Cirurgia Geral › Cirurgia do Aparelho Digestivo
Quando ele conta, já está estreito
Câncer de esôfago e disfagia de causa neoplásica
Investigar disfagia progressiva, cuidar da alimentação desde a suspeita e compreender como histologia, estágio e condição clínica orientam o tratamento.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Carcinoma de Esôfago. Aprovadas pela Portaria SAS/MS nº 1.439, de 16 de dezembro de 2014. Brasília: Ministério da Saúde; 2014. 21 p.
Brasil. Ministério da Saúde. Conitec. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas — Carcinoma de Esôfago. Relatório de recomendação, versão preliminar submetida à Consulta Pública nº 81. Brasília: Ministério da Saúde; agosto de 2026. 48 p.
Brasil. Lei nº 12.732, de 22 de novembro de 2012, que dispõe sobre o primeiro tratamento do paciente com neoplasia maligna comprovada e estabelece prazo para seu início — texto compilado, com as alterações das Leis nº 13.685, de 2018, nº 13.896, de 2019, e nº 15.233, de 7 de outubro de 2025.
Brasil. Ministério da Saúde. Instituto Nacional de Câncer. Estimativa 2026: incidência de câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA; 2026. 168 p. ISBN 978-65-88517-50-5 (impressa); 978-65-88517-52-9 (eletrônica).
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde; 2024.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Protocolos de Acesso Ambulatorial: Consultas Especializadas — Hospitais Federais no Rio de Janeiro. Brasília: Ministério da Saúde; 2015. 188 p.
Brasil. Ministério da Saúde. Instituto Nacional de Câncer. Estimativa 2023: incidência de câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA; 2022. 160 p.
Brierley JD, Gospodarowicz MK, Wittekind C, editores. TNM Classification of Malignant Tumours. 8ª edição. Oxford: Wiley-Blackwell; 2017.
Bray F, Laversanne M, Sung H, Ferlay J, Siegel RL, Soerjomataram I, Jemal A. Global cancer statistics 2022: GLOBOCAN estimates of incidence and mortality worldwide for 36 cancers in 185 countries. CA Cancer J Clin. 2024;74(3):229-263.
Brasil. Lei nº 14.758, de 19 de dezembro de 2023, que institui a Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer no âmbito do Sistema Único de Saúde.
NCI. Esophageal Cancer Treatment (PDQ), versão para profissionais. [Acessar fonte](https://www.cancer.gov/types/esophageal/hp/esophageal-treatment-pdq)
Responda antes de ler
O paciente teve endoscopia realizada no dia 22 da investigação, com lesão vegetante circunferencial descrita a 28 cm dos incisivos. O laudo anatomopatológico confirmando carcinoma de células escamosas foi assinado no dia 31. A partir de que ato começa a correr o prazo de sessenta dias para o início do primeiro tratamento?
O paciente que você vai ver
Sexta-feira, oito e dez da manhã, ambulatório de clínica de um hospital regional no interior do Rio Grande do Sul. O prédio atende cinco municípios, tem quatro consultórios no térreo e uma sala de endoscopia que funciona três manhãs por semana, com fila. Hoje a sala 3 é sua, a agenda tem catorze nomes, e nove deles são retorno. Retorno é a consulta em que se descobre se a decisão de três meses atrás estava certa.
O terceiro envelope traz uma folha só. Baltazar Sitiozinho, 58 anos, operário de serraria, atendido aqui mesmo em novembro. A evolução daquele dia tem quatro linhas e uma letra apressada: pirose e sensação de comida entalando há alguns meses, sem sinais de alarme, prescrito omeprazol 20 mg pela manhã, orientado a evitar frituras e deitar após as refeições, retorno em três meses. Não há peso anotado. Não há a palavra disfagia.
Ele entra andando devagar, com a camisa larga demais nos ombros, e senta antes de você oferecer a cadeira. A primeira coisa que diz é que o remédio ajudou. A azia melhorou de verdade, ele conta, quase sumiu. E emenda, no mesmo fôlego, que a comida continua parando — e que agora para mais.
Você pergunta o que ele consegue comer. Ele pensa e responde por eliminação, que é como esse paciente sempre responde: carne não come mais desde o Natal, pão só molhado no café, arroz vai se ele mastigar muito e beber água junto. Faz três semanas que trocou o almoço por sopa. Você pergunta se a água desce. Ele diz que a água desce, e é a primeira boa notícia da consulta — e a mais enganosa delas, porque quem só engasga com sólido tende a achar, e a fazer o médico achar, que o problema é pequeno.
Na balança do corredor, 52 quilos. No prontuário eletrônico há um peso de dezoito meses atrás, colhido numa consulta por lombalgia: 61 quilos. São nove quilos em quatro meses, quinze por cento do peso que ele tinha, e nenhuma dieta no meio. Ele não sabia. Diz que a roupa afrouxou e que achou que era do calor.
O resto da história vem sem esforço, porque ninguém tinha perguntado. Começou a fumar aos quinze e nunca parou: hoje são trinta cigarros num dia comum. Bebe cachaça todo dia desde antes disso, e não vê nisso nada de excepcional, porque na serraria todo mundo bebe. Toma chimarrão de manhã e de tarde, e quando você pergunta se a água é muito quente ele ri e diz que fria não presta. Está rouco há umas três semanas — atribui ao pó da serra. Não tem dor. Nunca fez endoscopia.
Na sala ao lado, a preceptora atende. Você tem quinze minutos, um paciente que emagreceu quinze por cento do corpo enquanto tomava um remédio de estômago, e uma decisão que não é sobre qual medicação trocar. É sobre em quanto tempo este homem chega a uma endoscopia com biópsia, e o que precisa estar escrito no pedido para que esse tempo seja o menor possível.
Este capítulo é sobre isso: o que fazer entre a queixa e o laudo, e depois entre o laudo e o tratamento. Ele assume o câncer de esôfago inteiro no nível — reconhecimento, investigação, estadiamento, decisão sobre a via de alimentação, prazos legais e a conversa —, porque nenhum outro capítulo do internato o assume. O capítulo A comida que volta inteira, nesta mesma apostila, é dono da acalasia e do distúrbio motor, e é ele quem ensina a separar disfagia motora de mecânica; o capítulo Sete anos de omeprazol, na apostila de Gastroenterologia, é dono da doença do refluxo e do uso crônico do inibidor de bomba, e declara não assumir nem o esôfago de Barrett nem o estadiamento. Os dois mandam o leitor para cá, e aqui ele fica.
Quem adoece disso
A Estimativa 2026 do Instituto Nacional de Câncer projeta 11.390 casos novos de câncer de esôfago por ano no Brasil, para cada ano do triênio de 2026 a 2028: 8.750 em homens e 2.640 em mulheres, com risco estimado de 8,37 por cem mil homens e 2,40 por cem mil mulheres. Sem contar os tumores de pele não melanoma, é o décimo quinto câncer mais incidente do país e o sétimo entre os homens. Somando as duas parcelas por sexo chega-se exatamente aos 11.390 declarados, e os denominadores implícitos nas três taxas fecham entre si com diferença de dezoito milésimos de por cento — a conta do documento está de pé.
O número que muda a consulta não é a incidência. É a mortalidade: em 2023 morreram 8.488 pessoas de câncer de esôfago no Brasil, 6.722 homens e 1.766 mulheres. Colocando lado a lado os dois números que a própria publicação apresenta — óbitos de 2023 e casos novos estimados por ano do triênio seguinte —, chega-se a uma razão de 74,5 por cento. Os anos não são os mesmos e a razão não é uma letalidade medida, mas a ordem de grandeza é o que importa e ela é honesta: para cada quatro pessoas que adoecem, três morrem. Poucos tumores sólidos no país têm um número assim, e é ele que justifica a pressa deste capítulo inteiro.
A doença é de homem, e muito. A razão entre os sexos na incidência estimada é de 3,3 para 1; na mortalidade de 2023 ela sobe para 3,8 para 1. A diretriz federal de 2014 descreve a proporção mundial como aproximadamente dois para um — e os próprios números que ela cita, de 323 mil casos em homens e 132 mil em mulheres no mundo em 2012, dão 2,45 para 1. No Brasil a diferença entre os sexos é maior do que a mundial que aquele documento chamou de aproximadamente dois para um, e maior do que a que ele mesmo calculou.
A geografia é o segundo dado prático. Entre os homens, o risco vai de 3,45 por cem mil na região Norte a 12,49 por cem mil na região Sul: mais de três vezes de diferença dentro do mesmo país. No Sul e no Centro-oeste o câncer de esôfago é o sexto mais incidente em homens; no Sudeste e no Nordeste, o sétimo; no Norte, o nono. Entre as mulheres o gradiente é o mesmo em direção, com 0,86 no Norte e 3,92 no Sul. As taxas nacionais, 8,37 e 2,40, caem dentro das faixas regionais correspondentes, como têm de cair.
Esse gradiente não é acaso e não é só genética: ele acompanha o consumo de álcool destilado, o tabagismo e o hábito de beber infusões muito quentes. A própria Estimativa 2026 registra que o consumo habitual de bebidas quentes acima de sessenta e cinco graus está associado a maior risco do subtipo escamoso, e que álcool e tabaco são os principais fatores de risco desse subtipo. O Sul do país reúne os três hábitos numa mesma rotina diária. Se você faz internato em Santa Catarina, no Paraná ou no Rio Grande do Sul, este capítulo descreve um paciente que vai passar pela sua sala mais de uma vez.
Comparar duas edições da mesma série mostra a direção. Na Estimativa 2023, para o triênio de 2023 a 2025, eram 10.990 casos por ano — 8.200 em homens e 2.790 em mulheres, com taxas de 7,76 e 2,49 por cem mil. De uma edição para a outra o total subiu 3,6 por cento, mas as duas parcelas andaram em sentidos opostos: em homens, mais 6,7 por cento em casos e mais 7,9 por cento em taxa; em mulheres, menos 5,4 por cento em casos e menos 3,6 por cento em taxa. A doença está se concentrando ainda mais no sexo masculino. E, apesar de o número absoluto e a taxa terem subido, a posição no ranque nacional caiu da décima terceira para a décima quinta — outros tumores cresceram mais depressa, e posição no ranque não mede risco.
Do ponto de vista mundial, a Estimativa 2026 registra que em 2022 o câncer de esôfago foi o décimo primeiro mais incidente, com cerca de 511 mil casos novos, 2,6 por cento do total, cerca de setenta por cento deles em homens, com as maiores taxas no Leste Asiático e na África Oriental. É uma doença de faixas geográficas estreitas, e o Brasil tem a sua.
Dois números que ninguém publica separadamente no Brasil merecem ser ditos como ausência, porque mudam o que se pode afirmar. Primeiro: a Estimativa 2026 não separa o carcinoma espinocelular do adenocarcinoma nas estimativas brasileiras — ela descreve os dois subtipos no comentário e apresenta um número único para a localização, de modo que não existe estimativa nacional de quantos dos 11.390 casos são de cada tipo. Segundo: não há, nas publicações usadas aqui, distribuição brasileira por estádio ao diagnóstico. O texto preliminar de 2026 traz sobrevida relativa em cinco anos de 47 por cento na doença localizada, 26 por cento na regional, 6 por cento na doença a distância e 21 por cento para todos os estádios somados, e adverte que esses dados não separam os dois subtipos nem corrigem por idade e estado geral — e a fonte deles não é brasileira.
O que essa pilha de números faz na prática é uma coisa só. Diante de um adulto com disfagia que progride, o cálculo mental correto não é qual a chance de ser câncer, e sim quanto custa o atraso se for. Com três em cada quatro morrendo e com a sobrevida caindo de 47 para 6 por cento entre a doença localizada e a metastática, cada semana perdida entre a queixa e a endoscopia tem preço, e o preço é pago inteiro pelo paciente.
Por que acontece o que acontece
Duas doenças diferentes crescem no mesmo tubo, dão a mesma queixa e são chamadas pelo mesmo nome. A diretriz federal de 2014 diz isso com todas as letras: as diferenças entre o carcinoma epidermoide e o adenocarcinoma levam a crer que sejam duas doenças distintas, que acometem a mesma topografia com patogênese, comportamento biológico e resposta ao tratamento diferentes. Quem entende as duas histórias pergunta melhor, porque cada uma tem um interrogatório próprio.
