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Cirurgia GeralCirurgia Vascular

O rasgo que parece um entupimento

Dissecção aórtica aguda (Stanford, DeBakey)

Suspeitar de síndrome aórtica aguda, reconhecer má perfusão, controlar o estresse sobre a parede quando tolerado e acionar a equipe que definirá tratamento clínico ou intervenção.

Fontes deste capítulo

Brandão AA, Feitosa ADM, Barroso WKS, et al. Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2025. Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250624. DOI 10.36660/abc.20250624. Seção 11.6.5 (Dissecção Aguda de Aorta), quadro de fármacos parenterais da emergência hipertensiva e tabela de recomendações do capítulo 11.

Barroso WKS, Rodrigues CIS, Bortolotto LA, et al. Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial – 2020. Arq Bras Cardiol. 2021;116(3):516-658. Seção 13.7.4.1 (Dissecção Aguda de Aorta).

Barros e Silva PGM, Soeiro AM, Ornelas CE, et al. Diretriz Brasileira de Atendimento à Dor Torácica na Unidade de Emergência – 2025. Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250620. DOI 10.36660/abc.20250620. Seção 4.2.2, tabelas 16, 17 e 18 e figura 9.

Albuquerque LC, Braile DM, Palma JH, Saadi EK, Almeida RMS, et al. Diretrizes para o tratamento cirúrgico das doenças da aorta da Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular: atualização 2009. Rev Bras Cir Cardiovasc. 2009;24(2 Supl 1):7s-34s. DOI 10.1590/S0102-76382009000300004. Seções Dissecções Agudas Tipo A e Dissecções Agudas Tipo B.

Mulatti GC, Joviliano EE, Pereira AH, et al. Projeto Diretrizes, Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular: aneurisma da aorta abdominal. J Vasc Bras. 2023;22:e20230040. DOI 10.1590/1677-5449.202300401.

01

Responda antes de ler

Sobre os exames complementares na suspeita de síndrome aórtica aguda no pronto-socorro, qual afirmativa está correta segundo a diretriz brasileira de atendimento à dor torácica de 2025?

02

O paciente que você vai ver

Vinte e três e dez de uma segunda-feira. A unidade de pronto atendimento fica num município de noventa mil habitantes e tem sala de estabilização com dois leitos, monitor, eletrocardiógrafo, laboratório que funciona a noite inteira e radiografia com técnico de plantão. Não tem tomógrafo. O hospital estadual que tem tomógrafo, cirurgião cardiovascular e centro cirúrgico fica a cento e vinte quilômetros, e a regulação atende por telefone.

Segismundo Remanso tem 58 anos, é motorista de caminhão e chegou dirigindo o próprio carro. Ele diz que estava vendo televisão quando a dor veio — e a maneira como ele conta é a primeira informação do caso. Não foi apertando devagar. Foi de uma vez, e já veio no máximo, como se alguém tivesse dado um golpe entre as omoplatas. Ele levou a mão às costas para mostrar, não ao peito.

A esposa completa o que ele não conta: pressão alta há dez anos, remédio que ele toma quando lembra, dois maços de cigarro por semana, nenhuma consulta desde que trocou de emprego. Na triagem, a ficha diz dor torácica, e o protocolo do serviço abre certo — prioridade laranja, sala de estabilização, eletrocardiograma em dez minutos. Pressão 178 por 104 no braço direito, frequência 104, saturação 96%, dor que ele numera em dez.

O eletrocardiograma sai aos oito minutos e mostra ritmo sinusal, sobrecarga de ventrículo esquerdo e alterações inespecíficas da repolarização em parede lateral. O plantonista que está com o traçado na mão tem uma decisão a tomar em segundos, e é uma decisão que ele toma dezenas de vezes por mês sem pensar: dor torácica de forte intensidade, hipertenso, tabagista, traçado alterado. Mastiga ácido acetilsalicílico, prepara o clopidogrel, chama a enfermagem para a heparina.

Este capítulo existe para o que acontece nos quinze segundos anteriores a essa prescrição. Se alguém palpar os dois pulsos radiais de Segismundo, vai encontrar o esquerdo mais fraco. Se alguém medir a pressão nos dois braços, vai encontrar 178 no direito e 132 no esquerdo. Se alguém auscultar procurando, vai encontrar um sopro diastólico que ninguém tinha descrito antes. E se alguém perguntar a pergunta que a esposa já respondeu sem ser perguntada — começou forte assim ou foi aumentando? —, vai ouvir que começou no máximo.

Nenhum desses quatro achados exige aparelho, exige contraste ou exige transferência. Os quatro juntos levam menos de um minuto. E os quatro juntos são a diferença entre um paciente que vai para a tomografia com a pressão controlada e um paciente que recebe três drogas que aumentam sangramento numa artéria que já está rasgada por dentro.

A dissecção aórtica aguda é rara, e é justamente por ser rara que ela é perigosa: ela mora dentro de uma queixa comum, com uma cara parecida com a da doença comum, e o tratamento reflexo da doença comum piora o desfecho dela. Não existe exame de rotina que a encontre por acidente. Se ninguém pensar nela, ninguém vai fazer o diagnóstico.

O outro lado deste capítulo é o que se decide depois que a tomografia sai. Duas dissecções com a mesma dor, o mesmo pulso assimétrico e a mesma pressão de 178 podem ter destinos opostos: uma vai para a mesa de cirurgia na madrugada, a outra fica na terapia intensiva com o remédio correndo na veia. O que separa as duas é um detalhe anatômico — se o rasgo alcança ou não a porção da aorta que sai do coração. É por isso que as classificações deste capítulo não são decoreba de prova: elas são o nome que se dá à decisão.

Segismundo vai voltar no fim, com os dados completos, e você vai conduzir o caso dele do minuto zero ao helicóptero que não existe.

03

Quem adoece disso

A primeira coisa a entender é a proporção entre raridade e pressa. A diretriz brasileira de dor torácica de 2025 registra que a dissecção aparece na proporção de um caso para cada 20 a 90 infartos agudos do miocárdio. Se você atende cinco infartos por semana num pronto-socorro de porte médio, isso significa que você pode passar meses sem ver uma dissecção — e é por isso que ela não está no seu reflexo. Ao mesmo tempo, os grandes registros internacionais citados por essa diretriz descrevem mortalidade em torno de 1 a 2% por hora nas primeiras 48 horas, com letalidade estimada de cerca de 50% em 48 horas.

Traduza esses dois números para o relógio do plantão. Um por cento por hora significa que o paciente que espera seis horas por uma tomografia perdeu, em média, seis pontos percentuais de sobrevida enquanto esperava. Não é uma doença que se investiga no dia seguinte, e não é uma doença em que a expressão vamos observar tem algum sentido. A pressa não é do exame; a pressa é do relógio biológico da parede da aorta.

A dissecção não é a única doença aguda da aorta. Ela responde por aproximadamente 70% das síndromes aórticas agudas, segundo a mesma diretriz; o resto se divide entre o hematoma intramural e a úlcera aterosclerótica penetrante, que doem igual, aparecem no mesmo exame e se tratam com a mesma lógica de reduzir a força que empurra a parede. O interno não precisa distinguir as três à beira do leito — precisa saber que o pacote inteiro se chama síndrome aórtica aguda e que a suspeita é a mesma para os três.

A frase mais importante de toda a epidemiologia deste capítulo está escrita com todas as letras na diretriz brasileira de 2025, e vale repeti-la aqui: se o diagnóstico não for considerado, ele nunca será feito. Não existe exame de rotina do pronto-socorro que encontre uma dissecção por acaso. O eletrocardiograma não a mostra, a troponina não a mostra, o hemograma não a mostra, e a radiografia de tórax normal não a exclui. Ela só entra no diagnóstico pela porta da suspeita clínica, e a suspeita clínica é gratuita.

O corolário disso é o erro de direção oposta, e a mesma diretriz o descreve: se a dissecção for confundida com síndrome coronariana, o uso inicial de antiagregação ou anticoagulação — que ela declara contraindicado na dissecção — será deletério. Repare no que essa frase implica. Não se trata de deixar de tratar; trata-se de tratar ativamente contra o paciente. É o único cenário desta apostila em que a prescrição-padrão da doença mais provável piora a doença menos provável.

Sobre o Brasil, o capítulo precisa ser honesto a respeito de uma lacuna de dados. As duas normas nacionais que falam de aorta em texto — a diretriz da sociedade vascular de 2023 e a portaria ministerial de 2017 — excluem a dissecção do escopo, cada uma com uma frase explícita. Pior para quem quer contar casos: os códigos de procedimento do sistema de informações hospitalares agrupam as duas doenças no mesmo nome, com rubricas do tipo correção de aneurisma ou dissecção da aorta toracoabdominal. Não há como separar, nos dados de internação do sistema público, quantos foram aneurisma e quantos foram dissecção. Essa observação já havia sido feita, com as contas, pelo capítulo A doença que não dói, e o dia em que dói, nesta mesma apostila, e é dele.

Existe um dado brasileiro de outra natureza, e ele importa mais para a conduta do que qualquer taxa de incidência: a distribuição dos tomógrafos. A angiotomografia é o exame que decide, e a maior parte das unidades de pronto atendimento brasileiras não tem tomógrafo funcionando à noite. A consequência prática não é ter um exame pior — é ter outro problema, que é o transporte de um paciente instável por estrada. Grande parte deste capítulo trata disso, porque é a situação real da maioria dos plantões em que o aluno vai estar.

Sobre quem adoece, o retrato é razoavelmente estável entre os registros: predomina o homem, na sexta e sétima décadas, com hipertensão arterial mal controlada de longa data. Mas a metade que importa é a outra: os pacientes jovens, que quase sempre têm outra razão — doença hereditária do tecido conjuntivo, valva aórtica bicúspide, aorta previamente dilatada, gravidez avançada e puerpério, uso de cocaína, trauma torácico desacelerativo, manipulação recente da aorta. O paciente de 32 anos com dor torácica súbita não está protegido pela idade; ele está apenas fora da caricatura.

Some as duas pontas e você entende por que a doença se perde. O paciente típico é indistinguível, na triagem, do paciente típico do infarto — mesma idade, mesmo sexo, mesma hipertensão, mesmo tabagismo. O paciente atípico é jovem demais para que alguém pense em aorta. E os dois chegam com a mesma frase escrita na ficha.

Uma última nota de calibração, porque o número engana nos dois sentidos. Ser rara não autoriza a investigar todo mundo: pedir angiotomografia para toda dor torácica é radiação, contraste, custo e tempo de sala, num diagnóstico cuja prevalência de base é baixíssima. A saída não é pedir mais exame, é examinar melhor — os escores de probabilidade pré-teste existem exatamente para separar quem vai direto para a imagem de quem não vai, e eles custam zero.

Quem faz esse recorte, nesta coleção, é o capítulo Dor torácica no pronto-socorro, da apostila Síndromes do Paciente na Emergência. Ele é o dono da triagem da dor torácica indiferenciada e do cálculo dos escores, e este capítulo cede a ele essa etapa. O que começa aqui é o que acontece depois que a suspeita foi levantada.

04

Por que acontece o que acontece

A parede da aorta tem três camadas, e a do meio é a que sustenta a pressão. A íntima é um revestimento fino, a adventícia é uma capa fibrosa externa com a maior parte das terminações nervosas, e entre as duas está a média, uma matriz densa de lâminas elásticas e músculo liso que absorve cada sístole há setenta anos. A dissecção começa quando a íntima se rompe num ponto e o sangue, empurrado pela pressão sistêmica, entra na média e a descola no sentido longitudinal. O vaso não fura — ele se desdobra por dentro.

A partir daí existem dois canais. O canal original, que continua sendo a luz verdadeira, e um canal novo entre as camadas, a luz falsa, separado do primeiro por uma lâmina móvel de íntima e média que a tomografia mostra como um retalho flutuante. A luz falsa é um espaço que não deveria existir, sem revestimento próprio e sem saída garantida: ela pressuriza, cresce, comprime a luz verdadeira e avança pela parede tanto no sentido do fluxo quanto contra ele. O que produz a dor não é isquemia de tecido nenhum — é o descolamento agudo distendendo a adventícia, que é a camada inervada. Por isso a dor já nasce no máximo: não há acúmulo progressivo de nada, há um rasgo.

A força que empurra esse descolamento tem nome e tem duas parcelas. A primeira é a pressão arterial, e essa todo mundo lembra. A segunda é a velocidade com que a pressão sobe a cada batimento — a derivada da pressão no tempo, escrita como dP/dt, que depende da força e da rapidez da contração ventricular e do número de contrações por minuto. É a dP/dt que golpeia a borda do descolamento em cada sístole, como uma unha que abre um rasgo no tecido. Duas pessoas com a mesma pressão de 140 mmHg, uma a 55 e outra a 110 batimentos por minuto, não estão sofrendo a mesma agressão sobre a parede.

Aqui está a razão de a conduta ser contraintuitiva. Se você abrir primeiro um vasodilatador, a pressão cai — e o barorreceptor responde à queda aumentando a frequência e a força de contração. Você reduziu a primeira parcela e aumentou a segunda, e o resultado sobre a parede pode ser pior do que antes de você prescrever. Baixar frequência antes de baixar pressão não é uma preferência de escola: é a única ordem que reduz as duas parcelas ao mesmo tempo. O documento brasileiro escreve isso de forma direta ao dizer que o vasodilatador deve entrar depois do betabloqueador, para não elevar a frequência e a velocidade de ejeção aórtica.

Todo o resto do quadro clínico é geografia — a pergunta é por onde o descolamento passou. Quando a luz falsa alcança a origem de um ramo, ela pode obstruí-lo de duas maneiras diferentes, e a distinção importa porque explica achados que aparecem e somem. Na obstrução dinâmica, o retalho móvel oscila sobre o óstio e o fecha em algumas sístoles e não em outras: o pulso some, volta, some de novo, e o membro esfria e reaquece. Na obstrução estática, o descolamento entra pelo próprio ramo e o oclui de forma fixa. A primeira engana quem examinou uma vez só; a segunda não melhora com controle pressórico nenhum.

Esquema longitudinal de artéria com falha intimal, lâmina de dissecção, lúmen verdadeiro e falso lúmen formado dentro da parede.
A entrada de sangue na parede pode criar um falso lúmen e comprometer a luz verdadeira ou ramos arteriais. Podem existir comunicações de reentrada. O segmento desenhado não classifica a dissecção: envolvimento da aorta ascendente, malperfusão e outras complicações orientam a urgência e o tratamento.

