Cirurgia Geral › Cirurgia do Aparelho Digestivo
O peso saiu, a anatomia ficou
Cirurgia bariátrica e obesidade mórbida (indicações)
Compreender indicação e anatomia da cirurgia bariátrica, reconhecer complicações tardias e garantir seguimento nutricional e clínico duradouro.
BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria de Consolidação nº 3, de 28 de setembro de 2017 — Anexo IV (Rede de Atenção à Saúde das Pessoas com Doenças Crônicas), Capítulo II e Anexos 1, 3 e 5, que consolidam as Portarias GM/MS nº 424 e nº 425, ambas de 19 de março de 2013.
CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. Resolução CFM nº 2.429, de 25 de abril de 2025, publicada no Diário Oficial da União de 20 de maio de 2025 (edição 93, seção 1, página 170) e republicada em 21 de maio de 2025 (edição 94, seção 1, página 133) por ter saído com incorreção no original.
CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. Resolução CFM nº 2.470, de 18 de agosto de 2026, publicada no Diário Oficial da União de 24 de agosto de 2026 (edição 159, seção 1, página 122), que altera a composição da equipe multidisciplinar mínima do Anexo da Resolução CFM nº 2.429/2025.
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde, Departamento de Ações Programáticas. Manual de Gestação de Alto Risco. Brasília: Ministério da Saúde, 2022, 1ª edição — capítulo 55, Gestação pós-cirurgia bariátrica.
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024.
Bula do profissional de saúde — Ursacol (ácido ursodesoxicólico) 50 mg, 150 mg e 300 mg comprimido simples, Zambon Laboratórios Farmacêuticos, aprovada pela Anvisa em 12 de dezembro de 2023.
SARAIVA, J. F. K. et al. Diretriz Brasileira Baseada em Evidências de 2025 para o Manejo da Obesidade e Prevenção de Doenças Cardiovasculares e Complicações Associadas à Obesidade: Uma Declaração de Posicionamento de Cinco Sociedades Médicas. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, v. 122, n. 9, e20250621, 2025. DOI 10.36660/abc.20250621.
BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 424, de 19 de março de 2013, e Portaria GM/MS nº 425, de 19 de março de 2013, nos textos originais publicados no Diário Oficial da União.
BRASIL. Ministério da Saúde / Conitec. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Colangite Biliar Primária.
Diário Oficial da União de 20 e 21 de maio de 2025 e de 24 de agosto de 2026, nas páginas do próprio Diário.
BRASIL. Ministério da Saúde. Estratégias para o cuidado da pessoa com doença crônica: obesidade. Cadernos de Atenção Básica nº 38. Brasília, 2014.
CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. Resolução CFM nº 2.131/2015 e Resolução CFM nº 2.172/2017.
CFM. Resolução 2.429/2025, texto oficial. [Acessar fonte](https://sistemas.cfm.org.br/normas/arquivos/resolucoes/BR/2025/2429_2025.pdf)
Responda antes de ler
Homem de 44 anos, índice de massa corporal 40,9, com diabetes tipo 2 e hipertensão, está em acompanhamento na unidade básica há 18 meses, com 18 consultas registradas em prontuário. Pergunta se pode ser encaminhado para cirurgia bariátrica pelo Sistema Único de Saúde. Segundo as diretrizes gerais para o tratamento cirúrgico da obesidade em vigor no SUS, o que ainda falta para que ele preencha os critérios?
O paciente que você vai ver
Quarta-feira, duas e dez da madrugada. O hospital é regional, tem cento e sessenta leitos, atende a microrregião inteira e fica a noventa quilômetros do serviço universitário onde se opera obesidade. Você é o interno da escala noturna e o pronto-socorro tem quatro pessoas esperando desde a meia-noite. A ficha que o técnico coloca na sua mão diz, com a letra que a triagem usa quando está com pressa: dor abdominal, sem sinais de gravidade, classificação verde.
Amelina Itapajipe tem 34 anos, é auxiliar administrativa numa transportadora e senta-se na maca curvada para a frente, apoiando os dois antebraços nas coxas. Ela não está gemendo. Fala com você em frases curtas, esperando a dor passar entre uma e outra, e a primeira coisa que diz é que já esteve aqui duas vezes no mês passado com a mesma coisa e que das duas saiu com diagnóstico de gastrite.
A dor começou por volta das oito da noite, em cólica, em torno do umbigo, indo e vindo em ondas de alguns minutos. Vomitou três vezes; o vômito era claro e depois esverdeado. Não tem febre. Evacuou ontem de manhã, normal, e desde o começo da dor não eliminou fezes nem gases — mas ela só sabe disso porque você perguntou, porque não era uma queixa dela. O abdome é doloroso à palpação profunda no andar superior e no mesogástrio, sem defesa, sem descompressão dolorosa, com ruídos hidroaéreos presentes e de timbre metálico em dois momentos da ausculta. Pressão 118 por 74, frequência cardíaca 104, temperatura 36,8 °C.
A pergunta que abre o caso é a que ninguém fez nas duas visitas anteriores, e ela cabe em oito palavras: a senhora já fez alguma cirurgia no abdome? A resposta é sim. Amelina fez bypass gástrico em Y de Roux há dezesseis meses, no serviço universitário do outro município, por videolaparoscopia. Pesava 118 quilos com 1,63 m de altura e hoje pesa 77. Foi às consultas do primeiro ano, parou de ir quando o transporte da prefeitura mudou de dia, e desde então não faz exame nenhum. Toma um comprimido de sulfato ferroso quando lembra. A cicatriz que a senhora vê na barriga dela é a de quatro portais de laparoscopia, e é pequena o bastante para passar despercebida num exame feito com pressa.
O plantonista pediu tomografia de abdome antes de você chegar. O laudo já voltou e diz, com estas palavras: alças de delgado com calibre preservado, ausência de nível hidroaéreo, sem sinais de obstrução, sem líquido livre, sem coleções. Exame sem alterações significativas. O plantonista leu o laudo, olhou para você e disse que vai medicar a dor, observar duas horas e liberar com sintomático e retorno se piorar.
É aqui que este capítulo começa, e ele começa com uma frase que você vai precisar dizer em voz alta para alguém mais graduado que você, o que é a parte difícil: no operado de bypass gástrico, dor abdominal é hérnia interna até prova em contrário — e a tomografia normal não é prova em contrário. Ela é normal em uma proporção grande desses casos, sobretudo quando o quadro é intermitente, porque a alça que herniou pelo espaço mesentérico pode ter reduzido espontaneamente entre a crise e o exame. O que muda o desfecho de Amelina nas próximas horas não é um exame a mais. É um telefonema para o serviço que a operou, e a decisão de não mandá-la para casa.
O capítulo trata das duas metades desse assunto, e elas se encontram nesta maca. A primeira metade é quem tem indicação de operar no Brasil e o que o sistema exige antes — porque são duas réguas que não coincidem, uma que autoriza e outra que paga, e o interno que promete a cirurgia pela régua errada cria uma expectativa que o sistema não vai cumprir. A segunda metade, que é a que você vai encontrar de verdade no plantão, é o operado que volta: com dor, com vômito, com desmaio depois de comer, com anemia que não responde ao ferro, com confusão mental que ninguém atribui à operação, com peso que voltou. Nenhuma dessas pessoas volta ao serviço que a operou. Elas voltam ao pronto-socorro mais perto de casa, que é onde você está.
Duas palavras sobre de onde este capítulo fala. Ele não ensina a operar e não descreve ato cirúrgico: quem indica e quem opera é o serviço habilitado, e o interno não decide técnica. O que ele ensina é o que o interno decide de fato — reconhecer quem pode ser encaminhado, escrever o encaminhamento de um jeito que não volte, e reconhecer, no operado que chega ao plantão, as cinco ou seis situações em que a demora custa alça, custa visão, custa memória ou custa a vida.
Quem adoece disso
A prevalência da obesidade no Brasil, como se mede e o que ela significa como doença crônica, é assunto do capítulo Não é falta de vontade, na apostila de Endocrinologia, e este capítulo cede aquele assunto a ele por inteiro: lá estão a balança, a fita métrica, as causas secundárias, o tratamento clínico e a conversa da unidade básica. O que fica aqui é o recorte que aquele capítulo não cobre e que este precisa: quantas pessoas são operadas no Brasil, por quem, e o que acontece com elas depois — porque é esse grupo que chega ao pronto-socorro onde você está.
O número que descreve o país está na exposição de motivos da resolução do Conselho Federal de Medicina que hoje normatiza a matéria. Em 2022 foram realizados 74.738 procedimentos bariátricos no Brasil, segundo compilação da sociedade da especialidade. Desses, 65.256 foram pagos pela saúde suplementar, segundo levantamento da agência reguladora, e 5.923 pelo Sistema Único de Saúde. Escreva os três números um embaixo do outro e olhe para eles antes de continuar, porque a proporção é a informação mais importante deste bloco: o sistema que cobre a maioria da população brasileira respondeu por menos de um décimo das operações do país.
O mesmo documento diz que o volume da saúde suplementar cresceu 22,9% em relação a 2019 — conta que fecha exatamente — enquanto o do sistema público caiu, de 12.568 procedimentos em 2019 para 5.923 em 2022. A queda declarada no texto é de 54,8%; a queda que os dois números produzem é de 52,9%, e a conta está na seção de critério deste capítulo. A diferença entre 52,9 e 54,8 não muda nenhuma conduta sua, mas muda o que você faz com percentual copiado de documento oficial, que é conferir.
Essa assimetria tem consequência clínica direta e é a primeira razão de este capítulo existir. A pessoa operada no sistema público esperou anos por uma vaga, foi operada num serviço habilitado que costuma ficar longe de casa, e depois retorna à sua cidade. Quando ela adoece de alguma coisa relacionada à operação — e a maioria adoece de alguma coisa relacionada à operação em algum momento —, ela não volta ao serviço que a operou. Ela vai ao pronto-socorro ou à unidade básica mais próxima, e é atendida por alguém que não estava lá quando a anatomia dela foi modificada, que não tem o descritivo cirúrgico, e que frequentemente não pergunta.
A segunda razão é a estrutura do seguimento. A norma federal em vigor garante acompanhamento por equipe multiprofissional até dezoito meses depois da operação, com um calendário de consultas e exames que aperta no primeiro ano, quando a perda de peso é mais rápida. Dezoito meses é um horizonte razoável para a perda de peso e curto demais para as complicações que este capítulo trata: a hérnia interna aparece caracteristicamente depois do emagrecimento, quando o mesentério afinou; a deficiência de ferro e de vitamina B12 se instala em meses a anos; a colelitíase acompanha a fase de perda rápida mas cobra depois; o reganho de peso e a hipoglicemia tardia são fenômenos de anos. O sistema fecha a porta do seguimento mais ou menos no momento em que a maior parte dos problemas começa.
A terceira razão é demográfica e vem do manual federal de gestação de alto risco, que dedica um capítulo inteiro à gestante operada: a maior parte das pessoas submetidas à cirurgia bariátrica são mulheres, e muitas estão em idade reprodutiva. Isso significa que a população que você vai atender depois da operação é jovem, é majoritariamente feminina e engravida — e que a consulta em que se pergunta sobre método contraceptivo e planejamento de gravidez é, nesse grupo, uma consulta clínica e não uma formalidade.
Vale registrar o que não se sabe. Nenhum dos documentos brasileiros que este capítulo abriu informa quantas dessas pessoas desenvolvem hérnia interna, úlcera de boca anastomótica, deficiência de tiamina ou hipoglicemia tardia; não há registro nacional público dessas complicações, e as duas portarias que organizam a linha de cuidado criaram códigos de faturamento para intercorrência clínica e cirúrgica pós-operatória mas os restringiram aos primeiros trinta dias, de modo que o que acontece do trigésimo primeiro dia em diante não gera sequer um registro específico. Os únicos números de frequência que este capítulo afirma vêm do manual de gestação de alto risco, e valem para gestantes: até metade delas com deficiência de ferro em algum momento depois da operação, 45% com deficiência de vitamina B12 antes e durante a gestação, e deficiência de tiamina em 2% no primeiro trimestre, 5% no segundo e até 17% no terceiro.
Duas leituras erradas se fazem com esses dados, e as duas aparecem em enfermaria. A primeira é concluir que a cirurgia é perigosa demais: os desfechos duros dizem o contrário, e a diretriz brasileira de 2025 sobre obesidade e doença cardiovascular reúne evidência de redução de mortalidade geral e cardiovascular, de diabetes, de hipertensão e de dislipidemia depois da operação. A segunda é a leitura oposta, e é a que este capítulo combate: tratar a operação como um evento encerrado. Ela não encerra nada. Ela troca uma doença crônica que se trata com consulta por uma anatomia diferente que se acompanha para sempre — e a pessoa que sai do centro cirúrgico continua sendo uma pessoa com uma doença crônica, agora com um intestino remontado.
Por que acontece o que acontece
Comece pela pergunta que o paciente faz e que o interno costuma responder mal: por que operar, se bastava comer menos. A resposta honesta é que não bastava, e não por falta de esforço. O corpo defende ativamente o peso máximo que já atingiu. Quando o estoque de gordura cai, cai também a leptina que ele produz; o hipotálamo lê essa queda como ameaça de escassez, aumenta a fome e reduz o gasto energético de repouso mais do que a perda de massa explicaria. A pessoa que emagreceu vinte quilos passa a gastar menos, em repouso, do que outra pessoa do mesmo tamanho que nunca emagreceu — e sente mais fome. Isso não é fraqueza de caráter; é regulação neuroendócrina, e ela funciona contra a manutenção da perda por anos. O detalhamento desse mecanismo, do platô e do que fazer com ele na consulta é do capítulo Não é falta de vontade, em Endocrinologia. Aqui ele entra por uma única razão: sem entender isso, a operação parece atalho, e a linguagem do interno acaba culpando o paciente.
O que a operação faz não é retirar a fome. Ela muda três coisas ao mesmo tempo, em proporções diferentes conforme a técnica: reduz o volume que cabe de uma vez, altera os sinais que o intestino manda ao cérebro depois de comer, e — nas técnicas com desvio — tira um segmento do intestino do caminho do alimento. A terceira é a que gera quase tudo o que este capítulo trata depois, e é a que o interno esquece porque não se vê pela cicatriz.
A resolução do Conselho Federal de Medicina em vigor reconhece duas operações como primárias altamente recomendadas, e são estas duas que você vai encontrar. A gastrectomia vertical, também chamada sleeve, ressecca a grande curvatura e reduz o volume do estômago em cerca de 75%, mantendo o trânsito pelo piloro e pelo duodeno: é a operação predominantemente restritiva. O bypass gástrico em Y de Roux reduz o estômago a uma câmara de 15 a 30 mL e desvia o alimento diretamente para o jejuno, excluindo do trânsito o estômago distal, o duodeno inteiro e a porção inicial do jejuno: é restritiva e disabsortiva ao mesmo tempo. As descrições de volume e de segmento excluído são as do manual federal de gestação de alto risco, que é o documento brasileiro oficial que as escreve com números.
