Cirurgia GeralCirurgia do Aparelho Digestivo

Antes de sangrar, é só um exame

Hipertensão portal e suas complicações cirúrgicas

Prevenir descompensação e sangramento portal, distinguir profilaxia primária e secundária e ajustar betabloqueio pela tolerância e pela função renal.

Fontes deste capítulo

Bittencourt PL, Strauss E, Farias AQ, Mattos AA, Lopes EP. Variceal bleeding: update of recommendations from the Brazilian Association of Hepatology. Arquivos de Gastroenterologia. 2017;54(4). DOI 10.1590/S0004-2803.201700000-79

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento de Doenças Transmissíveis. Vigilância da esquistossomose mansoni: diretrizes técnicas. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 116 p. ISBN 978-65-5993-678-6

Universidade Federal do Rio Grande do Sul, TelessaúdeRS-UFRGS; Rio Grande do Sul, Secretaria Estadual da Saúde. Protocolos de Regulação Ambulatorial: Gastroenterologia adulto. 3ª edição. Porto Alegre: UFRGS, 2025

Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 8.041, de 25 de setembro de 2025, republicada no Diário Oficial da União de 21 de janeiro de 2026, edição 14, seção 1, página 78 — acrescenta o Anexo I-A à Portaria de Consolidação GM/MS nº 4, de 28 de setembro de 2017, e define o Regulamento Técnico do Sistema Nacional de Transplantes

Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024

01

Responda antes de ler

Homem de 32 anos, procedente de área endêmica, com forma hepatoesplênica da esquistossomose mansoni. Apresenta baço palpável a oito centímetros do rebordo costal, hemoglobina 11,8 g/dL, leucócitos 3.200/mm³ e plaquetas 68.000/mm³, com albumina, bilirrubinas e tempo de protrombina normais. Nunca sangrou e está assintomático. Qual é a conduta adequada em relação ao hiperesplenismo?

02

O paciente que você vai ver

Dez e vinte de uma quarta-feira, no ambulatório do serviço de cirurgia digestiva de um hospital que é referência para vinte e dois municípios. Catorze nomes na agenda da sala 4, e o interno da sala é você. O sétimo nome é Vanderlino Rovai, 58 anos, motorista de van escolar; ele entra andando, bem-humorado, com uma pasta plástica e uma pergunta pronta: se dá para o senhor doutor assinar um papel dizendo que ele está apto, porque a prefeitura pediu.

Dentro da pasta há três folhas. Um resumo de alta de dez meses atrás, de outro hospital, com a frase internação por ascite, cirrose hepática, alta em bom estado geral. Um hemograma de sete semanas atrás pedido pela unidade básica: hemoglobina 12,9, leucócitos 4.100, plaquetas 92.000. E uma ultrassonografia de abdome do mesmo dia do hemograma, cujo laudo termina com quatro palavras que ninguém sublinhou: fígado de contornos irregulares, esplenomegalia homogênea.

Ele não tem queixa. Não vomitou sangue, não teve fezes pretas, não inchou de novo desde a alta, não bebe há um ano e três meses e faz questão de dizer isso duas vezes. Ao exame, a barriga é mole e indolor, sem macicez móvel, com um baço que você alcança dois dedos abaixo do rebordo quando ele inspira; sobre o abdome, um desenho fino de veias que sobem do umbigo para os lados e que ele nunca reparou. Pressão 118 por 76, frequência 78.

A preceptora, Capitulina Achaval, atende na sala ao lado com a porta entreaberta e faz uma pergunta que decide a consulta inteira: ele já fez endoscopia alguma vez? Você procura na pasta, procura no sistema, liga para a unidade básica. Não fez. Dez meses depois de uma internação por ascite, com plaqueta de 92 mil, baço palpável e circulação colateral na parede, ninguém nunca olhou o esôfago dele por dentro. E o motivo é o mesmo em todo lugar: ele nunca sangrou, e o que não sangra não entra na fila.

É por isso que este capítulo existe, e é a diferença entre ele e o capítulo vizinho de hemorragia digestiva alta. Lá, o paciente já está sangrando e todo o trabalho é reagir bem e rápido. Aqui, a lesão que vai sangrar existe há anos, é visível por um exame barato e disponível, e tem tratamento que reduz a chance de o primeiro sangramento acontecer. O Vanderlino é o paciente em que a medicina ainda pode chegar antes — e o único jeito de chegar antes é alguém, hoje, escrever um pedido de endoscopia numa consulta em que ninguém está com pressa.

As perguntas que organizam esta consulta, na ordem, são: este paciente tem hipertensão portal, e o que no exame dele já responde isso? A endoscopia de rastreio é para agora ou para quando? Se ela mostrar varize, o que decide entre remédio e ligadura, e como se acerta a dose de um remédio cujo alvo não é a pressão? E se o fígado dele estivesse funcionando bem — se a doença fosse esquistossomose, e não cirrose —, o que mudaria?

03

Quem adoece disso

A régua brasileira da hipertensão portal organiza a doença em cinco estágios, e o que ela mede não é sintoma: é gradiente de pressão somado à presença de varize e de evento clínico. No estágio 1 há hipertensão portal leve e nenhuma varize, e a mortalidade em cinco anos é de 1,5%. No estágio 2 já existe varize, a hipertensão é clinicamente significativa, e a mortalidade em cinco anos sobe para 10%. No estágio 3, definido pelo sangramento varicoso sem outro evento, ela é de 20%. Nos estágios seguintes, com outros eventos de descompensação e com o segundo evento, ela chega a 30% e a 88%.

Leia essa escala do jeito que ela importa para a consulta do Vanderlino. Entre não ter varize e ter varize, a mortalidade em cinco anos multiplica por quase sete, e nada disso depende de o paciente se sentir mal: o estágio 2 é assintomático por definição, porque a varize que ainda não sangrou não dói, não incha e não aparece em exame de sangue. O paciente do estágio 2 é indistinguível do paciente do estágio 1 no consultório. A única coisa que os separa é uma endoscopia que alguém pediu.

O outro lado da estatística é o que ela promete a quem age. O mesmo documento descreve a progressão entre os estágios em cinco anos, e ela é lenta nas faixas iniciais: uma minoria dos pacientes sem varize passa para o estágio com varize, e uma fração pequena salta direto para o sangramento. Isso quer dizer que a janela em que o rastreio cabe é medida em anos, e não em semanas — e é exatamente por isso que ela se perde. Nada obriga ninguém a pedir a endoscopia nesta consulta, e nada acusa quem não pediu, até o dia em que a ambulância chega com hematêmese.

No Brasil, cirrose não é a única porta de entrada dessa síndrome, e a segunda porta tem geografia própria. Na esquistossomose mansoni, o documento federal registra que na faixa de 10 a 14 anos metade dos pacientes com a forma hepatoesplênica ainda não tem hipertensão portal, e que entre os adultos ela é a expressão dominante da doença: 30% a 40% apresentam hemorragia digestiva por rotura de varizes esofagogástricas ou por gastropatia da hipertensão portal. É um doente jovem, muitas vezes na segunda ou terceira década, com fígado que ainda funciona — e que, por isso mesmo, atravessa serviços inteiros sem ser rastreado, porque a albumina normal tranquiliza quem só sabe procurar cirrose.

Some as duas populações e você tem o retrato do problema. De um lado, o egresso de uma internação por ascite que volta à unidade básica e some do radar da especialidade. Do outro, o adulto jovem de área endêmica cujo baço enorme foi anotado em três consultas como esplenomegalia a esclarecer. Nenhum dos dois tem sintoma que force a mão de ninguém, e os dois têm exatamente a mesma lesão esperando no terço distal do esôfago.

04

Por que acontece o que acontece

Hipertensão portal é pressão alta num sistema venoso que não foi feito para pressão. O sangue de todo o intestino, do baço e do pâncreas converge para a veia porta, atravessa o fígado por dentro dos sinusoides e sai pelas veias hepáticas para a cava. Qualquer obstáculo nesse trajeto sobe a pressão a montante, e o corpo responde do único jeito que sabe: abrindo caminhos alternativos. Esses caminhos são veias que já existiam, finas, e que passam a carregar um fluxo para o qual não têm parede.

O primeiro raciocínio útil é topográfico, porque o lugar do obstáculo prediz o que o fígado ainda consegue fazer. Se o bloqueio é pré-hepático — trombose de veia porta ou de veia esplênica —, o fígado nunca foi doente e continua funcionando: albumina, bilirrubina e coagulação normais, hipertensão portal instalada. Se é pós-hepático — obstrução das veias hepáticas ou da cava, e também a insuficiência cardíaca direita e a pericardite constritiva —, o fígado é vítima de congestão e a doença de fundo é vascular ou cardíaca. E, dentro do fígado, ainda há duas topografias diferentes: a esquistossomose bloqueia antes do sinusoide, e a cirrose bloqueia no sinusoide e depois dele.

Essa distinção não é vocabulário. O sinusoide é onde o hepatócito troca com o sangue; quem trava antes dele mantém a perfusão do parênquima e mantém a função. Por isso o esquistossomótico com fibrose de Symmers pode ter baço enorme, varizes de grosso calibre e plaquetas de 60 mil com albumina, bilirrubina e coagulação impecáveis — e por isso a cirrose, que destrói arquitetura no ponto exato da troca, junta hipertensão portal com insuficiência de síntese. A consequência prática é toda a diferença do capítulo: um paciente cuja função hepática está preservada tolera uma operação de grande porte, e um Child-Pugh C não tolera.

O segundo raciocínio é hemodinâmico, e é o que explica por que a doença piora sozinha. Pressão é fluxo vezes resistência, e na hipertensão portal os dois lados sobem. A resistência aumenta pela fibrose e pelos nódulos, mas também por tônus vascular ativo dentro do fígado. E o fluxo aumenta porque o território esplâncnico se dilata, mandando mais sangue para dentro de um sistema que já não escoa. É essa dupla que faz o quadro progredir mesmo quando a doença de base está parada, e é ela que o tratamento tenta desmontar.

Os números que dividem essa escala vêm da medida do gradiente entre a veia hepática ocluída e a livre. Acima de 5 mmHg existe hipertensão portal; acima de 10 ela é chamada de clinicamente significativa, e é a partir daí que varizes aparecem e que a doença começa a descompensar; acima de 12 a varize pode romper; acima de 20 na admissão de um sangramento, a chance de o tratamento falhar aumenta. Guarde os quatro números pelo que eles significam, não para calcular: no Brasil essa medida é invasiva e não está disponível na rotina, e o que se usa no lugar dela é olhar por dentro do esôfago.

Por que rompe justamente o esôfago distal, e não qualquer colateral? Porque ali a veia dilatada fica logo abaixo de uma mucosa fina, sem nada por cima, projetada para dentro da luz. A tensão que a parede da veia precisa suportar cresce com a pressão dentro dela e com o raio do vaso, e diminui com a espessura da parede — de modo que uma varize grossa rompe com uma pressão que uma varize fina suporta. É essa física, e não um número de pressão, que faz o calibre da varize e os sinais vermelhos, que são pontos de parede afinada, valerem mais do que qualquer exame de sangue para prever quem vai sangrar.

O baço cresce pelo mesmo motivo que as veias do abdome aparecem: ele drena para o sistema porta e fica congesto. Um baço grande e congesto retém plaquetas em trânsito, e é isso que produz a plaquetopenia deste doente — uma redistribuição, não uma destruição imune e não uma falência de medula. Guarde a consequência, porque ela é a trava deste capítulo: a plaqueta baixa aqui é o termômetro da pressão portal, não a doença. Tirar o baço faz o número subir e não faz a pressão descer, e ainda entrega ao paciente um risco infeccioso permanente por uma conta que não era dele.

Falta o mecanismo do tratamento, e ele é a razão de o alvo do remédio não ser a pressão arterial. O betabloqueador não seletivo derruba o débito cardíaco pelo bloqueio beta-1 e, ao bloquear também os receptores beta-2 do território esplâncnico, deixa o tônus alfa sem oposição — o que estreita as artérias que alimentam o sistema porta e reduz o fluxo que chega nele. Menos fluxo, menos pressão portal. Como o efeito que interessa é a queda do débito, o marcador de que a dose chegou onde precisava é a frequência cardíaca, e não o número do manguito. O carvedilol acrescenta bloqueio alfa-1, que relaxa também a resistência dentro do fígado — ganha de um lado e cobra do outro, porque derruba mais a pressão arterial sistêmica.

Dois cortes da parede esofágica comparam pequenas veias submucosas com veias dilatadas sob mucosa ainda íntegra.
As varizes esofágicas são veias dilatadas na submucosa e podem estar presentes antes de qualquer sangramento. A figura mostra a relação das veias com as camadas da parede, sem estimar pressão ou risco individual de ruptura. A avaliação endoscópica e o contexto da hipertensão portal orientam prevenção e acompanhamento.
05

Como se apresenta de verdade

Hipertensão portal quase nunca se apresenta: ela é encontrada. O paciente que a tem chega por outro motivo — um atestado, um hemograma de rotina, uma ultrassonografia pedida por dor de outro órgão, uma alta de internação por ascite —, e o achado está numa folha que já passou por três mãos sem que ninguém o lesse como um diagnóstico. Reconhecer isso é a habilidade deste bloco, e ela é de olho e de dedo, não de tecnologia.

O que este capítulo não faz: ele não conduz o episódio de sangramento, que é do capítulo de hemorragia digestiva alta desta mesma apostila, dono do varicoso agudo, do balão e da ligadura na urgência; e não conduz a cirrose descompensada, que é do capítulo de cirrose hepática e suas complicações, na apostila de Gastroenterologia, dono da ascite, da peritonite bacteriana espontânea e da encefalopatia. O que fica aqui é o intervalo entre os dois: o paciente que tem a lesão e ainda não sangrou.

O paciente que tem e não sabe

A varize esofágica não produz sintoma nenhum até o dia em que rompe. Não dói, não dá disfagia, não dá refluxo, não muda o apetite e não aparece em nenhum exame de sangue que a peça diretamente. O paciente do estágio em que já existe varize é, na consulta, indistinguível do paciente que ainda não a tem — e essa indistinguibilidade é a razão de a endoscopia de rastreio existir.

Isso significa que a apresentação clínica que interessa não é uma queixa, e sim um perfil. O gatilho para pensar em hipertensão portal é a soma de um contexto com um achado: hepatopatia conhecida ou provável de qualquer causa; história de internação prévia por ascite, por confusão mental ou por sangramento digestivo; consumo pesado de álcool atual ou pregresso; hepatite B ou C, tratada ou não; obesidade com diabetes; e, no Brasil, contato com água doce em área endêmica de esquistossomose.

