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Cirurgia GeralColoproctologia

Tiraram, e acabou

Pólipos colorretais e síndromes de polipose

Retirar o pólipo não encerra nada — quem decide o próximo passo é o laudo. Quantos, de que tamanho, de que histologia, com que grau de displasia e se a ressecção foi completa: cada linha muda o intervalo, e é o interno que lê esse papel primeiro.

Fontes deste capítulo

Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Adenocarcinoma de Cólon e Reto — Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 25, de 17 de novembro de 2025

TelessaúdeRS-UFRGS; Rio Grande do Sul, Secretaria Estadual da Saúde. Protocolos de Regulação Ambulatorial — Gastroenterologia adulto. 3. ed. Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS, 2025 (RegulaSUS)

TelessaúdeRS-UFRGS; Rio Grande do Sul, Secretaria Estadual da Saúde. Protocolos de Regulação Ambulatorial — Proctologia Adulto: versão digital 2021. Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS, 26 de julho de 2021 (RegulaSUS)

Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva. Detecção precoce do câncer. Rio de Janeiro: INCA, 2021

Instituto Nacional de Câncer. Estimativa 2026: incidência de câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA, 2026

01

Responda antes de ler

O anatomopatológico de um pólipo pediculado ressecado por via endoscópica revela adenocarcinoma invadindo a submucosa. Segundo o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Adenocarcinoma de Cólon e Reto, qual conjunto de achados permite considerar essa ressecção endoscópica curativa?

02

O paciente que você vai ver

Seu Amadeo Savedra tem 58 anos, é torneiro mecânico aposentado, e chega ao ambulatório com um envelope pardo e uma frase pronta: "deu tudo certo, doutor, tiraram um pólipo e o médico disse que estava tudo bem". Ele fez a colonoscopia há três semanas, depois de um sangue oculto positivo numa campanha do sindicato. Está aliviado. Veio, na verdade, para pegar a receita da pressão.

Dentro do envelope há dois papéis, e eles não dizem a mesma coisa. O laudo da colonoscopia descreve exame completo até o ceco, preparo adequado, e três lesões: duas no sigmoide, de 5 e 6 milímetros, e uma no cólon ascendente, plana, de 14 milímetros, retirada em fragmentos porque não saiu inteira. O anatomopatológico, que chegou dez dias depois e que ninguém leu com ele, diz: dois adenomas tubulares com displasia de baixo grau, e uma lesão serrilhada séssil de 14 milímetros com displasia, margem profunda não avaliável.

Se você aceitar o resumo que ele traz, a consulta acaba em quatro minutos: receita da pressão, parabéns pelo exame, volte em seis meses para a pressão. Ninguém erra visivelmente. O prontuário fica coerente. E seu Amadeo sai com a impressão, que ele vai repetir para a família e para o próximo médico, de que o intestino dele foi resolvido.

O que aconteceu foi outra coisa. O procedimento retirou lesões; o laudo diz que uma delas era serrilhada, tinha displasia, media mais de um centímetro, saiu em pedaços e teve a margem profunda declarada não avaliável. Se ele tivesse tido apenas os dois adenomas pequenos do sigmoide, a régua brasileira mandaria repetir em dez anos, na unidade básica. Com a lesão do cólon ascendente, o intervalo cai para três anos e o exame passa a ser em serviço de referência — e, pela margem que não se pôde avaliar, alguém precisa olhar aquele leito antes disso. A diferença entre o que seu Amadeo entendeu e o que está escrito é de quase uma década.

É por isso que este capítulo não é sobre o exame. É sobre o papel que chega depois dele. O interno não faz a colonoscopia e não vai fazer tão cedo — mas é ele quem recebe o paciente com o envelope na mão, quem lê o anatomopatológico, quem escreve na evolução a data do próximo exame e quem responde à pergunta que a família vai fazer no corredor: "mas era câncer ou não era?". Retirar o pólipo é ato do endoscopista. Decidir o que fazer com o laudo é ato de quem está no ambulatório.

E há uma segunda camada, que aparece só quando alguém lê o laudo inteiro. Um número de pólipos fora do esperado para a idade, um parente com câncer de intestino jovem, um tumor de endométrio na mãe — cada um desses converte o caso de um problema individual num problema de família, com consequência para irmãos, filhos e sobrinhos que nunca entraram naquele consultório. Ninguém faz essa parte, porque ela não cabe na consulta e não tem código de procedimento. Ela cabe em três linhas escritas no encaminhamento.

03

Quem adoece disso

A doença que está no fim desta linha não é rara. A Estimativa 2026 do Instituto Nacional de Câncer projeta 53.810 casos novos de câncer de cólon e reto por ano no Brasil para cada ano do triênio 2026-2028, com taxa bruta de 25,11 casos por 100 mil habitantes — 26.270 em homens, a 25,16 por 100 mil, e 27.540 em mulheres, a 25,07 por 100 mil. A epidemiologia do tumor é assunto do capítulo de câncer colorretal desta apostila. O que interessa aqui é o degrau anterior: cada um desses casos passou anos como uma lesão que uma pinça teria removido.

A aritmética que governa o capítulo é a da desproporção. Quase todo câncer colorretal vem de um pólipo, e quase nenhum pólipo vira câncer. As duas frases são verdadeiras ao mesmo tempo, e é da tensão entre elas que nasce todo o problema prático: se a maioria dos pólipos é inofensiva, vigiar todos com o mesmo rigor desperdiça um recurso escasso; se alguns não são, tratar todos como iguais perde exatamente os que importavam.

O protocolo nacional de tratamento quantifica as duas vias. Cerca de 75% dos casos surgem de pólipos adenomatosos, pela via adenoma-carcinoma, com evolução que pode levar mais de vinte anos. Aproximadamente 15% vêm de pólipos serrilhados, pela via serrilhada. E, embora a maioria das lesões de qualquer das duas famílias não evolua para câncer, ambas se associam a risco aumentado — principalmente as avançadas, definidas como as de dez ou mais milímetros, com componente viloso ou com displasia de alto grau.

Guarde o número da via serrilhada, porque ele é contraintuitivo para quem aprendeu que pólipo é sinônimo de adenoma: um em cada sete cânceres colorretais não veio de adenoma nenhum. Vieram de lesões que, na colonoscopia, são planas, pálidas, do mesmo tom da mucosa, frequentemente cobertas por muco, e que ficam preferencialmente no cólon direito — o lugar onde o preparo é pior, a inspeção é mais rápida e o sangramento não aparece nas fezes. É a combinação exata que produz o câncer de intervalo, aquele que aparece entre duas colonoscopias consideradas normais.

A topografia também importa para entender por que o problema chega ao interno de duas portas diferentes. Cerca de 50% dos cânceres colorretais localizam-se no reto e no sigmoide e 30% no ceco, segundo o material do INCA sobre detecção precoce. A metade distal é a que sangra visível e a que o dedo alcança; a proximal é a que consome ferro em silêncio. As lesões precursoras seguem a mesma geografia, e é por isso que uma parte considerável dos pólipos que este capítulo discute foi encontrada em quem foi investigar anemia, não em quem foi investigar intestino.

Falta um número que ninguém no Brasil tem, e a ausência é informativa. Não existe registro nacional de pólipos: os sistemas de informação contam procedimentos de colonoscopia e contam casos de câncer, mas não contam adenomas removidos, nem taxa de detecção de adenoma por endoscopista, nem quantos pacientes voltaram no intervalo recomendado. Quando um serviço quer saber se está vigiando bem, precisa montar a própria contagem. A consequência prática, para quem atende, é que o único registro confiável de que aquele pólipo existiu é o papel que o paciente carrega — e é por isso que a primeira conduta deste capítulo é anexar o laudo ao prontuário e anotar a data.

Por fim, a posição do país. A Estimativa 2026 registra que no Brasil têm sido priorizados o diagnóstico precoce e a abordagem personalizada para situações de alto risco, e cita para isso a publicação do INCA de 2021. Quem já teve um pólipo adenomatoso ou serrilhado ressecado está, por essa mesma classificação, no grupo de alto risco — fora da população de risco médio, à qual as estratégias de rastreamento se dirigem. A pessoa que aparece com o envelope na mão não é candidata a rastreamento. Ela já saiu dessa fila e entrou em outra.

04

Por que acontece o que acontece

Pólipo é uma palavra de forma, não de natureza. Descreve qualquer saliência que se projeta da mucosa para a luz do intestino, e diz tanto sobre o que aquilo é quanto "caroço" diz sobre uma lesão de pele. Sob o mesmo nome cabem lesões que nunca virariam câncer em cem anos e lesões que já contêm carcinoma. É por isso que o endoscopista descreve, mas quem responde é o patologista — e por isso a frase "tiraram um pólipo" não é um diagnóstico, é um relato de forma.

A primeira família é a adenomatosa, e ela é a via clássica. O adenoma é uma proliferação epitelial displásica: as células já perderam a arquitetura normal da cripta, mas ainda estão contidas pela membrana basal. A partir daí a lesão acumula alterações genéticas, cresce, e a displasia de baixo grau pode passar a alto grau; quando as células atravessam a muscular da mucosa e alcançam a submucosa, deixa de ser adenoma e passa a ser carcinoma invasor. Esse percurso, o protocolo nacional descreve, pode levar mais de vinte anos e responde por cerca de 75% dos cânceres colorretais.

Duas coisas nessa via decidem conduta. A primeira é que displasia, mesmo de alto grau, ainda é lesão contida: adenoma com displasia de alto grau não é câncer, e dizer ao paciente que ele teve câncer porque o laudo trouxe essa expressão é um erro que produz sofrimento desnecessário e decisões erradas. A segunda é que o risco cresce com três atributos, e são exatamente os três que definem o pólipo avançado no protocolo nacional: dez ou mais milímetros de diâmetro, componente viloso, displasia de alto grau. Tamanho, arquitetura e grau — é o que se procura no laudo.

A arquitetura merece uma frase, porque o nome confunde. Adenoma tubular, tubuloviloso e viloso não são estágios de uma escada: são padrões de crescimento das glândulas. O tubular é o mais comum e o de menor risco; o viloso tem projeções digitiformes, é mais frequentemente grande e séssil, e carrega risco maior de já conter displasia de alto grau ou foco invasor. O componente viloso não aparece na colonoscopia — só no laudo. Quem não lê o anatomopatológico não sabe que ele existe.

A segunda família é a serrilhada, e é a que se subestima. O nome vem do aspecto em dentes de serra das criptas ao microscópio, e a família inclui, na descrição do INCA, os pólipos hiperplásicos, os pólipos serrilhados sésseis e os adenomas serrilhados tradicionais. Ela responde por aproximadamente 15% dos cânceres colorretais e usa uma via molecular diferente — não a do adenoma clássico —, o que tem uma consequência clínica direta: a progressão pode ser mais rápida. O material do INCA diz isso com todas as letras ao registrar que essas lesões, embora menos comuns, manifestam comportamento mais agressivo e crescimento mais rápido, sendo mais difíceis de diagnosticar.

Vale destrinchar por que são mais difíceis, porque a explicação é toda física e cada item dela é uma falha evitável. São planas ou apenas discretamente elevadas, sem o pedículo que denuncia o adenoma; têm a mesma cor da mucosa em volta, sem a vermelhidão do adenoma; costumam vir cobertas por uma capa de muco que o endoscopista precisa lavar para enxergar o que há embaixo; e se concentram no cólon direito, que é o segmento onde o preparo intestinal falha mais, onde as pregas escondem mais superfície e onde o aparelho passa mais depressa na saída. Uma lesão pálida, plana, coberta de muco, atrás de uma prega, num cólon mal preparado, é uma lesão que não será vista. Some-se a isso que ela sangra pouco, e o teste de sangue oculto — que funciona detectando sangue — também a perde.

A terceira categoria não é uma família de risco: é o pólipo hiperplásico pequeno, e ele é o motivo de metade do alívio e de metade da confusão. Pertence nosologicamente à família serrilhada, mas o hiperplásico pequeno e distal, no reto e no sigmoide, é a lesão sem significado do capítulo — tão comum que encontrá-la em alguém acima dos cinquenta anos é banal. Confundir a família com o membro produz os dois erros simétricos: chamar de "só hiperplásico" um pólipo serrilhado de quinze milímetros no cólon direito, e assustar quem tem um hiperplásico de quatro milímetros no reto.

Falta o mecanismo que explica por que a técnica da retirada entra na conta. Um pólipo pequeno e pediculado sai inteiro com um laço, e o patologista recebe a lesão com a base intacta: dá para dizer se a margem está livre e a que profundidade a lesão chegou. Uma lesão plana e grande frequentemente não sai inteira — sai em pedaços, no que se chama ressecção em partes. Aí duas informações se perdem de uma vez: não se sabe se sobrou tecido no leito, porque as bordas foram fragmentadas, e não se sabe a profundidade real, porque a peça não tem orientação. É por isso que a técnica, e não só a lesão, muda o intervalo do próximo exame — e por isso a ressecção em partes de uma lesão grande tem, na régua brasileira, o intervalo mais curto de toda a tabela.

Comparação entre pólipo pediculado, lesão séssil baixa e pálida e leito superficial após ressecção em fragmentos.
Morfologia, tamanho e técnica de ressecção influenciam a avaliação. Lesões baixas e pálidas podem ser discretas, mas a aparência não define a histologia. A retirada em fragmentos dificulta reconstruir margens; a vigilância depende do conjunto de achados, da qualidade e da completude da ressecção.
05

Como se apresenta de verdade

Pólipo não tem sintoma. Não dói, não sangra de forma perceptível na esmagadora maioria dos casos, não muda o hábito intestinal e não produz achado de exame físico. Isso significa que ele nunca é a queixa: ele é sempre a consequência de outra coisa — um exame pedido por outro motivo, um resultado que voltou, um parente que apareceu. Quem espera o pólipo se apresentar clinicamente vai encontrá-lo já como câncer, que é a única forma pela qual ele fala.

As apresentações abaixo, portanto, não são quadros clínicos. São as portas pelas quais o assunto entra na consulta, e cada uma delas pede uma pergunta diferente. O que elas têm em comum é que, em todas, o documento decisivo já existe e está com alguém — no envelope do paciente, no sistema do laboratório, ou na memória da irmã que teve câncer aos quarenta e três anos.

