Cirurgia Geral › Coloproctologia
A doença que quase todo mundo tem
Doença diverticular dos cólons e suas complicações
Cuidar fora da crise: interpretar sintomas, rever alimentação, reconhecer complicações e planejar investigação e cirurgia conforme o caso.
Sociedade Brasileira de Coloproctologia; Colégio Brasileiro de Cirurgia Digestiva; Sociedade Brasileira de Infectologia; Sociedade Brasileira de Patologia; Colégio Brasileiro de Radiologia. Diverticulite: Diagnóstico e Tratamento. Projeto Diretrizes — Associação Médica Brasileira e Conselho Federal de Medicina. Elaboração final: 28 de outubro de 2008. Araújo SEA, Oliveira Jr O, Moreira JPT, Habr-Gama A, Furtado JJD, Cerski CTS, Kliemann LM, Caserta NMG.
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Responda antes de ler
Mulher de 67 anos recebeu alta há cinco semanas após internação pelo primeiro episódio de diverticulite aguda não complicada confirmada por tomografia. Está assintomática e não realizou colonoscopia de boa qualidade no último ano. Considerando a orientação da AGA, No sumário de alta não há nenhum exame solicitado. Qual conduta você toma nesta consulta, e com que justificativa escrita?
O paciente que você vai ver
Segunda-feira, treze e quarenta, ambulatório de cirurgia geral de um hospital de ensino que recebe encaminhamento de nove municípios. A agenda da tarde tem doze nomes, a sala 4 é sua e a preceptora atende na sala em frente com a porta encostada. O terceiro nome da lista é Haroldina Camocim, 62 anos, professora aposentada, e ao lado do nome a recepção escreveu a coisa mais comum que se escreve num retorno: revisão.
Ela entra com uma pasta plástica e coloca sobre a mesa, na ordem, três papéis. O primeiro é o sumário de alta de uma internação de sete semanas atrás: diverticulite aguda não complicada, antibiótico venoso, alta no quarto dia. O segundo é o laudo da tomografia daquela internação, que descreve espessamento da parede do sigmoide e borramento da gordura em volta, sem coleção e sem ar livre. O terceiro é uma folha de caderno, escrita à mão, com uma lista de alimentos.
A lista tem onze itens. Tomate sem pele. Nada de goiaba. Nem pipoca, nem milho, nem amendoim, nem castanha. Nada de linhaça, nada de chia, nada de gergelim, nada de semente de abóbora. Ela conta que a lista foi ditada por uma vizinha que teve a mesma doença, que ela segue à risca há sete semanas e que emagreceu quatro quilos. Depois pergunta a coisa que ela veio perguntar, e que não é sobre a lista: se é verdade que quem tem isso precisa operar na segunda vez.
Repare no que aconteceu nos primeiros noventa segundos da consulta. A doença aguda dela acabou há sete semanas e não vai voltar hoje. O que está em cima da mesa é outra coisa: uma pessoa que mudou o que come por causa de uma orientação que ninguém escreveu no prontuário, e uma pergunta sobre cirurgia cuja resposta mudou nos últimos quinze anos sem que a mudança chegasse à sala de espera. Nenhuma das duas se resolve com exame.
Este capítulo é sobre esse pedaço da doença — o pedaço que não tem febre, não tem leucograma e não tem tomografia de urgência. Ele começa no divertículo que a colonoscopia encontra por acaso e que não é diagnóstico de nada, passa pela conversa que muda a mesa de jantar de uma família inteira, atravessa a colonoscopia que se pede depois do episódio e por qual motivo, chega à pergunta da cirurgia eletiva e termina nas complicações que se organizam devagar: a estenose que aperta, a fístula que a pessoa descreve sem saber o que está descrevendo, o abscesso que volta.
Três coisas ficam fora, e ficam fora por terem dono. O episódio agudo — a dor de hoje, o antibiótico, a classificação de Hinchey, o dreno, a cirurgia de urgência — é do capítulo Diverticulite aguda, da apostila Urgência e Emergência Cirúrgica, e este capítulo não o reescreve: usa e cita. A hemorragia pelo divertículo, que é a outra doença que o mesmo divertículo produz, é do capítulo Hemorragia digestiva baixa, da apostila Cirurgia do Aparelho Digestivo. E o método da colonoscopia, o preparo, o rastreamento e o estadiamento do câncer colorretal são do capítulo Câncer colorretal, que abre esta apostila.
O que sobra é grande, é ambulatorial e é onde o interno passa a maior parte do tempo. Sobra também porque, na régua brasileira, ele quase não existe: o único documento nacional sobre o assunto tem o título Diverticulite, foi elaborado em outubro de 2008 e trata da crise. Fora da crise, quem escreve o que fazer são documentos de outros sistemas de saúde, e as respostas deles nem sempre chegam ao encaminhamento que sai da unidade básica.
Volte para a sala 4. Haroldina está esperando, a lista de onze alimentos continua sobre a mesa, e a pergunta dela sobre a segunda cirurgia tem uma resposta que você vai poder dar em voz alta no fim deste capítulo — junto com a razão de a lista poder ir para o lixo.
Quem adoece disso
Comece pelo número que reorganiza todo o resto: a maioria das pessoas com divertículos não tem sintoma nenhum, e é por isso que ninguém sabe direito quantas são. O documento brasileiro abre o capítulo de epidemiologia com essa ressalva antes de dar qualquer número, e a ressalva não é formalidade — ela diz que toda estimativa de prevalência aqui vem de quem, por algum outro motivo, foi submetido a um exame do cólon. Quem nunca teve motivo para olhar o intestino não entra na conta.
Feita a ressalva, a escada de idade é a seguinte, na régua brasileira: abaixo dos 40 anos a prevalência da diverticulose parece inferior a 10%; acima dos 45 atinge um terço da população; acima dos 80 fica estimada entre 50% e 66%. Não há correlação evidente com o sexo. Guarde a forma da escada mais do que os dígitos: o que ela descreve é uma condição que praticamente não existe em adulto jovem e que, na oitava década, é mais comum do que a sua ausência.
A palavra certa para cada degrau importa, porque o vocabulário aqui é a metade do problema. Diverticulose é a presença de divertículos no cólon, e é só isso: um achado anatômico. Doença diverticular é o conjunto de manifestações atribuíveis a essa anatomia, e vai da dor abdominal inespecífica até a forma complicada. Diverticulite é a inflamação e a infecção associadas aos divertículos, mais frequentemente os do sigmoide. Três palavras, três coisas, e o laudo de colonoscopia que diz apenas divertículos no sigmoide está falando da primeira — a que não é doença.
A fração que sai da primeira para as outras duas é modesta e vale decorar: estima-se que entre 10% e 25% das pessoas com diverticulose evoluam com diverticulite. Vire a estatística ao contrário e ela fica útil na consulta: entre três quartos e nove décimos das pessoas que têm divertículos vão morrer sem nunca ter tido uma crise. Para cada mil pessoas com mais de 45 anos, cerca de 333 carregam divertículos; dessas, algo entre 33 e 83 chegam a ter doença, e entre 250 e 300 nunca terão nada.
Essa conta é a razão de existir da primeira frase que você vai dizer a quem chega com um laudo na mão. A pessoa que descobriu divertículos numa colonoscopia de rastreamento não recebeu um diagnóstico de doença; recebeu a descrição de um cólon que envelheceu como a maioria dos cólons envelhece. Tratar esse achado como doença é o mecanismo pelo qual uma pessoa saudável passa a se comportar como doente, e a apostila de Medicina de Família e Comunidade tem capítulo próprio sobre esse mecanismo — Prevenção quaternária e multimorbidade —, que é o lugar de estudar a doutrina do excesso a que este parágrafo obedece.
Onde a doença mora também é epidemiologia, e muda o exame físico. Cerca de 85% dos episódios ocorrem no cólon esquerdo, mais precisamente no sigmoide, mas divertículos e diverticulite podem ocorrer em todo o cólon. A doença do cólon direito é mais frequente em orientais asiáticos, costuma seguir curso mais benigno e aparece em gente mais nova. No Brasil, a consequência prática é uma só: dor em fossa ilíaca esquerda numa pessoa de 60 anos levanta a hipótese, e dor à direita não a descarta.
Depois da primeira crise, o número que governa a conversa da recorrência é este: o risco de uma nova crise está estimado entre 26% e 30%, e aproximadamente 90% das recidivas acontecem nos cinco anos seguintes à primeira. Ou seja, entre um quarto e um terço das pessoas terão outra; a maioria não terá nenhuma; e quem for ter, provavelmente terá logo. A frase que falta na sala de espera é a primeira: a recorrência é o desfecho da minoria.
Falta um número, e a falta dele é do interesse direto de quem escreve encaminhamento no Brasil: não existe estimativa nacional de quantas pessoas com doença diverticular chegam ao ambulatório de coloproctologia, nem de quanto da fila elas ocupam. Os três documentos brasileiros de regulação que este capítulo consultou — o do Rio Grande do Sul, o de Santa Catarina e o dos hospitais federais do Rio de Janeiro — dão três respostas diferentes para a mesma pergunta de quem encaminhar, e nenhum deles publica o volume que a própria regra produz. A parte da epidemiologia que decidiria essa fila é justamente a que ninguém mediu.
Por que acontece o que acontece
O divertículo do cólon não é um órgão pequeno nem uma malformação: é uma bolsa que protrai da parede do intestino grosso, e a régua inglesa o define exatamente assim, sem mais nada. Essa economia de palavras é honesta e vale imitar, porque quase tudo o que se costuma dizer a seguir — que a bolsa é feita só de mucosa, que ela sai onde o vaso atravessa a camada muscular, que a pressão dentro do sigmoide é a força que a empurra — é o modelo anatômico clássico da doença e não está escrito em nenhum dos documentos que governam a conduta no Brasil. Trate a descrição do parágrafo seguinte pelo que ela é: a leitura deste capítulo sobre por que a bolsa aparece onde aparece, útil para entender a doença, e não uma citação de norma.
No modelo clássico, a bolsa é uma herniação da camada interna do intestino através da camada muscular, e ela sai pelos pontos em que a parede já tem um furo natural: aqueles por onde os pequenos vasos atravessam para irrigar a mucosa. Dois fatos práticos decorrem disso. O primeiro é que a bolsa e o vaso são vizinhos de porta — e é por isso que o mesmo divertículo pode inflamar num paciente e sangrar em outro, que são as duas doenças diferentes que o capítulo Hemorragia digestiva baixa e o capítulo Diverticulite aguda tratam separadamente. O segundo é que uma bolsa sem camada muscular é uma bolsa que não esvazia sozinha: ela não tem com o que contrair.

Onde a bolsa aparece é a parte que a régua brasileira responde, e responde com número: cerca de 85% dos episódios de diverticulite ocorrem no cólon esquerdo, mais precisamente no sigmoide. O sigmoide é o segmento mais estreito e o que gera as maiores pressões para empurrar fezes já desidratadas, e é ali que a conta de pressão fecha primeiro. A doença do cólon direito existe, é mais frequente em orientais asiáticos, tem curso mais benigno e aparece em pessoas mais jovens — e é a razão de a dor à direita não descartar a hipótese.
