Cirurgia Geral › Cirurgia Vascular
Músculo não volta
Oclusão arterial aguda de membro (6 P) e embolia
A perna esfriou há três horas e o relógio já estava correndo quando você chegou. Os seis sinais clássicos, e quais dois deles — alteração sensitiva e perda de força, nunca a ausência de pulso — separam o membro viável do membro em risco imediato; a classificação que decide quem vai à sala agora e quem faz imagem antes; êmbolo ou trombose sobre placa, mesma cena e prognósticos diferentes, com a pista na história e no membro contralateral; o que o interno faz no intervalo — heparinizar, analgesiar, posicionar pendente, jamais elevar nem aquecer — e o que nunca faz; e o depois, quando reperfusão e síndrome compartimental matam o membro que já tinha sido salvo. Como não existe documento brasileiro sobre o tema, este capítulo declara qual régua estrangeira governa, e desde quando.
Björck M, Earnshaw JJ, Acosta S, Bastos Gonçalves F, Cochennec F, Debus ES, Hinchliffe R, Jongkind V, Koelemay MJW, Menyhei G, Svetlikov AV, Tshomba Y, Van Den Berg JC, et al. Editor's Choice — European Society for Vascular Surgery (ESVS) 2020 Clinical Practice Guidelines on the Management of Acute Limb Ischaemia. Eur J Vasc Endovasc Surg. 2020 Feb;59(2):173-218. https://doi.org/10.1016/j.ejvs.2019.09.006 — consultada na tradução oficial para português da Comissão de Tradução da Sociedade Portuguesa de Angiologia e Cirurgia Vascular, publicada em Angiologia e Cirurgia Vascular, número 04, volume 16, dezembro de 2020.
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PARINEX® (heparina sódica suína), solução injetável 5.000 UI/mL e 5.000 UI/0,25 mL. Hipolabor Farmacêutica Ltda. Bula profissional.
Dipirona monoidratada 500 mg/mL, solução injetável. Hypofarma — Instituto de Hypodermia e Farmácia Ltda. Bula profissional.
Castro-Santos G. A semântica da isquemia aguda de membros [Carta ao Editor]. J Vasc Bras. 2023;22:e20210145. https://doi.org/10.1590/1677-5449.202101451
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DailyMed — heparina sódica 5.000 UI/mL [Acessar fonte](https://dailymed.nlm.nih.gov/dailymed/fda/fdaDrugXsl.cfm?setid=6467d400-d373-4137-af06-568b98813c8e)
Responda antes de ler
Numa discussão de caso, um colega afirma que a conduta da isquemia arterial aguda de membro no Brasil está fixada pela diretriz de doença arterial periférica da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular, de 2024, e que basta segui-la. Do ponto de vista documental, qual é a resposta correta?
O paciente que você vai ver
Vinte e três e cinquenta de uma quinta-feira. Hospital regional do interior, com cento e dez leitos, que atende a microrregião e fica a cento e quarenta quilômetros do hospital estadual que tem cirurgião vascular de plantão e sala liberada a qualquer hora. Aqui tem tomógrafo, e o técnico mora a doze minutos. Não tem cirurgião vascular, nem hoje nem em nenhuma escala do mês. Você é o interno da clínica médica, e quem te chama é a enfermeira da sala amarela, com uma frase que não é diagnóstico nenhum: "o senhor da cinco está reclamando muito da perna, e ela está esquisita".
Osvaldino Feitosa tem 74 anos, é aposentado da roça, e chegou por conta própria de carro, trazido pelo genro, às 23h20. A ficha da classificação diz "dor em membro inferior direito". Ele está sentado na maca, acordado, falando, e com a perna direita pendurada para fora — não porque alguém mandou, mas porque, segundo ele, "assim dói menos". Isso é a primeira informação do caso, e não está escrito em lugar nenhum.
Você pergunta quando começou. Ele diz que estava vendo televisão, que a perna "foi ficando dormente", e que a dor apareceu de uma vez, como uma cãibra que não passou. Você insiste no horário. Ele olha para o genro, o genro olha para o celular, e a resposta que sai é útil: o jogo tinha acabado fazia pouco, então era por volta das nove da noite. São quase meia-noite. Isso são quase três horas, e três horas é um número que muda tudo o que vem a seguir neste capítulo.
A perna direita está pálida do joelho para baixo, com um mosqueado arroxeado na panturrilha que não some quando você aperta. O pé é frio ao dorso da sua mão — e o esquerdo, ao lado, é morno. A diferença entre os dois é grosseira: não é preciso termômetro, é preciso encostar. Você acha o pulso femoral direito, forte. Não acha o poplíteo, não acha o tibial posterior, não acha o pedioso. Do lado esquerdo você acha os quatro.
Aí você faz a pergunta que separa este paciente de todos os outros que reclamaram de perna hoje: encosta a ponta da caneta no dorso do hálux direito e pergunta se ele sente. Ele diz que sente "meio longe". Você repete no pé esquerdo, e ele diz que ali sente normal. Depois pede que ele mexa os dedos do pé direito. Eles mexem — pouco, devagar, mas mexem. Do esquerdo, mexem normalmente.
Guarde essas duas respostas com a hora ao lado, porque elas são o cronômetro do caso, e porque daqui a quarenta minutos elas podem ser outras. A cor da perna e a ausência de pulso te disseram que existe um problema arterial. Foram a sensibilidade diminuída e a força reduzida que te disseram em quanto tempo ele precisa ser resolvido.
Sinais vitais: pressão 158 por 88; frequência cardíaca 116, irregular; respiração 18; temperatura axilar de 36,4 °C; glicemia capilar 132; saturação de 96% sem oxigênio suplementar. O pulso irregular não é detalhe de anotação: é, muito provavelmente, o motivo pelo qual o senhor Osvaldino está aqui. O genro conta que ele "toma um remédio para o coração", que teve um médico que falou em arritmia, e que ele parou de tomar "aquele de tomar exame de sangue toda hora" faz uns dois meses, porque o exame ficava dando errado e ele cansou de viajar para a cidade.
Você tem, então, três coisas ao mesmo tempo. Uma perna que perdeu perfusão há cerca de três horas. Um coração em fibrilação atrial com anticoagulação interrompida. E um hospital que não tem quem opere esta perna. O que você faz nos próximos vinte minutos não vai revascularizar o membro — nenhuma coisa que você faça aqui vai. Mas vai determinar em que estado esse membro chega em quem pode revascularizar, e quanto tempo terá se passado.
Esse é o assunto deste capítulo. Não é a embolectomia, que você não vai fazer. É o intervalo entre o momento em que a perna esfriou e o momento em que alguém abre a artéria — um intervalo em que o interno é, quase sempre, a única pessoa que sabe que o relógio está correndo. E é sobre por que esse relógio não perdoa: nervo e músculo isquêmicos não voltam ao ponto em que estavam. Pele volta. Músculo não.
Quem adoece disso
A verdadeira incidência da isquemia aguda de membro é desconhecida, e a diretriz europeia que governa este capítulo diz isso com todas as letras logo na abertura do capítulo de epidemiologia. O motivo é metodológico e vale entender, porque explica por que os números que você vai ler adiante variam tanto: os estudos frequentemente misturam isquemia aguda e isquemia crônica sem separar as duas, e a apresentação e o tratamento variam muito de lugar para lugar. A quase totalidade da literatura em que a diretriz se apoia vem da Europa Ocidental e da América do Norte.
Os números que existem apontam todos na mesma direção: a doença está ficando menos frequente. Uma análise do inquérito nacional de altas hospitalares dos Estados Unidos contabilizou 1.092.811 internações por embolia ou trombose arterial aguda de membro inferior entre 1988 e 1997, e 670.704 entre 1998 e 2007. Traduzido em incidência, isso é uma queda de 42,4 para 23,3 por 100.000 pessoas por ano. A mortalidade hospitalar caiu junto, de 8,3% para 6,3%.
Vale fazer a conta, porque ela ensina a ler série temporal. A contagem bruta de internações caiu 38,6%. A incidência declarada caiu 45,0%. A incidência caiu mais que a contagem — o que só fecha se a população do denominador cresceu no intervalo. E cresceu: as populações implícitas nos dois períodos são de 257,7 e 287,9 milhões, um crescimento de 11,7%, compatível com a população norte-americana de 1992 e de 2002. As duas séries são internamente coerentes. É uma conferência que passa, e conferência que passa também é informação.
Uma segunda série, agora da população coberta pelo seguro público de idosos dos Estados Unidos entre 1998 e 2009, mostra a mesma queda de incidência — de 45,7 para 26,0 por 100.000 por ano — e acrescenta o que mudou no tratamento. A cirurgia aberta caiu de 57,1% para 52,6% dos casos, enquanto os procedimentos endovasculares dobraram, de 15,0% para 33,1%. A mortalidade hospitalar caiu de 12,0% para 9,0% e a amputação de 8,1% para 6,4%, esta última sem significância estatística.
Duas contas dessa segunda série merecem atenção do interno, porque são exatamente o tipo de número que se lê rápido demais. A primeira: somando aberta e endovascular, chega-se a 72,1% no período antigo e 85,7% no recente — ou seja, 27,9% e 14,3% dos pacientes não têm revascularização registrada de nenhum tipo. Parte disso é amputação primária, parte é decisão de não intervir, parte é registro incompleto; a fonte não separa. A segunda: a mortalidade em um ano ficou igual, 41,0% contra 42,5%. Ela não caiu.
Ponha as duas mortalidades lado a lado e o retrato fica desconfortável. No período mais recente, morrem 9% na internação e 42,5% em um ano — quase cinco vezes mais depois da alta do que durante ela. Isso diz algo sobre a doença que o caso agudo esconde: a perna que esfriou não é um evento local. É a manifestação periférica de um paciente que tem fibrilação atrial, ou aterosclerose difusa, ou os dois, e que está sob risco cardiovascular alto independentemente do que aconteça com o membro. O sucesso da embolectomia não é o fim da história.
Sobre a origem do êmbolo, a diretriz é qualitativa e não quantitativa: a embolização decorre geralmente de fibrilação atrial e, em segundo lugar, de trombo mural no ventrículo esquerdo após infarto agudo do miocárdio, enquanto as oclusões trombóticas agudas ocorrem em geral em indivíduos com aterosclerose marcada. Ela registra ainda a mudança histórica do perfil: no século passado predominava a embolia por doença valvar reumática ou congênita em pacientes relativamente jovens; hoje predomina a embolização por arritmia ou a trombose in situ em pacientes idosos. Em países de renda baixa e média, a doença valvar segue sendo causa importante.
Sobre o tempo entre o início e a procura de atendimento, há um dado que muda a expectativa do plantão: aproximadamente 70% dos pacientes procuraram assistência nas primeiras duas semanas após o início dos sintomas, e 30% apresentavam evolução superior a duas semanas. Duas semanas, aliás, é a fronteira que a própria diretriz usa para chamar o quadro de agudo — acima disso, considera-se isquemia crônica, que é assunto do capítulo A dor que só existe andando, e não deste.
Agora o dado brasileiro, e o dado brasileiro é uma ausência. Não existe documento nacional vigente — nem de sociedade médica, nem do Ministério da Saúde — que fixe a conduta da isquemia arterial aguda de membro. A diretriz de doença arterial periférica da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular, de 2024, exclui explicitamente o tema do próprio escopo, e o faz duas vezes: no objetivo, ao dizer que as situações de emergência, como as oclusões arteriais agudas e as lesões traumáticas, não são foco da diretriz; e na metodologia, ao registrar que foram excluídas as emergências, trauma e oclusão arterial aguda. As menções à isquemia aguda dentro dela são desfechos de ensaios clínicos de antitrombóticos, não conduta.
O documento anterior da mesma sociedade, de novembro de 2015, também não cobre o tema — e de maneira ainda mais radical: as palavras aguda, agudo, embolia e trombólise têm zero ocorrência no texto inteiro, conferido com acento, hífen e espaço removidos. Na lista de protocolos clínicos e diretrizes terapêuticas do Ministério da Saúde não há nada sobre isquemia arterial aguda de membro; há protocolo de AVC isquêmico agudo, que é cérebro, não membro.
A consequência prática disso é o eixo deste capítulo e precisa ficar dita antes de qualquer conduta: a régua desta doença, no Brasil, é estrangeira. Quem governa é a diretriz de prática clínica da Sociedade Europeia de Cirurgia Vascular sobre isquemia aguda de membro, publicada em fevereiro de 2020, e que existe em tradução para português publicada pela sociedade portuguesa da especialidade em dezembro do mesmo ano. Desde 2020, portanto — e, no momento em que este capítulo foi escrito, sem substituto publicado, embora a própria sociedade europeia liste essa diretriz entre as que estão em revisão.
Por que acontece o que acontece
O músculo esquelético consome oxigênio o tempo todo, tem pouquíssima reserva e não tem por onde comprar tempo. Quando a artéria que o abastece fecha de uma vez, o que se instala não é uma redução de oferta: é uma interrupção. E os tecidos do membro não morrem juntos nem na mesma velocidade — morrem numa ordem, e essa ordem é a coisa mais útil que este capítulo tem a ensinar sobre exame físico.