Do desvio saem quatro carências, e cada uma tem um endereço anatômico. O ferro se absorve principalmente no duodeno e no jejuno proximal, e depende de acidez gástrica para ser reduzido à forma absorvível — o bypass tira os dois: o segmento e o ácido. A vitamina B12 precisa do fator intrínseco produzido pelas células parietais do estômago excluído, e precisa de ácido para se soltar da proteína do alimento; por isso a reposição oral funciona mal e a via preferida é a parenteral. O cálcio se absorve preferencialmente no duodeno e no jejuno proximal e também depende de acidez, o que explica por que o manual federal recomenda o citrato de cálcio em vez do carbonato: o citrato não depende da acidez gástrica. E a tiamina se absorve principalmente no duodeno, tem estoque corporal pequeno — da ordem de semanas, não de meses — e é a única dessas quatro cuja falta produz dano neurológico agudo e irreversível.
Guarde a assimetria das quatro, porque ela organiza tudo o que vem depois: ferro, B12, cálcio e vitamina D falham devagar e produzem doença que se mede em exame e se corrige com tempo; tiamina falha rápido e produz doença que se mede em déficit permanente. Uma pessoa com vômitos por duas ou três semanas depois da operação pode esgotar o estoque de tiamina; nenhuma delas fica com anemia ferropriva nesse prazo. É por isso que o vômito persistente no operado é uma urgência de tiamina antes de ser qualquer outra coisa.

O desvio cria também o que não existia antes: espaços. Para levar a alça até o estômago alto, o cirurgião passa segmentos de intestino por trás ou por dentro do mesentério, e cada passagem deixa uma fresta entre folhetos — espaços mesentéricos que são fechados com pontos na operação e que, com o tempo, se abrem de novo. E se abrem justamente porque a operação funcionou: à medida que a pessoa emagrece, a gordura que enchia o mesentério desaparece, o folheto afina, o espaço alarga e uma alça de delgado pode entrar por ele. Isso é a hérnia interna, e ela tem três características que decidem o desfecho. Primeira: é intermitente, porque a alça entra e sai, o que produz crises de dor que passam sozinhas e uma história de várias idas ao pronto-socorro com alta. Segunda: pode estrangular sem distender o abdome, porque a obstrução é alta e a câmara gástrica é pequena — não há muito o que distender. Terceira: no intervalo entre as crises, a tomografia pode ser rigorosamente normal.
Os dois dumpings vêm do mesmo desvio e são fenômenos diferentes separados pelo relógio. O precoce acontece entre quinze e sessenta minutos depois da refeição: um bolo hiperosmolar cai de uma vez no delgado, puxa água para a luz por osmose, distende a alça e dispara uma descarga vasomotora e autonômica — mal-estar, sudorese, rubor, taquicardia, cólica e diarreia. O tardio acontece uma a três horas depois, e a causa é oposta: a chegada rápida da glicose ao delgado provoca um pico exagerado de incretinas e de insulina, a glicose despenca depois que a absorção terminou, e o quadro é de hipoglicemia — tremor, suor frio, fome, confusão, às vezes síncope. O primeiro se trata mudando a composição e a velocidade da refeição; o segundo é hipoglicemia de verdade, com glicemia baixa medida, e a pessoa que dirige ou opera máquina precisa saber disso.
Fecham o mecanismo três consequências mais silenciosas. A boca anastomótica entre a câmara gástrica e o jejuno recebe secreção ácida sem a proteção que o duodeno tem, e ulcera — mais ainda em quem fuma, usa anti-inflamatório ou tem infecção por Helicobacter pylori não tratada. A perda rápida de peso satura a bile de colesterol e reduz o esvaziamento da vesícula, e daí a colelitíase que aparece nos primeiros meses e cuja profilaxia farmacológica tem indicação em bula. E o álcool muda de comportamento: com câmara gástrica pequena e sem a primeira passagem que o estômago fazia, a mesma dose que antes produzia pouco efeito passa a produzir pico rápido e alto, com dois riscos somados — o de acidente agudo e o de um padrão de uso que se instala depois da operação em quem não bebia problematicamente antes. Nenhuma das três aparece na alta hospitalar; todas as três aparecem no seu plantão.
Como se apresenta de verdade
Há uma pergunta que reorganiza tudo o que vem a seguir e que custa oito palavras: a senhora já fez alguma cirurgia no abdome? Ela precisa ser feita a toda pessoa com queixa abdominal, dirigida, de preferência antes do exame físico, e precisa ser repetida em quem responde não — porque muita gente não considera a bariátrica uma cirurgia do abdome, chama de redução de estômago, e responde não de boa-fé. Se a resposta for sim, três informações mudam a conduta e vão no prontuário: qual operação, há quanto tempo, e quantos quilos perdeu.
As seções abaixo são as seis formas pelas quais o operado chega a você. Nenhuma delas é rara, e cinco delas costumam ser diagnosticadas primeiro como outra coisa.
Dor abdominal no operado de bypass: hérnia interna até prova em contrário
Esta é a apresentação que decide o desfecho, e o padrão é reconhecível quando se sabe procurá-lo. A dor é em cólica, periumbilical ou no andar superior, vem em ondas, e o intervalo entre as ondas pode ser de minutos ou de semanas. Náusea e vômito acompanham. Muitas vezes há uma história de duas, três, quatro idas prévias ao pronto-socorro pelo mesmo motivo, todas com alta e com um diagnóstico plausível escrito na ficha: gastrite, cólica intestinal, dor abdominal a esclarecer.
O que engana é a ausência dos sinais que a gente aprendeu a exigir da obstrução. O abdome frequentemente não está distendido, porque a obstrução é alta e a câmara gástrica é pequena. A parada de eliminação de fezes e gases pode não existir, porque o cólon a jusante ainda esvazia. O exame pode ser quase normal entre as crises. E a operação foi por videolaparoscopia: são quatro cicatrizes de menos de um centímetro que passam despercebidas em quem não olha para elas.
Dois achados mudam o caso de categoria e exigem cirurgião imediatamente: taquicardia desproporcional à dor e dor que se torna contínua depois de ter sido intermitente. Os dois sugerem que a alça deixou de entrar e sair e ficou presa. Nesse ponto o relógio passa a contar isquemia, e o intervalo entre o estrangulamento e a necrose de um segmento de delgado se mede em horas.
Esta apresentação não é a mesma coisa que a obstrução intestinal por brida ou por volvo, cujo diagnóstico, classificação e conduta são do capítulo A pergunta não é se obstruiu, na apostila de Urgência e Emergência Cirúrgica. Aquele capítulo é o dono da obstrução intestinal do adulto e é lá que estão o raciocínio de delgado contra cólon, o manejo conservador e as indicações operatórias gerais. A hérnia interna do operado de bypass é o que ele não cobre, e este capítulo a assume: a diferença que justifica a separação é que ali o exame de imagem normal costuma tranquilizar, e aqui não tranquiliza.
Vômito persistente: a apresentação em que o relógio é de tiamina
Vômito no operado tem várias causas mecânicas — estenose da anastomose, alimento impactado, hérnia interna, aderência, alimentação apressada demais para uma câmara de trinta mililitros —, e a investigação delas é legítima. O problema é que a investigação leva dias, e há um relógio correndo por baixo que não espera pelo diagnóstico mecânico.
O estoque corporal de tiamina dura semanas, e o vômito impede a reposição por via oral exatamente quando a demanda está aumentada. Duas a três semanas de vômito persistente depois de uma operação bariátrica bastam para produzir depleção. Quando ela chega ao cérebro, a apresentação é a encefalopatia de Wernicke: confusão mental, alteração da marcha por ataxia e alterações da motricidade ocular — nistagmo, paralisia do olhar conjugado, diplopia. A tríade completa é minoria; o mais comum é chegar só a confusão, e a confusão num paciente que vomita é atribuída à desidratação.
Há um sinal adicional nesta população que não existe no alcoolista: a apresentação pode incluir polineuropatia periférica de instalação rápida, com formigamento e fraqueza distal ascendente, e ela pode preceder o quadro central. Fraqueza nova nas pernas em quem vomita depois de operação bariátrica é sinal de tiamina até prova em contrário.
Suspeita de deficiência neurológica de tiamina após bariátrica exige reposição parenteral imediata, sem esperar confirmação laboratorial. Evitar carga de carboidrato desacompanhada em paciente depletado; se houver hipoglicemia, corrigi-la imediatamente e administrar tiamina assim que possível, na mesma abordagem.
Os dois dumpings, e o que os separa
O dumping precoce aparece de quinze a sessenta minutos depois da refeição, sobretudo depois de doce, leite ou líquido tomado junto com a comida. O paciente descreve com as palavras dele: dá um mal-estar, sua frio, o coração dispara, dá vontade de deitar, e às vezes vem uma cólica com diarreia logo depois. O manual federal de gestação de alto risco descreve esse quadro como ocorrendo cerca de sessenta minutos após a ingestão de carboidratos de rápida absorção, com mal-estar, tontura, rubor e palpitações. É desconfortável, é comum, e não é perigoso em si.
O dumping tardio aparece uma a três horas depois da refeição e o conteúdo é outro: tremor, suor frio, fome súbita, borramento visual, dificuldade de raciocinar, e, nos casos graves, síncope ou crise convulsiva. Isso é hipoglicemia hiperinsulinêmica e não se resolve dizendo ao paciente que evite doce e siga em frente. Duas perguntas fecham a distinção na cabeceira, e você não precisa de exame para fazê-las: quanto tempo depois de comer, e o que melhora. Quinze a sessenta minutos, com rubor e diarreia, que melhora deitando: precoce. Uma a três horas, com tremor e suor frio, que melhora comendo açúcar: tardio.
A pergunta que ninguém faz e que muda a vida da pessoa é sobre o que ela faz depois de comer. Motorista, operador de empilhadeira, quem trabalha em altura, quem cuida sozinho de criança pequena: hipoglicemia tardia nessa gente é risco ocupacional, e a conduta inclui orientação escrita sobre isso. O manejo do episódio agudo de hipoglicemia grave e a investigação da hipoglicemia em quem não tem diabetes são do capítulo Antes da hipótese, a glicemia, em Endocrinologia; cabe a este capítulo apenas reconhecer a origem anatômica do quadro, o fato de ele surgir anos depois da operação, e que a pessoa costuma ter recebido antes o diagnóstico de ansiedade.
As carências: quatro relógios diferentes
A deficiência de ferro é a mais frequente e a mais silenciosa. O manual federal registra que até 50% das pacientes apresentam deficiência de ferro meses a anos depois da operação, por intolerância à carne vermelha somada à redução da absorção, e que isso ocorre mais frequentemente nas submetidas a bypass. A apresentação típica não é palidez: é cansaço que a pessoa atribui à rotina, queda de cabelo, unhas quebradiças e, com frequência, um hemograma pedido por outro motivo. A investigação da anemia microcítica, a leitura da ferritina e da saturação de transferrina e o esquema de reposição são do capítulo Anemia ferropriva, na apostila de Hematologia e Hemoterapia, que é o dono desse assunto. O que é deste capítulo é o que muda no operado: a via oral rende pouco porque o segmento absorvedor está fora do trânsito e falta acidez, de modo que a ausência de resposta ao ferro oral aqui não significa má adesão nem sangramento oculto obrigatoriamente — significa, muitas vezes, que a via está errada.
A deficiência de vitamina B12 se instala em torno de seis meses depois do bypass e da gastrectomia vertical. Ela pode se apresentar como anemia macrocítica, mas pode se apresentar antes disso e sem anemia nenhuma, com parestesia em bota e luva, perda de sensibilidade vibratória e proprioceptiva, marcha insegura no escuro e alteração cognitiva. É a única carência deste capítulo cujo dano neurológico é parcialmente irreversível se o diagnóstico demora, e é por isso que a reposição é permanente e não se suspende. O esquema, a dose e a duração são do capítulo O dano que não volta, em Hematologia e Hemoterapia, que é o dono da reposição de B12; este capítulo não reescreve esquema, e o que acrescenta é a razão anatômica de a via ser parenteral e o fato de que a suspensão silenciosa, quando o paciente para de ir à unidade, é regra e não exceção.
Cálcio e vitamina D falham juntos e o efeito é ósseo. A perda de massa óssea depois da cirurgia bariátrica não dói e não aparece em exame de rotina; o que aparece, quando alguém dosa, é o paratormônio elevado com cálcio sérico normal, que é o corpo mantendo a calcemia às custas do osso. O manual federal recomenda manter a vitamina D sérica em 30 ng/mL ou mais com paratormônio dentro dos limites normais, e prefere explicitamente o citrato de cálcio ao carbonato, porque o citrato depende menos da acidez gástrica — uma preferência que colide com o que o elenco público oferece, e a conta está na seção de critério.
A tiamina é o quarto relógio e o mais rápido, e já tem seção própria acima. Some a ele um quinto item que não é carência mas se comporta como uma: a proteína. Uma câmara de trinta mililitros com intolerância a carne produz ingestão proteica baixa por meses, e o manual federal fixa, para a gestante operada, um consumo mínimo de 60 g por dia. Perda de massa muscular, edema de membros inferiores sem causa cardíaca ou renal e queda de cabelo intensa depois do sexto mês pedem que alguém pergunte o que essa pessoa come de proteína, em gramas.
Dor epigástrica que não é gastrite: úlcera de boca anastomótica
A úlcera de boca anastomótica — úlcera marginal — se apresenta como dor epigástrica em queimação, muitas vezes relacionada à alimentação, com náusea e às vezes disfagia por edema local. Pode sangrar, e então aparece como anemia ferropriva inexplicada, melena ou hematêmese; pode perfurar; e pode, na evolução crônica, estenosar a anastomose e produzir vômito pós-prandial.
Três fatores modificáveis a produzem e os três se perguntam na consulta: tabagismo, uso de anti-inflamatório não esteroidal, e infecção por Helicobacter pylori não tratada. O anti-inflamatório é o mais frequente e o mais evitável, e o operado costuma usar por dor articular residual, comprado sem receita, sem contar a ninguém. A pergunta é o que a senhora toma quando dói o joelho, e não a senhora usa anti-inflamatório.
O erro que este quadro produz é diagnóstico de gastrite ou de refluxo, com prescrição de inibidor de bomba e alta — que alivia o sintoma sem tratar a causa e sem estabelecer o diagnóstico. Vale notar a diferença de raciocínio em relação ao capítulo Sete anos de omeprazol, em Gastroenterologia, que é o dono da doença do refluxo e da dispepsia do não operado: ali a supressão empírica é uma estratégia legítima com critérios de parada; aqui, num operado com dor epigástrica nova, o inibidor de bomba entra como tratamento de uma lesão que se pretende ver, e não como teste terapêutico que dispensa vê-la.