Agora a parte que muda a consulta. A inflamação começa quando o colo estreito de uma dessas bolsas se oclui e o conteúdo preso ali fermenta e infecta a parede vizinha. A pergunta que atravessou cinquenta anos de orientação alimentar é o que oclui esse colo, e a resposta que se popularizou foi mecânica e intuitiva: uma partícula pequena, dura e indigerível — uma semente, um grão de milho, um pedaço de castanha — entraria na bolsa e ficaria entalada. É um modelo bonito, fácil de explicar e fácil de obedecer, e foi por isso que ele saiu do consultório e virou lista de caderno.
Por que a lista de alimentos não se sustenta
O modelo da semente entalada nunca teve demonstração, e a régua que hoje orienta a conversa diz o contrário dele com todas as letras: quem tem divertículos deve comer uma dieta saudável e equilibrada, com grãos integrais, frutas e verduras, e não precisa evitar sementes, castanhas, pipoca nem casca de fruta. Essa é a recomendação 1.1.2 da diretriz inglesa de 2019, e é a frase mais útil deste capítulo para o dia a dia do ambulatório, porque é a única que devolve comida a alguém.
Repare no tamanho do dano que a lista causa. Quem obedece à orientação de evitar semente, casca e grão está eliminando exatamente o grupo de alimentos que a mesma diretriz manda aumentar, e sai da consulta comendo menos fibra do que entrou. A recomendação seguinte, a 1.1.3, pede que se beba líquido adequadamente quando a fibra aumenta; a 1.1.4 permite considerar formador de bolo fecal em quem tem constipação. Nada disso funciona numa mesa de jantar da qual a semente foi banida.
Há um segundo dano, mais silencioso, e ele é o assunto do capítulo Prevenção quaternária e multimorbidade, da apostila Medicina de Família e Comunidade: uma pessoa sem doença passa a organizar a vida em torno de um achado. Haroldina emagreceu quatro quilos em sete semanas seguindo uma lista que ninguém prescreveu, e nenhuma consulta antes desta perguntou o que ela estava comendo.
O que a mesma régua diz que de fato muda o risco é menos palatável e mais chato de dizer: exercício, perda de peso em quem tem sobrepeso ou obesidade, e parar de fumar — os três apresentados como redutores do risco de desenvolver diverticulite aguda e doença sintomática. Nenhum deles cabe numa lista de alimentos proibidos, e é por isso que a lista sobrevive: ela é mais fácil de seguir do que a orientação que funciona.
Como a doença se organiza quando complica
A régua brasileira separa a diverticulite em dois andares, e a separação é anatômica antes de ser clínica. A não complicada é aquela em que existe peridiverticulite ou flegmão — inflamação em volta da bolsa, sem coleção organizada. A complicada é a que resulta em obstrução intestinal, formação de abscesso, peritonite ou fístula. As quatro palavras do segundo andar são as complicações, e três delas se organizam ao longo de semanas a meses: o abscesso, a fístula e a estenose. Só a peritonite acontece em horas, e ela é do capítulo Diverticulite aguda.
A fístula é a complicação que o interno pode diagnosticar sem nenhum exame, e a colovesical é de longe a mais comum. Numa série de 84 pacientes com fístulas internas secundárias a diverticulite, acompanhados durante 26 anos e citada pelo documento brasileiro, 65% eram colovesicais; houve predomínio de dois homens para cada mulher, atribuído à proteção que o útero confere à bexiga. Pneumatúria, fecalúria e infecção urinária de repetição ocorrem em mais da metade desses pacientes. Ou seja: a fístula fala, e fala por sintomas urinários.
A estenose é a complicação que nasce de curar. Cada episódio deixa fibrose na parede, e a parede fibrosada de um sigmoide que já era o segmento mais estreito vai apertando até que fezes formadas não passem. O que se apresenta então é a mudança lenta do hábito intestinal — fezes afiladas, esforço novo, empachamento depois de comer —, e essa apresentação é indistinguível da do câncer de cólon, que ocorre na mesma faixa etária. É por essa coincidência, e não por outra, que a colonoscopia depois do episódio existe.
O abscesso que volta fecha o trio. Uma coleção pequena e pericólica pode ser tratada com antibiótico sistêmico e desaparecer; a mesma cavidade, quando se organiza e recidiva, deixa de ser um evento agudo e passa a ser o motivo pelo qual alguém vai discutir cirurgia eletiva semanas depois. O manejo do abscesso na crise — quando drenar, com que tamanho, por qual via — está no capítulo Diverticulite aguda e não se repete aqui. O que sobra para este capítulo é a consequência que aparece semanas depois, no consultório: a consulta em que a decisão de operar se toma.
Como se apresenta de verdade
Fora da crise, esta doença tem seis apresentações, e cinco delas chegam sem febre e sem leucograma alterado. A divisão de trabalho das seções abaixo é a seguinte: as duas primeiras separam quem não tem doença de quem tem, que é a distinção que mais erra na porta do ambulatório; a terceira diz o que os sintomas não conseguem responder; e as três últimas descrevem as complicações que se organizam devagar e que a anamnese, sozinha, é capaz de levantar.
Guarde desde já a regra que atravessa as seis: nenhuma delas se diagnostica pelo laudo da colonoscopia. O laudo diz que existem bolsas; quem diz se existe doença é a história.
O achado que não é diagnóstico
A apresentação mais comum é a ausência de apresentação. A pessoa fez colonoscopia por outro motivo — rastreamento de câncer colorretal, investigação de anemia, sangue oculto positivo — e o laudo terminou com uma frase acessória: divertículos em sigmoide, ou doença diverticular dos cólons. Ela chega ao ambulatório com esse papel e uma pergunta que já vem embrulhada em medo, porque a palavra doença estava impressa.
O que se responde é o que a régua inglesa manda dizer, na recomendação 1.1.1, e é curto: a condição é assintomática e não precisa de tratamento específico. Nada de antibiótico, nada de dieta restritiva, nada de controle periódico de imagem, nada de retorno programado só por causa do achado. A consulta seguinte dessa pessoa é a que o resto da vida dela pedir.
Repare no vocabulário do laudo, porque ele é parte do problema. Muitos endoscopistas escrevem doença diverticular para descrever o que é diverticulose — a presença de bolsas sem sintoma. As duas palavras nomeiam coisas diferentes, e a diferença é justamente entre não ter e ter doença. Ao ler o laudo em voz alta para o paciente, diga o que você viu: existem bolsas, e bolsas não são doença.
A dor que vai e vem
A segunda apresentação é a doença diverticular propriamente dita na definição inglesa: existem bolsas e existe dor abdominal leve, ou dor à palpação, sem sintoma sistêmico. A régua descreve o quadro típico como dor intermitente no quadrante inferior esquerdo acompanhada de constipação, diarreia ou sangramentos retais volumosos ocasionais, com dor que pode ser desencadeada por comer e aliviada pela eliminação de fezes ou de gases, e sensibilidade em quadrante inferior esquerdo ao exame do abdome.
Duas ressalvas vêm junto na mesma recomendação, e as duas mudam conduta. A primeira é que numa minoria de pessoas, e em pessoas de origem asiática, a dor e a sensibilidade podem se localizar no quadrante inferior direito. A segunda é que os sintomas se sobrepõem aos de condições como síndrome do intestino irritável, colite e neoplasia — e essa sobreposição é o motivo pelo qual a dor intermitente num paciente com divertículos conhecidos nunca fecha um diagnóstico sozinha.
A diferenciação com a doença inflamatória intestinal é a que mais confunde no ambulatório, e ela tem dono neste nível: o capítulo A diarreia que não é infecciosa, da apostila Gastroenterologia, é o lugar de estudar como se investiga e como se conduz doença de Crohn e retocolite ulcerativa. O que fica aqui é só o gatilho para lembrar dele: diarreia com sangue, sintoma noturno que acorda o paciente, perda de peso, doença perianal ou início antes dos 40 anos empurram a hipótese para lá, não para cá.
O que os sintomas não respondem
Há uma pergunta que a apresentação clínica desta doença é sistematicamente incapaz de responder, e não reconhecer isso é a origem de metade dos erros do capítulo: os sintomas não separam doença diverticular de câncer colorretal. Os dois ocorrem na mesma faixa etária, produzem dor no mesmo lugar, mudam o hábito intestinal do mesmo jeito e podem sangrar. O documento brasileiro registra a coincidência dizendo que o câncer de cólon representa diagnóstico diferencial importante quando há emagrecimento, massa palpável, alteração significativa do hábito intestinal e hematoquezia.
Vire a frase e ela fica operacional: esses quatro achados não são sinais de que a doença diverticular piorou, são motivos para procurar outra coisa. Um paciente com divertículos conhecidos que emagrece merece a mesma investigação que teria se não os tivesse. Ter divertículos não protege ninguém de ter câncer, e o achado prévio é justamente o que faz a equipe parar de procurar.
A segunda coisa que a apresentação não responde é em que degrau de gravidade o paciente está durante uma crise. Isso quem responde é a imagem, e essa parte da história — os sinais de alarme, o estadiamento, a decisão de internar — é do capítulo Diverticulite aguda. O que este capítulo pede que você reconheça é o momento de parar de conduzir no ambulatório e mandar para lá.
A fístula que fala pela urina
A quarta apresentação é a mais premiada da anamnese, porque ela se diagnostica ouvindo. O paciente descreve bolhas de ar saindo com a urina, ou urina turva com aspecto e cheiro de fezes, e conta uma sequência de infecções urinárias que voltam sempre e nunca ficam curadas de vez. Os nomes técnicos são pneumatúria e fecalúria, e a régua inglesa lista os dois, junto com piúria e com a saída de fezes pela vagina, como sinais que sugerem fístula para a bexiga ou para a vagina.
É uma pergunta que quase ninguém faz e que custa dez segundos: sai ar junto com a urina? Faça-a em todo paciente com doença diverticular conhecida e infecção urinária de repetição, e faça-a em homem com infecção urinária de repetição, que é um evento que sempre pede explicação. O predomínio masculino dessa fístula é de dois para um segundo a série citada pelo documento brasileiro, com a explicação anatômica de que o útero se interpõe entre o sigmoide e a bexiga.
Duas fronteiras se cruzam aqui e vale dizer quem é dono de quê. A infecção urinária em si — o que é bacteriúria assintomática, quando pedir urocultura, quando tratar e quando encaminhar ao urologista — é do capítulo Nem toda bactéria é uma doença, da apostila Nefrologia, que é dono da infecção do trato urinário no adulto e da infecção de repetição. A fístula colovesical não é dele nem do capítulo Diverticulite aguda, que a registra explicitamente como doença já organizada e fora da fase aguda: ela é deste capítulo, e este capítulo a assume — o que se pergunta, o que se pede e para quem se encaminha.
A estenose que se instala em silêncio
A quinta apresentação é lenta e engana porque não dói. A pessoa relata que as fezes afinaram, que precisa de mais esforço do que antes, que fica empachada depois de comer, que às vezes passa dois ou três dias sem evacuar e depois elimina tudo de uma vez com cólica. É a estenose diverticular, e ela é uma das quatro complicações que a régua brasileira reconhece — obstrução intestinal, abscesso, peritonite e fístula.
O problema clínico dela não é o diagnóstico da obstrução, é o diagnóstico do que causa a obstrução. Estenose por fibrose de episódios repetidos e estenose por neoplasia se apresentam igual, aparecem na mesma idade e nem sempre se separam na tomografia — o documento brasileiro registra que a tomografia com reformatação coronal ajuda na diferenciação com carcinoma, o que é o mesmo que dizer que sem ela a diferenciação é pior ainda. Quem separa as duas é a visão direta com biópsia.
