Cirurgia Geral › Coloproctologia
Melhorou com a pomada
Câncer de canal anal e lesões perianais
Examinar sintomas persistentes, reconhecer lesões suspeitas e garantir diagnóstico histológico e encaminhamento, mesmo quando a pomada alivia.
Brasil. Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST). 1ª edição, versão eletrônica. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. 211 p.
Brasil. Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, Departamento do Programa Nacional de Imunizações, Coordenação-Geral de Incorporação Científica e Imunização. Nota Técnica nº 41/2024-CGICI/DPNI/SVSA/MS — Atualização das recomendações da vacinação contra HPV no Brasil.
Instituto Nacional de Câncer (Brasil). Estimativa 2026: incidência de câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA, 2026. 168 p.
Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva. Estimativa 2023: incidência de câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA, 2022.
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Faculdade de Medicina, TelessaúdeRS-UFRGS; Rio Grande do Sul, Secretaria Estadual da Saúde. Protocolos de Regulação Ambulatorial — Proctologia Adulto: versão digital 2021. Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS, 26 jul. 2021. (Estratégia RegulaSUS).
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024.
Brasil. Ministério da Saúde; Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec). Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas (DDT) — relação dos documentos publicados. Portal da Conitec, consultado em 7 de setembro de 2026.
Brasil. Lei nº 12.732, de 22 de novembro de 2012, que dispõe sobre o primeiro tratamento do paciente com neoplasia maligna comprovada e estabelece prazo para seu início — texto compilado.
National Cancer Institute. Anal Cancer Treatment (PDQ), versão profissional. [Acessar fonte](https://www.cancer.gov/types/anal/hp/anal-treatment-pdq)
Responda antes de ler
Por que a palpação das duas regiões inguinais faz parte do exame mínimo de qualquer queixa anal, e o que se faz diante de um linfonodo inguinal endurecido em paciente com lesão anal?
O paciente que você vai ver
Quinta-feira, dez e quarenta da manhã, numa unidade básica de um distrito onde as duas linhas de ônibus terminam antes do hospital que recebe os encaminhamentos. A sala 3 é sua hoje. São dezessete fichas empilhadas e a preceptora está na sala vizinha, com a porta encostada. A oitava ficha traz duas linhas escritas pela recepção: sangramento anal, retorno.
Nelusco Passira tem 58 anos, é ajudante de pedreiro e senta com o boné na mão. Ele começa pedindo desculpa por voltar, e a desculpa é a informação mais importante da consulta: ele já esteve ali três vezes desde março por causa da mesma coisa. Traz num saco plástico as três receitas, e as três dizem quase o mesmo — pomada com anestésico local, banho de assento, fibra. A letra muda, o texto não. Em nenhuma das três há uma linha de exame físico registrada.
O sangue, ele conta, é vivo, aparece no papel e às vezes pinga no vaso, e é assim desde o começo do ano. Nos primeiros meses melhorava quando ele usava a pomada, e é isso que ele quer que você anote: melhorou. Depois voltava. Nas últimas semanas passou a doer, uma dor que ele descreve como constante, que não tem hora certa, e que atrapalha sentar no andaime. Perdeu peso, não sabe quanto, mas a calça sobra. Há umas três semanas percebeu um caroço na virilha do lado direito, que ele atribuiu a esforço.
Você olha para a ficha e faz a conta que ninguém fez: da primeira consulta até hoje são mais de sete meses. Três atendimentos, três prescrições, zero exames anotados. E há uma frase escrita na segunda receita, em letra apressada, que resume a armadilha inteira deste capítulo: melhorou com a pomada, manter.
O que você vai descobrir nos próximos quinze minutos não exige nenhum equipamento que a unidade não tenha. Exige uma luz, um lençol, uma luva, uma porta fechada e a decisão de olhar. Exige também a mão passando pelas duas virilhas, que é o gesto que quase ninguém faz numa queixa anal e que aqui muda o encaminhamento. E exige, no fim, que você não caia na tentação de resolver: de todas as coisas que você pode fazer hoje com uma lesão anal que não fecha, ressecá-la é a única que atrapalha.
Quem adoece disso
O câncer do canal anal é raro e a raridade tem duas consequências opostas. A primeira é que o médico geral verá pouquíssimos casos na vida, o que torna o diagnóstico improvável se ele depender de suspeita espontânea. A segunda é que a doença é altamente curável quando encontrada pequena — e a demora, no Brasil como em toda parte, quase nunca é do sistema de alta complexidade: é do intervalo entre a primeira queixa e o primeiro exame.
Há uma peculiaridade brasileira que o interno precisa conhecer antes de citar qualquer número, porque ela delimita quais afirmações continuam sustentáveis. Até a Estimativa 2023, o INCA definia o agrupamento cólon e reto pelos códigos C18 a C21 da CID-10 — cólon, junção retossigmoide, reto e ânus. A Estimativa 2026 mudou a definição: o agrupamento passou a compreender apenas C18, C19 e C20, e o documento escreve com todas as letras que o ânus e o canal anal, código C21, não são incluídos nesse conjunto.
A justificativa que o próprio INCA dá é clínica, não estatística, e vale como aula. Primeiro, diferença epidemiológica: enquanto o câncer colorretal se associa a dieta, obesidade, sedentarismo e síndromes hereditárias, o câncer de ânus está fortemente vinculado à infecção pelo HPV e à imunossupressão, aproximando-se mais dos outros tumores anogenitais e da orofaringe. Segundo, comparabilidade internacional, porque a exclusão segue a prática da agência internacional de pesquisa em câncer e dos consórcios de sobrevida. Em uma frase: o canal anal não é o fim do intestino grosso, é o começo de outra família de tumores.
A consequência prática é desconfortável e precisa ser dita. O canal anal saiu do agrupamento em que era contado e não ganhou linha própria na estimativa nacional: os casos de C21 passaram a cair na rubrica residual de outras localizações. Quem comparar séries brasileiras de cólon e reto antes e depois de 2026 estará comparando conjuntos diferentes, e quem quiser um número nacional isolado para o canal anal não o encontrará na estimativa. Os números que existem para o Brasil vêm dos registros de câncer e da mortalidade, não da estimativa de incidência.
O que a Estimativa 2026 dá, e serve de escala, é o tamanho do vizinho: para cada ano do triênio 2026-2028 estimam-se cerca de 781 mil casos novos de câncer no país, 517.770 excluído o de pele não melanoma, dos quais 26.270 de cólon e reto em homens e 27.540 em mulheres — o segundo tumor mais incidente nos dois sexos. O canal anal é uma fração pequena disso, e a ordem de grandeza que a literatura internacional usa, de um a dois casos por cem de tumor colorretal, precisa ser lida com cuidado no Brasil de hoje, porque o denominador que ela nomeia deixou de conter o numerador.
Sobre quem adoece, o traço que organiza tudo é a infecção persistente pelo papilomavírus humano, e por isso os fatores de risco reconhecidos formam um conjunto coerente: imunossupressão de qualquer origem, infecção pelo HIV, transplante de órgão sólido, uso crônico de imunossupressor, tabagismo e prática sexual anal receptiva. O documento nacional de infecções sexualmente transmissíveis registra que pessoas com prática sexual anal, em especial as que vivem com HIV, têm maior incidência de lesões perianais e de complicações com potencial de malignização, e por isso pede duas coisas do serviço: incluir o exame periódico da região nas rotinas de acompanhamento e informar a pessoa o bastante para que ela reconheça uma queixa proctológica quando surgir.
Repare no que esse conjunto de fatores não diz. Não diz que quem tem câncer de canal anal pertence a algum desses grupos: a maioria dos pacientes com a doença não tem HIV, não é transplantada e não relata prática anal receptiva. Os fatores aumentam a probabilidade; nenhum deles é condição necessária. Um capítulo que ensinasse a suspeitar apenas nos grupos de risco produziria exatamente o atraso que ele quer evitar, e produziria também o pior efeito colateral possível na sala: o médico perguntando a vida sexual do paciente como quem monta uma acusação, em vez de como quem coleta um dado.
Por que acontece o que acontece
Três fatos anatômicos explicam quase tudo o que este capítulo pede. O primeiro é a linha pectínea, que divide o canal anal em duas metades com epitélios, inervações e drenagens diferentes. Acima dela, epitélio colunar e glandular, inervação visceral, drenagem linfática para os gânglios mesentéricos e ilíacos internos. Abaixo dela, epitélio escamoso, inervação somática — a mesma da pele — e drenagem para os linfonodos inguinais. É a linha que separa o que dói do que não dói, e o que se procura na virilha do que se procura na tomografia.
O segundo fato é o epitélio de transição. Na altura da linha pectínea existe uma faixa em que um epitélio vira o outro, e zonas de transição epitelial são, em todo o corpo, o sítio preferido da carcinogênese pelo papilomavírus humano — é a mesma biologia da junção escamocolunar do colo do útero. Daí a histologia: cerca de nove em cada dez tumores do canal anal são carcinomas de células escamosas, e não adenocarcinomas. Essa única frase já reordena a conduta inteira, porque o tratamento de um escamoso não é o tratamento de um adenocarcinoma.
O terceiro fato é a drenagem inguinal, e ele é o que mais muda o exame do interno. O canal anal distal e a margem anal drenam para os linfonodos inguinais superficiais, que são palpáveis com a mão, sem equipamento nenhum, em qualquer maca. Numa queixa anal, apalpar as duas virilhas não é refinamento de especialista: é parte do exame mínimo. Um gânglio inguinal endurecido, aumentado, em quem tem lesão anal, muda a hipótese, muda a prioridade do encaminhamento e vai escrito no papel.
A história natural começa antes do tumor. A infecção persistente pelos tipos oncogênicos do papilomavírus produz, no epitélio escamoso do ânus, o mesmo tipo de lesão precursora que produz no colo do útero: a neoplasia intraepitelial anal, que o documento nacional de infecções sexualmente transmissíveis lista ao lado das intraepiteliais cervical, vulvar, vaginal, peniana e perineal. Ela é assintomática, não é visível a olho nu na maior parte das vezes e evolui em anos. A doutrina do papilomavírus — quais tipos causam o quê, o que a vacina previne, o que a verruga significa, como se trata o condiloma — pertence ao capítulo Duas coisas com o mesmo nome, na apostila de Ginecologia, e este capítulo a cita em vez de refazê-la. A lesão intraepitelial anal, porém, não tem dono em nenhum outro capítulo deste nível: aquele capítulo a nomeia ao lado das intraepiteliais dos demais epitélios e para ali, e o capítulo de rastreamento do colo do útero, para onde ele remete a conduta por resultado citológico, é do colo e não do ânus. Este capítulo assume a lesão intraepitelial anal e declara o que assume: ela não se detecta em consulta comum, não há programa nacional que a procure, e o que o médico da porta faz a respeito dela é uma coisa só — examinar a região de quem está sob acompanhamento e biopsiar a lesão que se vê.
Quando a lesão vira invasora, ela cresce localmente e faz três coisas que produzem sintomas fáceis de confundir. Ulcera, e a úlcera sangra a cada evacuação — sangue vermelho vivo, no papel, exatamente como uma hemorroida interna sangra. Infiltra a musculatura e o tecido perianal, e aí dói, com uma dor que não tem hora e que não cede com pomada. E cresce em volume, produzindo um caroço que o paciente encontra sozinho e batiza de hemorroida, porque hemorroida é o nome que a cultura dá a qualquer caroço no ânus.
Essa coincidência sintomática é o motor do atraso, e ela tem uma peculiaridade cruel: a melhora não afasta nada. Uma úlcera neoplásica sangrante, banhada em anestésico e emoliente e aliviada da passagem de fezes duras, sangra menos e dói menos por algumas semanas. O alívio é real. O que ele não é, em nenhuma hipótese, é prova diagnóstica. Nenhum documento consultado neste capítulo autoriza usar resposta a tratamento tópico como critério para excluir neoplasia — e o protocolo brasileiro de regulação faz o contrário, ao mandar reavaliar o rótulo quando o quadro não segue o esperado.
A metástase à distância é tardia e relativamente incomum ao diagnóstico, o que significa que a janela de cura é longa e desperdiçada por atraso, não por agressividade biológica. O que muda o prognóstico, na prática de quem trabalha na porta, é o tamanho da lesão e o comprometimento ganglionar no dia em que alguém finalmente olha — e as duas coisas crescem com o número de consultas em que ninguém olhou.
Por fim, a razão pela qual este tumor tem um capítulo separado do câncer colorretal: ele é excepcionalmente sensível à combinação de radioterapia com quimioterapia. Um tumor escamoso de canal anal tratado dessa forma pode desaparecer sem que se retire o esfíncter, e o paciente continua evacuando pelo ânus. Essa sensibilidade é a razão de a cirurgia ter deixado de ser a primeira opção neste sítio, ao contrário do que vale para o reto e para o cólon — e é a razão de o erro histórico deste capítulo ter sido amputar antes de tentar.

Como se apresenta de verdade
Nenhum dos sintomas deste tumor é específico. Todos eles pertencem, primeiro, a doenças benignas mais comuns, e é por isso que a apresentação clássica do câncer de canal anal no Brasil é a de um paciente com rótulo antigo de hemorroida. As seções abaixo não ensinam a reconhecer um quadro raro: ensinam a reconhecer, dentro de um quadro banal, as cinco perguntas cuja resposta obriga a olhar.
