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Cirurgia GeralCirurgia Vascular

A perna que incha há anos

Insuficiência venosa crônica e varizes de membros inferiores

Da queixa que parece estética à úlcera que não fecha: o que se mede antes de comprimir, e por que a compressão é o tratamento.

Fontes deste capítulo

KIKUCHI, R. et al. Diretriz brasileira de doença venosa crônica da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular. J Vasc Bras, v. 22, e20230064, 2023. DOI 10.1590/1677-5449.202300641.

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL. TelessaúdeRS-UFRGS. Protocolos de encaminhamento para Cirurgia Vascular. Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS, 2020.

PORTO ALEGRE (Município). Secretaria Municipal de Saúde. Protocolo de Enfermagem na Atenção Primária à Saúde: prevenção e tratamento de feridas. Porto Alegre: SMS/PMPA, 2024.

ERZINGER, F. L. et al. Diretrizes sobre doença arterial periférica da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular. J Vasc Bras, v. 23, e20230059, 2024. DOI 10.1590/1677-5449.202300591.

BRASIL. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024.

01

Responda antes de ler

Homem de 71 anos, com diabetes e passado de tabagismo, tem úlcera acima do maléolo medial esquerdo há 14 meses. A pele ao redor é castanha e a perna tem varizes; a dor melhora quando ele eleva o membro. Nesses 14 meses fez quatro ciclos de antibiótico, usou seis pomadas e trocou curativo três vezes por semana na unidade básica. A ferida encolheu duas vezes e reabriu as duas. Qual é a falha central do tratamento recebido até aqui?

02

O paciente que você vai ver

Quinta-feira de manhã, unidade básica de saúde. A agenda tem dezoito nomes e três deles vieram por causa das pernas. Nenhum dos três está na lista de prioridade, porque nenhuma perna que incha há doze anos consegue parecer urgente numa triagem que foi desenhada para dor no peito.

Adalgiza Marambaia tem 54 anos, 88 quilos, 1,58 m, e é cozinheira de escola. Trabalha em pé das seis da manhã às três da tarde, com uma pausa de quarenta minutos que ela passa sentada num banquinho sem encosto. Diz que a perna incha "desde os quarenta", que de manhã está normal e que de noite o sapato não entra. Coça na canela, e ela coça com a unha até sangrar. Já ouviu de dois médicos que é varize e que "não tem o que fazer". Comprou uma meia numa farmácia, achou apertada demais, usou dois dias e guardou. Veio hoje porque a filha se assustou com a cor da perna dela.

Genuino Catende tem 71 anos, é ex-fumante de quarenta anos-maço, tem diabetes há dezoito anos e uma ferida acima do maléolo interno esquerdo que abriu há quatorze meses. Nesses quatorze meses ele fez, pelas contas dele, quatro ciclos de antibiótico, usou seis pomadas diferentes e trocou curativo três vezes por semana na unidade. A ferida encolheu duas vezes e voltou a abrir as duas vezes. Ele traz uma sacola com as caixas dos remédios. Ninguém, em quatorze meses, comprimiu a perna dele — e ninguém, em quatorze meses, mediu a pressão do tornozelo dele.

Nailde Sirinhaem tem 63 anos e teve trombose na perna direita há sete anos, depois de uma cirurgia de vesícula. Tomou anticoagulante por seis meses e recebeu alta com a frase "acabou". Desde então a perna direita é mais grossa que a esquerda, dói no fim do dia, e há dois anos a pele acima do tornozelo endureceu de um jeito que ela descreve como "parece madeira por baixo". Ela não vem por causa disso. Vem renovar a receita da pressão.

As três pessoas têm a mesma doença em três momentos diferentes, e as três já passaram por esta unidade muitas vezes sem que alguém dissesse o nome dela. É a doença mais comum das que causam ferida em perna, tem tratamento barato, disponível e eficaz, e mesmo assim é a que mais acumula anos de fracasso terapêutico — porque o tratamento que funciona quase nunca é o que se prescreve.

Este capítulo é sobre o que separa essas três pernas de outras pernas inchadas, sobre a única medida que precisa ser feita antes de tratar, e sobre o que o interno consegue fazer hoje, na unidade básica, sem esperar vaga de especialista. Ele também é sobre uma pergunta desconfortável: por que uma doença com tratamento tão bem definido é tratada errado por tanto tempo, e o que na estrutura dos documentos brasileiros ajuda a explicar isso.

03

Quem adoece disso

Comece pelo que não existe, porque isso muda o modo de ler todo o resto. Não há levantamento nacional brasileiro de prevalência de doença venosa crônica. A Pesquisa Nacional de Saúde não a mede; a diretriz nacional da especialidade não traz número brasileiro de prevalência; e as estimativas que circulam nos textos de ensino no Brasil vêm de coortes europeias. A diretriz brasileira de doença venosa crônica da SBACV, de 2023, apoia sua descrição epidemiológica no estudo de Bonn, feito na Alemanha com 1.350 homens e 1.722 mulheres de 18 a 79 anos, no qual 22,6% tinham varizes e 15,8% tinham insuficiência venosa crônica. Quando você disser a um paciente que a doença dele é comum, saiba que o número que você tem na cabeça foi medido em outro país.

O que os documentos brasileiros dizem com segurança é a direção dos fatores de risco, e ela é consistente: sexo feminino, idade avançada, obesidade, longos períodos em pé, história familiar e paridade. A diretriz de 2023 acrescenta que a progressão tende a ser mais frequente em pessoas com excesso de peso e em quem já teve trombose venosa profunda. Repare que quatro desses seis fatores descrevem a Adalgiza da primeira página, e que dois deles — o peso e o tempo em pé — são os únicos sobre os quais alguém pode agir na consulta de hoje.

As classes iniciais são as mais comuns. A diretriz afirma que C1 e C2 da classificação CEAP, isto é, telangiectasias e veias reticulares de um lado e veias varicosas de outro, são os estágios mais frequentes. Isso importa por um motivo prático: a esmagadora maioria das pessoas que chegam com queixa venosa não tem, e provavelmente nunca terá, úlcera. O risco de tratar a doença como se fosse sempre grave é o mesmo de tratá-la como se fosse sempre estética — os dois erros vêm de não classificar.

A relação entre gravidade clínica e gravidade anatômica é fraca, e este é um dos achados mais úteis de toda a diretriz. Num estudo transversal com 100 pacientes com varizes, não houve correlação entre o diâmetro médio das veias safenas e a classificação clínica; houve correlação entre idade avançada e gravidade clínica, com p igual a 0,04, e entre obesidade e maior diâmetro medido pela ultrassonografia. A tradução para o consultório é direta: a veia grossa que salta na coxa não prevê a gravidade da doença, e a perna que parece limpa por fora pode carregar refluxo importante. Quem decide conduta pelo tamanho da varize está lendo o dado errado.

Nos pacientes classificados como C1, que é a classe que quase todo mundo chama de "vasinho", há refluxo de veias safenas associado em 40% a 50%. É um número que desmonta a divisão confortável entre doença estética e doença de verdade: metade das pessoas que procuram por causa da aparência tem, por baixo, alteração hemodinâmica em veia troncular.

O peso da doença não está na prevalência, está na cronicidade da sua ponta pior. A úlcera venosa é o tipo mais comum de úlcera de perna, segundo o protocolo de enfermagem de Porto Alegre de 2024, e é uma ferida que se mede em meses e anos, não em dias. O mesmo protocolo adota, no seu Anexo 4, metas explícitas de cicatrização — e o simples fato de existirem metas de doze, dezoito e vinte e quatro semanas diz o tamanho do problema: nenhum outro ferimento comum da atenção primária precisa de um cronograma em semestres.

Há um último número que é o mais importante deste bloco e que não vem de estudo nenhum: quatorze meses. É há quanto tempo a ferida do Genuino está aberta, e é um tempo perfeitamente típico. Quando a literatura fala em úlcera venosa "complexa", um dos critérios é justamente existir há mais de seis meses. Ele passou desse corte há oito meses, dentro do serviço, sob acompanhamento, trocando curativo três vezes por semana. Não faltou acesso. Faltou compressão.

04

Por que acontece o que acontece

Uma coluna de sangue de um metro e vinte pesa. Quando você fica em pé, a pressão dentro das veias do tornozelo é a soma da pressão venosa central com o peso dessa coluna, e ela chega a valores que nenhum capilar de pele suportaria por muito tempo. O que impede o desastre é uma bomba: a musculatura da panturrilha, que a cada passo esmaga as veias profundas e empurra o sangue para cima, e um sistema de válvulas que impede que ele volte. Caminhar derruba a pressão venosa no tornozelo em poucos passos. Ficar parado em pé não derruba nada. Toda a doença deste capítulo é a história do que acontece quando essa bomba deixa de funcionar, ou quando as válvulas deixam de segurar o que a bomba empurrou.

As válvulas falham por três caminhos, e vale distingui-los porque eles pedem coisas diferentes. No primeiro, a parede da veia cede, o vaso dilata e as cúspides valvares, que tinham tamanho para o calibre antigo, deixam de encostar uma na outra: é a doença primária, a mais comum, a que produz a varize clássica. No segundo, uma trombose destruiu as válvulas do segmento acometido, e a veia que recanalizou mal ficou estreita e sem freio ao mesmo tempo — é a doença secundária, a síndrome pós-trombótica, cuja fisiopatologia é ensinada no capítulo "Trombose venosa profunda" desta apostila. Aqui interessa o que ela deixa: a perna da Nailde, sete anos depois. No terceiro, o problema está a montante, numa estenose ou obstrução das veias ilíacas ou da cava, e a perna é apenas onde o sintoma aparece.

O refluxo se mede em tempo. Considera-se refluxo o fluxo reverso que dura mais de um segundo na veia femoral comum. É uma definição de laboratório, mas ela ajuda a entender por que o exame que responde a esta pergunta é dinâmico e não estático: não se procura uma imagem de válvula quebrada, procura-se o sangue voltando quando não deveria.

O que a hipertensão venosa faz com a pele não é passivo. Não é o sangue "empoçado" causando dano por peso. É uma cascata inflamatória: a pressão elevada e o fluxo alterado agridem o endotélio, leucócitos aderem à parede e migram para o interstício, e o processo inflamatório crônico remodela a derme. A diretriz brasileira acrescenta uma peça que quase não se ensina: existem válvulas em veias de calibre muito pequeno, superficiais, e a incompetência dessas microválvulas pode ter papel crítico na progressão das alterações da pele. Isso explica o que confunde à beira do leito — pernas com alteração de pele importante e varizes discretas, e pernas com varizes enormes e pele impecável.

A hemossiderina é a assinatura visível dessa inflamação. Hemácias extravasam para o interstício sob pressão, são degradadas, e o ferro dos seus pigmentos fica depositado na derme. O resultado é uma pigmentação castanha, permanente ou quase, no terço distal da perna — a dermatite ocre. Ela não coça, não descama e não some com corticoide, porque não é uma dermatite no sentido usual: é ferro depositado. Quem tenta clareá-la com pomada está tentando dissolver metal.

A lipodermatoesclerose é o degrau seguinte, e é fibrose. A inflamação crônica substitui a gordura subcutânea por tecido fibroso, e o tornozelo estrangula enquanto a panturrilha permanece cheia. É daí que vem a forma de garrafa de champanhe invertida, e é daí que vem a descrição da Nailde: "parece madeira por baixo". A consequência prática é que a fibrose é o único achado deste capítulo que não regride — o edema regride, a pigmentação clareia devagar, a úlcera fecha, e o tornozelo endurecido não volta ao que era. Isso transforma cada consulta perdida em dano acumulado.

A atrofia branca fecha a sequência antes da ferida. São placas brancas, deprimidas, de aspecto porcelânico, com telangiectasias puntiformes ao redor, que representam áreas em que a microcirculação dérmica foi obliterada. É pele com suprimento capilar arrasado. Sobre atrofia branca a ferida abre com um trauma mínimo — o esbarrão no batente, a unha do próprio paciente coçando — e demora desproporcionalmente para fechar, porque falta o leito vascular de onde a cicatrização parte.

Agora o mecanismo do tratamento, que é o que torna tudo isto acionável. A compressão externa não é um curativo apertado. Ela funciona por três vias simultâneas: reduz o calibre venoso, o que reaproxima as cúspides valvares e diminui o refluxo; eleva a pressão intersticial, o que se opõe à saída de líquido do capilar e desfaz o edema; e devolve eficiência à bomba da panturrilha, porque o músculo passa a trabalhar contra uma parede externa firme em vez de expandir os tecidos moles. É por isso que uma atadura inelástica funciona melhor em quem caminha do que em quem fica na cama: sem passo, não há bomba, e sem bomba a inelástica fornece pouca compressão em repouso. E é por isso que a compressão é tratamento, e não conforto: ela ataca a hipertensão venosa, que é a causa, e não a ferida, que é a consequência.

05

Como se apresenta de verdade

A doença venosa crônica se apresenta de duas maneiras que quase não se falam: por sintoma, que é inespecífico e engana; e por sinal na pele, que é específico e quase nunca é procurado. O interno que aprende só a primeira metade fica dependente de exame para tudo. O que este bloco pede é a segunda metade — a perna despida, com o paciente em pé, olhada por inteiro do joelho ao dorso do pé, e apalpada.

Duas condições valem antes de qualquer coisa. Examine em pé: veia varicosa se enche em ortostatismo, e a perna deitada mente. E examine as duas pernas, mesmo quando a queixa é de uma só, porque metade do raciocínio deste capítulo depende de saber se o achado é uni ou bilateral.

A queixa que o paciente acha que é frescura, e o médico acha que é estética

O sintoma venoso típico é uma constelação chata de descrever: peso, aperto, sensação de perna cansada, dor difusa que não segue trajeto de nervo, prurido, cãibra noturna, pernas inquietas. O que dá identidade a essa constelação não é a qualidade de cada sintoma, é o ritmo. O sintoma venoso piora ao longo do dia, piora em pé e parado, piora no calor, e melhora com a perna elevada e com a deambulação. Se você não perguntar pelo ritmo, vai colher uma queixa vaga; se perguntar, colhe um padrão.

A pergunta que rende mais é sobre o horário do sapato: de manhã entra e de tarde não entra? A Adalgiza respondeu sozinha essa pergunta antes de você fazê-la. A segunda pergunta que rende é sobre o que o paciente já faz por conta própria — quem eleva a perna à noite e sente alívio já lhe deu, de graça, um teste terapêutico.

Agora a advertência, e ela vem da própria diretriz brasileira: os sintomas venosos são inespecíficos e frequentemente confundidos com outras doenças, e a apresentação clínica nem sempre indica a gravidade anatômica ou hemodinâmica. Isso corta nos dois sentidos. Perna que dói muito pode ter doença leve, e perna que não dói nada pode estar a caminho da úlcera. Não use intensidade de sintoma como medida de gravidade — use a pele.

Vale registrar que os sintomas de uma classe inteira, a das telangiectasias e veias reticulares, são frequentemente tratados como queixa estética. A diretriz desmonta isso com um dado: entre os pacientes CEAP C1 há refluxo de safena associado em 40% a 50%. A pessoa que veio pelo "vasinho" tem, em metade das vezes, doença troncular por baixo. Isso não significa operar todo mundo; significa examinar todo mundo antes de dizer que é só aparência.

O edema: o que é venoso e o que não é

O edema venoso tem quatro marcas. É vespertino, ou seja, aparece ou piora ao longo do dia e melhora com a noite deitado. Começa no tornozelo, no maléolo, e sobe. Deixa cacifo no início e deixa de deixar quando a fibrose se instala. E respeita o pé: o dorso do pé e os dedos costumam ser poupados nas fases iniciais, o que ajuda a diferenciá-lo do linfedema.