Some a esse contexto uma lista curta de achados que o manual nacional de hepatologia manda procurar ativamente em todo paciente hospitalizado, e que valem igualmente no ambulatório: aranhas vasculares, eritema palmar, circulação colateral na parede abdominal, ginecomastia, atrofia testicular, contratura de Dupuytren, hepatoesplenomegalia, icterícia, ascite, asterixe, inversão do ritmo do sono, episódios não explicados de confusão mental, plaquetopenia, prolongamento do tempo de protrombina e resposta exagerada a cumarínico.

Um cuidado que evita o erro oposto: nenhum desses achados é sensível. A ausência de aranha vascular, de eritema palmar e de ascite não exclude nada, e a maioria dos pacientes com hipertensão portal compensada não tem estigma visível nenhum. Eles servem para levantar a hipótese, e nunca para derrubá-la — quem usa a normalidade do exame físico para dispensar a endoscopia inverte o valor da ferramenta.

Os três achados que decidem, com a força que cada um tem

Três achados carregam quase todo o peso na consulta de porta de entrada, e o protocolo público de regulação ambulatorial da gastroenterologia adulta do Rio Grande do Sul mede a força de cada um em pacientes com hepatopatia conhecida ou presumida. Veias abdominais dilatadas: especificidade de 90% e razão de verossimilhança positiva de 11. Ascite: especificidade de 95% e razão de 7,2. Esplenomegalia: especificidade de 90% e razão de 3,5.

No laboratório, o número que mais informa é a plaqueta, e ele tem duas réguas no mesmo documento: abaixo de 110 mil, especificidade de 95% e razão de verossimilhança positiva de 9,8; abaixo de 160 mil, especificidade de 88% e razão de 6,3. A leitura prática é que o corte mais baixo é o que praticamente fecha a suspeita, e o corte mais alto é o que abre a investigação. A albumina abaixo de 3,5 g/dL tem especificidade de 90% e razão de 4,4.

O que essas medidas dizem, juntas, é que se trata de achados de alta especificidade e baixa sensibilidade: quando estão presentes, mudam muito a probabilidade; quando ausentes, quase não a reduzem. É por isso que a soma vale mais que qualquer item isolado. O Vanderlino tem veias abdominais dilatadas, baço palpável e plaqueta de 92 mil, cada um com razão de verossimilhança acima de 3, num paciente já rotulado como cirrótico numa alta hospitalar. Não há dúvida diagnóstica a resolver: há um exame a pedir.

Aprenda também a olhar do jeito certo, porque a circulação colateral se perde por técnica. Ela aparece na parede anterior do abdome, tipicamente irradiando do umbigo, e é mais visível com o paciente em decúbito dorsal, com boa luz tangencial e com o abdome relaxado — não sob o lençol e não com o paciente sentado e vestido. Quem procura por hábito acha em pacientes que ninguém tinha marcado. E o baço se palpa em decúbito dorsal e em decúbito lateral direito, com a mão acompanhando a inspiração a partir da fossa ilíaca esquerda: começar alto é a maneira clássica de passar por cima de um baço grande sem senti-lo.

Um último achado que costuma ser lido como outra coisa: plaquetopenia isolada, sem anemia importante e sem leucopenia grave, num adulto sem sangramento, é hipertensão portal até prova em contrário, e não púrpura. A leitura completa do hemograma e o raciocínio das citopenias pertencem ao capítulo de hemograma, na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito; o que este capítulo cobra é a associação — plaqueta baixa mais baço palpável mais hepatopatia é uma síndrome, não três achados.

Pré, intra e pós-hepática: como se decide qual é, e por que importa

A pergunta que separa as três não é acadêmica: ela decide o que se pode oferecer ao paciente. A chave é comparar duas coisas que costumam vir na mesma folha — o quanto o sistema porta está congestionado e o quanto o fígado ainda fabrica. Baço grande, varizes e plaqueta baixa medem a primeira. Albumina, bilirrubina e tempo de protrombina medem a segunda. Quando as duas andam juntas, é doença do parênquima; quando a primeira está alterada e a segunda está normal, o obstáculo está fora do sinusoide.

Na causa pré-hepática, a trombose de veia porta é o exemplo que mais aparece no Brasil, e ela pede um raciocínio próprio: além do manejo da varize, existe a questão da anticoagulação, e a régua nacional é explícita ao dizer que, quando a anticoagulação estiver indicada, ela começa depois de estar feita a profilaxia adequada do sangramento varicoso — a ordem é essa e não a inversa. A investigação da trombofilia e a decisão de anticoagular por tempo indeterminado saem do escopo deste capítulo; o que pertence a ele é não anticoagular um paciente cuja varize ninguém olhou.

Na causa pós-hepática, o sinal que muda tudo é a estase sistêmica: turgência jugular, hepatomegalia dolorosa, refluxo hepatojugular, edema que não é só de membros inferiores. Insuficiência cardíaca direita e pericardite constritiva produzem fígado congesto e podem produzir ascite, e o tratamento delas é cardiológico — o manejo dessas doenças é dos capítulos próprios da apostila de Cardiologia. Um cirrótico não costuma ter jugular cheia; quando ela está cheia, desconfie de que o fígado é vítima e não réu.

Dentro do fígado, a distinção que mais muda conduta no Brasil é entre a fibrose pré-sinusoidal da esquistossomose e a cirrose. Ela se faz com três exames baratos e uma pergunta de anamnese, está na seção seguinte, e vale a pena fazê-la antes de qualquer decisão terapêutica — porque a resposta muda a expectativa de vida, a elegibilidade cirúrgica e a conversa com a família.

O esquistossomótico: baço enorme, fígado que trabalha

Este é o doente que o Brasil tem e os documentos internacionais não descrevem. Na forma hepatoesplênica compensada, o exame físico encontra um fígado grande e duro, com predomínio do lobo esquerdo, e um baço indolor de consistência firme que às vezes ultrapassa a linha média. O paciente costuma referir queixas inespecíficas — dor abdominal atípica, alteração de hábito intestinal, peso no hipocôndrio esquerdo pelo tamanho do baço — e, com frequência, o primeiro sinal de descompensação é a hemorragia digestiva.

O que fecha a hipótese, segundo as diretrizes técnicas federais da esquistossomose, é uma combinação em que metade dos itens é normal: esplenomegalia, plaquetopenia, provas de função hepática normais e espessamento periportal na ultrassonografia, num paciente com história de contato com água doce em área endêmica. A normalidade da albumina e da coagulação não afasta a doença — ela é um dos critérios, e a razão está no ponto do bloqueio, que é pré-sinusoidal.

As diretrizes federais separam as variantes com um cuidado que vale copiar para o prontuário: a forma hepatoesplênica compensada pode existir sem hipertensão portal, o que é o comum em crianças, ou com hipertensão portal, e neste caso com ou sem hemorragia digestiva prévia, com hipoevolutismo e com hiperesplenismo. A forma descompensada é a que traz ascite, icterícia ou encefalopatia. E há a forma complicada, que inclui a associação com outras hepatopatias — hepatite crônica, cirrose e trombose portal. Essa última linha é a que salva o interno de um erro: as duas doenças coexistem, e o esquistossomótico também pode ser cirrótico.

Chegamos à fronteira que mais importa neste capítulo, e ela exige ser dita com todas as letras, porque havia um buraco onde ninguém procurava. A doença esquistossomose — o ciclo, o diagnóstico parasitológico, o praziquantel, a notificação e o controle — é do capítulo O vermífugo de todo mundo, na apostila de Infectologia, e este capítulo cede a ele o assunto inteiro. Aquele capítulo, por sua vez, cede o que vem depois da fibrose instalada; e como o destino natural dessa cessão seria o capítulo de cirrose hepática, que é dono da cirrose e não deste doente, este capítulo assume a hipertensão portal do esquistossomótico: o rastreio da varize, a profilaxia do primeiro sangramento, o baço, a indicação cirúrgica e o encaminhamento. É o mesmo eixo que ele já sustenta para o cirrótico, aplicado ao doente cujo fígado funciona.

E há uma coisa que o praziquantel não faz, e que precisa ser dita ao paciente na mesma consulta em que ele é prescrito: o que ele faz é impedir que novos ovos sejam postos, o que trava o avanço da lesão; o que ele não faz é desmanchar a fibrose que já existe. O baço não volta ao tamanho normal, a varize não some, e o rastreio continua sendo necessário depois do tratamento. Quem tratou e não rastreou fez metade.

Quem já sangrou uma vez, e por que ele volta a este capítulo

Quem já sangrou precisa de prevenção secundária. No percurso Baveno VII, a primeira linha usual combina ligadura elástica com betabloqueador não seletivo tradicional ou carvedilol quando tolerado. A restrição ao carvedilol no documento nacional de 2017 reflete a evidência então disponível e não deve ser apresentada como proibição atual. Ressangramento ou falha da estratégia exige reavaliação especializada, incluindo indicação de TIPS conforme o caso.

A fronteira aqui é fina e vale desenhá-la: o episódio agudo, a escada de resgate, o balão, o TIPS de urgência e a prescrição de alta que fecha aquela internação são do capítulo de hemorragia digestiva alta desta apostila. O que volta para cá é o seguimento: o paciente que apareceu no ambulatório seis semanas depois com uma receita de propranolol que ninguém titulou, sem data marcada para a próxima sessão de ligadura, ou com a ligadura interrompida na terceira sessão porque ele achou que já estava curado.

Repare na assimetria de exigência entre as duas profilaxias, porque ela é uma pergunta de prova e uma decisão de vida. Antes do primeiro sangramento, escolhe-se uma coisa ou outra — droga ou ligadura —, e a régua nacional é explícita ao dizer que não há razão para combinar. Depois do primeiro sangramento, a recomendação é combinar as duas. O que muda entre os dois cenários não é a lesão: é o risco, e ele já se manifestou uma vez.

Existe ainda um paciente que este capítulo devolve inteiro: aquele em que a hipertensão portal aparece junto com um nódulo hepático. A investigação e a decisão sobre carcinoma hepatocelular e metástases, com o que o Child-Pugh define ali, são do capítulo cujo tema é tumores hepáticos e Child-Pugh, nesta mesma apostila. O que este capítulo pede é apenas que o nódulo não faça esquecer a varize — as duas coisas convivem no mesmo fígado e cada uma tem porta própria.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação aqui tem uma inversão em relação a quase todo capítulo de medicina: o diagnóstico da doença de base já costuma estar feito, e o que falta é o estadiamento de uma lesão que ninguém olhou. As perguntas, na ordem em que a consulta as responde, são: este paciente precisa de endoscopia de rastreio? Se sim, para quando? O que o laudo precisa dizer para virar decisão? E, se o fígado dele funciona, qual é a causa que não é cirrose?

Vale uma regra de leitura para tudo o que segue: nenhum exame deste capítulo é urgente, e nenhum deles pode ser adiado indefinidamente por isso. O rastreio de varize é a única conduta deste capítulo que se perde exclusivamente por falta de alguém escrever o pedido.

A endoscopia de rastreio: quem entra, e o que ela responde

A recomendação nacional é ampla de propósito: o rastreio de varizes esofágicas deve ser feito em todos os pacientes com fibrose avançada e cirrose sob risco de hipertensão portal clinicamente significativa, independentemente da gravidade da disfunção hepática. Leia a última oração com atenção, porque é ela que pega o Vanderlino: não é preciso ser Child-Pugh C, não é preciso ter ascite e não é preciso ter bilirrubina alterada. Um Child-Pugh A compensado entra do mesmo jeito.

A endoscopia digestiva alta é descrita pelo mesmo documento como o método mais confiável de rastreio, e em 2017 o consenso somava a isso uma razão econômica: a endoscopia é um procedimento de baixo custo e amplamente disponível na maioria dos centros brasileiros, enquanto a alternativa não invasiva é mais cara, depende de experiência do operador e, naquele ano, não estava disponível nem coberta no sistema público. A parte da disponibilidade envelheceu — o protocolo federal de hepatite C, de 2026, já descreve a elastografia disponível em alguns serviços do país —, mas a endoscopia continua sendo o método mais confiável, e só ela mostra o que existe na parede do esôfago.

O exame responde três coisas de uma vez, e é por isso que ele decide sozinho a conduta do ano seguinte: se existe varize, qual o calibre dela e se há sinais vermelhos na parede. Não existe uma quarta pergunta, e não é preciso nenhum exame de sangue para interpretar o resultado. Isso é raro em medicina e vale usar como argumento quando alguém quiser adiar o pedido por falta de exame complementar.

Existe uma indicação de repetir que não depende de calendário: a endoscopia deve ser realizada ou repetida sempre que a cirrose descompensar. Um paciente que fez rastreio normal há dois anos e internou por ascite este mês não está no intervalo antigo — ele mudou de estágio, e o exame recomeça. Reconhecer descompensação nova é do capítulo de cirrose hepática e suas complicações, na apostila de Gastroenterologia; reagir a ela com um pedido de endoscopia é deste.

O que precisa estar escrito no pedido, e o que precisa voltar no laudo

Um pedido de endoscopia que diz apenas cirrose, investigar não devolve o laudo de que você precisa, e o custo desse pedido malfeito é uma repetição de exame que o paciente não vai fazer. Escreva a indicação com o nome próprio — rastreio de varizes esofagogástricas em hepatopatia crônica — e peça as três informações que decidem: presença de varizes, calibre e presença de sinais vermelhos.

A classificação de calibre adotada pela régua nacional tem três faixas e é medida em milímetros: fina abaixo de 3 mm, média entre 3 e 5 mm, grossa acima de 5 mm. Essa partição foi conferida e fecha — os valores exatos de 3 mm e de 5 mm caem na faixa média e em nenhuma outra, e não sobra nenhuma medida sem classe, o que é mais raro do que parece em tabela de corte. Ainda assim, peça o número em milímetros junto do adjetivo: quem recebe apenas a palavra 'médias' não consegue comparar com a endoscopia do ano que vem.

Sinais vermelhos são marcas na superfície da varize que correspondem a pontos de parede afinada, e o documento pede que a presença deles seja registrada. Eles não mudam o calibre e mudam a conduta: uma varize fina com sinal vermelho é tratada como de alto risco, e uma varize fina sem sinal vermelho, num paciente compensado, é o caso em que a própria régua nacional diz que a evidência não basta para recomendar.