A ordem é: nervo periférico primeiro, músculo depois, pele por último. O nervo é o tecido mais sensível à falta de oxigênio do membro, e é por isso que a primeira coisa a falhar é a sensibilidade — o paciente descreve dormência, formigamento, sensação de "pé longe", antes de qualquer outra coisa objetiva. Em seguida falha a condução motora e o próprio músculo, e o paciente perde força. A pele, que é o que todo mundo olha, é o tecido mais tolerante: ela ainda está branca e fria muito depois de o nervo já ter parado de funcionar, e continua parecendo apenas branca e fria quando o músculo por baixo já está morrendo.
Daí decorre a regra que organiza toda a avaliação de gravidade: cor e temperatura dizem que existe isquemia; sensibilidade e força dizem quanto tempo resta. Uma perna dolorosa, pálida, fria e sem pulso, com sensibilidade e força preservadas, é um membro viável. A mesma perna com dormência que passou dos dedos e com dificuldade de mover o pé é um membro sob ameaça imediata — e o que separa uma perna da outra não são dias, são poucas horas. A ausência de pulso, que é o achado que mais impressiona quem examina, não separa essas duas situações — está presente nas duas.
O segundo eixo do mecanismo é a circulação colateral, e ele é o que explica por que dois pacientes com a mesma artéria ocluída podem ter pernas em estados completamente diferentes. Numa artéria previamente saudável, não houve tempo nem estímulo para o organismo abrir desvios: quando um êmbolo se aloja numa bifurcação, o território distal fica sem nada, e a isquemia é imediata e grave. Numa artéria cronicamente estenosada por placa, o organismo passou anos construindo colaterais; quando um trombo finalmente fecha o lúmen, esses desvios entregam algum fluxo, e a isquemia costuma ser mais lenta e menos profunda.
Isso tem duas consequências que parecem contraintuitivas e não são. A primeira: o paciente com as artérias mais doentes pode ter a perna menos ameaçada, porque tinha colateral. A segunda: o paciente com o coração doente e as artérias limpas — o típico portador de fibrilação atrial sem aterosclerose de membros — pode ter, na primeira hora, a perna mais dramática que você verá, com os seis sinais clássicos todos presentes ao mesmo tempo. A diretriz europeia registra exatamente isso, ao dizer que a presença de todos os seis sinais é raramente encontrada, a não ser em isquemia grave num paciente com artérias de resto saudáveis.
O terceiro eixo é o que acontece depois que o sangue volta, e é a parte que o estudante costuma descobrir tarde. O músculo isquêmico não é um tecido inerte esperando: ele acumula produtos do metabolismo anaeróbio, e a membrana das suas células fica permeável. Quando a perfusão é restabelecida, três coisas saem do músculo para a circulação sistêmica — potássio, ácido e conteúdo celular, incluindo mioglobina e creatina cinase — e uma coisa entra no músculo: água. É a lesão de isquemia-reperfusão, e ela é sistêmica e local ao mesmo tempo.
O componente sistêmico é a rabdomiólise: a mioglobina liberada precipita nos túbulos renais e pode causar necrose tubular e falência renal. O componente local é a síndrome compartimental: a água que entra no músculo aumenta o volume dentro de um compartimento fechado por fáscia que não estica, a pressão sobe, e a pressão que sobe fecha a microcirculação do próprio músculo que acabou de ser revascularizado. O membro, nesse ponto, pode ser perdido com a artéria pérvia — que é a razão de este capítulo terminar falando de fasciotomia, e não de embolectomia.
Encerre o raciocínio com o que ele significa para a decisão. Nervo e músculo isquêmicos por tempo suficiente não retornam ao estado anterior: a diretriz registra que, entre os pacientes que desenvolvem déficit motor por síndrome compartimental, a recuperação motora completa ocorre em apenas 13%. É por isso que a pergunta que organiza o atendimento não é "qual a causa?" nem "qual exame?", mas "há quanto tempo?" — e por que a resposta dessa pergunta precisa ser perseguida com a mesma insistência com que se persegue a hora de início da dor no infarto.

Como se apresenta de verdade
A isquemia aguda de membro é um diagnóstico de beira de leito, e a diretriz europeia diz isso quase com essas palavras: o diagnóstico é facilmente suspeitado após uma avaliação clínica detalhada por qualquer médico competente, e a maioria dos pacientes não é avaliada primariamente por especialista vascular. Ou seja: o sistema conta com que você, interno de plantão numa sala amarela, faça esse reconhecimento. Não existe exame que substitua a mão encostada nos dois pés.
O que segue é a anatomia do exame — não a lista dos sinais, que qualquer um decora, mas a hierarquia entre eles.
Os seis P, e por que a lista engana
A mnemônica clássica vem do inglês e tem seis termos: dor, palidez, ausência de pulso, poiquilotermia — que é a perda da regulação térmica, com o membro assumindo a temperatura do ambiente —, parestesia e paralisia. A diretriz europeia lista os seis e, na frase seguinte, avisa que eles podem ajudar na avaliação da gravidade clínica, mas que a presença de todos os seis é raramente encontrada na prática, a não ser em isquemia grave num paciente com artérias de resto saudáveis.
Essa ressalva é mais importante que a lista. Ela quer dizer que o quadro completo é a exceção, não a regra: quem espera ver seis achados para chamar de isquemia aguda vai deixar passar a maioria dos casos. E quer dizer também que, quando os seis estão presentes, você não está diante de um caso didático — está diante do subgrupo mais grave, com artéria previamente boa e sem colateral nenhuma para amortecer.
Há um segundo problema com a lista, e é de forma: os seis termos são apresentados como se tivessem peso igual, e não têm. Dois deles descrevem o estado da circulação, dois descrevem o aspecto do tecido, e dois descrevem a função do nervo e do músculo. Só os dois últimos dizem quanto tempo resta. Tratar as seis palavras como um checklist de itens equivalentes é o erro conceitual mais comum do estudante neste tema, e é o que produz a frase errada no prontuário: "paciente com quatro dos seis P", como se quatro fosse pior que três e melhor que cinco.
A dor merece um comentário à parte, porque é a queixa que traz o paciente e a que menos serve para graduar. Ela costuma ser intensa no início e pode diminuir com o tempo — não porque o membro melhorou, mas porque o nervo que a transmitia parou de funcionar. Dor que cede espontaneamente num membro que continua frio e sem pulso é sinal de piora, e não de melhora. Escreva isso no prontuário com essas palavras quando acontecer, porque o plantonista seguinte vai ler "melhorou da dor" e entender o contrário.
Os dois que decidem: sensibilidade e força
Se você tiver que levar uma única frase deste capítulo para o plantão, leve esta: o que separa o membro viável do membro sob ameaça imediata é a alteração sensitiva e a alteração motora, e não a ausência de pulso. A diretriz é explícita — a perda de sensibilidade e de função motora são sintomas de um membro ameaçado, com necessidade de revascularização imediata.
A ausência de pulso não separa nada porque está presente em toda a faixa que importa: o membro viável e o membro sob ameaça imediata podem ter exatamente a mesma ausência de pulso distal. Ela estabelece que existe oclusão arterial; não estabelece a urgência. O interno que telefona dizendo "não tem pulso" transmitiu metade da informação. O que precisa ser transmitido é: não tem pulso, e a sensibilidade e a força estão assim.
Como examinar a sensibilidade sem se enganar: teste o toque leve no dorso do hálux e compare imediatamente com o mesmo ponto do outro pé, com o paciente de olhos fechados. Não pergunte "você sente?", porque a resposta será sim quase sempre; pergunte "aqui e aqui é igual?". A perda inicial é sutil, e distal — começa pelos dedos e sobe. Anote se a alteração está restrita aos pododáctilos ou se já passou deles, porque essa é literalmente a fronteira entre duas categorias de gravidade.
Como examinar a força: peça movimento ativo dos dedos e do tornozelo, e compare com o outro lado. Um detalhe que confunde: o paciente com dor forte movimenta menos porque dói, e isso não é paresia. Peça o movimento devagar, ampare o pé, e observe se há movimento nenhum ou movimento fraco. E cuidado com a armadilha inversa — em quadro muito avançado, a rigidez do músculo pode impedir o movimento passivo, e isso não é fraqueza, é um sinal bem mais grave.
Duas advertências documentais sobre esses achados. A primeira: eles evoluem, e por isso valem com hora ao lado. Sensibilidade e força documentadas às 23h55 e reexaminadas às 00h40 formam uma comparação; documentadas uma vez só, formam uma frase. A segunda: quem recebe o paciente na outra ponta vai decidir a urgência da transferência e da sala com base nesses dois dados. A diretriz orienta que pacientes com perda sensorial ou motora requerem transferência urgente — a urgência da transferência é definida por essa dupla, não pelo aspecto da perna.
O nível: onde a perna muda
Registre o nível em que a perna deixa de ser normal, e registre-o duas vezes: uma pela temperatura e uma pelo pulso. São informações diferentes, e as duas cabem numa linha do prontuário.
O nível da mudança de temperatura e cor costuma ficar um segmento abaixo do ponto de oclusão, porque a colateral e o próprio sangue estagnado ainda aquecem alguma coisa logo abaixo da obstrução. O nível dos pulsos é mais direto: o último pulso presente marca o território ainda perfundido. No senhor Osvaldino, femoral presente e poplíteo ausente com esfriamento a partir do terço médio da coxa sugerem obstrução femoropoplítea alta. Isso não fecha diagnóstico anatômico — quem fecha é a imagem —, mas orienta a conversa com o cirurgião e dá a ele um ponto de partida.
Descreva com referências que outro examinador consiga repetir: "frio a partir de dois dedos acima da patela" é mensurável; "frio na perna" não é. Se houver mosqueado — o padrão em rede, arroxeado, da pele —, registre se ele empalidece à compressão ou não. Mosqueado que empalidece indica sangue ainda circulando naquele leito; mosqueado fixo, que não some quando você aperta, indica sangue estagnado, e é achado mais grave.
Examine também os pulsos dos outros territórios, e não só da perna doente. A diretriz orienta que o exame físico inclua todos os demais pulsos periféricos e a pesquisa de sinais de isquemia visceral, com dor abdominal — porque o mesmo coração que mandou um êmbolo para a perna pode ter mandado outro para o mesentério ou para o cérebro, e o paciente idoso pode não relatar espontaneamente.
O membro contralateral, e a pergunta da causa
A diretriz é direta: é importante que ambos os membros inferiores sejam examinados, para excluir doença bilateral e detectar condições bilaterais. Isso é obrigação diagnóstica, e não zelo. Mas o membro contralateral tem, além disso, uma função que a diretriz não enuncia como regra e que a prática impõe: ele é a primeira pista sobre o mecanismo.
Se a perna do outro lado tem pulsos cheios, pele com pelos, temperatura normal e nenhuma história de dor ao caminhar, o leito arterial daquele paciente é presumivelmente bom — e uma oclusão súbita num leito bom aponta para material que veio de longe. Se a perna do outro lado tem pulsos diminuídos, pele fina, ausência de pelos e unhas espessadas, e se o paciente conta que já andava pouco por dor na panturrilha, o leito é doente dos dois lados — e a oclusão aponta para trombose sobre placa.
O restante da história completa a pista. Fibrilação atrial, prótese valvar, infarto recente, aneurisma conhecido: fontes de êmbolo. Claudicação intermitente prévia, tabagismo, diabetes, revascularização periférica anterior: substrato de trombose. Um dado que a diretriz destaca entre os fatores de risco identificados num grande ensaio é justamente a revascularização periférica prévia, ao lado da fibrilação atrial e do índice tornozelo-braço mais baixo.
Duas cautelas para não transformar pista em certeza. A primeira: os dois mecanismos convivem — um paciente com fibrilação atrial pode ter aterosclerose, e o êmbolo pode alojar-se justamente numa artéria já estreitada. A segunda: a distinção não muda o que você faz nas próximas horas. Ela muda a via de revascularização que o cirurgião escolhe, o prognóstico que se comunica à família e a investigação que se faz depois — e é por isso que ela entra na conversa telefônica e no prontuário, não na sua decisão de conduta imediata.
Vale mencionar as causas raras, sem alongar, porque a diretriz as reúne numa tabela própria e diz explicitamente que estão ali apenas para diagnóstico diferencial: vasculite, aprisionamento da artéria poplítea, doença adventicial cística, embolização paradoxal por defeito do septo atrial, embolização tumoral, embolização de corpo estranho em usuário de droga injetável e trombofilia. O elemento que aparece repetido nessa tabela é o paciente jovem sem fator de risco aterosclerótico — quando a perna aguda acontece em alguém assim, a causa provavelmente não é nenhuma das duas grandes.
O que se parece e não é
A diretriz registra que pacientes com lesões neurológicas ou trombose venosa profunda podem ter sintomas e sinais similares aos da isquemia aguda de membro. Vale desdobrar essa frase, porque cada um desses erra em uma direção diferente.
A trombose venosa profunda dá dor, dá empastamento e dá alteração da perna, mas a perna da trombose venosa é quente, é cheia e costuma ser mais grossa que a outra; a perna da isquemia arterial é fria, é vazia e não incha. O pulso resolve a dúvida na maioria dos casos, e o Doppler de bolso resolve no restante. A exceção conhecida é a flegmasia cerúlea dolens, em que a trombose venosa é tão extensa que compromete a perfusão arterial — perna muito inchada, muito dolorosa e cianótica, com pulso que pode sumir. Esse quadro é uma emergência com conduta própria, e o capítulo que trata da trombose venosa profunda é Trombose venosa profunda, nesta mesma apostila.
