Cirurgia GeralCirurgia do Aparelho Digestivo

O relógio começou no vômito

Perfuração esofágica (síndrome de Boerhaave)

Reconhecer perfuração esofágica após vômito ou procedimento, manter diagnósticos graves em avaliação e organizar controle precoce da contaminação.

Fontes deste capítulo

Andrade AC, Andrade APS. Perfuração de esôfago — análise de 11 casos. Rev Col Bras Cir. 2008;35(5):292-297. DOI 10.1590/S0100-69912008000500004.

Henry MACA, Lerco MM, Oliveira WK, Cataneo AJM, Cataneo DC, Ruiz Jr RL, Pereira RSC. Perfurações esofágicas. ABCD Arq Bras Cir Dig. 2007;20(2):73-76.

Barros e Silva PGM, Soeiro AM, Ornelas CE, et al. Diretriz Brasileira de Atendimento à Dor Torácica na Unidade de Emergência – 2025. Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250620. DOI 10.36660/abc.20250620.

Espírito Santo (Estado). Secretaria de Estado da Saúde. Atendimento de Urgência ao Paciente Vítima de Trauma: Diretrizes Clínicas. Versão 2018. Vitória: SESA-ES; 2018. 66 p.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Complexo da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde; 2024.

01

Responda antes de ler

Doente no oitavo dia de tratamento conservador de perfuração esofágica está afebril há 72 horas, sem dor, com dreno de baixo débito e leucograma normal. Ele pede insistentemente para beber água. Qual conduta é a correta?

02

O paciente que você vai ver

Vinte e três e quarenta de um sábado. Pronto-socorro de hospital geral de porte médio, com tomógrafo que funciona à noite, endoscopia só de segunda a sexta e cirurgião geral de sobreaviso em casa, a vinte minutos. Você é o interno da sala amarela. A classificação de risco manda entrar um homem de 54 anos com dor no peito, e a ficha traz uma linha só: dor torácica há duas horas, após vômitos.

Emeterio Urucuia tem 78 quilos, é motorista de caminhão, hipertenso em uso irregular de losartana, ex-tabagista. Chegou andando, apoiado no ombro do cunhado. Diz que estava num aniversário, bebeu além do que devia, sentiu enjoo, foi ao banheiro e vomitou três vezes. No terceiro vômito, que ele descreve como o mais forte, sentiu uma dor no meio do peito que o fez ajoelhar. A dor não passou mais. Piora quando ele engole e quando respira fundo. Ele suou frio no carro a caminho.

A sala amarela vê essa história dez vezes por plantão e ela quase sempre termina bem. Homem de meia-idade, festa, álcool, vômito, dor no peito: a leitura automática é gastrite, é esofagite, é a bebida. A segunda leitura automática, a que o serviço treinou, é síndrome coronariana — e ela ao menos manda pedir eletrocardiograma e troponina. As duas leituras são razoáveis. Nenhuma das duas contém a pergunta que decide este atendimento.

A pergunta que decide é sobre a ordem dos acontecimentos. Não é se ele vomitou e teve dor no peito; é o que veio primeiro. Na gastrite, na esofagite e na maioria das dores torácicas de origem digestiva, o desconforto já estava lá e o vômito é consequência. Na dor coronariana, o vômito costuma acompanhar a dor ou vir depois dela, junto com o suor e a náusea. Aqui a sequência foi outra: primeiro o esforço do vômito, depois a dor, e a dor começou dentro do vômito. Essa inversão é o achado.

Ao exame: consciente, ansioso, pálido, sudoreico. Pressão 118 por 74. Frequência cardíaca 112. Frequência respiratória 26. Temperatura axilar 37,4. Saturação 94% em ar ambiente. O tórax tem murmúrio vesicular diminuído na base esquerda. O abdome está flácido, doloroso no epigástrio, sem defesa. E, quando você põe a mão na base do pescoço dele, do lado esquerdo, a pele estala. É um estalido fino, como pisar em papel-bolha por cima de um pano. Ele diz que está assim há uns quarenta minutos e que achou que era do vômito.

O eletrocardiograma sai em oito minutos: taquicardia sinusal a 112, sem supradesnivelamento, sem infra, sem inversão de onda T. A troponina da entrada volta dentro da referência. Nas próximas duas horas, você vai ver esses dois resultados serem usados de duas maneiras opostas por duas pessoas diferentes do mesmo plantão. Um dirá que eles afastam o que importava. O outro dirá que eles apenas afastaram uma coisa, e que a coisa que sobrou é pior.

Este capítulo é sobre o segundo. A perfuração do esôfago é o diagnóstico que se perde por parecer outra coisa, e o que se perde nele não é a operação — é a hora. Na maior série brasileira que separa os doentes pelo relógio, oito de onze chegaram ao tratamento tarde, com atraso que foi de um dia a 23 dias, e os dois óbitos da série estão dentro desses oito. Nenhum dos três tratados nas primeiras 24 horas morreu. O atraso, nessa série, foi de diagnóstico: os doentes estavam no hospital, e o hospital estava tratando outra coisa.

Nas próximas horas você vai tomar quatro decisões, e a ordem entre elas é o capítulo inteiro. A primeira é se o crepitar no pescoço muda a hipótese — e ele muda. A segunda é qual imagem pedir, e o que fazer quando ela vier normal, porque radiografia normal aqui não afasta nada. A terceira é qual contraste se usa para confirmar, que é uma escolha com armadilha e que não é a mesma em todo paciente. A quarta é o que se prescreve antes de o cirurgião chegar, e o que deliberadamente se deixa de fazer.

Vale dizer desde já o que este capítulo não é. Ele não é sobre a triagem da dor torácica na porta: essa é do capítulo Dor torácica no pronto-socorro, na apostila de Síndromes do Paciente na Emergência, e este capítulo cede a ele a exclusão sistemática das causas que matam e fica com o que se faz depois que a rotura de esôfago deixou de ser hipótese e virou diagnóstico. Ele também não é sobre técnica cirúrgica: o interno não opera esôfago, e o que ele precisa saber é o que decide entre os caminhos, não como cada um se executa.

03

Quem adoece disso

A perfuração esofágica é rara o bastante para que a maioria dos cirurgiões termine a carreira com pouca experiência nela — é o que diz, com essas palavras, a série de Teresina: em virtude da baixa frequência, poucos são os cirurgiões que adquirem experiência suficiente com esse tipo de lesão. Guarde essa frase, porque ela explica metade dos erros deste capítulo. A outra metade se explica pela raridade vista do outro lado: o interno não vai reconhecer de memória um quadro que nunca viu.

A ordem de grandeza dá a medida. O Hospital das Clínicas de Botucatu reuniu 24 perfurações esofágicas em oito anos, de janeiro de 1999 a dezembro de 2006 — três por ano num hospital universitário. O Hospital Getúlio Vargas, em Teresina, reuniu 11 casos em seis anos e meio, de setembro de 2001 a março de 2008. Para comparar com um trauma torácico qualquer: entre 6 mil lesões torácicas de grande porte observadas na Segunda Guerra, na Coreia e no Vietnã, apenas 18 eram do esôfago. O órgão é protegido pela própria posição.

A régua brasileira mais recente da porta do pronto-socorro, a diretriz de dor torácica de 2025, coloca a rotura esofágica entre as causas com risco de morte e lhe dá uma cifra: incidência relatada de 3 a cada 1 milhão. Duas ressalvas de leitura, e as duas mudam o que o interno faz com o número. A primeira é que a frase não diz por quanto tempo — e incidência sem denominador de tempo não é incidência; a cifra de origem é anual. A segunda é maior: essa é a cifra da rotura espontânea, a que a própria frase associa a vômitos forçados em etilistas, e ela está aplicada ali à rotura esofágica como um todo.

Essa segunda ressalva importa porque inverte a probabilidade que o interno carrega. A causa mais comum de perfuração esofágica não é o vômito: é o procedimento. A série de Teresina afirma isso diretamente — a causa mais comum é a iatrogênica, secundária a procedimentos endoscópicos diagnósticos e terapêuticos, com risco maior nas intervenções terapêuticas do que nas diagnósticas. Quem dilata, quem passa prótese, quem esclerosa varizes, quem retira corpo estranho: esses são os atos que perfuram.

A série de Botucatu mostra o mesmo pelo avesso, e de um jeito que vale reter. Entre os 12 doentes do grupo de causas diversas, oito tiveram perfuração produzida dentro de um hospital — três por procedimento endoscópico, três por cirurgia antirrefluxo, um por balão de Blackmore e um no pós-operatório de diverticulectomia de Zenker. Sobraram dois por corpo estranho deglutido e um por projétil de arma de fogo. E há um dado que a tabela não anuncia mas que salta de qualquer leitura atenta: nas 24 perfurações não há um único caso espontâneo.

Vinte e quatro doentes, oito anos, um hospital universitário, e a síndrome de Boerhaave — que dá nome a este capítulo e que é o que se cobra em prova — não apareceu nenhuma vez. Ela é citada duas vezes naquele artigo: na introdução, como uma das etiologias possíveis, e na discussão, para lembrar que Barrett foi o primeiro a operar um caso com sucesso. Esta é leitura deste capítulo sobre aquela tabela, não uma afirmação dos autores: o epônimo nomeia a forma mais rara de uma doença rara, e a forma que o interno tem chance real de encontrar é a que o hospital produziu.

Isso reorganiza a suspeita. O paciente de perfuração esofágica que você vai atender não é preferencialmente o homem que vomitou na festa; é o paciente que fez endoscopia hoje à tarde e à noite está com dor torácica; é o que dilatou uma acalasia na semana passada; é o operado de fundoplicatura que não vai bem no segundo dia; é o que deglutiu espinha de peixe e voltou três vezes ao pronto-socorro. A dor torácica após endoscopia alta, sobretudo após procedimento terapêutico, é suspeita de perfuração até prova em contrário — e é a própria série de Teresina que fixa essa regra.

Por segmento, a distribuição não é uniforme e a lateralidade do prognóstico segue a topografia. Em Teresina, seis das 11 lesões (54,5%) foram cervicais, quatro (36,4%) torácicas e uma (9,1%) abdominal. A literatura que aquele artigo resume põe o esôfago cervical em torno de 70% das lesões. As lesões cervicais evoluem melhor porque a secreção que extravasa fica localizada e bloqueada pelas estruturas vizinhas do pescoço; as torácicas contaminam o mediastino e a pleura, e as abdominais drenam livremente para a cavidade, produzindo peritonite. Em Botucatu, entre os doentes de causa não-neoplásica, o esôfago torácico foi o mais atingido, com sete dos 12.

E há a estatística que este capítulo trata como sua trava. Na série de Teresina, apenas três dos 11 doentes (27,3%) tiveram diagnóstico e tratamento nas primeiras 24 horas. Os outros oito (72,7%) foram diagnosticados entre um e 23 dias depois da lesão, e os dois óbitos da série estão entre esses oito. Não morreu ninguém do grupo precoce. A leitura que o próprio artigo faz — e que este capítulo assina — é que existe relação direta entre mortalidade e tempo decorrido entre a perfuração e o diagnóstico: 10% a 25% quando o tratamento começa dentro de 24 horas, 40% a 60% depois.

Falta dizer o que o país não tem, porque isso muda a conduta na ponta. Não há protocolo clínico e diretriz terapêutica federal para perfuração esofágica, nem documento do Ministério da Saúde que fixe o antibiótico, o prazo ou o exame confirmatório. A diretriz nacional mais nova que menciona a doença — a de dor torácica de 2025 — vai até a suspeita e para ali, e as duas referências que ela usa nesse parágrafo são estrangeiras, de 2010 e de 2011. O único documento normativo brasileiro que este capítulo localizou fixando prazo e conduta é uma diretriz estadual de trauma de 2018, do Espírito Santo, cuja própria ficha marcou revisão para outubro daquele ano e que nunca a teve.

04

Por que acontece o que acontece

A maior parte do esôfago, incluindo o segmento torácico, não tem revestimento seroso completo; não é correto dizer que ele é o único trecho digestivo sem serosa. Sua localização mediastinal e a relação com pleura e tecidos adjacentes ajudam a explicar a propagação da contaminação quando a parede perfura. Pressão, lesão prévia, mecanismo e qualidade do tecido também importam; ausência de serosa não determina sozinha a resistência à rotura. Fechamento, reforço e drenagem são definidos pela equipe conforme a lesão e o controle necessário.

A rotura espontânea é um acidente de pressão. No vômito normal a musculatura abdominal comprime o estômago, o esfíncter esofágico superior relaxa e o conteúdo sai. Quando esse relaxamento falha — e o álcool, a náusea prolongada e a tentativa de conter o vômito favorecem a falha —, o esôfago fica momentaneamente fechado nas duas pontas com o abdome empurrando. A pressão dentro dele sobe muito acima do que a parede aguenta e a parede se abre. O rasgo é longitudinal, e não um furo: a fibra muscular se separa no sentido do seu próprio eixo.

A localização quase sempre é a mesma, e não é por acaso. O ponto que cede é o terço distal, na face posterolateral esquerda, poucos centímetros acima do diafragma. É ali que a camada muscular é mais fina, é ali que vasos e nervos atravessam a parede deixando pontos de menor resistência, e é ali que o esôfago está menos apoiado por estruturas vizinhas. Por isso o derrame pleural da rotura espontânea costuma ser à esquerda — e por isso um derrame pleural novo à esquerda, num paciente que vomitou e depois sentiu dor, não é achado secundário.

Corte esquemático do esôfago distal com ruptura da parede, extravasamento para o mediastino e indicação de possível comunicação com a pleura.
A perfuração pode permitir extravasamento de conteúdo para o mediastino e, conforme a localização, para a pleura. A extensão da contaminação, a estabilidade e as condições locais orientam a combinação de controle da fonte, drenagem, antimicrobianos e suporte. Nem toda perfuração tem a mesma apresentação ou exige a mesma modalidade de reparo.

O que escapa pela fenda não é apenas ácido. É saliva, é comida, é secreção gástrica e é a flora inteira da boca e da faringe — aeróbios e anaeróbios juntos. Nas primeiras horas o dano é químico: o conteúdo digere o tecido frouxo do mediastino e produz uma inflamação intensa antes de qualquer bactéria se multiplicar. Depois vem a fase bacteriana, e é ela que mata. A mediastinite é uma infecção de espaço fechado, sem barreira anatômica que a contenha, alimentada continuamente por uma fonte que ninguém interrompeu.

Três características do mediastino tornam essa infecção diferente de qualquer outra coleção que o interno já viu. A primeira é que ele é tecido areolar frouxo, contínuo do pescoço ao diafragma: o que entra em qualquer altura difunde para cima e para baixo em horas, e não em dias. A segunda é que a pressão ali dentro é negativa durante a inspiração — cada respiração aspira ativamente conteúdo pela fenda para dentro do mediastino, de modo que a contaminação não é um evento único, é um processo que se repete a cada ciclo respiratório. A terceira é que a fonte continua aberta: cada deglutição de saliva, que ninguém consegue evitar, recontamina.