Some ao pedido o dado que o endoscopista não tem: se o paciente já sangrou alguma vez, se está em uso de betabloqueador e há quanto tempo, e qual a classe funcional. Um exame de rastreio e um exame de controle depois de erradicação são leituras diferentes do mesmo procedimento, e quem escreve o pedido é quem determina qual das duas vai voltar.

Os intervalos, e o que 'doença ativa' quer dizer

Aqui está o conteúdo que mais falta na prática e que menos se repete em aula. Quando a primeira endoscopia é normal — cirrose compensada, sem varizes —, a régua nacional manda repetir a cada dois anos se a doença hepática estiver ativa e a cada três anos se estiver inativa. Quando a primeira endoscopia mostra varizes finas, o intervalo encurta: a cada ano com doença ativa, a cada dois anos com doença inativa.

Doença inativa não é uma impressão clínica: o documento define os três exemplos que valem. Resposta virológica sustentada na hepatite C; carga viral indetectável sob tratamento na hepatite B; e abstinência alcoólica prolongada na doença hepática alcoólica. Fora desses três, a leitura padrão é doença ativa, e o intervalo é o mais curto.

Repare no que isso faz com o Vanderlino: um ano e três meses de abstinência comprovada é o argumento que muda o intervalo dele de dois para três anos se a endoscopia vier sem varize — e é o argumento que você deve escrever no prontuário, porque quem o vir daqui a dois anos não vai saber. Repare também no que isso faz com o cuidado: a decisão de intervalo é a única coisa neste capítulo que depende de o paciente ter parado de beber, e dizer isso a ele é mais persuasivo do que qualquer sermão.

Falta a regra que economiza exame e quase ninguém aplica: quem já está em profilaxia primária não precisa de endoscopia de vigilância. Uma vez que a decisão terapêutica foi tomada, repetir a endoscopia todo ano em quem toma betabloqueador não muda nada, porque o achado não mudaria a conduta. A exceção é quem escolheu o caminho endoscópico: ali as sessões de ligadura têm calendário próprio, e ele é de tratamento, não de vigilância.

O que não substitui a endoscopia no Brasil

O método mais confiável para medir hipertensão portal é o gradiente de pressão da veia hepática, e a própria régua nacional o descreve como invasivo e indisponível na prática clínica de rotina. Ele serve para uma coisa que vale conhecer sem esperar usar: avaliar resposta hemodinâmica ao betabloqueador, definida como queda de 20% no valor basal ou queda para abaixo de 12 mmHg. Como esse número não existe na maioria dos serviços, o que sobra como marcador de dose é a frequência cardíaca — e é bom saber que o marcador que usamos é um substituto, não o alvo verdadeiro.

É preciso separar duas perguntas. No critério Baveno VI, rigidez hepática por elastografia transitória abaixo de 20 kPa e plaquetas acima de 150 mil/mm³ identificam baixo risco de varizes que necessitam de tratamento, permitindo dispensar endoscopia de rastreio em pacientes compensados selecionados. Essa combinação não equivale a excluir hipertensão portal clinicamente significativa. Para essa segunda finalidade, o Baveno VII descreve rigidez ≤15 kPa com plaquetas ≥150 mil/mm³ na doença hepática crônica avançada compensada. Os limites devem ser aplicados à população e à finalidade validadas, com exame tecnicamente adequado; o corte de 15 kPa não é exclusivo da doença hepática gordurosa. Não preencher um desses critérios não confirma, por si só, hipertensão portal. A necessidade de endoscopia também depende do contexto e do uso de betabloqueador, considerando se o resultado mudará a conduta.

Fora essa combinação, achado isolado não decide. Plaqueta baixa levanta a suspeita e não mede o calibre da varize. Baço grande na ultrassonografia idem. Evidência de fluxo portal invertido, dilatação da veia porta, redução da velocidade de fluxo ou presença de colaterais em exame de imagem faz o diagnóstico de hipertensão portal clinicamente significativa, o que é uma informação diferente e não substitui a inspeção do esôfago: uma coisa é saber que a pressão está alta, outra é saber o que existe na parede que vai sangrar.

Escores não invasivos de fibrose — o APRI, calculado a partir da aspartato aminotransferase e da contagem de plaquetas, e o FIB-4, que acrescenta idade e alanina aminotransferase — aparecem nos protocolos públicos de regulação como ferramentas de triagem para dizer quem provavelmente tem cirrose. Eles ajudam a decidir quem investigar e não dizem nada sobre varize. A leitura das provas hepáticas que alimentam esses escores é do capítulo de provas hepáticas, e o que o tempo de protrombina alargado do hepatopata decide e não decide é do capítulo de coagulograma, os dois na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito.

Quando o fígado funciona: procurar a causa que não é cirrose

Diante de esplenomegalia com plaquetopenia, a primeira coisa a fazer não é pedir mais imagem: é pedir albumina, bilirrubinas e tempo de protrombina, e olhar para eles esperando que estejam normais. Se estiverem, o rótulo de cirrose que veio escrito em algum lugar não se sustenta, e a investigação muda de direção.

No Brasil, a primeira hipótese nesse cenário é a fibrose periportal da esquistossomose, e o exame que a confirma é barato: a ultrassonografia de abdome superior mostrando espessamento periportal, num paciente com história de contato com água doce em área endêmica. As diretrizes federais chamam a atenção para um detalhe que muda o valor do achado — nem todo baço palpável em área endêmica é da esquistossomose, e a combinação de palpação com ultrassonografia separa quatro grupos diferentes de pacientes, de modo que a imagem serve tanto para confirmar quanto para desinflar suspeitas.

A segunda hipótese é a obstrução da veia porta fora do fígado, e ela se procura no mesmo exame, com Doppler: trombo na luz, ausência de fluxo, transformação cavernomatosa. Vale lembrar a ordem que a régua nacional impõe nesse doente — quando houver indicação de anticoagulação, ela começa depois de estabelecida a profilaxia do sangramento varicoso.

A terceira é a causa pós-hepática, e ela costuma ser lembrada tarde. Procure estase sistêmica no exame físico e, havendo suspeita, o caminho é a avaliação cardiológica; as veias hepáticas e a cava também se avaliam no Doppler do mesmo exame de abdome. E existe uma quarta possibilidade que o interno precisa manter na cabeça porque muda tudo: as causas coexistem. As diretrizes federais listam explicitamente a forma esquistossomótica complicada com hepatite crônica ativa, com cirrose e com trombose portal — o que significa que achar uma causa não dispensa procurar as outras, e que sorologia para hepatites e história de álcool entram sempre.

O que precisa estar pronto antes de encaminhar

Encaminhamento sem conteúdo volta, e volta em meses. O protocolo público de regulação ambulatorial da gastroenterologia adulta do Rio Grande do Sul lista oito itens que o encaminhamento por suspeita ou diagnóstico de cirrose precisa trazer, e essa lista funciona como roteiro de consulta mesmo fora daquele estado: sinais e sintomas; se há suspeita ou diagnóstico de cirrose e com base em quê; se houve descompensação prévia — sangramento varicoso, ascite, encefalopatia ou peritonite bacteriana espontânea — e qual; exames laboratoriais com data, incluindo aminotransferases, hemoglobina, plaquetas, albumina, tempo de protrombina e bilirrubinas; a classe funcional; resultados de testes rápidos ou sorologias para hepatite B e hepatite C; laudo do exame de imagem abdominal, preferencialmente anexado; e comorbidades.

O mesmo protocolo separa quem vai para o ambulatório de quem vai para a emergência hoje, e a lista da emergência é curta: suspeita ou diagnóstico de cirrose com sinais de descompensação, isto é, ascite de início ou piora recente, encefalopatia hepática de início ou piora recente, icterícia, ou sangramento digestivo — hematêmese, melena ou hematoquezia. Se qualquer um desses estiver presente na sua consulta, o encaminhamento ambulatorial não é a conduta, e o capítulo que assume o paciente é outro.

E o protocolo estabelece prioridade dentro da própria fila: cirrose com classe funcional B ou C tem preferência de encaminhamento sobre outras condições gastroenterológicas. Escrever a classe funcional no encaminhamento, portanto, não é formalidade — é o que move o paciente na fila. O cálculo dessa classe e o que ela muda no ajuste das doses estão no capítulo de ajuste de dose na disfunção renal e hepática, na apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado, e o que ela decide diante de um nódulo hepático está no capítulo cujo tema é tumores hepáticos e Child-Pugh, nesta apostila.

Uma frase para o encaminhamento que vale mais que todas as outras, e que quase nunca está escrita: diga se o paciente já fez endoscopia digestiva alta e quando. Se não fez, escreva que não fez. É a única linha do documento capaz de fazer alguém marcar o exame antes da consulta com o especialista, e é o motivo pelo qual pacientes esperam dois anos por uma consulta para sair dela com um pedido que a unidade básica poderia ter feito no primeiro dia.

07

Do laudo à conduta, e da conduta ao comprimido

A estratégia depende de hipertensão portal, história de sangramento, reserva hepática e tolerância. Os cards e a tabela deste bloco registram abordagens históricas das fontes citadas; para a conduta, prevalece o fluxo abaixo, que incorpora o Baveno VII. Recomendações históricas não devem virar proibições universais de carvedilol ou betabloqueadores na ascite, nem restringir a prevenção da descompensação ao calibre das varizes.

  1. 1Confirmar doença hepática, estágio, hipertensão portal clinicamente significativa e eventos prévios; avaliar pressão, perfusão, frequência, função renal e contraindicações.
  2. 2Na doença compensada com hipertensão portal clinicamente significativa, discutir betabloqueador não seletivo para prevenir descompensação, com carvedilol como opção importante; não limitar a decisão apenas ao tamanho das varizes.
  3. 3Para prevenção do primeiro sangramento de varizes de risco, selecionar betabloqueio ou ligadura conforme indicação, tolerância e disponibilidade; não somar dois betabloqueadores.
  4. 4Ascite, inclusive refratária, não é motivo isolado para retirar sempre o betabloqueador. Reduzir ou suspender diante de intolerância, pressão persistentemente baixa ou lesão renal relacionada à síndrome hepatorrenal, com reavaliação.
  5. 5Como referências do Baveno VII, PAS <90 ou PAM <65 mmHg persistentes e/ou HRS-AKI exigem ajuste; após recuperação, considerar reintrodução/titulação conforme equipe, sem suspensão irreversível automática.
  6. 6Após sangramento, a estratégia usual combina betabloqueador não seletivo, tradicional ou carvedilol quando apropriado, com ligadura; a recomendação antiga de excluir carvedilol não é universal.
  7. 7Reavaliar adesão, tontura, síncope, perfusão, função renal e eventos; não titular apenas pelo pulso ignorando pressão e sintomas.
  8. 8Sangramento, descompensação ou falha de prevenção exigem reavaliação especializada e consideração de outras opções, incluindo TIPS ou transplante em contextos selecionados.

Sem varizes

Nada a prescrever pela varize. O que muda o futuro deste paciente é tratar a causa da hepatopatia. Marque a repetição da endoscopia com data: 2 anos se a doença estiver ativa, 3 anos se estiver inativa.

Varize fina, sem sinal vermelho, Child-Pugh A ou B

É o único ponto do capítulo em que a régua nacional escreve que a evidência é insuficiente para recomendar. Decida com o paciente, registre o motivo, e se optar por não tratar repita a endoscopia em 1 ano com doença ativa ou em 2 anos com doença inativa.

Varize fina, com sinal vermelho

Alto risco pela parede, não pelo calibre: sinal vermelho corresponde a ponto de parede afinada. Entra em profilaxia primária com betabloqueador não seletivo tradicional ou com carvedilol.

Varize fina em cirrose avançada (Child-Pugh C)

Alto risco pela doença de base, mesmo sem sinal vermelho. Entra em profilaxia primária. É também o paciente em que a escolha entre propranolol e carvedilol deixa de ser indiferente — ver o bloco de divergências.

Varize média (3 a 5 mm) ou grossa (acima de 5 mm)

Profilaxia primária obrigatória, independentemente de sinal vermelho e de classe funcional. Três caminhos possíveis: betabloqueador tradicional, carvedilol ou ligadura elástica. Escolha um; combinar não tem razão de ser antes do primeiro sangramento.

Já teve um episódio de hemorragia varicosa

Saiu da profilaxia primária e entrou na secundária, onde a regra se inverte: a recomendação passa a ser a combinação de betabloqueador tradicional com ligadura em sessões programadas, e o carvedilol deixa de ser recomendado. A internação em que ele sangrou é do capítulo de hemorragia digestiva alta desta apostila.