A consequência prática é uma regra de conduta e não uma observação: paciente com doença diverticular conhecida que muda o hábito intestinal de forma persistente não recebe orientação dietética, recebe investigação. A frase inteira da régua inglesa sobre isso é a recomendação 1.2.11 — se os sintomas persistem ou não respondem ao tratamento, pense em causas alternativas, investigue e conduza de acordo.
O que chega por outra porta
A sexta apresentação é a que não é sua, e reconhecê-la é saber para onde mandar. Sangramento retal volumoso, vermelho vivo, indolor, em pessoa idosa com divertículos conhecidos é a segunda doença que o mesmo divertículo produz — e ela é do capítulo Hemorragia digestiva baixa, da apostila Cirurgia do Aparelho Digestivo, que a assumiu por escrito. Este capítulo cede a ele o sangramento diverticular inteiro: a estabilização, a ordem dos exames, o manejo do anticoagulante e a decisão de quando o cirurgião entra.
Dor abdominal constante e intensa em quadrante inferior esquerdo com febre, defesa, massa palpável ou distensão é diverticulite aguda, e é do capítulo Diverticulite aguda, da apostila Urgência e Emergência Cirúrgica. Este capítulo cede a ele o episódio agudo inteiro, inclusive a classificação de Hinchey, a escolha do antibiótico, a decisão de internar, a drenagem do abscesso e a cirurgia de urgência. A remissão é nos dois sentidos: aquele capítulo declara que a abordagem fora da crise é ambulatorial e programada, e este é o capítulo onde ela mora.
E há uma apresentação que confunde os dois lados: a paciente com dor em baixo ventre e sintomas urinários. Um sigmoide inflamado encostado na bexiga produz disúria e polaciúria sem que exista infecção urinária, e o documento brasileiro registra distúrbios urinários entre as queixas da diverticulite. Na fase aguda isso é do capítulo Diverticulite aguda, que trata da armadilha. Fora dela, sintoma urinário persistente com doença diverticular conhecida volta para a quarta seção deste capítulo, e a pergunta é sobre ar na urina.
Como fechar o diagnóstico
Este é o bloco em que o interno mais pede exame demais, e a razão é simples: a doença tem nome, o paciente tem medo e a colonoscopia é um exame que existe. As seis seções abaixo servem para responder três perguntas em ordem — este achado precisa de alguma coisa; se precisa, precisa de quê; e em que prazo. As duas primeiras seções tratam de quem não precisa de nada, e são as mais importantes.
Aviso de fronteira antes de começar: como se pede uma colonoscopia no Brasil, o que escrever no pedido, o que ler no laudo, o preparo e todo o esquema de rastreamento do câncer colorretal são do capítulo Câncer colorretal, que abre esta apostila. Aqui se decide se o exame é indicado e por qual motivo; o método é dele, e o pedido segue a régua dele.
O achado incidental não abre investigação
Divertículos encontrados numa colonoscopia feita por outro motivo, em pessoa sem sintoma, não pedem nenhum exame novo. Não se pede tomografia para ver quantos são, não se pede colonoscopia de controle para ver se aumentaram, não se marca retorno anual e não se dosa nada no sangue. A régua inglesa fecha o assunto na primeira recomendação da diretriz: a condição é assintomática e não precisa de tratamento específico.
Não existe, em nenhum dos documentos consultados por este capítulo, esquema de vigilância por imagem para diverticulose. A ausência é uma informação, não um esquecimento: seria preciso demonstrar que olhar de novo muda algum desfecho, e essa demonstração não foi feita. Quem pede o controle está tratando a própria ansiedade e cobrando o preparo de cólon do paciente.
O único acompanhamento que essa pessoa mantém é o que ela manteria de qualquer forma — o rastreamento de câncer colorretal pela idade e pelo risco dela, exatamente como está no capítulo Câncer colorretal. Ter divertículos não antecipa esse relógio nem o atrasa.
A colonoscopia depois do episódio, e por quê
Quem teve uma crise de diverticulite documentada é outra história, e aqui existe uma indicação com motivo declarado. O motivo é um só e vale ser dito exatamente assim no pedido: excluir neoplasia colorretal no segmento acometido. O documento brasileiro sustenta a indicação por duas frases separadas — o câncer de cólon ocorre na mesma faixa etária e representa diagnóstico diferencial importante, e a tomografia da fase aguda nem sempre separa estenose inflamatória de carcinoma, tanto que a reformatação coronal é apresentada como o recurso que ajuda nessa diferenciação.
Escreva o motivo por extenso no pedido. Colonoscopia solicitada sem justificativa vira fila comum; colonoscopia solicitada com a frase exclusão de neoplasia colorretal em segmento com diverticulite aguda documentada em determinada data é um pedido que o regulador consegue priorizar. É a mesma lógica do conteúdo descritivo mínimo do capítulo Câncer colorretal, aplicada a outra hipótese.
Agora a parte que este capítulo assume por não haver dono. Nenhum dos documentos brasileiros consultados fixa em quantas semanas essa colonoscopia deve ser feita, e a diretriz inglesa também não trata de colonoscopia de seguimento após episódio de diverticulite. O único prazo escrito na régua brasileira é outro e não se confunde com este: seis a oito semanas é o intervalo em que se realiza o tratamento cirúrgico eletivo, quando ele está indicado, contado a partir da crise. Usar esse número para a colonoscopia é empréstimo, não citação, e este capítulo o diz em voz alta: o que existe é o prazo da cirurgia, e o prazo do exame não está escrito em lugar nenhum.
A colonoscopia que não se faz
Existe uma colonoscopia contraindicada nesta doença, e ela é a da fase aguda. A razão é mecânica: a insuflação de ar e a progressão do aparelho podem desbloquear um divertículo já perfurado ou produzir perfuração nova, e é por isso que a endoscopia do sigmoide está historicamente contraindicada na suspeita de diverticulite aguda. A ressalva do próprio documento brasileiro é estreita e não serve de porta dos fundos: a sigmoidoscopia cuidadosa é útil para excluir câncer, colite inespecífica ou isquêmica, o que é uma indicação de especialista para uma pergunta específica, não o exame de rotina de quem está com dor.
Duas colonoscopias, portanto, e é preciso não confundi-las nem no raciocínio nem no papel: a da crise não existe; a de depois existe, tem motivo escrito e pertence a este capítulo. Se o paciente chega ao seu ambulatório ainda com dor, febre ou marcador inflamatório alto, a colonoscopia não é o próximo passo — a reavaliação da crise é, e ela é do capítulo Diverticulite aguda.
Vale também a advertência inversa, que é a que se esquece: uma colonoscopia normal e completa, com bom preparo, num paciente que continua sintomático, não encerra a investigação. Isso é regra geral e é do capítulo Câncer colorretal, mas ela se aplica aqui com força, porque o rótulo doença diverticular é excepcionalmente confortável e interrompe o raciocínio de todo mundo.
Quando a suspeita é fístula
Pneumatúria, fecalúria ou infecção urinária de repetição em quem tem doença diverticular conhecida mudam o roteiro inteiro. O que se pede é imagem seccional do abdome e da pelve — a tomografia com contraste é o exame que enxerga a comunicação, o ar dentro da bexiga e o segmento intestinal aderido — e um exame de urina, que costuma vir com piúria e com flora mista. A régua inglesa lista fecalúria, pneumatúria, piúria e a saída de fezes pela vagina entre os sinais de complicação, e é a lista que organiza a suspeita.
Antes de pedir qualquer coisa, faça a pergunta, porque ela é mais sensível do que o exame: sai ar junto com a urina? A pessoa raramente usa a palavra pneumatúria; ela diz que a urina borbulha, que faz espuma diferente, que sai como refrigerante. E pergunte quantas infecções urinárias ela tratou no último ano, e se alguma vez a urina cheirou a fezes.
A conduta seguinte não é sua e este capítulo diz de quem é: fístula colovesical confirmada ou fortemente suspeita é encaminhamento para coloproctologia ou cirurgia, com prioridade — e o protocolo de regulação do Rio Grande do Sul a nomeia expressamente entre as condições que têm preferência no encaminhamento para proctologia, ao lado de fístula anal com abscessos de repetição, prolapso retal irredutível e endometriose com acometimento colorretal grave. O tratamento definitivo é cirúrgico e envolve ressecar o segmento intestinal doente, com anastomose primária frequentemente possível. Antibiótico ambulatorial não fecha fístula, e tratar cada infecção urinária isoladamente é o modo mais eficiente de adiar o diagnóstico por anos.
Quando a suspeita é estenose ou neoplasia
Mudança persistente do hábito intestinal, fezes afiladas, distensão pós-prandial ou episódios de suboclusão em quem tem divertículos conhecidos pedem duas coisas ao mesmo tempo, e pedi-las juntas economiza meses. A primeira é a visão direta com biópsia, porque é ela que separa fibrose de tumor. A segunda é a imagem seccional, que mostra a extensão do segmento acometido e a relação dele com o que está em volta.
Não deixe o divertículo conhecido apagar a hipótese principal. Emagrecimento, massa palpável, alteração significativa do hábito intestinal e hematoquezia são, segundo o próprio documento brasileiro, os achados que fazem suspeitar de câncer de cólon nesse cenário. Diante deles, a hipótese escrita no pedido é neoplasia, e a via de encaminhamento é a do capítulo Câncer colorretal — não a de doença diverticular.
Anemia merece um parágrafo próprio porque ela é a porta que mais se perde. Doença diverticular não é explicação suficiente para anemia ferropriva; sangramento diverticular é agudo e volumoso, não crônico e oculto. Anemia microcítica em pessoa com divertículos investiga-se como anemia ferropriva de causa a esclarecer, com avaliação do trato digestivo, e não como consequência esperada da doença que ela já tem.
Os exames que não respondem à pergunta
Um protocolo federal de acesso ambulatorial de 2015, escrito para os hospitais federais do Rio de Janeiro, encaminha todos os casos de doença diverticular à coloproctologia e sugere como exames complementares anuscopia, retossigmoidoscopia, enema opaco ou colonoscopia. Três desses quatro merecem uma ressalva antes de serem pedidos. Anuscopia examina o canal anal, que é o segmento errado. Retossigmoidoscopia alcança reto e sigmoide, mas deixa o restante do cólon sem resposta, e a pergunta que motiva o exame é sobre neoplasia colorretal, que pode estar em qualquer segmento.
O enema opaco pede a ressalva mais longa, e ela vem do próprio documento brasileiro. Ele registra que existe evidência de que o enema com contraste hidrossolúvel é seguro na diverticulite aguda, mas registra também que só em cerca de 30% dos casos é possível inferir a presença de abscesso por meio dele, e que a tomografia com contraste é mais sensível para diagnosticar a diverticulite aguda complicada ou não. Para a pergunta deste capítulo, que é excluir neoplasia, o enema não colhe biópsia — e sem biópsia a estenose continua sem nome.
Duas outras solicitações comuns não têm lugar aqui. Marcadores tumorais não servem para investigar sintoma nem para separar doença diverticular de neoplasia, e o capítulo Câncer colorretal trata do papel deles. E tomografia de controle periódico em paciente assintomático depois de uma crise resolvida não está recomendada por nenhum dos documentos consultados: a imagem se repete quando o quadro clínico piora ou não melhora, não pelo calendário.