O déficit neurológico central engana pelo lado oposto: dá fraqueza e alteração de sensibilidade sem que exista qualquer problema de perfusão. A diferença está na temperatura, na cor e no pulso, que são normais; e o padrão do déficit costuma não respeitar a distribuição vascular. Um acidente vascular cerebral e uma isquemia de membro podem, no entanto, coexistir no mesmo paciente embolizante — se a perna está fria e o braço está fraco, você tem dois problemas, e não um.
A síndrome compartimental primária, sem oclusão arterial prévia, também aparece na tabela de diferenciais da diretriz: edema dos tecidos envolvidos pela fáscia levando a compressão arterial, com história de revascularização ou de cirurgia prolongada e dor à mobilização passiva. É o mesmo quadro que aparece depois de uma fratura, e essa versão — a síndrome compartimental do membro fraturado — é do capítulo O exame que se faz duas vezes, na apostila Procedimentos e Vias de Acesso. Este capítulo assume a síndrome compartimental que se instala depois da reperfusão de um membro isquêmico, que é fenômeno do pós-operatório imediato desta doença, e cede para lá a síndrome compartimental do trauma.
O que este capítulo assume, e o que entrega aos vizinhos
Como a isquemia arterial aguda não tem documento nacional que a governe, e como os dois capítulos vizinhos desta apostila registraram, cada um por sua vez, que o tema não tinha dono neste nível, este capítulo assume a titularidade e declara o que assume: o reconhecimento à beira do leito, a estratificação de gravidade, a distinção entre êmbolo e trombose sobre placa, a conduta do intervalo até a revascularização, e o pós-reperfusão até a fasciotomia. Isso é o escopo.
O que ele entrega, e para onde. A doença arterial obstrutiva periférica crônica, a claudicação e o índice tornozelo-braquial como ferramenta ambulatorial são do capítulo A dor que só existe andando. O aneurisma de aorta abdominal e sua rotura são do capítulo A doença que não dói, e o dia em que dói. A trombose venosa profunda, o escore de Wells e a flegmasia são do capítulo Trombose venosa profunda. Os três estão nesta mesma apostila, nas posições anteriores a esta. A úlcera do pé da pessoa com diabetes é do capítulo Pisar na própria ferida, sobre pé diabético e úlceras de membros inferiores, também nesta apostila, numa posição posterior.
Fora da apostila: a fibrilação atrial como doença — a decisão de controlar ritmo ou frequência, a escolha e a manutenção do anticoagulante, o escore de risco embólico — é da apostila de Cardiologia, e este capítulo só a trata como fonte de êmbolo e como coisa a documentar. A lesão arterial traumática é da apostila de Trauma; a diretriz europeia a lista entre as causas de isquemia aguda, mas o atendimento do membro ferido tem sequência própria. E a síndrome compartimental do membro fraturado é, como já dito, do capítulo O exame que se faz duas vezes.
Um último recorte, e este é de vocabulário. O tema desta unidade usa a expressão "oclusão arterial aguda", que é a consagrada no Brasil; a literatura internacional e a diretriz que governa usam "isquemia aguda de membro". Uma carta ao editor publicada no Jornal Vascular Brasileiro em 2023 defende a segunda forma, com dois argumentos que vale conhecer: o de que oclusão pode ser venosa ou arterial, e por isso exige o qualificador; e o de que isquemia de membro já carrega implicitamente que é arterial, sendo a expressão "isquemia arterial aguda" redundante — com a flegmasia cerúlea dolens como a exceção conhecida. Este capítulo usa as duas expressões como sinônimos, e registra a discussão porque ela aparece na prova e no prontuário.
Como fechar o diagnóstico
A regra que organiza este bloco inteiro está numa frase da diretriz: o tempo necessário para obter qualquer estudo de imagem deve ser contrabalançado com a urgência da revascularização, e se um estudo não invasivo for escolhido, é importante que ele não atrase o tratamento subsequente. A recomendação formal correspondente diz que a imagem diagnóstica é recomendada para guiar o tratamento, desde que não atrase o tratamento ou que a necessidade de amputação primária seja óbvia.
Traduzindo para o plantão sem vascular: a imagem não é o seu próximo passo. O telefone é. A imagem entra depois, e frequentemente conforme a orientação de quem vai receber o paciente — porque é ele quem sabe se prefere operar com angiotomografia em mãos, se prefere levar direto para a sala, ou se quer a imagem repetida no serviço dele.
O Doppler de bolso, que é o exame deste capítulo
O aparelho que decide muita coisa aqui custa pouco, cabe no bolso do jaleco e costuma estar guardado numa gaveta da sala amarela. A diretriz registra que a detecção de pulsos periféricos é melhorada pela determinação do índice tornozelo-braquial com Doppler portátil, e que na isquemia aguda esse índice também é preditor de resultado, com um valor abaixo de 0,7 considerado crítico.
Mas o uso mais importante do Doppler aqui não é calcular índice: é responder duas perguntas binárias em cada pé — existe sinal arterial audível, e existe sinal venoso audível? Essas duas respostas entram diretamente na classificação de gravidade que você vai usar, e são a única parte objetiva dela. O sinal venoso é aquele ruído contínuo, que varia com a respiração; o arterial é pulsátil, sincrônico com o coração.
A leitura, em linhas gerais: sinal arterial e venoso audíveis apontam para membro viável. Sinal arterial inaudível com venoso audível aparece nas duas faixas de membro ameaçado, e não distingue uma da outra — quem distingue são a sensibilidade e a força. Sinal arterial e venoso ambos inaudíveis é o achado do membro irreversível, e é o único achado de Doppler que muda a decisão sozinho, porque nessa faixa o assunto deixa de ser revascularizar.
Uma nota de honestidade sobre essa tabela, que a própria diretriz faz e quase ninguém reproduz: ela avisa que a versão original, de 1997, afirmava que os sons arteriais nunca estão presentes na categoria de ameaça marginal e que o rigor está sempre presente na categoria irreversível — e que, na opinião do comitê que escreveu a diretriz de 2020, existem exceções a essas duas regras, podendo ser apropriada no futuro uma pequena modificação da classificação. Ou seja: os autores publicaram a tabela e, no rodapé, disseram que dois dos seus absolutos não são absolutos.
A imagem, e o lugar dela na fila
A angiotomografia é recomendada como modalidade de primeira linha para mapeamento anatômico, com grau de recomendação forte e nível de evidência intermediário — é a recomendação mais bem sustentada do bloco de diagnóstico. A ultrassonografia com Doppler e a angiorressonância ficam como alternativas a considerar, dependendo da disponibilidade e da avaliação clínica, com grau fraco.
O motivo pelo qual a angiotomografia ganha não é acurácia superior comprovada nesse contexto, e a diretriz é franca sobre isso: quase toda a informação de precisão diagnóstica das modalidades não invasivas vem de estudos em isquemia crônica, e pouco se sabe sobre a precisão nas artérias dos membros no contexto agudo não traumático. O que a angiotomografia tem é disponibilidade a qualquer hora, rapidez e um mapa que serve para planejar. E ela tem uma limitação específica do quadro agudo, também registrada: estudar as artérias distais à oclusão é mais difícil na isquemia aguda do que na crônica, justamente porque faltam colaterais para encher esse território.
Sobre o contraste e o rim, a diretriz toma posição clara: embora exista associação entre contraste iodado e lesão renal aguda, isso deve ser encarado como problema relativo diante de uma condição potencialmente ameaçadora da vida. Registra ainda que a sociedade europeia de radiologia urogenital baixou o limiar para administração segura de contraste para taxa de filtração glomerular estimada de 30 mL/min/1,73 m². Não é convite a ignorar a função renal; é orientação de não trocar um membro por um número de creatinina.
A ultrassonografia com Doppler tem um achado curioso que vale conhecer, ainda que não seja para o interno executar: num estudo citado pela diretriz, uma dilatação de 0,5 mm da artéria acima da oclusão, comparada com o membro contralateral, sugeria oclusão embólica, enquanto uma redução de 0,5 mm no diâmetro se relacionava com oclusão trombótica. A limitação prática é que a ultrassonografia depende de operador e nem sempre está disponível vinte e quatro horas por dia.
Os exames que não decidem — e a recomendação negativa que os proíbe
Este é o parágrafo que mais muda conduta de interno neste capítulo. A diretriz tem uma recomendação explicitamente negativa, de grau contrário, dizendo que não é recomendado usar os resultados de mioglobina e creatina cinase da admissão como base para decidir entre oferecer revascularização ou amputação primária.
A recomendação existe porque a tentação é real: diante de uma perna em estado duvidoso, dosar um marcador de lesão muscular parece científico, e um valor alto parece autorizar a decisão de amputar. A diretriz fecha essa porta. E a razão é dupla — a subida da creatina cinase ocorre relativamente tarde, o que a torna pouco útil no diagnóstico precoce, e não existem, no momento, biomarcadores disponíveis para identificar os pacientes que precisam de amputação primária.
Repare no que a mesma diretriz faz com o mesmo exame em outro momento: usa a creatina cinase para estimar risco perioperatório e para acompanhar a lesão de isquemia-reperfusão, e cita faixas para isso. Um exame pode ser útil para uma pergunta e proibido para outra, e a diferença aqui é entre estimar risco e decidir amputar. Esse é o tipo de distinção que separa quem leu a recomendação de quem leu a tabela.
Na prática: colha creatina cinase se o serviço pede, mas não espere o resultado para telefonar, não use o número para argumentar que o membro é irrecuperável, e não deixe de encaminhar por causa dele. Quem decide se aquele membro é viável é o exame físico — sensibilidade, força e sinais de Doppler — somado ao tempo decorrido, e a decisão é do cirurgião vascular.
O laboratório que muda a próxima hora
O que se colhe aqui não é para diagnosticar a isquemia — ela já está diagnosticada — mas para viabilizar a sala, antecipar a reperfusão e documentar o ponto de partida. Peça em uma única punção, e não em três.
Hemograma, coagulograma completo e tipagem sanguínea com prova cruzada compõem o mínimo pré-operatório. Ureia e creatinina importam duas vezes: pelo contraste que vem e pela rabdomiólise que pode vir. Potássio importa porque é ele que sobe na reperfusão, e um valor de base torna interpretável o valor de depois. Creatina cinase entra como ponto de partida, com a ressalva do parágrafo anterior sobre o que ela não decide. Gasometria com lactato ajuda a dimensionar a extensão do território isquêmico e a acidose que vai chegar junto com o sangue de volta.
Um exame que costuma ser esquecido e é barato: a glicemia capilar, já colhida na triagem, e o eletrocardiograma. O eletrocardiograma aqui não é rotina de admissão — é investigação etiológica em tempo real. A diretriz orienta que, na investigação da origem do êmbolo, se façam diagnósticos que excluam infarto agudo do miocárdio, monitorização de vinte e quatro horas quando necessário, ecocardiografia e angiotomografia de toda a aorta caso uma origem cardiogênica de embolia tenha sido excluída.
Do que está nessa lista, ao interno cabem os dois primeiros passos: o eletrocardiograma de doze derivações agora, que documenta a fibrilação atrial e afasta supradesnivelamento, e o registro no prontuário da suspeita etiológica. O ecocardiograma e a angiotomografia de aorta são investigação do pós-operatório, e a recomendação formal que os sustenta manda investigar a origem do êmbolo sempre que possível, para evitar recorrência — recorrência que é o argumento mais forte a favor de fazer isso direito.
Quando o hospital não tem quem opere
Este é o cenário majoritário no Brasil e o cenário deste capítulo. A diretriz o antecipa: recomenda que a avaliação clínica seja feita urgentemente por especialista vascular, que deve ser responsável pelo planejamento da investigação e da abordagem subsequente — e reconhece, no corpo do texto, que isso pode significar transferir o paciente de um centro não vascular para tratamento, com a urgência da transferência dependendo da gravidade da isquemia.
Ela nomeia a dificuldade real sem resolvê-la, e a frase merece ser lida devagar: existe uma decisão difícil entre o risco do atraso, quando um paciente é transferido, e a experiência limitada que pode estar disponível no hospital local onde o paciente se apresenta. Não há fórmula. O que a diretriz oferece é o mecanismo: todos esses pacientes podem ser discutidos com um cirurgião vascular, e a discussão deve ocorrer cedo.
O que isso significa operacionalmente para você: o telefonema não é para pedir autorização de transferência, é para transferir a decisão clínica para quem tem competência de tomá-la, e para fazer isso enquanto ainda há membro. Antes de discar, tenha na mão as quatro coisas que ele vai perguntar — hora de início, sensibilidade e força com hora, quais pulsos existem e a partir de onde somem, e as condições clínicas que determinam se ele pode operar hoje. Sem esses quatro, a ligação vira uma segunda anamnese por telefone, e o tempo dela sai do membro.
Sobre a imagem nesse cenário, uma orientação que economiza horas: pergunte na própria ligação se ele quer a angiotomografia feita aqui antes do transporte. Se o tomógrafo está pronto e o transporte demora, fazer aqui adianta; se o transporte sai agora, a imagem feita lá é melhor, porque não repete contraste e não gasta o intervalo. Essa é uma decisão do receptor, e não sua — mas ela precisa ser feita nessa ligação, e não descoberta depois.