Multiplique essa geografia pelos ramos e você tem a lista inteira de complicações, sem precisar decorá-la. Descolamento nas carótidas dá déficit neurológico focal, e é a razão de existirem dissecções que chegam como acidente vascular cerebral. Nas subclávias, dá assimetria de pulso e de pressão entre os braços. Nas intercostais que irrigam a medula, dá paraparesia com nível sensitivo — uma paraplegia súbita e indolor abaixo de um tórax que dói. Nas renais, dá anúria e hipertensão que não cede. Nas mesentéricas, dá dor abdominal desproporcional ao exame, que é a mesma assinatura da isquemia mesentérica. Nas ilíacas, dá membro frio, pálido e sem pulso, que é a apresentação da oclusão arterial aguda.

Falta a ponta proximal, que é a que mata rápido. Quando o descolamento avança em direção ao coração, três estruturas estão no caminho, e cada uma produz uma emergência distinta. Se ele desalinha as comissuras da valva aórtica, aparece insuficiência aórtica aguda — um sopro diastólico novo num ventrículo que não teve tempo de dilatar, e portanto edema pulmonar com pressão diastólica final altíssima. Se ele descola o óstio de uma coronária, aparece infarto, com supradesnivelamento e tudo, num paciente em que o antiagregante é proibido. E se ele rompe a adventícia dentro do saco pericárdico, aparece tamponamento: hipotensão, turgência jugular e bulhas abafadas num paciente que estava hipertenso dez minutos antes. Essa reviravolta hemodinâmica — de hipertenso para chocado — é a assinatura da complicação proximal, e é o motivo de a pressão baixa numa dissecção ser um sinal muito pior do que a pressão alta.

Duas doenças vizinhas fecham o mecanismo, porque doem igual e entram no mesmo exame. No hematoma intramural, sangra-se dentro da média sem que haja rasgo visível na íntima: há a mesma parede descolada, com a mesma dor, sem o retalho característico. Na úlcera aterosclerótica penetrante, uma placa se ulcera e escava a média a partir de dentro. As três — dissecção, hematoma, úlcera — compõem a síndrome aórtica aguda, evoluem umas nas outras e recebem, no pronto-socorro, exatamente o mesmo tratamento inicial: dor controlada, frequência baixa, pressão baixa, e a mesma pergunta anatômica sobre onde a lesão está.

05

Como se apresenta de verdade

Não existe sinal patognomônico de dissecção, e a diretriz brasileira de dor torácica de 2025 registra, como recomendação formal, que escore clínico nenhum basta sozinho para confirmar nem para excluir o diagnóstico. O que existe é um conjunto de achados que, somados, mudam a probabilidade o suficiente para mudar o exame que você pede — e que só aparecem para quem foi procurá-los.

As cinco seções abaixo são os cinco lugares onde a doença se mostra. A primeira é a história, a segunda é o exame que quase ninguém faz por inteiro, a terceira é o conjunto de apresentações que não começam no peito, a quarta é quem está em risco, e a quinta é o paciente que chega com a pressão baixa — que é o mais grave e o menos parecido com o livro.

A dor que já nasce no máximo

A pergunta que mais separa dissecção de isquemia cabe em oito palavras e leva três segundos: começou forte assim, ou foi aumentando devagar? A dor isquêmica se constrói, porque depende do acúmulo progressivo de metabólitos num músculo que está ficando sem oxigênio. A dor da dissecção não se constrói, porque depende de um rasgo que já aconteceu. Ela é máxima no primeiro segundo, e o paciente costuma saber dizer o que estava fazendo no instante exato em que começou.

O caráter é a segunda pista. As palavras que os pacientes usam são rasgando, dilacerando, como se estivesse abrindo, e a mão que mostra costuma ir para o dorso, entre as escápulas, não para o esterno. A diretriz brasileira de 2025 coloca três características no mesmo balaio, e qualquer uma delas já conta: início súbito, intensidade severa, e caráter rasgante.

A terceira é a migração, e ela é a mais específica de todas quando aparece — porque é a única que descreve o movimento da doença. A dor que começou no peito e agora está entre as omoplatas, ou que começou no dorso e agora está no abdome, está desenhando para você o caminho do descolamento ao longo da aorta. Nenhuma outra causa de dor torácica caminha assim. Pergunte sempre onde a dor está agora e onde ela estava quando começou, e anote as duas respostas com o horário.

A armadilha que derruba mais gente é a que vem depois: a dor melhorou. Isso acontece com frequência na dissecção e não significa nada de bom. A distensão aguda da adventícia é máxima no momento do descolamento e cede quando o descolamento pausa — o rasgo continua lá, a luz falsa continua pressurizada, e o paciente pode passar horas confortável antes de a dor voltar com a retomada da propagação. Somado a isso, morfina alivia dor de qualquer origem: alívio com analgésico é resposta a analgésico, não é teste diagnóstico. Registre a melhora como evolução e nunca como argumento — a mesma regra que o capítulo Dor torácica no pronto-socorro estabelece para toda a dor torácica indiferenciada, e que aqui vale em dobro.

Vale a comparação com a outra dor súbita e máxima da medicina, porque ela treina o mesmo reflexo: a cefaleia da hemorragia subaracnóidea, que é dona do capítulo A dor que avisou, na apostila de Neurologia. As duas doenças compartilham a estrutura — início explosivo, intensidade máxima desde o começo, alívio espontâneo que engana, e um exame de imagem que precisa ser pedido antes de o paciente parecer doente. Quem aprendeu a não relaxar com a cefaleia que melhorou já tem metade do raciocínio desta dor.

O exame que ninguém faz por inteiro

Existe um exame físico da dissecção, ele é curto, e ele quase nunca é feito completo. São seis manobras, todas de beira de leito, e cada achado positivo aponta para um território anatômico específico.

Palpe os quatro pulsos, e palpe os dois radiais ao mesmo tempo, com uma mão em cada. A comparação simultânea encontra assimetria que a palpação sequencial perde. Pulso diminuído ou ausente significa que o descolamento alcançou a origem daquele ramo — subclávia para o braço, ilíaca ou femoral para a perna. Palpe de novo mais tarde: obstrução dinâmica aparece e desaparece, e um pulso normal às 23h20 não garante um pulso normal às 23h50.

Meça a pressão nos dois braços. Não é zelo acadêmico, e é o achado que se perde para sempre se ninguém mediu na chegada — a observação é do capítulo Crise hipertensiva, da apostila de Cardiologia, e vale repetida. Diferença importante entre os braços aponta comprometimento de subclávia. Duas advertências que evitam erro nos dois sentidos: a assimetria pode faltar em boa parte das dissecções, de modo que pressões iguais não excluem; e diferenças pequenas existem em gente sem doença nenhuma, de modo que uma diferença de poucos milímetros isolada não faz diagnóstico.

Ausculte procurando um sopro diastólico em foco aórtico. Sopro de insuficiência aórtica novo, associado à dor, é um dos itens de exame que pontuam nos escores de probabilidade, e significa que o descolamento chegou à raiz da aorta e desalinhou a valva. O adjetivo que faz o trabalho é novo: sopro que o paciente já tinha há dez anos é outra coisa, e é do capítulo Estenose aórtica e insuficiência mitral, da apostila de Cardiologia.

Faça um exame neurológico focal dirigido, ainda que rápido: força e sensibilidade nos quatro membros, fala, face, campo visual grosseiro. Déficit focal associado à dor aponta carótida. Perda de força nas pernas com nível sensitivo, num paciente que dói no tórax, aponta as artérias que irrigam a medula — e essa combinação de dor torácica com paraparesia praticamente não tem outro diagnóstico.

Palpe o abdome e olhe as extremidades. Dor abdominal intensa com abdome que não corresponde ao exame aponta ramo mesentérico. Membro frio, pálido, sem pulso e com déficit motor ou sensitivo é oclusão arterial aguda — cujo reconhecimento e manejo pertencem ao capítulo Músculo não volta, nesta apostila; o que muda aqui é a origem, porque um membro isquêmico agudo em quem também dói no tórax pede angiotomografia da aorta inteira antes de qualquer decisão sobre o membro.

Por fim, procure ativamente turgência jugular e bulhas abafadas, e reavalie sempre que a pressão cair. O paciente que estava hipertenso e ficou hipotenso durante a sua observação mudou de doença: até prova em contrário isso é tamponamento por rotura para o pericárdio. O reconhecimento e o manejo do tamponamento são do capítulo Pericardite aguda e tamponamento cardíaco, da apostila de Cardiologia; o que este capítulo acrescenta é a origem, e a consequência de que aqui a drenagem não resolve nada — o buraco continua se enchendo enquanto a aorta não for operada.

As dissecções que não chegam como dor no peito

Uma parte relevante dos pacientes não abre o quadro com dor torácica, e é essa parte que gera o diagnóstico tardio. Vale conhecer as cinco portas de entrada alternativas, porque em todas elas a dissecção só será lembrada se alguém trouxer a aorta para a mesa.

A primeira é a neurológica. O paciente chega com hemiparesia súbita e entra na rota do acidente vascular cerebral, que é a rota certa até o momento em que alguém pergunta se doeu. Isso importa muito porque o desfecho da rota do acidente vascular pode ser trombólise, e trombolisar uma dissecção é a pior versão possível do erro deste capítulo. O capítulo Déficit neurológico focal agudo, da apostila Síndromes do Paciente na Emergência, é o dono dessa triagem; o que este capítulo pede é uma coisa só, e é gratuita: em déficit focal agudo com dor torácica ou dorsal, ou com assimetria de pulso, a aorta entra na conversa antes do trombolítico.

A segunda é a síncope. Perda de consciência transitória numa dissecção costuma significar uma de três coisas graves — tamponamento, rotura contida com hipotensão, ou comprometimento de carótidas. Síncope somada a dor torácica é uma combinação de alto risco, e o capítulo Síncope no pronto-socorro, da mesma apostila de emergência, é quem ensina a estratificação geral.

A terceira é o abdome. Dor abdominal de início súbito e intensa, com exame abdominal pobre, é a apresentação clássica da isquemia mesentérica — e o descolamento aórtico é uma das causas dela. Quem organiza essa triagem é o capítulo Dor abdominal no pronto-socorro.

A quarta é o membro. Uma perna aguda e fria, sem história de fibrilação atrial e sem cardiopatia embolígena, num paciente que teve dor no tórax ou no dorso nas últimas horas, deve ter a aorta imaginada antes da embolectomia.

A quinta, e a mais cruel, é a paraplegia. Perda de força nas pernas de instalação súbita, com nível sensitivo, sem trauma e sem dor lombar mecânica, num paciente hipertenso — a isquemia medular por comprometimento das artérias intercostais é rara, mas quando existe costuma vir logo depois de uma dor torácica que o paciente já nem menciona porque a perna assusta mais.

Quem tem risco, e quanto isso muda a suspeita

Os escores brasileiros de probabilidade pré-teste têm uma categoria inteira dedicada a condições predisponentes, e ela vale um ponto se qualquer um dos itens estiver presente. Os itens são: síndrome de Marfan ou outra doença do tecido conjuntivo, história familiar de aortopatia, valvopatia aórtica conhecida, manipulação recente da aorta, e aneurisma de aorta torácica conhecido.

Repare no que essa lista significa na prática: a pergunta alguém da sua família morreu de repente, jovem, de coisa do coração ou da aorta? é uma pergunta de anamnese de dor torácica, e quase ninguém a faz. O mesmo vale para o senhor já fez alguma cirurgia ou cateterismo do coração ou da aorta? e o senhor sabe se tem alguma alteração na valva do coração?.

Fora da lista dos escores há fatores que a literatura e a prática reconhecem e que devem levantar a suspeita mesmo sem pontuar. A hipertensão arterial mal controlada de longa data é o fator de risco mais prevalente de todos — a dissecção é, em grande parte, uma doença de pressão alta não tratada. A valva aórtica bicúspide se acompanha de aorta ascendente dilatada e entra pela porta da valvopatia conhecida, quando alguém sabe que ela existe.

Três situações merecem destaque porque acontecem em gente jovem e desarmam o médico. A gravidez avançada e o puerpério imediato somam volume, débito e alteração hormonal da parede arterial; dor torácica súbita e intensa numa gestante de terceiro trimestre não é ansiedade nem refluxo até que alguém tenha pensado na aorta. O uso de cocaína produz um pico adrenérgico com hipertensão abrupta e taquicardia — exatamente as duas parcelas da força que descola a parede —, e a pergunta sobre uso de substâncias precisa ser feita sem plateia e sem julgamento, porque a resposta muda a conduta. E o trauma torácico com desaceleração, típico de colisão frontal e de queda de altura, tem lesão de aorta entre as causas de morte precoce; essa versão traumática é do capítulo Trauma torácico com risco iminente de morte, na apostila de Trauma, e este capítulo não a assume.

Uma advertência de calibração para fechar. Fator de risco ausente não exclui: a maior parte dos pacientes com dissecção não tem síndrome de Marfan nem história familiar, tem apenas pressão alta e sessenta anos. A categoria de condições predisponentes é a que menos frequentemente pontua nos escores, e é justamente por isso que as outras duas — a dor e o exame físico — carregam o peso da suspeita.

O paciente que chega com a pressão baixa

A imagem mental que todo mundo carrega é a do paciente hipertenso, e ela é correta na maioria. Mas existe um subgrupo que chega hipotenso ou francamente chocado, e ele é o mais grave e o mais mal reconhecido, porque nada nele lembra o capítulo que você estudou.

Hipotensão numa dissecção significa uma de quatro coisas, e todas são catastróficas: tamponamento cardíaco por rotura para o pericárdio; insuficiência aórtica aguda grave, com o ventrículo esquerdo incapaz de sustentar débito anterógrado; rotura livre para a cavidade pleural ou para o mediastino, com choque hemorrágico; ou infarto extenso por comprometimento do óstio coronário. Note que três das quatro são complicações da ponta proximal — é por isso que a hipotensão aponta, com força, para a dissecção que envolve a aorta ascendente.

