Cirurgia GeralCirurgia do Aparelho Digestivo

A icterícia que não dói

Câncer de pâncreas e tumores periampulares (Whipple)

Investigar icterícia e perda de peso, organizar imagem e discussão especializada e tratar sintomas sem interferir no plano diagnóstico e terapêutico.

Fontes deste capítulo

Instituto Nacional de Câncer. Estimativa 2026: incidência de câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA, 2026. 168 p. ISBN 978-65-88517-52-9 (versão eletrônica). Licença Creative Commons Atribuição–Não Comercial–Compartilha igual 4.0 Internacional.

Instituto Nacional de Câncer. Câncer de pâncreas: versão para profissionais de saúde. Publicado em 05/06/2022, atualizado em 07/07/2023. Portal do INCA, sob licença Creative Commons Atribuição–SemDerivações 3.0 Não Adaptada.

Brasil. Ministério da Saúde. Portaria SAS/MS nº 112, de 4 de fevereiro de 2016 — aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Insuficiência Pancreática Exócrina. Revoga a Portaria SAS/MS nº 57, de 29 de janeiro de 2010.

Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Insuficiência Pancreática Exócrina: relatório de recomendação, versão preliminar. Consulta Pública Conitec/SECTICS nº 76/2025. Brasília, setembro de 2025. Reprodução permitida com citação da fonte, vedado o fim comercial.

Brasil. Lei nº 12.732, de 22 de novembro de 2012 — dispõe sobre o primeiro tratamento de paciente com neoplasia maligna comprovada e estabelece prazo para seu início. Texto compilado, com as alterações das Leis nº 13.685/2018, nº 13.896/2019 e nº 15.233/2025.

01

Responda antes de ler

Homem de 58 anos interna por anemia ferropriva com hemoglobina de 7,9 g/dL e volume corpuscular médio de 71 fL. Nos exames da entrada há bilirrubina total de 6,2 mg/dL com direta de 4,8, fosfatase alcalina de 480 U/L e gama-glutamil transferase de 610 U/L. Ao exame, está ictérico, com fezes claras há cinco semanas e perda de 9 kg. Na investigação, a duodenoscopia mostra lesão vegetante friável centrada na papila maior. Qual origem tumoral é mais provável, e por quê?

02

O paciente que você vai ver

Terça-feira, dez e vinte da manhã. O hospital é regional, tem cento e quarenta leitos e recebe encaminhamento de sete municípios. Tem tomógrafo, e o técnico está na escala das sete às dezenove. Tem ultrassonografista que atende de manhã, sob agenda. Não tem ecoendoscopia, não tem cirurgião com prática em pâncreas, e o hospital estadual que tem as duas coisas fica a cento e noventa quilômetros. Você é o interno do ambulatório de clínica cirúrgica, e a agenda da manhã tem onze nomes.

O sétimo é Milburgo Ubajara, 63 anos, aposentado, ex-motorista de ônibus intermunicipal. Ele veio encaminhado da unidade básica com um pedido escrito à mão que diz, inteiro: "paciente ictérico, avaliar". Traz uma sacola com dois exames de dois meses atrás e uma caixa de um sintomático hepático que a farmácia do bairro vendeu.

Ele entra sozinho, anda bem, senta e conversa. A primeira coisa que você vê, antes de qualquer pergunta, é a esclera. Não é aquele amarelo discreto que se discute com a luz da janela — é amarelo de longe, com a pele do rosto e do pescoço acompanhando. A segunda coisa que você vê, quando ele estende a mão para cumprimentar, são as escoriações lineares nos antebraços, todas paralelas, todas na mesma direção. Ele coçou.

A história que ele conta tem duas partes, e a ordem em que ele as conta importa mais do que ele imagina. A parte que o trouxe é a cor: a mulher reparou há umas cinco semanas, primeiro nos olhos. A urina escureceu antes disso, e ele achou que era pouca água. As fezes clarearam, e sobre isso ele não tinha reparado até você perguntar com a palavra certa: quando você diz "a cor da massa mudou, ficou tipo cor de barro claro, de argila?", ele responde que sim, faz umas seis semanas, e que a descarga leva mais tempo porque a fezes boia.

A parte que ele não conta sozinha é o peso. Perguntado, diz que emagreceu "um pouquinho". Perguntado de novo, com número, diz que a calça que ele usava para ir à igreja precisou de furo novo no cinto — dois furos. Você pesa: 61 quilos. Ele diz que pesava 72 na consulta de renovação da carteira, em outubro. São onze quilos em oito meses.

E há uma terceira coisa, que não está no encaminhamento e que ele não relaciona com nada: em março, a unidade básica disse que a glicemia estava alta e começou metformina. Ele nunca teve diabetes, o pai não teve, a mãe não teve, e ele nunca foi gordo. A enfermeira anotou 214 de glicemia de jejum. Isso foi quatro meses antes de a esposa reparar na cor dos olhos.

O que ele não tem é dor. Não teve cólica, não teve febre, não vomitou, não ficou prostrado num fim de semana e melhorou na segunda. Ele diz, com a mão aberta sobre a boca do estômago, que às vezes "pesa" ali e que às vezes a sensação atravessa para as costas quando ele deita — mas que passa se ele se encolhe para a frente. Nunca precisou de remédio para isso.

Você tem quinze minutos, um preceptor que passa às onze, um pedido de exame para escrever e uma decisão que já começou: o que este amarelo é, o que ele não é, e qual é o primeiro exame.

03

Quem adoece disso

Para cada ano do triênio de 2026 a 2028, o Instituto Nacional de Câncer estima 13.240 casos novos de câncer de pâncreas no Brasil — 6.330 em homens e 6.910 em mulheres —, com risco de 6,18 casos por 100 mil habitantes. Sem contar os tumores de pele não melanoma, isso põe o pâncreas na nona posição entre os cânceres mais frequentes do país. As maiores taxas de incidência, em homens e em mulheres, estão na região Sul.

O segundo número é o que reorganiza a leitura de tudo o que vem adiante. Em 2023, o Brasil registrou 13.507 óbitos por câncer de pâncreas: 6.589 homens e 6.918 mulheres. As duas somas fecham exatamente com os totais que o próprio documento declara, e as duas foram conferidas. O que não é aritmética, e sim consequência clínica, é a comparação entre elas: morrem por ano, hoje, 267 pessoas a mais do que a estimativa prevê que sejam diagnosticadas por ano daqui em diante. São medidas de naturezas diferentes — uma é incidência estimada para um triênio futuro, a outra é mortalidade observada num ano passado —, e por isso a razão de 1,02 entre elas não é um erro de ninguém. Mas ela diz, com números do mesmo documento, a coisa mais importante que existe sobre esta doença: o número de mortes por ano é da ordem do número de casos por ano.

Nenhum outro tumor sólido comum se comporta assim. No câncer de mama e no de próstata a incidência é várias vezes a mortalidade; aqui as duas curvas quase se encostam. Isso não se resolve com quimioterapia melhor: resolve-se, quando se resolve, com diagnóstico mais cedo — e é exatamente aí que a doença é traiçoeira, porque ela não dói enquanto é pequena.

Quem adoece: a idade avançada é o fator mais forte, e entre os modificáveis o Instituto Nacional de Câncer destaca o excesso de gordura corporal e o tabagismo, com evidência sugestiva para o álcool e para dieta rica em carne vermelha e processada. A predisposição genética responde por 10 a 15 por cento dos casos, e nesse grupo entram a síndrome de Lynch, o câncer pancreático familiar e a pancreatite hereditária. Há ainda um fator ocupacional que quase ninguém pergunta: exposição a produtos do decaimento do tório-232 e a radiação ionizante do tipo raios X e gama. Vale a pergunta na anamnese de quem trabalhou com radiologia industrial, com prospecção mineral ou em serviço de imagem antes das normas atuais de proteção.

Sobre rastreamento, a régua brasileira é explícita e é curta: não há evidência de que rastrear câncer de pâncreas na população assintomática traga mais benefício do que risco, e por isso não se rastreia. Isso importa na enfermaria porque é a pergunta que a família faz na semana seguinte ao diagnóstico — "e meus filhos, fazem exame?" —, e a resposta honesta é que não existe exame de rastreio recomendado para a população geral, o que é diferente de dizer que não existe seguimento para famílias com síndrome genética conhecida, que é assunto de serviço especializado.

Uma parte importante da população deste capítulo não tem câncer de pâncreas: tem tumor periampular. Sob esse nome ficam quatro origens diferentes que crescem no mesmo endereço — a cabeça do pâncreas, a ampola de Vater, o colédoco distal e o duodeno periampular. Elas se apresentam parecido, entram no mesmo bloco cirúrgico e saem com prognósticos que não têm nada a ver entre si. A estimativa nacional não as separa: o pâncreas tem código próprio na classificação usada pelo Instituto Nacional de Câncer, e os tumores de ampola e de colédoco distal ficam diluídos em outras rubricas. Quer dizer que o número de 13.240 que você acabou de ler não é o número de pacientes que chegam com icterícia indolor — é menos do que isso.

A consequência prática, para o interno, é que a frequência com que você vai ver a doença não é a frequência com que você vai ver a queixa. Icterícia indolor progressiva em adulto é a queixa; câncer de pâncreas é a causa mais comum dela na faixa acima dos 50 anos, mas não é a única, e as outras têm prognóstico melhor. Chamar todo mundo de câncer de pâncreas na primeira consulta é errado por dois motivos opostos: condena quem tem ampuloma, que é curável com mais frequência, e desmobiliza a investigação de quem tem uma estenose benigna.

04

Por que acontece o que acontece

A anatomia decide tudo neste capítulo, e ela cabe em três frases. A cabeça do pâncreas abraça a segunda porção do duodeno. Dentro dela, no último trecho do seu trajeto, corre o colédoco, que vem do fígado carregando bile e desemboca na papila, junto com o ducto pancreático principal. Um tumor de dois centímetros nascido na cabeça do pâncreas fica, portanto, colado num cano de quatro a seis milímetros de calibre por onde passa toda a bile do organismo.

É por isso que um tumor pequeno da cabeça dá sintoma e um tumor grande do corpo e da cauda não dá. Na cabeça, o volume necessário para fechar o colédoco é ridículo; no corpo, o tumor cresce livre no retroperitônio até encostar em algo que doa ou apareça. Metade da assimetria clínica desta doença é geografia, não biologia. E é uma assimetria cruel: o tumor de cabeça, que avisa cedo, tem chance cirúrgica; o de corpo e cauda, que avisa tarde, quase nunca tem.

Fechado o colédoco, a bile não sai. A bilirrubina já conjugada pelo hepatócito, que é hidrossolúvel, reflui para o sangue e aparece na urina — é ela que produz a colúria, o escurecimento da urina, e ela escurece antes de o olho amarelar, porque o rim excreta antes de o pigmento se acumular na pele e na esclera. Ao mesmo tempo, a bile deixa de chegar ao intestino: sem pigmento biliar no tubo digestivo, as fezes perdem a cor e ficam claras, o que se chama acolia. A tríade colúria, acolia e icterícia não é uma lista de sintomas — é a mesma obstrução vista de três lugares.

Sem bile no intestino, a gordura da dieta não é emulsificada e não é absorvida. Essa é a esteatorreia: as fezes ficam volumosas, oleosas, com cheiro forte e boiam, e por isso o paciente perde peso mesmo comendo. Some a essa má absorção o segundo mecanismo, que é o tumor obstruindo também o ducto pancreático e barrando as enzimas: agora falta o sal biliar e falta a lipase. A perda de peso do paciente ictérico não é só consumo tumoral; boa parte dela é caloria que entrou pela boca e saiu pelo vaso.

O prurido é o sintoma mais mal explicado e o mais mal tratado. Ele não vem da bilirrubina — pacientes muito ictéricos podem não coçar, e pacientes pouco ictéricos podem coçar muito. O acúmulo de substâncias que normalmente sairiam pela bile, agindo sobre terminações nervosas e sobre o sistema opioide endógeno, explica melhor o quadro do que a cor. Duas consequências práticas saem daí: anti-histamínico costuma não resolver, e o que resolve de verdade é desobstruir a via biliar.

O diabetes de início recente no adulto magro é o sinal mais precoce e o mais desprezado desta doença. O adenocarcinoma pancreático produz mediadores que induzem resistência à insulina à distância, e a destruição de parênquima reduz a massa de ilhotas: a hiperglicemia pode aparecer meses antes da icterícia. Um adulto acima dos 50 anos, sem obesidade e sem história familiar, que abre diabetes do nada e emagrece, não é um diabético comum — é uma pergunta de imagem esperando ser feita. O manejo do diabetes em si é do capítulo Diabetes tipo 2 na unidade básica, na apostila de Endocrinologia, e do capítulo Hiperglicemia no paciente internado, na apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado; o que este capítulo assume é o sinal — a hiperglicemia nova como pista de tumor, e não como doença isolada.

A tromboflebite migratória e a trombose venosa profunda em sítio incomum têm o mesmo pano de fundo: o adenocarcinoma pancreático é um dos tumores mais protrombóticos que existem, por fator tecidual e por micropartículas circulantes. Trombose sem provocação em adulto acima dos 50 anos merece uma pergunta sobre peso, cor e apetite antes de virar apenas um caso de anticoagulação.

A dor, quando aparece, é epigástrica e atravessa para o dorso, piora deitado e alivia com o tronco fletido para a frente. Ela vem da invasão do plexo celíaco, que fica atrás do pâncreas, colado à aorta. Essa origem explica duas coisas que decidem conduta: a dor não responde bem à escada analgésica isolada, porque é neuropática visceral, e ela responde muito bem ao bloqueio do próprio plexo — o que faz do controle da dor aqui um procedimento, e não só uma prescrição.

