Cirurgia GeralCirurgia do Aparelho Digestivo

Dois cânceres com o mesmo nome

Câncer gástrico (Lauren, linfadenectomia, gastrectomia)

Reconhecer sinais de alarme, confirmar e estadiar câncer gástrico e acompanhar recuperação nutricional após o tratamento.

Fontes deste capítulo

BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria Conjunta nº 03, de 15 de janeiro de 2018 — aprova as Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Adenocarcinoma de Estômago. Brasília: SAS/SCTIE, 2018.

BRASIL. Ministério da Saúde. Conitec. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Adenocarcinoma de Estômago — relatório de recomendação, versão preliminar. Brasília, agosto de 2026. Consulta Pública nº 85/2026.

COELHO, L. G. V. et al. Vth Brazilian Consensus Conference on Helicobacter pylori infection. Arquivos de Gastroenterologia, v. 63, e26043, 2026. DOI 10.1590/S0004-2803.24612026-043.

INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER (Brasil). Estimativa 2026: incidência de câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA, 2026. ISBN 978-65-88517-52-9 (versão eletrônica).

BRASIL. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024.

01

Responda antes de ler

Homem de 59 anos, motorista, sem queixa digestiva, traz exames pedidos por cansaço: hemoglobina 9,6 g/dL, VCM 72 fL, ferritina 8 ng/mL e saturação da transferrina 7%. Usa ácido acetilsalicílico 100 mg há três anos. O laboratório orientou por escrito iniciar ferro e repetir o hemograma em três meses. Qual é a conduta mais adequada?

02

O paciente que você vai ver

Quarta-feira, oito e quarenta, ambulatório de clínica médica de um hospital de ensino. A agenda da manhã tem dezesseis nomes e o terceiro deles já esteve aqui duas vezes este ano. Afrânio Jenipapo tem 64 anos, é aposentado do frigorífico, mora com a filha e traz na mão uma receita amassada de omeprazol 20 mg, que ele renova desde março. A ficha da recepção diz, com letra apressada: renovação de receita.

A preceptora está na sala ao lado e passou a instrução pela porta entreaberta: veja o seu Afrânio, é só a receita, deve dar dez minutos. É a frase que fecha o caso antes de ele começar, e é dela que este capítulo trata.

Ele senta e resume o ano em duas frases. A azia melhorou com o remédio, mas nunca sumiu de vez. Come menos porque enche rápido — desde umas quatro ou cinco semanas, meio prato já basta, e o que sobra ele deixa. Diz isso sem queixa nenhuma, como quem descreve um hábito novo. Perguntado sobre dor, responde que não é dor, é um peso.

Você olha o prontuário eletrônico. Em março, primeira consulta: dispepsia, omeprazol 20 mg pela manhã por oito semanas. Em junho, segunda consulta: melhorou parcialmente, manter. Peso registrado em março, 74 quilos. Em junho não há peso. Hoje, a balança da sala marca 66 — e a balança da sala é a única coisa neste caso que não depende de ninguém lembrar de perguntar.

Oito quilos em cinco meses, num homem de 74, são quase onze por cento do peso corporal, sem dieta e sem intenção. Esse número, sozinho, muda a consulta de categoria. Ele não estava no prontuário porque em junho ninguém pesou; e não estar escrito é o mesmo, para todos os efeitos práticos, que não ter acontecido.

O hemograma que ele traz é de duas semanas atrás, pedido pela unidade básica por causa do cansaço: hemoglobina 10,2 g/dL, volume corpuscular médio 74 fL. Microcítica. Ninguém pediu ferritina, ninguém investigou, e o papel veio com um carimbo e a orientação de tomar sulfato ferroso.

No exame físico, o abdome é flácido e indolor; não há massa palpável, não há ascite, o fígado não é nodular. As fossas supraclaviculares estão livres. Nada disso tranquiliza: o exame físico normal é o mais frequente neste tumor, inclusive quando ele já é irressecável, e o que decide não está nas mãos do examinador — está na endoscopia que ainda não foi pedida.

Afrânio nunca fez endoscopia. Quando você pergunta se alguém da família teve câncer, ele diz que o irmão mais velho morreu de estômago, aos 58, em Belém, e que na época falaram em úlcera. Ele conta isso como quem conta uma coisa de outro tempo, e é a informação mais importante da manhã.

A decisão que cabe a você hoje não é o diagnóstico. É a de não renovar a receita — e escrever, no lugar dela, um pedido que faça o sistema andar.

03

Quem adoece disso

A Estimativa 2026 do Instituto Nacional de Câncer projeta 22.530 casos novos de câncer de estômago no Brasil para o ano, sendo 13.830 em homens e 8.700 em mulheres. A soma fecha, e essa é a primeira conta que se confere num documento de incidência: 13.830 mais 8.700 são exatamente os 22.530 publicados.

Excluído o câncer de pele não melanoma, o estômago é o quarto tumor mais incidente entre os homens brasileiros, com 5,4% dos casos novos, atrás de próstata, cólon e reto, e traqueia, brônquio e pulmão. Entre as mulheres é o sétimo, com 8.700 casos. A taxa bruta é de 13,25 por 100 mil homens e 7,92 por 100 mil mulheres; ajustadas pela população-padrão mundial, caem para 10,23 e 5,01. A diferença entre sexos é de quase o dobro e não é artefato de idade, porque persiste depois do ajuste.

O número que muda a leitura de um plantão é regional. Na Região Norte, o estômago é o segundo câncer mais incidente entre os homens — 1.260 casos, 11,6% de todos os cânceres masculinos da região, atrás apenas da próstata — e o quinto entre as mulheres, com 640 casos. A taxa bruta masculina do Norte, 13,30 por 100 mil, é praticamente igual à nacional, mas a ajustada é maior, 11,41 contra 10,23, o que significa que a diferença não vem de a região ter mais idosos: vem de ter mais doença.

Traduzido para a sala de espera: no Sudeste, o interno que vê dispepsia crônica em homem de 60 anos está diante de um diagnóstico raro; em Belém, em Manaus ou em Macapá, está diante do segundo câncer mais comum do sexo dele. A mesma queixa, a mesma idade, e uma probabilidade pré-teste que não é a mesma. O estado do Pará sozinho tem estimativa de 1.020 casos novos no ano, número maior que o de câncer de cólon e reto do estado.

A tendência de longo prazo é de queda de incidência, e ela acompanha a queda da prevalência da infecção por Helicobacter pylori, a melhora do saneamento e a refrigeração dos alimentos, que reduziu o consumo de conservas e de defumados. Mas queda de incidência não é queda de mortalidade proporcional, porque o que sustenta a letalidade é o estádio ao diagnóstico, e esse não melhorou.

A diretriz federal em vigor, de 2018, ainda descreve o estômago como o terceiro câncer mais frequente entre os homens e o quinto entre as mulheres, porque cita a Estimativa 2016. Os números envelheceram e a posição mudou; a régua clínica dela não. Vale como advertência de leitura: num documento normativo antigo, a epidemiologia é a primeira parte a apodrecer, e é a que menos importa para a conduta.

Este é um câncer de homem, de idoso e de pobre. A diretriz de 2018 escreve isso com essas palavras — homens, idosos e indivíduos de classes sociais mais baixas são os mais frequentemente afetados, independentemente da região — e a frase tem consequência prática: o paciente típico é o que menos volta para saber de resultado, o que mais aceita a primeira explicação e o que menos reclama de espera. A fila não o expulsa; ele sai sozinho.

A incidência sobe a partir dos 35 aos 40 anos, e a maioria dos casos aparece depois dos 60. Mas o câncer gástrico do adulto jovem existe, é de outro tipo histológico e não é raridade de prova: o próprio consenso brasileiro de 2026 registra tendência de aumento do tumor de início precoce, antes dos 40 anos, em países da América Latina, e usa esse dado para justificar indicar endoscopia mais cedo no Brasil do que as diretrizes internacionais indicam.

Sobre mortalidade, a diretriz de 2018 traz a série histórica: entre os homens, o estômago foi o câncer de maior mortalidade até a década de 1970, passou a segundo em 2000 com taxa de 7,82 por 100 mil e caiu a terceiro, com 6,90, no último registro que ela consolidou; entre as mulheres, a taxa era de 2,09 por 100 mil em 2014. São dados de mortalidade, não de incidência, e não se comparam com os números de casos novos da Estimativa — confundir as duas séries é o erro de leitura mais comum em epidemiologia de câncer.

O que o interno precisa levar deste bloco cabe em três números: um em cada vinte cânceres masculinos do país é de estômago; um em cada nove, no Norte; e o exame que faz o diagnóstico custa uma consulta e um pedido bem escrito.

04

Por que acontece o que acontece

O adenocarcinoma responde por mais de 90% das neoplasias malignas do estômago, e por isso os documentos brasileiros usam câncer gástrico e adenocarcinoma gástrico como sinônimos. Os outros 10% — linfoma, tumor do estroma gastrointestinal, tumor neuroendócrino — têm história natural e tratamento diferentes, e ficam fora deste capítulo e daquelas diretrizes.

Dentro do adenocarcinoma há duas doenças com o mesmo nome, e a classificação de Lauren é o que as separa. O tipo intestinal forma glândulas, cresce em massa mais delimitada, atinge sobretudo homens idosos e nasce de uma sequência longa de lesões que a precedem. O tipo difuso não forma glândulas: as células infiltram a parede isoladamente, com aspecto em anel de sinete, e por isso ele espalha cedo, aparece em pessoas mais jovens, atinge mais mulheres e tem pior prognóstico. A diretriz brasileira de 2018 descreve exatamente esses dois retratos.

O tipo intestinal segue uma cascata que se pode interromper. A infecção por Helicobacter pylori produz gastrite crônica; a inflamação que não cede leva à perda glandular, que é a atrofia; sobre a atrofia instala-se a metaplasia intestinal, epitélio de intestino onde deveria haver epitélio de estômago; da metaplasia surge a displasia; e da displasia, o carcinoma. Cada degrau leva anos, e cada degrau é visível numa biópsia — que é a razão de a endoscopia com biópsias sistemáticas valer a pena mesmo quando não há lesão visível.

Ilustração de estômago aberto com pregas mucosas, lesão ulcerada focal e tecido adiposo com estruturas nodais ao redor.
Representação artística de peça gástrica aberta com lesão ulcerada. O aspecto macroscópico orienta a descrição, mas histologia, profundidade, margens e avaliação linfonodal dependem do exame anatomopatológico. A imagem não é uma fotografia de peça real e não permite contar ou certificar o número de linfonodos examinados.

É essa cascata que explica por que erradicar a bactéria previne câncer. O consenso brasileiro de 2026 é explícito ao recomendar a erradicação em todos os casos de condições pré-neoplásicas, atrofia e metaplasia intestinal, e de lesão pré-neoplásica, que é a displasia, pela probabilidade de reduzir o risco de carcinoma. A erradicação em si, com esquema, duração e teste de confirmação, é do capítulo de doença ulcerosa péptica e Helicobacter pylori, na apostila de Gastroenterologia — este capítulo cede a ele o tratamento da bactéria e fica com o que a bactéria significa para este tumor.

O tipo difuso não segue essa cascata, e essa é a informação clínica mais mal compreendida do tema. Ele não precisa de atrofia nem de metaplasia para existir, o que significa que uma endoscopia com biópsias normais de mucosa não o exclui e que a erradicação da bactéria não protege dele do mesmo modo. Quando ele infiltra a parede inteira sem fazer massa, o estômago perde a distensibilidade e vira um tubo rígido: é a linite plástica, e ela pode passar despercebida numa endoscopia mal insuflada, porque não há úlcera para biopsiar — há uma parede que não abre.

Há uma forma hereditária desse tipo, ligada a mutação do gene CDH1, que codifica a caderina-E, a proteína que faz as células epiteliais se colarem umas às outras. Sem ela, as células se soltam e infiltram. A diretriz brasileira de 2018 registra a gastrectomia profilática em portadores dessa mutação — é o único lugar do texto federal em que se retira um estômago sem tumor diagnosticado, e a decisão é de serviço especializado, com aconselhamento genético.

A minuta federal de 2026 acrescenta uma segunda camada de classificação, molecular, com quatro subtipos: positivo para vírus Epstein-Barr, com instabilidade de microssatélites, genomicamente estável e com instabilidade cromossômica. Ela também retira do texto a descrição de Lauren que a diretriz de 2018 traz, mantendo o nome apenas dentro dos critérios de ressecção endoscópica. Para o interno, isso significa uma coisa prática: o laudo que ele vai ler continua vindo com intestinal ou difuso escrito, e a régua que ensina a interpretá-los é a de 2018, não a que vem depois.