As quatro decisões, e a conferência dos documentos que as sustentam
As tabelas ajudam a nomear o quadro, escolher medidas de cuidado, conferir a prescrição e organizar o encaminhamento. Comece pelo que Haroldina apresenta hoje e pelo que ocorreu nas crises anteriores. As notas esclarecem diferenças de linguagem e de apresentação que podem dificultar a leitura do plano.
- 1Leia o papel que o paciente trouxe e decida: achado sem sintoma, doença com sintoma, sequela de crise, ou suspeita de complicação crônica
- 2Achado sem sintoma: nenhuma investigação nova, nenhum controle de imagem, nenhuma restrição alimentar — só o rastreamento de câncer colorretal que a idade e o risco já pediam
- 3Pergunte o que a pessoa parou de comer e quem mandou parar, antes de dar qualquer orientação
- 4Desfaça a lista por nome — semente, castanha, pipoca, milho, casca de fruta — e substitua por dieta com grãos integrais, frutas e verduras, com aumento gradual de fibra e líquido adequado
- 5Após crise, decidir colonoscopia pela gravidade, certeza diagnóstica, sinais de alarme e qualidade/data de exame prévio. Não é obrigatória após toda recorrência não complicada já bem documentada; quando indicada, aguardar resolução da fase aguda, em geral cerca de seis a oito semanas.
- 6Registrar episódios e seu impacto, distinguindo crises confirmadas de dores semelhantes não investigadas. Número isolado não determina cirurgia eletiva; complicações, qualidade de vida, comorbidades e preferências orientam a discussão.
- 7Pergunte sobre ar na urina, infecção urinária de repetição, calibre das fezes e distensão pós-prandial: são a fístula e a estenose se anunciando
- 8Antes da receita, decida o que não vai prescrever: antibiótico fora da crise, antibiótico ou aminossalicilato para prevenir recorrência, anti-inflamatório não esteroide e opioide
- 9Encaminhe com prioridade quem tem fístula, estenose com repercussão, abscesso recidivante ou suspeita de neoplasia, escrevendo o achado que justifica a prioridade
- 10Marque retorno com data e com objetivo declarado: ver o resultado da colonoscopia e conferir se a orientação alimentar foi de fato desfeita
As três palavras que o laudo mistura
| Termo | O que significa | O que se faz | Onde o assunto mora |
|---|---|---|---|
| Diverticulose | Presença de divertículos no cólon, sem sintoma. Achado anatômico | Nada além do rastreamento de câncer colorretal que a idade e o risco já pediam | Este capítulo, seção do achado incidental |
| Doença diverticular | Conjunto de manifestações atribuíveis à diverticulose. Atenção: a régua brasileira inclui aqui a diverticulite, e a inglesa a exclui | Dieta, líquido, exercício, cessação de tabagismo; analgesia simples se doer; formador de bolo fecal se houver constipação | Este capítulo, blocos de conduta e conversa |
| Diverticulite aguda | Inflamação e infecção associadas aos divertículos, mais frequentemente os do sigmoide | Avaliação de gravidade, antibiótico conforme o caso, imagem, decisão de internar | Capítulo Diverticulite aguda, apostila Urgência e Emergência Cirúrgica |
| Diverticulite complicada | Episódio que resulta em obstrução, abscesso, peritonite ou fístula | Fase aguda com o capítulo de urgência; as sequelas crônicas — estenose, fístula, abscesso recidivante — com este | Fronteira compartilhada, declarada nos dois capítulos |
| Sangramento diverticular | Hemorragia arterial pela erosão do vaso vizinho à bolsa. Volumosa e indolor | Estabilização, ordem dos exames, manejo do anticoagulante | Capítulo Hemorragia digestiva baixa, apostila Cirurgia do Aparelho Digestivo |
O que a Rename 2024 fornece para a fase ambulatorial desta doença
| O que se cogita | Consta? | Apresentação e componente | O que isso muda na consulta |
|---|---|---|---|
| Formador de bolo fecal | Sim, como fitoterápico | Plantago (Plantago ovata Forssk.), 3 a 30 g por dia, em pó para dispersão oral, granulado simples e pó efervescente; componente Básico | A medida de suporte mais indicada pela régua inglesa é fornecida — mas quem procura pelo nome comercial ou pelo termo em inglês conclui, errado, que não é |
| Analgesia simples | Sim | Paracetamol 500 mg comprimido e 200 mg/mL solução oral; dipirona 500 mg comprimido, solução oral e injetável; componente Básico | A analgesia que a régua indica está disponível e é barata |
| Anti-inflamatório não esteroide | Sim, em cinco apresentações | Ibuprofeno 200, 300 e 600 mg e suspensão oral; componente Básico | É o que a régua manda evitar, e é o mais fácil de obter — inclusive sem receita, fora do SUS |
| Antiespasmódico | Não | Nenhuma apresentação de butilbrometo de escopolamina ou hioscina no índice nem no texto | A recomendação de considerar antiespasmódico na cólica não tem como ser cumprida pelo elenco nacional |
| Rifaximina | Não | Ausente do índice e do texto | A única prevenção de recorrência com evidência acima de opinião na régua brasileira de 2008 não é fornecida pelo SUS |
| Mesalazina | Sim | Oito apresentações, de comprimido a enema; componente Especializado | Está no elenco por causa das doenças inflamatórias intestinais; para prevenir recorrência de diverticulite, a régua inglesa manda não oferecer |
| Antibiótico oral para crise leve | Sim | Amoxicilina + clavulanato 500 mg + 125 mg comprimido; ciprofloxacino 250 e 500 mg comprimido; metronidazol 250 e 400 mg comprimido; cefalexina 500 mg; componente Básico | A prescrição da crise é do capítulo Diverticulite aguda; o que esta linha resolve é que o esquema oral cabe no elenco |
Conversão para o que vai na mão do paciente — adulto de 70 kg
| Item e dose citada | Apresentação do elenco | Conta | Observação |
|---|---|---|---|
| Plantago, 3 a 30 g por dia | Pó para dispersão oral, granulado simples ou pó efervescente | Numa medida caseira rasa equivalente a 5 g, a faixa vai de pouco mais de meia medida a seis medidas por dia; em trinta dias, de 90 g a 900 g de produto | A faixa da Rename é dez vezes larga; comece na ponta baixa e suba, porque a distensão é o motivo pelo qual as pessoas abandonam |
| Paracetamol 500 mg, até de 6 em 6 horas | Comprimido de 500 mg | 1 comprimido por tomada, 4 por dia, 20 comprimidos em cinco dias | Analgesia simples é a que a régua indica para dor persistente |
| Dipirona 1 g, até de 6 em 6 horas | Comprimido de 500 mg | 2 comprimidos por tomada, 8 por dia, 40 comprimidos em cinco dias | Na solução oral de 500 mg/mL, 1 g corresponde a 2 mL |
| Metronidazol 400 mg, três vezes ao dia | Comprimido de 400 mg | 1 comprimido por tomada, 3 por dia, 15 em cinco dias | Fecha em comprimido inteiro |
| Metronidazol 400 mg, três vezes ao dia | Comprimido de 250 mg | 1,6 comprimido por tomada, 4,8 por dia, 24 em cinco dias | Não fecha em comprimido inteiro: se a unidade dispensada for a de 250 mg, a dose precisa ser reescrita |
| Amoxicilina + clavulanato 500/125 mg, três vezes ao dia | Comprimido de 500 mg + 125 mg | 1 comprimido por tomada, 3 por dia, 15 em cinco dias | Única combinação em que a dose citada e a apresentação do elenco coincidem exatamente |
| Ciprofloxacino 500 mg, duas vezes ao dia | Comprimido de 500 mg | 1 comprimido por tomada, 2 por dia, 10 em cinco dias | A Rename marca este item na classificação de alerta, o que pesa contra usá-lo como primeira escolha |
Quem encaminhar — quatro réguas, quatro respostas
| Documento e data | Quem encaminha | O que sugere pedir | Escopo declarado |
|---|---|---|---|
| Protocolos de Acesso Ambulatorial, Ministério da Saúde, 2015 | Doença diverticular: todos os casos, para coloproctologia | Anuscopia, retossigmoidoscopia, enema opaco ou colonoscopia | Hospitais federais do Rio de Janeiro — não é régua nacional |
| Protocolo de Acesso e Regulação, Secretaria de Estado da Saúde de Santa Catarina, abril de 2022 | Doença diverticular dos cólons: todos os casos, para proctologia | Não especifica exames para esta condição | Rede estadual de Santa Catarina |
| Protocolos de Regulação Ambulatorial — Proctologia Adulto, TelessaúdeRS e Secretaria Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul, 26 de julho de 2021 | Não há protocolo para doença diverticular entre os nove existentes; a condição aparece apenas na regra de prioridade, quando há fístula colovesical | Conteúdo descritivo mínimo por protocolo; exames não são pré-requisito e sua falta não impede o encaminhamento | Rede do Rio Grande do Sul, ad referendum da resolução CIB/RS nº 764/2014 |
| Diretriz NG147, publicada em 27 de novembro de 2019 | Não encaminhar de rotina, salvo se a investigação endoscópica ou radiológica não puder ser organizada na atenção primária, se houver suspeita de colite, ou se a pessoa preencher critério de via de suspeita de câncer | Investigação endoscópica ou radiológica de rotina, organizada na própria atenção primária quando possível | Sistema de saúde do Reino Unido |
Nomear o quadro. “Doença diverticular” pode ter escopo diferente entre documentos. Descreva o que o paciente apresenta — divertículos sem sintomas, sintomas persistentes, episódio agudo ou complicação — antes de comparar recomendações que usam o mesmo rótulo.
Frequência e desfecho. Faixas de pessoas assintomáticas e sintomáticas vêm de estudos e definições diferentes. Não some extremos como se formassem uma única população. Recorrência também não equivale a reinternação: registre qual evento está sendo discutido e em que período.
História das crises. Para o encaminhamento, quantifique episódios, internações e complicações e descreva sintomas que persistiram. Esses dados ajudam mais que uma taxa genérica de recorrência, porque permitem relacionar a decisão à trajetória de Haroldina.
Dose e duração. Uma frase que menciona “800 mg por uma semana” não informa, sozinha, se a quantidade é diária nem como é fracionada. Ao ler uma prescrição anterior, confira o regime completo e sua indicação com o serviço que o propôs, sem reconstruí-lo apenas pela frase de uma referência.
Psyllium e denominação. A lista citada usa Plantago ovata para o formador de bolo fecal conhecido como psyllium. Nome usual e denominação da lista podem diferir; confira a apresentação e a orientação de uso antes de concluir que o produto não está disponível.
Disponibilidade e indicação. A presença de mesalazina ou de um analgésico no elenco não constitui indicação para prevenir diverticulite. Da mesma forma, a ausência de determinada apresentação na lista não descreve todo o acesso local. O plano precisa combinar indicação e viabilidade.
Quantidade de comprimidos. Uma dose de 400 mg não pode ser montada como número inteiro de comprimidos de 250 mg. Confira a apresentação dispensada antes de escrever a receita e mantenha dose, frequência e quantidade total coerentes.
Escolha do exame. Anuscopia, retossigmoidoscopia, enema e colonoscopia não respondem à mesma pergunta nem examinam a mesma extensão. Explicite o objetivo do pedido e o segmento que precisa ser avaliado, conforme o percurso descrito.