05

Como se apresenta de verdade

Esta doença tem quatro portas de entrada, e só uma delas é a icterícia. As outras três — o emagrecimento sem causa, a dor que atravessa para as costas e a hiperglicemia nova — chegam antes e são atendidas por outra pessoa, geralmente na atenção primária, geralmente sem que ninguém as junte. Reconhecer a porta em que o paciente entrou muda o que você pergunta a seguir.

A trava: icterícia indolor e progressiva em adulto é obstrução maligna até prova em contrário

Guarde a frase inteira, porque cada palavra dela está segurando alguma coisa. Adulto, porque em criança o raciocínio é outro. Indolor, porque a dor muda o topo da lista. Progressiva, porque a icterícia que vai e volta tem dono diferente. E até prova em contrário, porque a prova existe, é imagem, e ela precisa ser pedida hoje.

O erro que custa o caso não é deixar de saber o que é câncer de pâncreas — é dar ao amarelo um nome que dispensa a imagem. Os três nomes que fazem isso, na ordem em que aparecem no encaminhamento, são hepatite, colestase por medicamento e cálculo que vai passar. Nos três o paciente vai para casa com retorno em trinta dias, e nos três a próxima consulta acontece com o tumor maior.

Contra hepatite, o que separa é a cor das fezes e o padrão da lesão. Hepatite dá icterícia com urina escura, sim, mas as fezes não ficam de cor de argila de forma persistente, e o quadro costuma vir com pródromo, mal-estar, hiporexia e, com frequência, febre baixa. Sobretudo, hepatite não emagrece onze quilos em oito meses de forma silenciosa. A leitura laboratorial que decide entre lesão hepatocelular e colestática é do capítulo Provas hepáticas, na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito, que é dono desse padrão e não precisa ser reescrito aqui. O que este capítulo acrescenta é a regra de encadeamento: padrão colestático em adulto sem dor é indicação de imagem da via biliar no mesmo dia, e não de sorologia isolada com retorno.

Contra colestase por medicamento, o que separa é a cronologia e o comportamento. A lesão hepática por fármaco tem um começo temporal identificável em relação à droga, costuma estabilizar ou melhorar quando se retira o agente, e não produz uma via biliar dilatada na imagem. É aqui que a maior parte dos erros nasce, porque quase todo adulto está tomando alguma coisa e sempre é possível culpar um comprimido. A pergunta que corta isso é uma só: a via biliar está dilatada? Se está, o problema é mecânico e nenhum comprimido explica.

Contra cálculo que vai passar, o que separa é a dor e o curso. A icterícia por coledocolitíase costuma vir com cólica biliar prévia ou concomitante, é flutuante — sobe e desce conforme a pedra se move —, e frequentemente acompanha febre quando infecta. A icterícia maligna é indolor e sobe e não desce. Quem ensina a coledocolitíase e a colangite, com os critérios de Tóquio e a decisão de drenar, são os capítulos A mesma pedra, três destinos e Bile sob pressão, na apostila de Urgência e Emergência Cirúrgica: a icterícia obstrutiva por cálculo é deles. A icterícia obstrutiva maligna é deste capítulo. A fronteira é a causa, não o achado.

Uma advertência sobre a palavra progressiva, que é onde a trava mais falha na prática. Um tumor de ampola pode sangrar, necrosar parcialmente e desobstruir por alguns dias: o paciente amarela, melhora um pouco, amarela de novo. Essa flutuação faz o clínico pensar em pedra e relaxar. Se o paciente tem icterícia flutuante e o ultrassom não mostra cálculo, a flutuação não é argumento a favor de doença benigna.

Os sinais que o interno colhe sem pedir nada

Colúria. Pergunte pela cor, não pelo nome. "A urina está escura?" recebe sim de qualquer pessoa desidratada. "A urina ficou cor de refrigerante escuro, de chá preto, e continua assim mesmo depois que o senhor bebe água a manhã inteira?" recebe uma resposta que serve. A colúria da obstrução é persistente e não clareia com hidratação.

Acolia. Este é o sinal mais específico e o mais mal colhido, porque quase ninguém pergunta com a palavra que o paciente entende. "O senhor reparou na cor das fezes?" quase sempre recebe não. "A massa mudou de cor? Ficou clara, tipo massa de vidraceiro, cor de barro, quase branca?" recebe sim quando é sim. Acolia persistente por semanas, em adulto, é obstrução biliar completa ou quase completa até prova em contrário, e é o sinal que mais separa a icterícia obstrutiva da hepatocelular à beira do leito.

Prurido e suas marcas. Não pergunte só se coça: olhe. Escoriações lineares e paralelas em antebraços, dorso do tronco na região alcançável, pernas e face anterior das coxas são a assinatura da coceira crônica, e frequentemente estão lá antes de o paciente reclamar. Em quem já coçou por semanas, procure também insônia, porque o prurido colestático piora à noite e desorganiza o sono muito antes de piorar o exame.

Perda de peso, com número. "Emagreceu?" não é anamnese. Peça o peso de antes com uma âncora datada — a carteira de motorista, o exame admissional, a última internação, a consulta em que a balança do posto foi usada. Pese o paciente na sua frente, calcule o percentual e escreva os dois números com as duas datas no prontuário. Onze quilos em oito meses sobre 72 são quinze por cento do peso corporal, e esse número, escrito, é o que vai fundamentar o pedido de exame.

Diabetes de início recente no adulto magro. Trate a data do diagnóstico de diabetes como um sintoma com hora marcada. Adulto acima dos 50 anos, sem obesidade, sem história familiar, que começou hipoglicemiante nos últimos doze meses e está perdendo peso: isso é uma pista, e ela costuma estar escrita na receita que o paciente traz na sacola.

Tromboflebite migratória. Cordões venosos superficiais dolorosos que aparecem num membro, somem e reaparecem em outro. É raro, é específico e é da família dos fenômenos protrombóticos do adenocarcinoma pancreático. Um episódio isolado de trombose superficial em quem tem peso caindo merece a pergunta completa.

Dor que atravessa. Quando existe, a dor é epigástrica, surda, contínua, atravessa para o dorso, piora na posição deitada e alivia com o tronco fletido para a frente. Pergunte a posição de alívio: paciente que dorme sentado ou abraçado a um travesseiro descreve, sem saber, uma dor retroperitoneal.

A vesícula palpável indolor

Este é o achado de exame físico que mais decide neste capítulo e o que menos se procura, porque a maior parte dos internos palpa o abdome de um paciente ictérico procurando dor, não procurando volume.

A lógica é simples e mecânica. Uma vesícula cronicamente doente por cálculos tem parede fibrosada e não distende: quando o colédoco fecha por uma pedra, ela não incha. Uma vesícula previamente normal, submetida a uma obstrução progressiva e distal do colédoco, distende e vira um saco liso, tenso e sem dor, palpável abaixo da borda hepática, à direita, na altura da linha hemiclavicular. Vesícula palpável e indolor num paciente ictérico aponta, portanto, para obstrução maligna distal, e não para cálculo — que é o que se chama de sinal de Courvoisier.

Mão do examinador posicionada no quadrante superior direito de um simulador abdominal para demonstrar a região de palpação.
O simulador mostra a região de palpação do hipocôndrio direito. Em um paciente com icterícia, achados como vesícula palpável e indolor devem ser integrados à história, ao laboratório e à imagem. Esse achado pode sugerir obstrução distal, mas não confirma malignidade; sua ausência também não a exclui.

Como palpar de verdade. Paciente em decúbito dorsal, joelhos fletidos para relaxar a parede, respirando pela boca. Comece longe, na fossa ilíaca direita, e suba com a mão espalmada, aprofundando na expiração e mantendo na inspiração. Peça uma inspiração profunda: a vesícula distendida desce com o fígado e escorrega sob os seus dedos como uma pera lisa e tensa. O que você procura é uma superfície convexa, regular, que se move com a respiração e que não provoca careta.

O que o achado não faz. Ele não diz que o tumor é do pâncreas: qualquer obstrução distal progressiva o produz, inclusive um tumor de ampola e um colangiocarcinoma de colédoco distal. Ele não é sensível: a maioria dos pacientes com câncer de cabeça de pâncreas não tem vesícula palpável, seja porque o abdome não permite, seja porque a obstrução ainda não é completa. E ele não substitui imagem em nenhum sentido. Ausência do sinal não afasta nada; presença do sinal empurra a hipótese para obstrução maligna distal e apressa o pedido.

Procure também, na mesma passada, o resto do exame que muda estadiamento sem custar nada: fígado nodular à palpação, ascite, linfonodo supraclavicular esquerdo endurecido e fixo, e nódulo periumbilical. Nenhum desses achados é necessário para o diagnóstico, mas qualquer um deles, se presente, já responde a pergunta sobre doença a distância antes de a tomografia responder.

Cabeça, corpo e cauda: três doenças com o mesmo nome

O tumor de cabeça do pâncreas é o que este capítulo mais trata, porque é o que chega ictérico e é o que tem chance cirúrgica. Ele responde pela maioria dos casos, produz icterícia obstrutiva relativamente cedo e é o que entra na operação grande. Quando o paciente com tumor de cabeça amarela, o tumor costuma ter dois a três centímetros — pequeno o suficiente para, às vezes, ainda ser ressecável.

O tumor de corpo e cauda não amarela, porque está longe do colédoco. Ele se apresenta com dor dorsal, emagrecimento, diabetes novo, ou é achado numa imagem pedida por outro motivo. Quando dá sintoma, costuma já ter encostado no tronco celíaco, na artéria mesentérica superior ou já ter metastatizado. É a apresentação de pior prognóstico, e é a que mais frequentemente chega ao interno como "emagrecimento a esclarecer".

A consequência prática dessa divisão para a beira do leito é uma inversão que vale decorar. A icterícia, que o paciente vive como a pior notícia, é a apresentação de melhor prognóstico desta doença — porque significa cabeça, e cabeça significa a possibilidade de operar. O emagrecimento isolado com dor dorsal, que parece mais brando, costuma ser pior.

Uma nota sobre a palavra tumor. Nem toda massa pancreática é adenocarcinoma. Existem tumores neuroendócrinos do pâncreas, que têm comportamento e prognóstico completamente diferentes, e existem lesões císticas com potencial variável de malignização. Este capítulo é do adenocarcinoma ductal e dos periampulares, que juntos respondem pela quase totalidade do que chega ictérico. Se a imagem descreve uma lesão hipervascularizada ou uma lesão cística com septos, o encaminhamento é o mesmo — serviço com pâncreas — mas o roteiro do texto abaixo não se aplica linha a linha, e isso precisa estar escrito no encaminhamento.

Periampulares: por que se separam e por que isso importa

Periampular é um endereço, não um tecido. Sob esse rótulo cabem quatro tumores que nascem a poucos milímetros uns dos outros e que a operação retira juntos, mas que se comportam de forma diferente: o adenocarcinoma da cabeça do pâncreas, o carcinoma da ampola de Vater, o colangiocarcinoma do colédoco distal e o adenocarcinoma do duodeno periampular.

Eles se apresentam parecido porque comprimem o mesmo cano. A diferença que importa está em quando comprimem. Um tumor de ampola cresce dentro da própria papila: um nódulo de poucos milímetros já obstrui. Um adenocarcinoma de pâncreas precisa crescer no parênquima até alcançar o colédoco. Resultado: o ampuloma dá icterícia com um volume tumoral muito menor, e por isso é diagnosticado mais cedo, com menos doença fora do órgão e com taxa de ressecabilidade e de sobrevida em cinco anos substancialmente melhores do que o adenocarcinoma pancreático. Colédoco distal e duodeno ficam num meio-termo.

Um segundo traço distingue o ampuloma à beira do leito, e é o único que o interno colhe sem imagem: ele sangra. Tumor de ampola ulcera e sangra para dentro do duodeno, e o paciente pode chegar com anemia ferropriva, com sangue oculto positivo ou, mais raramente, com melena. A combinação de icterícia obstrutiva com anemia ferropriva é uma apresentação de ampuloma até que se prove outra coisa. A investigação e o manejo do sangramento digestivo alto em si são do capítulo Hemorragia digestiva alta, nesta mesma apostila; o que este capítulo assume é a leitura do sinal — a anemia ferropriva no ictérico como pista de origem ampular.

Por que isso muda a sua conduta hoje, e não só o prognóstico. Porque a expectativa que você comunica é diferente, porque a pressa da referência é a mesma mas a esperança não é, e porque um paciente que chega com icterícia e anemia não deve receber a conversa do adenocarcinoma pancreático antes de o material histológico dizer de onde ele veio. Escrever no encaminhamento "lesão periampular a esclarecer" em vez de "câncer de pâncreas" não é eufemismo: é precisão, e ela sobrevive à ida do papel para o serviço de referência.

A separação também importa para a leitura da literatura e dos números. Séries de sobrevida de duodenopancreatectomia que misturam ampuloma e adenocarcinoma pancreático parecem melhores do que a realidade do adenocarcinoma. Quando alguém lhe disser um número de sobrevida em cinco anos para a operação, a primeira pergunta é qual histologia, e não qual serviço.

Quem já chega diferente

Obstrução maligna também pode complicar com colangite. Suspeitar pelo conjunto de inflamação sistêmica, colestase e imagem/causa obstrutiva; febre, dor e icterícia podem não aparecer juntas, e confusão ou hipotensão indicam gravidade sem serem obrigatórias para o diagnóstico. Acionar tratamento da infecção e drenagem conforme gravidade, sem esperar estadiamento oncológico completo para resolver a ameaça.

O paciente que chega vomitando. Tumor de cabeça grande pode obstruir o duodeno além do colédoco. Vômitos pós-prandiais de conteúdo alimentar, plenitude precoce e desnutrição acelerada num ictérico configuram obstrução duodenal, e isso costuma indicar doença mais avançada. O problema imediato é nutricional e volêmico, e ele não espera estadiamento.