Quem vai para a sala agora, e quem faz imagem antes
A ameaça ao membro é definida pelo exame sensitivo e motor e pela evolução, sem esperar os seis sinais clássicos. O primeiro atendimento, o contato vascular e o preparo de reperfusão acontecem em paralelo.
- 1Registre início dos sintomas e hora do exame. Compare perfusão, pulsos, sensibilidade, força e sinais Doppler dos dois membros.
- 2Déficit motor ou perda sensitiva extensa sugerem ameaça imediata: chame supervisor e vascular imediatamente. Suspeita de irreversibilidade exige avaliação especializada; o interno não decide amputação pelo relógio ou pela CK.
- 3Providencie acesso, analgesia, monitorização, jejum e exames basais sem atrasar o contato. ECG ajuda a investigar a causa, mas um traçado normal não exclui embolia cardíaca.
- 4HNF IV deve ser iniciada prontamente pela equipe responsável se indicada e sem contraindicação, com dose, apresentação IV e monitorização conferidas. Não esperar indefinidamente uma ligação para iniciar o protocolo local supervisionado.
- 5Mantenha proteção do membro, sem compressão ou calor direto; ajuste posição e fluidos à perfusão global. Oxigênio conforme oxigenação e condição clínica.
- 6Escolha imagem e transporte com a equipe receptora; na ameaça imediata, nenhum exame de conveniência pode atrasar reperfusão. Reexamine durante a espera e comunique qualquer progressão.
- 7Após reperfusão, acompanhe dor, compartimentos, sensibilidade, força, diurese, potássio, função renal e CK. Pulso presente não exclui síndrome compartimental.
- 8Suspeita clínica de síndrome compartimental exige chamada e descompressão urgentes pela equipe, sem esperar CK elevada. Investigue a etiologia e organize prevenção secundária e recuperação funcional.
Os seis sinais: o que cada um mede, e onde cada um engana
| Sinal | O que você faz na maca | O que ele decide | Onde ele engana |
|---|---|---|---|
| Dor | Pergunta início, ritmo e se mudou | Quase nada sobre gravidade; muito sobre o relógio | Dor que cede num membro ainda frio e sem pulso costuma ser nervo que parou, não membro que melhorou |
| Palidez | Compara a cor com a do outro membro e procura mosqueado | Que existe hipoperfusão, e em que nível ela começa | Mosqueado que não empalidece à compressão é bem mais grave que palidez uniforme, e os dois são descritos como "pálido" |
| Ausência de pulso | Palpa os quatro pulsos dos dois lados; confirma com Doppler | Que há oclusão arterial, e aproximadamente onde | Está presente tanto no membro viável quanto no de ameaça imediata: não separa urgência nenhuma |
| Frio | Encosta o dorso da mão nos dois pés e sobe até achar o nível | Que existe isquemia; o nível aproximado | Ambiente frio esfria os dois pés; o que vale é a diferença entre eles, não a sensação absoluta |
| Alteração sensitiva | Toque leve no dorso do hálux, comparado com o outro pé, olhos fechados | Se o membro saiu de viável para ameaçado — e se a alteração passou dos dedos, a faixa de gravidade | "Você sente?" quase sempre recebe sim; a pergunta útil é "aqui e aqui é igual?" |
| Perda de força | Movimento ativo de dedos e tornozelo, comparado com o outro lado | Ameaça imediata quando há fraqueza; irreversibilidade quando há paralisia com anestesia | Menos movimento por dor não é paresia; rigidez que impede o movimento passivo não é fraqueza, é sinal muito mais grave |
As quatro categorias de gravidade, e o que cada uma dispara
| Categoria | Sensibilidade | Força | Doppler arterial / venoso | O que acontece agora |
|---|---|---|---|---|
| Viável | Normal | Normal | Audível / audível | Sem ameaça imediata. Avaliação vascular urgente, imagem antes de intervir, tempo para planejar |
| Ameaça marginal | Nenhuma ou mínima, restrita aos pododáctilos | Normal | Inaudível / audível | Salvável se tratado prontamente. Vascular agora; a régua admite trombólise dirigida por cateter como alternativa à cirurgia nesta faixa |
| Ameaça imediata | Alterada além dos pododáctilos | Fraqueza leve a moderada | Inaudível / audível | Salvável se revascularizado prontamente. Transferência urgente; a régua diz que a revascularização é obrigatória quando há perda motora |
| Irreversível | Anestesia profunda | Paralisia profunda, podendo haver rigidez | Inaudível / inaudível | Perda tecidual maior e lesão nervosa permanente inevitáveis. A conversa deixa de ser sobre revascularizar |
Êmbolo ou trombose sobre placa: onde a pista está
| Onde olhar | Aponta para êmbolo | Aponta para trombose sobre placa |
|---|---|---|
| Instalação | Súbita, com hora que o paciente sabe dizer | Súbita, mas frequentemente sobre queixa que já existia e piorou |
| História da perna | Andava normalmente; nenhuma dor prévia ao caminhar | Claudicação intermitente conhecida, distância que vinha encurtando, às vezes dor de repouso |
| Membro contralateral | Pulsos cheios, pele com pelos, temperatura normal | Pulsos diminuídos, pele fina, sem pelos, unhas espessadas — doença dos dois lados |
| Coração e antecedentes | Fibrilação atrial, prótese valvar, infarto recente com trombo mural, doença valvar reumática | Tabagismo, diabetes, dislipidemia, revascularização periférica prévia |
| Gravidade ao chegar | Tende a ser mais dramática e mais precoce: leito bom, sem colateral para amortecer | Tende a ser menos profunda: anos de colateral entregando algum fluxo |
| Por que isso importa | Muda a via que o cirurgião escolhe, o prognóstico e a investigação da fonte depois | Muda a via, e desloca o seguimento para a doença aterosclerótica de base |
| O que NÃO muda | A conduta das suas próximas duas horas | A conduta das suas próximas duas horas |
Conversão dos fármacos deste capítulo num adulto de 70 kg, contra a apresentação real
| Fármaco e apresentação | Componente da Rename 2024 | Dose de referência | Volume | Unidades da apresentação |
|---|---|---|---|---|
| HNF em solução com via IV confirmada, exemplo 5.000 UI/mL | Conferir produto e fornecimento local | Bolus fixo de 5.000 UI | 1,00 mL | Volume antes da diluição prescrita; dupla checagem, sem extrapolar ampola SC de 5.000 UI/0,25 mL |
| HNF em solução com via IV confirmada, exemplo 5.000 UI/mL | Conferir produto e fornecimento local | 70 UI/kg = 4.900 UI | 0,98 mL | Volume antes da diluição prescrita; dupla checagem, sem extrapolar ampola SC de 5.000 UI/0,25 mL |
| HNF em solução com via IV confirmada, exemplo 5.000 UI/mL | Conferir produto e fornecimento local | 100 UI/kg = 7.000 UI | 1,40 mL | Volume antes da diluição prescrita; dupla checagem, sem extrapolar ampola SC de 5.000 UI/0,25 mL |
| Cloridrato de protamina 10 mg/mL | Básico | Neutralizar 5.000 UI (1 mg : 100 UI) | 5,00 mL | 50 mg |
| Dipirona 500 mg/mL solução injetável | Básico | Dose única mínima da bula: 2 mL = 1 g | 2 mL | 1 ampola de 2 mL; ≥ 2 min de infusão |
| Dipirona 500 mg/mL solução injetável | Básico | Dose única máxima da bula: 5 mL = 2,5 g | 5 mL | 1 ampola de 5 mL; ≥ 5 min de infusão |
| Enoxaparina sódica 40 mg/0,4 mL e 60 mg/0,6 mL | Especializado — norteador é o protocolo de gestantes com trombofilia | Sem dose para esta indicação | — | Não disponível por esta via para isquemia aguda |
| Alteplase, estreptoquinase, uroquinase, tenecteplase | Acesso hospitalar e protocolo específicos; verificar com a farmácia | — | — | Não inferir ausência na rede a partir de busca em uma lista; agentes não são intercambiáveis para trombólise dirigida. |
Aprofundamento documental — leitura complementar. Fasciotomia: três relógios no mesmo capítulo da mesma diretriz. A recomendação de grau intermediário, baseada em consenso, diz que a fasciotomia deve ser considerada o mais rapidamente possível e sempre dentro de duas horas. A recomendação de grau contrário, com duas referências, diz que atrasar a fasciotomia mais de seis horas não é recomendado. As duas contam a partir do diagnóstico da síndrome compartimental. E o texto corrido da mesma página diz que as fasciotomias devem ser realizadas dentro de oito horas após o desenvolvimento da síndrome — que é outro evento inicial, anterior ao diagnóstico. A conta: entre o alvo de 2 h e o teto de 6 h há 4 h de diferença, um fator de 3. E a instrução mais restritiva é a de grau mais fraco. Para o interno, a leitura segura é a mais apertada — porque nenhuma das três autoriza esperar.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Ainda na fasciotomia, um achado de tipografia que vale registrar porque atrapalha quem consulta o documento: na tradução portuguesa, as recomendações do bloco aparecem impressas na ordem 39, 40, 41, 43, 42 — a de número 43 vem antes da de número 42. Quem procura a recomendação 42 pela ordem numérica passa direto por ela. Conferido no texto extraído do PDF, com espaço e hífen normalizados.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Heparina: a mesma frase da diretriz dá duas doses de ataque que não coincidem. Ela manda dose inicial de 5.000 UI, ou 70 a 100 UI/kg. Num adulto de 70 kg a faixa por peso é 4.900 a 7.000 UI, e a dose fixa de 5.000 UI cai dentro dela. Mas as duas regras se separam fora de uma janela estreita: abaixo de 50 kg a dose fixa estoura o teto de 100 UI/kg, e acima de 71,4 kg ela fica abaixo do piso de 70 UI/kg. Num paciente de 100 kg, a dose fixa equivale a 50 UI/kg — 29% abaixo do piso da própria faixa. Contas refeitas em Python.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Heparina, segunda conta, esta com consequência de beira de leito. A única apresentação de heparina da Rename 2024 é 5.000 UI/0,25 mL, ou seja 20.000 UI/mL. O bolus fixo de 5.000 UI equivale a 0,250 mL, exatamente uma ampola. Mas o bolus por peso num adulto de 70 kg pede de 0,245 mL a 0,350 mL: o piso exige aspirar 98% de uma ampola, e o topo exige 1,4 ampola. Uma dose que não fecha em número inteiro de ampolas, num volume de fração de mililitro, é uma dose que erra — e é uma das razões pelas quais a decisão de heparinizar e a dose são de quem vai receber o paciente, e não do interno sozinho.
Aprofundamento documental — leitura complementar. O que o SUS entrega, verificado termo a termo dentro da Rename 2024 sobre o texto sem acento, sem hífen e com espaço colapsado, e não por impressão de leitura. Três cópias do documento foram normalizadas e comparadas: as três resultaram em 227.697 caracteres idênticos, de modo que as contagens abaixo valem para o documento e não para uma cópia. Heparina sódica: Componente Básico. Cloridrato de protamina 10 mg/mL, o antídoto: Componente Básico. Dipirona nas três formas: Componente Básico. Varfarina 1 mg e 5 mg e ácido acetilsalicílico 100 mg: Componente Básico.
Aprofundamento documental — leitura complementar. O que o SUS não entrega, e isso muda conduta. Alteplase, estreptoquinase, uroquinase e tenecteplase têm zero ocorrência na Rename 2024 — nenhuma delas, em nenhuma forma, em nenhum componente. Ou seja: a trombólise dirigida por cateter, que a régua estrangeira recomenda com grau forte e nível de evidência alto como alternativa à cirurgia na categoria de ameaça marginal, não tem fármaco no elenco nacional de medicamentos essenciais. Onde ela é oferecida no país, é por outra via de aquisição que não a Rename.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Ainda sobre disponibilidade, dois casos de fármaco que existe no elenco mas está amarrado a outra indicação. A enoxaparina sódica, nas apresentações de 40 mg/0,4 mL e 60 mg/0,6 mL, está no Componente Especializado, e o documento norteador declarado ao lado dela é o protocolo de prevenção de tromboembolismo venoso em gestantes com trombofilia — não há, por essa via, enoxaparina para isquemia arterial aguda. O sulfato de morfina e o fosfato de codeína também estão no Especializado, e o norteador dos dois é o protocolo de dor crônica. A analgesia adequada é recomendada com grau forte para o paciente que aguarda revascularização; o analgésico do Componente Básico efetivamente à mão é a dipirona.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Dipirona, e um choque interno de bula que o interno precisa conhecer porque prescreve isso toda noite. A bula profissional de dipirona monoidratada 500 mg/mL recomenda, para adultos acima de 15 anos, dose única de 2 a 5 mL, com máxima diária de 10 mL. A mesma bula adverte que a indicação de doses únicas maiores que 1 g por via parenteral deve ser cuidadosamente considerada — e 1 g são exatamente 2 mL. Logo, a faixa recomendada começa no próprio limiar de cautela e vai até 2,5 g, ou 2,5 vezes esse limiar. Segunda conta, sobre o intervalo: o teto diário de 10 mL comporta duas doses de 5 mL, três de 3 mL ou cinco de 2 mL. Prescrever 5 mL de seis em seis horas soma 20 mL, o dobro do teto diário declarado pela mesma bula. Terceira: a velocidade intravenosa não pode exceder 1 mL por minuto, então 5 mL levam no mínimo cinco minutos de injeção — o que na prática significa que a dose alta não é compatível com "fazer rápido".