Encaminhamento. Protocolos locais podem organizar o acesso de modos diferentes. Apresente o motivo clínico e a prioridade: sintomas, complicações, suspeita de neoplasia ou achado incidental. Uma lista de todos os portadores de divertículos não distingue quem precisa de avaliação mais rápida.
Orientação ao paciente. O plano deve explicar alimentação, líquidos, atividade, hábitos e manejo da constipação conforme o caso. Diferencie essas medidas do tratamento da crise aguda e combine quando retornar, evitando uma receita de restrições sem finalidade clara.
A conduta, hora a hora
A linha do tempo deste capítulo é uma consulta de trinta minutos e o que ela produz para os cinco anos seguintes. Não há hora zero, não há sala vermelha e não há decisão que se perca por demora de minutos — o que se perde aqui se perde por omissão, e a omissão só aparece anos depois, na forma de uma pessoa que passou meia década sem comer semente ou de um câncer que ninguém foi procurar.
Os oito marcos abaixo estão na ordem em que a consulta acontece, e o interno é quem executa sete deles. O oitavo, o encaminhamento, é o único que depende de outra pessoa — e é justamente por isso que o texto que você escreve nele decide se ele vai acontecer.
Primeiros três minutos, antes de qualquer pergunta clínica
Leia o que o paciente trouxe e decida em qual das apresentações ele está, porque a consulta é diferente para cada uma. Um laudo de colonoscopia com divertículos e nenhum sintoma é a apresentação que não precisa de nada. Um sumário de alta de crise tratada é a apresentação que precisa de colonoscopia com motivo escrito e de uma contagem de episódios. Sintoma urinário repetido é a apresentação da fístula. Mudança de hábito intestinal persistente é a apresentação que investiga neoplasia. Classificar antes de perguntar evita a consulta genérica, que é a que não muda nada.
Prescrição- Ler o laudo de colonoscopia procurando o que ele diz e o que ele não diz: se descreve apenas divertículos, é diverticulose e não doença
- Ler o sumário de alta procurando três dados: se houve tomografia, se ela descreveu coleção, ar livre ou estenose, e quantos dias de antibiótico
- Anotar a data da última crise, porque todos os prazos deste capítulo se contam a partir dela
Ainda nos primeiros minutos, antes de orientar qualquer coisa
Pergunte o que a pessoa está comendo e o que ela deixou de comer, e pergunte quem disse para deixar. Esta pergunta não é conversa de preenchimento: ela descobre restrição alimentar prescrita por vizinho, por internet ou por médico anterior, e é a única forma de saber que existe uma lista. Quem não pergunta continua sem saber, e a lista continua valendo por anos.
Prescrição- Perguntar, com essas palavras: tem alguma comida que a senhora parou de comer por causa disso?
- Perguntar quanto peso a pessoa perdeu desde a crise e em quanto tempo — perda de peso pode ser da restrição, e pode ser de outra doença
- Registrar no prontuário a lista de restrições e a origem dela, porque é o que a próxima consulta vai precisar desfazer
Logo em seguida, com a lista ainda sobre a mesa
Desfaça a lista explicitamente e substitua-a pela orientação que a régua sustenta. Não basta dizer que não há problema: quem recebeu uma proibição precisa ouvir a autorização com o mesmo grau de clareza, item por item. A recomendação 1.1.2 da diretriz inglesa manda orientar dieta saudável e equilibrada, com grãos integrais, frutas e verduras, e diz que não há necessidade de evitar sementes, castanhas, pipoca ou casca de fruta.
Prescrição- Autorizar em voz alta e por nome os alimentos que estavam proibidos: semente, castanha, pipoca, milho e casca de fruta
- Orientar dieta com grãos integrais, frutas e verduras, e aumento gradual de fibra em quem tem constipação — o aumento gradual reduz flatulência e distensão
- Orientar ingestão adequada de líquido junto com o aumento de fibra, com atenção redobrada em quem tem risco de desidratação
- Orientar exercício, perda de peso em quem tem sobrepeso ou obesidade e cessação do tabagismo, que são as três medidas que a mesma régua apresenta como redutoras de risco
- Avisar que o benefício do aumento de fibra pode levar várias semanas para aparecer, e que a dieta rica em fibra, se tolerada, é para a vida inteira
Meio da consulta, em quem teve crise documentada
Conferir se o diagnóstico da crise foi bem documentado, se houve complicação e se já existe colonoscopia recente de boa qualidade. A avaliação endoscópica é especialmente pertinente diante de dúvida, abscesso, anemia, sangramento ou perda de peso. Não repetir automaticamente após toda recorrência não complicada; documentar a indicação ou a razão de dispensar. Em Haroldina, emagrecimento e ausência de exame prévio conhecido justificam investigar depois da resolução clínica.
Prescrição- Quando indicada, solicitar colonoscopia após resolução clínica, informando data e achados da crise, sinais de alarme e exames prévios. Para Haroldina, registrar também os quatro quilos perdidos e a ausência de colonoscopia recente documentada.
- Preencher o pedido com o conteúdo descritivo mínimo do protocolo de regulação, conforme a régua do capítulo Câncer colorretal
- Registrar na evolução, e repetir em toda evolução seguinte enquanto não resolver: colonoscopia pendente, pedido de tal data, motivo exclusão de neoplasia
- Orientar o preparo e confirmar que a pessoa tem como comprar a solução, tem banheiro e tem acompanhante
Meio da consulta, na mesma conversa da colonoscopia
Pergunte por crises anteriores e registre quais foram confirmadas e quais foram apenas suspeitas. Dor semelhante não prova novo episódio de diverticulite. Para discutir cirurgia, avalie internações, complicações, sintomas persistentes e prejuízo cotidiano, além de risco operatório e preferência. A contagem ajuda a compreender a história, mas não aciona uma indicação automática.
Prescrição- Perguntar quantas vezes já doeu assim antes, incluindo as vezes em que não procurou serviço de saúde
- Separar, na contagem, os episódios que exigiram internação dos que não exigiram, porque a régua brasileira distingue os dois
- Anotar se houve crise complicada — abscesso, obstrução ou fístula —, porque é a categoria que muda a indicação
- Registrar se a pessoa é imunossuprimida, o que na régua brasileira antecipa a discussão cirúrgica para depois de uma única crise
Antes de encerrar o exame, em toda consulta
Faça as duas perguntas que rastreiam as complicações crônicas, porque elas custam vinte segundos e nenhuma imagem as substitui. A primeira é sobre ar na urina e infecções urinárias repetidas, que é como a fístula colovesical se anuncia. A segunda é sobre mudança do calibre das fezes e do padrão de evacuação, que é como a estenose se anuncia — e é também como o câncer se anuncia.
Prescrição- Perguntar: sai ar junto com a urina? A urina já veio turva, com cheiro diferente, ou com aspecto de fezes?
- Perguntar quantas infecções urinárias foram tratadas no último ano
- Perguntar se as fezes afinaram, se surgiu esforço novo, se há distensão depois de comer ou episódios de parar de eliminar gases
- Fazer exame do abdome procurando massa palpável e distensão, e toque retal quando houver mudança de hábito ou sangramento
No momento de escrever a receita, e sobretudo no de não escrevê-la
Decida o que não vai prescrever, porque nesta doença a lista do que não se dá é maior e mais importante do que a do que se dá. A diretriz inglesa é explícita em três pontos: não ofereça antibiótico a quem tem doença diverticular fora da crise; não ofereça aminossalicilato nem antibiótico para prevenir recorrência de diverticulite aguda; e oriente evitar anti-inflamatório não esteroide e analgesia opioide sempre que possível, porque podem aumentar o risco de perfuração diverticular.
Prescrição- Não prescrever antibiótico para doença diverticular sem crise aguda
- Não prescrever antibiótico de rotina nem aminossalicilato com a finalidade de prevenir nova crise
- Orientar o paciente a evitar anti-inflamatório não esteroide por conta própria e explicar por quê, já que é a classe mais comprada sem receita
- Considerar analgesia simples, do tipo paracetamol, se houver dor abdominal persistente
- Considerar antiespasmódico se houver cólica — anotando que nenhum antiespasmódico consta da Rename 2024
- Considerar formador de bolo fecal se houver constipação, se a dieta rica em fibra não for aceita ou tolerada, ou se houver constipação ou diarreia persistentes
Últimos cinco minutos, e é o marco que decide se algo vai acontecer
Escreva o encaminhamento, ou escreva por que não vai encaminhar. Os três documentos brasileiros de regulação consultados discordam entre si sobre quem encaminhar: dois deles mandam encaminhar todos os casos de doença diverticular, e o terceiro sequer tem protocolo para a condição, priorizando apenas quem já tem fístula colovesical. Diante da divergência, o que sustenta o seu pedido não é a regra citada, é o motivo clínico escrito nele.
Prescrição- Encaminhar com prioridade quem tem fístula, estenose com repercussão, abscesso recidivante ou suspeita de neoplasia, escrevendo o achado que motiva a prioridade
- Encaminhar para discussão de cirurgia eletiva quem teve crise complicada, quem teve duas crises com internação, e quem é imunossuprimido e teve uma crise — declarando no pedido que a discussão é eletiva e por quê
- Não encaminhar, e registrar a decisão, quem tem apenas achado colonoscópico sem sintoma
- Entregar por escrito, na mão do paciente, o que fazer se a dor voltar com febre, e para onde ir nesse caso
- Marcar retorno com data, com o resultado da colonoscopia como objetivo declarado da próxima consulta
Como saber se está funcionando
Reavaliar aqui não é medir sinal vital de hora em hora: é conferir, no retorno, se as coisas que dependiam de outra pessoa aconteceram. Sete parâmetros, e quatro deles são administrativos — o que não os torna menos clínicos, porque uma colonoscopia pedida e não realizada tem exatamente o mesmo valor de uma colonoscopia não pedida.
O intervalo padrão de retorno deste capítulo é ditado pelo que se espera receber: se a colonoscopia foi pedida, o retorno é quando ela tiver saído; se não houve pedido nenhum, o retorno é o que a vida da pessoa pedir. Retorno marcado só para reafirmar que a diverticulose continua lá é consulta que ocupa vaga e não muda desfecho.