O idoso frágil. Aqui a distinção entre ressecável e operável, que aparece adiante, começa já na porta. Um senhor de 84 anos, dependente para atividades básicas, com perda funcional de meses, tem um caminho diferente do de um senhor de 68 anos que ainda dirige — mesmo que a tomografia dos dois seja idêntica. Não decida isso sozinho, mas registre a funcionalidade que você observou, porque ela vai pesar na reunião multidisciplinar e ninguém mais vai tê-la visto.

O paciente que já vem drenado. Não é raro receber um paciente com prótese biliar colocada num serviço anterior, sem laudo histológico e sem tomografia de qualidade. Esse paciente perdeu a janela do exame perfeito, e a imagem que você pedir agora vai ser mais difícil de ler. Não é motivo para não pedir; é motivo para escrever no pedido que existe prótese, para que o radiologista saiba o que está vendo.

O paciente jovem. Adenocarcinoma pancreático abaixo dos 45 anos é incomum e obriga a duas perguntas extras: existe história familiar de câncer de pâncreas, de mama, de ovário, de cólon ou de próstata em parentes de primeiro grau, e existe pancreatite crônica de longa data. As duas mudam o encaminhamento, porque abrem indicação de avaliação genética no serviço de referência.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação da icterícia indolor tem uma ordem, e a ordem existe porque cada passo estraga o seguinte quando é feito fora de hora. O roteiro inteiro cabe em cinco perguntas encadeadas: a via biliar está dilatada, onde ela para, o que está parando ela, esse tumor pode sair, e este paciente pode operar. Quem pula a segunda pergunta pede o exame errado; quem pula a quarta drena um paciente que ia operar.

Primeiro exame: o que a ultrassonografia resolve, e o que ela deixa em aberto

A régua brasileira é explícita quanto ao ponto de partida: para a icterícia obstrutiva, o Instituto Nacional de Câncer indica exames de sangue e ultrassonografia transabdominal como opções iniciais, pela facilidade de realização, pelo custo reduzido e pela elevada sensibilidade para avaliar as vias biliares e para detectar massas pancreáticas maiores que três centímetros. Guarde a ressalva junto com a indicação, porque as duas metades da frase são igualmente importantes.

O que a ultrassonografia responde bem, e responde hoje, é a primeira pergunta: a via biliar está dilatada? Colédoco dilatado acima de seis a sete milímetros no adulto não colecistectomizado, com dilatação de vias intra-hepáticas, transforma a hipótese de hepatite em hipótese de obstrução mecânica em quinze minutos e sem contraste. Ela também costuma responder a segunda pergunta pela metade: onde a via para. Dilatação de todo o colédoco até a região distal, com vesícula distendida, localiza a obstrução baixa; dilatação intra-hepática com colédoco fino localiza a obstrução alta, no hilo, o que muda a lista de causas.

O que a ultrassonografia não faz é a coisa que o interno mais precisa saber. Ela não exclui tumor de pâncreas. A cabeça do pâncreas é retroperitoneal e frequentemente fica atrás de gás de cólon e duodeno; a sensibilidade da ultrassonografia cai muito para lesões menores que três centímetros, que são exatamente as lesões potencialmente ressecáveis. Um laudo que diz "pâncreas não visualizado por interposição gasosa", que é o laudo mais comum do país, não é um exame negativo — é um exame que não olhou.

A consequência é uma regra dura e simples: ultrassonografia com via biliar dilatada e sem causa identificada em adulto ictérico e sem dor não encerra investigação, encerra a hipótese de hepatite. O próximo passo é tomografia, e ele não espera retorno de trinta dias.

Uma segunda armadilha do primeiro exame é a ausência de dilatação. Obstrução muito recente, ou incompleta, pode ainda não ter dilatado a árvore biliar; e um paciente com fibrose hepática pode dilatar pouco. Se a clínica é forte — colúria, acolia persistente, perda ponderal quantificada —, ultrassonografia sem dilatação não afasta obstrução, e a conduta é a mesma: tomografia.

Sobre o sangue do primeiro dia: peça bilirrubinas com frações, fosfatase alcalina, gama-glutamil transferase, transaminases, albumina, hemograma, coagulograma com atividade de protrombina, ureia e creatinina, e glicemia. A leitura do padrão colestático e o que cada enzima significa são do capítulo Provas hepáticas, na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito, que é dono disso; aqui interessam três consequências operacionais. A atividade de protrombina alargada em obstrução prolongada é deficiência de vitamina K por má absorção e corrige com reposição, o que importa antes de qualquer procedimento. A albumina baixa mede o estado nutricional que vai pesar na decisão cirúrgica. E a anemia microcítica com ferro baixo, num ictérico, empurra a suspeita para tumor de ampola.

A tomografia com protocolo de pâncreas — e por que "tomografia de abdome" não basta

O exame que decide este caso é uma tomografia computadorizada com contraste intravenoso, feita com protocolo de pâncreas: aquisição em fase arterial tardia, também chamada pancreática, e em fase venosa portal, com cortes finos e reconstruções multiplanares. Não é a mesma coisa que uma tomografia de abdome de rotina, e a diferença não é preciosismo de radiologista.

A razão é de contraste tecidual. O adenocarcinoma pancreático é hipovascular: ele aparece como uma área que capta menos que o parênquima pancreático normal. Essa diferença é máxima na fase pancreática, quando o parênquima está no auge da impregnação, e some quando a aquisição é feita cedo demais ou tarde demais. Um tumor de dois centímetros pode simplesmente não aparecer numa aquisição fora de fase — e o laudo vai dizer que o pâncreas está normal.

A segunda razão é vascular, e é a que decide cirurgia. É a fase venosa portal que mostra a veia porta, a veia mesentérica superior e a confluência entre elas; é a fase arterial que mostra o tronco celíaco, a artéria mesentérica superior, a artéria hepática comum e as variantes anatômicas hepáticas. A relação do tumor com esses vasos é o que separa ressecável de limítrofe e de irressecável. Sem as duas fases, essa pergunta fica sem resposta e o paciente será submetido a um segundo exame semanas depois.

Escreva o pedido com essas palavras. Peça tomografia computadorizada de abdome superior com protocolo de pâncreas, em fases arterial e portal, com cortes finos, e escreva a hipótese diagnóstica principal por extenso, com os dados que a fundamentam: idade, icterícia indolor de tantas semanas, acolia, colúria, peso perdido em quilos e em percentual, e o achado da ultrassonografia. Peça também tomografia de tórax, porque o pulmão é sítio de metástase e porque, com o pedido feito no mesmo dia, o paciente faz os dois na mesma ida.

Um pedido escrito assim tem efeito jurídico, e não só clínico: nos casos em que a principal hipótese diagnóstica é de neoplasia maligna, os exames necessários à elucidação devem ser realizados no prazo máximo de trinta dias, mediante solicitação fundamentada do médico responsável — é o parágrafo terceiro do artigo segundo da Lei nº 12.732, incluído em 2019. A mecânica completa dos dois prazos, o de trinta dias para elucidar e o de sessenta para iniciar o tratamento, está escrita no capítulo Quando ele conta, já está estreito, desta mesma apostila, que é dono dela; o que este capítulo precisa que você faça é datar o pedido e guardar a data.

Quando a tomografia é inconclusiva, ou quando a cirurgia não vai ser oferecida de imediato, entram os métodos seguintes: ressonância magnética com colangiorressonância, que desenha a árvore biliar inteira sem iodo e sem instrumentar nada, e a ecoendoscopia, que é o melhor método para lesões pequenas e o caminho da punção quando ela for necessária. A colangiopancreatografia retrógrada endoscópica não é exame diagnóstico neste roteiro: é procedimento terapêutico, e entra no item seguinte.

Marcador tumoral: o que ele serve e o que ele não decide

O CA 19-9 é o marcador desta doença e é usado de forma errada com uma regularidade impressionante. Ele não faz diagnóstico, não faz rastreio e não decide, sozinho, nada. Um valor normal não afasta câncer de pâncreas — e há uma razão biológica para isso: o antígeno depende do sistema de grupo sanguíneo de Lewis, e uma fração da população simplesmente não o expressa, produzindo valores baixos mesmo com tumor volumoso.

Ele também sobe por obstrução biliar sem tumor nenhum. Colestase eleva o CA 19-9, e por isso um valor colhido no paciente ictérico, antes de qualquer desobstrução, é de leitura difícil e não deve ser usado como argumento de gravidade na conversa com o paciente.

O que ele serve. Serve como marcador de biologia tumoral no processo de decisão cirúrgica, junto com a anatomia e com a funcionalidade do paciente — a régua brasileira diz, com essas palavras, que pacientes com níveis muito elevados não são bons candidatos à cirurgia imediata e que a quimioterapia inicial vem sendo usada nesses casos para selecionar quem de fato se beneficiará da operação. E serve, depois do tratamento, para seguimento: a orientação nacional é acompanhamento semestral com o marcador e imagem conforme indicado após cirurgia com intenção curativa.

Duas advertências sobre o número que a régua brasileira publica. A primeira é de unidade: o texto do Instituto Nacional de Câncer expressa o corte em nanogramas por mililitro, e o CA 19-9 é reportado universalmente em unidades por mililitro. Não é a mesma grandeza, e não há fator de conversão entre elas. O laudo que chegar ao seu prontuário virá em unidades por mililitro — a leitura é essa. A segunda é de forma: o corte é dado como "superiores a 500 ou 1.000", que são dois cortes, e o documento não escolhe entre eles. As duas observações estão detalhadas, com a conta, nas notas do bloco de fluxos e tabelas.

A regra prática que sai disso é curta. Não peça CA 19-9 para decidir se investiga: investigue pela clínica e pela imagem. Colha-o quando o caso já estiver encaminhado ao serviço de referência, porque lá ele entra na decisão de sequência terapêutica, e anote o valor da bilirrubina do mesmo dia ao lado dele, porque sem isso ninguém consegue interpretar o marcador depois.

Por que não se drena nem se biopsia antes de discutir ressecabilidade

Esta é a decisão que mais separa o interno que ajuda do interno que atrapalha, e ela é contraintuitiva: diante de um paciente amarelo, com prurido e bilirrubina alta, a resposta instintiva é aliviar. Na obstrução maligna sem colangite, aliviar antes de decidir custa caro.

O primeiro custo é da imagem. A prótese biliar, plástica ou metálica, produz artefato e inflamação periductal; a manipulação endoscópica edemacia a região periampular. A tomografia feita depois de uma drenagem é sistematicamente mais difícil de ler justamente onde a leitura decide — o contato do tumor com a veia mesentérica superior e com a artéria mesentérica superior. Quem drena antes de tomografar troca um exame que responderia a pergunta por um exame que não responde.

O segundo custo é infeccioso e operatório. A instrumentação da via biliar contamina uma árvore que era estéril: a bile de quem foi drenado por endoscopia é colonizada em altíssima proporção, e isso se traduz em mais infecção de sítio cirúrgico e mais complicação depois de uma operação que já é grande. Há ainda o risco do próprio procedimento — pancreatite pós-procedimento, sangramento, perfuração — num paciente que talvez fosse direto para a cirurgia.

O terceiro custo é o tempo. Cada procedimento agenda, interna, recupera e adia. O paciente drenado sai do pronto-socorro sentindo-se melhor, sem laudo histológico, sem estadiamento e sem data cirúrgica, e o relógio dos sessenta dias sequer começou, porque ele conta a partir do diagnóstico firmado em laudo patológico.

A regra, então, com as exceções coladas nela. Não se drena a via biliar na obstrução maligna sem colangite antes que a tomografia com protocolo esteja feita e que o caso tenha sido discutido com o serviço que vai operar. Drena-se quando há colangite, que é emergência e não espera; quando há prurido incoercível que não cede a medida nenhuma; quando o paciente vai receber quimioterapia antes da cirurgia, situação em que a drenagem passa a ser parte do plano e não um atalho; e quando a doença é irressecável ou metastática e a drenagem é o tratamento paliativo em si.

O mesmo raciocínio vale para a biópsia, e aqui está a frase que mais surpreende o interno: uma lesão inequivocamente ressecável, em paciente com bom estado geral e com tomografia de qualidade que define bem as relações anatômico-vasculares, pode ir para a cirurgia sem confirmação histológica prévia — a própria régua brasileira admite que exames adicionais, até mesmo a biópsia, podem ser dispensados nessa situação. A razão é que a punção percutânea de uma lesão ressecável não muda a conduta, tem risco de resultado falso-negativo e carrega preocupação com disseminação pelo trajeto. Já a confirmação histopatológica é fundamental sempre que a cirurgia imediata não for apropriada, porque nenhuma quimioterapia começa sem diagnóstico. Quando a punção é necessária, o caminho preferido é a ecoendoscopia, não a via percutânea.

O que o interno faz com isso na prática do hospital regional. Escreva no encaminhamento, com estas palavras, que a via biliar não foi instrumentada, que a tomografia foi feita antes de qualquer drenagem, e a data das duas coisas. É informação que vale mais para o cirurgião do que qualquer resumo clínico, e é a informação que costuma se perder no caminho.

Ressecável, limítrofe, irressecável, metastático — e ressecável não é operável

A pergunta que a tomografia responde é anatômica e tem quatro respostas possíveis, e o interno precisa entender a lógica delas mesmo sem decorar graus de contato vascular, que são competência do radiologista e do cirurgião de pâncreas.