Existe uma armadilha de medida que vale mais que qualquer teoria: a pressão que você mediu pode não ser a pressão que o paciente tem. Se o descolamento estreitou a subclávia daquele braço, o esfigmomanômetro está lendo um território mal perfundido e informando uma pseudo-hipotensão. Por isso, num paciente com dissecção suspeita e pressão baixa, meça nos dois braços e, se possível, também no membro inferior, antes de concluir que ele está chocado — e antes de correr volume por reflexo.

A conduta muda de sinal nesse subgrupo, e essa é a parte que precisa ficar clara. O paciente hipertenso recebe drogas para baixar frequência e pressão. O paciente hipotenso não recebe nada disso: ele precisa de reconhecimento imediato da causa do choque, de comunicação com a equipe cirúrgica no mesmo minuto, e de suporte enquanto a sala é preparada. Betabloquear um paciente chocado por tamponamento é retirar a taquicardia que é a única compensação que ele tem. O manejo do choque e a escolha do vasoativo são do capítulo de sepse e choque da apostila de Medicina Intensiva e Emergências; o reconhecimento da causa aórtica é deste.

Uma última regra prática que resume a seção: numa dissecção, pressão que cai é notícia pior do que pressão que sobe. A pressão alta você trata com o que está no carrinho; a pressão que caiu significa que alguma coisa se rompeu, e o tratamento dela é cirúrgico.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação da dissecção tem uma estrutura simples e uma armadilha em cada degrau. A estrutura: estimar a probabilidade pré-teste com dados clínicos, decidir entre marcador e imagem, e escolher a imagem certa. A armadilha, em todos os degraus, é a mesma — cada exame deste capítulo tem um resultado normal que não exclui nada, e o aluno que trata normal como negativo manda o paciente para casa.

Uma regra de ouro atravessa as seis seções: nenhum exame começa antes de o tratamento começar. Diferente da maioria das doenças, aqui a terapia inicial não depende da confirmação — reduzir a força que descola a parede é seguro, é reversível e não atrapalha exame nenhum. Investigar e tratar correm juntos.

A probabilidade pré-teste, e de quem ela é

O cálculo da probabilidade pré-teste na dor torácica indiferenciada é do capítulo Dor torácica no pronto-socorro, da apostila Síndromes do Paciente na Emergência, e este capítulo cede a ele integralmente essa etapa: lá estão os itens do escore de detecção de dissecção, os do escore simplificado alternativo, a leitura de cada um e o fluxograma da diretriz brasileira de 2025. O que fica aqui é o mínimo necessário para o aluno não precisar sair da página, e três observações que aquele capítulo não faz.

O mínimo. O escore de detecção de dissecção da diretriz brasileira tem três categorias — condição predisponente, característica da dor e achado do exame físico — e cada categoria em que houver qualquer item vale um ponto, no máximo três. Até um ponto é baixa probabilidade; dois ou três é alta probabilidade, e aí vai direto para a angiotomografia. Em baixa probabilidade e sem sinal sugestivo na ultrassonografia à beira do leito ou na radiografia, dosa-se D-dímero: abaixo de 500 ng/mL descarta e manda procurar outro diagnóstico; igual ou acima, vai para imagem. A própria diretriz registra, como recomendação de classe III, que os escores não devem ser usados isoladamente para confirmar nem para excluir.

Primeira observação. O ponto de corte de 500 ng/mL para o D-dímero foi aprendido por quase todo mundo no contexto do tromboembolismo pulmonar, e o reflexo de ajustar o corte pela idade — idade multiplicada por dez, a partir dos 50 anos — pertence àquele contexto. O fluxograma brasileiro da dissecção escreve 500 ng/mL sem ajuste por idade. Usar o corte ajustado aqui é transportar uma regra de uma doença para outra, e o resultado é elevar o limiar exatamente no paciente idoso, que é o mais provável de ter a doença.

Segunda observação, e é a que mais muda conduta. A regra do D-dímero só existe no ramo de baixa probabilidade, e ela tem duas condições, não uma: escore baixo E ausência de sinal sugestivo na ultrassonografia à beira do leito ou na radiografia. O texto corrido da diretriz enuncia apenas a primeira condição; é a figura do fluxograma que traz as duas. Se a radiografia mostra alargamento de mediastino, o paciente segue o fluxo de alta probabilidade e vai para a tomografia mesmo com escore baixo, e mesmo que o D-dímero volte normal.

Terceira observação: não peça D-dímero em quem já tem alta probabilidade. Um resultado abaixo do corte nesse paciente não muda nada — a tomografia será feita de qualquer forma — e produz exatamente o falso alívio que atrasa o diagnóstico. Antes de assinar qualquer pedido deste capítulo, faça a pergunta que serve para os dois lados: um resultado normal aqui mudaria alguma coisa no que eu vou fazer? Quando a resposta é negativa, esse exame não é para este paciente.

O eletrocardiograma, que engana nas duas direções

O eletrocardiograma continua sendo obrigatório em dez minutos em toda dor torácica, e nada deste capítulo o dispensa. O método de leitura sistemática é do capítulo ECG na prática, na apostila Interpretação de Exames à Beira do Leito, e é dele que se deve usar a técnica; o que se acrescenta aqui é como interpretar o resultado quando a aorta está na lista.

O traçado engana pela primeira direção quando é normal. Eletrocardiograma sem alteração alguma numa dor torácica intensa não afasta dissecção — ela não produz alteração elétrica nenhuma enquanto não compromete uma coronária. Um traçado normal, longe de tranquilizar, deveria aumentar o desconforto: dor de dez em dez, sem nenhuma tradução elétrica, é justamente o retrato de uma doença que não é do músculo cardíaco.

O traçado engana pela segunda direção, e essa é a que mata, quando ele é diagnóstico de oclusão coronária. A dissecção que envolve a aorta ascendente pode descolar o óstio de uma coronária — mais comumente a direita, pela anatomia — e produzir um supradesnivelamento verdadeiro, de parede inferior, com o paciente infartando de verdade. É o único traçado desta apostila que resolve o caso na direção errada: ele autoriza a dose de ataque de antiagregante, o anticoagulante e, num serviço sem hemodinâmica, o trombolítico. A diretriz brasileira de dor torácica de 2025 registra que a antiagregação e a anticoagulação são contraindicadas na dissecção e deletérias quando dadas por engano.

A consequência operacional é uma regra curta, e ela cabe no bolso: antes de qualquer dose de ataque em supradesnivelamento, três gestos que somados levam quinze segundos — palpar os dois pulsos radiais, medir a pressão nos dois braços, e perguntar se a dor foi máxima desde o primeiro segundo. Essa regra é do capítulo Dor torácica no pronto-socorro, e este capítulo a repete de propósito, porque é a trava que a doença exige.

Uma terceira leitura, menos lembrada: alterações inespecíficas de repolarização e sinais de sobrecarga de ventrículo esquerdo são comuns nesses pacientes, porque quase todos são hipertensos de longa data. Um traçado assim não é uma pista a favor de isquemia; é apenas o retrato elétrico da hipertensão que também causou a dissecção.

A radiografia de tórax: rápida, disponível e insuficiente

A radiografia é o exame mais acessível deste capítulo e o único que praticamente todo serviço brasileiro consegue fazer na madrugada. Ela merece ser pedida, e merece ser lida com expectativa calibrada. O método de leitura sistemática é do capítulo Radiografia de tórax, na apostila Interpretação de Exames à Beira do Leito.

O achado que interessa é o alargamento do mediastino superior. A diretriz brasileira de 2025 registra que ele aparece em 60 a 90% dos casos, e — na mesma frase — que a normalidade do exame não exclui o diagnóstico. Guarde a segunda metade com mais força do que a primeira: entre dez e quarenta por cento das dissecções têm radiografia sem alargamento, e uma proporção menor tem radiografia inteiramente normal.

Outros achados aparecem e cada um tem um significado diferente. Derrame pleural à esquerda sugere sangramento para a cavidade. Aumento da área cardíaca num paciente que dói e está hipotenso sugere derrame pericárdico. Desvio da traqueia ou do esôfago, quando há sonda, sugere massa mediastinal em expansão. Perda do contorno do botão aórtico e afastamento entre uma calcificação da parede da aorta e a borda externa da sombra aórtica são os achados mais específicos, e também os mais difíceis de ver — e nenhum deles precisa ser encontrado para que a suspeita se sustente.

O valor real da radiografia, portanto, não é excluir: é promover. Um alargamento de mediastino coloca o paciente no fluxo de alta probabilidade independentemente do escore, e essa é a única decisão que ela toma sozinha. E há um uso negativo relevante, que é o de encontrar outro diagnóstico: pneumotórax, condensação, pneumomediastino.

Uma advertência de processo que vale a pena escrever. O protocolo do Ministério da Saúde para síndromes coronarianas agudas é explícito ao dizer que a radiografia não deve atrasar a reperfusão — com uma exceção nomeada, que é exatamente a suspeita de dissecção. Ou seja: no paciente em que a aorta está na lista, a radiografia deixa de ser um atraso e passa a ser parte da decisão.

A angiotomografia, e como pedir para não repetir

A angiotomografia com contraste é o exame que decide, e a diretriz brasileira de 2025 a registra como o mais utilizado nessa suspeita. Ela mostra o retalho de íntima, separa luz verdadeira de luz falsa, define onde começa e onde termina o descolamento, mostra qual ramo está comprometido, mede o diâmetro da aorta e encontra derrame pericárdico e sangue no mediastino e nas pleuras. Nenhum outro exame responde todas essas perguntas de uma vez, e são exatamente essas as perguntas de que a equipe cirúrgica precisa.

A extensão do exame é onde os pedidos erram, e o erro custa uma segunda tomografia. Peça aorta torácica e abdominal, não tórax. O motivo é anatômico: o descolamento se propaga, e a decisão sobre a perna isquêmica, sobre o rim que parou de urinar e sobre a alça mal perfundida depende de ver a aorta até as ilíacas. O capítulo A doença que não dói, e o dia em que dói, nesta apostila, registra a especificação de protocolo da diretriz vascular para a aorta abdominal, com aquisição desde a aorta ascendente e o arco até as femorais comuns; a lógica é a mesma aqui, e por um motivo adicional: quem opera precisa saber onde está a porta de entrada.

Contraste, função renal e a pergunta que não se faz. Nefropatia induzida por contraste é uma preocupação legítima e é um risco de dias; a dissecção é um risco de horas. Não se atrasa a angiotomografia de uma suspeita de dissecção para esperar creatinina. Alergia prévia a contraste iodado é a única discussão que muda alguma coisa, e mesmo ela se resolve conversando com o radiologista, não cancelando o exame.

Um cuidado que quase nunca é lembrado: o paciente vai para a sala de tomografia, e a sala de tomografia é um lugar sem monitor, sem equipe e sem carrinho. Um paciente com dissecção suspeita não desce sozinho, não desce sem monitorização e não desce sem a droga já correndo. Se você precisa escolher entre descer agora sem controle e descer em dez minutos com a frequência já em queda, desça em dez minutos.

Sobre o que fazer com o laudo: a leitura que muda a conduta é uma só, e é anatômica — o descolamento envolve ou não envolve a aorta ascendente? Tudo o mais é detalhe cirúrgico. Essa pergunta única é o assunto do bloco de critérios.

O ecocardiograma, a ultrassonografia à beira do leito e o transesofágico

São três exames diferentes com o mesmo aparelho, e confundi-los produz decisões erradas. A ultrassonografia à beira do leito feita pelo plantonista, o ecocardiograma transtorácico formal e o ecocardiograma transesofágico respondem perguntas distintas e têm acurácias muito distintas.

A ultrassonografia à beira do leito é a que o interno pode ver acontecer no plantão, e a diretriz brasileira de 2025 a coloca como acréscimo ao escore de probabilidade, com recomendação própria. Ela procura sinais diretos — retalho, hematoma, úlcera — e sinais indiretos: aorta dilatada, derrame pericárdico e insuficiência valvar aórtica. A janela supraesternal pode mostrar o retalho no arco; a subcostal mostra o derrame pericárdico em segundos. O que ela faz de mais útil é promover o paciente para o fluxo de alta probabilidade e responder, num paciente que ficou hipotenso, se há líquido em volta do coração.

O que ela não faz é excluir. Um exame à beira do leito sem sinal nenhum não afasta dissecção, e o transtorácico formal tem acurácia limitada para fechar o diagnóstico. Ele ajuda mostrando insuficiência aórtica, derrame ou dilatação — e a ausência desses achados não descarta.

O transesofágico é outra coisa, e é o parceiro de fuga deste capítulo: a diretriz brasileira de 2025 o registra como o exame quando a angiotomografia não for possível. Ele exige sedação, exige um profissional que saiba fazê-lo e exige aparelho — três recursos que a maioria dos serviços sem tomógrafo também não tem. Onde ele existe, é especialmente útil no paciente instável demais para descer para a tomografia, porque é feito na própria sala.

Um uso que se perde por não se pensar nele: o ecocardiograma responde a pergunta cirúrgica de insuficiência aórtica. Saber se há regurgitação aórtica grave, e o quanto o ventrículo está aguentando, é informação que a equipe que vai receber o paciente quer ter antes de ele chegar.

O serviço que não tem tomógrafo — que é a maioria

Este é o cenário mais provável do plantão do aluno, e o capítulo se recusa a tratá-lo como exceção. Você tem uma suspeita alta de dissecção, o tomógrafo mais próximo está a cento e vinte quilômetros, e a decisão não é qual exame pedir — é o que fazer nas próximas duas horas.

A primeira regra é que a ausência do exame não muda a probabilidade da doença. Um paciente com escore alto continua tendo alta probabilidade de dissecção depois de você descobrir que o tomógrafo está quebrado. O que muda é só o lugar onde a confirmação vai acontecer. Então nada do tratamento espera: analgesia, controle de frequência, controle de pressão e a proibição de antiagregante e anticoagulante começam agora, no seu serviço, com o que você tem.

A segunda regra é que a transferência é o exame. Acione a regulação no mesmo minuto em que a suspeita se formou, não depois de esgotar a investigação local — porque não há investigação local a esgotar. A conversa com o regulador precisa carregar quatro informações que mudam a prioridade do transporte: a hipótese nomeada, o escore com os itens que pontuaram, os sinais de má perfusão que você encontrou, e a pressão e a frequência atuais com as drogas em uso. Redes de atenção, referência e contrarreferência são do capítulo O paciente que some no caminho, na apostila de Medicina Preventiva e Saúde Coletiva; o que este capítulo acrescenta é o que precisa estar dito nessa ligação.

