Cirurgia GeralCirurgia do Aparelho Digestivo

A parede cede onde já cedeu

Hérnias ventrais: incisional, umbilical e epigástrica

Avaliar hérnias da parede pelo defeito, sintomas e evolução, reconhecer urgências e integrar otimização clínica ao encaminhamento.

Fontes deste capítulo

Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Faculdade de Medicina, TelessaúdeRS-UFRGS; Rio Grande do Sul, Secretaria da Saúde. Protocolos de encaminhamento para Cirurgia Geral Adulto. Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS, elaborado em 07 de dezembro de 2020. Publicado ad referendum conforme resolução CIB/RS 764/2014

Santa Catarina. Secretaria de Estado da Saúde. Superintendência de Serviços Especializados e Regulação, Gerência de Regulação Ambulatorial. Protocolo de Acesso e Regulação — Cirurgia Geral Adulto (Atualização). Florianópolis: SES/SC, abril de 2022

São Paulo (Município). Secretaria Municipal da Saúde. Coordenação Municipal de Regulação, Avaliação e Controle, Gerência de Regulação. Protocolo de Acesso: Cirurgia de Hérnia. Documento depositado no repositório da Biblioteca Virtual em Saúde sob o identificador sms-10961-7676

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 1ª edição, versão eletrônica. Licença Creative Commons Atribuição–Não Comercial–Compartilhamento pela mesma licença 4.0 Internacional, com reprodução permitida desde que citada a fonte

Silva FD, Andraus W, Pinheiro RSN, Arantes-Junior RM, Lemes MPL, Ducatti LSS, D'Albuquerque LAC. Hérnias abdominais e inguinais em pacientes cirróticos: qual é a melhor conduta? ABCD Arquivos Brasileiros de Cirurgia Digestiva. 2012;25(1):52-55. Identificador editorial ABCDDV/837. Trabalho do Serviço de Transplante e Cirurgia do Fígado do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo

01

Responda antes de ler

Você acompanha uma paciente de 67 anos no quinto dia após laparotomia mediana de urgência por perfuração de úlcera. A ferida está com hiperemia discreta e drenagem serosa escassa nos pontos. Ela é tabagista, tem doença pulmonar obstrutiva crônica com tosse produtiva diária e perdeu 9 kg nos três meses anteriores à internação; nenhuma albumina foi dosada antes da cirurgia. Considerando o risco de a parede falhar — nesta semana e nos meses seguintes —, qual afirmação é correta?

02

O paciente que você vai ver

Quarta-feira, 7h40, enfermaria de clínica médica de um hospital geral de cento e vinte leitos no interior. A equipe faz a visita às oito e meia, e o interno da manhã é você. O leito 12 é do senhor Arlindo Paraopeba, 58 anos, 71 quilos, ex-pedreiro, cirrose por álcool com abstinência há quatro anos, internado há três dias por ascite que voltou a crescer apesar do diurético em casa. A evolução de ontem tem quatro linhas e termina com uma frase que ninguém explicou: paciente estável, aguarda paracentese de alívio.

A técnica de enfermagem te encontra no posto antes que você chegue ao leito. Ela não usa a palavra hérnia e não fala em urgência: diz que o curativo do umbigo amanheceu encharcado e que já trocou duas vezes desde as cinco. Diz também, porque ela é quem viu, que o lençol está molhado num círculo do tamanho de um prato e que o líquido é claro, quase como água, sem cheiro.

Você abre o abdome do senhor Arlindo. É globoso e tenso, com circulação colateral fina subindo pelos flancos. No lugar do umbigo há uma saliência do tamanho de um limão, arredondada, que ele diz ter há uns seis anos e que sempre entrou quando ele empurrava com a mão. Sobre ela a pele mudou de aspecto: está esticada, brilhante, sem os sulcos que a pele do resto do abdome tem, e no ponto mais alto há uma área acinzentada de mais ou menos um centímetro, de bordas irregulares, com uma solução de continuidade no meio pela qual escorre líquido claro, devagar e sem parar. Não jorra. Escorre.

Você pergunta se dói. Ele diz que não dói nada e que só está incomodado com a roupa molhada. Você tenta reduzir com a palma da mão, com pressão suave, e a saliência não entra — e é aí que ele diz a frase que muda a manhã: que faz umas duas semanas que ela não entra mais, e que não tinha achado importante porque não doía. Temperatura 36,3 °C. Frequência cardíaca 92. Pressão arterial 104 por 64. O abdome está indolor à palpação em todos os quadrantes, sem defesa.

Enquanto você examina, o residente passa no corredor, olha de longe e resolve o assunto em uma frase: já que vaza mesmo, aproveita e punciona ali para tirar logo o líquido e aliviar a pressão. Ele desce para o centro cirúrgico e não volta. Essa frase é o motivo de este capítulo existir, e ela está errada por três razões diferentes que a seção de conduta desmonta uma a uma.

Repare no que a manhã já lhe entregou sem que você pedisse nenhum exame. Um cirrótico com ascite. Uma hérnia umbilical antiga que perdeu a redutibilidade e ninguém registrou. Uma pele que afinou até romper. Um líquido claro saindo continuamente de dentro do peritônio para fora, pelo ponto de menor resistência de toda a parede. E nenhuma dor, que é justamente o que faz o caso parecer menos grave do que é. As três horas seguintes decidem se o senhor Arlindo tem uma complicação tratável ou uma peritonite.

03

Quem adoece disso

Hérnia ventral é o nome coletivo das hérnias que saem pela parede anterior do abdome fora da virilha. Três delas cabem neste capítulo e sustentam três histórias naturais distintas: a incisional, que aparece sobre uma cicatriz cirúrgica; a umbilical do adulto, que aparece no anel por onde passou o cordão; e a epigástrica, que aparece na linha alba acima do umbigo. As três compartilham a mesma parede e quase nada mais: a primeira é uma complicação de cirurgia, a segunda é uma doença de pressão, e a terceira é um defeito pequeno que raramente cresce e frequentemente aperta.

A hérnia incisional é a mais frequente das três e é a única cuja incidência depende de você. A série brasileira mais nova sobre falência de parede depois de laparotomia mediana registra evisceração — a ruptura de todas as camadas com exposição de víscera — entre 0,4% e 3,5% dos casos, quase sempre entre o quarto e o décimo quarto dia de pós-operatório, e acrescenta que a hérnia incisional, mais tardiamente, aparece em até 31% dos pacientes em algumas séries. Repare na distância entre os dois números. A catástrofe visível, a que faz o cirurgião voltar correndo à enfermaria, acontece em menos de quatro por cento; a falência silenciosa, que aparece meses depois quando ninguém está olhando, acontece em até um terço.

Essa série reuniu 252 pacientes reoperados por evisceração num hospital terciário catarinense, e o perfil deles descreve exatamente quem vai desenvolver hérnia incisional depois: 74,2% homens, mediana de idade de 64 anos, hemoglobina mediana de 11,1 g/dL, tabagismo em 32,1%, doença pulmonar obstrutiva crônica em 13,6% e neoplasia em 47,2%. A mediana do índice de massa corporal foi de 24,3 kg/m², o que desmonta a caricatura: a parede que falha não é só a do obeso. E há um número que diz mais sobre o sistema do que sobre os pacientes — a albumina pré-operatória não tinha sido coletada em 80,1% deles. Um marcador de risco de falência de parede que quatro em cada cinco não tinham.

A hérnia umbilical do adulto é outra doença. No cirrótico sem ascite a incidência gira em torno de 3%, praticamente a mesma do adulto não cirrótico — quer dizer, a cirrose por si só quase não produz hérnia umbilical. Com ascite o número salta para a faixa de 20% a 40%, e a probabilidade sobe com o número de episódios: cerca de 70% desses pacientes desenvolvem hérnia umbilical por volta do terceiro episódio de ascite. Não é a doença do fígado que empurra a parede. É o líquido.

Essa mesma população paga caro pela complicação. O estrangulamento, embora relativamente incomum na vigência de ascite, responde por cerca de 10% a 20% das indicações de herniorrafia no cirrótico, e a mortalidade operatória cresce em degraus com a gravidade hepática: uma série clássica registrou 10%, 31% e 76% de mortalidade nas classes A, B e C de Child, e outra registrou 10%, 30% e 82%. Guarde a diferença entre esses números e os do reparo eletivo: numa coorte de 32.033 reparos, os cirróticos operados de forma eletiva tiveram mortalidade de 0,6% contra 0,1% dos não cirróticos — um risco seis vezes maior, e ainda assim inferior a um por cento. A distância entre 0,6% e 76% não é a distância entre dois pacientes. É a distância entre operar antes e operar depois.

A hérnia epigástrica é a terceira, e a que chega ao aluno brasileiro sem número. Nenhum dos documentos nacionais que governam a fila deste capítulo traz prevalência, incidência ou taxa de complicação para ela; os três a nomeiam ao lado da umbilical e da incisional, dão-lhe a mesma porta e o mesmo código, e não lhe dão estatística. Vale dizer isso em vez de emprestar um número estrangeiro e apresentá-lo como se fosse a régua daqui — a única orientação de sociedade brasileira sobre hérnia trata exclusivamente das hérnias inguinocrurais em adultos, e a epigástrica não aparece nela nenhuma vez.

Há ainda um buraco de dado que muda o que você pode saber sobre o próprio serviço, e ele é de classificação, não de literatura. Na classificação internacional de doenças em uso no Brasil, a hérnia incisional não tem código próprio: ela entra em K43, hérnia ventral, junto com a epigástrica e com as demais hérnias ventrais, e a única subdivisão disponível separa por complicação — com obstrução, com gangrena, ou sem nenhuma das duas. O protocolo de acesso do município de São Paulo mostra isso na prática ao atribuir exatamente o mesmo par de códigos, K43 e K43.9, à hérnia epigástrica e à hérnia incisional. A consequência é direta: nenhum sistema de informação alimentado por esse código consegue dizer quantas hérnias incisionais o país produz, e nenhum serviço consegue medir a própria taxa por essa via. Se você quiser saber quantas hérnias incisionais a sua equipe gerou no ano passado, vai ter que contar à mão.

Por fim, quem opera e onde. As três hérnias são de cirurgia geral e a régua brasileira de encaminhamento consultada as coloca todas na mesma porta ambulatorial, com um acréscimo que economiza uma volta ao paciente: na hérnia incisional, o encaminhamento deve ser feito preferencialmente ao hospital de origem, desde que ele tenha recursos compatíveis com a complexidade do caso. Quem operou tem a informação sobre o que foi feito, o que foi fechado com qual fio e o que aconteceu com a ferida — e essa informação vale mais do que o laudo de qualquer exame que você venha a pedir.

04

Por que acontece o que acontece

A parede abdominal não é uma tampa: é um sistema sob tração permanente. Os músculos laterais puxam para fora, e o que impede que a linha média se abra é a aponeurose — a bainha dos retos de cada lado e a linha alba entre elas, uma faixa de tecido fibroso onde as aponeuroses dos dois lados se cruzam. Dentro dessa caixa há uma pressão positiva que sobe a cada tosse, a cada esforço evacuatório, a cada vez que a pessoa se levanta da cama. A parede não falha porque a pressão é alta; falha porque, num ponto, a resistência ficou menor que a pressão que já estava lá.

Três pontos nascem mais fracos que o resto e é por eles que as hérnias deste capítulo saem. O anel umbilical é uma cicatriz fetal fechada por tecido fibroso, sem músculo por cima, e é o único lugar da parede onde a pele adere quase diretamente à fáscia. A linha alba acima do umbigo é mais larga e mais fina do que abaixo dele, e é atravessada por pequenos orifícios por onde passam vasos perfurantes — é por esses orifícios que a gordura pré-peritoneal empurra e forma a hérnia epigástrica. E a incisão cirúrgica cria um quarto ponto que não existia: uma linha de sutura onde a aponeurose foi cortada e reaproximada.

O que acontece nessa linha de sutura é o mecanismo central da hérnia incisional. Quando a aponeurose é reaproximada, o fio segura tudo sozinho enquanto o tecido cicatriza; a resistência da cicatriz vai sendo construída pela deposição e pela maturação do colágeno ao longo de semanas. Qualquer coisa que atrase essa construção ou que aumente a carga sobre ela durante a construção desloca o equilíbrio. Infecção de ferida atrasa e degrada — o exsudato purulento contém enzimas que digerem colágeno, e é por isso que a infecção profunda, a que chega à aponeurose, é o fator de risco mais consistente da lista. Desnutrição e hipoalbuminemia atrasam a síntese. Corticoide atrasa. Tabagismo e doença pulmonar obstrutiva crônica fazem as duas coisas ao mesmo tempo: pioram a microcirculação da ferida e entregam picos repetidos de pressão pela tosse, exatamente na janela em que a cicatriz é mais fraca.

É por esse raciocínio que a evisceração e a hérnia incisional são o mesmo evento em dois tempos, e é por isso que a série brasileira de eviscerações descreve tão bem quem terá hérnia depois. Quando a aponeurose se separa na primeira ou segunda semana e a pele não segura, o resultado é a catástrofe imediata, que é do capítulo Abrir antes que abra sozinha, na apostila de Pré e Pós-operatório. Quando ela se separa e a pele segura, o resultado é uma eventração contida, que ninguém vê. E quando ela se separa devagar, ao longo de meses, o resultado é a hérnia incisional — a mesma falha, com um relógio mais lento e sem plateia.

Uma vez aberto, o defeito cresce sozinho, e a razão é geométrica. A tensão que a pressão interna exerce sobre a borda de um orifício aumenta com o raio desse orifício: quanto maior o buraco, maior a força que puxa as bordas para longe uma da outra, e maior o buraco fica. Essa é a resposta para a pergunta que o paciente sempre faz — se pode esperar. Pode, mas não de graça: esperar não é manter o problema do tamanho em que está, é assistir a ele crescer, e cada centímetro a mais torna o reparo mais difícil e a chance de fechar a aponeurose sem tensão menor.

A geometria do anel também explica o oposto, que é por que a hérnia pequena é a que aperta. A área de um anel circular cresce com o quadrado do diâmetro: um anel de 2 cm tem 3,1 cm² de área e um de 6 cm tem 28,3 cm², nove vezes mais. O conteúdo que entra por um anel largo tem espaço para inchar e para voltar; o que entra por um anel estreito edemacia, deixa de caber e passa a comprimir a própria drenagem venosa contra a borda rígida. Primeiro para o retorno venoso, depois o edema piora, e só no fim para o fluxo arterial. É o motivo de a hérnia epigástrica e a umbilical de anel pequeno estrangularem com um volume de conteúdo que numa hérnia incisional grande não faria nada.

No cirrótico com ascite, três mecanismos somam e um quarto termina o serviço. Somam a fraqueza da fáscia e da musculatura pelo estado nutricional; o alargamento da abertura fascial preexistente pela veia umbilical dilatada, que na hipertensão portal se recanaliza e passa a ocupar espaço no anel; e, principalmente, o aumento da pressão intra-abdominal produzido pela ascite. O quarto é a coluna de líquido: o saco herniário fica cheio de ascite sob pressão contínua, sem os momentos de alívio que existem quando o conteúdo é alça e o paciente deita. A pele que reveste esse saco é esticada dia e noite, perde os anexos, afina, tem a perfusão comprometida pela tensão, escarifica e por fim rompe. Nesse ponto o peritônio passa a se comunicar com o ambiente por um trajeto que a pressão de dentro mantém aberto — e a infecção que se segue tem alta mortalidade.