Ressecável é o tumor que não toca as artérias que não podem ser sacrificadas — tronco celíaco, artéria mesentérica superior, artéria hepática comum — e que, se toca as veias porta e mesentérica superior, toca pouco e sem deformá-las. Limítrofe, ou borderline, é o tumor que já tem contato relevante com essas estruturas, mas de uma forma que ainda permitiria uma reconstrução vascular ou que poderia recuar com tratamento antes da cirurgia. Irressecável localmente avançado é o tumor que envolve circunferencialmente as artérias, ou que oclui as veias sem possibilidade de reconstrução. Metastático é o que já está no fígado, no peritônio ou no pulmão, e nesse caso a discussão anatômica local perde o sentido.

A régua brasileira nomeia essas quatro categorias e diz o que entra na decisão — características do paciente, sobretudo a capacidade física, os aspectos anatômicos definidos pela tomografia contrastada, e a biologia tumoral expressa de forma grosseira pelo CA 19-9 —, mas não fixa, em documento federal, os graus de contato vascular em números. Nenhum protocolo clínico nem diretriz diagnóstica e terapêutica do Ministério da Saúde trata do câncer de pâncreas: a lista alfabética de protocolos do Ministério não traz o tema, e a única norma federal específica sobre o pâncreas é o protocolo da insuficiência pancreática exócrina, que cuida de uma consequência e não da doença. Os critérios anatômicos usados no Brasil são, na prática, os de consensos internacionais, adotados serviço a serviço. Isso é uma informação que o interno deve ter na boca, porque ela explica por que dois serviços do mesmo estado classificam o mesmo exame de forma diferente.

Agora a distinção que dá título a esta seção. Ressecável é uma propriedade do tumor. Operável é uma propriedade do paciente. São perguntas independentes, respondidas por pessoas diferentes, e confundi-las produz os dois erros simétricos: mandar para a cirurgia um paciente cujo tumor sai mas cujo corpo não aguenta, e negar cirurgia a um paciente que aguentaria porque a tomografia foi lida por alguém sem prática em pâncreas.

O que responde a segunda pergunta é a capacidade funcional, a reserva cardiorrespiratória, a função hepática e renal, o estado nutricional e as comorbidades — e, muito, a experiência do serviço. A régua nacional é direta ao dizer que centros de baixo volume apresentam desfechos inferiores aos de maior volume, e ao insistir que a decisão precisa ser multidisciplinar, com radiologista, endoscopista, patologista, radio-oncologista, oncologista clínico e cirurgião na mesma mesa. Traduzido para a decisão do interno num hospital de cento e quarenta leitos: este paciente não é operado aqui, e a tarefa de hoje é fazer o exame certo e encaminhar com o exame na mão.

Um número para calibrar a expectativa, e ele é duro: apenas 15 a 20 por cento dos pacientes são elegíveis para cirurgia imediata no momento do diagnóstico. Quatro em cada cinco pessoas que você atender com esta doença não vão para a operação grande. Isso não significa que quatro em cada cinco não têm o que fazer, e o bloco de conduta é sobre exatamente isso.

O que se escreve no encaminhamento

O encaminhamento é o produto do seu dia de trabalho, e ele vale mais do que o diagnóstico que você acha que fez. Um encaminhamento que diz "icterícia obstrutiva, avaliar" desperdiça tudo o que você colheu e joga o paciente numa fila genérica.

Ponha, na ordem: identificação e idade; a hipótese diagnóstica principal escrita por extenso, com a palavra neoplasia; a data em que a icterícia começou, referida por semanas; a acolia e a colúria com o tempo de cada uma; o peso de hoje aferido por você, o peso anterior com data e âncora, e o percentual perdido; o achado do exame físico que muda a hipótese, inclusive a vesícula palpável indolor quando presente; o diabetes de início recente com a data do início e a glicemia que o motivou; e o resultado das provas hepáticas com a data.

Ponha, em destaque, o estado da via biliar: se ela foi instrumentada ou não, e a data. Ponha se a tomografia foi feita antes de qualquer drenagem. Ponha o número e a data do exame de imagem, e mande a mídia junto, porque relatório sem imagem obriga o serviço de destino a repetir o exame e a repetição consome semanas do prazo legal.

Ponha a funcionalidade em uma frase concreta e observada: se o paciente anda sozinho, se sobe escada, se faz as próprias atividades, se está acamado parte do dia. Essa frase é a que ninguém no serviço de destino terá, e é a que mais pesa na diferença entre ressecável e operável.

E ponha as datas que fazem os relógios andarem: a data em que você fez a solicitação fundamentada dos exames, para o prazo de trinta dias, e, quando o laudo anatomopatológico existir, a data em que ele foi assinado, para o prazo de sessenta. Entregue ao paciente uma cópia com as duas datas escritas. Ele vai precisar delas antes de você.

07

Fluxos e tabelas

Icterícia indolor progressiva sugere obstrução maligna, mas não confirma sua causa. O percurso precisa identificar urgência infecciosa, anatomia e repercussão.

  1. 1Caracterizar icterícia, febre, dor, fezes e urina, perda de peso, ingestão e funcionalidade; procurar disfunção e suspeita de colangite sem exigir a tríade completa.
  2. 2Confirmar padrão laboratorial e usar ultrassom como exame inicial quando apropriado; pâncreas não visto ou ausência de dilatação não encerram suspeita persistente.
  3. 3Obter TC com protocolo de pâncreas e estadiamento adequado, ou exames alternativos conforme contraindicações e pergunta, enviando as imagens ao serviço de referência.
  4. 4Em paciente estável, discutir intervenções biliares após definir anatomia e plano. Colangite, sintomas importantes ou atraso de tratamento podem mudar a necessidade e o tempo de drenagem.
  5. 5Biópsia não é obrigatória antes de toda ressecção primária de lesão típica, mas costuma ser necessária antes de tratamento sistêmico/neoadjuvante ou quando há dúvida diagnóstica; escolher método e sítio com a equipe.
  6. 6Distinguir tumor ressecável, limítrofe, localmente avançado e metastático, e avaliar condição clínica; o interno organiza dados, não decide ressecabilidade sozinho.
  7. 7Tratar dor, prurido, desnutrição, insuficiência pancreática e diabetes conforme necessidade, com acompanhamento da resposta.
  8. 8Organizar seguimento e comunicação do plano em qualquer estágio, incluindo medidas paliativas precoces e suporte ao paciente e à família.

Antes de aliviar, decida

Na obstrução biliar maligna sem colangite, a drenagem feita antes da tomografia com protocolo cobra três preços: piora a leitura do exame exatamente onde ele decide cirurgia, contamina uma via biliar que era estéril e aumenta infecção depois da operação, e consome semanas sem fazer o relógio legal andar, porque o prazo de sessenta dias conta do laudo patológico e não do alívio do sintoma. Drena-se quando há colangite, quando o prurido não cede a nada, quando o plano é quimioterapia antes da cirurgia, e quando a doença é irressecável e a drenagem é o próprio tratamento. Fora disso: primeiro a imagem, depois a decisão, e só então o alívio mecânico. O prurido e a dor, esses, se tratam desde a primeira consulta.

Os quatro amarelos do adulto: o que separa à beira do leito

EixoObstrução malignaColedocolitíaseHepatite agudaColestase por fármaco
DorAusente, ou peso epigástrico que atravessa para o dorso e alivia com o tronco fletidoCólica biliar, em episódios, no quadrante superior direito ou epigástrioDesconforto difuso, hepatalgia leveAusente ou leve
Curso da icteríciaSó sobe, ao longo de semanasFlutua conforme a pedra se moveSobe e desce em dias a semanas, com pródromoEstabiliza ou melhora após retirar o agente
Cor das fezesClara, persistente, por semanasClareia nos episódios e volta ao normal entre elesPode clarear transitoriamente, sem persistirPode clarear, de forma variável
FebreAusente, salvo quando infecta e vira colangitePresente quando infectaPode haver febre baixa no pródromoAusente, salvo reação de hipersensibilidade
PesoPerda importante e quantificável, mesesSem perda característicaPerda pequena, do período agudoSem perda característica
Via biliar na ultrassonografiaDilatada, com obstrução distal; pâncreas frequentemente não visualizadoDilatada, com cálculo visível ou vesícula litiásicaNão dilatadaNão dilatada
Vesícula palpável e indolorPode estar presente, e quando está aponta para obstrução distal malignaRara: a vesícula litiásica é fibrosada e não distendeAusenteAusente
O que decideTomografia com protocolo de pâncreas, em duas fasesImagem da via biliar e, conforme o caso, drenagemSorologias e história de exposiçãoCronologia em relação à droga e ausência de dilatação

Pancreatina: da dose por refeição à cápsula que a farmácia entrega

Dose por refeição (UI de lipase)Em cápsulas de 10.000 UIEm cápsulas de 25.000 UIDia inteiro: 3 refeições + 2 lanches à metadeO que isso significa na prática
10.0001 cápsula0,4 cápsula40.000 UI/diaDose de início do protocolo em vigor. O lanche pediria meia cápsula de 10.000, que não existe
25.0002,5 cápsulas1 cápsula100.000 UI/diaPiso da faixa que a bula indica para insuficiência exócrina não ligada à fibrose cística
50.0005 cápsulas2 cápsulas200.000 UI/diaTeto do protocolo em vigor, e a única dose que sai inteira nas duas apresentações
75.0007,5 cápsulas3 cápsulas300.000 UI/diaSó é dispensável em cápsulas de 25.000; com as de 10.000 exigiria meia cápsula
80.0008 cápsulas3,2 cápsulas320.000 UI/diaSó é dispensável em cápsulas de 10.000. Teto da bula e da proposta em consulta pública

Quatro endereços periampulares, quatro histórias

OrigemComo obstrui a via biliarPista à beira do leitoMomento típico do diagnóstico
Cabeça do pâncreasPrecisa crescer no parênquima até alcançar o colédoco intrapancreáticoIcterícia indolor, vesícula palpável, diabetes novo, dor dorsal quando avançaMais tarde: quando amarela, o tumor já tem alguns centímetros
Ampola de VaterNasce dentro da própria papila; poucos milímetros já fecham a saídaIcterícia que pode flutuar, e anemia ferropriva por sangramento para o duodenoMais cedo, com menos volume tumoral e melhor prognóstico
Colédoco distalÉ o próprio ducto que estenosaIcterícia indolor progressiva, sem massa pancreática à imagemIntermediário
Duodeno periampularComprime ou infiltra a papila a partir da parede duodenalIcterícia com plenitude precoce, vômitos, anemiaIntermediário, às vezes com obstrução duodenal associada

A estimativa de 2026–2028 citada totaliza 13.240 casos: 6.330 masculinos e 6.910 femininos. Os 13.507 óbitos apresentados são de 2023. Incidência estimada e mortalidade observada pertencem a períodos diferentes e não devem ser divididas para calcular letalidade.

A tabela antiga citada inclui exatamente 2 cm em T1 e T2, por usar sinais sobrepostos. Na classificação da qual foi transcrita, T2 começa acima de 2 cm. Ao estadiar, use a edição adotada pela equipe e registre o tamanho medido, sem escolher categoria por uma fronteira ambígua.

A tabela da página citada usa categorias de edição antiga, incluindo agrupamentos e definições de T e N diferentes dos laudos mais recentes. Identifique a edição antes de comparar. Um laudo com N2 ou T definido por tamanho não deve ser considerado incorreto apenas porque esses itens não aparecem nessa página.

Registre CA 19-9 em U/mL, conforme o ensaio do laboratório. A expressão ng/mL na fonte não permite conversão direta para essa unidade. Os valores isolados também não definem ressecabilidade: precisam ser interpretados com obstrução biliar, imagem e avaliação da equipe.

A página apresenta datas de cabeçalho que não abrangem todas as referências acrescentadas ao corpo. O carimbo de atualização não comprova que cada tabela tenha sido revisada. Para o estadiamento, identifique a classificação efetivamente utilizada, em vez de deduzi-la pela data da página.

O PCDT de insuficiência pancreática exócrina citado admite critérios clínicos em câncer ou ressecção pancreática, embora sua lista de códigos não inclua diretamente todas essas causas. Na solicitação, documente a insuficiência e sua manifestação de forma verdadeira e completa. A equipe responsável deve adequar o registro ao fluxo de acesso sem substituir o diagnóstico por conveniência administrativa.

O protocolo apresenta faixas para refeições e lanches e também descreve a regra de metade da dose. No limite inferior, essas orientações não coincidem. Defina a quantidade em UI de lipase, considerando refeição, resposta e apresentação disponível; não aplique a divisão automaticamente sem conferir o resultado.

A versão preliminar de 2025 apresenta redações diferentes sobre dose inicial e momento de aumento em pacientes selecionados. Uma minuta não deve ser tratada como protocolo final. A equipe precisa definir o regime pela referência aplicável e pela resposta, registrando ajuste e reavaliação.

As cápsulas citadas contêm 10.000 ou 25.000 UI de lipase. Uma dose de 50.000 UI corresponde a cinco das primeiras ou duas das segundas; doses maiores exigem conferir as combinações possíveis. Não prescreva fração de cápsula por simples divisão nem danifique a formulação. Confira a orientação específica do produto.

A prescrição é expressa em UI de lipase. As quantidades de amilase e protease não aumentam na mesma proporção entre apresentações, embora a dose total de lipase possa coincidir. Registre mudança de apresentação e acompanhe fezes, sintomas e peso, sem presumir equivalência de todos os componentes apenas pelo número de cápsulas.

O limite diário descrito na bula depende do peso e deve ser calculado a partir de todas as refeições e lanches. Não conclua que ele nunca limita um adulto. Confira UI de lipase por cápsula, dose diária total e resposta clínica antes de qualquer escalonamento.

As fontes brasileiras consultadas não oferecem um protocolo completo com todos os limites anatômicos de ressecabilidade. O serviço precisa identificar o consenso e a edição que utiliza. A discussão da tomografia deve descrever contato vascular e extensão, além de usar os rótulos ressecável, limítrofe ou avançado.