É daí que sai a resposta à pergunta que o interno sempre faz diante de um paciente já drenado: se o dreno está saindo secreção, por que ele continua piorando? Porque o dreno remove o que já saiu e nada faz contra o que continua saindo. Drenagem é controle de dano, não é tratamento da causa. Enquanto a comunicação estiver aberta, a fonte continua sendo o esôfago, e a conduta tem de responder a isso de alguma forma: fechando a fenda, desviando o que passa por ela, ou tirando o órgão. A série de Teresina descreve exatamente esse desfecho em dois doentes que chegaram com o mediastino já contaminado, foram submetidos a toracotomia e ampla limpeza, e ainda assim morreram de sepse.

A cascata sistêmica segue um padrão reconhecível e explica por que o paciente parece bem e depois desaba. A inflamação mediastinal desloca volume para o terceiro espaço em quantidade grande e rápida, e o doente fica hipovolêmico antes de qualquer sangramento. Some-se a isso a dor, que impede respiração profunda, e o derrame pleural, que reduz volume corrente: a hipoxemia aparece. Depois entra a bacteremia, e com ela vasoplegia, hipotensão que não responde a volume, disfunção de órgãos. O caminho da sepse e do choque é do capítulo Sepse: reconhecer e tratar na primeira hora, na apostila de Medicina Intensiva e Emergências, e este capítulo cede a ele o pacote inteiro do choque, ficando com o que é próprio do esôfago.

A perfuração iatrogênica tem mecânica diferente e por isso comportamento diferente, e vale separar as duas na cabeça. Ela é produzida por instrumento, costuma ser menor, costuma ocorrer num esôfago que já era doente — estenose, tumor, megaesôfago, anastomose — e frequentemente acontece com o paciente em jejum e com a luz limpa. Isso a torna, em parte dos casos, uma lesão bloqueada, que drena de volta para a própria luz do esôfago em vez de para o mediastino aberto. Essa diferença é o que abre a porta do tratamento sem operação, e é por isso que a mesma doença admite condutas tão distintas: não é a doença que muda, é o quanto de mediastino foi contaminado antes de alguém perceber.

05

Como se apresenta de verdade

O paciente entra com dor torácica e precisa de avaliação das causas potencialmente graves. O percurso coronariano é importante, porém não cobre sozinho a hipótese esofágica. Perguntar sobre vômito, endoscopia e dilatação e examinar a região cervical e o tórax amplia a avaliação; resultados iniciais normais não encerram nenhum desses percursos quando a suspeita clínica persiste.

A série de Teresina descreve o problema em uma frase que vale copiar para a cabeça: a falta de sintomatologia específica confunde a doença com outras de ocorrência mais comum, como problemas cardíacos ou pulmonares, dificultando o diagnóstico. E acrescenta que a apresentação varia de quadros sépticos graves, com dor torácica intensa e dispneia, a quadros com pouca sintomatologia. Não há um retrato clínico único a memorizar. O que há é uma pergunta a fazer, e um conjunto de achados que, quando aparecem, encerram a discussão.

Esta seção arruma a apresentação em torno de quatro perguntas. O que na história aponta para o esôfago. Quais diagnósticos roubam este paciente e o que quebra cada engano. O que o exame físico encontra, e quando. E o que, apesar de normal, não afasta coisa nenhuma.

A ordem dos acontecimentos, que é o achado de história

A pergunta que separa a rotura de esôfago de quase tudo mais é temporal e cabe em oito palavras: a dor veio antes ou depois do vômito? Na esofagite, na gastrite, na obstrução, na colecistite e na coronariopatia, o vômito acompanha ou sucede um mal-estar que já existia. Na rotura barogênica, o esforço do vômito é a causa mecânica da lesão, e a dor nasce dentro dele ou imediatamente depois — o paciente costuma localizar o instante.

Repare que a pergunta não é a que se costuma fazer. A anamnese padrão pergunta se houve vômito, e registra sim ou não. O sim entra no prontuário como sintoma associado e vira argumento a favor de causa digestiva benigna ou de origem coronariana com estímulo vagal. A informação que decide não é a presença do vômito; é a posição dele na linha do tempo, e ela só aparece se alguém perguntar o que veio primeiro.

A segunda pergunta de história é sobre o esforço. Vômito único e fácil raramente rompe. O que rompe é o vômito repetido, forçado, com ânsia contra a garganta fechada — e a descrição espontânea do paciente costuma ser a de um vômito diferente dos outros, mais violento, ou de uma ânsia em que nada saiu. Também entram aqui outros esforços com glote fechada: tosse muito intensa, esforço de defecação, parto, levantamento de peso, crise convulsiva. Todos aparecem na literatura como gatilhos, e todos são muito menos frequentes que o vômito.

A terceira pergunta é a que muda a doença de origem: houve procedimento? Endoscopia, dilatação, esclerose de varizes, passagem de prótese, retirada de corpo estranho, ecocardiograma transesofágico, intubação difícil, cirurgia antirrefluxo, balão de tamponamento. A série de Teresina fixa a regra em termos operacionais: todo paciente com disfagia, odinofagia, dor torácica, febre ou algum sintoma atípico após endoscopia alta — sobretudo depois de procedimento terapêutico — deve ter perfuração suspeitada.

Sobre a tríade clássica, que muitos textos ainda cobram: dor torácica após vômito, enfisema subcutâneo e antecedente de esforço emético formam um conjunto célebre e pouco útil na prática, porque as três raramente estão presentes juntas quando o paciente chega. A diretriz brasileira de 2025 não usa tríade: ela elege como chave a associação de enfisema subcutâneo e pneumomediastino em paciente com suspeita clínica, e descreve o gatilho como dor torácica iniciada após vômitos que evolui com febre e hipotensão. Trate a tríade como memória de prova e a associação da diretriz como régua de plantão.

Os três diagnósticos que roubam este paciente, e o que quebra cada engano

Síndrome coronariana aguda deve ser considerada diante de dor torácica, sudorese e alterações clínicas. ECG sem isquemia e troponina inicial normal não a afastam, sobretudo nas primeiras horas; considerar medidas seriadas conforme protocolo. Esses resultados tampouco afastam perfuração esofágica. Dor persistente após esforço de vômito ou instrumentação pede explicação e investigação paralela, não alta por dois exames iniciais favoráveis.

Troponina elevada indica lesão miocárdica, cuja causa precisa ser esclarecida. Inflamação, hipóxia e choque podem elevá-la, mas isso não autoriza descartar infarto em alguém com contexto compatível. Integrar sintomas, ECG, variação da troponina e imagem conforme avaliação, mantendo a investigação de perfuração quando a história a sustenta.

O segundo ladrão é a pancreatite aguda, e ele é o mais traiçoeiro porque compartilha quase tudo: álcool, vômito, dor que atravessa para o dorso, amilase elevada. A amilase sobe na perfuração esofágica — a saliva é rica em amilase e o extravasamento a leva para a pleura e para o sangue. Um paciente etilista com dor epigástrica, vômito e amilase alta recebe diagnóstico de pancreatite em minutos, e é internado com hidratação, analgesia e jejum, que são exatamente as medidas que fazem a perfuração parecer estável por algumas horas. O que quebra o engano é o exame do pescoço, é o derrame pleural desproporcional ao quadro, e é a tomografia que mostra ar onde não devia haver. O manejo da pancreatite é do capítulo Pancreatite aguda, na apostila de Urgência e Emergência Cirúrgica, e este capítulo cede a ele a doença inteira.

O terceiro ladrão é a úlcera péptica perfurada, que rouba pela dor epigástrica de início súbito num paciente com história de dispepsia. Aqui a diferença é anatômica e vale entender, porque os dois abdomes não são o mesmo abdome. Na úlcera perfurada, o conteúdo cai na cavidade peritoneal, que é um espaço servido por peritônio parietal ricamente inervado: o resultado é o abdome em tábua, a defesa involuntária, o paciente que não deixa tocar. Na rotura de esôfago torácico, o conteúdo vai para o mediastino, que não tem essa inervação: o abdome pode estar apenas doloroso, sem defesa, e o paciente parece menos grave do que está.

Essa diferença tem consequência radiológica direta e é onde os dois capítulos se separam. A úlcera perfurada procura ar livre sob o diafragma, isto é, pneumoperitônio; a rotura de esôfago torácico procura ar no mediastino e enfisema no pescoço, isto é, pneumomediastino. Uma radiografia sem pneumoperitônio afasta pouco de uma e nada da outra. A úlcera perfurada e o pneumoperitônio são do capítulo O minuto que ele sabe de cor, na apostila de Urgência e Emergência Cirúrgica, e este capítulo cede a ele a doença; o que não é transponível de lá para cá é o exame do abdome, porque a rotura de esôfago pode cursar com abdome quase normal enquanto o mediastino se infecta.

O quarto ladrão não tem nome de doença e por isso é o pior: é o rótulo de intoxicação alcoólica, mal-estar ou crise de ansiedade. Paciente que bebeu, vomitou, está agitado e taquicárdico é frequentemente observado em corredor até melhorar. Nesse paciente ninguém pede exame, e o relógio corre sem que exista prontuário registrando o quê. É o cenário em que a perfuração chega ao segundo dia — e a série de Teresina mostra que o segundo dia já é tarde.

O que o exame físico encontra, e em que ordem

O achado que decide é o enfisema subcutâneo, e ele se procura ativamente, com a mão, nas fossas supraclaviculares e na base do pescoço, comprimindo a pele contra o plano profundo. A sensação é de crepitação fina sob os dedos, como esmagar papel-bolha por baixo de um pano. Não é achado de inspeção: o pescoço parece normal, e só a palpação revela. A diretriz brasileira de 2025 põe esse achado, junto do pneumomediastino, como a principal chave do diagnóstico.

O tempo desse achado é a razão por que ele engana quando ausente. O ar leva horas para dissecar dos planos do mediastino até o tecido subcutâneo do pescoço, e nas primeiras horas ele simplesmente não está lá. Um exame de pescoço normal às duas horas do início da dor não afasta nada; o mesmo exame repetido seis horas depois pode ser o achado que muda tudo. Repita o exame — é gratuito, leva quinze segundos e é o único item da avaliação que se torna mais informativo com a passagem do tempo.

Na ausculta, procure dois sinais. O primeiro é o crepitar sincrônico com o batimento cardíaco, audível na região precordial com o paciente em decúbito lateral esquerdo, produzido por ar no mediastino movido pelo coração. É pouco sensível, mas quando existe é praticamente específico. O segundo é a redução do murmúrio vesicular na base, quase sempre à esquerda, do derrame que se forma rápido. Um derrame pleural que aparece em poucas horas num paciente com dor torácica após vômito é achado de doença, e não achado incidental.

O estado geral evolui de um modo que vale antecipar, porque a piora é rápida e costuma pegar o plantão desprevenido. Nas primeiras horas o paciente está dolorido, taquicárdico e taquipneico, com pressão preservada e boa perfusão — parece um quadro de dor. Entre a sexta e a décima segunda hora entram febre, leucocitose, dispneia e sinal de hipoperfusão. Depois disso entra hipotensão que não responde a volume. Um paciente que parece bem às 23h e péssimo às 5h não teve uma complicação nova: teve tempo.

Três exames de beira de leito ajudam e todos são acessíveis ao interno. A oximetria mostra queda por dor, derrame e atelectasia antes de qualquer coisa mais dramática. A ausculta comparativa dos dois hemitórax localiza o derrame. E a palpação seriada do pescoço, anotada com horário no prontuário, transforma um achado ausente em uma curva — que é o que vale. Anote o horário: enfisema ausente às 23h50 e presente às 02h10 é informação clínica, e enfisema ausente sem horário é ruído.

Vale um cuidado com a lesão cervical, porque ela se apresenta diferente e evolui melhor. Na perfuração do esôfago cervical o quadro é local: dor no pescoço, odinofagia, abaulamento, às vezes crepitação restrita à região. É a apresentação descrita em Botucatu para os dois doentes com lesão cervical, e em Teresina para os que chegaram com abscesso já bloqueado. O prognóstico é melhor porque a secreção fica contida pelas estruturas do pescoço — mas isso só vale enquanto o mediastino superior não for alcançado, e é justamente a progressão cervical descendente que produz os piores desfechos daquela série.

O que não afasta o diagnóstico

Radiografia de tórax normal não afasta. O documento estadual de trauma diz isso literalmente ao tratar da lesão esofágica: a radiografia simples pode ser normal. A série de Teresina é mais precisa quanto ao papel dela — as radiografias simples possibilitam alto grau de suspeição em boa parte dos casos, mas são os exames radiológicos contrastados que confirmam o diagnóstico. Suspeitar e confirmar são funções diferentes, e a radiografia só faz a primeira.

Ausência de enfisema subcutâneo não afasta, pela razão de tempo já dada. Ausência de febre não afasta nas primeiras horas, porque a fase inicial é química e não bacteriana. Abdome sem defesa não afasta, porque o conteúdo está no mediastino e não no peritônio. Eletrocardiograma e troponina normais não afastam, porque não é doença do miocárdio. E paciente jovem, sem comorbidade e sem etilismo não afasta: a série de Botucatu tem doentes de 24 anos, e a causa mais comum é procedimento, que atinge qualquer idade.

Melhora com sintomático não afasta, e essa é a armadilha que mais custa. Analgesia forte alivia a dor da perfuração como alivia qualquer dor. Antiácido alivia o componente de queimação. O paciente reavaliado uma hora depois diz que está melhor, e essa frase é usada como teste diagnóstico — o que ela não é. A regra vale nas duas direções e o capítulo Dor torácica no pronto-socorro, na apostila de Síndromes do Paciente na Emergência, já a fixa para o infarto e para a dispepsia: resposta a sintomático não tem valor diagnóstico.

Amilase normal não afasta e amilase alta não confirma pancreatite neste contexto. Leucograma normal nas primeiras horas não afasta. Endoscopia não é o exame para afastar: o documento estadual de trauma a coloca como recurso apenas quando há dúvida diagnóstica depois dos exames radiológicos, e a série de Teresina reserva a ela papel fundamental sobretudo nos casos de corpo estranho, em que é diagnóstica e terapêutica ao mesmo tempo, e no doente grave demais para exame radiológico.

E há o que afasta de fato: nada, isoladamente. O que fecha o diagnóstico é a demonstração da comunicação — extravasamento de contraste no estudo contrastado, ou ar extraluminal em topografia esofágica na tomografia. Enquanto essa demonstração não existir num paciente com a história certa, a hipótese fica de pé e o paciente fica sob observação com médico responsável nomeado, e não em corredor.

As outras portas de entrada, e por que elas importam mais

A perfuração iatrogênica é a mais comum, e o interno tem chance real de ser a primeira pessoa a suspeitar dela. A apresentação típica é dor torácica ou cervical que começa horas depois de um procedimento e que não estava prevista pelo endoscopista. Some-se odinofagia, febre, taquicardia, e a suspeita está formada. Em Botucatu, três dos 12 doentes de causa não-neoplásica vieram de procedimento endoscópico e três de cirurgia antirrefluxo — metade das perfurações produzidas por médicos naquela série veio da sala de cirurgia, e não da sala de endoscopia.

A perfuração após dilatação merece parágrafo próprio porque é a costura entre este capítulo e o de acalasia. A dilatação pneumática da junção esofagogástrica é um dos tratamentos listados para o megaesôfago, e a perfuração é a sua complicação temida. O paciente que dilatou hoje e à noite tem dor torácica intensa, taquicardia e febre não está com dor pós-procedimento: carrega uma perfuração enquanto ninguém demonstrar o contrário, e a demonstração é a deste capítulo. A acalasia, o megaesôfago e a escolha entre dilatação e cirurgia são do capítulo A comida que volta inteira, na apostila de Cirurgia do Aparelho Digestivo; este capítulo assume a perfuração que a dilatação produz, e declara a fronteira nos dois sentidos.