Duas consequências práticas saem daí e as duas contrariam o impulso. A primeira: puncionar ou drenar através da hérnia é criar de propósito o trajeto que a rotura cria por acidente. O ponto de punção da paracentese é o quadrante inferior esquerdo, e a razão anatômica está no capítulo Paracentese, na apostila de Procedimentos e Vias de Acesso; a razão adicional para não usar o umbigo herniado é que ali a pressão de dentro é maior, a pele é mais fina e não há plano muscular que feche o trajeto por deslizamento. A segunda: enquanto a ascite não estiver controlada, a hérnia volta. A tela não vence uma coluna de líquido que empurra vinte e quatro horas por dia, e é essa a razão física do princípio que a literatura brasileira registra — com ascite persistente, o reparo isolado não se indica, porque a mortalidade de 5% e a morbidade de 30% nessa condição são altas demais para o benefício.

05

Como se apresenta de verdade

Comece pelo contorno, porque metade do que este capítulo faz é dizer onde ele para. Toma para si, inteira, a hérnia da parede ventral do adulto fora da virilha: a incisional, a umbilical e a epigástrica, do reconhecimento à decisão de operar hoje, entrar em fila ou não operar, e o que se faz depois. Toma para si igualmente quatro assuntos que nenhum capítulo deste nível reivindica, e que virariam órfãos se fossem cedidos. O primeiro, e o mais grave, é a hérnia umbilical do cirrótico com ascite — a pele que afina, a ulceração, a rotura e a conduta na hora. O segundo é a hérnia umbilical da criança, no mínimo que evita cirurgia desnecessária. O terceiro é a diástase dos retos abdominais, apenas no que ela precisa ser separada da hérnia epigástrica e no destino que a régua brasileira lhe dá. O quarto é o que responder ao paciente que pergunta se o esforço causou a hérnia e quando pode voltar a trabalhar.

O que sai daqui sai para capítulos que são donos do assunto, e não apenas o citam. Na virilha, tudo pertence a A virilha se examina de pé, nesta mesma apostila, que declara suas por inteiro a hérnia inguinal e a femoral do adulto: o exame da região, a separação entre inguinal e crural, o encarceramento inguinal e a técnica de tela. Cirrose, ascite, peritonite bacteriana espontânea e encefalopatia pertencem a Quatro perguntas, todo dia, na apostila de Gastroenterologia. Sítio de punção, distâncias, contraindicações reais e reposição de albumina pertencem a Paracentese, na apostila de Procedimentos e Vias de Acesso. Uma vez instalada a obstrução intestinal, a sonda, o jejum, a prova terapêutica não operatória e o acompanhamento por imagem pertencem a A pergunta não é se obstruiu, na apostila de Urgência e Emergência Cirúrgica. Na apostila de Pré e Pós-operatório ficam três assuntos: o risco cirúrgico e a avaliação que o estratifica, em A avaliação pré-operatória; a profilaxia de tromboembolismo venoso, em Duas contas que não se somam; e a antibioticoprofilaxia com a classificação de feridas, em Sessenta minutos, e nem um dia a mais. Na apostila de Medicina do Trabalho ficam outros dois: nexo causal, comunicação de acidente e notificação, em Em que o senhor trabalha; e os limites normativos de carga, em A lesão que só vira acidente se alguém escrever.

Duas dessas fronteiras se dividem no meio, e é justo dizê-lo com as mesmas palavras nos dois lados. A primeira é com o capítulo Abrir antes que abra sozinha, na apostila de Pré e Pós-operatório: a infecção de sítio cirúrgico e a deiscência aguda de aponeurose — a eventração contida e a evisceração, com o teste do fundo da ferida e a ida ao centro cirúrgico — são dele; a hérnia incisional, que é a sequela tardia da mesma falha, é deste capítulo. Aquele capítulo já escreve que, depois de uma deiscência, a hérnia incisional a médio prazo passa a ser esperada e não excepcional; é a partir daí que este começa. A segunda é com o capítulo Cirurgia de controle de danos e tríade letal, na apostila de Trauma: o abdome aberto, o fechamento temporário e a decisão de aceitar a hérnia ventral programada como desfecho são dele, e é ele quem manda registrar o defeito residual e conversar com a família antes da alta; o que fica com este capítulo é o destino desse paciente depois da alta: a fila, a otimização e o reparo eletivo do defeito residual.

Uma terceira fronteira precisa ser declarada não como cessão, mas como buraco, porque é o achado de fundo deste capítulo. A única orientação de sociedade brasileira sobre hérnia é a da Sociedade Brasileira de Hérnia, de 2019, e ela trata exclusivamente das hérnias inguinocrurais em adultos: o texto integral não traz nenhuma ocorrência de hérnia epigástrica, nenhuma de hérnia ventral e nenhuma de eventração. A régua brasileira de sociedade sobre hérnia para na virilha. O que governa a parede ventral no Brasil, hoje, são protocolos de regulação de acesso — estaduais e municipais —, e eles foram escritos para organizar fila, não para ensinar conduta. Este capítulo usa o que eles decidem, aponta onde discordam entre si, e assume a conduta clínica que nenhum deles escreve.

1. A hérnia que aparece na cicatriz

A queixa clássica não é dor: é um caroço sobre a cicatriz que aparece quando o paciente fica de pé, tosse ou faz força, e que some ou diminui quando ele deita. Costuma ter começado meses depois da operação, às vezes anos, e costuma ter crescido devagar. Quando dói, a dor é um peso ou um repuxo local, pior no fim do dia e nos dias de esforço, e melhora com o repouso. Muitos pacientes convivem com ela sem contar a ninguém, porque a associaram à cirurgia e concluíram que faz parte.

Três informações da anamnese valem mais que o resto. Que operação foi, por qual incisão e quando — porque a incisão mediana é a que mais produz hérnia, porque uma cirurgia de urgência produz mais que uma eletiva, e porque saber a data permite estimar há quanto tempo o defeito cresce. Como foi a ferida — se abriu, se drenou secreção, se demorou a fechar, se precisou de curativo por semanas: infecção de ferida é o antecedente mais consistente, e o paciente sempre lembra dela. E se já foi operado dessa hérnia antes, porque a recidiva muda a técnica, muda a via e muda a expectativa.

O exame se faz em duas posições e nenhuma delas basta sozinha. Com o paciente em pé, o abaulamento se apresenta e você vê o tamanho real, o contorno e se a pele por cima está normal. Depois, com o paciente deitado, peça que ele levante a cabeça do travesseiro ou tussa: os retos se contraem, a pressão sobe, e o defeito que estava escondido pela gordura salta contra a sua mão. Essa é a manobra que encontra a hérnia incisional pequena num abdome grande, e é o passo que mais se pula. Por fim, reduza o conteúdo com pressão suave e contínua e palpe a borda do anel com a ponta dos dedos, percorrendo a cicatriz de uma extremidade à outra.

O que a palpação da borda responde é o que decide o resto. Primeiro, o diâmetro do defeito, que é o número que os protocolos de encaminhamento pedem por escrito. Segundo, se o defeito é único ou se há vários — a cicatriz mediana falha com frequência em mais de um ponto, e uma parede com três ou quatro orifícios pequenos separados por pontes de aponeurose é um achado diferente de um orifício grande, tanto para o risco de encarceramento quanto para o planejamento cirúrgico. Terceiro, se a borda é firme e definida ou se some no tecido, o que costuma acontecer em quem tem muita gordura subcutânea e é a situação em que a imagem passa a ajudar.

Duas coisas que este exame não faz, e o interno precisa saber quais são. Não estima com precisão o volume do conteúdo herniado nem se ele ainda cabe na cavidade — isso é da imagem, e importa quando a hérnia é grande. E não diz se a alça lá dentro está viável, o que é uma pergunta que só se coloca quando há dor, e nesse momento a decisão já não depende de exame nenhum.

Ilustração de cicatriz abdominal mediana com abaulamento focal e palpação externa por mão enluvada.
A hérnia incisional aparece em uma área previamente operada e pode ficar mais evidente com aumento da pressão abdominal. Examinar extensão, sintomas, redutibilidade e sinais de complicação, usando as manobras apropriadas ao paciente. A aparência da cicatriz e do abaulamento não define sozinha o conteúdo herniado ou a técnica de reparo.

2. O umbigo do adulto, que não é o umbigo da criança

A hérnia umbilical do adulto é adquirida e não se fecha sozinha. Isso a separa da hérnia umbilical do lactente por completo, e é a distinção que evita as duas formas opostas de erro: operar criança que ia fechar, e esperar num adulto que não vai fechar nunca. No adulto, o anel umbilical é rígido e fibroso, a pressão que o alargou continua atuando, e o conteúdo mais comum é gordura pré-peritoneal e epíplon — não alça —, o que explica por que tantas hérnias umbilicais do adulto são irredutíveis há anos sem nunca terem dado sintoma obstrutivo.

Esse detalhe do conteúdo tem uma consequência clínica que se perde quando se descreve a hérnia umbilical como uma alça que atravessa a parede. Uma hérnia cheia de gordura aderida é irredutível e não obstrui: o paciente elimina gases, come, evacua e não tem nada. Uma hérnia cheia de alça que deixa de reduzir é outra história. Perguntar o que muda quando a hérnia deixa de reduzir — se dói, se incha, se ficou quente, se parou de eliminar gases — vale mais do que insistir na manobra de redução.

O que se procura no exame é o anel, e ele se acha com a ponta do indicador dentro da depressão umbilical depois de reduzir o que reduzir. Meça o diâmetro, porque é o que o encaminhamento exige por escrito. Olhe a pele por cima com atenção especial: no umbigo a pele adere quase diretamente à fáscia, sem plano de deslizamento, e é ali que o sofrimento cutâneo aparece primeiro. Pele fina, brilhante, sem sulcos, avermelhada, acinzentada ou ulcerada é achado de gravidade mesmo sem dor — e é o assunto da quinta seção.

Em quem tem ascite, o exame muda de sentido. A hérnia deixa de ser um caroço e passa a ser a válvula de escape de uma cavidade sob pressão: fica tensa, não reduz, transmite a onda líquida e pode transiluminar. Nesse paciente, a redutibilidade não é o dado principal; o dado principal é o estado da pele e a variação de tamanho ao longo dos dias, porque os dois acompanham a pressão de dentro. Um umbigo que cresceu na última semana está dizendo que a ascite cresceu, e essa informação vale para as duas decisões — a da parede e a do fígado.

3. A epigástrica, e a diástase que não é hérnia

A hérnia epigástrica atravessa a linha alba no trecho que vai do xifoide ao umbigo, por um orifício que costuma medir dois centímetros ou menos. O conteúdo típico é gordura pré-peritoneal, muitas vezes sem saco peritoneal nenhum, e o paciente se apresenta de um modo que confunde: uma dor localizada em ponto fixo do epigástrio, que ele mostra com a ponta do dedo, pior ao esforço e ao se levantar, com um nódulo pequeno, firme e doloroso à palpação, que às vezes só é palpável quando ele contrai. Não é raro esse paciente chegar depois de meses de tratamento para dispepsia e de uma endoscopia normal.

Uma hérnia epigástrica pequena com dor desproporcional ao tamanho não é uma curiosidade: é a apresentação esperada. O orifício é estreito e a gordura que passa por ele fica comprimida contra uma borda rígida; a dor vem da compressão, não do volume. Por isso o tamanho não serve para decidir se ela incomoda, e por isso ela pode encarcerar com um conteúdo mínimo. Há ainda um detalhe que muda a conversa com o paciente: a linha alba pode falhar em mais de um ponto, e a lesão que se palpa pode não ser a única.

A diástase dos retos abdominais é outra coisa e precisa ser separada dela na mesma consulta. Na diástase, a linha alba está alargada mas contínua: não há orifício, não há anel, não há conteúdo passando através de nada. Ao exame, quando o paciente deitado levanta a cabeça, aparece uma crista longitudinal fusiforme ao longo da linha média, de vários centímetros de extensão, com bordas musculares palpáveis dos dois lados e sem borda de anel em ponto nenhum. A hérnia epigástrica, ao contrário, é um ponto: um orifício com borda circunscrita que a ponta do dedo delimita.

A distinção não é acadêmica, e ela tem três consequências. A primeira é de risco: diástase não encarcera, porque não há anel para prender nada, e por isso não existe urgência de diástase. A segunda é de destino: a régua brasileira de encaminhamento consultada manda a diástase de retos isolada, com distância interretal maior que 3 cm, sintomática e refratária ao tratamento conservador — que ela define como perda de peso e exercício para a musculatura abdominal —, para a Cirurgia Plástica; e manda a diástase associada a hérnia umbilical ou epigástrica para a Cirurgia Geral. Encaminhar diástase isolada para a cirurgia geral gasta uma vaga e devolve o paciente ao ponto de partida. A terceira é de linguagem, e o capítulo volta a ela nas notas de auditoria: um documento oficial brasileiro define a hérnia epigástrica como resultado do afastamento dos músculos retos abdominais, que é a definição de diástase, e quem estudar por ele vai confundir as duas.

4. Quando a hérnia ventral deixa de ser eletiva

Encarcerada é a hérnia cujo conteúdo entrou e ficou: o anel prendeu, a manobra falha, e o sangue ainda chega ao que está preso lá dentro. O protocolo brasileiro de regulação resolve isso em duas palavras — dolorosa e não redutível —, e é a soma das duas que define, porque um umbigo cheio de gordura, irredutível e indolor há anos, não preenche a definição. Estrangulada é a mesma hérnia depois que a irrigação cedeu, e quem denuncia não é o caroço, e sim o conjunto de sinais em volta dele. São quatro. Dor que virou contínua e é maior do que o tamanho do abaulamento explica. Mudança de cor da pele por cima, para vermelho ou para roxo. Dor que a analgesia adequada não apaga. E repercussão geral: febre, taquicardia que o volume não corrige, hipotensão. O mesmo protocolo descreve o estrangulamento pelos sintomas de obstrução e acrescenta os sistêmicos quando já existe necrose.

Duas coisas mudam em relação à virilha, e conhecê-las evita erro de calibragem. A primeira é que na parede ventral o tamanho do abaulamento não prediz o tamanho do anel: uma hérnia incisional enorme costuma ter um defeito largo, tolerante, que quase nunca estrangula, enquanto uma hérnia epigástrica que mal se vê tem um orifício de um centímetro que estrangula gordura com facilidade. Quem calibra a pressa pelo volume do caroço inverte a prioridade. A segunda é que o conteúdo é diferente: na virilha, o conteúdo típico é alça, e a obstrução intestinal costuma acompanhar o encarceramento; na parede ventral, o conteúdo mais frequente é gordura pré-peritoneal e epíplon, de modo que existe estrangulamento sem parada de eliminação de gases e sem vômito. A ausência de sinais obstrutivos não afasta o sofrimento do conteúdo.

