Outras EspecialidadesComunicação, Ética e Segurança na Prática

Chamar antes de ter certeza

Quando chamar ajuda: reconhecer o próprio limite, acionar e escalonar

O interno quase nunca demora a chamar por não saber que devia. Demora por medo de parecer incapaz, porque o plantonista reclamou da última vez, porque são três da manhã, e porque ainda pode melhorar sozinho. Enquanto isso a piora se instala, e a piora que se instala nesse intervalo é a que não volta. Depois vem a segunda metade do ofício: uma frase desorganizada ao telefone traz uma resposta desorganizada, e o mesmo caso, dito em quatro frases com o pedido explícito no fim, traz alguém à beira do leito.

Fontes deste capítulo

Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.217, de 27 de setembro de 2018 — aprova o Código de Ética Médica, com as alterações das Resoluções CFM nº 2.222/2018 e nº 2.226/2019.

Distrito Federal. Secretaria de Estado de Saúde. Comissão Permanente de Protocolos de Atenção à Saúde. Protocolo de Atenção à Saúde — Segurança do Paciente: Prevenção da Deterioração Clínica em Pacientes Adultos em Serviço Hospitalar.

Hospital Universitário Walter Cantídio, Universidade Federal do Ceará / Ebserh. Protocolo PRO.GAS.002 — Time de Resposta Rápida (TRR), versão 1, emissão em 4 de dezembro de 2020.

Santos PKL, Oliveira GN, Sichieri K, Cruz DALM, Nogueira LS. Características do acionamento do código amarelo e fatores associados à ocorrência de eventos adversos. Revista Brasileira de Enfermagem. 2023;76(2):e20220181.

Taguti PS, Dotti AZ, Araujo KP, Pariz PS, Dias GF, Kauss IAM, Grion CMC, Cardoso LTQ. Atuação do time de resposta rápida em hospital universitário no atendimento de código amarelo. Revista Brasileira de Terapia Intensiva. 2013;25(2):99-105.

01

Responda antes de ler

Num estudo brasileiro que analisou 150 chamadas de código amarelo em um hospital universitário, qual foi o motivo mais frequente de acionamento do time de resposta rápida?

02

O paciente que você vai ver

Uma e cinquenta da manhã de uma quinta-feira. A enfermaria de clínica médica ocupa a ala norte do segundo andar e tem dezoito leitos; o hospital é geral, atende uma cidade de cento e vinte mil habitantes e mais quatro municípios em volta. Você é o interno da escala noturna. A residente desceu para o pronto-socorro às zero e quarenta para ajudar numa intubação e não voltou; o clínico plantonista está no mesmo pronto-socorro desde a meia-noite, com uma sala de observação que tem catorze macas e dezenove pessoas. O corredor da enfermaria está com a luz de serviço, aquela meia-luz que não ilumina e não deixa dormir, e o posto tem duas técnicas de enfermagem, uma enfermeira e um telefone de mesa com fio, desses que ficam presos ao balcão.

O leito 12 é do senhor Fulgêncio Luna, 71 anos, aposentado da rede de água do município, 68 quilos. Entrou anteontem à tarde pelo pronto-socorro com pneumonia de base direita, adquirida na comunidade, foi internado com antibiótico venoso e passou o primeiro dia melhor do que chegou. Você o conhece porque evoluiu ele ontem de manhã: estava sentado na cama, comendo, reclamando do café, com a filha ao lado montando um quebra-cabeça de mil peças na mesa de refeição. É o tipo de paciente que a equipe já classificou mentalmente como o que vai embora no fim de semana.

Às uma e quarenta e cinco a técnica de enfermagem apareceu na porta da sala de plantão, com a prancheta apoiada no antebraço, e disse uma frase de nove palavras: o do 12 está diferente, doutor, dá uma olhada. Você perguntou o que era diferente e ela respondeu o que sempre se responde, porque é honesto: não sei dizer, ele está mais quieto. Os sinais que ela traz na folha são de meia-noite e vinte: pressão 118 por 70, frequência cardíaca 96, frequência respiratória 20, temperatura 37,4, saturação 94% em ar ambiente. Nada ali chama a atenção de ninguém.

Você foi ao leito. O senhor Fulgêncio está acordado e responde, mas responde depois de uma pausa e responde curto. Diz que está bem. A filha, que dorme na poltrona ao lado e acordou com a luz, diz a frase que vale mais do que a folha: ele não está do jeito dele. Você aferiu de novo, com o aparelho do carrinho: pressão 104 por 62, frequência cardíaca 112, frequência respiratória 26, saturação 91% em ar ambiente, temperatura 37,8. Ele está usando a musculatura do pescoço para respirar de um jeito que ontem não usava, e a fala sai em frases de quatro ou cinco palavras porque as maiores não cabem no fôlego.

Agora vem a parte que este capítulo trata, e ela não é clínica. Você está no corredor, com o telefone a nove passos, e faz uma conta que ninguém escreveu em lugar nenhum. Primeiro: o plantonista está com dezenove pessoas na observação, e na terça, quando você o chamou por uma dor abdominal que era constipação, ele desligou dizendo que interno tem que aprender a examinar antes de ligar. Segundo: são duas da manhã, e chamar a esta hora é acordar alguém. Terceiro, e este é o pensamento que faz o estrago: talvez seja só a pneumonia dele evoluindo, talvez melhore com oxigênio no cateter, e daqui a uma hora, se piorar, você liga com o quadro mais claro e não passa vergonha.

Repare no que esse terceiro pensamento tem de sedutor. Ele não é preguiça e não é ignorância. Ele é uma promessa de que a espera compra informação: daqui a uma hora você vai saber mais, e com mais informação a ligação fica melhor. A promessa é verdadeira. O que ela não conta é o preço. Nessa hora, a hipoxemia que já está instalada continua trabalhando; o senhor Fulgêncio continua respirando com a musculatura acessória, o que cansa; a lesão pulmonar que ele tem continua ganhando território; e o intervalo entre o que a técnica viu e o que alguém com poder de decidir vai ver aumenta em sessenta minutos, que é justamente o intervalo em que dava para mudar o desfecho.

O outro lado do problema entra vinte minutos depois, quando você finalmente pega o telefone. Porque pegar o telefone não é a mesma coisa que pedir ajuda. Existe a ligação que faz o plantonista subir e existe a ligação que faz o plantonista dizer, sem malícia nenhuma, que já vai, e continuar onde está — e a diferença entre as duas não é o caso, é a frase. Uma delas começa com um pedido de desculpas por incomodar, descreve o paciente do começo da internação, chega ao que mudou no final e não termina em pedido nenhum. A outra tem quatro frases e acaba com a única coisa que o outro lado precisa ouvir para decidir o que fazer com o corpo dele nos próximos minutos.

Este capítulo é sobre esses dois nós: por que a chamada demora, e como se chama. É de propósito que ele não trata de dessaturação, de hipotensão, de febre ou de parada — esses têm capítulo próprio, na apostila de Síndromes do Paciente Internado, e o manejo é de lá. O que fica aqui é a parte que nenhum protocolo de dessaturação resolve, porque não é fisiológica: o intervalo entre o momento em que alguém percebeu e o momento em que alguém com competência para decidir chegou ao leito. Esse intervalo é feito de medo, de hierarquia, de hora da noite e de frase mal montada, e é o único trecho da cadeia que depende inteiramente de você.

03

Quem adoece disso

Não há doença para descrever aqui, e este bloco não traz incidência por mil pacientes-dia. O que ele levanta é a epidemiologia de um processo: quantas vezes alguém chama, por que chama, quanto tempo leva para o chamado sair, quanto tempo leva para alguém chegar, e o que acontece com o paciente depois. Começo pela pergunta que governa o capítulo inteiro e pela resposta desconfortável que ela tem no Brasil.

A pergunta é: qual é a régua brasileira que diz quando um paciente internado em enfermaria tem de ser visto por um médico? A resposta é que não existe uma. Não há norma federal, portaria do Ministério da Saúde ou resolução de conselho fixando um limiar fisiológico a partir do qual o médico é obrigado a ir ao leito, nem um prazo máximo para ele chegar depois de chamado. O Código de Ética Médica, que é a norma nacional que mais perto chega do assunto, não traz número nenhum: ele obriga a atender em urgência e emergência quando for de sua obrigação fazê-lo, proíbe abandonar paciente sob seus cuidados e proíbe afastar-se sem deixar outro médico encarregado dos pacientes internados ou em estado grave, mas não diz o que é grave nem em quantos minutos se chega.

O que existe no lugar da régua nacional é um arquipélago de protocolos locais e estaduais, cada um com o seu escore e o seu tempo. Dois deles servem bem para mostrar o tamanho da variação, e são os dois que este capítulo abriu no original. Um é da Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal, vale para as unidades de internação da rede e adota o MEWS, um escore de alerta precoce que soma pontos de cinco parâmetros: pressão arterial sistólica, frequência cardíaca, frequência respiratória, temperatura axilar e nível de consciência. O outro é do Hospital Universitário Walter Cantídio, em Fortaleza, e organiza a chamada por um código de cores, em que cada cor carrega um tempo máximo de chegada do médico: uma hora no verde, trinta minutos no amarelo, sete minutos no laranja e imediato no vermelho.

Os dois são bem-intencionados, os dois são de instituições públicas grandes, e os dois dão respostas diferentes para o mesmo paciente. Um homem de 71 anos com temperatura de 38,2 e pressão de 185 por 100, sem prescrição para nenhuma das duas coisas, aciona no protocolo cearense um chamado de trinta minutos por dois critérios distintos. No escore do protocolo do Distrito Federal, esses mesmos dois valores somam zero ponto — a faixa de temperatura que pontua começa em 38,5, e a faixa de pressão sistólica que pontua zero vai de 101 a 199 — e o paciente cai no estrato mais baixo, cuja conduta é reavaliar dali a seis horas e estimular a deambulação. As contas dessa e das outras conferências estão no bloco de critério, com os números; aqui o que importa é a consequência para você: o limiar que decide se você chama depende do prédio em que você está fazendo internato, e não de uma régua do país.

Passando dos protocolos para o que de fato acontece nas enfermarias brasileiras, há dois estudos que valem mais do que qualquer estimativa. O primeiro é do Hospital Universitário da Universidade Estadual de Londrina, publicado em 2013, e analisou 150 chamadas de código amarelo em 104 pacientes. O achado que abre o capítulo está na tabela dos motivos: o motivo mais frequente de acionamento não foi um número. A piora respiratória com esforço, hipoxemia ou alteração de consciência exige avaliação médica imediata. Confirmar a leitura sem atrasar suporte, pedir explicitamente presença ao leito e acionar resposta rápida ou equipe de emergência disponível. Se o primeiro profissional não puder responder a tempo ou minimizar risco persistente, escalar agora; não esperar vinte minutos nem um limiar de saturação. Manter alguém ao lado, avaliação ABC e medidas iniciais para as quais a equipe está treinada, conforme protocolo e supervisão. A tabela permite mais de um motivo por chamada, e por isso as porcentagens somam 163,4%; mesmo assim, a preocupação sem número isolada ganha de qualquer parâmetro isolado.

Guarde esse 38% e leia de novo o protocolo de Fortaleza. Lá, o critério preocupação da equipe com o estado clínico do paciente está no Código Verde, o mais lento, com uma hora para o médico chegar, na mesma linha em que estão a admissão de pacientes clínicos e a avaliação de raio X. Ou seja: o gatilho que mais frequentemente antecede uma piora de verdade recebe, naquele documento, o mesmo tempo de resposta que uma tarefa administrativa de rotina. Essa leitura é minha, feita comparando dois documentos que não conversam entre si, e a registro como leitura e não como citação — mas os dois números estão impressos e podem ser conferidos.

O segundo estudo é de um hospital universitário público de São Paulo, publicado em 2023, e analisou 107 acionamentos de código amarelo em 91 pacientes entre 2018 e 2020. A piora respiratória com esforço, hipoxemia ou alteração de consciência exige avaliação médica imediata. Confirmar a leitura sem atrasar suporte, pedir explicitamente presença ao leito e acionar resposta rápida ou equipe de emergência disponível. Se o primeiro profissional não puder responder a tempo ou minimizar risco persistente, escalar agora; não esperar vinte minutos nem um limiar de saturação. Manter alguém ao lado, avaliação ABC e medidas iniciais para as quais a equipe está treinada, conforme protocolo e supervisão. Duas informações desse estudo interessam diretamente ao intervalo de que trata este capítulo.