O carcinoma escamoso, também chamado epidermoide ou espinocelular, nasce do epitélio que reveste o esôfago normal. O agressor é químico e térmico, e é crônico: álcool destilado, fumaça de tabaco e líquido muito quente atravessam a mucosa todos os dias, por décadas. A lesão não é pontual — é um campo. A mesma superfície escamosa que forra o esôfago forra a boca, a faringe e a laringe, e recebe as mesmas agressões pela mesma via, o que explica por que quem tem tumor num desses sítios tem risco elevado de ter outro. É a razão de este capítulo mandar você olhar a boca e a laringe do paciente com câncer de esôfago, e de o capítulo Ninguém olha a boca, na apostila de Cirurgia de Cabeça e Pescoço, mandar pedir endoscopia digestiva no paciente com tumor de cavidade oral. Topograficamente, o escamoso prefere os terços superior e médio, que é onde a diretriz federal o localiza.
O adenocarcinoma tem outra biografia. Ele não nasce do epitélio normal do esôfago, e sim de um epitélio que não deveria estar ali. A exposição prolongada ao refluxo faz o epitélio escamoso do esôfago distal ser substituído por epitélio colunar com metaplasia intestinal — é o esôfago de Barrett —, e essa metaplasia pode evoluir para displasia de baixo e depois de alto grau, que é a lesão precursora. Obesidade e refluxo crônico são os fatores que a Estimativa 2026 associa a este subtipo. Topograficamente, ele fica no terço distal e na junção esofagogástrica, e por isso o texto preliminar de 2026 traz a classificação de Siewert, que divide os tumores da junção em três tipos conforme o epicentro esteja acima, sobre ou abaixo dela.
Agora a pergunta que dá título a este capítulo: por que a disfagia chega tarde. O esôfago é um tubo distensível, sem serosa, cuja função é empurrar. Um tumor que cresce na parede pode ocupar boa parte da circunferência antes que a passagem do bolo fique impossível, e enquanto a passagem só fica difícil o paciente compensa sozinho — mastiga mais, bebe água junto, troca carne por moído, moído por sopa. Ele não relata sintoma nenhum, porque na cabeça dele não há sintoma: há um cardápio que mudou. Quando ele finalmente diz a frase a comida está parando, a luz já está estreitada, e a estreitou uma massa que levou meses crescendo. Esta é a leitura mecânica deste capítulo, e ela explica por que a disfagia é sintoma de doença estabelecida e quase nunca de doença inicial.

A segunda particularidade anatômica é a que faz o estadiamento decidir tratamento, e não só prognóstico. O esôfago não tem serosa, e a rede linfática da sua submucosa corre no sentido longitudinal, ao longo de todo o órgão, antes de drenar para os linfonodos regionais. A consequência é que a doença ganha linfonodo cedo e ganha linfonodo longe do tumor: um carcinoma do terço médio pode ter linfonodo comprometido no pescoço ou no tronco celíaco. Por isso a profundidade importa tanto. Enquanto a lesão fica na mucosa, o risco de linfonodo é praticamente nulo — a diretriz de 2014 usa a expressão virtualmente zero para os tumores classificados como carcinoma in situ e para os que invadem só a mucosa —, e a ressecção endoscópica pode bastar. Assim que a submucosa é atingida, o cálculo muda, porque ali começa a rede linfática.
A terceira coisa que o mecanismo explica é a desnutrição, e ela não é consequência menor. Três forças agem juntas: a obstrução mecânica reduz o que entra; o tumor consome; e a odinofagia e o medo de engasgar reduzem o que o paciente sequer tenta comer. O resultado é perda de massa muscular rápida, e a massa muscular é justamente o que sustenta uma esofagectomia, uma quimiorradioterapia e o intervalo entre as duas. É por isso que o texto preliminar de 2026 registra que o tratamento da desnutrição é muitas vezes necessário antes que a terapia com intenção curativa possa começar, podendo ser imprescindível iniciar alimentação enteral. O paciente magro demais não é só um paciente triste de ver: é um paciente que pode perder a janela de tratamento.
Falta explicar o engano do omeprazol, porque é ele que consome os meses. O tumor irrita a mucosa vizinha e produz esofagite; a esofagite dá pirose; a pirose responde ao inibidor de bomba. O paciente melhora de verdade — só que melhora do sintoma que não era o importante. Ele volta dizendo que o remédio ajudou, e ajudou mesmo, e essa frase verdadeira tranquiliza o médico. O erro não é prescrever o inibidor de bomba; é aceitar a melhora da pirose como resposta à pergunta que a disfagia fez. Melhora da azia não é resposta sobre a disfagia, e nenhuma dose e nenhum mês a mais de tratamento empírico responde a essa pergunta: só a endoscopia responde.
Como se apresenta de verdade
A diretriz federal de 2014 resume a apresentação numa frase que vale decorar: a maioria dos pacientes diagnosticados com câncer de esôfago tem disfagia progressiva como primeiro sintoma, e por isso todo paciente que inicia com esse sintoma deve submeter-se a uma endoscopia alta. Primeiro sintoma, ali, não quer dizer sintoma precoce — quer dizer que é o primeiro que o paciente conta. O que segue são as seis apresentações que aparecem na porta, na ordem em que aparecem.
A disfagia que progride, e as quatro perguntas que a caracterizam
Disfagia é a percepção de que o alimento não desce. Ela não dói necessariamente, não é queimação e não é engasgo. Muitos pacientes não usam a palavra: dizem que a comida entala, que para no peito, que precisa de água para empurrar. Aceite a descrição deles e traduza você.
A primeira pergunta é onde para. Peça o gesto, não a palavra: o paciente aponta com a mão aberta o lugar onde sente parar. Mão na fúrcula ou no esterno superior aponta para o esôfago; mão na garganta, logo abaixo do queixo, com engasgo no primeiro segundo, aponta para outro lugar e para outro capítulo.
A segunda pergunta é para o quê, e desde quando. Aqui mora o dado que separa o benigno do maligno melhor do que qualquer outro: a progressão. Disfagia intermitente para sólidos, estável há anos, sem perda de peso, é comportamento de anel ou de distúrbio motor. Disfagia que começou com carne, passou para arroz e pão e depois para pastoso, ao longo de semanas a meses, sempre na mesma direção e sem voltar atrás, é comportamento de obstrução que cresce. Peça a linha do tempo em alimentos, não em adjetivos: o que o senhor comia em janeiro e não come mais hoje.
A terceira pergunta é quanto peso. Ela vem separada porque o paciente não a associa espontaneamente à queixa da garganta — ele acha que emagreceu porque está comendo menos, o que aliás é verdade e não muda nada. Quantifique em quilos e em meses, e ancore em algo verificável: um peso antigo no prontuário, um furo do cinto, uma roupa que não serve.
A quarta pergunta é se dói ao engolir. Odinofagia é dor no ato da deglutição e é sintoma diferente de disfagia: ela sugere lesão de mucosa — tumor ulcerado, esofagite grave, esofagite infecciosa em imunossuprimido — e é um dos itens de alarme que a diretriz de 2014 cita explicitamente ao lado da perda de peso.
Duas armadilhas de raciocínio, das que enganam interno bom. A primeira: disfagia só para sólidos não é sinal de benignidade — é sinal de obstrução mecânica, e obstrução mecânica é o que o tumor faz. Quem engasga também com líquido, desde o começo, tende mais ao distúrbio motor. A segunda: disfagia que melhora sozinha por alguns dias não afasta tumor, porque o edema em torno da lesão varia e o paciente muda o que come sem perceber.
O que não é disfagia esofágica — e para onde vai
Antes de continuar, uma separação que decide a apostila inteira em que o paciente vai cair. Quando a falha acontece já no instante em que o paciente tenta empurrar o bocado — tosse que vem junto, líquido que escapa pelo nariz, vários engolos para dar conta de uma garfada só, voz encharcada logo em seguida — o defeito é da transferência da boca para a faringe, e não do transporte ao longo do tubo. Chama-se disfagia orofaríngea, e a causa mora acima do esôfago: na cavidade oral, na faringe ou no comando neurológico de ambas.
Este capítulo cede a disfagia orofaríngea ao capítulo Ninguém olha a boca, na apostila de Cirurgia de Cabeça e Pescoço, quando a causa é tumoral, e aos capítulos de doença neuromuscular da apostila de Neurologia quando a causa é neurológica. O capítulo A comida que volta inteira, nesta apostila, faz a mesma cessão com as mesmas palavras, e é ele quem é dono da regra que separa disfagia motora de disfagia mecânica dentro do esôfago. Aqui fica o que é esofágico e mecânico: o paciente engole bem, o alimento desce alguns centímetros e para.
Existe uma sobreposição que não se resolve pela pergunta e é bom saber disso. Tumores do esôfago cervical, logo abaixo do músculo cricofaríngeo, podem produzir queixa alta, com sensação de parada na garganta, e são de esôfago. O texto preliminar de 2026 os trata como categoria própria, com regra cirúrgica própria: tumores cervicais a mais de cinco centímetros do cricofaríngeo entram na conta da esofagectomia, e os demais recebem quimiorradioterapia exclusiva. A consequência prática para quem está na porta é simples e vale para os dois lados da fronteira: adulto com disfagia, seja alta ou baixa, com fator de risco e perda de peso, vai para exame endoscópico. Discutir se a queixa é de faringe ou de esôfago antes de olhar por dentro é discussão que não muda a próxima conduta.
Regurgitação também precisa ser separada, e a separação é por conteúdo e por tempo. Alimento não digerido, sem sabor ácido, que volta horas depois da refeição e mancha o travesseiro, é retenção — e retenção com disfagia para sólidos e líquidos é assunto do capítulo da acalasia. Conteúdo ácido ou amargo que sobe logo após a refeição é refluxo, e o uso crônico do inibidor de bomba é do capítulo Sete anos de omeprazol, na apostila de Gastroenterologia.
O peso é um dado com data
Pese o paciente na consulta em que ele se queixa, e escreva o número com a data. Não pergunte quanto ele emagreceu: pergunte quanto ele pesava, e procure no prontuário um peso antigo. O paciente subestima a perda com uma regularidade que chega a ser previsível — Baltazar achava que a roupa tinha afrouxado por causa do calor.
Depois transforme a perda em percentual, porque quilo bruto engana. Nove quilos em um homem que pesava 61 são quinze por cento do peso corporal em quatro meses, quase quatro por cento ao mês. O mesmo quilo bruto num paciente de 120 quilos significa outra coisa. É o percentual, e não o valor absoluto, que o serviço de referência vai usar para decidir se ele aguenta o tratamento, e é o percentual que você escreve no encaminhamento.
Perda de peso não intencional com disfagia, em adulto, é câncer de esôfago até prova em contrário, qualquer que seja o padrão da disfagia. Essa é a mesma frase que o capítulo da acalasia usa, e ela vale nos dois: lá para mandar o leitor até a endoscopia antes de tratar o distúrbio motor; aqui para dizer que a prova em contrário é histológica e não clínica.
Registre também o que sustenta o peso: quantas refeições por dia, o que entra em cada uma, se ele já trocou tudo por líquido. Um homem que só toma sopa há três semanas está numa contagem regressiva metabólica, e essa informação é a que vai justificar a decisão sobre via de alimentação bem antes de existir estadiamento.
Os sinais que já anunciam doença avançada
Alguns achados não mudam a próxima conduta — a endoscopia continua sendo a próxima conduta — mas mudam a pressa, o que você escreve no pedido e o que você diz ao paciente. Reconhecê-los é o que separa um encaminhamento morno de um encaminhamento que anda.
Rouquidão de instalação recente, em fumante com disfagia, sugere comprometimento do nervo laríngeo recorrente, que corre no mediastino ao lado do esôfago. Não é laringite do pó da serra até que alguém olhe a laringe. Baltazar está rouco há três semanas e atribuiu ao trabalho; a frase dele foi aceita por quem o atendeu em novembro, e ninguém olhou.
Tosse durante a deglutição de líquidos, em paciente com disfagia esofágica estabelecida, levanta duas hipóteses de gravidade diferente: aspiração por transbordamento acima da obstrução, e fístula entre o esôfago e a árvore brônquica. A diretriz de 2014 e o texto de 2026 dizem a mesma coisa sobre a segunda hipótese: sempre que houver suspeita de fístula entre o esôfago e o brônquio, a broncoscopia é o método diagnóstico de eleição. Suspeita de fístula é a situação em que o paciente não deve continuar comendo por boca enquanto se investiga.
Dor contínua no dorso, entre as escápulas, independente da deglutição, é achado de invasão para fora do órgão e é ruim. Linfonodo supraclavicular palpável muda de forma decisiva a conversa e a conduta: o texto preliminar de 2026 lista, entre os inelegíveis à cirurgia, os tumores da junção esofagogástrica com acometimento linfonodal supraclavicular. Palpe as fossas supraclaviculares e o pescoço de todo paciente com disfagia; leva quinze segundos e é o exame físico com maior rendimento deste capítulo.