Bilateral e simétrico, o edema pede que você pense fora da veia primeiro. Insuficiência cardíaca, que é o diferencial mais importante e cuja conduta pertence aos capítulos de insuficiência cardíaca da apostila de Cardiologia — este capítulo cede a eles o diagnóstico e o manejo do edema de origem cardíaca e fica com o venoso. Hipoalbuminemia por doença hepática ou perda renal. Doença renal com retenção. E o mais esquecido: medicamento. Anlodipino e os outros bloqueadores de canal de cálcio di-hidropiridínicos produzem edema maleolar dose-dependente, sem cacifo importante e sem melhora com diurético — em quem tem hipertensão e perna inchada, a caixa do remédio responde antes do ultrassom.

Unilateral, o raciocínio muda de sentido. Se é agudo, com dor em panturrilha, o primeiro pensamento é trombose venosa profunda, e a investigação dela — probabilidade clínica, escore de Wells, dímero-D, ultrassom — pertence inteira ao capítulo "Trombose venosa profunda", desta mesma apostila, que este capítulo cede a ele pelo nome e não reescreve. Se é crônico, assimétrico, e existe história de trombose prévia, você está diante de síndrome pós-trombótica, e ela é deste capítulo daqui em diante.

O linfedema é o diferencial que mais engana porque também é crônico e também incha. Três coisas o separam do venoso: ele pega o dorso do pé e os dedos, produzindo o dedo quadrado que não se consegue pinçar entre os dedos do examinador; ele endurece sem passar pela sequência de pigmentação e ulceração maleolar; e ele não melhora tanto com a elevação noturna. Na prática, os dois convivem com frequência, porque a hipertensão venosa crônica sobrecarrega e acaba lesando a drenagem linfática.

Um lembrete que evita um erro caro: obesidade grave, imobilidade e sentar o dia inteiro com as pernas pendentes produzem edema por si sós, e produzem também insuficiência da bomba da panturrilha sem doença valvar nenhuma. É a chamada síndrome da imobilidade da bomba, e o tratamento dela é movimento de tornozelo, não meia.

Ver a doença na pele: cinco achados que decidem a conduta

A pele do terço distal da perna, na face medial, é onde esta doença escreve. Aprenda cinco achados e você deixa de precisar de exame para classificar.

A corona flebectásica é o mais precoce e o menos conhecido: um leque de vênulas finas, azuladas, no maléolo medial e na região submaleolar, às vezes lateral. Ela foi acrescentada à classificação CEAP na revisão recente, como categoria C4c, e a razão declarada para essa mudança é o risco de evolução para úlcera venosa. Isso a transforma de curiosidade em marcador: quem tem corona flebectásica está numa trajetória, e não num estado.

A dermatite ocre, ou hiperpigmentação, é a mancha castanha do terço distal, difusa, de bordas mal definidas, que não descama e não coça. É hemossiderina depositada. Não confunda com melanose por atrito de meia ou por trauma repetido, e não tente clarear com corticoide, porque não há inflamação ativa para suprimir ali.

A dermatite de estase é o achado que mais custa antibiótico ao SUS. É eczema: pele avermelhada, descamativa, mal delimitada, que coça, às vezes com exsudação e crosta, no terço distal de uma ou das duas pernas. Ela é vermelha, é quente ao toque em relação à pele vizinha, e o paciente coça — e é por isso que ela é rotulada de erisipela. O que a distingue: coça em vez de doer, tem descamação, tem bordas que você não consegue desenhar com o dedo, poupa o estado geral, não dá febre, e é frequentemente bilateral. O capítulo "Quem mais dorme nessa cama", da apostila de Dermatologia, que é o dono da erisipela e da celulite, formula a mesma regra pelo outro lado, e vale decorar nas duas direções: erisipela e celulite verdadeiras são quase sempre unilaterais. Quando as duas pernas estão vermelhas ao mesmo tempo, com a mesma cara, a hipótese mais provável não é infecção bilateral simultânea. Aquele capítulo cede a este a conduta da dermatite de estase e da lipodermatoesclerose; este cede àquele o diagnóstico e o tratamento da erisipela e da celulite.

A lipodermatoesclerose é palpação, não inspeção. Você aperta a pele acima do maléolo e ela não se deixa pregar: está aderida, endurecida, às vezes dolorosa numa fase inflamatória inicial em que ela é confundida com celulite. Com o tempo o tornozelo estreita e a panturrilha permanece cheia — a perna em garrafa de champanhe invertida. É fibrose, e é o achado deste capítulo que não regride. Registrá-lo por escrito no prontuário, com a data, é o que permite a alguém, dois anos depois, saber se a doença progrediu.

A atrofia branca é a placa branca, deprimida, de aspecto de porcelana, cercada por pontos vermelhos de telangiectasia, geralmente supramaleolar. É a última estação antes da ferida, e é onde a ferida costuma abrir. Uma advertência importante: atrofia branca é um padrão morfológico, não um diagnóstico etiológico — lesões muito parecidas ocorrem na vasculopatia livedoide e em vasculites, e aí a conduta é outra. Se a placa branca dói de forma desproporcional e vem acompanhada de livedo, o caso deixa de ser rotina.

Imagem didática da face medial de uma perna com varizes, pigmentação acastanhada, redução do contorno supramaleolar, placa branca e pequena úlcera rasa.
A hipertensão venosa crônica pode se associar a pigmentação por hemossiderina, lipodermatoesclerose, atrofia branca, pequenas veias perimaleolares e úlcera na região da perna próxima ao maléolo. A figura reúne achados possíveis. O exame vascular e a avaliação da ferida continuam necessários, inclusive para reconhecer doença arterial associada.

A úlcera venosa: onde fica, que cara tem, e por que é a mais comum

A úlcera venosa é o tipo mais comum de úlcera de perna. O protocolo de enfermagem de Porto Alegre de 2024 afirma isso em texto, e a razão é aritmética: a doença venosa crônica é muito mais prevalente que a arterial nas faixas etárias em que as feridas de perna aparecem, e a hipertensão venosa mantida por décadas termina por vencer a pele.

Ela fica na região maleolar medial, ou logo acima dela, no terço distal da perna — a chamada área de gaiter. Fica ali porque é onde a pressão hidrostática é máxima e onde as perfurantes incompetentes descarregam. Uma ferida na panturrilha alta, na coxa ou na planta do pé pede outra explicação antes de ser chamada de venosa.

O aspecto é característico: rasa, de bordas irregulares e mal definidas, leito com tecido de granulação avermelhado misturado a esfacelo amarelado, exsudato de moderado a abundante — é a ferida que encharca o curativo. A pele ao redor traz os achados do bloco anterior: pigmentação, eczema, ressecamento, lipodermatoesclerose. E a dor, quando existe, melhora com a elevação do membro. Esse último ponto é a pergunta mais barata da beira do leito.

O contraste com a úlcera arterial é limpo e não custa exame nenhum. A arterial é profunda, circular, de bordas nítidas e bem demarcadas, com leito pálido ou necrótico e exsudato mínimo; fica nas extremidades e nos pontos de pressão óssea — artelhos, calcâneo, espaços interdigitais, maléolo lateral; a pele ao redor é fina, brilhante, sem pelos, fria, com unhas espessas e enchimento capilar lento; e a dor piora ao elevar o membro e alivia quando a perna pende para fora da cama. O capítulo "Lesão por pressão no paciente internado", da apostila de Síndromes do Paciente Internado, monta esse mesmo contraste do seu lado, e a fronteira entre os dois é declarada nas duas direções: a ferida que se explica por pressão sobre proeminência óssea em paciente com mobilidade reduzida é dele; a ferida de perna que se explica por hipertensão venosa é deste capítulo.

Duas armadilhas de aparência. Primeira: úlceras mistas existem e são comuns no idoso — a mesma perna tem hipertensão venosa e doença arterial, e a ferida tem cara de venosa com irrigação de arterial. É por isso que o aspecto nunca dispensa a medida do próximo bloco. Segunda: úlcera que muda de comportamento — borda que se eleva e endurece, tecido exuberante que sangra ao toque, crescimento depois de meses de estabilidade — deixa de ser assunto deste capítulo. Ela pertence ao capítulo "As duas lesões que passam pela sala sem serem vistas", da apostila de Dermatologia, que declara tomar para si exatamente essa fatia; e é a hipótese de transformação maligna sobre ferida crônica que justifica biópsia.

Quando a úlcera está sobre osso, ou quando uma sonda romba encontra osso no fundo dela, o assunto passa a ser outro: o capítulo "O que a radiografia ainda não mostra", da apostila de Ortopedia, é o dono da osteomielite, inclusive a do pé diabético, e este capítulo cede a ele o diagnóstico e o tratamento a partir do momento em que o osso entra na conversa.

As pernas que parecem venosas e não são

Vale ter uma lista curta na cabeça, porque a úlcera venosa é tão mais comum que ela se torna o rótulo automático de qualquer ferida de perna — e o rótulo automático é o que mantém a ferida errada aberta por anos.

A úlcera do pé relacionada ao diabetes é neuropática: fica em ponto de pressão plantar, sobre a cabeça de metatarso ou no calcâneo, tem borda hiperceratótica em anel, e o achado que a define é a ausência de dor num paciente que deveria estar gritando. A úlcera do pé da pessoa com diabetes, com a estratificação de risco do pé, pertence ao capítulo "Pisar na própria ferida", sobre pé diabético e úlceras de membros inferiores, desta apostila, que a assume como entidade; o exame anual com monofilamento na atenção primária é do capítulo "Diabetes tipo 2 na unidade básica", da apostila de Endocrinologia, e a avaliação de perfusão, do capítulo "A dor que só existe andando", desta apostila. Este capítulo cede a eles esse território pelo nome.

Úlcera em pessoa jovem, dolorosa desproporcionalmente, com borda violácea escavada, faz pensar em pioderma gangrenoso — e ali desbridar piora. Úlcera com livedo, púrpura palpável ou lesões em outros territórios faz pensar em vasculite. Úlcera em maléolo lateral de pessoa com anemia hemolítica conhecida faz pensar em doença falciforme. Nenhuma dessas tem régua neste capítulo, e nenhuma delas melhora com o tratamento deste capítulo.

O protocolo de encaminhamento da atenção primária para a Cirurgia Vascular do TelessaúdeRS resolve essa bifurcação de um jeito administrativo que vale copiar como raciocínio: paciente com úlcera crônica e suspeita de etiologia não vascular — o documento cita vasculite, infecção e neoplasia — vai para a Dermatologia, e não para a Cirurgia Vascular. Ou seja, a primeira pergunta não é "para que especialista mando", é "esta ferida é vascular?".

Um último caso que passa despercebido: a ferida que não fecha porque o paciente não consegue tratá-la. Quem mora só, não enxerga o próprio tornozelo, não alcança o pé, não tem transporte para a unidade três vezes por semana ou não tem quem troque o curativo — esse paciente tem uma barreira que nenhuma cobertura resolve. O modelo adotado no Anexo 4 do protocolo de Porto Alegre lista explicitamente, entre os itens a avaliar, a mobilidade, a destreza, o suporte familiar, o transporte e a experiência prévia com terapia de compressão. Perguntar isso não é assistência social: é parte do exame.

Nomear a classe, e o que cada nome muda

A classificação CEAP foi criada em 1994 e revisada desde então; a diretriz brasileira de 2023 recomenda usá-la para todo paciente com insuficiência venosa crônica, com nível B e classe I, e sugere associá-la a um escore de gravidade, o Venous Clinical Severity Score. A sigla reúne quatro eixos: clínico, etiológico, anatômico e fisiopatológico. Na atenção primária, só o primeiro eixo é obtido sem exame — e ele já basta para decidir quase tudo.

O eixo clínico vai de C0 a C6. C0 é a perna sem sinal visível ou palpável de doença venosa; C1 são telangiectasias e veias reticulares; C2 são veias varicosas; C3 é edema; C4 são as alterações de pele, que a revisão recente subdividiu — pigmentação e eczema, lipodermatoesclerose e atrofia branca, e a corona flebectásica; C5 é a úlcera venosa cicatrizada; C6 é a úlcera venosa em atividade. A letra S ou A ao final indica se há ou não sintomas.

O que cada categoria muda, na prática do interno, é isto: até C2 a decisão é sobre sintoma e sobre desejo do paciente, e a conduta é conservadora; de C3 em diante existe repercussão objetiva e a compressão passa a ser tratamento indicado, não sugestão; de C4 em diante existe dano de pele estabelecido e o relógio da úlcera começou a correr; C5 significa que a prevenção de recidiva é o objetivo principal do resto da vida daquela perna; C6 é a única categoria em que a ferida vira o centro da consulta. Sigla que não muda conduta não deve ser escrita no prontuário — esta muda.

É por isso que vale escrever a classe por extenso e não só a letra. "C4a bilateral, com dermatite ocre e eczema, sem úlcera" diz a quem ler daqui a um ano exatamente o que havia. "IVC" não diz nada.

06

Como fechar o diagnóstico

Este é um capítulo em que o exame complementar decide pouco e uma medida de beira do leito decide tudo. A ordem correta não é intuitiva: primeiro a medida que autoriza o tratamento, depois — e só quando for mudar alguma coisa — o exame que mapeia a anatomia.

A razão dessa inversão é que o tratamento da doença venosa crônica não depende de saber qual veia reflui. Depende de saber se a perna pode ser comprimida. E essa é uma pergunta arterial, não venosa.

A trava: nenhuma perna é comprimida sem que a circulação arterial dela tenha sido medida

Escreva isto como regra, não como cuidado. Antes de aplicar qualquer terapia compressiva — meia, atadura elástica, bota de Unna, sistema multicomponente — mede-se o índice tornozelo-braquial daquela perna. Não é uma boa prática recomendável: é a diferença entre tratar uma úlcera e produzir uma necrose. Comprimir uma perna cuja pressão de perfusão já está baixa fecha o pouco fluxo que resta, e o dano aparece em dias, não em meses.

O índice tornozelo-braquial é a razão entre a maior pressão sistólica aferida ao nível do tornozelo e a maior pressão sistólica aferida nos braços, obtidas com Doppler de onda contínua e o paciente em decúbito dorsal. O método completo — preparo do paciente, tamanho do manguito, posição do transdutor, velocidade de esvaziamento — é ensinado no capítulo "A dor que só existe andando", desta mesma apostila, que é o dono da doença arterial periférica e da medição. Este capítulo usa o resultado e não reescreve o método; e cede àquele capítulo o manejo da doença arterial que a medida revelar.

Os valores que interessam aqui são quatro. O primeiro vem da diretriz brasileira de doença arterial periférica da SBACV, de 2024: índice abaixo de 0,9 sugere doença arterial obstrutiva periférica de membros inferiores. O segundo, da mesma diretriz: índice acima de 1,4 indica artéria pouco compressível por calcificação da média, o que torna o teste menos confiável — e nesse caso o índice hálux-braço é a alternativa, com o valor abaixo de 0,60 sendo o corte mais aceito. O terceiro e o quarto vêm do protocolo de enfermagem de Porto Alegre de 2024 e do Anexo 4 que ele adota: a compressão é recomendada na faixa de índice em que a perfusão arterial está preservada, e quem tem índice abaixo de 0,5 não deve receber terapia de compressão, devendo ser referenciado com urgência para avaliação de revascularização.

Os protocolos brasileiros citados usam limites diferentes. Para a conduta adotada nesta revisão, considerar também os critérios ESVS: não aplicar compressão sustentada se ITB <0,6, pressão no tornozelo <60 mmHg ou digital <30 mmHg. Na zona intermediária, avaliação vascular e eventual compressão modificada são necessárias; artéria calcificada pede outro método de perfusão. Não comprimir apenas porque o ITB está acima de 0,5.