Esperado: Exame realizado, laudo em mãos, com informação de que alcançou o ceco e de que o preparo foi adequado
Se não melhora: Se não foi marcada, refaça o pedido registrando a data do pedido anterior e a hipótese por extenso. Se foi feita com preparo inadequado, ela precisa ser repetida — e repetir é voltar à fila, o que muda a orientação que você dá sobre o preparo
Esperado: A pessoa voltou a comer semente, castanha, pipoca, milho e casca de fruta, e sabe dizer por quê
Se não melhora: Repita a autorização por nome e descubra de quem veio a proibição — se veio de um familiar que também tem a doença, convide-o para a consulta, porque a lista se sustenta na casa, não no consultório
Esperado: Peso estável, ou recuperação do que se perdeu por restrição desnecessária
Se não melhora: Perda de peso que continua depois de a dieta ter sido liberada não é da restrição: investigue como perda de peso de causa a esclarecer, com a hipótese de neoplasia escrita, e não a atribua à doença diverticular
Esperado: Redução dos episódios de dor, com a ressalva de que o benefício do aumento de fibra pode levar várias semanas para aparecer
Se não melhora: Sintoma que persiste ou não responde ao tratamento é motivo declarado para pensar em causa alternativa, investigar e conduzir de acordo — não para aumentar a fibra ou repetir a orientação
Esperado: Padrão estável; fezes de calibre habitual; sem esforço novo e sem distensão depois de comer
Se não melhora: Afilamento persistente, esforço novo ou episódios de suboclusão pedem visão direta com biópsia e imagem seccional, com a hipótese de neoplasia escrita no pedido — a estenose diverticular e o tumor se apresentam do mesmo jeito
Esperado: Ausência de pneumatúria, de fecalúria e de infecções urinárias repetidas
Se não melhora: Ar na urina, urina com aspecto ou cheiro fecal, ou infecção urinária que volta sempre indicam fístula até prova em contrário: imagem seccional com contraste e encaminhamento prioritário. Tratar cada infecção isoladamente adia o diagnóstico por anos
Esperado: Número atualizado no prontuário, separando os episódios que exigiram internação dos que não exigiram, e registrando se algum foi complicado
Se não melhora: Se um novo episódio ocorreu e ninguém somou, a conversa sobre cirurgia eletiva perde o único dado de entrada que ela tem — e é a essa conversa que a contagem serve
Onde o erro machuca
O dano: Uma pessoa sem sintoma passa a se comportar como portadora de doença crônica: restringe comida, marca retornos, pede exames de controle e carrega um diagnóstico pelo resto da vida. É a definição operacional do excesso, e o excesso aqui não é teórico — ele custa consulta, vaga de colonoscopia e peso.
Como pegar a tempo: Traduza o laudo em voz alta antes de qualquer conduta: existem bolsas, e bolsas não são doença. Diverticulose é achado; doença diverticular exige sintoma. Se não há sintoma, a consulta termina com o rastreamento de câncer colorretal que a idade e o risco já pediam, e nada mais.
O dano: Além de não prevenir nada, a lista retira exatamente os alimentos que a régua manda aumentar. A pessoa sai comendo menos fibra do que entrou, perde peso sem indicação e organiza a vida familiar em torno de uma proibição sem sustentação. Sete semanas de lista custaram quatro quilos à paciente que abre este capítulo.
Como pegar a tempo: Pergunte sempre o que a pessoa deixou de comer e quem mandou. Desfaça item por item, com os nomes ditos em voz alta — semente, castanha, pipoca, milho, casca de fruta —, porque autorização genérica não desfaz proibição específica. Substitua pela orientação que a régua sustenta: dieta com grãos integrais, frutas e verduras, líquido adequado, exercício, perda de peso quando houver excesso e parar de fumar.
O dano: O câncer de cólon ocorre na mesma faixa etária, se apresenta do mesmo jeito e nem sempre se separa da estenose inflamatória na tomografia da fase aguda. Sem esse exame, o diagnóstico diferencial mais importante fica em aberto — e um pedido sem justificativa entra na fila comum, o que na prática produz o mesmo resultado.
Como pegar a tempo: Escreva no pedido a frase inteira: exclusão de neoplasia colorretal em segmento com diverticulite aguda documentada, com a data da crise. Preencha o conteúdo descritivo mínimo do protocolo de regulação. E registre em toda evolução que a colonoscopia está pendente, com a data do pedido, até que ela aconteça.
O dano: Até metade dos pacientes refere um ou mais episódios semelhantes anteriores, e muitos deles foram tratados em casa, sem internação e às vezes sem médico. Sem essa contagem, qualquer conversa futura sobre cirurgia eletiva acontece sem o único dado de entrada que ela tem, e a decisão passa a se apoiar na impressão de quem estiver na sala.
Como pegar a tempo: Pergunte diretamente se já doeu assim antes, incluindo as vezes em que não procurou atendimento. Separe os episódios que exigiram internação dos que não exigiram, e anote se algum foi complicado por abscesso, obstrução ou fístula. Escreva o número no prontuário, não na memória.
O dano: Antibiótico fora da crise não tem indicação e seleciona flora. Aminossalicilato e antibiótico para prevenir recorrência são desaconselhados por recomendação expressa da régua inglesa. E o anti-inflamatório não esteroide, junto com a analgesia opioide, é justamente o que a mesma régua manda evitar por poder aumentar o risco de perfuração diverticular — de modo que a receita mais comum do ambulatório é a que aumenta o risco do desfecho que se quer evitar.
Como pegar a tempo: Decida antes o que não vai prescrever. Para dor persistente, analgesia simples do tipo paracetamol. Para cólica, o antiespasmódico seria uma opção, mas nenhum consta da Rename 2024, e isso se diz ao paciente. Para constipação, formador de bolo fecal, que existe no elenco como plantago. E oriente explicitamente contra o anti-inflamatório comprado por conta própria.
O dano: A fístula colovesical se anuncia por sintomas urinários em mais da metade dos casos, e cada infecção tratada isoladamente adia o diagnóstico em meses. Enquanto isso a fístula não fecha sozinha, o paciente acumula cursos de antibiótico e chega ao coloproctologista anos depois do que poderia.
Como pegar a tempo: Faça a pergunta em toda consulta de quem tem doença diverticular conhecida e em todo homem com infecção urinária de repetição: sai ar junto com a urina? A urina já veio com aspecto ou cheiro de fezes? Diante de resposta afirmativa, o próximo passo é imagem seccional com contraste e encaminhamento prioritário, não outro ciclo de antibiótico.
O que dizer ao paciente e à família
As sete falas abaixo são as que decidem esta consulta, e nenhuma delas é sobre exame. Elas existem porque o que este capítulo produz de mais valioso é informação dita em voz alta — a autorização de comer, a explicação de por que a cirurgia mudou de régua, e a pergunta que descobre uma fístula.
Fale com a pessoa e com quem veio com ela. A lista de alimentos proibidos costuma ser mantida por um familiar, e a autorização que só o paciente ouve não sobrevive ao jantar de domingo.
Ela mostra o laudo da colonoscopia e pergunta se tem uma doença grave
“"A senhora tem umas bolsinhas na parede do intestino grosso, que é uma coisa que aparece com a idade e que a maioria das pessoas da sua idade tem. Não é tumor, não é infecção e não vira nenhuma das duas por causa do tempo. Dessas pessoas todas que têm as bolsinhas, a grande maioria nunca vai sentir nada por causa delas. O papel escreveu doença porque é assim que o exame se chama, mas o que ele encontrou é anatomia, não doença."”
Não diga: Não diga apenas "não é nada" e mude de assunto: a pessoa veio com um papel na mão e precisa entender o que está escrito nele, senão vai procurar outro médico com a mesma pergunta. E não prometa que ela nunca terá crise — a fração que adoece existe, é minoria, e é honesto dizer que é minoria.
Ela põe sobre a mesa a lista de alimentos que parou de comer
“"Vou te dar uma notícia boa, e quero que a senhora ouça item por item: pode voltar a comer pipoca, milho, castanha, amendoim, semente de abóbora, linhaça, gergelim e goiaba com semente. Pode comer tomate com pele. Essa história de que a semente entra na bolsinha e entope vem de muitos anos atrás, era uma explicação que fazia sentido, e não se confirmou. O que faz diferença de verdade é o contrário disso: comer mais fruta, mais verdura e mais grão integral, e beber água junto."”
Não diga: Não autorize genericamente ("pode comer de tudo"), porque quem recebeu uma proibição nominal precisa de uma autorização nominal — o cérebro guarda a lista, não a regra. E não desqualifique quem deu a lista, sobretudo se foi um familiar que está na sala: diga que a explicação era razoável e envelheceu, não que era burrice.
Ela pergunta se é verdade que na segunda crise precisa operar
“"Essa regra existiu, e por muitos anos foi assim mesmo: duas crises com internação, e se conversava sobre operar. O que mudou foi o seguinte: a maioria das pessoas que teve uma crise não tem outra — entre um quarto e um terço têm —, e a régua mais recente que existe deixou de contar crises e passou a olhar para quem ficou com alguma sequela depois de uma crise complicada, como um estreitamento ou uma fístula. Hoje a conversa sobre cirurgia é caso a caso. O documento brasileiro, que é de 2008, ainda usa a contagem, e o cirurgião que a senhora vai encontrar pode citá-lo — por isso quem decide isso é ele, com o seu número de crises na mão."”
Não diga: Não diga que a regra antiga estava errada e ponto: ela vem do documento brasileiro que ainda é a única régua nacional, e o cirurgião que a paciente vai encontrar pode citá-la. Diga que há duas posições, que a discussão é individual, e que quem vai conduzi-la é o serviço para onde ela está sendo encaminhada.
Ele conta, de passagem, que a urina às vezes borbulha
“"Espera, isso que o senhor acabou de falar é importante e eu quero entender direito. Sai ar junto com a urina, como se fosse gás de refrigerante? Alguma vez a urina veio turva, com cheiro diferente, ou com aspecto de fezes? Quantas vezes o senhor tratou infecção urinária no último ano? Pergunto porque, quando isso acontece em quem tem essas bolsinhas, pode ter se formado uma comunicação entre o intestino e a bexiga. Isso tem tratamento, mas não é com antibiótico — é uma coisa que precisa ser vista pela cirurgia, e eu vou encaminhar hoje com prioridade."”
Não diga: Não deixe o relato passar como detalhe da anamnese urinária, e não peça "mais um exame de urina para confirmar": urocultura não diagnostica fístula e o resultado vai custar semanas. E não diga a palavra fístula sem explicar o que ela é, porque a pessoa vai imaginar algo pior do que é.
Ela diz que o intestino mudou e que as fezes afinaram
“"Isso muda o que eu ia fazer hoje. Quando o hábito do intestino muda e fica assim por semanas, eu não posso atribuir à doença que a senhora já tem, porque tem outra coisa que se apresenta exatamente igual e que eu preciso descartar. O exame que responde é a colonoscopia, que olha por dentro e, se encontrar alguma coisa, já colhe um pedacinho para examinar. Não é para se assustar: é para não deixar em aberto."”
Não diga: Não use a palavra câncer como alavanca de adesão nem a esconda se a pessoa perguntar diretamente. Se ela perguntar se pode ser câncer, a resposta é que é uma das possibilidades e que é justamente por isso que o exame é necessário — não é engano nem é sentença.
Ela pergunta se precisa repetir a colonoscopia todo ano para acompanhar as bolsinhas
“"Não. Não existe exame de acompanhamento para as bolsinhas: elas não somem, não pioram por conta do tempo e olhar de novo não muda nada do que a gente vai fazer. O que a senhora continua fazendo é o exame que qualquer pessoa da sua idade faz para procurar câncer de intestino, no intervalo que já estava combinado. Se aparecer sintoma novo, aí sim a gente olha — mas por causa do sintoma, não do calendário."”
Não diga: Não ceda ao pedido de "um controlezinho" para tranquilizar: cada colonoscopia sem indicação é um preparo desagradável, um risco de procedimento e uma vaga a menos para quem tem sintoma. E não deixe a recusa parecer economia — explique que é o que a evidência sustenta, não o que o serviço tem.
Ele pergunta o que fazer se a dor voltar
“"Se voltar dor no lado esquerdo embaixo, que fica e vai apertando ao longo de um ou dois dias, principalmente com febre ou calafrio, o senhor procura um pronto-socorro no mesmo dia. Não é para esperar o retorno comigo, não é para tomar o antibiótico que sobrou da outra vez e não é para tomar anti-inflamatório, que nesse caso pode piorar as coisas. Vou escrever isso num papel para o senhor levar, com o que procurar e onde ir."”