Soluço persistente, derrame pleural, icterícia, massa epigástrica, ascite e hepatomegalia nodular apontam para doença disseminada. A investigação do derrame pleural em si é do capítulo O líquido já está no frasco, na apostila de Cirurgia Torácica, e este capítulo cede a ele a toracocentese e a decisão sobre drenagem — o que fica aqui é a obrigação de reconhecer que aquele derrame, naquele paciente, muda o estádio.
O segundo primário, e a razão de olhar a boca
O paciente com carcinoma escamoso de esôfago tem risco elevado de ter, ao mesmo tempo, um segundo tumor primário na boca, na faringe ou na laringe. O motivo está no mecanismo: é a mesma superfície escamosa exposta aos mesmos agressores, álcool e tabaco, pela mesma via e pelo mesmo tempo.
A consequência prática é uma rotina de exame físico que quase ninguém faz no ambulatório de clínica. Peça ao paciente que tire a prótese, se usa. Olhe o assoalho da boca, a borda lateral da língua, o palato mole e as tonsilas com uma lanterna e um abaixador. Palpe as cadeias cervicais. Escute a voz. Pergunte se há lesão que não cicatriza, dor de garganta persistente de um lado só, dor de ouvido de um lado só sem doença do ouvido, ou dente que amoleceu sem motivo.
Esta é uma fronteira que os dois capítulos declaram nos dois sentidos, e é bom que o leitor a encontre pelas mesmas palavras dos dois lados. O capítulo Ninguém olha a boca, na apostila de Cirurgia de Cabeça e Pescoço, é dono do câncer de cavidade oral e das vias aerodigestivas superiores: diagnóstico, biópsia, estadiamento e tratamento daquele tumor são dele, e este capítulo cede tudo isso a ele. Este capítulo é dono do tumor de esôfago, e assume a obrigação de procurar o segundo primário de cabeça e pescoço no paciente com carcinoma escamoso do esôfago e de encaminhá-lo, do mesmo modo que aquele capítulo assume a obrigação de pedir endoscopia digestiva alta no seu paciente.
Se você encontrar as duas lesões, não escolha qual é a principal e não deixe o encaminhamento parado esperando que alguém escolha. Encaminhe as duas, escreva no pedido que há suspeita de dois primários sincrônicos, e deixe a sequência do tratamento para a discussão multidisciplinar. O erro aqui não é errar qual veio primeiro: é investigar um e esquecer o outro.
As outras portas de entrada
Nem todo câncer de esôfago chega dizendo que a comida para. Vale conhecer as outras quatro portas, porque em todas elas a disfagia existia e não foi contada.
A primeira é a anemia. Homem de meia-idade com anemia ferropriva e sem causa ginecológica precisa de investigação do tubo digestivo alto e baixo, e a queixa de disfagia costuma aparecer só quando alguém pergunta por ela. A segunda é o sangramento: hematêmese ou melena em paciente com disfagia e emagrecimento. A investigação e o manejo da hemorragia digestiva alta são do capítulo Hemorragia digestiva alta, o primeiro desta apostila, e este capítulo cede a ele a estabilização, a classificação da lesão e a hemostasia endoscópica — o que fica aqui é a lembrança de que a lesão sangrante pode ser o tumor, e de que a biópsia da lesão não pode ser esquecida quando o sangramento cessar.
A terceira é o achado incidental, e ela é mais comum do que parece. Uma tomografia de tórax feita por outro motivo mostra espessamento parietal do esôfago; uma endoscopia pedida por dispepsia encontra a lesão. A diretriz de 2014 prevê essa porta expressamente ao dizer que hospitais gerais com serviço de cirurgia ou de cirurgia oncológica podem diagnosticar, operar e acompanhar doentes com achado incidental de tumores esofagianos, reservando aos hospitais habilitados como unidade ou centro de assistência de alta complexidade em oncologia o tratamento em todos os estágios. A leitura sistemática da tomografia de tórax não é deste capítulo — o nódulo e o parênquima são do capítulo de nódulo pulmonar, na apostila de Cirurgia Torácica.
A quarta porta é o paciente que já está internado por outra coisa e não come. Idoso admitido por pneumonia de repetição, ou por desnutrição sem causa, em que a disfagia estava lá o tempo todo e ninguém a nomeou. A dieta hospitalar e a decisão de via alternativa no internado são do capítulo A linha que ninguém revisa, na apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado; o que este capítulo assume é a suspeita: pneumonia de repetição em lobo inferior, em adulto com hábitos de risco, pede a pergunta sobre engolir.
Uma quinta situação merece nota, e é ocupacional. Se o paciente trabalha ou trabalhou com exposição a agentes reconhecidos, a anamnese ocupacional e a decisão sobre comunicação de acidente de trabalho e nexo pertencem ao capítulo Em que o senhor trabalha, na apostila de Medicina do Trabalho, e este capítulo cede a ele o nexo e o papel. O que fica aqui é a obrigação de perguntar em que o paciente trabalha e de registrar a resposta, porque quem não pergunta nunca terá o que encaminhar.
Como fechar o diagnóstico
A ordem dos exames neste capítulo é curta e não admite troca: endoscopia com biópsia primeiro, tudo o mais depois. O que vem depois não é confirmação — é estadiamento, e estadiamento aqui não serve para dar prognóstico ao paciente, serve para escolher o tratamento. Quem inverte a ordem pede tomografia antes de ter diagnóstico, gasta a vaga, gasta o tempo e volta ao ponto de partida, porque nenhuma imagem substitui a histologia.
A endoscopia com biópsia é o primeiro exame — e o único que fecha
A diretriz federal de 2014 é categórica em duas frases seguidas. Primeira: tumor na mucosa do esôfago visto na endoscopia digestiva alta é patognomônico do câncer de esôfago. Segunda: mesmo assim, a biópsia é mandatória para comprovação anatomopatológica e definição do subtipo histológico. As duas frases juntas ensinam a coisa mais importante desta seção — a lesão visível já autoriza o médico a agir como se fosse câncer, e mesmo assim nada anda sem o papel do patologista.
Há três razões para a biópsia ser obrigatória mesmo diante do óbvio. A primeira é legal e prática ao mesmo tempo: o prazo de sessenta dias para o primeiro tratamento, na Lei nº 12.732, conta a partir do dia em que o diagnóstico é firmado em laudo patológico. Sem laudo, o relógio não começa. A segunda é terapêutica: escamoso e adenocarcinoma têm agrupamentos de estadiamento diferentes e condutas diferentes, e o subtipo só sai da lâmina. A terceira é a possibilidade, rara mas real, de a lesão ser outra coisa.
A diretriz de 2014 acrescenta que a coleta de espécime para citologia aumenta a acurácia do diagnóstico — informação que não muda o que você pede, mas que ajuda a entender por que o endoscopista às vezes coleta escovado além dos fragmentos.
A endoscopia também responde perguntas que a tomografia não responde: a que distância dos incisivos a lesão começa e termina, se ela é circunferencial, se o aparelho ainda passa por ela, e como está a mucosa acima e abaixo. Esses quatro dados desenham o problema logístico do paciente — se ele vai conseguir comer nas próximas semanas — e entram na decisão de nutrição muito antes de existir estádio.
Uma advertência de segurança que vale escrever no pedido: paciente com disfagia importante pode ter alimento retido acima da obstrução, o que aumenta risco de aspiração na sedação. Peça jejum prolongado e avise a suspeita. É a mesma advertência que o capítulo da acalasia manda escrever, pela mesma razão física.
O pedido: o que escrever, e o relógio que a frase faz correr
O pedido de endoscopia é o instrumento clínico deste capítulo. Ele não é burocracia: é o que decide se o paciente é examinado em três semanas ou em cinco meses, porque quem regula a fila lê o que está escrito ali e nada além disso.
Escreva, em texto corrido e sem sigla: disfagia progressiva para sólidos com duração declarada; perda de peso em quilos, em percentual e no intervalo; peso aferido hoje, com a data; tabagismo e etilismo quantificados; achados de exame físico que pesam, como rouquidão ou linfonodo palpável; e a frase que fecha o pedido — hipótese diagnóstica principal de neoplasia de esôfago, solicito endoscopia digestiva alta com biópsia.
Essa última frase tem efeito jurídico, e é por isso que ela é escrita assim. O parágrafo terceiro do artigo segundo da Lei nº 12.732, incluído pela Lei nº 13.896, de 30 de outubro de 2019, determina que, nos casos em que a principal hipótese diagnóstica seja a de neoplasia maligna, os exames necessários à elucidação sejam realizados no prazo máximo de trinta dias, mediante solicitação fundamentada do médico responsável. Os dois requisitos estão no texto: a hipótese principal precisa ser a de neoplasia, e a solicitação precisa ser fundamentada. Um pedido que diz apenas dispepsia, ou que diz investigar, não aciona nada.
Guarde uma cópia do pedido no prontuário e anote a data em que ele foi emitido. Sem essa data não existe prazo a cobrar, e cobrar prazo é parte do trabalho: a regulação municipal, o serviço de ouvidoria e, se for o caso, a defensoria pública trabalham com datas, não com impressões.
Peça ao paciente que volte com o laudo assim que o exame sair, sem esperar a consulta agendada, e escreva isso num papel com o nome do serviço e um telefone. Paciente com disfagia e perda de peso não é paciente para lista de espera de retorno.
Se houver suspeita de fístula entre o esôfago e a via aérea — tosse ao engolir líquidos, pneumonia de repetição —, escreva isso separadamente no pedido e suspenda a dieta por boca até que se avalie. Os dois documentos federais colocam a broncoscopia como método de eleição nessa suspeita.
O laudo que serve, e o que fazer com o que não serve
Um laudo de endoscopia útil para este capítulo diz cinco coisas: onde começa e onde termina a lesão em centímetros dos incisivos; se ela é circunferencial; se o aparelho ultrapassou; qual o aspecto da mucosa vizinha; e quantos fragmentos foram enviados. Se faltar a distância dos incisivos, ligue e peça — é ela que separa cervical de torácico e de distal, e essa separação muda a cirurgia possível.
O laudo endoscópico não é o diagnóstico. O diagnóstico é o laudo anatomopatológico, e é dele que a lei fala. Anote no prontuário a data em que o material foi coletado, a data em que o laudo foi assinado e o número do laudo. As três datas são o esqueleto de todo o resto.
Existe uma situação frequente e ruim: endoscopia descrita como estenose sem lesão vegetante evidente, com biópsias negativas. Biópsia negativa em estenose não afasta neoplasia — o tumor pode ser submucoso, o fragmento pode ter pego só a superfície inflamada, e a estenose pode ter impedido o acesso à parte doente. Em paciente com disfagia progressiva e perda de peso, negativo não é resposta: repete-se o exame, com biópsias múltiplas e profundas, e não se inicia dilatação como tratamento antes disso.
Outra situação: endoscopia inteiramente normal em paciente com disfagia. Isso não encerra a investigação — encerra a hipótese deste capítulo. Endoscopia normal com disfagia para sólidos e líquidos manda o paciente para o exame radiológico contrastado do esôfago e para a manometria, e a partir daí ele é do capítulo A comida que volta inteira, nesta apostila, que é dono do distúrbio motor. Deixe registrado, com a data e o número do laudo, que o exame não encontrou tumor nem estreitamento — sem esse registro por escrito, o próximo médico recomeça a investigação do zero.
Registre também o que a endoscopia disse sobre o estômago e o duodeno. O câncer gástrico entra no diferencial do mesmo paciente, e a endoscopia que investiga um investiga o outro na mesma passagem.
O estadiamento: o que cada exame responde
Estadiar aqui não é enfeite prognóstico. A diretriz de 2014 explica o objetivo em uma frase: definir a profundidade da invasão do tumor na parede, o acometimento linfonodal locorregional e a presença de metástase a distância — e é esse conjunto que decide entre operar, tratar com quimiorradioterapia, tratar com as duas coisas em sequência, ou tratar só os sintomas.
A tomografia de tórax e abdome, de preferência com contraste, é a base e é o que existe em qualquer serviço. Ela responde bem a metástase a distância e a invasão de estruturas vizinhas, e responde mal à profundidade na parede. É também o exame que o documento federal de acesso ambulatorial de 2015 lista, junto com endoscopia com biópsia e prova de função pulmonar, entre os exames sugeridos na linha de tumores de esôfago.