A primeira é o quanto os sinais vitais já estavam velhos quando o chamado saiu: o tempo médio entre a última aferição de rotina e o acionamento do código amarelo foi de 4,9 horas, com mediana de 4,0 horas e máximo de 15 horas. Quando alguém finalmente chamou, o retrato fisiológico mais recente daquele paciente tinha, em média, quase cinco horas. A segunda é o que esse retrato dizia. Os autores calcularam retrospectivamente o NEWS, outro escore de alerta precoce, sobre os sinais vitais medidos antes do chamado, e a média foi 2,2, com desvio-padrão de 1,5. Pela regra de monitorização que o próprio artigo descreve, um paciente com NEWS entre 1 e 4 deve ser reavaliado dentro de quatro a seis horas. Traduzindo: o escore, aplicado à última aferição de rotina, teria mandado voltar dali a quatro a seis horas — e a equipe chamou assim mesmo. Dos 107 atendimentos, 25 foram seguidos de evento adverso.

A terceira informação é sobre o outro lado da linha. No hospital de São Paulo o tempo entre o acionamento e a chegada do time à unidade teve média de 12,9 minutos e mediana de 10, mas o máximo foi de 175 minutos: quase três horas entre chamar e alguém aparecer. Em Londrina, no mesmo país e com o mesmo nome de código, a média de chegada foi de 2,2 minutos, com máximo de 10. A distância entre 2,2 e 12,9 minutos de média, e entre 10 e 175 minutos de máximo, não é uma diferença de gravidade dos pacientes: é uma diferença de arranjo institucional. Onde existe um time dedicado com médico de plantão exclusivo, chega-se em minutos; onde a resposta depende de quem já está ocupado com outra coisa, chega-se quando dá.

Falta o número que fecha o argumento, e ele é de Londrina. A mortalidade hospitalar dos 104 pacientes que precisaram de um código amarelo foi de 59 em 104, isto é, 56,7%. Excluídos os nove pacientes que já tinham ordem de não reanimar e recomendação de cuidados paliativos, foi de 51 em 95, ou 53,7%. No mesmo período e no mesmo hospital, a mortalidade hospitalar global foi de 4,3%. A conta é direta: quem precisou de um chamado de piora clínica morreu treze vezes mais do que a média da casa. Não é que a chamada mate; é que a chamada identifica. O paciente pelo qual alguém chamou é, em média, outro paciente — e essa é a razão pela qual chamar cedo importa tanto e demorar custa tanto.

O mesmo estudo de Londrina traz o dado que impede este capítulo de terminar em promessa fácil, e ele merece ser lido devagar. Dos 95 pacientes não paliativos atendidos, 45 (47,4%) tiveram vaga de terapia intensiva solicitada e ficaram esperando leito em demanda reprimida em algum momento da internação. Esses pacientes tiveram risco de morte três vezes maior que os demais atendidos por código amarelo, com hazard ratio de 3,12 e intervalo de confiança de 95% entre 1,80 e 5,40. E dentro desses 45, a mortalidade de quem acabou conseguindo o leito (85,7%) não diferiu estatisticamente da mortalidade de quem nunca conseguiu (87,5%, com p de 0,59). A taxa de ocupação dos leitos de terapia intensiva daquele hospital, no período, era de 97,9%.

Isso quer dizer, com todas as letras, que naquele hospital e naquele período chamar corretamente, ser atendido em 2,2 minutos e ter a vaga solicitada não mudou o desfecho de quem já estava naquele ponto. Não é motivo para não chamar — é motivo para entender o que a chamada faz e o que ela não faz. Chamar cedo é a única parte da cadeia que está na sua mão, e é onde o ganho existe: no intervalo entre a percepção e a avaliação, que é curto, reversível e barato. Depois desse intervalo a cadeia depende de leito, de escala e de dinheiro público, e nada do que você disser ao telefone conserta ocupação de 97,9%. Este capítulo trata do trecho que é seu, e é honesto sobre onde ele termina.

Por fim, o número que não existe. As fontes brasileiras abertas não medem o intervalo entre o momento em que o interno percebeu a piora e o momento em que ele efetivamente ligou — que é exatamente o intervalo que este capítulo quer encurtar. O que os estudos medem é outra coisa: da instabilidade ao acionamento pela enfermagem, e do acionamento à chegada do time. O tempo do medo, entre perceber e discar, não tem número publicado. A lacuna fica registrada como lacuna, e não preenchida por estimativa.

04

Por que acontece o que acontece

O atraso em pedir ajuda tem um mecanismo, e o mecanismo não é covardia. É uma assimetria de custos que qualquer pessoa razoável, colocada naquele corredor, resolveria do mesmo jeito errado. Chamar sem necessidade tem um custo pequeno, certo, imediato, público e pessoal: alguém sobe, olha, não encontra nada, e diz uma frase que você vai repetir na cabeça por uma semana. Não chamar tem um custo grande, incerto, adiado, invisível e alheio: o paciente piora mais um pouco, e quase nunca fica registrado que ele piorou porque ninguém veio. Um dos custos você paga em cinco minutos e sente na pele; o outro é pago por outra pessoa, mais tarde, e sem recibo. Diante de dois custos assim, o corpo escolhe adiar, e o pensamento vem depois inventar uma razão clínica para a escolha que já foi feita.

Sobre isso se assenta uma segunda camada, que é da estrutura do aprendizado e não do seu caráter. O internato avalia autonomia. A frase elogiosa que circula sobre um interno bom é que ele resolve, que não precisa ser lembrado, que dá conta do plantão. Essa é uma virtude real e ninguém deveria querer o contrário. Só que a mesma pessoa que avalia a sua autonomia é a pessoa a quem você teria de ligar — e por isso cada chamada é, ao mesmo tempo, um ato assistencial e uma declaração sobre você na frente do seu avaliador. Nenhum outro ato do internato acumula essas duas funções. Prescrever errado se corrige em silêncio; pedir ajuda se faz em voz alta.

A terceira camada é a mais insidiosa porque é verdadeira. Esperar realmente compra informação. Daqui a uma hora o quadro estará mais definido, você terá mais um par de sinais vitais, a resposta ao oxigênio já terá aparecido, e a ligação será tecnicamente melhor. O erro não está em achar que a espera informa: está em supor que a informação e o dano crescem no mesmo ritmo. A informação cresce mais ou menos em linha reta, um dado por vez. O dano de uma hipoxemia, de uma hipoperfusão ou de uma sepse não cresce em linha reta, e há um trecho da curva em que ele deixa de ser reversível. A troca que parece justa — uma hora de espera por uma hora de dados — só é justa se você souber em que parte da curva o paciente está, e é exatamente isso que você não sabe. É por isso que a regra é chamar antes de ter certeza: a certeza chega, em média, depois do ponto em que ela ainda servia.

A quarta camada é a noite, e ela opera por dois caminhos distintos que costumam ser confundidos. O primeiro é material: à noite há menos gente, a distância entre você e alguém mais experiente é maior, e quem está de plantão está atendendo outra coisa. O segundo é normativo, e é o pior: existe uma norma tácita, nunca escrita, de que a madrugada pertence a quem dorme e chamar é uma imposição. Vale reparar que essa norma é um arranjo entre profissionais, e que o paciente não é parte dela. A trajetória fisiológica de uma pneumonia que virou insuficiência respiratória não consulta a escala. Se a sua régua é o incômodo de quem atende, você está usando um relógio que não é o do paciente.

A quinta camada é a que dá o remédio, e por isso merece atenção maior. Toda chamada que depende de julgamento é uma chamada que pode ser julgada. Enquanto ligar for um ato pessoal — eu achei que devia — cada ligação carrega o risco de que alguém discorde do seu achei. Um gatilho objetivo faz uma coisa muito específica com esse risco: transfere-o de você para a instituição. Quando existe uma lista escrita dizendo que saturação abaixo de tal valor, ou frequência respiratória acima de tal outro, ou uma queda de nível de consciência obrigam a comunicar, você deixa de estar defendendo uma opinião e passa a estar cumprindo uma regra. É por isso que os protocolos de resposta rápida valem alguma coisa mesmo quando os seus limiares são discutíveis: o valor principal deles não é a acurácia do corte, é a autorização. Onde não houver essa lista escrita, e no Brasil frequentemente não há, você precisa fabricar a sua e combiná-la em voz alta no começo do rodízio, para que na madrugada ela já exista.

A sexta camada é a hierarquia que desestimula, e ela tem nome de norma. O Código de Ética Médica veda ao médico utilizar-se de sua posição hierárquica para impedir que seus subordinados atuem dentro dos princípios éticos, no art. 56, e veda usar a posição hierárquica para obstruir o exercício profissional alheio, no art. 47. Isso não transforma o plantonista que resmungou numa infração ética — resmungar é humano e a maior parte dos resmungos morre ali. Mas nomeia com precisão o que acontece quando o resmungo vira política: quando um serviço ensina, pela repetição, que quem chama apanha, ele produziu uma barreira à assistência, e essa barreira tem endereço deontológico. O ponto prático para você é outro e é mais simples: a existência dessa norma significa que a sua chamada não é um favor que você pede. É um ato que a estrutura deve permitir.

A sétima camada é a difusão de responsabilidade, e é a que produz os casos mais tristes porque todo mundo agiu de boa-fé. A técnica avisou a enfermeira; a enfermeira avisou o interno; o interno achou que a residente, que passou pelo corredor, já sabia; a residente entendeu que estava sendo informada, não convocada. Cada elo cumpriu a sua parte e o paciente não foi visto por ninguém com poder de decidir. O antídoto é uma regra de ofício que vale para o resto da vida: informação transmitida não é ajuda pedida, e ninguém está a caminho enquanto não disser que está. Enquanto você não tiver ouvido uma pessoa identificada dizer o que vai fazer e quando, o chamado não aconteceu.

A oitava camada é a própria fala, e ela desfaz metade do trabalho das outras sete. Uma chamada mal montada não transmite um pedido: transmite um problema. Quem recebe um problema, no meio de outros dezenove, faz a única coisa que dá para fazer com um problema — enfileira. Quem recebe um pedido explícito, com um prazo dentro, tem de responder sim, não, ou daqui a tanto, e qualquer uma das três respostas é melhor do que a fila. É por isso que a segunda metade deste capítulo é sobre a forma da frase, e não sobre delicadeza: a estrutura da chamada é o instrumento clínico que converte a sua percepção na presença de outra pessoa ao lado do leito.

Fone de telefone com fio fora do gancho sobre o balcão de um posto de enfermagem à noite, ao lado de uma folha dobrada e uma caneta, com o corredor escuro ao fundo.
Reconhecer a deterioração e pedir ajuda com uma comunicação clara são partes da resposta. Hierarquia, receio de incomodar e informação incompleta podem atrasar o atendimento; a disponibilidade da equipe e a organização do serviço também influenciam esse intervalo.
05

Como se apresenta de verdade

Não há quadro clínico a apresentar aqui. O que se apresenta é a situação de pedir ajuda, e ela tem partes que valem ser nomeadas separadamente, porque falham separadamente. Vêm primeiro os dois tipos de gatilho — o que tem número e o que não tem —, depois a escada de quem se chama, depois a anatomia da frase, depois os modos conhecidos de a chamada falhar, e por fim a metade que quase nunca se ensina, que é quando não chamar. Antes de começar, o mapa das fronteiras: o manejo de cada deterioração fisiológica é dos capítulos da apostila de Síndromes do Paciente Internado — dessaturação aguda, hipotensão, febre, dor torácica intra-hospitalar, queda, delirium e parada cardiorrespiratória na enfermaria — e o de sepse é de Sepse: reconhecer e tratar na primeira hora, em Medicina Intensiva e Emergências. Este capítulo é dono do gatilho social; o gatilho fisiológico e o que se faz depois dele são de lá.

Competência ao final deste capítulo. Reconhecer deterioração e conseguir ajuda efetiva sem esperar um escore ou prazo fixo. No internato, demonstre o raciocínio e a execução supervisionada: o que verificar, o que fazer agora, quando chamar ajuda e como garantir continuidade.

Os gatilhos que dispensam julgamento

No nível do Internato não há capítulo dono da lista dos gatilhos objetivos de chamada. Os capítulos de síndromes tratam do manejo depois que o médico está no leito; o de segurança do paciente trata de barreiras e identificação; o de passagem de plantão trata da transferência programada de cuidado. A lista do que obriga a comunicar não tem dono no nível, e por isso este capítulo assume o assunto, e declara que o assumiu.

A ideia de gatilho objetivo é simples e o seu propósito é psicológico antes de ser fisiológico: um gatilho existe para tirar de você a decisão de decidir. Quando um valor entra na lista, você não avalia se vale a pena incomodar alguém — você comunica, porque foi combinado que se comunica. O ganho é que a chamada deixa de ser uma opinião sua sobre a gravidade do paciente e passa a ser o cumprimento de uma regra que existia antes daquele plantão. Esse deslocamento é o que protege o paciente do seu medo e protege você do julgamento alheio.