Aprofundamento documental — leitura complementar. Protamina, o antídoto, e uma razão dada na unidade errada. A bula de heparina consultada informa que cada 1 mL de protamina inativa 1.000 UI de heparina sódica. A razão está expressa em volume, e não em massa — e volume só significa alguma coisa se a concentração for conhecida. Com a apresentação da Rename, de 10 mg/mL, 1 mL são 10 mg, e a regra equivale a 1 mg de protamina para cada 100 UI de heparina, que é a razão clássica: a conta fecha. Mas ela fecha por coincidência de apresentação. Num serviço que estoque protamina em outra concentração, seguir a bula ao pé da letra erra a dose por um fator igual à razão entre as concentrações. Neutralizar um bolus de 5.000 UI são 50 mg, ou 5 mL da apresentação de 10 mg/mL.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Creatina cinase: a mesma diretriz usa e proíbe. Ela cita que níveis de 5.000 a 10.000 UI/L indicam lesão de isquemia-reperfusão grave e síndrome compartimental, com risco de falência renal aguda, e que o diagnóstico de rabdomiólise ocorre com 20.000 UI/L — o corte de rabdomiólise é 4 vezes o piso e 2 vezes o topo da faixa de lesão grave. E, em recomendação de grau contrário, proíbe usar mioglobina e creatina cinase da admissão para decidir entre revascularizar e amputar. As duas coisas convivem porque as perguntas são diferentes: estimar risco, pode; decidir amputação, não.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Epidemiologia: uma conferência que passou e uma que incomoda. A que passou: no inquérito de altas dos Estados Unidos, a contagem bruta de internações cai 38,6% entre os dois períodos, mas a incidência declarada cai 45,0%; as duas séries só são compatíveis se a população cresceu, e as populações implícitas — 257,7 e 287,9 milhões — batem com a população norte-americana de 1992 e de 2002. A que incomoda: na série do seguro público de idosos, somando revascularização aberta e endovascular chega-se a 72,1% no período antigo e 85,7% no recente, restando 27,9% e 14,3% de pacientes sem revascularização registrada de nenhum tipo; e a mortalidade em um ano não caiu (41,0% contra 42,5%), enquanto a hospitalar caiu de 12,0% para 9,0%. O documento não decompõe o grupo sem revascularização.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Classificações, e uma correção de leitura que este capítulo precisa fazer com cuidado. Na diretriz brasileira de doença arterial periférica de 2024, a palavra Fontaine tem zero ocorrência, conferida com acento, hífen e espaço removidos — o que sustenta a afirmação, registrada pelo capítulo A dor que só existe andando, de que os documentos brasileiros vigentes não a adotam. Só que existe um documento brasileiro anterior da mesma sociedade, com elaboração final declarada em novembro de 2015, que apresenta Fontaine e Rutherford lado a lado num quadro comparativo, e que continua publicado e acessível no site da sociedade sem carimbo de revogação. Ele foi substituído em matéria pela diretriz de 2024, mas não formalmente. Registre-se ainda que esse documento de 2015 tem zero ocorrência das palavras aguda, agudo, embolia e trombólise: ele não trata deste capítulo de forma alguma.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Uma ressalva que a própria régua estrangeira faz sobre a própria tabela de gravidade, e que quase nunca é reproduzida junto com ela. A tabela é declarada réplica idêntica da publicada em 1997, com exceção de duas notas de rodapé: a versão original afirmava que os sons arteriais ao Doppler nunca estão presentes na categoria de ameaça marginal e que a rigidez está sempre presente na categoria irreversível, e o comitê de 2020 registra que existem exceções a essas duas regras e que uma pequena modificação da classificação pode ser apropriada no futuro. Ou seja: os autores publicaram a régua e, no rodapé, relativizaram dois dos seus absolutos.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Licenças conferidas, cada uma no próprio documento e com busca insensível a espaço e hífen, porque a extração de PDF cola palavras. Rename 2024: Creative Commons Atribuição – Não Comercial – Compartilhamento pela mesma licença 4.0 Internacional, com reprodução parcial ou total permitida desde que citada a fonte; as buscas por "todos os direitos reservados", "reprodução permitida" e "vedada a reprodução" retornaram zero. Diretriz brasileira de doença arterial periférica de 2024 e carta ao editor de 2023, ambas no Jornal Vascular Brasileiro: Creative Commons Attribution, declarada na primeira página. Documento da sociedade brasileira de 2015: nenhuma cláusula de licença ou de direitos reservados localizada no texto extraído.
A conduta, hora a hora
Abaixo, hora a hora, o que aconteceu com o senhor Osvaldino entre o chamado da enfermeira e a saída da ambulância. Nenhum dos marcos abaixo revasculariza o membro. Todos eles determinam o estado em que o membro chega a quem revasculariza, e quanto tempo terá passado — que são as duas únicas variáveis sobre as quais você tem poder.
Duas observações antes de começar. A primeira: como não existe régua nacional para esta doença, a conduta abaixo segue a diretriz europeia de 2020 e o protocolo do serviço, e cada decisão está marcada com a força que a régua lhe dá. A segunda: os horários são reais no sentido de que a soma deles importa. Do reconhecimento à saída da ambulância passa uma hora e meia neste exemplo, e uma hora e meia é um quarto da janela em que esse membro ainda é salvável.
23h52 — os primeiros três minutos
Antes de qualquer coisa, duas perguntas e uma comparação. Quando começou — perguntada com âncora concreta, não com "há quanto tempo", porque "há quanto tempo" recebe uma estimativa e a âncora recebe uma hora. O senhor Osvaldino ancorou no fim do jogo: por volta das 21h. E a comparação: as duas mãos nos dois pés ao mesmo tempo. A diferença de temperatura entre os pés é o achado que converte uma queixa de dor em perna numa suspeita de oclusão arterial, e ela leva três segundos. Registre imediatamente as duas horas — a de início e a do seu exame — porque a partir daqui tudo o que você anotar vale pela distância entre elas. Neste caso: quase três horas decorridas.
Prescrição- Monitorização não invasiva contínua e oximetria de pulso
- Manter o paciente em decúbito, sem elevar o membro afetado
- Nada por via oral — dieta zero a partir de agora
23h58 — o exame que classifica
Os quatro pulsos de cada lado, o nível onde a temperatura muda, a sensibilidade do dorso do hálux comparada com a do outro pé, a força dos dedos e do tornozelo, e o Doppler de bolso nos dois pés procurando sinal arterial e sinal venoso. Isso é o exame inteiro, e ele cabe em cinco minutos. No senhor Osvaldino: femoral direito presente e forte; poplíteo, tibial posterior e pedioso ausentes. Esfriamento a partir do terço médio da coxa. Sensibilidade do hálux direito diminuída em relação ao esquerdo, e a alteração passa dos dedos. Movimento ativo dos dedos presente, mas fraco. Ao Doppler, sinal arterial inaudível no pé direito e sinal venoso audível. Isso é ameaça imediata: alteração sensitiva além dos pododáctilos, com fraqueza leve. É a categoria em que a régua diz que a revascularização é obrigatória, e em que a transferência é urgente. Anote sensibilidade e força com a hora ao lado — 23h58 —, porque a próxima medida só vale se houver uma anterior para comparar.
00h05 — o telefonema, que vem antes da imagem
Discar para o vascular de referência é o próximo passo, e não pedir tomografia. A régua condiciona a imagem a não atrasar o tratamento, e a única pessoa que pode dizer se a imagem atrasa é quem vai operar. Ligue você mesmo, não delegue, e tenha na mão o que ele vai perguntar. A ligação, em ordem: idade e comorbidades em uma frase; hora de início — por volta das 21h; hora do exame — 23h58; a categoria — ameaça imediata; sensibilidade alterada além dos dedos e força reduzida, com a hora; femoral presente, poplíteo ausente, esfriamento no terço médio da coxa; Doppler arterial inaudível e venoso audível; fibrilação atrial com anticoagulação interrompida há dois meses, o que aponta para mecanismo embólico; função renal ainda pendente; distância de 140 km e tempo de transporte estimado. Faça a pergunta que economiza uma hora: ele quer a angiotomografia feita aqui antes de sair, ou prefere fazer lá? E a segunda: ele quer que a heparina comece agora, e em que dose?
00h10 — acesso, coleta e uma punção só
Dois acessos venosos periféricos calibrosos, ambos no membro superior, e a coleta feita na mesma punção. Evite puncionar o membro isquêmico para qualquer finalidade e evite a punção arterial de conveniência daquele lado — uma artéria puncionada é uma artéria que o cirurgião talvez precise usar como acesso, e um hematoma na virilha isquêmica é uma complicação evitável. O eletrocardiograma de doze derivações entra aqui, e entra por dois motivos: documenta a fibrilação atrial que sustenta a hipótese embólica e afasta supradesnivelamento de segmento ST, porque um infarto com trombo mural é a segunda fonte embólica mais comum e mudaria completamente o transporte.
Prescrição- Dois acessos venosos periféricos calibrosos em membros superiores
- Hemograma, coagulograma, ureia, creatinina, sódio, potássio
- Creatina cinase e gasometria venosa com lactato
- Tipagem sanguínea com prova cruzada
- Eletrocardiograma de 12 derivações agora
00h15 — heparinizar: o que a régua diz e o que ela admite
A recomendação é de grau forte: em pacientes com isquemia aguda de membro aguardando revascularização, a heparinização é recomendada. O esquema descrito no corpo da diretriz é heparina não fracionada intravenosa, dose inicial de 5.000 UI ou de 70 a 100 UI/kg, seguida de infusão ajustada à resposta e monitorizada por tempo de tromboplastina parcial ativada, com o objetivo de reduzir embolia consequente, impedir a propagação do coágulo e fornecer efeito anti-inflamatório. E a própria diretriz registra, na frase seguinte, que embora essa abordagem seja amplamente aceita, nenhum estudo randomizado foi realizado para confirmar o benefício da heparina não fracionada nesta doença, e nenhum a comparou com outros anticoagulantes. Há mais: num ensaio randomizado dos anos 1980, pacientes operados por embolia que receberam anticoagulação plena não mostraram benefício óbvio, com aumento esperado das complicações hemorrágicas. Por isso este marco é dos poucos do capítulo em que o interno não decide sozinho. A recomendação existe e é forte; a evidência que a sustenta é de consenso; e há contraindicações a checar — sangramento ativo, trauma craniano recente, plaquetopenia, história de trombocitopenia induzida por heparina. Confirme a indicação e a dose na ligação, faça, e anote a hora e a dose exata: a equipe que vai trombolisar ou operar precisa saber quanto de heparina já circula e desde quando. Um dado que justifica a insistência: num estudo com pacientes transferidos em categoria de ameaça imediata, embora tivessem recebido heparina antes da transferência, apenas 58% atingiram níveis terapêuticos — e os que não atingiram tiveram maior taxa de reintervenção. Todo o trabalho do interno ocorre sob supervisão, inclusive os demais marcos. A força da evidência não determina autonomia profissional. O médico responsável pode iniciar a heparinização pelo protocolo local enquanto a referência vascular é acionada.
Prescrição- HNF IV conforme nomograma e decisão do médico responsável, prontamente na ausência de contraindicação; confirmar via e concentração com dupla checagem. Acionamento vascular ocorre em paralelo e não deve criar espera indefinida por autorização remota.
- Anotar no prontuário a dose exata e o horário do bolus
- Checar contraindicações antes de infundir: sangramento ativo, TCE recente, plaquetopenia, história de trombocitopenia induzida por heparina
00h20 — o resto do tratamento inicial, e o que nunca se faz
A régua sustenta três medidas simples com grau forte, todas para o paciente que aguarda revascularização: analgesia adequada, re-hidratação intravenosa e oxigenação suplementar. E o corpo do texto acrescenta uma quarta, que não é recomendação numerada mas é a única orientação de posição do documento inteiro: abaixar a extremidade dos pés da cama, ou seja, posição anti-Trendelenburg. A lógica da posição é de pressão de perfusão: um membro cuja pressão distal já é insuficiente perde ainda mais quando é elevado contra a gravidade, e ganha algum milímetro de mercúrio quando fica pendente. Por isso nunca eleve o membro isquêmico — e não é preciso pendurar a perna para fora da maca, basta inclinar a cama. O senhor Osvaldino, aliás, já tinha descoberto isso sozinho. Sobre não aquecer: mantenha o paciente aquecido e o ambiente aquecido, e não aplique calor diretamente sobre a pele isquêmica. Bolsa de água quente, compressa quente e qualquer fonte térmica sobre pele fria, mal perfundida e com sensibilidade diminuída queimam sem que o paciente reclame — é justamente a sensibilidade alterada que remove o aviso. Registre-se, para honestidade documental, que essa proibição específica não aparece na diretriz europeia consultada, que nada diz sobre aquecimento externo; ela é ensino consolidado e leitura deste capítulo a partir do próprio mecanismo, e não citação da régua.