O corpo estranho deglutido é a porta de entrada que mais engana pelo tempo, porque o paciente não relaciona uma coisa à outra. Em Teresina, cinco dos 11 casos foram por corpo estranho, e três deles eram lesões cervicais que só chegaram depois de 24 horas. Um dos doentes teve a informação da ingestão de espinha de peixe obtida apenas no terceiro dia de internação, já com empiema e septicemia. A pergunta sobre espinha, osso e prótese dentária tem de ser feita explicitamente, porque ninguém a oferece.

A prótese dentária é um caso à parte e vale um alerta operacional. Ela é radiotransparente na maioria das vezes, é grande, tem ganchos metálicos que ferem, e é deglutida por pessoas idosas durante o sono ou uma refeição, muitas vezes sem que percebam. Em Botucatu ela produziu duas perfurações, uma cervical e uma torácica. Pergunte se o paciente usa prótese e onde ela está agora.

O trauma fechado e o penetrante completam a lista e mudam de escopo. O ferimento por projétil respondeu por parte importante das casuísticas nacionais mais antigas — o que os próprios autores de Botucatu leem como reflexo do grau de violência das grandes cidades brasileiras. O trauma contuso é raro e costuma vir com lesão de outros órgãos que dominam a cena. O atendimento inicial ao politraumatizado não é deste capítulo; o que este capítulo pede ao interno é que, num traumatizado torácico com pneumomediastino sem explicação pulmonar, o esôfago entre na lista.

O paciente que já estava internado

Há uma versão inteira desta doença que acontece dentro do hospital, com o paciente já sob cuidado, e ela tem regras próprias de suspeita. É a perfuração que aparece depois da endoscopia feita na enfermaria, depois da passagem de sonda em esôfago estenosado, depois da intubação difícil, depois do balão de tamponamento, depois da fundoplicatura. O que muda é que existe prontuário: há um procedimento com horário, uma prescrição, uma folha de enfermagem, e a linha do tempo está escrita antes de você perguntar.

A suspeita de perfuração esofágica no paciente internado com dor torácica é do capítulo Dor torácica intra-hospitalar, na apostila de Síndromes do Paciente Internado, que é dono da triagem dessa dor dentro do hospital e que já reúne ali os gatilhos de suspeita — a dor retroesternal contínua que começa logo depois de um procedimento sobre o tubo, a crepitação que aparece onde não havia, a febre que chega cedo demais e o derrame que não estava no filme de ontem. Este capítulo cede a ele a suspeita nesse cenário e assume o que vem depois dela — a confirmação, a primeira hora e a decisão de tratamento —, porque aquele capítulo declara que sua pergunta é qual dor torácica é esta, e não o que se faz com a perfuração depois de confirmada.

Duas fontes de perfuração dentro do hospital envolvem diretamente o trabalho do interno e por isso ficam aqui. A primeira é a sonda. Quando ela foi mal posicionada e depois usada para infusão ou nutrição, a radiografia mostra o rápido desenvolvimento de derrame pleural, alargamento mediastinal, pneumotórax ou pneumomediastino — é essa a lista do artigo de dispositivos na radiografia de tórax, e cada um desses quatro achados também é achado de perfuração. A indicação, a técnica e a conferência da sonda são do capítulo O que confirma, e o que só parece confirmar, na apostila de Procedimentos e Vias de Acesso, que reúne as complicações da passagem; o que fica aqui é o que se faz quando o esôfago foi de fato rompido.

A segunda é o tubo endotraqueal mal posicionado. Quando o tubo desce pelo esôfago, além da ventilação ineficaz há o risco de perfurá-lo, com pneumomediastino e mediastinite subsequente — é assim que o artigo de radiografia de dispositivos descreve o desfecho. Em ambas as situações, a lesão foi produzida por um ato que alguém do time realizou, e o registro honesto do horário do procedimento é o dado que permite datar a perfuração. Encobrir esse horário atrasa o diagnóstico do próprio paciente.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação da perfuração esofágica tem duas funções que precisam ficar separadas na cabeça, porque exames diferentes servem a cada uma. Suspeitar é função da radiografia simples e da tomografia sem contraste oral: elas mostram ar onde não devia haver e líquido onde não devia haver. Confirmar é função do estudo contrastado: ele mostra o contraste saindo do tubo, que é a demonstração direta da comunicação. A série de Teresina separa as duas com clareza — a radiografia simples possibilita alto grau de suspeição em boa parte dos casos, e são os exames contrastados que confirmam.

A consequência prática dessa separação é que a sequência de exames não é uma escada de sensibilidade crescente que se sobe até algo dar positivo. É um par: um exame que abre a hipótese e outro que a fecha. Pular o segundo porque o primeiro veio alterado é comum e costuma dar certo, mas pular o segundo porque o primeiro veio normal é o erro que produz o atraso de 24 horas.

Uma advertência sobre a ordem. Nenhum exame de imagem justifica adiar a ressuscitação, o antibiótico e a chamada do cirurgião num paciente instável — a sequência do paciente grave antes do diagnóstico é do capítulo Os primeiros 5 minutos, na apostila de Síndromes do Paciente na Emergência. O que segue vale para o paciente que está estável o bastante para atravessar um corredor.

A radiografia de tórax: o que procurar, e o que ela não afasta

Peça radiografia de tórax em toda suspeita — a série de Teresina é categórica: independentemente da etiologia, todo paciente com suspeita de perfuração esofágica deve realizar radiografia de tórax. É barata, é rápida, existe em qualquer serviço e faz a triagem que decide a pressa do resto.

O que se procura nela, na lista daquela mesma série, são cinco coisas: enfisema subcutâneo, pneumomediastino, níveis hidroaéreos, pneumotórax e derrame pleural, mais infiltrado pulmonar. Some-se, do documento estadual de trauma, o enfisema mediastinal e cervical. A leitura sistemática do exame — a ordem em que se olha, o que se compara, como se evita perder o que está fora da área de interesse — é do capítulo Radiografia de tórax, na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito, e este capítulo cede a ele o método e fica com o que este quadro específico coloca no filme.

Vale saber onde esses achados aparecem, porque três deles ficam fora do campo que o olho procura numa dor torácica. O enfisema subcutâneo aparece como estrias de ar desenhando os planos musculares da base do pescoço e da parede torácica superior, acima das clavículas — região que o olhar treinado para pulmão costuma atravessar sem parar. O pneumomediastino aparece como linhas finas de ar contornando estruturas mediastinais, e o contorno que ele desenha melhor é o da aorta descendente e o da borda cardíaca. O derrame, quase sempre à esquerda, aparece na base como velamento com apagamento do seio costofrênico.

Duas cautelas de interpretação. A primeira: pneumomediastino tem outras causas, e algumas são banais — o artigo de radiografia de dispositivos registra que pequena quantidade de enfisema subcutâneo ou mesmo pequeno pneumomediastino pode aparecer logo depois de traqueostomia sem repercussão clínica, e que a laceração de traqueia por intubação produz o mesmo achado. Pneumomediastino em quem acabou de fazer traqueostomia é uma coisa; pneumomediastino em quem vomitou e sentiu dor é outra.

A segunda cautela é o tempo. A radiografia feita muito cedo pode ser normal, e o documento estadual de trauma diz isso com todas as letras. Uma radiografia normal na segunda hora e alterada na oitava não é erro do primeiro exame: é a doença acontecendo. Se a suspeita persiste e o paciente segue no serviço, repita o filme com horário anotado, e considere passar direto ao exame que confirma.

Sobre o pneumotórax que às vezes acompanha: ele é sintoma, e não a doença. A diretriz de pneumotórax da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia lista a rotura espontânea do esôfago entre as causas de pneumotórax secundário e adverte, nessa exata situação, que não basta considerar apenas o tratamento do pneumotórax. Tratar o ar e ignorar a origem é o erro que aquele documento nomeia. O pneumotórax em si é do capítulo O ar que entrou e não sai, na apostila de Cirurgia Torácica.

O estudo contrastado: qual contraste, e por que a resposta não é sempre a mesma

O esofagograma é o exame que confirma. O documento estadual de trauma o elege como o teste diagnóstico de escolha quando há alta suspeita de perfuração, e reserva a endoscopia para quando restam dúvidas. O que ele demonstra é o extravasamento do contraste para fora da luz — e, além do sim ou não, ele mostra onde e quanto, que é o que o cirurgião usa para escolher a conduta.

A regra brasileira sobre qual contraste usar está escrita na série de Teresina e é uma sequência, não uma escolha única: os contrastes mais utilizados são os iodados e o sulfato de bário diluído; geralmente os estudos são iniciados com os iodados e, quando o resultado é negativo ou inconclusivo, prossegue-se a investigação com o bário diluído. O documento estadual de trauma diz a mesma primeira metade ao indicar contraste hidrossolúvel por via oral para complementar a tomografia.

O raciocínio por trás da sequência é este, e ele tem dois lados que se opõem. O contraste iodado hidrossolúvel é seguro fora do tubo: se extravasar para o mediastino, é absorvido. Em compensação é menos denso e detecta pior os vazamentos pequenos, então um estudo iodado negativo não encerra a questão. O bário é o oposto: enxerga melhor a fenda pequena, e por isso vem em segundo lugar — mas, extravasado, permanece no mediastino como material inerte que a inflamação encapsula. Começar pelo seguro e terminar pelo sensível é o que a sequência traduz.

E aqui está a armadilha, que é onde a decisão de plantão inverte. O reflexo aprendido — nunca bário, sempre hidrossolúvel — trata a escolha como se houvesse um contraste certo e um errado. Não há: há uma pergunta anterior, que é se existe risco de o contraste ir parar na via aérea. Quando há suspeita de comunicação com brônquio ou traqueia, ou quando o paciente tem risco alto de aspiração por rebaixamento, disfagia grave ou obstrução, o contraste iodado hiperosmolar deixa de ser a opção segura, porque o dano que ele causa não é no mediastino: é no pulmão.

Observe o que a série de Botucatu de fato fez, porque ela é a demonstração empírica dessa inversão. Nos 12 doentes cuja perfuração ocorreu na evolução de câncer de esôfago, a suspeita nasceu de tosse de repetição que se exacerbava durante a alimentação — isto é, fístula para a via aérea — e a confirmação diagnóstica foi feita por esofagograma com bário diluído. Naquele grupo, em que a comunicação era esôfago-brônquica, o exame não começou pelo iodado. A leitura de que essa escolha se explica pelo risco de aspiração é deste capítulo, e não uma justificativa que aqueles autores tenham escrito; o que está escrito é o que eles usaram.

O que o interno leva daqui, então, são três frases e uma pergunta. Primeira: o estudo contrastado é o que confirma. Segunda: a sequência brasileira publicada é iodado primeiro, bário diluído depois se aquele for negativo ou inconclusivo. Terceira: bário diluído é o que a série nacional usou quando havia fístula para a via aérea. E a pergunta que precede a prescrição do exame, e que o interno deve fazer ao radiologista antes de escrever qualquer coisa: este paciente tem risco de aspirar, ou suspeita de comunicação com a via aérea? A resposta muda o contraste, e quem responde por escolha de contraste é o radiologista com o cirurgião — não o interno sozinho.

Um detalhe de disponibilidade que muda a conduta na ponta e que costuma surpreender: conferida termo a termo, a Rename 2024 não traz sulfato de bário nem contraste iodado de uso radiológico — zero ocorrências para os dois. O exame que confirma esta doença depende de insumo que não está no elenco essencial de medicamentos — o que não quer dizer que o hospital não o tenha, porque contraste radiológico é insumo de serviço de imagem e não medicamento dispensado por farmácia básica, mas quer dizer que a disponibilidade depende inteiramente do contrato do serviço de imagem local. Saber se o seu plantão tem contraste, e qual, é informação de plantão, não de livro.

A tomografia: o que ela resolve que os outros não resolvem

A tomografia entra por três motivos distintos e vale saber qual deles está em jogo, porque a técnica do exame muda. O primeiro é a dúvida depois de um estudo inicial insatisfatório: a série de Teresina diz que ela é útil quando o estudo inicial deixou dúvidas, mostrando com precisão a presença de ar em torno do esôfago, além de abscessos e coleções às vezes não identificados na radiologia convencional.

O segundo motivo é o paciente que não consegue fazer o esofagograma: quem está rebaixado, dispneico demais para deglutir sob comando, ou instável. Aí a tomografia com contraste hidrossolúvel por via oral é o caminho que o documento estadual de trauma descreve — tomografia helicoidal complementada com administração oral de contraste hidrossolúvel —, e ela reúne num só exame a demonstração do ar e a do extravasamento.

O terceiro motivo é mapear a extensão, e é o que mais interessa ao cirurgião. A tomografia mostra onde a coleção está, se ela desceu pelo mediastino, se atravessou para a pleura, se há empiema formado, se há pneumotórax associado. É essa informação que separa uma perfuração bloqueada de uma contaminação difusa, e é essa separação que decide entre tratar sem operar e operar. A diretriz brasileira de dor torácica de 2025 põe radiografia e tomografia lado a lado como os exames importantes da investigação, sem hierarquizá-las.

Um ponto operacional: peça a tomografia com janela adequada e diga ao radiologista o que você suspeita. Ar extraluminal em pequena quantidade, junto ao esôfago distal, é achado sutil e passa despercebido num pedido escrito como dor torácica a esclarecer. Um pedido que diz suspeita de perfuração esofágica após vômito, com enfisema cervical, muda o protocolo do exame e muda o laudo.

O artigo de radiografia de dispositivos registra a mesma lógica de escalonamento para outro problema do mesmo espaço: quando a radiografia mostra alteração que não consegue caracterizar — incluindo suspeita de perfuração esofágica ou de corpo estranho intratorácico —, a tomografia é o passo seguinte. É a mesma regra vista do lado do radiologista.

Endoscopia e líquido pleural: dois exames que respondem perguntas diferentes

A endoscopia digestiva alta é útil e perigosa, e a diferença está na indicação. Ela é indispensável no corpo estranho, onde é diagnóstica e terapêutica ao mesmo tempo — em Teresina, um doente teve o osso de galinha impactado retirado por via endoscópica e foi conduzido sem operar. Ela também serve quando o estado do doente impede exame radiológico. E ela resolve dúvida quando o resto não resolveu, que é a colocação que o documento estadual de trauma lhe dá.

O que ela não é: exame de triagem. A insuflação de ar necessária ao exame pode aumentar a fenda e converter uma lesão bloqueada em contaminação franca. Por isso a endoscopia neste contexto é decisão do cirurgião ou do endoscopista com o cirurgião ciente, e não pedido de rotina do plantão clínico. O interno pode e deve pedir a avaliação; quem decide o exame é quem vai lidar com o resultado.

O líquido pleural é o exame mais subestimado e o mais acessível deste capítulo. Um derrame novo, à esquerda, num paciente com a história certa, pode fechar a suspeita antes de qualquer contraste. O que se procura no líquido é o que não deveria estar em pleura nenhuma: restos alimentares, pH muito baixo e amilase alta, de origem salivar. Em Teresina, o doente com trauma contuso teve o diagnóstico levantado exatamente assim — foi submetido à drenagem pleural e observou-se a saída de restos alimentares pelo dreno.