Achado da endoscopia de rastreioO que decide sozinhoO que se prescreveQuando a endoscopia se repete
Sem varizesNada além do intervaloTratamento da causa da hepatopatia; nenhum betabloqueador com finalidade profilática2 anos com doença ativa; 3 anos com doença inativa; imediatamente se descompensar
Varize fina, sem sinal vermelho, Child-Pugh A ou BNada — a régua nacional declara evidência insuficienteDecisão individual registrada no prontuário, com ou sem betabloqueador1 ano com doença ativa; 2 anos com doença inativa, se a opção foi não tratar
Varize fina, com sinal vermelhoO sinal vermelhoBetabloqueador não seletivo tradicional ou carvedilolSem vigilância enquanto durar a profilaxia medicamentosa
Varize fina em Child-Pugh CA classe funcionalBetabloqueador não seletivo tradicional ou carvedilol, com a ressalva do bloco de divergênciasSem vigilância enquanto durar a profilaxia medicamentosa
Varize média, 3 a 5 mmO calibre, sozinhoBetabloqueador tradicional, carvedilol ou ligadura elástica — um dos três, sem combinarSem vigilância sob droga; sob ligadura, sessões a cada 2 a 4 semanas até erradicar
Varize grossa, acima de 5 mmO calibre, sozinhoBetabloqueador tradicional, carvedilol ou ligadura elástica — um dos três, sem combinarSem vigilância sob droga; sob ligadura, controle 3 meses após erradicar e depois a cada 6 a 12 meses

Da dose ao comprimido: as duas drogas deste capítulo, num adulto de 78 kg, recalculadas contra as apresentações do elenco brasileiro

Droga e etapaDose por tomada e frequênciaTotal por diaEm comprimidos que existem na Rename 2024
Propranolol — início, extremidade baixa20 mg de 12 em 12 horas40 mg2 comprimidos de 10 mg por tomada, 4 por dia (com o de 40 mg seria meio comprimido)
Propranolol — início, extremidade alta40 mg de 12 em 12 horas80 mg1 comprimido de 40 mg por tomada, 2 por dia
Propranolol — alvo, piso da faixa80 mg de 12 em 12 horas160 mg2 comprimidos de 40 mg por tomada, 4 por dia
Propranolol — teto na presença de ascite80 mg de 12 em 12 horas160 mg4 comprimidos de 40 mg por dia; acima disso não se sobe com ascite
Propranolol — alvo, topo da faixa160 mg de 12 em 12 horas320 mg4 comprimidos de 40 mg por tomada, 8 por dia; 30 dias exigem 240 comprimidos
Carvedilol — início3,125 mg de 12 em 12 horas6,25 mg1 comprimido de 3,125 mg por tomada, 2 por dia
Carvedilol — dose titulada, e teto sem hipertensão arterial6,25 mg de 12 em 12 horas12,5 mg1 comprimido de 6,25 mg por tomada, 2 por dia

O mesmo eixo, dois doentes: cirrótico e esquistossomótico

DecisãoCirroseHipertensão portal esquistossomóticaPor que difere
O que a função hepática mostraAlbumina, bilirrubina e coagulação alteradas conforme a doença avançaAlbumina, bilirrubina e coagulação normais por anos, com baço enorme e varizesA obstrução é pré-sinusoidal: o sangue trava antes do ponto de troca, e o hepatócito segue perfundido
Rastreio de varizeEndoscopia em todo paciente com fibrose avançada ou cirrose, independentemente da gravidadeMesma obrigação, e é onde ele mais se perde, porque a albumina normal tranquiliza quem só sabe procurar cirroseA lesão que sangra é a mesma nos dois; o que muda é a chance de alguém pensar nela
Profilaxia primáriaBetabloqueador tradicional, carvedilol ou ligadura elástica, conforme calibre e sinal vermelhoBetabloqueador ou ligadura, com a ressalva expressa de que há poucos dados nesta populaçãoA régua nacional aplica por analogia o que foi estudado no cirrótico, e diz que está fazendo isso
CirurgiaResgate, depois do TIPS, e só com função hepática bem preservadaOpção real e mais precoce: desconexão ázigo-portal com esplenectomia, com esclerose endoscópica no pós-operatórioFígado que funciona tolera operação de grande porte; fígado cirrótico descompensado não tolera
Anastomose portossistêmica totalEvitadaEvitada, e o documento federal insiste que principalmente aquiDesviar todo o fluxo portal produz encefalopatia no pós-operatório e insuficiência hepática tardia
Transplante hepáticoPorta aberta na lista federal para cirrose por hepatite B ou C, alcoólica e por doença esteatótica associada à disfunção metabólicaNão indicado na forma compensada; a esquistossomose não figura entre as condições listadas para inscriçãoTransplantar troca um fígado ruim por um bom; não faz sentido num fígado que trabalha

Os limiares de 5, 10, 12 e 20 mmHg apresentados referem-se ao gradiente de pressão venosa hepática, e não à pressão portal absoluta. O gradiente é a diferença entre medidas ocluída e livre. Identifique a grandeza antes de aplicar qualquer corte.

A tabela citada inclui gradiente de exatamente 10 mmHg na hipertensão portal clinicamente significativa, usando ≥10. A redação com “acima de 10” deixa esse valor sem faixa. Use os limites completos do percurso e registre a medida, sem arredondá-la para escolher uma classe.

Os estágios clínicos da tabela representam eventos e populações distintos, sem ordenar toda situação individual por uma única gravidade. Sangramento isolado e descompensação com ascite ou encefalopatia têm trajetórias diferentes. Os percentuais de sobrevida precisam ser lidos nesse contexto.

A dose de carvedilol citada como 3,25 mg no documento de esquistossomose não corresponde à apresentação de 3,125 mg. Confira concentração e dose no esquema adotado. A correção de grafia não dispensa avaliar pressão, perfusão e tolerância.

Para o episódio agudo, siga o capítulo de hemorragia digestiva alta: ressuscitação titulada, controle do sangramento e estratégia transfusional conforme a condição clínica. A menção genérica a coloides em outro documento não deve ser convertida em expansão automática. A finalidade é sustentar perfusão sem excesso que agrave a hipertensão portal.

As fontes de farmacovigilância citadas apresentam restrições importantes ao hidroxietilamido em doença hepática, coagulopatia e pacientes críticos. Não o use como substituto automático do cristaloide no cirrótico que sangra. A solução e a quantidade de reposição devem seguir o percurso e a resposta.

A edição citada da Rename troca a descrição de formas de octreotida em duas tabelas. Diferencie solução de ação imediata de preparação de liberação prolongada; concentração e massa total não tornam as apresentações intercambiáveis. O episódio agudo exige o produto e o preparo específicos descritos no capítulo correspondente.

A dispensa de endoscopia de vigilância em determinado regime medicamentoso não se aplica automaticamente à ligadura. Quem recebe tratamento endoscópico precisa de sessões e controles conforme o plano de erradicação. Registre qual estratégia foi escolhida e o calendário correspondente.

As recomendações antigas sobre carvedilol na descompensação diferem do percurso Baveno VII já adotado. Não transforme ascite ou classificação avançada em proibição universal. Avalie pressão, perfusão, função renal e tolerância; redução, suspensão temporária e reintrodução dependem dessa avaliação.

A indicação de propranolol na hipertensão portal se apoia nas recomendações específicas apresentadas, mesmo quando não aparece entre as indicações da bula citada. Registre finalidade, titulação e resposta e monitore efeitos adversos. A prescrição exige acompanhamento, não apenas um alvo de frequência.

Na classificação de calibre usada, 3 e 5 mm pertencem à faixa média. Ao titular fármacos, confira as apresentações e o total diário. Para o MELD 3.0 descrito, registre creatinina, bilirrubina total, RNI, sódio e albumina com as datas de coleta exigidas pelo fluxo.

08

A conduta, hora a hora

A linha do tempo abaixo é a do Vanderlino — 58 anos, 78 quilos, cirrose alcoólica compensada, abstinente há um ano e três meses, plaqueta de 92 mil, baço palpável, nunca endoscopado —, e o relógio dela não é de horas: é de consultas. Cada marco corresponde a uma decisão que cabe inteira numa consulta de ambulatório ou numa visita de enfermaria, e o intervalo entre eles é medido em semanas ou meses. Onde a conduta se bifurca entre o cirrótico e o esquistossomótico, os dois caminhos estão escritos.

As doses valem para um adulto com função renal utilizável e sem contraindicação cardiológica ou pulmonar ao betabloqueio. O ajuste de dose para quem tem disfunção renal ou hepática instalada é do capítulo de ajuste de dose na disfunção renal e hepática, na apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado, e a contraindicação cardiológica ao betabloqueador — asma, bloqueio atrioventricular, bradiarritmia, insuficiência cardíaca descompensada — é dos capítulos próprios da apostila de Cardiologia.

  1. Consulta 1 — a consulta em que a hipertensão portal deixa de ser um achado e vira um diagnóstico

    O trabalho desta consulta é converter três folhas soltas numa conclusão escrita e num pedido. Examine com o abdome descoberto e com luz tangencial, procurando circulação colateral, e palpe o baço começando da fossa ilíaca esquerda. Escreva no prontuário, com essas palavras, que há hipertensão portal presumida e que o paciente nunca fez endoscopia. E escreva também o tempo de abstinência, porque é ele que vai definir o intervalo do próximo exame e ninguém vai lembrar disso daqui a dois anos.

    Prescrição
    • Endoscopia digestiva alta para rastreio de varizes esofagogástricas em hepatopatia crônica, solicitando explicitamente o registro de presença de varizes, calibre em milímetros com a classificação em fina, média ou grossa, e presença ou ausência de sinais vermelhos (SBH, Arq Gastroenterol 2017, recomendações I.1 a I.3)
    • Hemograma com contagem de plaquetas, albumina, bilirrubinas totais e frações, tempo de protrombina com RNI, aminotransferases, sódio, potássio, ureia e creatinina — os mesmos exames que compõem a classe funcional e que o encaminhamento vai exigir com data (TelessaúdeRS-UFRGS, Protocolos de Regulação Ambulatorial, Gastroenterologia adulto, 3ª ed. 2025)
    • Testes rápidos ou sorologias para hepatite B e hepatite C, porque a causa de base muda o intervalo de repetição da endoscopia e porque as causas coexistem (TelessaúdeRS-UFRGS 2025; Brasil, MS, Vigilância da esquistossomose mansoni, 2024)
    • Ultrassonografia de abdome superior com Doppler do sistema porta, para procurar espessamento periportal, trombose de veia porta e sinais de circulação colateral profunda (Brasil, MS, Vigilância da esquistossomose mansoni, 2024; SBH, Arq Gastroenterol 2017, recomendação II.3)
    • Não solicitar elastografia hepática como substituto da endoscopia: a combinação que pode dispensar o rastreio — rigidez abaixo de 20 kPa em duas ocasiões e plaquetas acima de 150 mil por milímetro cúbico — foi descrita para a hepatite viral (a da doença gordurosa, com corte de 15 kPa, está em Doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA), na apostila de Gastroenterologia), e as plaquetas de 92 mil já a descartam, qualquer que seja a rigidez (SBH, Arq Gastroenterol 2017, recomendação I.1). O motivo não é mais a falta do exame: o consenso registrava em 2017 que ela não estava disponível nem coberta no sistema público, e o protocolo federal de hepatite C de 2026 já a descreve disponível em alguns serviços do país (PCDT Hepatite C e Coinfecções, Portaria SCTIE/MS nº 39/2026)
    • Registrar no prontuário, em uma linha, o tempo de abstinência alcoólica comprovada, a classe funcional calculada e a frase 'nunca realizou endoscopia digestiva alta'
  2. Consulta 2, com o laudo na mão — sem varizes: o intervalo, com data escrita

    Endoscopia normal não é alta: é um relógio que começa. A régua nacional separa o intervalo pela atividade da doença de base, e atividade tem definição fechada — resposta virológica sustentada na hepatite C, carga viral indetectável sob tratamento na hepatite B, abstinência alcoólica prolongada na doença alcoólica. Fora desses três, a doença é considerada ativa. E não existe indicação de betabloqueador nesse paciente: a régua nacional é explícita ao dizer que nenhuma terapia farmacológica, incluindo betabloqueador, é recomendada para impedir o aparecimento de varizes ou a descompensação em quem ainda não as tem.

    Prescrição
    • Cirrose compensada sem varizes e com doença hepática ativa — repetir endoscopia digestiva alta em 2 anos (SBH, Arq Gastroenterol 2017, recomendação I.4)
    • Cirrose compensada sem varizes e com doença hepática inativa — repetir endoscopia digestiva alta em 3 anos (SBH, Arq Gastroenterol 2017, recomendação I.4)
    • Repetir a endoscopia fora do intervalo, e imediatamente, sempre que a cirrose descompensar — ascite, encefalopatia, icterícia nova ou sangramento (SBH, Arq Gastroenterol 2017, recomendação I.6)
    • Não prescrever betabloqueador não seletivo com a finalidade de impedir o surgimento de varizes ou de prevenir descompensação neste cenário (SBH, Arq Gastroenterol 2017, recomendação II.5)
    • Tratar a causa da doença hepática, que é a única intervenção com efeito sobre a progressão nesta faixa: abstinência alcoólica, controle de peso e tratamento antiviral quando indicado (SBH, Arq Gastroenterol 2017, recomendações II.4 e II.6). O tratamento antiviral da hepatite B e o da hepatite C são dos capítulos próprios, na apostila de Gastroenterologia
    • Escrever no encaminhamento e na receita a data-alvo da próxima endoscopia, por extenso, com mês e ano
  3. Consulta 2 — varize fina: o único ponto em que a régua nacional diz que não sabe

    Aqui a decisão depende de dois dados além do calibre: sinal vermelho e classe funcional. Varize fina com sinal vermelho, ou varize fina em paciente com cirrose avançada, é alto risco e recebe profilaxia primária. Varize fina sem sinal vermelho em paciente Child-Pugh A ou B é o caso em que o consenso brasileiro escreve, com essas palavras, que o paciente pode se beneficiar mas que a evidência é insuficiente para sustentar uma recomendação. Não invente certeza onde a fonte não tem: exponha as duas condutas, decida com o paciente e registre o motivo.

    Prescrição
    • Varize fina COM sinal vermelho, ou varize fina em cirrose avançada (Child-Pugh C) — profilaxia primária com betabloqueador não seletivo tradicional ou com carvedilol (SBH, Arq Gastroenterol 2017, recomendação III.2)
    • Varize fina SEM sinal vermelho em Child-Pugh A ou B — sem recomendação a favor nem contra; decidir caso a caso e registrar a decisão e o motivo no prontuário (SBH, Arq Gastroenterol 2017, recomendação III.1)
    • Quando a decisão for não tratar — repetir endoscopia em 1 ano se a doença hepática estiver ativa, ou em 2 anos se estiver inativa (SBH, Arq Gastroenterol 2017, recomendação I.5)
    • Quando a decisão for tratar com droga — não solicitar endoscopia de vigilância enquanto durar a profilaxia primária medicamentosa (SBH, Arq Gastroenterol 2017, recomendação III.9)
    • Não usar escleroterapia como profilaxia primária em nenhuma circunstância: ela está proscrita por impacto adverso sobre a sobrevida (SBH, Arq Gastroenterol 2017, recomendação III.3; Manual de cuidados intensivos em hepatologia, SBH/AMIB, 2014)
  4. Consulta 2 — varize média ou grossa: profilaxia para todos, e a escolha entre droga e ligadura

    A partir de 3 mm de calibre a decisão fica simples e absoluta: todo paciente com varize média ou grossa recebe profilaxia primária, independentemente de haver ou não sinal vermelho e independentemente da gravidade da doença hepática. O que sobra para decidir é o caminho — betabloqueador tradicional, carvedilol ou ligadura elástica —, e a régua nacional manda escolher por características do paciente, preferência dele, contraindicações, efeitos adversos e disponibilidade local de recurso e de experiência. E manda uma coisa que costuma surpreender: não combinar. Antes do primeiro sangramento, não há razão para somar drogas entre si nem droga com ligadura.