Por que o tumor é silencioso até tarde tem explicação mecânica simples. O estômago é uma bolsa complacente de mais de um litro; uma lesão de dois ou três centímetros na parede não obstrui nada, não distende nada e não dói. Sintoma só aparece quando o tumor sangra, quando estreita uma das duas saídas — a cárdia acima, o piloro abaixo — ou quando a parede infiltrada deixa de acomodar volume. É por isso que saciedade precoce nova, num adulto, é sintoma de doença de parede até prova em contrário, e não uma variação do apetite.

05

Como se apresenta de verdade

Este tumor quase nunca se apresenta como câncer. Ele se apresenta como uma queixa banal que responde ao tratamento, e é essa resposta parcial que consome os meses. As seis portas abaixo cobrem quase tudo o que chega ao interno; a primeira é, de longe, a mais comum e a mais perdida.

A dispepsia que deixou de ser dispepsia

Dispepsia é queixa de dez a vinte por cento dos adultos e a imensa maioria é funcional. O problema não é tratar empiricamente; é não ter definido, antes de tratar, o que faria parar. Um inibidor de bomba melhora a azia de quem tem câncer gástrico exatamente como melhora a de quem não tem — a supressão de ácido alivia sintoma, não trata tumor —, e é por isso que a melhora parcial funciona como sedativo do raciocínio.

A lista de sinais de alarme da dispepsia é do capítulo Sete anos de omeprazol, na apostila de Gastroenterologia, que é o dono da doença do refluxo, do uso crônico do inibidor de bomba e da comparação entre as listas brasileiras de alarme; ele inclusive mediu que duas listas nacionais só coincidem em três itens. Este capítulo não refaz esse trabalho: cita e usa. O que fica aqui é o recorte gástrico da lista, que é o que decide se o estômago precisa ser visto hoje.

Os seis achados que obrigam endoscopia agora, num adulto com queixa dispéptica, são: perda de peso não intencional; disfagia; vômitos persistentes; massa abdominal palpável; sangramento digestivo, inclusive na forma de anemia ferropriva; e história de câncer gástrico em parente de primeiro grau. Saciedade precoce nova entra por parentesco clínico, porque é o sintoma da parede que não distende. O consenso brasileiro de 2026 é a régua nacional dessa lista.

O erro que custa o caso tem nome e tem frase: vamos tentar mais um mês de omeprazol. Ele é atraente porque é verdadeiro em quase todos os pacientes — a maioria vai melhorar — e porque adia uma fila. Mas o tempo que ele compra sai do único intervalo em que este tumor é curável, e não há como recuperá-lo depois. Diante de qualquer um dos seis achados, não se troca a droga, não se aumenta a dose e não se marca retorno para reavaliar resposta clínica: pede-se endoscopia.

A anemia ferropriva como porta de entrada

Anemia por deficiência de ferro em homem adulto e em mulher fora da idade fértil obriga a investigar o tubo digestivo, e obriga com essas palavras. O raciocínio é de exclusão: retirados a menstruação, a gestação e a má absorção conhecida, sobra uma única via de saída para o ferro, e ela fica dentro do abdome. O câncer gástrico é uma das lesões que sangram nesse regime — pouco, todo dia, sem melena visível — e é diagnosticado, com frequência, por um hemograma pedido para outra coisa.

A investigação da anemia em si é do capítulo Anemia ferropriva, na apostila de Hematologia e Hemoterapia, e é lá que estão os exames que confirmam a ferropenia, os valores que a definem, a dose escrita em ferro elementar e a determinação de encaminhar homem adulto e mulher na pós-menopausa aos dois exames endoscópicos já na primeira consulta. É lá que essa decisão mora, e este capítulo cede a ela a investigação da anemia inteira.

O que este capítulo assume, e declara que assume, é a metade alta dessa investigação depois que ela chega: o que o endoscopista precisa fazer, quantas biópsias e de onde, e por que um laudo de gastrite não encerra nada. O capítulo Câncer colorretal, na apostila de Coloproctologia, assume explicitamente a metade baixa — confirmada a ferropenia sem explicação suficiente, o cólon precisa ser visto por colonoscopia. As duas metades declaram a mesma fronteira, cada uma do seu lado, e nenhuma substitui a outra: parar na endoscopia alta é o atalho mais frequente; parar na colonoscopia é o mais silencioso.

Um alerta de leitura para não transformar cessão em abandono. O capítulo de anemia ferropriva registra, com razão, que as alterações do trato superior raramente explicam sozinhas a deficiência de ferro. A frase é verdadeira em frequência e perigosa se lida como dispensa: a exceção rara é justamente a que mata, e ela se resolve com biópsia, não com estatística. Gastrite encontrada na endoscopia não é diagnóstico de causa de anemia; é achado, até que a lesão tenha sido biopsiada e o cólon, visto.

O emagrecimento que ninguém quantificou

Perda de peso é o sintoma mais frequente do câncer gástrico avançado e o mais mal registrado da rede. Ela costuma vir atribuída a outra coisa — o paciente parou de beber, mudou de casa, ficou triste, está mais velho — e a atribuição fecha a investigação sem exame nenhum.

Quantificar é o que transforma a queixa em critério. Perda não intencional acima de cinco por cento do peso corporal em seis meses, ou acima de dez por cento em qualquer prazo, é achado de doença até prova em contrário. O único jeito de saber isso é ter dois pesos aferidos, e é por isso que a balança da sala vale mais, aqui, do que a maior parte do exame físico. Um peso hoje sem um peso anterior é metade de um dado.

Escreva o número, o percentual e o intervalo no prontuário e no pedido de exame. Um pedido que diz emagrecimento não convence ninguém; um que diz perda ponderal não intencional de oito quilos em cinco meses, com peso aferido hoje, é outro documento. A diferença entre os dois é a única parte deste processo que está inteiramente nas suas mãos.

O paciente jovem e a linite plástica

O tumor difuso muda o retrato: pessoa mais jovem, com frequência mulher, sem os anos de gastrite crônica que precedem o tipo intestinal, e com uma queixa que parece funcional — enche rápido, dói pouco, emagrece. É o paciente que recebe rótulo de dispepsia funcional ou de transtorno alimentar e volta seis meses depois com ascite.

Na linite plástica o estômago inteiro está infiltrado e a parede é rígida. Isso produz três armadilhas encadeadas. A endoscopia pode ver mucosa quase normal, porque a infiltração é submucosa. A biópsia superficial pode vir negativa pela mesma razão, e uma biópsia negativa em estômago que não distende não afasta nada — pede-se nova endoscopia com biópsias profundas ou macrobiópsia. E a tomografia mostra espessamento parietal difuso que, sem distensão gástrica adequada no protocolo, é confundido com estômago contraído.

A pista que o interno pode colher sem aparelho nenhum é a saciedade precoce de instalação recente, em semanas, num adulto que antes comia normalmente. Ela vale mais do que a intensidade da dor, e é a queixa que Afrânio trouxe em terceiro lugar, depois da azia e do cansaço, porque ninguém tinha perguntado.

O exame físico que ainda decide alguma coisa

O exame físico normal é a regra neste tumor, inclusive em doença avançada — a diretriz de 2018 registra que a doença pode cursar assintomática mesmo já metastática. O exame não serve para descartar; serve para achar o achado que muda o estádio numa única consulta e evita semanas de investigação com intenção curativa.

Quatro coisas se procuram de propósito, e as quatro levam menos de um minuto. Massa palpável no andar superior do abdome, que a minuta federal de 2026 descreve como o sinal mais frequentemente identificado. Linfonodo supraclavicular esquerdo endurecido. Nódulo periumbilical. E ascite ou hepatomegalia nodular, que apontam disseminação peritoneal ou hepática.

O toque retal e o exame ginecológico entram quando há ascite ou suspeita de disseminação peritoneal, pela possibilidade de implante em fundo de saco e de metástase ovariana. Nenhum desses achados é necessário para pedir a endoscopia — todos eles, quando presentes, mudam a conversa com o paciente e a urgência do encaminhamento no mesmo dia em que aparecem.

Quando ele chega pela porta da urgência

Uma parte destes pacientes não passa pelo ambulatório. Chega sangrando, chega perfurado ou chega obstruído, e o câncer é o diagnóstico da peça, não o da entrada.

Hemorragia digestiva alta é do capítulo Hemorragia digestiva alta, o primeiro desta apostila, e para lá vão a estabilização hemodinâmica, o modo de classificar a lesão e a hemostasia por via endoscópica. Este capítulo fica com uma obrigação só, e ela some com frequência no meio da urgência: a lesão que sangrou tem de sair biopsiada, e a endoscopia de controle tem de estar marcada antes de o paciente ir para casa.

A perfuração é do capítulo O minuto que ele sabe de cor, na apostila de Urgência e Emergência Cirúrgica. Ele registra que de dez a dezesseis por cento das perfurações gástricas são causadas por carcinoma e que a úlcera gástrica perfurada não se trata como a duodenal: exige material para exame anatomopatológico. Este capítulo cede a ele a operação de urgência e assume a consequência ambulatorial — o paciente que saiu de uma rafia de úlcera gástrica sem laudo de anatomia patológica precisa de endoscopia com biópsia marcada, e quem marca é quem o vê na primeira consulta depois da alta.

A obstrução pilórica se apresenta como vômito de retenção, com alimento de horas antes, e desidratação com alcalose hipoclorêmica. A obstrução da cárdia se apresenta como disfagia, e aí o diferencial é com o câncer de esôfago — do capítulo Quando ele conta, já está estreito, o sexto desta apostila, que é o dono daquele tumor, dos prazos legais e do esôfago de Barrett. Aquele capítulo registra que o câncer gástrico entra no diferencial do mesmo paciente e que a mesma endoscopia investiga os dois; este capítulo declara a fronteira do seu lado, com as mesmas palavras: o tumor de esôfago e o da junção esofagogástrica são dele, o do estômago é deste, e o exame que separa um do outro é o mesmo, feito uma vez só. A disfagia de causa motora é do capítulo A comida que volta inteira, o quarto desta apostila.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação deste tumor tem uma ordem, e a ordem é o que mais se erra. Endoscopia com biópsia primeiro, sempre; imagem depois do laudo, para estadiar. Pedir tomografia antes da endoscopia não antecipa nada e adia o único exame que dá diagnóstico.

A endoscopia digestiva alta, e por que ela vem primeiro

A diretriz federal em vigor manda submeter à endoscopia digestiva alta o paciente com suspeita, e o exame descreve a localização da lesão — cárdia, com atenção especial à junção esofagogástrica, fundo, corpo, antro e piloro — e o grau de disseminação no órgão. A minuta de 2026 vai além e a chama de padrão-ouro para o diagnóstico desta doença.

O pedido precisa ser escrito de um jeito específico, e a razão é jurídica antes de ser clínica. A Lei nº 12.732 dá prazo de até trinta dias para os exames necessários à elucidação quando a hipótese diagnóstica principal for de neoplasia maligna e a solicitação for fundamentada, e prazo de até sessenta dias para o início do primeiro tratamento contados do laudo patológico. As duas contagens, o que cada uma exige e o vão que existe entre elas estão auditados no capítulo Quando ele conta, já está estreito, que é o dono dos prazos no nível — este capítulo cita e não reabre.

O que isso significa na prática do seu pedido: escreva a hipótese principal de neoplasia gástrica com essas palavras, e fundamente com peso aferido, percentual perdido, tempo, hemoglobina, volume corpuscular médio e história familiar. Um pedido que só diz dispepsia a esclarecer não dispara prazo algum e vai para a fila de todo mundo — e a diferença entre as duas filas se mede em meses, para o mesmo paciente e o mesmo exame.

Registre também, no pedido, a suspeita de retenção gástrica quando houver vômito de alimento antigo: isso muda o jejum, muda o preparo e muda o risco de broncoaspiração durante a sedação.

Quantas biópsias, de onde, e em quantos frascos

Há duas situações e elas não se confundem. Diante de lesão suspeita, biopsia-se a lesão, com número generoso de fragmentos e das bordas, porque o centro da úlcera costuma trazer só necrose. Diante de mucosa sem lesão característica, a diretriz de 2018 é explícita: biópsias de alterações inespecíficas e amostras aleatórias devem ser feitas assim mesmo.

Para o mapeamento da mucosa, o consenso brasileiro de 2026 descreve dois protocolos. O sistema de Sydney atualizado prevê biópsias das curvaturas menor e maior do antro e do corpo, quatro amostras, mais uma quinta da incisura angular. As diretrizes europeias de estadiamento de lesões pré-malignas preveem duas do antro e duas do corpo. Em ambos, áreas de aspecto atrófico e lesões suspeitas pedem biópsia dirigida adicional.

A regra que mais se perde na prática é a dos frascos: as amostras precisam ir em frascos separados por sítio e identificados. Sem isso, o patologista pode dizer que há atrofia e metaplasia, mas não pode dizer onde nem em que extensão — e é a extensão por sítio que estratifica risco e define o intervalo de vigilância. Um único frasco com tudo dentro transforma um exame de estadiamento de mucosa num exame de presença ou ausência de bactéria.