A régua de leitura é sempre a mesma. Doença orificial benigna tem comportamento previsível, responde a tratamento e não deixa lesão que persista. Quando o comportamento foge do previsto, quando o tratamento não resolve de vez, ou quando existe uma lesão que continua ali depois de semanas, o rótulo caiu — e o que substitui o rótulo é o exame, não uma segunda prescrição.
O sangue que já foi explicado
O sangramento do canal anal é vermelho vivo, aparece com a evacuação, mancha o papel ou pinga no vaso e não está misturado às fezes. Essa é a descrição, palavra por palavra, do sangramento hemorroidário — e é exatamente esse o problema. A cor e o momento não separam as duas doenças, porque a fonte anatômica é a mesma: uma superfície que sangra na saída do tubo.
O que separa não está na descrição do sangue, está em três coisas em volta dele. A primeira é a duração sem resolução: sangramento que dura meses, apesar de tratamento, é sangramento que ninguém explicou. A segunda é a companhia: dor contínua, caroço que cresce, secreção, prurido persistente, mudança do calibre das fezes ou incontinência nova mudam o conjunto. A terceira é o exame — e essa é a única que fecha.
Há uma frase de documento brasileiro que o interno deveria carregar escrita, porque é ela que autoriza sair do protocolo da hemorroida: sangramento intestinal não decorrente de doença orificial obriga a mudar de protocolo. Repare no que ela exige para poder ser aplicada. Alguém precisa ter examinado a região orificial para poder afirmar que o sangramento não decorre dela. Sem exame, a frase não é aplicável, e o paciente fica preso no protocolo errado por definição.
A pergunta que fecha a anamnese do sangue não é sobre o sangue. É esta: alguma vez alguém olhou? Se a resposta for não, ou se o prontuário não registrar inspeção nem toque, então nenhuma das consultas anteriores excluiu nada, por mais numerosas que tenham sido. Três consultas sem exame não valem mais do que zero consultas — valem menos, porque produzem a falsa segurança de um diagnóstico já feito.
O sangramento hemorroidário, sua classificação por graus, o tratamento clínico otimizado e o relógio do encaminhamento por doença orificial pertencem ao capítulo O exame que ninguém quer fazer, o segundo desta apostila, que é o dono da doença anorretal benigna e da técnica do exame anorretal. Este capítulo assume o outro lado da mesma fronteira: o que fazer quando o rótulo benigno não se sustenta.
A dor que muda de dono
A hemorroida interna não dói, porque a inervação acima da linha pectínea é visceral. Essa é a regra que o capítulo vizinho ensina, e ela é a porta de entrada deste. Quando um paciente rotulado como hemorroida chega com dor, a dor pertence a outra lista, e o vizinho nomeia essa lista: trombose hemorroidária externa, fissura associada, abscesso perianal. O que este capítulo acrescenta é o quarto item, que a lista do vizinho não precisa carregar e a sua precisa: neoplasia do canal anal.
A dor de cada um desses tem uma assinatura de tempo, e é o tempo que separa. A trombose dói de repente, é máxima nos primeiros dias e depois cede sozinha. A fissura dói com hora marcada — durante e depois de evacuar, por minutos a horas, e passa entre as evacuações. O abscesso dói de forma contínua, piora dia a dia e traz febre. A dor do tumor é contínua, não tem relação fixa com a evacuação, cresce em semanas a meses em vez de dias, e vem acompanhada de uma lesão que se vê ou se toca.
Existe uma quinta possibilidade que confunde tudo e é preciso nomeá-la: o tumor pode ulcerar de um jeito que dói exatamente como fissura, com dor à evacuação. A diferença que resolve é topográfica e visual, não temporal. A fissura anal típica está na linha média posterior, é uma solução de continuidade linear e rasa e cicatriza. Úlcera fora da linha média, úlcera de bordos elevados ou endurecidos, úlcera que não fecha depois de semanas de tratamento adequado — nada disso é fissura típica, e o que se faz com isso é biopsiar.
Um sintoma merece parágrafo próprio porque quase nunca é perguntado: o tenesmo, a sensação de evacuação incompleta com urgência que não se resolve. Ele aparece na lista de sinais de alarme dos protocolos e é descrito com frequência como desconforto, peso ou vontade que não passa. O paciente raramente o oferece espontaneamente, porque não o considera sintoma. Ele precisa ser perguntado com palavras que ele use.
Por fim, a incontinência fecal nova, ou o escape de gases que antes não havia, em quem tem lesão anal, é achado tardio e grave — significa comprometimento do aparelho esfincteriano. Não é motivo para adiar nada; é motivo para acelerar. E é também o sintoma que mais envergonha e menos se relata, o que faz dele uma pergunta obrigatória e nunca espontânea.
O caroço que o paciente batiza
Praticamente todo paciente que encontra algo palpável no próprio ânus chama aquilo de hemorroida. É o vocabulário disponível, e ele é anterior a qualquer consulta. Quando o paciente diz que tem uma hemorroida, ele está descrevendo um achado tátil, não fazendo um diagnóstico — e o erro do médico é aceitar a palavra dele como se fosse laudo.
O que se palpa no ânus pode ser mamilo hemorroidário prolapsado, plicoma, papila anal hipertrófica, pólipo retal prolapsado, condiloma, abscesso, ou tumor. A separação começa na inspeção e termina na consistência. Mamilo hemorroidário é macio, reduz ou muda com o esforço, tem cor de mucosa. Condiloma é papilomatoso, de superfície fosca, seco, cor de pele, e costuma ser múltiplo. Tumor é endurecido, tem base infiltrada, muitas vezes ulcerado no centro, sangra ao toque e não muda com o esforço.
Três adjetivos, aplicados a qualquer lesão anal, obrigam a biópsia independentemente do que se ache que ela seja: endurecida, fixa aos planos profundos, ulcerada. O protocolo nacional de infecções sexualmente transmissíveis acrescenta um quarto critério de decisão que não é morfológico e sim comportamental: lesão que não responde adequadamente ao tratamento. Somando os quatro, sai a regra prática deste capítulo — uma lesão anal que endurece, fixa, ulcera ou não fecha é lesão de biópsia, e a probabilidade de ela ser benigna não cancela a indicação.
Vale também nomear o que engana no sentido inverso. O condiloma gigante, com meses de crescimento, pode ganhar volume e ulcerar por maceração, e o observador desavisado o descarta como verruga grande. O documento nacional é explícito ao pedir biópsia diante de lesões atípicas, de dúvida diagnóstica, ou de qualquer lesão em pessoa com imunodeficiência, situação em que a biópsia deve ser considerada com mais frequência e mais precocemente.
O tratamento do condiloma acuminado — arsenal tópico, escolha por número e tamanho, restrições na gestação, o que nunca se aplica dentro do canal anal — é do capítulo Duas coisas com o mesmo nome, na apostila de Ginecologia, que é o dono do HPV e da verruga anogenital, inclusive perianal. Este capítulo cede aquilo e fica com a decisão anterior: a de biopsiar antes de tratar quando a lesão não é verruga típica.
A virilha, que quase ninguém apalpa
Numa queixa anal, a mão que examina precisa passar por dois lugares além do ânus: as duas virilhas. A razão é a drenagem linfática — o canal anal distal e a margem anal drenam para os linfonodos inguinais superficiais, e o comprometimento deles é o primeiro território de disseminação regional deste tumor. Um linfonodo inguinal aumentado, endurecido, em quem tem lesão anal, é achado de encaminhamento, não de observação.
Esse gesto tem duas consequências que valem separar. A primeira é diagnóstica: a virilha pode ser o primeiro achado objetivo em quem tem uma lesão anal pequena e mal vista, e um gânglio duro numa virilha muda a pressa. A segunda é semiológica e serve para não errar em excesso: gânglios inguinais pequenos, móveis, elásticos e bilaterais são comuns em adultos saudáveis e não significam nada isoladamente. O que pesa é o gânglio endurecido, aumentado, unilateral, e sobretudo o gânglio que apareceu junto com uma queixa anal.
A virilha também obriga a lembrar de outras causas, e essa lembrança é parte do raciocínio, não desvio dele. Adenopatia inguinal com úlcera anogenital pede pensar em sífilis primária, cancroide e linfogranuloma venéreo, todos com endereço no capítulo A úlcera que o exame não nomeia, da apostila de Ginecologia, e todos contemplados no protocolo nacional de infecções sexualmente transmissíveis. A diferença é que essas causas produzem gânglio que dói, amolece e às vezes fistuliza, enquanto o gânglio neoplásico costuma ser duro e indolor. A diferença ajuda e não decide; a lesão anal continua sendo o que se biopsia.
Uma advertência de método fecha a seção. Achar gânglio inguinal em quem tem lesão anal não é motivo para pedir biópsia do gânglio antes de biopsiar a lesão. A lesão primária, visível e acessível, é o alvo. Puncionar ou ressecar um gânglio para descobrir uma origem que está a poucos centímetros dali, visível ao afastar as nádegas, é inverter a ordem, atrasar o resultado e produzir um laudo que não substitui o outro.
A úlcera que não fecha, e a fístula que não fecha
A doença orificial benigna cicatriza. Fissura tratada fecha; abscesso drenado esvazia; ferida operatória sara. Quando alguma dessas coisas não acontece no prazo esperado, o rótulo precisa ser reaberto, e o documento brasileiro de doença anorretal já manda esse reexame incluir explicitamente o carcinoma da margem anal entre as hipóteses, ao lado de doença de Crohn, retocolite ulcerativa, tuberculose, infecção pelo HIV e infecções sexualmente transmissíveis, com investigação por exame endoscópico, biópsia da lesão e sorologias.
A fissura crônica é o caso mais frequente dessa reabertura, e tem dois sinais que devem disparar a suspeita. O primeiro é a localização: fissura em posição lateral, fora da linha média anterior ou posterior, é fissura atípica e não deve ser tratada como fissura comum. O segundo é o tempo: fissura que persiste depois de tratamento clínico adequado e bem cumprido deixou de ser diagnóstico presumido.
A fístula anal de repetição, ou o orifício que continua drenando secreção meses depois de tratado, é o outro território de sobreposição. A maior parte dessas fístulas é benigna e criptoglandular, e o diagnóstico e a conduta delas são do capítulo O exame que ninguém quer fazer. A doença perianal da doença de Crohn, que também produz fístula complexa e úlcera anal de aspecto arrastado, é do capítulo A diarreia que não é infecciosa, na apostila de Gastroenterologia, dono da doença inflamatória intestinal. O que fica aqui é uma obrigação estreita e importante: fístula ou úlcera anal que não fecha, sem explicação, é território de biópsia — e a biópsia se faz da borda da lesão, não do fundo necrótico.
Vale nomear a armadilha temporal desse grupo. Muitos desses pacientes já foram operados uma ou mais vezes por doença benigna, e a existência da cirurgia anterior funciona como explicação para tudo o que vem depois. Ferida operatória anal que não fecha em semanas, ou cicatriz que endurece e cresce, não é evolução esperada de nada. É lesão que se olha de novo e, sendo o caso, se biopsia.
A leitura mais desconfortável da seção é a que envolve doença crônica de longa data. Fístulas perianais de muitos anos, sobretudo as complexas e recidivantes, podem abrigar tumor no trajeto, e o interno não vai resolver isso sozinho nem precisa. O que ele precisa é da conduta certa: qualquer tecido anormal retirado ou drenado numa doença anal crônica deve ir para o patologista, e não para o lixo — a decisão de mandar material para exame custa nada e é a única barreira contra o diagnóstico que não é feito porque ninguém pediu.
Quem chega tarde, e o que já mudou nele
O paciente que chega depois de muitos meses tem um quadro diferente e reconhecível. A dor deixou de ser episódica e passou a ser contínua e a interferir no sono e no trabalho. O sangramento pode ter diminuído, e a diminuição é enganosa. Apareceu secreção mucopurulenta ou mau cheiro. O calibre das fezes mudou, o esforço aumentou, e às vezes há escape de gases ou de fezes. A perda de peso, quando existe, costuma vir sem que o paciente a tenha medido.
É comum que ele já tenha ajustado a vida à doença, e essa adaptação esconde a gravidade. Passou a evitar comer antes de sair de casa, a usar absorvente, a recusar viagens, a dormir de lado. Perguntar diretamente por essas adaptações é mais produtivo do que perguntar por sintomas, porque o paciente as considera manejo, não doença.
Nesse estágio a chance de haver comprometimento inguinal e de haver invasão do aparelho esfincteriano é maior, e as duas coisas se avaliam com a mão. A pergunta que decide a pressa continua sendo a mesma da consulta precoce — existe lesão? — mas a resposta agora vem acompanhada de outra: quanto do esfíncter ainda funciona e quanto da circunferência do canal a lesão ocupa.
O ponto pedagógico da seção é contraintuitivo e precisa ser dito com clareza: mesmo tarde, este é o tumor em que vale a pena correr. A doença é quimiorradiossensível, a metástase à distância é relativamente incomum ao diagnóstico, e o objetivo do tratamento continua sendo curativo em boa parte dos casos localmente avançados. Um paciente com nove meses de atraso não é um paciente perdido, e tratá-lo como tal é o segundo erro que a demora produz.