    Prescrição
    • Varize média (3 a 5 mm) ou grossa (acima de 5 mm) — profilaxia primária obrigatória, com betabloqueador não seletivo tradicional, carvedilol ou ligadura elástica endoscópica (SBH, Arq Gastroenterol 2017, recomendação III.3)
    • Não combinar propranolol com carvedilol, nem betabloqueador com nitrato, nem betabloqueador com ligadura, com a finalidade de prevenir o primeiro episódio de sangramento (SBH, Arq Gastroenterol 2017, recomendação III.8)
    • Paciente que não tolera o propranolol — trocar por carvedilol ou por ligadura elástica, e não simplesmente suspender (SBH, Arq Gastroenterol 2017, recomendação III.7)
    • Escrever no prontuário qual dos três caminhos foi escolhido e por quê, porque a vigilância endoscópica muda conforme a escolha
  5. Semanas 1 a 6 — titular o betabloqueador, e o alvo não é a pressão

    É neste marco que o erro se repete com mais frequência, e a raiz dele é simples: o interno já encontrou betabloqueador em três outras doenças, e em todas o alvo era pressão ou sintoma. Aqui não. A dose sobe até a frequência cardíaca cair para a faixa de 55 a 60 batimentos por minuto, com pressão sistólica mantida acima de 90 mmHg — e a pressão arterial não é alvo nenhum, é apenas o limite de segurança. Um paciente com pressão perfeita e frequência de 82 está subtratado, e a receita que ele levou para casa não está fazendo nada pela veia dele. Titule em degraus, com reavaliação a cada uma a duas semanas, e conte o pulso você mesmo em cada consulta.

    Prescrição
    • Propranolol, comprimido, por via oral, começando com 20 a 40 mg de 12 em 12 horas, titulado até 160 a 320 mg por dia para manter frequência cardíaca entre 55 e 60 bpm com pressão sistólica acima de 90 mmHg (SBH, Arq Gastroenterol 2017, recomendação III.4)
    • Conversão para o que existe no SUS: 20 mg por tomada são 2 comprimidos de 10 mg; 40 mg por tomada são 1 comprimido de 40 mg; 160 mg por dia são 4 comprimidos de 40 mg; 320 mg por dia são 8 comprimidos de 40 mg. Ambas as apresentações constam da Rename 2024 no Componente Básico (Rename 2024; bula do profissional, cloridrato de propranolol, Prati-Donaduzzi)
    • Prescrever a quantidade certa na receita: a 320 mg por dia, uma caixa de 30 comprimidos de 40 mg dura menos de 4 dias, e 30 dias de tratamento exigem 240 comprimidos — conferir a quantidade dispensada é parte da titulação, porque falta de comprimido é a causa mais banal de dose que nunca sobe
    • Carvedilol, comprimido, por via oral, começando com 3,125 mg de 12 em 12 horas e titulado para 6,25 mg de 12 em 12 horas, sem subir além disso a não ser que haja hipertensão arterial; reduzir ou suspender se a pressão sistólica cair abaixo de 90 mmHg (SBH, Arq Gastroenterol 2017, recomendação III.5)
    • Conversão do carvedilol: 3,125 mg por tomada é 1 comprimido de 3,125 mg, 2 comprimidos por dia; 6,25 mg por tomada é 1 comprimido de 6,25 mg, 2 comprimidos por dia. As quatro apresentações constam da Rename 2024 no Componente Básico (Rename 2024; bula do profissional, carvedilol, Prati-Donaduzzi)
    • Na ascite, avaliar tolerância hemodinâmica e função renal ao usar carvedilol. Ascite refratária não é proibição isolada universal; reduzir ou suspender conforme pressão, perfusão, lesão renal e decisão especializada.
    • Anotar em cada consulta o par frequência e pressão sistólica, com a dose vigente ao lado — é a única série que permite saber, depois, se a dose parou de subir por decisão ou por esquecimento
  6. A qualquer momento — quando o betabloqueador tem que sair

    Betabloqueio pode perder segurança quando há perfusão inadequada, mas ascite volumosa ou refratária não exige retirada automática em todos. Avaliar pressão persistente, sintomas, função renal, infecção e outras causas de deterioração. O Baveno VII recomenda reduzir ou suspender diante de PAS persistentemente <90 mmHg, PAM <65 mmHg e/ou HRS-AKI; depois da recuperação, a equipe pode considerar reintrodução e titulação. Sódio baixo e ascite exigem avaliação do contexto, não uma decisão baseada em um único número. Se houver intolerância persistente e indicação de prevenção de sangramento, definir alternativa, como ligadura, e registrar o plano.

    Prescrição
    • Com ascite presente — subir o propranolol gradualmente até no máximo 160 mg por dia, o que corresponde a 4 comprimidos de 40 mg (SBH, Arq Gastroenterol 2017, recomendações III.4 e prevenção de ressangramento 2)
    • Reavaliar e reduzir/suspender betabloqueador diante de intolerância ou hipoperfusão, particularmente PAS persistentemente <90, PAM <65 e/ou HRS-AKI; investigar a causa e definir critérios de reintrodução.
    • Não excluir carvedilol apenas pelo rótulo de cirrose descompensada ou ascite refratária. Selecionar agente e dose pela indicação, pressão, perfusão e função renal, com hepatologia.
    • Ao suspender, registrar motivo, alternativa necessária e reavaliação. Intolerância hemodinâmica ao propranolol não se resolve obrigatoriamente trocando por carvedilol, que também pode reduzir pressão.
    • O manejo da ascite que motivou a suspensão, incluindo a definição de refratariedade e os diuréticos, é do capítulo de cirrose hepática e suas complicações, na apostila de Gastroenterologia; a técnica da paracentese é do capítulo de paracentese, na apostila de Procedimentos e Vias de Acesso
  7. Meses 1 a 6 — o programa de ligadura, quando o caminho escolhido foi o endoscópico

    Ligadura elástica não é um procedimento: é um programa, e programa que começa e não termina deixa o paciente pior do que estava, com varizes parcialmente tratadas e sem droga nenhuma. O calendário é fixo — sessões a cada 2 a 4 semanas até que as varizes estejam erradicadas, endoscopia de controle 3 meses depois da erradicação e, a partir daí, a cada 6 a 12 meses. Marque a segunda sessão antes de o paciente sair da primeira, e escreva as datas na receita, não só no sistema.

    Prescrição
    • Ligadura elástica endoscópica a cada 2 a 4 semanas até a erradicação das varizes (SBH, Arq Gastroenterol 2017, recomendação III.6)
    • Endoscopia digestiva alta de controle 3 meses após a erradicação e, depois, a cada 6 a 12 meses (SBH, Arq Gastroenterol 2017, recomendação III.6)
    • Escleroterapia apenas quando a ligadura for inviável ou tecnicamente impossível, e nunca como profilaxia primária (SBH, Arq Gastroenterol 2017, recomendações III.3 e IV.12)
    • Após sangramento varicoso, discutir profilaxia secundária com betabloqueador não seletivo tradicional ou carvedilol, conforme tolerância, associado à ligadura em sessões. Não aplicar como regra atual a exclusão do carvedilol baseada no documento de 2017.
  8. Quando o assunto vira cirurgia — as indicações, e por qual porta do SUS

    Cirurgia de hipertensão portal, hoje, é resgate e não rotina, e a ordem das opções é diferente conforme a doença de base. No cirrótico, a régua nacional coloca a derivação por via percutânea — o TIPS, com prótese revestida — antes de qualquer operação, reserva a cirurgia de derivação para quem tem função hepática bem preservada e apenas quando o TIPS não existe, e registra que o transplante é melhor opção que a derivação cirúrgica em quem tem escore alto. E acrescenta a informação que muda a logística do plantão brasileiro: o próprio consenso diz que o TIPS é indisponível na maioria dos centros do país. No esquistossomótico, a ordem se inverte, porque o fígado funciona e a operação é bem tolerada. Este capítulo não descreve ato cirúrgico: descreve quando se pensa nele e para onde se manda o paciente.

    Prescrição
    • Cirrose com sangramento recorrente apesar de ligadura somada a betabloqueador — TIPS com prótese revestida de politetrafluoretileno é a recomendação; derivação cirúrgica apenas quando o TIPS for indisponível, e preferindo as seletivas — esplenorrenal seletiva, mesocava ou portocava em H de 8 mm — em serviço com experiência (SBH, Arq Gastroenterol 2017, prevenção de ressangramento, recomendações 4 e 5)
    • Esquistossomose hepatoesplênica — considerar tratamento cirúrgico em quatro situações: recidiva precoce de varizes com sinais de sangramento iminente à endoscopia; varizes gástricas e esofágicas volumosas em paciente que reside fora de grandes centros médicos; varizes gástricas volumosas persistentes após tratamento endoscópico; e hiperesplenismo com manifestação clínica incapacitante (Brasil, MS, Vigilância da esquistossomose mansoni, 2024, item 5.5.3)
    • Esquistossomose hepatoesplênica — a operação preferida é a desconexão ázigo-portal com esplenectomia, com esclerose endoscópica no pós-operatório; nas demais condições, avaliação anual e cirurgia se a evolução for desfavorável (Brasil, MS, Vigilância da esquistossomose mansoni, 2024, itens 5.5.3 e 5.5.4; SBH, Arq Gastroenterol 2017, recomendação VIII.5)
    • Evitar anastomoses portossistêmicas totais em hipertensão portal de qualquer etiologia, e principalmente na esquistossomose, pela incidência de encefalopatia hepática no pós-operatório e de insuficiência hepática tardia por desvio do fluxo portal (Brasil, MS, Vigilância da esquistossomose mansoni, 2024, item 5.5.4)
    • Cirurgia eletiva depois de um episódio hemorrágico — adiar até a recuperação clínica, o que ocorre cerca de 15 dias após a interrupção do sangramento; operar na vigência da hemorragia tem mortalidade que pode chegar a 13% em paciente com função hepática preservada (Brasil, MS, Vigilância da esquistossomose mansoni, 2024, itens 5.5.1 e 5.5.2)
    • Transplante hepático — encaminhar para avaliação segundo a lista fechada de condições do artigo 127 do regulamento técnico do Sistema Nacional de Transplantes, que inclui cirrose por hepatite B ou C, cirrose alcoólica e cirrose por doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica; na doença de origem alcoólica a inscrição exige no mínimo 3 meses de abstinência comprovada, relatório favorável de hepatologista e de profissional de saúde mental, e aprovação por câmara técnica; o MELD 3.0 mínimo aceito para inscrição é 11, e seus cinco exames — creatinina, bilirrubina total, RNI, sódio e albumina — precisam sair de uma única coleta de sangue (Brasil, MS, Portaria GM/MS nº 8.041/2025, republicada em 21/01/2026, artigos 127, 133 e parágrafos)
    • Transplante hepático na esquistossomose — não indicado na forma compensada; indicado apenas na forma descompensada, com ascite e encefalopatia, ou quando há doença hepática associada. A esquistossomose não figura entre as condições listadas no artigo 127 para inscrição em lista, e é por isso que a porta desse doente é a cirurgia com endoscopia, e não a fila (Brasil, MS, Vigilância da esquistossomose mansoni, 2024, item 5.6; Brasil, MS, Portaria GM/MS nº 8.041/2025, artigo 127)
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Como saber se está funcionando

A reavaliação aqui tem um formato diferente do de quase todo capítulo deste livro, porque o desfecho que se quer é um evento que não acontece. Não há melhora para observar: há uma dose a acertar, uma lista de motivos para retirar a droga e um calendário a cumprir. Quem não escreve os números em série não consegue saber, seis meses depois, se o paciente está tratado ou apenas medicado.

Por isso, cada consulta precisa deixar no prontuário quatro coisas na mesma linha: a dose vigente, a frequência cardíaca, a pressão sistólica e a data-alvo do próximo exame. É uma linha só, e é ela que impede que a dose pare de subir por esquecimento — que é como a maioria das profilaxias primárias fracassa no Brasil.

Frequência cardíaca em repouso, com a dose escrita ao ladoEm toda consulta enquanto a dose estiver subindo, a cada 1 a 2 semanas; depois de atingido o alvo, a cada consulta de rotina

Esperado: Queda progressiva até a faixa de 55 a 60 batimentos por minuto. Conte você mesmo, por 60 segundos, com o paciente sentado e em repouso há pelo menos cinco minutos — o número do oxímetro logo depois de ele subir a escada não serve para titular nada.

Se não melhora: Frequência acima de 60 com pressão sistólica confortavelmente acima de 90 mmHg significa dose insuficiente, e a conduta é subir, não manter. Antes de subir, confira duas coisas banais que respondem pela maioria das falhas: se o paciente está tomando as duas doses do dia e se a quantidade dispensada dá para o mês — a 320 mg por dia são 8 comprimidos de 40 mg, e uma caixa de 30 acaba em menos de 4 dias. Frequência que não cai apesar de dose plena e adesão comprovada é o paciente que a régua nacional manda trocar para carvedilol ou para ligadura, e não abandonar.

Pressão arterial sistólica, como limite e não como alvoJunto de cada aferição de frequência, no mesmo minuto e anotada no mesmo par

Esperado: Acima de 90 mmHg. A pressão pode cair um pouco e isso é esperado; o que não se aceita é usá-la como marcador de eficácia. Um paciente com pressão de 112 por 70 e frequência de 84 está subtratado, por mais confortável que o manguito pareça.

Se não melhora: Se PAS persistir <90 mmHg ou PAM <65 mmHg, avaliar perfusão, drogas e causas associadas e reduzir ou suspender temporariamente betabloqueador. Carvedilol pode reduzir mais a pressão; não resolver hipotensão trocando automaticamente propranolol por ele. Planejar reintrodução ou alternativa após recuperação.

Sódio sérico e creatininaAntes de iniciar, e depois a cada 3 a 6 meses ou a qualquer descompensação, ascite nova ou início de diurético

Esperado: Sódio acima de 130 mEq/L e creatinina estável em relação ao basal do próprio paciente.

Se não melhora: Investigar lesão renal e fatores precipitantes. HRS-AKI ou hipoperfusão sustentam reduzir/suspender temporariamente o betabloqueador e tratar a causa, com plano de reavaliação e possível reintrodução. Ascite ou hiponatremia isoladas não substituem essa avaliação.

Ascite: presença, volume e resposta ao diuréticoExame do abdome em toda consulta, com pesquisa de macicez móvel; peso anotado sempre

Esperado: Ausente, ou controlada com dose estável de diurético e sem ganho de peso.

Se não melhora: Avaliar ascite, infecção, função renal, sódio, pressão e perfusão. Ascite refratária não obriga por si só retirada permanente do betabloqueador; intolerância hemodinâmica ou HRS-AKI muda a conduta. Rever diuréticos, necessidade de procedimentos e encaminhamento especializado.

Nível de consciência e sinais de encefalopatiaA cada consulta, perguntando também ao acompanhante, com pergunta concreta sobre sono trocado, esquecimento novo e lentidão

Esperado: Sem alteração em relação ao basal, com ritmo de sono preservado.