A lista abaixo é uma síntese defensável dos limiares que aparecem nos dois protocolos brasileiros que este capítulo abriu e nos critérios de acionamento descritos nos dois estudos nacionais. Não é norma: não existe norma brasileira que a imponha, e onde o seu serviço tiver lista própria, a lista do serviço vence a minha. Frequência respiratória abaixo de 9 ou acima de 28 por minuto. A piora respiratória com esforço, hipoxemia ou alteração de consciência exige avaliação médica imediata. Confirmar a leitura sem atrasar suporte, pedir explicitamente presença ao leito e acionar resposta rápida ou equipe de emergência disponível. Se o primeiro profissional não puder responder a tempo ou minimizar risco persistente, escalar agora; não esperar vinte minutos nem um limiar de saturação. Manter alguém ao lado, avaliação ABC e medidas iniciais para as quais a equipe está treinada, conforme protocolo e supervisão. Frequência cardíaca abaixo de 40 ou acima de 130 batimentos por minuto. Qualquer mudança aguda do nível de consciência ou do comportamento habitual, incluindo sonolência nova e agitação nova. Crise convulsiva. Sangramento ativo. Dor torácica nova. Glicemia capilar abaixo de 60 ou acima de 400 mg/dL. Débito urinário abaixo de 0,5 mL por quilo por hora sustentado por mais de duas horas.

Repare no que a lista tem de deliberado. Ela mistura valores absolutos com variações em relação ao próprio paciente, e a segunda metade é a que salva mais gente. Um senhor de 71 anos que vinha com saturação de 96% e está com 92% não cruza nenhum limiar absoluto e mudou muito; uma senhora que interna cronicamente com 90% e continua com 90% cruza o limiar e não mudou nada. Escore nenhum consegue ver isso, porque escore olha o valor e não a trajetória. É por essa razão que os gatilhos objetivos, sozinhos, são insuficientes — e é por isso que existe a segunda lista.

Duas notas para não transformar a lista em cilada. A primeira: cruzar um gatilho obriga a comunicar, não obriga a diagnosticar. Você não precisa saber o que está acontecendo para ter o dever de avisar que está acontecendo; a frase legítima é que a frequência respiratória do leito 12 subiu de 20 para 26, não que ele está entrando em insuficiência respiratória. A segunda: gatilho é piso, nunca teto. Nenhuma lista autoriza você a não chamar por um paciente que não cruzou nenhum item. O item que falta em toda lista é o próximo.

Os gatilhos que não têm número

O motivo mais frequente de chamada de código amarelo no estudo de Londrina não foi um valor: foi a frase seriamente preocupado com o estado geral do paciente, em 38% das 150 chamadas, à frente de qualquer parâmetro isolado. Isso não é uma curiosidade sociológica. É a informação de que o sistema de alerta mais sensível disponível numa enfermaria brasileira é uma pessoa que conhece aquele paciente e percebeu que ele mudou — e essa pessoa costuma ser a técnica de enfermagem que o vê de duas em duas horas, ou a filha que dorme na poltrona há três noites.

Vale entender por que a preocupação funciona tão bem. Ela é a única coisa que integra trajetória, contexto e comparação com o próprio paciente. A técnica não está somando pontos: está comparando o senhor Fulgêncio de hoje com o senhor Fulgêncio de ontem, que é a comparação certa e a única que escore nenhum faz. O preço é que essa informação chega em linguagem que a medicina não valoriza — está diferente, não está do jeito dele, está mais quieto — e é justamente a forma da frase que faz o interno arquivar o aviso.

A lista dos gatilhos sem número, então, é uma lista de frases. Um profissional da equipe diz que está preocupado, com essas palavras ou com outras. Um familiar que acompanha há dias diz que o paciente não está do jeito dele. O próprio paciente diz que vai morrer, ou que sente que alguma coisa está errada, ou que a falta de ar é diferente das outras. O paciente que estava conversando parou de conversar, ou o que reclamava parou de reclamar. Você mesmo sai do quarto com uma sensação de desconforto que não sabe nomear e se pega voltando lá dez minutos depois — esse retorno espontâneo é um dado clínico seu, e você deve tratá-lo como tal.

A regra prática que este capítulo propõe é simples e assume risco: preocupação de alguém que conhece o paciente vale como gatilho objetivo, com o mesmo peso e a mesma obrigação de comunicar. Quem preferir uma formulação mais defensiva pode adotar esta: preocupação sem número obriga a ir ao leito imediatamente e reavaliar os sinais na hora — o que, na prática, quase sempre transforma o gatilho sem número num gatilho com número, porque a folha de sinais vitais que está no posto tem, em média, quase cinco horas.

E aqui cabe a advertência que impede a leitura errada deste bloco. Nada disto transforma a técnica de enfermagem ou a filha em quem decide a conduta. O que elas fazem é disparar a avaliação — que é sua, e depois de outro médico. Confundir as duas coisas produz o erro oposto, que é o interno que passa o plantão inteiro reagindo a cada frase do corredor sem examinar ninguém.

A escada, e por que subir não é deslealdade

A escada tem quatro degraus, e a primeira coisa a entender é que ela existe para o paciente e não para a etiqueta. O primeiro degrau é o residente da equipe ou o residente de plantão: é quem está mais perto, sabe do caso, e resolve a maior parte das chamadas. O segundo é o médico plantonista da unidade ou do hospital: é quem tem autonomia para prescrever, pedir exame, indicar transferência e acionar o time de resposta rápida, se houver. O terceiro é o médico assistente do paciente, aquele que responde pela internação: é quem conhece o plano, o que já foi tentado e o que a família sabe. O quarto é a chefia do serviço e, acima dela, a direção técnica do estabelecimento. Uma distinção antes de seguir: esta escada é a de pedir ajuda para um paciente que está piorando. A discordância clínica entre profissionais que já cuidam do mesmo paciente, os papéis de cada profissão na enfermaria e o conflito de equipe são de Dois planos para o mesmo paciente, na posição 10 desta apostila.

Cada degrau tem uma coisa que os outros não têm. O residente tem proximidade e tempo; o plantonista tem autonomia e presença física agora; o assistente tem a história e a autoridade sobre o plano; a direção técnica tem poder sobre a escala e sobre a estrutura, que é onde moram os problemas que nenhum médico à beira do leito resolve. Escolher o degrau errado é uma das quatro maneiras conhecidas de uma chamada falhar: pedir vaga de terapia intensiva ao residente e pedir opinião sobre trajetória ao plantonista que nunca viu o paciente são o mesmo tipo de erro.

Sobre subir, que é a parte que trava todo mundo. O Código de Ética Médica não trata a escalada como deslealdade em nenhum lugar; trata-a, ao contrário, como obrigação em vários. O art. 8º veda ao médico afastar-se das suas atividades, mesmo temporariamente, sem deixar outro médico encarregado dos pacientes internados ou em estado grave. O art. 9º veda deixar de comparecer a plantão ou abandoná-lo sem substituto, e o seu parágrafo único diz de quem é o problema quando não há plantonista: na ausência de médico plantonista substituto, a direção técnica do estabelecimento deve providenciar a substituição. Ou seja, a norma prevê explicitamente que a falta de médico é assunto da direção técnica — e prever isso é reconhecer que alguém vai ter de avisá-la.

O Capítulo II do mesmo Código, que trata de direitos, fecha o desenho. O direito III assegura apontar falhas em normas, contratos e práticas internas das instituições quando as julgar prejudiciais ao paciente, comunicando-as ao Conselho Regional de Medicina e à comissão de ética da instituição; o direito IV, ao tratar da recusa de trabalhar em condições indignas, manda comunicar a decisão ao diretor técnico, ao Conselho Regional e à comissão de ética. Repare no que esses dois dispositivos fazem: eles nomeiam os destinatários da escalada institucional. Você não está inventando um caminho quando avisa a chefia ou a direção técnica de que ninguém veio ver um paciente grave — está usando o caminho que a norma já desenhou.

Duas regras de convivência para não transformar isso em guerra. A primeira: subir um degrau se anuncia, não se faz pelas costas. A frase é literalmente esta: eu vou ligar para o assistente, porque o paciente está assim e eu preciso de uma decisão agora. Quem foi avisado que você vai subir raramente considera traição; quem descobre depois, considera. A segunda: quando o degrau de cima decide diferente do de baixo, existe uma regra própria. O art. 52 veda desrespeitar a prescrição ou o tratamento determinados por outro médico, mesmo em função de chefia, salvo em situação de indiscutível benefício para o paciente, e nesse caso obriga a comunicar imediatamente o fato ao médico responsável. Traduzindo para o corredor: mudar a conduta de alguém é possível quando o paciente ganha claramente com isso, e nunca é possível em silêncio.

Por fim, a sua posição na escada. Você é estudante em estágio obrigatório, e o ato que você pratica é ato médico supervisionado: a Resolução CFM nº 2.434/2025 diz isso no § 1º do seu art. 1º, e o § 3º trata o preceptor como corresponsável limitado ao que supervisiona diretamente. A leitura da resolução como um todo, incluindo o alcance da suspensão judicial que pesa sobre parte dela, é de Quatro princípios e nenhum árbitro, na apostila de Medicina Legal e Bioética, e de O documento que você mais escreve, na posição 6 desta apostila; aqui interessa só a consequência prática, que é dura e simples. Um interno sem supervisão acessível não é um médico com pouca experiência: é um estudante fora do arranjo que a norma exige. Quando você não consegue ninguém, o problema deixou de ser clínico e virou institucional, e um problema institucional se comunica para cima.

A anatomia da chamada: cinco partes e um pedido

A chamada tem cinco partes, e a última é a que quase todo mundo esquece. Quem é você e de onde está falando. Onde está o paciente e quem ele é. O que mudou, com o antes e o depois. O que você já fez. E o que você está pedindo, dito com essas palavras.

A primeira parte custa quatro segundos e resolve um problema real do outro lado: quem atende precisa saber com quem fala para calibrar tudo o que vem depois. A mesma descrição vinda de um interno de primeiro mês e de uma residente do segundo ano recebe respostas diferentes, e isso não é injustiça — é uso legítimo de informação. Diga o nome e diga que é o interno. Esconder a posição para ser levado a sério é uma tentação que se paga caro, porque o outro lado descobre em trinta segundos e passa a duvidar do resto.

A segunda parte é o endereço físico e a identidade. Enfermaria de clínica médica, leito 12, senhor Fulgêncio Luna, 71 anos, terceiro dia de internação por pneumonia. Isso permite que quem atende já comece a andar enquanto ouve o resto, e é a única parte da chamada que tem valor logístico.

A terceira parte é o que mudou, e ela tem uma regra de ouro: dois pontos no tempo, nunca um. Um valor isolado não informa nada — 91% de saturação é péssimo em quem vinha com 96% e é o basal de muita gente com doença pulmonar crônica. A frase certa carrega o antes e o depois no mesmo fôlego: estava com 94% e 20 incursões à meia-noite, está com 91% e 26 agora. Essa é a diferença entre transmitir um número e transmitir uma trajetória, e é a trajetória que faz alguém levantar da cadeira.

A quarta parte é o que você já fez, e ela serve para duas coisas. Impede que o outro lado gaste tempo mandando fazer o que já foi feito, e prova que você foi ao leito antes de ligar. Já coloquei cateter de oxigênio a 3 litros, já refiz os sinais, já peguei acesso, já pedi o eletrocardiograma. Se você não fez nada porque não sabia o que fazer, diga isso também — é informação verdadeira e útil, e mentir sobre ela é a única coisa que estraga a chamada de forma irrecuperável.

A quinta parte é o pedido, e ela é a razão de existir de todas as outras. Um pedido tem verbo, sujeito e prazo. Eu preciso que você venha ver agora. Eu preciso de autorização para uma prescrição. Eu preciso saber se transfiro. Eu preciso que você suba nos próximos dez minutos ou que me diga a quem eu ligo. Sem essa frase, o que você fez foi informar; e informar, para quem tem dezenove pessoas na observação, é oferecer um item de fila. Se você não sabe o que pedir, peça isso mesmo: eu não sei o que fazer com este paciente e preciso que alguém o veja.

Uma observação sobre siglas de comunicação estruturada. Existem esquemas mnemônicos conhecidos para isso, e o formulário de beira de leito do protocolo do Distrito Federal traz um deles, com campos de situação, breve histórico, avaliação e recomendação. Se o seu serviço usa um, use o do serviço. O que este capítulo defende não é a sigla: é que a última linha seja um pedido, com prazo, e que ela seja dita em voz alta. Sigla nenhuma salva quem termina a ligação sem pedir nada.