Como fechar o diagnóstico
A investigação deste tumor é barata e curta, e é exatamente por isso que ela não acontece. Não há exame de sangue que ajude, não há marcador que sirva, e nenhuma imagem substitui o gesto de olhar. O que decide é uma sequência de três atos que cabem em quinze minutos de consulta comum: inspeção, toque e, quando disponível, anuscopia — seguidos, se houver lesão, de uma biópsia.
As seções abaixo dizem o que fazer, o que escrever e, com o mesmo cuidado, o que não fazer. Três das condutas mais danosas deste capítulo são condutas ativas: ressecar a lesão inteira antes do diagnóstico, pedir tipagem viral, e esperar o resultado de um exame de cólon para só então encaminhar.
O exame que decide, e o que ele exige
A montagem do exame proctológico — a sala fechada, a luz que se dirige, o lençol, a luva, o gel, o acompanhante oferecido, a posição em decúbito lateral esquerdo, o aviso antes de cada gesto — é do capítulo O exame que ninguém quer fazer, o segundo desta apostila, que é o dono da técnica do exame anorretal. A conduta profissional diante do exame constrangedor, e o que se faz quando o paciente recusa, são do capítulo Ninguém chega cedo, o terceiro desta apostila. Este capítulo não repete nenhuma das duas coisas: assume que elas foram feitas e cuida do que se procura.
A inspeção é o ato mais produtivo, e ela precisa ser da circunferência inteira. Afaste as nádegas, exponha a margem anal em todo o seu perímetro e peça um esforço evacuatório leve, que exterioriza o que estava escondido. Procure, nessa ordem: solução de continuidade, lesão vegetante, lesão ulcerada, endurecimento, assimetria da margem, secreção e alteração de cor. A pigmentação de uma lesão merece registro próprio, porque o melanoma anorretal, embora raro, existe e é o segundo diagnóstico da lista de neoplasias do canal anal em documento brasileiro.
O toque retal vem depois da inspeção, e não antes. Ele responde três perguntas que a inspeção não responde: existe massa acima do que se vê, qual é o tônus do esfíncter, e há sangue ou muco na luva ao retirar. Diante de lesão visível muito dolorosa, o toque pode ser adiado — mas então se registra por escrito que foi adiado e por quê, e se marca o retorno. Toque adiado com registro é conduta; toque não feito sem registro é o que produz o prontuário deste capítulo.
A anuscopia é o terceiro ato e é o que permite ver o canal anal acima da margem. Nem toda unidade tem anuscópio, e o protocolo nacional reconhece isso ao dizer que pacientes com lesões anais devem realizar exame proctológico com anuscopia e toque retal, usando a palavra idealmente. Essa palavra tem um limite: ela desculpa a falta do anuscópio, não desculpa a falta da inspeção, que não exige equipamento nenhum. Onde não há anuscópio, o que muda é o destino do encaminhamento, não a decisão de encaminhar.
Um detalhe operacional que evita erro: sangramento ativo abundante e dor intensa atrapalham a inspeção, e há a tentação de examinar mal e concluir. É melhor tratar a dor, marcar o retorno em poucos dias com data escrita, e examinar direito, do que registrar um exame ruim como se fosse um exame normal. Registro de exame normal fecha portas para o próximo médico que ler o prontuário.
As cinco coisas que vão escritas
Achar a lesão resolve metade do problema; descrevê-la resolve a outra metade, porque é a descrição que o regulador lê e é ela que define prioridade. Cinco elementos precisam estar no papel, e nenhum deles exige equipamento.
O primeiro é o tamanho, em centímetros, do maior diâmetro. Estimativa declarada como estimativa é aceitável e é muito melhor do que adjetivo — grande e pequeno não significam nada no papel de outro serviço.
O segundo é a distância da borda anal, também em centímetros, medida da margem até a extremidade inferior da lesão. É esse número que diz se a lesão é da margem anal, do canal anal ou do reto distal, e são três territórios com condutas diferentes. A margem anal se examina a olho nu; o canal anal exige anuscópio; e o reto distal já convoca o raciocínio do capítulo Câncer colorretal, o primeiro desta apostila.
O terceiro é a extensão circunferencial, e aqui vale uma convenção que evita mal-entendido. Descreve-se por horas de relógio, e o relógio só significa alguma coisa se a posição do paciente estiver escrita junto: a mesma lesão que está às seis horas em posição de litotomia está em outra hora em decúbito lateral. Escreva a posição, sempre. Se preferir converter, a conta é direta e está na tabela de conversão do bloco de critérios.
O quarto é a mobilidade. Lesão que desliza sobre os planos profundos e lesão fixa dizem coisas diferentes sobre extensão local, e essa é uma informação que só quem examinou possui. O quinto é o estado das duas virilhas, com o número, o lado, o tamanho aproximado e a consistência dos gânglios encontrados — e a palavra ausente escrita quando não há, porque o silêncio no prontuário não distingue não examinado de normal.
Um sexto item não é da lesão e mesmo assim decide: o tônus esfincteriano e a continência relatada. Eles entram porque o objetivo do tratamento neste tumor é preservar o esfíncter, e a linha de base da função anterior ao tratamento é uma informação que só existe se alguém a registrou antes.
A biópsia: quem faz, de onde e por que não ressecar
Toda decisão deste capítulo converge para um laudo de patologia. A biópsia é o exame que diagnostica, e nenhum outro faz o serviço dela — nem imagem, nem sangue, nem a aparência da lesão, por mais característica que pareça.
Quem faz depende do que existe. Lesão da margem anal, visível, acessível, pode ser biopsiada com pinça saca-bocado sob anestesia local por profissional treinado, e em muitos serviços de atenção secundária isso é rotina. Lesão dentro do canal anal, dolorosa ou de acesso difícil, é biópsia do serviço especializado, e nesse caso o papel do interno é encaminhar rápido e escrever o que viu, não improvisar o procedimento.
De onde se biopsia importa tanto quanto quem biopsia. O material deve vir da borda da lesão, incluindo a transição com o tecido de aparência preservada, e não do centro de uma úlcera, que costuma trazer apenas necrose e inflamação. Biópsia superficial demais e biópsia do fundo necrótico produzem o mesmo desfecho: laudo inconclusivo, repetição do exame e mais semanas perdidas. Quando o laudo volta inespecífico e a lesão continua suspeita, o certo é repetir a biópsia, não abandonar a hipótese.
E vem a regra que dá título a esta seção: não se ressecar a lesão inteira antes do diagnóstico. A razão é dupla, e as duas metades são práticas. A primeira é oncológica: neste tumor a primeira opção terapêutica não é cirúrgica, e uma exérese feita às cegas remove a lesão que serviria de alvo para o tratamento e distorce o campo — sem contar as margens comprometidas de uma cirurgia planejada para outra doença. A segunda é anatômica e é a que o paciente sente: excisões amplas na margem anal e no canal anal produzem lesão esfincteriana e estenose, e o preço é medido em continência, num tumor cujo tratamento correto justamente preserva o esfíncter.
A tentação de ressecar é real e tem nome. Um plicoma volumoso, um mamilo prolapsado, uma verruga grande — todos parecem ter indicação de retirada, e a retirada resolve o incômodo. Diante de lesão anal com qualquer um dos quatro sinais de alarme deste capítulo — endurecida, fixa, ulcerada, ou que não respondeu ao tratamento —, a ordem se inverte: biopsia-se primeiro e decide-se depois. Uma biópsia mal indicada custa uma pinçada; uma ressecção mal indicada custa um esfíncter.
Há um último ato, quase burocrático e completamente decisivo: anotar a data do pedido e a data de assinatura do laudo. É a partir do dia em que o diagnóstico é firmado em laudo patológico que corre o prazo legal para o início do primeiro tratamento, e o capítulo Câncer colorretal, o primeiro desta apostila, traz a mecânica dessa contagem e a divergência de leitura que existe sobre ela. Sem data anotada não existe prazo cobrável.
A pergunta que se faz mal — história sexual e sorologia
A anamnese sexual entra neste capítulo por duas razões concretas e nenhuma razão moral. A primeira é que ela identifica quem tem risco aumentado e quem deve ter o exame da região incorporado à rotina. A segunda é que ela abre a porta para oferecer testagem, vacinação e prevenção — que são condutas, não julgamentos.
O protocolo nacional de infecções sexualmente transmissíveis traz um roteiro de perguntas pronto, e o mérito dele é que as perguntas já vêm sem pressuposto embutido. As práticas se perguntam assim: nos últimos três meses, que tipos de sexo você teve — anal, vaginal, oral; receptivo, insertivo ou ambos? A orientação sexual, quando pertinente, se pergunta assim: como você descreveria sua orientação sexual? E a definição do que se está chamando de sexo vem junto da própria pergunta: você já teve relações sexuais com alguém — por sexo, quero dizer sexo vaginal, oral ou anal.
Três regras de execução transformam esse roteiro em conversa possível. A primeira é anunciar o motivo antes de perguntar, com uma frase que vale para todos os pacientes: faço estas perguntas a todo mundo que atendo com queixa nesta região, porque elas mudam os exames que eu vou pedir. A segunda é não deduzir prática a partir de achado: encontrar lesão perianal não autoriza concluir nada sobre a vida sexual de ninguém, e o próprio documento nacional registra que as lesões perianais, embora mais frequentes em quem tem prática anal receptiva, não são exclusivas desse grupo. A terceira é aceitar a recusa sem retaliação: quem não quiser responder continua tendo direito ao mesmo exame e ao mesmo encaminhamento, e a recusa se registra sem comentário.
Da história sexual saem condutas objetivas. Diante de lesão anogenital, o protocolo de regulação pede o resultado de anti-HIV ou teste rápido para HIV com data escrita no encaminhamento — a sorologia não é curiosidade, é dado que muda limiar de biópsia e prioridade. O protocolo nacional recomenda ainda oferecer, no momento do diagnóstico de condiloma, testagem para sífilis e para HIV, repetindo em quatro a seis semanas, e testagem para hepatites B e C, além da pesquisa de clamídia e gonococo conforme disponibilidade, com preferência para os testes rápidos.
Uma travessia de fronteira precisa ser dita aqui pelo nome, porque ela não é negociável. Se a história sugerir sexo sem consentimento, coerção, ou se a pessoa relatar violência sexual, a consulta muda de assunto e de protocolo. O acolhimento, as profilaxias, a coleta de vestígios e a notificação são dos capítulos Quatro relógios, e nenhum marca a mesma hora, na apostila de Ginecologia, e do capítulo de notificação de violência da apostila de Medicina Legal. Este capítulo cede aquilo inteiro e não improvisa nenhuma parte.
Fecha a seção a lembrança de que o HIV é do capítulo dele. O manejo da infecção pelo HIV, a interpretação da contagem de linfócitos, a terapia antirretroviral e o cuidado do imunossuprimido pertencem ao capítulo de HIV, na apostila de Infectologia. O que fica aqui é estreito e prático: a imunossupressão baixa o limiar de biópsia e obriga a examinar a região com regularidade, e o resultado da sorologia vai escrito no encaminhamento com a data.
O que não pedir, e o que não esperar
A investigação erra por excesso com a mesma frequência com que erra por falta, e o excesso aqui tem um efeito colateral específico: ele consome as semanas que decidem. Três pedidos precisam ser desfeitos.
O primeiro é a tipagem viral. O protocolo nacional é explícito: não são recomendados testes que identificam os diferentes tipos de papilomavírus na rotina clínica nem no rastreamento de pessoas assintomáticas com a finalidade de diagnosticar a infecção. Saber qual tipo viral está presente não muda a conduta diante de uma lesão anal, e o tempo gasto na coleta e no resultado é tempo tirado da biópsia.
O segundo é o marcador tumoral. Nenhum exame de sangue diagnostica, exclui ou estadia este tumor, e um resultado normal é o pior desfecho possível de um pedido inútil, porque tranquiliza sem base. O terceiro é a espera pela imagem. Tomografia e ressonância têm papel no estadiamento depois do diagnóstico, e o papel delas é definir extensão para planejar o tratamento — nenhuma delas diagnostica, e nenhuma delas deve ser esperada antes de encaminhar.
Há um quarto pedido que é útil e vira erro quando ocupa o lugar errado na fila: a colonoscopia. Sangramento anal em adulto convoca, com frequência, a pergunta do cólon, e essa pergunta é legítima e é do capítulo Câncer colorretal, o primeiro desta apostila, que é o dono do rastreamento colorretal, da indicação de colonoscopia e do estadiamento colorretal. O erro não é pedir a colonoscopia: é fazer o encaminhamento por lesão anal depender do resultado dela. As duas investigações correm em paralelo, e a lesão que se vê a olho nu não espera exame de outro órgão.
Finalmente, e no sentido inverso, existe um pedido que quase nunca é feito e deveria ser: mandar para o patologista todo tecido anormal retirado por qualquer motivo da região anal. Verruga excisada, plicoma ressecado, tecido de granulação curetado num trajeto fistuloso, hemorroidectomia por doença de aspecto trivial — tudo isso deve ir para exame anatomopatológico. É o exame mais barato desta lista, e é o único que já encontrou este tumor por acidente.