Essa segunda diferença é a que produz o erro mais comum do plantão: chamar de encarceramento simples o que está estrangulando, porque o paciente não vomitou. A gordura encarcerada e isquêmica dói, inflama, produz eritema da pele e febre baixa, e evolui para necrose e abscesso de parede sem passar por obstrução nenhuma. O critério de sofrimento é local e sistêmico, não intestinal.

Há ainda a hérnia de Richter, em que o anel prende apenas um setor da circunferência da alça e deixa passar o resto do trânsito. Sai gás, o abdome não distende, não há vômito, e sobra dor num ponto só — um quadro de aparência modesta enquanto a parede daquela alça necrosa. Ela é clássica de anel pequeno, e anel pequeno é justamente o que caracteriza a epigástrica e boa parte das umbilicais. Onde a hérnia ventral tem obstrução instalada, a partir daí quem manda é o capítulo A pergunta não é se obstruiu; o que este capítulo guarda é o instante anterior a isso: aquele em que a palpação da parede converte uma dor abdominal sem nome numa indicação de operar.

Sobre analgesia, a frase certa tem duas metades e as duas precisam ser ditas. A primeira: analgesiar é obrigação, não atrapalha o exame e não apaga uma indicação cirúrgica que a mão já estabeleceu. A segunda: dor que resiste a opioide em dose adequada não está pedindo mais droga — está informando que o conteúdo sofre. Subir a dose por reflexo, sem reexaminar, converte um aviso em sono.

5. A pele que rompe — a umbilical do cirrótico com ascite

Este é o cenário que mata e que o interno não reconhece, e ele não se anuncia com dor. Numa parede sob a pressão contínua da ascite, o saco herniário fica permanentemente cheio de líquido; a pele que o reveste é esticada dia e noite, perde os anexos, afina, e a sua perfusão cai porque a tensão vence a pressão de enchimento capilar. O caminho é sempre o mesmo e tem quatro etapas visíveis a olho nu: pele brilhante e sem sulcos, depois pele avermelhada ou acinzentada, depois escarificação ou úlcera, e por fim rotura com saída de líquido ascítico.

Aprenda a sequência pela pele, porque é o único sinal que aparece antes. Compare a pele sobre a hérnia com a do resto do abdome do mesmo paciente: se ela perdeu os sulcos, se está lustrosa, se você consegue ver a coloração do líquido por transparência, se há uma área de cor diferente por menor que seja, essa hérnia está a caminho de romper. Nesse estágio a conduta ainda é toda de prevenção e o problema tem solução. Depois da rotura, o problema mudou de nome.

A rotura espontânea da hérnia umbilical no cirrótico com ascite é uma emergência, e o que a torna grave não é a perda de líquido: é que o peritônio passou a se comunicar com o ambiente por um trajeto que a pressão de dentro mantém aberto. Cada hora de comunicação é uma hora de risco de peritonite, e a literatura brasileira registra que essa complicação é comum nessa população e que a peritonite bacteriana que se segue tem alta mortalidade. Some-se a isso a perda contínua de líquido rico em proteína num paciente que já é hipoalbuminêmico e a hipovolemia que pode acompanhar a drenagem descontrolada.

O que se faz na hora está detalhado hora a hora na seção de conduta, mas o essencial cabe em cinco linhas e vale memorizar. Não se recoloca nada para dentro. Não se punciona, não se drena, não se alarga e não se coloca dreno no orifício — nem para aliviar, nem para medir. Cobre-se com compressa estéril úmida em soro fisiológico e curativo oclusivo, para conter e para reduzir a contaminação, sem tentar tamponar sob pressão. Aciona-se o cirurgião agora, não na visita. E baixa-se a pressão de dentro pela via correta, que é a paracentese em sítio adequado, distante da hérnia, feita pela técnica do capítulo Paracentese — porque enquanto a pressão intra-abdominal continuar alta o orifício não fecha.

A frase que resume a fisiopatologia para o paciente e para a equipe é esta: a hérnia volta enquanto a ascite não for controlada. É a razão de o reparo isolado não se indicar com ascite persistente — a literatura brasileira consultada registra mortalidade de 5% e morbidade de 30% nessa condição —, e é a razão de o plano correto ser sempre duplo: controlar o líquido e reparar a parede, nessa ordem quando há tempo, e em paralelo quando não há.

6. A umbilical da criança, e o pouco que evita cirurgia desnecessária

A hérnia umbilical do lactente é uma doença diferente com o mesmo nome, e este capítulo guarda o mínimo sobre ela por falta de outro dono no nível: a apostila de Cirurgia Pediátrica cobre a invaginação intestinal do lactente, a estenose hipertrófica do piloro e a obstrução neonatal, e nenhum desses três capítulos é dono do umbigo. Mandar o leitor para lá seria mandá-lo a uma porta que não abre.

O essencial é este. A hérnia umbilical do lactente decorre do fechamento incompleto do anel umbilical, é muito comum, e o próprio protocolo de acesso brasileiro consultado registra o que a define: nos bebês ela normalmente desaparece de forma espontânea ao longo dos primeiros anos de vida. O anel fecha por conta própria enquanto a criança cresce, e a hérnia acompanha o fechamento. Encarceramento é raro nessa idade, ao contrário do que acontece na hérnia inguinal do lactente, que é o oposto — nela o encarceramento é comum e precoce, e essa é a distinção que evita tratar uma como a outra.

O que isso muda na consulta é o que você faz com a mãe. Uma hérnia umbilical em criança pequena, redutível, indolor, sem alteração da pele, não é indicação cirúrgica e não é motivo de encaminhamento urgente; o que se faz é medir o anel, registrar, tranquilizar e reavaliar. O que não se faz, e é a razão de esta seção existir, é enfaixar, colar moeda, botão ou esparadrapo sobre o umbigo: não acelera o fechamento e produz lesão de pele numa área que adere direto à fáscia. E o que se ensina à família é a lista curta que traz a criança de volta correndo: hérnia que ficou dura e não entra mais, dor, vômito, choro inconsolável, mudança de cor da pele por cima.

A fronteira, dita com todas as letras para o dia em que a apostila de Cirurgia Pediátrica ganhar o capítulo que hoje não existe: a indicação cirúrgica na criança, o tamanho de anel e a idade a partir da qual esperar deixa de fazer sentido, e a técnica do reparo pediátrico são dela. O que fica aqui é o suficiente para não operar quem ia fechar sozinho e para não mandar para casa quem está encarcerando.

06

Como fechar o diagnóstico

A hérnia ventral é um diagnóstico de mão. Na maioria esmagadora dos casos o exame físico o fecha, e o papel dos exames complementares não é confirmar o que a mão já disse: é responder a três perguntas específicas que a mão não responde — se há hérnia quando não se palpa nada, quanto conteúdo saiu da cavidade quando a hérnia é grande, e se o paciente aguenta a operação. Pedir imagem para confirmar uma hérnia palpável atrasa o encaminhamento e não muda nada.

1. O que o exame já fechou, e o que ele deixou em aberto

Ao fim do exame bem feito — em pé, deitado, com a cabeça levantada, com redução tentada e borda de anel percorrida —, quatro perguntas já estão respondidas e nenhuma delas precisa de exame. Existe hérnia? Onde é o anel e qual o seu diâmetro? Ela reduz? Dói, e a pele por cima está normal? Essas quatro respostas bastam para separar as três condutas possíveis: emergência hoje, fila eletiva, ou observação com combinado escrito.

Duas perguntas ficam em aberto e é sobre elas que se pede exame. A primeira é anatômica: quantos defeitos há, e qual o tamanho real do maior, num abdome em que a mão não delimita as bordas. A segunda é volumétrica: em uma hérnia grande, quanto do conteúdo abdominal está fora da cavidade — a pergunta da perda de domicílio, que é da quinta seção deste bloco e que muda o planejamento, não o diagnóstico.

Uma terceira pergunta parece de exame e não é: se a alça encarcerada está viável. Ela não se responde por imagem com segurança suficiente para autorizar espera, e o momento em que ela é feita é exatamente o momento em que a decisão de operar já foi tomada por outros critérios. Pedir tomografia para decidir se opera uma hérnia dolorosa, irredutível e com sinal de sofrimento é trocar uma decisão clínica correta por uma espera com nome técnico.

2. Quando a imagem entra, e quando ela só atrasa

A ultrassonografia da parede abdominal é o primeiro exame quando a suspeita existe e a palpação não confirma: dor localizada em ponto fixo do epigástrio sem nódulo palpável, dor sobre uma cicatriz sem abaulamento visível, ou abdome com panículo espesso em que a borda do anel não se delimita. Ela é barata, disponível, e tem a vantagem de ser dinâmica: o examinador pede a manobra de esforço e vê o conteúdo se mover pelo orifício em tempo real, o que é justamente o que a mão não conseguiu fazer. Peça no pedido, com essas palavras, que o exame seja feito em repouso e sob manobra de esforço.

A tomografia de abdome entra em três situações e não em outras. Na hérnia grande em que se vai planejar a cirurgia, porque é ela que mede o defeito nos dois eixos e estima o volume do conteúdo herniado em relação ao volume da cavidade. Na parede multioperada em que se suspeita de defeitos múltiplos, para mapear todos antes da operação em vez de descobri-los na mesa. E na hérnia complicada em que o quadro clínico é ambíguo por outro motivo — abdome agudo sem foco definido, paciente que não colabora, obeso com dor difusa —, situação em que a imagem não está confirmando a hérnia e sim procurando o que mais existe.

Fora dessas três, imagem em hérnia ventral custa tempo. E há um custo que não aparece na fatura: o encaminhamento que espera resultado de exame. A régua brasileira consultada é explícita ao dizer que o laudo de imagem deve ser anexado ou descrito quando realizado — quer dizer, o exame não é pré-requisito do encaminhamento, é informação que se anexa se existir. Segurar um encaminhamento à espera de uma ultrassonografia que vai confirmar o que a sua mão já palpou é uma demora que a norma não pede.

Uma nota sobre a hérnia do cirrótico. Nele a ultrassonografia tem uma indicação a mais, e é outra: quantificar a ascite e orientar o sítio de punção. Não se pede imagem para diagnosticar a hérnia umbilical de um paciente com abdome tenso e umbigo protruso — isso se vê da porta do quarto.

3. O que se mede e o que se escreve — o encaminhamento que não volta

As réguas brasileiras de encaminhamento consultadas pedem, todas, a mesma coisa em linguagens diferentes, e a lista é curta o bastante para caber num documento de referência de dez linhas. O protocolo do município de São Paulo pede exame clínico com descrição do tipo de hérnia, tamanho do anel herniário e diâmetro do saco herniário quando visível, e informação sobre paciente virgem de tratamento ou com hérnia recidivada. O protocolo do Rio Grande do Sul pede quadro clínico com sinais, sintomas, achados de exame, história de complicações, ocorrências de recidiva e comorbidades; laudo de imagem com data, se realizado; e cirurgias prévias com tipo, data e serviço que as realizou. O de Santa Catarina pede que se considerem idade, complicações, doenças associadas e medicações em uso, e que se descreva laudo de exame com data.

Junte as três e escreva sempre estes oito itens, nesta ordem, porque é a ordem em que quem regula lê: onde é a hérnia e sobre qual cicatriz; diâmetro do anel em centímetros, medido; se reduz; sintomas e o que eles impedem; se já houve episódio de dor com irredutibilidade que passou sozinho; cirurgia prévia com tipo, data e serviço; recidiva, se houver; e comorbidades com o estado atual de cada uma. Os oito cabem em oito linhas e transformam um encaminhamento devolvido num encaminhamento regulado.

Dois desses itens mudam a posição do paciente na fila e por isso não se escrevem por educação. O primeiro é o episódio de dor com irredutibilidade que cedeu sozinho: isso é encarceramento transitório, e a régua do Rio Grande do Sul dá preferência de encaminhamento a quem tem complicação prévia. O segundo é a cirurgia prévia, com o nome do serviço: o mesmo protocolo determina que a hérnia incisional seja encaminhada preferencialmente ao hospital de origem, quando ele tiver recursos compatíveis com a complexidade do caso — sem essa linha, o paciente é regulado para outro serviço, que vai reoperar uma parede cuja história não conhece.

Escreva também, em linha própria, a comorbidade que está descompensada e o que já foi iniciado para ela. A razão está na régua e é contraintuitiva: obesidade com índice de massa corporal igual ou maior que 30, diabetes ou hipertensão descompensados e tabagismo ativo são contraindicação relativa ao procedimento, e o protocolo determina que o manejo na atenção primária ocorra concomitantemente ao encaminhamento, e não antes dele. Quem segura o encaminhamento para otimizar primeiro faz o paciente esperar duas filas em série.

4. O laboratório que muda decisão

Em hérnia ventral eletiva de paciente hígido, exame de rotina não é necessário e a avaliação pré-operatória tem dono próprio — o capítulo A avaliação pré-operatória, na apostila de Pré e Pós-operatório, e é ele quem diz o que pedir e por quê. O que este capítulo acrescenta são os dois exames que mudam a decisão da parede, e não a da anestesia.

O primeiro é a albumina sérica. Ela não é rastreio: é o marcador do substrato com que a cicatriz vai ser construída, e é o exame cuja ausência a série brasileira de eviscerações torna gritante — a albumina pré-operatória não tinha sido coletada em 80,1% dos 252 pacientes que precisaram de ressutura de parede. Numa cirurgia abdominal eletiva de paciente com neoplasia, perda de peso, doença hepática ou doença inflamatória intestinal, dosar albumina antes muda três coisas: o tempo que se dá à otimização nutricional, a conversa sobre risco de falência da parede, e a decisão do cirurgião sobre tela profilática.

O segundo é o conjunto que estratifica o cirrótico, e ele decide se o reparo eletivo é uma boa ideia neste semestre: bilirrubina, razão normalizada internacional, albumina, creatinina e sódio, mais a avaliação clínica de ascite e de encefalopatia. A leitura desses números em classe de Child e em escore de doença hepática terminal é do capítulo Quatro perguntas, todo dia, na apostila de Gastroenterologia, e não se repete aqui. O que este capítulo afirma é a consequência para a parede, e ela é dura: a mortalidade operatória do cirrótico sobe em degraus com a classe — 10%, 31% e 76% em uma série brasileira citada, e 10%, 30% e 82% em outra —, enquanto o reparo eletivo em população selecionada mostrou mortalidade de 0,6% contra 0,1% de não cirróticos numa coorte de 32.033 reparos.

Não peça coagulograma para decidir se pode puncionar a ascite. Essa é uma contraindicação inventada, e desmontá-la é do capítulo Paracentese, na apostila de Procedimentos e Vias de Acesso, que traz os números. Aqui basta o que decorre para a parede: no cirrótico com hérnia rota, a paracentese em sítio adequado é parte do tratamento e o coagulograma alargado não a impede.

5. A hérnia que não cabe mais de volta

Quando a hérnia é grande e antiga, uma parte do conteúdo abdominal passa a viver fora da cavidade, e a cavidade se adapta ao volume menor. Esse fenômeno tem nome — perda de domicílio — e importa por uma razão fisiológica: recolocar de uma vez, dentro de uma cavidade que encolheu, um volume que ela não comporta mais eleva a pressão intra-abdominal, comprime o diafragma e a veia cava, e pode produzir no pós-operatório imediato o mesmo quadro de hipertensão intra-abdominal que se vê depois de uma laparotomia por trauma. Esse quadro, a sua medida e o seu manejo são do capítulo Cirurgia de controle de danos e tríade letal, na apostila de Trauma.