O envelope: o paciente que traz o laudo e a frase pronta

É a apresentação mais comum, e ela chega disfarçada de boa notícia. O paciente fez a colonoscopia, alguém lhe disse alguma coisa na sala de recuperação enquanto ele ainda estava sedado, e o que ficou foi a versão curta: "tiraram e está tudo bem". Ele traz os papéis por hábito, não porque ache que alguém vá lê-los.

Há dois documentos, e a diferença entre eles é o eixo do capítulo. O laudo da colonoscopia é do endoscopista e descreve o que ele viu e fez: quantas lesões, onde, de que tamanho, com que aspecto, retiradas de que jeito, e — o que muita gente pula — se o exame foi completo até o ceco e se o preparo foi adequado. O anatomopatológico é do patologista e diz o que aquilo era: tipo histológico, grau de displasia, e se a margem estava livre. Um laudo sem o outro não decide nada. É frequente que o paciente traga só o primeiro, porque o segundo ficou pronto depois e ninguém o convocou para buscá-lo.

A pergunta que abre esta consulta não é sobre sintoma. É: "o senhor tem o resultado da biópsia, aquele que sai uns dez dias depois?". Se ele não tem, a conduta da consulta muda inteiramente — o caso não pode ser encerrado, e o passo seguinte é conseguir o papel, não marcar retorno. Um pólipo retirado cujo anatomopatológico ninguém leu é, na prática, um pólipo cujo risco continua desconhecido.

E há a informação que não está em papel nenhum e que só o paciente tem: se o preparo funcionou de verdade. Pergunte se as fezes ficaram claras como água, se ele tomou a solução inteira, se vomitou parte dela. O laudo pode dizer "preparo adequado" tendo sido escrito por gentileza. Um paciente que conta que desistiu no meio do galão é um paciente cuja colonoscopia não tem a validade que o intervalo pressupõe.

O laudo que chega sem o paciente, e o pólipo achado por acaso

A segunda porta é administrativa e é a que mais perde gente. O anatomopatológico fica pronto e volta para o serviço, não para o paciente. Ele entra numa caixa de resultados, num sistema, numa pasta — e o paciente, que já foi embora aliviado, não tem motivo para voltar. Ninguém errou em nenhuma etapa, e o resultado é um adenoma com displasia de alto grau dormindo num arquivo.

É por isso que a conduta deste capítulo inclui um ato que parece burocrático e não é: quem pediu a colonoscopia é dono do resultado dela, e resultado sem dono não gera conduta. A regra prática cabe numa linha de evolução — anotar, na consulta em que se pede o exame, a data prevista do anatomopatológico e um retorno marcado depois dela.

A terceira variante é o achado incidental. Uma tomografia pedida por dor abdominal descreve "formação polipoide no cólon"; uma colonografia por tomografia, feita porque a colonoscopia falhou, mostra uma falha de enchimento. Nenhum desses exames retira nada e nenhum deles dá diagnóstico histológico: descrevem uma imagem. O que decide continua sendo a colonoscopia, e o que muda é apenas a prioridade do pedido. A doutrina geral do que fazer com achado incidental — quando investigar, quando não investigar, e o dano de investigar por investigar — é assunto do capítulo de prevenção quaternária e multimorbidade, na apostila de Medicina de Família e Comunidade; o que este capítulo assume é o recorte estreito: lesão polipoide descrita em imagem no cólon, em adulto, tem indicação de colonoscopia.

A quarta variante é a mais silenciosa: o pólipo encontrado numa colonoscopia que foi pedida para investigar outra coisa. Anemia ferropriva sem causa, o motivo mais frequente, é a porta de entrada de uma parte considerável desses pacientes — a investigação da anemia em si pertence ao capítulo de anemia ferropriva, na apostila de Hematologia e Hemoterapia, que é o dono dela. Aqui interessa apenas o que acontece depois: quando essa colonoscopia encontra e retira pólipos, o paciente sai da via da anemia e entra na deste capítulo, com um intervalo de vigilância que passa a valer independentemente de a anemia ter sido explicada ou não.

Quando o número, a idade ou a família tiram o caso do individual

Existe um ponto em que a leitura muda de escala: o caso deixa de ser sobre aquele paciente e passa a ser sobre uma família. Três gatilhos fazem essa virada, e todos os três estão à vista de quem lê o laudo com a anamnese ao lado.

O primeiro é a contagem. Adenomas são comuns depois dos cinquenta anos; dez, vinte, cem adenomas não são. A polipose adenomatosa familiar é descrita, no protocolo de regulação ambulatorial, como a presença de múltiplos pólipos colorretais, em geral acima de cem. Mas o gatilho de suspeita é bem anterior a cem: uma contagem cumulativa de dezenas de adenomas, sobretudo somando exames sucessivos, já é motivo para avaliação especializada. Some os pólipos de todas as colonoscopias, não os de uma só — é assim que a conta é feita, e é o passo que costuma faltar.

O segundo é a idade. Um adenoma avançado aos trinta e cinco anos não é o mesmo achado que aos sessenta e oito, mesmo com histologia idêntica. Pólipo em pessoa jovem pede, além do intervalo, a pergunta sobre a família — e a pergunta feita por extenso, não em bloco. "Tem câncer na família?" recebe "não" com frequência de quem teve um pai com câncer de intestino aos cinquenta e uma tia com câncer de útero aos quarenta e sete.

O terceiro é a história familiar de tumores que andam juntos. Câncer colorretal e de endométrio na mesma família, em gerações sucessivas e em idades precoces, é o padrão que faz suspeitar de síndrome de Lynch. Os critérios de Amsterdã II, reproduzidos no protocolo de regulação ambulatorial de proctologia, pedem todos os seguintes: três ou mais familiares com neoplasias associadas à síndrome — adenocarcinoma colorretal, de endométrio, de intestino delgado, ou carcinoma de células transicionais de ureter ou pelve renal —, sendo um deles parente de primeiro grau dos outros dois; ao menos um diagnosticado antes dos cinquenta anos; duas ou mais gerações sucessivas acometidas; e exclusão de polipose adenomatosa familiar.

Repare no que os critérios exigem e no que isso significa na prática: eles pedem uma árvore genealógica, não uma frase. Preencher Amsterdã II leva alguns minutos de anamnese dirigida — quem, qual órgão, com que idade, de que lado da família — e é uma tarefa que o interno pode fazer inteira sozinho, sem exame nenhum. É, provavelmente, a coisa de maior rendimento por minuto neste capítulo.

Quando o laudo diz que o pólipo já era câncer

Uma minoria dos pólipos ressecados volta do patologista com carcinoma invasor. A frase que aparece no laudo costuma ser "adenocarcinoma invadindo a submucosa" ou "carcinoma invasor em pólipo adenomatoso", e ela produz uma cena previsível: o paciente foi informado de que o exame tinha resolvido, e agora está diante da palavra câncer.

É preciso separar duas coisas que o laudo pode dizer e que soam iguais. Carcinoma in situ ou carcinoma intramucoso é a lesão que não atravessou a muscular da mucosa; no estadiamento do protocolo nacional ela é Tis, e a mucosa do cólon praticamente não tem drenagem linfática, de modo que o risco de metástase é considerado desprezível. Carcinoma invasor é a lesão que alcançou a submucosa; ela é T1, e a submucosa tem linfáticos — a partir dali existe risco de doença em linfonodo que a polipectomia, por definição, não removeu.

É essa diferença que explica a cena que dá título ao capítulo pelo avesso: por que às vezes se opera depois de uma colonoscopia que "resolveu". Não é que o endoscopista tenha falhado nem que a lesão tenha voltado. É que a peça retirada respondeu a uma pergunta que não podia ser feita antes — a que profundidade a lesão chegou — e a resposta abriu a possibilidade de doença fora do que foi retirado, num território que só uma ressecção com linfadenectomia alcança.

O protocolo nacional lista os cinco atributos que, presentes todos, fazem a ressecção endoscópica ser considerada curativa nos estádios 0 e I: invasão de até 1.000 micra da submucosa; ausência de invasão angiolinfática; histologia bem diferenciada; ausência de tumor budding; margens livres. Mil micra é um milímetro — o corte é de profundidade absoluta, não de proporção. Faltando qualquer um dos cinco, ou sendo qualquer um deles não avaliável, a decisão passa a ser de equipe cirúrgica e não do ambulatório.

O que o interno faz aqui é limitado e é decisivo. Ele lê o laudo procurando os cinco itens pelo nome; identifica quais estão presentes, quais estão ausentes e quais o laudo não menciona; e encaminha, com essa leitura escrita. O ato cirúrgico e a decisão entre operar e vigiar pertencem ao serviço de coloproctologia e à discussão multidisciplinar. O estadiamento e o tratamento do adenocarcinoma confirmado pertencem ao capítulo de câncer colorretal desta apostila, que é o dono deles — inclusive dos prazos legais que passam a correr da data do laudo.

A família que descobre junto: o parente que aparece por causa de outro

A quinta porta é a que quase nunca é reconhecida como porta. Um paciente saudável, sem queixa, vem porque a irmã foi operada de câncer de intestino e alguém disse que ele deveria "fazer um exame". Ele não sabe a idade dela ao diagnóstico, não sabe o estádio, não trouxe papel. É uma consulta de quinze minutos que decide a década em que aquela pessoa começará a ser examinada.

O que ela precisa produzir é um conjunto pequeno de dados: quem na família, qual órgão, com que idade ao diagnóstico, e se houve estudo genético em alguém. A idade do familiar mais jovem ao diagnóstico é o número operacional — é dele que sai a idade de início do rastreamento do parente. A régua brasileira de rastreamento por história familiar está no protocolo de regulação ambulatorial e é assunto do capítulo de câncer colorretal desta apostila, que a ensina inteira; aqui ela entra como consequência do laudo do caso-índice, e a fronteira está declarada nos dois sentidos.

O que este capítulo assume, porque não tem dono em outro lugar do nível, é o que muda quando o caso-índice não é câncer, e sim pólipo. Um parente com pólipo adenomatoso avançado — não com câncer — é, no protocolo de regulação ambulatorial de proctologia, motivo de rastreamento do familiar pela mesma régua do câncer colorretal. É uma informação que quase ninguém dá espontaneamente, porque o próprio caso-índice não a considera relevante: "não teve câncer, só tirou uns pólipos". Pergunte pelo pólipo, não só pelo câncer.

Na polipose adenomatosa familiar confirmada em um parente, a régua nacional é a mais precoce de todas e vale a pena decorá-la: colonoscopia a partir dos dez anos de idade, a cada um a dois anos, com ajuste conforme os exames anteriores, a idade e o tipo de mutação. Dez anos — não é erro de leitura, e é a idade em que a criança da família de um paciente com polipose precisa entrar num programa. Quem escreve o encaminhamento do caso-índice tem, portanto, uma obrigação que ultrapassa o paciente sentado à frente.

Quem foge do padrão

O idoso frágil é o primeiro. A vigilância paga em anos: uma lesão removida hoje só teria virado câncer daqui a mais de uma década. Manter colonoscopias de vigilância em quem tem expectativa de vida menor que esse intervalo é submeter alguém a preparo, sedação e risco de perfuração sem possibilidade de benefício. A pergunta não é a idade no documento — é quanto tempo esta pessoa tem para se beneficiar, e ela se faz antes de renovar cada pedido.

O paciente com doença inflamatória intestinal é o segundo, e ele sai deste capítulo. A vigilância na retocolite ulcerativa e na doença de Crohn tem lógica própria: procura displasia em mucosa cronicamente inflamada, não pólipo em mucosa normal, e sua régua depende de extensão e duração da doença. Esse assunto pertence ao capítulo sobre a diarreia que não é infecciosa, na apostila de Gastroenterologia, que é o dono da doença inflamatória intestinal e da vigilância nela. Um pseudopólipo inflamatório num paciente com retocolite não é um adenoma e não entra na tabela deste capítulo.

O terceiro é quem já teve câncer colorretal tratado. A colonoscopia dessa pessoa não é vigilância de pólipo: é acompanhamento pós-cirúrgico, com régua própria no protocolo nacional de tratamento — colonoscopia um ano após a cirurgia, repetida conforme os achados, com três a cinco anos se não houver pólipo ou houver pólipo de baixo grau, e um ano se houver adenoma de alto grau. Quem é dono desse seguimento é o capítulo de câncer colorretal desta apostila. A confusão prática é frequente e vale nomear: um paciente operado de câncer há quatro anos que agora teve dois adenomas pequenos ressecados não volta para a régua deste capítulo — ele segue na do pós-operatório, que é mais estreita.

O quarto é o paciente cuja colonoscopia foi incompleta ou com preparo ruim. Ele não tem intervalo, porque não tem exame: a régua brasileira condiciona expressamente todas as suas recomendações a colonoscopia realizada e completa, até o ceco ou o íleo, com bom preparo intestinal, e com as lesões ressecadas — não apenas biopsiadas. Aplicar a tabela a um exame que parou no ângulo esplênico é fabricar uma tranquilidade que o documento não autoriza. O que esse paciente precisa é de repetir o exame, com o motivo escrito no pedido.

E o quinto é o paciente que sangrou depois da polipectomia. Sangramento pós-polipectomia é a complicação mais comum do procedimento, pode aparecer dias depois da alta, e o manejo dele — estratificação, ressuscitação, indicação de colonoscopia de urgência — pertence ao capítulo de hemorragia digestiva baixa, na apostila de Cirurgia do Aparelho Digestivo, que é o dono do sangramento baixo e do sangramento pós-polipectomia. O que este capítulo pede é apenas que a conversa de alta antecipe o sinal: sangue vivo em quantidade, tontura ou fraqueza nos dias seguintes ao exame é motivo de pronto-socorro, e não de esperar o retorno.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação deste capítulo não se faz pedindo exame. Ela se faz lendo dois documentos que já existem, na ordem certa, procurando itens nomeados. É uma tarefa de dez minutos que quase ninguém executa por inteiro, e é a única coisa que separa um intervalo de dez anos de um intervalo de seis meses.

A régua brasileira que governa esse intervalo tem um pré-requisito explícito, e ele vem antes de qualquer linha da tabela: as recomendações valem para colonoscopia realizada e completa — até o ceco ou o íleo, com bom preparo intestinal — e com as lesões ressecadas, não apenas biopsiadas. Quem aplica a tabela sem conferir esse pré-requisito está usando uma régua fora da condição em que ela foi escrita.