Rastreamento: o que a régua nacional diz, e o que ela não diz
A pergunta chega mais cedo ou mais tarde, e merece resposta direta: o Brasil não tem programa organizado de rastreamento de câncer de canal anal, para nenhum grupo. Não há documento nacional que fixe população-alvo, método e periodicidade, como existe para o colo do útero e para a mama. A doutrina de rastreamento — o que caracteriza um programa, quando rastrear e o que rastrear —, é do capítulo de níveis de prevenção e rastreamento, na apostila de Preventiva, e este capítulo a cita em vez de refazê-la.
O que existe em documento nacional é menos do que um programa e mais do que nada, e a diferença entre as duas coisas é o que o interno precisa saber. Sobre a citologia do canal anal, o protocolo nacional de infecções sexualmente transmissíveis registra o debate em vez de resolvê-lo: o estudo citológico de material colhido do canal anal ainda é objeto de debate, mas pode ter importância em populações especiais, como homens que fazem sexo com homens e pessoas com prática sexual anal receptiva, em razão do aumento da incidência de câncer anorretal. Isso não é uma recomendação de rastrear, e também não é uma proibição.
O que o mesmo protocolo recomenda com verbo afirmativo é outra coisa, mais simples e ao alcance de qualquer unidade: em pessoas com prática sexual anal, sobretudo entre as que vivem com HIV, o exame periódico da região deve ser idealmente incluído nas rotinas de atendimento, e a pessoa deve ser informada o suficiente para reconhecer queixa proctológica quando ela surgir. Isso não é rastreamento populacional; é vigilância clínica em quem já está em acompanhamento, feita com os olhos e com a mão.
A prevenção primária, essa sim, existe e é nacional: a vacina contra o papilomavírus humano. O que ela previne, em que esquema e para quem vai adiante, no bloco de critérios, com a conta de uma divergência entre dois documentos federais. A doutrina de vacinação, calendário e estratégias de cobertura é do capítulo de vacinação da apostila de Preventiva; o que fica aqui é a leitura oncológica: a vacina previne a infecção pelos tipos que causam este tumor, e nenhuma vacina trata lesão já instalada.
Duas consequências práticas fecham a seção. A primeira: na ausência de programa organizado, quem faz a detecção precoce no Brasil é a consulta comum, o que transfere a responsabilidade inteira para o exame de quem tem queixa — e é por isso que este capítulo insiste tanto em três atos que custam quinze minutos. A segunda: não invente um programa próprio. Prometer a um paciente um rastreamento anual que o serviço não tem estrutura para sustentar produz abandono e não produz diagnóstico. O que se promete é o que se cumpre — exame da região a cada consulta de acompanhamento, e retorno aberto para queixa nova.
O que decide: a lesão, a descrição e a porta por onde o tratamento chega
O objetivo do internato é reconhecer uma lesão suspeita e fazer a investigação chegar a um resultado. Sintomas e lesões persistentes exigem avaliação diagnóstica; rastreamento de grupos selecionados é outra tarefa. A histologia e a localização distinguem doenças com tratamento diferente. Não inferir diagnóstico de câncer ou comportamento sexual pela aparência isolada.
- 1Queixa anal: sangue, dor, caroço, secreção, prurido, mudança de calibre das fezes ou incontinência nova. Antes de qualquer prescrição, pergunte há quanto tempo e quantas consultas já houve pela mesma queixa.
- 2Se a queixa já tem rótulo antigo e nenhum exame físico registrado, o rótulo não vale. Trate o prontuário como se estivesse em branco e vá para o passo 3.
- 3Examine hoje: inspeção da circunferência inteira com esforço evacuatório leve, toque retal, palpação das duas virilhas, e anuscopia se houver aparelho. A montagem do exame é do capítulo O exame que ninguém quer fazer.
- 4Sem lesão e sem sinal de alarme: trate a doença benigna que couber, marque retorno com data e diga por escrito que a persistência do sintoma obriga a nova avaliação — não a nova pomada.
- 5Com lesão anal endurecida, fixa, ulcerada, pigmentada, ou que não fechou apesar de tratamento adequado: a conduta é biópsia da borda da lesão. Não ressecar a lesão inteira antes do laudo.
- 6Gânglio inguinal endurecido ou aumentado junto com lesão anal: registre lado, número, tamanho e consistência, e aumente a prioridade do encaminhamento. Não biopsie o gânglio antes da lesão.
- 7Encaminhe já com a suspeita escrita, sem esperar imagem, sorologia ou colonoscopia. Suspeita de neoplasia do canal anal, no protocolo de regulação, já dá preferência no encaminhamento e o destino é serviço de oncologia, cirurgia ou coloproctologia.
- 8Ofereça, na mesma consulta, testagem para HIV, sífilis e hepatites B e C, e escreva o resultado do anti-HIV com a data no encaminhamento, como o protocolo pede. Confira a situação vacinal para papilomavírus humano.
- 9Com laudo confirmando neoplasia: anote a data de assinatura do laudo, conte o prazo legal a partir dela e encaminhe formalmente ao serviço habilitado em oncologia, anexando descrição da lesão, laudo e sorologias.
O tratamento não está na Rename — e isso não é falta, é outra porta
O tratamento antineoplásico segue o financiamento dos serviços habilitados em oncologia. Sua ausência na Rename não demonstra indisponibilidade no SUS. Para o interno, a tarefa é encaminhar formalmente ao serviço habilitado, anexar o laudo e registrar a data. Os medicamentos da unidade tratam outras lesões anorretais, conforme o diagnóstico: imiquimode creme 50 mg/g e podofilotoxina creme 1,5 mg/g para verruga anogenital, além de aciclovir, metronidazol e benzilpenicilina benzatina nas respectivas indicações. Esse tratamento não substitui o encaminhamento do tumor.
A lesão que espera e a lesão que não espera
| Achado | O que a inspeção mostra | Como se comporta no tempo | O que decide | Onde está a conduta |
|---|---|---|---|---|
| Hemorroida interna | Nada, ou mamilo de cor de mucosa que se exterioriza ao esforço e reduz | Sangra em episódios, melhora com tratamento clínico e volta; não dói | História do prolapso mais inspeção sob esforço; anuscopia confirma | O exame que ninguém quer fazer, o segundo desta apostila |
| Fissura anal típica | Solução de continuidade linear e rasa, na linha média posterior | Dói com hora marcada — durante e depois de evacuar; cicatriza com tratamento | Inspeção com esforço leve; toque adiado se dói demais | O exame que ninguém quer fazer, o segundo desta apostila |
| Fissura atípica ou úlcera que não fecha | Solução de continuidade fora da linha média, de bordos elevados ou endurecidos | Persiste ou piora apesar de tratamento clínico adequado e bem cumprido | Biópsia da borda da lesão, com investigação de doença inflamatória e infecção | Este capítulo, com Crohn perianal em A diarreia que não é infecciosa |
| Condiloma acuminado | Lesões papilomatosas, secas, foscas, cor de pele, em geral múltiplas | Cresce devagar, recidiva, pode regredir sozinho; não endurece nem fixa | Diagnóstico clínico; biópsia só se atípico, refratário ou em imunodeprimido | Duas coisas com o mesmo nome, na apostila de Ginecologia |
| Abscesso perianal | Tumoração quente, endurecida, muito dolorosa, com ou sem flutuação | Dói de forma contínua e piora dia a dia; costuma dar febre | Diagnóstico clínico e drenagem com urgência, sem esperar flutuação | O exame que ninguém quer fazer, o segundo desta apostila |
| Carcinoma de células escamosas do canal anal | Lesão endurecida, com frequência ulcerada, base infiltrada, sangra ao toque | Sangra por meses, alivia com tópico e recidiva; a dor vira contínua | Biópsia da borda; gânglio inguinal muda a prioridade do encaminhamento | Este capítulo |
| Melanoma anorretal | Lesão pigmentada, às vezes amelanótica, endurecida, de crescimento rápido | Cresce em semanas; pode sangrar e prolapsar como se fosse hemorroida | Biópsia; a pigmentação de qualquer lesão anal vai escrita no prontuário | Este capítulo, para a suspeita e o encaminhamento |
| Adenocarcinoma de reto distal | Pode não ser visível; massa endurecida ao toque acima da margem anal | Sangue misturado às fezes, mudança de hábito intestinal, tenesmo | Distância da borda anal medida em centímetros; colonoscopia com biópsia | Câncer colorretal, o primeiro desta apostila |
O que vai escrito no encaminhamento — e por que cada item muda decisão
| O que se escreve | Como se mede ou se descreve | O que aquele dado decide |
|---|---|---|
| Maior diâmetro da lesão | Em centímetros; estimativa declarada como estimativa é aceitável | Prioridade da regulação e planejamento do tratamento no serviço habilitado |
| Distância da borda anal | Em centímetros, da margem até a extremidade inferior da lesão | Separa margem anal, canal anal e reto distal — três condutas diferentes |
| Extensão circunferencial | Em horas de relógio, com a posição do paciente escrita ao lado | Extensão local e risco de estenose; sem a posição, a hora não significa nada |
| Mobilidade sobre os planos profundos | Móvel ou fixa, dito com essas palavras | Sugere extensão local; só quem examinou possui esse dado |
| Linfonodos inguinais | Lado, número, maior diâmetro e consistência; escrever ausentes quando não há | Território regional de disseminação; muda a pressa do encaminhamento |
| Tônus esfincteriano e continência atual | Ao toque, e pela pergunta direta sobre escape de gases e de fezes | Linha de base da função, que só existe se alguém a registrar antes do tratamento |
| Resultado do anti-HIV com data | Sorologia ou teste rápido; o protocolo de regulação pede a data escrita | Limiar de biópsia, prioridade e acompanhamento; é exigência do protocolo |
| Duração da queixa e número de consultas anteriores | Em meses, e o número de atendimentos pela mesma queixa | É o dado que denuncia o atraso e que sustenta a cobrança de prioridade |
Conversão do que se escreve na porta — nenhuma delas é conta de dose
| O que se descreve | Referência | Conta | O que vai no papel |
|---|---|---|---|
| Extensão em horas de relógio | A circunferência anal tem 12 horas, e cada hora vale 360 dividido por 12 | 1 hora = 30 graus = 8,33% da circunferência | Escreva as horas e a posição do paciente, e não só a hora |
| Lesão de 4 às 8 horas | São 4 horas de extensão, contadas de 4 a 8 | 4 × 30 = 120 graus; 4 ÷ 12 = 33,3% da circunferência | Lesão ocupando cerca de um terço da circunferência |
| Lesão de 3 às 9 horas | São 6 horas de extensão | 6 × 30 = 180 graus; 6 ÷ 12 = 50,0% da circunferência | Lesão ocupando cerca de metade da circunferência |
| Territórios pela distância da borda anal | A margem anal é o que se vê afastando as nádegas; o canal anal exige anuscópio | Margem: sobre a borda ou externa a ela; canal: dentro, alcançável ao anuscópio; reto distal: acima do canal | Escreva o número em centímetros, não o nome do território |
| Prazo dos exames de elucidação | Contado da solicitação fundamentada, com hipótese principal de neoplasia maligna escrita | Laudo pedido em 17 de setembro de 2026: 30 dias corridos vencem em 17 de outubro de 2026 | Anote no prontuário a data do pedido e a data-limite |
| Prazo do primeiro tratamento | Contado do dia em que o diagnóstico é firmado em laudo patológico | Laudo assinado em 17 de setembro de 2026: 60 dias corridos vencem em 16 de novembro de 2026 | Anote a data de assinatura do laudo e a data-limite; entregue uma via ao paciente |
| Redução de doses da vacina no calendário | Esquema anterior de duas doses contra o esquema atual de dose única, de 9 a 14 anos | 2 − 1 = 1 dose a menos por adolescente, redução de 50% do esquema | Confira quantas doses a pessoa já recebeu antes de indicar a próxima |
Comparar estimativas. O agrupamento de cólon e reto mudou entre as edições citadas, com exclusão do código C21 na estimativa de 2026. Antes de comparar totais, confira quais localizações foram incluídas. Aplicar uma proporção de câncer anal a esses totais não produz uma estimativa nacional específica de câncer de ânus.
Ordem de grandeza. Frequência relativa em relação ao câncer colorretal e incidência própria do câncer anal são medidas distintas. Use os números no contexto em que foram apresentados, sem convertê-los em probabilidade individual de uma lesão.
Calendário vacinal. A tabela de um protocolo de IST e o calendário de imunização podem ter datas diferentes. Ao orientar vacinação, confira histórico, idade e condição da pessoa e siga o calendário aplicável ao grupo. Uma dose recebida sob esquema anterior precisa ser considerada nessa leitura.
Lesão persistente. Massa ou úlcera anal persistente é o achado que precisa ser descrito no encaminhamento. Uma lista genérica de sinais colorretais não substitui a inspeção da região nem elimina a suspeita por haver doença orificial concomitante.
Topografia no pedido. Escreva margem anal, canal anal, região perianal ou genital conforme o achado. Essa informação ajuda a organizar o acesso quando protocolos de especialidades distintas incluem lesões próximas ou sobrepostas.