Os quatro modos de a chamada falhar

O primeiro modo é a informação disfarçada de pedido. Você conta o caso inteiro, com esmero, e desliga sem pedir nada. Do outro lado ficou registrado que o leito 12 está pior — e nada mais. Este é o modo mais comum e o mais invisível, porque ninguém percebe que falhou: os dois lados desligam achando que a conversa foi boa.

Definir urgência pelo estado clínico, não por contrato de espera. Pedir tempo de resposta é útil para saber se é suficiente; se não for, escalar imediatamente. Registrar horário, dados e resposta, mantendo suporte e observação. Piora durante a espera exige novo acionamento sem aguardar o prazo combinado.

O terceiro modo é o degrau errado. Pedir ao residente o que só o assistente decide, ou pedir ao assistente por telefone, de casa, o que só resolve quem está no prédio. O teste é uma pergunta antes de discar: o que eu quero que aconteça nos próximos dez minutos, e quem é a pessoa que pode fazer isso acontecer? Se o que você precisa é de olhos no paciente, a resposta é sempre alguém que está no hospital.

O quarto modo é o chamado que não chegou a ninguém identificado. Falar com um posto, deixar recado com quem atendeu, mandar mensagem no grupo, avisar alguém no corredor. Nada disso é chamada. Chamada é uma pessoa com nome dizendo o que vai fazer e quando. Enquanto não houver nome e prazo, você ainda não chamou — e a regra que fecha esse modo de falha é a mesma que fecha os outros três: o chamado só existe quando o outro lado devolve um compromisso.

Há um quinto modo, mais raro e mais grave, que merece nome próprio: a chamada que não se faz porque já se decidiu qual seria a resposta. É o interno que não liga porque tem certeza de que o plantonista vai dizer para esperar. Ele pode até estar certo sobre a resposta, e ainda assim errado, porque a resposta não é dele para prever — e porque a chamada, quando registrada, muda o problema de lugar. Enquanto você não chama, o paciente está sozinho com você; depois que você chama, o serviço inteiro sabe.

Quando não chamar, e o que custa chamar por tudo

Um capítulo que só empurra para chamar produz um profissional inútil e um sistema surdo, e as duas coisas prejudicam pacientes. Vale, portanto, dizer com clareza o que não é chamada de piora clínica. Não é chamada de piora clínica pedir por telefone, às três da manhã, uma prescrição de laxante, de antitérmico ou de analgésico simples para um paciente estável — isso é falha de prescrição do dia, resolve-se conferindo a folha e, se faltar mesmo, entra no que existir de rotina do serviço para prescrição noturna. Não é chamada de piora clínica pedir interpretação de um exame de rotina que chegou de madrugada e não muda nada até de manhã. Não é chamada de piora clínica transferir para o plantonista uma conversa difícil com a família que pode e deve esperar a equipe assistente, e as ferramentas dessa conversa estão em Comunicação de más notícias, na posição 1, e em O que se diz quando não se sabe, na posição 2 desta apostila.

O custo de chamar por tudo não é o incômodo de quem atende: é a erosão da resposta. Um serviço em que o mesmo canal é usado para laxante e para insuficiência respiratória ensina, em poucas semanas, que o canal não distingue urgência — e a partir daí a resposta média fica mais lenta para todo mundo, inclusive para o paciente que precisava. Essa erosão é o dano de verdade, e ela não aparece em indicador nenhum. Ela aparece na sua sétima ligação, quando a pessoa do outro lado já ouviu seis que não eram nada.

A régua prática que resolve quase todos os casos duvidosos tem três perguntas. Primeira: o que eu quero que aconteça, e quando? Se a resposta honesta for até de manhã, não é chamada de piora — é tarefa, e vai para a lista da visita. Segunda: se eu não fizer nada nas próximas duas horas, alguma coisa se torna irreversível? Se puder, é chamada, e é agora. Terceira: eu estou chamando por causa do paciente ou por causa da minha ansiedade? Essa terceira pergunta é honesta e não é acusatória — ansiedade de interno é apropriada e frequentemente é o único detector funcionando no andar. A resposta correta, quando é ansiedade, quase nunca é não chamar: é chamar dizendo que é ansiedade. Estou desconfortável com o leito 12 e não sei dizer por quê, os sinais estão assim, você pode dar uma olhada quando puder? Essa frase é honesta, é barata e não gasta crédito.

Há uma classe inteira de casos em que a pergunta certa não é se chamar, mas se ainda há o que fazer. O estudo de Londrina registra que, dos 104 pacientes atendidos por código amarelo, nove tinham ordem de não reanimar e recomendação de cuidados paliativos — e o protocolo do Distrito Federal exclui explicitamente do seu escopo os pacientes em cuidados paliativos ou fora de possibilidade terapêutica de cura. O que se decide e o que se registra nesses casos é de O que continua quando se decide parar, na posição 4 desta apostila, e este capítulo cede o assunto inteiro para lá. Fica aqui só a nota de ofício: se o paciente tem limitação terapêutica definida e registrada, isso é informação que a chamada tem de carregar na segunda frase, não na décima.

E o inverso, para fechar honesto. Se você hesitar entre chamar e não chamar, chame. Não porque errar por excesso seja neutro — não é, e este bloco inteiro tratou disso —, mas porque os dois erros não são simétricos. O excesso custa crédito, que se recupera. A falta custa tempo fisiológico, que não se recupera. Entre um erro que se paga em constrangimento e um erro que se paga em órgão, escolha o primeiro todas as vezes.

06

Como fechar o diagnóstico

Investigar, aqui, não é descobrir o diagnóstico: é montar, em dois minutos, a chamada que traz alguém — e depois administrar o intervalo entre a chamada e a chegada, que é onde o paciente está sozinho com você. As seis seções abaixo cobrem o que se confere antes de discar, o que se diz quando o outro lado minimiza, o que se faz enquanto se espera, o que se faz quando ninguém vem, o que se registra e a passagem que acontece junto com o pedido.

Os dois minutos antes de discar

Existe uma tentação simétrica ao atraso, e ela também custa caro: preparar tanto a chamada que a preparação vira o novo motivo para não ligar. A regra de tempo é esta: se o paciente cruzou um gatilho objetivo e você está com ele à sua frente, o preparo cabe em dois minutos e é feito no leito, não no posto. Se o preparo estiver demorando mais do que isso, ou o paciente não estava tão mal quanto você achou, ou você está adiando com trabalho.

O que entra nos dois minutos. Primeiro, sinais vitais refeitos por você, agora, com o aparelho do carrinho — porque a folha do posto tem, em média, quase cinco horas, e porque um valor que você mediu é um valor que você pode defender. Cinco parâmetros e a saturação: pressão, frequência cardíaca, frequência respiratória, temperatura, nível de consciência, saturação em ar ambiente. Segundo, o par: o valor de agora ao lado do valor anterior, que é o que transforma número em trajetória. Terceiro, o diagnóstico de entrada e o dia de internação em uma frase. Quarto, o peso, porque quase toda decisão que vem depois depende dele. Quinto, o que ele recebeu nas últimas horas — o horário do último opioide, do último anti-hipertensivo, da última dose de antibiótico, do último hipoglicemiante — que é a resposta antecipada à primeira pergunta que qualquer médico competente vai fazer. Sexto, se há limitação terapêutica registrada.

O que não entra nos dois minutos: exame novo, resultado de laboratório que ainda não voltou, discussão de diagnóstico diferencial e busca em livro. Nada disso muda a decisão de chamar, e tudo isso consome o único recurso escasso da cena. Se o exame é necessário, ele é pedido depois da chamada, ou por quem atender a chamada.

Um comentário sobre o exame físico, porque ele é a acusação mais frequente contra o interno que liga: você não examinou. Examinar antes de ligar é obrigação, e o exame que basta para uma chamada de piora é curto e conhecido — via aérea e padrão respiratório, com atenção ao uso de musculatura acessória e à capacidade de falar frases inteiras; perfusão periférica e tempo de enchimento capilar; nível de consciência e orientação; ausculta pulmonar e cardíaca; abdome se houver queixa; e uma olhada nos acessos, drenos e sondas que ele tiver. Isso leva três minutos e é o que separa a chamada que é levada a sério da que não é.

Por fim, um ponto de honestidade que vale o capítulo inteiro. Se você examinou e não sabe interpretar o que achou, isso não é motivo para adiar: é o conteúdo da chamada. A frase é que você encontrou tal coisa e não sabe o que ela significa. Nenhuma norma brasileira exige que o estudante em estágio saiba interpretar; a Resolução CFM nº 2.434/2025 exige o contrário, que ele esteja sob supervisão médica presencial. O interno que esconde o que não entendeu para parecer competente está trocando a segurança do paciente por uma impressão sobre si mesmo, e essa troca é a matéria-prima dos casos que a apostila inteira estuda.

Quando quem atende minimiza

Vai acontecer, e vai acontecer com gente boa. Você liga, descreve, e do outro lado vem alguma variação de: isso é da pneumonia dele mesmo, deixa no oxigênio e me chama se piorar, dá uma dipirona e reavalia daqui a duas horas. Nem sempre isso é descaso — muitas vezes é o julgamento legítimo de alguém com mais experiência, feito com a informação que você deu. E às vezes é a resposta automática de quem está com dezenove pessoas na observação e não processou o que ouviu.

A primeira coisa a fazer não é insistir: é conferir se a informação chegou. A causa mais comum de resposta desproporcional é chamada mal montada, e o teste é devolver o essencial em uma frase. Só para eu ter certeza de que fui claro: ele estava com 94% e 20 incursões à meia-noite e está com 91% e 26 agora, usando musculatura acessória, e não recebeu nada nesse intervalo. Metade das minimizações se desfaz aqui, e se desfaz sem conflito nenhum, porque o problema era transmissão e não julgamento.

Se a resposta se mantiver, a segunda coisa é nomear o que você precisa em vez de discutir o diagnóstico. Você não tem como ganhar uma discussão de diagnóstico com alguém mais experiente por telefone, e não é isso que está em jogo. O que está em jogo é presença. A frase é: eu entendo, mas eu não me sinto seguro para ficar sozinho com ele nesse quadro, e eu preciso que alguém o veja. Essa formulação é eficaz porque é verdadeira, porque não acusa ninguém e porque coloca a decisão onde ela é: quem disser que não vem depois de ouvir isso está tomando uma decisão consciente e informada, e é bom para todo mundo que seja assim.

Definir urgência pelo estado clínico, não por contrato de espera. Pedir tempo de resposta é útil para saber se é suficiente; se não for, escalar imediatamente. Registrar horário, dados e resposta, mantendo suporte e observação. Piora durante a espera exige novo acionamento sem aguardar o prazo combinado.

A quarta coisa vale para quando o tom vira. Se a resposta veio com hostilidade, resolva o paciente primeiro e trate o resto depois: durante a chamada, não responda ao tom, repita o pedido. Depois do plantão, o assunto existe e tem endereço — o preceptor, o coordenador do internato, a chefia do serviço, a comissão de ética da instituição. O Código de Ética Médica veda usar a posição hierárquica para impedir que subordinados atuem dentro dos princípios éticos, no art. 56, e obriga a denunciar atos contrários aos postulados éticos à comissão de ética da instituição e, se necessário, ao Conselho Regional de Medicina, no art. 57. Isso não quer dizer que toda grosseria vira processo — quer dizer que a grosseria que produz atraso assistencial não é um traço de personalidade a ser tolerado, é um problema do serviço.

O que fazer enquanto espera

O intervalo entre a chamada e a chegada tem, no estudo de São Paulo, média de 12,9 minutos e mediana de 10 — e máximo de 175. Você não controla qual desses números vai ser o seu, mas controla o que acontece no andar enquanto isso. E o princípio que organiza esse intervalo é conservador de propósito: faça o que é reversível, seguro e dentro do que você já tem prescrito ou autorizado, e não faça o que exige uma decisão que não é sua.

O que cabe fazer, e é bastante. Ficar com o paciente ou deixar alguém com ele — a pior coisa que se faz num intervalo desses é voltar para o posto. Elevar a cabeceira. Ofertar oxigênio se houver prescrição ou rotina que o autorize, e anotar o dispositivo e o fluxo. Instalar monitorização se a unidade tiver. Garantir acesso venoso pérvio e de bom calibre. Repetir sinais vitais em intervalo curto e anotar cada série com horário. Reunir o que vai ser pedido: eletrocardiograma se houver dor torácica ou arritmia, glicemia capilar, e o carrinho de emergência conferido e por perto. Avisar a enfermeira do plantão do que você está esperando e de quem — para que ela saiba a quem recorrer se você tiver de sair do andar.