A tomografia por emissão de pósitrons entrou na régua brasileira recentemente e com escopo estreito. O texto preliminar de 2026 adota a deliberação da Conitec de ampliar o uso no Sistema Único de Saúde para estadiamento de pacientes com doença localmente avançada não sabidamente metastática, depois de resultados inconclusivos na tomografia. Leia a condição inteira: é para doença localmente avançada, não sabidamente metastática, e depois de tomografia inconclusiva. Não é exame de rotina e não substitui a tomografia.
A ecoendoscopia é o exame que responde profundidade na parede e linfonodo perilesional, e é justamente o que a tomografia não faz. Os dois documentos brasileiros a tratam do mesmo jeito: pode ser realizada no estadiamento da doença localizada, quando disponível no serviço. A expressão quando disponível não é detalhe de redação — é o reconhecimento de que o exame que melhor decide entre ressecção endoscópica e esofagectomia não existe na maior parte do país.
A broncoscopia tem duas indicações claras: avaliação de extensão nos tumores acima da carina, e método de eleição sempre que houver suspeita de fístula entre o esôfago e o brônquio. A laparoscopia de estadiamento aparece nos dois documentos como opção de alguns centros, sobretudo em tumores distais e da junção, para achar metástase peritoneal oculta e evitar cirurgia inútil; a diretriz de 2014 registra que não há evidência suficiente para recomendá-la como definitivamente necessária.
Uma coisa que o interno precisa saber e que quase ninguém diz: nenhum desses exames é bom. A diretriz de 2014 escreve, sobre o estadiamento do câncer de esôfago, que não há método de imagem ideal nem para antes do tratamento nem para avaliar resposta. Isso não é motivo para não estadiar — é motivo para não tratar a imagem como verdade final e para entender por que a decisão é tomada em reunião multidisciplinar, e não por um exame.
O que não se pede
Marcador tumoral não entra. A diretriz federal de 2014 é explícita: não existem exames de patologia clínica para o diagnóstico do câncer de esôfago, e não há recomendação de solicitar marcadores tumorais — cita nominalmente o antígeno carcinoembrionário e o antígeno carboidrato 19.9 — nem para diagnóstico, nem para avaliação prognóstica, nem para seguimento, nem para avaliar resposta terapêutica. Pedir marcador aqui gasta dinheiro, gasta tempo e produz um número que vai assustar ou tranquilizar sem base.
Exame radiológico contrastado do esôfago não é o primeiro exame do paciente com suspeita de tumor, e pedi-lo antes da endoscopia é atraso. Ele tem papel quando a endoscopia não passa, para desenhar a extensão da estenose, e tem papel próprio no distúrbio motor — que é do capítulo vizinho.
Tratamento empírico prolongado com inibidor de bomba, em paciente com disfagia progressiva e perda de peso, é o exame que não se pede porque não é exame. Vale dizer o número: em Baltazar, quatro meses de omeprazol produziram melhora da pirose, quinze por cento de perda de peso e nenhuma informação diagnóstica.
Dilatação endoscópica antes de ter histologia também não. Dilatar uma estenose de causa desconhecida trata o sintoma de hoje, atrasa o diagnóstico e pode complicar a lesão.
A avaliação que decide se ele aguenta o tratamento
Paralelamente ao estadiamento corre outra pergunta, que é sua e não do oncologista: este corpo suporta o tratamento que a doença exige? Ela precisa começar a ser respondida na primeira consulta, porque a resposta demora e porque ela pode ser modificada — ao contrário do estádio.
O estado nutricional é a primeira parte, e a mais modificável. Peso hoje, peso anterior, percentual perdido, o que ele consegue engolir, quantas refeições. Um paciente que perde peso durante a espera chega ao serviço de referência pior do que chegou a você, e essa perda acontece dentro da fila.
A capacidade funcional é a segunda. Não é preciso escala sofisticada: registre o que ele faz num dia. Trabalha? Sai de casa? Fica na cama parte do dia? Essa descrição é o que o serviço oncológico vai converter em escala de desempenho, e sem ela o encaminhamento chega vazio.
A função pulmonar é a terceira, e é a que costuma faltar. O documento federal de acesso ambulatorial de 2015 lista prova de função pulmonar entre os exames sugeridos na linha de tumores de esôfago, ao lado de hemograma, coagulograma, glicemia, ureia, creatinina, proteínas totais e frações, endoscopia com biópsia e tomografia de tórax, abdome e pelve. Faz sentido: o paciente típico é fumante pesado, a esofagectomia abre o tórax e a radioterapia irradia pulmão. Peça na mesma leva.
Some a isso hemograma, função renal, hepatograma e albumina — os mesmos que aquele documento lista. Nenhum deles diagnostica nada aqui; todos entram na conta de quem vai decidir a modalidade terapêutica, e todos podem ser feitos na sua unidade enquanto a vaga da endoscopia não sai.
Por fim, avalie a boca. Além da busca do segundo primário, o texto preliminar de 2026 inclui o dentista na avaliação multidisciplinar antes do planejamento do tratamento, ao lado de médico, enfermeiro, nutricionista e psicólogo. Foco dentário em quem vai receber radioterapia de cabeça e pescoço ou de mediastino alto não é detalhe.
A régua brasileira, e o que ela não fecha
O percurso clínico é reconhecer suspeita, confirmar, estadiar e cuidar do paciente durante todas as etapas. Prazos legais apoiam o acesso, mas não são intervalos recomendados de espera.
- 1Caracterizar disfagia, progressão, regurgitação, perda ponderal, rouquidão e aspiração; avaliar o que o paciente consegue ingerir hoje.
- 2Priorizar endoscopia e amostragem de lesão suspeita, com planejamento de segurança na estenose e estase. Suporte nutricional e sintomático não espera o diagnóstico definitivo.
- 3Diante de suspeita de fístula aerodigestiva ou incapacidade de ingerir líquidos, avaliar urgência e via segura de alimentação com a equipe.
- 4Obter anatomopatológico e resolver discordância entre clínica, imagem e biópsia. Amostra negativa em lesão suspeita não encerra investigação.
- 5Estadiar com TC e exames complementares selecionados para extensão local, linfonodos e metástases, de acordo com a pergunta e o plano de tratamento.
- 6Distinguir ressecabilidade da doença e operabilidade do paciente; discutir em equipe especializada cirurgia, tratamento sistêmico, radioterapia ou combinações.
- 7Tratar dor, desnutrição e disfagia em qualquer estágio, incluindo quando a intenção não é curativa; paliação e tratamento oncológico podem coexistir.
- 8Acompanhar acesso e resultados com datas e responsáveis. Piora clínica exige antecipação, independentemente do prazo administrativo.
Quando a fila não anda: o que fazer com o prazo na mão
Os dois prazos da Lei nº 12.732 só existem se alguém os contar. Anote a data do pedido fundamentado e a data do laudo anatomopatológico no prontuário, e entregue ao paciente uma cópia com as duas datas. Passados os trinta dias sem o exame, a conversa com a regulação municipal deixa de ser pedido e passa a ser cobrança de prazo legal, com data. Passados os sessenta dias do laudo sem o primeiro tratamento, o artigo 3º da mesma lei sujeita os gestores responsáveis a penalidades administrativas — e a ouvidoria do serviço, a secretaria municipal e a defensoria pública trabalham com esse tipo de registro. Nada disso é papel do paciente sozinho: quem tem as datas é você.
Os dois cânceres com a mesma queixa
| Eixo | Carcinoma escamoso (epidermoide) | Adenocarcinoma |
|---|---|---|
| De onde nasce | Do epitélio escamoso normal do esôfago, agredido por décadas | De epitélio colunar com metaplasia intestinal que substituiu o escamoso |
| Lesão precursora | Displasia do epitélio escamoso; não há lesão precursora endoscopicamente vigiada na prática brasileira | Esôfago de Barrett, com displasia de baixo e depois de alto grau |
| O que agride | Álcool destilado, tabaco e bebida habitual acima de sessenta e cinco graus | Refluxo gastroesofágico crônico e excesso de gordura corporal |
| Onde costuma ficar | Terços superior e médio | Terço distal e junção esofagogástrica |
| Quem é o paciente típico no Brasil | Homem, meia-idade, fumante e etilista, com maior risco na região Sul | Adulto com pirose de longa data, sobrepeso, história de refluxo tratado por anos |
| O que perguntar a mais | Quantidade e tempo de álcool e tabaco; temperatura da bebida; lesão na boca, rouquidão, dor de ouvido de um lado só | Há quantos anos tem pirose; se já fez endoscopia; se algum laudo antigo falou em Barrett; peso e circunferência |
| O que procurar no exame físico | Cavidade oral, orofaringe, voz e cadeias cervicais — o segundo primário | Massa epigástrica, linfonodo supraclavicular esquerdo, fígado |
| O que muda na cirurgia | Tumor cervical a menos de cinco centímetros do cricofaríngeo vai a quimiorradioterapia exclusiva, pela margem proximal | Tumor da junção é classificado por Siewert; metástase de adenocarcinoma vai preferencialmente à cavidade abdominal |
| Peso relativo no Brasil | Predominante nas regiões e nos hábitos descritos acima; a estimativa nacional não separa os subtipos | Predominante em países de alto índice de desenvolvimento humano, onde responde por cerca de dois terços dos casos |
O relógio legal, ato por ato
| Ato | Prazo | Norma | A partir de quando corre |
|---|---|---|---|
| Exames necessários à elucidação diagnóstica | 30 dias | Lei nº 12.732/2012, art. 2º, § 3º, incluído pela Lei nº 13.896, de 30 de outubro de 2019 | Da solicitação fundamentada do médico responsável, quando a hipótese diagnóstica principal é de neoplasia maligna |
| Entre o exame realizado e o laudo anatomopatológico assinado | Sem prazo em lei | Nenhuma das normas consultadas fixa este intervalo | Não corre prazo legal algum neste vão |
| Primeiro tratamento — cirurgia, radioterapia ou quimioterapia | 60 dias, ou menos conforme a necessidade terapêutica registrada em prontuário | Lei nº 12.732/2012, art. 2º, caput | Do dia em que o diagnóstico é firmado em laudo patológico |
| Acesso a opioides para dor de causa oncológica | Tratamento privilegiado e gratuito, sem prazo numérico | Lei nº 12.732/2012, art. 2º, § 2º | Do diagnóstico de neoplasia maligna com manifestação dolorosa |
| Notificação e registro da neoplasia | Compulsórios, nos termos regulamentares | Lei nº 12.732/2012, art. 4º-A, incluído pela Lei nº 13.685, de 2018 | Do diagnóstico, em serviço público ou privado |
| Transporte sanitário e diárias para radioterapia fora do domicílio | Durante todo o período do tratamento, observada disponibilidade orçamentária | Lei nº 12.732/2012, art. 2º-A, § 3º, incluído pela Lei nº 15.233, de 7 de outubro de 2025 | Do início do tratamento radioterápico em ente federativo diverso do domicílio |
| Descumprimento dos prazos | Penalidades administrativas aos gestores responsáveis | Lei nº 12.732/2012, art. 3º | Do descumprimento |
Conversão do que se escreve na porta — adulto de 52 kg
| O que se prescreve | Apresentação real | Conta | O que vai na prescrição |
|---|---|---|---|
| Dipirona 1 g por via venosa | Solução injetável 500 mg/mL, ampola de 2 mL | 500 × 2 = 1.000 mg por ampola; 1.000 ÷ 500 = 2 mL | 1 ampola (2 mL) diluída, até 6/6 h |
| Dipirona 1 g por via oral | Comprimido de 500 mg | 1.000 ÷ 500 = 2 | 2 comprimidos, até 6/6 h |
| Antiemético após avaliação da causa | Apresentação e via compatíveis com a disfagia | Dose individualizada e conferida com supervisor | Não usar metoclopramida diante de obstrução mecânica; regurgitação obstrutiva exige tratar a causa. |
| Ondansetrona 8 mg por via oral | Comprimido de 4 mg e de 8 mg | 8 ÷ 4 = 2 ou 8 ÷ 8 = 1 | 1 comprimido de 8 mg ou 2 de 4 mg |
| Dexametasona 10 mg por via venosa | Solução injetável 4 mg/mL, ampola de 2,5 mL | 4 × 2,5 = 10 mg por ampola | 1 ampola (2,5 mL) |
| Sulfato de morfina 5 mg por via oral | Solução oral 10 mg/mL | 5 ÷ 10 = 0,5 mL | 0,5 mL da solução oral — titulação é do capítulo Analgesia no paciente internado |
| Aporte de 25 a 30 kcal/kg/dia | Fórmula enteral polimérica de 1,0 kcal/mL | 52 × 25 = 1.300 kcal e 52 × 30 = 1.560 kcal; ÷ 1,0 | 1.300 a 1.560 mL/dia; em 20 h, 65 a 78 mL/h |
| Mesmo aporte com fórmula concentrada | Fórmula enteral de 1,5 kcal/mL | 1.300 ÷ 1,5 = 867 e 1.560 ÷ 1,5 = 1.040 | 867 a 1.040 mL/dia; em 20 h, 43 a 52 mL/h |
| Perda de peso a registrar | 61 kg há dezoito meses; 52 kg hoje | 9 ÷ 61 = 14,8% em 4 meses, cerca de 3,7% ao mês | Escreva o percentual, não só os quilos |
A referência federal apresentada é a DDT aprovada em 2014. O relatório preliminar de 2026 a identifica como base para a atualização. Diferencie documento publicado e proposta em elaboração: a comparação ajuda a entender mudanças, mas uma minuta não equivale à versão final aprovada.