E se não houver Doppler portátil na sua unidade hoje? Essa é a pergunta real da maior parte do Brasil, e ela tem uma resposta que não é "comprima assim mesmo" e também não é "não faça nada". Palpar pulsos não substitui a medida — a própria diretriz da SBACV registra que a pressão pode estar falsamente normal ou elevada em quem tem calcinose arterial, e o protocolo de Porto Alegre repete o alerta para o paciente com diabetes e pulso palpável. O que se faz é: providenciar a medida antes de comprimir, e enquanto isso instituir tudo o que não depende dela — elevação do membro acima do nível do coração por trinta minutos, três a quatro vezes ao dia; exercício de flexão e extensão do tornozelo; hidratação da pele; cobertura primária conforme o leito da ferida; e controle de peso. Isso não é placebo enquanto se espera: elevação e exercício são recomendação formal da diretriz brasileira de 2023, com nível B e classe I para exercício físico em qualquer etapa da doença.

Registre o índice medido, com a data, no prontuário e no encaminhamento. Índice medido há três anos não autoriza compressão hoje num paciente com diabetes e tabagismo — a árvore arterial dele mudou nesse intervalo.

O paciente com diabetes, e a artéria que não deixa medir

A calcificação da camada média das artérias distais é frequente em quem tem diabetes, doença renal crônica e idade avançada. Ela endurece a parede a ponto de o manguito não conseguir ocluir o vaso, e o aparelho registra uma pressão alta que não corresponde ao fluxo. O resultado é um índice tornozelo-braquial falsamente normal ou francamente elevado, acima de 1,4, num paciente que pode ter isquemia grave.

É a pior armadilha do capítulo, porque ela erra na direção perigosa: entrega um número tranquilizador a quem tem a perna em risco, e autoriza uma compressão que não deveria acontecer. O protocolo de Porto Alegre é explícito ao dizer que, em pacientes com diabetes e pulso palpável, não se pode descartar completamente a doença arterial, porque a calcificação vascular pode elevar a pressão sistólica e conferir valores falsos ao índice.

Quando o índice vier acima de 1,4, ou quando ele vier normal num paciente cuja perna tem cara de isquemia — pele fria, ausência de pelos, unhas espessas, enchimento capilar lento, dor que melhora com o membro pendente —, o número não vale e a conduta é encaminhar para avaliação vascular antes de comprimir. A alternativa técnica é o índice hálux-braço, porque as artérias digitais raramente calcificam, com o corte abaixo de 0,60 como o mais aceito nos estudos segundo a diretriz de 2024; mas o hálux-braço exige manguito de dedo e fotopletismógrafo, que a unidade básica não tem.

Existe um sinal audível que a unidade tem e que quase ninguém usa: o som do Doppler. O protocolo de Porto Alegre instrui a avaliar de forma audível o som, e registra que sinal ausente ou monofásico é anormal e indica presença de doença arterial periférica. Isso significa que, mesmo quando o índice numérico está contaminado pela calcificação, a qualidade do sinal ainda informa. Um sinal monofásico num paciente com índice de 1,5 é a artéria dizendo a verdade que o número escondeu.

O ecodoppler venoso: quando pedir, e por que quase nunca é hoje

A diretriz brasileira de 2023 recomenda o dúplex scan como ferramenta inicial de diagnóstico em todo paciente com suspeita de insuficiência venosa crônica, com nível A e classe I, e o recomenda mesmo nos pacientes C1, com nível B e classe IIa. Vale entender o que essa recomendação está e não está dizendo.

Ela está dizendo que, quando se vai investigar a anatomia venosa, o exame de escolha é o dúplex — e não a venografia, não a angiotomografia, não a fotopletismografia. Ela não está dizendo que todo paciente com perna inchada precisa de exame antes de tratar. A prova disso está no fluxo assistencial brasileiro: o protocolo de encaminhamento do TelessaúdeRS pede o laudo do ecodoppler venoso apenas se ele tiver sido feito, admitindo a descrição integral do resultado com a data quando o laudo não estiver em mãos — e declara, logo na abertura, que a falta desses exames onde não há recurso para realizá-los não barra a solicitação da consulta especializada. Ou seja: o exame não é passaporte.

A pergunta que o dúplex responde é cartográfica: onde reflui, por quanto tempo, e o sistema profundo está pérvio? Considera-se refluxo o fluxo reverso de duração maior que um segundo na veia femoral comum. Essa cartografia é essencial para planejar tratamento invasivo e deve ser individualizada para cada paciente e para cada técnica — e é justamente por isso que ela pertence ao momento em que alguém está decidindo operar, não ao momento em que alguém está decidindo comprimir.

Há um cenário em que o exame muda a conduta cedo: suspeita de obstrução acima da virilha. Perna inteira edemaciada desde a raiz da coxa, circulação colateral em região suprapúbica ou em flanco, história de trombose ilíaco-femoral, edema que não responde a nada — aí a diretriz recomenda o dúplex venoso de abdome e pelve como ferramenta inicial, com nível B e classe IIa, e um estudo brasileiro citado por ela estabeleceu que razão de velocidade maior que 2,5 foi o melhor critério ultrassonográfico para detectar obstrução ao fluxo no segmento ilíaco.

Uma nota de honestidade sobre o resto do arsenal diagnóstico da diretriz. O ultrassom intravascular, a angiotomografia, a angiorressonância, a venografia e a fotopletismografia aparecem nas Recomendações 7 a 9, e todos pertencem ao ambiente do especialista. Nenhum deles existe como decisão do interno na unidade básica, e citá-los aqui serve só para que você reconheça os nomes quando ler o laudo de contrarreferência.

O que não pedir, e o que não fazer com o resultado

Não peça cultura de secreção de rotina em úlcera venosa. Toda ferida crônica aberta é colonizada; a cultura de swab devolve a flora da superfície e não o agente de uma infecção, e o resultado transforma colonização em prescrição. Trate infecção por critério clínico — dor nova ou crescente, aumento rápido de exsudato com mudança de odor e cor, celulite periulcerosa que se expande, febre, piora do estado geral — e não por resultado de laboratório que ninguém deveria ter pedido.

Sobre o antibiótico, a assimetria é grande: em quatorze meses o Genuino recebeu quatro ciclos e nenhuma compressão. Antibiótico sistêmico tem lugar na celulite estabelecida, e a escolha dele é do capítulo "Quem mais dorme nessa cama", da apostila de Dermatologia. Fora disso, ele não fecha úlcera venosa, e o antibiótico tópico ainda por cima sensibiliza a pele já eczematosa.

Não peça dímero-D para perna cronicamente inchada. O dímero-D e o escore de Wells respondem à pergunta da trombose aguda, que pertence ao capítulo "Trombose venosa profunda" desta apostila; usá-los numa perna que incha há doze anos produz um valor elevado inespecífico e uma investigação inteira que não muda nada.

Não peça radiografia para ferida de perna por rotina. Ela entra quando o osso entra — quando a sonda romba encontra osso no fundo da ferida, quando há exposição óssea, quando há fístula. Nesse momento o assunto passa a ser osteomielite, e passa a ser do capítulo "O que a radiografia ainda não mostra", da apostila de Ortopedia, que também ensina por que a radiografia normal precoce não exclui nada.

E não peça exame para adiar tratamento. Este é o erro estrutural do capítulo: a solicitação de ecodoppler funciona, na prática, como um bloqueio de conduta, porque a fila do exame vira a fila do tratamento. Com índice tornozelo-braquial medido e dentro da faixa que autoriza, a compressão começa hoje, com ou sem ecodoppler agendado.

Descrever a ferida de um jeito que a próxima pessoa consiga comparar

Ferida crônica só se avalia por comparação, e comparação exige que alguém tenha escrito o estado anterior de forma reprodutível. Cinco itens bastam, e o protocolo de Porto Alegre monta a sua ficha em torno deles: localização exata em relação a um acidente anatômico fixo, como o maléolo medial; extensão em duas dimensões, com a régua encostada na pele; profundidade; composição do leito, com a proporção aproximada de granulação, esfacelo e necrose; e características da borda e da pele perilesional.

Escreva a quantidade de exsudato e como você a mediu — quantas trocas de curativo secundário por dia, quanto o curativo pesa de úmido. Exsudato é o parâmetro que muda mais rápido com a compressão eficaz, e ele é a primeira boa notícia que o paciente vai perceber.

Registre a dor com uma escala numérica e registre a resposta dela à elevação do membro. A dor venosa que melhora ao elevar e a dor arterial que piora ao elevar são o dado semiológico mais barato deste capítulo, e ele precisa estar no papel para servir a quem atender daqui a três semanas.

Meça e anote a circunferência da perna sempre no mesmo ponto, marcado a partir de uma referência óssea — por exemplo, a doze centímetros acima do maléolo medial —, e escreva a referência junto com o número. Circunferência medida em pontos diferentes é ruído, e ruído com aparência de dado é pior que dado nenhum.

Por fim, fotografar ajuda, e no Brasil isso exige consentimento registrado e o cuidado de não identificar a pessoa. Foto sem escala e sem padronização de distância serve para lembrar o aspecto, não para medir área — não a use como se fosse medida.

O que se escreve no encaminhamento para que ele não volte

O protocolo de encaminhamento para Cirurgia Vascular do TelessaúdeRS-UFRGS, elaborado em 3 de fevereiro de 2016 e com última revisão em 7 de maio de 2020, publicado ad referendum conforme a Resolução CIB/RS 764/2014, é o documento brasileiro que este capítulo localizou fixando quando a insuficiência venosa crônica sai da atenção primária. Ele lista cinco itens de conteúdo descritivo mínimo, e um encaminhamento sem eles é um encaminhamento que volta.

Primeiro, sinais e sintomas, com o tempo de evolução, a presença de úlcera atual ou prévia e a palpação dos pulsos arteriais — repare que o próprio protocolo coloca os pulsos no mínimo obrigatório. Segundo, se houve episódio de tromboembolismo venoso prévio, e a descrição dele. Terceiro, e é aqui que a maioria dos encaminhamentos falha, o tratamento conservador realizado: qual, com que medicações, e por quanto tempo; e, se há úlcera, qual tratamento foi feito nela. Quarto, o laudo do ecodoppler venoso, se realizado, com data. Quinto, o número da teleconsultoria, se o caso foi discutido.

O terceiro item é o que decide o destino do papel, porque o critério de encaminhamento é definido por refratariedade. Escrever "encaminho para avaliação de varizes" não caracteriza indicação nenhuma. Escrever "insuficiência venosa crônica C4a bilateral, índice tornozelo-braquial de 1,0 à direita e 1,05 à esquerda medidos em 12 de março, em uso regular de meia elástica de compressão desde 15 de março, com elevação e exercício orientados, sem melhora do edema e com progressão da lipodermatoesclerose ao longo de sete meses" caracteriza.

Guarde os dois critérios do Protocolo 2 daquele documento, porque eles são a régua de acesso e não a régua clínica: insuficiência venosa crônica grave, definida como CEAP C3 a C5, refratária ao tratamento conservador na atenção primária por seis meses; e úlcera venosa crônica, CEAP C6, que vai sem exigência de tempo. Note o que isso implica e que quase ninguém percebe: varize isolada, C2, ainda que volumosa e antiga, não é motivo de encaminhamento por esse protocolo. A perna com veia grossa e sem edema fica na atenção primária.

Note também o que aquele mesmo documento define como tratamento conservador, em nota de rodapé, porque é a definição contra a qual o encaminhamento será julgado: uso regular de terapias compressivas, como meias ou ataduras elásticas; elevação dos membros inferiores; atividade física, com caminhadas e exercícios de flexão de tornozelo; e cuidados com a pele. A terapia sistêmica com medicações venoativas é qualificada ali como controversa, podendo ser benéfica para quem tem sintomas refratários à compressão ou é incapaz de tolerá-la. Ou seja: os seis meses contam a partir do dia em que a compressão começou, e não a partir da primeira queixa.

Um contraste que vale conhecer, e que mostra como as réguas de acesso variam no Brasil. Nos Protocolos de Acesso Ambulatorial dos hospitais federais do Rio de Janeiro, publicados pelo Ministério da Saúde em 2015, a linha de cuidado "Doença Venosa" da especialidade Cirurgia Vascular tem um único motivo de encaminhamento listado: úlceras de membros inferiores não responsivas ao tratamento conservador e com indicação cirúrgica, pedindo ecodoppler venoso e cultura de secreção. Naquele documento, a doença venosa sem úlcera simplesmente não aparece como motivo de encaminhamento; e o exame que ele pede — cultura de secreção — é justamente o que a prática atual desaconselha de rotina em ferida crônica. Duas réguas brasileiras, sujeitos e critérios diferentes para o mesmo paciente.

07

As réguas que decidem: classe clínica, pressão de compressão, medida arterial e elenco do SUS

A úlcera pode ter mais de uma causa. O plano integra perfusão arterial, controle da hipertensão venosa, cuidado da pele, mobilidade e acompanhamento da cicatrização.

  1. 1Examine ambos os membros e procure gravidade: isquemia, infecção em progressão, suspeita de TVP ou descompensação sistêmica. Edema bilateral não é automaticamente venoso.
  2. 2Descreva a ferida e a pele, meça sempre com o mesmo método e registre dor, exsudato, pulsos e função. CEAP organiza a descrição; não exclui doença arterial associada.
  3. 3Antes de compressão terapêutica, avalie perfusão com ITB e ondas; no índice incompressível ou discordante, obtenha pressões digitais/avaliação vascular. Não usar ITB >1,4 como autorização.
  4. 4Isquemia importante contraindica compressão sustentada. Como referência ESVS, ITB <0,6, pressão de tornozelo <60 mmHg ou digital <30 mmHg exigem evitar essa compressão e avaliação vascular. Os limiares não substituem sinais clínicos.
  5. 5Doença mista selecionada pode receber compressão modificada sob orientação especializada, com pressão arterial distal suficiente e vigilância próxima. Não aplicar alta compressão por conta própria em ITB baixo ou duvidoso.
  6. 6Na perfusão adequada, escolha modalidade e intensidade com equipe capacitada, tolerância, mobilidade e possibilidade de troca. Dor nova, frio ou parestesia exigem retirar a compressão e reavaliar.
  7. 7Associe cobertura adequada, hidratação da pele, tratamento breve do eczema e exercício. Elevação deve ser confortável e individualizada; dor isquêmica ao elevar exige interromper e avaliar.
  8. 8Antibiótico trata infecção clínica, não colonização. Agende troca e revisão; falta de progresso pede verificar etiologia, perfusão, aplicação, adesão e necessidade de intervenção venosa. Após cicatrizar, mantenha prevenção de recorrência.