O que o interno precisa fazer com isso é simples e vem antes de qualquer conta. Reconhecer o cenário — hérnia volumosa, de anos, com um abdome que ficou pequeno —, escrever no encaminhamento que se trata de hérnia volumosa, e não prometer ao paciente que a cirurgia é pequena. Uma hérnia dessas costuma exigir planejamento por imagem, técnicas de ampliação da parede e, às vezes, preparo prévio, e a informação de que o reparo será complexo precisa chegar ao paciente por você e não na véspera.

Dois grupos chegam a esse ponto com mais frequência e valem menção. O primeiro é o do paciente que teve o abdome deixado aberto depois de uma laparotomia por trauma ou por sepse abdominal, e que saiu do hospital com hérnia ventral programada; o defeito residual e a decisão de aceitá-lo são do capítulo de controle de danos, e o que este capítulo toma para si começa depois da alta: a fila, a otimização e o reparo. O segundo é o do paciente com hérnia incisional que teve reparo prévio e recidivou, para quem a próxima operação é sempre mais difícil que a anterior. Nos dois casos a frase honesta é a mesma, e ela está na seção de conversa: existe uma operação para isso, ela não é pequena, e a preparação começa hoje.

07

As três decisões, as três réguas que não combinam, e as contas que os documentos não fecharam

O percurso comum começa pela hérnia umbilical, epigástrica ou incisional. A rotura de hérnia no cirrótico é uma complicação específica e grave, estudada depois dessa avaliação básica.

  1. 1Caracterizar localização, cirurgia prévia, crescimento, redutibilidade, dor, episódios agudos, pele e impacto nas atividades.
  2. 2Examinar em posição segura, em pé e deitado quando apropriado, descrevendo defeito e extensão; diferenciar hérnia de diástase e outras massas.
  3. 3Irredutibilidade crônica e estável difere de mudança aguda dolorosa, mas não significa impossibilidade de complicação. Sintomas novos exigem reavaliação.
  4. 4Dor contínua importante, obstrução, alteração da pele, peritonite ou deterioração exigem avaliação cirúrgica urgente; não forçar redução.
  5. 5Sem urgência, discutir reparo ou observação conforme sintomas, risco e preferência, com sinais de retorno e acompanhamento.
  6. 6Otimizar tabagismo, diabetes, nutrição, peso e comorbidades em paralelo ao encaminhamento; evitar adiamento indefinido sem reavaliar benefício e progressão.
  7. 7Usar imagem quando o exame é inconclusivo ou para planejamento de defeitos complexos; não é requisito para todo diagnóstico clínico evidente.
  8. 8No cirrótico, integrar ascite e risco hepático. Ulceração ou rotura com saída de líquido exige proteção local e avaliação urgente; controle da ascite não deve atrasar tratamento de complicação.

A trava: hérnia com sinal de sofrimento não se reduz

Diante de hérnia ventral irredutível com qualquer um destes achados — dor contínua e desproporcional, dor à palpação que não cede com analgesia adequada, pele eritematosa ou arroxeada sobre o abaulamento, febre, taquicardia que não corrige com volume, hipotensão —, não se tenta reduzir, não sob analgesia, não sob sedação, não com o paciente em Trendelenburg, não com gelo, e não uma última vez. A razão é que a manobra bem-sucedida devolve à cavidade uma alça de viabilidade duvidosa, apaga o único sinal externo que existia e troca um diagnóstico visível por uma catástrofe invisível: a perfuração acontece dentro do abdome, horas depois, sem caroço para examinar. Isso vale mesmo quando a redução parece fácil, mesmo quando o paciente pede, e mesmo quando o anel é pequeno e a hérnia é da parede ventral, onde a ausência de vômito e de parada de eliminação de gases engana — na parede ventral o conteúdo mais comum é gordura, e gordura estrangula sem obstruir. Prescreva analgesia, mantenha dieta zero, reponha volume e acione a cirurgia.

1. As três hérnias ventrais lado a lado — por que elas não se comportam do mesmo jeito

IncisionalUmbilical do adultoEpigástrica
Onde saiSobre uma cicatriz cirúrgica, em qualquer parte do abdome; a mediana é a que mais produzPelo anel umbilical, onde a pele adere quase direto à fáscia e não há músculo por cimaPela linha alba acima do umbigo, por orifício de vaso perfurante
Anel típicoLargo e variável; pode haver vários defeitos na mesma cicatrizEstreito e fibroso, com frequência de 1 a 3 cmMuito estreito, com frequência de 1 a 2 cm ou menos
Conteúdo mais comumEpíplon e alça, conforme o tamanho do defeitoGordura pré-peritoneal e epíplon; alça quando o defeito é maiorGordura pré-peritoneal, muitas vezes sem saco peritoneal
História naturalCresce com o tempo, porque a tensão sobre a borda aumenta com o raio do defeitoNão se fecha sozinha no adulto; cresce com a pressão intra-abdominal, sobretudo com asciteCresce pouco; incomoda cedo e desproporcionalmente ao tamanho
Risco que dominaAumento progressivo, recidiva depois do reparo e perda de domicílio quando é volumosaSofrimento da pele e rotura quando há ascite; encarceramento quando o anel é estreitoEncarceramento e estrangulamento de gordura com volume mínimo, sem sinal obstrutivo
Onde o interno erraNão examina com a cabeça levantada e não acha o defeito num abdome grandeChama de estável a hérnia que perdeu a redutibilidade, e não olha a pele por cimaTrata como dispepsia; e confunde com diástase de retos, que não tem anel

2. A mesma hérnia diante de três réguas brasileiras de acesso

SituaçãoRio Grande do Sul, 07/12/2020Santa Catarina, abril de 2022São Paulo (município), sem data impressa
Hérnia encarcerada ou estranguladaEncaminhamento à urgência ou emergência; encarcerada definida como dolorosa e não redutívelEncaminhamento imediato a unidade de pronto atendimento ou emergência hospitalarNão trata da urgência; entre as subcategorias, só lista as das formas sem obstrução nem gangrena
Hérnia umbilical assintomáticaPode-se considerar observação clínica, sobretudo no idoso com risco cirúrgico ou que não deseja operarEncaminha; entra na fila na faixa azul, que é a de menor prioridadeEncaminha; nenhum qualificador de sintoma e nenhuma faixa de prioridade
Hérnia incisionalEncaminha, sem qualificador na lista; e preferencialmente ao hospital de origemEncaminha, nomeada como hérnia de parede abdominal ou incisionalEncaminha, com o mesmo par de códigos da hérnia epigástrica
Hérnia epigástricaEncaminha, sem qualificadorEncaminha, sem qualificadorEncaminha; e a define como afastamento dos músculos retos, que é a definição de diástase
Diástase de retos isoladaCirurgia Plástica, se maior que 3 cm, sintomática e refratária a perda de peso e exercícioNão consta da lista de motivos de encaminhamentoNão consta
Comorbidade descompensadaContraindicação relativa; manejo na atenção primária concomitante ao encaminhamentoManda considerar doenças associadas e medicações em uso no conteúdo descritivoCondicionante de acesso: pacientes com comorbidades controladas
Prioridade possível para hérnia eletivaPreferência a quem tem hérnia femoral e a quem tem complicação prévia; o alcance da frase é ambíguoNo máximo faixa verde; as faixas vermelha e amarela do protocolo de hérnias estão vaziasNenhuma classificação de risco no documento
GestanteReparo eletivo contraindicado; acompanhar e encaminhar após a resolução da gestaçãoNão mencionaNão menciona; lista ginecologista e obstetra entre os profissionais solicitantes

3. Conversão das drogas deste capítulo num adulto de 71 kg, recalculada contra a apresentação real

Apresentação e procedênciaO que se escreveO que a enfermagem contaConferência
Dipirona monoidratada solução gotas 500 mg/mL, frasco de 20 mL (bula do profissional, versão de outubro de 2018); a apresentação em gotas corresponde à solução oral de 500 mg/mL da Rename 2024Dipirona 1 g por via oral de 6 em 6 horas2 mL por dose, e a própria bula declara que 1 mL contém 20 gotas — logo 40 gotas por dose1.000 ÷ 500 = 2 mL; 2 × 20 = 40 gotas; quatro doses somam 8 mL, que são 40% de um frasco de 20 mL por dia
Dipirona 500 mg/mL solução injetável, componente básico da Rename 2024Dipirona 1 g por via intravenosa2 mL da solução; quantas ampolas isso representa depende do volume da ampola do fabricante, impresso na embalagem1.000 ÷ 500 = 2 mL. A conversão em ampolas não é feita aqui porque nenhuma bula da apresentação injetável foi aberta — leia o volume no rótulo antes de aspirar
Furosemida comprimido de 40 mg, cartucho com 20 comprimidos (bulas do profissional de dois fabricantes, versões de março de 2022 e posterior); componente básico da Rename 2024Furosemida 40 mg por via oral pela manhã1 comprimido40 ÷ 40 = 1 comprimido; um cartucho de 20 cobre 20 dias nessa dose
Espironolactona comprimido de 25 mg e de 100 mg, componente básico da Rename 2024Espironolactona 100 mg por via oral pela manhã1 comprimido de 100 mg, ou 4 comprimidos de 25 mg100 ÷ 100 = 1; 100 ÷ 25 = 4. As duas apresentações constam do elenco, e a de 25 mg é a que permite ajuste fino
O par espironolactona e furosemida na proporção de 100 para 40, nos quatro degraus habituais de escalonamento100/40, depois 200/80, 300/120 e 400/160 mg por dia1+1, 2+2, 3+3 e 4+4 comprimidos, respectivamente — oito unidades por dia no degrau mais altoA razão 100 ÷ 40 dá 2,5 em todos os quatro degraus, o que é o que permite escalonar contando comprimidos. O teto de dose e a indicação de escalonar são do capítulo Quatro perguntas, todo dia; aqui só a aritmética
Nicotina adesivo transdérmico de 21, 14 e 7 mg e goma de mascar ou pastilha de 2 mg, componente estratégico da Rename 2024Adesivo de 21 mg ao dia, com redução programada até a cirurgia1 adesivo por dia; a goma e a pastilha de 2 mg são a apresentação de resgateA queda de 21 para 14 e de 14 para 7 é de 7 mg em cada degrau; 21 mg equivalem, em miligramas de nicotina, a 10,5 gomas de 2 mg. A Rename lista apresentações e componente, não esquema de retirada — o esquema é do serviço

Hérnias comuns da parede: o que muda a decisão

AchadoImplicação prática
Umbilical ou epigástricaDescrever anel, conteúdo provável, sintomas e redutibilidade; diferenciar diástase.
IncisionalRelacionar ao acesso anterior, infecção de ferida, extensão do defeito e limitação funcional.
Redutível e pouco sintomáticaDiscutir observação ou reparo, riscos e preferência, com sinais de retorno.
Dor nova e irredutibilidadeAvaliação urgente para obstrução ou isquemia; não forçar redução.
Pele ulcerada, escura ou roturaComplicação que exige avaliação imediata, especialmente na ascite.
Defeito complexo ou recidivaPlanejamento especializado; imagem e otimização conforme necessidades.

O preâmbulo do protocolo gaúcho permite leituras diferentes sobre quais hérnias de parede recebem preferência por complicação prévia. O encaminhamento deve eliminar a ambiguidade clínica: descreva episódios de dor, irredutibilidade, duração e resolução espontânea, além do exame atual. A regulação precisa desses dados para aplicar o critério local de prioridade.

O protocolo admite observação de hérnia umbilical ou incisional pouco sintomática, mas sua lista de encaminhamento não usa os mesmos qualificadores para todas. Avaliação especializada não obriga a operar. Registre tipo, sintomas, risco cirúrgico e preferência e siga o fluxo de acesso, mantendo acompanhamento enquanto a decisão é construída.

A tabela catarinense citada distribui hérnias eletivas entre categorias verde e azul. Essa classificação de fila não se aplica como limite à gravidade clínica: suspeita de encarceramento complicado, isquemia, rotura ou outra urgência exige o destino correspondente. Descreva os achados que justificam mudança de fluxo.

Há diferenças entre a tabela detalhada e o resumo de prioridades do documento catarinense. Ao encaminhar, use o critério aplicável ao problema e forneça dados clínicos objetivos. Comparar a hérnia com outra condição da fila não substitui a justificativa individual nem define seu risco de complicação.

Os protocolos estaduais citados diferem no acesso à avaliação da hérnia umbilical assintomática. Siga o fluxo do local e mantenha a discussão clínica separada: observação depende de sintomas, risco, preferência e seguimento. Encaminhar não equivale a indicar cirurgia, e observar exige retorno planejado.

Otimização de comorbidades e encaminhamento podem ocorrer em paralelo, conforme o fluxo descrito. Informe obesidade, tabagismo, controle glicêmico e pressórico e as medidas em andamento. Evite deixar sem avaliação uma hérnia que progride enquanto se busca uma condição clínica ideal; a equipe define o momento seguro do reparo.

Diástase e hérnia epigástrica são distintas. Na diástase, a linha alba está alargada, porém contínua; na hérnia, há defeito localizado por onde pode protruir conteúdo. Elas podem coexistir e ter encaminhamentos diferentes. Descreva o defeito e sua relação com o abaulamento, sem chamar todo afastamento dos retos de hérnia.

A hérnia umbilical atravessa um defeito aponeurótico do anel, não uma camada muscular do umbigo. Seu conteúdo pode ser gordura ou epíplon, além de alça intestinal. Por isso, ausência de obstrução não demonstra redutibilidade. Avalie dor, conteúdo provável, pele e evolução do abaulamento.

Os códigos citados podem agrupar hérnias ventrais de topografias diferentes. Uma análise baseada apenas em K43 não identifica necessariamente todas as incisionais separadamente. Para medir resultados do serviço, associe código à descrição anatômica e ao antecedente de incisão, em vez de inferir a origem pelo agrupamento administrativo.

Na coorte de 50 cirróticos, dois recortes da morbidade somam 17 eventos, enquanto o recorte por Child soma 16. Os denominadores por Child totalizam a amostra, mas a contagem de eventos diverge. Essa limitação deve acompanhar a interpretação dos subgrupos; não é possível resolver o caso faltante apenas pela tabela.

A mesma coorte apresenta denominadores por Child diferentes no texto e na tabela, que soma 44 em vez de 50 pacientes. Isso altera fortemente percentuais de subgrupos pequenos. Evite apresentar uma letalidade precisa por Child a partir dessa inconsistência. A decisão no cirrótico deve integrar reserva hepática, ascite, urgência e possibilidade de otimização.

A série de eviscerações apresenta contagens e percentuais de ascite que não usam um denominador claramente reproduzível. Os oito casos informados precisam ser lidos com a disponibilidade de dados e o total da análise. Pequenas diferenças de percentual não sustentam comparação direta com outra casuística sem esclarecer essas bases.