A terceira regra é sobre o que fazer com o que você tem. Radiografia de tórax, sim — porque um alargamento de mediastino confirma a prioridade do transporte e ajuda o regulador. Ultrassonografia à beira do leito, se houver aparelho e alguém que saiba usá-lo, procurando derrame pericárdico e aorta dilatada. Eletrocardiograma seriado, sim. D-dímero, só se a probabilidade for baixa; num escore alto ele não pode mudar a conduta e pode atrasá-la.

A quarta regra é sobre o transporte em si, e ela é a mais esquecida. O paciente não viaja sem monitorização, sem acesso venoso duplo e sem que a droga que reduz frequência esteja correndo ou tenha sido dada. Escreva no documento de transferência a última pressão nos dois braços, a última frequência, os horários e as doses do que foi administrado, o horário de início da dor e os achados do exame de pulsos — porque o serviço que recebe vai refazer o exame e precisa saber o que mudou no caminho.

A quinta regra é sobre expectativa. Transferir não é resolver, e o paciente pode morrer no trajeto. Isso não torna a transferência errada; torna obrigatório que ela seja rápida, monitorizada e com a família informada de que existe esse risco. O que é errado é a alternativa silenciosa que acontece muito: manter o paciente em observação no serviço sem recurso porque ele melhorou da dor.

07

A pergunta que decide, e as réguas que a respondem

A dissecção pode simular síndrome coronariana e produzir isquemia coronária verdadeira. A probabilidade clínica orienta investigação urgente e a decisão de interromper o automatismo antitrombótico.

  1. 1Dor abrupta intensa, assimetria de pulsos/pressão, déficit neurológico, sopro de insuficiência aórtica ou condição predisponente elevam a suspeita. Sua ausência não exclui; acione o supervisor e a equipe aórtica cedo.
  2. 2Na suspeita relevante, discuta antes de iniciar antiagregante, anticoagulante ou trombolítico reflexamente. Não transformar uma possibilidade remota, sem contexto, em bloqueio indefinido do atendimento de síndrome coronariana.
  3. 3Monitore, obtenha acessos, ECG e analgesia titulada. Examine perfusão cerebral, renal, visceral e dos membros repetidamente. Dor aliviada não exclui progressão.
  4. 4No paciente hipertenso sem contraindicação, terapia anti-impulso com betabloqueador IV reduz frequência e força de ejeção; vasodilatador, se necessário, entra após controle da resposta cardíaca. Titule continuamente à perfusão, sem perseguir bradicardia a qualquer custo.
  5. 5Choque, bradicardia importante, insuficiência aórtica aguda ou falência cardíaca exigem estratégia específica. Não iniciar ou manter redução de pressão de forma automática no paciente hipoperfundido.
  6. 6Angiotomografia urgente define extensão e ramos quando viável. No instável, a equipe pode usar ecocardiografia transesofágica/avaliação à beira do leito conforme recursos; não obrigar transporte inseguro para cumprir uma sequência.
  7. 7Aorta ascendente envolvida: avaliação cirúrgica emergencial. Tipo B: tratamento intensivo quando não complicada; rotura, má perfusão, expansão ou dor/hipertensão refratárias exigem reavaliação para intervenção.
  8. 8Registre e transmita tendência de dor, pressão, frequência, pulsos, força, sensibilidade e diurese. Na alta posterior, haverá controle rigoroso de risco e vigilância de imagem, com plano da equipe especializada.

As duas réguas, e o que cada uma decide

Régua e categoriaOnde o descolamento estáO que isso decideOnde a régua aparece nos documentos brasileiros
Stanford AEnvolve a aorta ascendente, seja qual for o ponto em que a íntima rompeuCirurgia imediata. É a categoria em que estão o tamponamento, a insuficiência aórtica aguda e o infarto por óstio coronárioA diretriz cirúrgica brasileira de 2009 usa a expressão tipo A e manda operar imediatamente, mas não define o termo
Stanford BNão envolve a aorta ascendenteTratamento clínico, em terapia intensiva, com intervenção reservada às complicaçõesMesma diretriz de 2009: tratamento cirúrgico condicionado à presença de complicações
DeBakey IComeça na aorta ascendente e se propaga pelo arco e alémEquivale a Stanford A: cirurgia imediataNenhum documento brasileiro em uso define os tipos de DeBakey
DeBakey IIComeça e permanece confinado à aorta ascendenteEquivale a Stanford A: cirurgia imediataNenhum documento brasileiro em uso define os tipos de DeBakey
DeBakey IIIComeça na aorta descendente e se propaga distalmenteEquivale a Stanford B: tratamento clínico, salvo complicaçãoNenhum documento brasileiro em uso define os tipos de DeBakey

Do miligrama à ampola, num adulto de 70 kg — e o que existe no elenco nacional

Droga e apresentação assumidaDose escrita no documento brasileiroVolume e ampolas, recalculadosSituação na Rename 2024
Metoprolol tartarato injetável, 5 mg em 5 mL (1 mg/mL)5 mg por via endovenosa, repetindo a cada 10 minutos, se necessário, até 20 mg (Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025)5 mg = 5 mL = 1 ampola. O teto de 20 mg = 20 mL = 4 ampolas, e a quarta dose cai no minuto 30Fora do elenco nesta forma. A Rename traz succinato de metoprolol em comprimido de liberação prolongada de 25, 50 e 100 mg e tartarato em comprimido de 100 mg, todos no componente básico. Não há apresentação injetável
Esmolol, apresentação de 10 mg/mLAtaque de 500 mcg/kg; infusão de 25 a 50 mcg/kg/min, com aumentos de 25 mcg/kg/min a cada 10 a 20 minutos, até 300 mcg/kg/min (mesma diretriz)Ataque = 35 mg = 3,5 mL. Infusão de 50 mcg/kg/min = 3,5 mg/min = 210 mg/h = 21 mL/h da solução pura. O teto de 300 mcg/kg/min = 21 mg/min = 1.260 mg/h = 126 mL/hNão consta da Rename 2024, nem como esmolol nem como cloridrato de esmolol
Nitroprussiato de sódio, 50 mg em 2 mL, diluído até 250 mL em soro glicosado a 5%Entra depois do betabloqueador, nunca antes (mesma diretriz)A diluição fica em 200 mcg/mL. A 0,5 mcg/kg/min = 35 mcg/min = 10,5 mL/h; a 1 mcg/kg/min = 21 mL/h; a 5 mcg/kg/min = 105 mL/hNão consta da Rename 2024, procurado também na grafia nitroprusseto. Nitroglicerina e labetalol também não constam
Morfina, solução injetável de 10 mg/mLControle da dor com morfina, simultâneo ao controle pressórico (mesma diretriz)Diluir 1 mL (10 mg) em 9 mL de água destilada para obter 1 mg/mL; 2 a 4 mg = 2 a 4 mL dessa diluiçãoConsta, na solução injetável de 10 mg/mL — mas no componente especializado, que é a via de dispensação ambulatorial, e não no básico
Verapamil, solução injetável de 2,5 mg/mL, ampola de 2 mLBloqueador de canal de cálcio não di-hidropiridínico como alternativa ao betabloqueador no asmático (mesma diretriz, sem dose escrita para esta indicação)1 ampola = 5 mg = 2 mL. Uma dose de 2,5 mg corresponde a 1 mLConsta da Rename 2024 em comprimido de 80 e 120 mg e em solução injetável de 2,5 mg/mL, no componente básico. É o único freio de frequência injetável deste capítulo que existe no elenco

A complicação à beira do leito: o achado, o que ele significa, e de quem é o manejo

O que você encontraO que significaQuem ensina o manejo nesta coleção
Pressão que despenca em quem estava hipertenso, com turgência jugular e bulhas abafadasRotura para o saco pericárdico. Tamponamento. Complicação da ponta proximal, e a que mata mais rápidoPericardite aguda e tamponamento cardíaco, na apostila de Cardiologia — com a ressalva deste capítulo: aqui a drenagem não resolve, porque a fonte continua sangrando até a aorta ser operada
Sopro diastólico novo em foco aórtico, com dispneia e congestãoInsuficiência aórtica aguda por desalinhamento das comissuras. Ventrículo sem tempo de dilatarEstenose aórtica e insuficiência mitral e Edema agudo de pulmão, ambos na apostila de Cardiologia
Supradesnivelamento de ST, mais frequentemente inferiorDescolamento do óstio coronário. É infarto verdadeiro num paciente em que antiagregante, anticoagulante e trombolítico estão proibidosIAM com supradesnível de ST, na apostila de Cardiologia — e a trava de não prescrever antes de excluir a aorta é deste capítulo
Déficit motor ou sensitivo focal de um lado, com afasia ou desvio da rimaDescolamento alcançou uma carótida. É a dissecção que chega como acidente vascular cerebralDéficit neurológico focal agudo, na apostila Síndromes do Paciente na Emergência, e AVC isquêmico agudo, na de Neurologia — com a trava deste capítulo antes do trombolítico
Perda de força nas duas pernas, com nível sensitivo, sem traumaIsquemia medular por comprometimento das artérias intercostais que irrigam a medulaNenhum capítulo do nível é dono da isquemia medular por dissecção; este capítulo assume o reconhecimento e declara que assumiu
Perna fria, pálida, sem pulso, com déficit motor ou sensitivoMá perfusão de membro por obstrução de ilíaca ou femoral, dinâmica ou estáticaMúsculo não volta, nesta apostila, é dono da oclusão arterial aguda de membro — mas quando a origem é aórtica, a imagem da aorta inteira vem antes de qualquer decisão sobre o membro
Dor abdominal intensa e desproporcional ao exame, com acidoseMá perfusão mesentéricaDor abdominal no pronto-socorro, na apostila Síndromes do Paciente na Emergência, e Cinco relógios diferentes, na de Urgência e Emergência Cirúrgica

O que a régua brasileira responde, e o que nenhum documento brasileiro responde

Pergunta do plantãoDocumento brasileiro que respondeO que ele diz — e o que deixa em aberto
Quando devo suspeitar, e qual exame pedir?Diretriz Brasileira de Atendimento à Dor Torácica na Unidade de Emergência, 2025Responde inteiro: escore de probabilidade pré-teste, D-dímero no ramo de baixa probabilidade, angiotomografia no de alta, transesofágico quando a tomografia é impossível
Posso antiagregar ou anticoagular enquanto espero?Mesma diretriz, 2025Responde: antiagregante e anticoagulante ficam adiados até que o diagnóstico seja confirmado ou descartado, e são declarados contraindicados na dissecção
Qual a pressão e a frequência que eu persigo, e com o quê?Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial, 2025 — que é um documento sobre hipertensão, não sobre a aortaResponde com números, mas com três defeitos internos que este capítulo audita nas notas abaixo. É a única fonte brasileira vigente com alvo numérico
Este paciente opera hoje?Diretrizes para o tratamento cirúrgico das doenças da aorta da Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular, atualização 2009Responde: dissecção que envolve a aorta ascendente opera imediatamente; a que não envolve opera se houver complicação. É de 2009, atualiza um documento de 2007, e nunca teve terceira edição
O que são, afinal, Stanford e DeBakey?NenhumA diretriz cirúrgica de 2009 usa tipo A e tipo B sem definir, e as palavras Stanford e DeBakey aparecem nela apenas como nome de instituição e de autor de referência. As definições ensinadas neste capítulo são as clássicas, e o capítulo declara isso na nota
Existe diretriz brasileira sobre dissecção aórtica?NenhumaAs duas normas brasileiras sobre aorta abdominal — a diretriz da sociedade vascular de 2023 e a portaria ministerial de 2017 — excluem a dissecção do escopo, cada uma com uma frase explícita. O que o Brasil tem é um alvo dentro de uma diretriz de hipertensão e uma diretriz cirúrgica de 2009