Classe clínica CEAP e o que ela muda na conduta de hoje

ClasseO que se vê na pernaO que muda na condutaEncaminha?
C0Nenhum sinal visível ou palpável de doença venosa; pode haver sintoma (C0s)Investigar outra causa para o sintoma antes de rotular como venosoNão
C1Telangiectasias e veias reticularesNão é só estética: há refluxo de safena associado em 40% a 50%. Examinar e classificar antes de dispensarNão
C2Veias varicosasConduta conservadora e decisão compartilhada sobre sintoma. Tratamento invasivo é discussão do especialista, não urgênciaNão, pelo protocolo do TelessaúdeRS
C3Edema de origem venosaA compressão passa de sugestão a tratamento indicado. Começa o relógio dos seis meses de tratamento conservadorSim, se refratário a 6 meses
C4Alterações de pele: pigmentação e eczema, lipodermatoesclerose e atrofia branca, corona flebectásicaDano estabelecido. A lipodermatoesclerose não regride — cada consulta perdida é perda permanenteSim, se refratário a 6 meses
C5Úlcera venosa já cicatrizadaO objetivo passa a ser prevenir recidiva, e isso significa compressão por tempo indeterminadoSim, se refratário a 6 meses
C6Úlcera venosa em atividadeA ferida vira o centro da consulta. Encaminhamento sem exigência de tempo de tratamento prévioSim, sem carência

Modalidades de terapia compressiva e as pressões que as fontes declaram

ModalidadePressão declaradaOnde funciona melhorLimite prático
Meia elástica de compressão35 a 40 mmHg no tornozelo pelo Quadro 13 do protocolo de Porto Alegre; 30 a 40 mmHg no Quadro 12 do mesmo documento, para prevenir recidiva após cicatrizaçãoManutenção e prevenção de recidiva; pode ser usada com úlcera pequena ainda abertaAdesão. A própria diretriz brasileira registra que a aderência é a grande dificuldade da terapia, sobretudo com pressões mais altas
Bota de Unna (terapia contensiva inelástica)18 a 24 mmHg, impregnada basicamente com óxido de zincoPaciente que caminha: fornece alta pressão durante a deambulaçãoNão indicada quando há restrição importante de marcha, porque fornece pequena compressão em repouso. Contraindicada na presença de infecção e de miíase. Não reutilizável. Troca em até 7 dias
Bandagem elástica de alta compressãoSem valor numérico declarado na fonteAlta pressão tanto na marcha quanto no repouso; maior estiramento que as inelásticasReutilizável, mas exige aplicação conforme o fabricante e treino de quem aplica
Sistema multicomponentesSem valor numérico declarado na fonteCombina elástica e inelástica; alta compressão sustentadaPode permanecer até 7 dias. Não reutilizável

Compressão: avaliar doença arterial e reconhecer limites de segurança

Faixa do índiceO que significaCompressãoFonte que fixa esse valor
ITB <0,6, pressão no tornozelo <60 mmHg ou no dedo <30 mmHgIsquemia relevanteNão aplicar compressão sustentada; avaliação vascular prioritáriaESVS 2022; integrar quadro clínico
ITB ≥0,6 e <0,8 com pressões adequadasDoença mista possívelCompressão modificada apenas sob avaliação e vigilância especializadaDor, palidez ou piora exigem interrupção e avaliação
ITB ≥0,8 até faixa compressível, com exame compatívelSem impedimento arterial relevante identificadoConsiderar compressão apropriada ao quadro venoso, técnica e tolerânciaÍndice isolado não substitui avaliação clínica
ITB muito alto/não compressível, especialmente >1,4Calcificação pode falsear o valorAvaliar perfusão por pressão digital e outros métodos antes de decidirNão presumir perfusão normal
Dor nova, frialdade ou alteração distal após compressãoPossível comprometimento arterial/pressão excessivaRetirar ou aliviar imediatamente e avaliar; não aguardar diasReavaliar técnica, indicação e circulação
Insuficiência cardíaca descompensada ou dúvida clínica importanteRisco adicionalDiscutir estabilização e plano individual antes de compressão sustentadaConsiderar condição global e supervisão

Elenco do SUS para esta perna, conferido item a item na Rename 2024

ItemApresentação na RenameComponentePara que serve neste capítulo
Meia elástica de compressãoNÃO CONSTAÉ o tratamento de manutenção e de prevenção de recidiva, e não está na relação nacional de medicamentos
AtaduraNÃO CONSTAÉ o insumo da compressão inelástica e da bandagem, e não está na relação
Pasta de óxido de zinco250 mg/g (25%), pastaBásicoÉ o princípio impregnado na bota de Unna. O medicamento está no elenco; a bandagem pronta não
Pentoxifilina400 mg, comprimido de liberação prolongadaEstratégicoEstá no elenco, mas em componente destinado a programas específicos — não é dispensação de rotina para úlcera venosa
Diosmina e dobesilato de cálcioNÃO CONSTAMSão os venoativos citados pela diretriz brasileira de 2023; nenhum dos dois está na relação nacional
Sulfadiazina de prata10 mg/g (1%), cremeBásicoDisponível; uso em ferida crônica limpa é debatido e não substitui compressão
Dexametasona creme e acetato de hidrocortisona creme1 mg/g (0,1%) e 10 mg/g (1%), cremeBásicoCorticoide tópico de baixa e média potência para dermatite de estase em atividade, por período curto
Permanganato de potássio100 mg, comprimido para uso tópicoBásicoCompressa em eczema exsudativo; 1 comprimido em 1 litro de água é exatamente 1:10.000
Cefalexina500 mg, cápsula ou comprimido; 50 mg/mL suspensão oralBásico (grupo Acesso)Existe no elenco para a celulite quando ela realmente estiver presente — a escolha do antibiótico é do capítulo de Dermatologia
Colagenase, papaína, alginato e hidrocoloideNÃO CONSTAMCoberturas e desbridantes não são medicamentos da Rename; a disponibilidade depende de padronização municipal

Decidir a compressão com segurança

CenárioConduta
Perfusão adequada e quadro venosoCompressão terapêutica com aplicação e revisão por equipe treinada.
Doença arterial e venosa associadasAvaliação especializada para compressão modificada, pressão distal suficiente e retorno próximo.
Isquemia importanteEvitar compressão sustentada; avaliar revascularização e proteger a ferida.
ITB incompressível ou discordanteInvestigar por pressão digital e ondas; não classificar perfusão pelo ITB isolado.
Sintoma novo sob bandagemRetirar e reavaliar se dor crescente, frio, alteração de cor ou sensibilidade.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Conferência que NÃO fechou, e é a mais importante do capítulo. O protocolo de enfermagem de Porto Alegre de 2024 fixa três janelas diferentes de índice tornozelo-braquial para autorizar o mesmo ato, dentro do mesmo documento. No corpo, à página 56: a terapia compressiva é amplamente recomendada para indivíduos com índice entre 0,9 e 1,3. No item sobre úlcera mista, à página 54: a terapia compressiva ou contensiva pode ser indicada se o índice for maior que 0,9. No Anexo 4, que o mesmo protocolo adota como fluxograma de manejo: a úlcera venosa "simples" é definida por índice de 0,8 a 1,3, e a única proibição absoluta enunciada é índice abaixo de 0,5. A conta da divergência: 0,90 menos 0,80 é igual a 0,10 — uma faixa de dez centésimos em que uma perna com índice de 0,85 é, ao mesmo tempo, elegível para compressão padrão pelo anexo e vedada pelo corpo. Não é faixa rara: é onde mora boa parte dos idosos com úlcera venosa.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Conferência que NÃO fechou, no mesmo documento e sobre o mesmo objeto. O Quadro 13, que descreve as modalidades compressivas, diz que a pressão externa que a meia deve fazer no tornozelo é em torno de 35 a 40 mmHg. O Quadro 12, que descreve os cuidados de enfermagem na úlcera venosa, manda prescrever meias de compressão após a cicatrização para evitar recidiva com 30 a 40 mmHg. A conta: 35 menos 30 é igual a 5 mmHg de diferença no piso. A consequência é concreta — uma meia de 30 a 34 mmHg, que é a classe mais vendida e a mais tolerada, cumpre a régua de um quadro e não cumpre a do outro, no mesmo protocolo, para o mesmo paciente.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Conferência que NÃO fechou, e que aponta para uma lacuna maior. O Quadro 13 declara que a bota de Unna possui compressão de 18 a 24 mmHg. Confrontando com as faixas de meia do mesmo documento: 24 mmHg fica 6 mmHg abaixo do piso de 30 do Quadro 12 e 11 mmHg abaixo do piso de 35 do Quadro 13. Ou seja, a modalidade que o serviço mais usa em úlcera aberta é declarada, pelo próprio documento, como entregando menos pressão em repouso do que o mínimo que ele exige de uma meia de manutenção. A explicação técnica existe e o documento a dá — a inelástica fornece alta pressão durante a deambulação, e pouca em repouso —, mas os números convivem nas mesmas duas páginas sem que a diferença seja explicada, e o leitor conclui o que quiser.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Conferência que NÃO fechou, por lógica e não por aritmética. O Anexo 4 fixa, para a úlcera venosa "simples", 100% de cura dentro de 12 semanas e, no mesmo bloco, um mínimo de 70% de cura dentro de 18 semanas; e, para a "complexa", 100% em 18 semanas e mínimo de 70% em 24 semanas. As duas metas estão invertidas no tempo: se 100% cicatrizam até a 12ª semana, então na 18ª semana a proporção cicatrizada é necessariamente de 100%, que é maior que 70% — a segunda meta não pode ser violada por quem cumpriu a primeira, e portanto não mede nada. A formulação que teria sentido é a oposta: um mínimo aceitável no prazo curto e um alvo integral no prazo longo.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Conferência que NÃO fechou, e é uma regra que se anula sozinha. O mesmo protocolo define úlcera mista como aquela em que há comprometimento venoso e arterial simultâneo, e diz que nela a terapia compressiva pode ser indicada se o índice for maior que 0,9, sob supervisão clínica rigorosa. Só que o próprio documento adota, na página seguinte, o corte de 0,9 como o limiar abaixo do qual há doença arterial. Uma úlcera com índice acima de 0,9 é, pelos critérios do próprio texto, uma úlcera sem comprometimento arterial demonstrado — isto é, não é mista. A regra autoriza compressão exatamente nas úlceras mistas que não são mistas, e nada diz sobre as que são.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Erro de termo em documento oficial. O Quadro 3 do protocolo de encaminhamento para Cirurgia Vascular do TelessaúdeRS-UFRGS descreve a classe C4 da CEAP como "alterações de pele (hiperpigmentação, eczema, lipodermatofibrose)". Não existe lipodermatofibrose. A entidade é a lipodermatoesclerose, e o nome não é decorativo: ela nomeia a esclerose, isto é, o endurecimento, que é justamente o achado de palpação que define a classe. O erro é reproduzido em documento de referência para a regulação de acesso do estado.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Classificação desatualizada em documento de acesso vigente. O mesmo Quadro 3 apresenta a CEAP sem a subdivisão da classe C4, enquanto a diretriz brasileira de 2023 registra que a classificação foi revisada e que a corona flebectásica foi acrescentada como C4c precisamente por seu risco potencial de evolução para úlcera venosa. Um achado que a diretriz nacional considera marcador de risco não tem, na régua de encaminhamento, categoria em que caber.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Definição estreitada em relação ao original. Ainda no Quadro 3, C5 é definida como "classe 4 com úlcera prévia curada" e C6 como "classe 4 com úlcera ativa". Na CEAP, C5 e C6 são úlcera venosa cicatrizada e úlcera venosa ativa, sem condicionar a presença prévia da classe C4. Na prática clínica a diferença raramente aparece, porque quase toda úlcera venosa nasce sobre pele alterada; mas o texto, lido ao pé da letra, cria uma condição que o original não tem.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Ausência em fonte oficial, medida e não impressionada. A diretriz brasileira de doença venosa crônica da SBACV, de 2023, recomenda a terapia compressiva na sua Recomendação 11, com nível B e classe I, e não declara, em nenhum ponto das suas 18 páginas, com quanta pressão comprimir. A busca sobre o texto normalizado, insensível a espaço e a hífen, devolve zero ocorrência de "mmHg" e zero de "classe de compressão". A diretriz nacional manda comprimir e não diz quanto.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Ausência em fonte oficial, na mesma diretriz e mais grave. A busca sobre o texto normalizado devolve zero ocorrência de "índice tornozelo-braquial", zero de "ITB" e zero de "contraindicação" em toda a diretriz de 2023. O termo "arterial" aparece duas vezes, e as duas fora deste assunto — em "pressão arterial capilar", na seção de fotopletismografia, e em "fístulas arteriovenosas", na descrição das etiologias secundárias. A trava de segurança que impede necrose por compressão em perna isquêmica não está no documento nacional que recomenda comprimir; ela veio, neste capítulo, de um protocolo municipal de enfermagem e de uma diretriz de doença arterial.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Ausência em fonte oficial, e é o achado central. A diretriz brasileira de doença venosa crônica de 2023 não tem nenhuma recomendação sobre o tratamento da úlcera venosa. Contagem exata: a palavra "úlcera" aparece seis vezes no corpo do documento e quatro vezes na lista de referências. As seis do corpo são: a úlcera como desfecho da hipóxia grave, na introdução; a justificativa da criação da classe C4c; a menção à redução de recorrência de úlcera de perna como argumento a favor da meia; a obesidade como fator que contribui para maior incidência de úlceras; a possibilidade de tratar com espuma mesmo em úlcera ativa; e as raras úlceras pós-escleroterapia. Nenhuma delas é recomendação de manejo. A classe C6, que é o estágio mais incapacitante da doença que o documento governa, não recebe uma única das 31 recomendações. Também não há a palavra "curativo" no documento inteiro.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Régua brasileira, declarada. Para a decisão central deste capítulo — comprimir ou não comprimir esta perna hoje —, o Brasil não tem documento de sociedade médica nacional que a responda. A régua que este capítulo usa vem de um protocolo municipal de enfermagem de 2024, de Porto Alegre, e do modelo publicado em periódico brasileiro de enfermagem que ele adota como anexo. Isso é dito aqui com todas as letras porque muda o peso do que se lê: não é omissão do capítulo, é o estado da normatização brasileira.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Interesses declarados, registrados como fato e sem inferência. A diretriz brasileira de 2023 traz, na primeira página, as declarações de conflito de interesse dos autores, que incluem fundos educacionais e atividade de palestrante junto a fabricantes de meias de compressão e de venoativos, nomeados no próprio documento. No corpo, a Recomendação 10, sobre drogas venoativas, recebe nível de evidência A com classe IIa, e a Recomendação 11, sobre terapia compressiva, recebe nível B com classe I. O leitor precisa saber das duas coisas ao mesmo tempo; este capítulo não conclui nada a partir delas.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Régua de acesso com um único motivo venoso. Nos Protocolos de Acesso Ambulatorial dos hospitais federais do Rio de Janeiro, do Ministério da Saúde, de 2015, a linha de cuidado "Doença Venosa" da especialidade Cirurgia Vascular traz um só motivo de encaminhamento: úlceras de membros inferiores não responsivas ao tratamento conservador e com indicação cirúrgica, com ecodoppler venoso e cultura de secreção como exames sugeridos. Duas observações: a doença venosa sem úlcera não tem porta naquele documento, e o exame por ele pedido — cultura de secreção — é justamente o que não se recomenda de rotina em ferida crônica, porque devolve colonização.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Lacuna sem número. O Anexo 4 adotado pelo protocolo de Porto Alegre prevê "terapia de compressão padrão ou modificada como apropriada", distinguindo úlcera venosa simples, complexa e mista, e em nenhum ponto define o que é a compressão modificada, com que pressão, ou em que faixa de índice ela substitui a padrão. É a única saída oferecida ao paciente da faixa intermediária, e ela está sem conteúdo.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Conferências que FECHARAM, e vale registrá-las. As conversões de concentração dos itens da Rename recalculadas em Python batem exatamente com as apresentações declaradas: pasta de óxido de zinco 250 mg/g corresponde a 25%; sulfadiazina de prata 10 mg/g corresponde a 1%; acetato de hidrocortisona 10 mg/g corresponde a 1%; dexametasona 1 mg/g corresponde a 0,1%. O permanganato de potássio de 100 mg dissolvido em 1 litro de água resulta em 100 mg por litro, que é exatamente a diluição de 1 para 10.000 em massa por volume — e em 2 litros resulta em 1 para 20.000. O corte de 0,9 como limiar de doença arterial na diretriz da SBACV de 2024 é o mesmo que o corpo do protocolo de Porto Alegre adota como piso para comprimir; nesse ponto os dois documentos concordam. E as letras C0, C1, C2, C3 e C6 do Quadro 3 do TelessaúdeRS correspondem ao que a diretriz de 2023 descreve.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Defeito editorial, pequeno e verificável. Na lista de figuras do protocolo de Porto Alegre de 2024, o número 34 é atribuído a duas figuras diferentes — "Etapas da aplicação da bandagem de alta compressão", na página 58, e "Imagens de membros inferiores com edema", na página 59 — e a numeração segue a partir daí deslocada em uma unidade. No mesmo sumário, o Anexo 2 é indexado na página 91, entre os apêndices das páginas 90 e 92, enquanto os Anexos 1 e 3 aparecem nas páginas 97 e 98.