Para preparar o paciente, confirme acesso às medidas indicadas para ascite, analgesia e cessação do tabagismo. A Rename citada não substitui a padronização hospitalar, especialmente para albumina e profilaxia. Na conversão de gotas, use a apresentação efetiva: a bula examinada declara 20 gotas por mL de dipirona, relação que não deve ser transferida automaticamente a outro produto.

Os protocolos de acesso têm limitações diferentes de identificação: o municipal não informa claramente versão ou revisão, enquanto o gaúcho apresenta data e resolução vinculada. Metadados do arquivo não comprovam início de vigência, e ausência de substituto não confirma atualização clínica. Use essas fontes para o contexto de acesso descrito e registre a referência empregada.

08

A conduta, hora a hora

O que segue é a manhã do senhor Arlindo Paraopeba, marco a marco, do momento em que a técnica de enfermagem avisa do curativo encharcado até o fim da tarde. Cada decisão aparece com o nome e com a origem ao lado: o que sai de documento brasileiro, o que sai de fisiopatologia, o que pertence ao capítulo vizinho e o que fica aqui por falta de dono. Duas decisões da manhã não têm régua brasileira nenhuma, e estão marcadas como tais aqui e no bloco de divergências.

Vale dizer de saída o que já está decidido antes do primeiro marco, porque foi decidido pelo exame e não vai mudar com nenhum resultado. Este é um cirrótico com ascite e uma hérnia umbilical antiga que perdeu a redutibilidade há duas semanas, cuja pele afinou até romper e que agora verte líquido ascítico de forma contínua. O peritônio dele está em comunicação com o ambiente. Não há dor, não há febre e não há defesa — e nenhuma dessas três ausências torna o quadro menos urgente, porque a urgência aqui não é de sofrimento de alça: é de contaminação de uma cavidade que não tem defesa.

Para o caso frequente de Bartolina, sem urgência atual, documentar a hérnia incisional, dor e perda de função e encaminhar para avaliação do reparo. O episódio prévio de irredutibilidade dolorosa aumenta a atenção e precisa constar. Iniciar cessação do tabagismo e controle do diabetes em paralelo, com metas e reavaliação; não exigir emagrecimento ou HbA1c perfeitos antes de permitir avaliação cirúrgica. A seguir, o caso de rotura no cirrótico aprofunda uma complicação distinta e não substitui esse percurso ambulatorial.

  1. 7h40 a 7h55 — o que se decide antes de pedir qualquer coisa, e as três razões pelas quais a frase do corredor está errada

    O residente disse: já que vaza mesmo, aproveita e punciona ali para tirar logo o líquido e aliviar a pressão. A frase é sedutora porque parece resolver dois problemas de uma vez, e está errada por três razões independentes. Primeira, anatômica: o sítio da paracentese é o quadrante inferior esquerdo, e as distâncias que o definem existem para escapar da artéria epigástrica inferior, que corre dentro da bainha do músculo reto — as medidas e a razão de cada uma estão no capítulo Paracentese, na apostila de Procedimentos e Vias de Acesso, e não se reproduzem aqui. Segunda, mecânica: no umbigo herniado a pele adere quase direto à fáscia, não há plano muscular que feche o trajeto por deslizamento, e a pressão de dentro é maior do que em qualquer outro ponto da parede — um trajeto criado ali não fecha, e vira fístula peritoneocutânea. Terceira, e é a que decide: o orifício já existe. Puncionar ao lado de uma rotura não reduz contaminação, acrescenta uma segunda porta. Escreva no prontuário que a punção pelo sítio herniário está contraindicada e por quê, porque conduta negativa que não está escrita passa por esquecimento, e alguém a executa no plantão da noite.

    Prescrição
    • Dieta zero por via oral até avaliação cirúrgica
    • Acesso venoso periférico calibroso, com o senhor Arlindo em decúbito dorsal
    • Registro em evolução: punção ou drenagem pelo sítio herniário contraindicada — sítio da paracentese é o quadrante inferior esquerdo
    • Registro em evolução: hérnia umbilical irredutível há duas semanas, com rotura cutânea e saída contínua de líquido ascítico claro, sem dor e sem sinal sistêmico
  2. 7h55 a 8h10 — o curativo, que é tratamento e não estética

    O curativo que se faz aqui tem duas funções e nenhuma delas é secar o paciente. A primeira é conter: reduzir a contaminação da porta aberta com barreira estéril, trocada sempre que saturar, com o número de trocas registrado — porque o número de trocas por turno é a medida indireta do débito e vai orientar a reposição de volume. A segunda é proteger a pele que sobrou: a área acinzentada em volta do orifício é pele com perfusão comprometida, e ela vai necrosar se for esfregada, apertada ou coberta com gaze seca que adere e arranca ao ser retirada. Use compressa estéril umedecida em soro fisiológico, curativo oclusivo por cima, e fita fora da área lesada. O que não se faz: tamponar sob pressão para estancar, porque o líquido é produzido continuamente e a pressão de tamponamento sobre uma pele isquêmica amplia a necrose; passar antisséptico dentro do orifício; introduzir gaze, dreno, sonda ou cateter no trajeto; e tentar recolocar para dentro qualquer coisa que esteja exteriorizada.

    Prescrição
    • Compressa estéril umedecida em soro fisiológico 0,9% sobre a lesão umbilical, com curativo oclusivo por cima
    • Trocar sempre que saturar; anotar o número de trocas e o aspecto do líquido a cada turno
    • Não tamponar sob pressão, não introduzir gaze, dreno ou cateter no orifício, não aplicar antisséptico dentro dele
    • Proteção da pele perilesional; fita adesiva fora da área acinzentada
  3. 8h10 — o telefonema para a cirurgia, que cabe em quarenta segundos

    Este é o marco em que o interno mais perde tempo, porque começa contando a história desde a internação. O cirurgião de sobreaviso precisa de cinco dados e de um pedido, nessa ordem. Quem é: homem de 58 anos, 71 quilos, cirrótico por álcool, internado há três dias por ascite. O que aconteceu: hérnia umbilical antiga que perdeu a redutibilidade há duas semanas, com rotura espontânea da pele e saída contínua de líquido ascítico desde a madrugada. Como ele está: sem dor, sem febre, sem defesa, frequência 92, pressão 104 por 64. O que já foi feito: dieta zero, acesso, curativo oclusivo úmido, punção pelo sítio herniário contraindicada e registrada. O que se pede: avaliação agora, não na visita, porque a porta está aberta e o relógio é de contaminação. Se a resposta for para observar, peça que a orientação seja registrada, com nome e horário — não como cobrança, e sim porque o próximo plantonista precisa saber que a decisão foi tomada e por quem.

    Prescrição
    • Contato com o cirurgião de sobreaviso às 8h10, com os cinco dados e o pedido de avaliação imediata
    • Registro em evolução do horário do contato, do nome de quem atendeu e da orientação recebida
  4. 8h30 — a paracentese que estava atrasada, e que agora decide o resto

    A evolução de ontem dizia que o senhor Arlindo aguardava paracentese de alívio. Repare no que isso esconde: ele está internado há três dias e não há registro de paracentese diagnóstica. Todo cirrótico com ascite que interna tem indicação de paracentese diagnóstica, independentemente de febre, dor ou leucocitose — a indicação e a leitura da contagem de polimorfonucleares são do capítulo Paracentese, na apostila de Procedimentos e Vias de Acesso, e o manejo da peritonite bacteriana espontânea é do capítulo Quatro perguntas, todo dia, na apostila de Gastroenterologia. Este capítulo só acrescenta o que a hérnia rota muda: a punção agora é diagnóstica e terapêutica ao mesmo tempo, porque baixar a pressão intra-abdominal é o único jeito de o orifício parar de verter, e o sítio é o quadrante inferior esquerdo, longe da hérnia — nunca através dela. E acrescenta uma segunda coisa, que é de raciocínio: a partir do momento em que o peritônio se comunicou com o ambiente, uma contagem alterada pode significar infecção por translocação, como em qualquer cirrótico, ou contaminação pela porta aberta, que é outro problema com outro tratamento. Colher agora, antes que a distinção fique impossível, tem valor por si.

    Prescrição
    • Paracentese diagnóstica e de alívio no quadrante inferior esquerdo, guiada por ultrassom se disponível — jamais pelo sítio herniário
    • Líquido ascítico para contagem total e diferencial de células; cultura inoculada em frascos de hemocultura à beira do leito, antes de qualquer antimicrobiano
    • Registrar o volume drenado e o horário; reposição de albumina conforme o volume, pela régua do capítulo Paracentese
    • Coleta simultânea: hemograma, sódio, potássio, ureia, creatinina, bilirrubinas, albumina, razão normalizada internacional e proteína C reativa
  5. 9h20 — a decisão que não tem régua brasileira: começar antimicrobiano agora, ou esperar a contagem

    Aqui o capítulo para e mostra o vão em vez de fingir que ele não existe. Nenhum dos documentos brasileiros consultados diz o que fazer com o antimicrobiano numa hérnia umbilical rota de cirrótico antes que haja infecção diagnosticada: os protocolos de regulação organizam fila e não tratam de urgência, e a única orientação de sociedade brasileira sobre hérnia trata das hérnias inguinocrurais. Quem sustenta cada uma das duas posições está registrado no bloco de divergências. O que não é ambíguo, e vale fixar: a cultura se colhe antes da primeira dose, sempre; a decisão de não prescrever, se for essa, se registra por escrito com o motivo, porque decisão negativa não registrada vira prescrição às três da manhã; e a contagem de polimorfonucleares, quando voltar, reabre a decisão em qualquer dos dois caminhos. Esta é uma decisão para levar ao preceptor com os dois lados na mão, e não para resolver sozinho no corredor.

    Prescrição
    • Cultura do líquido ascítico e hemoculturas colhidas antes de qualquer antimicrobiano
    • Decisão sobre antimicrobiano tomada com o preceptor e registrada em evolução com o motivo, seja ela prescrever ou não prescrever
    • Reavaliar a decisão quando a contagem de células do líquido voltar, e registrar a reavaliação
  6. 10h40 — o plano duplo, e por que ele é duplo

    O cirurgião avaliou e a conduta é operar nesta internação. Cabe ao interno entender por que, e por que a alternativa de só fazer curativo e esperar não é conservadora e sim adiada. Enquanto o orifício estiver aberto, a cavidade continua exposta; enquanto a ascite não for controlada, a pressão que rompeu a pele continua empurrando. Por isso o plano é sempre de duas pernas, e nunca de uma: controlar o líquido e reparar a parede. Fazer só a segunda perna é o que a literatura brasileira consultada desaconselha ao registrar que, com ascite persistente, o reparo isolado não se indica — mortalidade de 5% e morbidade de 30% nessa condição. Fazer só a primeira, num paciente que já rompeu, é deixar a porta aberta. O que se otimiza nas horas que faltam é o que dá para otimizar em horas: volume, sódio, potássio, correção do que estiver corrigível, e nada mais — e a estratificação de risco anestésico é do capítulo A avaliação pré-operatória, na apostila de Pré e Pós-operatório.

    Prescrição
    • Manter dieta zero, hidratação e correção de distúrbio hidroeletrolítico identificado
    • Manter espironolactona 100 mg e furosemida 40 mg por via oral pela manhã, na proporção de 100 para 40, conforme o plano de ascite da equipe clínica
    • Termo de consentimento com a explicação de que a operação repara a parede e não resolve a ascite, e de que a hérnia pode voltar se o líquido voltar
    • Comunicação à equipe de gastroenterologia clínica sobre o plano cirúrgico, para que o controle da ascite continue no pós-operatório
  7. 13h e 15h30 — a evolução escrita para quem não viu a ferida, e o que ela precisa conter

    A evolução de hoje existe com uma finalidade única: dar ao plantonista de amanhã, que nunca viu esta ferida, como julgar se ela piorou. Descrição sem número não serve para isso: hérnia umbilical rota, escrito assim, não se compara com registro nenhum. Descreva por eixos, com medida: diâmetro do abaulamento, diâmetro do anel palpável, tamanho da área acinzentada em centímetros, tamanho do orifício, aspecto e cor do líquido, número de trocas de curativo no turno, e o que você espera encontrar amanhã. Registre também as duas decisões negativas do dia, com o motivo de cada uma: não puncionar pelo sítio herniário, e a decisão sobre antimicrobiano qualquer que ela tenha sido. E registre, em linha própria, a informação que ninguém colheu em três dias de internação e que vale para a parede tanto quanto para o fígado — o valor da albumina, que é o substrato com que a cicatriz vai ser construída.

    Prescrição
    • Evolução por eixos com números: abaulamento, anel, área acinzentada, orifício, aspecto do líquido, trocas por turno
    • Registro das duas decisões negativas com os respectivos motivos
    • Registro do valor de albumina sérica e do plano nutricional
    • Curativo mantido, com reavaliação da pele perilesional a cada troca
  8. O que fica combinado para a alta, e é o que evita a segunda internação

    O senhor Arlindo vai sair daqui com a parede reparada e com o problema que produziu a hérnia ainda dentro dele. Três combinados precisam estar escritos no resumo de alta e ditos em voz alta para ele e para quem o acompanha. Primeiro, a consulta de controle da ascite com data marcada, e não com a orientação de procurar a unidade — porque é o controle do líquido que decide se a hérnia volta. Segundo, a lista curta que traz de volta correndo: abaulamento novo na cicatriz ou no umbigo, pele que muda de cor sobre qualquer abaulamento, líquido saindo por qualquer ponto, dor nova que não passa, febre. Terceiro, e é o que quase nunca se escreve: que a hérnia pode voltar, que isso não significa que a operação falhou, e que voltar cedo com a hérnia pequena é muito melhor do que voltar tarde com a pele rompida. Um paciente que sabe disso volta no ambulatório; um paciente que não sabe volta na emergência.

    Prescrição
    • Consulta de controle da ascite agendada com data no resumo de alta
    • Lista escrita de sinais de retorno imediato, entregue ao paciente e a quem o acompanha
    • Registro no resumo de alta do diâmetro do defeito reparado, da técnica empregada e do serviço, para o caso de recidiva
    • Encaminhamento à equipe que acompanha a cirrose, com a informação de que houve rotura prévia da parede
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Como saber se está funcionando

A hérnia ventral tem dois relógios muito diferentes, e confundi-los é o que faz o interno reavaliar de menos num paciente e de mais no outro. No internado com hérnia rota, encarcerada ou recém-operada, a reavaliação é de turno e o que se procura é mudança de estado. No ambulatorial em observação ou em fila, a reavaliação é de meses e o que se procura é mudança de categoria — quem estava em observação e passou a ter indicação, quem estava na fila e passou a ter prioridade.

O segundo relógio é o que mais se perde, porque ninguém marca retorno para uma hérnia que não incomoda. A régua brasileira consultada permite observar a hérnia umbilical ou incisional minimamente sintomática ou assintomática, mas observação sem data de retorno não é observação: é alta sem dizer. Escreva a data, escreva o que traz o paciente de volta antes dela, e escreva o diâmetro de hoje — sem o número de hoje não há como saber, daqui a um ano, se cresceu.