Reavaliação da dissecção

Achado novoO que discutir imediatamente
Hipotensão ou rebaixamentoRotura, tamponamento, insuficiência aórtica e efeito das drogas.
Dor abdominal ou lactato crescenteMá perfusão visceral; lactato normal precoce não exclui.
Pé frio, déficit sensitivo ou motorMá perfusão de membro e necessidade de intervenção.
OligúriaPerfusão renal, obstrução de ramo e pressão efetiva.
Dor recorrenteProgressão ou complicação, além de analgesia insuficiente.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Auditoria 1 — o parágrafo que perdeu o começo. A seção 11.6.5 da diretriz brasileira de hipertensão de 2025 abre com a frase Concomitantemente, deve-se promover controle da dor com morfina. Concomitantemente a quê? Não há antecedente: é a primeira frase da seção. Na edição de 2020, a mesma seção começava com duas frases que a de 2025 apagou — uma mandando sempre considerar a dissecção no paciente com dor precordial e pressão elevada, e outra explicando que a progressão da dissecção se relaciona com o valor da pressão e com a velocidade de ejeção ventricular. A supressão dessas duas frases levou junto a única recomendação de suspeitar da doença que o documento tinha, e deixou a conjunção órfã. Quem lê só a edição nova recebe o tratamento sem receber a instrução de pensar no diagnóstico.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Auditoria 2 — a mesma diretriz, dois prazos diferentes para o mesmo alvo. No corpo do capítulo 11, a lista de alvos por lesão de órgão traz: dissecção aguda de aorta, sistólica abaixo de 120 mmHg na primeira hora. Na tabela de recomendações do mesmo capítulo, a recomendação correspondente diz: frequência abaixo de 60 batimentos por minuto e sistólica entre 90 e 120 mmHg, alcançados em 20 minutos, com força forte e certeza baixa. São o mesmo alvo pressórico com prazos que diferem por fator três, e a versão do corpo do texto ainda omite por completo a meta de frequência, que é justamente a parte contraintuitiva e a que governa a conduta. Um aluno que leia apenas a lista de alvos sai sem saber que precisa frear antes de vasodilatar.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Auditoria 3 — o piso pressórico mudou de edição sem que a certeza subisse. A edição de 2020 recomendava sistólica entre 100 e 120 mmHg, com grau de recomendação I e nível de evidência B. A de 2025 recomenda entre 90 e 120 mmHg, com força forte e certeza baixa. O piso desceu 10 mmHg — o que amplia a faixa aceitável para baixo, justamente na direção em que se perde perfusão de órgão — e a qualificação da evidência caiu de B para baixa, sem que o documento explique a mudança. Não é erro aritmético; é uma alteração de conduta entre edições que passa despercebida para quem não compara as duas, e que o capítulo registra porque muda o número que o interno persegue.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Auditoria 4 — a posologia impressa não alcança o prazo impresso. A mesma diretriz de 2025 prescreve metoprolol 5 mg por via endovenosa, repetindo a cada 10 minutos, se necessário até 20 mg. Faça a conta: a primeira dose no minuto zero, a segunda no minuto 10, a terceira no minuto 20 e a quarta no minuto 30. No minuto 20, que é o prazo que a própria diretriz estabelece para atingir os alvos, o paciente terá recebido no máximo 15 mg — três das quatro doses. Se a meta de frequência abaixo de 60 só for alcançada com o teto de 20 mg, ela chega no minuto 30, cinquenta por cento além do prazo declarado. O esquema de dose e a janela de tempo, escritos no mesmo documento, não fecham.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Auditoria 5 — dois escores oferecidos como alternativas, e eles discordam no paciente do livro. A diretriz brasileira de dor torácica de 2025 apresenta dois escores de probabilidade pré-teste para síndrome aórtica aguda e recomenda o segundo de forma adicional ou como alternativa ao primeiro. Aplique os dois ao paciente clássico da doença — dor torácica de início súbito, intensidade severa, caráter rasgante, sem condição predisponente e com exame físico normal. No escore de detecção de dissecção, as três características de dor moram todas na mesma categoria, e categoria pontua uma vez: total de 1 ponto, que é baixa probabilidade, e o caminho vira D-dímero. No escore simplificado, dor severa vale 1 e dor de início súbito vale 1: total de 2 pontos, que é alta probabilidade, e o caminho vira angiotomografia direto. O mesmo paciente, na mesma página, em dois caminhos opostos. A escolha do escore, que a diretriz deixa a critério do serviço, decide se o paciente clássico faz tomografia ou não.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Auditoria 6 — o texto corrido pede uma condição; a figura pede duas. Na mesma diretriz, o texto enuncia o fluxo assim: probabilidade pré-teste baixa, realizar D-dímero. A figura do fluxograma exige duas condições simultâneas para chegar ao D-dímero — pontuação de até 1 ponto E ausência de sinal sugestivo na ultrassonografia à beira do leito ou na radiografia de tórax —, e traz ainda uma nota de rodapé mandando seguir o fluxo de alta probabilidade quando houver alargamento de mediastino, independentemente do escore. Quem se guiar pelo texto e não pela figura pode parar um paciente com mediastino alargado num D-dímero.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Auditoria 7 — o tema deste capítulo nomeia duas classificações que nenhum documento brasileiro em uso define. A diretriz cirúrgica brasileira de 2009 é a única fonte nacional que decide a cirurgia, e ela usa as expressões tipo A e tipo B como se o leitor já soubesse: não há, em todo o documento, uma frase que defina o que torna uma dissecção tipo A. As palavras Stanford e DeBakey aparecem nela apenas como nome de universidade e como sobrenome de autor de referência bibliográfica. Registro explícito, porque é leitura deste capítulo e não citação: as definições da primeira tabela são as clássicas das descrições originais, que este capítulo não abriu no original. O que ele afirma com fonte é a consequência — que a dissecção que envolve a aorta ascendente tem indicação de intervenção cirúrgica imediata, e que a que não envolve tem indicação condicionada à complicação.

Aprofundamento documental — leitura complementar. O que foi conferido e bateu — e isso informa tanto quanto o que não bateu. A diretriz de dor torácica de 2025 afirma que o escore de detecção de dissecção engloba 12 variáveis em 3 categorias: contadas na tabela, são 5 condições predisponentes, 3 características de dor e 4 achados de exame — 12 exatamente. O escore simplificado alternativo tem soma máxima de 7 pontos e traz o ponto de corte no texto (0 a 1 é baixo risco, 2 ou mais é alto), de modo que é aplicável como publicado. A conversão do metoprolol fecha: 5 mg na apresentação de 1 mg/mL são 5 mL, uma ampola. E as duas normas brasileiras da aorta abdominal excluem a dissecção com frase explícita, conferida no texto de cada uma — a portaria ministerial escreve que não se incluem os aneurismas torácicos, os infecciosos e os casos de dissecção de aorta.

Aprofundamento documental — leitura complementar. O elenco nacional, e o que ele muda. Das cinco drogas desta página, três não existem na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024 em nenhuma apresentação: esmolol, nitroprussiato de sódio (procurado também como nitroprusseto) e labetalol. Nitroglicerina e diltiazem também não constam. Metoprolol e propranolol constam apenas em comprimido; hidralazina, apenas em comprimido. A morfina injetável consta, mas pelo componente especializado. O único freio de frequência injetável do capítulo que está no elenco básico é o verapamil, em solução de 2,5 mg/mL. Isso não significa que o hospital não tenha as drogas — os hospitais compram fora do elenco — e significa que a padronização nacional não sustenta este capítulo, o que pesa mais em serviço pequeno e em compra de emergência. A ausência do nitroprussiato e a limitação do metoprolol ao comprimido já haviam sido medidas pelo capítulo Crise hipertensiva, da apostila de Cardiologia, e são aqui citadas, não remedidas.

Aprofundamento documental — leitura complementar. Qual régua o Brasil usa, dito sem rodeio. Não existe diretriz brasileira de dissecção aórtica aguda. O que existe é um alvo numérico dentro de uma diretriz de hipertensão de 2025, uma rota diagnóstica dentro de uma diretriz de dor torácica de 2025, e uma indicação cirúrgica dentro de uma diretriz cirúrgica cuja última edição é de 2009 e cujo original é de 2007. Nenhum desses três documentos foi escrito para ser a régua da doença, e nenhum deles cobre o que o outro deixa de fora — a de hipertensão não diz quando operar, a de dor torácica para no exame de imagem, e a cirúrgica de 2009 não tem alvo pressórico numérico. O aluno que procurar um documento nacional único para este capítulo não vai encontrar, e é honesto saber disso antes de procurar.

08

A conduta, hora a hora

Há algo na conduta da dissecção que não se repete em nenhuma outra doença desta apostila: o tratamento começa antes do diagnóstico, e a maior parte do que se faz na primeira hora é impedir que coisas sejam feitas. Você não está corrigindo a doença — está reduzindo a força que a faz avançar enquanto alguém decide se ela vai para a mesa.

A linha do tempo abaixo é a de Segismundo Remanso, o motorista de 58 anos da cena, numa unidade de pronto atendimento sem tomógrafo, a cento e vinte quilômetros do serviço de referência. As doses citadas vêm da diretriz brasileira de hipertensão de 2025 e estão convertidas em volume na tabela do bloco anterior; as ressalvas sobre o que existe no elenco nacional estão lá também.

  1. Minuto 0 — a porta, e a pergunta de oito palavras

    A triagem abre o protocolo de dor torácica pelo critério objetivo e Segismundo vai para a sala de estabilização, não para a fila. Enquanto o técnico posiciona os eletrodos, você faz a pergunta que separa as duas doenças — começou forte assim ou foi aumentando? — e palpa os dois pulsos radiais ao mesmo tempo. Ele responde que veio de uma vez, e o radial esquerdo é claramente mais fraco. A partir desse instante você tem duas hipóteses, e uma delas proíbe o tratamento da outra. A comunicação com o supervisor e a referência aórtica começa aqui, em paralelo ao ECG e ao suporte; a cronologia narrativa não deve criar espera de vinte minutos para acionar a equipe.

    Prescrição
    • Monitorização contínua com desfibrilador prontamente disponível, oximetria e dois acessos venosos calibrosos
    • Pressão arterial medida nos DOIS braços, com o valor de cada lado anotado no prontuário com a hora
    • Eletrocardiograma de 12 derivações em até 10 minutos, interpretado por um médico
  2. Minuto 10 — a suspensão, que é a conduta mais importante do capítulo

    O traçado mostra sobrecarga de ventrículo esquerdo e alterações inespecíficas de repolarização. Com pulso assimétrico, pressão 178 no direito e 132 no esquerdo, dor máxima desde o primeiro segundo e um sopro diastólico que ninguém tinha descrito, o escore de probabilidade pré-teste pontua nas categorias de dor e de exame físico: alta probabilidade. Aqui entra a trava, e ela precisa ser dita com todas as letras — diante desta alta suspeita clínica de dissecção, antiagregante, anticoagulante e trombolítico ficam suspensos. Isso vale mesmo que o eletrocardiograma passe a mostrar supradesnivelamento, porque a dissecção que compromete o óstio coronário produz um supra verdadeiro.

    Prescrição
    • Suspender ácido acetilsalicílico, clopidogrel, heparina e trombolítico até confirmação ou descarte do diagnóstico (Diretriz Brasileira de Atendimento à Dor Torácica na Unidade de Emergência, 2025)
    • Escrever no prontuário, em uma linha, a razão da suspensão — o próximo plantonista precisa entender por que o paciente não recebeu o que a rotina manda
    • Comunicar a suspensão verbalmente à enfermagem, porque a prescrição do infarto pode já estar em preparo
  3. Minuto 10 a 20 — analgesia plena, que aqui é tratamento e não conforto

    A dor da dissecção é ela própria um estímulo adrenérgico: ela sobe pressão e frequência, que são as duas parcelas da força que descola a parede. Tratar a dor não é apagar o quadro, é reduzir a agressão. A diretriz brasileira de hipertensão de 2025 coloca o controle da dor com morfina como medida concomitante ao controle pressórico, não posterior a ele.

    Prescrição
    • Morfina 2 a 4 mg por via endovenosa, repetida conforme a resposta, com a diluição de 1 mL da ampola de 10 mg/mL em 9 mL de água destilada para obter 1 mg/mL (Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial, 2025)
    • Registrar a intensidade da dor antes e depois, com a hora — a dor é o parâmetro de reavaliação mais sensível que este paciente tem
    • Não usar o alívio da dor como argumento diagnóstico: morfina alivia dor de qualquer origem
  4. Minuto 15 a 35 — frequência primeiro, e é aqui que se erra

    O betabloqueador endovenoso é a primeira droga, e o motivo é mecânico: ele reduz simultaneamente a frequência e a velocidade de ejeção ventricular, que são as duas metades da força que empurra o descolamento. Se você abrir o vasodilatador antes, a queda de pressão dispara taquicardia reflexa e você piora a segunda metade enquanto melhora a primeira. O alvo brasileiro é frequência abaixo de 60 batimentos por minuto. Segismundo está a 104. A meta abaixo de 60 bpm pertence à referência brasileira citada, não é regra universal. A ACC/AHA 2022 utiliza 60–80 bpm e PAS <120 mmHg ou a menor pressão que preserve perfusão. Escolha a referência com a equipe e ajuste à resposta; não aumentar doses apenas para atravessar um corte numérico.

    Prescrição
    • Metoprolol 5 mg por via endovenosa lenta (1 ampola de 5 mg/5 mL), repetido a cada 10 minutos conforme a frequência, até o teto de 20 mg (Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial, 2025)
    • Alternativa titulável: esmolol, ataque de 500 mcg/kg seguido de infusão de 25 a 50 mcg/kg/min, aumentada de 25 em 25 até o máximo de 300 mcg/kg/min (mesma diretriz) — não consta da Rename 2024
    • Se betabloqueador for contraindicado ou não tolerado, discutir alternativa como bloqueador de canal de cálcio não di-hidropiridínico, considerando função ventricular, condução e hemodinâmica. Asma estável não é sinônimo de broncoespasmo ativo; escolha e titulação cabem à equipe monitorizada.
    • Não usar betabloqueador se o paciente estiver hipotenso ou bradicárdico — nesse cenário a hipótese mudou, e a próxima conduta é cirúrgica
  5. Minuto 25 a 45 — pressão depois, e com o piso vigiado

    Com a frequência caindo, entra o vasodilatador. O alvo brasileiro é sistólica entre 90 e 120 mmHg, alcançado em 20 minutos segundo a tabela de recomendações — prazo que o próprio documento contradiz na lista de alvos do corpo do texto, como a auditoria do bloco anterior mostra. Vigie o piso: o número que interessa não é 90, é a pressão mais baixa que ainda mantém o paciente lúcido, urinando e com extremidades quentes.

    Prescrição
    • Nitroprussiato de sódio em infusão contínua, iniciado SOMENTE depois do betabloqueador, para não elevar a frequência e a velocidade de ejeção aórtica (Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial, 2025)
    • Diluição usual de 1 ampola de 50 mg/2 mL até 250 mL de soro glicosado a 5%, resultando em 200 mcg/mL; num adulto de 70 kg, 0,5 mcg/kg/min correspondem a 10,5 mL/h e 1 mcg/kg/min a 21 mL/h
    • Reavaliar nível de consciência, diurese, perfusão periférica e pulsos a cada ajuste — o alvo é perfusão, e a pressão é só o instrumento
    • Conferir disponibilidade, apresentação, fotoproteção e protocolo de nitroprussiato com a farmácia hospitalar. Sua ausência presumida numa busca da Rename não prova ausência de acesso nem substitui escolha de alternativa titulável.
  6. Minuto 20, em paralelo — a ligação que não pode esperar o exame

    Neste serviço não há tomógrafo, e a transferência é o exame. A regulação é acionada agora, com o paciente ainda sendo estabilizado, e não depois de esgotar uma investigação que não existe. A ligação carrega quatro informações que mudam a prioridade do transporte, e todas já estão na sua mão.

    Prescrição
    • Comunicar à regulação: hipótese nomeada de síndrome aórtica aguda, itens do escore que pontuaram, sinais de má perfusão encontrados, e pressão e frequência atuais com as drogas em uso
    • Radiografia portátil pode apoiar a investigação se disponível sem atraso. Alargamento mediastinal é sugestivo, não confirmatório; radiografia normal não exclui e não reduz a urgência.
    • Não solicitar D-dímero: em alta probabilidade ele não pode mudar a conduta e pode atrasá-la
  7. Minuto 60 a 90 — o transporte, que é a parte mais esquecida

    O paciente sai monitorizado, com as drogas correndo, com acompanhante da equipe e com um documento que serve para alguma coisa. O serviço que recebe vai refazer o exame de pulsos e precisa saber o que mudou no caminho — por isso o registro do que você mediu na chegada vale tanto quanto o que você prescreveu.