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A conduta, hora a hora

A conduta abaixo acompanha Genuino Catende, 71 anos, 79 quilos, 1,70 m, com úlcera acima do maléolo medial esquerdo há quatorze meses, diabetes há dezoito anos e passado de quarenta anos-maço. Ele é o caso difícil de propósito: se a sequência funciona nele, funciona na Adalgiza.

Duas advertências antes de começar. A primeira é que quase nada aqui depende de vaga de especialista, e é por isso que o capítulo insiste tanto: o que cura a úlcera venosa está ao alcance da unidade básica. A segunda é que o passo 2 é uma trava, não uma etapa — se ele não puder ser cumprido, a sequência para nele, e o que se faz é o que não depende dele.

O tempo aqui é medido do jeito que a doença é: os primeiros marcos são minutos da mesma consulta, e os últimos são semanas e meses. Uma úlcera venosa não tem hora dourada; ela tem uma primeira consulta que decide se os próximos seis meses serão de tratamento ou de curativo.

  1. Minuto 0 — a perna descoberta, as duas, e o nome da doença escrito

    Ele senta e você pede que ele tire a calça e as duas meias, e que fique em pé. É a parte que quase nunca acontece. Nas duas pernas há pigmentação castanha do tornozelo ao terço médio, mais intensa à esquerda. Acima do maléolo medial esquerdo há uma ferida de sete por quatro centímetros, rasa, de bordas irregulares, leito com granulação avermelhada em cerca de metade da área e esfacelo amarelado no restante, com exsudato que já atravessou o curativo secundário. A pele acima do maléolo, dos dois lados, não se deixa pregar entre os dedos: está aderida e endurecida. Você aperta e ele confirma que é ali que dói. Você pergunta se a dor melhora quando ele levanta a perna, e ele responde que sim, que de noite com o travesseiro embaixo alivia. Esse "sim" vale mais que o ecodoppler que ninguém pediu. Você escreve no prontuário, por extenso, a classe clínica — e é a primeira vez em quatorze meses que a palavra "venosa" aparece naquele prontuário.

    Prescrição
    • Registrar: doença venosa crônica bilateral, CEAP C6 à esquerda e C4 à direita, com lipodermatoesclerose bilateral, dermatite ocre e úlcera ativa supramaleolar medial esquerda de 7 x 4 cm, com 14 meses de evolução
    • Registrar a medida da ferida em duas dimensões, com régua encostada na pele, e a proporção aproximada de granulação e esfacelo no leito
    • Registrar a circunferência da perna a 12 cm acima do maléolo medial, nas duas pernas, anotando a referência junto com o número
    • Registrar dor por escala numérica e registrar a resposta dela à elevação do membro
  2. Minuto 10 — a trava: medir antes de comprimir

    Antes de encostar qualquer atadura nessa perna, mede-se o índice tornozelo-braquial. Ele tem diabetes há dezoito anos e fumou quarenta anos-maço, o que significa duas coisas ao mesmo tempo: a probabilidade de doença arterial concomitante é alta, e a probabilidade de o número vir falsamente alto por calcificação da média também é. Você mede com o Doppler portátil da unidade, seguindo o método do capítulo "A dor que só existe andando" desta apostila, que é o dono da técnica. Enquanto mede, ouve: sinal trifásico ou bifásico é tranquilizador; sinal monofásico ou ausente é doença arterial, mesmo que o número saia bonito. Nele o índice sai 1,02 à esquerda e 0,98 à direita, com sinal bifásico nos dois lados. Está autorizado. Se tivesse saído 1,55, ou 0,72, ou se o sinal fosse monofásico, esta consulta terminaria em encaminhamento vascular e em tudo o que não depende de compressão — e não em compressão.

    Prescrição
    • Medir o índice tornozelo-braquial nas duas pernas, com Doppler de onda contínua, e registrar o valor com a data
    • Registrar também a qualidade do sinal audível em cada artéria: sinal ausente ou monofásico é anormal e indica doença arterial periférica, independentemente do número
    • Não aplicar compressão sustentada em isquemia importante: ITB <0,6, pressão de tornozelo <60 mmHg ou pressão digital <30 mmHg são referências ESVS. Sinais clínicos de isquemia exigem avaliação mesmo fora desses cortes.
    • Índice acima de 1,4, ou perna com aspecto isquêmico apesar de índice normal: NÃO comprimir com base nesse número; encaminhar para avaliação vascular
    • Em doença mista ou ITB limítrofe para compressão, discutir intensidade modificada com o vascular e conferir pressões distais. Não interpretar 0,80–0,89 nem 0,60–0,79 como autorização automática para alta compressão.
  3. Minuto 20 — a compressão, que é o tratamento

    Aqui está o que quatorze meses de atendimento não fizeram. A compressão não é o curativo: é o tratamento da hipertensão venosa que abriu a ferida. A cobertura primária escolhe-se pelo leito e serve para manter o meio úmido e conter exsudato; a compressão é o que fecha a úlcera. Você escolhe a modalidade pelo que o serviço tem e pelo que ele consegue usar. Ele caminha bem, vai à feira todo dia, e mora a quatro quadras da unidade: a bota de Unna serve, porque ela fornece alta pressão durante a deambulação e ele deambula. Se fosse a esposa dele, que anda pouco e passa o dia sentada, a inelástica renderia menos, porque em repouso ela fornece pouca compressão — e aí a escolha seria uma bandagem elástica ou um sistema multicomponentes. A aplicação começa na base do pé com os dedos livres, sobe em espiral, faz um oito no tornozelo e prossegue até dois centímetros abaixo do joelho, sobrepondo metade da bandagem a cada volta, depois da limpeza e de quinze minutos com o membro elevado.

    Prescrição
    • Limpar a ferida, escolher a cobertura primária conforme o leito, aguardar 15 minutos com o membro elevado e então aplicar a compressão
    • Bota de Unna, com aplicação da base do pé, dedos livres, até 2 cm abaixo do joelho, sobrepondo 50% da bandagem em cada volta; cobertura secundária absorvente e atadura de crepe por cima
    • Trocar o secundário sempre que estiver úmido; trocar a bota em até 7 dias conforme avaliação
    • Orientar proteção do curativo no banho, e não aplicar bota de Unna na presença de infecção ou de miíase
    • Sinais de alerta que mandam retirar a compressão e reavaliar no mesmo dia: aumento da dor, cianose de extremidades, piora do edema, formigamento ou dormência dos dedos
    • Registrar por escrito, no prontuário e no cartão do paciente, que a compressão é o tratamento e não o curativo — e que ela não deve ser suspensa quando a ferida melhorar
  4. Minuto 30 — a pele ao redor, o antibiótico que não entra e o que entra

    A pele em volta da ferida está avermelhada, descamativa e ele a coça. Isso é dermatite de estase, não é celulite, e é aqui que os quatro ciclos de antibiótico dele nasceram. O que separa uma da outra: prurido, descamação e curso crônico favorecem dermatite, enquanto dor nova, calor e eritema em expansão sugerem infecção; celulite costuma ter limites pouco definidos, e febre pode estar ausente; e a dermatite é frequentemente bilateral, enquanto erisipela e celulite verdadeiras são quase sempre unilaterais. Ele não tem febre, o estado geral está ótimo, e as duas pernas estão descamativas. Corticoide tópico de baixa potência por poucos dias resolve o eczema; hidratante todo dia resolve o ressecamento que perpetua a coceira que perpetua a escoriação que abre a próxima ferida. E não se passa antibiótico tópico em pele eczematosa — ela é justamente a pele que mais sensibiliza.

    Prescrição
    • Acetato de hidrocortisona creme 10 mg/g (1%), aplicar em camada fina na área de eczema perilesional, duas vezes ao dia, por 7 dias, sem passar sobre o leito da ferida
    • Alternativa disponível no elenco básico para eczema mais intenso: dexametasona creme 1 mg/g (0,1%), pelo mesmo período
    • Se houver exsudação e crosta no eczema: compressa com permanganato de potássio, 1 comprimido de 100 mg dissolvido em 1 litro de água, que corresponde à diluição de 1 para 10.000, por 10 a 15 minutos, uma a duas vezes ao dia, por poucos dias
    • Hidratante emoliente na perna inteira, longe da ferida, todos os dias, indefinidamente
    • NÃO prescrever antibiótico sistêmico nem tópico na ausência de critério clínico de infecção. Critério clínico: dor nova ou crescente, aumento rápido do exsudato com mudança de odor e cor, celulite periulcerosa que se expande, febre, piora do estado geral
    • NÃO colher cultura de swab de rotina: ferida crônica aberta é colonizada, e o resultado transforma colonização em prescrição
  5. Minuto 40 — o que ele leva de casa, e o que ele leva do trabalho

    Duas coisas custam zero e valem tanto quanto a bota. A primeira é elevação: a perna acima do nível do coração, o que na prática significa o calcanhar mais alto que o quadril, por trinta minutos, três a quatro vezes ao dia, e à noite com o pé da cama calçado — não com travesseiro, que escorrega. A segunda é o tornozelo: a bomba da panturrilha só funciona se o tornozelo se mover, e a lipodermatoesclerose vai restringindo esse movimento até que a bomba pare mesmo com o paciente andando. Exercício de flexão e extensão do tornozelo, sentado, várias vezes ao dia, é recomendação formal da diretriz brasileira de 2023, com nível B e classe I. O terceiro item é o trabalho. Ficar em pé e parado é o pior arranjo possível para uma veia; ficar em pé e andando é bem melhor. Nenhum capítulo do nível Internato é dono da orientação sobre trabalho em pé, então este a assume e a declara: negocie pausas sentadas com elevação, um apoio para alternar o peso entre os pés, e movimento em vez de imobilidade em pé. Se houver questão de nexo com o trabalho, de afastamento ou de notificação, o assunto passa a ser do capítulo "A lesão que só vira acidente se alguém escrever", da apostila de Medicina do Trabalho, que é o dono disso.

    Prescrição
    • Elevação do membro acima do nível do coração por 30 minutos, 3 a 4 vezes ao dia, e à noite com o pé da cama elevado
    • Exercício de flexão e extensão do tornozelo, 20 repetições, várias vezes ao dia; caminhada diária conforme tolerância
    • Orientação de trabalho: alternar apoio, pausas sentadas com elevação, evitar ortostatismo parado prolongado. Se houver discussão de nexo ou afastamento, encaminhar ao capítulo próprio de Medicina do Trabalho
    • Controlar peso: a diretriz brasileira recomenda o controle da massa corpórea para tratamento e prevenção da doença venosa crônica em qualquer etapa, com nível C e classe I
    • Marcar retorno em 7 dias, com data escrita, e registrar quem trocará o curativo e com que frequência
  6. Dia 7 — a primeira troca, e a única pergunta que importa

    Ele volta e a bota sai. A pergunta não é "como está a ferida", é "o exsudato diminuiu?". O exsudato é o primeiro parâmetro a responder à compressão eficaz, porque ele é a tradução direta da pressão intersticial. Se o curativo secundário que precisava de duas trocas diárias agora aguenta o dia, a compressão está funcionando, mesmo que a ferida ainda pareça igual. A circunferência da perna a doze centímetros do maléolo é o segundo parâmetro, e ela cai antes de a ferida encolher. Se o exsudato não diminuiu e a circunferência não caiu, a hipótese número um não é falha do tratamento — é falha de aplicação ou de adesão. Pergunte, sem julgamento, se a bota incomodou, se ele a tirou, se molhou, quantos dias ficou. Nesta consulta você também confere o que a compressão pode ter feito de mal: dor nova, dedos frios ou arroxeados, formigamento.

    Prescrição
    • Reaplicar a compressão após limpeza e escolha de nova cobertura primária conforme o leito
    • Registrar comparativamente: exsudato (número de trocas do secundário por dia), circunferência a 12 cm do maléolo, medidas da ferida em duas dimensões, proporção de granulação e esfacelo
    • Conferir tolerância: perguntar por dor nova, parestesia, cor e temperatura dos dedos, e examinar
    • Intolerância sem sinais isquêmicos pode permitir ajustar intensidade e modalidade após avaliação. Dor crescente, frio, alteração de cor ou parestesia: retirar a compressão e avaliar no mesmo dia, sem simplesmente reduzir e esperar sete dias.
    • Se a adesão foi o problema: reconstruir o plano com o paciente e a família — quem aplica, onde, em que dia da semana
  7. Semana 4 a 6 — a régua que decide continuar ou mudar de rumo

    Aqui existe um número que vale decorar, e ele vem do modelo adotado no Anexo 4 do protocolo de Porto Alegre: uma úlcera que não reduz de 20% a 30% da área lesada em um prazo de quatro a seis semanas, apesar da utilização de boas práticas, entra no critério de úlcera venosa complexa e é motivo de referência a serviço especializado. Note as três palavras "apesar de boas práticas": antes de rotular a ferida como refratária, confira se a compressão esteve de fato aplicada nesse período, porque uma ferida que nunca foi comprimida não é refratária a nada. Na quarta semana a ferida do Genuino mede cinco por três, contra sete por quatro do primeiro dia — uma redução de área de aproximadamente 46%. Ele está no caminho, e o caminho é continuar exatamente o que está sendo feito.

    Prescrição
    • Recalcular a área aproximada e comparar com a do dia 0; registrar a variação percentual
    • Redução inferior a 20% a 30% em 4 a 6 semanas, com compressão comprovadamente aplicada: enquadrar como úlcera venosa complexa e referenciar ao serviço especializado, mantendo a compressão até que ele assuma
    • Reavaliar antes de rotular como refratária: houve compressão de fato? em que modalidade? por quantos dias? o índice tornozelo-braquial foi refeito se o quadro arterial mudou?
    • Manter compressão, elevação, exercício e cuidado da pele sem interrupção durante todo o processo
    • Reavaliar dor: dor que aumenta sob compressão bem aplicada é sinal de alerta arterial, não é evolução esperada
  8. Semana 12 e depois — cicatrizou, e agora começa a parte que ninguém faz

    A ferida fecha e a doença não. Este é o ponto em que quase todos os planos de cuidado do Brasil terminam, e é exatamente onde a recidiva nasce. O paciente que cicatriza uma úlcera venosa passa de C6 para C5, e C5 não é alta: é a classe de quem tem uma perna que já provou ser capaz de abrir. O protocolo de Porto Alegre é explícito ao instruir que se prescrevam meias de compressão após a cicatrização das lesões para evitar recidiva, e que a pele siga hidratada depois de cicatrizada. A diretriz brasileira de 2023, ao justificar a terapia compressiva, cita entre os seus argumentos justamente a redução de recorrência de úlcera de perna. Traduzindo para o Genuino: ele vai usar meia de compressão pelo resto da vida daquela perna, vai hidratá-la todo dia, e vai voltar à unidade quando ela inchar mais que o habitual — não quando ela abrir de novo.