Medicamentos e diagnóstico. Fármacos para condiloma, herpes, infecção bacteriana ou Crohn perianal não tratam todas as lesões que podem se parecer com essas doenças. A disponibilidade da pomada não confirma a hipótese. O tratamento oncológico segue outro percurso assistencial.
Histologia e órgão. Documentos sobre adenocarcinoma de cólon e reto não descrevem automaticamente todos os tumores do canal anal. O encaminhamento, a amostra e o resultado precisam identificar localização e natureza da lesão para orientar a discussão da equipe.
Continuidade. Registre quem receberá o resultado da biópsia, quem acompanhará o encaminhamento e em que prazo o paciente será reavaliado. A melhora transitória com tratamento sintomático não substitui a conclusão da investigação da lesão persistente.
A conduta, hora a hora
A conduta deste capítulo se resolve quase inteira numa consulta e num papel. O interno não trata este tumor, e não deve fingir que trata; o que ele faz é fechar, num único atendimento, a lacuna que sete meses de consultas não fecharam — examinar, descrever, biopsiar ou encaminhar para biópsia, e datar tudo.
Os marcos abaixo seguem o caso de Nelusco Passira, o ajudante de pedreiro que abriu o capítulo com três receitas de pomada no saco plástico. As falas entre aspas são o que se diz; a lista embaixo de cada marco é o que fica escrito.
Depois de obter a histologia, explique por que câncer do canal anal não é automaticamente tratado como adenocarcinoma de reto. O carcinoma escamoso costuma ter estratégia com quimiorradioterapia, enquanto lesões superficiais selecionadas de margem anal e situações de resgate têm indicações próprias. No internato, reconhecer essa diferença evita prometer uma operação antes da avaliação especializada. Dor, continência, nutrição, impacto emocional e cuidado da pele precisam ser acompanhados durante o percurso.
Consulta índice — os primeiros cinco minutos, antes de qualquer exame
A anamnese dirigida faz quatro perguntas e uma conta. As perguntas: como o sangue se comporta — cor, momento, se está misturado às fezes; como a dor se comporta — tem hora, tem relação com evacuar, piora dia a dia ou mês a mês; o que mudou no funcionamento — calibre das fezes, tenesmo, escape de gases ou de fezes, secreção; e o que o paciente já tomou, por quanto tempo, com que resultado. A conta é a mais importante: quantos meses de queixa e quantas consultas pela mesma queixa. Nelusco responde sete meses e três consultas, e as três receitas confirmam. Nenhuma delas registra exame físico. Esse é o achado que reorganiza o dia: não existem três consultas anteriores que tenham excluído alguma coisa; existem três prescrições.
Prescrição- Registrar: tempo total da queixa em meses e número de atendimentos anteriores pela mesma queixa
- Registrar: cor do sangue, momento em relação à evacuação, se está ou não misturado às fezes
- Registrar: comportamento da dor — relação com a evacuação e velocidade de piora em semanas ou meses
- Registrar: mudança de calibre das fezes, tenesmo, secreção, prurido, escape de gases ou de fezes
- Registrar: tratamentos já feitos, com duração e resposta, transcrevendo o que está nas receitas trazidas
- Registrar: peso atual e peso referido de meses atrás, quando houver, e a percepção de roupa que sobra
Consulta índice — o exame, ainda hoje, sem remarcar
Monte a sala e examine. A técnica dessa montagem é do capítulo O exame que ninguém quer fazer, e o que este capítulo acrescenta é o que se procura depois de montada. Inspecione a circunferência inteira afastando as nádegas e peça um esforço evacuatório leve. Toque em seguida, avaliando massa acima do que se vê, tônus esfincteriano e o que vem na luva. Apalpe as duas virilhas, porque é ali que este tumor drena. Se houver anuscópio, use. Em Nelusco há uma lesão ulcerada de bordos elevados na margem anal esquerda, endurecida, que sangra ao contato, ocupando de 4 às 8 horas em decúbito lateral esquerdo, com cerca de 3 centímetros no maior diâmetro, e um gânglio inguinal direito de aproximadamente 2 centímetros, duro e indolor.
Prescrição- Descrever a lesão: maior diâmetro em centímetros, distância da borda anal, extensão em horas de relógio com a posição do paciente escrita ao lado
- Descrever a superfície e a consistência: ulcerada, vegetante, pigmentada, endurecida, com base infiltrada, sangramento ao contato
- Descrever a mobilidade: móvel sobre os planos profundos ou fixa, dito com essas palavras
- Descrever as duas virilhas: lado, número, maior diâmetro e consistência dos gânglios; escrever ausentes quando não houver
- Descrever tônus esfincteriano ao toque e continência relatada, como linha de base anterior ao tratamento
- Se dor impedir toque ou anuscopia, registrar e organizar avaliação apropriada com analgesia ou anestesia conforme necessidade. Suspeita de neoplasia não deve ficar aguardando apenas repetição de consulta sem plano.
Consulta índice — a decisão de biopsiar, e a decisão de não ressecar
Lesão anal endurecida, ulcerada, fixa ou que não fechou apesar de tratamento é lesão de biópsia, e a indicação não depende de quanto o médico acha provável a malignidade. O material vem da borda da lesão, incluindo a transição com o tecido de aparência preservada, nunca do fundo necrótico da úlcera. Se a unidade e o profissional têm condição de biopsiar uma lesão de margem anal sob anestesia local, biopsie hoje. Se não têm, o encaminhamento sai hoje com a suspeita escrita, e o papel vale mais do que a tentativa mal feita. O que não se faz, em hipótese nenhuma, é retirar a lesão inteira antes do laudo: neste tumor a primeira opção de tratamento não é cirúrgica, e a exérese às cegas remove o alvo, distorce o campo e cobra o preço em esfíncter.
Prescrição- Indicar biópsia diante de qualquer um dos quatro sinais: lesão endurecida, fixa, ulcerada, ou que não respondeu a tratamento adequado
- Colher da borda da lesão, com transição para tecido de aparência preservada; não colher do centro necrótico
- Encaminhar hoje para biópsia em serviço especializado quando a lesão for do canal anal, dolorosa ou de acesso difícil
- Não ressecar a lesão inteira, não cauterizar e não eletrocoagular antes do resultado anatomopatológico
- Linfonodo inguinal suspeito deve ser discutido com a equipe; punção ou biópsia pode integrar o estadiamento quando modificar conduta. Não impor proibição universal de amostragem antes da biópsia primária nem realizar excisão sem planejamento.
- Enviar ao patologista todo tecido anormal retirado da região anal por qualquer motivo, inclusive o que parece trivial
- Anotar no prontuário a data do pedido do exame e, quando for o caso, escrever no pedido a hipótese diagnóstica principal de neoplasia
Consulta índice — o que se oferece na mesma consulta, sem transformar em interrogatório
A mesma consulta que descobre a lesão é a que oferece testagem e prevenção, e as duas coisas se oferecem a todo mundo, não a quem parece merecer. A história sexual se colhe com o roteiro do protocolo nacional, que já vem sem pressuposto: quais tipos de sexo nos últimos três meses, receptivo, insertivo ou ambos. Anuncie o motivo antes de perguntar e aceite a recusa sem retaliar. Ofereça o teste rápido para HIV e para sífilis ali mesmo, porque o resultado do anti-HIV com data é exigência escrita do protocolo de regulação para encaminhar lesão anogenital. Confira a situação vacinal para papilomavírus humano — e saiba que a vacina previne infecção futura e não trata a lesão que já existe, de modo que ela não muda nada no caso de hoje e muda tudo no caso dos filhos dele.
Prescrição- Oferecer teste rápido ou sorologia para HIV e para sífilis na mesma consulta, e registrar o resultado com a data
- Oferecer sorologia para hepatite B e para hepatite C, e pesquisa de clamídia e de gonococo conforme a disponibilidade do serviço
- Repetir a testagem para HIV e sífilis em quatro a seis semanas quando houver lesão anogenital, como o protocolo recomenda
- Conferir e registrar a situação vacinal para papilomavírus humano do paciente e dos conviventes na faixa do calendário
- Registrar a história sexual com as palavras usadas pelo paciente e sem deduzir prática a partir do achado
- Se a história sugerir violência sexual, interromper este roteiro e seguir o do capítulo Quatro relógios, e nenhum marca a mesma hora, na apostila de Ginecologia
Consulta índice — o encaminhamento, que é o que faz o paciente andar
O protocolo estadual de regulação resolve a fila com uma frase colocada no seu próprio cabeçalho: pacientes com diagnóstico ou suspeita de neoplasia do canal anal ou colorretal devem ter preferência no encaminhamento e ser direcionados a serviços de oncologia, cirurgia ou coloproctologia. A palavra que carrega a regra é suspeita — não é preciso ter laudo para acionar a prioridade, e esperar o laudo para encaminhar é abrir mão dela. Escreva a suspeita por extenso, anexe a descrição da lesão e o resultado do anti-HIV com a data, e não condicione o encaminhamento a imagem, a colonoscopia nem a resposta a tratamento.
Prescrição- Escrever no encaminhamento a hipótese de neoplasia de canal anal ou de margem anal, por extenso, no campo da suspeita
- Anexar a descrição completa da lesão e das virilhas, com todas as medidas e a posição em que o exame foi feito
- Anexar resultados de sorologias já disponíveis, com consentimento e confidencialidade; a ausência do resultado não deve impedir o encaminhamento de lesão suspeita.
- Direcionar a serviço de oncologia, cirurgia ou coloproctologia, e não a ambulatório geral de proctologia eletiva
- Não esperar tomografia, ressonância, colonoscopia nem resultado de sorologia para emitir o encaminhamento
- Entregar ao paciente uma via do encaminhamento e explicar, com palavras dele, o que ele está levando e para onde
- Registrar a data de emissão e abrir retorno na unidade em prazo curto, sem depender da resposta da regulação
Enquanto o laudo não volta — o que se trata, e o que não se promete
Há duas semanas de espera em que o paciente continua sangrando e doendo, e nada disso precisa ficar sem tratamento. Trate o sintoma sem prometer diagnóstico: analgesia adequada, amolecimento das fezes, higiene local, banho de assento se alivia. Diga com clareza que o tratamento sintomático não substitui o exame e que a melhora, se vier, não muda a decisão de investigar — é a frase que fecha a porta pela qual sete meses se perderam. A dor oncológica em si, quando o diagnóstico se confirmar, é dos capítulos Cuidados paliativos e dor oncológica, na apostila de Geriatria, e Analgesia no paciente internado, na apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado.
Prescrição- Prescrever analgesia adequada à intensidade da dor, e reavaliar a resposta na data marcada
- Prescrever medida para amolecer as fezes e reduzir o esforço evacuatório, com orientação de ingesta hídrica
- Orientar higiene local suave, sem esfregar e sem produtos irritantes, e banho de assento se produzir alívio
- Escrever no prontuário e dizer ao paciente: melhora do sintoma não cancela nem adia a investigação em curso
- Marcar retorno com data escrita, e orientar retorno antes dela se houver piora da dor, febre ou sangramento maior
- Não prescrever novo ciclo de pomada como conduta isolada nem registrar manter conduta anterior
Com o laudo na mão — as duas datas, e o serviço habilitado
O laudo anatomopatológico é o marco de tudo o que vem depois, inclusive do relógio legal. Anote a data em que ele foi assinado, o número do laudo e o tipo histológico. É dessa data que corre o prazo para o início do primeiro tratamento, e o capítulo Câncer colorretal, o primeiro desta apostila, traz a mecânica dessa contagem e a divergência de leitura que existe sobre quais exames entram em qual prazo — este capítulo remete a ele e não reabre a discussão. Encaminhe formalmente ao hospital habilitado em oncologia, anexando tudo. E entregue ao paciente uma via com as duas datas escritas, explicando que existe um prazo legal e que ele começou naquele dia.
Prescrição- Registrar: data de assinatura do laudo, número do laudo e tipo histológico descrito pelo patologista
- Calcular e escrever no prontuário a data-limite do prazo legal, contada em dias corridos a partir da data do laudo
- Encaminhar formalmente a hospital habilitado em oncologia, anexando descrição da lesão, laudo, sorologias e exames já feitos
- Entregar ao paciente uma via com as duas datas e explicar o prazo com palavras dele, sem transferir a cobrança para ele
- Registrar a notificação e o registro da neoplasia conforme a lei dos prazos oncológicos, cuja mecânica está no capítulo Câncer colorretal
- Manter o acompanhamento na unidade durante a espera, com analgesia ajustada e retorno marcado
Quando o tratamento começa — o que se explica, e por que amputar primeiro é o erro histórico
O tratamento é conduzido no serviço habilitado e não é do interno, mas a explicação é. O carcinoma de células escamosas do canal anal é excepcionalmente sensível à combinação de radioterapia com quimioterapia, e essa sensibilidade mudou a medicina deste sítio: por décadas o tratamento padrão foi a ressecção que retira o ânus e cria uma colostomia definitiva, e a demonstração de que a combinação de radioterapia com quimioterapia podia curar sem retirar o esfíncter deslocou a cirurgia para o papel de resgate, reservada aos casos que não respondem ou que recidivam. Explique isso ao paciente com essas palavras, porque o medo que ele traz tem nome — a bolsa — e porque o medo é o motivo pelo qual muita gente some entre o encaminhamento e a primeira consulta oncológica. Explique também que o esquema tem efeitos locais que doem, que eles são esperados e manejáveis, e que abandonar no meio é o que transforma um tumor curável em um tumor incurável.