Primeiro documento: o laudo da colonoscopia, e as quatro perguntas que o validam

A primeira pergunta é se o exame alcançou o ceco. Um exame que parou antes examinou parte do cólon e deixou o resto sem informação — e o resto inclui, justamente, o segmento onde ficam as lesões serrilhadas mais difíceis. O laudo costuma registrar isso de forma discreta, numa frase sobre a chegada à válvula ileocecal ou ao apêndice cecal, ou com uma foto do fundo do ceco. Se não está escrito, não se pode presumir.

A segunda é se o preparo foi adequado. Preparo ruim tem uma consequência aritmética direta: reduz a proporção da mucosa que foi de fato vista, e portanto reduz a validade do intervalo que se vai prescrever. Alguns laudos trazem escala formal de qualidade do preparo, outros trazem apenas um adjetivo. Vale somar a informação do paciente, que é quem sabe se as fezes ficaram claras. Preparo declarado inadequado transforma a conduta: em vez de aplicar a tabela, repete-se o exame.

A terceira é o inventário das lesões: quantas foram encontradas, de que tamanho cada uma, e em que segmento. As três informações entram na tabela. O número, porque as faixas mudam entre uma a duas, três a quatro e cinco ou mais. O tamanho, porque dez milímetros é o corte que separa dois intervalos. A topografia, porque uma lesão serrilhada no cólon direito não tem o mesmo peso que um hiperplásico no reto — e porque, se o paciente vier a precisar de nova abordagem, alguém vai precisar saber onde procurar.

A quarta é a técnica de ressecção, e é a que mais se pula. O laudo diz se a lesão saiu inteira, em bloco, ou se saiu em partes. Ressecção em partes de lesão grande é, na régua brasileira, a única situação de toda a tabela cujo intervalo é medido em meses e não em anos. Se o laudo não diz, pergunte ao serviço — essa informação não está no anatomopatológico e não se deduz do tamanho.

Há um quinto item que não é pergunta, é registro: anexe o laudo ao prontuário. Não existe registro nacional de pólipos, e o intervalo que se vai prescrever daqui a três, cinco ou dez anos depende de um papel que hoje está com o paciente. Anexar o documento e escrever na evolução a data do exame, o número e o tamanho das lesões é o que permite a alguém, numa outra consulta, em outro serviço, tomar a decisão certa.

Segundo documento: o anatomopatológico, e as cinco linhas que mudam o intervalo

O tipo histológico é a primeira linha e a que separa as famílias. Adenoma — tubular, tubuloviloso ou viloso — é a via clássica. Lesão serrilhada séssil e adenoma serrilhado tradicional são a via serrilhada. Pólipo hiperplásico é a lesão banal do reto e do sigmoide, com a ressalva de tamanho que vem adiante. Pólipo inflamatório, pólipo juvenil isolado e lipoma não são lesões pré-malignas e não geram intervalo de vigilância — encontrá-los num laudo é motivo de alívio legítimo, e vale dizê-lo ao paciente com essas palavras.

O grau de displasia é a segunda, e ela tem exatamente dois valores: baixo grau e alto grau. Alto grau encurta o intervalo e muda o nível de atenção. E aqui mora uma armadilha de linguagem que produz sofrimento: displasia de alto grau não é câncer. O laudo pode usar, em vez dela, expressões como carcinoma in situ ou carcinoma intramucoso, que descrevem a mesma condição contida acima da muscular da mucosa. Nenhuma dessas expressões significa que o paciente tem câncer com risco de metástase — e a diferença precisa ser dita explicitamente na consulta, porque o paciente vai ler o papel.

A arquitetura é a terceira, e ela é a que o intervalo brasileiro esquece. Tubular, tubuloviloso, viloso: o componente viloso integra a definição de pólipo avançado no protocolo nacional de tratamento, ao lado do tamanho e do grau de displasia. Ele não aparece na colonoscopia e só existe neste documento. Guarde-o, porque a tabela de seguimento em vigor no país não tem linha para ele — o que este capítulo trata adiante, porque é uma lacuna e não um detalhe.

A margem é a quarta. A pergunta é se a base da lesão está livre de tecido displásico, e o laudo pode responder de três maneiras: livre, comprometida, ou não avaliável. As duas últimas são equivalentes na prática, porque nas duas não se pode afirmar que a lesão foi removida por inteiro. Margem não avaliável é o desfecho típico da ressecção em fragmentos, e é o motivo pelo qual a técnica entra na conta.

A profundidade da invasão é a quinta, e ela só aparece quando há carcinoma invasor. Procure, nomeadamente, os cinco atributos que o protocolo nacional exige para considerar curativa a ressecção endoscópica: invasão de até 1.000 micra da submucosa, ausência de invasão angiolinfática, histologia bem diferenciada, ausência de tumor budding, margens livres. Escreva no encaminhamento quais estão presentes, quais estão ausentes e quais o laudo simplesmente não menciona — a terceira categoria é a mais importante, porque atributo não mencionado não é atributo favorável.

Uma nota sobre como pedir o que falta. Se o laudo não traz grau de displasia, ou não descreve a margem, ou não diz se houve invasão, isso não é um defeito irremediável: os blocos de parafina ficam guardados no serviço de patologia, e é possível solicitar revisão ou laudo complementar. Escrever "solicito complementação do laudo quanto ao grau de displasia e ao estado da margem profunda, referente ao exame de tal data" é um pedido corriqueiro, e é bem mais rápido que repetir uma colonoscopia.

O intervalo: qual régua o Brasil usa, e desde quando

Vale dizer com clareza qual é a situação documental, porque ela surpreende. Não existe protocolo clínico do Ministério da Saúde sobre seguimento pós-polipectomia. O protocolo nacional de adenocarcinoma de cólon e reto, de novembro de 2025, trata do tumor já diagnosticado e declara expressamente que a avaliação de um programa de rastreamento está fora do seu escopo; a régua de seguimento que ele traz é a do pós-operatório de câncer, não a do pólipo. E a publicação do INCA sobre detecção precoce, de 2021, classifica o risco mas não fixa intervalos.

A régua que o país de fato usa está nos protocolos de regulação ambulatorial do TelessaúdeRS-UFRGS, feitos com a Secretaria Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul e distribuídos nacionalmente para orientar o encaminhamento da atenção primária. Ela aparece duas vezes: no Quadro 4 do protocolo de proctologia adulto, versão digital de 26 de julho de 2021, e no Quadro 11 do protocolo de gastroenterologia adulto, terceira edição, de 2025. Os dois quadros são idênticos linha a linha, e ambos declaram-se adaptados de duas publicações internacionais de 2020. É essa a régua reproduzida na tabela deste capítulo.

Registrar a origem tem consequência prática, e não é preciosismo bibliográfico. Um documento de regulação ambulatorial existe para dizer quem encaminhar e para onde; ele não passou por consulta pública nacional, não é portaria, e não vincula o gestor da mesma forma que um protocolo clínico. Quando um serviço adota outra tabela — uma diretriz de sociedade, um protocolo institucional —, ele não está descumprindo norma nacional, porque não há norma nacional a descumprir. O que se pede do interno, nesse cenário, é o que sempre se pede quando a régua é frouxa: escrever qual régua usou e por quê.

A tabela tem uma coluna que a maioria das versões estrangeiras não tem e que é a mais útil no Brasil: o nível de atenção. Ela diz não só quando repetir, mas onde — parte das situações fica na atenção primária e parte vai para serviço especializado, com a justificativa declarada de que profissionais experientes e melhores equipamentos aumentam a taxa de detecção. E acrescenta uma instrução operacional que se perde na leitura apressada: o encaminhamento à atenção especializada deve ser feito no momento oportuno, conforme o intervalo indicado. Ou seja, encaminhar em três anos, e não hoje, para um paciente cujo intervalo é de três anos — encaminhar imediatamente entope a fila e não antecipa nada.

O custo dos dois erros, e por que ele não é simétrico

Vigiar tarde demais custa o que o capítulo inteiro tenta evitar: a lesão que restou, ou a que surgiu, tem tempo de progredir. O dano tem uma característica que o torna especialmente traiçoeiro — ele é invisível no momento em que se comete. Ninguém vê nada acontecer ao prescrever dez anos para quem precisava de três; o custo aparece sete anos depois, num outro serviço, com outro médico.

O erro por atraso tem três formas distintas, e vale nomeá-las porque as soluções são diferentes. A primeira é aplicar o intervalo errado — ler a tabela mal, ou aplicar a linha do adenoma pequeno a um paciente que também tinha uma lesão serrilhada grande. A regra que evita: quando há várias lesões, vale sempre a mais grave delas, e a contagem é a de todas somadas. A segunda é aplicar o intervalo certo a um exame que não o suporta — colonoscopia incompleta ou com preparo ruim. A terceira, e a mais comum de todas, é prescrever o intervalo correto e não ter ninguém encarregado de convocar o paciente daqui a três anos.

Vigiar cedo demais também custa, e o custo é mais concreto do que parece. Cada colonoscopia de vigilância desnecessária é preparo, sedação, jejum, um dia de trabalho perdido e um risco pequeno mas real de perfuração e de sangramento — e é, sobretudo, uma vaga a menos. A vaga de colonoscopia é o recurso escasso deste capítulo e do vizinho, e ela é disputada por três populações: quem tem sintoma, quem tem rastreamento positivo e quem está em vigilância. Antecipar a vigilância de um paciente de baixo risco significa, num sistema com fila, adiar a colonoscopia de alguém que está sangrando.

A assimetria entre os dois erros muda com o paciente, e é isso que impede uma regra única. Num adulto de cinquenta e cinco anos, funcional, com décadas pela frente, o custo de vigiar tarde demais é maior — ele tem tempo de sobra para desenvolver o câncer que a lesão deixada produziria. Num paciente de oitenta e dois anos com insuficiência cardíaca avançada, a conta se inverte por inteiro: o benefício de encontrar um adenoma é remoto e o risco do preparo e da sedação é imediato. A pergunta que resolve os dois casos é a mesma, e é uma pergunta de geriatria e não de endoscopia: quanto tempo esta pessoa tem para se beneficiar?

Há um erro de terceiro tipo, que não é de intervalo e sim de categoria: continuar pedindo pesquisa de sangue oculto a quem está em vigilância de pólipo. Ela não substitui a colonoscopia de vigilância nem antecipa nada — a régua brasileira só a menciona como alternativa nas duas situações de menor risco da tabela, e ainda assim como consideração sujeita a avaliação clínica. Em quem tem adenoma avançado, lesão serrilhada grande ou ressecção incompleta, um sangue oculto negativo é um resultado sem indicação cujo único efeito previsível é adiar o exame que importava.

Quando o laudo levanta síndrome: o que se pergunta, o que se pede e a quem se encaminha

Diante de contagem alta de pólipos, idade precoce ou história familiar sugestiva, a conduta brasileira é explícita e curta: o protocolo de regulação ambulatorial de proctologia determina que o rastreamento de paciente com história familiar ou suspeita de síndrome de Lynch ou de polipose adenomatosa familiar seja feito em serviço especializado de genética e gastroenterologia. Não é o ambulatório geral que estabelece o diagnóstico, e não é ele que pede teste genético.

O que é do ambulatório é o levantamento, e ele é a parte que costuma faltar quando o paciente chega ao serviço especializado. Monte a árvore com três gerações, de ambos os lados: para cada parente com câncer, o órgão acometido, a idade ao diagnóstico e o grau de parentesco. Some, além do colorretal, os tumores que compõem o espectro da síndrome de Lynch — endométrio, intestino delgado e vias urinárias altas, na lista dos critérios de Amsterdã II; o glossário do INCA acrescenta estômago, ovário e mama. Registre também quem já fez colonoscopia na família e com que resultado, e se alguém já fez estudo genético.

O protocolo de regulação ambulatorial de proctologia transforma esse levantamento num campo obrigatório do encaminhamento, e vale copiá-lo como roteiro: história familiar de outras neoplasias compatíveis com síndrome de Lynch — sim ou não; se sim, quais órgãos acometidos, se há gerações sucessivas acometidas, e a idade dos familiares ao diagnóstico com o grau de parentesco. Um encaminhamento que responde a esses quatro itens chega ao geneticista pronto para uso; um que diz "história familiar positiva" volta.

Do lado do tumor já diagnosticado, existe um exame que muda o rumo da família inteira e que se pede pelo serviço que trata: o teste imuno-histoquímico da amostra tumoral para avaliar a proficiência das enzimas de reparo, recomendado pelo protocolo nacional para todos os pacientes com adenocarcinoma de cólon e reto. Perfil instável leva a avaliar síndrome de Lynch. Esse pedido é do capítulo de câncer colorretal desta apostila, que é dono da conduta no tumor confirmado; entra aqui porque é frequentemente o resultado dele que converte o caso de um paciente num caso de família.

Sobre a polipose adenomatosa familiar, três informações operacionais. Ela é descrita no protocolo de regulação ambulatorial como múltiplos pólipos colorretais, em geral acima de cem. O rastreamento dos parentes começa aos dez anos de idade e se repete a cada um a dois anos, com ajuste conforme os exames anteriores, a idade e o tipo de mutação. E ela tem manifestações fora do cólon, o que significa que o paciente encaminhado à genética não sai do circuito de outras especialidades: o nódulo de tireoide em pessoa com polipose adenomatosa familiar é citado, entre as síndromes hereditárias de risco, no capítulo sobre o nódulo que ninguém foi procurar, na apostila de Cirurgia de Cabeça e Pescoço, que é o dono do nódulo tireoidiano. Nenhum capítulo do nível é dono das manifestações extracolônicas da polipose como conjunto; este capítulo assume, portanto, apenas o mínimo operacional — declarar que elas existem, que a avaliação delas é do serviço de genética, e que o encaminhamento deve dizê-lo por escrito.

Sobre a síndrome de Lynch, a mesma delimitação. O rastreamento ginecológico das mulheres com a síndrome é assunto do capítulo sobre o sangramento depois da menopausa, na apostila de Ginecologia, que é o dono do câncer de endométrio e que traz os genes envolvidos, o risco de câncer de endométrio ao longo da vida e a régua de encaminhamento ao aconselhamento genético. A fronteira, nos dois sentidos: este capítulo é dono da suspeita levantada pelo laudo colorretal e do encaminhamento à genética; aquele é dono da vigilância endometrial e do que se faz com a mulher que sangra.