    Prescrição
    • Prescrever meia elástica de compressão para uso diário e indefinido, colocada de manhã antes de levantar e retirada à noite
    • Registrar a pressão prescrita e, no prontuário, a divergência das fontes sobre o piso — o protocolo de Porto Alegre traz 30 a 40 mmHg num quadro e 35 a 40 mmHg em outro
    • Verificar fornecimento de meias, materiais e apoio para aplicação na rede local; discutir custo e alternativas. Não concluir que todo dispositivo é exclusivamente privado por não aparecer numa lista de medicamentos.
    • Hidratação diária da pele da perna, indefinidamente, com emoliente
    • Refazer o índice tornozelo-braquial periodicamente em quem tem diabetes ou tabagismo, porque a árvore arterial muda e a autorização de comprimir tem validade
    • Manter elevação, exercício de tornozelo e controle de peso como parte permanente do plano, e não como orientação de alta
09

Como saber se está funcionando

Ferida crônica se avalia por comparação, e comparação exige que alguém tenha escrito o estado anterior de forma reprodutível. Os parâmetros abaixo respondem em tempos diferentes, e conhecer essa ordem evita duas decisões erradas: trocar de conduta cedo demais porque a ferida ainda não encolheu, e manter conduta tempo demais porque o paciente diz que está melhor.

A ordem de resposta é esta: o exsudato responde primeiro, em dias; a circunferência responde em uma a duas semanas; a área da ferida responde em semanas; a pigmentação responde em meses; e a lipodermatoesclerose não responde. Quem espera a mancha castanha clarear para concluir que a compressão funcionou vai concluir errado.

Um princípio geral vale para todos os parâmetros: quando algo piora sob compressão bem aplicada, a primeira hipótese é arterial, não venosa. Dor nova, dedos frios ou arroxeados, parestesia e piora do edema abaixo da bandagem são motivos para retirar a compressão no mesmo dia e reavaliar a perfusão, não para reforçar a bandagem.

ExsudatoDa primeira para a segunda troca, isto é, em até 7 dias

Esperado: Queda no número de trocas do curativo secundário por dia. É o primeiro parâmetro a responder, porque traduz diretamente a queda da pressão intersticial. O paciente costuma perceber antes do examinador: 'agora não molha a calça'.

Se não melhora: Antes de concluir que o tratamento falhou, conte os dias em que a compressão esteve de fato na perna. Exsudato que não cai quase sempre significa compressão que não foi aplicada, que foi retirada pelo paciente, que molhou no banho, ou que foi aplicada com pressão insuficiente. Pergunte sem julgamento, refaça a aplicação com o paciente vendo, e escreva no cartão dele o dia da próxima troca. Se a compressão esteve aplicada e o exsudato aumentou, considere infecção pelo critério clínico e reavalie o estado geral.

Circunferência da perna a 12 cm acima do maléolo medial7 a 14 dias

Esperado: Redução mensurável, geralmente de um a três centímetros nas primeiras duas semanas quando havia edema importante. Meça sempre no mesmo ponto e escreva a referência óssea ao lado do número, porque medida em ponto diferente é ruído com aparência de dado.

Se não melhora: Reveja o diagnóstico do edema antes de reforçar a compressão. Edema que não cede a duas semanas de compressão adequada em paciente aderente pede que você volte ao diferencial: insuficiência cardíaca, hipoalbuminemia, doença renal, medicamento — e, sobretudo, obstrução acima da virilha, que é a situação em que o dúplex de abdome e pelve muda a conduta cedo. Perna inteira edemaciada desde a raiz da coxa, com colateral suprapúbica, não é doença de válvula de tornozelo.

Área da úlcera4 a 6 semanas

Esperado: Redução de pelo menos 20% a 30% da área lesada, que é o corte adotado no Anexo 4 do protocolo de Porto Alegre para distinguir a úlcera que evolui bem daquela que precisa de serviço especializado. Recalcule a área e escreva a variação percentual, não só as medidas.

Se não melhora: Enquadre como úlcera venosa complexa e referencie ao serviço especializado — mantendo a compressão até que ele assuma, porque encaminhar não é suspender tratamento. Antes disso, confira três coisas: a compressão esteve aplicada nesse período? o índice tornozelo-braquial ainda autoriza? há algo no leito impedindo a cicatrização, como esfacelo espesso ou biofilme? E reconsidere o diagnóstico: úlcera que não fecha em seis meses com tratamento correto merece que a hipótese de outra etiologia seja reaberta.

DorDa primeira semana em diante, e a cada troca

Esperado: Redução progressiva, e manutenção do padrão venoso: dor que melhora ao elevar o membro. Muitos pacientes referem alívio já na primeira aplicação, pelo simples fato de o edema estar contido.

Se não melhora: Dor que AUMENTA sob compressão bem aplicada é sinal de alerta arterial e não é evolução esperada. O protocolo de Porto Alegre lista, entre os sinais que mandam suspender a bota de Unna e reavaliar, o aumento da dor, a cianose de extremidades, a piora do edema e o formigamento. Retire a compressão no mesmo dia, examine a perfusão, refaça o índice tornozelo-braquial e escute o sinal do Doppler. Dor que muda de caráter — passa a doer em repouso, à noite, e melhora com a perna pendente — descreve isquemia, e o assunto passa ao capítulo de doença arterial.

Tolerância local à compressãoEm toda troca, e por orientação ao paciente entre as trocas

Esperado: Ausência de dor nova, de parestesia, de cianose e de esfriamento dos dedos; ausência de marca profunda de bandagem sobre proeminência óssea, sobretudo na crista da tíbia e no tendão de Aquiles.

Se não melhora: Não interprete intolerância como contraindicação definitiva. A resposta correta é reduzir a modalidade, e não suspender a terapia: trocar alta compressão por compressão mais leve, ou trocar bandagem por meia, mantendo o tratamento em pé enquanto se reavalia. Suspender a compressão porque incomodou é como suspender o anti-hipertensivo porque tonteou — a doença continua. Reforce a proteção das proeminências ósseas e reveja a técnica de aplicação com quem aplica.

Adesão real, medida em dias por semanaA cada retorno

Esperado: Compressão presente na perna na maior parte dos dias. A diretriz brasileira de 2023 registra que a aderência continua sendo a grande dificuldade da terapia, principalmente quando se usam pressões mais elevadas — ou seja, a não adesão é o desfecho esperado, e não uma exceção moral do seu paciente.

Se não melhora: Trate a não adesão como problema clínico com causa investigável. Dói? aperta demais? não consegue calçar sozinho? não tem quem aplique? não tem transporte para vir trocar? não entendeu que é tratamento e achou que era curativo? Cada uma dessas causas tem solução diferente: reduzir a pressão, dispositivo auxiliar de calçar, treinar um familiar, mudar a periodicidade da troca, ou simplesmente explicar de novo. O Anexo 4 adotado pelo protocolo de Porto Alegre lista mobilidade, destreza, suporte familiar, transporte e experiência prévia com compressão entre os itens a avaliar — porque esses itens decidem o desfecho tanto quanto a bandagem.

Pele perilesional e eczema7 a 14 dias após o início do corticoide tópico

Esperado: Redução do eritema, da descamação e do prurido. O corticoide tópico é curso curto: melhora nesse prazo e é suspenso, mantendo-se apenas o emoliente.

Se não melhora: Reveja três hipóteses antes de subir a potência do corticoide. Dermatite de contato ao próprio produto aplicado — pomadas, antibióticos tópicos e adesivos são causas frequentes em pele já eczematosa, e a solução é retirar, não acrescentar. Infecção fúngica associada, sobretudo interdigital, que perpetua a porta de entrada e a coceira. E celulite verdadeira, que se distingue por ser unilateral, dolorosa, com borda desenhável, com febre e comprometimento do estado geral — e cujo manejo é do capítulo de erisipela e celulite da apostila de Dermatologia.

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Onde o erro machuca

Tratar dermatite de estase como erisipela, ciclo após ciclo

O dano: É o erro que mais consome tempo de vida do paciente e antibiótico do serviço. A perna vermelha, descamativa e pruriginosa recebe o rótulo de infecção, o paciente toma um ciclo, melhora um pouco pelo curso natural, volta em dois meses, toma outro. Foram quatro ciclos em quatorze meses no caso deste capítulo, e nenhum deles tocou na causa. O custo não é só o antibiótico: é que, enquanto se acredita haver infecção aguda, a compressão fica suspensa — e a compressão é o tratamento. O paciente é então rotulado de refratário, quando o que houve foi quatorze meses sem tratamento.

Como pegar a tempo: Use o sinal que decide: erisipela e celulite verdadeiras são quase sempre unilaterais. Duas pernas vermelhas ao mesmo tempo, com a mesma cara, sem febre e sem comprometimento do estado geral, são dermatite de estase até prova em contrário. Acrescente três perguntas: coça ou dói? descama? você consegue desenhar a borda com o dedo? Coceira, descamação e borda indesenhável apontam eczema; dor, borda nítida e febre apontam infecção.

Trocar curativo por meses sem nunca comprimir a perna

O dano: É o erro estrutural do capítulo, e ele é invisível porque parece cuidado. Três trocas por semana durante quatorze meses são cerca de cento e oitenta atendimentos de enfermagem, com insumo, com deslocamento do paciente e com registro em prontuário — e com zero efeito sobre a hipertensão venosa que mantém a ferida aberta. A cobertura primária controla exsudato e mantém o meio úmido; ela não reduz a pressão venosa no tornozelo. Sem compressão, a ferida oscila entre encolher e reabrir indefinidamente, e todo mundo conclui que o problema é a ferida.

Como pegar a tempo: Separe as duas coisas por escrito, no prontuário e para o paciente: a cobertura é o curativo, a compressão é o tratamento. Escreva a compressão na conduta como se escreve um medicamento, com modalidade e periodicidade de troca. E cheque, em cada retorno, se ela esteve de fato na perna — não se ela foi prescrita.

Comprimir sem medir o índice tornozelo-braquial

O dano: É o erro de menor frequência e maior gravidade. Comprimir uma perna cuja perfusão arterial já está reduzida fecha o pouco fluxo que resta e produz necrose em dias. O paciente típico é justamente o que mais parece precisar de compressão: idoso, com úlcera crônica, com diabetes, com passado de tabagismo — o mesmo perfil em que a doença arterial concomitante é comum. Palpar pulso não substitui a medida, e no paciente com diabetes o pulso pode estar palpável com artéria calcificada e fluxo insuficiente.

Como pegar a tempo: Faça da medida uma trava de fluxo e não um lembrete: nenhuma bandagem sai do armário antes de o índice estar escrito no prontuário com a data. Se não houver Doppler na unidade hoje, institua tudo o que não depende dele — elevação, exercício de tornozelo, hidratação, cobertura primária — e providencie a medida antes da próxima consulta. E lembre que o índice tem validade: em quem tem diabetes ou fuma, refaça periodicamente.

Dizer que é 'só varize' e não classificar a perna

O dano: A frase encerra a consulta e a doença continua. Sem classificação, ninguém sabe daqui a um ano se a perna progrediu, o encaminhamento não caracteriza indicação e o paciente aprende que não há o que fazer — e para de trazer o assunto. O custo real aparece anos depois, como lipodermatoesclerose, que não regride, e como úlcera, que consome semestres. E a frase é factualmente frágil: nos pacientes classificados como C1, aqueles do 'vasinho', há refluxo de safena associado em 40% a 50%.

Como pegar a tempo: Escreva a classe clínica por extenso em todo prontuário de perna: 'C4a bilateral, com dermatite ocre e eczema, sem úlcera' diz tudo a quem ler depois; 'IVC' não diz nada. Classificar leva trinta segundos e é o único ato desta consulta que ainda estará servindo daqui a dois anos.

Prescrever diurético para o edema venoso

O dano: O edema da doença venosa crônica é de origem local e postural, não de sobrecarga de volume. Diurético não corrige hipertensão venosa; ele reduz o volume intravascular de um paciente frequentemente idoso, e o que se colhe é hipotensão postural, queda, distúrbio eletrolítico e piora da função renal, com melhora apenas transitória do edema. Pior: o alívio inicial convence médico e paciente de que a causa era retenção, e a compressão nunca entra.

Como pegar a tempo: Trate edema venoso com o que reduz pressão venosa: compressão, elevação e bomba da panturrilha. Reserve diurético para quem tem causa que o justifique — e, se a hipótese for insuficiência cardíaca, o manejo é dos capítulos de insuficiência cardíaca da apostila de Cardiologia, e não deste. Se o paciente já usa bloqueador de canal de cálcio di-hidropiridínico, revise a prescrição antes de acrescentar qualquer coisa: o edema maleolar dele pode ser da caixa do remédio.

Suspender a compressão quando a ferida fecha

O dano: É o erro que produz a segunda úlcera, e a terceira. A cicatrização muda a classe de C6 para C5 e não muda a doença: as válvulas continuam incompetentes e a pressão volta ao que era assim que a compressão sai. A recidiva costuma vir no mesmo lugar, sobre a mesma pele frágil, e cada novo episódio deixa mais fibrose. O paciente, que atribuiu a cura ao curativo, também não entende por que voltou.

Como pegar a tempo: Diga na primeira consulta, e não na alta, que a compressão continua depois que a ferida fechar. O protocolo de Porto Alegre instrui explicitamente a prescrever meias de compressão após a cicatrização para evitar recidiva, e a manter a hidratação da pele depois de cicatrizada. Marque o retorno de manutenção junto com a alta da ferida, e avise que a meia é de aquisição privada — nem meia elástica nem atadura constam da Rename 2024.

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O que dizer ao paciente e à família

Este é um capítulo em que a conversa carrega o tratamento, porque o tratamento é chato, é diário, é desconfortável e não tem gosto de remédio. Uma meia que aperta, aplicada por conta própria, todos os dias, por anos, contra uma doença que o paciente aprendeu a chamar de estética — a taxa de abandono é o desfecho esperado, e a diretriz brasileira registra a aderência como a grande dificuldade da terapia.

Há uma frase que resume o eixo de todas as falas abaixo, e vale dizê-la ao paciente com essas palavras: a ferida é a consequência, e a pressão dentro da veia é a causa. O curativo cuida da consequência. A compressão cuida da causa.

Duas coisas ajudam mais que argumento: mostrar e devolver. Mostrar significa medir a circunferência da perna na frente do paciente e escrever o número no cartão dele, para que ele veja o próprio dado cair. Devolver significa perguntar o que ele entendeu, e não se ele entendeu.

O paciente que ouviu, de dois médicos, que é só varize e não tem o que fazer

"A senhora tem uma doença com nome, e ela não é da aparência da perna — é do funcionamento das veias. As válvulas que empurram o sangue de volta para cima estão deixando ele voltar, e é isso que faz a perna inchar de tarde e a pele mudar de cor. Tem o que fazer, sim, e o tratamento principal não é remédio nem cirurgia: é pressão externa na perna, todos os dias. Eu vou explicar como, e vou anotar aqui a classe em que a sua perna está hoje, para a gente comparar daqui a seis meses."

Não diga: Evite "é só varize", "é da idade", "é do peso" e "não tem o que fazer" — as três primeiras são verdades parciais usadas como despedida, e a quarta é falsa. Evite também prometer que as varizes vão sumir: elas não somem com compressão. O que melhora é o sintoma, o edema e o risco de a pele abrir.

Explicar que a meia é o tratamento, e que ela aperta mesmo

"Vou ser honesto com o senhor: ela aperta, e é para apertar. Ela não é uma meia de conforto, é o tratamento, do mesmo jeito que o comprimido da pressão é tratamento. Ela funciona porque diminui o calibre da veia por fora, o que ajuda as válvulas a fecharem, e porque empurra o líquido de volta para dentro do vaso. O senhor coloca de manhã, antes de levantar da cama, com a perna ainda desinchada — é o segredo, porque com a perna inchada não entra. E tira à noite. Se doer, ou se os dedos ficarem frios ou roxos, o senhor tira e me procura no mesmo dia; a gente diminui a força em vez de parar."

Não diga: Não diga "use se conseguir" — isso comunica que é opcional. E não trate o abandono como culpa do paciente: "por que a senhora não usou?" fecha a conversa. "O que atrapalhou?" abre. As causas costumam ser concretas e resolvíveis: dói, não consegue calçar, não tem quem ajude, não tem dinheiro.