Há um teste antigo, barato e engenhoso que aquelas duas séries usaram e que vale conhecer, porque um plantão sem tomógrafo ainda pode usá-lo: dar azul de metileno por via oral e observar se ele sai pelo dreno torácico. Em Botucatu, a positividade do teste do azul de metileno indicando fístula de alto débito foi o que definiu a conduta de ressecção em cinco doentes; em Teresina, foi o azul de metileno administrado no terceiro dia de internação, saindo pelo dreno, que revelou a comunicação num doente cuja história de ingestão de espinha de peixe ainda não tinha aparecido.

A toracocentese e a drenagem pleural — indicação, técnica, escolha do sítio, análise do líquido, critérios de empiema — são do capítulo O líquido já está no frasco, na apostila de Cirurgia Torácica, e este capítulo as usa e não as reescreve. O que fica aqui é a leitura específica: líquido pleural com restos alimentares ou com amilase alta em paciente com dor torácica após vômito não é derrame parapneumônico, e tratá-lo como tal é perder o diagnóstico.

Laboratório: o que pedir, e o que ele não vai responder

Nenhum exame de sangue diagnostica perfuração esofágica. O laboratório serve para medir gravidade, preparar a operação e acompanhar a resposta — e para afastar os ladrões. Pedir com essa clareza evita a espera inútil por um resultado que não existe.

O pacote razoável na porta é hemograma, ureia e creatinina, sódio, potássio, glicemia, coagulograma, tipagem sanguínea, lactato, gasometria e amilase. Some-se troponina e eletrocardiograma, que aqui não são para confirmar coronariopatia e sim para documentar que ela foi considerada. A leitura do hemograma, da gasometria e do coagulograma tem capítulos próprios na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito, e este capítulo os cede.

Duas leituras específicas. A amilase elevada, já dita, não confirma pancreatite neste contexto e é compatível com extravasamento de saliva; ela vale como sinal, não como diagnóstico. E o lactato tem aqui o papel que tem em qualquer infecção grave: é o número que separa o paciente que ainda está compensado do que já está em choque, e o que se faz com um lactato alto é o pacote do capítulo Sepse: reconhecer e tratar na primeira hora, na apostila de Medicina Intensiva e Emergências.

Um lembrete sobre o que o laboratório normal significa nas primeiras horas: nada. Leucograma normal, proteína C reativa normal e lactato normal na segunda hora são o esperado, porque a fase inicial da mediastinite é química. Usar exames normais para dar alta a um paciente com a história certa é o mecanismo exato pelo qual oito de onze doentes chegaram tarde na série de Teresina.

07

Os critérios, o relógio e o que o elenco brasileiro entrega

Dor torácica após vômito ou instrumentação exige considerar perfuração sem abandonar outras ameaças. Exames cardíacos iniciais normais não excluem síndrome coronariana nem perfuração.

  1. 1Avaliar via aérea, respiração, perfusão e cronologia da dor, do vômito e de procedimentos; chamar equipe responsável precocemente.
  2. 2Investigar simultaneamente causas torácicas graves. ECG inicial sem isquemia e troponina inicial normal exigem interpretação pelo tempo e protocolo, com repetição quando indicada.
  3. 3Suspender via oral diante de suspeita consistente, manter suporte, analgesia e antimicrobianos indicados sem atrasar avaliação do foco.
  4. 4Procurar enfisema, derrame e sinais sistêmicos, sabendo que sua ausência precoce não exclui perfuração.
  5. 5Realizar TC e estudo contrastado conforme protocolo e condição; endoscopia é selecionada pela equipe e exige cuidado com insuflação e extensão da lesão.
  6. 6Decidir tratamento endoscópico, cirúrgico ou não operatório seletivo pela localização, contenção, contaminação, fisiologia e recursos, não apenas por um corte de 24 horas.
  7. 7Observação só é possível em casos adequadamente selecionados, com vigilância especializada e possibilidade de intervenção imediata.
  8. 8Reavaliar controle de contaminação, função orgânica e nutrição e estabelecer via segura de alimentação e seguimento.

Os quatro diagnósticos que roubam este paciente, e o que quebra cada engano

O que ele parece terO que sustenta o enganoO que quebra o enganoOnde a doença vizinha mora
Síndrome coronariana agudaHomem de meia-idade, dor retroesternal intensa, sudorese, taquicardia; e a troponina pode subir por injúria inflamatória e hipoxêmicaECG e troponina iniciais normais não excluem síndrome coronariana aguda, especialmente precocemente. Cronologia do vômito, procedimento, crepitação e imagem podem apoiar perfuração, mantendo investigação paralela das ameaças.Triagem da dor torácica: capítulo Dor torácica no pronto-socorro, na apostila de Síndromes do Paciente na Emergência
Pancreatite agudaEtilismo, vômito, dor epigástrica que atravessa para o dorso e amilase elevada — que aqui é salivar, e não pancreáticaDerrame pleural precoce desproporcional ao quadro, crepitação cervical, e tomografia com ar extraluminal em topografia esofágicaCapítulo Pancreatite aguda, na apostila de Urgência e Emergência Cirúrgica
Úlcera péptica perfuradaDor epigástrica de início súbito, história de dispepsia, paciente com aspecto graveO abdome: a úlcera perfurada dá defesa involuntária e abdome em tábua; a rotura torácica pode dar abdome apenas dolorido, porque o conteúdo foi para o mediastino e não para o peritônioCapítulo O minuto que ele sabe de cor, na apostila de Urgência e Emergência Cirúrgica, que é dono do pneumoperitônio
Intoxicação alcoólica, mal-estar ou crise de ansiedadePaciente que bebeu, vomitou, está agitado e taquicárdico, e que costuma melhorar sozinho — o rótulo que dispensa exameDor que não cede em horas, taquipneia mantida, febre nova, e a palpação do pescoço, que é gratuita e leva quinze segundosSem dono vizinho: é o cenário em que a perfuração chega ao segundo dia, e é por isso que este capítulo o nomeia

O relógio: o que cada documento brasileiro declara, e a conta refeita aqui

Fonte e anoRecorte a que o número se refereO que está impressoA conferência feita aqui
Rev Col Bras Cir, série de Teresina, 2008Letalidade da perfuração esofágica por tempo até o início do tratamento, atribuída pelos autores à literatura que revisam10% a 25% quando o tratamento começa nas primeiras 24 horas; 40% a 60% depois delasAs duas faixas não se sobrepõem: o teto do grupo precoce (25%) fica abaixo do piso do tardio (40%). É o formato mais honesto dos três, porque declara faixa e não ponto
Diretriz Clínica de Trauma da SESA-ES, 2018Perfuração esofágica dentro do capítulo de trauma torácico; o documento fala em tratamento cirúrgico nas primeiras 24 horasLetalidade média de 20% dentro de 24 horas; pode chegar a mais de 60% se deixada por mais tempoRazão de 3 vezes entre o piso do tardio e o valor do precoce. Cuidado com o escopo: é documento de trauma, e o número está dito ali dentro
Série de Teresina, dados próprios, 2008Os 11 doentes da casuística, separados por tempo até diagnóstico e tratamentoTrês (27,3%) tratados até 24 horas, todos com boa evolução; oito (72,7%) tratados de um a 23 dias, com dois óbitosConta refeita: 3/11 = 27,3% e 8/11 = 72,7%, ambas corretas. Letalidade do grupo tardio 2/8 = 25,0%; do precoce, zero. A série é pequena demais para virar taxa, e serve como ordem de grandeza
Attar e cols., citado pela série de Teresina64 doentes separados pelas primeiras 24 horas31 tratados até 24 horas, 27 sobreviveram (87%); 33 tratados depois, 18 sobreviveram (55%)Aritmética fecha: 31+33 = 64, 27/31 = 87,1% e 18/33 = 54,5%. Letalidade recalculada aqui: 4/31 = 12,9% no precoce e 15/33 = 45,5% no tardio, razão de 3,5 vezes
Marsico e cols., citado pela série de Teresina41 doentes separados por tratamento precoce e tardioNove óbitos (22%); 23 (56%) precoces com um óbito (4,3%); 18 (44%) tardios com oito óbitos (44%)Aritmética fecha inteira: 23+18 = 41, 23/41 = 56,1%, 18/41 = 43,9%, 1/23 = 4,3%, 8/18 = 44,4% e 9/41 = 22,0%. É a citação de terceiros mais bem conferida das duas séries
Diretriz Brasileira de Dor Torácica na Unidade de Emergência, 2025Rotura esofágica entre as causas de dor torácica com risco de morteIncidência relatada de 3 a cada 1 milhão; avaliação e manejo precoces impactam o prognósticoA régua nacional mais nova não fixa prazo, contraste, antibiótico nem algoritmo — e as duas referências que sustentam esse parágrafo são estrangeiras, de 2010 e de 2011

O que a Rename 2024 entrega a este capítulo, conferido por busca exata sobre o texto normalizado

Item, com o nome que a Rename usaPara que serviria aquiO que a Rename 2024 trazO que isso muda
ceftriaxonaCobertura de aeróbios por via venosa no doente em jejum absolutoPó para solução injetável de 250 mg, 500 mg e 1 g, componente básico, classificação AWaRe AlertaÉ o único antibacteriano injetável do elenco com uso plausível neste capítulo. Sozinho não cobre anaeróbio, e a exigência das duas fontes brasileiras é cobrir os dois
metronidazolCobertura de anaeróbios, que é metade da exigência dos dois documentosComprimido de 250 mg e de 400 mg, gel vaginal de 100 mg/g e benzoilmetronidazol em suspensão oral — nenhuma apresentação injetávelA cobertura anaeróbia do elenco essencial existe apenas por via oral, e este doente está proibido de engolir. Na prática o hospital usa a própria padronização, que é onde o injetável mora
clindamicinaAlternativa clássica de cobertura anaeróbia por via venosaCápsula de 150 mg e de 300 mg e apresentações tópicas; a solução injetável de 150 mg/mL aparece apenas na tabela de exclusões da própria RenameA ausência do injetável é decisão registrada, e não omissão de listagem
ampicilina, ampicilina com sulbactam, piperacilina com tazobactam, cefazolina, cefepima, meropeném, vancomicinaSão os esquemas que a literatura de perfuração esofágica costuma citarBusca exata devolve zero para todos, no índice e no texto brutoO antimicrobiano de uso hospitalar não vem do elenco essencial: vem da padronização da instituição e da comissão de controle de infecção. Ausência aqui não é ausência no hospital
fluconazol; anfotericina BCobertura antifúngica, quando a infectologia a indicarFluconazol em solução injetável de 2 mg/mL e em cápsulas; anfotericina B em complexo lipídico, desoxicolato e lipossomal — todas as injetáveis no componente estratégicoO antifúngico existe no elenco, mas nenhum documento brasileiro consultado o indica para esta doença: a decisão é caso a caso e é da infectologia
omeprazol; pantoprazolReduzir a agressão ácida sobre a fenda em doente que não pode engolirOmeprazol em cápsula de 10 mg e de 20 mg, componente básico; pantoprazol devolve zeroO elenco essencial não tem inibidor de bomba injetável. Para o doente em jejum absoluto, a via que o elenco oferece é justamente a que está proibida
sulfato de bário; contrastes iodadosO exame que confirma o diagnóstico deste capítuloBusca exata devolve zero para ambosContraste radiológico é insumo do serviço de imagem e não medicamento de farmácia — a disponibilidade depende do contrato local, e saber qual contraste o seu plantão tem é informação de plantão

Da prescrição ao frasco e ao comprimido — adulto de 78 kg, recalculado contra as apresentações da Rename 2024

O que se prescreveA contaEm apresentação realObservação
Cristaloide isotônico, bolus inicial de 500 mL500 mL ÷ 78 kg = 6,4 mL/kg por bolusUm frasco de 500 mL de cloreto de sódio a 0,9%, que a Rename traz no componente básicoReavaliar perfusão, pressão e diurese depois de cada bolus, em vez de prescrever volume fixo
Cristaloide, se a meta for 30 mL/kg no doente com hipoperfusão30 mL/kg × 78 kg = 2.340 mLQuatro frascos de 500 mL completam 2.000 mL; o quinto frasco é parcial (340 mL de 500)A meta de 30 mL/kg é do pacote de sepse e é do capítulo Sepse: reconhecer e tratar na primeira hora, na apostila de Medicina Intensiva e Emergências
Ceftriaxona 1 g por dia (se a padronização do hospital a incluir)1.000 mg ÷ apresentação1 frasco de 1 g, ou 2 frascos de 500 mg, ou 4 frascos de 250 mgAs três apresentações estão no componente básico; a escolha é do que o serviço tem em estoque
Ceftriaxona 2 g por dia2.000 mg ÷ apresentação2 frascos de 1 g, ou 4 de 500 mg, ou 8 de 250 mgOito frascos de 250 mg para uma dose diária é reconstituição repetida e desperdício de tempo de enfermagem — vale conferir o estoque antes de prescrever
Metronidazol 500 mg por dose, se a via oral estivesse liberada500 mg ÷ 250 mg = 2 comprimidos; 500 mg ÷ 400 mg = 1,25 comprimidoDois comprimidos de 250 mg compõem a dose; com o de 400 mg a dose não se compõe em número inteiroConta feita apenas para mostrar o impasse: o doente deste capítulo está em jejum absoluto e não pode tomar nenhum dos dois
Metronidazol 1.500 mg por dia (500 mg de 8 em 8 horas)1.500 ÷ 250 = 6 comprimidos; 1.500 ÷ 400 = 3,75 comprimidosSeis comprimidos de 250 mg por dia; com o de 400 mg o esquema exigiria fracionarO mesmo impasse, agora na dose diária
Omeprazol 40 mg por dia40 ÷ 20 = 2 cápsulas; 40 ÷ 10 = 4 cápsulasDuas cápsulas de 20 mg ou quatro de 10 mg — as duas por via oralNão há apresentação injetável no elenco: em jejum absoluto, esta linha da prescrição depende inteiramente da padronização do hospital

A série de Teresina tem 11 pacientes; cinco correspondem a aproximadamente 45,5%. Pequenas diferenças de arredondamento podem fazer os percentuais totalizarem 100,0% ou 100,1%. Use as contagens e o tamanho da série para interpretar a distribuição das causas.

Na mesma série, dois tratamentos conservadores correspondem a 18,2% e nove cirúrgicos a 81,8%. A publicação traz 81,9% em um trecho. Essa diferença de arredondamento não demonstra superioridade de uma estratégia nem permite comparar pacientes sem considerar sua seleção.

O texto e a tabela-resumo invertem a classificação temporal de dois casos cervicais. A narrativa descreve drenagem de abscesso após 13 dias e esofagorrafia após diagnóstico em oito horas. A inconsistência limita conclusões baseadas apenas nas linhas da tabela.

Algumas referências numeradas na discussão de Teresina não correspondem aos autores nomeados. Para usar uma comparação de resultados, identifique o estudo de origem pelo título e pela população. A numeração incorreta não deve servir de base para escolher ressecção ou reparo.