Uma endoscopia normal em paciente com sinal de alarme não encerra a investigação, e essa é a frase que mais precisa sobreviver a este capítulo. As razões são três, e cada uma tem conduta própria. O tumor difuso pode infiltrar a submucosa com mucosa quase intacta, e o estômago que não distende é o achado — pede-se nova endoscopia com biópsias profundas. A biópsia pode ter errado o alvo, e uma biópsia negativa de lesão macroscopicamente suspeita se repete, não se aceita. E o sintoma pode ser de outro órgão, o que se resolve continuando a investigação, não a encerrando.

O laudo endoscópico que serve tem quatro elementos: localização por compartimento gástrico, aspecto e tamanho da lesão, número de fragmentos e sítios biopsiados, e a descrição da distensibilidade do órgão. O laudo que diz apenas gastrite enantematosa antral não permite decisão nenhuma.

O que o Helicobacter pylori muda antes e depois do diagnóstico

Antes do diagnóstico, ele é a maior causa evitável desta doença, e a erradicação é prevenção primária. O consenso brasileiro de 2026 recomenda a erradicação em todos os infectados e a destaca nas condições pré-neoplásicas — atrofia e metaplasia intestinal — e na lesão pré-neoplásica, que é a displasia.

Uma recomendação em particular sai da consulta de Afrânio e entra na da família dele. Parentes de primeiro grau de paciente com câncer gástrico — pais, irmãos e filhos — devem ser testados e tratados se positivos; entre 20 e 29 anos por método não invasivo, quando disponível, e a partir dos 30 anos por endoscopia com biópsias de antro e corpo, para diagnosticar a infecção e estadiar a mucosa. Isso é conduta, não curiosidade: o risco de câncer gástrico nesses parentes é duas a três vezes o da população geral, e um estudo randomizado com mais de mil e seiscentos familiares mostrou risco 55% menor no grupo tratado.

Depois do diagnóstico, a bactéria continua importando. O consenso recomenda a erradicação em todos os infectados após ressecção endoscópica ou cirúrgica de câncer gástrico, porque o estômago que sobrou permanece num campo de risco. É a diferença entre tratar um tumor e tratar um órgão.

O esquema de erradicação, a duração, o preparo do teste de confirmação e as trocas por falha são do capítulo de doença ulcerosa péptica e Helicobacter pylori, na apostila de Gastroenterologia. Este capítulo cede a ele o tratamento e guarda apenas um lembrete de sequência: em quem já tem lesão suspeita, a biópsia e o laudo vêm primeiro; erradicar antes de biopsiar apaga o achado inflamatório e não muda o tumor.

Estadiamento na medida do interno

Depois do diagnóstico histopatológico — e a ordem está escrita assim na diretriz —, a tomografia computadorizada de abdome e tórax com contraste oral e venoso define a extensão. A minuta de 2026 acrescenta a pelve e o protocolo de distensão gástrica, e essa distensão não é detalhe técnico: sem ela, o estômago contraído imita espessamento parietal e o espessamento real passa despercebido.

A ecoendoscopia avalia a profundidade da invasão na parede e ajuda a separar lesão superficial de avançada. A diretriz de 2018 a considera clinicamente útil, com a ressalva do desempenho baixo para distinguir T1a de T1b e para avaliar linfonodos; a minuta de 2026 traz sensibilidade e especificidade de 85% para T1 e de 90% para T2. Na rede, o que decide se ela entra é a disponibilidade, e a ausência dela não deve atrasar o encaminhamento.

A laparoscopia de estadiamento com biópsia e citologia do lavado peritoneal aparece na minuta de 2026 para candidatos a tratamento com intenção curativa, com risco maior de carcinomatose oculta: estádio IB a III com histologia difusa ou pouco coesiva, tumores maiores que 5 cm, localização distal, linite plástica, baixo grau de diferenciação, ascite mínima ou dor desproporcional. Ela não se faz em tumor inicial candidato à ressecção endoscópica nem em quem já tem metástase evidente. Como está numa minuta, o interno a apresenta como proposta em discussão, não como obrigação.

O TNM é o sistema, e a edição importa. A régua federal em vigor adota a classificação da American Joint Committee on Cancer na 8ª edição, e diz isso com todas as letras. A minuta de 2026 reproduz o mesmo agrupamento por estádio, mas atribui a classificação apenas à União Internacional Contra o Câncer, sem nomear edição alguma — e o capítulo Câncer colorretal, na apostila de Coloproctologia, registra que o protocolo nacional do cólon nomeia a 8ª edição. Enquanto a minuta não for aprovada, cite a 8ª edição e o documento de 2018; se ela for aprovada como está, o Brasil passará a ter, para o estômago, um estadiamento sem edição declarada.

O número que o interno tem obrigação de conhecer é 16. A diretriz de 2018 registra que pelo menos 16 linfonodos deveriam ser ressecados para permitir estadiamento adequado, e a minuta de 2026 repete a regra do lado da patologia: o exame de um espécime de linfadenectomia regional normalmente inclui 16 ou mais linfonodos, e se vierem negativos sem que esse número tenha sido atingido, classifica-se como pN0 assim mesmo. Traduzindo: com menos de 16 linfonodos examinados, um pN0 pode ser um N positivo não amostrado, e o estádio que se escreve no prontuário é menos confiável do que parece.

O que não se pede, e por quê

Marcador tumoral não entra. As duas réguas federais dizem a mesma coisa, com as mesmas palavras: elevações de CA 19-9 e antígeno carcinoembrionário indicam doença extensa e pior prognóstico, mas a acurácia é variável e o uso sistemático não foi avaliado em estudos de fase III, o que limita a recomendação na prática. Pedir marcador antes da endoscopia é trocar o exame que fecha diagnóstico por um que não fecha nada, e um marcador normal em paciente com sinal de alarme produz falsa tranquilidade documentada.

PET-CT não é exame de rotina no diagnóstico nem no estadiamento, e a minuta de 2026 diz isso explicitamente. Ressonância magnética entra quando o resultado tiver potencial de mudar a conduta terapêutica inicial — não como complemento de rotina da tomografia.

Pesquisa de HER-2 tem lugar definido e é fácil de pedir na hora errada. A minuta de 2026 a torna obrigatória no material tumoral de todo paciente com doença metastática e indicação de quimioterapia; ela não faz parte da avaliação inicial de quem vai ser operado com intenção curativa. Quem pede no momento certo é o serviço de oncologia, e o que o interno precisa garantir é que exista material tumoral suficiente guardado — o que remete de novo à qualidade da biópsia inicial.

Ressecável não é a mesma coisa que operável

São duas perguntas independentes e a confusão entre elas produz duas classes de erro opostas. Ressecabilidade é uma propriedade do tumor: cabe retirá-lo inteiro, com margem, sem doença a distância? Operabilidade é uma propriedade do paciente: ele atravessa uma gastrectomia com linfadenectomia? Um tumor ressecável num paciente inoperável não se opera; um paciente operável com tumor irressecável não se beneficia de uma laparotomia exploradora feita por otimismo.

O que torna irressecável, na leitura das duas réguas federais, é a doença a distância — fígado, pulmão, peritônio — e a invasão de estruturas que impedem margem livre. Carcinomatose peritoneal é a razão pela qual a minuta propõe a laparoscopia de estadiamento: é a metástase que a tomografia menos vê.

O que torna inoperável é o paciente, e aqui a diretriz de 2018 usa escalas: índice de Zubrod até 2 ou Karnofsky entre 50 e 69, ou seja, alguém que permanece no leito menos da metade do dia, com expectativa de vida além de seis meses. A minuta de 2026 troca a escala citada para ECOG. Estado nutricional entra na conta, e é a única variável desta lista que o interno pode melhorar enquanto a fila anda.

A decisão final é de equipe multidisciplinar em hospital habilitado em oncologia — a diretriz é explícita ao exigir que estes pacientes sejam atendidos em hospitais habilitados, com porte tecnológico para diagnosticar, tratar e acompanhar. O papel do interno não é decidir ressecabilidade: é entregar ao serviço um paciente estadiado, pesado, com o laudo em mãos e com a data do laudo anotada.

07

As réguas, e onde as contas delas não fecham

Idade jovem e exame abdominal normal não tornam perda de peso e saciedade precoce automaticamente funcionais. A avaliação deve conectar a suspeita à confirmação e ao cuidado após o tratamento.

  1. 1Caracterizar sintomas, perda ponderal, ingestão, anemia, história familiar e duração; reavaliar diagnóstico funcional quando a trajetória não combina.
  2. 2Indicar endoscopia pela avaliação de risco e sinais de alarme. Não existe um corte etário universal que substitua contexto e epidemiologia.
  3. 3Biopsiar lesões e avaliar padrões infiltrativos. Mucosa aparentemente normal não afasta toda doença; amostragem adicional ou ecoendoscopia depende da suspeita, não é rotina igual para toda endoscopia.
  4. 4Confirmar histologia e estadiar com imagem e exames selecionados pela equipe, distinguindo extensão da doença e condições do paciente.
  5. 5Discutir tratamento endoscópico, cirúrgico e sistêmico conforme estágio e características, evitando apresentar gastrectomia como destino de todos os casos.
  6. 6Cuidar de nutrição, dor, sangramento e obstrução desde a investigação; revisar o anatomopatológico da peça quando operado.
  7. 7Após gastrectomia, documentar extensão e reconstrução e acompanhar ingestão, peso, dumping e carências de ferro, B12 e outros nutrientes, com reposição individualizada.
  8. 8Organizar seguimento oncológico e nutricional, resultado do tratamento de H. pylori quando indicado e avaliação familiar conforme risco.

O Brasil rastreia câncer gástrico? Não — e a resposta tem data e razão

A minuta federal de 2026 escreve, em uma linha, que o rastreamento populacional para o câncer gástrico não é rotineiramente recomendado, ainda que os benefícios possam superar os riscos na população de alto risco. A diretriz em vigor, de 2018, chega ao mesmo lugar por outro caminho: uma revisão sistemática Cochrane de 2013 procurou ensaios clínicos que mostrassem benefício de seguir portadores de lesões precursoras por endoscopia ou por pepsinogênio sérico e não encontrou nenhum, só estudos observacionais — e por isso, escreve ela, esses métodos de rastreamento não têm ainda indicação confirmada. A razão da diferença em relação ao Japão e à Coreia é aritmética, não cultural: programa populacional de endoscopia só se paga onde a incidência é várias vezes a brasileira, e a própria diretriz de 2018 observa que o tumor em estádio zero é diagnosticado com mais frequência justamente nas populações que têm esses programas. A doutrina geral de rastreamento — o que separa rastrear de investigar, e por que rastrear quem tem sintoma é o erro que produz falsa tranquilidade documentada — é do capítulo O nível não está no exame, na apostila de Medicina Preventiva e Saúde Coletiva, e o capítulo Câncer colorretal, na apostila de Coloproctologia, é o dono do rastreamento colorretal, que existe e é diferente deste. Não rastrear a população não é não fazer nada: no Brasil, a prevenção deste tumor tem três atos com dono — erradicar o Helicobacter pylori em quem está infectado, vigiar por endoscopia quem já tem atrofia ou metaplasia extensas, e testar os parentes de primeiro grau de quem adoeceu.