A DDT de 2014 usa agrupamentos da sétima edição, enquanto o texto preliminar de 2026 declara a oitava. Ao registrar o estádio, identifique edição, histologia e momento da avaliação. Laudos de edições diferentes não devem ser comparados apenas pelo número do grupo.
A combinação T3 N0 M0 aparece em grupos distintos conforme a tabela geral, a histologia e as variáveis prognósticas da DDT. Essa diferença exige identificar qual agrupamento está sendo usado. Registre TNM completo, grau e localização quando pertinentes; o rótulo de estádio isolado pode ocultar essas condições.
O comentário da DDT sobre variáveis não anatômicas destaca T1 e T2, mas as tabelas também mostram deslocamentos em T3 N0 M0. Consulte o agrupamento específico completo antes de transportar a categoria para uma tabela de tratamento. A discussão multidisciplinar deve partir dos componentes do estadiamento.
O resumo tabular da DDT apresenta cirurgia isolada em categorias mais amplas que o texto sobre tratamento combinado. Não use a coluna de estádio, sem seus componentes, para decidir a modalidade. Histologia, profundidade, linfonodos, localização e condição clínica precisam estar disponíveis à equipe oncológica.
A quimioterapia perioperatória é descrita no texto da DDT, mas não ganha linha própria no resumo de tratamentos. A omissão do resumo não elimina a modalidade. Leia a recomendação completa e encaminhe o caso com dados suficientes para comparar as opções aplicáveis.
A tabela resumida da DDT se limita aos carcinomas torácicos e distais. O esôfago cervical tem particularidades de localização e tratamento e não deve receber automaticamente a mesma leitura. Informe distância aos incisivos, extensão e relação com estruturas vizinhas na discussão do caso.
Alguns códigos de procedimento usam nomes de estádios que não coincidem com o agrupamento apresentado na DDT. A nomenclatura administrativa não redefine o TNM clínico. Registre a classificação utilizada e encaminhe eventuais incompatibilidades de autorização à equipe responsável pelo tratamento.
O Quadro 6 do texto preliminar de 2026 apresenta uma linha de pN3 com M1 em IVA e omite IVB, diferentemente dos quadros relacionados. Essa inconsistência impede usar a tabela isoladamente. Confirme o agrupamento pela edição identificada e mantenha os componentes TNM explícitos.
No Quadro 10 preliminar, T3 N0 M0 aparece em IIB e IIIA; no agrupamento relacionado, aparece em IIB. A duplicação deve ser reconhecida ao ler a minuta, sem atribuir dois prognósticos ao paciente. A definição do grupo exige consulta à classificação completa adotada pela equipe.
O texto preliminar diverge internamente nos números e anos de alguns relatórios de incorporação. Para identificar uma decisão, confira título, tecnologia e documento de origem, além do número citado. Uma referência bibliográfica inconsistente não demonstra, sozinha, disponibilidade ou indicação da tecnologia.
Dose total e dose por fração de radioterapia precisam formar um esquema planejado, e não qualquer combinação entre extremos de duas faixas. Por exemplo, 50,4 Gy em frações de 1,8 Gy corresponde a 28 frações. O radioterapeuta define o regime completo e seus limites conforme o tratamento proposto.
O texto compilado da lei de prazos apresenta marcas da medida provisória e da lei que a converteu. Ao documentar o fundamento do encaminhamento, identifique o dispositivo e a redação aplicável. A duplicação visual de um artigo no texto consultado não cria dois prazos nem duas etapas de cuidado.
Os prazos citados de investigação e início do tratamento usam marcos de contagem diferentes. Registre solicitação, realização do exame, recebimento do laudo e encaminhamento e acompanhe cada etapa. A espera pelo anatomopatológico também exige ação da equipe; prazo administrativo não deve ser interpretado como período clinicamente aceitável para aguardar.
Os documentos federais consultados reconhecem Barrett e displasia como condições relevantes, mas não oferecem um programa completo de intervalos de vigilância. A equipe deve definir seguimento conforme achado histológico e referência específica. Sintomas de alarme mudam a indicação de vigilância para investigação, independentemente da data do exame anterior.
As fontes apresentadas não recomendam rastreamento populacional de câncer de esôfago por insuficiência de evidência de benefício. Isso é diferente de investigar sintomas ou acompanhar grupos selecionados. Neste percurso, disfagia e outros sinais de alarme exigem diagnóstico oportuno, sem esperar uma estratégia de rastreamento.
O fornecimento de antineoplásicos depende do modelo de assistência oncológica e do hospital habilitado descrito nas fontes. A ausência de um agente na Rename de 2024 não comprova indisponibilidade no serviço. Confirme o fluxo de acesso com a equipe oncológica enquanto mantém analgesia, controle de sintomas e suporte.
A obtenção de fórmula e o plano alimentar precisam ser definidos para o período de espera e para a alta. Confirme via segura, oferta possível, programa de fornecimento e retorno com nutrição. Prescrever uma fórmula sem verificar como o paciente a receberá deixa incompleta uma parte essencial do cuidado.
Na estimativa citada de 2026, 8.750 casos masculinos e 2.640 femininos totalizam 11.390; os óbitos de 2023 somam 8.488. São medidas de períodos distintos. Nas apresentações examinadas, confira igualmente unidade e volume: dipirona 500 mg/mL em 2 mL fornece 1 g; metoclopramida 5 mg/mL em 2 mL fornece 10 mg.
A razão entre sexos varia por população e período. Os 323 mil e 132 mil casos mundiais de 2012 citados correspondem a cerca de 2,45 homens para cada mulher. As estimativas brasileiras apresentadas têm outra distribuição. Evite transportar uma razão mundial aproximada para o contexto local.
Endoscopia sem lesão e biópsia negativa reduzem algumas probabilidades, mas não excluem toda neoplasia infiltrativa ou pseudoacalasia. Sinais de alarme persistentes exigem discussão de investigação adicional. Registre a limitação do exame em vez de declarar exclusão definitiva.
A conduta, hora a hora
Aqui não se prescreve quase nada e mesmo assim se decide quase tudo. O interno não opera, não irradia e não escolhe esquema de quimioterapia; o que está na mão dele é a redação de um pedido, uma decisão sobre o que o paciente vai comer amanhã, quatro datas anotadas e um encaminhamento que chegue completo ao destino. Ele faz três coisas que ninguém mais faz por ele: encurta o intervalo entre a queixa e o laudo, impede que o paciente perca massa dentro da fila, e mantém as datas registradas para que os prazos existam.
A linha do tempo abaixo segue Baltazar, e os dias são contados do dia da consulta em que a disfagia foi finalmente nomeada. Nenhum dos marcos depende de recurso que não exista numa unidade comum.
Os dias do caso ilustram um percurso que precisa ser acompanhado e, quando possível, abreviado. Não ensinam a aguardar 21 dias para endoscopia, 31 para laudo ou 60 para tratamento. Para Baltazar, progressão da disfagia e perda de peso exigem prioridade e cuidado nutricional imediato. Em cada contato, verificar ingestão, hidratação, aspiração e resultado pendente, com supervisão e busca ativa do próximo passo.
Dia 0 — os quinze minutos da consulta índice
Tudo o que decide o caso acontece aqui. Caracterize a disfagia com as quatro perguntas, pese o paciente na balança e procure um peso anterior no prontuário, calcule o percentual, quantifique álcool e tabaco, olhe a boca e a orofaringe, escute a voz e palpe pescoço e fossas supraclaviculares. Escreva no prontuário a frase que autoriza o resto: disfagia esofágica progressiva com perda de peso não intencional de quinze por cento em quatro meses, em fumante e etilista, hipótese principal de neoplasia de esôfago. Não troque de inibidor de bomba, não aumente a dose e não marque retorno em trinta dias para reavaliar a resposta clínica.
Prescrição- Endoscopia digestiva alta com biópsia — pedido fundamentado, com hipótese diagnóstica principal de neoplasia de esôfago, peso aferido hoje, percentual de perda, tempo de evolução e hábitos quantificados
- Escrever no mesmo pedido: suspeita de estase de alimento acima da obstrução, solicito jejum prolongado e cuidado com aspiração na sedação
- Hemograma, ureia, creatinina, glicemia, coagulograma, hepatograma, proteínas totais e frações com albumina
- Tomografia de tórax, abdome e pelve — pedido emitido junto, com a advertência de que ela não substitui a endoscopia e não deve atrasá-la
- Prova de função pulmonar
- Manter o inibidor de bomba se a pirose incomoda, deixando escrito que ele trata o sintoma acessório e não a queixa que motivou a investigação
Dia 0 — ainda na mesma consulta: a alimentação não espera o estadiamento
A pergunta que não pode esperar é o que ele consegue engolir hoje. Ela não depende de diagnóstico, não depende de estádio e não tem risco. Um paciente que só toma sopa há três semanas vai perder mais peso nas semanas de fila, e é essa perda que pode custar a elegibilidade ao tratamento. Registre o que entra por dia, oriente fracionamento e densidade calórica com o que existe na casa dele, e marque uma pesagem semanal na unidade — a balança da sala de vacina serve. Se ele já não engole pastoso, ou se há tosse ao engolir líquidos, a conduta muda de patamar e a via alternativa passa a ser assunto de agora.
Prescrição- Dieta pastosa ou líquida completa fracionada em seis a oito tomadas por dia, com o alimento mais calórico que a família consegue comprar
- Alvo de 25 a 30 kcal/kg/dia — em 52 kg, 1.300 a 1.560 kcal por dia; com fórmula de 1,0 kcal/mL, 1.300 a 1.560 mL por dia divididos nas tomadas
- Pesagem semanal na unidade, com o número anotado no prontuário e no cartão do paciente
- Suspender dieta por via oral e comunicar o serviço de referência no mesmo dia se houver tosse ao engolir líquidos ou episódio de engasgo com febre
- Encaminhamento ao nutricionista da equipe ou do serviço de referência, com o peso atual, o peso anterior e o percentual escritos
Dia 1 a dia 21 — enquanto a endoscopia não sai
Este é o intervalo em que o caso costuma se perder, e ele se perde por falta de alguém que o empurre. Leve o pedido pessoalmente à regulação, ou telefone e registre com quem falou e em que dia. Diga a frase que existe na lei: a hipótese principal é de neoplasia maligna e a solicitação é fundamentada, portanto o prazo é de trinta dias. Deixe o paciente com um papel que traga o nome do serviço, a data do pedido e a orientação de voltar assim que o exame sair, sem esperar a data do retorno.
Prescrição- Contato registrado com a regulação, com data, nome do interlocutor e resposta obtida, anotados no prontuário
- Cópia do pedido entregue ao paciente, com a data de emissão visível
- Retorno aberto: o paciente é atendido no dia em que trouxer o laudo, sem agendamento
- Analgesia simples se houver dor ou odinofagia — dipirona 500 mg a 1 g por via oral até de 6 em 6 horas, com 1 g equivalendo a 2 comprimidos de 500 mg
- Reavaliação presencial em duas semanas mesmo sem o exame, para pesar e revisar o que ele está conseguindo comer
Dia 22 — a endoscopia é feita
O laudo endoscópico descreve lesão vegetante e ulcerada a 28 centímetros dos incisivos, ocupando toda a circunferência, com o aparelho passando com dificuldade, mucosa acima sem alterações, seis fragmentos enviados. Isto já é suficiente para você agir como se fosse câncer — a diretriz federal chama tumor visível na mucosa de patognomônico — e insuficiente para o relógio legal começar, porque ele parte do laudo do patologista. Nesse mesmo dia, comece o estadiamento e comece o encaminhamento; não espere o anatomopatológico para pedir tomografia nem para acionar a referência.
