um corte de alta segura de 8 ou menos — ela não vai para casa por este escore. A variável que pesa quase tudo é a hemoglobina: 13 dos 18 pontos. Copiando a tabela europeia ao pé da letra, a linha da hemoglobina está rotulada em gramas por decilitro mas com faixas que são gramas por litro, começando em 36; o valor 9,5 não pertence a nenhuma faixa e some do cálculo, deixando 5 pontos. Treze pontos de diferença, e a leitura errada atravessa o corte e autoriza a alta. 2. Hemoglobina de 9,5 g/dL não se produz em duas evacuações de hoje: hemorragia aguda perde plasma e hemácia na mesma proporção, e esse valor indica perda que já vem de antes, provavelmente crônica e oculta. O episódio de hoje é a exteriorização de um problema mais antigo. Ela preenche pelo menos duas condições da lista brasileira de indicações objetivas de colonoscopia — hematoquezia persistente não atribuível a doença orificial e anemia sem causa definida após a investigação inicial —, e essa lista é do capítulo Câncer colorretal, o primeiro da apostila de Coloproctologia, que é dono da indicação, do rastreamento e da conduta oncológica. 3. Mamilo hemorroidário sem sangramento ativo é achado coexistente, não explicação: ele estaria lá igualmente se a fonte fosse um pólipo no cólon transverso. O único achado anuscópico que atribui o episódio à doença orificial é hemorroida com sangramento ativo visível no momento do exame — e mesmo esse não fecha a pergunta do cólon quando há sinal de alarme. A frase de prontuário mantém as duas verdades: mamilo hemorroidário interno visível à anuscopia, sem sangramento ativo no momento do exame; sangue vermelho vivo na ampola retal ao toque; hemoglobina de 9,5 g/dL; investigação do cólon indicada. 4. O exame é a colonoscopia, com preparo, e ela é o primeiro exame diagnóstico no paciente estável pelas opções terapêuticas que oferece. A angiotomografia seria mal indicada porque só é positiva com extravasamento no momento da injeção, e ela não está sangrando agora: o resultado negativo seria altamente provável e viraria falsa exclusão. No pedido, registre que exame de imagem negativo significa ausência de sangramento no momento do exame, e não ausência de lesão. 5. A decisão defensável é internar ou, no mínimo, não dar alta simples: o escore de 18 pontos e a hemoglobina de 9,5 g/dL põem esta paciente fora do grupo de alta segura, e o encaminhamento ambulatorial de rotina para proctologia não garante colonoscopia em tempo. Se o serviço tem via rápida documentada e ela aceita, a alternativa é alta com colonoscopia agendada em prazo curto, com os três sinais de retorno imediato ditos e escritos — sangue vermelho de novo, tontura ou desmaio, palidez com falta de ar. Não transfunda: em anemia de instalação crônica com normovolemia, a transfusão trata o número e não a causa. Prescreva ferro por via oral e investigue a ferropenia, e essa investigação é do capítulo Anemia ferropriva, na apostila de Hematologia e Hemoterapia. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. Hemorragia alta volumosa pode se apresentar como hematoquezia. 2. Não. Sangramento persistente e hemodinamicamente significativo pode justificar o exame mesmo após melhora transitória. 3. Não. Reavaliar fonte alta, intermitência do sangramento e outras causas, mantendo suporte. 4. Não. Em pacientes estabilizados, o exame deve ser preparado e organizado conforme risco, sem urgência rotineira para todos. 5. Não. É apoio à seleção; evolução, comorbidades, sinais de alarme e seguimento também contam. 6. Porque suspensão e reversão tratam o risco hemorrágico imediato, mas o paciente continua com risco tromboembólico, que precisa ser reavaliado após hemostasia.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