Achado que obriga endoscopia agora, e o que ele obriga

AchadoO que ele costuma significarO que fazer no mesmo diaOnde está escrito
Perda de peso não intencionalDoença de parede ou disseminação; é o sintoma mais frequente do tumor avançadoPesar, buscar peso anterior, calcular percentual e escrever os três números no pedidoV Consenso Brasileiro de H. pylori, 2026, entre os achados de alarme
Saciedade precoce nova, em semanasParede que perdeu distensibilidade — a queixa típica do tipo difuso e da linite plásticaEndoscopia com descrição obrigatória da distensibilidade do órgãoDiretriz federal de 2018, plenitude gástrica entre as queixas de apresentação
Anemia ferropriva em homem ou em mulher fora da idade fértilPerda sanguínea digestiva oculta; o tumor sangra pouco e todo diaEndoscopia digestiva alta e colonoscopia, pedidas na mesma consultaCapítulo Anemia ferropriva, apostila de Hematologia e Hemoterapia
DisfagiaTumor de cárdia ou de junção; muda o diferencial para o esôfagoEndoscopia; o mesmo exame investiga estômago e esôfago numa passagem sóCapítulo Quando ele conta, já está estreito, o sexto desta apostila
Vômitos persistentes ou de retençãoObstrução pilórica por tumor distalEndoscopia com aviso de retenção no pedido — muda jejum, preparo e risco de sedaçãoV Consenso Brasileiro de H. pylori, 2026, entre os achados de alarme
Massa abdominal palpável no andar superiorTumor volumoso; é o sinal físico mais frequente quando existe algumEndoscopia e tomografia no mesmo pedido, com a hipótese principal escritaMinuta federal em consulta pública, 2026 (não obriga)
Sangramento digestivoA lesão que sangra pode ser o tumorEstabilizar e biopsiar a lesão quando o sangramento cessar, com endoscopia de controle marcadaCapítulo Hemorragia digestiva alta, o primeiro desta apostila
Câncer gástrico em parente de primeiro grauRisco duas a três vezes maior; agrega risco genético e ambiental compartilhadoEndoscopia no sintomático; testar e tratar H. pylori em pais, irmãos e filhos assintomáticosV Consenso Brasileiro de H. pylori, 2026, declaração 11
Linfonodo supraclavicular esquerdo ou nódulo periumbilicalDoença a distância; muda o estádio numa consultaEncaminhar com a descrição e a data; não atrasa a endoscopia, muda a conversaMinuta federal em consulta pública, 2026 (não obriga)

Estadiamento: o que se pede, quando, e o que muda com o resultado

ExameQuando entraO que ele respondeO que não responde
Endoscopia digestiva alta com biópsiaPrimeiro, sempre, antes de qualquer imagemSe existe tumor, onde, de que tipo histológico e se há Helicobacter pyloriProfundidade da invasão e doença a distância
Tomografia de tórax, abdome e pelveDepois do laudo histopatológico; pode ser pedida em paralelo, deixando escrito que não precede a endoscopiaDoença a distância em fígado, pulmão e peritônio, e linfonodos regionais volumososCarcinomatose peritoneal de pequeno volume e invasão superficial da parede
EcoendoscopiaQuando disponível e quando a profundidade muda a decisão entre ressecção endoscópica e cirurgiaProfundidade da invasão na parede, separando lesão superficial de avançadaDistinção confiável entre T1a e T1b, e estado linfonodal
Laparoscopia de estadiamento com lavado peritonealProposta pela minuta de 2026 para candidatos a intenção curativa com risco de carcinomatose ocultaImplantes peritoneais e citologia positiva que a imagem não vêNada em tumor inicial candidato à ressecção endoscópica, nem em quem já tem metástase evidente
Marcadores tumoraisNão entram na prática clínica pelas duas réguas federaisNada que mude conduta; valores altos apenas acompanham doença extensaDiagnóstico, estadiamento e resposta ao tratamento
PET-CTNão é exame de rotina de diagnóstico nem de estadiamentoNada de rotina neste tumorNão substitui tomografia nem laparoscopia
Pesquisa de HER-2 no tumorDoença metastática com indicação de quimioterapia, pedida pelo serviço de oncologiaSe há alvo terapêutico; positivo com superexpressão máxima, confirmação por hibridização no intermediárioNada na decisão cirúrgica de quem tem doença localizada

A caixa da alta depois da gastrectomia — conversão mg, mL e comprimido pelo elenco nacional, adulto de 58 kg

O que reporApresentação do elenco nacionalComo isso vira doseOnde a conta aperta
Vitamina B12 (cianocobalamina)500 mcg/mL, solução injetável, componente básico1.000 mcg equivalem a 2 mL, isto é, uma ampola de 2 mL — em serviço que estoque ampola de 1 mL, são duas ampolasLer a concentração como se fosse a dose da ampola entrega metade; o esquema e a duração são do capítulo O dano que não volta
Cálcio elementarCarbonato de cálcio 1.250 mg, equivalente a 500 mg de cálcio elementar, comprimido, componente básicoAlvo de 1.000 mg de cálcio elementar por dia são 2 comprimidos, o que corresponde a 2.500 mg de salAlvo de 1.200 mg exigiria 2,4 comprimidos, e o comprimido não se fraciona nesse passo
Cálcio com vitamina D, apresentação combinadaCarbonato de cálcio 1.250 mg (500 mg de cálcio) + colecalciferol 200 UI, comprimido2 comprimidos entregam 1.000 mg de cálcio e apenas 400 UI de vitamina DChegar a 800 UI exigiria 4 comprimidos, e junto viriam 2.000 mg de cálcio elementar — acima do alvo
Cálcio com vitamina D, a outra apresentaçãoFosfato de cálcio tribásico 1.661,616 mg (600 mg de cálcio) + colecalciferol 400 UI, comprimido2 comprimidos entregam 1.200 mg de cálcio e 800 UI de vitamina DÉ a apresentação que fecha as duas contas ao mesmo tempo; a outra não fecha
Ferro por via oralSulfato ferroso; há também solução oral de 25 mg/mL e xarope de 5 mg/mL de ferro elementar120 mg de ferro elementar por dia correspondem a 4,8 mL da solução oral ou 24 mL do xaropeA dose se prescreve em ferro elementar, e a regra inteira é do capítulo Anemia ferropriva
Quimioterápicos do adenocarcinoma gástricoNenhum consta do elenco nacional: capecitabina, oxaliplatina, fluoruracila, cisplatina, docetaxel e trastuzumabe devolvem zeroNão há dose a converter aqui, e a ausência não é falha do elencoEles vêm por outra porta: o hospital habilitado em oncologia padroniza, adquire e fornece, e é ressarcido por procedimento da tabela do SUS

Seguimento prático depois da gastrectomia

EixoO que acompanhar
Ingestão e pesoQuantidade tolerada, perda adicional, força e acesso a suplemento.
Dumping e intolerânciaRelação temporal com refeições, alimentos precipitantes, glicemia quando indicada e estratégias alimentares.
Anemia e carênciasHemograma e ferro, B12 e outros nutrientes conforme cirurgia e evolução; reposição com retorno definido.
Continuidade oncológicaLaudo da peça, margens, linfonodos, estágio, plano complementar e consultas.

O agrupamento patológico apresentado cobre as combinações T e N descritas para M0 e o tumor in situ. Use a tabela com os componentes do laudo, sem inferir o estádio apenas pela extensão da gastrectomia. A edição da classificação deve acompanhar o registro para permitir comparação.

A DDT de 2018 descreve tratamento perioperatório a partir de IB, mas os códigos citados para etapas pré e pós-operatórias usam faixas diferentes. Essa diferença administrativa precisa ser resolvida pelo serviço oncológico. Ela não deve ser interpretada como justificativa clínica automática para omitir parte de um plano.

Os nomes de alguns procedimentos citam “estádio IV sem metástase”, enquanto a tabela usada define IV por M1. A incompatibilidade decorre da nomenclatura administrativa e do agrupamento apresentado. Preserve o TNM completo e a edição no laudo; não altere o estádio para fazê-lo coincidir com o nome de um código.

A minuta de 2026 menciona subgrupo 01, embora os códigos listados comecem por 03.04. Ao localizar o procedimento, confira o código completo e sua descrição no sistema aplicável. Um erro de remissão não cria um novo procedimento nem define a modalidade terapêutica.

A lista da minuta inclui procedimentos de tumores neuroendócrinos e estromais sob o rótulo de adenocarcinoma. São doenças distintas. A confirmação histológica deve orientar a equipe e o percurso de tratamento; localização gástrica comum não torna seus esquemas intercambiáveis.

No consenso citado, a estratégia de testar e tratar e a indicação de endoscopia têm faixas etárias que se sobrepõem entre 40 e 45 anos. Nessa faixa, considere risco, história familiar, epidemiologia e seguimento. Sinais de alarme exigem investigação e não são resolvidos pelo corte etário.

A mudança entre edições do consenso deslocou os limites de idade e criou uma faixa de sobreposição. Ao registrar a conduta, identifique a edição e a recomendação aplicadas. A escolha deve ser compreensível para quem reavaliar o paciente, sobretudo se estiver justamente no limite.

A declaração do consenso inclui 45 anos na estratégia de testar e tratar, enquanto a tabela usa “menos de 45”. No paciente com essa idade exata, reconheça a divergência e aplique a avaliação de risco descrita. Não deixe um sinal matemático substituir a decisão clínica.

A recomendação para parentes de primeiro grau apresenta métodos a partir dos 20 anos, sem detalhar a conduta abaixo dessa idade. Não extrapole automaticamente a tabela de adultos para adolescentes. Registre história familiar e encaminhe a decisão ao atendimento apropriado para idade e risco.

A minuta relaciona extensão da linfadenectomia, margens e tratamento adjuvante, mas a figura resume uma discussão mais ampla do texto. Avalie o relatório operatório e o anatomopatológico antes de interpretar o rótulo usado no algoritmo. A adequação do tratamento é discutida pela equipe multidisciplinar, com as condições do caso.

As fontes citadas apresentam resultados diferentes sobre associação entre uso prolongado de IBP e câncer gástrico, com limitações de qualidade e causalidade. Elas não justificam suspender um tratamento necessário nem mantê-lo sem indicação. Revise a finalidade da prescrição e investigue sinais de alarme.

A DDT de 2018 identifica a oitava edição do TNM; a minuta reproduz o agrupamento sem declarar claramente a edição. Registre a edição utilizada pelo serviço no estadiamento. Isso permite interpretar alterações de categorias e comparar laudos ao longo do tratamento.

Lauren e as classificações moleculares descrevem dimensões diferentes do tumor. O laudo pode informar tipo intestinal ou difuso, enquanto outros exames definem características moleculares. A apresentação de uma classificação na minuta não torna a outra dispensável para compreender o diagnóstico e discutir o caso.

A DDT de 2018 usa “Tabela 1” para incidência e para estadiamento. Ao citar uma delas, acrescente o título ou a seção, evitando uma remissão ambígua. A numeração duplicada é uma limitação editorial, sem alterar os dados clínicos de cada tabela.

Os critérios de ressecção endoscópica citados variam em relação ao tamanho da lesão, mesmo quando concordam sobre diferenciação, profundidade e ulceração. A seleção exige avaliação endoscópica especializada e leitura do critério completo adotado. Não use apenas “intramucoso” ou “bem diferenciado” para declarar tratamento endoscópico suficiente.

A Estimativa 2026 citada apresenta 13.830 casos masculinos e 8.700 femininos, totalizando 22.530. A participação regional varia, com maior destaque relativo no Norte. Identifique período, sexo e região ao usar esses dados na discussão de risco, sem aplicá-los como probabilidade individual.

A epidemiologia da DDT reflete a estimativa disponível em 2016 e difere da de 2026. Atualização de posição no ranking de incidência não demonstra, sozinha, alteração de uma recomendação terapêutica. Separe os dados descritivos do suporte utilizado para diagnóstico, estadiamento e tratamento.

A aquisição e o fornecimento de antineoplásicos seguem a organização da assistência oncológica, que também aparece em atualização nos documentos citados. Confirme o fluxo com o hospital habilitado. Uma busca no elenco de 2024 não informa integralmente a disponibilidade de quimioterapia ou terapia direcionada para o paciente.

O seguimento após gastrectomia precisa incluir alimentação, sintomas e deficiências nutricionais. Os documentos federais consultados oferecem detalhes limitados sobre reposição, e a minuta cita B12 e ferro sem esquema completo. O capítulo reúne esse cuidado e remete aos percursos específicos; a alta deve ter plano de monitorização e reposição definido.

Confira os componentes das apresentações combinadas. Na formulação com 500 mg de cálcio elementar e 200 UI de vitamina D, quatro comprimidos fornecem 2.000 mg e 800 UI; na de 600 mg e 400 UI, dois fornecem 1.200 mg e 800 UI. O cálculo demonstra por que ajustar um nutriente pode exceder a meta de outro. A dose deve atender ao plano individual, sem escolher apenas pelo número de comprimidos.

08

A conduta, hora a hora

A linha do tempo abaixo é a de Afrânio Jenipapo, 64 anos, 66 quilos hoje e 74 em março. Ela começa numa consulta de dez minutos que foi marcada como renovação de receita e termina numa alta cirúrgica com sete linhas de prescrição que ninguém costuma escrever.

Cada marco traz o que se faz e o que se escreve. O que se escreve importa tanto quanto o que se faz, porque neste percurso o documento é que faz o sistema andar: um pedido mal redigido não aciona prazo, um peso não anotado não existe e uma data de laudo não registrada apaga o relógio legal inteiro.

Os prazos citados são os da Lei nº 12.732, cuja leitura, datação e auditoria são do capítulo Quando ele conta, já está estreito, o sexto desta apostila. Aqui eles aparecem como marcos de agenda, não como interpretação nova.

  1. Dia 0 — a consulta em que se para de renovar a receita

    A tarefa recebida era renovar omeprazol. A tarefa executada é outra: caracterizar a queixa, pesar o paciente, procurar peso anterior no prontuário e calcular o percentual perdido. Afrânio tem perda de 8 quilos em 5 meses, o que dá 10,8% do peso de março; tem saciedade precoce nova de 5 semanas; tem hemoglobina de 10,2 g/dL com volume corpuscular médio de 74 fL; e tem irmão morto de câncer de estômago aos 58 anos. São quatro achados de alarme numa consulta só, e qualquer um deles isoladamente já bastava. Examine o abdome, palpe as fossas supraclaviculares e a região periumbilical, e registre o que encontrou e o que não encontrou — o exame normal também é dado, e é o que impede que alguém repita a busca daqui a duas semanas.