O que volta depois: pedra, peso e álcool
A colelitíase é a complicação de calendário previsível: aparece na fase de perda rápida, nos primeiros meses a dois anos. A apresentação é a cólica biliar de sempre, e o diagnóstico, a classificação e a conduta da colelitíase e da colecistite pertencem ao capítulo A mesma pedra, três destinos, na apostila de Urgência e Emergência Cirúrgica, que é o dono desse assunto. Duas coisas são deste capítulo e não daquele. A primeira é a profilaxia farmacológica, que tem indicação em bula aprovada e cujo acesso pelo sistema público é o assunto de uma nota de critério aqui. A segunda é uma dificuldade prática que o operado de bypass cria: se a pedra migrar para o colédoco, a colangiopancreatografia endoscópica convencional fica inacessível pela via natural, porque o duodeno está fora do trânsito — o que muda o planejamento e é razão para o serviço que operou ser consultado.
O reganho de peso é regra e não exceção, e a norma diz isso com todas as letras: a resolução do conselho registra que pacientes submetidos à cirurgia bariátrica ou metabólica, independentemente da técnica empregada, podem apresentar recidiva não só da obesidade como das comorbidades prévias, incluindo as doenças metabólicas, e prevê para isso avaliação de tratamento clínico ou de cirurgia revisional pela equipe multidisciplinar. Registre a implicação: se a norma que autoriza a operação já prevê a recidiva, então o reganho não é fracasso moral do paciente nem erro do cirurgião, e a consulta em que ele aparece não é uma consulta de cobrança. É uma consulta de reavaliação, e a frase que a abre está no bloco de conversa.
O álcool depois do bypass é o assunto que quase nunca é perguntado. Dois fenômenos se somam: a farmacocinética muda — pico mais alto e mais rápido com a mesma dose, porque a câmara gástrica é pequena e a primeira passagem gástrica praticamente desapareceu —, e há aumento documentado de transtorno por uso de álcool de início pós-operatório em pessoas que não bebiam problematicamente antes. A pergunta entra na consulta de rotina do operado, com a mesma naturalidade com que se pergunta sobre a alimentação. O diagnóstico, a classificação e o manejo do transtorno por uso de álcool e da abstinência são do capítulo A única abstinência que mata, em Psiquiatria; a intervenção breve na consulta é do capítulo Pare de fumar não é conduta, em Medicina Preventiva e Saúde Coletiva. O que é deste capítulo é lembrar de perguntar, e saber por que a resposta mudou depois da operação.
Fecha o bloco um sintoma que não é complicação e que precisa ser nomeado: o excesso de pele. Ele produz intertrigo, micose de repetição, dificuldade de higiene, limitação de movimento e sofrimento importante com a própria imagem — e tem porta no sistema público. A norma federal garante cirurgia plástica reparadora a quem foi operado e aderiu ao acompanhamento, com critérios funcionais escritos: incapacidade funcional por ptose mamária com desequilíbrio de coluna, abdome em avental com desequilíbrio de coluna, infecções cutâneas de repetição por excesso de pele, e alterações psicopatológicas decorrentes da redução de peso. Dizer isso ao paciente é conduta, porque quase ninguém sabe.
Como fechar o diagnóstico
Uma advertência antes das seções, e ela é o achado de fonte mais importante deste capítulo. Não existe documento normativo brasileiro que trate do abdome agudo na pessoa operada de cirurgia bariátrica. As duas portarias federais que organizam a linha de cuidado da obesidade dizem quem opera, onde se opera e como se acompanha; não dizem uma palavra sobre o que fazer quando o operado chega com dor. A resolução do conselho de 2025 trata de indicação, técnica reconhecida, equipe, hospital e seguimento; também não trata disso. Numa busca sobre os mais de dois mil e novecentos documentos já baixados pela fábrica desta apostila, a expressão hérnia interna aparece em um único texto oficial brasileiro — o Manual de Gestação de Alto Risco do Ministério da Saúde, de 2022 —, e lá ela aparece exclusivamente no capítulo da gestante.
Isso tem duas consequências que este capítulo assume explicitamente. A primeira é que o roteiro de investigação abaixo, fora da gestação, é construção clínica declarada e não citação de norma brasileira: onde uma frase for leitura deste capítulo, ela vem dita como tal. A segunda é que a única frase brasileira oficial que existe sobre o assunto — a do manual de 2022 — é forte e vale como âncora: ela manda que toda mulher com antecedente de bypass conheça os sintomas de hérnia interna e procure assistência médica precocemente, manda investigar prontamente a dor abdominal alta, e afirma que a demora no diagnóstico e na intervenção cirúrgica piora o prognóstico. Se isso vale para a gestante, o ônus de argumentar que não valeria para a mesma mulher três meses antes de engravidar é de quem quiser sustentá-lo.
A tomografia normal, e o que fazer com um laudo que tranquiliza
A tomografia de abdome com contraste continua sendo o exame que se pede, e ela responde muita coisa: mostra dilatação de alças quando existe, mostra líquido livre, mostra pneumoperitônio, mostra coleção, e afasta boa parte dos diferenciais. O que ela não faz é excluir hérnia interna, e a razão é temporal antes de ser técnica. A alça entra pelo espaço mesentérico e sai; se o exame é feito no intervalo entre duas crises, não há nada anômalo para ver. Um exame normal num paciente com dor que passou não prova que a alça não estava lá uma hora antes.
Isso não torna a tomografia inútil: torna o laudo negativo não conclusivo, o que é diferente. Os sinais que a favorecem quando aparecem — redemoinho de vasos mesentéricos, agrupamento anômalo de alças, congestão de mesentério, deslocamento da veia mesentérica superior — têm valor quando presentes e pouco valor quando ausentes. Escreva isso no prontuário com essas palavras, porque a frase tomografia sem alterações, isolada, é o que autoriza a alta que este capítulo tenta impedir.
Duas regras práticas fecham a seção, e as duas são leitura deste capítulo e não de norma brasileira. Primeira: peça a tomografia durante a crise, não depois de ela ceder com analgésico — se o paciente melhorou na sala de espera e o exame ainda não foi feito, isso é informação, não é alta. Segunda: no operado de bypass com dor abdominal, a decisão de operar ou de observar dentro do hospital é do cirurgião, não do exame; um laudo normal em paciente com dor persistente ou com taquicardia desproporcional não substitui a avaliação cirúrgica presencial.
Na gestante o algoritmo brasileiro é diferente e está escrito: o manual federal define a ressonância magnética como exame de imagem de primeira linha para auxiliar no diagnóstico da obstrução intestinal por hérnia interna na gravidez depois de bypass. Guarde essa frase inteira, porque ela contém as duas informações — que se investiga com imagem, e que na gestante a imagem de escolha não é a tomografia.
O telefonema é parte do exame
Ligar para o serviço que operou não é gentileza nem formalidade administrativa: é obtenção de dado clínico que nenhum exame do seu hospital fornece. Três informações mudam decisão e só existem lá. Qual foi exatamente a operação, porque bypass e gastrectomia vertical produzem complicações diferentes e só o bypass cria espaços mesentéricos. Como a alça foi posicionada e se os espaços mesentéricos foram fechados na operação, porque isso altera a probabilidade a priori da hérnia interna. E se essa pessoa já teve intercorrência antes, porque estenose prévia, úlcera prévia ou reoperação prévia mudam o diferencial inteiro.
O que se pede ao telefone, nesta ordem: o descritivo cirúrgico por escrito, a data da operação, e o nome de um cirurgião de referência com quem discutir agora. Anote no prontuário o horário da ligação, o nome do interlocutor e o combinado. Se o serviço não atender, registre também — a tentativa documentada é o que sustenta a decisão de transferir sem laudo confirmatório.
A norma federal ajuda aqui de um jeito indireto e útil de conhecer. Ela criou dois procedimentos específicos de tratamento de intercorrência, um clínico e um cirúrgico, para o pós-operatório de cirurgia bariátrica, e determinou que a internação por intercorrência registre o número da autorização de internação da cirurgia original no campo de internação anterior. Ou seja: o sistema foi desenhado para que o paciente com intercorrência volte a ser vinculado à operação que o produziu. O que a norma não previu é o prazo: esses dois procedimentos ficam restritos aos primeiros trinta dias depois da operação, e a conta do que isso significa está na seção de critério.
Registre por escrito o que não vai por telefone: no encaminhamento e na transferência, escreva a operação, a data, o peso antes e o peso de hoje, o intervalo desde a última crise, os sinais vitais, o que a imagem mostrou e o que ela não excluiu. Encaminhamento sem esses dados volta, e volta com o paciente dentro.
Vômito: o que se dosa, o que não se espera e o que não se faz
Diante do operado que vomita há mais de uma semana, a investigação mecânica é legítima e paralela: endoscopia digestiva alta para ver a anastomose e a câmara, estudo contrastado quando indicado, tomografia se houver dor. Nada disso muda a ordem das ações, porque nenhum desses exames sai hoje e a tiamina não espera.
A dosagem sérica de tiamina existe, é pouco disponível na rede pública brasileira, demora, e — este é o ponto — não deve ser esperada para tratar. A conduta correta é colher se houver como colher, tratar imediatamente, e não deixar o tratamento pendurado no resultado. É o mesmo raciocínio do alcoolista com confusão mental, e a razão é a mesma: o custo de tratar quem não precisava é irrisório, e o custo de não tratar quem precisava é uma amnésia permanente.
Tiamina parenteral e correção metabólica devem ser organizadas em paralelo. Sempre que possível, administrar tiamina antes ou junto dos carboidratos; hipoglicemia é exceção à ideia de esperar uma ordem rígida, pois glicose não pode ser atrasada pela indisponibilidade de tiamina. Avaliar magnésio e demais eletrólitos e investigar a causa dos vômitos.
O que se investiga em seguida, e que costuma ser esquecido: eletrólitos e magnésio, porque vômito prolongado produz hipopotassemia e hipomagnesemia, e a reposição de tiamina funciona mal em quem está hipomagnesêmico. E o registro do peso, sempre, comparado com o peso da alta cirúrgica — perda de peso mais rápida do que o esperado para o momento pós-operatório é sinal de que a pessoa não está comendo, e não de que a operação está funcionando bem.
Hipoglicemia tardia: como se documenta, e o exame que não se pede
O que fecha o diagnóstico é a documentação do episódio, e ela é barata: sintoma compatível, glicemia baixa medida durante o sintoma, e melhora dos sintomas com a correção da glicemia. Sem a glicemia medida no momento do sintoma, o diagnóstico não se estabelece, e a queixa costuma virar ansiedade no prontuário. Ensinar a pessoa a medir glicemia capilar durante o episódio — ou fazer com que ela procure onde medir — é o passo diagnóstico principal.
Registre também o intervalo entre a refeição e o sintoma e o que ela comeu antes. Uma a três horas depois de carboidrato de absorção rápida é o padrão do dumping tardio; jejum prolongado ou madrugada apontam para outra coisa e a investigação sai deste capítulo e vai para o de hipoglicemia no não diabético, em Endocrinologia, que é o dono da investigação da hipoglicemia.
O exame que não se pede é o teste oral de tolerância à glicose. Esta é a única contraindicação de exame que este capítulo defende como regra, e ela está escrita em documento federal brasileiro para uma população específica: o manual de gestação de alto risco declara que o teste oral de tolerância à glicose, habitualmente feito entre a 24ª e a 28ª semana, é contraindicado nas mulheres com bypass gástrico em razão da síndrome de dumping, que ocorre em aproximadamente metade dessas pacientes. Uma carga de 75 g de glicose numa anatomia de bypass reproduz exatamente o mecanismo do dumping — precoce durante a prova, tardio depois dela.
Fora da gestação, nenhum documento brasileiro fala sobre isso, e a extensão da contraindicação ao operado não gestante é leitura deste capítulo: se o mecanismo é o mesmo e a anatomia é a mesma, o teste é igualmente inadequado, e o que se usa no lugar é o perfil glicêmico com medidas capilares em condições de vida real.
O painel de carências: o que a norma pede, quando, e o que ela deixou de fora
A norma federal fixa o calendário e a lista. As consultas pós-operatórias vão de 15 a 30 dias, no segundo, terceiro, quarto, sexto e nono meses, entre o décimo segundo e o décimo quinto, e no décimo oitavo mês, com composição de profissionais definida em cada uma delas; os exames pós-operatórios acompanham essa periodicidade a partir do segundo mês. A lista de exames é: hemograma completo, proteínas totais e frações, zinco sérico, dosagem de cálcio, dosagem de vitamina B12, folato, dosagem de ferritina, triglicérides, dosagem de 25-hidroxivitamina D, dosagem de colesterol LDL, dosagem de colesterol LDL e dosagem de colesterol total — sim, com o LDL escrito duas vezes; a conta e o que sobra dela estão na seção de critério.
Três ausências dessa lista mudam a sua conduta. Não há tiamina, que é a carência que produz dano agudo e irreversível. Não há paratormônio, que é justamente o exame que denuncia a espoliação óssea precoce enquanto o cálcio sérico ainda está normal — e cujo controle o manual federal de gestação de alto risco exige, ao pedir vitamina D acima de 30 ng/mL com paratormônio dentro dos limites normais. E não há ferro sérico nem saturação de transferrina, de modo que a única medida de ferro do painel é a ferritina, que é reagente de fase aguda e sobe em inflamação — e pode estar falsamente normal em quem tem ferropenia real.
Como o painel oficial não pede tiamina, a decisão sobre ela não é laboratorial: é clínica e depende do gatilho. O gatilho é vômito persistente, ou ingestão muito reduzida, ou perda de peso mais rápida do que a esperada — e, diante dele, se trata.
Na gestante o painel é outro e está escrito: rastreio na primeira consulta de pré-natal, e depois, pelo menos uma vez por trimestre, folato sérico, vitamina B12 sérica, ferritina sérica, hemograma completo, vitamina D sérica, cálcio, paratormônio e tempo de protrombina, com valores de referência específicos para gravidez. Repare que a lista da gestante inclui o paratormônio e o tempo de protrombina que a lista do não gestante não inclui — e o tempo de protrombina está lá porque a vitamina K se absorve no jejuno e no íleo e depende de sais biliares, de modo que o coagulograma alterado funciona como marcador indireto dessa carência.
A mulher em idade fértil e a gestante operada
Duas perguntas entram na consulta de toda mulher operada em idade fértil, e as duas são clínicas. A primeira é sobre método contraceptivo, e há uma razão anatômica para ela: a absorção de contraceptivo oral pode estar reduzida depois de operação com componente disabsortivo, o que torna preferível um método que não dependa de absorção intestinal. A escolha do método, as categorias de elegibilidade e a prescrição são do capítulo de contracepção, na apostila de Ginecologia, e este capítulo cede aquele assunto a ele — o que fica aqui é a razão de trazer o tema à consulta.