O que o SUS oferece — e o que a Rename não tem

A colonoscopia existe na rede pública e é o gargalo de todo este capítulo e do vizinho. Anatomopatológico existe nos serviços que fazem o exame. Imuno-histoquímica existe nos serviços habilitados em oncologia. Aconselhamento genético existe, mas é o recurso mais desigualmente distribuído dos quatro: há estados em que o serviço de genética de referência é único, e a fila para ele não é a mesma da colonoscopia.

O elenco de medicamentos tem um achado que reorganiza o planejamento e que quase ninguém verifica. Medido nome a nome na Rename 2024, depois de colar as palavras para que a hifenização da extração não escondesse nada: nenhuma solução de preparo de cólon consta da lista nacional. Não há entrada para polietilenoglicol, macrogol, manitol, fosfato de sódio, picossulfato, citrato de magnésio nem bisacodil. É a mesma medida registrada pelo capítulo de hemorragia digestiva baixa, na apostila de Cirurgia do Aparelho Digestivo, e ela vale aqui pelo mesmo motivo com uma consequência diferente: no sangramento agudo, o preparo é obtido pelo estoque hospitalar; na vigilância ambulatorial, ele é frequentemente comprado pelo paciente.

O elenco da sedação tem um achado próprio, medido por esta frente, e ele é mais estreito do que se imagina. Propofol e fentanila não constam da Rename 2024. Midazolam consta uma única vez, e na apresentação de solução oral a 2 mg/mL, do Componente Básico — não há apresentação injetável na lista. Hioscina e simeticona, usadas respectivamente como antiespasmódico durante o exame e como antiespumante no preparo, também não constam. Em outras palavras: da colonoscopia, que é o único instrumento capaz de interromper a história natural desta doença, nem o preparo nem a sedação estão na lista nacional de medicamentos essenciais.

Isso não significa que o exame não aconteça — significa que ele depende de aquisição hospitalar e de política local, e que a variação entre serviços é maior do que a variação entre protocolos. Para quem atende, a leitura prática é direta e cabe na consulta: pergunte se o paciente vai precisar comprar o preparo antes de prescrever um intervalo, porque um exame que ele não tem como custear é um exame que não vai acontecer. Um preparo mal feito por economia — meio galão em vez do galão inteiro — produz exatamente a colonoscopia que não sustenta o intervalo que a tabela prescreve.

Uma nota final sobre o que este capítulo deliberadamente não prescreve. Não há fármaco que previna pólipo com indicação estabelecida nos documentos brasileiros consultados: nem ácido acetilsalicílico, nem anti-inflamatório, nem suplemento. O ácido acetilsalicílico consta da Rename 2024, em comprimidos de 100 mg e de 500 mg, mas por indicações que nada têm a ver com este capítulo. A prevenção que os documentos nacionais sustentam é comportamental — o protocolo nacional recomenda evitar totalmente o consumo de carnes processadas e limitar a carne vermelha a até 500 gramas de carne cozida por semana, e registra que cada porção de 50 gramas de carne processada consumida diariamente aumenta em 18% o risco de câncer de cólon e reto.

07

A régua do laudo

Use uma referência identificada, sem combinar intervalos de documentos diferentes. O percurso principal adota ESGE 2020 para vigilância após ressecção completa em colonoscopia de boa qualidade; as tabelas regionais ficam como comparação documental. Ressecção incerta, carcinoma invasor e suspeita de síndrome hereditária exigem avaliação específica antes de aplicar o calendário comum.

  1. 1Paciente com colonoscopia recente e pólipo ressecado. Peça os dois documentos: o laudo da colonoscopia e o anatomopatológico. Sem o segundo, não há intervalo a prescrever — a conduta é obter o resultado, não marcar retorno.
  2. 2Valide o exame antes de aplicar qualquer tabela: alcançou o ceco? preparo adequado? as lesões foram ressecadas e não apenas biopsiadas? Se qualquer resposta for não, a conduta é repetir o exame, com o motivo escrito no pedido.
  3. 3Faça o inventário: quantas lesões, de que tamanho cada uma, em que segmento, e retiradas em bloco ou em partes. A contagem é a de todas as lesões somadas, e quando há mais de uma vale sempre a mais grave.
  4. 4Leia o anatomopatológico procurando cinco itens nomeados: tipo histológico, grau de displasia, arquitetura (tubular, tubuloviloso, viloso), estado da margem, e presença ou não de invasão da submucosa. O que o laudo não menciona não é favorável — é ausente.
  5. 5Se houver carcinoma invasor, procure os cinco atributos de ressecção curativa do protocolo nacional: invasão de até 1.000 micra da submucosa, ausência de invasão angiolinfática, histologia bem diferenciada, ausência de tumor budding, margens livres. Faltando ou sendo não avaliável qualquer um deles, encaminhe à coloproctologia com a leitura escrita.
  6. 6Sem carcinoma invasor e com ressecção completa, aplicar a referência identificada: ESGE 2020 no percurso principal. Registrar o achado determinante e a data; se houver resíduo ou dúvida de retirada, resolver essa pendência antes da vigilância de longo prazo.
  7. 7Organizar o acesso ao endoscopista ou serviço especializado em tempo de cumprir o plano. Ressecção incompleta, histologia preocupante ou suspeita hereditária pede avaliação antecipada; não adiar automaticamente o encaminhamento até perto da data do exame.
  8. 8Pergunte pela família por extenso: quem, qual órgão, com que idade ao diagnóstico, de que lado. Some os tumores do espectro da síndrome de Lynch, não só o colorretal. Pergunte também por pólipo avançado em parente, não apenas por câncer.
  9. 9Contagem alta de pólipos, idade precoce ou árvore familiar sugestiva: encaminhe a serviço especializado de genética e gastroenterologia, com os quatro itens de história familiar preenchidos por escrito.
  10. 10Antes de encerrar, faça a conversa: o que foi tirado, o que aquilo significava, por que ele precisa voltar, e em que data. E anexe os dois laudos ao prontuário — o intervalo que alguém vai aplicar daqui a anos depende desse papel existir.
Achado após ressecção completa e exame adequadoESGE 2020Observação clínica
1–4 adenomas <10 mm com displasia de baixo grau, ou pólipos serrilhados <10 mm sem displasiaRetorno ao rastreamento; se não houver programa organizado, colonoscopia em 10 anosNão aplicar a síndromes de polipose; confirmar qualidade e ressecção completa.
Adenoma ≥10 mm, displasia de alto grau, ≥5 adenomas, ou serrilhado ≥10 mm/com displasiaVigilância em 3 anosContagem elevada ou história sugestiva também pede avaliação hereditária.
Ressecção em fragmentos de pólipo ≥20 mmControle precoce em 3–6 meses; nova vigilância 12 meses depois desse controleConferir cicatriz e tratamento de eventual resíduo com endoscopista.
Ressecção incompleta ou certeza insuficiente, inclusive lesão menorReavaliação individualizada com o endoscopistaO intervalo de vigilância pressupõe remoção completa; não aguardar anos para resolver resíduo.
Carcinoma invasor ou suspeita de síndrome hereditáriaPercurso especializado próprioNão aplicar a tabela padrão; integrar histologia, risco e antecedentes.

Os dois laudos, linha a linha: o que procurar e o que cada item muda

Onde estáO itemO que muda quando aparece
ColonoscopiaExame completo até o ceco ou o íleoPré-requisito de toda a régua. Exame incompleto não tem intervalo: tem indicação de repetição
ColonoscopiaQualidade do preparoPreparo inadequado invalida o intervalo pela mesma razão. Some ao laudo o relato do paciente sobre a cor das fezes
ColonoscopiaNúmero de lesões e tamanho de cada umaDefinem a faixa da tabela: 1 a 2, 3 a 4, 5 ou mais; e o corte de 10 mm. A contagem soma todas as lesões do exame
ColonoscopiaSegmento onde estavamLesão serrilhada proximal pesa mais que hiperplásico distal, e a topografia é o que orienta quem for reabordar
ColonoscopiaRessecção em bloco ou em partesRessecção em partes de lesão de 20 mm ou mais é a única linha medida em meses. A informação não está no anatomopatológico
AnatomopatológicoTipo histológicoSepara adenoma, lesão serrilhada e hiperplásico — e identifica o que não é pré-maligno: pólipo inflamatório, juvenil isolado, lipoma
AnatomopatológicoGrau de displasia: baixo ou altoAlto grau encurta para 3 anos e muda o nível de atenção. Não é câncer, e a diferença precisa ser dita ao paciente
AnatomopatológicoArquitetura: tubular, tubuloviloso, vilosoComponente viloso integra a definição nacional de pólipo avançado — e não tem linha própria na régua de seguimento
AnatomopatológicoMargem: livre, comprometida ou não avaliávelMargem comprometida demonstra acometimento; não avaliável indica incerteza. Não são sinônimos, e a impressão endoscópica de retirada completa e a técnica precisam ser confrontadas com a histologia.
AnatomopatológicoInvasão da submucosa, quando há carcinomaAbre a pergunta cirúrgica. Procure os cinco atributos de ressecção curativa e escreva quais faltam ou não foram avaliados

Comparação documental regional — intervalos históricos; não misturar com ESGE 2020 do percurso principal

SituaçãoEdição de 8 de novembro de 2016Edição de 2021, mantida no protocolo de gastroenterologia de 2025
1 a 2 adenomas tubulares menores que 10 mm5 a 10 anos10 anos, na atenção primária
3 a 4 adenomas tubulares pequenos3 anos, em serviço especializado (faixa de 3 a 10 adenomas)10 anos, na atenção primária
Mais de 10 adenomasMenos de 3 anosSem linha própria: cai em 5 ou mais adenomas, 3 anos
Um ou mais adenomas com componente viloso3 anos, em serviço especializadoLinha ausente — o componente viloso desapareceu da tabela
Ressecção em partes de adenoma de 20 mm ou maisLinha ausente6 meses, em serviço especializado
Pólipos hiperplásicos pequenos10 anos, e só os situados no reto ou no sigmoideSem seguimento com colonoscopia, em qualquer topografia
Pólipo serrilhado séssil menor que 10 mm, sem displasia5 anos, em serviço especializadoAté 4: 10 anos na atenção primária. 5 ou mais: 3 anos em serviço especializado
Síndrome de polipose serrilhada1 ano, com a definição da síndrome em nota de rodapéLinha ausente — a síndrome desapareceu da tabela
Fonte declarada da tabelaPublicação secundária de 2015Duas publicações de 2020

Uma referência por percurso. Identifique a diretriz e sua edição antes de aplicar o intervalo. O fluxo principal usa ESGE 2020 nas condições descritas; comparações com tabelas regionais ajudam a explicar registros diferentes, mas não devem formar um calendário híbrido.

Qualidade do exame e da ressecção. O intervalo pressupõe colonoscopia de boa qualidade e retirada completa. Se essas condições não estão esclarecidas, a pergunta inicial é como completar a avaliação, e não em quantos anos repetir o exame de rotina.

Descrição histológica. Número, tamanho, tipo de pólipo e grau de displasia precisam estar disponíveis. Uma tabela resumida pode omitir uma categoria ou empregar “serrilhado” com sentido diferente. Leia o diagnóstico por extenso antes de escolher a linha.

Componente viloso. Sua presença pode receber peso diferente entre referências. Relacione o achado à diretriz adotada no percurso, em vez de transportar a definição de lesão avançada de um documento para o intervalo de outro.

Situações específicas. Carcinoma invasor, ressecção incerta e suspeita de síndrome hereditária exigem discussão própria. A ausência de uma linha numa tabela resumida não transforma esses casos em vigilância comum.

História familiar. Registre parentesco, tipo de câncer e idade ao diagnóstico. A idade de início e a frequência dos exames são perguntas diferentes; um protocolo que responde apenas à primeira não define sozinho todo o acompanhamento.

Epidemiologia. Taxas nacionais, regionais, brutas e ajustadas não são intercambiáveis. Confira população, período e medida antes de comparar números. A estimativa populacional contextualiza o problema, mas não escolhe o intervalo de um paciente após polipectomia.

Unidades do laudo. Mil micrômetros equivalem a 1 mm de profundidade; 10 mm equivalem a 1 cm de tamanho. Profundidade de invasão é uma medida absoluta no critério descrito, não uma fração da submucosa. Preserve o ponto de referência anatômico informado pelo patologista.

Preparo e sedação. A organização da colonoscopia inclui acesso ao preparo, orientação de uso e recursos do serviço. A ausência de um produto na lista nacional citada não descreve todo o fornecimento institucional. Confirme como o paciente obterá o que foi prescrito.

Plano após a retirada. O resultado do procedimento precisa ser ligado ao laudo e ao próximo passo. “Tiraram” não informa histologia, completude nem necessidade de seguimento; registre esses elementos antes de encerrar a consulta.

08

A conduta, hora a hora

A linha do tempo deste capítulo é longa e cheia de buracos, e os buracos não são clínicos: são administrativos. Ninguém esquece de encaminhar o paciente com carcinoma invasor. Todo mundo esquece de convocar, daqui a três anos, o paciente com adenoma de doze milímetros — porque nesse dia não há consulta marcada, não há queixa e não há ninguém encarregado.

Os marcos abaixo são os pontos em que alguém precisa fazer alguma coisa, e o interno aparece em quase todos. Dois deles não custam recurso nenhum e mudam desfecho: ler o anatomopatológico inteiro, e escrever no prontuário a data-alvo do próximo exame junto com a lesão que a determinou.

  1. Consulta em que o paciente chega com o envelope — dia 0

    É a consulta que decide tudo, e ela costuma ter começado por outro motivo. Nada do que se faz aqui depende de recurso: dois documentos, uma leitura, uma anamnese familiar e duas linhas escritas.