Redutibilidade do abaulamentoNo internado, a cada exame; no ambulatorial, em cada consulta, com o achado escrito

Esperado: O que reduzia ontem ainda reduz hoje, com pressão suave e sem provocar dor

Se não melhora: Perda da redutibilidade é mudança de estado e tira o paciente da fila eletiva. Isoladamente, num umbigo cheio de gordura e indolor há anos, não é urgência; acompanhada de dor, é encarceramento por definição da régua brasileira, e o destino é a urgência. Registre a data em que a redutibilidade se perdeu, porque é ela que o cirurgião vai perguntar

Pele sobre o abaulamento, no paciente com asciteTodos os dias no internado, e em toda consulta de quem tem ascite — comparando com a pele do resto do abdome do mesmo paciente

Esperado: Pele com sulcos preservados, cor igual à do resto do abdome, sem brilho e sem área de cor diferente

Se não melhora: Perda dos sulcos e brilho é o primeiro estágio; vermelhidão ou área acinzentada é o segundo; úlcera é o terceiro; rotura é o quarto. Qualquer um dos três primeiros muda o plano hoje, antes de haver dor: aciona-se a cirurgia para reparo com prioridade e intensifica-se o controle da ascite. Esperar dor é esperar o estágio em que a decisão deixa de ser sua

Dor local e resposta à analgesiaA cada turno no internado com hérnia irredutível; a cada reavaliação no pronto-socorro

Esperado: Dor ausente, ou dor leve que cede com analgesia simples e não retorna antes do intervalo da dose

Se não melhora: Dor que não cede com analgesia adequada, ou que retorna antes do intervalo, é sinal de sofrimento do conteúdo e não indicação de aumentar a dose. Na parede ventral esse sinal pode ser o único, porque gordura estrangula sem obstruir: não espere vômito nem parada de eliminação de gases para chamar a cirurgia

Débito e aspecto do líquido, na hérnia rotaA cada troca de curativo, com o número de trocas anotado por turno

Esperado: Líquido claro, citrino, com débito que cai depois da paracentese e do controle da ascite

Se não melhora: Débito que não cai depois da paracentese indica que a pressão intra-abdominal não foi controlada, e o plano de diurético e de punção precisa ser revisto com a equipe clínica. Líquido que fica turvo, com odor, ou que muda de cor é suspeita de infecção e obriga nova coleta com cultura. Débito alto e sustentado num paciente hipoalbuminêmico soma perda proteica à perda de volume

Sinais sistêmicos e temperaturaA cada seis horas no internado com porta aberta ou hérnia encarcerada

Esperado: Sem febre, frequência cardíaca estável, pressão mantida sem necessidade de volume adicional

Se não melhora: Febre, taquicardia que não corrige com volume ou hipotensão num paciente com hérnia rota ou irredutível dolorosa não é para observar mais uma hora: é peritonite até prova em contrário, e num cirrótico o quadro pode se apresentar apenas como piora da encefalopatia ou queda da diurese. A investigação e o tratamento da peritonite bacteriana espontânea são do capítulo Quatro perguntas, todo dia

Ferida operatória e coleção, no pós-operatório do reparoDiariamente até a alta, e nas consultas das primeiras semanas

Esperado: Seroma é esperado e comum depois de reparo de hérnia ventral, sobretudo quando o defeito era grande: coleção líquida, flutuante, indolor, sem calor e sem eritema, que costuma reduzir sozinha

Se não melhora: O que muda a categoria é o conjunto: dor nova, calor, eritema que se expande, drenagem purulenta ou febre transformam seroma em infecção de sítio cirúrgico — e a partir daí quem manda é o capítulo Abrir antes que abra sozinha, na apostila de Pré e Pós-operatório, inclusive no teste do fundo da ferida. Não puncione seroma de rotina para acelerar: puncionar uma coleção estéril sobre uma tela é criar via de contaminação para um material que não tem defesa própria

Diâmetro do defeito e sintomas, no ambulatorial em observação ou em filaRetorno com data marcada, e antes dela se houver qualquer item da lista de retorno

Esperado: Diâmetro estável e sintomas que não limitam a vida diária

Se não melhora: Defeito que cresceu, sintoma que passou a limitar trabalho ou sono, ou episódio de dor com irredutibilidade que cedeu sozinho mudam a categoria: o primeiro e o segundo tiram o paciente da observação e o colocam na fila; o terceiro é complicação prévia e precisa estar escrito no encaminhamento, porque é o que dá preferência sob a régua do Rio Grande do Sul. Sem o diâmetro registrado na consulta anterior, nenhuma dessas comparações é possível

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Onde o erro machuca

Reduzir a hérnia dolorosa para ver se melhora

O dano: É a manobra que apaga o diagnóstico e conserva a doença. Quando ela dá certo, devolve à cavidade uma alça ou um bloco de gordura de viabilidade duvidosa, apaga o único sinal externo que existia e desloca o desfecho para dentro do abdome: a perfuração acontece horas depois, sem caroço para examinar, num paciente que foi para a enfermaria com a impressão de que o problema estava resolvido. E ela costuma ser tentada justamente onde é mais perigosa — na hérnia de anel estreito, epigástrica ou umbilical, que é a que mais aperta e a que mais parece que vai entrar com um pouco mais de força.

Como pegar a tempo: Regra fixa, sem exceção: hérnia irredutível com dor desproporcional, dor que não cede com analgesia adequada, pele eritematosa ou arroxeada, febre, taquicardia que não corrige com volume ou hipotensão não se reduz — não sob analgesia, não sob sedação, não em Trendelenburg, não com gelo e não uma última vez. Prescreva analgesia, mantenha dieta zero, reponha volume e acione a cirurgia. Se a redução acontecer sozinha durante o exame ou o transporte, isso não cancela a avaliação cirúrgica: registre a hora exata em que aconteceu e comunique, porque muda a vigilância e não o destino.

Puncionar, drenar ou colocar cateter na hérnia umbilical do cirrótico — inclusive quando ela já está vertendo

O dano: É o erro específico deste capítulo e ele é feito com boa intenção, para aliviar a pressão ou para medir o débito. No umbigo herniado a pele adere quase direto à fáscia, não existe plano muscular que feche o trajeto por deslizamento, e a pressão de dentro é a maior de toda a parede: um trajeto criado ali não fecha e vira fístula peritoneocutânea, com perda contínua de líquido rico em proteína e uma porta permanente para peritonite. Quando a hérnia já rompeu, puncionar ao lado não reduz contaminação nenhuma — acrescenta uma segunda porta a um paciente que já tem uma.

Como pegar a tempo: Trave a conduta em duas frases e escreva as duas no prontuário. A primeira: o sítio da paracentese é o quadrante inferior esquerdo, pela técnica do capítulo Paracentese, e nunca o sítio herniário. A segunda: a pressão intra-abdominal se baixa pela punção em sítio adequado e pelo controle da ascite, não pelo orifício da hérnia. Registrar a decisão negativa com o motivo é o que impede que ela seja desfeita no plantão da noite por alguém que não estava na visita.

Esperar vômito e parada de eliminação de gases para chamar o que já é estrangulamento

O dano: Na virilha, o conteúdo típico é alça e o encarceramento costuma vir acompanhado de obstrução, de modo que o interno aprende a procurar sinal obstrutivo. Na parede ventral o conteúdo mais comum é gordura pré-peritoneal e epíplon: ela encarcera, isquemia, dói, inflama, produz eritema da pele e febre baixa e evolui para necrose e abscesso de parede sem nunca obstruir nada. Quem espera o vômito espera um sinal que não vai vir, e nesse intervalo a pele por cima necrosa e a operação deixa de ser um reparo simples.

Como pegar a tempo: Use critério local e sistêmico, não intestinal. Numa hérnia ventral irredutível, os sinais que decidem são dor desproporcional, dor que não cede com analgesia, mudança de cor da pele por cima, febre, taquicardia e hipotensão — qualquer um deles basta. E lembre-se da hérnia de Richter, em que só parte da parede da alça fica presa: o paciente elimina gases, não distende, não vomita e tem apenas dor local, e ela é clássica de anel estreito, que é o que caracteriza a epigástrica e boa parte das umbilicais.

Segurar o encaminhamento até a comorbidade estar controlada

O dano: É o erro mais caro em tempo de paciente, e ele nasce de uma leitura razoável — a de que não adianta encaminhar quem não pode operar hoje. O resultado é que o paciente cumpre duas filas em série: primeiro a da atenção primária para perder peso, parar de fumar e controlar a glicemia, depois a da cirurgia. Num paciente que leva seis meses para chegar ao ponto de operar, isso custa meio ano de espera adicional — e, no caso da hérnia, seis meses de crescimento do defeito, porque a tensão sobre a borda aumenta com o raio e o defeito não espera parado.

Como pegar a tempo: A régua brasileira consultada é explícita e vale citá-la ao regulador quando o encaminhamento voltar: obesidade com índice de massa corporal igual ou maior que 30, diabetes ou hipertensão descompensados e tabagismo ativo são contraindicação relativa, e o manejo dessas condições na atenção primária deve ocorrer concomitantemente ao encaminhamento. Encaminhe hoje e comece hoje: consulta de cessação do tabagismo com a apresentação de nicotina que o elenco oferece, ajuste do tratamento do diabetes e da pressão, plano de perda de peso, e a comorbidade escrita no encaminhamento junto com o que já foi iniciado. Um documento que diz o que já está sendo feito é regulado; um que diz que o paciente é obeso e fuma volta.

Tratar diástase dos retos como hérnia epigástrica — ou o contrário

O dano: As duas moram no mesmo lugar e têm riscos opostos. Chamar de hérnia uma diástase manda o paciente para a fila errada, gasta uma vaga de cirurgia geral e devolve o paciente ao ponto de partida, além de criar uma expectativa de risco que não existe: diástase não tem anel e por isso não encarcera. Chamar de diástase uma hérnia epigástrica faz o oposto e é pior — deixa em observação um defeito de um centímetro que estrangula gordura com facilidade, num paciente cuja dor foi atribuída a dispepsia e que já fez endoscopia normal.

Como pegar a tempo: Separe pelo dedo, com o paciente deitado e a cabeça levantada. Crista longitudinal fusiforme, de vários centímetros de extensão, com bordas musculares dos dois lados e sem borda de anel em ponto nenhum, é diástase. Ponto único com borda circunscrita que a ponta do dedo delimita, doloroso à palpação e desproporcional ao tamanho, é hérnia epigástrica. Percorra a linha alba inteira, porque as duas coexistem com frequência — e é essa coexistência que a régua brasileira prevê ao mandar a diástase associada a hérnia umbilical ou epigástrica para a Cirurgia Geral e a diástase isolada, maior que 3 cm e refratária, para a Cirurgia Plástica.

Reparar a parede do cirrótico e considerar o problema resolvido

O dano: A hérnia do cirrótico com ascite não é uma doença da parede: é o sintoma visível de uma pressão que continua lá depois que o cirurgião fecha. Reparar sem controlar o líquido produz recidiva, e a literatura brasileira consultada registra o custo dessa escolha — com ascite persistente o reparo isolado não se indica, porque a mortalidade de 5% e a morbidade de 30% nessa condição são altas demais. O dano secundário é de confiança: o paciente a quem se prometeu que estava resolvido e cuja hérnia volta em meses deixa de acreditar na equipe e volta tarde na próxima vez, com a pele já rompida.

Como pegar a tempo: Plano duplo sempre, e dito em voz alta ao paciente e a quem o acompanha: controlar o líquido e reparar a parede. Saída do hospital com consulta de controle da ascite marcada com data, e não com a orientação de procurar a unidade. E a frase honesta no lugar da promessa: a operação repara a parede, não trata a ascite; se o líquido voltar, a hérnia pode voltar; e voltar cedo, com a hérnia pequena e a pele boa, é muito melhor do que voltar tarde.

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O que dizer ao paciente e à família

As conversas deste capítulo têm um problema em comum e é bom nomeá-lo antes das falas: o paciente com hérnia ventral quase sempre chega com uma explicação pronta, e ela costuma estar errada em uma direção específica. Ou ele acha que é grave e que pode estourar, e vive com medo de um evento que não existe com esse nome; ou ele acha que é um caroço e que caroço não mata, e é o caso do senhor Arlindo. As duas crenças produzem o mesmo comportamento: o paciente não volta quando devia.

Há ainda a conversa que não é com o paciente e que o interno mais evita: a que se tem com quem está acima na hierarquia quando a orientação recebida é perigosa. Ela também está aqui, porque neste capítulo a orientação perigosa tem nome e é frequente.

Ao senhor Arlindo, que não sente dor e não entende a urgência

O senhor tem uma hérnia no umbigo há anos, e ela nunca deu problema porque a pele por cima estava boa. O que mudou é isto: a barriga encheu de líquido e ficou empurrando essa pele todo dia, dia e noite, e ela foi ficando fina até abrir um furo. O líquido que está molhando o lençol vem de dentro da barriga. O que me preocupa não é o líquido que sai, é o que pode entrar por esse mesmo furo — bactéria da pele indo para dentro da barriga, que é onde ela não pode chegar. Por isso a gente vai tapar isso com curativo estéril agora, chamar o cirurgião hoje e tirar líquido pela lateral da barriga, num ponto longe daqui, para diminuir a pressão que está empurrando.

Não diga: Não é nada, é só a hérnia. Ou o oposto: o senhor está com uma infecção grave na barriga. Ele não tem infecção ainda — é isso que se está tentando evitar, e dizer que já tem custa a confiança quando o exame voltar normal.

À família, sobre por que operar agora e sobre a hérnia poder voltar

A operação vai fechar o buraco da parede e é necessária porque enquanto ele estiver aberto a barriga fica em contato com o ambiente. Preciso ser honesto sobre duas coisas. A primeira é que essa operação repara a parede e não trata o fígado dele, e é o líquido do fígado que empurrou a parede até romper — por isso o tratamento tem duas partes, e a segunda parte é o controle desse líquido, que continua depois da alta. A segunda é que a hérnia pode voltar, sobretudo se o líquido voltar, e isso não vai significar que a operação deu errado. Se voltar, quero que vocês tragam ele cedo, com o caroço pequeno e a pele boa. É muito diferente de voltar como hoje.

Não diga: Depois dessa cirurgia ele fica bom. E também: não adianta operar, isso volta sempre. As duas frases fecham a porta — a primeira produz a família que não volta, e a segunda produz a família que desiste.

Ao residente ou ao plantonista que orientou puncionar pela hérnia

Queria conferir uma coisa antes de fazer, porque fiquei em dúvida. O ponto de punção que eu conheço é o quadrante inferior esquerdo, longe da linha média, por causa da artéria epigástrica inferior. Nesse paciente a pele do umbigo já está rompida, e o que me preocupa em puncionar ali é que o trajeto não fecha, porque naquele ponto a pele adere direto na fáscia e a pressão de dentro é maior. Eu ia fazer a punção pelo quadrante inferior esquerdo e deixar o umbigo só com curativo oclusivo. Você concorda, ou tem alguma razão para o outro lado que eu não estou vendo?

Não diga: Fazer calado o que foi mandado, e também recusar sem oferecer o caminho alternativo. A pergunta que funciona traz o motivo anatômico e já propõe a conduta correta — ela dá ao outro uma saída que não exige que ele admita erro.