Não diga: Não deixe a orientação só na fala. Papel na mão, com o que fazer e onde ir, é o que sobrevive à consulta. E não deixe antibiótico prescrito "para o caso de voltar": crise nova precisa de avaliação, e antibiótico guardado em casa é o que faz a pessoa não procurar atendimento.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Régua brasileira, 28 de outubro de 2008: a contagem decide
O tratamento cirúrgico eletivo está comumente indicado depois de uma crise complicada — abscesso, obstrução ou fístula — e para quem teve duas crises necessitando hospitalização; no imunossuprimido, a indicação existe já depois de uma única crise. O intervalo declarado para a operação é de seis a oito semanas após a crise. O documento sustenta a régua registrando que o risco de complicação num próximo surto atinge 60% depois da segunda crise e que a mortalidade duplica, e a referência que ele indica para essa frase é um trabalho de 1975.
Sociedade Brasileira de Coloproctologia; Colégio Brasileiro de Cirurgia Digestiva; Sociedade Brasileira de Infectologia; Sociedade Brasileira de Patologia; Colégio Brasileiro de Radiologia. Diverticulite: Diagnóstico e Tratamento. Projeto Diretrizes — Associação Médica Brasileira e Conselho Federal de Medicina. Elaboração final: 28 de outubro de 2008.
Régua inglesa, 27 de novembro de 2019: a sequela decide, e o momento não tem resposta
A recomendação de cirurgia eletiva é para quem se recuperou de uma diverticulite aguda complicada e permanece com sintomas — o exemplo dado é o de quem ficou com estenose ou com fístula. Não há recomendação alguma baseada em contagem de episódios. E sobre quando operar, o comitê registrou que não foi capaz de fazer recomendação para a prática nessa área e converteu a pergunta em recomendação de pesquisa.
National Institute for Health and Care Excellence. Diverticular disease: diagnosis and management. NICE guideline NG147, publicada em 27 de novembro de 2019, recomendação 1.3.29 e seção sobre o momento da cirurgia.
A decisão de operar não é sua nem se toma nesta consulta: ela pertence ao serviço de coloproctologia ou de cirurgia para onde a pessoa vai. O que decide de fato o encaminhamento é o dado que só você pode colher hoje, e que as duas posições precisam igualmente. Escreva no pedido, com números: quantos episódios já houve, quantos exigiram internação, se algum foi complicado por abscesso, obstrução ou fístula, se ficou sequela — estreitamento, fístula, dor que não passa — e se a pessoa é imunossuprimida. Diante de sequela persistente, as duas réguas apontam para o mesmo lado, e o encaminhamento é prioritário. Diante apenas de contagem de crises não complicadas, elas divergem, e a conversa é do especialista. Diga isso ao paciente com essas palavras, para que ele não saia da sua sala com a promessa de uma cirurgia nem com a garantia de que não haverá nenhuma.
Régua brasileira, 2008: há um fármaco com evidência acima de opinião
O documento registra evidência de que a rifaximina por via oral, na dose de 800 mg, pelo período de uma semana a cada mês, é superior à suplementação de fibras isoladamente na prevenção de nova crise, com risco relativo de 2,4 e p menor que 0,05. É o único fármaco de prevenção que ele cita com grau de evidência acima de opinião de especialista. A redação da dose admite duas leituras que diferem por um fator de sete, e o documento não declara via de fracionamento.
Diverticulite: Diagnóstico e Tratamento. Projeto Diretrizes, Associação Médica Brasileira e Conselho Federal de Medicina, 28 de outubro de 2008, com evidência de grau B apoiada em Latella G et al., Int J Colorectal Dis 2003;18:55-62.
Régua inglesa, 2019: não se oferece fármaco de prevenção
A recomendação é para não oferecer aminossalicilato nem antibiótico com a finalidade de prevenir diverticulite aguda recorrente. E sobre a doença diverticular recorrente, o comitê registrou que não houve evidência incluída na revisão e que não foi capaz de fazer recomendação alguma, nem com base na experiência ou na opinião dos seus membros. O que resta como medida de prevenção nessa régua é o que não é fármaco: dieta, líquido, exercício, peso e cessação do tabagismo.
NICE guideline NG147, recomendação 1.3.30, e seção sobre doença diverticular recorrente.
Comece pelo que a farmácia da sua unidade responde, porque isso encerra metade da discussão: a rifaximina não consta da Rename 2024, e a mesalazina, que consta pelo componente Especializado, é justamente o aminossalicilato que a segunda posição manda não oferecer. Na prática, o paciente do Sistema Único de Saúde não vai receber o fármaco da primeira posição e não deve receber o da segunda. O que você prescreve é o que sobra e que as duas réguas aceitam: dieta com grãos integrais, frutas e verduras, líquido adequado, exercício, perda de peso quando houver excesso e cessação do tabagismo — e formador de bolo fecal quando houver constipação. Se a pessoa chegar já usando rifaximina prescrita por outro serviço, não a suspenda de imediato numa consulta de retorno: registre quem prescreveu, com que indicação, e leve a pergunta a quem a indicou.
Dois protocolos de regulação brasileiros: todos os casos
O protocolo federal de 2015 lista, na linha de cuidado do sistema digestivo, doença diverticular com o motivo de encaminhamento descrito como todos os casos, e sugere anuscopia, retossigmoidoscopia, enema opaco ou colonoscopia. O protocolo catarinense de 2022 determina encaminhar para proctologia a doença diverticular dos cólons, também em todos os casos. Aplicada à prevalência que a própria régua brasileira descreve, essa regra alcança cerca de um terço das pessoas acima dos 45 anos.
Brasil, Ministério da Saúde. Protocolos de Acesso Ambulatorial: Consultas Especializadas — Hospitais Federais no Rio de Janeiro, 2015. E Santa Catarina, Secretaria de Estado da Saúde, Protocolo de Acesso e Regulação — Cirurgia Geral Adulto, atualização de abril de 2022.
Regulação gaúcha e régua inglesa: só quem tem motivo específico
O protocolo gaúcho publica nove protocolos de proctologia para adultos, e nenhum deles é doença diverticular; a condição aparece uma única vez, na regra que dá preferência no encaminhamento a quem tem fístula colovesical. A régua inglesa é explícita na direção oposta à do encaminhamento universal: não encaminhar de rotina quem tem suspeita de doença diverticular, salvo se a investigação endoscópica ou radiológica não puder ser organizada na atenção primária, se houver suspeita de colite, ou se a pessoa preencher critério da via de suspeita de câncer.
TelessaúdeRS-UFRGS e Secretaria Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul. Protocolos de Regulação Ambulatorial — Proctologia Adulto, versão digital de 26 de julho de 2021. E NICE guideline NG147, recomendação 1.2.2.
A regra que vale para você é a do seu estado e do seu município, e é ela que a regulação vai aplicar ao seu pedido — descubra qual é antes de escrever. Dito isso, a divergência se resolve na prática por um caminho que nenhuma das duas posições impede: o que sustenta um encaminhamento é o motivo clínico escrito nele, não a citação da norma. Encaminhe com prioridade e com o achado descrito quem tem fístula, estenose com repercussão, abscesso recidivante ou suspeita de neoplasia. Para quem tem apenas achado colonoscópico sem sintoma, registre na evolução a decisão de não encaminhar e a razão — porque a decisão de não fazer também é uma decisão, e sem registro ela vira omissão aos olhos de quem ler o prontuário depois. E se a régua local obrigar o encaminhamento de todos os casos, cumpra-a escrevendo o que o paciente de fato tem, para que a regulação possa priorizar dentro da fila que a própria regra criou.
O raciocínio, em voz alta
Volte à sala 4 e à pasta plástica de Haroldina Camocim, 62 anos, professora aposentada. Sobre a mesa estão o sumário de alta de sete semanas atrás — diverticulite aguda não complicada, antibiótico venoso, alta no quarto dia —, o laudo da tomografia daquela internação, que descreve espessamento da parede do sigmoide e borramento da gordura em volta sem coleção e sem ar livre, e uma folha de caderno com onze alimentos proibidos. Ela emagreceu quatro quilos em sete semanas, não teve dor desde a alta, e a pergunta que trouxe é se quem tem isso precisa operar na segunda vez. Não há nenhum outro exame marcado, e no sumário de alta não há pedido de colonoscopia. Acompanhe a consulta inteira, passo a passo.
Primeiro, classifique
Haroldina está fora da crise, sem dor ou febre há sete semanas. A consulta deve avaliar recuperação, perda de peso e necessidade de investigação, esclarecer as restrições alimentares e discutir seu receio de operar. Colonoscopia depende do contexto; neste caso, emagrecimento e ausência de exame recente conhecido sustentam a indicação.
Leia o sumário procurando três coisas
Houve tomografia, e ela descreve inflamação sem coleção, sem ar livre e sem estenose — episódio não complicado. O antibiótico foi venoso e a alta foi no quarto dia. E não há colonoscopia solicitada em lugar nenhum do papel. Esse terceiro achado é o que muda mais o desfecho dos próximos anos e é o mais fácil de não perceber, porque a ausência de um pedido não aparece escrita.
Pergunte o que ela deixou de comer, antes de orientar
Ela lê a lista: tomate sem pele, nada de goiaba, nem pipoca, nem milho, nem amendoim, nem castanha, nada de linhaça, chia, gergelim ou semente de abóbora. Diz que a lista veio de uma vizinha que teve a mesma doença e que ela segue à risca. Anote a lista e a origem dela no prontuário: é isso que a próxima consulta vai precisar desfazer, e é a explicação mais provável dos quatro quilos.
Desfaça a lista por nome, com quem estiver na sala
Autorize item por item, em voz alta, e diga por quê: a explicação da semente entalada é antiga, fazia sentido e não se confirmou. Substitua pela orientação que a régua sustenta — dieta com grãos integrais, frutas e verduras, aumento gradual de fibra porque o aumento brusco distende, e líquido adequado junto. Avise que o benefício pode levar semanas e que, se tolerada, a dieta rica em fibra é para a vida inteira. Acrescente o que de fato reduz risco e que não cabe em lista de proibições: exercício, peso e parar de fumar.
Conte os episódios
Ela relata duas dores semelhantes anteriores, resolvidas em casa e sem confirmação. Registro um episódio de diverticulite documentado e dois episódios abdominais suspeitos, não três diagnósticos comprovados. Pergunto quanto isso limitou sua vida e explico que nem o segundo episódio confirmado obriga cirurgia.
Peça a colonoscopia, com o motivo por extenso
Solicite colonoscopia escrevendo a hipótese inteira: exclusão de neoplasia colorretal em segmento com diverticulite aguda documentada em determinada data. Preencha o conteúdo descritivo mínimo do protocolo de regulação, como manda a régua do capítulo Câncer colorretal. Registre na evolução que a colonoscopia está pendente com a data do pedido, e confirme com ela quem vai comprar a solução do preparo e quem vai acompanhá-la.
Rastreie as complicações crônicas em vinte segundos
Pergunte se sai ar junto com a urina, se a urina já veio turva ou com cheiro diferente e quantas infecções urinárias ela tratou no último ano — as respostas são não, não e nenhuma. Pergunte se as fezes afinaram, se surgiu esforço novo, se há distensão depois de comer — não, não e não. Examine o abdome procurando massa palpável, que não há. Duas complicações afastadas por anamnese, sem nenhum exame.