Se não melhora: Confusão nova, inversão do ritmo do sono ou lentificação obrigam a reavaliar duas coisas ao mesmo tempo. A primeira é a doença: a encefalopatia hepática tem precipitantes tratáveis e capítulo próprio, na apostila de Gastroenterologia, e é lá que o diagnóstico e o manejo se resolvem. A segunda é a droga: a bula do profissional do propranolol registra que, em paciente com hipertensão portal, pode haver deterioração da função hepática e desenvolvimento de encefalopatia hepática, com relatos sugerindo aumento desse risco. Registrar essa possibilidade não substitui procurar precipitante, mas impede que a droga saia da lista de suspeitos por hábito.

Plaquetas e tamanho do baço — o parâmetro que NÃO é alvoHemograma junto dos demais exames de seguimento, a cada 6 a 12 meses

Esperado: Plaqueta baixa e estável, e baço grande e estável. Não existe alvo de plaqueta neste paciente, e nenhuma conduta deste capítulo procura elevá-la.

Se não melhora: Esta é a trava do capítulo, e ela existe porque o erro é frequente e irreversível. Plaquetopenia por hipertensão portal é redistribuição para um baço congesto, e não destruição: as diretrizes federais da esquistossomose escrevem que anemia, leucopenia e plaquetopenia secundárias ao hiperesplenismo, em geral, não têm repercussão clínica e não devem preocupar o médico. Não se indica esplenectomia por número de plaqueta. A única indicação cirúrgica ligada ao baço, no mesmo documento, é hiperesplenismo com manifestação clínica incapacitante, e mesmo ela vem dentro de uma operação que trata a hipertensão portal, e não de uma esplenectomia isolada. Anemia por perda de sangue é outra coisa e se trata como tal. E se a plaqueta cair de forma desproporcional ao resto, ou se aparecer citopenia nova em outra linhagem, o raciocínio muda de andar e passa a ser do capítulo de hemograma, na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito.

Cumprimento do calendário: exame marcado, sessão marcada, receita retiradaAo final de toda consulta, antes de o paciente sair da sala

Esperado: A próxima endoscopia com data, ou a próxima sessão de ligadura com data, e a quantidade de comprimidos suficiente até a próxima consulta.

Se não melhora: Programa de ligadura interrompido no meio é pior do que não ter começado: o paciente fica com varizes parcialmente tratadas e sem droga nenhuma. Se ele faltou a duas sessões, a conduta não é remarcar pelo sistema e esperar — é ligar, entender o que está no caminho (transporte, trabalho, medo do exame, jejum) e, se o caminho endoscópico não for viável para aquela vida, mudar para o betabloqueador e dizer isso a ele. E, quando a endoscopia de rastreio for o que está atrasado, escreva a data-alvo por extenso na receita: papel na mão do paciente marca mais consulta do que agendamento em sistema que ele não acessa.

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Onde o erro machuca

Descobrir hipertensão portal e não pedir a endoscopia de rastreio na mesma consulta

O dano: É a omissão que este capítulo inteiro existe para corrigir, e ela não deixa rastro até o dia da hematêmese. Entre não ter varize e ter varize, a mortalidade em cinco anos sobe de 1,5% para 10% na escala do consenso brasileiro, e o paciente é indistinguível nos dois casos: a varize não dói, não incha e não aparece em exame de sangue. Como a progressão leva anos, ninguém é cobrado pelo pedido que não fez — o dano aparece num plantão, com outro médico, e entra na estatística como hemorragia digestiva e não como rastreio perdido.

Como pegar a tempo: Transforme em pergunta fixa de anamnese, do mesmo jeito que você pergunta sobre alergia: este paciente já fez endoscopia digestiva alta, e quando? Se ninguém sabe, a resposta operacional é não. A indicação é ampla de propósito — todo paciente com fibrose avançada ou cirrose, independentemente da gravidade da disfunção hepática —, então não espere descompensar, não espere plaqueta mais baixa e não espere a consulta com o especialista. E escreva a data-alvo por extenso na receita, porque o papel na mão do paciente marca mais exame do que agendamento em sistema.

Titular o betabloqueador pela pressão arterial

O dano: Produz um paciente que toma remédio e não está protegido, com a aparência exata de um paciente tratado. O efeito que reduz a pressão portal vem da queda do débito cardíaco somada à vasoconstrição esplâncnica, e o marcador clínico disso é a frequência cardíaca; a pressão arterial é apenas o limite de segurança. Quem para de subir a dose porque a pressão ficou boa deixa o paciente numa dose que não faz nada pela veia dele — e, pior, sai da consulta convencido de que fez profilaxia primária.

Como pegar a tempo: Escreva o alvo no prontuário com os dois números lado a lado: frequência entre 55 e 60 bpm, sistólica acima de 90 mmHg. Conte o pulso você mesmo, por 60 segundos, com o paciente em repouso. Suba em degraus a cada 1 a 2 semanas até chegar lá ou até esbarrar no limite de pressão. E confira a quantidade dispensada antes de culpar a dose: a 320 mg por dia são 8 comprimidos de 40 mg, e uma caixa de 30 não chega a 4 dias.

Manter a mesma dose de betabloqueador diante de hipotensão persistente, hipoperfusão ou lesão renal, sem reavaliar

O dano: Betabloqueio mal tolerado pode comprometer perfusão. Por outro lado, retirar automaticamente só por ascite refratária pode eliminar uma intervenção útil. A decisão deve integrar pressão, função renal, perfusão e evolução.

Como pegar a tempo: Em ascite, reduzir ou suspender temporariamente diante de PAS persistentemente <90 mmHg, PAM <65 mmHg ou HRS-AKI, conforme Baveno VII, avaliando também outras causas de lesão renal e hipoperfusão. Reintroduzir ou titular após recuperação quando apropriado. Ascite refratária ou sódio baixo isolados não são proibição universal; se houver intolerância persistente, organizar alternativa e seguimento.

Indicar ou aceitar esplenectomia porque a plaqueta está baixa

O dano: Troca um número de laboratório por um risco infeccioso permanente, sem tocar na doença. A plaquetopenia deste paciente é redistribuição para um baço congesto pela pressão portal, e não destruição nem falência de medula: tirar o baço faz o número subir e não faz a pressão descer. As diretrizes técnicas federais da esquistossomose são explícitas ao registrar que anemia, leucopenia e plaquetopenia secundárias ao hiperesplenismo em geral não têm repercussão clínica e não devem preocupar o médico.

Como pegar a tempo: Não existe alvo de plaqueta neste doente, e nenhuma conduta deste capítulo procura elevá-la — trate o número como termômetro da pressão portal, não como doença. A única indicação cirúrgica ligada ao baço, no documento federal, é hiperesplenismo com manifestação clínica incapacitante, e ela vem dentro de uma operação que trata a hipertensão portal, não de uma esplenectomia isolada. Anemia por perda de sangue é outra coisa e se trata como tal. E se a plaqueta cair fora de proporção com o resto, ou se surgir citopenia nova em outra linhagem, o raciocínio deixa de ser deste capítulo.

Deixar de rastrear varize no esquistossomótico porque o fígado dele funciona

O dano: É o erro geograficamente brasileiro deste capítulo, e ele nasce de uma virtude: o interno aprendeu a procurar cirrose e aprendeu a se tranquilizar com albumina normal. Só que na esquistossomose a obstrução é anterior ao sinusoide, e o mesmo paciente tem função hepática impecável e varizes de grosso calibre. As diretrizes federais registram que 30% a 40% dos adultos com a forma hepatoesplênica apresentam hemorragia digestiva. Um adulto jovem que atravessa três serviços com o baço anotado como esplenomegalia a esclarecer é um paciente com lesão tratável esperando romper.

Como pegar a tempo: Aprenda a ler a dissociação como um diagnóstico, e não como um resultado tranquilizador: esplenomegalia com plaquetopenia e provas hepáticas normais, com espessamento periportal na ultrassonografia e história de contato com água doce em área endêmica, fecha a forma hepatoesplênica. Nesse paciente, peça a endoscopia de rastreio pelas mesmas razões e com as mesmas perguntas do cirrótico. E lembre que tratar não cancela rastrear: o praziquantel interrompe a postura de ovos e evita progressão, mas não desfaz a fibrose já instalada — o baço não volta ao tamanho normal e a varize não some. A doença esquistossomose é do capítulo O vermífugo de todo mundo, na apostila de Infectologia; a hipertensão portal dela é deste capítulo.

Combinar as duas profilaxias antes do primeiro sangramento, ou combinar nenhuma depois dele

O dano: São o mesmo erro invertido, e os dois custam. Antes do primeiro episódio, somar betabloqueador com ligadura acrescenta procedimento, efeito adverso e consulta sem ganho documentado — a régua nacional escreve que não há razão para nenhuma combinação nesse cenário. Depois do primeiro episódio, oferecer só uma das duas deixa o paciente aquém do padrão, exatamente quando o risco já se manifestou uma vez.

Como pegar a tempo: Distinguir prevenção primária de secundária. Após sangramento varicoso, a estratégia usual combina ligadura com betabloqueador não seletivo tradicional ou carvedilol quando tolerado, conforme Baveno VII. Não proibir carvedilol apenas por recomendação histórica anterior; avaliar fisiologia, contraindicações e resposta.

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O que dizer ao paciente e à família

As conversas deste capítulo têm um problema comum e específico: você está pedindo a um paciente que se sente bem que faça um exame desconfortável e tome um remédio de uso contínuo por causa de uma coisa que ele não sente. Nenhuma delas se resolve com autoridade, e todas se resolvem com mecanismo dito em uma frase. A frase que abre quase todas é a mesma — o senhor tem umas veias no esôfago que estão carregando um sangue que não é delas, e a gente quer olhar antes que uma se rompa.

As técnicas de comunicar má notícia e de conversar sobre prognóstico incerto são dos capítulos próprios da apostila de Comunicação Clínica; o que está aqui é o conteúdo específico destas conversas — o que precisa ser dito, e o que soa parecido e não funciona.

Explicar a endoscopia de rastreio a quem veio pedir um atestado e se sente bem

Seu Vanderlino, eu vou assinar o seu papel, e antes disso preciso pedir uma coisa que não tem a ver com o motivo que o trouxe. O problema no fígado que o senhor teve faz o sangue voltar por caminhos errados, e um desses caminhos passa por veias finas dentro do esôfago. Elas vão engrossando com os anos sem dar sintoma nenhum, e quando uma se rompe é hemorragia grave, do nada. O exame que eu vou pedir é uma câmera pela boca, com sedação, que dura poucos minutos, e ele responde uma coisa só: se essas veias já engrossaram. Se já, existe remédio que reduz muito a chance de romper. É o único momento em que dá para chegar antes.

Não diga: "O senhor tem que fazer uma endoscopia porque é cirrótico." É verdade e não convence ninguém que se sente bem, porque não diz o que o exame procura nem o que muda se ele achar. Sem a frase do mecanismo — veias finas carregando sangue que não é delas — o paciente sai com um pedido no bolso e não marca.

"Por que remédio de pressão, se minha pressão é boa?"

É o mesmo comprimido que muita gente toma para pressão, mas aqui ele está fazendo outra coisa. Ele faz o coração bater mais devagar e faz o sangue chegar em menos quantidade no fígado, e é isso que diminui a pressão dentro daquelas veias do esôfago. Por isso o que eu vou olhar nas próximas consultas não é a sua pressão: é o seu pulso. Eu quero ele em torno de 55 a 60 por minuto. Sua pressão só me interessa para não deixar cair demais. Se em alguma consulta eu disser que vou aumentar o remédio mesmo com a pressão boa, é por isso.

Não diga: "É para proteger o fígado." É vago, é falso do jeito que o paciente entende e não sobrevive à primeira dose aumentada — quando a pressão dele cair um pouco, ele vai parar sozinho, porque ninguém explicou que a pressão não era o alvo. Explicar o alvo antes de titular é o que sustenta a adesão.

Ensinar o paciente e a família a contar o pulso, e o que fazer se ele passar mal

Vou pedir uma coisa simples e que ajuda muito: uma vez por semana, sentado e descansado por cinco minutos, alguém conta o seu pulso por um minuto inteiro e anota num papel com a data. Traga esse papel na próxima consulta. Se der abaixo de 50, ou se o senhor sentir tontura ao levantar, cansaço novo ou falta de ar, não pare o remédio por conta — me procure ou procure a unidade, porque às vezes é só ajustar a dose. E se aparecer vômito com sangue, ou fezes pretas com cheiro forte, aí não é comigo pelo telefone: é emergência, no mesmo dia.

Não diga: "Qualquer coisa você me liga." Não diz o que é qualquer coisa e transfere ao paciente a decisão que é sua. Nomear os três sinais que trazem de volta — tontura ao levantar, pulso abaixo de 50, sangue — e separar o que é consulta do que é emergência é o que faz a instrução funcionar.

Dizer ao paciente com esquistossomose que o comprimido não desfaz o que já está feito

O remédio do verme funciona: ele mata o parasita e impede que a doença continue avançando. Mas ele não desmancha a cicatriz que já se formou dentro do fígado, e é essa cicatriz que faz o seu baço estar grande e as veias do esôfago engrossarem. Então o seu baço não vai voltar ao tamanho normal, e isso não quer dizer que o tratamento falhou. O que a gente faz a partir de agora é vigiar essas veias e, se elas estiverem grossas, tratar para não romper. É outro tratamento, e ele continua depois que o do verme acabou.

Não diga: "Você já tomou o remédio, então está curado." É a frase que faz o paciente sumir do seguimento — ele para de voltar exatamente quando começa a fase em que o rastreio da varize importa. E dizer que o baço vai diminuir cria uma expectativa que a próxima ultrassonografia desmente, e que custa a confiança.

A família que ouviu que "tem que tirar o baço porque a plaqueta está baixa"

Eu entendo de onde vem essa ideia, porque a plaqueta baixa assusta. Só que aqui ela está baixa por um motivo diferente do usual: o baço está grande porque o sangue está represado, e ele segura plaquetas dentro dele. Elas não estão sendo destruídas e a medula está fabricando normalmente. Se a gente tirasse o baço, o número no exame subiria e a pressão que causa o problema continuaria igual — e ele ficaria com risco de infecção grave para o resto da vida por causa de um número. Cirurgia aqui existe, e ela é para outra situação: quando o sangramento não se controla de outro jeito. Não é para a plaqueta.