O que não cabe fazer, e a razão é a mesma em todos os casos. Não inicie droga nova por conta própria, não altere dose de coisa alguma, não suspenda medicação prescrita e não indique transferência. Não é timidez: é que essas quatro coisas são decisões cujas consequências você não tem como acompanhar, e cujo desfazimento é caro. A exceção é a que sempre existe e não precisa de autorização de ninguém: manobras de suporte de vida numa emergência instalada, que são obrigação de qualquer pessoa presente e cujo detalhe é de Parada cardiorrespiratória na enfermaria, na apostila de Síndromes do Paciente Internado.

Há uma tarefa do intervalo que quase ninguém faz e que muda o resultado da chegada: preparar a chegada. Quando o plantonista aparecer, ele vai ter entre trinta segundos e dois minutos de atenção total, e o que ele receber nesse tempo decide a conduta. Tenha na mão a folha de sinais com as séries, o prontuário aberto na evolução do dia, a prescrição impressa, o peso e a última função renal. Receba-o com a mesma estrutura de cinco partes da chamada, agora em voz baixa, no corredor, antes de entrarem no quarto. É o mesmo ato de comunicação, e ele funciona pelas mesmas razões.

E uma última providência que pertence a este intervalo e é frequentemente esquecida: fale com a família que está ali. Não para dar prognóstico, que não é seu e é assunto de O que se diz quando não se sabe, na posição 2 desta apostila, mas para dizer o que está acontecendo em termos de processo. O senhor Fulgêncio piorou a respiração, eu chamei o médico plantonista, ele está vindo, eu vou ficar aqui até ele chegar. Isso custa vinte segundos, e a diferença que faz depois — quando alguém tiver de conversar de verdade com essa filha — é grande.

Quando ninguém vem

Este é o cenário que os protocolos não cobrem e que acontece toda semana no Brasil. Você chamou, foi claro, pediu com prazo, e o prazo passou. Ou pior: você ligou três vezes e ninguém atendeu. A partir daqui, três regras.

Definir urgência pelo estado clínico, não por contrato de espera. Pedir tempo de resposta é útil para saber se é suficiente; se não for, escalar imediatamente. Registrar horário, dados e resposta, mantendo suporte e observação. Piora durante a espera exige novo acionamento sem aguardar o prazo combinado.

Segunda regra: um prazo vencido é o gatilho do próximo degrau, e não da repetição do mesmo. Ligar quatro vezes para a mesma pessoa é o erro mais comum. Se o plantonista não veio no prazo combinado e o paciente segue como está ou pior, o próximo passo é o médico assistente do paciente, e depois a chefia do serviço ou o médico de plantão de outra área que esteja no prédio — em muitos hospitais brasileiros, à noite, esse é o clínico da unidade de terapia intensiva ou o cirurgião de sobreaviso. Se nenhum médico do estabelecimento estiver acessível, o degrau seguinte é a direção técnica, e o Código de Ética Médica é explícito sobre a competência dela: o parágrafo único do art. 9º diz que, na ausência de médico plantonista substituto, cabe à direção técnica providenciar a substituição. Um hospital com paciente grave e nenhum médico disponível é, literalmente, um problema da direção técnica.

Terceira regra: anuncie cada subida. Ao ligar para o assistente, diga que ligou para o plantonista às tantas horas e que ele não pôde vir. Não é para culpar — é porque quem vai atender precisa saber o que já foi tentado, e porque a versão que você conta na hora, com todas as tentativas, é sempre melhor do que a versão que aparece depois.

E o limite honesto disto tudo, que este capítulo não vai esconder. Escalar não garante resposta. No estudo de Londrina, num hospital com time de resposta rápida que chegava em 2,2 minutos, quase metade dos pacientes não paliativos atendidos ficou esperando leito de terapia intensiva em demanda reprimida, e a mortalidade de quem acabou conseguindo o leito não diferiu da de quem nunca conseguiu. Você pode fazer tudo certo e o desfecho ser o mesmo. O que a escalada garante não é o resultado: é que o paciente foi visto por quem podia decidir, e que a decisão que se tomou foi tomada por quem tinha competência para tomá-la. Isso é menos do que a gente gostaria e é muito mais do que nada.

O registro da chamada e da resposta

A chamada que não foi registrada não aconteceu, e essa frase tem dois sentidos que interessam por razões diferentes. O primeiro é assistencial: o próximo profissional que abrir aquele prontuário precisa saber que houve piora, que alguém foi acionado e o que ficou combinado, ou vai recomeçar do zero. O segundo é de responsabilidade, e vale dizê-lo sem hipocrisia — o registro da chamada é a única prova de que o intervalo entre a percepção e a decisão foi curto.

O que o registro precisa ter é curto e sempre o mesmo. Hora em que você foi ao leito e o que encontrou, com os sinais vitais medidos. Hora em que você comunicou, a quem comunicou pelo nome, e por qual meio. O que foi respondido, com as palavras que foram ditas, e o prazo combinado. O que você fez enquanto esperava. Hora em que a pessoa chegou, ou hora em que o prazo venceu e você acionou o degrau seguinte. Isso cabe em cinco linhas.

Duas regras de escrita, e as duas vêm de um lugar que este capítulo não vai reescrever, porque tem dono: O documento que você mais escreve, na posição 6 desta apostila, é o capítulo de prontuário e sigilo, e é lá que estão as regras gerais de registro, correção e responsabilidade documental. As duas que valem repetir aqui por serem específicas da chamada são estas. Registre o fato, não a interpretação do fato: comunicado ao Dr. Fulano às 2h10, orientado manter oxigênio e reavaliar em duas horas é registro; plantonista se recusou a ver o paciente é acusação, e acusação em prontuário destrói a utilidade do documento e a sua relação com a equipe. E registre a resposta, não só a chamada — o registro que diz apenas comunicado ao plantonista deixa exatamente de fora a informação que alguém vai precisar.

Onde a chamada não deu certo e o paciente sofreu dano, o que se faz a partir dali — a hora seguinte, a notificação, a conversa com o paciente e a família sobre o que aconteceu — é inteiramente de A hora seguinte, na posição 8 desta apostila. O corte entre os dois capítulos é limpo e vale enunciá-lo nos dois sentidos: enquanto ainda dá para evitar, é aqui; depois que o dano aconteceu, é lá. E o que fazer com barreiras, checagem, identificação do paciente e cultura de notificação é de As barreiras que parecem burocracia, na posição 7.

A passagem que acontece junto com o pedido

Existe um capítulo inteiro sobre transferir cuidado de forma programada: Passagem de plantão, na apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado, que trata do que se transmite e do que se perde na troca de turno. Este capítulo cede esse assunto por completo. O que fica aqui é o pedaço que não é programado: a passagem que acontece dentro de um pedido de ajuda, no meio da noite, sobre um paciente que está piorando agora.

As duas coisas se parecem e têm uma diferença que muda tudo. Na passagem de turno, quem recebe assume o paciente e você sai. Na chamada de piora, quem chega assume a decisão e você fica. Esse detalhe define o conteúdo: numa passagem de turno você conta a internação; numa chamada você conta o delta. O erro clássico — e ele acontece por boa educação — é começar a chamada pelo início da internação, contar cinco dias de história e chegar ao que mudou quando o outro lado já parou de ouvir. A ordem é invertida de propósito: o que mudou vem primeiro, a história vem depois e só se pedirem.

O Código de Ética Médica trata as duas situações em artigos diferentes, e isso ajuda a fixar a distinção. O art. 55 veda deixar de informar ao substituto o quadro clínico dos pacientes sob sua responsabilidade ao ser substituído ao fim do turno — é a passagem de plantão. O art. 54 veda deixar de fornecer a outro médico informações sobre o quadro clínico do paciente, e não depende de fim de turno nenhum — é o que rege a chamada. Já o art. 8º, que proíbe afastar-se sem deixar outro médico encarregado dos pacientes internados ou em estado grave, é o que fecha o buraco entre as duas: ninguém sai de perto de um paciente grave sem entregá-lo a alguém identificado.

Uma consequência prática que fecha a seção, e que é a mesma regra sob outro nome. Se durante a espera o seu turno acabar, o paciente não passa para o próximo interno por osmose. Ele passa numa conversa, com nome, na qual você diz o que aconteceu, a quem ligou, o que ficou combinado e qual prazo está correndo. E se o prazo estiver vencido, não passe o paciente: passe o problema resolvido, ou suba mais um degrau antes de ir embora.

07

Os limiares, os degraus e a frase

Três tabelas e um cartão resolvem o que este capítulo tem de decisão: se o achado obriga a comunicar, a quem se comunica, e com que palavras. A primeira tabela é a mais desconfortável — ela põe o mesmo paciente diante dos dois protocolos brasileiros que este capítulo abriu no original e mostra que eles discordam sobre chamar, e em quanto tempo. As notas ao final trazem as conferências de conta que sustentam cada linha, inclusive as que fecharam.

  1. 11 — Alguém percebeu que o paciente mudou, ou um valor cruzou um limiar. Vá ao leito. Isso não se delega e não se adia para depois de terminar a evolução.
  2. 22 — Refaça os sinais vitais você mesmo, agora, e olhe o valor anterior ao lado. A folha do posto tem, em média, quase cinco horas; sem o par antes-e-depois você tem um número, não uma trajetória.
  3. 33 — Examine o essencial: padrão respiratório e capacidade de falar frases inteiras, perfusão, nível de consciência, ausculta, acessos e drenos. Três minutos.
  4. 44 — Decida a quem ligar pela pergunta certa: o que eu quero que aconteça nos próximos dez minutos, e quem pode fazer isso acontecer? Se o que você precisa é de olhos no paciente, é alguém que está no prédio.
  5. 55 — Ligue e diga as cinco partes, terminando pelo pedido com prazo. Anote a hora da chamada, o nome de quem atendeu, o que foi respondido e o prazo combinado.
  6. 66 — Enquanto espera, fique com o paciente e faça só o reversível e já autorizado: cabeceira, oxigênio previsto, acesso, monitorização, séries de sinais anotadas com horário. Prepare a chegada e avise a família do que está acontecendo.
  7. 7Escalar imediatamente se o primeiro contato não puder atender no tempo clínico necessário; priorizar resposta rápida e médico disponível, mantendo assistência e comunicação.

O que nenhuma norma brasileira diz

Não existe norma nacional fixando quando um paciente internado em enfermaria tem de ser visto por um médico, nem prazo máximo para o médico chegar depois de chamado, nem obrigação de que exista time de resposta rápida no hospital. O Código de Ética Médica é o que mais perto chega e não traz número nenhum: obriga a atender em urgência e emergência quando for de obrigação do médico fazê-lo (art. 7º), proíbe abandonar paciente sob seus cuidados (art. 36) e proíbe afastar-se sem deixar outro médico encarregado dos pacientes internados ou em estado grave (art. 8º) — sem definir grave e sem contar minutos. Os limiares e os prazos que existem no Brasil são de protocolos locais e estaduais, e discordam entre si, como mostra a primeira tabela. Consequência prática: no seu campo de estágio, ou existe uma lista escrita e você a usa, ou não existe e você precisa combinar a sua com a equipe no começo do rodízio, em voz alta, para que na madrugada ela já exista.