O índice de choque deste paciente é 108 dividido por 96, ou seja 1,13 — acima de 1, ele é instável, e a instabilidade define a sequência de exames. A angiotomografia é o exame do instável com sangramento suspeito ativo: não exige preparo, é rápida e localiza extravasamento antes de qualquer tratamento endoscópico ou radiológico. A endoscopia alta fica na sequência porque ele soma fatores de risco para origem alta — anti-inflamatório, anticoagulante e instabilidade desproporcional ao volume exteriorizado —, e entre 8% e 9% dos pacientes que sangram pelo reto têm fonte no trato alto, subindo a até 15% na hematoquezia grave com instabilidade. A colonoscopia exige preparo de quatro a seis litros que um paciente instável não tolera, e colonoscopar sem preparo está formalmente desaconselhado. A cintilografia com hemácias marcadas é desaconselhada neste cenário: localiza o sítio em 30% dos casos contra 53% da angiotomografia, e ainda consome de 60 a 90 minutos adicionais. Reverter a anticoagulação é decisão separada de interromper: interromper é rotina no sangramento maior, reverter fica reservado à instabilidade que persiste depois da reposição, e a reversão nunca é motivo para atrasar a localização da fonte. Atribuir à hemorroida um sangramento com coágulos, lipotimia e taquicardia num homem de 73 anos é o erro que atrasa o diagnóstico de câncer colorretal, presente em cerca de 6% destes pacientes.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Reescreva de memória, sem consultar: as sete variáveis do escore de Oakland com os pesos, o corte de alta segura e o total máximo; os cinco dados que levantam suspeita de origem alta num paciente que sangra por baixo; os três exames de localização com o que cada um exige do paciente; e as três diferenças que separam sangramento diverticular de diverticulite. Depois pegue dois pacientes do seu plantão desta semana e calcule o escore de Oakland de cada um deles, convertendo a hemoglobina do seu laboratório antes de pontuar, e confira se as suas faixas cobrem os valores exatos de 70 anos, 110 bpm e 160 mmHg. Por fim, abra o prontuário do último paciente que sangrou pelo reto no seu plantão e verifique se estão escritos, para cada episódio, o horário, o aspecto e o volume estimado.

Em 30 dias

Pegue o pedido de colonoscopia que você escreveu neste mês e reescreva-o com o que este capítulo pede: indicação nomeada, sinais de alarme presentes ou ausentes, achados do toque retal descritos, hemoglobina com data, e a frase que impede que um exame negativo seja lido como exclusão. Em seguida, escreva a conduta completa de três pacientes de perfis diferentes: o instável com hematoquezia e anti-inflamatório, dizendo a sequência de exames e por quê; o estável de 45 anos com hemoglobina baixa e hemorroida visível, dizendo por que a hemorroida não fecha o caso; e o idoso anticoagulado com sangramento que já cessou, dizendo quando interrompe, quando reverte, de qual capítulo é a dose e em que data a anticoagulação volta. Finalmente, confira num documento oficial que você use de rotina se alguma tabela de escore está publicada em unidade diferente da do seu laboratório.

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Agora atenda

Agora atenda: homem de 66 anos, trazido pela esposa às 4h da manhã com quatro episódios de sangue vermelho vivo pelo reto nas últimas seis horas, os dois últimos com coágulos grandes. Fez colonoscopia com polipectomia há nove dias e voltou a tomar apixabana no dia seguinte ao exame, como orientado na alta. Não tem dor abdominal. Pressão 100 por 62, frequência cardíaca 112, saturação 97% em ar ambiente. O serviço dispõe de monitor, material para dois acessos, laboratório com resultado em quarenta minutos, tomógrafo funcionando, endoscopista de sobreaviso a quarenta minutos e radiologia intervencionista só a partir das 8h. Decida a ordem: o que se mede antes de investigar, se a origem pode ser alta, o que fazer com o anticoagulante, qual exame primeiro e por quê — e diga em voz alta a causa que a história dele torna provável e o que ela muda no plano.

Hemorragia digestiva baixa — Internato | OsceLabs