Prescrição- Explicar que a primeira opção de tratamento não é cirúrgica e que o objetivo declarado é curar preservando o esfíncter
- Explicar que a cirurgia existe como resgate, para os casos que não respondem ou que recidivam, e não como primeiro passo
- Explicar que os efeitos locais do tratamento são esperados, têm manejo, e não significam que o tratamento está errado
- Nomear o abandono como risco e combinar quem ele procura na unidade se pensar em parar
- Manter a unidade como referência de retaguarda durante o tratamento, com retorno agendado e canal aberto
- Não prometer preservação do esfíncter como certeza, nem descrever ato cirúrgico que não é conduzido nesta consulta
Como saber se está funcionando
Neste capítulo o que se reavalia quase nunca é a resposta a um tratamento — é a permanência de uma lesão e o andamento de um encaminhamento. Os dois primeiros parâmetros abaixo existem para impedir que a melhora sintomática feche o caso; os três seguintes medem o corpo; os dois últimos medem o sistema, que é onde o tempo se perde.
Todos eles precisam de uma data escrita para funcionar. Parâmetro sem data marcada não é reavaliação, é intenção — e foi de intenção que se fizeram os sete meses de Nelusco.
Esperado: A lesão desapareceu por completo à inspeção, sem endurecimento residual, e a mucosa está íntegra
Se não melhora: Lesão que continua presente, ainda que menor, ainda que menos dolorosa, ainda que o paciente diga que melhorou, é lesão que se biopsia. Este é o parâmetro que dá título ao capítulo: melhora sintomática não é regressão de lesão, e a resposta a tratamento tópico não consta, em nenhum dos documentos consultados, como critério para excluir neoplasia. Se a lesão persiste, não prescreva um segundo ciclo do mesmo tratamento — encaminhe e biopsie.
Esperado: Biópsia realizada, ou consulta especializada agendada com data conhecida pelo paciente
Se não melhora: Sem data marcada na segunda conferência, a conversa com a regulação municipal muda de natureza: não é mais solicitação de vaga, e sim exigência da preferência que o protocolo estadual já concede, feita com o documento datado na mão — o protocolo estadual coloca a suspeita de neoplasia de canal anal entre as que têm preferência no encaminhamento, e é essa frase que se cita. Registre a comunicação no prontuário e acione a ouvidoria do serviço. Não delegue a cobrança ao paciente sozinho: quem tem o papel com data é você.
Esperado: Primeiro tratamento iniciado dentro do prazo legal, contado da data em que o diagnóstico foi firmado em laudo patológico
Se não melhora: Tratamento não iniciado com o prazo vencendo é acionamento de gestão, não espera. A mecânica da contagem e a divergência de leitura sobre quais exames entram em qual prazo estão no capítulo Câncer colorretal, o primeiro desta apostila; este capítulo remete a ele. O que este parâmetro acrescenta é a disciplina de conferir três vezes, porque quem confere uma vez só confere depois de vencido.
Esperado: Medidas estáveis ou menores, com a posição do paciente registrada para permitir a comparação
Se não melhora: Lesão que cresceu entre duas consultas muda a urgência, e essa mudança se comunica por escrito a quem vai receber o paciente, com as duas medidas e as duas datas. Um detalhe de método impede a maior parte dos falsos crescimentos: a extensão em horas de relógio só é comparável se as duas medidas foram feitas na mesma posição, porque a mesma lesão muda de hora entre litotomia e decúbito lateral.
Esperado: Ausentes, ou pequenos, móveis, elásticos e bilaterais, sem mudança em relação ao registro anterior
Se não melhora: Gânglio novo, endurecido, aumentado ou unilateral em quem tem lesão anal é achado de progressão regional e antecipa o encaminhamento. Registre lado, número, maior diâmetro e consistência, e compare com a descrição anterior — comparação só existe se a descrição anterior tiver números. E mantenha a ordem: a lesão primária é o que se biopsia, nunca o gânglio antes dela.
Esperado: Sem escape de gases nem de fezes, tônus preservado ao toque, iguais ao registro de base
Se não melhora: Escape novo, ou tônus que caiu em relação ao registro de base, sugere comprometimento do aparelho esfincteriano e acelera tudo. Este parâmetro também protege o paciente adiante: o objetivo declarado do tratamento é preservar o esfíncter, e sem uma linha de base escrita antes do tratamento ninguém consegue depois dizer o que o tratamento custou e o que a doença já tinha levado.
Esperado: Paciente compareceu, sabe o que foi combinado e tem a próxima data
Se não melhora: Ausência sem justificativa é ponto de perda mais comum do que a falta de vaga, e neste tumor ela tem duas causas nomeáveis: o medo da colostomia e a vergonha do exame. As duas se tratam com conversa, e as duas se previnem explicando, antes do encaminhamento, que a primeira opção de tratamento não é cirúrgica. Busque ativamente pela equipe da unidade, e registre o motivo declarado da falta — o motivo é informação clínica, não estatística administrativa.
Onde o erro machuca
O dano: É o erro-assinatura deste capítulo e o motor de todos os atrasos. Uma úlcera neoplásica coberta de anestésico e emoliente, aliviada da passagem de fezes duras, sangra menos e dói menos por semanas — o alívio é verdadeiro. O que ele não é, em nenhuma hipótese, é prova. Nenhum documento consultado neste capítulo autoriza usar resposta a tratamento tópico como critério para excluir neoplasia, e a frase melhorou com a pomada, manter, escrita numa receita, é o que separa um tumor de 1 centímetro de um tumor de 4 centímetros com gânglio inguinal.
Como pegar a tempo: Separe as duas perguntas no prontuário e responda as duas sempre. Primeira: o sintoma melhorou? Segunda, e independente: a lesão ainda está lá? Enquanto a segunda resposta for sim, a investigação continua, qualquer que seja a primeira. Um atalho de escrita ajuda: nunca registre melhora sem registrar, na mesma linha, o que a inspeção mostrou naquele dia. Quem escreve assim não consegue anotar melhorou sem ter olhado.
O dano: Sete meses de Nelusco cabem em três receitas e nenhuma linha de exame físico. O prejuízo vai além do tempo perdido. Cada consulta sem exame produz, no prontuário, a aparência de um diagnóstico já estabelecido, e o médico seguinte herda essa aparência e a confirma. Três consultas sem exame não valem mais do que zero — valem menos, porque criam uma segurança que não existe. E há um agravante documental: o protocolo de regulação exige que o sangramento não seja atribuível à doença orificial para acionar a investigação, o que é impossível de afirmar sem alguém ter examinado a região orificial.
Como pegar a tempo: Trate rótulo antigo sem exame registrado como prontuário em branco, e diga isso ao paciente sem culpar quem atendeu antes. Se o exame não puder ser feito hoje, por recusa ou por dor, escreva que não foi feito, escreva por quê, e marque a data — registro de exame não feito é conduta; silêncio é o que apaga a diferença entre normal e não examinado.
O dano: É o erro que parece diligência. Um plicoma volumoso, uma verruga grande, um mamilo prolapsado — retirar resolve o incômodo, e por isso é tentador. Neste sítio a exérese às cegas custa caro duas vezes: remove o alvo do tratamento que seria a primeira opção, e produz lesão esfincteriana e estenose num tumor cujo tratamento correto justamente preserva o esfíncter. O erro histórico maior é o mesmo em escala: por décadas se amputou o ânus antes de tentar o tratamento que hoje é o primeiro, e a mudança dessa ordem é a razão de este tumor ter capítulo próprio.
Como pegar a tempo: Inverta a ordem por regra, não por julgamento: diante de lesão anal endurecida, fixa, ulcerada ou que não respondeu ao tratamento, biopsia-se a borda e decide-se depois. Uma biópsia mal indicada custa uma pinçada; uma ressecção mal indicada custa um esfíncter. E mande ao patologista todo tecido anormal retirado da região anal por qualquer motivo, inclusive o que parecia trivial.
O dano: O canal anal distal e a margem anal drenam para os linfonodos inguinais superficiais, que são palpáveis com a mão em qualquer maca. Deixar de apalpá-los perde o território regional de disseminação e perde uma informação que muda a prioridade do encaminhamento. O erro inverso também acontece e é pior: puncionar ou ressecar o gânglio para descobrir uma origem que está visível a poucos centímetros dali inverte a ordem, atrasa o resultado e produz um laudo que não substitui o da lesão primária.
Como pegar a tempo: Faça da palpação inguinal parte fixa do exame de qualquer queixa anal, e registre com números: lado, quantidade, maior diâmetro e consistência, escrevendo ausentes quando não houver. Diante de gânglio suspeito, a sequência é sempre lesão primeiro, gânglio depois — e o gânglio entra no encaminhamento como dado de prioridade, não como alvo de procedimento.
O dano: Nenhuma tomografia, ressonância, colonoscopia, sorologia ou marcador tumoral diagnostica câncer de canal anal, e todos eles consomem semanas. O caso mais comum é a colonoscopia: a pergunta do cólon num adulto com sangramento é legítima e é do capítulo Câncer colorretal, o primeiro desta apostila, mas fazer o encaminhamento por lesão anal depender do resultado dela é entregar o tempo do paciente a um exame de outro órgão. E o protocolo estadual dispensa expressamente essa espera, ao dizer que a falta de exames complementares não impede a solicitação de consulta especializada.
Como pegar a tempo: Emita o encaminhamento na mesma consulta em que viu a lesão, com a suspeita escrita por extenso, e deixe as demais investigações correndo em paralelo. Se a colonoscopia estiver indicada por sinais colorretais, peça-a no mesmo dia e escreva no prontuário que ela não precede o encaminhamento anal. E resista aos dois pedidos que só gastam tempo: tipagem viral, que o protocolo nacional desaconselha na rotina, e marcador tumoral, cujo resultado normal tranquiliza sem base.
O dano: Os dois extremos causam dano e ambos são comuns. Presumir prática a partir de lesão perianal é erro factual antes de ser erro de conduta: o documento nacional registra que as lesões perianais, embora mais frequentes em quem tem prática anal receptiva, não são exclusivas desse grupo. O paciente que percebe o pressuposto omite informação, e às vezes não volta. O extremo oposto produz outro dano: sem história sexual não se oferece testagem, não se confere vacina e não se identifica quem precisa de exame periódico da região — e a maioria dos pacientes com este tumor não pertence a nenhum grupo de risco, de modo que suspeitar apenas nos grupos garante o atraso.
Como pegar a tempo: Use o roteiro do protocolo nacional, que já vem sem pressuposto embutido, e anuncie o motivo antes: faço estas perguntas a todo mundo com queixa nesta região, porque elas mudam os exames que eu vou pedir. Pergunte por práticas e não por identidade, aceite a recusa sem retaliar e registre a recusa sem comentário. E mantenha a conduta independente da resposta: quem não responde tem direito ao mesmo exame, à mesma biópsia e ao mesmo encaminhamento.
O que dizer ao paciente e à família
Este é um capítulo sobre corpo, sexualidade e vergonha, e a conversa carrega tanto peso quanto o exame. A técnica de dar má notícia — como se abre, quanto se diz por vez, como se acolhe a reação — é do capítulo de comunicação de más notícias, na apostila de Comunicação, Ética e Segurança na Prática, e este capítulo cede a técnica e fica com o conteúdo: o que exatamente se diz quando o assunto é o ânus de alguém.
As falas abaixo servem a um paciente que já foi mandado embora três vezes. Duas coisas atravessam todas elas: nunca culpar quem atendeu antes na frente do paciente, e nunca usar medo como alavanca.
Pedir o exame a quem já saiu três vezes da unidade sem ser examinado
“"Seu Nelusco, eu li as três receitas que o senhor trouxe, e tem uma coisa que não aparece em nenhuma delas: o exame. Sem examinar eu não tenho como dizer de onde vem esse sangue, e o senhor já esperou sete meses por essa resposta. São dois minutos. Eu explico cada passo antes de dar o passo, o senhor permanece coberto, e a gente para na hora em que o senhor quiser — basta falar. O senhor prefere que alguém entre junto, ou prefere que sejamos só nós dois aqui?"”
Não diga: Não critique os colegas anteriores diante do paciente — a frase ninguém olhou descreve o prontuário, não acusa pessoas, e é assim que ela deve soar. Não peça o exame com meia frase nem com pressa, porque a informalidade aumenta o constrangimento. E não negocie para a próxima consulta: a próxima consulta é exatamente como este caso chegou à quarta.
Explicar por que a melhora com a pomada não encerrou nada
“"O senhor tem razão em dizer que melhorou, e eu acredito. A pomada tem anestésico, ela alivia mesmo. O problema é que aliviar a dor e o sangramento não faz a ferida sumir — e é a ferida que eu preciso entender. Pense assim: se o senhor tomar remédio para dor de dente, a dor passa e o dente continua estragado. Aqui é a mesma coisa. Eu vou continuar tratando o incômodo, mas vou investigar em paralelo, porque a melhora não me respondeu a pergunta."”