A segunda pergunta é sobre planejamento de gravidez, e a resposta brasileira tem número. O manual federal recomenda que a mulher adie a gravidez até apresentar estabilidade no peso, o que normalmente é alcançado um a dois anos depois da cirurgia bariátrica, e registra os dois lados da conta: intervalo mais curto entre cirurgia e concepção se associou a maior risco de prematuridade, de recém-nascido pequeno para a idade gestacional e de admissão em unidade de terapia intensiva neonatal, enquanto intervalos mais longos podem aumentar deficiência de ferro, ganho de peso gestacional excessivo e parto por cesariana. O mesmo manual recomenda otimizar a suplementação de três a seis meses antes da concepção.
O pré-natal em si — a estratificação de risco, o calendário de consultas, o rastreamento e a conduta obstétrica — é da apostila de Obstetrícia, e a decisão de encaminhar ao pré-natal de alto risco pertence ao capítulo Quem fica, quem vai — e quem volta, que é o dono dos critérios de encaminhamento. Este capítulo cede o pré-natal a eles e assume apenas a metade cirúrgica: que a dor abdominal alta nessa gestante se investiga com ressonância e com telefone, que o teste oral de tolerância à glicose está contraindicado depois de bypass, e que a suplementação dela não é a de uma gestante comum.
Um dado do manual federal merece destaque porque contraria a intuição: a via de parto não se altera na gestação pós-bariátrica, e a cesárea é realizada apenas diante das indicações obstétricas habituais. E a amamentação, segundo o mesmo texto, geralmente não é afetada pela cirurgia e deve ser incentivada, mantendo-se o monitoramento e a suplementação nos mesmos moldes da gravidez.
As três réguas, as contas do elenco, e o que a conferência achou
A decisão eletiva e o atendimento do paciente já operado são percursos distintos. A comparação normativa abaixo é consulta complementar; na prática, verificar critérios atuais e fluxo local com a equipe.
- 1Na avaliação eletiva, documentar trajetória de tratamento, IMC, comorbidades, funcionalidade, expectativas e capacidade de seguimento; encaminhar para avaliação multidisciplinar.
- 2Distinguir indicação clínica, elegibilidade normativa e acesso no sistema de saúde; não prometer operação apenas pelo IMC nem impedir encaminhamento por exigência ainda em avaliação.
- 3No paciente já operado, descobrir técnica e data e, se possível, obter descrição da anatomia e reconstrução.
- 4Dor persistente ou recorrente, vômitos, taquicardia ou deterioração podem indicar complicação importante, inclusive hérnia interna; TC sem achado conclusivo não exclui toda urgência.
- 5Acionar equipe cirúrgica precocemente e reavaliar em série; não atribuir automaticamente sintomas ao emagrecimento ou à ansiedade.
- 6Vômitos prolongados, baixa ingestão ou sinais neurológicos exigem suspeitar deficiência de tiamina e tratar prontamente por via apropriada. Se houver hipoglicemia, corrigir imediatamente sem esperar tiamina; administrá-la tão cedo quanto possível.
- 7Manter acompanhamento de ingestão, peso, força, anemia e carências, com suplementação conforme técnica, exames e protocolo, sem abandonar seguimento após atingir o peso desejado.
- 8Rever medicamentos, saúde mental, uso de álcool, planejamento reprodutivo e retorno ao serviço de referência conforme necessidades.
A frase que precisa ser dita em voz alta
No operado de bypass gástrico com dor abdominal, hérnia interna é o diagnóstico até prova em contrário, e a tomografia normal não é prova em contrário. A conduta que sai disso não é pedir outro exame: é não liberar, ligar para quem operou e obter avaliação cirúrgica presencial. Esta é uma regra construída neste capítulo a partir do mecanismo e da única frase oficial brasileira que existe sobre o assunto — a do Manual de Gestação de Alto Risco de 2022, que manda investigar prontamente a dor abdominal alta na operada e afirma que a demora piora o prognóstico. Não há norma brasileira que a escreva para o não gestante; ela vem declarada como leitura, e não como citação.
Quem tem indicação: a régua que autoriza e a régua que paga
| Situação | Resolução CFM nº 2.429/2025, com a redação da Resolução CFM nº 2.470/2026 — o que o médico pode indicar | Diretrizes gerais do SUS, Anexo IV da Portaria de Consolidação nº 3/2017 — o que o sistema paga | O que isso muda na sua consulta |
|---|---|---|---|
| Índice de massa corporal igual ou maior que 40, sem comorbidade | Elegível, independentemente da presença de comorbidade associada (obesidade classe 3) | Elegível, com ou sem comorbidades, desde que sem sucesso no tratamento clínico longitudinal por no mínimo dois anos, com protocolos seguidos | É o cenário em que as duas coincidem no número e divergem no tempo: aqui o que decide o encaminhamento é o registro dos dois anos |
| Índice igual ou maior que 35 e menor que 40, com doença agravada pela obesidade | Elegível quando houver ao menos uma doença agravada pela obesidade e que melhore com a perda ponderal | Elegível com índice maior que 35 e comorbidades, exemplificadas como alto risco cardiovascular, diabetes e/ou hipertensão de difícil controle, apneia do sono e doenças articulares degenerativas, sem sucesso no tratamento clínico por no mínimo dois anos | A lista de comorbidades do SUS é exemplificativa, não taxativa; o que costuma barrar o encaminhamento não é a doença listada, é a ausência de registro do tratamento clínico |
| Índice exatamente 35,0 | Elegível, se houver a comorbidade (a resolução diz igual ou superior a 35) | Não elegível: os dois textos do SUS dizem maior que 35 | Meça de novo, registre o valor absoluto com uma casa decimal, e não prometa a cirurgia pelo sistema público a quem está exatamente no corte |
| Índice entre 30 e menor que 35, com diabetes tipo 2, doença cardiovascular grave com lesão de órgão-alvo, doença renal crônica precoce em diabetes tipo 2, apneia do sono grave, doença gordurosa hepática não alcoólica com fibrose, afecção com indicação de transplante, refluxo com indicação cirúrgica ou osteoartrose grave | Elegível na presença de qualquer uma dessas condições (obesidade classe 1) | Não elegível: o piso do SUS para comorbidade é maior que 35 | É a divergência de maior impacto prático; pela resolução essa pessoa pode ser operada, pelo sistema que a atende não, e prometer a cirurgia nessa conversa cria expectativa que não se cumpre |
| Índice igual ou maior que 50 | Segue a regra da classe 3, sem exigência adicional de tempo | Um dos dois textos do SUS diz igual ou maior que 50 e o outro diz maior que 50 — a única faixa que dispensa a comprovação de dois anos | É a única situação em que o encaminhamento anda sem os dois anos de registro; para o índice exatamente 50,0, ver a primeira nota abaixo |
| Índice igual ou maior que 60 | Elegível, com avaliação adicional da capacidade estrutural e física do hospital — camas, macas, mesa cirúrgica, cadeira de rodas e equipamentos — e do preparo da equipe | Não há previsão específica; o que existe é a recomendação de perda de 10 a 20% do excesso de peso no pré-operatório para índice acima de 50 | Encaminhe ao serviço habilitado sabendo que a estrutura, e não só o critério clínico, faz parte da decisão |
| Tempo de falha do tratamento clínico | Sem prazo fixo: a falha é reconhecida por avaliação consensual do cirurgião com a equipe multidisciplinar | No mínimo dois anos de tratamento clínico longitudinal na Atenção Básica e/ou na Atenção Ambulatorial Especializada, com protocolos seguidos, incluindo mudança de hábitos, dieta, atenção psicológica, prescrição de atividade física e, se necessário, farmacoterapia | É a divergência que mais muda a sua conduta hoje: cada consulta clínica registrada em prontuário conta como tempo, e a ausência desse registro é o motivo mais frequente de o encaminhamento voltar |
| Adolescente de 16 a 18 anos | A partir de 16 anos valem os critérios do adulto, desde que paciente e família compreendam riscos, mudanças de hábito e necessidade de acompanhamento prolongado | Pode ser indicado a quem tiver escore-z do índice por idade maior que +4, porém não antes da consolidação das epífises de crescimento; avaliação em prontuário com análise da idade óssea e participação de dois profissionais médicos especialistas | As duas normas discordam sobre exigir idade óssea; a discussão está nas divergências deste capítulo, e o que é seu é encaminhar com a avaliação completa |
| Adolescente acima de 14 e abaixo de 16 anos | Pode ser considerado em casos excepcionais de obesidade grave, com índice maior que 40, associada a complicações clínicas que levem a risco de vida, com termo de consentimento dos responsáveis | Sem previsão: a norma federal trata da faixa de 16 a 18 anos e das idades da tabela de procedimentos | Fora do que o sistema público prevê; a conversa com a família precisa dizer isso antes de criar expectativa |
| Pessoa acima de 65 anos | Não há limite máximo de idade declarado na resolução | Avaliação individual por equipe multiprofissional, considerando risco-benefício, risco cirúrgico, comorbidades, expectativa de vida e benefícios do emagrecimento | Idade não é contraindicação por si; o que muda é a exigência formal de avaliação individualizada registrada |
| Gestante | Contraindicação cirúrgica expressa | Sem menção específica na lista de contraindicações | Pergunte sobre gravidez e método contraceptivo antes de encaminhar, e não só antes de operar |
| Equipe multidisciplinar mínima | Cirurgião mais endocrinologista e metabologista, cardiologista, psiquiatra, nutrólogo, nutricionista e psicólogo; na falta de algum dos quatro médicos, pode atuar excepcionalmente médico com experiência no acompanhamento desses pacientes, com justificativa em prontuário | Na fase inicial: cirurgião, clínico ou endocrinologista, nutricionista, psicólogo, cardiologista, pneumologista e, quando necessário, psiquiatra, angiologista, gastroenterologista e ginecologista | As duas listas não coincidem em quem é obrigatório; a comparação está nas notas abaixo |
Conversão refeita em Python: o alvo, a apresentação real do elenco, e o que sobra
| Alvo, e de onde ele vem | Apresentação na Rename 2024 | A conta | O que sobra da conta |
|---|---|---|---|
| Tiamina 12 mg por dia na gestante operada (Manual de Gestação de Alto Risco, 2022) | Cloridrato de tiamina 300 mg comprimido, Componente Básico — é a única apresentação de tiamina do elenco | 300 ÷ 12 = 25: o comprimido entrega 25 vezes a dose recomendada, e 12 mg corresponderiam a 0,04 comprimido | Não há como entregar 12 mg com o que o elenco tem; o que existe no país são apresentações comerciais menores fora da Rename, e a conversa com a farmácia da unidade precisa ser feita antes de a paciente chegar |
| Tiamina parenteral no operado com vômito e suspeita de encefalopatia | Não consta: busca exata sobre o texto normalizado devolve tiamina apenas em comprimido | Zero apresentações injetáveis de tiamina no elenco essencial | É o achado que mais muda conduta neste capítulo: a droga que se dá antes de confirmar não está na lista nacional, e onde ela existe é por padronização hospitalar — descubra qual é a do seu serviço antes do plantão em que precisar |
| Ferro elementar 60 a 100 mg por dia depois da operação (Manual de Gestação de Alto Risco, 2022) | Sulfato ferroso equivalente a 40 mg de ferro elementar comprimido; equivalente a 25 mg/mL solução oral; equivalente a 5 mg/mL xarope — todos no Componente Básico | 60 ÷ 40 = 1,5 comprimido e 100 ÷ 40 = 2,5 comprimidos: nenhum dos dois alvos cai em número inteiro; dois comprimidos entregam 80 mg e três entregam 120 mg | Prescreva em miligramas de ferro elementar e escolha explicitamente 2 ou 3 comprimidos; a solução oral de 25 mg/mL permite ajuste fino quando a tolerância for o problema |
| Vitamina B12 1.000 mcg por via intramuscular, mensal (Manual de Gestação de Alto Risco, 2022) | Cianocobalamina 500 mcg/mL solução injetável, Componente Básico | 1.000 ÷ 500 = 2 mL, ou seja uma ampola de 2 mL; onde o serviço estocar ampola de 1 mL, são duas ampolas | Ler a concentração como se fosse a dose da ampola entrega metade; o esquema e a duração da reposição são do capítulo O dano que não volta, em Hematologia e Hemoterapia |
| Ácido fólico 400 mcg por dia no período pré-concepcional | Ácido fólico 5 mg comprimido e 0,2 mg/mL solução oral, Componente Básico | 5 mg ÷ 0,4 mg = 12,5: o comprimido entrega 12,5 vezes a dose; 400 mcg correspondem a 2 mL da solução oral | Não há apresentação de 400 mcg no elenco; quem precisa exatamente dessa dose usa a solução oral, e quem recebe o comprimido está recebendo outra coisa |
| Ácido fólico 4 a 5 mg por dia periconcepcional e no primeiro trimestre na mulher com obesidade ou diabetes (Manual de Gestação de Alto Risco, 2022) | Ácido fólico 5 mg comprimido, Componente Básico | 5 mg ÷ 5 mg = 1 comprimido por dia | É a única linha desta tabela em que a apresentação do elenco fecha exatamente o alvo — e ela vale justamente para a mulher operada que engravida |
| Vitamina D 1.000 UI por dia com cálcio 1.200 a 1.500 mg por dia (Manual de Gestação de Alto Risco, 2022) | Carbonato de cálcio 1.250 mg (500 mg de cálcio elementar) + colecalciferol 200 UI comprimido; fosfato de cálcio tribásico 1.661,616 mg (600 mg de cálcio) + colecalciferol 400 UI comprimido | Pela apresentação de 200 UI, 1.000 UI exigem 5 comprimidos e arrastam 2.500 mg de cálcio elementar; pela de 400 UI, exigem 2,5 comprimidos e arrastam 1.500 mg. Pelo alvo de cálcio: 1.200 mg são 2,4 comprimidos da primeira (480 UI) e 2 comprimidos da segunda (800 UI) | Nenhuma das duas fecha 1.000 UI com cálcio dentro do alvo; a apresentação com fosfato tribásico é a que chega mais perto, e a leitura das duas apresentações também está no capítulo Dois cânceres com o mesmo nome, nesta apostila |
| Ácido ursodesoxicólico 600 mg por dia na profilaxia de cálculo biliar depois da cirurgia bariátrica (bula do profissional aprovada pela Anvisa em 12/12/2023) | Ácido ursodesoxicólico 50 mg, 150 mg e 300 mg comprimido — Componente Especializado, vinculado ao PCDT de Colangite Biliar Primária | 600 ÷ 300 = 2 comprimidos por dia, divididos em duas tomadas de 300 mg, que é exatamente o que a bula descreve; pela apresentação de 150 mg seriam 4, e pela de 50 mg, 12 | A apresentação existe e a indicação está em bula, mas a porta de acesso do elenco é outra doença — ver a nota sobre isso abaixo |
| Ferro por via intravenosa na anemia moderada a grave depois da operação (Manual de Gestação de Alto Risco, 2022: 200 mg duas vezes por semana, 400 mg por semana, por 4 semanas, diluído em 200 mL de solução fisiológica em infusão de 2 horas, em ambiente hospitalar) | Solução injetável de 20 mg/mL, Componente Especializado, vinculada ao PCDT de Anemia na Doença Renal Crônica; o elenco a nomeia de dois modos diferentes | 200 mg ÷ 20 mg/mL = 10 mL por aplicação; 400 mg por semana são 20 mL; as 4 semanas somam 1.600 mg de ferro elementar | A conta é simples e o acesso não é: o vínculo do elenco é a doença renal crônica, e a paciente operada com ferropenia refratária não tem, no elenco, uma porta própria |
A trava do plantão: o operado que volta
| O que chega | O que é até prova em contrário | O que NÃO exclui | O que se faz agora |
|---|---|---|---|
| Dor abdominal em cólica em pessoa operada de bypass, intermitente, com ou sem vômito | Hérnia interna | Tomografia normal; abdome sem distensão; eliminação de fezes e gases mantida; exame quase normal entre as crises | Não liberar; ligar para o serviço que operou; avaliação cirúrgica presencial; internar para observação se a dor persistir |
| Dor que era intermitente e virou contínua, ou taquicardia desproporcional à dor | Alça encarcerada, com relógio de isquemia correndo | Ausência de febre, ausência de leucocitose, laudo de imagem sem alterações | Cirurgião agora; jejum, acesso venoso, hidratação; transferência com descritivo do que se viu e do que não se excluiu |
| Vômito há mais de uma semana em operado, com ou sem confusão | Depleção de tiamina, até que o tempo de vômito seja desmentido | Ausência da tríade completa; glicemia normal; tomografia de crânio normal | Tiamina prontamente, pela via indicada, idealmente antes ou junto de aporte de carboidratos quando viável; não atrasar glicose em hipoglicemia. Avaliar magnésio, potássio e fósforo e investigar a causa do vômito em paralelo. |
| Confusão, ataxia ou alteração da motricidade ocular em operado | Encefalopatia de Wernicke | Ausência de etilismo; ausência de desnutrição visível; tempo de operação longo | Tratar imediatamente, sem esperar dosagem; registrar o gatilho no prontuário |
| Mal-estar, rubor, sudorese, palpitação e cólica de 15 a 60 minutos depois de comer | Dumping precoce | Glicemia normal no momento do sintoma | Orientação alimentar por escrito: refeições pequenas e frequentes, sem carboidrato de absorção rápida, líquidos fora da hora da refeição |
| Tremor, suor frio, fome súbita, borramento visual ou síncope de 1 a 3 horas depois de comer | Hipoglicemia hiperinsulinêmica tardia | Ausência de diabetes; teste anterior normal; diagnóstico prévio de ansiedade | Documentar glicemia durante o sintoma; perguntar o que a pessoa faz depois de comer; não pedir teste oral de tolerância à glicose |
| Dor epigástrica em queimação nova em operado de bypass | Úlcera de boca anastomótica | Melhora com inibidor de bomba de prótons | Perguntar por anti-inflamatório, tabagismo e tratamento prévio de Helicobacter pylori; encaminhar para endoscopia em vez de renovar receita |
| Anemia que não responde ao ferro por via oral em operado | Via de administração errada antes de má adesão | Adesão declarada; ferritina no limite inferior da normalidade | Rever a via; investigar sangramento se houver sinal; a régua da investigação é do capítulo Anemia ferropriva, em Hematologia e Hemoterapia |
| Dor abdominal alta em gestante com antecedente de bypass | Hérnia interna, com prognóstico materno e fetal dependente do tempo | Atribuição à própria gravidez; ausência de sinais peritoneais | Investigação imediata com ressonância magnética como imagem de primeira linha, e contato com o serviço que operou |
A consolidação citada apresenta sinais diferentes nos limites de IMC de 40 e 50 kg/m² entre anexos de origens distintas. Nos valores exatos, a diferença pode alterar a leitura de acesso. Registre peso, altura e IMC com precisão e confirme o critério aplicável com o serviço habilitado, sem decidir elegibilidade por um trecho isolado.