    Prescrição
    • Transporte com monitorização contínua, dois acessos e a infusão mantida; nunca com a bomba desligada para caber na maca
    • Documento de transferência com: horário de início da dor, pressão nos dois braços na chegada e na saída, frequência, exame dos quatro pulsos, sopros, déficits neurológicos, drogas com dose e horário, e o motivo escrito da suspensão de antiagregante e anticoagulante
    • Reserva de hemocomponentes comunicada ao serviço de destino, quando o serviço tiver agência transfusional
  8. Chegada ao serviço com tomógrafo — a pergunta única

    A angiotomografia de aorta torácica e abdominal responde a pergunta que separa as duas doenças: o descolamento envolve a aorta ascendente? Se envolve, a diretriz cirúrgica brasileira é direta — a intervenção deve ser imediata, e os objetivos declarados são evitar a rotura e a morte por tamponamento, corrigir a regurgitação aórtica, evitar a isquemia miocárdica, excluir o local da laceração e redirecionar o fluxo pela luz verdadeira. Se não envolve, o paciente fica em terapia intensiva com o mesmo controle de frequência e pressão, e a cirurgia passa a ser condicionada à complicação.

    Prescrição
    • Se envolve a aorta ascendente: acionar a equipe cardiovascular no mesmo minuto do laudo e tratar a espera como tempo de sala (Diretrizes para o tratamento cirúrgico das doenças da aorta, SBCCV, atualização 2009)
    • Se não envolve: internação em terapia intensiva, com manutenção do alvo de frequência e pressão e vigilância ativa das complicações que revertem a decisão — sinais de rotura, pseudoaneurisma, isquemia visceral ou de extremidade grave, e dor persistente ou recorrente durante a terapia medicamentosa (mesma diretriz)
    • Em qualquer dos dois ramos: manter a suspensão de antiagregante e anticoagulante até que a equipe cirúrgica decida o contrário
09

Como saber se está funcionando

A reavaliação da dissecção é diferente da de quase todas as outras doenças desta apostila, porque aqui você reavalia sem ter resolvido nada. O tratamento clínico não fecha o rasgo — ele apenas reduz a força que o empurra. Cada parâmetro abaixo responde a mesma pergunta por um ângulo diferente: o descolamento está parado ou está avançando?

E há uma inversão a fixar antes da lista. Na maior parte do plantão, pressão que cai é melhora. Aqui, pressão que cai sem que você tenha aumentado droga nenhuma é a pior notícia possível.

A dor — presença e localização, não intensidadeNos primeiros sessenta minutos, de quinze em quinze; depois disso, a cada hora — com horário e localização anotados sempre

Esperado: Dor que cede com a analgesia e com a queda da frequência, e que não muda de lugar. O que se registra é onde ela está agora comparado com onde estava — a migração é o próprio movimento da doença.

Se não melhora: Dor persistente ou recorrente durante a terapia medicamentosa é, na diretriz cirúrgica brasileira, um dos critérios que tornam cirúrgica uma dissecção que não envolve a aorta ascendente. Ou seja: dor que volta não é falha de analgesia, é indicação de reavaliar a decisão cirúrgica. Comunique a equipe, não aumente a morfina e siga.

A frequência cardíaca — o alvo que vem primeiroMonitorização contínua, com registro a cada titulação de droga

Esperado: Queda progressiva até menos de 60 batimentos por minuto, pela régua brasileira de 2025, alcançada antes de qualquer vasodilatador entrar.

Se não melhora: Frequência que não cai apesar do betabloqueador tem três explicações que mudam a conduta: dor não controlada, hipovolemia por sangramento em curso, ou o vasodilatador aberto cedo demais produzindo taquicardia reflexa. Confira as três nessa ordem antes de subir a dose. Se a frequência cair mas a pressão não, o problema é resistência periférica e o vasodilatador é a resposta certa — agora com o freio já posto.

A pressão nos dois braços, repetidaNa chegada, a cada ajuste de droga, e pelo menos uma vez a cada hora, sempre nos dois lados

Esperado: Sistólica entre 90 e 120 mmHg no braço de maior valor, com a diferença entre os lados estável ao longo do tempo.

Se não melhora: Uma assimetria que aparece durante a observação, em quem tinha pressões simétricas na chegada, significa que o descolamento avançou e alcançou um novo ramo. Isso é progressão e é comunicação imediata à equipe. Atenção à armadilha de medida: se você está titulando droga pelo braço cuja subclávia foi comprometida, está perseguindo uma pressão que não é a do paciente — titule pelo braço de maior valor.

Os quatro pulsos, e a perfusão dos quatro membrosNa chegada e a cada hora, com as quatro respostas escritas

Esperado: Pulsos mantidos e simétricos em relação ao exame anterior, com extremidades quentes e enchimento capilar preservado.

Se não melhora: Pulso que some é ramo novo comprometido. Pulso que some e volta é obstrução dinâmica — o retalho oscilando sobre o óstio —, e é justamente por isso que o exame precisa ser repetido: um único exame normal documenta um instante, não uma evolução. Membro que perde motricidade ou sensibilidade deixou de ser sinal e passou a ser urgência de revascularização, e o capítulo Músculo não volta, nesta apostila, é quem ensina essa contagem de tempo.

A perfusão de órgão: consciência, diurese e função renalNível de consciência a cada avaliação; débito urinário horário com sonda vesical; creatinina e lactato conforme o intervalo do serviço

Esperado: Paciente lúcido, orientado, com diurese acima de 0,5 mL/kg/h e sem acidose progressiva.

Se não melhora: Aqui está a razão de o piso pressórico ser um alvo vigiado e não um número. Se a consciência rebaixa, a diurese cai ou o lactato sobe enquanto a pressão está dentro da faixa, a faixa está baixa demais para este paciente: o alvo real é a pressão mais baixa que mantém perfusão. Anúria com hipertensão que não cede aponta comprometimento de artéria renal; dor abdominal com acidose aponta ramo mesentérico, e nenhuma das duas se resolve ajustando a bomba.

O exame neurológico focalNa chegada, a cada hora, e imediatamente a qualquer queixa nova

Esperado: Ausência de déficit novo. Força e sensibilidade preservadas nos quatro membros, sem alteração de fala nem de face.

Se não melhora: Déficit novo de um lado aponta carótida; perda de força nas duas pernas com nível sensitivo aponta isquemia medular. Nos dois casos a leitura é a mesma — o descolamento progrediu — e o reflexo perigoso é abrir a rota do acidente vascular cerebral e considerar trombólise. Num paciente com dissecção conhecida ou suspeita, essa rota está fechada.

A hemodinâmica global, e a virada que muda tudoMonitorização contínua, com reavaliação clínica dirigida a cada queda de pressão

Esperado: Pressão estável dentro do alvo, sem turgência jugular, com bulhas audíveis e sem sinais de congestão nova.

Se não melhora: Queda de pressão que você não provocou é a emergência dentro da emergência. Suspenda o vasodilatador, examine jugulares e bulhas, e busque derrame pericárdico na janela subcostal se houver aparelho. As quatro causas são tamponamento, rotura livre, insuficiência aórtica aguda grave e infarto por óstio coronário — todas cirúrgicas. Betabloquear ou vasodilatar um paciente que virou hipotenso é retirar a única compensação que ele tem.

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Onde o erro machuca

A dose de ataque prescrita antes de a aorta ter sido pensada

O dano: É o erro que mata, e o único desta apostila em que o tratamento correto da doença mais provável piora a doença menos provável. A diretriz brasileira de dor torácica de 2025 registra que a antiagregação e a anticoagulação são contraindicadas na dissecção e deletérias quando dadas por engano. A armadilha completa é que a dissecção que compromete o óstio coronário produz supradesnivelamento verdadeiro: o traçado que parece resolver o caso é justamente o do paciente que não pode ser antiagregado, anticoagulado nem trombolisado.

Como pegar a tempo: Três gestos antes de qualquer dose de ataque, e somados levam quinze segundos: palpar os dois pulsos radiais ao mesmo tempo, medir a pressão nos dois braços, e perguntar se a dor foi máxima desde o primeiro segundo. Se qualquer um acender a luz, o antiagregante espera a imagem. Escreva no prontuário a razão da espera, porque o próximo plantonista vai estranhar a ausência da prescrição de rotina.

Vasodilatador aberto antes do betabloqueador

O dano: A queda de pressão dispara resposta barorreflexa: sobem a frequência e a força de contração, e com elas a velocidade com que a pressão sobe a cada batimento, que é a parcela da força que golpeia a borda do descolamento. O resultado, escrito assim pelo capítulo Crise hipertensiva da apostila de Cardiologia, é um paciente que sai com a pressão menor e a dissecção maior. O erro é especialmente fácil porque o vasodilatador é a droga que a equipe já sabe preparar.

Como pegar a tempo: Ordem fixa e verbalizada em voz alta na sala: dor, freio, e só então vasodilatador. A diretriz brasileira de hipertensão de 2025 escreve que o nitroprussiato deve ser iniciado depois do betabloqueador, para não elevar a frequência e a velocidade de ejeção aórtica. Se o serviço não tem betabloqueador injetável — o que é comum, porque ele não está no elenco nacional —, use o bloqueador de canal de cálcio não di-hidropiridínico, mas não pule o freio.

Aceitar a melhora da dor como resposta

O dano: A dor da dissecção é máxima no momento do descolamento e cede quando o descolamento pausa. O paciente pode passar horas confortável com a luz falsa pressurizada e o rasgo intacto, e a analgesia produz o mesmo alívio, independentemente da causa. Pior: dor que persiste ou recorre durante a terapia medicamentosa é, na diretriz cirúrgica brasileira, um dos critérios que tornam cirúrgica uma dissecção antes classificada como clínica — quem trata a dor recorrente aumentando a morfina apaga o sinal que mudaria a decisão.

Como pegar a tempo: Registre presença, localização e horário da dor a cada reavaliação, e trate a melhora como evolução e nunca como argumento. Dor que volta é comunicação à equipe cirúrgica, não é titulação de analgésico.

Tratar radiografia normal ou D-dímero normal como exclusão

O dano: O alargamento de mediastino aparece em 60 a 90% dos casos, o que significa que entre dez e quarenta por cento das dissecções têm radiografia sem ele — e a própria diretriz brasileira de 2025 escreve que a normalidade do exame não exclui. O D-dímero só tem poder de descarte no ramo de baixa probabilidade e com duas condições simultâneas, escore baixo e ausência de sinal sugestivo na imagem de beira de leito ou na radiografia. Um D-dímero abaixo do corte num paciente de alta probabilidade é o falso alívio que manda o paciente para casa.

Como pegar a tempo: Decida o exame pela probabilidade pré-teste, não pelo resultado do exame anterior. Em alta probabilidade, o D-dímero não é pedido — a tomografia será feita de qualquer forma. E em qualquer probabilidade, alargamento de mediastino promove o paciente para o fluxo de imagem, independentemente do escore.

Perder o paciente hipotenso porque ele não parece o do livro

O dano: A imagem mental da doença é a do hipertenso, e quem chega chocado entra em outra rota — sepse, choque cardiogênico, hemorragia digestiva. Numa dissecção, hipotensão significa tamponamento, rotura livre, insuficiência aórtica aguda grave ou infarto por óstio coronário: as quatro são cirúrgicas e três delas são da ponta proximal. Some a isso uma armadilha de medida: se o descolamento estreitou a subclávia daquele braço, o aparelho está informando pseudo-hipotensão de um território mal perfundido.

Como pegar a tempo: Meça nos dois braços antes de concluir que o paciente está chocado, e olhe jugulares, bulhas e janela subcostal. Se a pressão caiu sem que você tenha aumentado droga, suspenda o vasodilatador e chame a equipe cirúrgica — a próxima conduta não é farmacológica.

Segurar o paciente no serviço sem tomógrafo porque ele melhorou

O dano: A ausência do exame não muda a probabilidade da doença, e a mortalidade descrita nos grandes registros é de 1 a 2% por hora nas primeiras 48 horas. Cada hora de observação num serviço que não pode confirmar nem operar é uma hora de risco sem contrapartida. O paciente confortável, com a dor cedida e a pressão controlada, é exatamente o que mais convida a esperar amanhecer.

Como pegar a tempo: Acione a regulação no minuto em que a suspeita se formou, não depois de esgotar uma investigação local que não existe. A transferência é o exame. Diga ao regulador a hipótese nomeada, os itens do escore que pontuaram, os sinais de má perfusão e a pressão e a frequência atuais com as drogas em uso — são quatro informações que mudam a prioridade do transporte.

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O que dizer ao paciente e à família

O que torna esta conversa difícil é uma exigência incomum: cabe a você explicar por que está deixando de dar o remédio que a família ouviu dizer que se dá no infarto, e precisa fazer isso sem transformar a explicação numa acusação ao serviço que já tinha preparado a medicação. E precisa fazer tudo isso rápido, porque o paciente vai sair da sala em minutos.

As falas abaixo são para dizer em voz alta. A técnica de comunicar má notícia, passo a passo, é do capítulo Comunicação de más notícias, na apostila Comunicação, Ética e Segurança na Prática; o que está aqui é o conteúdo específico desta doença.

Ele pergunta, ainda na maca, se é infarto

Pode ser, e é por isso que o senhor está monitorizado. Mas tem uma outra possibilidade que eu preciso descartar antes, que é um problema na aorta — a maior artéria do corpo, a que sai do coração. Não é o mais provável, é o mais grave, e ela muda o remédio que eu posso dar. Por isso eu vou pedir uma tomografia antes de começar o tratamento do infarto.

Não diga: Fica tranquilo que a gente já vai tratar. É a frase que fecha a porta duas vezes: promete um tratamento que talvez esteja proibido, e desmonta a explicação que você vai precisar dar em seguida.

A família pergunta por que não deram o remédio para afinar o sangue

Porque, se for a aorta, esse remédio piora. A parede da artéria está rasgada por dentro, e afinar o sangue nessa situação aumenta o sangramento em vez de resolver. Não é que a gente esteja deixando de tratar — é que a gente precisa saber qual das duas doenças é antes de escolher o remédio, e o exame que responde isso é o próximo passo.

Não diga: Não é o protocolo. A frase esconde a razão atrás de uma palavra burocrática e produz uma família que acha que o paciente está sendo prejudicado por regra de hospital.