Ausência de febre e dor não exclui colangite, sobretudo em apresentações incompletas. Suspeita de infecção e deterioração exigem avaliação urgente. Fora da urgência, drenagem pré-operatória e biópsia dependem do plano terapêutico; não são etapas automáticas para toda massa pancreática.

08

A conduta, hora a hora

Aqui você prescreve pouco e decide muito. O tratamento que muda a história desta doença acontece noventa quilômetros adiante, num serviço que você não comanda, com uma equipe que você não conhece. O que este capítulo põe nas suas mãos são cinco coisas que só acontecem se você fizer: o exame certo na ordem certa, a via biliar preservada, o encaminhamento que carrega informação, os relógios legais contados, e o sofrimento tratado desde hoje.

A linha do tempo abaixo é a de Milburgo Ubajara, o senhor de 63 anos da consulta de terça-feira. As datas são dele, mas a estrutura serve para qualquer paciente que entre com este amarelo.

No acompanhamento, registrar três eixos além da imagem: ingestão e peso; dor, prurido e sono; evacuações e sinais de má absorção. Esteatorreia e perda nutricional podem indicar insuficiência exócrina e necessidade de enzimas com refeições, com dose e resposta revistas pela equipe. O marcador CA 19-9 não confirma sozinho câncer e pode ser influenciado pela colestase; sua interpretação deve considerar o contexto.

  1. Dia 0, primeira hora — a consulta que define tudo

    Os quinze minutos do ambulatório rendem mais do que qualquer exame se forem gastos nas coisas certas. Pese o paciente na sua frente e ancore o peso anterior numa data verificável. Pergunte pela cor das fezes com a palavra que ele entende. Olhe os antebraços procurando escoriações. Palpe o quadrante superior direito procurando volume, não dor, e registre o achado com essas palavras. Procure fígado nodular, ascite, linfonodo supraclavicular esquerdo e nódulo periumbilical, porque qualquer um deles já responde a pergunta do estadiamento antes da tomografia. E pergunte a data do diagnóstico de diabetes, porque ela costuma ser o primeiro sintoma da doença.

    Prescrição
    • Registrar no prontuário: peso de hoje aferido, peso anterior com data e âncora, e o percentual de perda calculado — em Milburgo, 61 kg hoje contra 72 kg em outubro, perda de 11 kg, quinze por cento do peso corporal
    • Registrar: tempo de icterícia, tempo de acolia, tempo de colúria, ausência de dor e ausência de febre, cada um em semanas
    • Registrar o exame do abdome com a frase completa: vesícula palpável abaixo da borda hepática, indolor, móvel com a respiração — ou a sua ausência
    • Registrar a data de início do hipoglicemiante e a glicemia que o motivou
    • Registrar a funcionalidade em frase observada: anda sozinho, sobe escada, faz as próprias atividades
    • Não prescrever sintomático hepático, não prescrever anti-histamínico como se fosse tratamento, e não prescrever retorno em trinta dias
  2. Dia 0, ainda na mesma consulta — os pedidos que fazem o relógio andar

    Dois pedidos saem hoje, e os dois saem fundamentados. O laboratório responde o padrão da lesão e prepara o paciente para qualquer procedimento; a imagem responde se a via biliar está dilatada e onde ela para. A tomografia é pedida no mesmo dia, e não depois do resultado do ultrassom, porque a fila da tomografia é mais longa e porque a resposta que ela dá não será dispensada em nenhum cenário.

    Prescrição
    • Bilirrubinas totais e frações, fosfatase alcalina, gama-glutamil transferase, alanina e aspartato aminotransferases, albumina, hemograma completo, coagulograma com atividade de protrombina e razão normalizada internacional, ureia, creatinina e glicemia de jejum
    • Ultrassonografia de abdome total, com a pergunta escrita no pedido: avaliar calibre do colédoco e das vias intra-hepáticas, presença de cálculo e visualização da cabeça do pâncreas
    • Tomografia computadorizada de abdome superior com contraste intravenoso, protocolo de pâncreas, em fase arterial tardia e fase portal, com cortes finos e reconstruções multiplanares; e tomografia de tórax com contraste
    • Escrever nos dois pedidos, com estas palavras: hipótese diagnóstica principal de neoplasia periampular, solicitação fundamentada — homem de 63 anos, icterícia indolor progressiva há 5 semanas, acolia há 6 semanas, colúria, perda de 11 kg em 8 meses correspondendo a quinze por cento do peso, diabetes de início recente aos 63 anos em paciente magro, vesícula palpável e indolor
    • Datar o pedido, guardar cópia no prontuário e entregar uma cópia datada ao paciente — é dessa data que corre o prazo de trinta dias do artigo 2º, § 3º, da Lei nº 12.732
    • Não solicitar CA 19-9 nesta consulta: ele não decide se investiga e sobe por colestase sem tumor nenhum
  3. Dia 0, antes de o paciente sair da sala — o que não espera exame nenhum

    Quatro problemas começam a ser tratados hoje, e nenhum deles depende de saber o diagnóstico: o prurido, a dor, a nutrição e a coagulação. Adiar qualquer um deles para depois do estadiamento é a forma mais comum de o interno transformar seis semanas de espera em seis semanas de sofrimento evitável.

    Prescrição
    • Prurido, medidas gerais: banho morno e curto, sem sabonete abrasivo; hidratante após o banho; unhas curtas e aparadas; roupas de algodão; evitar calor e ambiente seco à noite, que é quando ele piora
    • Prurido, o que o elenco oferece e o que ele não oferece: a colestiramina, primeira escolha clássica do prurido colestático, não consta da Rename 2024, e naltrexona e sertralina também não. Restam anti-histamínicos do componente básico — maleato de dexclorfeniramina 2 mg por via oral até de 8 em 8 horas, que é 1 comprimido de 2 mg — cujo benefício aqui é sobretudo sedativo e não age no mecanismo. Diga isso ao paciente em vez de prometer alívio
    • Prurido, o que de fato resolve: a desobstrução da via biliar. Registre a intensidade do prurido, o número de despertares noturnos e as escoriações, porque é esse registro que sustenta a indicação de drenagem quando ela vier
    • Dor, base: dipirona 500 mg a 1 g por via oral até de 6 em 6 horas — 1 g equivale a 2 comprimidos de 500 mg. Se ela não bastar, a escada, a escolha do opioide, a titulação e o rodízio são do capítulo Analgesia no paciente internado, na apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado, e do capítulo Cuidados paliativos e dor oncológica, na apostila de Geriatria
    • Nutrição: dieta fracionada em cinco a seis tomadas, hipercalórica, sem restrição de gordura — a restrição agrava a deficiência de ácidos graxos essenciais e de vitaminas lipossolúveis. Pesagem semanal anotada no prontuário e no cartão do paciente. A escolha da via e a progressão da dieta hospitalar são do capítulo A linha que ninguém revisa, na apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado
    • Coagulação: se a atividade de protrombina vier alargada, a causa provável é deficiência de vitamina K por má absorção, e ela corrige com reposição parenteral. A vitamina K não consta do elenco da Rename 2024 — confirme hoje, com a farmácia do seu hospital, se ela existe ali, e não descubra isso na véspera de um procedimento
  4. Dia 3 — a ultrassonografia volta

    O laudo diz colédoco de 12 milímetros, vias intra-hepáticas dilatadas, vesícula distendida sem cálculos, e pâncreas parcialmente visualizado por interposição gasosa. Esse laudo não é negativo e não é inconclusivo: ele é positivo para obstrução biliar distal e silente sobre a causa. A primeira pergunta do fluxo está respondida; a terceira, não. Nada muda no plano, e é justamente por isso que a tomografia foi pedida no dia zero.

    Prescrição
    • Registrar no prontuário: calibre do colédoco, estado das vias intra-hepáticas, ausência de cálculo, estado da vesícula e a frase exata sobre a visualização do pâncreas
    • Confirmar a data agendada da tomografia e anotá-la; se ainda não houver data, contato registrado com a regulação, com dia, nome do interlocutor e resposta obtida
    • Manter o retorno aberto: o paciente é atendido no dia em que trouxer o exame, sem agendamento novo
    • Não solicitar colangiopancreatografia retrógrada endoscópica neste momento: ela é procedimento terapêutico e não exame diagnóstico neste roteiro
  5. Dia 11 — a tomografia na mão

    O laudo descreve lesão hipoatenuante de 2,8 centímetros na cabeça do pâncreas, com dilatação do ducto pancreático principal a montante e do colédoco, sem contato com o tronco celíaco nem com a artéria mesentérica superior, com contato inferior a um quarto da circunferência da veia mesentérica superior, sem alteração do calibre venoso, e sem lesões hepáticas ou pulmonares. A leitura que importa para você é a última linha: as artérias estão livres e não há doença a distância. Isso não faz de você quem decide a ressecabilidade — faz de você quem sabe que este caso tem pressa.

    Prescrição
    • Registrar no prontuário o tamanho da lesão, a relação com cada vaso descrita no laudo, e a ausência ou presença de doença a distância
    • Registrar, com estas palavras, que a via biliar não foi instrumentada e que a tomografia foi feita antes de qualquer drenagem
    • Não indicar punção percutânea: lesão potencialmente ressecável, com tomografia de qualidade e paciente em bom estado geral, pode ir à cirurgia sem confirmação histológica prévia, e a punção percutânea aqui não muda conduta
    • Neste paciente estável, organizar estadiamento e discussão especializada antes de drenagem de rotina. Rever se houver colangite, sintomas importantes, necessidade de tratamento neoadjuvante, demora cirúrgica relevante ou outra indicação individualizada; ausência de febre ou da tríade completa não exclui colangite.
    • Solicitar CA 19-9 agora, anotando ao lado o valor da bilirrubina total do mesmo dia, porque sem ele o marcador não é interpretável depois
  6. Dia 12 — o encaminhamento, que é o produto do seu trabalho

    O paciente sai daqui com um papel, e a qualidade desse papel determina em quantas semanas ele será operado. Encaminhamento genérico entra em fila genérica. Encaminhamento com hipótese escrita, imagem anexada, datas e funcionalidade entra em discussão multidisciplinar, que é onde a decisão acontece — com radiologista, endoscopista, patologista, radio-oncologista, oncologista clínico e cirurgião, e num serviço de volume, porque centros de baixo volume têm desfechos piores.

    Prescrição
    • Encaminhamento formal a serviço com cirurgia de pâncreas e habilitação em oncologia, com a mídia da tomografia anexada — relatório sem imagem obriga a repetir o exame e consome semanas do prazo legal
    • Escrever a pergunta específica ao destino: lesão de cabeça de pâncreas de 2,8 cm, artérias livres, contato venoso mínimo, sem doença a distância, via biliar não instrumentada — solicito avaliação de ressecabilidade e definição de sequência terapêutica
    • Anexar: laudo e mídia da tomografia de abdome e de tórax, laudo da ultrassonografia, exames laboratoriais com data, peso atual e anterior com percentual, e a frase sobre funcionalidade
    • Entregar ao paciente cópia do encaminhamento com a data de emissão visível, e explicar em voz alta o que ele deve levar e a quem
    • Marcar retorno em duas semanas mesmo sem novidade, para pesar, revisar o prurido e a dor, e conferir se a referência andou
  7. Se a decisão for operar — a duodenopancreatectomia na medida do interno

    A duodenopancreatectomia, ou operação de Whipple, retira em bloco, a cabeça do pâncreas, o duodeno inteiro, a vesícula e o colédoco distal, com frequência a parte final do estômago, e reconstrói três anastomoses: o pâncreas remanescente ao intestino, a via biliar ao intestino e o estômago ao intestino. Ela é grande por três motivos somados — retira quatro órgãos que compartilham a mesma irrigação, exige dissecção junto a vasos que não podem ser sacrificados, e refaz três junções, uma das quais é feita com um tecido que digere. É essa última que explica a complicação que domina o pós-operatório: a fístula pancreática. O interno não descreve o ato cirúrgico, mas precisa saber o que ele custa e o que ele deixa, porque é ele quem vai receber esse paciente de volta na enfermaria e no ambulatório.

    Prescrição
    • O que muda para sempre, e precisa ser dito antes da operação, não depois: insuficiência exócrina com esteatorreia, diabetes ou piora do diabetes já existente, e esvaziamento gástrico lento nas primeiras semanas
    • Insuficiência exócrina: a pancreatina consta da Rename 2024 em cápsulas de 10.000 UI e de 25.000 UI, no componente especializado. O protocolo em vigor manda iniciar com 10.000 UI por refeição e titular até 50.000 UI por refeição, com metade da dose nos lanches — em cápsulas de 25.000, isso são 2 por refeição principal e 1 por lanche, oito cápsulas por dia
    • A cápsula é tomada durante ou imediatamente após a refeição, inteira, sem amassar e sem mastigar, e não deve permanecer na boca — os grânulos irritam a mucosa
    • O código que abre a dispensação é o da esteatorreia pancreática, e não o da neoplasia: o protocolo admite o paciente de câncer ou de ressecção por critério clínico, mas a lista de códigos dele não traz a neoplasia
    • Diabetes: glicemia capilar e orientação de reconhecimento de hipoglicemia antes da alta. O manejo é do capítulo Hiperglicemia no paciente internado, na apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado, e do capítulo Diabetes tipo 2 na unidade básica, na apostila de Endocrinologia
    • Esvaziamento gástrico lento: dieta fracionada, progressão lenta, e antiemético quando necessário — metoclopramida 10 mg por via oral ou intravenosa até de 8 em 8 horas, que é 1 comprimido de 10 mg ou 2 mL da solução de 5 mg/mL, ou ondansetrona 8 mg por via oral, que é 1 comprimido de 8 mg
    • Seguimento após cirurgia com intenção curativa: acompanhamento semestral com CA 19-9 e imagem conforme indicação
  8. Se a decisão não for operar — paliação precoce não é o fim da linha

    Quatro em cada cinco pacientes com esta doença não vão para a operação, e essa é a população deste marco. A frase que precisa sair da sua boca, para o paciente e para a equipe, é que não operar não é não tratar. Há cinco coisas concretas a fazer, e todas melhoram vida medida em semanas de conforto: desobstruir a via biliar, controlar a dor pela raiz, repor enzima, sustentar a nutrição e envolver cedo quem cuida de sintoma. Encaminhamento paliativo é indicação ativa, feita no dia em que a doença é dita irressecável, e não uma carta de despedida escrita depois que tudo falhou.