Os números de procedimentos públicos citados, 12.568 em 2019 e 5.923 em 2022, correspondem a redução de aproximadamente 52,9%, diferente dos 54,8% escritos no documento. A discrepância é descritiva e não altera indicação. Use período, contagens e fonte ao discutir acesso.
Na saúde suplementar, os 53.087 procedimentos de 2019 e 65.256 de 2022 correspondem a crescimento de aproximadamente 22,9%. Essa comparação pertence ao período e ao segmento apresentados; não deve ser usada como estimativa de acesso atual de uma pessoa ou de um serviço.
As parcelas nomeadas de procedimentos em 2022 somam 71.179, enquanto o total informado é 74.738. O texto não atribui os 3.559 restantes a uma categoria. Não os classifique como pagamento particular sem informação adicional. O dado apresentado permite apenas reconhecer essa limitação da distribuição.
As fontes descrevem republicação da Resolução CFM nº 2.429/2025 e alteração posterior da composição da equipe pela Resolução nº 2.470/2026. Identifique a redação consultada antes de usar a comparação. Uma cópia da publicação inicial pode não conter a correção ou a alteração posterior.
A alteração de 2026 apresentada detalha a equipe e prevê atuação excepcional de médico com experiência quando faltar determinado especialista, com justificativa em prontuário e encaminhamento conforme a necessidade clínica. A exceção deve ser compreendida no texto completo; ela não dispensa acompanhamento adequado nem autoriza substituir indiscriminadamente qualquer função.
As listas de profissionais do conselho e da organização do SUS têm finalidades e composições diferentes. O serviço deve compatibilizar os requisitos aplicáveis. No encaminhamento, informe avaliações já realizadas, profissionais envolvidos e necessidades identificadas, evitando apresentar uma lista isolada como suficiente para todo cenário.
Nos trechos sobre adolescentes, a consolidação usa expressões diferentes para os dois especialistas exigidos. A avaliação deve seguir o fluxo do serviço habilitado, com documentação completa e discussão apropriada à idade. Não interprete a expressão mais genérica como permissão para dispensar a avaliação clínica e cirúrgica necessária.
Os códigos de intercorrência citados têm janela administrativa de 30 dias, enquanto o acompanhamento se estende por período maior. Complicações tardias continuam relacionadas à anatomia operada, mesmo que o código usado no atendimento seja outro. Informe sempre técnica, data e evolução pós-bariátrica ao avaliar dor abdominal, vômitos ou carências.
A lista laboratorial da norma repete LDL e não reúne todos os exames que podem ser necessários após a cirurgia. Use o painel como referência de organização, complementando-o pela técnica, sintomas, ingestão e evolução. Vômitos, alterações neurológicas, anemia ou doença óssea exigem avaliação dirigida, sem aguardar a revisão programada.
A suspeita de deficiência de tiamina em quem vomita e apresenta alteração neurológica exige a abordagem urgente descrita no percurso. Confirme a apresentação parenteral disponível no hospital. A busca no elenco impresso de 2024 não informa estoque local nem incorporações posteriores, e não deve atrasar o acionamento da equipe.
A escolha do sal de cálcio considera absorção, anatomia e disponibilidade. O manual citado destaca menor dependência da acidez para o citrato, enquanto o elenco apresenta outras formulações. A equipe deve definir a reposição e acompanhar sua resposta; ausência de uma formulação na lista não resolve a necessidade clínica.
A bula citada do ácido ursodesoxicólico apresenta profilaxia de cálculos após bariátrica, mas o vínculo no elenco descrito corresponde a outra indicação. Diferencie indicação clínica e via de obtenção. Se o esquema for prescrito, confirme como o paciente receberá o medicamento, com dose, duração e seguimento definidos.
O elenco citado apresenta sulfato ferroso em comprimido e soluções com quantidades diferentes de ferro elementar. Prescreva por esse componente e confira concentração e volume. A ausência de determinados fármacos antiobesidade na edição de 2024 não substitui avaliação do tratamento clínico nem informa integralmente as opções locais.
O ferro injetável aparece com nomes diferentes em seções do elenco citado, apesar de mesma concentração descrita de 20 mg/mL. Confirme produto, componente, concentração e indicação no fluxo de dispensação. Não conclua que sejam agentes diferentes apenas pela variação de nome nem calcule dose sem verificar a apresentação.
As linhas de ferripolimaltose citam o mesmo relatório e portaria com anos diferentes. Para localizar a incorporação, confira o ato pelo título e pela indicação, além da data abreviada da tabela. A discrepância bibliográfica não define a apresentação ou o esquema que o paciente deve receber.
No manual de gestação, os quadros mostram doses fixas e o texto apresenta faixas para folato e vitamina D. A tabela resumida não substitui avaliação de deficiência, fase gestacional e tratamento já usado. A gestante após bariátrica necessita plano coordenado, com dose e monitorização expressas.
A frase do manual sobre proporção de glicemias normais tem redação que inverte o sentido esperado do controle. Não a use isoladamente para classificar a gestante. Registre as medidas e compare com as metas do percurso obstétrico, discutindo a proporção de resultados fora da faixa com a equipe responsável.
IMC é expresso em kg/m². A grafia g/m² em uma figura da diretriz citada é um erro de unidade, enquanto o restante do texto usa quilogramas. Preserve peso, altura e unidade no registro para que o cálculo possa ser conferido.
A frase epidemiológica citada não esclarece se o percentual de obesidade se refere a todos os adultos ou apenas ao grupo com excesso de peso. Não derive uma prevalência a partir dessa ambiguidade. O capítulo usa o contexto clínico e remete a epidemiologia da obesidade ao percurso específico.
As fontes deste capítulo são identificadas para permitir consulta às recomendações completas. As comparações editoriais resumem trechos com escopos diferentes; não substituem o documento aplicável ao serviço. Ao reutilizar tabelas ou textos em outro material, mantenha a atribuição e as condições de uso da fonte correspondente.
As comparações de versões se limitam às cópias e documentos identificados nas fontes. Não permitem afirmar frequências brasileiras de todas as complicações tardias nem extrapolar conteúdo de protocolos não consultados. Na prática, reconheça a anatomia e os sinais de complicação e encaminhe conforme a necessidade, independentemente dessa limitação documental.
Registre versão e fluxo assistencial usados na avaliação eletiva. A alteração descrita de 2026 trata da equipe mínima e não representa mudança automática de todos os critérios de IMC. Para o internato, a comparação deve apoiar encaminhamento, reconhecimento de riscos e continuidade do cuidado após a operação.
A conduta, hora a hora
A linha do tempo abaixo é a de Amelina Itapajipe, 34 anos, 1,63 m, 77 quilos hoje e 118 quando foi operada. Ela começa às duas e dez da manhã, numa ficha classificada como verde, e termina numa consulta de unidade básica quarenta dias depois, com uma receita que ninguém tinha escrito.
Em cada marco vêm juntas a ação e o registro dela, e neste percurso o registro pesa tanto quanto a ação: no operado que volta, o prontuário é o único lugar onde a anatomia dele existe. Um laudo de tomografia normal registrado sem ressalva é o que autoriza a alta seguinte; um telefonema não anotado não aconteceu; um peso não aferido não existe.
A prevenção e o tratamento de carências precisam de plano concreto. Vômitos persistentes e suspeita de encefalopatia exigem tiamina prontamente, em geral parenteral conforme protocolo e avaliação, sem esperar confirmação laboratorial. Não usar a disponibilidade de comprimidos como substituto de tratamento parenteral indicado. Na hipoglicemia, oferecer glicose imediatamente e tiamina assim que possível, sem atrasar a correção. A reposição de B12, ferro, cálcio e vitamina D é individualizada pela técnica, resultados e protocolos correspondentes, com prescrição e seguimento definidos.
Marco 1 — 02h15, na sala de atendimento: a pergunta de oito palavras que reclassifica a ficha
A ficha diz dor abdominal, classificação verde. Antes de examinar, pergunte: a senhora já fez alguma cirurgia no abdome? Se a resposta for não, repita com outras palavras — já fez redução de estômago, já fez cirurgia para emagrecer, já colocou balão. Amelina responde que fez bypass há dezesseis meses. A partir dessa resposta, esta deixa de ser uma dor abdominal inespecífica e passa a ser uma dor abdominal em operado de bypass, que é outra categoria de risco. Anote no prontuário, na primeira linha, três dados: qual operação, há quanto tempo, quantos quilos perdeu. Procure e descreva as cicatrizes de portal — são quatro, pequenas, e passam despercebidas em quem não olha.
Prescrição- Reclassificar o risco da ficha e registrar o motivo da reclassificação
- Jejum absoluto até a definição da conduta
- Acesso venoso periférico calibroso e cristaloide isotônico conforme o estado volêmico
- Sinais vitais com intervalo encurtado, com registro da frequência cardíaca em cada aferição
Marco 2 — 02h40: caracterizar a crise, e não a dor
O que decide aqui não é a intensidade da dor agora: é o padrão dela ao longo do tempo. Pergunte quando começou, se vai e vem, quanto dura cada onda, e quantas vezes isso já aconteceu antes. Amelina descreve ondas de alguns minutos e conta duas idas prévias ao pronto-socorro no mês passado, as duas com alta e diagnóstico de gastrite. Peça as duas fichas anteriores — se o serviço tiver o registro, a repetição documentada é o dado mais valioso do caso. Registre também o que ela não tem: sem distensão abdominal, sem defesa, sem descompressão dolorosa. Não escreva esses achados negativos como se fossem tranquilizadores, porque neste diagnóstico eles não são.
Prescrição- Registrar no prontuário: número de crises anteriores, duração de cada onda, intervalo entre elas
- Analgesia, com registro do horário e da resposta — e sem que a melhora com o analgésico seja lida como resolução do quadro
- Hemograma, proteína C reativa, lactato, função renal, eletrólitos, magnésio e amilase
- Não prescrever sintomático de alta antes da avaliação cirúrgica
Marco 3 — 03h00: o laudo normal, e o que se escreve embaixo dele
A tomografia volta sem alterações significativas. Este é o momento do caso que mais frequentemente termina em alta, e é aqui que a conduta deste capítulo se separa da conduta habitual. O laudo normal reduz a probabilidade de perfuração, de coleção e de obstrução estabelecida no momento do exame; não reduz a probabilidade de hérnia interna intermitente, porque a alça pode ter reduzido sozinha entre a crise e a mesa da tomografia. Escreva no prontuário, com essas palavras, que a tomografia sem alterações não exclui hérnia interna em operado de bypass e que a paciente permanece em observação por esse motivo. Essa frase escrita é o que protege a paciente da próxima alta e o que protege você.