Não diga: Não diga que a melhora foi imaginação nem sugira que o paciente foi enganado. E não use a explicação para retirar o tratamento sintomático: ele continua, e continuar com ele enquanto se investiga é o que mostra ao paciente que a investigação não é castigo.
Perguntar sobre práticas sexuais sem pressuposto embutido
“"Vou fazer algumas perguntas sobre sexo. Faço a todo mundo que atendo com queixa nessa região, porque as respostas mudam os exames que eu vou pedir e as vacinas que eu vou conferir. Nos últimos três meses, que tipos de sexo o senhor teve — anal, vaginal, oral? Foi receptivo, insertivo, ou os dois? Se preferir não responder alguma, tudo bem, e isso não muda nada do que eu vou fazer pelo senhor hoje."”
Não diga: Não deduza prática a partir do achado — encontrar lesão perianal não autoriza concluir nada sobre a vida de ninguém, e o próprio protocolo nacional registra que essas lesões não são exclusivas de quem tem prática anal receptiva. Não pergunte por identidade quando a pergunta clínica é sobre prática. Não faça nenhuma dessas perguntas com acompanhante na sala sem antes ter combinado isso com o paciente. E não altere o tom nem a conduta depois da resposta.
Dizer que há uma lesão suspeita, sem dar um diagnóstico que ainda não existe
“"Achei uma ferida no ânus do senhor, com a borda endurecida, e achei também um caroço na virilha direita. Eu não sei ainda o que é. O que eu sei é que isso não é hemorroida, que precisa ser examinado com uma amostra do tecido, e que isso não pode esperar mais. Eu vou pedir esse exame hoje e vou pedir também um atendimento com quem cuida disso. Uma das possibilidades é ser um tumor, e é por isso que estou apressando. Quero que o senhor saiba disso agora, e não daqui a um mês."”
Não diga: Não anuncie câncer como certeza antes do laudo, nem faça o contrário — dizer que é provavelmente nada para poupar o paciente, o que produz abandono quando ele não entende a pressa. Não despeje o assunto sem checar se ele quer alguém junto. E não termine a conversa sem uma data escrita: notícia difícil sem próximo passo é abandono elegante.
Explicar a biópsia — e por que não se tira tudo agora
“"Eu vou tirar um pedacinho pequeno da borda dessa ferida e mandar para o laboratório. Não vou tirar tudo, e isso é de propósito. Se for o que eu suspeito, o tratamento não começa com cirurgia, e retirar a ferida inteira agora atrapalharia quem vai tratar. Além disso, mexer demais aqui pode prejudicar o músculo que controla a saída das fezes, e esse músculo é justamente o que a gente quer preservar. A picada dói um pouco, dá para anestesiar, e o resultado leva alguns dias."”
Não diga: Não prometa que é rápido ou indolor quando não é. Não deixe o paciente sair achando que a lesão foi tratada porque alguém mexeu nela. E não use a palavra raspagem ou limpeza para descrever uma biópsia — o paciente precisa entender que aquilo é um exame, não um procedimento curativo.
O medo que ele não vai dizer em voz alta: a bolsa
“"Muita gente, quando ouve falar em tumor no ânus, já pensa em bolsa. Eu quero contar como é hoje. Para esse tipo de tumor, o tratamento que se tenta primeiro não é cirurgia: é uma combinação de radioterapia com quimioterapia, e ela foi feita justamente para curar sem tirar o ânus. A cirurgia existe, e ela fica guardada para quem não responde. Eu não posso prometer o resultado, e não vou prometer. O que eu posso dizer é que ninguém vai começar tirando."”
Não diga: Não prometa preservação do esfíncter como garantia, e não descreva ato cirúrgico que não é conduzido nesta consulta. Não minimize a colostomia caso ela venha a ser necessária, porque a minimização de hoje vira sensação de traição depois. E não deixe esse assunto para o serviço de destino: o medo que faz o paciente sumir entre o encaminhamento e a primeira consulta oncológica é este, e ele se desarma aqui.
O que ele não vai perguntar: continência, sexo e o corpo depois
“"Tem duas coisas que quase ninguém pergunta e eu prefiro falar antes. A primeira é o controle das fezes e dos gases: se isso já mudou, me conte, porque muda o que eu escrevo no encaminhamento, e não é motivo de vergonha nenhuma. A segunda é a vida sexual: o tratamento pode mexer nisso, tem manejo, e é assunto legítimo de consulta. Se o senhor quiser falar disso hoje, a gente fala; se preferir depois, eu trago de novo no retorno."”
Não diga: Não trate incontinência como detalhe menor nem a registre apenas como sintoma — ela entra no encaminhamento porque pesa. Não presuma que um paciente idoso não tem vida sexual e por isso não precisa da segunda metade da conversa. E não force o assunto se ele desviar; ofereça de novo no retorno, que é o que transforma oferta em porta aberta.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Documento federal registra utilidade possível em populações especiais
O protocolo nacional de infecções sexualmente transmissíveis afirma que o estudo citológico de material colhido do canal anal ainda é objeto de debate, mas pode ter importância em populações especiais — homens que fazem sexo com homens e pessoas com prática sexual anal receptiva — em razão do aumento da incidência de câncer anorretal. No mesmo trecho, recomenda com verbo afirmativo que pessoas com prática sexual anal, sobretudo as que vivem com HIV, tenham o exame periódico da região incluído nas rotinas de atendimento.
Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST), Brasília, 2022, seção 11.3 e seção 11.10
O documento que organiza o acesso não prevê essa porta
O protocolo estadual de regulação ambulatorial de proctologia adulto organiza a fila da especialidade em nove protocolos — hemorroidas, fissura, fístula, doença pilonidal, condiloma, suspeita de neoplasia do trato gastrointestinal inferior, ostomias, diarreia e constipação — e nenhum deles contempla vigilância de pessoa assintomática nem coleta de citologia anal. Nele, o acesso à proctologia se abre por queixa, por lesão ou por suspeita, e não por pertencimento a grupo de risco.
TelessaúdeRS-UFRGS; Secretaria Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul. Protocolos de Regulação Ambulatorial — Proctologia Adulto, versão digital 2021, sumário e protocolos 1 a 9
Para a pessoa à sua frente, decida pelo que existe e é executável na sua unidade, e não pelo que seria ideal. O que se pode garantir sem depender de fila é o exame da região a cada consulta de acompanhamento — inspeção e toque, que não exigem equipamento — mais a informação para que ela reconheça queixa proctológica quando surgir. Não prometa um exame periódico de citologia anal que o serviço não tem como coletar nem como processar, porque promessa não cumprida produz abandono e não produz diagnóstico. E não use a ausência do exame como motivo para não examinar: a vigilância que este capítulo defende se faz com os olhos e com a mão, e é ela que encontra a lesão.
Duas doses, aos 0 e 6 meses, conforme a tabela do protocolo de 2022
O Quadro 45 indica duas doses, aos 0 e 6 meses, para meninas de 9 a 14 anos e meninos de 11 a 14 anos, e três doses, aos 0, 2 e 6 meses, para pessoas vivendo com HIV, transplantadas de órgãos sólidos ou de medula óssea e pacientes oncológicos, de 9 a 45 anos. A linha de fonte da própria tabela remete a documento de 2018, e o protocolo não foi reeditado desde então.
Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST), Brasília, 2022, Quadro 45
Dose única de 9 a 14 anos, para ambos os sexos, desde 2024
A nota técnica adota a dose única da vacina no Calendário Nacional de Vacinação para pessoas de ambos os sexos de 9 a 14 anos, cria estratégia de resgate de não vacinados até 19 anos, 11 meses e 29 dias, mantém expressamente as recomendações anteriores para imunossuprimidos e para pessoas em situação de violência sexual, e inclui a papilomatose respiratória recorrente entre os grupos prioritários. Foi assinada em 28 de março e 1º de abril de 2024.
Ministério da Saúde, Programa Nacional de Imunizações. Nota Técnica nº 41/2024-CGICI/DPNI/SVSA/MS
Para o adolescente à sua frente, o que decide é qual documento governa o ato que você está praticando. Aplicação de vacina do calendário se rege pelo Programa Nacional de Imunizações, e é a nota técnica de 2024 que está impressa no calendário e no sistema de informação da sala de vacina. Antes de indicar qualquer dose, confira quantas a pessoa já recebeu e a idade em que recebeu, porque a mudança de esquema no meio da vida de uma coorte produz adolescentes com uma dose feita sob a regra antiga. E não use a tabela impressa do protocolo de 2022 como referência de esquema: ela é anterior à mudança, e seguir por ela aplica uma segunda dose que o calendário não pede mais.
A suspeita é motivo de encaminhamento preferencial, e o destino é o serviço especializado
O protocolo estadual de regulação coloca no seu cabeçalho que pacientes com diagnóstico ou suspeita de neoplasia do canal anal ou colorretal devem ter preferência no encaminhamento e ser direcionados a serviços de oncologia, cirurgia ou coloproctologia, e define como condição de encaminhamento a suspeita — massa anal ou úlcera anal persistente — sem exigir laudo prévio. Registra ainda que a falta de exames complementares não impede a solicitação de consulta especializada.
TelessaúdeRS-UFRGS; Secretaria Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul. Protocolos de Regulação Ambulatorial — Proctologia Adulto, versão digital 2021, apresentação e Protocolo 6
A biópsia é parte da avaliação da lesão anogenital, e o documento federal não a condiciona a encaminhamento
O protocolo nacional lista as situações em que há indicação de biópsia para estudo histopatológico de lesão anogenital — dúvida diagnóstica, suspeita de neoplasia, lesão atípica ou que não responde ao tratamento, e lesão em pessoa com imunodeficiência, caso em que o procedimento deve ser considerado com mais frequência e precocidade. Em nenhum desses casos o documento define quem deve realizar o procedimento nem exige encaminhamento prévio para que ele aconteça.
Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST), Brasília, 2022, seção 11.3
Decida pelo relógio do paciente, e não pela competência de quem atende. As duas condutas só conflitam se você tratar uma como alternativa da outra, e elas não são: emita o encaminhamento por suspeita hoje, em qualquer cenário, porque é ele que aciona a preferência na fila e ele não custa nada; e biopsie hoje também, se a lesão for de margem anal, acessível, e houver quem faça bem sob anestesia local, porque a biópsia feita hoje adianta semanas. O que nunca se faz é escolher: nem deixar o encaminhamento esperando o resultado da biópsia que você fez, nem deixar de biopsiar porque encaminhou. E se a lesão for do canal anal, dolorosa ou de acesso difícil, não tente — nesse caso a tentativa mal feita produz laudo inconclusivo e uma segunda espera.
O raciocínio, em voz alta
Carmelina Aracatuba tem 44 anos, é diarista, vive com HIV há onze anos, com carga viral indetectável e acompanhamento regular no serviço especializado. Vem ao ambulatório da unidade básica por outro motivo — quer o encaminhamento para a oftalmologia — e, quando você pergunta se há mais alguma coisa, ela diz que tem uma coceira no ânus há uns quatro meses e uma "verruguinha" que apareceu e não sai. Já passou uma pomada antifúngica que a vizinha indicou. Não sangra, não dói. À inspeção, afastando as nádegas com boa luz, há três lesões papilomatosas de aspecto seco na margem anal, entre 3 e 6 milímetros, e uma quarta lesão, às 5 horas em decúbito lateral esquerdo, de cerca de 1,5 centímetro, de superfície irregular, com um ponto ulcerado no centro, base endurecida ao toque, que sangra quando você encosta a gaze. As virilhas não têm gânglios palpáveis.
O que penso agora
Três das quatro lesões têm cara de condiloma acuminado: papilomatosas, secas, foscas, pequenas, múltiplas. A quarta não. Ela é maior, tem base endurecida, ulcerou no centro e sangra ao contato — três dos quatro sinais que, neste capítulo, tiram uma lesão anal da categoria de verruga e a colocam na categoria de biópsia. O fato de as outras três serem condiloma não protege a quarta; ao contrário, o papilomavírus é o mesmo agente que produz as duas coisas, e a coexistência é esperada.
O que a imunossupressão muda aqui
Carmelina vive com HIV, e isso baixa o limiar. O protocolo nacional lista, entre as situações de indicação de biópsia, as lesões suspeitas em pessoas com imunodeficiência, dizendo que nesses casos o procedimento deve ser considerado com mais frequência e mais precocemente. Registro o dado de que ela é pessoa vivendo com HIV, com carga viral indetectável — mas não uso o controle virológico como argumento para relaxar: o que baixa o limiar é a condição, não o número do último exame.
O que faço com as três lesões que parecem condiloma
Não trato hoje. Não porque estejam mal indicadas para tratamento, mas porque tratar as três agora, com método destrutivo, mexe no campo em que a quarta lesão está e atrapalha quem for biopsiar. A conduta do condiloma — arsenal tópico, escolha por número e tamanho, o que nunca se aplica dentro do canal anal — é do capítulo Duas coisas com o mesmo nome, na apostila de Ginecologia, e ela entra depois que o laudo da quarta lesão voltar. Registro as três com número, tamanho e topografia, para que a comparação futura seja possível.