Prescrição- Registrar no prontuário a data do exame, a distância da lesão aos incisivos, a extensão, se é circunferencial e o número de fragmentos
- Confirmar com o serviço a data prevista do laudo anatomopatológico e anotá-la
- Realizar a tomografia já solicitada, se ainda não foi feita
- Acionar a referência oncológica com o laudo endoscópico em mãos, informando que o anatomopatológico está em processamento
- Reforçar a via de alimentação: com lesão circunferencial a 28 centímetros, a piora da disfagia nas próximas semanas é esperada e não é motivo para nova consulta de emergência, mas sim para o plano já combinado
Dia 31 — o laudo anatomopatológico, e o relógio dos sessenta dias começa
Carcinoma de células escamosas moderadamente diferenciado. Anote no prontuário a data de assinatura do laudo e o número dele, em destaque, e escreva ao lado a data-limite de sessenta dias. Essa é a informação mais operacional deste capítulo inteiro: sem a data, não existe prazo; sem o prazo, não existe cobrança. Entregue ao paciente uma via com as duas datas e explique, com essas palavras, que a lei dá sessenta dias para o começo do tratamento contados daquele laudo.
Prescrição- Registrar: data de assinatura do laudo, número do laudo, tipo histológico e grau
- Calcular e escrever a data-limite do artigo 2º da Lei nº 12.732 — sessenta dias corridos a partir da data do laudo
- Notificação e registro da neoplasia conforme o artigo 4º-A da mesma lei
- Encaminhamento formal a hospital habilitado como unidade ou centro de assistência de alta complexidade em oncologia, anexando laudo endoscópico, anatomopatológico, tomografia, exames laboratoriais, prova de função pulmonar, peso atual e peso anterior
- Escrever no encaminhamento a pergunta específica: carcinoma escamoso de esôfago torácico confirmado, paciente com perda ponderal de quinze por cento, solicito estadiamento e definição de modalidade terapêutica
Semanas 5 a 8 — o estadiamento fecha e a decisão é multidisciplinar
A partir daqui a decisão não é sua, e é importante que você saiba o que ela é para poder explicá-la. A tomografia responde metástase e invasão; a ecoendoscopia, quando existe, responde profundidade e linfonodo próximo; a broncoscopia entra acima da carina e na suspeita de fístula; a tomografia por emissão de pósitrons entra apenas na doença localmente avançada com tomografia inconclusiva. O texto preliminar de 2026 lista quem é elegível à cirurgia — tumores de T1 a T3 e T4a que envolve pericárdio, pleura ou diafragma — e quem não é: tumor cervical sem margem proximal garantida, invasão de coração, grandes vasos ou traqueia, e tumor da junção com linfonodo supraclavicular ou doença a distância. O seu papel é garantir que o paciente chegue à reunião com tudo na mão e com peso preservado.
Prescrição- Acompanhar o agendamento no serviço de referência e registrar cada contato com data
- Manter a pesagem semanal e o registro do que ele consegue engolir, enviando esses dados ao serviço
- Distinguir náusea de regurgitação por impedimento mecânico. Se houver necessidade de antiemético, discutir agente não procinético e via viável com a equipe, considerando disfagia, risco de aspiração, QT e demais contraindicações. Não prescrever metoclopramida na suspeita de obstrução mecânica.
- Rastrear e encaminhar o segundo primário: avaliação de cavidade oral e laringe pelo serviço de cabeça e pescoço, pela mesma exposição a álcool e tabaco
- Oferecer, por escrito, apoio para cessação de tabagismo e de álcool — não como cobrança moral, e sim porque muda tolerância à radioterapia e risco cirúrgico
Dia 60 do laudo — o primeiro tratamento, ou a cobrança do prazo
Primeiro tratamento, para efeito da lei, é a realização de terapia cirúrgica ou o início de radioterapia ou de quimioterapia, conforme a necessidade do caso. Consulta marcada não é tratamento iniciado; exame agendado não é tratamento iniciado. Se o prazo estiver perto de vencer sem que nenhuma dessas três coisas tenha começado, a conduta muda de clínica para administrativa, e ela é sua também: o artigo 3º da mesma lei sujeita os gestores responsáveis a penalidades administrativas pelo descumprimento.
Prescrição- Conferir e registrar qual das três modalidades foi iniciada e em que data
- Se o prazo estiver vencendo: comunicação formal e datada à regulação e à ouvidoria do serviço, com cópia no prontuário
- Orientar o paciente e a família, por escrito, sobre a existência do prazo legal e sobre os canais de ouvidoria e defensoria — sem transformar isso em tarefa que só eles executam
- Se o tratamento for radioterápico em outro município, informar por escrito o direito a transporte sanitário e diárias, previsto no artigo 2º-A, § 3º, da Lei nº 12.732 na redação da Lei nº 15.233, de 2025
- Manter o suporte nutricional e a analgesia enquanto o tratamento não começa
Quando o tratamento não é curativo — a disfagia continua sendo o problema
Em boa parte dos casos o diagnóstico chega com doença avançada, e a diretriz federal de 2014 diz qual é o objetivo então: o controle dos sintomas, principalmente a disfagia. Ela registra que a melhor opção para melhorar a disfagia ainda não está estabelecida, que a prótese metálica autoexpansível é segura, efetiva e rápida na resolução do sintoma, e que prótese e braquiterapia são comparáveis a outras modalidades, como dilatação, ablação endoscópica e quimiorradioterapia concomitante. Nada disso é feito por você, e tudo isso depende de você levantar a pergunta na hora certa. Paliativo, aqui, não é o oposto de tratar — é tratar o que mais atrapalha.
Prescrição- Levantar formalmente, no encaminhamento, a pergunta sobre desobstrução paliativa: o paciente tem indicação de prótese esofágica ou de outra modalidade para restabelecer a deglutição?
- Manter via de alimentação enquanto a desobstrução não acontece, discutindo com o serviço a indicação de gastrostomia, jejunostomia ou sonda nasoentérica, que são as três vias que o texto preliminar de 2026 nomeia
- Analgesia por degraus, com dipirona como base e opioide quando ela não basta — a escolha do opioide, a titulação e o rodízio são do capítulo Analgesia no paciente internado, na apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado, e do capítulo Cuidados paliativos e dor oncológica, na apostila de Geriatria
- Registrar a manifestação dolorosa de causa oncológica no prontuário, porque é ela que aciona o acesso privilegiado e gratuito a opioides do artigo 2º, § 2º, da Lei nº 12.732
- Discutir e registrar as preferências do paciente sobre o que ele quer e o que não quer — a limitação terapêutica e a ordem de não reanimar são do capítulo O que continua quando se decide parar, na apostila de Comunicação, Ética e Segurança na Prática
Como saber se está funcionando
Neste capítulo o que se reavalia não é a resposta a um tratamento que você prescreveu — é o andamento de um processo que depende de terceiros. Os sete parâmetros abaixo se dividem em dois grupos: três medem o corpo do paciente e quatro medem o relógio. Os quatro do relógio são os que ninguém mede, e são os que decidem.
Esperado: Estabilização. O objetivo realista enquanto a fila anda não é ganhar peso, é parar de perder
Se não melhora: Perda continuada apesar do plano alimentar significa que a via oral já não sustenta este paciente. Comunique o serviço de referência no mesmo dia, por escrito, com os pesos e as datas, e levante formalmente a discussão sobre via alternativa de alimentação. Perda que continua dentro da fila é a causa mais comum de um paciente deixar de ser elegível ao tratamento que curaria.
Esperado: Consistência estável entre um contato e outro
Se não melhora: Descida de degrau — de sólido para pastoso, de pastoso para líquido, de líquido para nada — é progressão mecânica e muda a prioridade do caso, mesmo que o exame ainda não tenha saído. Registre a data em que cada degrau foi perdido; essa sequência de datas é o argumento mais forte que existe diante de quem regula fila.
Esperado: Ausente
Se não melhora: Tosse ao engolir líquidos em paciente com obstrução esofágica é transbordamento até prova em contrário, e pode ser fístula entre o esôfago e a via aérea. Suspenda a via oral, comunique o serviço no mesmo dia e escreva a suspeita de fístula, porque é ela que indica broncoscopia. Pneumonia aspirativa neste paciente não é intercorrência menor: ela adia o tratamento oncológico e às vezes o impede.
Esperado: Controlada com analgesia simples
Se não melhora: Dor que não cede à analgesia de base, sobretudo dor contínua no dorso, sugere invasão para fora do órgão e exige degrau de opioide — cuja escolha e titulação são do capítulo Analgesia no paciente internado, na apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado. Registre no prontuário que a dor é de causa oncológica: é esse registro que aciona o acesso privilegiado e gratuito a opioides previsto na lei.
Esperado: Exame realizado dentro de trinta dias
Se não melhora: No dia 28 sem data marcada, o contato com a regulação deixa de ser pedido e passa a ser cobrança do prazo do artigo 2º, § 3º, da Lei nº 12.732, com a data do pedido em mãos. Registre a comunicação no prontuário e informe a ouvidoria do serviço. Não delegue essa cobrança ao paciente sozinho: quem tem o documento datado é você.
Esperado: Cirurgia realizada, ou radioterapia ou quimioterapia iniciada, dentro de sessenta dias
Se não melhora: Consulta agendada não conta e exame marcado não conta — a lei define primeiro tratamento como terapia cirúrgica realizada ou início de radioterapia ou de quimioterapia. Perto do vencimento, comunicação formal e datada à regulação e à ouvidoria, com cópia no prontuário, e orientação por escrito ao paciente sobre os canais disponíveis.
Esperado: Sem mudança em relação ao registro anterior
Se não melhora: Rouquidão nova, linfonodo supraclavicular que apareceu, massa epigástrica palpável ou icterícia mudam o estádio e podem mudar a intenção do tratamento. Comunique o serviço de referência com a descrição e a data. Um paciente que muda de estádio dentro da fila é a razão pela qual a fila precisa ser empurrada.
Onde o erro machuca
O dano: É o erro que custa o caso e é o erro deste capítulo. O tumor produz esofagite ao redor, a esofagite dá pirose, a pirose responde ao remédio — e a melhora verdadeira de um sintoma verdadeiro convence os dois lados da mesa de que o caminho está certo. Em Baltazar, quatro meses desse raciocínio produziram quinze por cento de perda de peso e nenhuma informação. Em um tumor cuja sobrevida relativa em cinco anos cai de 47 por cento na doença localizada para 6 por cento na doença a distância, meses são estádio.
Como pegar a tempo: Trate melhora da pirose e persistência da disfagia como duas perguntas separadas. A segunda só tem uma resposta: endoscopia com biópsia. Escreva no prontuário, com estas palavras, que o inibidor de bomba trata o sintoma acessório e não a queixa que motivou a investigação.
O dano: O fragmento pode ter pego só a mucosa inflamada da superfície, o tumor pode ser submucoso, e a própria estenose pode ter impedido o acesso à parte doente. O laudo negativo tranquiliza, a dilatação é indicada como tratamento da estenose, o paciente melhora por algumas semanas, e o diagnóstico volta meses depois com o tumor maior.
Como pegar a tempo: Em paciente com disfagia progressiva e perda de peso, negativo não é resposta. Repita a endoscopia com biópsias múltiplas e profundas, escreva no pedido que a primeira foi negativa e por quê, e não autorize dilatação como tratamento antes de ter histologia.
O dano: Gasta a vaga, gasta semanas e não fecha nada. Marcador tumoral, especificamente, é desaconselhado pela diretriz federal para diagnóstico, prognóstico, seguimento e avaliação de resposta — e um valor alterado assusta o paciente sem mudar conduta, enquanto um valor normal tranquiliza sem base. Exame contrastado antes da endoscopia atrasa o único exame que fecha.
Como pegar a tempo: A ordem é endoscopia com biópsia primeiro. A tomografia pode ser pedida no mesmo dia, desde que fique claro, para o paciente e para a regulação, que ela não substitui nem precede a endoscopia. Marcador tumoral simplesmente não entra.
O dano: O prazo de trinta dias da Lei nº 13.896, de 2019, exige duas coisas escritas: que a hipótese diagnóstica principal seja de neoplasia maligna e que a solicitação seja fundamentada. Um pedido genérico não aciona nada, entra na fila comum, e o mesmo paciente que teria exame em três semanas espera cinco meses. O pedido mal escrito é a diferença entre dois destinos, e ela é sua.
Como pegar a tempo: Escreva a hipótese com todas as letras e fundamente com números: peso aferido hoje, peso anterior com data, percentual, tempo de evolução da disfagia, consistência que ele já não engole, maços-ano e consumo de álcool. Guarde cópia datada no prontuário.