Na série de Botucatu, um evento em 24 pacientes corresponde a cerca de 4,2%, apesar dos 8,3% impressos na linha do balão. As contagens de etiologia totalizam 24. Mantenha os números absolutos ao descrever essa casuística pequena.

A série de Botucatu descreve quatro óbitos em 24 pacientes, correspondendo a 83,3% de sobrevida global. O valor de cerca de 91% se refere a um subgrupo. Como não há comparação adequada entre estratégias, a série não comprova superioridade cirúrgica a partir desse percentual.

A tabela de séries nacionais apresenta várias discrepâncias entre casuística, eventos e percentuais. Esses dados não sustentam uma comparação quantitativa precisa entre centros sem consulta aos trabalhos originais. Use-os como contexto histórico e considere suas limitações.

Em duas linhas, os títulos das referências indicam amostras diferentes das impressas na tabela-resumo, explicando parte das discrepâncias. A correção de um denominador não reconstitui todos os detalhes de seleção e tratamento. Evite transformar a tabela recomposta em comparação de eficácia.

A mortalidade de 37,2% atribuída a uma série de 41 pacientes não corresponde a uma contagem inteira reproduzível. O artigo não permite resolver se o erro está no denominador ou no percentual. Essa linha deve ser interpretada com essa limitação.

A série de Botucatu descreve dois casos como drenagem pleural no método e como sutura associada à drenagem na discussão. A diferença impede classificar com segurança a técnica desses casos apenas pelo resumo. Não use essa ambiguidade para recomendar ou dispensar reparo.

O resumo generaliza esofagectomia para as lesões torácicas, mas o método informa ressecção em cinco de sete pacientes. A leitura completa mostra que a série incluiu abordagens distintas. O segmento lesionado, isoladamente, não reproduz toda a decisão terapêutica.

A conclusão sobre tratamento após 24 horas apoia-se em poucos pacientes operados entre 36 e 48 horas. O prazo é um marcador de evolução e contaminação, sem tornar tardio sinônimo de intratável. A avaliação deve considerar o estado atual e a possibilidade de controle.

A estimativa rara citada para rotura espontânea não representa todas as perfurações esofágicas. Instrumentação e outras causas têm contextos próprios. Ao usar incidência, identifique população, mecanismo e período; a raridade da forma espontânea não exclui perfuração após procedimento.

A diretriz capixaba usada como referência é de 2018 e apresenta limitações editoriais de datação. Considere o contexto de suas recomendações, especialmente ao interpretar prazos. A necessidade de agir depende de perfuração, contaminação e repercussão clínica, não da antiguidade de um rótulo.

Antimicrobianos e contrastes devem ser conferidos na padronização hospitalar e no serviço de imagem. A ausência de uma apresentação na Rename citada não demonstra indisponibilidade local. Organize o tratamento e a investigação com cirurgia, radiologia e farmácia, conforme a condição do paciente.

08

A conduta, hora a hora

A conduta deste capítulo se organiza por relógio, e não por diagnóstico confirmado. A razão é a série de Teresina: quem chegou ao tratamento dentro de 24 horas sobreviveu, e os dois óbitos estão entre os oito que chegaram depois. Como o exame que confirma leva tempo — transporte, radiologista, contraste, laudo —, quase tudo o que importa na primeira hora é feito com a hipótese em pé e sem confirmação nenhuma.

Há uma assimetria que vale enunciar antes dos marcos. As medidas da primeira hora são baratas, reversíveis e inofensivas se a hipótese estiver errada: jejum absoluto, dois acessos, volume, analgesia, antibiótico e um telefonema. As medidas que se deixa de tomar por esperar confirmação são irrecuperáveis, porque tempo não volta. Num paciente com a inversão do vômito e crepitação cervical, agir sem confirmação custa quase nada; esperar custa a distância entre os 20% e os mais de 60% de letalidade que o documento estadual de trauma registra.

Uma advertência de escopo antes de começar: nada aqui é ato de interno sozinho. A perfuração esofágica é doença de cirurgião, e boa parte dela é de cirurgião torácico. O papel do interno é reconhecer, estabilizar, pedir o exame certo, escrever o horário de tudo e chamar quem decide — cedo, e não depois do laudo.

  1. Minutos 0 a 10 — com a hipótese apenas levantada

    Antes de qualquer imagem, três coisas: suspender toda via oral, garantir acesso e começar a monitorização. O jejum absoluto é a única medida que interrompe a alimentação da fonte, porque cada deglutição de líquido ou de saliva engolida com comprimido recontamina o mediastino. Registre no prontuário a hora exata em que a dieta foi suspensa e comunique à enfermagem em voz alta — dieta zero escrita e não comunicada continua sendo servida na próxima refeição, e isso acontece.

    Prescrição
    • Dieta zero absoluta, inclusive água e medicação por via oral — anotar hora e comunicar à equipe de enfermagem
    • Dois acessos venosos periféricos calibrosos (18G ou maior), em membros superiores
    • Monitorização contínua: cardioscopia, oximetria de pulso, pressão não invasiva a cada 15 minutos nas duas primeiras horas
    • Oxigênio suplementar guiado pela oximetria, com alvo de saturação de 94% a 98%
    • Cabeceira elevada a 30 a 45 graus — reduz refluxo e melhora a mecânica ventilatória do doente com dor
    • Coleta imediata: hemograma, ureia, creatinina, eletrólitos, glicemia, coagulograma, tipagem, lactato, gasometria, amilase, troponina
    • Eletrocardiograma de 12 derivações — para documentar que a coronariopatia foi considerada, e não para afastar este diagnóstico
  2. Minutos 10 a 30 — volume, dor e o telefonema que não espera laudo

    O doente de perfuração esofágica é hipovolêmico antes de estar hipotenso, porque a inflamação mediastinal desloca volume para o terceiro espaço. Reponha cristaloide com alvo de perfusão e de diurese, reavaliando a cada bolus em vez de prescrever um volume fixo. A analgesia é obrigação e não atrapalha o diagnóstico: a dor impede respiração profunda, piora a atelectasia e a hipoxemia. E o telefonema para o cirurgião é feito agora, com a hipótese, e não depois do exame — porque é ele quem vai decidir qual exame confirmatório e com que contraste.

    Prescrição
    • Cristaloide isotônico em bolus de 500 mL, reavaliando perfusão, pressão e diurese após cada bolus
    • Sondagem vesical de demora se houver instabilidade ou necessidade de medir diurese hora a hora
    • Analgesia venosa titulada — a dor é intensa e o opioide venoso é apropriado; evitar anti-inflamatório não esteroidal pela função renal do doente em risco de choque
    • Antiemético venoso: o vômito que produziu a lesão pode se repetir e cada episódio aumenta o rasgo
    • Acionar o cirurgião geral ou torácico de sobreaviso com a hipótese e o horário do início da dor, sem esperar exame
    • Avisar a radiologia de que se trata de suspeita de perfuração esofágica, para que o protocolo do exame seja o certo
    • Se o serviço não tem cirurgia torácica nem tomógrafo, iniciar a regulação da vaga agora, em paralelo com o resto
  3. Minutos 30 a 60 — antibiótico de amplo espectro

    Os dois documentos brasileiros que tratam da conduta exigem cobertura ampla e nenhum dos dois nomeia um esquema. A série de Teresina fixa o alvo — antibioticoterapia de amplo espectro com cobertura para aeróbios e anaeróbios — e o documento estadual de trauma diz que em todos os casos deve haver ampla cobertura antibiótica. O que isso significa em fármaco é decisão da padronização do seu hospital e da comissão de controle de infecção, e é a ela que o interno recorre. O que não é negociável é o alvo: a flora que contamina o mediastino é a da boca e da faringe, aeróbia e anaeróbia ao mesmo tempo.

    Prescrição
    • Antibiótico venoso de amplo espectro com cobertura simultânea de aeróbios e anaeróbios, iniciado na primeira hora, conforme a padronização do hospital
    • Coletar duas hemoculturas de sítios distintos antes da primeira dose — desde que isso não atrase a dose além de poucos minutos
    • Registrar no prontuário a hora exata da primeira dose
    • Do elenco essencial: a Rename 2024 traz ceftriaxona injetável de 250 mg, 500 mg e 1 g no componente básico — é o único antibacteriano injetável do elenco com uso plausível aqui, e sozinho não cobre anaeróbio
    • Metronidazol consta da Rename 2024 apenas em comprimido de 250 mg e 400 mg, gel vaginal e suspensão oral: a cobertura anaeróbia do elenco essencial é toda por via oral, e este doente está em jejum absoluto
    • Antifúngico não é prescrição automática e nenhum documento brasileiro consultado o indica para esta doença — se houver imunossupressão, uso prévio prolongado de antimicrobiano ou mediastinite estabelecida, a decisão é da infectologia, e o elenco traz fluconazol injetável de 2 mg/mL e anfotericina B no componente estratégico
    • Inibidor de bomba de prótons por via venosa reduz a agressão ácida sobre a fenda — e a Rename 2024 traz omeprazol apenas em cápsula de 10 mg e 20 mg, sem apresentação injetável; pantoprazol devolve zero
  4. Primeira hora — a sonda nasogástrica: a pergunta que se responde antes de pedir a bandeja

    Este é o ponto em que o reflexo do plantão erra. Diante de dor torácica com vômito, a sonda nasogástrica parece medida óbvia de descompressão. Diante de suspeita de perfuração esofágica, ela é um instrumento rígido atravessando às cegas exatamente o segmento que se suspeita rompido, e a passagem cega pode aprofundar ou alargar a lesão. Nenhum dos documentos brasileiros consultados autoriza passagem cega neste cenário: os tubos que eles descrevem são colocados sob visão ou no ato cirúrgico — o documento estadual de trauma descreve o tubo esofágico de aspiração posicionado acima da sutura, e a série de Teresina descreve sonda alimentar instalada durante ou depois do procedimento. A regra que este capítulo escreve a partir disso, e a assina como leitura sua: na suspeita de perfuração, a sonda não se passa às cegas.

    Prescrição
    • Não passar sonda nasogástrica às cegas enquanto a perfuração for hipótese ou diagnóstico — anotar essa decisão no prontuário para que o plantão seguinte não a desfaça
    • Se a descompressão gástrica for julgada necessária, a passagem é feita sob visão endoscópica ou no intraoperatório, e é decisão do cirurgião ou do endoscopista
    • Sonda já passada antes de a hipótese surgir: não remover por conta própria; comunicar ao cirurgião, manter em posição, conferir o posicionamento na radiografia e registrar quem passou e quando
    • A técnica, a indicação e a conferência da posição da sonda são do capítulo O que confirma, e o que só parece confirmar, na apostila de Procedimentos e Vias de Acesso
    • Nutrição: nada por sonda nasogástrica enquanto a via não estiver definida; o aporte inicial é venoso, e a via enteral definitiva (sonda pós-pilórica, jejunostomia) é decidida com o cirurgião
    • Vômito ativo com perfuração suspeita é emergência: antiemético venoso e reavaliação imediata, porque cada episódio pode aumentar a lesão
  5. Horas 1 a 4 — confirmar e mapear, sem soltar o paciente

    Com o doente estabilizado, o antibiótico correndo e o cirurgião avisado, a investigação avança para confirmar a comunicação e medir a extensão. Duas regras de transporte que evitam desastre: paciente com suspeita de perfuração esofágica não vai sozinho ao setor de imagem, e não vai com dieta liberada para tomar contraste sem que o time saiba qual contraste é. O acompanhamento por profissional e o material de via aérea junto são obrigatórios se houver qualquer instabilidade.

    Prescrição
    • Radiografia de tórax em incidência posteroanterior e perfil, se o paciente tolerar a posição ortostática; senão, no leito
    • Estudo contrastado ou tomografia com contraste oral, com o contraste definido em conversa com radiologia e cirurgia — a sequência publicada é iodado primeiro e bário diluído depois, se o primeiro for negativo ou inconclusivo
    • Informar explicitamente à radiologia se há suspeita de comunicação com via aérea ou risco de aspiração, porque isso muda o contraste
    • Tomografia de tórax e de abdome superior para mapear ar extraluminal, coleções, empiema e pneumotórax
    • Reavaliar o pescoço a cada duas horas, anotando presença ou ausência de crepitação com o horário
    • Se houver derrame pleural volumoso ou empiema, acionar quem drena — a toracocentese e a drenagem são do capítulo O líquido já está no frasco, na apostila de Cirurgia Torácica
    • Reservar vaga de terapia intensiva antes de precisar dela
  6. Depois da confirmação — a decisão em três blocos, e quem a toma

    Confirmada a perfuração, existem três caminhos, e o que decide entre eles não é a preferência do serviço: é quanto de mediastino já foi contaminado e como está o doente. A série de Teresina é explícita ao dizer que a complexidade de cada caso impossibilita padronizar o tratamento e que a conduta assume caráter individual, dependente da experiência do cirurgião — o que, lido ao contrário, significa que não existe algoritmo que o interno possa aplicar sozinho. O que o interno precisa entender são os critérios, para saber que informação levar ao cirurgião.

    Prescrição
    • Bloco conservador (sem operar): a série de Teresina o admite em perfuração cervical ou torácica com doente clinicamente estável e sem sinal de septicemia; perfuração bem delimitada, bloqueada ao mediastino ou loculada na pleura, com diagnóstico precoce ou tardio; sintomatologia mínima; ou perfuração pequena que drene para a própria luz do esôfago
    • Regra dura do mesmo documento: perfuração abdominal não se trata conservadoramente
    • O conservador tem conteúdo próprio e não é observação passiva — restrição completa de via oral, aporte nutricional enteral ou parenteral, antibiótico de amplo espectro com cobertura para aeróbios e anaeróbios, e monitorização intensiva com acompanhamento radiológico por cirurgião experiente
    • Bloco endoscópico: retirada de corpo estranho e tratamento da lesão por via endoscópica, indicado sobretudo quando a perfuração foi causada por corpo estranho — em Teresina, um doente com osso impactado por dez dias foi resolvido assim, com dieta zero e nutrição parenteral por sete dias
    • Bloco cirúrgico: o padrão descrito é o reparo primário da lesão com reforço por tecido vascularizado (retalho pleural, músculo intercostal, musculatura da parede, gordura pericárdica, fundo gástrico, omento), somado a desbridamento e drenagem
    • Ressecção do esôfago fica reservada a necrose extensa, doença prévia do órgão (carcinoma, megaesôfago, estenose grave) e lesão por cáustico — não é a operação da perfuração recente em esôfago sadio
    • O que o interno leva ao cirurgião, por escrito: hora da lesão, hora do início da dor, segmento acometido, estado hemodinâmico, presença de sepse, extensão da contaminação na tomografia e comorbidades
  7. Mediastinite instalada — por que a drenagem resolve menos do que parece

    Quando o mediastino já está infectado, o instinto é drenar, e drenar é necessário. O que a experiência publicada mostra é que drenar não basta. Os dois doentes que morreram na série de Teresina chegaram com contaminação mediastinal a partir de lesão cervical, foram submetidos a toracotomia com ampla limpeza do mediastino e ainda assim evoluíram para óbito por sepse. Na casuística de Botucatu, o doente que morreu fora do grupo do câncer havia recebido drenagem mediastinal, sutura da lesão, nova fundoplicatura e jejunostomia — e ainda assim evoluiu para sepse e falência de múltiplos órgãos, morrendo no 30º dia.