    Prescrição
    • Drenagem biliar como tratamento, e não como atalho: aqui a prótese é a conduta, porque resolve icterícia, prurido e má absorção de gordura, e porque sem bile no intestino nenhuma dieta funciona. Indique e encaminhe com a indicação escrita
    • Dor pela raiz: a dor que atravessa para o dorso vem da invasão do plexo celíaco e responde mal à escada isolada. Levante formalmente, no encaminhamento, a pergunta sobre bloqueio ou neurólise do plexo celíaco, que é procedimento e não prescrição
    • Opioide quando a base não basta, com o registro que abre o direito: sulfato de morfina 10 mg/mL solução oral, e comprimidos de 10 mg e 30 mg, constam da Rename no componente especializado. Registre no prontuário a manifestação dolorosa de causa oncológica, porque é ela que aciona o tratamento privilegiado e gratuito de acesso a opioides do artigo 2º, § 2º, da Lei nº 12.732
    • Enzima pancreática também aqui, e não só no operado: a obstrução do ducto pancreático pelo tumor produz a mesma esteatorreia, e o protocolo em vigor inclui o paciente de câncer por critério clínico
    • Nutrição sem restrição de gordura, fracionada, com o alimento mais calórico que a família consegue comprar; e vigilância de vitaminas lipossolúveis. Não há apostila de nutrologia de adulto neste nível, e por isso este capítulo assume o mínimo que decide: a conta calórica e a via são do capítulo A linha que ninguém revisa, na apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado, e o resto se resolve com nutricionista da equipe
    • Encaminhamento a cuidados paliativos no mesmo dia da definição de irressecabilidade, e não meses depois. O método da conversa é dos capítulos Comunicação de más notícias e O que se diz quando não se sabe, na apostila de Comunicação, Ética e Segurança na Prática; o manejo de sintoma no fim da vida é do capítulo Ninguém disse que era hoje, da mesma apostila, e do capítulo Cuidados paliativos e dor oncológica, na apostila de Geriatria
    • Registrar as preferências do paciente sobre o que ele quer e o que não quer, com data — a limitação terapêutica e a ordem de não reanimar são do capítulo O que continua quando se decide parar, na apostila de Comunicação, Ética e Segurança na Prática
09

Como saber se está funcionando

Nesta doença você não reavalia um tratamento: reavalia um trajeto. Os parâmetros abaixo medem se o paciente está andando pelo sistema e se o sofrimento está controlado, que são as duas coisas sob o seu governo antes de o serviço de referência assumir.

Dias corridos desde a solicitação fundamentada dos examesConfira no dia 15 e no dia 28

Esperado: Exames de elucidação realizados dentro de trinta dias

Se não melhora: Chegando ao dia 28 sem exame agendado, mude o canal e mude o tom: pare de telefonar e passe a escrever. Um ofício curto à regulação, citando o número do pedido, a data de emissão e o prazo legal, vale mais que cinco ligações. Guarde no prontuário a data do ofício, o nome de quem recebeu e a resposta obtida, e leve o mesmo texto à ouvidoria. Essa cobrança é tarefa sua e da equipe: o papel datado está com você, e é ele que sustenta a reclamação.

Bilirrubina total e diretaSemanalmente enquanto a referência não assume

Esperado: Estabilidade ou queda lenta; a bilirrubina não cai sozinha na obstrução maligna

Se não melhora: Bilirrubina em subida franca, com prurido incoercível, colangite ou prostração, muda a conversa com o serviço de destino: deixa de ser encaminhamento eletivo e passa a ser pedido de drenagem, que aqui é indicação clínica e não atalho. Escreva a curva de valores com datas no contato.

Prurido: intensidade e despertares noturnosEm toda consulta, com pergunta direta

Esperado: Alguma melhora com medidas gerais; sono preservado

Se não melhora: Prurido que impede o sono e produz escoriações novas é, por si só, indicação de desobstrução — e é o argumento que faz o serviço de referência antecipar o procedimento. Registre número de despertares e o exame da pele; descrição objetiva convence o que adjetivo não convence.

Peso, aferido na mesma balançaSemanalmente, com o número anotado no prontuário e no cartão do paciente

Esperado: Estabilização da curva depois de iniciada a dieta fracionada e hipercalórica

Se não melhora: Perda que continua apesar do aporte oferecido aponta para dois mecanismos somados que ninguém tratou: má absorção por falta de bile e por falta de enzima. Reveja se a enzima foi prescrita e se ela está sendo tomada junto da refeição, e não antes nem depois; e reveja se alguém restringiu gordura na dieta, o que é comum e é erro.

Fezes: consistência, cor e se boiamEm toda consulta

Esperado: Retorno progressivo da cor após desobstrução; fezes menos volumosas e menos oleosas após enzima em dose adequada

Se não melhora: Esteatorreia persistente com enzima em uso pede três perguntas na ordem: a dose está no teto do protocolo, a cápsula está sendo tomada durante a refeição, e há acidez gástrica desativando a enzima. O próprio protocolo em vigor prevê, para quem não responde à dose máxima, fracionar mais as refeições e associar inibidor de bomba de prótons — omeprazol 20 mg por via oral pela manhã, que é 1 cápsula de 20 mg — para adequar o pH no sítio de ação.

Atividade de protrombina e razão normalizada internacionalNa entrada e antes de qualquer procedimento

Esperado: Normalização após reposição de vitamina K, quando a causa é má absorção

Se não melhora: Coagulopatia que não corrige com vitamina K não é mais deficiência de absorção: aponta para disfunção hepatocelular, e muda a leitura do caso inteiro. Nesse ponto o problema deixa de ser só obstrução e a avaliação hepática passa a pesar na decisão cirúrgica.

Dias corridos desde a assinatura do laudo anatomopatológicoA partir do dia em que o laudo existir, com conferência no dia 30 e no dia 50

Esperado: Primeiro tratamento — cirurgia, radioterapia ou quimioterapia — iniciado dentro de sessenta dias

Se não melhora: Com o prazo vencendo, a comunicação à regulação e à ouvidoria deixa de ser cortesia e passa a ser ato formal e datado, com cópia no prontuário. Oriente o paciente e a família por escrito sobre a existência do prazo e sobre os canais de ouvidoria e defensoria, sem transformar isso em tarefa que só eles executam. E mantenha analgesia, enzima e suporte nutricional andando enquanto o tratamento não começa.

10

Onde o erro machuca

Dar ao amarelo indolor um nome que dispensa a imagem — hepatite, colestase por remédio, ou cálculo que vai passar — e marcar retorno em trinta dias.

O dano: O tumor cresce nas semanas em que ninguém está olhando. Um adenocarcinoma de cabeça de pâncreas de dois centímetros e meio, com artérias livres, é potencialmente ressecável; o mesmo tumor três meses depois pode ter encostado na artéria mesentérica superior e saído da janela cirúrgica. O dano não é atraso administrativo: é a perda da única modalidade que oferece cura.

Como pegar a tempo: A pergunta que corta os três nomes de uma vez é a mesma: a via biliar está dilatada? Icterícia com colédoco dilatado é problema mecânico e nenhum comprimido nem nenhuma sorologia explica. Peça imagem no mesmo dia, e escreva a hipótese de neoplasia no pedido, com peso, percentual e tempo.

Ler "pâncreas não visualizado por interposição gasosa" como exame negativo e encerrar a investigação.

O dano: É o laudo mais comum do país e o mais mal interpretado. A cabeça do pâncreas é retroperitoneal e fica atrás de gás; a sensibilidade da ultrassonografia despenca justo para lesões abaixo de três centímetros, que são as ressecáveis. Encerrar aqui condena o paciente a voltar meses depois com a mesma queixa e um tumor maior.

Como pegar a tempo: Trate esse laudo como o que ele é: um exame que respondeu a pergunta da via biliar e não olhou o pâncreas. Ultrassonografia com dilatação e sem causa identificada, em adulto ictérico sem dor, é indicação de tomografia com protocolo de pâncreas, e não de retorno.

Drenar a via biliar por endoscopia antes de tomografar, num paciente sem colangite, porque "a bilirrubina está muito alta".

O dano: Três prejuízos somados. A prótese e o edema periampular degradam exatamente a leitura que decide cirurgia, que é o contato do tumor com a veia e com a artéria mesentéricas superiores. A instrumentação coloniza uma via biliar estéril e aumenta infecção depois de uma operação grande. E o procedimento consome semanas sem fazer o relógio legal andar, porque o prazo de sessenta dias conta do laudo patológico e não do alívio do sintoma.

Como pegar a tempo: Primeiro a imagem, depois a decisão, e só então o alívio mecânico. Drena-se quando há colangite, quando o prurido não cede a nada, quando o plano é quimioterapia antes da cirurgia, e quando a doença é irressecável e a drenagem é o próprio tratamento. Fora disso, o sofrimento se trata por outras vias, desde a primeira consulta.

Pedir "tomografia de abdome com contraste" sem especificar protocolo de pâncreas e as duas fases.

O dano: O adenocarcinoma pancreático é hipovascular e só se destaca do parênquima na fase pancreática. Uma aquisição fora de fase pode devolver um laudo dizendo que o pâncreas está normal com o tumor lá dentro. E sem a fase portal ninguém responde a pergunta vascular, o que obriga a repetir o exame semanas depois — dentro do prazo de trinta dias que já está correndo.

Como pegar a tempo: Escreva no pedido: protocolo de pâncreas, fase arterial tardia e fase portal, cortes finos, reconstruções multiplanares. E escreva a hipótese diagnóstica por extenso, porque é ela que faz o radiologista escolher o protocolo e é ela que aciona o prazo legal.

Usar o CA 19-9 para decidir se investiga, ou anunciá-lo ao paciente como medida de gravidade.

O dano: Valor normal não afasta a doença — uma fração da população não expressa o antígeno por características do sistema de grupo sanguíneo de Lewis e mantém dosagens baixas mesmo com tumor volumoso. E valor alto no ictérico não significa doença avançada, porque a própria colestase eleva o marcador. Nos dois sentidos o número engana, e no segundo ele destrói a conversa: o paciente sai da sala com uma sentença que o exame não deu.

Como pegar a tempo: Investigue pela clínica e pela imagem. Colha o marcador quando o caso já estiver no serviço de referência, onde ele entra na decisão de sequência terapêutica, e anote ao lado a bilirrubina do mesmo dia, sem a qual ninguém consegue interpretá-lo depois.

Prescrever dieta com restrição de gordura para o paciente que tem esteatorreia, achando que a gordura é a causa.

O dano: A esteatorreia aqui vem de falta de bile e de falta de enzima, não de excesso de gordura ingerida. Restringir gordura numa pessoa que já está perdendo peso agrava a deficiência de ácidos graxos essenciais e de vitaminas lipossolúveis, e acelera a desnutrição que vai pesar contra ela na decisão cirúrgica. O protocolo brasileiro em vigor diz, com todas as letras, que não se recomenda restrição de gorduras na dieta pelo risco de agravar deficiências nutricionais.

Como pegar a tempo: Dieta fracionada, hipercalórica, sem restringir gordura. O que corrige a esteatorreia é reposição enzimática na dose certa, tomada durante a refeição, mais a desobstrução da via biliar quando ela for possível. Se a esteatorreia persiste com enzima em uso, confira a dose, o momento da tomada e a acidez gástrica, nessa ordem.

11

O que dizer ao paciente e à família

Este é um capítulo em que a conversa começa antes do diagnóstico e não pode esperar por ele. O paciente que amarelou já sabe que algo grave está acontecendo, e o silêncio do médico entre a suspeita e o laudo é preenchido por qualquer coisa. Como se dá uma má notícia — quem entra na sala, em que ordem, quanto silêncio cabe — pertence ao capítulo Comunicação de más notícias, na apostila de Comunicação, Ética e Segurança na Prática; falar de prognóstico quando ainda há incerteza pertence ao capítulo O que se diz quando não se sabe, da mesma apostila. A técnica é deles. O que fica aqui são as frases desta doença em particular, ditas do jeito que elas precisam ser ditas.

Ao explicar por que está pedindo uma tomografia hoje, antes de ter qualquer diagnóstico

O senhor está amarelo porque a bile não está conseguindo sair do fígado. O ultrassom mostrou o cano da bile dilatado, o que quer dizer que tem alguma coisa fechando esse cano, mais para baixo. O ultrassom não consegue ver essa região direito, então preciso de uma tomografia com um preparo específico para o pâncreas. Não sei ainda o que é. Sei que é mecânico e que precisa ser visto agora, não daqui a um mês.

Não diga: Evite "é só um exame de rotina" e evite "não é nada, o senhor fique tranquilo". As duas frases se voltam contra você em duas semanas, e as duas ensinam o paciente que o que você diz não é confiável.