Não diga: "Não se opera por plaqueta." Está certo e fecha a conversa em vez de abri-la. A família precisa entender por que o número está baixo, senão vai perguntar de novo ao próximo médico — e um dia alguém vai concordar. Dar o mecanismo em uma frase, e dizer em que situação a cirurgia existe de verdade, é o que encerra o assunto.

Falar do risco sem prometer que não vai acontecer

Vou ser honesto com o senhor sobre o que este tratamento faz e o que ele não faz. Ele reduz bastante a chance de essas veias romperem, e essa redução é real e vale a pena. Ele não zera. Existe uma chance de acontecer mesmo com tudo certo, e por isso eu quero que o senhor e a sua esposa saibam reconhecer: vômito com sangue ou fezes pretas é emergência no mesmo dia, em qualquer hospital, e vale dizer lá que o senhor tem problema no fígado, porque isso muda o que eles fazem na primeira hora.

Não diga: "Tomando isso direitinho, o senhor não vai sangrar." De todas as frases deste capítulo, é a que mais cobra depois de quem a disse, e o custo dela é escondido: a família que acredita nela demora a levar o paciente ao pronto-socorro quando acontece. Prometer redução e ensinar o gatilho de emergência protege mais do que prometer proteção total.

O encaminhamento, e o telefonema que o encurta

Colega, é um paciente de 58 anos, cirrose alcoólica compensada, abstinente há um ano e três meses. Nunca fez endoscopia. Tem plaqueta de 92 mil, baço palpável e circulação colateral na parede; albumina 3,4, bilirrubina 1,6, RNI 1,3 — Child-Pugh A. Não tem ascite, não tem encefalopatia, nunca sangrou. Estou encaminhando para gastroenterologia e já pedi a endoscopia de rastreio pela unidade, com pedido de calibre em milímetros e sinais vermelhos no laudo, para ele não chegar aí sem exame. Está anexado o laudo da ultrassonografia e a lista de exames com data.

Não diga: "Encaminho paciente cirrótico para avaliação." Sem classe funcional, sem dizer se descompensou e sem dizer se já fez endoscopia, o encaminhamento não é priorizável e volta ao fim da fila — e o protocolo público de regulação dá preferência justamente à cirrose com classe funcional B ou C, que é uma informação que só você tem. E o pior desperdício é o paciente esperar dois anos por uma consulta para sair dela com um pedido de endoscopia que a unidade básica poderia ter feito no primeiro dia.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Carvedilol na cirrose avançada: opção legítima de profilaxia primária, ou droga a evitar?

É opção, inclusive no Child-Pugh C — recomendação III.2 da SBH, 2017, que esta apostila não segue no cirrótico descompensado

A recomendação escrita da régua nacional diz que pacientes com varize fina e sinal vermelho, e pacientes com varize fina e cirrose avançada Child-Pugh C, têm alto risco de sangramento e devem receber profilaxia primária com betabloqueador não seletivo tradicional ou com carvedilol. A mesma seção fixa a posologia do carvedilol e o mantém entre as três opções para varize média ou grossa, em qualquer classe funcional. O argumento farmacológico é o bloqueio alfa-1 somado ao betabloqueio, que reduz também a resistência dentro do fígado, e o próprio consenso registra que o carvedilol promove maior redução da hipertensão portal do que o propranolol.

SBH, Arq Gastroenterol 2017, recomendações III.2, III.3 e III.5 e justificativa da Figura 1

Deve ser evitado quando a cirrose está descompensada — Figura 1 e recomendação III.5 da SBH, 2017, e bula brasileira do carvedilol; é a posição desta apostila

A Figura 1 do mesmo documento de 2017, que compara as estratégias de 2010 com as atuais, escreve que se deve evitar o carvedilol na cirrose descompensada e ter cautela com betabloqueadores na ascite refratária; a recomendação III.5 pede cautela com a droga na ascite e manda evitá-la na ascite refratária; e a III.4, na mesma seção, declara o propranolol utilizável tanto na cirrose compensada quanto na descompensada. A bula brasileira do profissional vai além e lista insuficiência hepática clinicamente manifesta entre as contraindicações do carvedilol, com a observação farmacocinética de que a biodisponibilidade pode aumentar até 80% na cirrose hepática por redução do efeito de primeira passagem. Nessa leitura, o paciente mais grave é justamente o que não deve receber a droga.

SBH, Arq Gastroenterol 2017, Figura 1 e recomendações III.4 e III.5; bula do profissional do carvedilol, Prati-Donaduzzi

Como decidir

O percurso Baveno VII permite carvedilol com ligadura na prevenção secundária quando tolerado. Ascite refratária isolada não determina suspensão; pressão persistentemente baixa, HRS-AKI e hipoperfusão orientam redução ou suspensão temporária, com reavaliação para reintrodução. As posições antigas permanecem acima como contexto documental, e não como opções equivalentes para prescrever hoje.

Varize média ou grossa em paciente que aceita as duas coisas: betabloqueador ou ligadura elástica?

O remédio primeiro, porque trata a doença e não a lesão

O betabloqueador atua sobre a pressão portal, que é a causa, e por isso age sobre todo o território — varizes gástricas, gastropatia hipertensiva portal e as colaterais que o endoscopista não alcança. É barato, está no Componente Básico da Rename 2024 em duas apresentações, não exige sala de endoscopia, não exige sedação e não exige que o paciente volte ao hospital a cada duas ou quatro semanas. O consenso o mantém como opção em qualquer calibre e prevê a troca para carvedilol ou ligadura apenas quando há intolerância.

SBH, Arq Gastroenterol 2017, recomendações III.3 e III.7

A ligadura primeiro, porque não depende de dose, de adesão nem de pressão

A ligadura elimina a lesão que sangra e não depende de o paciente tomar comprimido duas vezes por dia por tempo indeterminado, nem de a frequência cardíaca chegar ao alvo, nem de a pressão sistólica permitir subir a dose. É o caminho de quem tem contraindicação ao betabloqueio — asma, bloqueio atrioventricular, bradicardia —, de quem não tolerou a droga e de quem já está com a pressão no limite. O consenso a coloca em pé de igualdade com as drogas na varize média ou grossa, e fixa o programa: sessões a cada 2 a 4 semanas até a erradicação, controle 3 meses depois e depois a cada 6 a 12 meses.

SBH, Arq Gastroenterol 2017, recomendações III.3 e III.6

Como decidir

Escolha profilaxia conforme história de sangramento, risco, contraindicações e preferência, com a equipe. Betabloqueador exige titulação e monitorização; ligadura exige acesso a sessões e controles. Na prevenção secundária, o percurso admite associação com carvedilol quando tolerado. Registre a estratégia e as condições para reavaliá-la.

Varize fina, sem sinal vermelho, em Child-Pugh A ou B: tratar ou vigiar?

Vigiar, porque a recomendação não existe

O consenso brasileiro escreve que esses pacientes podem se beneficiar de profilaxia primária, mas que a evidência é insuficiente para sustentar uma recomendação — e não recomenda. Do lado da vigilância há um caminho fechado e barato: repetir a endoscopia a cada ano se a doença hepática estiver ativa e a cada dois anos se estiver inativa, e tratar assim que a varize crescer ou aparecer sinal vermelho. Nessa leitura, prescrever uso contínuo por tempo indeterminado a um paciente compensado, com os efeitos adversos e o custo de adesão que isso carrega, é antecipar um tratamento que ainda não tem indicação.

SBH, Arq Gastroenterol 2017, recomendações III.1 e I.5

Tratar, porque a vigilância que se promete não é a que acontece

A mesma recomendação abre a porta ao dizer que esses pacientes podem se beneficiar, e o argumento a favor de usar essa porta é de sistema, não de fisiopatologia: a endoscopia anual depende de fila, de transporte e de o paciente voltar, e o protocolo público de regulação ambulatorial mostra o quanto essa cadeia é disputada, ao precisar estabelecer prioridade de encaminhamento por classe funcional. Nessa leitura, um comprimido barato de uso contínuo, disponível na unidade básica, é mais confiável do que uma promessa de exame anual — e o erro de tratar a mais se corrige na consulta seguinte, enquanto o erro de perder o exame só aparece na hemorragia.

SBH, Arq Gastroenterol 2017, recomendação III.1; TelessaúdeRS-UFRGS, Protocolos de Regulação Ambulatorial, Gastroenterologia adulto, 3ª ed. 2025

Como decidir

Na varize fina sem sinal vermelho, avalie doença de base, reserva hepática e critérios do percurso antes de escolher tratar ou vigiar. Seguimento deve ter data e condições reais de execução. Dificuldade de acesso merece organização da assistência e discussão individual, sem converter ausência de retorno em indicação automática de medicamento.

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O raciocínio, em voz alta

Volte ao Vanderlino Rovai: 58 anos, 78 quilos, motorista de van escolar, mora a quarenta quilômetros do hospital. Cirrose alcoólica diagnosticada numa internação por ascite há dez meses; abstinente há um ano e três meses, confirmado pela esposa. Sem queixa hoje, veio pedir atestado de aptidão para a prefeitura. Pressão 118 por 76, frequência 78. Abdome mole e indolor, sem macicez móvel, baço palpável a dois dedos do rebordo na inspiração, circulação colateral fina irradiando do umbigo. Sem icterícia, sem asterixe, sem edema. Exames de sete semanas atrás: hemoglobina 12,9 g/dL, leucócitos 4.100, plaquetas 92.000, albumina 3,4 g/dL, bilirrubina total 1,6 mg/dL, RNI 1,3, AST 44, ALT 31, sódio 138 mEq/L, creatinina 0,9 mg/dL. Ultrassonografia: fígado de contornos irregulares, esplenomegalia homogênea. Nunca fez endoscopia digestiva alta.

  1. o que penso antes de pedir qualquer coisa

    Este não é um caso diagnóstico: é um caso de estadiamento perdido. Ele tem hepatopatia crônica documentada e três marcadores de hipertensão portal no mesmo dia — circulação colateral na parede, baço palpável e plaqueta de 92 mil. No protocolo público de regulação, veia abdominal dilatada tem razão de verossimilhança positiva de 11 e plaquetopenia abaixo de 110 mil tem 9,8; nenhum dos dois isolado seria fraco, e os dois juntos num cirrótico conhecido não deixam dúvida. O que falta não é hipótese: é saber se já existe varize e de que tamanho. E isso só uma endoscopia responde.

  2. a classe funcional, somada aqui e agora

    Bilirrubina 1,6 mg/dL, abaixo de 2,0, vale 1 ponto. Albumina 3,4 g/dL, na faixa de 2,8 a 3,5, vale 2. RNI 1,3, abaixo de 1,7, vale 1. Ascite ausente, 1. Encefalopatia ausente, 1. Total 6 pontos: classe A. Isso importa por dois motivos e nenhum deles é prognóstico neste momento. Primeiro, porque classe A não isenta ninguém do rastreio — a régua nacional manda rastrear independentemente da gravidade da disfunção hepática, e é exatamente esse paciente que costuma ficar de fora. Segundo, porque a classe funcional vai no encaminhamento, e é ela que move a fila. O cálculo e o que ele muda no ajuste de doses estão no capítulo de ajuste de dose na disfunção renal e hepática, na apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado.

  3. o pedido, escrito de um jeito que volte útil

    Escrevo: endoscopia digestiva alta para rastreio de varizes esofagogástricas em hepatopatia crônica; solicito descrição de presença de varizes, calibre em milímetros com classificação em fina, média ou grossa, e presença ou ausência de sinais vermelhos; paciente nunca endoscopado, nunca sangrou, Child-Pugh A. Não peço elastografia, e não é por falta do exame, que o consenso de 2017 dava como indisponível no sistema público e o protocolo federal de hepatite C de 2026 já registra em alguns serviços do país: é porque ela não mudaria o pedido. A combinação que pode dispensar a endoscopia foi descrita para a hepatite viral, e a cirrose de Vanderlino é alcoólica; e exige plaquetas acima de 150 mil, e as dele são 92 mil. Pedi-la aqui seria adiar o exame que decide por um que não decide. E anoto no prontuário, numa linha, o tempo de abstinência, porque é ele que vai definir o intervalo do próximo exame e ninguém vai lembrar disso daqui a dois anos.

  4. o laudo volta, e ele decide sozinho

    Três semanas depois: varizes esofágicas de médio calibre, cerca de 4 mm, em terço distal, sem sinais vermelhos; sem varizes gástricas; mucosa gástrica com padrão em mosaico discreto. Quatro milímetros cai na faixa média, de 3 a 5 mm, e a regra para média e grossa não tem condição: profilaxia primária obrigatória, independentemente de sinal vermelho e de classe funcional. Repare no que o laudo poupou de discussão — se fosse varize fina sem sinal vermelho num Child-Pugh A, eu estaria no único ponto do capítulo em que a régua nacional declara evidência insuficiente. Não é o caso: aqui a indicação é fechada.

  5. a escolha entre droga e ligadura, feita com ele e não por ele

    As três opções são betabloqueador tradicional, carvedilol ou ligadura elástica, e a régua nacional manda escolher por características do paciente, preferência, contraindicações, efeitos adversos e disponibilidade local. Ele não tem asma, não tem bloqueio, tem frequência de 78 e sistólica de 118: pode receber betabloqueio. E tem uma vida que decide o resto — mora a quarenta quilômetros, dirige van escolar de manhã e à tarde, e o programa de ligadura pediria três a quatro sessões com sedação em dois meses, em jejum, com alguém para trazê-lo e levá-lo de volta, e sem dirigir no dia. Programa que começa e não termina deixa varizes parcialmente tratadas e nenhuma droga. Explico as duas e ele escolhe o comprimido. Escrevo a escolha e o motivo no prontuário.

  6. a titulação, e o número que eu persigo

    No plano de Vanderlino, a equipe inicia propranolol e reavalia frequência, pressão, sintomas e função renal antes de titular. Os retornos mostram frequência de 68 e depois 58, com PAS de 112 e 104, respectivamente, sem intolerância descrita; a dose é mantida quando o conjunto está adequado, sem perseguir apenas o pulso. Se houver hipotensão ou lesão renal, reduzir ou suspender conforme avaliação e planejar retomada ou alternativa. Trocar por carvedilol não é resposta automática à intolerância hemodinâmica.

  7. a receita que não falta no meio do mês

    160 mg por dia são 4 comprimidos de 40 mg por dia, ou 120 comprimidos para 30 dias — quatro caixas de 30. Prescrevo a quantidade e confiro na consulta seguinte se ela foi dispensada, porque dose que não sobe por falta de comprimido é indistinguível, no prontuário, de dose que não sobe por decisão. E anoto o par que organiza as próximas consultas: 160 mg por dia, FC 58, PAS 104 — se algum desses três números mudar, alguém saberá em relação a quê.