O mesmo paciente diante dos dois protocolos brasileiros

Achado à beira do leitoPontos no MEWS do protocolo da SES-DFEstrato e resposta que o protocolo da SES-DF disparaCor no protocolo do HUWCTempo de chegada do médico no HUWC
Saturação de 84% em ar ambiente, com os cinco parâmetros do escore normais0 — a saturação não é parâmetro do escoreEstrato 1: reavaliar em 6 horas, estimular a deambulaçãoVigiar conforme protocolo; qualquer sinal grave ou preocupação clínica exige resposta antes do intervalo de rotina.7 minutos
Pressão sistólica de 185 mmHg, sem anti-hipertensivo prescrito0 — a faixa de 101 a 199 mmHg pontua zeroEstrato 1: reavaliar em 6 horasAmarelo (sistólica acima de 180 sem medicação prescrita)30 minutos
Temperatura axilar de 38,2 °C, sem antitérmico prescrito0 — a faixa que pontua só começa em 38,5 °CEstrato 1 pelo escore, mas a conduta de enfermagem do Estrato 2 manda antitérmico a partir de 38 °CAmarelo (temperatura acima de 38 sem medicação prescrita)30 minutos
Preocupação da equipe com o estado do paciente, sem alteração de sinais vitais0 — o escore não tem campo para issoEstrato 1: reavaliar em 6 horasVerde, na mesma linha da avaliação de raio X e da admissão de paciente clínico1 hora
Sistólica 88 mmHg e frequência cardíaca 118, demais parâmetros normais1 + 2 = 3Estrato 2: reavaliar em 4 horas e comunicar o enfermeiro plantonistaNenhum: o código de cores não tem critério de hipotensãoSó pelo escore do Anexo 1, que é uma imagem e cujo conteúdo o texto do protocolo não reproduz
Senhor Fulgêncio à meia-noite e vinte: FR 20, FC 96, PAS 118, 37,4 °C, alerta, saturação 94%0 + 0 + 0 + 0 + 0 = 0Estrato 1: reavaliar em 6 horasNenhum critério atendidoNenhum acionamento previsto
Senhor Fulgêncio à uma e cinquenta: FR 26, FC 112, PAS 104, 37,8 °C, alerta, saturação 91%2 + 2 + 0 + 0 + 0 = 4Estrato 3: reavaliar de hora em hora, e avaliação médica necessáriaAmarelo se o desconforto respiratório for lido como leve, Laranja se moderado30 ou 7 minutos, conforme a leitura de quem chama

A escada: o que só cada degrau resolve

DegrauO que só ele resolveQuando é o degrau certoErro típico com esse degrau
Residente da equipe ou de plantãoProximidade física e tempo: consegue ir ao leito agora e conhece o casoPrimeira chamada de quase tudo; dúvida de conduta; achado que você não sabe interpretarFicar nele quando o que se precisa é de uma decisão que ele não tem autonomia para tomar
Médico plantonista da unidade ou do hospitalAutonomia para prescrever, pedir exame, indicar transferência e acionar o time de resposta rápida, com presença física imediataPiora clínica instalada; gatilho objetivo cruzado; qualquer coisa que exija decisão terapêutica agoraPedir a ele opinião sobre trajetória de um paciente que ele nunca viu, em vez de pedir presença
Médico assistente do pacienteA história, o plano, o que já foi tentado e o que a família sabe; autoridade sobre o plano terapêuticoQuando a decisão depende do plano, quando o plantonista não veio no prazo, quando há limitação terapêutica a confirmarAcioná-lo em vez do plantonista quando o que falta é alguém no prédio, agora
Chefia do serviço e, acima dela, direção técnicaPoder sobre escala, estrutura e substituição de plantonista — que é o que nenhum médico à beira do leito resolveQuando não há médico acessível no estabelecimento, ou quando a falta de resposta deixou de ser episódio e virou padrãoUsá-la como queixa contra uma pessoa em vez de como comunicação de uma falha de estrutura

As cinco partes da chamada

ParteO que se dizO erro típico
Quem é vocêAqui é o interno de plantão da enfermaria de clínica médicaOmitir a posição para ser levado a sério — o outro lado descobre em trinta segundos e passa a duvidar do resto
Onde e quemLeito 12, senhor Fulgêncio Luna, 71 anos, terceiro dia de internação por pneumoniaComeçar pela história da internação, de modo que quem ouve já parou de prestar atenção quando chega o que importa
O que mudouEstava com 94% e 20 incursões à meia-noite; está com 91% e 26 agora, usando musculatura acessóriaDar um valor isolado, sem o valor anterior — número sem trajetória não move ninguém
O que você já fezColoquei cateter a 3 litros, refiz os sinais, peguei acesso; ele não recebeu nada nesse intervaloInventar ou omitir o que foi feito, que é a única coisa capaz de estragar a chamada de forma irrecuperável
O que você pedePreciso de avaliação ao leito agora; se não puder vir, vou acionar a equipe de emergência disponível.Desligar sem pedir nada — o modo mais comum de falha, e o único em que os dois lados desligam achando que a conversa foi boa

Conferência que fechou, e é a que valida todas as outras contas de MEWS. O protocolo da SES-DF declara que o escore varia de 0 a 14 pontos. Somando os máximos do Quadro 1 — sistólica 3, frequência cardíaca 3, frequência respiratória 3, temperatura 2 e nível de consciência 3 — dá exatamente 14. Isso confirma duas coisas que a extração do PDF deixa ambíguas: que o nível de consciência pontua até 3 e que a temperatura pontua no máximo 2, e que a versão em uso é a de cinco parâmetros.

Cinco parâmetros no escore, nove no formulário. O Anexo II do mesmo protocolo é uma ficha de beira de leito que traz faixas para frequência respiratória, saturação de oxigênio, fluxo de oxigênio, pressão sistólica, temperatura, nível de consciência, volume urinário e escala de dor, sob os cabeçalhos de 3, 2, 1 e 0 pontos. Se todos esses parâmetros pontuassem, o máximo passaria de 14 — a saturação em quatro faixas somaria até 3, o volume urinário até 1 e a dor até 2, chegando a 20. Como o corpo do protocolo declara 0 a 14, a versão que decide o estrato é a de cinco parâmetros, e a ficha coleta quatro dados que não entram na conta. A conclusão que interessa ao aluno é a da nota seguinte.

Esta versão do MEWS não incorpora SpO₂. Um resultado zero pode coexistir com 84% de saturação: isso demonstra uma limitação da escala, nunca autorização para aguardar seis horas ou estimular deambulação. Hipoxemia importante exige avaliação e resposta imediatas.

Dois valores exatos que não pertencem a nenhuma classe, no mesmo documento. No Quadro 1 da SES-DF, a pressão sistólica de 101 a 199 mmHg pontua zero e a faixa seguinte está grafada como maior que 200 — de modo que 200 mmHg exatos não pertencem a classe nenhuma; o Anexo II do mesmo protocolo grafa maior ou igual a 200, e fecha a lacuna. O mesmo acontece com a frequência respiratória: no Quadro 1 a faixa baixa está grafada como menor que 8 e a seguinte começa em 9, deixando o valor 8 sem classe, enquanto o Anexo II grafa menor ou igual a 8. São dois pontos em que a tabela que pontua e a ficha que se preenche à beira do leito, no mesmo protocolo, divergem por um dígito.

O indicador de qualidade do protocolo da SES-DF tem o denominador errado, e a conta é curta. A Taxa de Avaliação da escala de Deterioração está definida como o número de pacientes com a escala aferida em 24 horas, vezes 100, dividido pelo número de pacientes com a escala não aferida em 24 horas — isto é, avaliados divididos por não avaliados, e não avaliados divididos pelo total. Isso não é uma proporção: é uma razão sem teto, que pode passar de 100%. O documento fixa como indicativo positivo de qualidade um resultado superior a 70%. Um serviço que atinja exatamente 70% por essa fórmula terá avaliado 0,70 dividido por 1,70, ou seja, 41,2% dos seus pacientes. Para de fato ter avaliado 70% deles, o indicador precisaria marcar 233,3%.

O outro indicador do mesmo protocolo mede o contrário do que o seu nome diz, e não enxerga o caso que mais importa. A Taxa de Avaliação da Deterioração Clínica está definida como o número de pacientes com reanimação cardiopulmonar em 24 horas, vezes 100, dividido pelo número de pacientes com MEWS maior ou igual a 7 em 24 horas. Isso mede paradas, não avaliações. Pior: o denominador é o conjunto dos pacientes que o escore identificou como graves, de modo que uma parada num paciente que ninguém pontuou — que é exatamente a falha que o protocolo existe para prevenir — entra no numerador sem entrar no denominador. E num dia sem nenhum paciente com MEWS de 7 ou mais, o denominador é zero e o indicador não existe.

A tabela que governa a rede aponta para a referência errada. O Quadro 1 do protocolo da SES-DF traz como fonte Olino e colaboradores, 2019, com chamada para a referência 8. A referência 8 da lista bibliográfica do documento é Brasil, Secretaria de Estado de Saúde, Manual de acolhimento e classificação de risco, Brasília, 2016 — outro documento, de outro autor e de outro ano. Olino e colaboradores, 2019, é a referência 11. O Quadro 2, que define os estratos, traz como fonte o mesmo trabalho com o ano grafado como 10198, provavelmente a fusão de 2019 com a chamada 8.

Dentro do mesmo protocolo, o escore e a conduta usam limiares de febre diferentes. O Quadro 1 só pontua temperatura a partir de 38,5 °C. A assistência de enfermagem do Estrato 2 manda administrar antitérmico com febre maior ou igual a 38 °C, e a do Estrato 3 manda colher dois pares de hemocultura em sítios diferentes com febre maior ou igual a 38 °C. Um paciente com 38,2 °C dispara as duas condutas de febre e soma zero ponto no escore que decide se alguém precisa ser chamado.

O protocolo da SES-DF não tem degrau acima do plantonista, e não tem prazo. O Estrato 3 manda solicitar avaliação do médico plantonista e o Estrato 4 manda solicitar avaliação médica; em nenhum dos quatro estratos há prazo máximo para essa avaliação acontecer, nem instrução sobre o que fazer se ela não acontecer, nem qualquer figura acima do plantonista. É um protocolo de detecção sem protocolo de resposta. Este é um achado por ausência, teste mais fraco do que citar um dispositivo: o que se afirma é que o documento não traz a previsão, e não que ela seja dispensável.

No protocolo do HUWC, a cor que o profissional é obrigado a dizer não existe na lista de critérios. O documento determina que a cor seja informada no momento do acionamento pelo rádio. O Quadro 1, que liga cor a tempo de chegada, lista cinco cores: verde com uma hora, amarelo com trinta minutos, laranja com sete minutos, vermelho imediato e azul com trinta minutos. O Anexo 2, que lista os critérios de cada cor, traz quatro cores — verde, amarelo, laranja e vermelho — e, em vez de azul, um Código de Acionamento Cirúrgico, também com trinta minutos. A quinta cor do quadro não tem critérios, e o quinto conjunto de critérios não tem cor. Quem aciona um caso cirúrgico não tem, no documento, a palavra que o documento manda dizer.

O critério que mais dispara chamadas reais está, no protocolo do HUWC, no degrau mais lento. Preocupação da equipe com o estado clínico do paciente é Código Verde, com uma hora para a chegada do médico, na mesma lista em que estão a avaliação de raio X, a admissão de pacientes clínicos e a avaliação de inadequação na prescrição médica. No estudo de Londrina, seriamente preocupado com o estado geral do paciente foi o motivo mais frequente das 150 chamadas de código amarelo, presente em 38% delas — à frente da queda de saturação (28,7%) e da queda de pressão sistólica (23,3%). Esta comparação é leitura minha, feita entre dois documentos que não se citam; os dois números estão impressos e podem ser conferidos.

Estudos de chamadas e indicadores devem ser lidos com definição e denominador. No leito, a frequência estatística de um gatilho não é requisito para agir: preocupação clínica séria pode justificar escalonamento mesmo sem corte numérico.

Os dois protocolos estão vencidos ou não datáveis, cada um do seu jeito, e os dois continuam publicados. O do HUWC declara na própria capa de todas as páginas a emissão em 4 de dezembro de 2020 e a próxima revisão em 4 de dezembro de 2022, data vencida há mais de três anos; o quadro de histórico de revisão está em branco e os três campos de assinatura e data — análise e as duas aprovações — estão vazios. O da SES-DF traz, na primeira página, a linha de publicação como gabarito não preenchido, com zeros no lugar do número da portaria e a palavra data no lugar das duas datas: ele não pode ser datado pela sua própria face. Em ambos, a vigência é apenas por ausência de substituto, e digo isso com essas palavras porque é um teste mais fraco.

No estudo de São Paulo, dois números e as suas porcentagens não se correspondem. O texto diz que, dos 25 atendimentos seguidos de evento adverso, 92,3% (n = 24) resultaram em internação não planejada em terapia intensiva e 7,7% (n = 1) em parada cardiorrespiratória. Mas 24 em 25 é 96,0% e 1 em 25 é 4,0%. O par 92,3% e 7,7% soma 100% e é exato para outro denominador: 24 em 26 dá 92,31% e 2 em 26 dá 7,69%. Ou o total é 26 e houve duas paradas, ou os dois percentuais foram calculados sobre um denominador que não é o declarado na mesma frase. O resumo do artigo reforça 24 internações e uma parada, o que soma 25 — de modo que a inconsistência está nas porcentagens.

Ainda em São Paulo, a Tabela 3 mistura duas construções de intervalo de confiança sem dizer. A primeira linha — tempo entre a última aferição e o acionamento, média 4,9 horas, desvio-padrão 3,6, intervalo de 4,2 a 5,6 — é exatamente o intervalo normal com 107 observações: 1,96 vezes 3,6 dividido pela raiz de 107 dá 0,68, e 4,9 mais ou menos 0,68 dá 4,2 a 5,6. As outras duas linhas não fecham assim. Para o tempo até a chegada (média 12,9, desvio-padrão 24,3) o intervalo normal seria 8,3 a 17,5, e o publicado é 9,5 a 19,7; para o tempo de atendimento (média 58,3, desvio-padrão 66,2) seria 45,8 a 70,8, e o publicado é 47,3 a 72,6. Nos dois casos o intervalo publicado não é simétrico em torno da média, o que é próprio de intervalo por reamostragem — construção legítima e apropriada para dado assimétrico, que o artigo simplesmente não declara ter usado. Nenhuma conclusão do estudo muda por causa disso.