    Prescrição
    • Pedir os dois documentos e conferir se os dois estão presentes: laudo da colonoscopia e anatomopatológico. Se o segundo faltar, o caso não se encerra hoje
    • Validar o exame antes de qualquer tabela: exame completo até o ceco ou o íleo, preparo adequado, lesões ressecadas e não apenas biopsiadas — os três pré-requisitos declarados pela régua brasileira (protocolos de regulação ambulatorial, gastroenterologia adulto, 2025, Quadro 11)
    • Perguntar ao paciente como foi o preparo: se tomou a solução inteira, se vomitou, se as fezes ficaram claras como água. É a informação que o laudo pode ter escrito por gentileza
    • Fazer o inventário por escrito: número de lesões, tamanho de cada uma, segmento, e se a ressecção foi em bloco ou em partes
    • Ler o anatomopatológico procurando cinco itens nomeados: tipo histológico, grau de displasia, arquitetura, estado da margem, e presença ou não de invasão da submucosa
    • Colher a história familiar por extenso — quem, qual órgão, com que idade ao diagnóstico, de que lado —, incluindo os tumores do espectro da síndrome de Lynch e perguntando também por pólipo avançado em parente, não só por câncer
    • Anexar os dois laudos ao prontuário e registrar na evolução a data do exame, o achado principal e o intervalo prescrito
  2. Dias 1 a 15 — quando o anatomopatológico não veio

    Este é o marco que não tem consulta marcada e por isso desaparece. O resultado ficou pronto e voltou para o serviço, não para o paciente; ele foi embora aliviado e não tem motivo para procurar um papel que não sabe que existe.

    Prescrição
    • Localizar o resultado: contato com o serviço que fez o exame ou com o laboratório de patologia, com a data do procedimento em mãos
    • Registrar na evolução a pendência com a data — "anatomopatológico de polipectomia de [data] pendente, sem intervalo definido até a leitura" — para que qualquer colega que abra o prontuário veja um caso em aberto e não um caso resolvido
    • Marcar retorno com data e com finalidade explícita de ler o resultado, e não retorno genérico
    • Se o laudo vier incompleto — sem grau de displasia, sem descrição da margem —, solicitar complementação ao serviço de patologia, que guarda os blocos. É pedido corriqueiro e é mais rápido que repetir o exame
    • Não prescrever intervalo enquanto não houver histologia: intervalo dado sobre o laudo endoscópico apenas é palpite, porque tamanho e número não dizem tipo histológico nem grau de displasia
  3. Com os dois laudos na mão — a decisão do intervalo

    A decisão combina qualidade do exame, completude da ressecção, histologia e contexto do paciente. Contabilize adenomas e lesões serrilhadas nas categorias apropriadas, sem somar indiscriminadamente hiperplásicos pequenos à contagem de adenomas. Depois selecione o maior risco pertinente e registre a referência utilizada. A tabela descreve vigilância, não tratamento de pólipos deixados no cólon.

    Prescrição
    • Aplicar ESGE 2020 no percurso principal após exame adequado e remoção completa. Para lesão residual, carcinoma ou polipose, discutir plano próprio com o especialista.
    • Solicitar avaliação e organizar agendamento com antecedência compatível com a rede. Ressecção incerta ou suspeita de neoplasia/hereditariedade não deve aguardar o calendário de vigilância.
    • Registrar no prontuário três coisas na mesma frase: o intervalo, a data-alvo em mês e ano, e a lesão que determinou o intervalo
    • Entregar ao paciente essa mesma informação por escrito, com a data-alvo, e explicar que é ele quem vai precisar cobrá-la
    • Não solicitar pesquisa de sangue oculto como substituta da colonoscopia de vigilância: a régua só a menciona, e como consideração sujeita a avaliação clínica, nas duas situações de menor risco da tabela
    • Reavaliar a indicação de vigiar quando a expectativa de vida for menor que o intervalo: vigilância paga em anos, e a decisão de não vigiar é conduta, não omissão — registre-a com a justificativa
  4. Mesma consulta — quando o laudo levanta síndrome hereditária

    Contagem alta de pólipos, idade precoce ou árvore familiar sugestiva mudam a escala do caso. A conduta brasileira é curta: rastreamento de quem tem história familiar ou suspeita de síndrome de Lynch ou de polipose adenomatosa familiar se faz em serviço especializado de genética e gastroenterologia.

    Prescrição
    • Montar a árvore de três gerações, de ambos os lados, com órgão acometido e idade ao diagnóstico para cada parente — somando os tumores do espectro da síndrome de Lynch: colorretal, endométrio, intestino delgado e vias urinárias altas, e, no glossário do INCA, também estômago, ovário e mama
    • Somar os pólipos de todas as colonoscopias, não os de uma só: a contagem que levanta suspeita de polipose é cumulativa
    • Verificar os critérios de Amsterdã II item a item, como reproduzidos no protocolo de regulação ambulatorial de proctologia: três ou mais familiares com neoplasias da síndrome, um deles de primeiro grau dos outros dois; ao menos um diagnosticado antes dos 50 anos; duas ou mais gerações sucessivas; exclusão de polipose adenomatosa familiar
    • Encaminhar a serviço especializado de genética e gastroenterologia, com os quatro itens de história familiar do conteúdo descritivo mínimo respondidos por escrito: se há neoplasias compatíveis, quais órgãos, se há gerações sucessivas, e a idade dos familiares ao diagnóstico com o grau de parentesco
    • Não solicitar teste genético do ambulatório geral: a indicação, o aconselhamento pré-teste e a interpretação são do serviço de genética, e resultado devolvido sem aconselhamento produz dano
    • Orientar o paciente sobre o que dizer aos parentes, e registrar que a orientação foi dada — o médico não convoca a família de ninguém, mas o paciente pode, e ele precisa saber o que falar
  5. Em até 48 horas — quando o anatomopatológico traz carcinoma invasor

    É a única situação deste capítulo com relógio curto, e ela chega a um paciente que foi informado de que o exame tinha resolvido. Duas coisas acontecem no mesmo dia: um encaminhamento e uma conversa.

    Prescrição
    • Separar no laudo o que é carcinoma in situ ou intramucoso — lesão contida, que o estadiamento nacional classifica como Tis — do que é carcinoma invasor, que alcançou a submucosa e é T1
    • Procurar, nomeadamente, os cinco atributos de ressecção curativa do protocolo nacional: invasão de até 1.000 micra da submucosa, ausência de invasão angiolinfática, histologia bem diferenciada, ausência de tumor budding, margens livres (PCDT Adenocarcinoma de Cólon e Reto, 2025)
    • Escrever no encaminhamento quais dos cinco estão presentes, quais estão ausentes e quais o laudo não menciona — atributo não mencionado não é atributo favorável
    • Encaminhar à coloproctologia ou à cirurgia do aparelho digestivo com prioridade, anexando os dois laudos por inteiro; diagnóstico histopatológico de neoplasia maligna é condição de encaminhamento a esses serviços nos protocolos de regulação ambulatorial
    • Comunicar o achado presencialmente, com a técnica do capítulo de comunicação de más notícias, e com o próximo passo já marcado — nunca por telefone e nunca pelo balcão
    • Registrar em destaque a data do laudo patológico: é dela que correm os prazos legais do tratamento oncológico, e o dono desse assunto é o capítulo de câncer colorretal desta apostila
    • Não afirmar ao paciente que ele vai precisar de cirurgia antes da avaliação especializada, nem que não vai: a decisão entre operar e vigiar depende dos cinco atributos e é de equipe
  6. Meses 0 a 6 — o paciente com ressecção em partes de lesão grande

    Controle precoce do leito não é o mesmo que vigilância após ressecção completa. Na ESGE 2020, ressecção fragmentada de pólipo ≥20 mm pede controle em 3–6 meses; em lesão menor com retirada incerta, o plano deve ser individualizado com o endoscopista. Margem não avaliável não comprova resíduo, mas exige esclarecer a completude antes de aplicar intervalo de anos. Registrar objetivo, justificativa, responsável e data, organizando acesso ao exame.

    Prescrição
    • Prescrever colonoscopia de controle do leito em 6 meses, em serviço de referência, conforme a régua brasileira para ressecção em partes de adenoma de 20 mm ou mais
    • Emitir o encaminhamento com antecedência suficiente para que o exame aconteça na data — em fila de meses, encaminhar no quinto mês significa exame no décimo segundo
    • Escrever no pedido o motivo com essas palavras: controle de leito de ressecção em partes, com a data do procedimento anterior e o segmento onde a lesão estava
    • Registrar no prontuário a data-alvo e conferi-la em todo retorno até o exame acontecer
    • Orientar o paciente de que este exame não é repetição do anterior e não é opcional: ele responde a uma pergunta que o primeiro não pôde responder
  7. Antes de o paciente sair — a conversa e o que fica por escrito

    A frase que o paciente vai levar para casa é decidida aqui, e ela vale mais que o intervalo prescrito: se ele sair achando que está resolvido, nenhum intervalo o trará de volta.

    Prescrição
    • Dizer o que foi retirado, com a palavra certa, e o que aquilo significava — inclusive quando a resposta é tranquilizadora: pólipo hiperplásico pequeno, pólipo inflamatório e lipoma não são lesões pré-malignas, e dizê-lo é conduta
    • Desfazer explicitamente a confusão entre displasia de alto grau e câncer, se o laudo trouxer essa expressão ou as de carcinoma in situ e intramucoso: são lesões contidas, sem risco relevante de metástase
    • Dizer por que ele precisa voltar, com a data-alvo, e entregá-la por escrito — pólipo não dá sintoma, então nenhum aviso do corpo vai lembrá-lo
    • Combinar o sinal de alarme do pós-procedimento recente: sangue vivo em quantidade, tontura ou fraqueza nos dias seguintes ao exame é pronto-socorro, não retorno de agenda (o manejo pertence ao capítulo de hemorragia digestiva baixa, na apostila de Cirurgia do Aparelho Digestivo)
    • Orientar sobre o que a régua nacional de fato sustenta em prevenção: evitar totalmente carnes processadas e limitar a carne vermelha a até 500 gramas de carne cozida por semana (PCDT, 2025) — e não prescrever fármaco preventivo, que não tem indicação estabelecida nos documentos brasileiros
    • Registrar a orientação familiar dada e a quem ela se destina
  8. Três, cinco ou dez anos depois — a convocação, e a decisão de parar

    É o marco mais distante e o único que ninguém agenda. Uma data-alvo escrita no prontuário só vira exame se alguém a procurar — e, quando ela chega, a primeira pergunta não é qual exame pedir, é se ainda vale pedir.

    Prescrição
    • Recuperar o laudo antigo antes de renovar o pedido: o intervalo do próximo exame depende do achado do anterior, e sem o papel a decisão vira chute
    • Refazer a pergunta da expectativa de vida: vigilância paga em anos, e a colonoscopia com preparo e sedação é o que fica perigoso no idoso frágil. Rastrear ou vigiar quem não tem condição de fazer o exame produz ansiedade sem produzir decisão
    • Registrar a decisão de encerrar a vigilância como conduta, com a justificativa e com a conversa feita — interrupção não combinada é abandono, e o paciente descobre sozinho anos depois
    • Ao pedir o novo exame, escrever no pedido o achado anterior e a data: é isso que permite ao endoscopista reabordar o segmento certo e ao regulador priorizar
    • Reaplicar a régua sobre o exame novo, e não sobre o antigo: cada colonoscopia recomeça a contagem, com o inventário completo daquele exame
    • Se o exame novo for incompleto ou tiver preparo ruim, não prescrever intervalo: repetir, com o motivo escrito
09

Como saber se está funcionando

A pergunta "como sei se está funcionando" tem, neste capítulo, uma resposta desconfortável: o desfecho que interessa — o câncer que não aconteceu — é invisível por definição, e o intervalo entre a conduta e a consequência é medido em anos. Não há parâmetro clínico para acompanhar, não há exame de controle mensal, não há sintoma que melhore.

O que se pode acompanhar é o processo, e é isso que os parâmetros abaixo medem: se o resultado foi lido, se o intervalo foi escrito, se o paciente voltou, se o exame foi feito em condição de valer. Em quase todos, o modo de falhar é o mesmo — a pendência existe e não tem dono.

Chegada e leitura do anatomopatológicoAté 15 dias após a polipectomia, e em todo retorno até estar lido

Esperado: Laudo histológico localizado, lido por inteiro e anexado ao prontuário, com tipo, grau de displasia, arquitetura e margem registrados na evolução.

Se não melhora: Contatar o serviço que fez o exame ou o laboratório de patologia com a data do procedimento. Enquanto não houver histologia, não prescrever intervalo — registre a pendência com data em toda evolução, para que o caso não pareça encerrado a quem abrir o prontuário. Se o laudo vier sem grau de displasia ou sem descrição da margem, solicitar complementação ao serviço de patologia, que guarda os blocos: é mais rápido que repetir a colonoscopia.

Qualidade do exame que sustenta o intervaloNa leitura do laudo, antes de aplicar a régua

Esperado: Exame completo até o ceco ou o íleo, preparo declarado adequado e coerente com o relato do paciente, e lesões ressecadas e não apenas biopsiadas.

Se não melhora: Não aplicar a tabela. A régua brasileira condiciona expressamente todas as suas recomendações a esses três pré-requisitos, e prescrever dez anos sobre um exame que parou no ângulo esplênico é fabricar tranquilidade que o documento não autoriza. A conduta é repetir, com o motivo escrito no pedido — exame incompleto, ou preparo inadequado, com a data do anterior. Se o preparo foi o problema, resolva a causa antes: quem não tomou a solução inteira porque não conseguiu comprá-la vai repetir o mesmo preparo ruim.

Existência de uma data-alvo com donoAo fim da consulta em que o intervalo é decidido

Esperado: Intervalo, data-alvo em mês e ano, e a lesão que o determinou, registrados na evolução e entregues por escrito ao paciente.

Se não melhora: Intervalo prescrito sem data escrita é intervalo perdido: pólipo não dá sintoma, e nenhum aviso do corpo vai trazer o paciente de volta. Se o serviço não tem sistema de convocação — e a maioria não tem —, o dono possível é o próprio paciente, e para isso ele precisa do papel com a data e da explicação de por que ela existe. Registre também para quem a informação foi dada, porque em idoso com déficit cognitivo o dono da data é o acompanhante.

Colonoscopia de controle após ressecção em partesAos 6 meses da ressecção de adenoma de 20 mm ou mais retirado em fragmentos

Esperado: Exame realizado no prazo, em serviço de referência, com inspeção dirigida ao leito de ressecção.

Se não melhora: É a linha mais curta da régua e a que mais escapa, porque seis meses não soa como vigilância. Emitir o encaminhamento com antecedência: em fila de meses, encaminhar no quinto mês significa exame no décimo segundo. Escreva no pedido as palavras que dão prioridade — controle de leito de ressecção em partes, com a data do procedimento anterior e o segmento. Se o exame atrasou, não recalcule o intervalo para frente como se nada tivesse acontecido: o prazo continua vencido e o pedido continua prioritário.