Quando o paciente pergunta, direto, se é câncer — e o exame ainda não saiu

É uma das possibilidades, e é exatamente por isso que eu não quero esperar. Existem outras causas para o que o senhor tem, e algumas têm tratamento mais simples. Não vou dizer que é, porque eu não sei, e não vou dizer que não é, porque eu também não sei. O que eu sei é o próximo passo, e é a tomografia. Assim que ela sair, eu falo com o senhor de novo, com o resultado na mão, e o senhor pode trazer quem quiser junto.

Não diga: Evite responder com estatística nesta hora. Números de sobrevida ditos antes do diagnóstico são cruéis e frequentemente errados, porque o prognóstico depende do tipo e da extensão, e nenhum dos dois é conhecido ainda.

Ao explicar por que não vai colocar uma prótese hoje, com o paciente coçando e amarelo

Eu entendo que a coceira e a cor são o que mais incomoda, e eu vou tratar as duas coisas hoje. O que eu não vou fazer agora é colocar um tubinho para drenar a bile, e vou explicar por quê: esse procedimento inflama justamente a região que a tomografia precisa olhar para decidir se o senhor pode operar. Se eu drenar antes, o exame fica mais difícil de ler e o cirurgião pode ficar sem a resposta. A ordem certa é: exame primeiro, decisão depois, e alívio em seguida — e alívio de verdade, não paliativo. Se a coceira ficar insuportável ou se o senhor tiver febre, isso muda e a gente antecipa.

Não diga: Evite "não dá para fazer nada agora". Não é verdade: há quatro coisas sendo feitas hoje, e o paciente precisa sair sabendo quais são.

Ao dizer que o tumor parece ressecável e que ele vai ser encaminhado

A tomografia mostrou uma lesão na cabeça do pâncreas de quase três centímetros, e a notícia boa dentro da notícia ruim é que ela não está encostada nas artérias principais e não há sinal de doença em outros lugares. Isso quer dizer que a operação está em cima da mesa. Quem decide isso não sou eu: é uma equipe do hospital de referência, com cirurgião, radiologista e oncologista juntos, e é isso que eu vou providenciar. Eles vão avaliar duas coisas diferentes — se o tumor sai, e se o senhor aguenta a operação. São perguntas separadas, e as duas precisam de resposta.

Não diga: Evite prometer a cirurgia. Ressecável não é operável, e a decisão não é sua. Prometer aqui produz um paciente que se sente traído quando a equipe decide outra coisa por razões corretas.

Ao dizer que não é caso de operação

A equipe avaliou o exame e a operação não é o caminho, porque o tumor está envolvendo vasos que não podem ser retirados. Eu preciso ser claro: isso muda o objetivo do tratamento, e não significa que não há tratamento. Tem coisa a fazer, e coisa que funciona: desentupir o cano da bile para o senhor parar de coçar e voltar a absorver comida, tratar a dor pela raiz, repor a enzima que o pâncreas não está fazendo, e cuidar da alimentação. Eu já vou acionar hoje a equipe que cuida disso junto comigo, e ela entra agora e não no fim.

Não diga: Evite "não há mais nada a fazer" e evite "vamos deixar só os cuidados paliativos". A palavra "só" transforma um encaminhamento ativo em abandono, e é ela que faz a família recusar o serviço que mais ajudaria.

Ao explicar a operação de Whipple e o que ela deixa depois

É uma operação grande, e vou dizer o porquê sem enfeitar: ela retira a cabeça do pâncreas, o duodeno, a vesícula e a parte final do cano da bile, e depois reconstrói três emendas para a comida e a bile voltarem a passar. Quem opera muito disso tem resultado melhor, e é por isso que o senhor vai para lá e não fica aqui. Depois dela, três coisas costumam mudar: pode faltar a enzima que digere gordura, e aí a gente repõe em cápsula tomada junto da comida; o açúcar pode subir ou piorar, e aí a gente ajusta; e o estômago pode demorar a esvaziar nas primeiras semanas, o que passa. Isso não é complicação: é o esperado, e tem manejo.

Não diga: Evite descrever detalhes técnicos do ato cirúrgico e evite citar taxa de mortalidade da operação de memória. Você não vai operar, e um número dito errado aqui é irreversível.

Quando a família pergunta se os filhos devem fazer exame para se prevenir

Para a população em geral, não existe exame de rastreamento recomendado para câncer de pâncreas: não há prova de que fazer exame em pessoa sem sintoma traga mais benefício do que risco. Isso é diferente de dizer que não há nada a fazer. Se houver mais casos na família — pâncreas, mama, ovário, intestino ou próstata em parentes próximos —, isso é motivo para uma avaliação específica no serviço de referência, e eu escrevo isso no encaminhamento. E o que reduz risco de verdade, para todo mundo, é não fumar e cuidar do peso.

Não diga: Evite mandar a família fazer ultrassom ou CA 19-9 "por precaução". Nenhum dos dois rastreia esta doença, e os dois produzem achado incidental que gera ansiedade, exame novo e nenhum benefício.

12

Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Até onde subir a dose de enzima pancreática: 50.000 ou 80.000 unidades de lipase por refeição

O protocolo em vigor: teto de 50.000

O esquema aprovado manda iniciar com 10.000 unidades de lipase por refeição e titular conforme a resposta clínica até um teto de 50.000 unidades por refeição, com metade da dose nos lanches, e prevê que, para quem não responde à dose máxima, se fracione mais as refeições e se associe inibidor de bomba de prótons para adequar o pH no sítio de ação — em vez de subir a dose.

Portaria SAS/MS nº 112, de 4 de fevereiro de 2016, que aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Insuficiência Pancreática Exócrina, itens 7.1 e 7.2

A bula aprovada: faixa de 25.000 a 80.000

Para a insuficiência exócrina do pâncreas não relacionada à fibrose cística, a bula do profissional diz que a dose requerida por refeição pode variar de 25.000 a 80.000 unidades de lipase, com metade da dose individual nos lanches, e fixa como teto de segurança 10.000 unidades por quilo de peso corporal por dia. O piso dessa faixa é dois e meio vezes a dose com que o protocolo manda começar, e o teto é 60 por cento maior que o dele.

CREON (pancreatina), bula do profissional de saúde, aprovada pela Anvisa em 19/11/2021, item 8

A proposta em consulta pública: até 80.000, com começo em disputa

A versão preliminar do protocolo atualizado propõe elevar o teto a 80.000 unidades por refeição e nomeia o câncer de pâncreas entre as condições que já podem começar alto. Mas o próprio documento traz duas doses iniciais diferentes para esse mesmo paciente: uma passagem autoriza começar com 75.000 a 80.000, e a seção que sustenta a recomendação manda começar com 50.000 e só subir após seis meses sem melhora. Enquanto não houver portaria de aprovação, nada disso obriga.

Conitec, Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Insuficiência Pancreática Exócrina, relatório preliminar, Consulta Pública nº 76/2025, setembro de 2025

Como decidir

Avalie indicação, apresentação e dose de enzimas com a equipe e ajuste pela resposta de fezes, sintomas e peso. Antes de concluir falha, confira uso durante ou imediatamente após a refeição, conservação da formulação e ingestão efetiva. Fracionamento alimentar e medidas adicionais seguem o percurso. Persistência de perda ponderal ou esteatorreia exige revisão do plano e registro da justificativa de ajustes.

Operar sem biópsia a lesão que a tomografia mostra inequivocamente ressecável

A biópsia pode ser dispensada

A régua clínica nacional admite que exames adicionais, até mesmo a biópsia, podem ser dispensados quando o paciente apresenta bom estado geral e um exame tomográfico de qualidade tal que defina uma massa inequivocamente ressecável, valorizando o laudo estruturado que descreve as relações anatômico-vasculares. O argumento é que a punção de uma lesão ressecável não muda a conduta, pode dar falso-negativo e adia a operação; e que a definição histopatológica é indispensável apenas quando a cirurgia imediata não é apropriada.

Instituto Nacional de Câncer, Câncer de pâncreas: versão para profissionais de saúde, seções de diagnóstico e tratamento, atualizada em 07/07/2023

Sem laudo patológico, o paciente fica fora dos relógios da lei

O prazo de sessenta dias para o primeiro tratamento conta a partir do dia em que o diagnóstico é firmado em laudo patológico, e a notificação e o registro compulsórios das neoplasias pressupõem esse diagnóstico. Por essa leitura, a lesão operada sem biópsia prévia não tem relógio legal correndo até que a peça cirúrgica produza o laudo — o que retira do paciente, exatamente durante a espera pela cirurgia, o instrumento que existe para apressá-la.

Lei nº 12.732, de 22 de novembro de 2012, art. 2º, caput, e art. 4º-A, este incluído pela Lei nº 13.685, de 2018

Como decidir

A equipe define se a confirmação histológica é necessária antes do tratamento proposto. Organize o acesso com solicitação fundamentada e datas de imagem, encaminhamento e decisão registradas. Uma biópsia não deve ser indicada apenas para iniciar um prazo administrativo. Se a espera ou a proposta terapêutica mudar, rediscuta sua necessidade clínica com o serviço responsável.

Drenar a via biliar antes da definição cirúrgica quando a fila real é longa

A imagem vem antes de qualquer instrumentação

A estratégia diagnóstica nacional apoia a definição no exame tomográfico de qualidade que descreva as relações anatômico-vasculares, e é exatamente essa leitura que a prótese e o edema periampular degradam. Some-se a contaminação de uma via biliar antes estéril e o risco do próprio procedimento. Por essa posição, sem colangite não se instrumenta antes de a tomografia estar feita e o caso discutido.

Instituto Nacional de Câncer, Câncer de pâncreas: versão para profissionais de saúde, seção de diagnóstico, atualizada em 07/07/2023

A espera brasileira real muda a conta

A lei fixa trinta dias para os exames de elucidação e sessenta para o primeiro tratamento, e prevê penalidades administrativas para o descumprimento — o que só existe porque o descumprimento é frequente. Quando a espera real é de meses, o intervalo entre suspeitar e operar deixa de ser um vão curto e passa a ser um período em que se acumulam prurido incoercível, desnutrição por má absorção e coagulopatia por deficiência de vitamina K. Por essa posição, a drenagem deixa de ser atalho e passa a ser a única conduta ativa disponível no intervalo.

Lei nº 12.732, de 22 de novembro de 2012, art. 2º, caput e § 3º, este incluído pela Lei nº 13.896, de 2019, e art. 3º

Como decidir

Avalie primeiro colangite e repercussão clínica. Sem urgência infecciosa, organize imagem adequada e discussão com o serviço que tratará a lesão antes de instrumentar a via biliar. Informe tendência de bilirrubina, prurido, lesões de pele, peso e tempo de espera. Deterioração ou sintomas importantes podem exigir drenagem por indicação própria, documentada e coordenada com a equipe.

13

O raciocínio, em voz alta

Quarta-feira, oito e quarenta da manhã, enfermaria de clínica médica de um hospital regional. Ausônio Pombalzinho tem 58 anos, é marceneiro, e internou anteontem pelo pronto-socorro com "anemia a esclarecer": hemoglobina de 7,9, encaminhado da unidade básica depois de dois meses de cansaço. Recebeu duas bolsas de concentrado de hemácias na noite da entrada e o plantão pediu endoscopia, que está agendada para daqui a nove dias. Você é o interno que assume a enfermaria hoje. Na folha de exames da entrada, além da hemoglobina, estão: volume corpuscular médio 71, ferritina 8, bilirrubina total 6,2 com direta 4,8, fosfatase alcalina 480, gama-glutamil transferase 610, alanina aminotransferase 62. Ninguém comentou as três últimas linhas na passagem de plantão.

  1. Primeiro: junte o que ninguém juntou

    O caso entrou como anemia e está sendo tratado como anemia. Mas as provas hepáticas da entrada descrevem um padrão colestático — fosfatase alcalina e gama-glutamil transferase muito elevadas, com transaminase pouco alterada e bilirrubina de predomínio direto. Esse padrão em nada se explica por anemia ferropriva. A leitura formal do padrão é do capítulo Provas hepáticas, na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito; o que interessa aqui é a consequência: existem duas anormalidades separadas no mesmo paciente, e a chance de serem coincidência é pequena. A pergunta passa a ser qual doença produz as duas ao mesmo tempo.

  2. Segundo: vá ver o paciente com a pergunta na cabeça

    Ele está sentado, conversa bem, e tem esclera francamente amarela — o que ninguém escreveu na evolução, porque quem o admitiu estava olhando o hemograma. Perguntado com a palavra certa, diz que a massa está clara "tipo cor de barro" há umas cinco semanas, que a urina escureceu antes disso, e que a esposa reclama que ele coça de noite. Os antebraços têm escoriações lineares. Ele perdeu 9 quilos em cinco meses: pesava 74 na consulta do sindicato, pesa 65 hoje na balança da enfermaria. Não teve cólica, não teve febre. O abdome é mole; sob a borda hepática direita, na inspiração profunda, você sente uma estrutura lisa, tensa e indolor que desce e escorrega dos seus dedos.

  3. Terceiro: nomeie a síndrome, não o exame

    Homem de 58 anos com icterícia indolor e progressiva, acolia persistente, colúria, prurido com escoriações, perda de doze por cento do peso e vesícula palpável indolor. Isso é obstrução biliar maligna distal até prova em contrário, e a prova é imagem. A anemia ferropriva não é um segundo caso: ela é a pista que localiza o tumor. Lesão que obstrui a via biliar e ao mesmo tempo sangra para o tubo digestivo tem um endereço preferencial, que é a ampola de Vater. Isso importa hoje, e não só no prognóstico: o ampuloma é diagnosticado com menos volume tumoral e tem ressecabilidade e sobrevida melhores que o adenocarcinoma pancreático.