Dizer a quem tomou quatro ciclos de antibiótico que não era infecção

"Eu olhei a sua perna e olhei as caixas que o senhor trouxe. O que está vermelho e descamando aqui não é infecção — é uma irritação da pele causada pela pressão dentro das veias, e ela coça em vez de doer, e está nas duas pernas. Infecção de perna quase sempre pega uma perna só, dói, dá febre e o senhor se sente mal. Isso não significa que os colegas erraram por descuido: essa confusão é das mais comuns que existem. Significa que a gente estava tratando a coisa errada, e é por isso que não fechava. O que trata é o que a gente vai começar hoje."

Não diga: Não desqualifique quem atendeu antes — o paciente precisa continuar confiando no serviço para onde vai voltar três vezes por semana. Evite também prometer cicatrização rápida como compensação: as metas realistas se medem em semanas, e prometer mês certo é preparar uma decepção que vira abandono.

Explicar por que você vai medir a pressão no braço e no tornozelo antes de tratar

"Antes de apertar essa perna eu preciso ter certeza de que ela recebe sangue suficiente. Se a artéria que traz o sangue estiver entupida, apertar por fora piora, e piora rápido. Então eu vou medir a pressão no braço e a pressão no tornozelo, dos dois lados, e comparar. É rápido, não dói, e é o exame que decide se hoje a gente começa o tratamento ou se a senhora precisa passar antes pelo cirurgião vascular. Enquanto isso, tem coisa que já começa hoje de qualquer jeito: elevar a perna, mexer o pé, hidratar a pele."

Não diga: Evite dizer "vou ver se tem circulação", que soa a sentença. E não pule a explicação quando o índice der resultado ruim: a pessoa que sai sem compressão precisa entender que não é abandono, é uma porta que se abriu para outro problema — e precisa sair com data de retorno e com o encaminhamento na mão.

Informar que a meia não sai pelo SUS

"Preciso te dizer uma coisa desagradável, e prefiro dizer agora a te deixar descobrir na farmácia. A meia de compressão não está na lista nacional de medicamentos do SUS, e a atadura também não. Em alguns municípios existe programa próprio que fornece, e eu vou verificar o nosso. Se não houver, a gente vai procurar a alternativa que couber no seu orçamento — e enquanto isso a gente usa a atadura da unidade, que é o que temos aqui e que funciona."

Não diga: Não prescreva o que não existe e siga em frente. Uma prescrição de meia elástica entregue a quem não pode comprá-la produz o mesmo resultado de não prescrever nada, com a diferença de que o prontuário passa a registrar que o tratamento foi oferecido. Evite também tratar isso como assunto administrativo: viabilidade é parte da decisão clínica, e a mesma perna tratada com o que existe evolui melhor que a perna tratada com o que não chega.

O paciente que trabalha em pé e não pode parar de trabalhar

"Eu não vou te pedir para largar o emprego, e não vou fingir que dá para consertar a perna sem falar dele. O que faz mal não é ficar em pé: é ficar em pé e parado. Se der para você alternar o peso de um pé para o outro, usar um apoio para descansar um pé de cada vez, e se der para negociar duas pausas sentado com a perna esticada, isso já muda. E, quando você sentar, mexa o pé para cima e para baixo — é a panturrilha que bombeia o sangue de volta. Se em algum momento você quiser conversar sobre afastamento ou sobre a relação disso com o trabalho, existe um caminho próprio para isso e eu te oriento."

Não diga: Evite orientações que a pessoa não pode cumprir: "evite ficar em pé" dito a uma cozinheira de escola é um conselho que só produz culpa. Evite também assumir sozinho a discussão de nexo ocupacional e de afastamento — ela tem regras próprias e capítulo próprio, e improvisá-la prejudica o paciente.

A ferida fechou, e o paciente pergunta se agora pode parar

"A ferida fechou, e isso é uma conquista sua, porque quem usou a compressão todo dia foi o senhor. Agora a parte difícil: a doença que abriu a ferida continua ali. As válvulas não voltaram a funcionar. Se a compressão sair, a pressão volta ao que era, e a ferida costuma reabrir no mesmo lugar. Então a meia continua — de manhã ao levantar, tira à noite —, e o hidratante continua todo dia. E o senhor volta aqui quando a perna inchar mais que o costume, e não quando abrir de novo."

Não diga: Não dê alta. Dar alta de úlcera venosa cicatrizada é a decisão que produz a próxima úlcera. Evite também a palavra "cura": o que houve foi cicatrização, e a diferença entre as duas palavras é exatamente o que o paciente precisa entender para não parar.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Comprimir ou não a perna com índice tornozelo-braquial entre 0,80 e 0,89

Comprimir, tratando como úlcera venosa simples

O fluxograma define a úlcera venosa "simples" pelo índice tornozelo-braquial entre 0,8 e 1,3, com área inferior a 100 cm² e menos de seis meses de existência, e a encaminha para gerenciamento no nível de assistência primária, com terapia de compressão padrão. A única proibição absoluta que ele enuncia é para índice abaixo de 0,5, caso em que o paciente não deve receber terapia de compressão e deve ser referenciado com urgência para possível revascularização. Pelo piso de 0,8, uma perna com índice de 0,85 é candidata a compressão padrão na própria unidade básica.

Anexo 4 do Protocolo de Enfermagem na Atenção Primária à Saúde: prevenção e tratamento de feridas, Porto Alegre, 2024, que reproduz o modelo ABC de Borges, Santos e Soares publicado na revista ESTIMA em 2017

Não comprimir abaixo de 0,9

O texto corrido do protocolo afirma que a terapia compressiva é amplamente recomendada para indivíduos com índice tornozelo-braquial entre 0,9 e 1,3, e que ela está parcialmente contraindicada na presença de doença arterial periférica, insuficiência cardíaca, neuropatia periférica e úlceras venosas infectadas. O item sobre úlcera mista repete o piso: a terapia compressiva ou contensiva pode ser indicada se o índice for maior que 0,9, sob supervisão clínica rigorosa. Pelo piso de 0,9, a mesma perna com índice de 0,85 não deve receber compressão sem avaliação vascular.

Corpo do mesmo Protocolo de Enfermagem de Porto Alegre, 2024, à página 56, e o item sobre úlcera mista à página 54

Como decidir

As duas posições estão dentro do mesmo documento, publicado no mesmo ano, e nenhuma delas remete à outra — não há como resolver a disputa lendo mais o documento. Diante do paciente, três perguntas encurtam a decisão. Primeira: o índice de 0,85 é confiável neste paciente? Em quem tem diabetes, doença renal crônica ou idade avançada, a calcificação da média distorce o número, e um índice de 0,85 pode estar mascarando algo pior — nesse caso a discussão nem começa, porque o número não vale. Segunda: como está o sinal do Doppler? Sinal monofásico ou ausente é anormal e indica doença arterial pelo próprio protocolo, e ele não depende do número. Terceira: existe caminho de discussão hoje, por teleconsultoria ou por serviço vascular de referência? Se existe, esta é exatamente a faixa em que ele deve ser usado, porque o Anexo 4 oferece como saída uma "terapia de compressão modificada" que ele em nenhum momento define. O que não é defensável em nenhuma das duas leituras é comprimir sem ter medido, e o que também não é defensável é não fazer nada: elevação, exercício de tornozelo, hidratação e cobertura primária não dependem do índice e começam hoje.

A meia elástica na perna que já teve trombose

Não prescrever de rotina para prevenir a síndrome pós-trombótica

A recomendação vigente é condicional CONTRA o uso rotineiro de meia elástica para prevenir a síndrome pós-trombótica em quem está sendo tratado de uma trombose aguda, inclusive nos pacientes de maior risco, com a ressalva explícita de que a meia pode ser considerada para alívio sintomático em pacientes selecionados. Quem prescreve por reflexo, no dia do diagnóstico da trombose, está prescrevendo o que a evidência não sustentou.

Régua adotada pelo capítulo "Trombose venosa profunda", desta mesma apostila, a partir da American Society of Hematology, Blood Advances, 2020, e da diretriz de trombose venosa profunda da SBACV, J Vasc Bras, 2024

Compressão é o tratamento conservador da síndrome pós-trombótica já instalada

O protocolo define como critério de encaminhamento à Cirurgia Vascular a síndrome pós-trombótica com sintomas persistentes — dor, edema, dermatite ocre, úlcera venosa — refratária ao tratamento conservador na atenção primária por seis meses, e nomeia esse tratamento conservador como exercícios, elevação de membros e terapia compressiva. Ou seja, a régua brasileira de acesso pressupõe que a perna com síndrome pós-trombótica instalada seja comprimida durante seis meses antes de qualquer encaminhamento.

Protocolo 1 dos Protocolos de encaminhamento para Cirurgia Vascular do TelessaúdeRS-UFRGS, elaborado em 3 de fevereiro de 2016 e revisado em 7 de maio de 2020

Como decidir

A contradição é aparente e desaparece quando se percebe que as duas posições respondem a perguntas diferentes, mas o aluno que ler os dois capítulos em sequência vai encontrá-las como se fossem a mesma — e por isso a fronteira é declarada aqui e no capítulo vizinho com as mesmas palavras. A primeira posição é sobre PREVENIR uma sequela que ainda não existe, num paciente que está sendo anticoagulado por uma trombose aguda; a segunda é sobre TRATAR uma hipertensão venosa crônica que já se instalou e já produziu edema, pigmentação ou úlcera. A pergunta que separa uma da outra é datada: esta perna tem trombose aguda em tratamento, ou tem uma perna crônica de alguém que teve trombose anos atrás? Se é a primeira, a régua é do capítulo "Trombose venosa profunda", e a meia entra apenas por sintoma, escrito como sintoma. Se é a segunda, a régua é deste capítulo, e a compressão é tratamento. Nenhum documento brasileiro lido resolve o caso intermediário — o paciente no terceiro mês após a trombose, com edema persistente e sem sequela estabelecida.

Prescrever ou não drogas venoativas

Recomendado para tratamento sintomático

A diretriz recomenda usar drogas venoativas para o tratamento sintomático da insuficiência venosa crônica, apoiada em revisões sistemáticas segundo as quais essas drogas provavelmente reduzem ligeiramente o edema em comparação com placebo e provavelmente reduzem a circunferência do tornozelo, com distúrbios gastrointestinais como evento adverso mais frequente. Cita como fármacos estudados o dobesilato de cálcio na redução do edema em pacientes C3 e C4, os rutosídeos, a sulodexida, o extrato de videira vermelha e a diosmina-hesperidina em fração micronizada.

Diretriz brasileira de doença venosa crônica da SBACV, J Vasc Bras, 2023;22:e20230064, Recomendação 10 (nível de evidência A, classe IIa)

Controversa, e reservada a quem não tolera ou não responde à compressão

Ao definir o que conta como tratamento conservador da insuficiência venosa crônica na atenção primária, o protocolo lista compressão, elevação, atividade física e cuidados com a pele — e sobre a medicação escreve que a terapia sistêmica com medicações venoativas é controversa, mas pode ser benéfica para pacientes com sintomas refratários à terapia de compressão ou incapazes de tolerar a terapia de compressão. A medicação aparece como recurso de segunda linha, condicionado à falha ou à intolerância do tratamento principal.

Nota de rodapé do Protocolo 2 dos Protocolos de encaminhamento para Cirurgia Vascular do TelessaúdeRS-UFRGS, revisão de 7 de maio de 2020

Como decidir

Há um dado que não decide a controvérsia mas muda a conversa, e ele foi conferido nome a nome: nem a diosmina nem o dobesilato de cálcio constam da Rename 2024. A pentoxifilina consta, em comprimido de liberação prolongada de 400 mg, mas no Componente Estratégico, que se destina a programas específicos e não à dispensação de rotina para esta indicação. Na prática do SUS, portanto, prescrever venoativo é prescrever compra privada, e a decisão passa a competir por orçamento com a meia de compressão, que também é compra privada e que é o tratamento principal. A ordem que isso sugere à beira do leito é objetiva: se o paciente só pode comprar uma coisa, compra a compressão. O venoativo entra quando a compressão já está aplicada e o sintoma persiste, ou quando a compressão não é tolerada — que é exatamente onde o protocolo de encaminhamento o coloca. E vale ao leitor saber, sem que daí se conclua nada, que a diretriz que o recomenda traz na primeira página declarações de conflito de interesse de parte dos autores com fabricantes de venoativos e de meias de compressão.

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O raciocínio, em voz alta

Adalgiza Marambaia, 54 anos, 88 quilos, 1,58 m, cozinheira de escola. Trabalha em pé das seis às quinze horas. Queixa-se de que a perna incha desde os quarenta anos, que de manhã o sapato entra e de tarde não entra, e que coça na canela a ponto de ela se escoriar com a unha. Já ouviu de dois médicos que é varize e que não tem o que fazer. Comprou uma meia numa farmácia, achou apertada, usou dois dias e guardou. Veio hoje porque a filha se assustou com a cor da perna dela. Hipertensa, em uso de anlodipino 10 mg por dia e hidroclorotiazida 25 mg por dia. Nunca teve trombose, nunca teve ferida na perna, nunca fumou. Sem dispneia, sem ortopneia, sem edema em outro lugar.

  1. o que eu faço antes de qualquer pergunta a mais

    Peço que ela tire a calça e as duas meias e fique em pé. Sem isso o resto da consulta é conversa. Em pé, as veias enchem, e a perna deitada mente. Olho as duas pernas do joelho ao dorso do pé, e olho também os pés e entre os dedos, porque micose interdigital é porta de entrada e ela vai importar mais adiante.

  2. o que eu vejo, e o que eu apalpo

    Veias varicosas tortuosas na face medial das duas pernas, mais à direita. Pigmentação castanha difusa no terço distal das duas, de bordas mal definidas, que não descama. Um leque de vênulas finas e azuladas abaixo do maléolo medial esquerdo. Pele avermelhada e descamativa na face medial das duas canelas, com escoriações lineares de unha. Nenhuma úlcera, nenhuma placa branca. Apalpo acima dos maléolos: a pele se deixa pregar entre os dedos dos dois lados — não há lipodermatoesclerose ainda. Cacifo positivo bilateral no maléolo. Pulsos pedioso e tibial posterior palpáveis e simétricos.

  3. como eu classifico, e por que escrevo a classe por extenso

    Doença venosa crônica bilateral. Pelo eixo clínico da CEAP: varizes, edema, alterações de pele com pigmentação e eczema, e corona flebectásica à esquerda. Escrevo no prontuário "C4 bilateral, com dermatite ocre, eczema de estase e corona flebectásica à esquerda; sem lipodermatoesclerose; sem úlcera atual ou prévia", e escrevo por extenso porque quem ler daqui a um ano precisa saber se progrediu. Registro também que ela é sintomática. E registro o que ainda não há — a lipodermatoesclerose ausente hoje é o dado que dará valor à consulta de daqui a dois anos.

  4. o edema é dela mesmo, ou é do remédio

    Ela é bilateral, e antes de chamar o edema de venoso eu passo pela lista. Sem dispneia, sem ortopneia, sem estase jugular, sem hepatomegalia: insuficiência cardíaca é improvável, e se fosse a hipótese o manejo seria dos capítulos de insuficiência cardíaca da apostila de Cardiologia. Sem sinais de hepatopatia, sem espuma na urina. E aí a caixa: ela usa anlodipino 10 mg. Os di-hidropiridínicos produzem edema maleolar dose-dependente, e nesta paciente há dois mecanismos somados. O edema dela tem o ritmo vespertino e o padrão maleolar do venoso, e tem os achados de pele que só a hipertensão venosa produz — mas eu registro o anlodipino como fator contribuinte e programo revisar a dose com quem acompanha a hipertensão, em vez de acrescentar diurético.