  8. o que eu escrevo para os próximos doze meses

    Na profilaxia medicamentosa eficaz e tolerada, endoscopia de rastreio repetida pode não mudar conduta; não extrapolar isso para quem tem nova indicação ou está em programa de ligadura. Marcar retorno mais próximo durante titulação e, depois, conforme estabilidade, registrando pressão, pulso, perfusão, função renal, sódio e ascite. Encaminhar com etiologia, descompensações, exames, classe funcional e tratamento atual. Deixar plano de reavaliação se PAS persistentemente <90 mmHg, PAM <65 mmHg ou HRS-AKI: reduzir ou suspender temporariamente, corrigir o fator e discutir reintrodução. Ascite refratária isolada não significa retirada obrigatória permanente. Intolerância persistente exige alternativa, como ligadura quando indicada. Orientar paciente e esposa a procurar emergência imediatamente diante de hematêmese, melena com mal-estar ou sinais de choque.

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Faça você

Agora é outro paciente, no mesmo ambulatório, três semanas depois. Aprigio Casqueiro tem 34 anos, 71 quilos, é pedreiro e nasceu num município da Zona da Mata onde tomou banho de riacho a infância inteira. Vem encaminhado da unidade básica com a frase esplenomegalia a esclarecer, escrita há oito meses. Não bebe, nega hepatite, nunca foi internado, nunca vomitou sangue e nunca teve fezes pretas. Queixa-se de peso no lado esquerdo da barriga quando carrega saco de cimento. Pressão 124 por 78, frequência 72. Ao exame: fígado palpável e endurecido, com lobo esquerdo proeminente; baço endurecido e indolor, palpável a seis centímetros do rebordo costal esquerdo; sem icterícia, sem ascite, sem edema, sem asterixe; circulação colateral discreta em flancos. Exames: hemoglobina 11,2 g/dL, leucócitos 3.400, plaquetas 71.000, albumina 4,1 g/dL, bilirrubina total 0,9 mg/dL, RNI 1,1, AST 28, ALT 24, creatinina 0,8 mg/dL. Anti-HBs e anti-HBc negativos, HBsAg negativo, anti-HCV não reagente. Ultrassonografia de abdome superior: espessamento periportal acentuado, fígado com lobo esquerdo aumentado e contornos preservados, baço de 19 cm, veia porta de 14 mm. Parasitológico de fezes de uma amostra: negativo. Nunca fez endoscopia digestiva alta.

  1. o que já sei sem precisar de mais nenhum exame

    Um adulto jovem de área endêmica, com esplenomegalia volumosa, plaquetopenia, provas de função hepática rigorosamente normais e espessamento periportal na ultrassonografia. Metade dos itens dessa combinação é normal, e a normalidade faz parte do diagnóstico: a obstrução é anterior ao sinusoide, então a pressão sobe e o hepatócito continua perfundido. Ele não é cirrótico, e conduzi-lo como cirrótico erraria em três lugares — no prognóstico, na elegibilidade cirúrgica e na conversa com ele.

  2. o que eu preciso decidir hoje

    Cinco coisas. Primeira: o parasitológico negativo afasta alguma coisa, e o que a diretriz federal diz sobre a sensibilidade desse exame? Segunda: este paciente precisa de endoscopia de rastreio, com que indicação escrita e com quais três perguntas no laudo? Terceira: se vier varize de grosso calibre sem sinal vermelho, ele entra em profilaxia primária, e com o quê — e o que a régua nacional avisa sobre a força da evidência nesta população específica? Quarta: a plaqueta de 71 mil pede alguma conduta sobre o baço? Quinta: para onde ele vai — transplante, cirurgia, ambulatório —, e por qual porta do SUS?

  3. as armadilhas deste caso

    Três, e as três são de leitura. A primeira é a albumina de 4,1 g/dL: ela tranquiliza quem só sabe procurar cirrose e é justamente parte do critério aqui. A segunda é o parasitológico de uma amostra: as diretrizes federais registram que a técnica mais usada tem baixa sensibilidade para infecções leves em áreas de baixa e moderada endemicidade, e recomendam seis lâminas de uma mesma amostra e, quando possível, três amostras em dias alternados. A terceira é o número da plaqueta, que puxa quem o lê para uma conduta sobre o baço que este capítulo proíbe.

  4. conduta

    — sua vez —

  5. Continuidade do caso e prática do internato

    Explique a Vanderlino o objetivo da prevenção e quais sintomas deve comunicar, mantendo um plano de dose e reavaliação compreensível.

  6. Questão integrativa 1

    Ascite refratária obriga sempre suspender betabloqueador?

  7. Questão integrativa 2

    Que referências hemodinâmicas exigem atenção no Baveno VII?

  8. Questão integrativa 3

    A suspensão por hipotensão precisa ser para sempre?

  9. Questão integrativa 4

    Carvedilol é proibido na profilaxia secundária?

  10. Questão integrativa 5

    Tontura e queda de pressão se resolvem sempre trocando propranolol por carvedilol?

  11. Questão integrativa 6

    Por que a titulação de Vanderlino não olha só frequência?

Ver como fecharíamos

O parasitológico negativo de uma amostra não afasta nada, e a diretriz federal explica por quê: a técnica mais usada tem baixa sensibilidade para infecções leves em áreas de baixa e moderada endemicidade, e a recomendação é repetir com seis lâminas de uma mesma amostra e, quando possível, três amostras de fezes coletadas em dias alternados, com duas lâminas de cada. O diagnóstico da doença — o algoritmo parasitológico e sorológico, o tratamento com praziquantel e a notificação — é do capítulo O vermífugo de todo mundo, na apostila de Infectologia, e é para lá que vai a investigação etiológica; o que fica comigo é a hipertensão portal dele, e ela não espera a confirmação parasitológica. Peço hoje: endoscopia digestiva alta para rastreio de varizes esofagogástricas em hipertensão portal não cirrótica, solicitando presença de varizes, calibre em milímetros e presença ou ausência de sinais vermelhos. Sorologias de hepatite já vieram negativas, o que importa porque as diretrizes federais listam a forma hepatoesplênica complicada pela associação com hepatite crônica, com cirrose e com trombose portal — e por isso peço também Doppler do sistema porta no mesmo exame de imagem. Se a endoscopia mostrar varizes de grosso calibre, ele entra em profilaxia primária: a régua nacional da hepatologia registra que há poucos dados sobre betabloqueador ou ligadura como profilaxia primária na hipertensão portal esquistossomótica, mas que ambas as estratégias são atualmente usadas em pacientes sob risco de sangramento, e é explícita ao proibir escleroterapia em quem ainda não sangrou. Como ele é jovem, sem contraindicação e com pressão de 124 por 78, tanto o propranolol quanto a ligadura são defensáveis; sendo pedreiro e trabalhando por diária, converso as duas logísticas antes de escolher, e escrevo a escolha. Se a opção for o comprimido, começo propranolol 40 mg de 12 em 12 horas — 2 comprimidos de 40 mg por dia — e titulo pela frequência cardíaca até 55 a 60 bpm com sistólica acima de 90 mmHg. A plaqueta de 71 mil, isoladamente, não indica transfusão ou esplenectomia; avaliar tendência, sangramento, outros achados e procedimentos previstos: as diretrizes federais escrevem que anemia, leucopenia e plaquetopenia secundárias ao hiperesplenismo, em geral podem ocorrer sem repercussão importante; isso não dispensa seguimento ou investigação se houver sintomas, queda progressiva ou outra explicação possível. A anemia de 11,2, essa sim, merece explicação — perda de sangue e parasitoses intestinais associadas são as causas que o documento manda tratar adequadamente, e vale procurar sangramento oculto e outras helmintíases. Não indico esplenectomia: a única indicação cirúrgica ligada ao baço, no documento federal, é hiperesplenismo com manifestação clínica incapacitante, e peso no flanco ao carregar cimento não é isso. Sobre a cirurgia em geral: hoje ele não tem indicação nenhuma, porque as quatro situações listadas são recidiva precoce de varizes com sinais de sangramento iminente, varizes gástricas e esofágicas volumosas em quem reside fora de grandes centros, varizes gástricas volumosas persistentes após tratamento endoscópico, e hiperesplenismo incapacitante; nas demais condições, o próprio documento manda avaliação anual e cirurgia se a evolução for desfavorável. Registro para o futuro que, se um dia ele precisar operar, a operação preferida é a desconexão ázigo-portal com esplenectomia, com esclerose endoscópica no pós-operatório, e que anastomoses portossistêmicas totais devem ser evitadas — principalmente na esquistossomose — pela encefalopatia no pós-operatório e pela insuficiência hepática tardia por desvio do fluxo portal. Transplante hepático não entra: não é indicado na forma compensada, e a esquistossomose sequer figura entre as vinte e cinco condições listadas no artigo 127 do regulamento técnico do Sistema Nacional de Transplantes para inscrição em lista de fígado — a porta deste doente é a endoscopia com o ambulatório, e a cirurgia se e quando ela falhar. Por fim, o que eu digo a ele: que o remédio do verme mata o parasita e impede a doença de avançar, mas não desmancha a cicatriz já formada, de modo que o baço não vai voltar ao tamanho normal e isso não significa falha; que o acompanhamento das veias do esôfago continua depois que o tratamento do verme acabar; e que vômito com sangue ou fezes pretas é emergência no mesmo dia, dizendo no hospital que ele tem problema de pressão nas veias do fígado. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não isoladamente. Avaliar pressão, perfusão, função renal e tolerância, com ajuste conforme o quadro. 2. PAS persistentemente abaixo de 90 ou PAM abaixo de 65 mmHg, além de HRS-AKI, orientam redução ou suspensão e reavaliação. 3. Não necessariamente. Após recuperação, a equipe pode reintroduzir e titular conforme indicação e segurança. 4. Não. Pode integrar o betabloqueio associado à ligadura em pacientes selecionados, conforme tolerância. 5. Não. O carvedilol também reduz pressão; investigar intolerância e escolher a alternativa apropriada. 6. Porque segurança depende de pressão, perfusão, sintomas e função renal, além do efeito desejado.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Na forma hepatoesplênica compensada, citopenias por hiperesplenismo podem ser bem toleradas. Neste paciente sem sangramento ou repercussão clínica atribuível às citopenias, não se indica esplenectomia ou embolização apenas para normalizar contagens. É necessário seguimento e avaliação das varizes e demais complicações da hipertensão portal. Não se deve afirmar que esplenectomia jamais modifica a pressão portal: na esquistossomose, a redução do influxo esplênico pode alterar a hemodinâmica. Esse efeito não constitui indicação isolada e precisa ser ponderado contra riscos infecciosos, trombóticos e operatórios. Citopenias progressivas, sintomáticas ou discordantes do quadro exigem reavaliação etiológica e terapêutica.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Escreva de memória, sem consultar, e só então confira: (1) para quem se pede endoscopia de rastreio, e a oração da recomendação nacional que impede você de excluir o paciente compensado; (2) as três faixas de calibre em milímetros e o que cada uma decide, com e sem sinal vermelho; (3) os quatro intervalos de repetição — sem varize e com varize fina, com doença ativa e inativa — e os três exemplos fechados do que é doença inativa; (4) o alvo do betabloqueador, com os dois números, e por que a pressão arterial não é o alvo; (5) as quatro situações que tiram o betabloqueador e o teto de dose na presença de ascite; (6) a assimetria entre profilaxia primária e secundária em uma frase; e (7) a razão pela qual não se esplenectomiza por plaqueta baixa. Depois faça a conta, no papel: 20 mg, 40 mg, 80 mg e 160 mg por tomada de propranolol, em comprimidos do elenco brasileiro, e quantos comprimidos são necessários para 30 dias na dose máxima. E confira três coisas que dependem só do seu serviço: quanto tempo demora hoje uma endoscopia de rastreio marcada pela unidade básica; se existe propranolol de 10 mg e de 40 mg na farmácia da sua unidade; e com que frequência o seu serviço consegue marcar sessões de ligadura.

Em 30 dias

Separe os prontuários dos cinco últimos pacientes com cirrose ou hepatopatia crônica atendidos por você, no ambulatório ou na enfermaria, e responda a estas quatro perguntas lendo o papel: Algum deles tem, escrita em algum lugar, a data de uma endoscopia digestiva alta? Dos que estão em uso de betabloqueador, quantos têm no prontuário um par de frequência cardíaca e dose registrado na mesma linha — e quantos estão com frequência acima de 60 numa dose que ninguém subiu? Dos que têm ascite, algum está acima de 160 mg por dia de propranolol? E, dos que têm esplenomegalia com plaquetopenia, em quantos alguém pediu albumina, bilirrubina e tempo de protrombina esperando que pudessem estar normais? Depois volte ao caso do Vanderlino e troque um dado de cada vez, procurando o ponto exato em que a conduta muda de lado: e se a endoscopia dele tivesse mostrado varize fina sem sinal vermelho; e se ele fosse Child-Pugh C; e se ele tivesse asma; e se o sódio dele viesse 128 na consulta de três meses; e se ele fosse o Aprigio, com albumina de 4,1.

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Agora atenda

Agora atenda: homem de 46 anos, torneiro mecânico, encaminhado da unidade básica para o seu ambulatório com o pedido escrito como plaquetopenia a investigar. Ele se sente bem, trabalha normalmente, nunca vomitou sangue e nunca teve fezes pretas. Bebeu pesado dos vinte aos quarenta e parou há seis anos, sem acompanhamento. Traz um hemograma com plaquetas de 78.000, hemoglobina de 13,4 e leucócitos de 4.900, e uma ultrassonografia pedida por dor lombar que descreve fígado heterogêneo e baço aumentado. Não traz albumina, não traz coagulograma e não sabe dizer se já fez endoscopia. Você tem quinze minutos de consulta, acesso a exames básicos, fila de endoscopia com espera real e uma farmácia de unidade básica. Conduza: diga o que procura no exame físico e como, decida quais três exames de sangue mudam a sua conclusão hoje, escreva o pedido de endoscopia com as perguntas que o laudo precisa responder, e diga em voz alta o que você vai fazer se o laudo voltar com varize de médio calibre — inclusive como escolhe entre remédio e ligadura para a vida dele, e qual número você vai perseguir na consulta seguinte.

Hipertensão portal e suas complicações cirúrgicas – Antes de sangrar, é só um exame — Internato | OsceLabs