Prescrição- Registrar por escrito que o exame de imagem normal não exclui hérnia interna neste contexto
- Manter em observação hospitalar, com reavaliação médica registrada a cada 2 horas
- Manter jejum e hidratação; repetir lactato se a dor mudar de padrão
- Solicitar avaliação cirúrgica presencial — não parecer por telefone interno
Marco 4 — 03h20: o telefonema, que é procedimento e não cortesia
Ligue para o serviço que operou. O que se pede, nesta ordem: o descritivo cirúrgico por escrito, a confirmação da técnica, a informação sobre o fechamento dos espaços mesentéricos, o registro de intercorrências anteriores, e o nome de um cirurgião com quem discutir agora. Anote o horário da ligação, o nome do interlocutor e o que ficou combinado. Se ninguém atender, registre a tentativa e a hora — a tentativa documentada sustenta a decisão de transferir sem confirmação diagnóstica. Diga ao seu plantonista a frase inteira, em voz alta: no operado de bypass, dor abdominal é hérnia interna até prova em contrário, e a tomografia normal não é prova em contrário.
Prescrição- Contato telefônico com o serviço de origem, com hora, interlocutor e conteúdo registrados no prontuário
- Solicitar descritivo cirúrgico por escrito e anexá-lo ao prontuário quando chegar
- Comunicar formalmente o plantonista cirúrgico, com registro do horário da comunicação
- Manter a paciente sob observação enquanto o contato não se resolve
Marco 5 — 04h10: a dor vira contínua e a frequência sobe — o relógio muda
Amelina refere que a dor não está mais indo e vindo: ficou. A frequência cardíaca subiu de 104 para 122 e a pressão continua 112 por 70. Não há febre e o abdome ainda não distendeu. Dois achados, e os dois são de urgência: dor que era intermitente e virou contínua, e taquicardia desproporcional à dor e ao estado volêmico. A leitura é que a alça deixou de entrar e sair. A partir daqui o relógio conta isquemia, e a decisão é cirúrgica e imediata — não há exame que se peça agora que valha o tempo que ele custa. Se o seu hospital não tem cirurgião com condições de operar isso, a decisão é transferir com a paciente já preparada.
Prescrição- Comunicação imediata ao cirurgião e acionamento do fluxo de transferência em paralelo, sem esperar um pelo outro
- Sonda nasogástrica se houver vômito persistente ou distensão, com registro do débito
- Reposição volêmica guiada por sinais vitais e diurese; sondagem vesical se a monitorização o exigir
- Antibiótico e demais medidas de preparo conforme a orientação do cirurgião que vai receber
- Analgesia adequada — dor controlada não apaga o diagnóstico e a recusa de analgesia não protege ninguém
Marco 6 — 04h40: a transferência, e o que vai escrito nela
O que faz uma transferência ser aceita e o paciente ser operado a tempo é o conteúdo do documento. Escreva, em ordem: cirurgia bariátrica prévia, com técnica e data; peso antes e peso de hoje; cronologia da dor, com o número de crises anteriores e o momento em que ela se tornou contínua; a evolução da frequência cardíaca com horários; o que a tomografia mostrou e — explicitamente — o que ela não excluiu; as tentativas de contato com o serviço de origem; e a hipótese principal escrita por extenso. Hipótese escrita por extenso é o que faz o regulador priorizar; dor abdominal a esclarecer é o que faz a vaga esperar.
Prescrição- Documento de transferência com técnica cirúrgica, data, pesos, cronologia, sinais vitais seriados e hipótese de hérnia interna escrita por extenso
- Registro de que a imagem normal não exclui o diagnóstico
- Jejum, acesso venoso e hidratação mantidos durante o transporte
- Contato com o serviço receptor confirmado e registrado antes de a ambulância sair
Marco 7 — décimo dia: a alta do serviço de referência, e a caixa que ninguém prescreve
Amelina foi operada por videolaparoscopia, teve um segmento de delgado reduzido sem necessidade de ressecção, e recebeu alta no quinto dia. A parte deste marco que interessa ao interno é a outra: a alta de um operado de bariátrica é uma alta com prescrição vitalícia, e é a que mais frequentemente sai incompleta. Escreva a caixa inteira, com a mesma seriedade com que se escreve antibiótico. E escreva no resumo de alta, com todas as letras, que a reposição de vitamina B12 é permanente porque a causa é anatômica — a palavra vitamina faz o paciente e a família entenderem reforço temporário, e a suspensão é silenciosa por anos.
Prescrição- Cianocobalamina por via intramuscular, com a primeira dose aplicada antes da alta e as seguintes agendadas com data — a apresentação do elenco é 500 mcg/mL, e 1.000 mcg correspondem a 2 mL
- Sulfato ferroso prescrito em miligramas de ferro elementar, escolhendo explicitamente 2 comprimidos (80 mg) ou 3 comprimidos (120 mg) da apresentação de 40 mg, com reavaliação laboratorial marcada
- Cálcio e vitamina D por via oral, conferindo na apresentação disponível quantos miligramas de cálcio elementar e quantas unidades cada comprimido entrega
- Ácido fólico conforme a indicação, atento a que o comprimido do elenco é de 5 mg e a solução oral de 0,2 mg/mL
- Orientação alimentar por escrito: refeições pequenas e frequentes, mastigação lenta, líquidos afastados das refeições, proteína priorizada e quantificada em gramas
- Escrever no resumo de alta que a reposição de B12 é para a vida toda, e dizer isso à paciente com essas palavras
Marco 8 — quadragésimo dia, unidade básica: a consulta que reabre o seguimento
Amelina chega à unidade com o resumo de alta na mão. Esta consulta tem cinco tarefas e nenhuma delas é a queixa do dia. Pesar e comparar com o peso da alta. Perguntar o que ela come, em quantas refeições, e quanta proteína. Perguntar sobre os sintomas que ela não vai relatar espontaneamente: mal-estar depois de comer, tremor e suor uma a três horas depois, tontura, formigamento, fraqueza nas pernas, queda de cabelo. Perguntar sobre anti-inflamatório, tabagismo e álcool — os três com pergunta concreta e não com pergunta fechada. E perguntar sobre gravidez e método contraceptivo, porque ela tem 34 anos e a resposta muda a consulta inteira. Ao final, agende: exames, retorno com data, e a dose seguinte de cobalamina marcada na agenda da unidade.
Prescrição- Peso aferido e registrado, comparado com o peso da alta e com o peso pré-operatório
- Painel laboratorial: hemograma, ferritina, vitamina B12, folato, cálcio, 25-hidroxivitamina D e proteínas totais e frações — acrescentando paratormônio, que a lista oficial não inclui e que denuncia a espoliação óssea precoce
- Dose seguinte de cianocobalamina agendada na unidade, com data escrita na receita e no cartão
- Orientação escrita sobre hipoglicemia tardia, com instrução específica para quem dirige ou opera máquina
- Sinais de alarme por escrito, entregues e explicados: dor abdominal em cólica, vômito por mais de dois dias, confusão, fraqueza nova nas pernas, fezes escuras
- Retorno agendado com data e horário, e não retorno se necessário
Como saber se está funcionando
Reavaliar aqui tem dois relógios diferentes, e confundi-los é o erro. Há o relógio de horas, do operado que está na sua frente com dor, em que reavaliar significa repetir o exame e olhar para a frequência cardíaca. E há o relógio de anos, do operado que vive na sua área e cuja piora não dói — carência, osso, reganho. Os parâmetros abaixo cobrem os dois, e todos têm em comum a mesma característica: são medidas baratas, feitas fora do serviço que operou, que decidem se alguém percebe a tempo.
Esperado: Estabilidade ou queda à medida que a dor cede e a hidratação corrige
Se não melhora: Taquicardia que sobe sem febre, sem sangramento e com volume reposto é o sinal mais precoce de alça encarcerada e vale mais que qualquer laudo. Não espere leucocitose, não espere febre e não espere distensão: nesta apresentação os três costumam faltar. Acione o cirurgião com o número na mão.
Esperado: Ondas que espaçam e desaparecem, com o paciente confortável entre elas
Se não melhora: A passagem de intermitente para contínua é mudança de categoria e não de intensidade: significa que a alça deixou de reduzir sozinha. Registre o horário exato da mudança, porque é dele que se conta o tempo de isquemia na discussão com o cirurgião.
Esperado: Perda progressiva no primeiro ano, desacelerando; estabilização depois; alguma recuperação de peso ao longo dos anos é fenômeno esperado e não fracasso
Se não melhora: Perda mais rápida que o esperado para o momento pós-operatório significa que a pessoa não está comendo, e é razão para investigar estenose, úlcera e obstrução — não é sinal de sucesso. Reganho importante pede reavaliação clínica pela equipe, e a própria resolução do conselho prevê tratamento clínico ou cirurgia revisional para recidiva: a consulta em que o peso voltou não é consulta de cobrança.
Esperado: Vômito ocasional ligado a volume ou velocidade da refeição, que responde a fracionamento e mastigação
Se não melhora: Vômitos persistentes, dificuldade para ingerir ou sinais neurológicos pedem avaliação urgente e tiamina parenteral quando indicada, sem esperar exames. Administrá-la antes ou junto de glicose se possível, mas nunca atrasar correção de hipoglicemia; investigar complicação mecânica em paralelo.
Esperado: Hemoglobina estável, ferritina dentro da faixa, sem microcitose nova
Se não melhora: Anemia que não responde ao ferro por via oral neste paciente sugere primeiro via errada, e só depois má adesão ou sangramento. Lembre que a ferritina é reagente de fase aguda e pode estar falsamente normal em inflamação — a régua da investigação da anemia ferropriva é do capítulo Anemia ferropriva, em Hematologia e Hemoterapia.
Esperado: Nível dentro da faixa e aplicações em dia, com a data seguinte agendada no papel
Se não melhora: A falha aqui quase nunca é laboratorial: é a interrupção silenciosa quando o paciente deixa de ir. Antes de mudar dose, verifique se a dose foi aplicada. Sintomas neurológicos — parestesia, marcha insegura no escuro, alteração cognitiva — podem preceder a anemia e pedem conduta imediata; o esquema é do capítulo O dano que não volta, em Hematologia e Hemoterapia.
Esperado: Vitamina D em 30 ng/mL ou mais, com paratormônio dentro dos limites normais — que é o alvo escrito no manual federal para a gestante operada
Se não melhora: Paratormônio alto com cálcio sérico normal é o achado que denuncia a espoliação óssea antes de qualquer sintoma, e é justamente o que o painel oficial não enxerga. Reveja a apresentação prescrita e quantas unidades de vitamina D ela realmente entrega — a conta das apresentações do elenco está na tabela de conversão deste capítulo.
Onde o erro machuca
O dano: É o erro que custa o caso, e ele nunca parece um erro na hora, porque o exame é bom, o laudo é claro e o paciente melhorou com o analgésico. A alça que herniou pelo espaço mesentérico entra e sai; o exame feito no intervalo entre duas crises é normal. Cada alta assim compra tempo dentro da única janela em que a hérnia interna se resolve sem ressecção de intestino, e quando o encarceramento se instala o intervalo até a necrose se mede em horas. A história de duas, três, quatro passagens prévias pelo pronto-socorro com o mesmo quadro e alta não é sinal de que não é nada: é a assinatura do diagnóstico.
Como pegar a tempo: Antes de liberar, escreva no prontuário a frase completa: tomografia sem alterações não exclui hérnia interna em operado de bypass gástrico. Se você não consegue escrever isso e liberar ao mesmo tempo, é porque a conduta não é liberar. Peça avaliação cirúrgica presencial, ligue para o serviço que operou, e mantenha em observação com reavaliação registrada.
O dano: Muita gente não considera a bariátrica uma cirurgia do abdome: chama de redução de estômago, de cirurgia para emagrecer, de balão. Quatro cicatrizes de portal com menos de um centímetro não chamam atenção num abdome examinado com pressa, e num paciente que emagreceu quarenta quilos ninguém procura. Sem essa informação, o caso inteiro é conduzido na categoria errada — e é assim que a hérnia interna vira gastrite, que o vômito de três semanas vira virose, e que a hipoglicemia tardia vira ansiedade.
Como pegar a tempo: Pergunte a toda pessoa com queixa abdominal, antes do exame físico, e repita com outras palavras quem responder não. Depois olhe o abdome procurando cicatrizes de portal, especificamente. Registre a técnica, a data e a perda de peso na primeira linha da anamnese.
O dano: Uma carga de glicose em quem tem o estoque de tiamina no fim consome o pouco que restou como cofator e pode precipitar ou agravar a encefalopatia de Wernicke, cujo dano nem sempre volta. E a carga não precisa ser a ampola hipertônica: o soro de manutenção é uma carga silenciosa. O operado com vômito prolongado é uma população de risco que quase ninguém reconhece como tal, porque o gatilho que se aprende é o álcool.
Como pegar a tempo: Em vômitos persistentes após bariátrica, reconhecer risco de deficiência e, se houver suspeita neurológica, administrar tiamina parenteral prontamente, antes ou junto de carboidratos quando possível. Hipoglicemia exige correção imediata: não atrasar glicose por falta de tiamina. Conferir protocolo e apresentação, investigar causa do vômito e corrigir distúrbios associados em paralelo.
O dano: A úlcera de boca anastomótica cede aos sintomas com supressão ácida do mesmo modo que cederia uma dispepsia, e o alívio parcial acaba servindo de argumento para manter a receita. Enquanto isso a causa segue: o anti-inflamatório que ela compra para o joelho, o cigarro, o Helicobacter pylori não tratado. A evolução é sangramento — que aparece como anemia ferropriva que ninguém liga à úlcera —, perfuração, ou estenose da anastomose com vômito pós-prandial.
Como pegar a tempo: Dor epigástrica nova em operado de bypass é indicação de endoscopia, não de teste terapêutico. Pergunte por anti-inflamatório com pergunta concreta — o que a senhora toma quando dói o joelho —, por tabagismo e por tratamento prévio de Helicobacter. O inibidor de bomba entra como tratamento da lesão que se pretende ver, e não como substituto de vê-la.
O dano: São dois erros simétricos e os dois quebram a relação. Dizer a uma pessoa com índice de 32 e diabetes tipo 2 que ela tem indicação porque a resolução do conselho a torna elegível cria uma expectativa que o sistema público não vai cumprir, porque o piso do que se paga é maior que 35 com comorbidade. E dizer a alguém com índice de 43 acompanhado há oito meses que ele não tem indicação nenhuma é errado pela régua do conselho, que não fixa prazo. O paciente sai da consulta com uma informação que o serviço seguinte vai contradizer.
Como pegar a tempo: Diga qual régua você está usando quando falar. A frase que funciona nas duas situações é a mesma e é concreta: pela régua que autoriza o médico, o seu caso pode ser discutido; pela régua que paga, faltam tantos meses de tratamento registrado — e cada consulta sua aqui conta como esse tempo. Depois registre a consulta, porque o registro é o que faz o encaminhamento andar.
O dano: A caixa de reposição não é fortificante e não tem data para acabar, mas a palavra vitamina faz o paciente e a família lerem reforço temporário. A suspensão é silenciosa por anos e o preço aparece tarde: no ferro, como cansaço e anemia; no cálcio e na vitamina D, como osso que ninguém mediu; na vitamina B12, como dano neurológico que só volta em parte. Some-se a isso o que quase nunca é dito na alta e que muda a vida: o intervalo mínimo antes de engravidar, o comportamento novo do álcool, e o direito à cirurgia plástica reparadora para quem aderiu ao acompanhamento.