    Prescrição
    • Drenagem ampla do mediastino é parte do tratamento da mediastinite estabelecida e, na lesão cervical com contaminação do mediastino superior, a série de Teresina indica toracotomia além da drenagem cervical
    • Drenar sem tratar a fonte é controle de dano: enquanto a comunicação estiver aberta, cada deglutição e cada inspiração recontaminam
    • Por isso a conduta na mediastinite combina drenagem com alguma forma de controle da fonte — reparo, desvio ou ressecção —, e essa escolha é do cirurgião
    • Alternativas descritas para falha do reparo primário ou mediastinite já instalada: irrigação transesofágica contínua e drenagem esofagocutânea com tubo em T; são pouco utilizadas e a própria série as apresenta como recurso, não como padrão
    • O suporte do doente séptico — ressuscitação, vasopressor, ventilação, controle glicêmico, decisão de terapia intensiva — é do capítulo Sepse: reconhecer e tratar na primeira hora, na apostila de Medicina Intensiva e Emergências, e este capítulo cede a ele o pacote inteiro
    • Empiema associado exige drenagem pleural própria, que é do capítulo O líquido já está no frasco, na apostila de Cirurgia Torácica
  8. Das 24 horas em diante — nutrição, via e transferência

    Dois problemas dominam a segunda fase e os dois se resolvem melhor se alguém pensou neles no primeiro dia. O primeiro é nutrição: o doente vai ficar sem via oral por dias ou semanas, e o aporte precisa de via definida cedo. O segundo é o serviço: perfuração de esôfago torácico é doença de hospital com cirurgia torácica, terapia intensiva e endoscopia terapêutica, e transferir na primeira noite é mais fácil do que transferir no terceiro dia, quando o doente já está séptico.

    Prescrição
    • Definir a via nutricional com o cirurgião no primeiro dia: parenteral enquanto não houver via enteral segura, e enteral por sonda pós-pilórica ou jejunostomia quando houver — em Teresina, a nutrição parenteral por sete a oito dias foi a ponte usada nos casos conduzidos sem operação
    • Manter a via oral fechada até que o estudo contrastado de controle demonstre que a fenda fechou, e não pela melhora clínica isolada
    • Profilaxia de tromboembolismo venoso conforme o protocolo da casa, respeitando o programa cirúrgico
    • Fisioterapia respiratória precoce: o doente tem dor torácica, derrame e imobilidade, e a atelectasia é a complicação que se soma
    • Transferência: se o serviço não tem cirurgia torácica, terapia intensiva ou endoscopia terapêutica, iniciar a regulação no primeiro contato e não depois da piora
    • Documentar no resumo de transferência a hora da lesão, a hora do diagnóstico, o antibiótico e a hora da primeira dose, o contraste usado e o achado do exame confirmatório
09

Como saber se está funcionando

A reavaliação desta doença tem uma característica que a distingue de quase tudo na enfermaria: o parâmetro mais informativo é gratuito e se mede com a mão. Enfisema subcutâneo que cresce é a tradução mais direta de fonte que continua aberta, e ele muda de hora em hora. Anote com horário, sempre, porque o valor está na curva e não no ponto.

A segunda característica é que a melhora clínica engana neste caso mais do que na média. Dor que cede com opioide, febre que cede com antitérmico e taquicardia que cede com volume dizem que o suporte está funcionando, e não que a fenda fechou. Quem decide se a fenda fechou é o estudo contrastado de controle, e é ele que autoriza a primeira água — nunca a impressão do plantão.

A terceira é o horizonte. Este é um doente de dias a semanas sem via oral, com dreno, com risco de fístula e de empiema, e a reavaliação precisa cobrir também o que a imobilidade e o jejum produzem. Um doente que sobreviveu à mediastinite e desnutriu, ou que perdeu a via aérea por atelectasia, não teve azar: teve reavaliação incompleta.

Enfisema subcutâneoA cada duas horas nas primeiras 12 horas; depois, a cada turno

Esperado: Estabilização e depois regressão da área crepitante após o controle da fonte; a reabsorção leva dias

Se não melhora: Enfisema que avança para a parede torácica, para a face ou para a região supraclavicular contralateral indica que a comunicação continua alimentando o mediastino. Comunique ao cirurgião no mesmo turno, não no próximo; refaça imagem. Anote a extensão com referência anatômica fixa (borda da clavícula, ângulo da mandíbula) para que o plantão seguinte compare

Temperatura, frequência cardíaca e leucogramaSinais vitais de 4 em 4 horas; leucograma diário, ou a cada 12 horas se houver piora

Esperado: Febre e taquicardia cedendo nas primeiras 48 a 72 horas após o controle da fonte e o início do antibiótico

Se não melhora: Febre que persiste ou reaparece depois do terceiro dia é coleção não drenada até prova em contrário — mediastino, pleura ou parede. Peça imagem em vez de trocar antibiótico: a maioria dessas febres é problema de drenagem, e não de espectro

Lactato e sinais de perfusãoNa admissão, depois de cada bolus e a cada 6 horas enquanto houver instabilidade

Esperado: Queda do lactato e normalização de tempo de enchimento capilar, diurese e nível de consciência

Se não melhora: Lactato que não cai ou que sobe depois de volume adequado é choque estabelecido, e o caminho é o do capítulo Sepse: reconhecer e tratar na primeira hora, na apostila de Medicina Intensiva e Emergências. Peça vaga de terapia intensiva antes de precisar de vasopressor, e não depois

Débito e aspecto do dreno torácico, quando houverA cada turno, registrando volume e aspecto

Esperado: Queda progressiva do débito e clareamento do aspecto; saída de saliva ou de resto alimentar deve cessar quando a fenda fecha

Se não melhora: Débito que se mantém alto, ou saída de conteúdo alimentar ou salivar que persiste, é fístula ativa. Não é motivo para retirar o dreno nem para liberar dieta; é motivo para reavaliação cirúrgica. O manejo do dreno e do empiema é do capítulo O líquido já está no frasco, na apostila de Cirurgia Torácica

Saturação, frequência respiratória e ausculta comparativaSinais vitais de 4 em 4 horas; ausculta comparativa pelo menos uma vez por turno

Esperado: Melhora da mecânica com analgesia adequada, drenagem do derrame e fisioterapia respiratória

Se não melhora: Queda nova de saturação ou murmúrio que some de um lado exige radiografia no mesmo turno — as causas são derrame que refez, empiema, pneumotórax e atelectasia, e as quatro têm conduta diferente. A abordagem da dessaturação aguda na enfermaria é do capítulo Dessaturação aguda na enfermaria, na apostila de Síndromes do Paciente Internado

Dor, medida e registrada em escalaA cada avaliação de sinais vitais e sempre que a enfermagem for chamada

Esperado: Redução progressiva com analgesia regular; dor controlada permite inspiração profunda e tosse

Se não melhora: Dor que aumenta depois de ter melhorado é o sinal mais precoce de coleção nova ou de deiscência, e vale mais do que a febre. Escalonar o analgésico sem investigar é o modo mais eficiente de apagar esse sinal — trate a dor e investigue a mudança, nas duas coisas ao mesmo tempo

Estudo contrastado de controle, antes de qualquer via oralNo prazo definido pelo cirurgião — em regra depois de vários dias sem sinal de fístula

Esperado: Ausência de extravasamento de contraste, que é a única autorização legítima para liberar água e depois dieta

Se não melhora: Extravasamento persistente mantém a via oral fechada e a nutrição pela via alternativa. Em Teresina, os doentes conduzidos sem operação ficaram em dieta zero com nutrição parenteral por sete e oito dias antes de evoluir bem; liberar antes, pela boa aparência do doente, é reabrir a fonte

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Onde o erro machuca

Dar alta ou observar em corredor porque o eletrocardiograma e a troponina vieram normais

O dano: A falsa exclusão de causas graves por ECG e troponina iniciais normais pode atrasar tanto síndrome coronariana aguda quanto perfuração esofágica. Interpretar tempo, trajetória e necessidade de investigação seriada, enquanto a hipótese esofágica é avaliada.

Como pegar a tempo: Trate exame normal como exclusão de uma hipótese, e não como conclusão. Antes de decidir destino, responda por escrito: o que explica a dor deste paciente? Se a resposta for nenhuma hipótese, ele não tem alta — tem observação com médico responsável nomeado e reavaliação com horário marcado. E refaça a pergunta da ordem: a dor veio antes ou depois do vômito?

Passar sonda nasogástrica às cegas em paciente com suspeita de perfuração esofágica

O dano: A sonda é um tubo rígido atravessando às cegas exatamente o segmento que se suspeita rompido, e a passagem pode aprofundar ou alargar a lesão, transformando uma perfuração pequena e bloqueada em contaminação franca do mediastino. É o gesto de rotina que converte um doente candidato a tratamento sem operação em um doente de toracotomia.

Como pegar a tempo: Diante da suspeita, escreva no prontuário que a sonda não deve ser passada às cegas e comunique à enfermagem — a prescrição que não diz isso costuma ser cumprida pelo plantão seguinte. Se a descompressão for necessária, ela é feita sob visão endoscópica ou no intraoperatório, e é decisão do cirurgião. Sonda já passada antes de a hipótese surgir não se remove por conta própria: confere-se a posição na radiografia e comunica-se.

Tratar o achado torácico e parar aí: drenar o pneumotórax, puncionar o derrame, e mandar o paciente para a enfermaria

O dano: O achado é sintoma de uma doença que continua acontecendo. A diretriz de pneumotórax da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia usa este exemplo nominalmente ao tratar do pneumotórax secundário: na rotura espontânea do esôfago, não basta considerar apenas o tratamento do pneumotórax. Drenar remove o que já saiu e nada faz contra o que continua saindo pela fenda a cada deglutição e a cada inspiração.

Como pegar a tempo: Diante de pneumotórax, pneumomediastino ou derrame pleural sem causa pulmonar evidente, pergunte de onde veio o ar. Se a resposta plausível é o esôfago, a conduta muda de drenagem para investigação da fonte, com estudo contrastado e cirurgião envolvido. Um derrame pleural com restos alimentares ou com amilase alta encerra a discussão.

Esperar o laudo do exame confirmatório para chamar o cirurgião e para iniciar o antibiótico

O dano: Transporte, fila do tomógrafo, contraste, aquisição e laudo consomem horas, e é justamente o tempo que a doença cobra. As medidas da primeira hora são inofensivas se a hipótese estiver errada; o tempo perdido esperando é irrecuperável. A diferença entre agir e esperar, na régua brasileira disponível, é a diferença entre uma letalidade média de 20% e uma acima de 60%.

Como pegar a tempo: Chame com a hipótese, e não com o laudo — inclusive porque é o cirurgião quem decide qual exame confirmatório e com que contraste. Inicie o antibiótico de amplo espectro na primeira hora, com cobertura simultânea de aeróbios e anaeróbios, e registre a hora exata da primeira dose. E comece a regulação de vaga na primeira noite, se o seu serviço não tem cirurgia torácica.

Liberar água ou dieta porque o paciente está bem e pede para comer

O dano: Cada deglutição recontamina o mediastino por uma fenda que ainda pode estar aberta. A melhora da dor, da febre e da taquicardia mede o suporte, não o fechamento da lesão. Liberar dieta pela boa aparência é o modo mais comum de fazer um doente já estabilizado retroceder — e o retrocesso vem como febre nova, coleção nova e reoperação.

Como pegar a tempo: A via oral só reabre quando o estudo contrastado de controle demonstrar ausência de extravasamento, no prazo definido pelo cirurgião. Escreva isso na prescrição e explique ao paciente e à família, porque a pressão para liberar água costuma vir deles e é compreensível. Enquanto isso, garanta que o aporte nutricional está de fato correndo pela via alternativa: jejum prolongado sem nutrição prescrita é o outro erro do mesmo parágrafo.

Prescrever o estudo contrastado sem dizer à radiologia que há risco de aspiração ou suspeita de comunicação com a via aérea

O dano: A escolha de contraste não é única e não é do interno: ela depende dessa informação. O reflexo de que hidrossolúvel é sempre a opção segura vale para o mediastino e não vale para o pulmão. A série de Botucatu confirmou fístula esôfago-brônquica com esofagograma com bário diluído — naquele grupo, em que a comunicação era com a via aérea, o exame não começou pelo iodado.

Como pegar a tempo: Escreva no pedido a hipótese completa e o risco: suspeita de perfuração esofágica, com ou sem suspeita de comunicação com a via aérea, com ou sem risco de aspiração. Converse com o radiologista antes de o paciente descer. E acompanhe o exame quando houver qualquer instabilidade — o paciente com suspeita de perfuração não vai sozinho ao setor de imagem.

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O que dizer ao paciente e à família

As conversas deste capítulo têm uma dificuldade própria: você precisa convencer alguém a levar a sério uma doença cujo nome ele nunca ouviu, num momento em que ele acabou de receber a notícia tranquilizadora de que o coração está bem. A sequência natural do atendimento produz alívio na hora errada, e desfazer esse alívio sem produzir pânico é trabalho.

Há uma conversa que este capítulo não faz e cede inteira: a comunicação de diagnóstico grave ou de má notícia estruturada é do capítulo próprio da apostila de Comunicação, Ética e Segurança na Prática, e as falas abaixo tomam aquele método como dado, sem reproduzi-lo. Fica aqui apenas o que pertence a esta doença — a explicação da inversão do vômito, a proibição da água, a revelação de que o procedimento causou a lesão, e a passagem de caso a quem decide.

Uma regra que atravessa todas elas: escreva o horário. Horário do início da dor, horário da dieta suspensa, horário do primeiro antibiótico, horário em que o cirurgião foi acionado, horário em que a crepitação apareceu. Neste diagnóstico o relógio é o dado clínico principal, e conversa sem horário registrado vira, no dia seguinte, discussão sobre quem disse o quê.

Explicar ao paciente que o coração está bem e que ainda assim ele não vai para casa

Seu Emeterio, os exames iniciais do coração não mostraram alteração, mas isso sozinho ainda não exclui infarto; vamos interpretá-los com o tempo da dor e a evolução. Ao mesmo tempo, o vômito forte e o ar percebido no pescoço levantam suspeita de lesão do esôfago, que precisa ser investigada com urgência. O senhor ficará em observação, fará o exame apropriado e a equipe cirúrgica já está sendo chamada.

Não diga: Evite dizer que está tudo bem e que é só para garantir. Evite o outro extremo, que é dizer que ele pode morrer sem explicar o que se vai fazer. E evite prometer que o exame vai ser normal: a frase que funciona diz o que se procura e o que já está sendo feito, e não o que se espera encontrar.

Proibir a água a um paciente que insiste em beber

Sei que a sede é ruim e vou pedir para molharem seus lábios com gaze. O que não posso é deixar o senhor engolir nada, nem água, e vou explicar por quê. Se existe um rasgo no tubo, tudo que o senhor engolir sai por ele para dentro do peito — inclusive a própria saliva, que já é um problema que não consigo evitar. Cada gole aumenta a sujeira lá dentro. Assim que o exame de controle mostrar que o rasgo fechou, a água volta, e eu vou ser o primeiro a liberar.