O dano: O estadiamento leva semanas e a desnutrição não espera por ele. O paciente que perde massa dentro da fila chega ao serviço de referência com pior estado geral, e estado geral é um dos fatores que decidem a modalidade terapêutica — pode ser a diferença entre ser candidato a tratamento com intenção curativa e não ser. O texto preliminar de 2026 registra que tratar a desnutrição é muitas vezes necessário antes que a terapia curativa possa começar.
Como pegar a tempo: Decida a alimentação na primeira consulta, com o que existe. Registre o aporte alvo, fracione, pese toda semana e trate a perda continuada como evento que exige comunicação imediata ao serviço de referência, e não como achado a ser reavaliado no retorno.
O dano: Encaminhamento não é tratamento e não anda sozinho. Sem as datas registradas, os dois prazos da lei não existem na prática, porque prazo sem data não se cobra. O paciente encaminhado e esquecido volta meses depois, com o mesmo laudo na sacola, tendo perdido mais peso e mais estádio — e o prontuário não tem uma linha que permita reconstruir onde o processo parou.
Como pegar a tempo: Anote quatro datas em destaque: pedido fundamentado, exame realizado, laudo assinado, primeiro tratamento iniciado. Mantenha retorno aberto, ligue quando o prazo se aproximar, registre cada contato com nome e data, e entregue ao paciente uma cópia com as mesmas datas.
O que dizer ao paciente e à família
As conversas deste capítulo têm um traço que as separa das de quase todos os outros: o prognóstico é ruim e o tratamento existe. As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo, e dizer só uma delas é mentir por omissão nos dois sentidos. Prometer que vai ficar tudo bem é falso; dizer que não há nada a fazer também é.
A técnica de dar a má notícia — quem, onde, com quem, em que ordem, quanto silêncio — é do capítulo Comunicação de más notícias, na apostila de Comunicação, Ética e Segurança na Prática, e a conversa sobre prognóstico com incerteza é do capítulo O que se diz quando não se sabe, da mesma apostila. Este capítulo cede a eles o método e fica com o conteúdo: o que exatamente se diz sobre esta doença, com estas palavras.
Pedir a endoscopia com pressa sem que a consulta vire um anúncio de diagnóstico
“O senhor me contou uma coisa importante: a comida está parando cada vez mais, e o senhor perdeu nove quilos sem querer. Isso a gente não investiga com remédio, a gente investiga olhando por dentro. É uma câmera, com sedação, e resolve numa manhã. Eu vou escrever no pedido o que precisa estar escrito para isso sair rápido, e o senhor volta aqui no dia em que o exame sair, sem precisar esperar data de retorno.”
Não diga: Evite dizer só que é para descartar câncer e encerrar a frase aí: instala um medo que atravessa semanas de fila sem benefício nenhum. E não garanta que não há nada de grave: essa é justamente a informação que ainda falta.
Explicar por que o remédio ajudou e mesmo assim o caminho estava errado
“O remédio funcionou, e o senhor não está enganado nisso: a azia melhorou de verdade. Só que a azia não era o problema principal. O que segura a comida não é ácido, e nenhum remédio de estômago alarga uma passagem apertada. Foi por isso que melhorou pela metade e nunca ficou bom de vez. O que a gente vai fazer agora é olhar a passagem.”
Não diga: Evite atribuir culpa a quem atendeu antes. Nada do que o senhor vai dizer sobre o colega ajuda este paciente, e a desconfiança que isso planta atrapalha os próximos seis meses de tratamento.
Contar o resultado do laudo
“O exame mostrou uma lesão no esôfago, e o material que foi colhido confirmou que é um tumor maligno. Eu sei que essa é a palavra que o senhor não queria ouvir. Eu vou dizer agora o que a gente já sabe e o que ainda não sabe, e o que vai acontecer nos próximos dias, para o senhor não sair daqui sem plano.”
Não diga: Evite abrir com o estádio ou com estatística. Evite as palavras neoplasia e lesão expansiva como substitutos de tumor: o paciente que não entendeu vai descobrir depois, sozinho, e isso é pior.
Ele pergunta se vai morrer disso
“É uma doença grave, e eu não vou dizer ao senhor que não é. Muita gente morre disso, e o senhor tem o direito de saber. Mas grave não é o mesmo que sem tratamento: tem tratamento, ele começa agora, e o quanto ele funciona depende de coisas que a gente ainda está medindo. O que eu posso prometer é que o senhor não vai atravessar isso sozinho e que eu vou dizer o que a gente for descobrindo, quando descobrir.”
Não diga: Evite dar tempo de vida em números quando o estadiamento ainda não fechou. E evite a frase está tudo nas mãos de Deus como saída da pergunta: ela pode ser dita depois, se for a fé dele, mas não no lugar da resposta.
Explicar a via alternativa de alimentação sem que soe como desistência
“O senhor está comendo cada vez menos porque a passagem está estreita, e não porque perdeu a vontade. Se a gente esperar, o senhor vai chegar magro demais no tratamento, e magro demais é o que mais atrapalha. Por isso a gente vai combinar agora um jeito de o alimento entrar. Isso não é para o fim: é justamente para o senhor conseguir fazer o tratamento.”
Não diga: Evite apresentar sonda ou gastrostomia como último recurso. Quando a família ouve isso como último recurso, ela recusa — e recusa a coisa que estava ali para viabilizar o tratamento.
A filha pede que não se conte o diagnóstico ao pai
“Eu entendo o que a senhora está querendo proteger, e não vou entrar aqui e despejar a palavra tumor em cima dele. O que eu faço é o seguinte: eu pergunto a ele o quanto ele quer saber, e respondo o que ele perguntar. Se ele não quiser saber os detalhes, ele não precisa saber. Mas se ele perguntar, eu não posso mentir — e, pela minha experiência, ele já desconfia, e o que mais assusta é sentir que estão combinando coisas às escondidas dele.”
Não diga: Evite prometer que vai esconder e evite tratar a filha como obstáculo. A conversa sobre quem decide o que se conta, e sobre sigilo, é do capítulo Prontuário, documentação e sigilo, na apostila de Comunicação, Ética e Segurança na Prática.
Falar de cigarro e bebida sem transformar a consulta em julgamento
“Eu vou falar do cigarro e da bebida, e não é para cobrar nada do senhor sobre o passado — isso não muda mais. É porque daqui para a frente eles mexem no tratamento: quem para de fumar tolera melhor a radioterapia e tem menos complicação se precisar operar. Então a minha proposta é prática, para os próximos meses, e eu ajudo o senhor com isso.”
Não diga: Evite qualquer construção que ligue o diagnóstico à culpa dele, do tipo o senhor sabe que isso é por causa do cigarro. Ela não muda comportamento, encerra a conversa e faz o paciente esconder informação nas próximas consultas.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Há vigilância devida, sem intervalo definido
Pessoas de grupos de alto risco para este câncer, entre elas as portadoras de esôfago de Barrett e de síndromes hereditárias, devem realizar avaliações periódicas para monitoramento e vigilância da doença. O documento não diz de quanto em quanto tempo, não diz com que método, e não diz a que nível de atenção cabe organizar essa periodicidade.
Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Carcinoma de Esôfago — versão preliminar em consulta pública, Conitec, agosto de 2026
O acesso é organizado por sintoma e por complicação, não por vigilância
Nos documentos federais em vigor, o esôfago de Barrett aparece como fator de risco cuja displasia é lesão precursora, e como uma das complicações que qualificam o encaminhamento cirúrgico do paciente com refluxo — ao lado de estenose, úlcera e sangramento esofágico. Nenhum dos dois estabelece consulta ou exame periódico para quem já tem o diagnóstico, e a fila de endoscopia é regulada por queixa e por complicação.
Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Carcinoma de Esôfago, Portaria SAS/MS nº 1.439, de 16 de dezembro de 2014; e Protocolos de Acesso Ambulatorial: Consultas Especializadas, Ministério da Saúde, 2015
No Barrett conhecido, revise o laudo anterior e a presença de displasia. Displasia relevante exige encaminhamento específico; disfagia nova, odinofagia, perda de peso ou anemia exigem investigação. Sem mudança clínica ou histológica, registre a referência e o intervalo de seguimento combinados, com data e resultado da última endoscopia.
Leitura literal do parágrafo terceiro: estadiar é elucidar
A lei manda realizar em até trinta dias os exames necessários à elucidação, quando a hipótese principal for de neoplasia maligna e houver solicitação fundamentada. Por esta leitura, tomografia, ecoendoscopia e broncoscopia pedidas para definir extensão são exames necessários à elucidação do caso e entram no mesmo prazo — o que é a leitura mais favorável ao paciente e a que mais aperta o serviço.
Lei nº 12.732, de 22 de novembro de 2012, art. 2º, § 3º, incluído pela Lei nº 13.896, de 30 de outubro de 2019
Leitura sistemática do caput: a elucidação termina no laudo
O prazo de sessenta dias corre do dia em que o diagnóstico é firmado em laudo patológico. Se o laudo é o marco que fecha a elucidação e abre a contagem do tratamento, tudo o que vem depois dele — inclusive o estadiamento — é planejamento terapêutico e corre dentro dos sessenta dias, não dos trinta.
Lei nº 12.732, de 22 de novembro de 2012, art. 2º, caput, redação original
Organize investigação e encaminhamento em paralelo quando indicados, com justificativa clínica e datas registradas. Acompanhe o laudo e os exames de estadiamento para evitar etapas sucessivas desnecessárias. Os prazos legais apoiam o acesso, mas não substituem a definição de urgência nem justificam esperar até seu limite.
A régua em vigor admite cirurgia exclusiva na doença inicial
A tabela de resumo dos tratamentos da diretriz federal em vigor marca cirurgia exclusivamente como opção terapêutica para as colunas de estádio clínico I e II, que englobam, na definição da própria tabela, tumores sem linfonodo comprometido — e, no carcinoma epidermoide, até T3 sem linfonodo.
Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Carcinoma de Esôfago, Portaria SAS/MS nº 1.439, de 16 de dezembro de 2014, Tabela 1
O texto preliminar manda considerar tratamento pré-operatório em toda doença localmente avançada, e declara a controvérsia num ponto
O documento em consulta pública afirma que o tratamento pré e perioperatório com quimioterapia ou quimiorradioterapia aumenta as taxas de ressecção com margens livres e a sobrevida, e deve ser considerado em todos os pacientes com doença ressecável localmente avançada, definida como T2 a T4a ou linfonodo positivo no estadiamento clínico. E acrescenta, com todas as letras, que para tumores T2 sem linfonodo há controvérsia quanto à necessidade de tratamento pré-operatório, porque os ensaios randomizados incluíram poucos pacientes dessa população e os estudos retrospectivos foram conflitantes.
Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Carcinoma de Esôfago — versão preliminar em consulta pública, Conitec, agosto de 2026
A equipe multidisciplinar define a modalidade terapêutica. Encaminhe histologia, localização, extensão, tomografia e avaliação de profundidade e linfonodos quando disponível. Se uma proposta parecer divergir do percurso, leve a dúvida à discussão com os dados do caso. Uma tabela resumida não substitui o planejamento individual.
O raciocínio, em voz alta
Baltazar Sitiozinho, 58 anos, operário de serraria no interior do Rio Grande do Sul. Voltou ao ambulatório quatro meses depois de sair daqui com omeprazol por pirose e comida entalando. Diz que a azia melhorou e que a comida para mais. Carne desde o Natal não come; almoço virou sopa há três semanas. Pesa 52 quilos; o prontuário tem 61 quilos há dezoito meses. Fumante desde os quinze anos, hoje trinta cigarros num dia comum; bebe cachaça diariamente, toma chimarrão bem quente de manhã e de tarde. Rouco há três semanas, que ele atribui ao pó da serra. Sem dor. Nunca fez endoscopia.
Caracterizo a disfagia em quinze segundos e peço o gesto
Peço que ele aponte onde para: mão aberta sobre o esterno, não na garganta. Não há engasgo no primeiro segundo, não há tosse imediata, não há comida saindo pelo nariz e a voz não fica molhada depois de engolir. É disfagia esofágica. Peço a linha do tempo em alimentos, não em adjetivos: carne, depois pão, depois arroz, agora sopa, sempre na mesma direção e em quatro meses. Isso é obstrução que cresce, e não distúrbio motor.
Peso, e transformo a perda em percentual
Levo-o à balança do corredor e anoto 52 quilos com a data. Procuro no prontuário e acho 61 quilos de dezoito meses atrás. Nove quilos, quinze por cento do peso, cerca de quatro por cento ao mês, sem dieta. Escrevo o percentual, não só os quilos — é o percentual que o serviço de referência vai usar.