  5. a medida que autoriza o tratamento

    Meço o índice tornozelo-braquial com o Doppler portátil da unidade, nas duas pernas. Sai 1,08 à direita e 1,10 à esquerda, com sinal trifásico. Está na faixa de 0,9 a 1,3, em que todas as fontes brasileiras lidas autorizam compressão plena. Registro os dois números com a data. Ela não tem diabetes, não fuma e tem pulsos cheios — a probabilidade de o número estar falseado por calcificação é baixa. Mesmo assim eu meço, porque a regra do capítulo é que a medida precede a compressão, e não que a medida seja dispensada quando o paciente parece saudável.

  6. por que a meia da farmácia falhou, e o que muda agora

    Ela comprou sozinha, calçou à tarde com a perna já inchada, sentiu apertar demais e desistiu em dois dias. Nenhum desses três passos é culpa dela: ninguém lhe disse a pressão, ninguém lhe disse a hora, e ninguém lhe disse que apertar é o mecanismo. Reoriento os três pontos. Colocar de manhã, antes de sair da cama, com a perna desinchada. Retirar à noite. E aperta mesmo — se doer, se os dedos ficarem frios ou roxos, ela tira e me procura no mesmo dia, e a gente reduz a força em vez de parar. Registro no prontuário a divergência das fontes sobre a pressão, porque ela é real: o protocolo de Porto Alegre traz 35 a 40 mmHg no quadro das modalidades e 30 a 40 mmHg no quadro dos cuidados de enfermagem, e a diretriz nacional não traz número nenhum.

  7. o eczema, e o antibiótico que não entra

    A vermelhidão descamativa e pruriginosa nas duas canelas é dermatite de estase, e é bilateral, sem febre e sem comprometimento do estado geral — não é erisipela, que é quase sempre unilateral e dolorosa. Prescrevo acetato de hidrocortisona creme 10 mg/g em camada fina, duas vezes ao dia, por sete dias, e emoliente na perna inteira todos os dias, indefinidamente. O emoliente não é cosmético aqui: a pele ressecada mantém o prurido, o prurido mantém a escoriação, e a escoriação é por onde a primeira úlcera dela entraria. Nenhum antibiótico, tópico ou sistêmico.

  8. o que ela leva além da meia

    Elevação do membro acima do nível do coração por trinta minutos, três a quatro vezes ao dia, e à noite com o pé da cama calçado. Exercício de flexão e extensão do tornozelo, vinte repetições, várias vezes ao dia — a diretriz brasileira recomenda exercício em qualquer etapa da doença, com nível B e classe I. Caminhada diária. Conversa sobre peso, com meta pactuada e não decretada. E a conversa sobre o trabalho: não peço que ela deixe de ficar em pé, peço que ela deixe de ficar em pé e parada — apoio alternado, duas pausas sentada com a perna esticada, e movimento de tornozelo quando sentar.

  9. o que eu escrevo no retorno, e o que eu não faço hoje

    Marco retorno em oito semanas, com data escrita, e anoto no cartão dela a circunferência medida hoje a doze centímetros acima do maléolo medial, nas duas pernas, para que ela mesma veja o número cair. Não peço ecodoppler venoso: ela é C4, o exame não muda a conduta de hoje, e a fila do exame viraria a fila do tratamento. Não a encaminho: pelo Protocolo 2 do TelessaúdeRS, ela só passa a ter critério se permanecer refratária após seis meses de tratamento conservador — e os seis meses começam a contar hoje, do dia em que a compressão começou, e não da primeira queixa dela aos quarenta anos. Se em seis meses não houver melhora, o encaminhamento vai com os cinco itens do conteúdo descritivo mínimo, e sobretudo com o terceiro: o que foi feito, com o quê, por quanto tempo.

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Faça você

Rosenda Camutanga, 68 anos, 74 quilos, 1,60 m. Diabetes tipo 2 há vinte e dois anos, em uso de metformina e insulina NPH; doença renal crônica em estágio 3; hipertensa; nunca fumou. Chega à unidade básica com ferida acima do maléolo medial direito há cinco meses, de quatro por três centímetros, rasa, com leito de granulação e esfacelo e exsudato moderado. A pele ao redor tem pigmentação castanha e a perna tem varizes. A dor, segundo ela, melhora quando ela põe a perna para cima. Os pulsos pedioso e tibial posterior são palpáveis nos dois pés. Aspecto, história e alívio com a elevação apontam todos para úlcera venosa, e a enfermeira já separou a bota de Unna. Você mede o índice tornozelo-braquial antes: sai 1,52 à direita e 1,47 à esquerda. Ao Doppler, o sinal nas artérias do pé direito é monofásico.

  1. o que o número de 1,52 significa, e por que ele não é uma boa notícia

    Um índice acima de 1,4 indica artéria pouco compressível por calcificação da camada média, situação mais prevalente em pessoas com diabetes, doença renal crônica e idade avançada — as três condições estão nesta paciente. O manguito não consegue ocluir a artéria endurecida, e o aparelho registra uma pressão que não corresponde ao fluxo. O índice não está normal: ele está inválido, e falha na direção perigosa, porque entrega um número tranquilizador a quem pode ter a perna em risco.

  2. o achado que confirma a suspeita sem depender de número

    O sinal monofásico ao Doppler nas artérias do pé direito é anormal e indica presença de doença arterial periférica, independentemente do valor calculado. É a artéria dizendo a verdade que o número escondeu. Some-se a isso que pulso palpável em pessoa com diabetes não exclui doença arterial, justamente porque a calcificação eleva a pressão sistólica local.

  3. por que a aparência da ferida não resolve a questão

    Todo o quadro clínico dela é compatível com úlcera venosa: topografia maleolar medial, ferida rasa de bordas irregulares, exsudato, pigmentação ao redor, alívio da dor com a elevação. Nada disso exclui doença arterial concomitante — úlceras mistas existem e são comuns no idoso com diabetes. É por isso que o aspecto nunca dispensa a medida, e é por isso que a medida, quando não vale, não pode ser substituída pela impressão.

  4. a alternativa técnica, e por que ela não está disponível hoje

    Como as artérias digitais raramente calcificam, o índice hálux-braço é a alternativa quando o tornozelo-braquial está contaminado, com o valor abaixo de 0,60 sendo o corte mais aceito segundo a diretriz brasileira de doença arterial periférica de 2024. Ele exige manguito de dedo e fotopletismógrafo, que a unidade básica não tem — o que significa que a resposta não está nesta unidade, e sim no encaminhamento.

  5. o que NÃO se faz hoje, e como isso se comunica

    Não se aplica a bota de Unna. Não se aplica bandagem de alta compressão. Não se aplica meia. E isso precisa ser dito à paciente e escrito no prontuário de um jeito que não seja lido como recusa de atendimento: a compressão está suspensa até que a circulação arterial da perna seja avaliada, e há uma data e um caminho para essa avaliação.

  6. conduta: escreva o que você faz hoje nesta unidade, o encaminhamento com o conteúdo descritivo mínimo, e o que fica sob observação

    — sua vez —

  7. Continuidade do caso e prática do internato

    Na visita de Genuino, compare exsudato, edema, área e tolerância; na outra paciente, explique por que a avaliação arterial muda o plano.

  8. Questão integrativa 1

    Por que o ITB alto da paciente do caso não libera compressão?

  9. Questão integrativa 2

    Toda úlcera supramaleolar é exclusivamente venosa?

  10. Questão integrativa 3

    Dor nova e dedos frios surgem após a bota. Basta reduzir a pressão na próxima troca?

  11. Questão integrativa 4

    Swab positivo em ferida crônica sem inflamação indica antibiótico?

  12. Questão integrativa 5

    Por que não recomendar a mesma elevação para toda perna ulcerada?

  13. Questão integrativa 6

    A ferida fechou. Qual problema ainda exige acompanhamento?

Ver como fecharíamos

Hoje, nesta unidade, sem compressão. Limpeza da ferida e cobertura primária escolhida conforme o leito, com registro da proporção de granulação e esfacelo; cobertura secundária absorvente trocada sempre que úmida. Posição confortável enquanto se esclarece a perfusão. Não prescrever elevação acima do coração de forma automática nesta paciente com possível componente arterial: se provocar dor ou piora de perfusão, interromper e discutir avaliação vascular urgente. Exercício de flexão e extensão do tornozelo. Hidratação da pele da perna com emoliente, longe do leito da ferida. Nada de antibiótico sistêmico ou tópico: não há dor nova e crescente, mudança de odor e cor do exsudato, celulite periulcerosa em expansão, febre ou piora do estado geral. Nada de cultura de swab. E nenhuma bandagem, de nenhuma modalidade, até que a avaliação arterial volte. O encaminhamento é para Cirurgia Vascular, e ele carrega os cinco itens do conteúdo descritivo mínimo do Protocolo 2 do TelessaúdeRS-UFRGS, com o motivo escrito de forma que a regulação entenda a prioridade. Primeiro, sinais e sintomas com tempo de evolução, presença de úlcera atual, e a palpação dos pulsos — que aqui são palpáveis, o que precisa constar exatamente porque contrasta com o resto. Segundo, ausência de tromboembolismo venoso prévio. Terceiro, o tratamento conservador realizado e o que está impedido: registre que a terapia compressiva NÃO foi instituída, e por quê. Quarto, o laudo do ecodoppler venoso, se houver — aqui não há, e o próprio protocolo diz que a ausência de exame não impede a solicitação de consulta. Quinto, o número da teleconsultoria, se o caso for discutido, e este é um caso para discutir. O texto do motivo deve dizer, com números: úlcera de membro inferior direito, supramaleolar medial, de 4 x 3 cm, com cinco meses de evolução, em paciente com diabetes de vinte e dois anos e doença renal crônica em estágio 3; índice tornozelo-braquial de 1,52 à direita e 1,47 à esquerda, medidos nesta data, portanto acima de 1,4 e não interpretáveis por provável calcificação arterial; sinal monofásico ao Doppler nas artérias do pé direito; pulsos palpáveis, o que não exclui doença arterial neste perfil; terapia compressiva suspensa por impossibilidade de avaliar a perfusão arterial nesta unidade; solicita-se avaliação vascular com estudo hemodinâmico, incluindo índice hálux-braço ou ultrassonografia arterial, para definir se e com que intensidade a compressão pode ser instituída. O que fica sob observação, com o que se faz se acontecer. Piora da dor, sobretudo dor em repouso ou noturna que melhora com a perna pendente para fora da cama, é dor isquêmica e muda o caráter da urgência — a paciente deve ser orientada a procurar atendimento no mesmo dia, e o caso passa ao território do capítulo de doença arterial obstrutiva periférica desta apostila. Aparecimento de necrose, de escurecimento de artelho ou de aumento rápido da ferida também. Sinais clínicos de infecção instalada mudam a conduta antimicrobiana, e a escolha do antibiótico é do capítulo de erisipela e celulite da apostila de Dermatologia. Se, em avaliação indicada por profissional capacitado e após definir a segurança do procedimento pela perfusão, houver contato com osso na sondagem, a hipótese passa a ser osteomielite e o caso passa ao capítulo de osteomielite da apostila de Ortopedia, com a advertência que aquele capítulo faz: cultura de swab da úlcera não responde a pergunta óssea. Duas armadilhas que este caso testa, e que valem ser nomeadas. A primeira é a tentação de tratar 1,52 como "acima de 0,9, logo autorizado" — a leitura correta da faixa não é linear, e o teto de 1,3 a 1,4 existe justamente porque valores altos significam artéria rígida, não circulação farta. A segunda é a tentação de deixar a paciente sem nada por não poder comprimir. Elevação, exercício, cuidado de pele, cobertura adequada, data de retorno e encaminhamento bem escrito são conduta, e são o que impede que os próximos cinco meses repitam os cinco anteriores. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Pode refletir calcificação e incompressibilidade. O sinal monofásico reforça a necessidade de avaliar perfusão por outros métodos antes da compressão sustentada. 2. Não. Pode haver componente arterial, neuropático, inflamatório ou neoplásico. Aparência, evolução atípica e ausência de resposta exigem rever a etiologia. 3. Não. Retire a compressão e solicite avaliação imediata da perfusão. A simples troca programada pode atrasar o reconhecimento de isquemia. 4. Não. Colonização é frequente. Trate infecção pelos achados clínicos e colha amostra apropriada quando ela ajudar a decisão. 5. Na hipertensão venosa ela pode aliviar edema, mas na isquemia arterial pode reduzir ainda mais a perfusão e piorar dor. Individualize conforme o exame e a tolerância. 6. A hipertensão venosa e o risco de recorrência persistem. Planeje compressão quando segura, cuidado da pele, mobilidade e acesso ao material; reavalie perfusão quando o quadro mudar.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

A úlcera venosa é consequência da hipertensão venosa crônica, e o que reduz essa pressão é a terapia compressiva — não a cobertura, não o antibiótico e não o exame. A cobertura primária controla exsudato e mantém o meio úmido, o que ajuda, mas não altera a causa: trocar curativo por 14 meses sem comprimir é tratar a consequência com constância exemplar enquanto a causa segue intacta. Antibiótico só entra na infecção estabelecida definida por critério clínico, e cultura de swab de ferida crônica devolve colonização, transformando flora de superfície em prescrição. O ecodoppler responde onde reflui, o que interessa a quem vai operar, e não a quem vai comprimir hoje — pedi-lo antes de tratar transforma a fila do exame na fila do tratamento. Antes de comprimir, porém, é obrigatório medir o índice tornozelo-braquial, sobretudo neste perfil de diabetes e tabagismo.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Antes de comprimir, avaliar perfusão. Não usar o corte antigo de 0,5 como única proteção: ITB <0,6, pressão no tornozelo <60 mmHg ou digital <30 mmHg contraindicam compressão sustentada na referência adotada. Na doença mista, técnica modificada exige avaliação e vigilância. Dor nova ou alteração distal pede ação imediata.

Em 30 dias

Trinta dias depois, guarde as réguas e as ausências. As réguas: a classe clínica da CEAP escrita por extenso decide a conduta — de C3 em diante a compressão é tratamento indicado, C5 significa prevenção de recidiva pelo resto da vida daquela perna, C6 encaminha sem carência; e o Protocolo 2 do TelessaúdeRS-UFRGS encaminha C3 a C5 refratário a seis meses de tratamento conservador, contados do dia em que a compressão começou. A régua de resposta: exsudato cai em dias, circunferência em uma a duas semanas, área da ferida em quatro a seis semanas com meta de 20% a 30% de redução, e a lipodermatoesclerose não regride nunca. As ausências, que são o que este capítulo tem de próprio: a diretriz brasileira de doença venosa crônica de 2023 recomenda comprimir sem dizer com quanta pressão, não menciona uma única vez o índice tornozelo-braquial nem a palavra contraindicação, e não dedica nenhuma das suas 31 recomendações ao tratamento da úlcera venosa; e nem meia elástica nem atadura constam da Rename 2024, de modo que o tratamento principal desta doença é, no SUS, compra privada.

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Agora atenda

Agora vá para a estação e receba uma pessoa que chega dizendo que a perna incha há anos e que já ouviu que é só varize. Descubra as duas pernas e examine em pé. Classifique pelo eixo clínico antes de propor qualquer coisa, e diga a classe em voz alta. Procure ativamente os cinco achados de pele — pigmentação, eczema, lipodermatoesclerose à palpação, atrofia branca e corona flebectásica — e diga qual você encontrou e qual você não encontrou. Antes de falar em compressão, peça e interprete o índice tornozelo-braquial, e diga o que faria com cada faixa de resultado. Se houver ferida, descreva-a de forma reprodutível e pergunte se a dor melhora ou piora com a perna elevada. E, na hora de orientar, separe com todas as letras o que é curativo do que é tratamento — porque é essa frase que muda o desfecho dessa perna.

Insuficiência venosa crônica e varizes de membros inferiores – A perna que incha há anos — Internato | OsceLabs