    Prescrição
    • Suspender a renovação automática do inibidor de bomba e explicar por que — a melhora parcial da azia não é o desfecho que estamos perseguindo
    • Peso aferido hoje na balança da sala: 66 kg; peso de março no prontuário: 74 kg; perda de 8 kg em 5 meses, equivalente a 10,8% — os três números escritos no prontuário e repetidos no pedido
    • Registrar no prontuário a frase que autoriza o resto: dispepsia com saciedade precoce e perda ponderal não intencional de 10,8% em 5 meses, anemia microcítica e irmão com câncer gástrico — hipótese principal de neoplasia gástrica
    • Solicitar ferritina e saturação da transferrina, sem esperar o resultado para pedir a endoscopia
    • Não trocar de inibidor de bomba, não aumentar a dose e não marcar retorno em 30 dias para reavaliar resposta clínica
  2. Dia 0 — o pedido que aciona o prazo, escrito na frente do paciente

    O pedido de endoscopia é o documento mais importante deste caso e leva três minutos a mais que o pedido genérico. Ele precisa conter, por escrito, a hipótese diagnóstica principal de neoplasia maligna e a fundamentação, porque são essas duas condições que a lei exige para que corra o prazo de até trinta dias dos exames de elucidação. Um pedido genérico cai na fila de todo mundo, e o exame que sairia em semanas leva meses. Dê a Afrânio uma via com a data escrita e combine com ele que, saindo o exame, ele volta na hora, independentemente do que estiver marcado na agenda.

    Prescrição
    • Endoscopia digestiva alta com biópsias — no corpo do pedido: dispepsia há 6 meses sem resolução com inibidor de bomba; saciedade precoce há 5 semanas; perda ponderal não intencional de 8 kg (10,8%) em 5 meses, peso aferido hoje; hemoglobina 10,2 g/dL com VCM 74 fL; irmão falecido de câncer gástrico aos 58 anos
    • Frase que fecha o pedido: hipótese diagnóstica principal de neoplasia gástrica, solicitação fundamentada
    • Acrescentar ao pedido: biópsias sistemáticas de antro e corpo em frascos separados por sítio, mesmo na ausência de lesão; pesquisa de Helicobacter pylori
    • Entregar cópia do pedido ao paciente com a data escrita, e anotar no prontuário o dia em que o pedido foi protocolado na regulação
    • Reforçar por escrito o retorno imediato com o exame, e o retorno antes disso se surgir vômito, sangramento ou piora
  3. Dia 12 — a endoscopia, e o que se exige do laudo

    O exame mostra, no antro, lesão ulcerada de bordas elevadas e irregulares, com cerca de 3 cm, e mucosa de corpo com áreas de aspecto atrófico. Foram colhidos oito fragmentos da lesão, das bordas, e amostras sistemáticas de antro e de corpo em frascos separados. Duas coisas devem ser conferidas ao ler o laudo: se a distensibilidade do órgão foi descrita, e se o número de frascos e sítios está registrado. Se a lesão tivesse sido apenas fotografada e biopsiada em um fragmento único, o exame precisaria ser repetido — e repetir custa mais tempo do que colher direito na primeira vez.

    Prescrição
    • Conferir no laudo: localização por compartimento gástrico, tamanho e aspecto da lesão, distensibilidade do estômago, número de fragmentos e sítios, e frascos separados
    • Confirmar que a pesquisa de Helicobacter pylori foi feita no material, e não apenas por teste rápido de urease isolado
    • Não iniciar erradicação antes de o laudo anatomopatológico sair — o tratamento apaga o achado inflamatório e não muda o tumor
    • Manter o pedido de tomografia de tórax, abdome e pelve preparado, para ser protocolado no dia em que o laudo sair
  4. Dia 22 — o laudo, e o relógio que começa a correr

    O laudo diz adenocarcinoma gástrico do tipo intestinal de Lauren, moderadamente diferenciado, com metaplasia intestinal extensa na mucosa de corpo. A informação mais operacional deste capítulo inteiro está na primeira linha do documento e não é o diagnóstico: é a data de assinatura. É dela que corre o prazo de até sessenta dias para o início do primeiro tratamento. Escreva a data em destaque no prontuário, entregue ao paciente uma via em que ela apareça e diga a ele, sem rodeio, que o relógio legal do primeiro tratamento parte dali. Data não anotada é prazo que não existe, e prazo que não existe ninguém cobra.

    Prescrição
    • Anotar em destaque no prontuário: número do laudo, data de assinatura e a data-limite dos 60 dias calculada a partir dela
    • Entregar ao paciente uma via com as duas datas e explicar o que cada uma significa
    • Protocolar hoje a tomografia de tórax, abdome e pelve com contraste oral e venoso, pedindo protocolo de distensão gástrica
    • Solicitar no mesmo dia: hemograma, ureia, creatinina, glicemia, coagulograma, hepatograma, proteínas totais e frações com albumina
    • Encaminhar a hospital habilitado em oncologia com a via do laudo, a data e o resumo clínico com peso atual e peso anterior
  5. Dia 23 — a conversa em que se diz o nome da doença

    Afrânio volta com a filha. Ele já sabe que alguma coisa mudou, porque a consulta foi remarcada com pressa. Diga o nome da doença antes de qualquer plano, com a palavra câncer dita uma vez, sem eufemismo e sem pressa, e depois cale por alguns segundos. Como se conduz uma conversa dessas — em que sala, com quem presente, quanto se diz por vez — pertence ao capítulo Comunicação de más notícias, e falar de futuro sem número pertence ao capítulo O que se diz quando não se sabe, os dois na apostila de Comunicação, Ética e Segurança na Prática. Deles é a forma; deste capítulo é a substância, isto é, as frases desta doença em particular.

    Prescrição
    • Dizer o diagnóstico com a palavra câncer, uma vez, e depois esperar
    • Explicar que o próximo exame não é tratamento: a tomografia serve para saber a extensão, e é ela que define o que se propõe
    • Não prometer operação nem prognóstico antes do estadiamento — dizer que ainda não se sabe é informação, não é evasiva
    • Perguntar quem mais da família precisa saber e o que o paciente quer que seja dito a quem
    • Informar, já nesta conversa, que irmãos e filhos têm indicação de testar e tratar Helicobacter pylori
  6. Dia 30 — o estadiamento chega e separa duas perguntas

    A tomografia mostra espessamento parietal antral, linfonodos perigástricos de até 12 mm e nenhuma lesão hepática, pulmonar ou implante peritoneal visível. Não há doença a distância detectável: o tumor é candidato a tratamento com intenção curativa. A partir daqui separam-se as duas perguntas que o capítulo inteiro insiste em distinguir. Ressecável — cabe retirar tudo com margem? Operável — este senhor de 66 quilos, que perdeu 11% do peso, atravessa uma gastrectomia com linfadenectomia? A primeira pergunta é do estadiamento; a segunda é da nutrição, da capacidade funcional e das comorbidades, e é a única que o interno consegue melhorar enquanto a fila anda.

    Prescrição
    • Registrar o estádio clínico e a ausência de doença a distância, com a data do exame
    • Avaliação nutricional formal e início de suporte por via oral, com meta calórica e proteica escritas e reavaliação semanal
    • Registrar capacidade funcional pela escala usada no serviço e as comorbidades relevantes para o risco cirúrgico
    • Confirmar com o hospital habilitado a data da avaliação multidisciplinar e anotar com quem se falou e em que dia
    • Faltando poucos dias para o prazo vencer e ainda sem data marcada, ligar para a regulação deixa de ser pedido e vira exigência com a data do laudo em mãos
  7. A operação — e o que o interno confere no laudo da peça

    Afrânio é submetido a gastrectomia subtotal distal com linfadenectomia, porque a lesão é antral e as margens podem ser obtidas preservando a junção esofagogástrica. Esse é o critério escrito na régua federal: gastrectomia distal quando a margem couber com preservação da junção e de um segmento remanescente, gastrectomia total nos demais casos, e também quando a lesão envolve a cárdia ou o corpo difusamente. As margens recomendadas são de 2 cm para tumores T1, 3 cm para T2 ou mais profundos de crescimento expansivo e 5 cm para crescimento infiltrativo. Este capítulo não descreve o ato cirúrgico; descreve o que o interno lê no laudo da peça depois, que é o que muda o seguimento.

    Prescrição
    • Conferir no laudo da peça: número de linfonodos examinados — a régua federal pede pelo menos 16 para estadiamento adequado
    • Conferir a margem cirúrgica: livre ou comprometida, e a distância em centímetros
    • Conferir o tipo de Lauren e o grau de diferenciação, que o laudo continua trazendo mesmo com a classificação molecular em uso
    • Registrar o estádio patológico final, que é o que orienta a indicação de tratamento adjuvante
    • Se o número de linfonodos examinados for menor que 16 e todos negativos, registrar explicitamente essa limitação — o pN0 vale, mas é menos confiável
  8. A alta cirúrgica — a caixa que ninguém prescreve

    A alta precisa registrar qual gastrectomia e reconstrução foram realizadas, além de curativo e analgesia. Menor reservatório, alteração da acidez, perda de fator intrínseco e mudanças do trânsito afetam ingestão e absorção de modos diferentes. Fracionar refeições, acompanhar peso e investigar dumping e carências faz parte do cuidado. Após gastrectomia total, a necessidade de reposição de B12 é permanente; após ressecção parcial, monitorar e individualizar o esquema conforme risco e resultados. Ferro, cálcio e vitamina D também dependem de avaliação e metas, não apenas de uma lista fixa de caixas.

    Prescrição
    • Definir reposição de B12 conforme extensão da gastrectomia, deficiência e protocolo, com dose, via e calendário escritos. Na gastrectomia total, garantir plano contínuo e acesso; conferir apresentação antes de converter volume.
    • Documentar necessidade permanente de B12 após gastrectomia total; após gastrectomia parcial, estabelecer monitorização e reposição individualizada, sem presumir o mesmo esquema para todos.
    • Cálcio e vitamina D por via oral, conferindo na apresentação disponível quantos miligramas de cálcio elementar e quantas unidades de vitamina D cada comprimido entrega
    • Avaliar hemograma, ferritina e contexto inflamatório para reposição de ferro quando indicada, especificando ferro elementar e via conforme tolerância, absorção e resposta.
    • Orientação alimentar por escrito: refeições fracionadas em pequenos volumes, seis ou mais vezes ao dia, mastigação lenta e líquidos afastados das refeições
    • Explicar a síndrome de dumping com as palavras que o paciente vai usar: mal-estar, sudorese, palpitação e diarreia logo depois de comer, sobretudo doce — e que a conduta é fracionar mais e reduzir açúcar, não parar de comer
    • Marcar retorno em 30 dias com peso aferido, e agendar a dose subsequente de cobalamina na unidade básica com data escrita
09

Como saber se está funcionando

Reavaliar, aqui, tem dois sentidos que não se confundem: acompanhar o paciente enquanto ele espera, e acompanhar o paciente depois que ele foi tratado. Os parâmetros abaixo cobrem os dois, e todos eles têm em comum a mesma característica — são medidas simples, feitas fora do hospital especializado, que decidem se alguém percebe a tempo.

Peso aferido na balançaEm toda consulta, da suspeita à alta e depois dela — sem exceção, e sempre na mesma balança quando possível

Esperado: Estabilização durante a espera; recuperação lenta depois da operação, com perda inicial esperada nos primeiros dois meses

Se não melhora: Perda continuada durante a espera do tratamento é motivo para acelerar o encaminhamento e para iniciar suporte nutricional, não para observar mais um mês. Perda continuada depois da alta cirúrgica, além do esperado, exige revisar o fracionamento das refeições, procurar estenose da anastomose e reavaliar recidiva.

Data do laudo anatomopatológico e data-limite dos 60 diasAnotada no dia em que o laudo sai; conferida em toda consulta subsequente

Esperado: Primeiro tratamento — cirurgia, radioterapia ou quimioterapia — iniciado dentro do prazo contado do laudo

Se não melhora: Perto de vencer o prazo sem data marcada, muda o tom da ligação para a regulação municipal: não se pede mais um favor, exige-se um direito com data. Anote no prontuário com quem falou, em que dia e o que ficou combinado, e leve o caso à ouvidoria do serviço. Não jogue essa cobrança nas costas do paciente sozinho — o documento datado está no serviço, e é de lá que ela sai.