Faço o exame físico que quase ninguém faz
Peço que ele tire a prótese. Olho assoalho da boca, borda lateral da língua, palato e tonsilas com lanterna e abaixador — sem lesão visível. Escuto a voz e registro rouquidão de três semanas em fumante com disfagia, que não é laringite do pó da serra até que alguém olhe a laringe. Palpo cadeias cervicais e as duas fossas supraclaviculares: sem linfonodo. Palpo o epigástrio: sem massa. Escleras anictéricas.
Escrevo o pedido de modo que ele ande
Endoscopia digestiva alta com biópsia. No corpo do pedido: disfagia esofágica progressiva há quatro meses, hoje para pastoso; perda de peso não intencional de nove quilos, quinze por cento, em quatro meses; peso aferido hoje 52 quilos; tabagismo de um maço e meio ao dia há 43 anos; etilismo diário; rouquidão de três semanas. E a frase que aciona o prazo: hipótese diagnóstica principal de neoplasia de esôfago, solicitação fundamentada. Acrescento a advertência de segurança: suspeita de estase de alimento acima da obstrução, solicito jejum prolongado e cuidado com aspiração na sedação. Guardo cópia datada no prontuário.
Decido a alimentação antes de ter diagnóstico
Não espero laudo para isso. Combino seis a oito tomadas por dia do alimento mais calórico que a família consegue comprar, em consistência que ele ainda engole, com alvo de 1.300 a 1.560 quilocalorias por dia para 52 quilos. Marco pesagem semanal na unidade e anoto que perda continuada exige comunicação imediata ao serviço de referência. Oriento a suspender a via oral e procurar atendimento no mesmo dia se aparecer tosse ao engolir líquidos.
Peço em paralelo o que vai ser necessário depois
Tomografia de tórax, abdome e pelve, hemograma, ureia, creatinina, glicemia, coagulograma, hepatograma, proteínas totais e frações com albumina, e prova de função pulmonar — a mesma lista que o documento federal de acesso ambulatorial de 2015 sugere para a linha de tumores de esôfago. Deixo escrito no pedido da tomografia que ela não substitui nem precede a endoscopia. Encaminho a avaliação de cavidade oral e laringe pelo serviço de cabeça e pescoço, pela busca do segundo primário.
Não faço três coisas
Não troco nem aumento o inibidor de bomba como resposta à disfagia, e escrevo no prontuário que ele trata o sintoma acessório. Não peço marcador tumoral, que a diretriz federal desaconselha para diagnóstico, prognóstico, seguimento e avaliação de resposta. Não peço exame contrastado antes da endoscopia.
Deixo o caso com dono, com data e com retorno aberto
Anoto no prontuário a data do pedido fundamentado e programo conferir a fila no dia 15 e no dia 28. Entrego a ele um papel com o nome do serviço, a data do pedido e a orientação de voltar no dia em que o exame sair, sem esperar agendamento. Escrevo na evolução, com estas palavras, o que o prontuário de novembro não tinha: disfagia progressiva, peso aferido, percentual de perda e hipótese principal de neoplasia.
Faça você
Hércules Pentecoste, 63 anos, aposentado, 104 quilos e 1,72 metro. Tem pirose há mais de vinte anos e toma omeprazol quase todo dia por conta própria. Fez uma endoscopia há seis anos, cujo laudo ele guardou numa pasta: esofagite de refluxo e segmento de epitélio colunar no esôfago distal, com biópsia descrevendo metaplasia intestinal e nenhuma displasia. Ninguém marcou nada depois disso, e ele nunca voltou. Há dois meses a comida começou a parar — primeiro carne, agora pão. Emagreceu, mas acha bom, porque estava tentando emagrecer há anos. Não fuma; bebe cerveja nos fins de semana. Você é o interno do ambulatório e tem esse laudo de seis anos atrás nas mãos.
Primeiro: qual é a doença que este laudo antigo descreve, e por que ela importa hoje
Nomeie o achado do laudo de seis anos atrás e diga qual dos dois cânceres de esôfago ele antecede. Diga também qual é a sequência biológica que liga um ao outro, e em que ponto dessa sequência estava o exame que ele guardou na pasta.
Segundo: a perda de peso que ele considera boa notícia
Descreva o que você faz com a frase emagreci e achei bom. O que exatamente você pergunta, o que você mede, e o que você calcula antes de decidir se essa perda é a que ele buscava ou a que a doença produziu.
Terceiro: o que se pede agora, e em que ordem
Escreva o exame que vem primeiro e a razão pela qual ele vem primeiro mesmo havendo um laudo antigo com diagnóstico conhecido. Depois escreva, palavra por palavra, o corpo do pedido — inclusive a frase que faz correr o prazo legal dos exames, e por que ela precisa estar escrita daquele jeito.
Quarto: o que você escreve no prontuário sobre os seis anos sem exame
Diga o que existe de régua brasileira sobre com que intervalo se repete a endoscopia em quem tem esse achado, e o que você registra quando não há régua a citar. Diga também o que muda no seu raciocínio o fato de a biópsia antiga não descrever displasia.
Quinto: a conversa de hoje
Escreva as duas ou três frases que você diz a ele agora, sabendo que ainda não há diagnóstico. Diga o que você não promete e o que você não antecipa.
Continuidade do caso e prática do internato
Apresente Baltazar em quatro partes: suspeita, confirmação pendente, nutrição atual e próximo passo com responsável e prazo clínico.
Questão integrativa 1
Melhora da azia com omeprazol torna a disfagia de Baltazar benigna?
Questão integrativa 2
A alimentação deve esperar o estadiamento?
Questão integrativa 3
Biópsia negativa encerra uma estenose clinicamente suspeita?
Questão integrativa 4
Ressecável significa que o paciente suporta a operação?
Questão integrativa 5
Tratamento paliativo significa deixar de tratar disfagia?
Questão integrativa 6
Prazo legal é a data ideal para marcar o tratamento?
Ver como fecharíamos
Primeiro: o laudo descreve esôfago de Barrett — metaplasia intestinal substituindo o epitélio escamoso do esôfago distal por exposição prolongada ao refluxo. É a condição precursora do adenocarcinoma, não do carcinoma escamoso, e a sequência é metaplasia, displasia de baixo grau, displasia de alto grau e adenocarcinoma. O exame de seis anos atrás o pegou no primeiro degrau, sem displasia. Segundo: perda de peso desejada e perda de peso por obstrução são coisas diferentes e a diferença está nos números e no mecanismo. Pergunte quantos quilos, em quanto tempo, e se ele mudou o que come — ele mudou, porque a carne saiu do prato. Pese hoje, procure um peso anterior no prontuário, calcule o percentual e o percentual por mês, e escreva os dois. Perda de peso não intencional com disfagia, em adulto, é câncer de esôfago até prova em contrário, e o fato de ele desejar emagrecer não converte perda por obstrução em perda saudável. Terceiro: endoscopia digestiva alta com biópsia, e ela vem primeiro porque o diagnóstico antigo não diz nada sobre a lesão de hoje — Barrett conhecido não dispensa nem antecipa nada, e disfagia nova em quem tem Barrett procura exatamente o adenocarcinoma. No corpo do pedido: disfagia esofágica progressiva há dois meses, hoje para pão; perda ponderal não intencional em quilos, percentual e tempo; peso aferido hoje; esôfago de Barrett com metaplasia intestinal documentado em endoscopia de seis anos atrás, sem vigilância desde então; e a frase que fecha, hipótese diagnóstica principal de neoplasia de esôfago, solicitação fundamentada. Ela precisa estar escrita assim porque o parágrafo terceiro do artigo segundo da Lei nº 12.732, incluído pela Lei nº 13.896 de 2019, exige as duas condições: hipótese principal de neoplasia maligna e solicitação fundamentada. Peça a tomografia de tórax, abdome e pelve em paralelo, deixando escrito que ela não precede a endoscopia. Quarto: não há régua brasileira de intervalo. Os documentos federais nomeiam o esôfago de Barrett — como fator de risco cuja displasia é lesão precursora, como complicação que qualifica encaminhamento cirúrgico, e, no texto preliminar de 2026, como condição de alto risco que demanda avaliações periódicas — e nenhum deles fixa de quanto em quanto tempo, com que método, ou a quem cabe organizar isso. Registre no prontuário, portanto, a data da endoscopia anterior, exatamente o que ela mostrou, o fato de a biópsia não descrever displasia, os seis anos sem repetição, e a decisão que você tomou hoje com a sua justificativa. Ausência de displasia no exame antigo reduz a probabilidade prévia, e não afasta nada: displasia pode ter surgido em seis anos, e a queixa de hoje é sintoma, não vigilância — o paciente saiu da vigilância e entrou na investigação no momento em que a comida começou a parar. Quinto: diga que a queixa de agora precisa ser olhada por dentro, que o exame antigo mostrou uma alteração que exige atenção quando aparece sintoma novo, e que o exame resolve numa manhã. Não prometa que não é nada, não antecipe a palavra câncer antes de haver laudo, e não transforme os seis anos sem exame em cobrança contra ele. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. A progressão e a perda de peso permanecem sinais de alarme e precisam ser investigadas. 2. Não. Avaliar ingestão e definir suporte seguro desde a suspeita. 3. Não. Rever qualidade da amostra e discutir repetição ou outro método conforme a hipótese. 4. Não. Ressecabilidade e operabilidade são perguntas diferentes, integradas na decisão. 5. Não. Alívio de sintomas e suporte continuam objetivos importantes, com ou sem tratamento antitumoral. 6. Não. É referência de acesso; prioridade e antecipação dependem da necessidade clínica.
O art. 2º da Lei 12.732/2012 conta o prazo de até 60 dias para o primeiro tratamento no SUS a partir do diagnóstico firmado em laudo patológico, ou em prazo menor conforme a necessidade terapêutica registrada. No caso, o marco é o dia 31; estadiamento e encaminhamento posteriores não reiniciam a contagem. Isso não significa que toda a fase diagnóstica esteja sem proteção legal: o §3º, incluído pela Lei 13.896/2019, prevê prazo máximo de 30 dias para exames necessários à elucidação quando a principal hipótese é neoplasia maligna, mediante solicitação médica fundamentada. Essa regra não deve ser confundida com um prazo específico e automático de 30 dias contado da biópsia para qualquer laudo.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Reescreva de memória, sem consultar: as quatro perguntas que caracterizam a disfagia e o que cada resposta procura; a frase exata que precisa estar num pedido de endoscopia para acionar o prazo de trinta dias, com as duas condições que a lei exige; os dois relógios legais, com o número da lei, o prazo e o ato a partir do qual cada um corre; e a razão pela qual a biópsia é obrigatória mesmo diante de um tumor visível na endoscopia. Depois escreva o corpo completo do pedido de endoscopia de Baltazar, com peso, percentual, hábitos, hipótese principal e a advertência sobre estase e sedação, e confira se você incluiu a data. Por fim, refaça a conta do aporte calórico para um adulto de 52 quilos com fórmula de 1,0 e de 1,5 quilocaloria por mililitro.
Em 30 dias
Sem consultar, responda em voz alta: quais são os dois cânceres de esôfago, quem adoece de cada um, onde cada um fica e o que muda no interrogatório; por que a disfagia é sintoma tardio, em termos de mecanismo; por que o estadiamento aqui decide tratamento e não só prognóstico, citando a anatomia linfática que explica isso; e por que a nutrição não pode esperar o estadiamento. Depois separe três prontuários seus em que a queixa era que a comida não descia, e confira em cada um duas coisas: havia peso aferido, com data? A hipótese principal chegou a ser escrita no pedido do exame? Em quantos dos três? Por fim, releia o capítulo Ninguém olha a boca, na apostila de Cirurgia de Cabeça e Pescoço, com a pergunta do segundo primário na cabeça, porque o paciente que você encaminhar de lá vai voltar para cá, e vice-versa.
Agora atenda
Agora atenda: homem de 61 anos, ex-cortador de cana, chega ao ambulatório dizendo que a comida está parando há uns três meses. Começou com carne, agora acontece com arroz; há duas semanas passou a tomar sopa. Traz uma receita de omeprazol de dois meses atrás e diz que ajudou na azia. Fuma desde jovem e bebe pinga todo dia. Está com a voz diferente há um mês e acha que é resfriado. Não sabe quanto pesa. Você tem quinze minutos e a preceptora passa aqui daqui a pouco. Caracterize a disfagia com o gesto, pese o paciente e calcule o percentual da perda, olhe a boca e escute a voz, palpe as supraclaviculares, e escreva o pedido do primeiro exame com a hipótese principal e a advertência de segurança — e decida, antes de sair da sala, o que ele vai comer nas próximas semanas.