Conferências que fecharam nos dois estudos brasileiros. Em São Paulo, todas as frequências da tabela de sinais de acionamento batem com 107 no denominador: 43 dá 40,2%, 33 dá 30,8%, 17 dá 15,9%, 14 dá 13,1%, 8 dá 7,5%, 5 dá 4,7%, 4 dá 3,7%, 3 dá 2,8%, 2 dá 1,9%, 1 dá 0,9% e 20 dá 18,7%; a nota de rodapé do item outro sinal lista quinze condições que somam exatamente 20; e os tipos de saída da enfermaria somam 91 pacientes e 100,0%. Em Londrina, as porcentagens dos motivos correspondem a contagens inteiras sobre 150: 57, 43, 35, 34, 30, 27, 12 e 7, num total de 245 motivos em 150 chamadas, ou 1,63 motivo por chamada. Vale a ressalva de que a tabela de Londrina soma 163,4% sem trazer nota dizendo que aceita mais de uma resposta, ao contrário da tabela equivalente de São Paulo, que traz.

Reconstrução minha, e a registro como reconstrução. O estudo de Londrina informa que, entre os 45 pacientes que ficaram em demanda reprimida por leito de terapia intensiva, a mortalidade de quem foi depois transferido foi de 85,7% e a de quem nunca teve acesso ao leito foi de 87,5%, sem diferença estatística (p = 0,59). O artigo não dá as contagens. Testando todas as divisões possíveis de 45 em dois grupos, só uma produz simultaneamente 85,7% e 87,5%: 18 mortes em 21 pacientes transferidos e 21 mortes em 24 não transferidos. São 39 mortes entre os 45 que esperaram, contra 51 mortes entre os 95 não paliativos do estudo inteiro.

Conferência que fechou, no Código de Ética Médica. O item VI do Preâmbulo, na redação dada pela Resolução CFM nº 2.222/2018, declara 26 princípios fundamentais, 11 normas diceológicas e 117 normas deontológicas. Contando no texto publicado: os princípios fundamentais terminam em XXVI, os direitos do Capítulo II terminam em XI, e a numeração dos artigos chega a 117 sem saltar nenhum. Vale registrar que a redação original, publicada em 1º de novembro de 2018, dizia 25, 10 e 118, e foi corrigida quarenta dias depois pela própria Resolução nº 2.222/2018, que se declara correção de erro material. É o caso raro em que a errata foi encontrada — e em que ela é do próprio órgão que errou.

08

A conduta, hora a hora

O que segue é a noite da cena, marco a marco, com o senhor Fulgêncio Luna, 71 anos, 68 quilos, leito 12, no terceiro dia de internação pela pneumonia de base direita. As falas estão escritas para serem lidas em voz alta — e a recomendação é que você as leia em voz alta uma vez, porque a diferença entre saber a estrutura e conseguir dizê-la às duas da manhã é de treino, não de conhecimento.

Repare em três coisas ao longo dos marcos. A primeira: o intervalo que decide o desfecho é o dos primeiros nove minutos, e ele é inteiramente seu. A segunda: cada vez que alguém do outro lado dá uma resposta insuficiente, o passo seguinte não é insistir com mais adjetivos, é combinar um prazo e um gatilho de nova chamada. A terceira: o manejo clínico da insuficiência respiratória — oxigenoterapia, escolha de dispositivo, indicação de suporte ventilatório — não está aqui, e é de Dessaturação aguda na enfermaria, na apostila de Síndromes do Paciente Internado. O que está aqui é a cadeia de chamadas.

A piora respiratória com esforço, hipoxemia ou alteração de consciência exige avaliação médica imediata. Confirmar a leitura sem atrasar suporte, pedir explicitamente presença ao leito e acionar resposta rápida ou equipe de emergência disponível. Se o primeiro profissional não puder responder a tempo ou minimizar risco persistente, escalar agora; não esperar vinte minutos nem um limiar de saturação. Manter alguém ao lado, avaliação ABC e medidas iniciais para as quais a equipe está treinada, conforme protocolo e supervisão. Escore de alerta auxilia, mas preocupação clínica e alteração relevante isolada também acionam resposta. Uma escala que não inclui saturação pode dar zero diante de hipoxemia grave. A falta de médico no prédio exige ativação imediata da rede de emergência e direção técnica, mantendo suporte disponível; telefonema a alguém distante não resolve a cobertura do leito.

O interno identifica-se como estudante de medicina, trabalha sob supervisão e registra sua participação com identificação própria. Prescrição, consentimento médico, decisões de limitação e certificação de óbito exigem o profissional responsável; uma assinatura do preceptor não substitui supervisão efetiva. Reconhecer gravidade e acionar ajuda imediatamente fazem parte de sua atuação.

  1. 01h45 — minuto zero

    A técnica de enfermagem aparece na porta da sala de plantão, prancheta no antebraço, e diz: "Doutor, o do 12 está diferente. Não sei dizer o que é, ele está mais quieto." A primeira decisão da noite é o que fazer com essa frase, e a resposta certa é a mais simples: ir. Não pedir para ela aferir e trazer, não terminar a evolução que está aberta, não perguntar se ele tem queixa. Uma frase de preocupação vinda de quem vê o paciente de duas em duas horas foi, no estudo de Londrina, o motivo mais frequente de chamado de piora — mais frequente que qualquer parâmetro isolado. A resposta é: "Vou agora com você. Me conta no caminho o que ele estava fazendo às onze." A pergunta importa: você está pedindo a ela a comparação que o escore não faz.

    Prescrição
    • Ir ao leito imediatamente, junto com quem trouxe o aviso
    • Perguntar a quem avisou qual foi a comparação — como estava antes, o que mudou, a que horas
  2. 01h47 — no leito, três minutos de exame e um par de números

    O senhor Fulgêncio responde depois de uma pausa, em frases de quatro ou cinco palavras, e diz que está bem. A filha, acordada na poltrona, diz: "Ele não está do jeito dele." Você refaz os sinais com o aparelho do carrinho: pressão 104 por 62, frequência cardíaca 112, frequência respiratória 26, temperatura 37,8, saturação 91% em ar ambiente. Põe ao lado o que a folha traz de meia-noite e vinte: 118 por 70, 96, 20, 37,4, saturação 94%. Ao exame, tiragem intercostal leve e uso de musculatura do pescoço que ontem não havia, murmúrio reduzido em base direita com estertores, perfusão de dois segundos, orientado mas lentificado, acesso em antebraço esquerdo pérvio. Pelo escore da rede do Distrito Federal ele saiu de zero ponto para quatro — o que, naquele protocolo, é a faixa em que a avaliação médica passa a ser necessária. Você não precisava do escore para saber, mas ter o número ajuda na frase que vem a seguir.

    Prescrição
    • Sinais vitais refeitos por você, anotados com o horário, ao lado da série anterior
    • Exame dirigido: padrão respiratório, capacidade de falar frases inteiras, ausculta, perfusão, nível de consciência, acessos
    • Cabeceira elevada a 45 graus
    • Cateter nasal de oxigênio a 3 L/min, se houver prescrição ou rotina da unidade que o autorize, com o horário anotado
  3. 01h52 — a decisão de chamar, e a conta que não se deve fazer

    Aqui aparecem os três pensamentos do capítulo, e vale reconhecê-los pelo nome enquanto eles passam. O primeiro: o plantonista tem dezenove pessoas na observação. O segundo: são duas da manhã. O terceiro, o pior: talvez melhore no oxigênio e daqui a uma hora eu ligo com o quadro mais claro. Esse terceiro é verdadeiro e é uma armadilha — a espera compra informação em linha reta e o dano de uma hipoxemia não anda em linha reta. A regra que resolve é a que dá nome ao capítulo: chame antes de ter certeza, porque a certeza costuma chegar depois do ponto em que ela ainda servia. Decida também, antes de discar, o que você quer que aconteça nos próximos dez minutos. A resposta aqui é olhos no paciente — logo o degrau é quem está no prédio, e não o assistente que está em casa.

    Prescrição
    • Anotar a hora da decisão de chamar
    • Escolher o degrau pela pergunta: o que preciso que aconteça em dez minutos, e quem pode fazer isso acontecer
  4. 01h54 — a chamada, nas cinco partes

    "Doutor Honorato, aqui é o interno de plantão da enfermaria de clínica médica. É sobre o leito 12, o senhor Fulgêncio Luna, 71 anos, terceiro dia de internação por pneumonia em base direita. Ele mudou nas últimas duas horas: à meia-noite e vinte estava com 94% de saturação em ar ambiente, 20 incursões e 118 por 70; agora está com 91%, 26 incursões, 104 por 62 e frequência de 112. Está usando musculatura acessória e só consegue falar frases curtas. Eu já elevei a cabeceira, coloquei cateter a 3 litros, refiz os sinais e conferi que ele não recebeu nada nesse intervalo. Eu preciso que o senhor venha vê-lo agora. Se não der agora, me diga em quanto tempo dá, para eu decidir o que faço enquanto isso." Repare no que essa fala tem: nenhum pedido de desculpas por incomodar, nenhum diagnóstico proposto, dois pontos no tempo em cada número e um pedido com prazo no fim.

    Prescrição
    • Anotar hora da chamada, nome de quem atendeu e meio utilizado
    • Terminar a fala pelo pedido, com verbo e prazo
    • Se a resposta não vier com um tempo, perguntar o tempo antes de desligar
  5. 01h56 — a resposta insuficiente, e o contrato que se faz com ela

    Se o plantonista minimizar a piora, repetir os dados relevantes e pedir presença imediata. Persistindo resposta insuficiente, acionar a equipe capaz de atender agora, com comunicação clara ao primeiro contato. A preocupação clínica não precisa esperar saturação menor nem pontuação alta.

    Prescrição
    • Devolver o essencial em uma frase, para testar a transmissão antes de discordar
    • Fixar por escrito o que será reavaliado, em quanto tempo, e quais valores disparam nova chamada
    • Registrar o combinado no prontuário com os horários e o nome de quem atendeu
  6. 02h05 — o intervalo, e o que se faz nele

    Enquanto a ajuda chega, permanecer ao lado com a enfermagem, monitorizar continuamente e repetir avaliação conforme a evolução. Executar suporte inicial para o qual há treinamento e protocolo, conferindo resposta. Prescrição de fármacos e decisões de suporte avançado cabem à equipe habilitada; essa divisão não deve atrasar chamada de emergência. Explicar à família que a piora foi reconhecida e que ajuda imediata foi acionada.

    Prescrição
    • Permanência ao lado do paciente ou de alguém designado, com nome
    • Monitorização e séries de sinais vitais em intervalo curto, cada série com horário anotado
    • Nada de droga nova, mudança de dose, suspensão ou indicação de transferência por conta própria
    • Informar a família sobre o processo — o que foi feito, quem foi chamado, quem está vindo
  7. 02h13 — a segunda chamada, e a subida anunciada

    A nova piora exige escalonamento imediato. Pedir resposta rápida ou médico disponível no prédio e ativar a rede de emergência conforme a estrutura local. Não aguardar vencer vinte minutos nem procurar primeiro alguém que levará quarenta minutos para chegar quando há ajuda mais próxima. Acionar direção técnica se não houver cobertura, em paralelo à assistência.

    Prescrição
    • Informar a piora e pedir presença imediata.
    • Acionar resposta rápida ou equipe de emergência disponível se o primeiro profissional não puder atender a tempo.
    • A piora respiratória com esforço, hipoxemia ou alteração de consciência exige avaliação médica imediata. Confirmar a leitura sem atrasar suporte, pedir explicitamente presença ao leito e acionar resposta rápida ou equipe de emergência disponível. Se o primeiro profissional não puder responder a tempo ou minimizar risco persistente, escalar agora; não esperar vinte minutos nem um limiar de saturação. Manter alguém ao lado, avaliação ABC e medidas iniciais para as quais a equipe está treinada, conforme protocolo e supervisão.
  8. 02h40 a 03h10 — a chegada, a entrega e o registro

    Entregar a situação à beira do leito, com tendência dos sinais, hipóteses, suporte aplicado e resposta. Não levar quem chega ao corredor antes de avaliar o paciente instável. Confirmar quem assumiu as decisões, continuar ajudando e registrar fatos e horários. A passagem de turno só se completa quando há um profissional identificado acompanhando a pendência.

    Prescrição
    • Entregar o caso à beira do leito, sem retirar a equipe do paciente instável.
    • Transmitir tendência, intervenções, resposta e pendências.
    • Registrar horários e responsabilidade assumida.
    • Manter continuidade se houver troca de turno.
09

Como saber se está funcionando

A chamada terminou quando alguém chegou, mas o processo não. O que se reavalia depois é de dois tipos: o paciente, cujo destino ainda está aberto, e a própria cadeia de chamada, que é o que este capítulo quer que você conserte ao longo do rodízio. Os sete parâmetros abaixo misturam os dois de propósito — porque na prática do internato eles se reavaliam na mesma noite e na mesma cabeça.