Prescrição- Dipirona 500 mg/mL, 2 mL (1 g) IV lento, em não menos que 2 minutos, se dor — reavaliar em 30 min
- Oxigênio suplementar sob cateter nasal
- Cristaloide isotônico IV em infusão contínua, titulado ao estado volêmico
- Cama em posição anti-Trendelenburg — pés abaixo do nível do coração
- Manter o paciente e o ambiente aquecidos; proibido calor direto sobre o membro
- Não elevar, não comprimir e não puncionar o membro afetado
00h40 — o reexame que existe para mudar a categoria
Quarenta minutos depois do primeiro exame, refaça sensibilidade, força e Doppler, e anote de novo com hora. Este marco não é burocracia: é o único mecanismo que o serviço tem para detectar que o membro saiu de uma categoria e entrou noutra enquanto o transporte era organizado — e essa mudança reordena a prioridade do outro lado da linha. No senhor Osvaldino, às 00h40, a sensibilidade do antepé está mais reduzida e a força dos dedos continua fraca, sem paralisia. A categoria não mudou, mas a tendência é de piora, e isso é informação: você liga de volta e diz exatamente isso, com as duas medidas e as duas horas. "Piorou" não é dado; "sensibilidade que às 23h58 estava diminuída e às 00h40 está mais reduzida, com força mantida fraca" é dado. Se, em algum reexame, aparecer anestesia profunda com paralisia e o Doppler perder também o sinal venoso, a conversa muda de assunto — deixa de ser sobre revascularizar e passa a ser sobre o paciente. Isso é decisão do cirurgião vascular, tomada com a família, e não do interno; mas é você quem produz o dado que a dispara.
Prescrição- Reexame de sensibilidade, força e Doppler a cada 30 a 60 minutos até a transferência, cada um anotado com hora
01h20 — o que sai junto com o paciente
A ambulância leva o paciente; o que decide a hora seguinte é o papel que vai com ele. Escreva um resumo curto e cronológico, e não uma evolução narrativa: hora de início dos sintomas com a âncora que a produziu; a sequência de exames de sensibilidade e força com os respectivos horários; quais pulsos estavam presentes e a partir de onde sumiram; achados do Doppler nos dois pés; a hipótese etiológica com o que a sustenta; a hora e a dose exata da heparina; a hora da última refeição; função renal se já resultou; e o nome e o horário do contato vascular. Vá com o paciente, se a escala permitir, ou garanta que quem vai sabe o que observar. E deixe combinado o retorno da informação: se ele for direto para a sala, alguém precisa avisar este serviço, porque a hora da reperfusão é o marco zero de tudo o que este capítulo ainda vai discutir sobre síndrome compartimental.
Prescrição- Resumo de transferência cronológico, com todos os horários
- Cópia do eletrocardiograma e dos exames já resultados
- Contato nominal e horário do cirurgião vascular receptor
- Manter heparina, oxigênio, hidratação e posição durante o transporte
Como saber se está funcionando
Há dois momentos de reavaliação neste capítulo, e eles medem coisas diferentes. Antes da revascularização, você mede se o membro está saindo de categoria. Depois da revascularização, você mede se o membro e o rim estão sofrendo com o sangue que voltou. Os parâmetros abaixo cobrem os dois, e a coluna de prazo diz a qual dos dois momentos cada um pertence.
A regra comum aos dois momentos é a mesma: cada medida vale pela anterior. Um valor isolado de sensibilidade, de força ou de creatina cinase não diz nada; a série diz tudo.
Esperado: Estável antes da revascularização; recuperação progressiva depois dela
Se não melhora: Piora antes da revascularização reordena a prioridade — telefone de volta com as duas medidas e os dois horários. Perda que aparece ou se aprofunda depois da reperfusão sugere síndrome compartimental, e não falha da artéria
Esperado: Estável antes; recuperação lenta depois, ao longo de dias
Se não melhora: Fraqueza que surge ou progride depois da reperfusão é o achado mais importante do pós-operatório imediato: comunique imediatamente, porque a fasciotomia tem relógio próprio a partir do diagnóstico
Esperado: Reaparecimento do sinal arterial após revascularização bem-sucedida
Se não melhora: Sinal que reaparece e depois some é reoclusão até prova em contrário, e é emergência cirúrgica; sinal venoso que também some, em qualquer momento, é o achado do membro irreversível
Esperado: Redução da dor isquêmica após a reperfusão
Se não melhora: Dor desproporcional e dor à mobilização passiva num membro já revascularizado é síndrome compartimental até prova em contrário. Dor que cede sozinha num membro ainda frio e sem pulso é nervo que parou, e deve ser escrita assim no prontuário para não ser lida como melhora
Esperado: Compartimentos depressíveis, sem aumento de volume
Se não melhora: Compartimento tenso é diagnóstico clínico, e a régua recomenda o exame clínico com grau forte exatamente para isso; a medida de pressão intracompartimental fica como recurso de grau fraco, para quando o diagnóstico clínico é incerto
Esperado: Débito urinário preservado, urina clara
Se não melhora: Urina escura, cor de chá ou de refrigerante, com queda de débito, é mioglobinúria — a mioglobina precipita nos túbulos e pode causar necrose tubular e falência renal. Comunique e reavalie hidratação
Esperado: Potássio estável, creatinina estável, creatina cinase em queda após o pico
Se não melhora: Oligúria, hipercalemia e CK crescente exigem avaliação imediata de reperfusão, rabdomiólise, volemia e lesão renal. No contexto apropriado, CK >5 vezes o limite superior ou >1.000 UI/L apoia rabdomiólise; não esperar 20.000 UI/L. A CK pode subir tardiamente e não decide isoladamente fasciotomia, revascularização ou amputação.
Onde o erro machuca
O dano: Trata seis achados de pesos muito diferentes como itens equivalentes de uma lista. Um paciente com dor, palidez, ausência de pulso e frio — quatro dos seis — pode ter um membro viável; outro com dor, ausência de pulso e alteração sensitiva que passou dos dedos — três dos seis — tem um membro sob ameaça imediata. Quem soma sinais telefona com a urgência errada, e a urgência errada define quando a sala é liberada.
Como pegar a tempo: Não conte. Classifique. Só duas coisas graduam: a sensibilidade e a força, comparadas com o outro lado, com a informação de se a alteração sensitiva ultrapassou os pododáctilos. Escreva no prontuário a categoria e os dois achados que a sustentam, e não a contagem.
O dano: Consome o intervalo em que o membro ainda é salvável para produzir um exame cuja indicação e cujo momento pertencem a quem vai operar. A própria régua condiciona a imagem a não atrasar o tratamento. Pior: em serviço sem vascular, a imagem frequentemente é refeita no destino, de modo que o paciente recebe contraste duas vezes e perde a primeira hora.
Como pegar a tempo: Telefone primeiro, e faça duas perguntas na mesma ligação: ele quer a imagem feita aqui antes do transporte, ou lá? E ele quer heparina agora, em que dose? A imagem entra depois dessa resposta, e não antes dela.
O dano: Num território cuja pressão distal já é insuficiente, erguer o membro contra a gravidade subtrai o pouco que resta; a única orientação de posicionamento da diretriz vai no sentido inverso, mandando baixar a extremidade dos pés da cama. Calor direto sobre pele fria, mal perfundida e com sensibilidade diminuída produz queimadura sem que o paciente reclame — é a própria alteração sensitiva que remove o aviso que normalmente protegeria.
Como pegar a tempo: Cama em anti-Trendelenburg, com os pés abaixo do nível do coração. Paciente e ambiente aquecidos, com cobertor sobre o tronco. Nada de fonte térmica encostada no membro. E deixe isso escrito na prescrição, porque quem aplica a bolsa não é quem examinou a perna.
O dano: É a frase que mais engana o plantão seguinte neste tema. A dor isquêmica pode diminuir porque o nervo que a conduzia parou de funcionar, ou seja, porque o quadro progrediu. Lida isoladamente, a anotação sugere estabilização e adia o telefonema de reavaliação.
Como pegar a tempo: Nunca registre alívio de dor sem registrar, na mesma linha, a sensibilidade, a força e a temperatura naquele momento. Se a dor caiu enquanto a sensibilidade caiu junto, escreva com essas palavras: redução da dor acompanhada de redução da sensibilidade, sugerindo progressão.
O dano: Gasta tempo num resultado que a régua proíbe expressamente usar para essa decisão, em recomendação de grau contrário. E a proibição tem base: a subida da creatina cinase é tardia, o que a torna pouco útil no diagnóstico precoce, e não existem biomarcadores validados para identificar quem precisa de amputação primária.
Como pegar a tempo: Colha na mesma punção dos outros exames, para ter o valor basal do pós-operatório, e siga com o telefonema sem esperar resultado. A decisão sobre viabilidade é do exame físico somado ao tempo decorrido, e a decisão sobre amputação é do cirurgião vascular.
O dano: Sensibilidade e força são variáveis de tendência, e tendência não existe com uma medida. Sem hora, o receptor não consegue saber se o membro está estável há três horas ou se piorou nos últimos vinte minutos — que são situações com prioridades cirúrgicas diferentes. É também o dado que, mais tarde, permite localizar o momento em que a categoria mudou.
Como pegar a tempo: Toda anotação de sensibilidade, força, pulso e Doppler leva a hora ao lado, e o reexame acontece a cada trinta a sessenta minutos até a transferência. Duas linhas com horários diferentes valem mais que um parágrafo bem escrito com nenhum.
O que dizer ao paciente e à família
Três interlocutores aparecem neste capítulo, e a informação que cada um precisa é diferente: o paciente, que está com dor e vai ser transportado; a família, que vai decidir logística e talvez consentimento; e o cirurgião vascular do outro lado da linha, que precisa de dados e não de narrativa. As falas abaixo cobrem os três.
Uma observação sobre o tom. A régua registra que os pacientes com esta doença são frequentemente idosos, que isso dificulta a compreensão da complexidade da situação, e que a dor — muitas vezes controlada com opiáceos — soma-se a essa dificuldade, podendo haver constrangimentos até para a capacidade de assinar consentimento. Ela recomenda que as decisões sejam tomadas de maneira empática e compreensiva, e que os médicos garantam consentimento apropriado. Traduzido para a beira do leito: fale devagar, repita, e inclua um familiar na conversa desde o começo.
Ancorar a hora de início, quando o paciente responde "faz um tempinho"
“"Me ajuda a acertar o horário, que isso aqui é o mais importante de tudo. O senhor estava fazendo o quê quando a perna começou a incomodar? Tinha acabado de jantar? Estava vendo alguma coisa na televisão? Tinha algum programa passando?"”
Não diga: Evite "há quanto tempo começou?", que devolve uma estimativa arredondada, e evite aceitar a primeira resposta vaga. A âncora concreta — um programa, uma refeição, uma ligação — costuma produzir uma hora, e essa hora vale mais para o cirurgião do que qualquer outro dado da sua anotação.
Explicar ao paciente o que está acontecendo, sem termo técnico e sem minimizar
“"Seu Osvaldino, a artéria que leva sangue para essa perna entupiu, e é por isso que ela está fria e dormente. Isso é grave e tem hora para ser resolvido. O senhor vai precisar ir para um hospital que tem cirurgião de vasos, e eu já estou falando com ele agora. Enquanto o carro não chega, eu vou tirar a sua dor e vou examinar a sua perna de novo algumas vezes, para ver se muda alguma coisa."”
Não diga: Evite "o senhor está com uma isquemia arterial aguda" como primeira frase, e evite "vamos ver o que os exames dizem" — porque neste caso os exames não vão dizer, e a frase transfere para o laboratório uma decisão que já está tomada.
Pedir que o paciente avise qualquer mudança, sem transformá-lo em examinador
“"Preciso que o senhor me chame na hora se acontecer uma destas três coisas: se a dor aumentar muito, se a perna ficar mais dormente do que está agora, ou se o senhor não conseguir mais mexer os dedos do pé. Não espere eu voltar. Chame."”
Não diga: Evite pedir que ele "avise se piorar", que é vago demais para ser executado, e evite deixá-lo com a impressão de que a ausência de queixa é sinal de segurança — o membro pode piorar exatamente por parar de doer.
O telefonema para o cirurgião vascular
“"Homem de 74 anos, fibrilação atrial com anticoagulação suspensa há dois meses. Início por volta das 21h, exame às 23h58. Perna direita: femoral presente, poplíteo, tibial posterior e pedioso ausentes; frio a partir do terço médio da coxa. Sensibilidade do antepé diminuída, passando dos dedos; força dos dedos fraca, sem paralisia. Doppler: arterial inaudível, venoso audível. Categoria de ameaça imediata. Estou a 140 quilômetros. Você quer angiotomografia daqui antes de sair, ou lá? E heparina agora, em que dose?"”
Não diga: Evite abrir pelo histórico social e pela evolução narrativa, e evite terminar sem as duas perguntas. Uma ligação que não pergunta imagem e heparina vai precisar de uma segunda ligação, e a segunda ligação sai do tempo do membro.
Explicar à família por que o paciente vai ser transferido agora, de madrugada
“"A cirurgia que resolve isso não existe neste hospital, e não é uma cirurgia que dá para esperar amanhecer. Cada hora que passa conta contra a perna dele. O cirurgião do hospital estadual já sabe do caso e está esperando. Eu vou mandar por escrito tudo o que examinei, com os horários, para que lá eles não precisem começar do zero."”