É preciso transferir, e o serviço de destino fica longe

Este exame que eu preciso não existe aqui, e é ele que decide se o senhor vai precisar de cirurgia hoje. Eu já falei com a central de regulação e o senhor vai ser transferido. Vai com monitor, com a medicação correndo e com alguém da equipe junto. Eu não vou fingir que a viagem é sem risco, e é exatamente por isso que a gente está indo agora e não daqui a pouco.

Não diga: Prometer prazo de ambulância que não depende de você. Quem promete uma hora e entrega quatro perde a confiança da família justo no momento em que vai precisar dela.

A tomografia confirmou, e envolve a aorta ascendente

O exame mostrou que a camada interna da aorta se rasgou, e o rasgo pegou o pedaço que sai direto do coração. Isso é a forma mais grave, e o tratamento dela é cirurgia — não é um tratamento que dá para tentar com remédio primeiro. A equipe de cirurgia cardiovascular já foi chamada. Eu vou explicar o que vai acontecer nos próximos minutos, e vocês podem me interromper quando quiserem.

Não diga: Deu um probleminha na aorta. O diminutivo não conforta e destrói a compreensão de urgência que a família precisa ter para consentir e para se organizar.

A tomografia confirmou, mas não envolve a aorta ascendente

O rasgo existe, mas ficou num pedaço da aorta em que a cirurgia imediata não melhora o resultado — a evidência mostra que operar essa forma, sem necessidade, é mais arriscado do que tratar com remédio. Então o senhor vai para a terapia intensiva, com medicação na veia para manter a pressão e a frequência baixas. A gente vai vigiar de perto, porque se aparecerem certos sinais a decisão muda e aí sim a cirurgia entra.

Não diga: É o tipo mais leve. Não é leve: é o tipo em que a cirurgia imediata não ajuda, o que é uma coisa completamente diferente, e o paciente que ouve leve não entende por que está na terapia intensiva.

O paciente é jovem e a família pergunta como isso aconteceu com ele

Em pessoas mais jovens, a dissecção costuma ter uma razão de fundo — uma condição hereditária da parede das artérias, uma alteração na valva do coração, uma aorta que já era mais larga. Nem sempre a gente descobre qual é no primeiro dia, e às vezes isso é investigado depois, com calma. Uma coisa eu já posso dizer: quando existe causa hereditária, vale a pena investigar os parentes de primeiro grau, e isso a gente encaminha.

Não diga: Ele era saudável, foi azar. Fecha uma investigação que pode mudar a vida de irmãos e filhos, e transforma em acaso uma doença que às vezes tem nome e tem rastreamento familiar.

A família pergunta se dava para ter evitado

Pressão alta mal controlada por muitos anos é o principal fator para essa doença, e é honesto dizer isso. Também é honesto dizer que a maioria das pessoas com pressão alta nunca vai ter uma dissecção, e que não dá para apontar um dia ou uma decisão que teria mudado o que aconteceu hoje. O que eu prefiro fazer agora é conversar sobre o que vem pela frente, e depois, com mais calma, sobre o que muda daqui em diante para ele e para vocês.

Não diga: Se ele tivesse tomado o remédio direito, isso não teria acontecido. Mesmo quando há verdade no fundo, a frase transfere culpa num momento em que ela não muda nada e destrói a aliança de que o tratamento vai depender.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Qual escore de probabilidade pré-teste usar — e o que fazer quando os dois discordam no mesmo paciente

O escore de detecção de dissecção, com três categorias

Doze variáveis distribuídas em três categorias — condição predisponente, característica da dor e achado do exame físico. Cada categoria em que houver qualquer item vale um ponto, no máximo três. Até um ponto é baixa probabilidade e abre o ramo do D-dímero; dois ou três é alta probabilidade e vai direto para angiotomografia. É o escore que a figura do fluxograma da própria diretriz utiliza, e o que contou com inclusão de pacientes brasileiros na sua validação.

Diretriz Brasileira de Atendimento à Dor Torácica na Unidade de Emergência — Sociedade Brasileira de Cardiologia, 2025 (recomendação classe IIa, nível B)

O escore simplificado, com seis características pontuadas

Seis características clínicas, com hipotensão ou choque valendo dois pontos e as outras cinco valendo um cada — aneurisma, déficit de pulso, déficit neurológico, dor severa e dor de início súbito. De zero a um ponto é baixo risco; dois ou mais é alto risco. A própria diretriz o descreve como mais simplificado e de alta sensibilidade, e registra que ainda carece de maior validação para uso ampliado.

Mesma diretriz, 2025 (recomendação classe IIb, nível C), oferecido de forma adicional ou como alternativa ao anterior

Nenhum dos dois, isoladamente

Os dois escores não devem ser utilizados exclusivamente na avaliação inicial para excluir ou confirmar o diagnóstico. Eles definem qual exame se pede a seguir, e não o diagnóstico.

Mesma diretriz, 2025 (recomendação classe III, nível B)

Como decidir

A divergência não é acadêmica, e ela tem uma conta. Tome o paciente clássico da doença: dor torácica de início súbito, intensidade severa, caráter rasgante, sem condição predisponente e com exame físico normal. No escore de três categorias, as três características de dor moram todas na mesma categoria, que pontua uma vez — total de 1 ponto, baixa probabilidade, ramo do D-dímero. No escore simplificado, dor severa vale 1 e dor de início súbito vale 1 — total de 2 pontos, alta probabilidade, angiotomografia direto. O mesmo paciente, na mesma página da mesma diretriz, em dois caminhos opostos. Diante do paciente concreto, o desempate vem de três perguntas. A primeira: qual erro você prefere cometer — o escore simplificado erra na direção de investigar demais, e o de três categorias erra na direção de descartar cedo; numa doença que mata 1 a 2% por hora, a assimetria pesa para o lado da imagem. Segunda: existe radiografia ou ultrassonografia à beira do leito? Qualquer sinal sugestivo neles promove o paciente para o fluxo de imagem seja qual for o escore, e isso resolve a maioria dos empates sem que você tenha de escolher entre escores. Terceira, e a que a diretriz já responde: nenhum dos dois autoriza excluir sozinho. Se você calculou 1 ponto e continua incomodado com a história, o incômodo vale mais que o ponto — e a saída é conversar com quem vai receber o paciente, não recalcular o escore.

Qual é o alvo hemodinâmico, e em quanto tempo — três respostas de documentos brasileiros

Frequência abaixo de 60 e sistólica de 90 a 120, em 20 minutos

Recomenda-se, no paciente com dissecção aguda de aorta por emergência hipertensiva, atingir frequência cardíaca abaixo de 60 batimentos por minuto e pressão sistólica entre 90 e 120 mmHg, alcançados em 20 minutos. É a única recomendação brasileira vigente que traz os dois alvos juntos e com prazo.

Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial — Sociedade Brasileira de Cardiologia, 2025, tabela de recomendações do capítulo 11 (força forte, certeza baixa)

Sistólica abaixo de 120 na primeira hora, sem meta de frequência

Na relação de alvos específicos por lesão de órgão-alvo, a dissecção aparece com uma linha só: pressão sistólica abaixo de 120 mmHg na primeira hora. O prazo é o triplo do da tabela de recomendações, e a meta de frequência — que é a parte contraintuitiva e a que governa a ordem das drogas — não aparece.

A MESMA diretriz de 2025, na lista de alvos por lesão de órgão do corpo do capítulo 11

Frequência abaixo de 60 e sistólica de 100 a 120, com sistólica abaixo de 120 em 20 minutos

A edição anterior usava piso de 100 mmHg, não de 90, e qualificava a recomendação com nível de evidência B. Entre uma edição e a outra o piso desceu dez milímetros de mercúrio e a certeza da evidência caiu, sem que o documento novo explique a mudança.

Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial — Sociedade Brasileira de Cardiologia, 2020, seção 13.7.4.1 (grau de recomendação I, nível de evidência B). Documento SUPERADO pela edição de 2025 e citado aqui apenas como termo de comparação

Como decidir

Comece por não citar a edição de 2020 como se fosse régua: ela está superada, e usá-la é o erro mais grave que existe com norma. Dito isso, o que fazer com um documento vigente que se contradiz internamente? Para o paciente à sua frente, a hierarquia é a que o próprio documento estabelece — a tabela de recomendações é a parte formal, com força e certeza declaradas, e é ela que deve governar; a lista de alvos do corpo do texto é resumo, e resumo que perde a meta de frequência perde justamente o que este capítulo tem de específico. Sobre o prazo, a diferença entre 20 minutos e uma hora importa menos do que parece na prática, porque nenhum dos dois se cumpre por relógio: você titula até a frequência cair e depois até a pressão cair, reavaliando perfusão a cada ajuste, e o tempo é consequência. Sobre o piso, a decisão é clínica e não numérica: 90 mmHg em um paciente de 40 anos e 90 mmHg em um hipertenso crônico de 78 anos, com autorregulação renal e cerebral deslocada, não são a mesma pressão. O alvo real é a pressão mais baixa que mantém o paciente lúcido, urinando e com extremidades quentes — e se ele perde qualquer uma dessas três dentro da faixa, a faixa está baixa demais para ele. Vale registrar que a régua internacional citada pelo capítulo Dor torácica no pronto-socorro, desta mesma coleção, usa uma faixa de frequência de 60 a 80 batimentos por minuto em vez de um teto de 60; este capítulo não abriu aquele documento no original e por isso não o coloca como posição.

Dissecção que não envolve a aorta ascendente: tratamento clínico ou intervenção precoce?

Clínico, com cirurgia condicionada à complicação

Existe concordância geral de que o tratamento cirúrgico das dissecções agudas que não envolvem a ascendente seja condicionado à presença de complicações: sinais de rotura (hemotórax, expansão rápida do diâmetro aórtico, alargamento de mediastino), formação de pseudoaneurisma, isquemia grave visceral ou de extremidades, ou progressão durante a terapia medicamentosa, caracterizada por dor persistente ou recorrente. Aorta previamente aneurismática que sofre dissecção aguda também deve ser considerada para cirurgia de urgência.

Diretrizes para o tratamento cirúrgico das doenças da aorta — Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular, atualização 2009 (recomendação geral do documento)

Intervenção precoce no jovem de baixo risco operatório

Pacientes jovens e de baixo risco operatório poderiam ser direcionados a uma abordagem mais agressiva, com cirurgia precoce, sem aumento de mortalidade hospitalar (11%) em comparação com a terapia medicamentosa, o que evitaria a degeneração aneurismática crônica da aorta descendente. A própria diretriz brasileira registra que esses resultados, ainda que extremamente favoráveis, não foram considerados reprodutíveis por outros centros.

Coorte de 136 pacientes da Stanford University, conforme relatada e avaliada pela mesma diretriz brasileira de 2009 (nível de evidência C na grade daquele documento)

Os números do mundo real, que empurram para o conservador

Nos casos tratados conservadoramente, a mortalidade em 30 dias foi de 10%; nos pacientes operados, foi de 31%, com 18% de paraplegia. Após seguimento de três anos, porém, não houve diferença estatisticamente significativa de mortalidade entre os grupos tratados com terapia médica, endovascular ou cirúrgica.

Registro internacional de dissecção aórtica aguda, conforme relatado pela mesma diretriz brasileira de 2009

Como decidir

Esta decisão não é do interno e não é do plantonista da porta — é da equipe cirúrgica, e o papel de quem está na frente do paciente é fornecer as informações que a fazem mudar. Três coisas orientam a leitura. Primeira: os números de mortalidade das duas posições não são comparáveis, porque os grupos não são os mesmos — quem foi operado no registro internacional foi operado por ter complicação, e ter complicação é o que mata; ler 10% contra 31% como prova de que a cirurgia é pior inverte causa e efeito. Segunda: a diferença que some em três anos é a informação mais útil da tabela, porque diz que a escolha inicial não determina o desfecho tardio — o que reforça reservar a agressividade para quem tem indicação clara. Terceira, e a que muda o seu plantão: as complicações que revertem a decisão são todas de beira de leito, e todas aparecem na reavaliação — dor que volta, pulso que some, rim que para, alça que sofre, aorta que expande. O interno que documenta essas cinco coisas de hora em hora está gerando exatamente o dado que a equipe cirúrgica usa para mudar de lado. Vale ainda registrar o contexto da fonte: o documento brasileiro que sustenta as três posições é de 2009 e atualiza um original de 2007, e o tratamento endovascular da aorta descendente mudou muito desde então — o que significa que a discussão real do serviço em 2026 pode ser outra, e que a decisão deve ser conversada com quem opera, não deduzida da leitura.

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O raciocínio, em voz alta

Volte a Segismundo Remanso, 58 anos, motorista de caminhão, na unidade de pronto atendimento sem tomógrafo. Dor entre as escápulas iniciada há cinquenta minutos, de intensidade dez desde o primeiro segundo, agora também no epigástrio. Hipertenso mal controlado, tabagista. Pressão 178 por 104 no braço direito, frequência 104, saturação 96%, glicemia 118. Acompanhe o raciocínio em voz alta.

  1. o que eu faço na porta, antes de pensar em diagnóstico

    Dor torácica atual abre protocolo: sala de estabilização, monitorização com desfibrilador à mão, oximetria, dois acessos venosos calibrosos com coleta na mesma punção, e eletrocardiograma de 12 derivações em dez minutos. Nada disso depende de eu saber o que ele tem. Enquanto o técnico posiciona os eletrodos, eu ganho os dados que decidem o caso — e eles não custam nada.

  2. os quatro dados que eu compro nesses dez minutos

    Pergunto se começou forte assim ou foi aumentando: ele diz que veio de uma vez, como um golpe. Pergunto onde doía quando começou e onde dói agora: começou nas costas, agora também no epigástrio — migrou. Palpo os dois radiais ao mesmo tempo: o esquerdo é nitidamente mais fraco. Peço pressão nos dois braços: 178 no direito, 132 no esquerdo. E ausculto procurando: há um sopro diastólico em foco aórtico que ninguém tinha descrito antes. Quatro achados, menos de um minuto, nenhum aparelho.