Como pegar a tempo: Escreva a caixa inteira com dose, via e data da próxima aplicação; consigne no resumo de alta, por extenso, que a reposição de B12 não terá fim, já que a causa dela é anatômica — e repita isso em voz alta para o paciente e para quem o acompanha. Acrescente três frases que cabem em trinta segundos: adiar gravidez até o peso estabilizar, em geral um a dois anos; o álcool sobe mais rápido e mais alto agora; e há previsão de cirurgia reparadora para quem seguir o acompanhamento.
O que dizer ao paciente e à família
Este é o capítulo em que a linguagem faz mais dano do que em quase qualquer outro, e o dano é específico: a pessoa com obesidade já ouviu, em consultas anteriores, que basta comer menos e andar mais. Se a sua consulta repetir isso com outras palavras, ela não volta — e o custo de ela não voltar, depois de uma operação que criou uma anatomia nova, é diferente do custo de ela não voltar antes.
Três regras atravessam todas as falas abaixo. Primeira: nunca atribuir o resultado à força de vontade, nem quando o resultado é bom. Segunda: não usar a operação como ameaça nem como prêmio — nem o se a senhora não emagrecer vai ter que operar, nem o a senhora conseguiu, agora é só manter. Terceira: dizer o que está escrito na régua, com o nome da régua, em vez de dar uma opinião pessoal disfarçada de critério. A forma da conversa difícil e a comunicação de risco pertencem à apostila de Comunicação, Ética e Segurança na Prática; o que está aqui é a substância que esta doença e esta operação exigem.
Explicar por que o tratamento clínico falhou, sem transformar isso em falha da pessoa
“A senhora não fracassou. O que aconteceu é que o corpo defende o peso mais alto que já teve: quando a senhora emagrece, ele reduz o gasto de energia e aumenta a fome, e isso não é da cabeça, é hormônio. Por isso a maioria das pessoas recupera o peso mesmo fazendo tudo certo. A cirurgia não é o caminho fácil e não substitui nada do que a senhora já faz — ela muda a anatomia para que o esforço que a senhora já fazia passe a render, e o acompanhamento depois é para o resto da vida.”
Não diga: Evite dizer que a cirurgia é o último recurso de quem não conseguiu, e evite qualquer variação de é só ter disciplina. Evite também prometer o número de quilos: quem promete resultado cria a próxima consulta de decepção.
Dizer que a pessoa é elegível por uma régua e não pela outra
“Existem duas regras no Brasil e elas não dizem a mesma coisa. Uma é do conselho de medicina, e diz o que o médico pode indicar; pela dela, o seu caso pode ser discutido pela equipe. A outra é a do Sistema Único de Saúde, e diz o que o sistema paga; pela dela, é preciso que a senhora esteja em tratamento clínico registrado há pelo menos dois anos, e o seu registro tem oito meses. Não estou dizendo não. Estou dizendo que faltam dezesseis meses de acompanhamento e que cada consulta sua aqui conta como esse tempo — por isso é importante não faltar, e por isso eu vou escrever tudo no prontuário hoje.”
Não diga: Evite dizer só que não tem indicação, porque não é verdade e a pessoa vai descobrir. Evite também prometer a cirurgia porque a resolução do conselho a torna elegível, se o caminho real dela for o sistema público.
Explicar ao operado, na alta, por que a caixa de remédios não acaba
“Nesta receita há três itens que não servem para dor nenhuma e que não têm prazo para terminar. A injeção de vitamina B12 é porque a parte do estômago que produzia a substância que absorve essa vitamina saiu do caminho — não é fortificante, é para a vida toda, e a próxima aplicação já está marcada com data aqui na receita. Os outros dois itens, o ferro e o cálcio com vitamina D, estão aí pelo mesmo motivo: o pedaço do intestino que absorvia os dois está fora do trânsito agora. Se o senhor parar, não vai sentir nada por muito tempo, e é justamente esse o problema.”
Não diga: Evite entregar a receita sem dizer a palavra permanente. Evite também chamar de vitamina sem explicar, porque a família lê como reforço e suspende quando a caixa acaba.
Descrever o dumping e a hipoglicemia tardia com as palavras que o paciente vai usar
“Duas coisas diferentes podem acontecer depois de comer, e o que separa uma da outra é o relógio. Uma vem logo, uns quinze a sessenta minutos depois, mais quando tem doce ou líquido junto: dá mal-estar, sua frio, o coração dispara, às vezes vem cólica e diarreia. Essa é o esvaziamento rápido e se resolve mudando a comida — porções menores, sem doce, líquido fora da hora. A outra vem mais tarde, uma a três horas depois: dá tremor, suor frio, fome de repente, vista embaçada, dificuldade de raciocinar. Essa é queda de açúcar de verdade. Se acontecer, coma alguma coisa doce na hora e me conte no retorno — e, se o senhor dirige ou trabalha com máquina, precisamos conversar sobre isso hoje.”
Não diga: Evite o vocabulário técnico: prefira as expressões que o próprio paciente usará no dia em que isso acontecer. E evite tratar a segunda como se fosse a primeira, porque a conduta é diferente e o risco também.
A consulta em que o peso voltou
“O peso ter voltado não significa que a senhora fez algo errado nem que a cirurgia foi malfeita. A própria norma que autoriza a operação diz, com essas palavras, que a recidiva pode acontecer independentemente da técnica, e prevê o que fazer quando acontece. O que a gente vai fazer hoje é o mesmo que se faz quando volta qualquer doença crônica: medir, entender o que mudou, e retomar o acompanhamento. Nada do que a senhora conseguiu nesses anos deixou de valer.”
Não diga: Evite perguntar o que a senhora andou comendo como primeira frase, e evite qualquer tom de cobrança. Evite também o oposto — dizer que não tem problema —, porque o reganho merece avaliação e não conforto.
Perguntar sobre álcool depois do bypass, sem acusação
“Tem uma coisa que muda depois dessa operação e que quase ninguém avisa: a bebida sobe muito mais rápido e chega muito mais alto do que subia antes, com a mesma quantidade. Não é impressão, é porque o estômago que segurava e processava parte do álcool não está mais no caminho. Por isso eu pergunto: quanto a senhora tem bebido, com que frequência, e mudou alguma coisa depois da cirurgia? Pergunto para todo mundo que opera, não é por causa da senhora.”
Não diga: Evite a pergunta fechada — a senhora bebe? —, que quase sempre recebe um não automático. Evite também qualquer insinuação de que a pessoa esconde: a mudança é farmacológica e a conversa é sobre risco, não sobre caráter.
A mulher em idade fértil que quer engravidar depois da operação
“A senhora pode engravidar depois da cirurgia, e muita gente engravida. O que se recomenda é esperar o peso estabilizar, o que costuma acontecer entre um e dois anos depois da operação, e começar a suplementação reforçada de três a seis meses antes de tentar. Enquanto isso, precisamos falar de método contraceptivo, e há uma razão prática: o comprimido depende de ser absorvido pelo intestino, e esse é justamente o trecho que foi desviado — então um método que não dependa de absorção é mais seguro para a senhora. E quando a gravidez vier, o pré-natal é de alto risco, não porque tenha algo errado, mas porque tem exame e suplementação que só se faz em quem operou.”
Não diga: Evite dizer que não pode engravidar, que é falso e produz abandono do seguimento. Evite também tratar o método contraceptivo como assunto de outra consulta: a razão para trazê-lo aqui é anatômica.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Norma federal do Ministério da Saúde, em vigor — exige
Nos jovens entre 16 e 18 anos, o tratamento cirúrgico poderá ser indicado a quem apresentar escore-z do índice de massa corporal por idade maior que +4, porém não deve ser realizado antes da consolidação das epífises de crescimento. A avaliação clínica do jovem necessita constar em prontuário e deve incluir a análise da idade óssea e avaliação criteriosa do risco-benefício, realizada por equipe multiprofissional com participação de dois profissionais médicos especialistas.
Anexo IV da Portaria de Consolidação nº 3, de 28 de setembro de 2017 (origem: Portarias GM/MS nº 424 e nº 425, ambas de 19 de março de 2013), texto normativo em vigor
Conselho Federal de Medicina, 2025 — argumenta que não
A resolução em vigor não menciona epífises nem idade óssea: estabelece que a partir de 16 anos valem os critérios do adulto e que a cirurgia entre 14 e 16 anos pode ser considerada em casos excepcionais de obesidade grave com índice maior que 40 e complicações que levem a risco de vida. Na exposição de motivos, o mesmo documento afirma expressamente que a cirurgia bariátrica e metabólica não impacta negativamente o desenvolvimento da puberdade nem o crescimento linear e que, portanto, estágio de Tanner II e idade óssea não devem ser considerados pré-requisitos para a cirurgia.
Resolução CFM nº 2.429, de 25 de abril de 2025, republicada no Diário Oficial da União de 21 de maio de 2025, com a redação da Resolução CFM nº 2.470, de 18 de agosto de 2026 — anexo e exposição de motivos
A assimetria de força entre as duas posições, que precisa ser dita
As duas posições não têm o mesmo peso normativo, e ignorar isso empobrece a discussão. A exigência de idade óssea está no corpo normativo da norma federal e vincula o serviço que fatura pelo Sistema Único de Saúde. A afirmação contrária do conselho está na exposição de motivos, que explica a resolução e não integra o comando dela: o anexo normativo da resolução simplesmente silencia sobre idade óssea. Ou seja, o que existe é uma norma que exige contra um documento que argumenta — e não duas normas mandando coisas opostas.
Leitura deste capítulo sobre a estrutura dos dois documentos, declarada como leitura e não como citação
O adolescente deve ser avaliado pela equipe habilitada. Encaminhe história clínica, crescimento, IMC por idade, complicações e avaliações exigidas pelo fluxo, incluindo maturidade quando pertinente. Explique à família que indicação e elegibilidade dependem dessa análise e não podem ser prometidas com base apenas no IMC.
Conselho Federal de Medicina, 2025 — elegível
São considerados elegíveis os pacientes com índice de massa corpórea igual ou superior a 30 e inferior a 35 na presença de diabetes mellitus tipo 2, doença cardiovascular grave com lesão em órgão-alvo, doença renal crônica precoce em paciente com diabetes tipo 2, apneia do sono grave, doença gordurosa hepática não alcoólica com fibrose, afecções com indicação de transplante, refluxo gastroesofágico com indicação cirúrgica ou osteoartrose grave.
Resolução CFM nº 2.429/2025, anexo, item 2, indicação cirúrgica (adultos)
Norma federal do Ministério da Saúde, em vigor — não elegível
As diretrizes gerais para o tratamento cirúrgico da obesidade no Sistema Único de Saúde fixam o piso da faixa com comorbidade em índice maior que 35, exigindo além disso a ausência de sucesso no tratamento clínico longitudinal por no mínimo dois anos, com protocolos seguidos. Abaixo desse piso não há previsão de financiamento do procedimento, e o parágrafo único do artigo que institui o serviço de alta complexidade descreve os indivíduos com indicação como sendo os de obesidade grau III e os de grau II com comorbidades.
Anexo IV da Portaria de Consolidação nº 3, de 28 de setembro de 2017, Anexos 1 e 3 (origem: Portarias GM/MS nº 424 e nº 425, de 19 de março de 2013)
Cinco sociedades médicas brasileiras, 2025 — não se pronunciam abaixo de 35
A diretriz brasileira baseada em evidências de 2025 sobre manejo da obesidade e prevenção de doenças cardiovasculares recomenda a indicação de cirurgia bariátrica para indivíduos com índice igual ou maior que 35 e risco aterosclerótico moderado ou alto, ou risco alto de insuficiência cardíaca, quando o tratamento clínico disponível for insuficiente — recomendação de classe I, nível de evidência B —, e admite que ela possa ser considerada, com cautela, em pacientes com índice igual ou maior que 35 e insuficiência cardíaca estabelecida, em classe IIb. Nenhuma das vinte e cinco recomendações trata de cirurgia abaixo de 35.
Diretriz Brasileira Baseada em Evidências de 2025 para o Manejo da Obesidade e Prevenção de Doenças Cardiovasculares, Arquivos Brasileiros de Cardiologia 2025;122(9):e20250621, recomendações R24 e R25. Que o silêncio dessa diretriz não equivale a uma posição contrária é leitura deste capítulo
Diferencie indicação para avaliação, critérios clínicos e cobertura do procedimento. Confirme o fluxo de financiamento com o serviço, sem presumir que a regra de uma fonte se aplique automaticamente à outra. Mantenha tratamento clínico de obesidade e diabetes e documente evolução e medidas realizadas enquanto a proposta cirúrgica é discutida.
Conselho Federal de Medicina, redação de agosto de 2026
Além do cirurgião, a equipe mínima é composta por médico endocrinologista e metabologista, médico cardiologista, médico psiquiatra, médico nutrólogo, nutricionista, psicólogo e outros profissionais conforme a necessidade clínica. Na ausência de algum dos quatro médicos especialistas dos incisos I a IV, pode atuar excepcionalmente médico com experiência no acompanhamento de pacientes submetidos à cirurgia bariátrica ou metabólica, com a circunstância justificada em prontuário e sem prejuízo do encaminhamento a especialista quando a condição clínica exigir. A redação anterior, de 2025, admitia clínico geral na falta do endocrinologista e não mencionava o nutrólogo.
Resolução CFM nº 2.470, de 18 de agosto de 2026, publicada no Diário Oficial da União de 24 de agosto de 2026, edição 159, seção 1, página 122, alterando o item I do anexo da Resolução CFM nº 2.429/2025
Norma federal do Ministério da Saúde, em vigor desde 2013
Na fase inicial do pré-operatório, a avaliação é feita pelo cirurgião, clínico ou endocrinologista, nutricionista, psicólogo, cardiologista, pneumologista e, quando necessário, pelo psiquiatra, angiologista, gastroenterologista e ginecologista, com reuniões mensais do grupo multiprofissional voltadas à mudança de hábitos. O pneumologista é obrigatório nesta lista; o psiquiatra é condicional; nutrólogo e metabologista não são mencionados.
Anexo IV da Portaria de Consolidação nº 3, de 28 de setembro de 2017, Anexo 3 (origem: Portaria GM/MS nº 425, de 19 de março de 2013), assistência pré-operatória, fase inicial
Descreva no encaminhamento o que foi avaliado, por quem e quando, e anexe os resultados relevantes. O serviço compatibiliza os requisitos de equipe e registra eventuais condições excepcionais previstas na norma. A falta local de um especialista exige organizar continuidade e referência, sem deixar o paciente sem acompanhamento.