Decida o que não prescrever
Nenhum antibiótico: ela não está em crise. Nenhuma profilaxia de recorrência: rifaximina não consta do elenco nacional e aminossalicilato é desaconselhado pela régua inglesa. Nenhum anti-inflamatório, e diga isso em voz alta, porque é a classe que ela pode comprar sozinha na farmácia — anti-inflamatório não esteroide e opioide são justamente o que se orienta evitar por poderem aumentar o risco de perfuração. Se doer, analgesia simples do tipo paracetamol.
Responda a pergunta que ela veio fazer
Diga que a regra das duas crises existiu e mudou; que a maioria das pessoas não tem outra crise; que a conversa sobre cirurgia hoje é individual e vale principalmente para quem teve crise complicada, ficou com sequela ou tem imunidade baixa; e que quem vai conduzir essa conversa é o serviço para onde ela será encaminhada, se for. Não prometa cirurgia nem garanta que não haverá — as duas réguas em jogo divergem, e ela tem o direito de saber que divergem.
Feche a consulta com data e com papel na mão
Marque o retorno com objetivo declarado: ver o resultado da colonoscopia e conferir se a lista de alimentos foi desfeita de fato. Entregue por escrito o que fazer se a dor voltar com febre — procurar pronto-socorro no mesmo dia, sem tomar antibiótico que sobrou e sem anti-inflamatório — e para onde ir. E pese-a hoje, para que o retorno tenha com o que comparar os quatro quilos.
Faça você
Quarta-feira de manhã, unidade básica de saúde, e a ficha diz apenas: retorno de infecção urinária. Lauriana Cerejeiras tem 58 anos, é costureira, e está no quarto tratamento de infecção urinária em onze meses. Traz três resultados de exame de urina, todos com muitos leucócitos, e uma urocultura de dois meses atrás com Escherichia coli. Diz que melhora com o antibiótico e volta a piorar em algumas semanas. Não tem febre hoje, não tem dor lombar e o abdome está indolor à palpação. Há dois anos ela internou por uma dor forte no lado esquerdo da barriga, com febre, e ficou cinco dias no hospital; o papel dessa internação ela não trouxe, mas lembra da palavra divertículo. Enquanto você digita, ela comenta, sem dar importância, que às vezes a urina 'faz uma espuma esquisita, parece gasosa'. Complete os quatro passos.
Passo 1 — a pergunta que muda a consulta
Qual pergunta você faz imediatamente depois do comentário sobre a espuma, e o que exatamente quer saber com ela?
Passo 2 — a hipótese e a razão anatômica
Que diagnóstico o conjunto — quatro infecções urinárias em onze meses, internação prévia por dor em fossa ilíaca esquerda com febre, e ar na urina — torna provável, e por que essa complicação é mais frequente em homens do que em mulheres?
Passo 3 — o exame que confirma, e os dois que não confirmam
Que exame confirma a hipótese, e por que mais uma urocultura e mais um curso de antibiótico não resolvem a pergunta?
Passo 4 — o destino, e o que escrever no papel
Para onde ela vai, com que prioridade, e quais achados precisam estar escritos no encaminhamento para que a regulação consiga priorizá-la?
Continuidade do caso e prática do internato
Retome a pasta de Haroldina: a tomografia esclarece a crise, a história esclarece os episódios anteriores e a folha de alimentos mostra uma parte modificável do cuidado.
Questão integrativa 1
Os dois episódios tratados em casa confirmam três diverticulites?
Questão integrativa 2
Por que Haroldina deve investigar o emagrecimento?
Questão integrativa 3
É preciso proibir sementes e castanhas para todos?
Questão integrativa 4
Colonoscopia é obrigatória depois de cada recorrência?
Questão integrativa 5
Qual sintoma urinário sugere fístula?
Questão integrativa 6
Como responder à pergunta sobre operar na segunda vez?
Ver como fecharíamos
Passo 1. A pergunta é direta e literal: sai ar junto com a urina, como gás de refrigerante? E na sequência: a urina já veio turva, com cheiro diferente ou com aspecto de fezes? Quantas infecções urinárias a senhora tratou no último ano? O que se quer saber é se aquele comentário lateral é pneumatúria, que é como a fístula colovesical se anuncia — e a palavra pneumatúria a paciente não vai usar, então a pergunta precisa ser feita com as palavras dela. Passo 2. A hipótese é fístula colovesical secundária a doença diverticular. A régua inglesa lista fecalúria, pneumatúria, piúria e passagem de fezes pela vagina como sinais que sugerem fístula para a bexiga ou para a vagina, e o documento brasileiro registra que pneumatúria, fecalúria e infecção urinária de repetição ocorrem em mais da metade dos pacientes com essa complicação. A fístula colovesical é a mais comum das fístulas internas da doença — 65% delas numa série de 84 pacientes acompanhados ao longo de 26 anos, citada pelo documento brasileiro. O predomínio é de dois homens para cada mulher, e a explicação registrada é anatômica: o útero se interpõe entre o sigmoide e a bexiga, protegendo-a. Que Lauriana seja mulher torna o caso menos frequente, não menos provável diante desses achados. Passo 3. O exame é imagem seccional do abdome e da pelve com contraste, que enxerga o trajeto, o ar dentro da bexiga e o segmento intestinal aderido; some a ele um exame de urina, que costuma mostrar piúria e flora mista. Recupere também o relatório da internação de dois anos atrás, que documenta o episódio. Outra urocultura não responde à pergunta, porque a bactéria vai crescer de novo e o resultado só confirma o que já se sabe: há bactéria intestinal na urina — e é justamente por isso que ela está lá. Outro curso de antibiótico trata o episódio e não fecha a comunicação; foi o que aconteceu quatro vezes em onze meses. Passo 4. Ela vai para coloproctologia ou cirurgia, com prioridade — o protocolo de regulação do Rio Grande do Sul nomeia expressamente a doença diverticular com fístula colovesical entre as condições que têm preferência no encaminhamento para proctologia. No papel precisam estar, por escrito: pneumatúria referida, número de infecções urinárias tratadas no período, o resultado dos exames de urina, o antecedente de internação por diverticulite com a data, e o achado de imagem se ele já existir. O tratamento definitivo é cirúrgico e envolve ressecar o segmento intestinal doente, com anastomose primária frequentemente possível. E diga a ela o que está acontecendo com palavras que ela entenda, porque quatro tratamentos em onze meses já a convenceram de que o problema é a bexiga dela. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. São dores semelhantes não documentadas; separar suspeita de confirmação evita contar doenças que podem ter outra causa. 2. Pode refletir restrição alimentar, mas isso não deve ser presumido. Avaliar recuperação e causas alternativas, incluindo neoplasia conforme risco e exames prévios. 3. Não. A orientação deve favorecer alimentação variada e fibra tolerada, sem restrições universais sem fundamento. 4. Não. Individualizar pela complicação, certeza diagnóstica, sinais de alarme e exame anterior de boa qualidade. 5. Pneumatúria ou fecalúria, especialmente com infecções urinárias recorrentes, exige investigação e avaliação especializada. 6. Não há indicação automática pelo número. Explicar riscos, impacto, complicações e alternativas com a equipe, considerando a preferência da paciente.
Segundo a AGA, indica-se colonoscopia após primeiro episódio de diverticulite não complicada, podendo dispensá-la se houver exame recente de boa qualidade e sem achados que exijam antecipação. A investigação busca excluir neoplasia que tenha simulado o episódio. O prazo recomendado é de seis a oito semanas após a crise ou até resolução completa dos sintomas, o que for mais longo; portanto, não é um intervalo reservado à cirurgia eletiva. Nesta consulta de cinco semanas, cabe solicitar e programar o exame no momento adequado. Sinais de alarme podem justificar antecipação individualizada. Tomografia de controle e marcadores tumorais não substituem a colonoscopia indicada.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Três palavras, três coisas: diverticulose é achado, doença diverticular exige sintoma, diverticulite é a crise. O laudo que diz doença diverticular quase sempre está descrevendo a primeira. Depois dos 45 anos, um terço das pessoas tem divertículos, e entre 10% e 25% delas chegam a ter diverticulite — o que significa que a maioria absoluta nunca terá nada. A pergunta que abre a consulta não é sobre exame: é o que a senhora parou de comer, e quem mandou parar. Não há necessidade de evitar semente, castanha, pipoca ou casca de fruta; a orientação que se dá é o contrário, com grãos integrais, frutas, verduras e líquido adequado. Quem teve crise documentada recebe uma colonoscopia com o motivo escrito por extenso — excluir neoplasia colorretal no segmento acometido — e uma contagem de episódios anotada no prontuário. E não se prescreve antibiótico fora da crise, nem antibiótico ou aminossalicilato para prevenir a próxima, nem anti-inflamatório não esteroide.
Em 30 dias
A régua brasileira do tema é de 28 de outubro de 2008, tem o título Diverticulite e trata da crise; fora dela, quem escreve o que fazer é documento de outro sistema de saúde, e as duas réguas divergem em três pontos que a consulta encosta. Na cirurgia eletiva: contagem de episódios de um lado, sequela persistente do outro, e nenhuma decisão que se tome no ambulatório do interno — o que se faz é escrever o número de crises, quantas internaram, se alguma complicou e se há sequela. Na prevenção com fármaco: rifaximina recomendada na régua brasileira e ausente da Rename 2024; aminossalicilato disponível no elenco e desaconselhado pela régua inglesa; sobra o que não é fármaco. No encaminhamento: dois protocolos brasileiros mandam encaminhar todos os casos, o do Rio Grande do Sul sequer tem protocolo para a condição e prioriza só a fístula colovesical, e o que sustenta o seu pedido é o motivo clínico escrito nele. As duas complicações crônicas que a anamnese diagnostica sozinha continuam sendo as mesmas: ar na urina com infecções urinárias de repetição é fístula colovesical até prova em contrário, e mudança persistente do calibre das fezes é investigação de neoplasia, nunca orientação dietética.
Agora atenda
Agora atenda: Tibúrsio Emboaba, 71 anos, aposentado, chega ao ambulatório de cirurgia geral com um laudo de colonoscopia feita há um mês por rastreamento de câncer colorretal. O laudo descreve exame completo até o ceco, preparo adequado, dois pólipos diminutos ressecados no cólon descendente com resultado de adenoma tubular com displasia de baixo grau, e termina com a frase doença diverticular dos cólons. Ele não tem dor abdominal, nunca teve febre com dor na barriga e o hábito intestinal não mudou. Desde que recebeu o laudo, parou de comer pipoca, castanha, milho e goiaba, e a filha, que veio com ele, trouxe uma lista impressa da internet com outros dez itens. Ele tem artrose de joelhos e toma ibuprofeno quase todos os dias, comprado na farmácia. Está preocupado com duas coisas: se vai precisar operar e de quanto em quanto tempo precisa repetir a colonoscopia por causa das bolsinhas. Conduza a consulta inteira: diga o que o laudo significa e o que ele não significa, decida o que investigar e o que não investigar, resolva a lista de alimentos com a filha na sala, tome uma decisão sobre o ibuprofeno e explique-a, e diga com quantos anos e por qual motivo ele volta a fazer colonoscopia — separando o que é seguimento do pólipo do que seria acompanhamento das bolsinhas.