Não diga: Evite responder apenas jejum por causa da cirurgia — é a explicação que o paciente já ouviu antes e que ele sabe que às vezes se flexibiliza. Evite deixar o pedido de água sem uma medida concreta de conforto, porque um paciente com sede e sem alternativa bebe escondido. E evite prometer prazo que não é seu para dar.

Contar à família que a lesão foi causada por um procedimento feito pela própria equipe

Preciso explicar o que aconteceu. A dilatação que fizemos hoje de manhã tinha o objetivo de abrir a passagem, e é o tratamento indicado para o problema dele. Durante ou logo depois desse procedimento, houve uma perfuração da parede do esôfago — é a complicação mais temida dele, é conhecida e pode acontecer mesmo quando tudo é feito corretamente. Isso não muda o que precisamos fazer agora, e o que precisamos fazer agora é isto: ele está em jejum, com antibiótico correndo desde as 14h30, e o cirurgião torácico já o examinou. Vou voltar aqui a cada duas horas para atualizar vocês.

Não diga: Evite a voz passiva que apaga o agente — houve uma intercorrência não é a mesma frase que a dilatação perfurou. Evite prometer que não houve erro antes que alguém tenha analisado, e evite o oposto, que é assumir culpa individual no corredor. E evite adiar: a família que descobre sozinha, dias depois, deixa de acreditar em tudo que foi dito antes.

Acionar o cirurgião por telefone, de madrugada, sem exame confirmatório

Doutora, é o interno da sala amarela. Homem de 54 anos, 78 quilos, chegou às 23h40. Vomitou três vezes com esforço e a dor torácica começou dentro do terceiro vômito, há duas horas e meia. Está com 112 de frequência, 26 de respiração, 94% em ar ambiente, murmúrio diminuído na base esquerda e crepitação na fossa supraclavicular esquerda, que apareceu por volta das 23h10 segundo ele. Eletrocardiograma sem isquemia e troponina normal. Suspendi via oral às 23h50, dois acessos, cristaloide correndo, analgesia feita. Minha hipótese é perfuração de esôfago. Ainda não tenho imagem, e liguei antes para saber qual exame a senhora quer e com que contraste.

Não diga: Evite abrir o telefonema pedindo desculpa por ligar sem exame — é justamente por não ter exame que a ligação existe. Evite dar só a queixa e o diagnóstico: o que o cirurgião precisa é da linha do tempo, do estado atual e do que já foi feito. E evite omitir o que ainda não foi feito, porque ele vai decidir com base nisso.

Conversar com o endoscopista sobre um procedimento que ele realizou horas antes

Doutor, o paciente da dilatação das 10h está com dor torácica intensa desde umas 13h, febre de 38,2 e taquicardia. Não é a dor que ele tinha antes. Estou levantando perfuração e já pedi a tomografia. Queria a sua leitura do procedimento: houve resistência, houve dor fora do habitual, o senhor viu alguma coisa que valha eu registrar? Não estou perguntando para atribuir responsabilidade, estou perguntando porque a hora exata da lesão muda a conduta e o senhor é quem tem essa informação.

Não diga: Evite a pergunta acusatória, que fecha a conversa e faz perder a informação clínica. Evite também o excesso de deferência que não pergunta nada: a hora do procedimento e o que aconteceu nele são dados do prontuário do paciente, não patrimônio de quem operou. E evite conversar sobre isso na frente da família antes de ter os fatos.

Passar o caso ao plantão seguinte

Leito 7, Emeterio Urucuia, 54 anos. Perfuração de esôfago confirmada na tomografia das 3h20, terço distal, com pneumomediastino e derrame à esquerda, sem pneumotórax. Lesão às 21h30, diagnóstico às 3h20 — cinco horas e cinquenta. Ceftriaxona e cobertura anaeróbia pelo esquema da casa desde 00h35. Dieta zero desde 23h50, sem sonda, e está escrito na prescrição que a sonda não se passa às cegas. Cirurgia torácica avaliou às 4h e programou drenagem. Crepitação estável desde 2h10, marcada na borda da clavícula. O que precisa de olho: extensão do enfisema e débito do dreno.

Não diga: Evite passar o caso pelo diagnóstico apenas. Neste doente o que o próximo plantão precisa é da linha do tempo e das duas ou três coisas que mudam de hora em hora. E jamais omita a instrução sobre a sonda: ela é a única coisa da prescrição que alguém pode desfazer por reflexo.

Explicar a transferência para outro hospital a uma família que resiste

Entendo o receio de tirá-lo daqui, e ele está estável agora. O que este hospital não tem é cirurgia torácica e terapia intensiva, e essa é exatamente a equipe de que ele pode precisar nas próximas horas. Transferir agora, com ele estável e com o antibiótico já correndo, é bem mais seguro do que transferir depois, se ele piorar. A vaga já está regulada, ele vai com médico e com todo o material, e eu vou mandar o resumo com todos os horários para a equipe que vai recebê-lo.

Não diga: Evite apresentar a transferência como falta do hospital atual, o que produz desconfiança na equipe que vai receber. Evite dizer que é só por precaução, porque não é. E evite prometer que a família poderá acompanhar sem ter confirmado — promessa de acompanhante desfeita na porta da ambulância custa a confiança do resto do tratamento.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Perfuração de esôfago torácico: a conduta padrão é operar, ou existe espaço legítimo para tratar sem operação?

A cirurgia é superior

A série do Hospital das Clínicas de Botucatu conclui que, nas lesões do esôfago torácico, a conduta mais adequada é a cirúrgica, e sustenta essa conclusão no índice de sobrevida da casuística, que atribui à superioridade da conduta cirúrgica em relação à conservadora. Acrescenta que essa superioridade se mantém mesmo quando a operação é realizada depois da fase considerada precoce de 24 horas, apoiando-se em quatro doentes encaminhados de outros serviços e operados entre 36 e 48 horas após a perfuração. Praticamente todos os doentes daquela série foram operados.

Henry MACA e cols. Perfurações esofágicas. ABCD Arq Bras Cir Dig. 2007;20(2):73-76 — série de 24 doentes, 1999 a 2006, Botucatu (UNESP).

Há indicação definida para não operar

A série do Hospital Getúlio Vargas trata sem operação dois dos 11 doentes, ambos com boa evolução, e escreve critérios explícitos de seleção: perfuração cervical ou torácica em doente clinicamente estável e sem sinais de septicemia; perfuração bem delimitada, bloqueada ao mediastino ou loculada na pleura, com diagnóstico precoce ou tardio; sintomatologia mínima; e perfuração pequena que drene para a própria luz do esôfago. Ressalva que a indicação não é fácil de definir, que na fase inicial é difícil prever se os efeitos ficarão limitados, e que a seleção depende da experiência do cirurgião. Fixa uma exclusão dura: perfuração abdominal não se trata conservadoramente.

Andrade AC, Andrade APS. Perfuração de esôfago — análise de 11 casos. Rev Col Bras Cir. 2008;35(5):292-297 — série de 11 doentes, 2001 a 2008, Teresina.

Como decidir

Informe horário provável da lesão, início da dor, segmento, condição hemodinâmica, sepse e extensão da contaminação. A equipe define tratamento operatório ou não operatório com esses dados. A opção sem operação exige seleção, jejum, suporte nutricional, antimicrobianos e vigilância estruturada; não equivale a simples observação. Instabilidade ou contaminação difusa exige avaliação imediata de controle.

Qual contraste usar para confirmar: iodado hidrossolúvel primeiro, ou bário diluído?

Iodado primeiro, bário diluído como segundo passo

A série de Teresina descreve a prática como uma sequência: os contrastes mais utilizados são os iodados e o sulfato de bário diluído, os estudos geralmente são iniciados com os iodados e, quando o resultado é negativo ou inconclusivo, prossegue-se a investigação com o bário diluído. A diretriz clínica de trauma do Espírito Santo aponta na mesma direção para o passo inicial, ao indicar tomografia helicoidal complementada com administração oral de contraste hidrossolúvel, e ao eleger o esofagograma como teste diagnóstico de escolha na alta suspeita.

Andrade AC, Andrade APS. Rev Col Bras Cir. 2008;35(5):292-297; e Espírito Santo (Estado), SESA. Atendimento de Urgência ao Paciente Vítima de Trauma: Diretrizes Clínicas, versão 2018, seção de trauma torácico.

Bário diluído desde o início, quando a comunicação suspeita é com a via aérea

A série de Botucatu confirmou o diagnóstico nos 12 doentes cuja perfuração ocorreu na evolução de câncer de esôfago por esofagograma com bário diluído, e a suspeita naquele grupo tinha nascido de tosse de repetição que se exacerbava durante a alimentação, isto é, de fístula para a árvore brônquica. Naquele cenário o estudo não começou por contraste iodado. O artigo relata a escolha e não a justifica; a leitura de que ela se explica pelo risco de o contraste hiperosmolar alcançar a via aérea é deste capítulo, e não dos autores.

Henry MACA e cols. ABCD Arq Bras Cir Dig. 2007;20(2):73-76, seção de métodos e Figura 1 (esofagograma demonstrando fístula esôfago-brônquica).

Como decidir

Informe ao radiologista consciência, capacidade de deglutir e sinais de comunicação com a via aérea. O risco de aspiração influencia o agente e a técnica do exame. A escolha deve ser feita com a equipe responsável, considerando também o possível extravasamento. Um pedido genérico de dor torácica não transmite essas informações.

As 24 horas são um prazo que decide a conduta, ou apenas um marcador de prognóstico?

É prazo de decisão

A diretriz clínica de trauma do Espírito Santo escreve que o tratamento cirúrgico nas primeiras 24 horas após a perfuração é a melhor opção, e que dentro desse prazo a taxa de mortalidade média é de 20%, podendo chegar a mais de 60% se for deixada por mais tempo. A formulação liga o prazo à indicação: operar cedo é a conduta, e o número é a razão dela.

Espírito Santo (Estado), SESA. Atendimento de Urgência ao Paciente Vítima de Trauma: Diretrizes Clínicas, versão 2018, seção de lesão esofágica no trauma torácico.

É marcador de prognóstico, e não corte que muda a indicação

A série de Botucatu conclui que, nas lesões do esôfago torácico, a conduta mais adequada é a cirúrgica mesmo se realizada após a fase considerada precoce de 24 horas — isto é, passar das 24 horas piora o prognóstico mas não retira a indicação nem muda a operação. A série de Teresina reforça o mesmo espírito ao admitir tratamento conservador em perfuração bem delimitada com diagnóstico precoce ou tardio, colocando a delimitação da lesão, e não o relógio, como critério de seleção.

Henry MACA e cols. ABCD Arq Bras Cir Dig. 2007;20(2):73-76, conclusões; e Andrade AC, Andrade APS. Rev Col Bras Cir. 2008;35(5):292-297, critérios de tratamento conservador.

Como decidir

Registre os horários de lesão, sintomas e diagnóstico e organize tratamento sem demora. O marco de 24 horas ajuda a interpretar evolução, mas ultrapassá-lo não reduz a urgência. No diagnóstico tardio, contaminação, viabilidade dos tecidos e condição clínica continuam determinando o próximo passo.

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O raciocínio, em voz alta

Vespasiano Tucunduva tem 61 anos, 71 quilos, e é acompanhado há quatro anos por megaesôfago chagásico. Nesta terça-feira, às 10h20, foi submetido a dilatação endoscópica da junção esofagogástrica, a terceira desde o diagnóstico. Saiu da sala bem, tolerou líquidos claros às 12h e recebeu alta prevista para as 16h. Às 13h40 a enfermagem chama você, que é o interno da unidade de endoscopia: ele está sentado, pálido, com dor no meio do peito que começou há uns vinte minutos e que ele descreve como diferente de tudo que sentiu nas dilatações anteriores. Frequência cardíaca 108, respiratória 24, pressão 128 por 80, temperatura axilar 37,8, saturação 95% em ar ambiente. Ele pede para ir embora e diz que já melhorou um pouco.

  1. O que a hora de hoje já diz

    Três horas e vinte minutos separam o procedimento do início da dor, e a dor é diferente da dor das dilatações anteriores. A causa mais comum de perfuração esofágica é a iatrogênica por procedimento endoscópico, e o risco é maior nas intervenções terapêuticas do que nas diagnósticas — a dilatação é terapêutica. A regra operacional da série de Teresina se aplica literalmente: dor torácica após endoscopia alta, sobretudo depois de procedimento terapêutico, é suspeita de perfuração. A hipótese está formada antes de qualquer exame.

  2. O que a frase melhorei um pouco vale

    Nada. Resposta a sintomático e flutuação de intensidade não têm valor diagnóstico, e o pedido de alta de um paciente com dor torácica nova três horas depois de uma dilatação é justamente o ponto em que a doença costuma escapar. A alta prevista para as 16h não é um compromisso: é uma previsão feita antes deste sintoma existir, e ela caduca agora.

  3. As três medidas que não esperam exame

    Suspender toda via oral e anotar a hora — ele tomou líquidos às 12h, e esse dado entra no prontuário. Dois acessos venosos calibrosos e monitorização. E colher hemograma, eletrólitos, função renal, coagulograma, lactato e gasometria, com eletrocardiograma para documentar que a coronariopatia foi considerada. Nada disso causa dano se a hipótese estiver errada.

  4. O exame físico dirigido, que aqui é normal e não afasta

    Você palpa as fossas supraclaviculares e a base do pescoço procurando crepitação e não encontra nenhuma. Anota no prontuário: enfisema subcutâneo ausente às 13h55. Isso não afasta o diagnóstico — o ar leva horas para dissecar do mediastino até o subcutâneo, e são apenas vinte minutos de dor. O valor dessa anotação é servir de linha de base para a próxima palpação, às 16h.

  5. Quem se chama, e quando

    Você aciona o endoscopista que fez o procedimento e o cirurgião de plantão, agora, com a hipótese e sem exame. Ao endoscopista você pergunta o que ele viu: houve resistência, houve dor fora do habitual, houve sangramento? A hora exata da lesão é informação que só ele tem, e ela muda a contagem do relógio. Ao cirurgião você entrega a linha do tempo e pergunta qual exame confirmatório ele quer e com que contraste.

  6. A sonda, que aqui não se passa

    A enfermagem pergunta se passa sonda nasogástrica para descomprimir. A resposta é não, e você escreve isso na prescrição: na suspeita de perfuração esofágica, a sonda não se passa às cegas — ela atravessaria justamente o segmento suspeito e pode alargar a lesão. Se a descompressão for necessária, será feita sob visão. A instrução vai por escrito porque, sem isso, o plantão da noite a desfaz por reflexo.

  7. A radiografia, e o que ela devolve

    Radiografia de tórax às 14h20: sem pneumotórax, sem pneumoperitônio, com uma tênue linha de ar contornando a borda cardíaca esquerda e velamento discreto do seio costofrênico esquerdo. Não é um filme dramático — e é o suficiente. Pneumomediastino e derrame novo à esquerda, num paciente que dilatou o esôfago há quatro horas, encerram a discussão sobre observar ou investigar.

  8. O antibiótico e a hora dele

    Antibiótico venoso de amplo espectro com cobertura simultânea de aeróbios e anaeróbios, pela padronização da casa, iniciado às 14h35, com duas hemoculturas colhidas antes. Você anota a hora da primeira dose. Os dois documentos brasileiros que tratam desta doença exigem cobertura ampla e nenhum deles nomeia o esquema — o esquema vem da comissão de controle de infecção do seu hospital.