Hemoglobina e ferritinaNa suspeita, e depois em 3 e 6 meses da alta cirúrgica

Esperado: Correção da anemia com a retirada da fonte de perda e com a reposição de ferro

Se não melhora: Anemia que não corrige depois da ressecção completa tem três explicações a percorrer em ordem: reposição insuficiente ou não tomada, má absorção anatômica criada pela reconstrução, e sangramento persistente por outra fonte — inclusive o cólon, se ele não tiver sido visto. A investigação da falha de resposta ao ferro é do capítulo Anemia ferropriva.

Vitamina B12 e sinais neurológicosA partir do primeiro ano de pós-operatório, e em qualquer consulta com queixa de formigamento, desequilíbrio ou esquecimento

Esperado: Níveis mantidos pela reposição regular, sem sintoma neurológico novo

Se não melhora: Parestesias, alteração de marcha ou cognição exigem avaliação pronta, incluindo deficiência de B12 e outros diagnósticos. Não esperar anemia para reconhecer possível comprometimento neurológico; discutir reposição e investigação sem atribuir todo sintoma a uma única carência.

Tolerância alimentar e sintomas de dumpingNa primeira consulta depois da alta e em cada retorno do primeiro ano

Esperado: Refeições pequenas e frequentes bem toleradas, com retomada progressiva do volume

Se não melhora: Mal-estar, sudorese, palpitação e diarreia logo após comer respondem a fracionar mais, reduzir açúcares simples e afastar líquidos das refeições. Sintomas tardios, com sudorese e tremor uma a três horas depois, sugerem hipoglicemia reativa e mudam a orientação. Vômito com alimento retido sugere estenose da anastomose e pede endoscopia.

Consulta clínica e busca ativa de sintoma novoA cada 3 a 6 meses no primeiro e no segundo ano, e depois a cada 6 a 12 meses

Esperado: Ausência de sintoma novo; exames solicitados de acordo com o que o paciente apresenta

Se não melhora: As duas réguas federais são explícitas: não há evidência de que exames de laboratório ou de imagem, inclusive endoscopia, devam ser feitos regularmente para diagnóstico precoce de recidiva. O seguimento é clínico, e exame se pede por sintoma. Diante de suspeita de recidiva, a minuta de 2026 orienta tomografia de abdome e tórax ou ressonância para confirmação.

Situação dos parentes de primeiro grauRegistrada na primeira consulta depois do diagnóstico e conferida no retorno seguinte

Esperado: Pais, irmãos e filhos identificados por nome e encaminhados para testar e tratar Helicobacter pylori

Se não melhora: Familiar não testado é o único desfecho deste capítulo que ainda dá para mudar por inteiro. Entre 20 e 29 anos, teste não invasivo; a partir dos 30, endoscopia com biópsias de antro e corpo. Abaixo de 20 anos o consenso não define método — decida com o serviço e registre a decisão, porque o documento não a fornece.

10

Onde o erro machuca

Renovar o inibidor de bomba mais uma vez porque houve melhora parcial

O dano: É o erro que custa o caso, e ele quase nunca parece um erro na hora, porque a maioria dos pacientes de fato melhora. A supressão de ácido alivia o sintoma de quem tem tumor exatamente como alivia o de quem não tem, e a melhora parcial vira evidência a favor de continuar. Cada renovação compra semanas dentro do único intervalo em que este tumor é curável, e esse tempo não se recupera depois. No caso de Afrânio foram duas renovações e cinco meses.

Como pegar a tempo: Antes de prescrever empiricamente, defina por escrito o que faria parar: sinal de alarme presente, ausência de melhora em prazo definido, ou nova queixa. Diante de qualquer achado de alarme, não troque a droga, não aumente a dose e não marque retorno para reavaliar resposta clínica — peça a endoscopia.

Não pesar o paciente, ou pesar sem procurar um peso anterior

O dano: Um peso isolado não é dado; é metade de um dado. Sem o peso de março, a queixa de Afrânio seria emagreceu um pouco, que não obriga nada. Com os dois pesos, é perda não intencional de 10,8% em 5 meses, que obriga endoscopia hoje e transforma o pedido num documento que aciona prazo legal. A diferença entre as duas versões da mesma consulta é uma balança e trinta segundos de prontuário.

Como pegar a tempo: Pese em toda consulta e procure o peso anterior antes de escrever a evolução. Registre os três números — peso atual, peso anterior com data, percentual — no prontuário e repita-os no pedido de exame.

Aceitar endoscopia normal, ou laudo de gastrite, como fim da investigação

O dano: Produz o pior tipo de dano: um exame que documenta tranquilidade. O tipo difuso infiltra a submucosa com mucosa quase intacta, e o estômago que não distende é o achado — não a úlcera. Uma biópsia superficial negativa em lesão macroscopicamente suspeita também não afasta nada. O paciente sai com um laudo na mão, a família se acalma, e a próxima consulta acontece meses depois.

Como pegar a tempo: Sinal de alarme mantido com endoscopia normal manda repetir, não encerrar. Exija no laudo a descrição da distensibilidade e o número de sítios biopsiados; diante de estômago que não distende, peça nova endoscopia com biópsias profundas ou macrobiópsia.

Pedir tomografia, ou marcador tumoral, antes da endoscopia

O dano: Inverte a ordem que as duas réguas federais escrevem e atrasa o único exame que dá diagnóstico. A tomografia antes do laudo não estadia nada, porque não há o que estadiar; o marcador normal em paciente com alarme produz falsa tranquilidade documentada, e o alterado não muda conduta nenhuma. Nos dois casos, gasta-se a vaga de um exame e algumas semanas.

Como pegar a tempo: Endoscopia com biópsia primeiro, e isso não é preferência: é a ordem escrita nas duas réguas federais. Se a tomografia for pedida junto, deixe registrado no próprio pedido que ela é complementar e que não toma o lugar do exame que fecha o diagnóstico. Marcador tumoral fica de fora.

Escrever o pedido de endoscopia sem a hipótese principal e sem fundamentação

O dano: Um pedido genérico não dispara prazo algum e cai na fila de todo mundo. O mesmo paciente sai com dois destinos diferentes conforme a redação, e o que os separa é uma frase de trinta segundos. O erro é invisível para quem o comete, porque a fila é do sistema e a demora parece impessoal.

Como pegar a tempo: Escreva a hipótese diagnóstica principal de neoplasia gástrica com essas palavras e fundamente com peso, percentual, tempo, hemograma e história familiar. Anote no prontuário o dia em que o pedido foi protocolado e entregue ao paciente uma via com a data.

Dar alta de gastrectomia sem prescrever a reposição vitamínica e sem explicar o fracionamento

O dano: O paciente sai curado do tumor e volta anos depois com parestesia, marcha insegura e queixa cognitiva, e o dano neurológico da carência de cobalamina pode não voltar. Antes disso, perde peso porque tenta comer como comia e passa mal depois das refeições sem saber por quê. Nenhum documento federal em vigor cobra essa prescrição de ninguém, o que é exatamente a razão de ela se perder.

Como pegar a tempo: Planejar a alta segundo a operação e o estado nutricional. Após gastrectomia total, garantir reposição contínua de B12 e seguimento; a via e o esquema são individualizados. Após ressecção parcial, monitorar e repor conforme deficiência e risco. Ferro, cálcio e vitamina D dependem de avaliação própria; não pressupor o mesmo mecanismo ou a mesma receita permanente para todos.

11

O que dizer ao paciente e à família

As falas abaixo servem a este diagnóstico, e não a qualquer câncer. A forma da conversa difícil pertence ao capítulo Comunicação de más notícias, e falar de futuro sem número pertence ao capítulo O que se diz quando não se sabe, ambos na apostila de Comunicação, Ética e Segurança na Prática. Aqui está apenas a substância: as frases que esta doença exige.

Duas regras atravessam todas elas. A primeira é não prometer o que o estadiamento ainda não permite prometer, e dizer que ainda não se sabe em vez de contornar. A segunda é escrever o que foi combinado, porque metade do que se diz numa conversa dessas não sobrevive à saída da sala.

Explicar por que não vai renovar a receita, sem assustar antes da hora

O senhor melhorou da azia com o remédio, e isso é verdade. Mas o senhor também perdeu oito quilos desde março, está enchendo rápido nas refeições e o exame mostrou anemia. Isso junto não é azia, e o remédio não resolve. Vou pedir um exame que olha o estômago por dentro, e vou pedir com prioridade. Não é para o senhor se assustar; é para a gente parar de tratar por fora uma coisa que precisa ser vista.

Não diga: Evite tanto o vamos só descartar uma coisinha, que esvazia a urgência e faz o paciente não voltar, quanto o anúncio precoce de câncer antes de haver exame — o primeiro perde o paciente para a fila, o segundo produz semanas de sofrimento sobre uma hipótese que ainda pode cair.

Entregar o pedido e explicar por que a data importa

Este papel tem a data de hoje, e o senhor vai levar uma via. Está escrito nele que a suspeita principal é de tumor no estômago, e é essa frase que faz o exame ter prazo por lei. Se em três semanas não tiverem marcado, o senhor volta aqui com este papel e a gente cobra — mas não espere a data do retorno para voltar se o exame sair antes. Guarde esta via junto do documento.

Não diga: Evite entregar o pedido sem explicar o que ele contém e sem data visível. Evite também delegar a cobrança ao paciente sozinho, dizendo apenas cobre na regulação: quem tem o documento datado e o registro no prontuário é o serviço, e é dele a cobrança.

Dizer o diagnóstico

O resultado da biópsia chegou e ele mostra um câncer no estômago. Vou parar aqui um pouco para o senhor e a sua filha ficarem com essa informação. [silêncio] O que a gente sabe hoje é isso: existe o tumor, ele está no antro, que é a parte de baixo do estômago, e ainda não sabemos até onde ele foi. É a tomografia que responde isso, e é ela que define o que a gente vai propor.

Não diga: Evite as palavras que substituem o nome — lesãozinha, alteração, coisa a esclarecer — depois que o laudo já disse. Evite também emendar o diagnóstico com o plano sem pausa: a frase seguinte à palavra câncer costuma não ser ouvida, e todo o plano dito ali precisará ser repetido.

Responder quando perguntam quanto tempo ele tem

Eu não sei, e não vou inventar um número. O que muda o tempo aqui é até onde o tumor foi, e isso a gente vai saber na semana que vem. O que eu posso dizer com certeza hoje é o que a gente vai fazer, e em que prazo. Quando eu tiver os exames, eu volto a falar sobre isso com o senhor, e não vou esconder o que eles disserem.

Não diga: Evite tanto o número inventado quanto o cada caso é um caso dito e encerrado. O primeiro é falso; o segundo soa como recusa de conversar. Diga que não sabe, diga quando saberá, e cumpra.

Falar com a família sobre os irmãos e os filhos

Tem uma coisa que vale para a família toda e que a gente já pode resolver. Irmãos e filhos de quem teve câncer de estômago têm mais chance de ter uma bactéria no estômago que aumenta o risco, e essa bactéria tem tratamento. A recomendação é procurar e tratar. Quem tiver de 20 a 29 anos pode fazer um teste simples; de 30 para cima, a indicação é endoscopia. Anote os nomes que eu escrevo o encaminhamento hoje.

Não diga: Evite transformar isso em alarme hereditário. Não é a doença que se herda aqui, e sim uma combinação de risco familiar e de uma infecção que a família costuma compartilhar — e essa parte tem tratamento.

Explicar por que ele precisa comer, e comer diferente, antes de operar

O senhor perdeu peso, e peso perdido antes de uma cirurgia grande aumenta o risco de complicação depois. A partir de hoje a comida faz parte do tratamento, do mesmo jeito que o remédio. Vamos fracionar em porções pequenas várias vezes ao dia, porque o estômago já não aceita volume, e vamos pesar o senhor toda vez que vier. Se o peso continuar caindo, eu quero saber antes da próxima consulta.

Não diga: Evite o coma o que conseguir, que não é orientação. Evite também prometer que o ganho de peso adiará a cirurgia ou mudará o estádio — a nutrição melhora a travessia da operação, não o tumor.

A alta depois da gastrectomia, explicando a caixa de remédios

Precisamos combinar alimentação e acompanhamento nutricional. Quando o estômago é retirado por completo, a vitamina B12 exige reposição contínua porque sua absorção habitual fica comprometida; depois de retirada parcial, acompanhamos o risco e os exames para definir a reposição. Ferro, cálcio e vitamina D serão ajustados conforme a operação e suas necessidades. Comece com porções pequenas, mastigue bem e siga a orientação sobre líquidos e tolerância. Se houver suor, palpitação ou diarreia após comer, relate no retorno; sintomas intensos ou dificuldade para manter hidratação pedem avaliação antes da data marcada.

Não diga: Evitar uma receita igual para gastrectomia total e parcial ou afirmar que todos os suplementos corrigem o mesmo mecanismo. Explicar duração, modo de uso, monitorização e sinais de retorno.