Ao paciente que pergunta se o esforço no trabalho causou a hérnia, e quando pode voltar a levantar peso

O esforço não abre um buraco numa parede que estava íntegra; o que ele faz é aumentar a pressão sobre um ponto que já era mais fraco — no seu caso, a cicatriz da cirurgia. Então a resposta honesta é que o trabalho não é a causa isolada e também não é irrelevante. Se o senhor quiser discutir se isso tem relação com o trabalho para efeito de benefício ou de comunicação de acidente, essa conversa existe, é outra consulta, e eu registro hoje o que o senhor me contou sobre o que carrega e com que frequência. Sobre voltar a levantar peso depois da operação: quem define isso é o cirurgião que operar, porque depende do tamanho do defeito e do que foi feito, e eu prefiro não dar um prazo que ele vai ter que desmentir.

Não diga: Foi o peso que o senhor levanta que causou isso. E também: isso não tem nada a ver com o trabalho. A primeira frase promete um nexo que este capítulo não estabelece, e a segunda o nega sem base — o nexo causal, a comunicação de acidente e a notificação são do capítulo Em que o senhor trabalha, e os limites normativos de carga são do capítulo A lesão que só vira acidente se alguém escrever.

Ao paciente que quer operar já, e a quem se vai pedir peso, glicemia e cigarro antes

Eu vou encaminhar o senhor hoje, e quero deixar isso claro porque é diferente do que muita gente ouve: não estou segurando o encaminhamento até o senhor emagrecer. As duas coisas andam juntas a partir de hoje. O que eu preciso que aconteça enquanto a consulta não chega é parar de fumar, controlar a glicemia e perder peso, e não é implicância — cigarro e açúcar alto atrapalham a cicatrização da parede, e a parede que não cicatriza é a que abre de novo. Parar de fumar é o que mais depende do senhor e o que eu mais posso ajudar: existe adesivo e goma de nicotina disponíveis, e a gente começa hoje se o senhor quiser.

Não diga: Só dá para encaminhar quando o senhor estiver com o peso certo. A régua brasileira consultada diz o contrário, com essas palavras: o manejo dessas condições ocorre concomitantemente ao encaminhamento.

À mãe do bebê com hérnia umbilical, que veio pedir cirurgia

Esse tipo de hérnia no umbigo do bebê é muito comum e na maior parte das vezes fecha sozinha ao longo dos primeiros anos, conforme o anel do umbigo se fecha com o crescimento. Por isso não é caso de operar agora e não é urgência. O que eu vou fazer é medir e anotar o tamanho hoje, para comparar nas próximas consultas. Uma coisa eu preciso pedir que não seja feita, porque muita gente ensina e não funciona: não enfaixar, não colar moeda, botão ou esparadrapo em cima do umbigo. Não acelera o fechamento e machuca a pele, que ali é muito fina. E o que faz vocês voltarem correndo, sem esperar a consulta: se o caroço ficar duro e não entrar mais, se doer, se ele vomitar, se chorar sem parar, ou se a pele por cima mudar de cor.

Não diga: Deixa que isso some. Dito assim, sem prazo, sem medida e sem a lista do que traz de volta, vira alta disfarçada — e a mãe volta ao serviço com a mesma dúvida daqui a um mês, ou não volta quando precisa.

Ao paciente com hérnia incisional volumosa e antiga, que pergunta se é uma cirurgia simples

Existe cirurgia para isso, e ela resolve. Mas eu não vou dizer que é pequena, porque não é. A hérnia é grande e antiga, e uma parte do que devia estar dentro da barriga passou a morar nesse saco — a barriga se acostumou com menos volume. Recolocar tudo de uma vez numa barriga que ficou menor aumenta a pressão lá dentro, e é por isso que essa operação precisa de planejamento e às vezes de preparo antes. O que o senhor pode fazer a partir de hoje muda o resultado dela: parar de fumar, controlar o peso, controlar a glicemia. Eu vou escrever no encaminhamento que a hérnia é volumosa e vou pedir que o senhor seja avaliado no hospital onde foi operado, porque lá está a informação do que foi feito da outra vez.

Não diga: É só colocar uma tela. A frase é falsa numa hérnia volumosa, e o paciente que a ouve chega ao cirurgião com uma expectativa que alguém vai ter de desmontar — e desmontar expectativa custa mais do que ajustá-la desde o início.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Reparo eletivo ou observação na hérnia da parede do cirrótico com ascite

Operar só na complicação, porque a mortalidade da herniorrafia no cirrótico avançado é proibitiva

Quem sustenta esta posição parte dos números por classe de Child que o artigo brasileiro reúne: mortalidade operatória de 10%, 31% e 76% nas classes A, B e C numa série, e de 10%, 30% e 82% em outra. Acrescenta que a ascite refratária é fator de risco independente para complicação e para recidiva, e que a própria revisão registra a necessidade de não haver ascite residual para operar — com ascite persistente, o reparo isolado não estaria indicado, porque mortalidade de 5% e morbidade de 30% são elevadas demais para um procedimento eletivo. A conclusão prática é operar apenas quando a hérnia complica, e nesse meio-tempo controlar o líquido.

Silva FD et al., ABCD Arq Bras Cir Dig 2012;25(1):52-55, ao relatar a posição histórica que o próprio artigo descreve

Reparar de forma eletiva, porque esperar significa operar de urgência num paciente pior

Quem sustenta esta posição observa que a comparação relevante não é entre operar e não operar, e sim entre operar hoje e operar depois. Numa coorte de 32.033 reparos, os cirróticos operados eletivamente tiveram mortalidade de 0,6% contra 0,1% dos não cirróticos — seis vezes mais, e ainda assim abaixo de um por cento. Numa série de 53 cirróticos submetidos a herniorrafia, incluindo nove Child C e 17 com ascite refratária, houve um único óbito, uma única recidiva em seguimento médio de 24 meses e melhora de qualidade de vida relatada por todos. E a observação com abstenção cirúrgica tem risco próprio, que é o assunto deste capítulo: a rotura do saco herniário, com peritonite de alta mortalidade. O próprio artigo conclui que há tendência de mudança em favor da operação eletiva, e que respostas definitivas dependem de estudos maiores e randomizados.

Silva FD et al., ABCD Arq Bras Cir Dig 2012;25(1):52-55, ao reunir as séries que sustentam a mudança de conduta e a experiência do próprio serviço

Como decidir

No cirrótico, avalie primeiro pele, dor, redutibilidade e sinais de rotura iminente. Ascite persistente exige planejamento de controle antes ou junto do reparo, conforme a urgência. Considere reserva hepática, impacto funcional e eventual transplante com a equipe assistente. Percentuais de séries selecionadas não devem ser usados como previsão individual de risco.

Antimicrobiano na hérnia umbilical rota do cirrótico, antes de haver infecção diagnosticada

Iniciar antimicrobiano ao reconhecer a rotura, porque o peritônio já está em comunicação com o ambiente

Quem sustenta esta posição observa que o paciente reúne, ao mesmo tempo, uma porta aberta para a cavidade, um líquido com baixa capacidade de defesa e uma resposta inflamatória que a cirrose atenua — de modo que o quadro clínico da peritonite pode se apresentar apenas como piora da encefalopatia ou queda da diurese, tarde demais. Acrescenta que a mortalidade da peritonite nessa população é alta e que o custo de alguns dias de antimicrobiano é pequeno diante disso. É importante registrar que esta posição é uma leitura deste capítulo a partir do mecanismo, e não a citação de uma recomendação brasileira.

Leitura deste capítulo a partir da fisiopatologia descrita em Silva FD et al., ABCD 2012;25(1):52-55, que registra a peritonite bacteriana como complicação comum e de alta mortalidade após a rotura — e não a partir de norma brasileira, porque não existe uma que trate deste cenário

Colher e esperar a contagem, porque tratar sem diagnóstico produz seleção de resistência e apaga o diagnóstico seguinte

Quem sustenta esta posição lembra que o tratamento da infecção do líquido ascítico, em todo o resto do cuidado do cirrótico, é disparado por um critério objetivo e disponível em horas, e que iniciar antes dele num paciente sem febre, sem dor e sem defesa inverte essa lógica sem que haja documento que o autorize. Acrescenta que a primeira dose administrada antes da coleta reduz o rendimento da cultura e que, num paciente que provavelmente vai operar e voltar a internar, a escolha de expor a flora dele agora tem custo depois. E observa que a conduta que de fato reduz a contaminação é mecânica — curativo oclusivo, controle da pressão intra-abdominal e fechamento do orifício —, não farmacológica.

Coerência com a régua diagnóstica do capítulo Paracentese e do capítulo Quatro perguntas, todo dia, que condicionam o tratamento da peritonite bacteriana espontânea à contagem de polimorfonucleares do líquido

Como decidir

Diferencie suspeita de infecção e profilaxia. Diante de sinais sistêmicos ou nova disfunção, organize investigação e tratamento conforme o percurso de ascite e peritonite, sem atraso indevido para aguardar exames. Se houver operação prevista, a profilaxia cirúrgica tem indicação e momento próprios. Registre a decisão, as amostras obtidas e o plano de reavaliação.

Hérnia umbilical ou incisional assintomática: observar na atenção primária ou encaminhar e enfileirar

Observar, com combinado escrito, sobretudo no idoso com risco cirúrgico aumentado

Quem sustenta esta posição cita o preâmbulo do protocolo, que diz que em pacientes com hérnia umbilical ou incisional minimamente sintomática ou assintomática pode-se considerar observação clínica, especialmente em idosos com comorbidades que aumentam o risco cirúrgico ou que não desejam submeter-se à cirurgia. O argumento de fundo é de proporção: uma hérnia que não incomoda e cujo reparo tem risco anestésico e cirúrgico não deve consumir vaga de um sistema em que outra pessoa espera com hérnia sintomática. Vale registrar que o mesmo documento é internamente ambíguo — na lista de encaminhamento ele qualifica a umbilical por sintoma e deixa a incisional sem qualificador.

TelessaúdeRS-UFRGS e Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul, Protocolos de encaminhamento para Cirurgia Geral Adulto, 07/12/2020, Protocolo 3

Encaminhar todas, deixando a priorização para a regulação

Quem sustenta esta posição cita o protocolo catarinense, que lista hérnia umbilical, de parede abdominal ou incisional e epigástrica entre os motivos de encaminhamento sem qualquer qualificador de sintoma, e que resolve a proporção por outro instrumento: a classificação de risco, em que hérnia volumosa e/ou sintomática fica na faixa verde e hérnias assintomáticas ficam na azul. O argumento de fundo é que a decisão de operar é do cirurgião e não do médico da atenção primária, e que observação sem porta de entrada aberta vira abandono. O custo desta posição está no próprio documento e vale conhecer: naquele protocolo, as faixas vermelha e amarela do quadro de hérnias estão vazias, de modo que nenhuma hérnia eletiva pode ser classificada acima de verde.

Secretaria de Estado da Saúde de Santa Catarina, Protocolo de Acesso e Regulação — Cirurgia Geral Adulto (Atualização), abril de 2022

Como decidir

Aplique o fluxo de acesso local e descreva sintomas além de dor, incluindo limitação de atividades, desconforto e episódios de irredutibilidade. Complicação prévia deve constar no encaminhamento com sua evolução. Se a opção for observar, registre exame de referência, tamanho do defeito, sinais de retorno imediato e data de reavaliação.

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O raciocínio, em voz alta

Terça-feira, 9h10, unidade básica de saúde num bairro de periferia; o hospital que recebe os encaminhamentos está a duas conduções dali. Bartolina Pitangui tem 63 anos, 88 quilos e 1,58 m, é diarista, e vem à consulta por causa de um caroço na barriga que apareceu depois da cirurgia. A cirurgia foi uma colectomia por câncer de cólon, há dois anos e quatro meses, num hospital de outro município; a ferida abriu no pós-operatório e ela ficou fazendo curativo por quase dois meses. Está em seguimento oncológico, com o último exame sem sinal de doença. Fuma um maço por dia desde os vinte anos e tem diabetes, com a última hemoglobina glicada de 9,1%. Ela diz que o caroço apareceu há mais ou menos um ano, que cresceu, que entra quando ela deita e sai quando ela levanta, e que agora atrapalha: dói no fim do dia de trabalho, ela não consegue mais carregar o balde cheio, e teve um episódio, há três meses, em que o caroço ficou duro e doeu por umas quatro horas, à noite, e depois passou sozinho — ela não procurou ninguém. Nega vômito, nega parada de eliminação de gases, nega febre. Você tem quinze minutos.

  1. o exame nas duas posições, e a manobra que quase ninguém faz

    Com Bartolina em pé, você vê a cicatriz mediana e, ao lado dela, à esquerda, um abaulamento arredondado do tamanho de uma laranja pequena, que some quando ela deita. Deitada e relaxada, o abdome parece só um abdome grande — e é aqui que a maioria dos exames termina, com um registro de hérnia incisional sem mais nada. Você pede que ela levante a cabeça do travesseiro. Os retos se contraem, a pressão sobe, e o defeito salta contra a sua mão. Você reduz o conteúdo com pressão suave e percorre a cicatriz inteira com a ponta dos dedos, de cima a baixo. Encontra dois defeitos, não um: o principal, de cerca de 5 cm de diâmetro, e um segundo, de cerca de 2 cm, quatro dedos acima, separado do primeiro por uma ponte de aponeurose firme. A pele por cima está normal em toda a extensão.

  2. as três perguntas de urgência, respondidas antes de qualquer outra coisa

    Reduz? Sim, com pressão suave e sem dor. Dói agora? Não — a dor dela é de fim de dia e melhora com o repouso. A pele por cima está normal? Sim. Não há urgência hoje, e é isso que autoriza o resto da consulta a ser sobre fila e preparação. Mas repare no que a história trouxe e não pode ser tratado como detalhe: o episódio de quatro horas com o caroço duro e doloroso, que cedeu sozinho, é encarceramento transitório. Ele não muda o destino de hoje, muda a prioridade — e só muda se estiver escrito.

  3. o que este caso é, dito com os nomes certos

    Hérnia incisional de cicatriz mediana, com dois defeitos, o maior de 5 cm, redutível, sintomática a ponto de limitar o trabalho, com um episódio prévio de encarceramento transitório. Não é diástase de retos: há bordas de anel circunscritas, delimitadas pela ponta do dedo, e há dois defeitos separados por ponte de aponeurose — a diástase é uma crista contínua ao longo da linha média, sem borda de anel em ponto nenhum. E não é candidata a observação: a régua brasileira reserva a observação clínica à hérnia minimamente sintomática ou assintomática, e a de Bartolina limita o que ela faz para viver.

  4. por que ela chegou aqui, e o que isso ensina para os próximos pacientes

    Some os antecedentes dela e você tem o retrato do risco: laparotomia mediana, cirurgia oncológica, ferida que abriu e demorou dois meses a fechar, tabagismo, diabetes com controle ruim, sobrepeso. A infecção de ferida é o antecedente mais consistente porque o exsudato purulento degrada colágeno exatamente na janela em que a cicatriz da aponeurose está sendo construída. O tabagismo entra duas vezes: piora a microcirculação da ferida e entrega picos repetidos de pressão pela tosse. A série brasileira de eviscerações descreve essa mesma população — tabagismo em 32,1%, doença pulmonar obstrutiva crônica em 13,6%, neoplasia em 47,2% — e registra que a albumina pré-operatória não tinha sido coletada em 80,1% dos pacientes. Bartolina não teve albumina dosada antes da colectomia. Ninguém errou uma conduta isolada; faltou um exame que teria mudado a conversa sobre a parede dela dois anos atrás.