  3. o escore, e o que ele autoriza

    Pelo escore de detecção de dissecção da diretriz brasileira de 2025: condição predisponente, nenhuma — ele não tem doença do tecido conjuntivo conhecida, não sabe de história familiar de aortopatia, não tem valvopatia conhecida, não manipulou a aorta e não sabe de aneurisma torácico. Zero nessa categoria. Característica da dor: início súbito, intensidade severa e caráter rasgante — a categoria pontua, 1 ponto. Achado do exame: déficit de pulso e diferença de pressão entre os braços, mais sopro de regurgitação aórtica novo associado à dor — a categoria pontua, 1 ponto. Total de 2 pontos. Dois ou três é alta probabilidade, e alta probabilidade vai direto para angiotomografia, sem D-dímero.

  4. o traçado, aos oito minutos, e a decisão que ele quase me fez tomar

    Ritmo sinusal a 104, sobrecarga de ventrículo esquerdo e alterações inespecíficas de repolarização em parede lateral. Sem supradesnivelamento, sem infra significativo, sem equivalente de oclusão. Se eu tivesse lido esse traçado antes de fazer o exame de pulsos, eu teria um homem de 58 anos, hipertenso, tabagista, com dor torácica intensa e traçado alterado — e a prescrição reflexa é ácido acetilsalicílico mastigado, clopidogrel de ataque e heparina. Nenhum dos três pode entrar. Escrevo a suspensão no prontuário com a razão em uma linha, e digo em voz alta para a enfermagem, porque a prescrição do infarto já estava em preparo.

  5. o que eu prescrevo, e em que ordem

    Primeiro a dor, porque ela sobe pressão e frequência: morfina 2 mg por via endovenosa, da diluição de 1 mg/mL, repetível. Depois o freio: metoprolol 5 mg endovenoso lento, uma ampola de 5 mg/5 mL, com reavaliação da frequência a cada dez minutos. Só depois de a frequência começar a cair é que entra o vasodilatador. Se eu abrisse o nitroprussiato agora, a queda de pressão dispararia taquicardia reflexa e eu aumentaria exatamente a força que está descolando a parede dele.

  6. o que eu faço com um serviço que não tem tomógrafo

    Aciono a regulação no mesmo minuto, ainda com ele sendo estabilizado. Digo quatro coisas: hipótese de síndrome aórtica aguda, escore de 2 pontos com déficit de pulso e assimetria de pressão, sopro de insuficiência aórtica novo, e pressão e frequência atuais com as drogas em uso. Peço radiografia de tórax no leito — que mostra alargamento do mediastino superior, e isso confirma a prioridade do transporte, embora uma radiografia normal não fosse mudar meu pedido. Não peço D-dímero: em alta probabilidade ele não pode mudar a conduta e pode atrasá-la.

  7. aos quarenta minutos, a frequência caiu e a pressão não

    Depois de três doses de metoprolol, num total de 15 mg, a frequência está em 62 e a pressão em 168 por 96 no braço direito. Agora, e só agora, abro nitroprussiato de sódio, uma ampola de 50 mg em 2 mL diluída até 250 mL de soro glicosado a 5%, o que dá 200 mcg/mL — começo em 0,5 mcg/kg/min, que para os 70 kg dele são 10,5 mL/h, e titulo. Reavalio a cada ajuste consciência, diurese, perfusão e os quatro pulsos, porque o alvo é perfusão e a pressão é só o instrumento.

  8. o que eu escrevo antes de ele entrar na ambulância

    Horário de início da dor. Pressão nos dois braços na chegada e na saída. Frequência. Exame dos quatro pulsos, com a assimetria descrita. O sopro diastólico. Ausência de déficit neurológico focal. Todas as drogas com dose e horário. E, escrito com todas as letras, o motivo da suspensão do antiagregante e do anticoagulante — porque o serviço que recebe vai estranhar a ausência deles, e porque, se ninguém escrever, alguém prescreve na chegada.

  9. o que acontece do outro lado, e o que isso ensina

    A angiotomografia de aorta torácica e abdominal mostra descolamento que começa logo após a valva aórtica e se estende até a aorta descendente. Envolve a aorta ascendente — e é isso, e só isso, que decide. A diretriz cirúrgica brasileira é direta: nas dissecções que envolvem a aorta ascendente, a intervenção deve ser imediata. Ele vai para a mesa. Repare no que separou o desfecho bom do ruim, e não foi nenhum recurso caro: foi um plantonista que palpou dois pulsos ao mesmo tempo antes de prescrever.

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Faça você

Agora é Nivaldina Canindezinho, 63 anos, professora aposentada, num hospital regional que tem tomógrafo. Chegou há três horas com dor torácica súbita e intensa irradiada para o dorso; a angiotomografia já saiu e mostra descolamento que começa depois da artéria subclávia esquerda e se estende até as ilíacas — não envolve a aorta ascendente. Ela foi para a terapia intensiva com metoprolol e nitroprussiato, e está com frequência de 58 e pressão de 112 por 68. São quatro e vinte da manhã e a enfermagem chama você: ela voltou a se queixar de dor, agora nas costas e na perna esquerda, e a perna está fria.

  1. a classificação que ela tem, e o que isso tinha decidido

    O descolamento começa depois da subclávia esquerda e não alcança a aorta ascendente: pela régua de Stanford é tipo B, e pela de DeBakey é tipo III. Essa era exatamente a categoria em que a diretriz cirúrgica brasileira condiciona o tratamento cirúrgico à presença de complicações — daí a terapia intensiva e o controle de frequência e pressão em vez da mesa de cirurgia.

  2. por que a dor que voltou não é um problema de analgesia

    Dor persistente ou recorrente durante a terapia medicamentosa é, naquela mesma diretriz, um dos critérios explícitos de progressão que tornam cirúrgica uma dissecção antes classificada como clínica. Ou seja: a queixa das quatro e vinte não é um item da prescrição de conforto, é um dado que muda a categoria da paciente.

  3. a perna fria, e as duas maneiras de o ramo fechar

    Perna fria com dor nova aponta má perfusão de ramo ilíaco ou femoral. Existem duas mecânicas: a obstrução dinâmica, em que o retalho oscila sobre o óstio e o fecha em algumas sístoles e não em outras — e aí o pulso some e volta —, e a obstrução estática, em que o descolamento entra pelo próprio ramo e o oclui de forma fixa. A primeira explica por que um exame de pulsos normal às duas da manhã não garante nada às quatro.

  4. o exame que você faz agora, à beira do leito

    Os quatro pulsos, comparados dois a dois. A pressão nos dois braços de novo, porque assimetria nova em quem tinha simetria significa que o descolamento avançou. Temperatura, cor, enchimento capilar e — o que decide o relógio — motricidade e sensibilidade do pé esquerdo. Débito urinário da última hora e nível de consciência, que dizem se outros ramos também estão sofrendo.

  5. os dados que você encontra

    Femoral esquerda ausente, poplítea e pedioso esquerdos ausentes, membro frio até o joelho e pálido. Direita com pulsos presentes. Sensibilidade do pé esquerdo diminuída; ela consegue mexer os dedos, com força reduzida. Pressão 114 por 70 no braço direito e 110 por 68 no esquerdo, frequência 58. Diurese de 45 mL na última hora, consciente e orientada. Dor de intensidade oito no dorso, que não estava lá às duas da manhã.

  6. conduta

    — sua vez —

  7. Continuidade do caso e prática do internato

    Compare o plano do paciente hipertenso da abertura com o da paciente que desenvolve má perfusão de membro, destacando o momento de chamar a equipe.

  8. Questão integrativa 1

    Por que um supra de ST não exclui dissecção?

  9. Questão integrativa 2

    É necessário esperar a tríade de dor, pulso assimétrico e sopro?

  10. Questão integrativa 3

    A pressão cai durante nitroprussiato e a diurese diminui. O número baixo prova sucesso?

  11. Questão integrativa 4

    Uma dissecção tipo B com nova fraqueza do pé continua apenas em observação?

  12. Questão integrativa 5

    Por que controlar a resposta cardíaca antes de vasodilatar?

  13. Questão integrativa 6

    A dor desapareceu após morfina. O que ainda deve ser medido?

Ver como fecharíamos

Ela deixou de ser uma paciente de tratamento clínico, e reconhecer isso é a resposta inteira. Dois critérios de progressão estão presentes ao mesmo tempo: dor recorrente durante a terapia medicamentosa, e isquemia grave de extremidade — os dois nomeados pela diretriz cirúrgica brasileira como condições que indicam intervenção numa dissecção que não envolve a aorta ascendente. A comunicação com a equipe cirúrgica é agora, na madrugada, e não na visita da manhã. O que se faz enquanto a equipe é acionada. Primeiro, o que NÃO muda: o controle de frequência e pressão continua, porque a força que descola a parede continua a mesma, e a paciente está no alvo (frequência 58, sistólica 114) — não se ajusta o tratamento de forma independente para tentar perfundir a perna. A nova má perfusão exige revisão imediata das metas pela equipe aórtica: manter controle anti-impulso quando tolerado, evitando hipotensão iatrogênica; tratar a obstrução do ramo e a aorta conforme o mecanismo. Segundo, o que NÃO se faz: anticoagulação plena por reflexo de oclusão arterial aguda continua contraindicada enquanto a dissecção estiver em curso e sem que a equipe cirúrgica decida o contrário — esta perna não é embolia, é um ramo espremido por uma parede descolada, e a heparina não desespreme nada. Terceiro, o que se faz: angiotomografia de controle, de aorta torácica e abdominal, para mostrar até onde o descolamento chegou e qual é o mecanismo da obstrução ilíaca; laboratório com creatinofosfoquinase, potássio, creatinina, lactato e gasometria, porque o músculo isquêmico começa a devolver conteúdo intracelular; sonda vesical se ainda não houver, para medir diurese de hora em hora; e analgesia plena, registrada com horário e intensidade, sem que o alívio seja lido como resolução. Quarto, o relógio: a partir do déficit sensitivo e da força reduzida, o membro está ameaçado e a contagem de tempo passa a ser a da oclusão arterial aguda, que o capítulo Músculo não volta, nesta apostila, ensina — com uma diferença que precisa ficar clara para quem for chamado: a origem é aórtica, então a decisão sobre a perna não se toma sem a imagem da aorta e sem a equipe que vai tratar a aorta. Quinto, a conversa: a família precisa saber, ainda na madrugada, que o quadro mudou e que uma intervenção passou a ser considerada — e a paciente precisa ouvir de você o que está acontecendo com a perna dela antes que alguém entre no quarto para prepará-la. Por fim, o que teria feito você perder isso: aceitar a dor recorrente como dor mal controlada e aumentar a morfina. O sinal que muda a categoria da paciente é exatamente o sinal que o analgésico apaga. Questões integrativas — respostas comentadas 1. A dissecção pode comprometer o óstio coronário e causar isquemia verdadeira. Na alta suspeita aórtica, a equipe precisa integrar os dados antes de administrar antitrombóticos automaticamente. 2. Não. Nenhum conjunto clássico é obrigatório. A probabilidade depende de apresentação, fatores de risco e exame, e pode justificar investigação urgente com achados incompletos. 3. Não. Reavalie perfusão, dose e complicações com a equipe. A meta de pressão é limitada pela perfusão dos órgãos. 4. Não. A má perfusão torna o quadro complicado e exige avaliação imediata para intervenção, com estudo do mecanismo aórtico e do ramo. 5. A vasodilatação isolada pode gerar taquicardia reflexa e maior força de ejeção. A terapia anti-impulso busca reduzir o estresse sobre a parede, quando a hemodinâmica permite. 6. Pressão, frequência, consciência, pulsos, força, sensibilidade e diurese. Analgesia é necessária, mas não confirma estabilidade anatômica nem perfusão adequada.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

A diretriz registra a angiotomografia como o exame mais utilizado nessa suspeita e o ecocardiograma transesofágico como a alternativa quando a tomografia não for possível, o que costuma ser o caso do paciente instável demais para descer da sala. As outras três afirmações são armadilhas frequentes. O alargamento do mediastino superior aparece em 60 a 90% dos casos, e a própria diretriz escreve que a normalidade da radiografia não exclui o diagnóstico. O eletrocardiograma não sofre alteração enquanto o descolamento não compromete uma coronária, de modo que um traçado normal em dor intensa aumenta, e não diminui, o desconforto. E a aquisição precisa cobrir aorta torácica e abdominal, porque o descolamento se propaga e porque a decisão sobre membro isquêmico, rim e alça depende de ver a aorta até as ilíacas.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Escreva de memória, sem consultar, as seis manobras do exame físico da dissecção e, ao lado de cada uma, o território anatômico que o achado positivo denuncia. Depois escreva a ordem das drogas e a razão mecânica de ela ser essa — se você não conseguir explicar em uma frase por que o vasodilatador não pode vir primeiro, volte ao bloco do mecanismo. Por fim, descubra três coisas sobre o seu serviço, que você precisa saber antes do plantão e não durante ele: existe tomógrafo funcionando à noite; existe betabloqueador injetável na farmácia; e qual é o telefone da regulação.

Em 30 dias

Pegue os dois casos e altere um único dado por vez, procurando o ponto em que o destino do paciente vira. E se as pressões de Segismundo fossem iguais nos dois braços — o escore mudaria, e a conduta mudaria? E se o traçado dele mostrasse supradesnivelamento inferior? E se ele estivesse com 88 por 54 em vez de 178 por 104? E se a dissecção de Nivaldina envolvesse a aorta ascendente desde o início — a perna fria mudaria alguma coisa na decisão, ou ela já estaria indo para a mesa de qualquer forma? Escreva, em uma frase para cada, o que cada mudança faz com o destino do paciente. Depois abra a tabela de auditoria do bloco de critérios e refaça você mesmo a conta do escore de três categorias contra a do escore simplificado no paciente com dor súbita, severa e rasgante e exame normal — a conta leva trinta segundos e é a melhor demonstração de que ler a diretriz inteira, e não só o fluxograma, muda conduta.

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Agora atenda

Agora atenda: homem de 61 anos chega ao pronto-socorro com dor torácica de forte intensidade iniciada há uma hora, que ele descreve como um rasgo entre as costas e que já migrou para o epigástrio. Hipertenso, em uso irregular de medicação. Pressão 190 por 110, frequência 108, saturação 95%. Conduza da porta ao destino, verbalizando para o paciente e para a equipe as três coisas que importam: o que entra na prescrição, o que fica de fora dela, e a razão.

Dissecção aórtica aguda – O rasgo que parece um entupimento — Internato | OsceLabs