Comparecimento na data-alvo do intervalo longoEm 3, 5 ou 10 anos, conforme a régua aplicada

Esperado: Paciente localizado, avaliado quanto à indicação de manter a vigilância, e exame solicitado com o achado anterior descrito no pedido.

Se não melhora: Este é o modo de falhar mais comum de todo o capítulo, e ele é silencioso. Ao reencontrar o paciente por qualquer motivo, procure no prontuário se há polipectomia prévia sem seguimento — a busca leva segundos e resgata casos. Recupere o laudo antigo antes de renovar o pedido: sem ele, o intervalo novo é chute. E refaça a pergunta da expectativa de vida antes de pedir: em quem não tem tempo de se beneficiar, encerrar a vigilância é conduta, e ela se registra com justificativa e com a conversa feita.

Encaminhamento à genética, quando houve suspeita de síndromeEm todo retorno até a consulta especializada acontecer

Esperado: Consulta em serviço de genética e gastroenterologia agendada, com os quatro itens de história familiar respondidos no encaminhamento.

Se não melhora: Se o encaminhamento voltou por informação insuficiente, o campo que costuma faltar é a árvore familiar com órgão e idade ao diagnóstico — reemita no mesmo dia com ele preenchido. Se a fila é longa, isso não paralisa o resto: a vigilância colonoscópica do próprio paciente continua pela régua do laudo dele, e a orientação aos parentes já pode ser dada com base na história familiar levantada. E confira, no retorno, se ele de fato conversou com os irmãos e filhos: a parte da conduta que depende do paciente é a que mais falha, e ela falha por falta de palavras, não por recusa.

Compreensão do paciente sobre o que aconteceu com eleAo final da consulta, e de novo no retorno seguinte

Esperado: O paciente sabe dizer, com as próprias palavras, o que foi retirado, se era ou não câncer, por que precisa voltar e em que data.

Se não melhora: Peça que ele repita o que entendeu antes de sair — é o único jeito de descobrir que ficou "deu tudo certo". Os dois mal-entendidos que mais aparecem têm correção específica: quem entendeu que teve câncer porque leu displasia de alto grau precisa ouvir que é lesão contida, sem risco relevante de metástase; e quem entendeu que está curado porque tiraram tudo precisa ouvir que a colonoscopia examina o cólon de hoje e que pólipos novos aparecem depois. Se ele sair achando que está resolvido, o intervalo prescrito é ficção.

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Onde o erro machuca

Aceitar "tiraram e está tudo bem" e não abrir o envelope

O dano: É o erro-assinatura deste capítulo, e ele é elegante porque a frase é quase sempre verdadeira em algum sentido: o procedimento correu bem mesmo. O que se perde é tudo o que só o anatomopatológico diz — tipo histológico, grau de displasia, componente viloso, estado da margem — e é exatamente isso que separa dez anos de seis meses. O paciente sai com a mesma frase reforçada por um médico, repete-a ao próximo, e o intervalo nunca é prescrito por ninguém. Quando o câncer aparece, sete anos depois, cada consulta do prontuário estará individualmente correta.

Como pegar a tempo: Trate "tiraram um pólipo" como um relato de forma, não como um diagnóstico. Peça os dois documentos por nome, na primeira frase da consulta: o laudo da colonoscopia e o resultado da biópsia, aquele que sai uns dez dias depois. Se o segundo não existe, a consulta não fecha o caso — ela abre uma pendência com data. E leia o anatomopatológico procurando cinco itens nomeados, não lendo em diagonal: tipo, grau de displasia, arquitetura, margem, invasão.

Aplicar a régua de seguimento a uma colonoscopia que não a sustenta

O dano: A régua brasileira condiciona expressamente todas as suas recomendações a exame completo até o ceco ou o íleo, com bom preparo e com lesões ressecadas — não apenas biopsiadas. Um exame que parou antes do ceco deixou sem informação justamente o cólon direito, que é onde ficam as lesões serrilhadas mais difíceis de ver. Prescrever dez anos sobre esse exame não é aplicar a régua: é inventar um resultado negativo para o segmento que ninguém examinou, e documentá-lo em prontuário.

Como pegar a tempo: Antes de olhar a tabela, confira os três pré-requisitos e some ao laudo a informação que só o paciente tem — se ele tomou a solução inteira e se as fezes ficaram claras como água. Preparo declarado adequado por gentileza é frequente. Quando qualquer pré-requisito falha, a conduta é repetir com o motivo escrito no pedido, e resolver antes a causa da falha: quem não conseguiu comprar o preparo vai repetir o mesmo preparo ruim.

Tratar todo pólipo serrilhado como se fosse hiperplásico banal

O dano: É o erro que produz o câncer de intervalo — aquele que aparece entre duas colonoscopias tidas por normais. A via serrilhada responde por aproximadamente 15% dos cânceres colorretais, e essas lesões, na descrição do próprio INCA, têm comportamento mais agressivo e crescimento mais rápido, sendo mais difíceis de diagnosticar. São planas, da cor da mucosa, cobertas de muco, atrás de pregas, no cólon direito, onde o preparo falha mais. Chamá-las de "só um hiperplásico" apaga de uma vez a única pista de que existiam.

Como pegar a tempo: Leia o tipo histológico com a topografia e o tamanho ao lado, e trate três atributos como sinais de alerta: lesão serrilhada, proximal ao sigmoide, ou de 10 milímetros ou mais, ou com displasia. Guarde a régua: até quatro serrilhados pequenos sem displasia repetem em dez anos, mas cinco ou mais, ou qualquer um de 10 milímetros ou mais ou com displasia, repetem em três anos e em serviço especializado. E lembre que hiperplásico é um membro da família serrilhada, não o oposto dela — a distinção que importa é tamanho e topografia, não o nome.

Perguntar "tem câncer na família?" e aceitar o "não"

O dano: A pergunta em bloco recebe "não" de quem teve um pai com câncer de intestino aos cinquenta, uma tia com câncer de útero aos quarenta e sete e um tio com "problema no rim". O que se perde é a única coisa capaz de mudar a década em que irmãos, filhos e sobrinhos começam a ser examinados — e, na polipose adenomatosa familiar, a régua nacional manda começar aos dez anos de idade. Uma família inteira segue sem rastreamento porque a pergunta foi feita de um jeito que não colhe resposta.

Como pegar a tempo: Pergunte por pessoa e por órgão, em três gerações e dos dois lados: pai, mãe, irmãos, filhos, tios, avós — qual câncer, com que idade. Some os tumores do espectro da síndrome de Lynch, que não são só intestinais: endométrio, intestino delgado e vias urinárias altas nos critérios de Amsterdã II, e ainda estômago, ovário e mama no glossário do INCA. E pergunte também por pólipo avançado em parente, não só por câncer: parente com pólipo adenomatoso avançado muda a régua do familiar, e é informação que ninguém oferece espontaneamente.

Ler "displasia de alto grau" e dizer ao paciente que era câncer

O dano: É um erro que só produz dano, porque não muda conduta nenhuma para melhor. Displasia de alto grau, carcinoma in situ e carcinoma intramucoso descrevem lesão que não atravessou a muscular da mucosa; no estadiamento nacional, é Tis, e a mucosa do cólon praticamente não tem drenagem linfática. O paciente que sai da consulta acreditando ter tido câncer carrega isso para a família, para o trabalho, para os seguros e para todas as consultas seguintes — e às vezes recusa a vigilância justamente por medo do que ela vai encontrar.

Como pegar a tempo: Diga a frase com essas palavras: era uma lesão que ainda não tinha passado da camada de dentro, e por isso não é câncer com risco de se espalhar. Antecipe que o papel usa expressões assustadoras, e explique-as antes que ele leia sozinho. E reserve a palavra câncer para o que a merece — carcinoma invasor, que alcançou a submucosa e é T1 —, porque é nesse caso que a palavra precisa ter peso.

Encaminhar imediatamente quem tem intervalo de três anos, e nunca convocar quem tem

O dano: São os dois lados do mesmo desentendimento sobre o que a régua manda, e eles se somam na mesma fila. De um lado, encaminhar hoje à atenção especializada um paciente cujo exame é daqui a três anos ocupa uma vaga sem antecipar nada — e a régua brasileira diz explicitamente que o encaminhamento deve ser feito no momento oportuno, conforme o intervalo indicado. De outro, o paciente com data-alvo em três anos e sem ninguém encarregado de procurá-lo simplesmente não volta, porque pólipo não dá sintoma e nenhum aviso do corpo o traz.

Como pegar a tempo: Separe a decisão do intervalo da emissão do encaminhamento: decida hoje, escreva a data-alvo hoje, e emita o pedido com antecedência calculada pela fila real do seu serviço. Entregue a data ao paciente por escrito e diga que é ele quem vai precisar cobrá-la. E adquira um hábito de busca: ao reencontrar qualquer paciente, procure no prontuário se há polipectomia prévia sem seguimento — é uma consulta de segundos que resgata os casos que já foram perdidos.

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O que dizer ao paciente e à família

As conversas deste capítulo têm uma dificuldade específica e pouco discutida: quase todas começam depois de o paciente já ter recebido uma versão simplificada dos fatos, geralmente boa demais, às vezes dita a ele enquanto ainda estava sedado. Você não está informando alguém que não sabe de nada — está corrigindo uma informação que ele já incorporou e repetiu.

Duas regras atravessam as sete. A primeira é não usar medo para conseguir adesão: quem volta por medo não volta duas vezes, e o intervalo aqui é longo. A segunda é entregar a data por escrito, sempre — a conversa mais bem feita do mundo não sobrevive a três anos de silêncio.

"Tiraram um pólipo. Era câncer, doutor?"

"Não era. Pólipo é o nome da forma, de um caroço que cresce na parede do intestino, e a maioria deles nunca vira câncer. O exame da biópsia diz de que tipo era o seu, e o seu era um adenoma — quer dizer, do tipo que pode, com muitos anos, se transformar. Por isso ele foi tirado. Tirando, essa história acabou para esse caroço. O que continua é o intestino, que pode fazer outros, e é por isso que a gente combina uma data para olhar de novo."

Não diga: Não responda "não, era só um pólipo" e mude de assunto: o "só" apaga exatamente a informação que faz o paciente voltar. E não responda antes de ter lido o anatomopatológico — se o papel ainda não chegou, a resposta honesta é que ainda falta o exame que diz o tipo, e que é ele que se vai buscar.

"Então está tudo resolvido? Não preciso mais fazer nada?"

"Metade está resolvida. O que foi tirado, foi tirado, e isso é definitivo. O que não se resolve com um exame é a tendência do seu intestino de fazer outros — isso a gente não muda, a gente acompanha. A colonoscopia enxerga o intestino do dia em que ela foi feita; ela não enxerga o de daqui a três anos. Por isso eu vou te dar uma data por escrito. Não é porque eu achei algo ruim; é porque essa é a maneira de continuar não tendo problema."

Não diga: Não diga "agora é só acompanhar" sem a data: acompanhar sem data é não acompanhar. E não prometa prazo do sistema — "em três anos você faz" é uma promessa que você não controla. Prometa o que você faz: escrever a data, registrar no prontuário, e pedir com antecedência.

Ele leu o laudo em casa: "aqui está escrito displasia de alto grau, isso é câncer?"

"Entendo o susto, e a palavra é feia mesmo. Displasia quer dizer que as células estavam alteradas, fora do normal. Alto grau quer dizer que estavam bem alteradas. Mas o que define câncer não é o quanto elas estão alteradas — é elas terem atravessado para a camada de baixo, onde ficam os vasos que levam para o resto do corpo. As suas não atravessaram. Estavam presas na camada de dentro, e essa camada foi retirada inteira. Não é câncer, e não é caso de espalhar. É caso de olhar de novo mais cedo, e por isso eu marquei três anos em vez de dez."

Não diga: Não diga "isso não é nada", porque é: é o que encurtou o intervalo dele de dez para três anos, e minimizar hoje custa a adesão daqui a três anos. E não deixe o paciente ler o laudo sozinho em casa sem aviso — antecipe as palavras difíceis na consulta, dizendo que o papel usa termos assustadores e explicando quais.

"De novo em seis meses? Acabei de fazer, doutor, e aquele preparo é horrível"

O controle foi indicado porque precisamos esclarecer se a retirada ficou completa. Sair em fragmentos pode dificultar essa avaliação, mas não significa, por si só, que ficou lesão. O exame terá um objetivo definido: avaliar a cicatriz e tratar eventual resíduo. Vamos registrar o motivo e organizar o agendamento para o prazo combinado com o endoscopista.

Não diga: Não trate o incômodo do preparo como detalhe: é a razão real pela qual as pessoas não voltam, e reconhecê-la aumenta a adesão. Não diga "foi mal feito" nem culpe o endoscopista — ressecção em partes é a técnica adequada para lesão grande e plana, não um erro. E não deixe de perguntar se ele terá como comprar o preparo, porque a resposta muda o que você faz em seguida.

"E os meus filhos, o que eu falo pra eles?"

"Essa é a pergunta certa, e ela tem duas respostas diferentes. Se o que eu encontrei em você for só um ou dois pólipos comuns, na sua idade, isso sozinho não muda nada para eles, e você pode dizer isso com tranquilidade. Mas se o que aparecer for muitos pólipos, ou pólipo grande em pessoa nova, ou se na nossa conversa aparecer que tem mais gente na família com câncer de intestino ou de útero, aí muda: eles vão precisar começar a examinar mais cedo do que as outras pessoas. Vou anotar num papel exatamente o que eles devem levar ao médico deles — o que eu encontrei em você e a sua idade hoje."

Não diga: Não diga apenas "eles têm risco aumentado" e mude de assunto: sem a idade de início e sem o dado que o médico deles vai pedir, a informação não vira conduta. Não convoque os parentes você mesmo, nem contate quem não é seu paciente — o que você faz é dar ao paciente as palavras e o papel, e ele decide a quem entregar. E não estenda a orientação a parentes distantes sem avaliação: a régua brasileira é escrita para familiar de primeiro grau.

"Disseram que era câncer dentro do pólipo, mas tiraram tudo. Por que agora falam em cirurgia?"