  5. não peça ultrassom — encaminhe hoje

    A tentação é pedir uma ultrassonografia da parede para documentar. Não muda nada: a hérnia é palpável, os dois defeitos foram delimitados pela sua mão, e nenhuma conduta depende do laudo. A régua brasileira consultada pede o laudo de imagem anexado ou descrito quando realizado — quer dizer, o exame não é pré-requisito do encaminhamento. Segurar o encaminhamento até sair uma ultrassonografia que confirma o que a mão já disse é somar semanas de espera a uma fila que já é longa, e o defeito cresce nesse intervalo porque a tensão sobre a borda aumenta com o raio.

  6. o encaminhamento que não volta, com os oito itens e uma linha que muda a fila

    Escreva: hérnia incisional sobre cicatriz mediana infraumbilical, dois defeitos, o maior de 5 cm e o segundo de 2 cm, ambos redutíveis; dor local diária que limita a atividade de trabalho, com incapacidade de carregar peso; episódio de irredutibilidade dolorosa com duração de cerca de quatro horas há três meses, resolvido espontaneamente, sem procura de serviço; colectomia por adenocarcinoma de cólon há dois anos e quatro meses, com o nome do hospital, com infecção de ferida operatória e cicatrização por segunda intenção em cerca de oito semanas; sem reparo prévio da hérnia; diabetes com hemoglobina glicada de 9,1% e tabagismo de um maço por dia, ambos em manejo iniciado nesta consulta; índice de massa corporal de 35,2. E acrescente a linha que a régua do Rio Grande do Sul autoriza e que a maioria dos encaminhamentos omite: solicito avaliação preferencialmente no hospital de origem, por se tratar de hérnia incisional, indicando o serviço onde a colectomia foi realizada.

  7. o que começa hoje, e por que não se espera

    Tabagismo, diabetes descompensado e obesidade são contraindicação relativa ao procedimento — e a régua determina que o manejo na atenção primária ocorra concomitantemente ao encaminhamento, não antes dele. Então: encaminhamento assinado hoje, e no mesmo dia consulta de cessação do tabagismo com a apresentação de nicotina que o elenco oferece, ajuste do tratamento do diabetes com retorno para nova hemoglobina glicada, e plano de perda de peso com meta e data. Diga a Bartolina, com essas palavras, que você não está segurando o encaminhamento até ela emagrecer — porque é isso que ela vai supor, e é o que faz paciente parar de voltar.

  8. o que fica combinado, e o que a traz de volta antes

    Retorno em oito semanas com hemoglobina glicada nova, para reavaliar o diâmetro dos dois defeitos e o peso. O diâmetro de hoje fica escrito no prontuário, porque sem ele não há como saber daqui a um ano se cresceu. E a lista curta, dita e entregue por escrito: caroço que fica duro e não entra mais; dor que não passa; vômito ou parada de eliminação de gases; febre; e qualquer mudança de cor da pele por cima do caroço. Diga também o que fazer se acontecer de novo o episódio de quatro horas: procurar a emergência na hora, mesmo que passe no caminho — porque quem já encarcerou uma vez encarcera de novo, e a próxima pode não ceder sozinha.

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Faça você

Sábado, 21h50, pronto-socorro de um hospital municipal de setenta leitos que atende uma cidade de cinquenta mil habitantes e mais dois municípios em volta. Tem centro cirúrgico com uma sala, cirurgião de sobreaviso a vinte minutos e tomógrafo que só funciona em horário comercial. Celidônio Igarapava, 44 anos, 79 quilos, motorista de caminhão, chega andando, com a mão espalmada sobre o epigástrio. Diz que sente há uns dois anos um carocinho ali, do tamanho de um caroço de azeitona, que às vezes dói quando ele faz força, e que ele empurra e some. Fez endoscopia há oito meses por causa dessa dor, e o resultado foi normal; toma omeprazol desde então, sem melhora. Hoje, depois do almoço, carregou uma caixa e a dor começou e não parou mais — são seis horas de dor contínua, forte, sempre no mesmo ponto, sem cólica. Não vomitou. Eliminou gases há cerca de uma hora e evacuou de manhã. Ao exame: temperatura 37,6 °C, frequência cardíaca 104, pressão arterial 138 por 84. O abdome é flácido e indolor fora de um ponto, sem defesa e com descompressão negativa — a exceção é o epigástrio, na linha média, quatro dedos acima do umbigo, onde há um nódulo de cerca de 1,5 cm, firme, muito doloroso à palpação, que não reduz, com a pele por cima discretamente avermelhada numa área do tamanho de uma moeda. Você prescreveu dipirona 1 g por via intravenosa há quarenta minutos e a dor não mudou. O plantonista clínico, que está com a sala cheia, sugere pedir uma tomografia para segunda-feira, dar mais analgesia e liberar com retorno.

  1. o que já está decidido antes de qualquer manobra

    Antes de discutir redução, imagem ou alta, três coisas já foram decididas pelo que está escrito na vinheta, e nenhuma delas depende de exame. Primeira: é hérnia epigástrica. O ponto é a linha alba entre o apêndice xifoide e o umbigo, o nódulo é pequeno e firme, existe há dois anos, reduzia com o dedo e agora não reduz — e a dor localizada em ponto fixo que ele mostra com a ponta do dedo, com endoscopia normal e sem resposta a inibidor de bomba de prótons, é a apresentação clássica que passa oito meses sendo tratada como dispepsia. Segunda: é irredutível hoje, e a régua brasileira de regulação define encarceramento com duas palavras — hérnia dolorosa e não redutível. Terceira: há sinais de sofrimento, e eles são três somados, não um: dor contínua e desproporcional ao tamanho de um nódulo de 1,5 cm, eritema da pele por cima, e dor que não cedeu a analgesia adequada, com febre baixa e taquicardia por cima.

  2. a armadilha que a ausência de vômito monta

    Celidônio elimina gases, evacuou de manhã, não vomitou e tem o abdome flácido e indolor fora do ponto. Se o critério de gravidade fosse obstrutivo, este seria um caso brando. Ele não é, e a razão é o conteúdo: na parede ventral, o conteúdo mais frequente de uma hérnia de anel estreito é gordura pré-peritoneal, muitas vezes sem saco peritoneal nenhum. Gordura encarcerada e isquêmica dói, inflama, produz eritema da pele e febre baixa, e evolui para necrose e abscesso de parede — tudo isso sem obstruir coisa alguma. Esperar vômito e parada de eliminação de gases num anel de 1,5 cm é esperar um sinal que não vai chegar. E há a segunda armadilha, que se chama hérnia de Richter: quando só parte da circunferência da alça fica presa, o paciente também elimina gases e também não distende, e a alça está morrendo mesmo assim.

  3. por que a analgesia que não funcionou é informação, e não motivo para repetir a dose

    A dipirona intravenosa há quarenta minutos não mudou a dor. A leitura automática é aumentar a analgesia; a leitura correta é que a falha de resposta a uma analgesia adequada, numa hérnia irredutível, é um dos sinais que definem sofrimento do conteúdo. Prescrever analgesia continua sendo obrigação e não estraga o exame cirúrgico nem mascara uma indicação que já foi feita pela mão. O que não se faz é repetir a dose no automático e reavaliar em duas horas: isso troca um aviso por uma sedação, e as duas horas correm contra o tecido.

  4. as duas condutas propostas no plantão, e o que há de errado em cada uma

    A primeira tentação é tentar reduzir — com mais analgesia, com o paciente em Trendelenburg, com gelo, com pressão sustentada. Reduzir uma hérnia com sinal de sofrimento é o erro mais grave deste capítulo, e ele é grave justamente porque costuma funcionar: o conteúdo entra, o caroço some, a dor melhora um pouco, e o que era um diagnóstico palpável passa a ser um processo isquêmico dentro da cavidade, sem sinal externo para acompanhar. A segunda proposta é a do plantonista: tomografia na segunda-feira, mais analgesia e alta com retorno. Ela transforma um diagnóstico feito na mão em uma espera de trinta e seis horas por um exame que não vai mudar a indicação — e não muda porque a indicação já existe.

  5. o que decide, e o que fica combinado até o cirurgião chegar

    Aqui a conduta se separa em duas listas curtas: o que fazer, e o que não fazer em hipótese alguma. Escreva as duas na evolução, com horário, porque este é um plantão de sábado à noite e a informação vai ter de sobreviver a uma troca de equipe. E há uma conversa a ter com o plantonista clínico que sugeriu a alta — ela não é de confronto, é de dado: um nódulo de 1,5 cm que dói há seis horas, não reduz, tem eritema por cima, não respondeu à dipirona intravenosa e vem com febre de 37,6 °C e frequência de 104.

  6. Continuidade do caso e prática do internato

    Apresente primeiro a hérnia incisional comum de Bartolina e depois diga quais achados mudariam o caso para urgência ou exigiriam planejamento mais complexo.

  7. Questão integrativa 1

    Bartolina deve esperar terminar toda otimização para ser encaminhada?

  8. Questão integrativa 2

    Hérnia cronicamente irredutível é igual a uma que ficou dolorosa hoje?

  9. Questão integrativa 3

    Diástase isolada é um orifício herniário?

  10. Questão integrativa 4

    Toda hérnia precisa de TC para diagnóstico?

  11. Questão integrativa 5

    Qual informação funcional de Bartolina importa?

  12. Questão integrativa 6

    No cirrótico com rotura, basta esperar a ascite melhorar?

Ver como fecharíamos

O diagnóstico é hérnia epigástrica encarcerada com sinais de estrangulamento, e a indicação cirúrgica está feita pelo exame físico. O que se faz: acionar o cirurgião de sobreaviso agora, e não na manhã de segunda; manter dieta zero; acesso venoso e hidratação; analgesia mantida e escalonada conforme necessário, registrando que a falta de resposta é sinal de alarme e não indicação de aumentar sozinha a dose; coleta de hemograma e proteína C reativa, que servem à avaliação pré-operatória e não à decisão de operar; e evolução escrita com o tamanho do nódulo, o tamanho da área de eritema em centímetros, o horário de cada dose de analgesia e a resposta a ela. O que não se faz: não se tenta reduzir, em nenhuma circunstância e por nenhuma via — nem sob analgesia, nem sob sedação, nem em Trendelenburg, nem com gelo; não se pede tomografia para confirmar o que a mão já disse, nem se aguarda o tomógrafo abrir na segunda-feira; não se dá alta com retorno; e não se repete analgesia no automático como substituto de decisão. Se durante a espera a hérnia reduzir espontaneamente, isso não cancela nada: registre a hora exata, comunique ao cirurgião e mantenha o paciente internado em observação, porque a partir daí o conteúdo de viabilidade duvidosa está dentro da cavidade e o sinal externo desapareceu. Três coisas ficam para depois e valem registro. A primeira é que a linha alba pode ter mais de um defeito, e a palpação de toda a sua extensão deve constar da avaliação. A segunda é que os oito meses de tratamento para dispepsia com endoscopia normal são um achado a comunicar, porque explicam o atraso e evitam que o próximo paciente igual repita o percurso. A terceira é a conversa sobre trabalho: Celidônio é motorista de caminhão e vai perguntar quando volta a carregar peso — a resposta sobre o prazo é de quem operar, e a discussão sobre nexo com o trabalho, comunicação de acidente e notificação é do capítulo Em que o senhor trabalha, na apostila de Medicina do Trabalho. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. Encaminhamento e otimização podem ocorrer juntos, com reavaliação de sintomas e risco. 2. Não. A mudança aguda altera a urgência e exige investigar obstrução ou isquemia. 3. Não. É afastamento dos retos, sem necessariamente existir defeito focal com saco herniário. 4. Não. O exame pode bastar; imagem ajuda em dúvida ou planejamento complexo. 5. A dor e a dificuldade para trabalhar mostram impacto relevante e entram na decisão compartilhada. 6. Não. É complicação urgente: proteger a área, avaliar e tratar em equipe, integrando controle da ascite ao problema da parede.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Deiscência fascial precoce e hérnia incisional compartilham fatores de risco e comprometimento da integridade da parede. Evisceração implica exteriorização de vísceras; deiscência pode existir com pele íntegra. Hérnia pode se manifestar tardiamente a partir de falha precoce não reconhecida ou de alterações posteriores, não apenas de separação lenta. No quinto dia ainda há risco de deiscência. Tabagismo, tosse e perda ponderal justificam vigilância e avaliação nutricional. Albumina não dosada não é marcador biológico de desnutrição, e seu valor isolado também não a diagnostica.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Nos próximos sete dias, examine a parede abdominal de todo paciente que você for examinar de qualquer jeito, e faça sempre as três posições: em pé, deitado e relaxado, deitado com a cabeça levantada do travesseiro. Em quem tiver cicatriz abdominal, percorra-a de extremidade a extremidade com a ponta dos dedos e conte quantos defeitos existem — a resposta mais comum não é zero e não é um. Meça em centímetros e escreva o número no prontuário, mesmo quando não houver nada a fazer com ele hoje. E, em todo paciente com ascite que você atender, olhe a pele sobre o umbigo e compare-a com a pele do resto do abdome do mesmo paciente: sulcos, brilho e cor. Sem consultar o capítulo, responda também: qual a definição de hérnia encarcerada na régua brasileira de regulação, com as duas palavras que ela usa; que sinais definem sofrimento numa hérnia da parede ventral, e por que a ausência de vômito não afasta nenhum deles; e as cinco linhas do que fazer diante de uma hérnia umbilical rota num cirrótico com ascite.

Em 30 dias

Volte ao caso do senhor Arlindo Paraopeba e troque um dado por vez, verbalizando qual marco da conduta se desloca com a troca. Troque a ausência de dor por dor forte com a pele arroxeada: o que muda na hora, e o que deixa de fazer sentido pedir? Troque o líquido claro por líquido turvo e com odor: qual coleta passa a ser obrigatória, e qual capítulo passa a mandar? Troque o cirrótico por um paciente sem doença hepática que tem hérnia umbilical irredutível e indolor há oito anos: sobra urgência? Troque a rotura pela pele apenas lustrosa e sem sulcos: você espera ou aciona a cirurgia, e com que argumento? Depois refaça o caso de Bartolina Pitangui reescrevendo o encaminhamento de memória, com os oito itens na ordem, e confira quantos deles você omitiu — e por fim reconstrua as duas leituras possíveis da frase de prioridade do protocolo do Rio Grande do Sul e diga qual linha do encaminhamento garante a preferência sob as duas.

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Agora atenda

Capítulo lido, agora é a sua vez na sala. Chega alguém com um abaulamento na barriga, e nada diz de antemão se é a hérnia incisional que veio para entrar na fila, a epigástrica que passou oito meses tratando dispepsia, ou o umbigo do cirrótico cuja pele já mudou de cor. Examine nas duas posições, ache a borda do anel, faça as três perguntas que separam urgência de fila — reduz, dói, e a pele por cima está normal — e olhe a pele antes de decidir qualquer coisa.

Hérnias ventrais – A parede cede onde já cedeu — Internato | OsceLabs