Não diga: Evite prometer que a cirurgia vai acontecer numa hora determinada, e evite dizer que "lá eles resolvem", porque a resolução depende de achados que ainda não existem. Diga o que é certo: que existe uma janela, que ela está correndo, e que a transferência é a forma de aproveitá-la.
Quando a família pergunta se ele vai perder a perna
“"Eu não sei, e não vou inventar. O que eu sei é que a perna ainda tem sensibilidade e ainda mexe, e isso é a favor. Quem vai poder dizer é o cirurgião, depois de examinar e ver as imagens. O que a gente pode fazer agora é não perder tempo, e é isso que estamos fazendo."”
Não diga: Evite tanto o "vai ficar tudo bem" quanto o "provavelmente vai amputar". A primeira frase cobra caro depois; a segunda antecipa uma decisão que não é sua e que depende de dados que ainda não existem.
Depois da revascularização, explicando por que a perna inchou e por que houve nova cirurgia
“"Quando o sangue voltou para o músculo que ficou sem oxigênio, o músculo inchou. Ele fica dentro de uma capa que não estica, então a pressão lá dentro sobe e aperta a própria circulação que a gente acabou de abrir. O corte que foi feito serve para aliviar essa pressão. Não é que a primeira cirurgia deu errado — é uma complicação conhecida de quando a perna passa muito tempo sem sangue."”
Não diga: Evite chamar a fasciotomia de "pequeno procedimento", porque as feridas são grandes e a família vai vê-las, e evite dar a entender que houve erro na primeira operação. Diga que é consequência do tempo de isquemia, que é o que de fato é.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Recomenda a heparinização para pacientes com isquemia aguda de membro que aguardam revascularização, e descreve no corpo do texto o esquema de heparina não fracionada intravenosa com bolus de 5.000 UI ou de 70 a 100 UI/kg seguido de infusão ajustada à resposta, com os objetivos de reduzir embolia consequente, impedir a propagação do coágulo e fornecer efeito anti-inflamatório. O nível de evidência atribuído a essa recomendação, porém, é o mais baixo da escala.
Diretriz da Sociedade Europeia de Cirurgia Vascular sobre isquemia aguda de membro, fevereiro de 2020 — recomendação de grau forte
Registra que, embora a abordagem seja amplamente aceita, nenhum estudo randomizado foi realizado para confirmar o benefício da heparina não fracionada nesta doença, e nenhum a comparou com outros anticoagulantes. Registra ainda um ensaio randomizado dos anos 1980 em que pacientes operados por embolia e submetidos a anticoagulação plena não mostraram benefício óbvio, com aumento esperado das complicações hemorrágicas.
O mesmo documento de 2020, no texto corrido que acompanha a recomendação
Num grupo transferido em categoria de ameaça imediata, embora tivessem recebido heparina antes da transferência, apenas 58% atingiram níveis terapêuticos — e os que não atingiram tiveram maior taxa de reintervenção. O achado não decide se heparinizar é benéfico; sugere que, quando se decide heparinizar, a dose subterapêutica é o desfecho mais provável.
Estudo observacional de pacientes transferidos, citado pela mesma diretriz de 2020
Não decida sozinho, e não deixe de perguntar. A indicação existe e é formalmente forte, mas a dose, o momento e a própria conveniência dependem do que vai ser feito a seguir — trombólise dirigida por cateter, cirurgia aberta ou transferência longa mudam o cálculo — e dependem de contraindicações que você precisa checar antes: sangramento ativo, traumatismo cranioencefálico recente, plaquetopenia e história de trombocitopenia induzida por heparina. Faça a pergunta na mesma ligação em que informa a categoria, e registre a hora e a dose exata do que foi infundido, porque a equipe que receber precisa saber quanto de heparina já circula e desde quando.
Diagnosticada a síndrome compartimental pós-isquêmica, a fasciotomia deve ser considerada o mais rapidamente possível e sempre dentro de duas horas. É a formulação mais restritiva das três, e é também a que tem o lastro documental mais fraco.
Diretriz europeia de 2020, recomendação de grau intermediário, com o nível de evidência mais baixo e referência declarada de consenso do próprio comitê
Diagnosticada a síndrome, atrasar a realização das fasciotomias mais de seis horas não é recomendado. Conta a partir do mesmo evento inicial da posição anterior — o diagnóstico —, e estabelece um teto três vezes maior que aquele alvo.
O mesmo documento de 2020, recomendação de grau contrário, com duas referências bibliográficas
As fasciotomias devem ser realizadas dentro de oito horas após o desenvolvimento da síndrome, acrescentando que mesmo assim podem ser tardias demais em alguns doentes, e que, se a síndrome está presente há mais de oito horas, provavelmente já é tarde. Aqui o relógio começa no desenvolvimento do quadro, e não no seu reconhecimento — dois momentos separados por um intervalo que ninguém mede.
O mesmo documento de 2020, no texto corrido da mesma página
Para o paciente à sua frente, adote o relógio mais apertado e trate os outros dois como tetos, não como alvos: nenhuma das três formulações autoriza esperar, e a diferença entre duas e seis horas é o intervalo em que se decide se o músculo volta. O que muda a sua conduta é o momento de disparar o alarme, e não o de operar: se num paciente revascularizado a dor ficou desproporcional, a mobilização passiva do pé dói, o compartimento está tenso ou apareceu déficit motor novo, comunique imediatamente e registre a hora — porque é dessa hora que qualquer um dos três relógios passa a contar. Registre também qual dos três você adotou e por quê, para que o plantão seguinte não recomece a discussão.
É o único documento monotemático sobre isquemia aguda de membro disponível, é detalhado, está traduzido para o português e é o que a literatura da especialidade cita. Suas recomendações foram declaradas ainda válidas por documento da própria sociedade europeia em 2022. Contra: é estrangeira, foi escrita para outra realidade assistencial, e a mesma sociedade a lista entre as diretrizes atualmente em revisão.
A régua estrangeira — diretriz da Sociedade Europeia de Cirurgia Vascular, fevereiro de 2020, com tradução para português publicada pela sociedade portuguesa da especialidade em dezembro de 2020
O vizinho registrou que, sem norma nacional da especialidade, quem manda é o documento interno do hospital, cabendo ao cirurgião vascular escolher se anticoagula e por qual via revasculariza. A favor: é o documento que de fato determina o que é possível fazer naquele hospital, e responde por disponibilidade de sala, de material e de fármaco — inclusive pelo fato de que a trombólise recomendada com grau forte pela régua europeia não tem fármaco algum no elenco nacional de medicamentos essenciais. Contra: não é público, varia de serviço para serviço, e frequentemente não existe por escrito.
O protocolo institucional do serviço — posição registrada pelo capítulo A dor que só existe andando, desta mesma apostila
Existe um documento estrangeiro mais recente que inclui a isquemia aguda de membro entre os subconjuntos clínicos da doença arterial periférica. Ele não foi aberto no original para este capítulo, porque o acesso ao texto integral foi recusado pelo servidor do periódico, e por isso o seu conteúdo não é aqui afirmado — nem a classificação de gravidade que adota, nem as suas recomendações. Fica registrado como leitura a fazer, e como limite declarado deste capítulo.
Uma terceira consideração, que não é posição mas afeta as duas — diretriz norte-americana de doença arterial periférica de membros inferiores, de 2024
Para o paciente à frente, use as duas primeiras em camadas e não escolha uma: a régua europeia define o que deveria ser feito e em que ordem — classificar por sensibilidade e força, acionar o vascular antes da imagem, heparinizar, analgesiar, oxigenar, hidratar e posicionar —, e o protocolo do serviço define o que é executável ali naquela madrugada. Onde as duas divergirem por indisponibilidade, o registro no prontuário deve dizer qual conduta era a indicada e por que não foi possível, porque essa é a informação que sustenta o encaminhamento e que, somada, documenta a lacuna assistencial. E, no encaminhamento, cite a régua pelo nome: ela é o argumento de que a transferência é urgente.
O raciocínio, em voz alta
Sábado, 14h10, mesmo hospital regional. Anésio Falcão tem 66 anos, é pedreiro aposentado, fuma desde os quinze e chega andando, apoiado na filha, queixando-se de dor na panturrilha esquerda que começou na sexta de manhã e não passou. São, portanto, cerca de trinta horas. Ele conta que já andava pouco: há uns dois anos precisa parar depois de mais ou menos um quarteirão por causa de uma dor na batata da perna, e que na sexta a dor apareceu andando até a padaria e não foi embora quando ele sentou. Pressão 148 por 86, frequência cardíaca 78 e regular, glicemia capilar 189. Diz que toma remédio para diabetes e pressão, "quando lembra". Você é o interno da clínica médica, e continua não havendo cirurgião vascular nesta casa. Segue o raciocínio de ponta a ponta, em primeira pessoa.
Primeiro eu marco o relógio, e o relógio aqui já mudou o problema
Pergunto com âncora: a dor apareceu na ida à padaria, de manhã, antes do café. São trinta horas, e não três. Isso não tira o caso da definição de agudo — a régua chama de agudo tudo o que tem menos de duas semanas de evolução —, mas muda a expectativa. Um membro que está assim há trinta horas e ainda tem o paciente andando sobre ele não é o membro de um êmbolo em artéria limpa. Alguma coisa está entregando fluxo. Isso já é uma pista de mecanismo, colhida antes de encostar nele.
Encosto nos dois pés, e os dois estão errados
O pé esquerdo é frio e pálido, com enchimento capilar lento. Mas o direito também não é normal: é fresco, com pele fina, sem pelos no dorso e unhas espessadas. Palpo os pulsos dos dois lados. À esquerda: femoral presente, poplíteo ausente, tibial posterior e pedioso ausentes. À direita: femoral presente, poplíteo diminuído, tibial posterior fino, pedioso não palpável. Este é o achado que organiza o caso, e é a razão pela qual examinar o lado que não dói não é formalidade. O membro contralateral também é doente, o que quer dizer que este paciente tem leito arterial ruim dos dois lados. Somado à claudicação de dois anos, ao tabagismo e ao diabetes, aponta para trombose sobre placa, e não para êmbolo.
Faço as duas perguntas que graduam, e é aqui que o caso se decide
Toque leve no dorso do hálux esquerdo, olhos fechados, comparado com o direito: ele diz que sente dos dois lados, e que é parecido. Testo pontualmente os pododáctilos: refere leve diferença no primeiro e segundo dedos, sem alteração no restante do pé. Peço movimento ativo: ele flete e estende os dedos e o tornozelo esquerdo com força normal, comparável ao direito. Sensibilidade minimamente alterada e restrita aos dedos, sem qualquer perda de força. Passo o Doppler de bolso: sinal arterial inaudível no pedioso e no tibial posterior esquerdos, sinal venoso audível. À direita, sinal arterial presente, amortecido. Isso é ameaça marginal, e não ameaça imediata. Membro salvável se prontamente tratado. É uma categoria abaixo do senhor Osvaldino, apesar de dez vezes mais tempo de evolução — e a explicação é a colateral que ele passou dois anos construindo enquanto claudicava.
Telefono, e telefono com a categoria certa
Ligo para o vascular de referência às 14h35. Digo: 66 anos, tabagista, diabético, claudicação de dois anos, início há trinta horas, andando; à esquerda femoral presente e poplíteo ausente; sensibilidade minimamente alterada e restrita aos dois primeiros pododáctilos, força preservada; Doppler arterial inaudível, venoso audível; ameaça marginal. Contralateral com pulsos diminuídos e sinais crônicos, o que sugere trombose sobre placa e não embolia. Ele pergunta duas coisas que eu não teria antecipado se não tivesse examinado direito: se há úlcera ou lesão trófica em qualquer dos pés — não há, e eu já tinha inspecionado os espaços interdigitais e os calcanhares de ambos os pés — e se o paciente já foi revascularizado antes, porque enxerto ocluído tem conduta diferente. Não foi. Ele pede a angiotomografia aqui, já que o transporte só sai daqui a duas horas e o tomógrafo está livre, e pede heparina.
Faço o que cabe ao intervalo, e faço na dose que confirmei
Dois acessos em membros superiores, coleta única com hemograma, coagulograma, ureia, creatinina, eletrólitos, creatina cinase e tipagem com prova cruzada. Eletrocardiograma: ritmo sinusal, sem supradesnivelamento — o que não exclui fibrilação atrial paroxística, trombo intracardíaco ou outra fonte embólica; a hipótese etiológica exige história e investigação complementar. Heparina não fracionada na dose confirmada na ligação, com hora e dose anotadas no prontuário. Oxigênio, cristaloide, dieta suspensa. Analgesia: no exemplo adulto, dipirona 1 g IV lenta, após contraindicações e avaliação hemodinâmica, com intervalo e máximo registrados — por exemplo, a cada 6 horas e máximo de 4 g/dia neste plano. Dor isquêmica intensa pode exigir opioide titulado e monitorização; não escolher a dose para “caberem cinco aplicações” em um teto de bula. Registrar o que já foi administrado durante transferência e cirurgia para evitar duplicação. Cama em anti-Trendelenburg. Cobertor no tronco, nada de bolsa quente na perna. Escrevo na prescrição que o membro não deve ser elevado nem comprimido, e que não se deve puncionar aquele lado.