O raciocínio, em voz alta
Manhã de quinta-feira, numa unidade básica de saúde distrital, a quarenta minutos do centro da cidade. Crispiniano Lajedinho tem 44 anos, é soldador, e está em acompanhamento nesta unidade desde março do ano passado — dezoito consultas registradas, todas com peso aferido. Pesa 121 quilos com 1,72 m, o que dá índice de 40,9. Tem diabetes tipo 2 há seis anos em uso de metformina, hipertensão em uso de dois anti-hipertensivos, ronco alto com pausas observadas pela esposa, e dor nos dois joelhos que o faz comprar anti-inflamatório na farmácia. Ele chega hoje com uma pergunta que preparou: um colega da obra operou e emagreceu sessenta quilos, e ele quer saber se pode fazer a mesma coisa. A ficha diz consulta de rotina, e são dezessete nomes na agenda.
Passo 1 — Medir de novo, e registrar o valor absoluto
Peso e altura aferidos hoje, na balança e no antropômetro da unidade, e não recuperados da última consulta. Índice calculado e escrito com uma casa decimal: 121 ÷ (1,72 × 1,72) = 40,9. Esse número está acima de 40 pelas duas réguas, o que já resolve a faixa — mas registre o valor absoluto, porque as duas normas do país usam operadores diferentes nos valores exatos e um índice de 40,0 seria elegível por um texto e não pelo outro.
Passo 2 — Contar o tempo de tratamento clínico registrado, não o tempo de doença
O que a régua que paga exige não é tempo de obesidade: é tratamento clínico longitudinal por no mínimo dois anos, com protocolos seguidos, na Atenção Básica e/ou na Atenção Ambulatorial Especializada. Crispiniano tem dezoito consultas desde março do ano passado, o que dá cerca de dezoito meses. Faltam aproximadamente seis meses de registro, e essa é uma informação concreta que se diz a ele hoje.
Passo 3 — Ler as duas réguas em voz alta, dizendo qual é qual
Pela resolução do conselho de medicina, com índice igual ou maior que 40 ele é elegível independentemente de comorbidade e sem prazo fixo — a falha do tratamento clínico é reconhecida por avaliação consensual da equipe multidisciplinar. Pela norma que financia o procedimento no Sistema Único de Saúde, com índice igual ou maior que 40 ele também é elegível, mas apenas depois de dois anos de tratamento clínico registrado. Ele está dentro da faixa nas duas e fora do prazo em uma. Dizer isso com essas palavras evita tanto a promessa quanto a recusa.
Passo 4 — Fazer o que conta como tempo, em vez de só esperar
Os próximos seis meses não são sala de espera: são tratamento, e cada consulta registrada é o que vai abrir a porta. Nesse período se otimiza o diabetes e a hipertensão pelas réguas dos capítulos que os governam, se investiga a apneia obstrutiva do sono que a esposa descreveu, e se retira o anti-inflamatório de venda livre — que aqui tem duas razões: o joelho merece outro plano e, se ele vier a ser operado, anti-inflamatório é fator de úlcera de boca anastomótica. Marque retorno com data, não retorno se necessário.
Passo 5 — Escrever o encaminhamento como se ele fosse ser auditado
O encaminhamento ao serviço habilitado precisa conter: peso, altura e índice com data de aferição; a lista de comorbidades com o tratamento em curso; a relação das consultas com datas, que é a prova dos dois anos; o que foi tentado e o resultado; e as avaliações já realizadas, com nome e data de quem as fez. O motivo mais frequente de encaminhamento devolvido não é critério clínico — é ausência do registro do tratamento longitudinal.
Passo 6 — Antecipar o depois, ainda hoje
Três frases entram nesta consulta e não na do pré-operatório, porque na do pré-operatório ele estará ansioso e não vai ouvir. A operação não termina nada: a reposição de vitaminas passa a ser permanente. Depois dela, dor abdominal em cólica não é gastrite e precisa de pronto-socorro no mesmo dia. E o álcool passa a subir mais rápido e mais alto com a mesma quantidade. Escreva as três no prontuário como orientação dada, com a data.
Faça você
Domingo, dez e vinte da manhã, pronto-socorro de hospital municipal de oitenta e seis leitos. Seraphina Jurubeba tem 29 anos e chega trazida pela irmã, que diz que ela está estranha desde ontem. Seraphina responde às perguntas, mas erra o dia da semana e o nome do hospital, e repete a mesma pergunta três vezes em dez minutos. Anda apoiada na irmã, com a base alargada, e a irmã diz que ela não andava assim na quinta-feira. Ao pedir que acompanhe o seu dedo, você percebe que os olhos não seguem para os lados de forma completa e que há um batimento fino ao olhar lateral. Não há febre, não há sinal focal de um lado só, e a rigidez de nuca está ausente. Pressão 104 por 62, frequência cardíaca 108, temperatura 36,4 °C, saturação 97%, glicemia capilar 74 mg/dL. A irmã conta que Seraphina fez cirurgia para emagrecer há três meses e que, desde a segunda semana depois da operação, vomita quase tudo o que come — foi a duas consultas, saiu das duas com orientação para comer devagar e mastigar bem. Perdeu 22 quilos em três meses. Não bebe. O enfermeiro já preparou, por rotina do serviço, um soro glicosado a 5% e pergunta se pode instalar.
Passo 1 — O que a resposta ao enfermeiro precisa ser, e por quê
Diga o que se faz antes de instalar qualquer glicose, e diga o motivo em uma frase que a equipe entenda na hora.
Passo 2 — Nomear a hipótese principal e o gatilho dela
Escreva a hipótese em uma linha e diga qual dado da história a sustenta — não é a idade, não é a glicemia e não é o exame neurológico isoladamente.
Passo 3 — O que se dosa, o que não se espera, e o que se corrige junto
Liste os exames que fazem diferença hoje, diga qual deles não deve atrasar o tratamento, e nomeie o eletrólito cuja falta faz a reposição funcionar mal.
Passo 4 — A investigação que corre em paralelo, sem parar a primeira
Diga o que precisa ser investigado sobre a causa do vômito e por que essa investigação não muda a ordem das ações de hoje.
Passo 5 — O que se escreve no prontuário e na transferência
Aponte os três dados da história que precisam estar escritos para que o próximo médico não repita o erro dos últimos três meses.
Passo 6 — O que se diz à irmã
Uma fala curta, sem jargão, que explique o que está acontecendo, o que se está fazendo agora e o que ainda não se sabe.
Continuidade do caso e prática do internato
Use Crispiniano para explicar o encaminhamento eletivo e o caso de dor pós-operatória para mostrar como conhecer a técnica muda a urgência.
Questão integrativa 1
IMC de 40,9 autoriza prometer a cirurgia a Crispiniano?
Questão integrativa 2
Qual pergunta muda a avaliação de dor abdominal de quem emagreceu muito?
Questão integrativa 3
TC sem achado conclusivo exclui hérnia interna?
Questão integrativa 4
É preciso esperar a tríade neurológica completa para tratar suspeita de deficiência de tiamina?
Questão integrativa 5
Hipoglicemia deve esperar a chegada da tiamina?
Questão integrativa 6
O acompanhamento termina ao atingir o peso desejado?
Ver como fecharíamos
Passo 1. Neste caso sem hipoglicemia, administrar tiamina parenteral prontamente antes de iniciar uma carga de glicose evitável. A frase para a equipe é: em quem vomita há semanas, o estoque de tiamina está no fim, e uma carga de glicose consome o que restou e pode desencadear ou agravar uma lesão cerebral que nem sempre volta — tiamina primeiro, glicose em seguida. A glicemia de 74 mg/dL não é hipoglicemia que exija correção urgente; se fosse, as duas coisas seriam feitas na mesma abordagem, sem atrasar glicose para esperar tiamina; administrar tiamina concomitantemente se disponível ou assim que possível. A dose, a via e a regra de ordem são do capítulo A única abstinência que mata, na apostila de Psiquiatria, que é o dono desse assunto e que registra que o elenco federal só traz o comprimido de 300 mg — confira, antes, qual é a apresentação padronizada no seu serviço. Passo 2. Hipótese principal: encefalopatia de Wernicke por depleção de tiamina, em paciente com três meses de cirurgia bariátrica e vômito persistente desde a segunda semana. O dado que sustenta é o gatilho, e é ele que quase ninguém reconhece: dez semanas de vômito depois de uma operação que excluiu o duodeno, onde a tiamina se absorve, num estoque corporal que dura semanas. A tríade clássica está presente aqui — confusão, ataxia e alteração da motricidade ocular —, mas a maioria dos casos não tem as três, e a ausência de duas delas não afasta nada. A perda de 22 quilos em três meses é rápida demais para o que se espera e é sinal de que ela não está comendo, não de que a operação está dando certo. Passo 3. Colher, se houver como colher, tiamina sérica — e não esperar o resultado para tratar, porque o exame é pouco disponível, demora, e o custo de tratar quem não precisava é irrisório diante de uma amnésia permanente. Colher sódio, potássio, magnésio, função renal, hemograma, cálcio e provas hepáticas; e repor magnésio, porque a reposição de tiamina funciona mal em quem está hipomagnesêmico. Vômito de dez semanas costuma vir com hipopotassemia e hipomagnesemia, e as duas se corrigem junto. Um exame de imagem do crânio normal não afasta o diagnóstico e não deve atrasar a primeira dose. Passo 4. Em paralelo, investigar a causa mecânica do vômito: endoscopia digestiva alta para ver a câmara gástrica e a anastomose — estenose de anastomose é a causa mais provável nesse tempo pós-operatório —, e tomografia se houver dor abdominal associada, com a ressalva de que exame de imagem normal não exclui hérnia interna em operado de bypass. Nada disso muda a ordem de hoje, porque nenhum desses exames sai nas próximas duas horas e a tiamina não espera por eles. Passo 5. No prontuário e no documento de transferência precisam estar escritos, com estas três informações: qual operação e a data exata; há quantas semanas ela vomita e o que consegue engolir; e a perda de peso com os dois números e o intervalo — 22 quilos em três meses. É a ausência desses três dados nas duas consultas anteriores que produziu duas altas com orientação para mastigar devagar. Registre também a hora da primeira dose de tiamina e a ordem em relação a qualquer glicose administrada. Passo 6. À irmã: a sua irmã está confusa e cambaleando porque está faltando uma vitamina no corpo dela, a B1, e essa falta é muito comum em quem vomita por muitas semanas depois de uma cirurgia como a que ela fez. Já começamos a repor agora, porque essa reposição não pode esperar exame. Ao mesmo tempo vamos descobrir por que ela vomita, porque isso também precisa ser tratado. Ainda não sei quanto do que ela está apresentando vai melhorar e em quanto tempo, e vou lhe contar assim que souber. O que a senhora fez de trazer sua irmã hoje mudou o caso. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. Sustenta avaliação de elegibilidade, integrada ao tratamento prévio, condições, decisão multidisciplinar e acesso. 2. Se houve cirurgia bariátrica, qual técnica e quando; a anatomia altera as hipóteses. 3. Não. Persistência ou piora clínica pode exigir avaliação cirúrgica urgente apesar da imagem. 4. Não. Contexto de vômitos e baixa ingestão exige reconhecimento e tratamento precoce quando indicado. 5. Não. Corrigir a glicose imediatamente e administrar tiamina prontamente, sem criar atraso. 6. Não. Carências, complicações anatômicas, medicamentos e condições clínicas precisam de seguimento duradouro.
A norma federal exige, para índice igual ou maior que 40, ausência de sucesso no tratamento clínico longitudinal por no mínimo dois anos, com protocolos seguidos, realizado na Atenção Básica e/ou na Atenção Ambulatorial Especializada. Com 18 meses de acompanhamento registrado, faltam cerca de seis meses — e cada consulta registrada nesse período conta como tempo, razão pela qual o registro em prontuário é a conduta concreta da consulta de hoje. A dispensa dos dois anos existe apenas na faixa mais alta de índice prevista pela norma, e não nesta. A exigência de falha de farmacoterapia antiobesidade não se sustenta como critério aqui: nenhum fármaco antiobesidade consta da Rename 2024, de modo que não há tratamento medicamentoso a ser fornecido pela unidade. Vale lembrar que a régua do Conselho Federal de Medicina não fixa prazo, e por isso a resposta muda conforme a régua que se aplica ao caso.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Sem consultar o capítulo, escreva: (1) a pergunta de oito palavras que reclassifica a ficha de dor abdominal, e as três informações que se anotam quando a resposta é sim; (2) a frase inteira sobre tomografia normal e hérnia interna, e diga onde ela vai escrita; (3) o que separa o dumping precoce do tardio — o intervalo em minutos ou horas, os sintomas de cada um e o que melhora cada um; (4) as quatro carências do bypass com o endereço anatômico de cada uma, e diga qual delas é a única que produz dano em semanas; (5) as duas réguas brasileiras de indicação, dizendo qual autoriza e qual paga, e o que cada uma exige de tempo de tratamento clínico; e (6) o exame que não se pede na gestante operada de bypass e por quê. Depois confira. Olhe com atenção para o que você escreveu de dose: se apareceu um número de tiamina, de ferro ou de vitamina B12 que não estava numa das fontes nomeadas neste capítulo ou nos capítulos donos desses esquemas, você o inventou.
Em 30 dias
Escolha um plantão qualquer e faça duas coisas. Primeira: em todos os pacientes que você atender com queixa abdominal, faça a pergunta sobre cirurgia prévia antes de examinar, e repita com outras palavras quem responder não. Conte quantos responderam não na primeira e sim na segunda — esse número é o tamanho do problema. Segunda: pegue os prontuários de dois pacientes operados de bariátrica que já passaram pelo seu serviço e procure, em cada um, se está escrito qual foi a técnica e a data. Se não estiver, você acabou de encontrar a razão pela qual o próximo médico vai conduzir o caso na categoria errada. Na unidade básica, faça o exercício equivalente: pegue os cinco últimos pacientes com índice de massa corporal acima de 35 em acompanhamento e conte quantas consultas registradas cada um tem. Esse número é o que separa cada um deles do encaminhamento — e ele só existe porque alguém escreveu.
Agora atenda
São duas e dez da madrugada e você é o interno da escala noturna num hospital regional de cento e sessenta leitos, a noventa quilômetros do serviço universitário onde se opera obesidade. A próxima ficha diz dor abdominal, classificação verde: mulher de 34 anos, dor em cólica há seis horas, três episódios de vômito, sem febre. O plantonista já pediu tomografia de abdome e o laudo voltou sem alterações significativas; ele avisou pela porta que pretende medicar, observar duas horas e liberar. Conduza o atendimento: faça a anamnese com a pergunta que reclassifica o risco, caracterize o padrão temporal da dor e procure ativamente as passagens anteriores pelo pronto-socorro. Examine o abdome procurando o que costuma ser esquecido. Ao terminar, esteja pronto para dizer em voz alta ao seu plantonista qual é a sua hipótese, o que o exame de imagem não excluiu e o que você quer fazer agora — e para escrever no prontuário a frase que sustenta a sua conduta.