  4. Quarto: reordene os exames que já estão pedidos

    A endoscopia agendada não é um exame errado — ela é o exame que vê a papila e que colhe o material, e num tumor de ampola é ela que fecha o diagnóstico. O que está errado é a ordem e a fundamentação. Reescreva o pedido com a hipótese diagnóstica principal de neoplasia periampular, com peso, percentual, tempo de icterícia e o padrão laboratorial; peça exame com visão lateral da papila, porque o aparelho de visão frontal pode não olhar a ampola direito; e peça no mesmo dia a tomografia com protocolo de pâncreas em duas fases, mais tomografia de tórax. Anote a data: é dela que corre o prazo de trinta dias do artigo 2º, § 3º, da Lei nº 12.732.

  5. Quinto: decida o que não fazer

    Não peça CA 19-9 para decidir nada: ele sobe pela própria colestase. Não indique colangiopancreatografia retrógrada endoscópica com prótese antes da tomografia, porque ele não tem colangite e a prótese estragaria a leitura vascular. E não transfunda de novo por número: a anemia é crônica e ferropriva, e a decisão de transfundir é clínica. Ferro por via oral pode começar hoje, e não atrapalha nada.

  6. Sexto: trate hoje o que não espera

    Quatro prescrições saem agora. Medidas gerais para o prurido, com a conversa honesta de que o anti-histamínico disponível no elenco age pouco no mecanismo e que o que resolve é desobstruir. Dipirona 500 mg a 1 g por via oral até de 6 em 6 horas para o desconforto, que é 1 g equivalendo a 2 comprimidos de 500 mg. Dieta fracionada e hipercalórica, sem restringir gordura, com pesagem anotada. E coagulograma, porque cinco semanas de colestase produzem deficiência de vitamina K — e, se ele vier alargado, é preciso descobrir hoje se a farmácia do hospital tem vitamina K, que não consta do elenco nacional.

  7. Sétimo: escreva o que carrega o caso

    A evolução de hoje precisa conter, em texto e não em código: os dois pesos com datas e o percentual, o exame do abdome com a vesícula descrita, o tempo de cada sintoma, o padrão laboratorial, a hipótese de neoplasia periampular escrita por extenso, e a frase de que a via biliar não foi instrumentada. Na passagem de plantão, diga a frase inteira: não é anemia a esclarecer, é icterícia obstrutiva maligna com anemia ferropriva, e a anemia é parte da hipótese. Foi a ausência dessa frase, na admissão, que fez o caso perder dois dias.

14

Faça você

Sexta-feira, dez da manhã, ambulatório de clínica de uma unidade básica que fica a uma hora e vinte do hospital de referência. Zenóbia Itaporanga tem 66 anos, é aposentada, mora sozinha e vem à consulta porque a filha insistiu. Ela está amarela. Traz na sacola: uma receita de sinvastatina iniciada há sete meses, uma de metformina iniciada há quatro meses, e um exame de dois meses atrás com fosfatase alcalina 390, gama-glutamil transferase 520, alanina aminotransferase 74, bilirrubina total 3,1 com direta 2,4. Na consulta anterior, o colega anotou "provável hepatotoxicidade por estatina — suspender sinvastatina e reavaliar em 60 dias". A sinvastatina foi suspensa há dois meses. Ela diz que a cor não melhorou, que piorou. Nega dor, nega febre. Coça de noite. Pesava 68 na balança da unidade em janeiro; hoje pesa 59. Nunca foi diabética antes deste ano e sempre foi magra.

  1. 1

    Diga por que a hipótese de hepatotoxicidade por estatina não se sustenta neste caso, usando três argumentos que estão na própria história — sem pedir nenhum exame novo para isso.

  2. 2

    Nomeie a síndrome em uma frase, com as palavras que fazem a trava funcionar, e diga qual é o dado da história dela que quase ninguém relaciona com a hipótese.

  3. 3

    Escreva as três perguntas de anamnese que faltam, com as palavras que a paciente entende, e diga o que você vai procurar no exame físico do abdome — e o que esse achado significaria se estivesse presente e se estivesse ausente.

  4. 4

    Liste os exames que saem hoje, na ordem, com a redação fundamentada de cada pedido. Diga qual exame você não vai pedir e por quê.

  5. 5

    Calcule o percentual de peso perdido e escreva a frase exata que vai no pedido de imagem.

  6. 6

    Diga as quatro coisas que serão tratadas hoje, antes de qualquer resultado, e o que você vai dizer a ela sobre a coceira.

  7. 7

    Suponha que a ultrassonografia, feita em cinco dias, mostre colédoco de 14 mm, vias intra-hepáticas dilatadas, vesícula distendida sem cálculos e pâncreas não visualizado por gás. Diga o que isso encerra, o que não encerra, e qual é o passo seguinte — e diga o que você faria se ela chegasse, no mesmo dia, com 38,5 graus de temperatura e dor no quadrante superior direito.

  8. Continuidade do caso e prática do internato

    Retome os exames de Ausônio: explique por que anemia e colestase precisam de investigação integrada, sem deixar uma apagar a outra.

  9. Questão integrativa 1

    Icterícia indolor confirma câncer de pâncreas?

  10. Questão integrativa 2

    Ultrassom sem visualizar o pâncreas encerra a investigação?

  11. Questão integrativa 3

    É preciso a tríade completa para reconhecer colangite?

  12. Questão integrativa 4

    Toda massa precisa de biópsia antes de qualquer cirurgia?

  13. Questão integrativa 5

    Todo paciente ictérico deve ser drenado antes da discussão oncológica?

  14. Questão integrativa 6

    O que acompanhar enquanto Ausônio aguarda definição?

Ver como fecharíamos

1. Três argumentos, todos na história. A cronologia não fecha: a icterícia piorou depois da suspensão da estatina, e lesão por fármaco tende a estabilizar ou melhorar quando o agente sai. O padrão é colestático puro e progressivo, com fosfatase alcalina e gama-glutamil transferase muito altas e transaminase apenas discretamente elevada, o que aponta para obstrução mecânica e não para lesão hepatocelular por droga. E há perda ponderal importante, que não pertence a esse diagnóstico. Some-se o erro de processo que atravessa o caso: a conduta anterior foi reavaliar em sessenta dias, e sessenta dias é exatamente o que esta doença não tem. 2. Mulher de 66 anos com icterícia indolor e progressiva, acolia e colúria a esclarecer, com perda ponderal significativa — obstrução biliar maligna até prova em contrário. O dado que quase ninguém relaciona é o diabetes de início recente, aos 66 anos, numa mulher magra e sem história familiar, começado quatro meses atrás: hiperglicemia nova no adulto magro que emagrece é sinal precoce de adenocarcinoma pancreático, e aqui ela precedeu a icterícia. 3. As perguntas: a massa mudou de cor, ficou clara tipo barro ou massa de vidraceiro, e há quanto tempo; a urina ficou cor de chá preto e continua assim mesmo depois de beber água a manhã inteira; e a coceira atrapalha o sono, quantas vezes por noite. No abdome, palpe o quadrante superior direito procurando volume e não dor, com a paciente de joelhos fletidos, aprofundando na expiração e pedindo inspiração profunda: você procura a vesícula distendida, lisa, tensa e indolor. Se estiver presente, ela aponta para obstrução distal maligna e apressa tudo. Se estiver ausente, não afasta nada — a maioria dos pacientes com esta doença não a tem. Aproveite a mesma passada para procurar fígado nodular, ascite, linfonodo supraclavicular esquerdo e nódulo periumbilical. 4. Saem hoje: bilirrubinas com frações, fosfatase alcalina, gama-glutamil transferase, transaminases, albumina, hemograma, coagulograma com atividade de protrombina, ureia, creatinina e glicemia; ultrassonografia de abdome total com a pergunta escrita sobre calibre do colédoco, cálculo e visualização da cabeça do pâncreas; e, no mesmo dia e sem esperar o ultrassom, tomografia de abdome superior com protocolo de pâncreas em fase arterial e portal, mais tomografia de tórax. Não peça CA 19-9: ele não decide se investiga, sobe pela própria colestase e pode ser normal com tumor volumoso. 5. Nove quilos sobre 68 são treze por cento do peso corporal em cerca de seis meses. A frase do pedido: hipótese diagnóstica principal de neoplasia periampular, solicitação fundamentada — mulher de 66 anos, icterícia indolor e progressiva, acolia e colúria, perda de 9 kg correspondendo a treze por cento do peso, diabetes de início recente aos 66 anos em paciente magra, padrão laboratorial colestático. Date o pedido e entregue cópia datada a ela. 6. Prurido com medidas gerais e a conversa honesta; analgesia simples se houver desconforto; dieta fracionada e hipercalórica sem restrição de gordura, com pesagem anotada; e coagulograma pela deficiência de vitamina K da colestase prolongada. Sobre a coceira, diga que ela vai ser tratada e que o remédio disponível ajuda pouco no mecanismo, porque o que resolve de verdade é desobstruir — e que é por isso que o exame tem pressa. 7. Esse laudo encerra a hipótese de doença hepática por fármaco e confirma obstrução biliar distal; ele não encerra a investigação nem exclui tumor de pâncreas, porque a cabeça do pâncreas não foi vista. O passo seguinte é a tomografia com protocolo, que já está pedida. Com 38,5 graus e dor no quadrante superior direito, o caso muda de dono e de relógio: isso é colangite, e a conduta é a do capítulo Bile sob pressão, na apostila de Urgência e Emergência Cirúrgica — internação, antibiótico e drenagem da via biliar com urgência, sem esperar estadiamento. Aqui a regra de não instrumentar antes de decidir cede sem discussão. Depois de drenada e estável, alguém precisa retomar a investigação da causa, porque a paciente sai da colangite melhorada e com o tumor exatamente onde estava. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. É um padrão suspeito que exige definir causa e nível de obstrução. 2. Não. Persistindo suspeita, obter imagem adequada ao pâncreas e à via biliar. 3. Não. Contexto, inflamação, colestase, imagem e disfunção podem sustentar suspeita com quadro incompleto. 4. Não. A necessidade depende do plano; confirmação tecidual é importante antes de tratamento sistêmico ou diante de dúvida. 5. Não. A drenagem é selecionada; colangite e outras necessidades clínicas podem torná-la urgente. 6. Perfusão e sinais infecciosos, ingestão, peso, sintomas, função renal e hepática e sinais de insuficiência pancreática, com plano de retorno.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Lesão friável centrada na papila maior com colestase sugere tumor ampular, capaz de obstruir a saída biliar e sangrar para o duodeno. Confirmar com avaliação endoscópica, histologia e estadiamento. Anemia ferropriva e icterícia, sozinhas, não identificam exclusivamente a ampola e podem ter causas simultâneas. Câncer pancreático pode causar sangramento por invasão gastroduodenal ou outros mecanismos; tumores fora da cabeça também podem produzir icterícia em doença avançada. Não extrapolar prognóstico individual apenas pela localização nem descrever dilatação biliar que não foi documentada.

15

Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
16

Plano de revisão

Em 7 dias

Reescreva de memória, sem consultar: a trava inteira, com as quatro palavras que a compõem e o que cada uma segura; os três diagnósticos que dispensam a imagem indevidamente e o que separa cada um deles à beira do leito; a pergunta única que corta os três de uma vez; e as palavras exatas com que se pergunta pela cor das fezes. Depois escreva o corpo completo do pedido de tomografia de Milburgo, com protocolo, fases, hipótese por extenso, peso, percentual e data, e confira se você incluiu a frase que aciona o prazo de trinta dias. Por fim, refaça a conta da enzima: para uma dose de 50.000 UI de lipase por refeição, com metade nos lanches, quantas cápsulas de 25.000 por dia, e quantas de 10.000 — e diga qual das duas doses do teto proposto, 75.000 ou 80.000, não sai em cápsula inteira em cada apresentação.

Em 30 dias

Sem consultar, responda em voz alta: por que um tumor pequeno da cabeça do pâncreas dá sintoma e um tumor grande do corpo não dá, em termos de anatomia; por que a icterícia, que o paciente vive como a pior notícia, é a apresentação de melhor prognóstico desta doença; quais são os quatro endereços periampulares e o que muda entre eles; e as três razões pelas quais não se drena a via biliar antes de tomografar, num paciente sem colangite. Depois separe três prontuários seus de pacientes que amarelaram e confira duas coisas em cada um: havia peso aferido, com data e percentual calculado? Alguém escreveu no exame do abdome se a vesícula era palpável e se doía? Em quantos dos três? Por fim, releia o capítulo Bile sob pressão, na apostila de Urgência e Emergência Cirúrgica, com a pergunta da fronteira na cabeça — porque o paciente que chega com febre e icterícia é dele, o que chega sem febre e emagrecendo é deste capítulo, e no pronto-socorro os dois entram pela mesma porta.

17

Agora atenda

Agora atenda: homem de 64 anos, aposentado, chega ao ambulatório encaminhado da unidade básica com um papel que diz apenas "paciente ictérico, avaliar". Traz uma caixa de sintomático hepático que comprou na farmácia e um exame de dois meses atrás. Diz que a mulher reparou na cor dos olhos há um mês e meio, que a urina escureceu antes disso, e que coça à noite. Nega dor e nega febre. Começou um comprimido para açúcar há cinco meses e nunca foi diabético. Não sabe quanto pesa. Você tem quinze minutos e o preceptor passa daqui a pouco. Pergunte pela cor das fezes com a palavra que ele entende, pese o paciente e calcule o percentual da perda, olhe os antebraços, palpe o quadrante superior direito procurando volume e não dor, e escreva o pedido de imagem com a hipótese principal por extenso e a data — e decida, antes de ele sair da sala, o que vai ser feito hoje pela coceira, pela alimentação e pela coagulação.

Câncer de pâncreas e tumores periampulares – A icterícia que não dói — Internato | OsceLabs