12

Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

D1 ou D2: quanto linfonodo se retira, e o que significa não ter retirado

Texto corrido das duas réguas federais

A literatura sobre efetividade e segurança da linfadenectomia mais extensa (D2 ou mais) contra a limitada (D1) é inconclusiva, e não há evidência de benefício em sobrevida global com a mais extensa. O subgrupo que mais se beneficia nas análises é o de risco intermediário, estádios II e III, e as próprias revisões reconhecem heterogeneidade. A recomendação de técnica deve se basear na experiência do especialista em identificar quem se beneficia e na habilidade dele como cirurgião. Acréscimo de pancreatectomia distal e de esplenectomia, número pequeno de casos por cirurgião ao ano e falta de treinamento específico parecem aumentar a mortalidade.

Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Adenocarcinoma de Estômago, Portaria Conjunta nº 03/2018, seção de cirurgia; e Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Adenocarcinoma de Estômago, versão preliminar em consulta pública, Conitec, agosto de 2026

Nota da figura da minuta de 2026

É considerada cirurgia subótima a linfadenectomia D1 ou a margem comprometida — e o rótulo tem consequência de conduta, porque encaminha o paciente ao braço de quimiorradioterapia adjuvante. Nessa leitura, D1 não é uma opção entre duas cujo benefício comparado é desconhecido: é o resultado abaixo do esperado, que o tratamento sistêmico precisa compensar.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Adenocarcinoma de Estômago — versão preliminar em consulta pública, Conitec, agosto de 2026, nota da figura de tratamento da doença localizada

O que não está em disputa

Pelo menos 16 linfonodos precisam ser ressecados e examinados para que o estadiamento seja adequado — a diretriz de 2018 diz isso do lado cirúrgico e a minuta de 2026 repete do lado da patologia, ao registrar que um espécime de linfadenectomia regional normalmente inclui 16 ou mais linfonodos e que um pN0 com menos que isso se classifica assim mesmo. Alguns estudos sugerem relação proporcional entre número de linfonodos ressecados e sobrevida, observada mesmo em números altos, e nenhum ponto de corte ideal foi definido.

Portaria Conjunta nº 03/2018, seção de cirurgia; e minuta da Conitec de agosto de 2026, seção de classificação patológica

Como decidir

A extensão da linfadenectomia é decisão cirúrgica. Depois, confira margens, número de linfonodos examinados e comprometidos e edição do estadiamento. Menos de 16 linfonodos limita a avaliação nodal, especialmente quando todos são negativos, e deve ser levado à discussão adjuvante. Não transforme o rótulo de uma figura em julgamento da operação sem analisar o caso.

Inibidor de bomba de prótons de uso prolongado aumenta o risco deste câncer?

Régua federal em vigor

A suspeita de que o uso prolongado de inibidores de bomba de prótons seja fator de risco para lesão pré-maligna ou maligna no estômago não se confirmou em revisão sistemática publicada em 2014. O próprio documento ressalva que os autores classificaram a evidência como de baixa qualidade, por questões ligadas à metodologia dos estudos incluídos.

Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Adenocarcinoma de Estômago, Portaria Conjunta nº 03, de 15 de janeiro de 2018, introdução

Minuta em consulta pública

Um estudo inglês publicado em julho de 2021 demonstrou aumento de 45% do risco relativo entre uso de inibidores de bomba de prótons e desenvolvimento de câncer gástrico. O documento ressalva que o estudo não comprova nexo causal e conclui que o uso desses medicamentos deve incidir dentro dos protocolos de indicação já estabelecidos.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Adenocarcinoma de Estômago — versão preliminar, Conitec, agosto de 2026, introdução

Consenso de sociedade, por outro caminho

Ele arrola, entre as indicações de tratamento da bactéria, os pacientes com doença do refluxo que têm recomendação de uso periódico de inibidor de bomba ou de bloqueador competitivo de potássio — isto é, trata a combinação de infecção com supressão ácida prolongada como situação a ser desfeita pelo lado da bactéria, sem afirmar nada sobre o risco do medicamento isolado.

Vth Brazilian Consensus Conference on Helicobacter pylori infection, Arq Gastroenterol 2026;63:e26043, tabela de indicações de tratamento

Como decidir

Revise a indicação do IBP e a situação de H. pylori. Ausência de indicação motiva discussão de retirada pelo percurso específico; uma indicação válida não deve ser abandonada apenas por associação causal não estabelecida. Disfagia, perda de peso, anemia ou outros sinais de alarme exigem investigação, independentemente dessa revisão medicamentosa.

Com que idade a dispepsia sem alarme deixa de ser tratada empiricamente e passa a exigir endoscopia?

Consenso de H. pylori, declaração 6 e tabela

A estratégia de testar e tratar é recomendada para pacientes de 45 anos ou menos com dispepsia não investigada e sem achados de alarme, com força de recomendação forte e qualidade de evidência alta. A tabela de indicações do mesmo documento escreve a mesma linha como dispepsia não investigada em pacientes com menos de 45 anos — o que exclui quem tem exatamente 45.

Vth Brazilian Consensus Conference on Helicobacter pylori infection, Arq Gastroenterol 2026;63:e26043, declaração 6 e tabela de indicações de tratamento

O mesmo consenso, declaração 18

A endoscopia digestiva alta com biópsias gástricas está indicada para indivíduos com achados de alarme, para pacientes de 40 anos ou mais com sintomas dispépticos, para quem falhou à terapia antissecretora ou à estratégia de testar e tratar, e para familiares de 30 anos ou mais de pacientes com câncer gástrico. A justificativa registra que as diretrizes globais usam idade mínima de 45 ou 55 anos e que o consenso adotou idade menor pela diversidade epidemiológica brasileira e pela tendência de aumento do tumor de início precoce na América Latina.

Vth Brazilian Consensus Conference on Helicobacter pylori infection, Arq Gastroenterol 2026;63:e26043, declaração 18 e sua justificativa

Silêncio da régua federal do câncer gástrico

Nada. Nem a diretriz federal de 2018 nem a minuta de 2026 fixam idade a partir da qual a dispepsia exige endoscopia — as duas descrevem o exame como o caminho diante da suspeita e deixam a suspeita indefinida. A única régua brasileira de idade para dispepsia é a do consenso de Helicobacter pylori, que é um documento de sociedade, não uma norma federal.

Portaria Conjunta nº 03/2018 e minuta da Conitec de agosto de 2026, lidas integralmente sem cortes de idade para dispepsia

Como decidir

Sinais de alarme orientam endoscopia independentemente da idade. No paciente sem alarme entre 40 e 45 anos, considere epidemiologia local, história familiar e possibilidade de seguimento ao escolher entre as recomendações sobrepostas. Registre a justificativa e programe reavaliação; aparecimento de alarme ou persistência relevante dos sintomas exige rever a estratégia.

13

O raciocínio, em voz alta

Terça-feira, ambulatório de clínica médica de hospital de ensino. Martinha Brumado tem 38 anos, é professora de escola pública e vem pela terceira vez em cinco meses com a mesma queixa: enche rápido. Meio prato e não consegue mais, sem dor, sem azia, sem vômito. Perdeu 6 quilos desde março, e ela atribui à separação. Já saiu daqui duas vezes com diagnóstico de dispepsia funcional, e uma delas com encaminhamento sugerido para avaliação de transtorno alimentar. O abdome é flácido e indolor. Hemoglobina 11,8 g/dL, volume corpuscular médio 88 fL — normal. Sem história familiar de câncer. Ela pergunta se pode ser ansiedade, e diz que já perguntou isso antes.

  1. 1. A queixa que não é funcional, apesar do rótulo

    Saciedade precoce de instalação recente, em semanas ou poucos meses, num adulto que antes comia normalmente, é sintoma de parede que perdeu distensibilidade — não é variação do apetite e não é sintoma funcional típico. Somada a perda de 6 quilos não intencional, ela preenche achado de alarme, e achado de alarme retira a idade da equação: endoscopia em qualquer idade. O rótulo de dispepsia funcional só pode ser dado depois da endoscopia, e nunca antes; a própria definição de dispepsia funcional exige investigação prévia.

  2. 2. Por que a idade e a ausência de história familiar não protegem

    Este é o retrato do tipo difuso de Lauren: pessoa mais jovem, com frequência mulher, sem os anos de gastrite crônica que precedem o tipo intestinal e sem os fatores de risco clássicos. A diretriz federal de 2018 o descreve exatamente assim — padrão infiltrativo, extensão submucosa, metástases precoces, mais frequente em mulheres jovens, pior prognóstico. E o consenso brasileiro de 2026 registra tendência de aumento do tumor de início precoce, antes dos 40 anos, na América Latina. A juventude aqui não é fator protetor; é o que atrasa a suspeita.

  3. 3. O pedido de endoscopia, escrito para acionar prazo

    No corpo do pedido: saciedade precoce de início há 5 meses, progressiva, hoje com volume de meio prato; perda ponderal não intencional de 6 quilos, peso aferido hoje; ausência de resposta a duas tentativas de tratamento sintomático. A frase que fecha: hipótese diagnóstica principal de neoplasia gástrica, solicitação fundamentada. Acrescente ao pedido a observação de que o exame deve descrever a distensibilidade do órgão e colher biópsias sistemáticas de antro e corpo em frascos separados, mesmo na ausência de lesão.

  4. 4. A endoscopia que quase encerra o caso

    O exame descreve mucosa gástrica de aspecto discretamente enantematoso, sem lesão elevada nem ulcerada, e registra, numa linha ao final, distensibilidade reduzida do corpo gástrico à insuflação. Foram colhidos quatro fragmentos superficiais, que vieram com gastrite crônica leve e Helicobacter pylori negativo. Este é o ponto exato em que a maioria dos casos de linite plástica se perde: um laudo que diz gastrite, uma biópsia negativa e uma paciente que volta para casa aliviada.

  5. 5. O que a frase sobre distensibilidade obriga

    Estômago que não distende à insuflação, em paciente com saciedade precoce e perda de peso, é achado — e é o achado do tipo difuso. A biópsia superficial negativa não o afasta, porque a infiltração é submucosa e a mucosa pode estar preservada. A conduta é repetir a endoscopia com biópsias profundas ou macrobiópsia da área de menor distensibilidade, e não aguardar reavaliação clínica. Peça a repetição no mesmo dia em que ler o laudo, com a justificativa escrita: endoscopia com distensibilidade reduzida e biópsias superficiais negativas em paciente com achado de alarme.

  6. 6. A tomografia, e por que o protocolo importa

    Peça tomografia de abdome, tórax e pelve com contraste oral e venoso e, por escrito, com protocolo de distensão gástrica. Sem distensão, o estômago contraído imita espessamento e o espessamento real passa por contração fisiológica — o exame vira inconclusivo nos dois sentidos. No caso de Martinha, a tomografia mostra espessamento parietal difuso do corpo gástrico, com realce, e pequena quantidade de líquido livre em pelve.

  7. 7. O diagnóstico e o que ele muda de imediato

    A segunda endoscopia, com biópsias profundas, mostra adenocarcinoma pouco coeso com células em anel de sinete, tipo difuso de Lauren. O laudo tem data, e é dela que corre o prazo de até sessenta dias para o primeiro tratamento — anote a data em destaque e entregue uma via a ela. Líquido livre em pelve, em paciente com tumor difuso, levanta suspeita de disseminação peritoneal que a imagem pode não resolver: é exatamente a situação em que a minuta federal de 2026 propõe laparoscopia de estadiamento com citologia do lavado, listando histologia difusa, linite plástica e ascite mínima entre os fatores de risco de carcinomatose oculta.

  8. 8. O que se diz a ela, e o que não se promete

    Diga o nome da doença, uma vez, e espere. Explique que o próximo exame — a laparoscopia — não é o tratamento, e sim o que define se a operação é o caminho. Não prometa cirurgia antes dessa resposta e não ofereça prognóstico numérico. E não repita, sob nenhuma forma, o rótulo anterior: dizer a ela que os dois atendimentos anteriores erraram não ajuda, mas escrever no prontuário que os sintomas eram os mesmos e não foram investigados é o que permite ao serviço aprender.

  9. 9. O que este caso ensina para o próximo paciente

    Três frases. Dispepsia funcional é diagnóstico pós-endoscopia, nunca pré. Saciedade precoce nova é sintoma de parede, e vale mais que a intensidade da dor. E endoscopia normal com sinal de alarme mantido manda repetir, não encerrar — sobretudo quando o laudo, numa linha discreta ao final, disse que o estômago não distendeu.