O exame que eu faço agora e não deixo para depois
Completo o exame: toque retal, que avalia se há massa acima do que vejo e como está o tônus esfincteriano, e palpação das duas virilhas, que aqui estão livres — e escrevo ausentes, porque silêncio no prontuário não distingue normal de não examinado. Se houvesse anuscópio disponível, faria a anuscopia, porque o canal anal acima da margem não foi visto e a inspeção não o alcança. Não havendo, isso vai escrito no encaminhamento como parte da justificativa.
A biópsia: onde, de onde, e por que não tirar tudo
A quarta lesão é de margem anal, acessível, de 1,5 centímetro. Numa unidade com quem faça biópsia sob anestesia local, ela é biopsiável hoje, e a amostra sai da borda da lesão, incluindo a transição com o tecido de aparência preservada — nunca do ponto ulcerado central, que costuma trazer só necrose. O que eu não faço é retirar a lesão inteira, ainda que ela seja pequena e a exérese pareça simples: se o laudo vier carcinoma, a primeira opção de tratamento não é cirúrgica, e eu teria removido o alvo e mexido no esfíncter à toa.
O que eu escrevo, e por que cada número está lá
Quatro lesões na margem anal; três papilomatosas de 3 a 6 milímetros; uma de 1,5 centímetro às 5 horas em decúbito lateral esquerdo, ulcerada no centro, de base endurecida, com sangramento ao contato, móvel sobre os planos profundos. Linfonodos inguinais ausentes nos dois lados. Tônus esfincteriano preservado, sem escape de gases ou de fezes. Pessoa vivendo com HIV, em acompanhamento, com data do último exame. A posição do exame está escrita ao lado da hora, porque sem ela a hora não significa nada na próxima consulta.
O que eu ofereço na mesma consulta
Testagem para sífilis, com repetição em quatro a seis semanas, e para hepatites B e C, conforme o protocolo recomenda diante de condiloma. Confiro a situação vacinal para papilomavírus humano: ela tem 44 anos e é pessoa vivendo com HIV, faixa em que a indicação existe pelo protocolo — e essa é uma indicação de prevenção, que não trata as lesões que ela já tem. Faço a história sexual com o roteiro do protocolo, anunciando o motivo antes, e registro o que ela disser com as palavras dela. E resolvo o que ela veio buscar: o encaminhamento para a oftalmologia sai também.
O encaminhamento e a conversa
Encaminho por suspeita, hoje, sem esperar o resultado da biópsia — a suspeita de neoplasia do canal anal já dá preferência no encaminhamento pelo protocolo estadual, e esperar o laudo para encaminhar é abrir mão dessa preferência. Digo a ela, com essas palavras, que três das lesões parecem verruga e uma não parece, que eu não sei ainda o que a quarta é, que estou tirando um pedacinho para o laboratório e apressando a consulta com quem cuida disso. Marco retorno com data escrita para o resultado, e deixo o retorno aberto se algo mudar antes.
O que eu não faço
Não peço tipagem viral, que o protocolo nacional desaconselha na rotina clínica e no rastreamento de assintomáticos. Não peço marcador tumoral. Não condiciono o encaminhamento a tomografia, a colonoscopia nem ao resultado das sorologias. Não cauterizo nada. E não escrevo condiloma acuminado no campo da hipótese diagnóstica do encaminhamento — porque três lesões são, uma não é, e é a que não é que precisa chegar rápido.
Faça você
Alcidio Macaubinha tem 36 anos, é transplantado renal há cinco anos, em uso contínuo de imunossupressor, e chega ao ambulatório com uma fissura anal que já foi tratada duas vezes. A primeira, há oito meses, com pomada e fibras; a segunda, há três meses, do mesmo jeito. Ele diz que dói ao evacuar e que continua sangrando pouco, no papel. À inspeção, existe uma solução de continuidade de cerca de 1 centímetro na margem anal, às 3 horas em decúbito lateral esquerdo — fora da linha média —, com bordos elevados e endurecidos, e um ponto de tecido granuloso no fundo. O toque é doloroso e você o interrompe. As virilhas estão livres. O prontuário das duas consultas anteriores traz, nas duas, a mesma linha: fissura anal, tratamento clínico, retorno se necessário.
O que o caso já resolveu por você
O rótulo caiu, e caiu por dois motivos independentes, cada um suficiente sozinho. O primeiro é topográfico: a fissura anal típica fica na linha média, e esta está às 3 horas, lateral. O segundo é temporal: oito meses e dois tratamentos clínicos adequados não resolveram. O documento brasileiro de doença anorretal manda, diante de úlcera anal que não segue o esperado, pensar em doença de Crohn, retocolite ulcerativa, tuberculose, infecção pelo HIV, infecções sexualmente transmissíveis e carcinoma da margem anal, investigando com exame endoscópico, biópsia da lesão e sorologias.
O que já se sabe que não funcionou
Dois ciclos de tratamento clínico bem indicados para a doença errada. Isso não é falha do tratamento: é rótulo mantido sem reexame. Repare no detalhe que aparece nas duas linhas de prontuário — retorno se necessário. Retorno sem data é o mecanismo pelo qual oito meses passam sem que ninguém perceba que passaram, e é o que este capítulo troca por retorno com data escrita.
O que falta decidir
Falta decidir o que fazer hoje, nesta consulta, com um paciente imunossuprimido, uma úlcera anal atípica que não fecha há oito meses e um toque que você interrompeu por dor. Falta decidir se biopsia aqui ou encaminha para biopsiar, o que escreve no papel, o que oferece na mesma consulta, e o que diz a ele. Escreva a sua conduta antes de ler a resposta.
Continuidade do caso e prática do internato
Volte às receitas repetidas da cena e mostre o que muda quando existe exame documentado e um plano para chegar ao diagnóstico.
Questão integrativa 1
Melhora com pomada exclui neoplasia?
Questão integrativa 2
O que deve constar da descrição da lesão?
Questão integrativa 3
Lesão dolorosa que impede exame pode ser simplesmente revista meses depois?
Questão integrativa 4
HIV negativo exclui câncer anal?
Questão integrativa 5
Toda neoplasia anal exige ressecção imediata?
Questão integrativa 6
Qual pendência precisa ser acompanhada pelo interno?
Ver como fecharíamos
Primeiro, o que decide: esta é uma lesão de biópsia, e a indicação não depende da sua estimativa de probabilidade. Ela reúne três dos quatro sinais deste capítulo — bordos endurecidos, ulceração e falta de resposta a tratamento adequado — e o quarto critério do protocolo nacional se aplica sozinho: lesão suspeita em pessoa com imunodeficiência, situação em que a biópsia deve ser considerada com mais frequência e mais precocemente. Transplante renal com imunossupressor contínuo é imunodeficiência, e a lesão anal de Alcidio já estaria indicada para biópsia mesmo sem os outros três sinais. Segundo, quem faz e de onde. A lesão é de margem anal, de 1 centímetro, visível — biopsiável sob anestesia local por quem tenha treinamento, com o material vindo da borda elevada e endurecida, incluindo a transição com tecido de aparência preservada, e não do tecido granuloso do fundo, que trará inflamação e necrose e devolverá um laudo inconclusivo. Se não houver quem faça bem, o encaminhamento sai hoje e a biópsia é do serviço de destino; a tentativa mal feita custa uma segunda espera. Em nenhum dos dois cenários se ressecar a lesão inteira. Terceiro, o toque interrompido. Você fez certo em parar, e agora precisa fazer a segunda metade: escrever no prontuário que o toque foi adiado, por dor, e marcar quando será feito. Toque adiado com registro é conduta; toque ausente sem registro vira, para o próximo médico que ler, exame normal. As duas virilhas, essas, foram apalpadas e estão livres, e isso vai escrito com a palavra ausentes. Quarto, o encaminhamento, que sai hoje e não espera o laudo. A suspeita de neoplasia de canal anal ou de margem anal já dá preferência no encaminhamento pelo protocolo estadual, e o destino é serviço de oncologia, cirurgia ou coloproctologia — não ambulatório geral de proctologia eletiva. No papel vão: a topografia com a posição do exame escrita ao lado, o tamanho em centímetros, a descrição dos bordos, o tempo de evolução em meses, os dois tratamentos já feitos com duração e resposta, a condição de transplantado em uso de imunossupressor, e o resultado do anti-HIV com data, que o protocolo pede. Quinto, o que corre em paralelo e não atrasa nada. Sorologias e testagem oferecidas na mesma consulta; conferência da situação vacinal para papilomavírus humano, lembrando que a indicação ampliada para pessoas transplantadas existe e que a vacina previne infecção futura, não trata lesão instalada; comunicação com a equipe do transplante, porque qualquer decisão sobre imunossupressão é deles e não sua; e analgesia adequada com amolecimento das fezes enquanto se espera. O tratamento sintomático continua — o que não continua é ele sozinho. Sexto, o que se diz. Que a ferida está em lugar que não é o lugar habitual da fissura, que ela não fechou em oito meses, que por isso ela precisa ser examinada com uma amostra do tecido, e que uma das possibilidades é ser um tumor. Que ele está mais sujeito a esse tipo de coisa por causa do remédio que protege o rim, e que isso não é culpa dele nem motivo para parar o remédio por conta própria. E que a consulta com o especialista está sendo apressada por causa disso, com data marcada e uma via do papel na mão dele. Uma nota final que separa este caso de um vizinho. A doença perianal da doença de Crohn também produz úlcera anal atípica e arrastada, e ela é do capítulo A diarreia que não é infecciosa, na apostila de Gastroenterologia, dono da doença inflamatória intestinal. Este capítulo não conduz o Crohn perianal. O que ele exige é que a possibilidade de neoplasia seja excluída por laudo, e não por hipótese alternativa mais simpática — porque uma úlcera anal que não fecha pode ser as duas coisas, e só a biópsia separa. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. Alívio sintomático não prova benignidade e não cancela investigação de lesão persistente. 2. Localização, tamanho, superfície, consistência, fixação e relação com margem/canal, além de virilhas e continência quando avaliáveis. 3. Não. Organizar analgesia e avaliação especializada, eventualmente sob anestesia, conforme a suspeita. 4. Não. Modifica contexto, mas não determina benignidade. A lesão continua exigindo investigação própria. 5. Não. Histologia, localização e estádio definem a estratégia, frequentemente quimiorradioterapia no carcinoma escamoso do canal. 6. A obtenção e leitura da histologia, a comunicação ao paciente e o acesso à equipe de tratamento, com prazo de retorno e responsável definidos.
O canal anal distal e a margem anal têm drenagem para linfonodos inguinais; por isso a palpação bilateral integra a avaliação. Descrever lado, tamanho, consistência e mobilidade de um linfonodo suspeito e encaminhar com prioridade. A lesão anal suspeita precisa de confirmação histológica mesmo sem adenopatia. Linfonodos aumentados ou suspeitos podem exigir punção ou biópsia, conforme a avaliação especializada. Não há motivo para transformar a sequência desses procedimentos em uma proibição universal: ela depende de acessibilidade, hipótese diagnóstica e organização do atendimento. A punção do linfonodo não substitui automaticamente a avaliação da lesão primária, e adenopatia inguinal não significa necessariamente metástase distante.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Sangue anal vermelho vivo não distingue hemorroida de carcinoma de canal anal: a fonte anatômica é a mesma. O que distingue é o exame. Melhora com tratamento tópico não exclui neoplasia — a pomada alivia úlcera de qualquer natureza, e nenhum documento aceita resposta a tópico como critério de exclusão. Quatro sinais tiram uma lesão anal da categoria benigna e a levam para a biópsia: endurecida, fixa, ulcerada, ou que não fechou apesar de tratamento adequado. A biópsia sai da borda da lesão, nunca do fundo necrótico, e a lesão inteira não se ressecar antes do laudo, porque neste tumor a primeira opção de tratamento não é cirúrgica. As duas virilhas se apalpam em toda queixa anal: o canal anal distal drena para os linfonodos inguinais superficiais.
Em 30 dias
Cerca de nove em cada dez tumores do canal anal são carcinomas de células escamosas, ligados à infecção persistente pelo papilomavírus humano — outra histologia, outro fator de risco e outro tratamento que os do cólon e do reto, e foi por isso que a Estimativa 2026 do INCA retirou o código C21 do agrupamento cólon e reto, que até a Estimativa 2023 o continha. Não existe diretriz federal brasileira do câncer de canal anal, e não existe programa nacional de rastreamento anal: o que existe é a recomendação de incluir o exame periódico da região na rotina de quem tem prática sexual anal, sobretudo entre pessoas vivendo com HIV, e a vacina contra o papilomavírus humano como prevenção primária, hoje em dose única de 9 a 14 anos. Suspeita já basta para encaminhamento preferencial — não se espera laudo, imagem nem colonoscopia. E a descrição vale tanto quanto o achado: tamanho em centímetros, distância da borda anal, extensão em horas com a posição do exame escrita ao lado, mobilidade, virilhas e continência.
Agora atenda
Agora atenda o paciente que chega pela quarta vez com a mesma queixa e a mesma receita na mão. Ele vai começar pedindo desculpa por voltar, vai dizer que melhorou com a pomada, e vai contar a dor de passagem, quase como desabafo. O caso se resolve no minuto em que você decide olhar — e o que você fizer nos cinco minutos seguintes ao que vir decide se ele sai com um encaminhamento datado ou com a quarta pomada.