  9. A conversa com a família

    Você explica à esposa o que aconteceu, sem voz passiva: a dilatação de hoje de manhã é o tratamento indicado para o problema dele, e durante ou logo após esse procedimento houve uma perfuração da parede do esôfago, que é a complicação mais temida da dilatação e que pode acontecer mesmo com tudo feito corretamente. Diz o que já está sendo feito, com horários, e combina voltar a cada duas horas. Contar agora custa menos do que contar depois.

  10. A confirmação e a decisão

    Tomografia com contraste hidrossolúvel por via oral às 16h10 — sem tosse com a alimentação e sem rebaixamento, o iodado é o primeiro passo da sequência publicada. Ela mostra ar extraluminal junto ao esôfago distal esquerdo, pequena coleção mediastinal bloqueada, derrame pleural laminar à esquerda, sem empiema. O cirurgião torácico avalia às 16h40: doente estável, sem sinal de septicemia, perfuração bem delimitada e bloqueada ao mediastino, diagnóstico dentro de seis horas. Ele opta por conduzir sem operar — com dieta zero absoluta, nutrição parenteral, antibiótico de amplo espectro e monitorização em unidade semi-intensiva, com tomografia de controle. Repare que isso não é observação: é um tratamento com quatro componentes prescritos, e ele só está disponível porque o serviço consegue oferecer os quatro.

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Faça você

Dinorah Timbiras tem 67 anos, 58 quilos, é aposentada e usa prótese dentária total superior. Chega à unidade de pronto atendimento numa quinta-feira à tarde acompanhada da filha, com queixa de dor no pescoço e dificuldade de engolir há seis dias. Conta que a dor começou depois de um almoço de peixe no sábado, que engoliu algo que arranhou, e que desde então dói ao engolir e a voz mudou um pouco. Foi atendida duas vezes nessa semana: na segunda-feira recebeu diagnóstico de faringite e amoxicilina, e na quarta, como não melhorava, recebeu corticoide oral. Hoje veio porque apareceu um caroço no pescoço e ela está com febre. Ao exame: 38,4 de temperatura axilar, frequência cardíaca 104, respiratória 20, pressão 132 por 78, saturação 96%. Há abaulamento doloroso na região cervical anterior esquerda, com pele quente. À palpação cuidadosa da base do pescoço, você sente crepitação fina. A unidade tem laboratório e aparelho de radiografia; não tem tomógrafo, endoscopia nem cirurgião.

  1. Reordene a história

    Escreva a linha do tempo desta paciente em horas e dias, começando pelo almoço de sábado, e diga qual pergunta da anamnese ninguém fez nas duas consultas anteriores. Depois responda: qual é a sua hipótese principal, e por que os dois diagnósticos anteriores eram compatíveis com o que se via em cada momento?

  2. O que o corticoide da quarta-feira significa aqui

    Diga o efeito que o corticoide teve sobre os sinais clínicos desta paciente nas 48 horas seguintes, e o que isso muda na leitura dos sinais vitais e do exame de hoje. Você aumentaria ou diminuiria o peso da febre atual por causa dele?

  3. O achado que decide, e como você o registra

    Nomeie o achado do exame físico que muda a hipótese e escreva a frase exata que você lançaria no prontuário sobre ele, com tudo o que essa frase precisa conter para ser útil ao próximo médico.

  4. O que se prescreve nesta unidade, agora

    Liste as medidas das primeiras duas horas nesta unidade de pronto atendimento, incluindo a via oral, os acessos, a analgesia, o antibiótico e o que você registra por escrito para que a próxima equipe não desfaça. Diga também uma coisa que a enfermagem provavelmente vai propor e que você vai recusar, e por quê.

  5. Que exame se pede aqui, e o que ele não vai responder

    A unidade tem radiografia e laboratório. Diga o que você pede, o que procura no filme e por que um filme normal não encerra o caso. Depois diga qual exame confirma o diagnóstico e por que ele não pode ser feito aqui.

  6. Contraste: qual, e o que você escreve no pedido

    Quando ela chegar ao serviço de referência, alguém vai escolher o contraste. Diga qual é a sequência publicada nas séries brasileiras, qual informação sobre esta paciente muda essa escolha, e a frase que você escreveria no pedido ou no resumo de transferência para que essa informação chegue a quem decide.

  7. O prognóstico deste segmento

    Explique por que a topografia da lesão desta paciente, comparada com a de uma perfuração de esôfago torácico, muda o prognóstico — e diga a condição sob a qual essa vantagem desaparece.

  8. A transferência

    Escreva os itens que o seu resumo de transferência precisa conter para que a equipe que a receber não recomece a contagem do zero, e diga o que você faz enquanto a ambulância não chega.

  9. Continuidade do caso e prática do internato

    Na dor de Vespasiano após dilatação, apresente a hipótese esofágica e as outras ameaças ainda em avaliação, sem anunciar exclusões que os exames iniciais não permitem.

  10. Questão integrativa 1

    ECG e troponina iniciais normais afastam infarto?

  11. Questão integrativa 2

    Troponina elevada demonstra necessariamente infarto tipo 1?

  12. Questão integrativa 3

    O esôfago é o único segmento digestivo sem serosa?

  13. Questão integrativa 4

    Sem crepitação no pescoço, pode descartar perfuração?

  14. Questão integrativa 5

    Vinte e quatro horas decidem sozinhas a técnica?

  15. Questão integrativa 6

    Melhora breve da dor autoriza alta de Vespasiano?

Ver como fecharíamos

A linha do tempo é o coração do caso e ela tem seis dias: almoço de peixe no sábado, sensação de algo que arranhou, odinofagia desde então, faringite diagnosticada na segunda, corticoide na quarta, abaulamento e febre na quinta seguinte. A pergunta que ninguém fez é a mais simples possível — a senhora engoliu alguma coisa? Espinha, osso, pedaço de prótese? Ela não a ofereceu porque não relaciona uma coisa à outra, e é exatamente isso que a série de Teresina descreve: num dos doentes daquela série, a informação da ingestão de espinha de peixe só foi obtida no terceiro dia de internação, quando ele já estava com empiema e septicemia. A hipótese principal é perfuração do esôfago cervical por corpo estranho, com abscesso cervical formado. Os dois diagnósticos anteriores eram compatíveis com o que se via: odinofagia com febre baixa é faringite na esmagadora maioria das vezes, e o corticoide é conduta comum para odinofagia intensa. O erro não foi a hipótese; foi não ter perguntado o que veio antes da dor. O corticoide da quarta-feira atenua febre, dor e sinais inflamatórios locais, e por 48 horas ele mascarou a progressão. A consequência prática é que a febre de 38,4 de hoje vale mais, e não menos: ela apareceu apesar do corticoide. Um exame que parece pouco alarmante em paciente sob corticoide recente precisa ser lido com a régua deslocada. O achado que decide é a crepitação à palpação da base do pescoço, e a frase do prontuário precisa conter quatro coisas: o achado, o lado, a referência anatômica e o horário. Algo como enfisema subcutâneo presente em região cervical anterior esquerda, acima da clavícula, às 15h10. Sem horário e sem referência anatômica, o próximo médico não consegue dizer se aumentou. Nas primeiras duas horas: dieta zero absoluta com a hora anotada e comunicada à enfermagem; dois acessos venosos calibrosos; cristaloide se houver sinal de hipoperfusão; analgesia venosa; antiemético; antibiótico venoso de amplo espectro com cobertura de aeróbios e anaeróbios, pela padronização disponível, com a hora da primeira dose registrada e hemoculturas colhidas antes se isso não atrasar; e monitorização. Por escrito, no prontuário e na prescrição, fica a instrução de que a sonda nasogástrica não se passa às cegas. É justamente isso que a enfermagem vai propor — sonda para descomprimir, num quadro de disfagia com abaulamento cervical — e é o que você recusa, porque a sonda atravessaria às cegas o segmento suspeito e pode alargar a lesão. Se a descompressão for necessária, ela é feita sob visão. O exame que se pede aqui é a radiografia: cervical e de tórax. Procura-se enfisema subcutâneo e enfisema mediastinal, alargamento de partes moles cervicais, nível hidroaéreo, pneumomediastino, derrame pleural e pneumotórax. Vale registrar que corpo estranho de prótese dentária é frequentemente radiotransparente, e espinha de peixe muitas vezes também: filme sem corpo estranho visível não afasta corpo estranho. E filme inteiramente normal não afasta perfuração — a diretriz estadual de trauma diz literalmente que a radiografia simples pode ser normal. O que confirma é o estudo contrastado, que demonstra o extravasamento, e ele não se faz nesta unidade. A sequência publicada nas séries brasileiras é iodado primeiro e sulfato de bário diluído depois, quando o primeiro for negativo ou inconclusivo. A informação sobre esta paciente que pode mudar a escolha é o risco de aspiração: ela tem disfagia há seis dias, tem abaulamento cervical que pode comprimir e desviar a passagem, e tem voz alterada. Se houver qualquer suspeita de comunicação com a via aérea ou de aspiração, o contraste iodado hiperosmolar deixa de ser a opção segura, porque o dano dele não é no mediastino e sim no pulmão. A frase que vai no resumo é direta: paciente com disfagia de seis dias e disfonia, com risco de aspiração — avaliar escolha de contraste com a radiologia antes do estudo. Quem escolhe o agente é o radiologista com o cirurgião; a obrigação de quem transfere é fazer a informação chegar. O prognóstico da lesão cervical é melhor que o da torácica, e a razão é anatômica: a secreção que extravasa fica localizada e bloqueada pelas estruturas vizinhas do pescoço, em vez de contaminar o mediastino e a pleura. A série de Botucatu registra que a lesão cervical em geral tem evolução favorável, e a de Teresina mostra os dois doentes com abscesso cervical bloqueado indo bem com drenagem e alimentação por sonda. A vantagem desaparece quando o processo desce: na mesma série de Teresina, os dois óbitos foram de doentes com lesão cervical que já tinham contaminação do mediastino quando chegaram, e neles a toracotomia com ampla limpeza não bastou. Lesão cervical com sinal de progressão para o mediastino superior perde a benignidade do segmento. O resumo de transferência precisa conter: a hora e o dia provável da ingestão do corpo estranho, as duas consultas anteriores com seus diagnósticos e prescrições — incluindo o corticoide e a data —, o horário do início da dor, o horário em que a dieta foi suspensa, o antibiótico e a hora exata da primeira dose, o achado de enfisema com horário e referência anatômica, os sinais vitais seriados, o que a radiografia mostrou, e a advertência sobre contraste e sobre a sonda. Enquanto a ambulância não chega: mantém-se dieta zero, reavaliam-se sinais vitais e a extensão da crepitação a cada trinta minutos com horário anotado, mantém-se a paciente sentada, e adianta-se a regulação. Uma coisa que não se faz é liberar água enquanto se espera, mesmo que ela peça — ofereça gaze úmida nos lábios e explique por quê. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. Interpretar pelo tempo de sintomas e pelo protocolo, com avaliação seriada quando indicada. 2. Não. Pode haver outras causas de lesão miocárdica; também não se deve excluir infarto sem avaliação adequada. 3. Não. O segmento torácico não tem serosa completa, mas a afirmação de exclusividade é incorreta. 4. Não. Esse achado pode faltar, especialmente no início. 5. Não. Tempo importa, mas fisiologia, localização, viabilidade e contaminação orientam a escolha especializada. 6. Não. Dor nova após dilatação com alterações clínicas exige investigação e reavaliação antes de decidir destino.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

A melhora da dor, da febre e do leucograma mede o suporte instituído e não o fechamento da fenda. Cada deglutição recontamina o mediastino por uma comunicação que pode continuar aberta, e é por isso que a autorização legítima para reabrir a via oral vem da demonstração de ausência de extravasamento no estudo contrastado de controle, no prazo definido pelo cirurgião. Testar com água em goles é o mesmo gesto em menor volume e produz o mesmo risco. Retirar o dreno antes de saber se a fístula fechou remove justamente a via de saída que protege o doente enquanto a lesão cicatriza. Na série de Teresina, os doentes conduzidos sem operação permaneceram em dieta zero com nutrição parenteral por sete e oito dias antes de evoluírem bem.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Sete dias depois, o que precisa estar automático são cinco coisas. A pergunta da ordem: dor torácica com vômito, a dor veio antes ou depois? Se nasceu dentro do esforço do vômito, rotura de esôfago entra na lista. A pergunta do procedimento: houve endoscopia, dilatação, sonda, intubação difícil ou cirurgia antirrefluxo nas últimas horas ou dias? A causa mais comum de perfuração esofágica é a iatrogênica, e não a espontânea. A mão no pescoço: procure crepitação nas fossas supraclaviculares, anote presença ou ausência com o horário, e repita — é o único achado que fica mais informativo com o tempo. O que não afasta: eletrocardiograma normal, troponina normal, radiografia normal, ausência de febre, abdome sem defesa e melhora com sintomático não afastam nada. E as três medidas da primeira hora, que não esperam exame: via oral suspensa com a hora anotada, antibiótico de amplo espectro cobrindo aeróbios e anaeróbios, e o telefonema ao cirurgião feito com a hipótese e não com o laudo. Some-se a instrução que se escreve na prescrição para que ninguém a desfaça: na suspeita de perfuração, a sonda não se passa às cegas.

Em 30 dias

Reconstrua a ligação entre rotura, contaminação e deterioração. O esôfago torácico carece de serosa e fica próximo a espaços mediastinais e pleurais, o que ajuda a compreender a propagação da contaminação; não é o único segmento digestivo sem revestimento seroso, nem essa característica isolada explica todas as roturas. Vômitos seguidos de dor torácica e ar nos tecidos exigem suspeita, mas a apresentação pode ser incompleta. Exames cardíacos iniciais normais não excluem síndrome coronariana. A investigação deve localizar a lesão e avaliar contaminação, em geral com tomografia contrastada e protocolo apropriado, sem atrasar intervenção necessária no instável. Tratamento conservador, endoscópico ou cirúrgico depende de contenção, contaminação, fisiologia, tempo e recursos especializados; diagnóstico precoce amplia possibilidades, mas um relógio sozinho não escolhe a técnica. Reavaliar controle do foco, drenagem, suporte nutricional e critérios definidos pela equipe antes de reabrir a via oral.

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Agora atenda

Este capítulo tem um atendimento que vale mais do que a leitura, porque o erro que ele combate não é de conhecimento: é de sequência. Num caso simulado de dor torácica após vômito, a esteira do serviço vai lhe entregar um eletrocardiograma sem isquemia e uma troponina normal em poucos minutos, e o momento em que você recebe esses dois resultados é o momento em que o diagnóstico costuma se perder. Treine o que fazer ali: perguntar o que veio primeiro, o vômito ou a dor; pôr a mão na base do pescoço e anotar o horário do que encontrou, inclusive quando não encontrou nada; suspender a via oral antes de qualquer imagem; recusar a sonda por escrito; e telefonar ao cirurgião com a hipótese, sem esperar o laudo. Repare em quantos minutos você levou para fazer a pergunta da ordem — é essa medida, e não a lista de condutas, que separa o interno que encontra este diagnóstico do que o perde.

Perfuração esofágica – O relógio começou no vômito — Internato | OsceLabs