Reexamino, e o reexame é o que eu entrego junto com o paciente
15h20: sensibilidade e força inalteradas, Doppler igual. 16h05: idem. A angiotomografia mostra oclusão femoral superficial esquerda longa, com calcificação difusa nos dois eixos ilíacos e femorais e reenchimento poplíteo distal por colaterais — imagem compatível com a leitura clínica. Escrevo o resumo cronológico: início sexta de manhã, ancorado na ida à padaria; exames de sensibilidade e força às 14h20, 15h20 e 16h05, todos estáveis, com os achados de cada um; pulsos e níveis dos dois lados; Doppler dos dois lados; hipótese de trombose sobre placa com o que a sustenta; hora e dose da heparina; hora da última refeição; creatinina resultada; nome e horário do contato vascular. A ambulância sai às 16h30.
A conversa com a filha: o que afirmo e o que me recuso a prometer
Digo que a artéria da perna do pai dela fechou, que isso vinha de longe — a dor para andar que ele tinha há dois anos era a mesma doença mais devagar —, e que agora fechou de vez. Digo que a perna ainda tem sensibilidade e força, e que isso é a favor. Digo que ele vai para o hospital estadual porque a cirurgia não existe aqui, e que eu mandei por escrito tudo o que examinei com os horários. Não digo que ele vai ficar bem, e não digo que vai perder a perna. Digo que quem vai poder responder isso é o cirurgião, depois das imagens. E acrescento uma coisa que não é sobre hoje: que essa doença é a mesma que entope as artérias do coração e do pescoço, que o cigarro é o que mais pesa nela, e que essa conversa vai precisar ser retomada quando ele voltar. O seguimento da doença aterosclerótica de base não é deste capítulo; é do capítulo A dor que só existe andando, e é para lá que ele vai depois.
Faça você
Terça-feira, 6h20, enfermaria de clínica cirúrgica de um hospital de médio porte que tem, este sim, equipe vascular. Brasilino Hollanda tem 59 anos e foi submetido, ontem às 22h40, a tromboembolectomia femoral direita por isquemia aguda de membro. O tempo entre o início dos sintomas e a reperfusão foi de aproximadamente nove horas. A cirurgia foi descrita como bem sucedida, com bom refluxo e pulso pedioso presente ao final do procedimento; não foi realizada fasciotomia. Você é o interno que assume a enfermaria. A técnica de enfermagem te chama antes mesmo do round: "o 12 passou a noite pedindo dipirona e agora está gritando quando a gente mexe no pé dele". Você vai ver. Ele está acordado, sudoreico, com dor que descreve como muito pior que a de antes da cirurgia. A panturrilha direita está aumentada de volume e tensa ao toque, bem mais firme que a esquerda. A pele está rosada e morna. O pulso pedioso direito está presente. Quando você faz a dorsiflexão passiva do pé, ele grita. Você pede que ele mexa os dedos: ele consegue, com dificuldade, e diz que "está mais pesado que ontem à noite". A sensibilidade do dorso do pé está diminuída em relação ao registro feito na sala de recuperação. Pressão 156 por 92, frequência cardíaca 104, temperatura 37,6 °C. A enfermagem informa que ele urinou pouco na madrugada, e que a urina "estava bem escura, quase marrom". São 6h35.
1
Qual é o diagnóstico, e por que a presença do pulso pedioso e a pele rosada e morna NÃO o afastam?
2
Quais são os achados do exame que sustentam esse diagnóstico, e qual deles é o mais importante para a decisão? Explique por que o exame clínico basta, segundo a régua, e em que situação a medida de pressão intracompartimental entra.
3
Qual é a conduta imediata, e a partir de que momento o relógio dessa conduta começa a contar? Diga também o que a régua estabelece como prazo, e por que a resposta a essa pergunta não é um número único.
4
O que a urina escura e a oligúria significam, o que você pede para confirmar, e como se interpretam os valores desse exame — inclusive o que a régua proíbe fazer com ele.
5
Este quadro poderia ter sido evitado? O que a régua diz sobre fasciotomia profilática, e por que ela não é rotina?
Continuidade do caso e prática do internato
Acompanhe Osvaldino desde a suspeita até o pós-operatório: descreva o que melhora com a reperfusão e o que exige nova intervenção mesmo com pulso presente.
Questão integrativa 1
É preciso esperar os seis Ps para chamar o vascular?
Questão integrativa 2
A CK é normal na admissão. Isso dá tempo para observar?
Questão integrativa 3
O pulso voltou após cirurgia, mas a dor aumenta e dói ao alongamento passivo. Qual a prioridade?
Questão integrativa 4
CK de 3.000 UI/L após reperfusão pode ser rabdomiólise?
Questão integrativa 5
ECG em ritmo sinusal elimina fonte embólica cardíaca?
Questão integrativa 6
Qual informação deve ser comparada durante a transferência?
Ver como fecharíamos
1. É síndrome compartimental pós-reperfusão do membro inferior direito. O pulso presente e a pele rosada e morna não a afastam porque a artéria principal está pérvia — a cirurgia funcionou. O que fechou foi a microcirculação dentro do compartimento: o músculo isquêmico por nove horas teve a membrana celular alterada, e quando o sangue voltou, entrou água no músculo. O compartimento é fechado por fáscia que não estica, a pressão interna subiu e passou a comprimir a perfusão do próprio músculo revascularizado. Pulso distal é o último achado a desaparecer numa síndrome compartimental, e esperar por ele é esperar demais. Este é o ponto do capítulo em que o membro pode ser perdido com a artéria aberta. 2. Sustentam o diagnóstico: dor desproporcional e maior que a dor pré-operatória; compartimento aumentado de volume e tenso ao toque, comparado com o contralateral; dor à mobilização passiva do pé; e — o mais importante para a decisão — o déficit motor e sensitivo novo, que apareceu depois da reperfusão e que é pior que o registro da sala de recuperação. O aparecimento ou o agravamento de déficit motor num membro já revascularizado é o achado que muda tudo, porque a recuperação motora completa entre os que desenvolvem déficit ocorre em apenas 13% dos doentes. A régua recomenda com grau forte o exame clínico para o diagnóstico de síndrome compartimental pós-reperfusão; a medida da pressão intracompartimental é recomendação de grau fraco, reservada a quando o diagnóstico clínico é incerto — e a própria régua adverte que medir por rotina após a reperfusão pode resultar em sobretratamento. Aqui o diagnóstico clínico não é incerto: não se atrasa a conduta para medir pressão. 3. Conduta imediata: comunicar a equipe vascular agora, registrar a hora exata do diagnóstico, e encaminhar para fasciotomia de quatro compartimentos — que a régua recomenda com grau forte para tratar a síndrome compartimental pós-isquêmica. Enquanto isso: manter o membro em posição neutra, ao nível do coração, sem elevar e sem comprimir; retirar qualquer curativo ou faixa constritiva; analgesia; hidratação; e nada de esperar exame. O relógio começa no diagnóstico, e é por isso que a hora que você anota às 6h35 é o dado mais importante do prontuário de hoje. A resposta não é um número único porque a régua dá três, e é honesto saber disso. Uma recomendação de grau intermediário, baseada em consenso, manda operar o mais rapidamente possível e sempre dentro de duas horas. Uma recomendação de grau contrário, com duas referências, diz que atrasar mais de seis horas não é recomendado. E o texto corrido do mesmo documento fala em oito horas — mas contadas a partir do desenvolvimento da síndrome, e não do seu diagnóstico, acrescentando que, se a síndrome está presente há mais de oito horas, as fasciotomias provavelmente já são tardias demais. Para o paciente à frente, adote o relógio mais apertado: nenhuma das três formulações autoriza esperar. 4. Urina escura, quase marrom, com oligúria, sugere pigmentúria e exige investigar mioglobinúria, sem excluir hematuria e outras causas: a rabdomiólise do músculo reperfundido liberou mioglobina, que precipita nos túbulos renais e pode causar necrose tubular e falência renal. Peça creatina cinase, mioglobina se disponível, ureia, creatinina, potássio e gasometria — o potássio e a acidose porque também saem do músculo, e podem produzir arritmia. Interpretação: a CK elevada apoia lesão muscular, mas não diagnostica síndrome compartimental. CK >5 vezes o limite superior ou >1.000 UI/L é critério laboratorial usual de apoio à rabdomiólise no contexto clínico; 20.000 UI/L não é o limiar necessário. O risco renal depende também da função basal, perfusão, eletrólitos e trajetória. Duas ressalvas da própria régua: a subida da creatina cinase é tardia, o que a torna pouco útil para diagnóstico precoce — ou seja, um valor ainda baixo às 6h35 não afasta nada e não adia a fasciotomia —, e é proibido usar mioglobina e creatina cinase da admissão para decidir entre revascularizar e amputar. Aqui elas servem para dimensionar o risco renal e guiar hidratação, e não para decidir sobre o membro. 5. Talvez. A régua não recomenda a fasciotomia profilática de rotina em todos os pacientes revascularizados por isquemia aguda — é recomendação de grau contrário, e a justificativa declarada é concreta: aumento do tempo de internação, risco de infecção local e desenvolvimento tardio de insuficiência venosa profunda, que ocorre em cerca de metade dos submetidos a fasciotomia e se agrava com o tempo. Mas a régua recomenda, com grau intermediário, que a fasciotomia profilática de quatro compartimentos seja considerada quando a isquemia antes da revascularização foi profunda ou prolongada. Nove horas de isquemia é exatamente a situação contemplada por essa recomendação — a própria régua lista duração de isquemia superior a seis horas entre os fatores de risco para o desenvolvimento de síndrome compartimental, ao lado de idade jovem, episódio prévio e hipotensão. A decisão de não ter feito a fasciotomia na primeira cirurgia foi legítima e está dentro da régua; a consequência dela é que a vigilância no pós-operatório precisava ser exatamente a que você acabou de fazer. Registre isso na evolução sem atribuir erro: é complicação conhecida do tempo de isquemia, e foi reconhecida a tempo porque alguém examinou o membro. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. Sensibilidade e força alteradas já podem indicar ameaça imediata. A combinação clássica completa pode aparecer tarde. 2. Não. Ela pode subir tardiamente e não mede sozinha a viabilidade. A urgência depende do exame e da evolução, sobretudo do déficit motor. 3. Suspeitar de síndrome compartimental e chamar a equipe imediatamente. Fluxo na artéria principal não garante perfusão dentro do compartimento. 4. Sim, conforme limite do laboratório e contexto. O critério usual é >5 vezes o limite superior ou >1.000 UI/L; não se espera 20.000. Avalie potássio, função renal, diurese e tendência. 5. Não. Pode haver fibrilação paroxística ou trombo intracardíaco. A investigação da causa continua depois da resposta urgente, sem retardá-la. 6. Sensibilidade, força e Doppler com horários, além de perfusão global e tratamentos administrados. Uma piora documentada permite reordenar prioridade e estratégia no destino.
Na seção Objetivo, a diretriz SBACV de 2024 informa que emergências como oclusões arteriais agudas e lesões traumáticas não são seu foco. Portanto, não deve ser citada como documento suficiente para determinar o manejo da isquemia aguda. A exclusão de um tema de uma diretriz não prova inexistência de outros documentos brasileiros. Devem-se consultar recomendações específicas para isquemia aguda, como a diretriz ESVS de 2020, e protocolos assistenciais aplicáveis, com avaliação vascular urgente quando houver suspeita clínica.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Sem consultar nada: escreva os seis sinais clássicos e, ao lado de cada um, o que ele decide e onde ele engana. Depois diga quais dois separam o membro viável do membro sob ameaça imediata, e por que a ausência de pulso não é um deles. Em seguida, escreva as quatro categorias de gravidade com a sensibilidade, a força e os dois sinais de Doppler de cada uma, e diga qual delas deixa de ser sobre revascularizar. Por fim, liste em ordem as sete coisas que você faz entre reconhecer a perna e a ambulância sair — e diga qual delas vem antes da imagem, e por quê.
Em 30 dias
Sem consultar nada: descreva a diferença entre êmbolo e trombose sobre placa em cinco eixos — instalação, história da perna, membro contralateral, antecedentes e gravidade ao chegar —, diga onde está a pista mais fácil de colher e diga o que essa distinção NÃO muda nas suas próximas duas horas. Depois explique, pelo mecanismo, por que o paciente com as artérias mais doentes pode chegar com a perna menos ameaçada. Em seguida, escreva a sequência de tecidos que falham na isquemia e o que ela implica para o exame físico. Por fim, o depois: diga o que é a lesão de isquemia-reperfusão, quais são os seus dois desfechos — um local e um sistêmico —, quais achados fecham o diagnóstico do desfecho local num membro já revascularizado, e por que o pulso presente não afasta esse diagnóstico. E diga, de memória, qual analgésico deste capítulo sai do Componente Básico e quais fármacos que a régua recomenda simplesmente não constam da Rename.
Agora atenda
Treine este capítulo com um paciente-IA: uma perna que esfriou há poucas horas, e um relógio que já estava correndo quando você chegou. Ancore a hora de início, examine os dois membros, gradue por sensibilidade e força — não por quantos sinais você conseguiu contar — e decida o que fazer antes de pedir imagem.