"É uma pergunta justa, e a resposta é que a biópsia respondeu uma coisa que ninguém sabia antes. A lesão foi tirada por dentro, sem corte, e só depois, no microscópio, deu para medir até onde ela tinha chegado. Ela passou de uma camada em que não existem vasos para uma em que existem. Isso não quer dizer que ela se espalhou — quer dizer que, a partir dali, existe uma possibilidade que só se resolve olhando os gânglios daquela região, e gânglio não sai por dentro. Quem decide se vale a pena é a equipe da cirurgia, com todos os dados na mão, e eu já vou encaminhar hoje."

Não diga: Não afirme que ele vai precisar de cirurgia, nem que não vai: a decisão depende de cinco características do exame e é da equipe especializada. Não diga que "tiraram tudo" se o laudo declarou margem comprometida ou não avaliável. E não deixe a conversa para depois do encaminhamento: quem descobre pelo papel do encaminhamento que tinha câncer chega ao especialista com raiva do médico anterior.

O filho, no retorno: "minha mãe tem 84 anos e demência. Ela precisa fazer de novo?"

"Eu prefiro responder essa pergunta com você do que decidir sozinho. O exame serve para encontrar hoje uma lesão que só viraria problema daqui a dez, quinze anos. Para uma pessoa mais jovem, isso vale muito. Para a sua mãe, o benefício está lá longe e as coisas ruins estão perto: o preparo, que é pesado, a sedação, e o risco pequeno mas real de complicação. A minha opinião é que a gente não faça, e que isso não é abandonar — é escolher onde o cuidado dela vai render mais. Se vocês pensarem diferente, eu quero saber, e a gente conversa de novo."

Não diga: Não diga "não vale mais a pena por causa da idade": a família ouve desistência, e a idade sozinha não é o critério — o critério é quanto tempo a pessoa tem para se beneficiar. Não decida por decurso de prazo, deixando de pedir e não dizendo nada: interrupção não combinada é abandono, e a família descobre sozinha anos depois. E registre a decisão no prontuário com a justificativa e com a conversa feita.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Três ou quatro adenomas pequenos: dez anos na atenção primária, ou três anos em serviço especializado?

Dez anos, e na atenção primária

É o que diz a régua em vigor. O Quadro 4 do protocolo de regulação ambulatorial de proctologia adulto, na versão digital de 26 de julho de 2021, e o Quadro 11 do protocolo de gastroenterologia adulto, terceira edição de 2025, colocam "3 a 4 adenomas menores que 10 mm com displasia de baixo grau" na mesma linha de intervalo que "1 a 2 adenomas": dez anos, com o seguimento mantido na atenção primária. As duas tabelas são idênticas entre si e declaram-se adaptadas de duas publicações internacionais de 2020. A lógica é de estratificação por risco somado: adenomas pequenos, tubulares, com displasia de baixo grau, mesmo em número de três ou quatro, não constituem por si um perfil de risco que justifique consumir vaga de serviço de referência — e a vaga de colonoscopia é disputada com quem tem sintoma.

TelessaúdeRS-UFRGS; Secretaria Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul. Protocolos de Regulação Ambulatorial — Proctologia Adulto, versão digital de 26 de julho de 2021, Quadro 4; e Gastroenterologia adulto, 3ª edição, 2025, Quadro 11. Ambos declaram adaptação de Gupta e colaboradores (2020) e de Hassan e colaboradores (2020).

Três anos, e em serviço especializado

É o que diz a edição anterior do mesmo protocolo estadual, publicada em 8 de novembro de 2016 e ainda acessível no portal de atenção primária do estado. Ali, a faixa é outra — "3 a 10 adenomas tubulares" — e o intervalo é de três anos, com a situação classificada como lesão pré-maligna de maior potencial neoplásico e com acompanhamento sugerido em serviço especializado. A tabela declara-se adaptada de uma publicação secundária de 2015 e é acompanhada de uma nota que explicita o raciocínio: os fatores relacionados a maior risco de câncer colorretal são tamanho do pólipo maior que 1 cm, padrão histológico viloso e presença de displasia de alto grau. A defesa dessa posição não é a antiguidade do documento, e sim a assimetria dos erros: o custo de vigiar sete anos mais cedo é uma colonoscopia; o custo de vigiar sete anos mais tarde, num paciente que já demonstrou fazer múltiplos adenomas, é um estádio.

TelessaúdeRS-UFRGS; Secretaria Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul. Protocolos de Encaminhamento para Proctologia Adulto, publicado em 8 de novembro de 2016, Quadro 2, adaptado de Ahnen e Macrae (2015). O documento permanece disponível no portal de atenção primária da Secretaria Estadual da Saúde.

Como decidir

A comparação mostra por que a fonte e seu escopo precisam estar identificados. Para o percurso principal deste capítulo, use ESGE 2020 após ressecção completa e exame de boa qualidade. Não combine uma categoria regional com o intervalo de outra diretriz. Se o serviço adota referência diferente, registre-a e discuta a divergência com o supervisor. Lesão residual, carcinoma, suspeita de síndrome e novos sintomas exigem avaliação própria e podem antecipar o cuidado.

O adenoma com componente viloso, que a tabela em vigor não contempla

Aplicar a linha que existe — número e tamanho

A tabela brasileira em vigor classifica as lesões adenomatosas por número, tamanho e grau de displasia, e não por arquitetura. Um adenoma tubuloviloso de 7 milímetros com displasia de baixo grau cai, pela leitura literal, na linha de um a dois ou de três a quatro adenomas menores que 10 milímetros: dez anos, na atenção primária. A defesa dessa leitura é metodológica e não é frouxa: as tabelas atuais foram construídas a partir de revisões de 2020 que reestratificaram o risco com dados mais recentes, e a retirada de uma variável de uma tabela de risco costuma significar que ela deixou de discriminar depois de ajustada pelas demais — não que quem escreveu se esqueceu dela. Inventar uma linha que o documento não tem é substituir a régua publicada pelo julgamento de quem lê.

TelessaúdeRS-UFRGS; Secretaria Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul. Protocolos de Regulação Ambulatorial — Gastroenterologia adulto, 3ª edição, 2025, Quadro 11, e Proctologia Adulto, versão digital de 2021, Quadro 4: as onze linhas da tabela, nenhuma delas mencionando componente viloso.

Tratar como pólipo avançado e encurtar o intervalo

O protocolo nacional de tratamento, aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 25 de 17 de novembro de 2025, define pólipo avançado por três atributos alternativos: 10 ou mais milímetros de diâmetro, componente viloso, ou displasia de alto grau — e é essa definição que sustenta, no mesmo documento, a afirmação de que os pólipos avançados são os que carregam risco aumentado de câncer. A publicação do INCA sobre detecção precoce, de 2021, usa a mesma definição de três atributos. Se dois documentos federais tratam o componente viloso como equivalente ao tamanho e ao alto grau para definir lesão avançada, aplicar a essa lesão o intervalo das lesões não avançadas contraria a definição que o próprio sistema publica. A edição de 2016 do protocolo estadual dava a ela linha própria, com três anos em serviço especializado.

Ministério da Saúde. PCDT do Adenocarcinoma de Cólon e Reto, Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 25, de 17 de novembro de 2025, seção introdutória; INCA, Detecção precoce do câncer, 2021, capítulo sobre cânceres de cólon e reto; e TelessaúdeRS-UFRGS, Proctologia Adulto, edição de 8 de novembro de 2016, Quadro 2, linha "≥1 adenoma viloso: 3 anos".

Como decidir

Leia o componente viloso junto do tamanho, do número de lesões, da displasia e das condições da ressecção. Aplique a referência identificada no fluxo, sem combinar sua categoria com o intervalo de outro documento. Se houver dúvida de enquadramento, discuta o laudo com o supervisor e registre o plano.

Depois do pólipo, a pesquisa de sangue oculto ainda tem algum lugar?

Sim, nas duas situações de menor risco

A régua brasileira de seguimento prevê expressamente o teste em duas linhas da tabela, e só nelas. Para um a dois adenomas menores que 10 milímetros com displasia de baixo grau, escreve: dez anos, e, depois da primeira colonoscopia, considerar rastreamento com pesquisa de sangue oculto em dez anos, conforme avaliação clínica. Para pólipos hiperplásicos menores que 10 milímetros, escreve: sem seguimento com colonoscopia, e considerar rastreamento com pesquisa de sangue oculto em dez anos, conforme avaliação clínica. A lógica é de proporcionalidade e de acesso: nas duas situações de menor risco, o paciente volta na prática ao patamar da população geral, e a colonoscopia que ele consumiria vale mais para outra pessoa.

TelessaúdeRS-UFRGS; Secretaria Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul. Protocolos de Regulação Ambulatorial — Gastroenterologia adulto, 3ª edição, 2025, Quadro 11, colunas de seguimento das linhas "1 a 2 adenomas < 10 mm com displasia de baixo grau" e "pólipos hiperplásicos < 10 mm"; texto idêntico no Quadro 4 do protocolo de proctologia de 2021.

Não, porque essa pessoa saiu da população do teste

A publicação do INCA sobre detecção precoce, de 2021, classifica o risco de câncer colorretal em dois grupos e coloca em alto risco quem tem história pessoal de câncer, doença inflamatória intestinal ou história familiar de câncer colorretal, incluindo as síndromes hereditárias; o risco médio, a que as estratégias de rastreamento por sangue oculto se dirigem, é o de quem não tem essas condições. O protocolo nacional de tratamento, de 2025, lista entre os grupos de maior risco os indivíduos com pólipos intestinais adenomatosos ou serrilhados avançados. Quem já teve pólipo ressecado, portanto, não está mais na população para a qual o teste foi desenhado e validado — e um resultado negativo nessa pessoa não tem o mesmo significado que teria em quem nunca colonoscopou. O risco declarado é o de produzir uma tranquilidade documentada que adia o exame que importava.

INCA, Detecção precoce do câncer, 2021, Quadro de classificação de risco para câncer colorretal, elaborado com base na Força-Tarefa de Serviços Preventivos dos Estados Unidos (2016); e Ministério da Saúde, PCDT do Adenocarcinoma de Cólon e Reto, Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 25, de 2025, seção sobre grupos de maior risco.

Como decidir

Diferencie vigilância após polipectomia de rastreamento. O próximo exame depende da classificação do achado e das condições da colonoscopia, conforme a referência adotada. Novos sintomas, ressecção incerta ou suspeita de síndrome exigem avaliação própria, sem esperar o calendário comum.

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O raciocínio, em voz alta

Dona Semíramis Mavignier, 63 anos, professora aposentada, vem ao ambulatório para renovar a receita do anti-hipertensivo. Sem queixas. No fim da consulta, tira da bolsa um envelope: fez colonoscopia há cinco semanas, por indicação da filha, que é enfermeira. Diz que "tiraram uns pólipos e o médico falou que estava tudo certo". No envelope há o laudo da colonoscopia e um segundo papel que ela não sabe o que é. O laudo descreve exame completo até o ceco, preparo classificado como bom, e quatro lesões: duas no sigmoide, de 4 e 5 mm, sésseis; uma no cólon transverso, de 8 mm, pediculada; e uma no cólon ascendente, plana, de 12 mm, recoberta por muco, ressecada em dois fragmentos. O segundo papel é o anatomopatológico: dois pólipos hiperplásicos; um adenoma tubular com displasia de baixo grau, margem livre; e uma lesão serrilhada séssil de 12 mm com displasia de baixo grau, margem profunda não avaliável.

  1. O que penso antes de dizer qualquer coisa

    Ela chegou com uma frase pronta, e a frase é o problema. "Tiraram uns pólipos e está tudo certo" é o resumo de uma conversa feita na sala de recuperação, provavelmente com ela ainda sedada, e é a versão que vai para a família e para o próximo médico. Antes de corrigir, eu quero ler os dois papéis, porque a correção precisa ser específica: se eu disser genericamente que não está tudo certo, produzo medo sem produzir conduta. E reparo numa coisa que já muda o tom: ela não sabia o que era o segundo papel. Ninguém leu o anatomopatológico com ela — o que significa que, até este minuto, ninguém sabia o que ela tinha.

  2. Valido o exame antes de olhar qualquer tabela

    Três perguntas, e as três estão respondidas no laudo: exame completo até o ceco, sim; preparo bom, sim; lesões ressecadas e não apenas biopsiadas, sim. Sem isso eu não teria intervalo a prescrever, teria indicação de repetir. Mas eu não confio só no papel: pergunto a ela como foi o preparo. Ela diz que tomou a solução inteira, com dificuldade, e que "no fim saía só água clarinha". É a confirmação que eu queria. Se ela tivesse dito que desistiu na metade, eu estaria diante de um exame que não sustenta intervalo nenhum, por mais que o laudo escreva "bom".

  3. Faço o inventário, e a conta muda a leitura

    Quatro lesões: dois hiperplásicos pequenos no sigmoide, um adenoma tubular de 8 mm com displasia de baixo grau, e uma lesão serrilhada séssil de 12 mm com displasia. Se eu contar só os adenomas, tenho um adenoma pequeno de baixo grau — a linha mais tranquila da tabela, dez anos. Se eu contar a lesão certa, tenho outra coisa. A regra que evita esse erro é simples e vale sempre: quando há várias lesões, vale a mais grave, e a contagem soma todas as do exame. A mais grave aqui é a serrilhada de 12 mm com displasia.

  4. Identifico a lesão que decide, e por que ela decide

    A lesão do cólon ascendente reúne quatro atributos que a régua brasileira e o protocolo nacional tratam como marcadores de risco, e ela os reúne todos ao mesmo tempo. É serrilhada, e a via serrilhada responde por aproximadamente 15% dos cânceres colorretais, com crescimento mais rápido e maior dificuldade de diagnóstico. Tem 12 mm, acima do corte de 10 mm. Tem displasia. E é proximal, no segmento onde o preparo falha mais e a inspeção é mais rápida. Pela tabela, pólipo serrilhado de 10 mm ou mais, ou com displasia, é três anos e em serviço especializado.

  5. Mas há um dado que encurta ainda mais o intervalo

    Semíramis teve lesão serrilhada de 12 mm removida em dois fragmentos, com margem não avaliável. Isso não comprova resíduo, mas impede concluir a completude apenas pela histologia. Discuto o laudo e a impressão endoscópica com o responsável. Se persistir dúvida relevante, planeja-se controle precoce do leito; o intervalo de três anos vale para retirada completa, e o corte ≥20 mm da recomendação formal de controle em 3–6 meses não deve ser aplicado automaticamente a esta lesão menor.