14

Faça você

Sexta-feira, unidade básica de saúde. Ezequias Cocalinho tem 59 anos, dirige caminhão-tanque na rota do porto e veio pegar exames que a enfermeira havia pedido por causa de um cansaço que não passa. Hemoglobina 9,6 g/dL, volume corpuscular médio 72 fL, ferritina 8 ng/mL, saturação da transferrina 7%. Ele não tem queixa digestiva nenhuma: come bem, não tem azia, não tem dor, evacua normal e nunca viu sangue. Perdeu peso? Ele acha que não; o prontuário tem 82 quilos há catorze meses e a balança de hoje marca 79. Toma ácido acetilsalicílico 100 mg desde um susto cardíaco há três anos. O pai morreu de câncer, mas ele não sabe de quê. A receita que ele espera hoje é de sulfato ferroso, e a orientação escrita no papel do laboratório é tomar ferro e repetir em três meses.

  1. 1. Classifique a anemia e diga o que ela obriga, com o nome do capítulo que é dono dessa regra

    Nomeie o padrão laboratorial e a conclusão que ele autoriza. Depois escreva, com as palavras do documento, o que essa conclusão obriga num homem adulto — e diga a qual capítulo desta coleção pertence essa regra.

  2. 2. Escreva por que 'tomar ferro e repetir em três meses' é a conduta errada aqui

    Diga o que aconteceria com a hemoglobina de Ezequias em três meses se ele apenas tomasse o ferro, e por que esse resultado é perigoso. Nomeie o que teria deixado de acontecer nesse intervalo.

  3. 3. Liste os achados de alarme presentes e os ausentes, e diga se a ausência muda alguma coisa

    Percorra a lista dos seis achados. Diga quais Ezequias tem, incluindo o que ele mesmo não percebeu, e responda se a ausência de queixa digestiva reduz a indicação de exame.

  4. 4. Escreva os dois pedidos de exame, com a frase que aciona o prazo legal

    Redija o corpo dos dois pedidos, com os números e a frase de fechamento que a lei exige. Diga também por que os dois vão juntos, na mesma consulta, e o que acontece se só um for pedido.

  5. 5. Diga o que exigir do laudo da endoscopia se ela não mostrar lesão

    Escreva as instruções que precisam estar no pedido para que uma endoscopia sem lesão ainda produza informação útil, e diga em quantos frascos o material precisa chegar ao patologista e por quê.

  6. 6. Resolva o ácido acetilsalicílico e a hipótese do Helicobacter pylori

    Diga o que fazer com o antiagregante enquanto se investiga, quem decide isso, e em que momento a pesquisa e o tratamento da bactéria entram — antes ou depois da biópsia, e por quê.

  7. 7. Escreva as três frases que você diz a Ezequias antes de ele sair

    Uma sobre por que não vai receber só o ferro hoje; uma sobre o que ele deve fazer com o papel datado que leva na mão; e uma sobre quando voltar sem esperar a data do retorno.

  8. Continuidade do caso e prática do internato

    Explique por que a consulta de Martinha exige rever a hipótese inicial e, no desfecho operatório, como a anatomia define o cuidado posterior.

  9. Questão integrativa 1

    A idade de 38 anos exclui neoplasia em Martinha?

  10. Questão integrativa 2

    VCM normal afasta câncer gástrico ou deficiência inicial de ferro?

  11. Questão integrativa 3

    Toda endoscopia normal exige exatamente a mesma série de biópsias profundas?

  12. Questão integrativa 4

    Todo câncer gástrico recebe a mesma gastrectomia?

  13. Questão integrativa 5

    A reposição de B12 é idêntica depois de gastrectomia total e parcial?

  14. Questão integrativa 6

    Que informação operatória muda o seguimento nutricional?

Ver como fecharíamos

1. Anemia microcítica com ferritina de 8 ng/mL e saturação da transferrina de 7% é anemia por deficiência de ferro, sem ambiguidade. Num homem adulto — assim como numa mulher fora da idade fértil —, isso obriga a investigar o tubo digestivo, pela mesma exclusão de sempre: sem menstruação, sem gestação e sem má absorção conhecida, o ferro só pode estar saindo por dentro. A regra, os cortes laboratoriais e a dose escrita em ferro elementar pertencem ao capítulo Anemia ferropriva, na apostila de Hematologia e Hemoterapia, que determina os dois exames endoscópicos na mesma consulta para homem adulto e para mulher na pós-menopausa. A metade baixa dessa investigação é assumida pelo capítulo Câncer colorretal, na apostila de Coloproctologia; a metade alta é assumida por este capítulo. 2. Se Ezequias apenas tomar o ferro, a hemoglobina dele vai subir — e é exatamente esse o perigo. O tratamento funciona sobre o número e não sobre a causa: em três meses ele volta dizendo que está melhor, com um hemograma que confirma, e a investigação nunca acontece. O que terá deixado de acontecer é a única coisa que decidia o desfecho: alguém perguntar de onde estava saindo o ferro. Corrigir a anemia sem procurar a fonte é a versão silenciosa do mesmo erro de renovar o omeprazol. 3. Presentes: anemia ferropriva, que é a forma laboratorial de sangramento digestivo; e perda de peso — 3 quilos em catorze meses, cerca de 3,7%, abaixo do corte de cinco por cento em seis meses, mas não intencional e não percebida pelo paciente, o que a torna dado e não ruído. História familiar de câncer sem sítio conhecido é uma pergunta em aberto, não um achado: vale a pena tentar descobrir de quê morreu o pai. Ausentes: disfagia, vômitos persistentes, massa palpável e saciedade precoce. A ausência não muda nada. A anemia ferropriva já é, ela própria, achado de alarme — o consenso brasileiro de 2026 a arrola entre os achados que indicam endoscopia — e não existe hierarquia em que outros sintomas precisem se somar a ela. Paciente sem queixa digestiva com anemia ferropriva é a apresentação mais comum do câncer gástrico diagnosticado por acaso, e não a mais tranquilizadora. 4. Endoscopia digestiva alta com biópsias e colonoscopia, os dois pedidos, escritos assim: homem de 59 anos com anemia ferropriva (hemoglobina 9,6 g/dL, VCM 72 fL, ferritina 8 ng/mL, saturação da transferrina 7%), sem sangramento visível, em uso crônico de ácido acetilsalicílico, com perda ponderal não intencional de 3 kg em 14 meses e peso aferido hoje; investigação de perda sanguínea digestiva; hipótese diagnóstica principal de neoplasia do tubo digestivo, solicitação fundamentada. Acrescente ao pedido da endoscopia: biópsias sistemáticas de antro e corpo em frascos separados por sítio, mesmo na ausência de lesão, e pesquisa de Helicobacter pylori. Os dois andam juntos por razões complementares: o achado do andar superior costuma ser insuficiente para justificar sozinho a perda de ferro, e o cólon responde por boa parte das neoplasias encontradas nesse cenário. Parar na endoscopia alta é o atalho mais frequente e o mais arriscado; parar na colonoscopia deixa em pé o tumor que sangra pouco e todos os dias. Anote no prontuário a data em que cada pedido foi protocolado. 5. No pedido, exija: descrição por compartimento gástrico; descrição da distensibilidade do órgão; biópsias de alterações inespecíficas e amostras aleatórias mesmo sem lesão característica, que é o que a diretriz federal de 2018 manda fazer; e mapeamento de antro e corpo pelas curvaturas menor e maior, com amostra da incisura angular, conforme o protocolo que o consenso brasileiro de 2026 descreve. O material precisa chegar em frascos separados e identificados por sítio — no mínimo um de antro e um de corpo, mais os dirigidos —, porque é a extensão da atrofia e da metaplasia por sítio que estratifica risco e define o intervalo de vigilância. Tudo num frasco só transforma um exame de estadiamento de mucosa num exame de presença ou ausência de bactéria. 6. O ácido acetilsalicílico não se suspende por conta própria e não é, sozinho, explicação suficiente para ferropenia desta magnitude — ele é um fator que se soma, não um diagnóstico que encerra. Revise a indicação com quem o prescreveu e registre a conversa; a decisão de manter, suspender temporariamente para o procedimento ou substituir é de quem cuida do risco cardiovascular dele, e o serviço de endoscopia informa o que precisa para o exame. Sobre a bactéria: a pesquisa vai junto com a endoscopia, mas o tratamento espera o laudo anatomopatológico quando houver lesão suspeita, porque erradicar antes de biopsiar apaga o achado inflamatório e não muda o tumor. Se as duas endoscopias vierem normais, a pesquisa e o tratamento de Helicobacter pylori entram na sequência de investigação da anemia, e essa sequência é do capítulo Anemia ferropriva. O esquema de erradicação em si é do capítulo de doença ulcerosa péptica e Helicobacter pylori, na apostila de Gastroenterologia. 7. Primeira: o senhor vai levar o ferro, sim, mas ele sozinho não resolve — o exame mostrou que o senhor está perdendo sangue por dentro, e a gente precisa achar por onde antes de comemorar a melhora. Segunda: estes dois papéis têm a data de hoje e uma frase que dá prazo por lei aos exames; guarde uma via com seus documentos e, se em três semanas não tiverem marcado, volte aqui com eles que a gente cobra. Terceira: não espere a data do retorno se aparecer fezes pretas, vômito com sangue, dor nova ou piora do cansaço — nesses casos o senhor vem direto, em qualquer dia. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. A trajetória de sintomas e perda de peso exige investigação adequada. 2. Não. Hemograma é parte da avaliação e não exclui essas hipóteses isoladamente. 3. Não. Amostragem deve responder ao contexto, à suspeita e ao padrão encontrado. 4. Não. Estágio, localização, histologia, condição e estratégia multidisciplinar orientam o tratamento. 5. Não. Total exige reposição permanente; parcial pede acompanhamento e individualização conforme risco e deficiência. 6. Extensão da ressecção e reconstrução, pois alteram reservatório, fator intrínseco e trajeto de absorção.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Anemia ferropriva nesse homem de 59 anos justifica investigação digestiva com endoscopia alta e colonoscopia, mesmo sem sintomas e enquanto se repõe ferro. Não atribuir a causa automaticamente ao AAS nem aguardar falha da reposição. Rever a indicação do antiagregante com o prescritor. A investigação considera também dieta, doação de sangue, perdas urinárias ou de outros locais, cirurgia e má absorção, inclusive doença celíaca. Perda digestiva é uma hipótese relevante, não a única via possível de deficiência. Teste fecal negativo não exclui lesões nem substitui avaliação indicada. Lesões do trato superior não se resumem a uma exceção tumoral rara.

15

Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
16

Plano de revisão

Em 7 dias

Reescreva de memória, sem consultar: os seis achados que obrigam endoscopia num adulto com queixa dispéptica, e o que cada um costuma significar. Depois escreva a frase exata que precisa constar de um pedido de endoscopia para acionar o prazo legal, com as duas condições que a lei exige, e diga de que ato corre cada um dos dois relógios. Em seguida, responda em uma linha por que uma endoscopia normal não encerra a investigação de quem tem sinal de alarme, e cite as três razões separadamente. Por fim, refaça a conta do peso de Afrânio: 74 quilos em março, 66 hoje — quantos quilos, quantos por cento, em quantos meses, e por que os três números vão no pedido e não só no prontuário.

Em 30 dias

Escreva os dois retratos de Lauren lado a lado, com quatro diferenças cada, e diga qual dos dois nasce da cascata que a erradicação do Helicobacter pylori interrompe e qual não nasce. Depois explique, sem consultar, por que a linite plástica pode dar endoscopia com mucosa normal e biópsia negativa, e qual linha do laudo endoscópico obriga a repetir o exame. Em seguida, escreva o número mínimo de linfonodos que a régua federal pede para estadiamento adequado, o que acontece com a classificação quando esse número não é atingido e todos vêm negativos, e por que isso muda a confiança no estádio final. Reproduza também a caixa da alta de um gastrectomizado: o que se repõe, por qual via, e qual delas é para a vida toda — dizendo qual capítulo desta coleção é dono do esquema de cada uma. Por último, escreva em três linhas por que o Brasil não rastreia câncer gástrico e o que ele faz no lugar do rastreamento, nomeando os três atos de prevenção que têm dono.

17

Agora atenda

Você é o interno do ambulatório de clínica médica numa quarta-feira de manhã. O próximo paciente é um homem de 64 anos cuja ficha diz, com letra apressada, renovação de receita — ele usa omeprazol desde março por dispepsia. A preceptora avisou pela porta que deve dar dez minutos. Conduza a consulta: caracterize a queixa, procure ativamente os achados que mudam a categoria do caso, ponha o paciente na balança e procure o peso anterior no prontuário. Se decidir que a receita não se renova, diga isso ao paciente com palavras que o façam voltar, e escreva o pedido de exame com a fundamentação que aciona o prazo legal. Ao final, esteja pronto para dizer o que vai acontecer, em que ordem e em quanto tempo — e para responder à filha dele, que espera do lado de fora.

Câncer gástrico – Dois cânceres com o mesmo nome — Internato | OsceLabs