  6. O que peço, e o que deliberadamente não peço

    Neste caso, após discussão com o endoscopista sobre a dúvida de completude, fica programado controle do leito em seis meses, com o pedido emitido a tempo e a justificativa explícita. É uma decisão individualizada, não regra para todo serrilhado de 12 mm fragmentado. Se a revisão demonstrar resíduo que exige tratamento, a oportunidade deve ser antecipada conforme o achado. Teste fecal não substitui o exame necessário para avaliar a cicatriz e tratar lesão residual.

  7. Pergunto pela família, por pessoa e por órgão

    Não pergunto "tem câncer na família?". Pergunto por pai, mãe, irmãos, filhos, tios e avós, um a um, com órgão e idade. Dona Semíramis tem cinco irmãos; um deles fez colonoscopia e "tirou uns pólipos" aos cinquenta e poucos, e ela não sabe de câncer em ninguém. Registro isso: irmão com pólipo, sem idade precisa, sem laudo. Não fecha critério de Amsterdã II — não há três familiares com neoplasias da síndrome, não há gerações sucessivas, não há diagnóstico abaixo dos cinquenta. Mas é informação que muda a conduta dela? Não. Muda a conduta do irmão? Depende do que o pólipo dele era, e ele deveria buscar esse laudo.

  8. A conversa, que é onde o caso se ganha ou se perde

    Explico a Semíramis os achados de cada laudo: dois hiperplásicos pequenos, um adenoma de baixo grau retirado com margem livre e uma lesão serrilhada com displasia cuja completude exige revisão. Não foi demonstrado câncer invasor, mas também não prometo que tudo saiu inteiro. Ela recebe o objetivo e a data do controle, sabe quem acompanha o agendamento e quais novos sintomas exigem contato antes.

  9. O que fica escrito, e por quê

    Anexo os dois laudos ao prontuário — os originais, não um resumo. Escrevo na evolução, na mesma frase, o intervalo, a data-alvo em mês e ano, e a lesão que o determinou. Isso não é burocracia: não existe registro nacional de pólipos, e daqui a seis meses, ou a três anos, alguém vai precisar decidir sobre dona Semíramis a partir de um papel. Se esse papel não estiver no prontuário, estará numa gaveta da casa dela, e a decisão vira chute. Marco retorno com data, com a finalidade explícita de conferir se o exame foi agendado.

  10. O que eu teria perdido se tivesse feito o óbvio

    O óbvio era renovar a receita da pressão, dar os parabéns pelo exame e marcar retorno em seis meses para a pressão. Funciona: dona Semíramis vai embora contente, a pressão fica controlada, e ninguém erra visivelmente. O que teria acontecido é que uma lesão serrilhada de 12 mm com displasia, retirada em pedaços, com margem profunda não avaliável, no cólon direito, teria ficado sem controle de leito — e o cólon direito é justamente onde o câncer de intervalo aparece. A diferença entre os dois desfechos foi ter aberto o segundo papel do envelope.

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Faça você

Licínio Sevilha, 41 anos, motorista de aplicativo, vem à unidade básica trazido pela mulher, insatisfeito. Fez colonoscopia há dois meses porque teve um episódio de sangue nas fezes; o exame foi completo até o ceco, com preparo bom, e o laudo descreve "múltiplos pólipos ao longo de todo o cólon, os maiores no sigmoide", com sete deles ressecados — de 3 a 9 mm — e a observação de que "os demais não foram abordados nesta sessão". O anatomopatológico das sete lesões diz: sete adenomas tubulares com displasia de baixo grau, margens livres. Ele traz também o laudo de uma colonoscopia feita há quatro anos, num serviço particular, quando investigou anemia: naquele exame foram ressecados quatro adenomas tubulares pequenos. Ele quer saber por que precisa fazer "tudo de novo", e diz que da última vez o médico falou para voltar em cinco anos. Ao ser perguntado sobre a família, diz que "ninguém teve nada". Insistindo por pessoa: o pai morreu aos 52 anos, de "um problema no intestino", e ele não sabe qual; uma tia paterna teve "câncer no útero" com uns quarenta e poucos; um primo do lado do pai "fez uma cirurgia grande no intestino" novo, ele não sabe a idade.

  1. O que o caso já resolveu por você

    O exame é válido: completo até o ceco, com preparo bom, e as lesões abordadas foram ressecadas e não apenas biopsiadas. A histologia também está fechada nas sete lesões abordadas: adenomas tubulares, displasia de baixo grau, margens livres. Nenhuma delas, isoladamente, é uma lesão avançada — nenhuma chega a 10 milímetros, nenhuma tem displasia de alto grau, nenhuma é serrilhada.

  2. O que você já sabe fazer

    Aplicar a régua brasileira pela lesão mais grave e pela contagem de todas as lesões do exame; identificar que "os demais não foram abordados nesta sessão" muda a natureza do que está diante de você; e transformar "ninguém teve nada" numa árvore familiar com órgão e idade ao diagnóstico.

  3. Onde o caso para

    Falta decidir se este é um caso de intervalo de tabela ou se é outra coisa; falta dizer o que se faz com um laudo que declara lesões não abordadas; e falta escrever, hoje, o encaminhamento — dizendo para onde, com que prioridade e com quais informações, de um jeito que não volte por informação insuficiente.

  4. Continuidade do caso e prática do internato

    Amadeo é o caso de abertura e Semíramis é um caso contrastante. Em ambos, siga o mesmo raciocínio: conferir os dois laudos e resolver completude antes de marcar vigilância.

  5. Questão integrativa 1

    Qual documento falta quando Amadeo traz só o laudo endoscópico?

  6. Questão integrativa 2

    Margem não avaliável significa margem comprometida?

  7. Questão integrativa 3

    Três anos de vigilância servem para lesão sabidamente residual?

  8. Questão integrativa 4

    O controle de seis meses de Semíramis é uma regra para todos os pólipos de 12 mm?

  9. Questão integrativa 5

    Sete adenomas atuais e quatro antigos em adulto jovem mudam a avaliação?

  10. Questão integrativa 6

    Por que registrar a diretriz escolhida?

Ver como fecharíamos

Este não é um caso de aplicar linha de tabela, e reconhecer isso é o primeiro passo. A régua brasileira de seguimento pressupõe uma colonoscopia completa com as lesões ressecadas; aqui o laudo declara múltiplos pólipos ao longo de todo o cólon com apenas sete abordados e os demais deixados para outra sessão. Não existe intervalo a prescrever para um paciente cujo cólon não foi limpo: o que existe é um exame inacabado. Segundo passo, a contagem, e ela é cumulativa: sete lesões agora somadas a quatro de quatro anos atrás dão onze adenomas documentados, mais um número desconhecido de lesões não abordadas, tudo isso em um homem de 41 anos. A soma dos exames sucessivos — e não o número de um só — é a conta que levanta suspeita de polipose, e é o passo que costuma faltar. Terceiro, a idade e a distribuição: múltiplos adenomas ao longo de todo o cólon aos 41 anos não é o achado esperado de quem apenas envelheceu. A polipose adenomatosa familiar é descrita no protocolo de regulação ambulatorial como múltiplos pólipos colorretais, em geral acima de cem, e este paciente pode estar abaixo desse número — mas o gatilho de encaminhamento não é atingir cem: é a suspeita, e ela está formada. Quarto, a família, que é onde o caso muda de escala. Repare no que a pergunta em bloco produziu: "ninguém teve nada", de um homem cujo pai morreu aos 52 anos de um problema intestinal não esclarecido, cuja tia paterna teve câncer de útero na casa dos quarenta e cujo primo paterno foi operado do intestino jovem. Câncer colorretal e câncer de endométrio, na mesma linhagem, em idades precoces, é exatamente o padrão que levanta síndrome de Lynch. Os critérios de Amsterdã II, como reproduzidos no protocolo de regulação ambulatorial de proctologia, pedem três ou mais familiares com neoplasias associadas à síndrome, sendo um deles de primeiro grau dos outros dois, ao menos um diagnosticado antes dos 50 anos, duas ou mais gerações sucessivas acometidas, e exclusão de polipose adenomatosa familiar. Você não consegue fechá-los hoje, porque faltam a confirmação do diagnóstico do pai e a idade do primo — e não fechar não é resultado negativo: é levantamento incompleto. Anote como pendência nomeada e peça a Licínio que busque o que existir, atestado de óbito do pai, laudo do primo, prontuário da tia. Quinto, o que sai da consulta hoje. Encaminhe a serviço especializado de genética e gastroenterologia, que é a conduta que a régua brasileira determina para suspeita de síndrome de Lynch ou de polipose adenomatosa familiar; e encaminhe, em paralelo, para completar a abordagem endoscópica das lesões remanescentes em serviço de referência, com prioridade — não é repetição do exame, é a conclusão dele. No conteúdo do encaminhamento, preencha os quatro itens de história familiar que o protocolo exige: se há neoplasias compatíveis com a síndrome, quais órgãos acometidos, se há gerações sucessivas acometidas, e a idade dos familiares ao diagnóstico com o grau de parentesco, dizendo o que é sabido e o que está por confirmar. Anexe os dois laudos de colonoscopia e os dois anatomopatológicos, incluindo o exame particular de quatro anos atrás — a contagem cumulativa é o argumento, e sem os dois papéis ela não existe no encaminhamento. Sexto, o que não se faz: não se pede teste genético do ambulatório geral, porque a indicação, o aconselhamento pré-teste e a interpretação são do serviço de genética, e resultado devolvido sem aconselhamento produz dano; e não se prescreve intervalo de tabela, porque não há exame completo que o sustente. Sétimo, a conversa. Licínio veio irritado por ter que "fazer tudo de novo", e é essa irritação que decide se ele volta. Diga que o exame não foi repetido nem foi malfeito — ele ficou pela metade porque havia mais lesões do que uma sessão comporta. Diga que o número de pólipos que ele faz, para a idade que tem, é o que muda a conversa: não é sobre um pólipo, é sobre uma tendência, e tendência às vezes é de família. E diga o que ele precisa fazer que nenhum médico pode fazer por ele: descobrir de que o pai morreu, e avisar os irmãos e os filhos de que existe uma consulta marcada para investigar isso. A frase que resume o caso e vale levar para o plantão: quando o laudo diz "múltiplos" e a idade é baixa, pare de contar intervalo e comece a contar família. Questões integrativas — respostas comentadas 1. O anatomopatológico e, quando necessário, esclarecimento do endoscopista sobre completude. Sem integrar esses dados, o intervalo pode ser inadequado. 2. Não. Uma expressa incerteza e a outra demonstra acometimento. Ambas podem exigir esclarecimento, mas não são diagnósticos idênticos. 3. Não. É necessário tratar ou esclarecer o resíduo antes de aplicar vigilância de longo prazo. 4. Não. É individualizado pela dúvida de completude; a recomendação formal de 3–6 meses da ESGE refere-se à ressecção fragmentada de pólipos ≥20 mm. 5. Sim. A carga cumulativa e a idade justificam suspeita hereditária e avaliação especializada, além de completar a retirada dos pólipos remanescentes. 6. Porque referências podem propor intervalos diferentes. Identificá-la permite decisão consistente, sem combinar categorias e prazos de tabelas distintas.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

O protocolo nacional lista cinco atributos que, presentes todos, fazem a ressecção endoscópica ser considerada curativa nos estádios 0 e I: invasão de até 1.000 micra da submucosa, ausência de invasão angiolinfática, histologia bem diferenciada, ausência de tumor budding e margens livres. Mil micra correspondem a um milímetro, e o corte é de profundidade absoluta a partir da muscular da mucosa, não de proporção da espessura da submucosa. Faltando qualquer um dos cinco — ou sendo qualquer um deles declarado não avaliável, o que é frequente após ressecção em fragmentos —, a decisão passa a ser de equipe cirúrgica, porque só a ressecção com linfadenectomia alcança o território linfático que a polipectomia não remove. É por isso que se opera, às vezes, depois de uma colonoscopia que aparentemente resolveu. Atributo que o laudo não menciona não é atributo favorável, e essa distinção deve constar por escrito no encaminhamento.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Quem decide o próximo passo não é o procedimento, é o laudo — e são dois: o da colonoscopia e o anatomopatológico, que sai cerca de dez dias depois e que quase nunca chega ao paciente. Antes de qualquer tabela, valide o exame: completo até o ceco ou o íleo, preparo adequado, lesões ressecadas e não apenas biopsiadas. Faltando qualquer um dos três, não há intervalo a prescrever, há exame a repetir. Depois, leia procurando cinco itens nomeados no anatomopatológico: tipo histológico, grau de displasia, arquitetura (tubular, tubuloviloso, viloso), estado da margem e presença de invasão da submucosa; e dois no laudo endoscópico: quantas lesões com que tamanho e em que segmento, e se a ressecção foi em bloco ou em partes. Quando há mais de uma lesão, vale a mais grave, e a contagem soma todas as do exame. Displasia de alto grau, carcinoma in situ e carcinoma intramucoso são lesões contidas acima da muscular da mucosa — não são câncer com risco de metástase, e dizê-lo ao paciente é conduta.

Em 30 dias

Reconstrua a decisão a partir dos dois laudos: qualidade do exame, completude, número e tipo de lesões, tamanho, displasia e contexto familiar. Identifique a referência aplicada e diferencie controle de resíduo de vigilância após cura endoscópica. O objetivo é saber qual informação muda o próximo passo, não decorar tabelas regionais conflitantes.

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Agora atenda

Agora atenda o paciente que chega com o envelope e a frase pronta. Ele não tem queixa nenhuma, veio por outro motivo, e vai oferecer o resumo logo nos primeiros minutos: tiraram um pólipo e está tudo bem. Seu trabalho é o mesmo do capítulo — pedir os dois papéis pelo nome, conferir se a colonoscopia foi completa e o preparo foi adequado antes de olhar qualquer tabela, ler o anatomopatológico procurando tipo, grau de displasia, arquitetura e margem, e perguntar pela família por pessoa e por órgão em vez de perguntar em bloco. Preste atenção em três armadilhas: aceitar o resumo que ele traz sem abrir o segundo papel; contar só os adenomas e ignorar a lesão serrilhada ou a técnica de ressecção; e sair da consulta sem ter dito uma data e sem tê-la entregado por escrito.

Pólipos colorretais e síndromes de polipose – Tiraram, e acabou — Internato | OsceLabs