O paciente, e o intervalo até a próxima olhadaSéries de sinais no intervalo que ficou combinado com quem assumiu a decisão; nunca mais espaçado que de hora em hora enquanto o quadro estiver aberto

Esperado: Tendência de melhora nos dois ou três parâmetros que estavam alterados, com o mesmo par antes-e-depois que você usou para chamar

Se não melhora: Piora ou estabilidade em quadro que deveria estar melhorando é gatilho de nova chamada, e não de esperar mais uma série. O manejo em si é dos capítulos de Síndromes do Paciente Internado; o que é seu é não deixar o intervalo crescer sem que ninguém decida nada

O seu intervalo entre perceber e ligarAo final de cada plantão em que houve chamada, olhando os horários que você mesmo anotou

Esperado: Minutos de um dígito entre o momento em que você foi ao leito e o momento em que discou, quando havia gatilho objetivo cruzado

Se não melhora: Se o intervalo estiver em dezenas de minutos, procure a razão pelo nome — estava terminando outra coisa, estava esperando melhorar, estava com medo da resposta. Esse é o número que este capítulo existe para encurtar, e é o único da lista que nenhum estudo brasileiro mede por você

O prazo prometido contra o prazo cumpridoToda vez que alguém disser um número de minutos ao telefone

Esperado: Chegada dentro do prazo combinado, ou nova comunicação antes de o prazo vencer

Se não melhora: Prazo vencido dispara o degrau seguinte, anunciado ao degrau anterior — não a terceira ligação para a mesma pessoa. E se o mesmo prazo vencer três vezes no mesmo rodízio, deixou de ser episódio e virou padrão do serviço, o que muda o destinatário: preceptor, coordenador do internato, chefia

O registro, lido no dia seguinteNa visita da manhã, abrindo a sua própria evolução da noite

Esperado: Que outra pessoa, lendo aquelas cinco linhas sem ter estado lá, saiba o que aconteceu, quem foi chamado, o que ficou combinado e a que horas

Se não melhora: Se faltar o nome de quem atendeu, o horário ou a resposta que foi dada, corrija por registro novo e datado, nunca por rasura. As regras de correção são de O documento que você mais escreve, na posição 6 desta apostila

O crédito que a chamada gastouAo longo do rodízio, e não depois de um plantão isolado

Esperado: Que a maior parte das suas chamadas tenha se mostrado pertinente — não todas, porque quem acerta todas está chamando de menos

Se não melhora: Se quase todas as suas chamadas se revelarem desnecessárias, o problema não é coragem, é seleção: reveja se está chamando por gatilho ou por ansiedade não examinada. Se quase nenhuma se revelar desnecessária, você está chamando tarde

A resposta do serviço ao seu chamado, como padrãoAo final do rodízio, somando os plantões

Esperado: Que exista alguém acessível e que o tempo até a avaliação seja de minutos, não de horas

Se não melhora: Falta sistemática de médico acessível não é problema seu para resolver na madrugada, e é problema de alguém: o parágrafo único do art. 9º do Código de Ética Médica atribui à direção técnica providenciar a substituição na ausência de plantonista. Comunicar isso é uso do caminho que a norma desenhou, não denúncia

A existência de uma lista escrita no seu campo de estágioNos primeiros dias do rodízio, antes de precisar dela

Esperado: Que o serviço tenha protocolo de deterioração clínica ou de time de resposta rápida, com critérios e com prazo de chegada, e que você saiba de cor os três primeiros itens

Se não melhora: Se não houver, combine a sua com quem supervisiona, em voz alta, no primeiro dia: estes são os valores pelos quais eu vou te ligar, a qualquer hora. Uma lista combinada antes vale mais do que a melhor lista descoberta às três da manhã, porque o que ela remove é a decisão de decidir

10

Onde o erro machuca

Esperar mais um pouco para ligar com o quadro mais claro

O dano: É o erro central do capítulo e o mais defensável de todos, porque a premissa é verdadeira: esperar informa mesmo. O que a premissa esconde é que a informação cresce mais ou menos em linha reta e o dano de uma hipoxemia, de uma hipoperfusão ou de uma sepse não cresce em linha reta. Você troca uma hora de dados por uma hora de curva, sem saber em que trecho da curva o paciente está — e é justamente por não saber que se deveria chamar.

Como pegar a tempo: Adote a regra do título: chamar antes de ter certeza. Operacionalmente, se um gatilho objetivo foi cruzado, o preparo cabe em dois minutos e é feito no leito. Se o seu preparo estiver demorando mais que isso, você já não está preparando, está adiando com trabalho.

Transmitir informação achando que pediu ajuda

O dano: É o modo de falha em que os dois lados desligam satisfeitos. Você descreveu bem, com esmero, e não pediu nada; do outro lado ficou registrado que o leito 12 está pior, o que, para quem tem dezenove pessoas na observação, é um item de fila. Uma hora depois você descobre que ninguém está a caminho, e a essa altura o intervalo que você queria encurtar dobrou.

Como pegar a tempo: Termine toda chamada por uma frase com verbo, sujeito e prazo: preciso que você venha agora; preciso de uma decisão sobre destino; preciso que alguém o veja nos próximos dez minutos. Se não souber o que pedir, peça isso mesmo — não sei o que fazer com este paciente e preciso que alguém o veja.

Aceitar já vou como resposta

O dano: Já vou não tem unidade de medida, e a diferença entre os dois sentidos possíveis é de uma hora. O dano não é só o tempo perdido: é que, sem prazo, você fica sem gatilho para a próxima ação e passa a hora inteira em dúvida sobre se pode ligar de novo, o que é o pior estado mental possível para quem está sozinho com um paciente instável.

Como pegar a tempo: Pedir presença imediata quando há deterioração. Se a resposta não corresponder ao risco, escalar para ajuda efetivamente disponível, mantendo assistência.

Ligar quatro vezes para a mesma pessoa

O dano: Repetir o degrau que já falhou gasta o seu tempo, gasta o crédito da relação e não muda o resultado: quem não veio às duas horas por estar preso no centro cirúrgico continuará preso às duas e quarenta. Enquanto isso o paciente segue sem ser visto por alguém com competência para decidir, que é o único desfecho que interessa.

Como pegar a tempo: Escalar assim que a capacidade de resposta se mostrar insuficiente; informar o contato anterior sem esperar autorização para chamar emergência.

Não chamar porque já se sabe qual seria a resposta

O dano: É o erro mais silencioso, porque não deixa rastro: não houve ligação, não houve recusa, não houve registro. E ele frequentemente parte de uma previsão correta — o plantonista talvez dissesse mesmo para esperar. Só que a previsão não é sua para fazer, e a chamada faz uma coisa que a previsão não faz: enquanto você não chama, o paciente está sozinho com um estudante; depois que você chama, o serviço inteiro sabe.

Como pegar a tempo: Trate a antecipação da resposta como o que ela é — um sintoma de que o ambiente já ensinou você a não chamar. Chame, registre a resposta com as palavras que foram ditas, e leve o padrão ao preceptor ou ao coordenador do internato depois. O Código de Ética Médica veda usar a posição hierárquica para impedir que subordinados atuem dentro dos princípios éticos, no art. 56.

Fazer, enquanto espera, o que deveria ter sido decidido por quem foi chamado

O dano: É o erro do interno corajoso, e ele destrói exatamente o que a chamada construiu. Iniciar droga nova, mudar dose, suspender medicação ou indicar transferência por conta própria são decisões cujas consequências você não tem como acompanhar e cujo desfazimento é caro — além de embaralhar o quadro que a pessoa que está chegando precisa ler. E se der certo uma vez, você aprendeu a lição errada.

Como pegar a tempo: No intervalo, faça só o reversível e já autorizado: cabeceira, oxigênio previsto, acesso, monitorização, séries anotadas com horário, carrinho conferido. A exceção é única e não precisa de autorização de ninguém — manobras de suporte de vida numa emergência instalada, cujo detalhe é de Parada cardiorrespiratória na enfermaria, na apostila de Síndromes do Paciente Internado.

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O que dizer ao paciente e à família

Este bloco existe porque a diferença entre a chamada que traz alguém e a chamada que não traz não está no caso: está na frase. Três regras organizam todas as falas abaixo. A primeira: o pedido vai no fim e tem prazo dentro. A segunda: todo número anda em par, com o valor de antes ao lado do valor de agora. A terceira: não se pede desculpas por chamar — pedir desculpas comunica que a chamada é um favor, e a partir daí quem atende decide se concede o favor.

Uma observação sobre o tom, para quem tem a impressão de que essas falas são secas demais. Elas são curtas porque quem ouve está fazendo outra coisa, e são diretas porque a alternativa é a fila. Nada nelas é grosseiro: são as mesmas palavras que um residente experiente usa, e a razão de o interno soar mais delicado não é educação, é medo. A cortesia que atrasa não é cortesia.

Recebendo do técnico ou da enfermeira um aviso sem número, no corredor

"Vou agora com você. Me conta no caminho: como ele estava às onze, e o que exatamente está diferente agora?"

Não diga: Evite pedir que aferem e tragam — isso adia a sua ida ao leito e transforma um dado de trajetória em um número solto. Evite também a pergunta fechada tem queixa?, que costuma ser respondida com um não que arquiva o assunto. O que você quer é a comparação, e quem tem a comparação é quem viu o paciente antes.

Chamando quando você examinou, encontrou algo e não sabe o que é

"Aqui é o interno de plantão da clínica médica. Leito 12, senhor Fulgêncio Luna, 71 anos, terceiro dia de pneumonia. Ele saiu de 20 para 26 incursões e de 94 para 91% de saturação em duas horas, sem ter recebido nada, e está usando musculatura acessória. Eu não sei dizer o que está acontecendo, e é por isso que estou ligando. Eu preciso que alguém o veja agora."

Não diga: Evite montar um diagnóstico para justificar a ligação — se ele estiver errado, a discussão passa a ser sobre o seu diagnóstico e não sobre o paciente. Evite também o inverso, que é esconder que não sabe: a frase eu não sei dizer o que está acontecendo é informação clínica legítima vinda de um estudante sob supervisão, e é a que mais rapidamente faz alguém levantar.

Quando quem atende minimiza, e você precisa testar se a informação chegou antes de discordar

"Só para eu ter certeza de que fui claro: ele saiu de 20 para 26 incursões e de 94 para 91% sem receber nada nesse intervalo, e a musculatura acessória é nova de hoje. Com esses números o senhor mantém a orientação?"

Não diga: Evite subir o volume ou acrescentar adjetivos — ele está muito mal, está péssimo — porque adjetivo não transporta informação e soa como pressão. Evite também discutir a fisiopatologia por telefone: você não vai ganhar essa discussão com alguém mais experiente, e não é ela que está em jogo. O que está em jogo é presença.

Fechando o contrato quando ficou decidido esperar

“A respiração piorou e ele está usando musculatura acessória. Preciso que seja avaliado agora. Se o senhor não consegue vir, vou acionar a equipe de emergência disponível.”

Não diga: Evite sair da ligação com um esperar sem forma. Um combinado precisa de três partes — o que será reavaliado, em quanto tempo, e quais valores disparam nova chamada. Sem elas, a próxima ligação vira insistência; com elas, vira cumprimento de combinado, e essa diferença muda a resposta que você recebe.

Quando você precisa dizer, sem acusar, que não se sente seguro

"Eu entendo. Mas eu não me sinto seguro para ficar sozinho com ele nesse quadro, e eu preciso que alguém o veja. Se não for o senhor, me diga a quem eu ligo."

Não diga: Evite transformar isso em acusação — você não está vindo, você está se recusando — porque acusação fecha a porta e o paciente continua onde estava. A força dessa fala está em ser verdadeira e em devolver a decisão a quem tem competência para tomá-la: quem disser que não vem depois de ouvi-la estará decidindo de forma consciente, e é bom para todos que fique assim.

Primeiro contato sem possibilidade de resposta em tempo seguro

“Ele continua instável e precisa de atendimento imediato. Vou acionar a equipe de emergência enquanto permanecemos ao lado dele; registro o contato e o mantenho informado.”

Não diga: Evite subir em silêncio — quem descobre depois lê como deslealdade, e quem foi avisado quase nunca lê. Evite também ligar uma terceira e uma quarta vez para a mesma pessoa: repetir o degrau que já falhou gasta tempo e crédito sem mudar nada. Prazo vencido é gatilho de subida, não de repetição.

No primeiro dia do rodízio, combinando a lista antes de precisar dela

"Antes de começar, eu queria combinar uma coisa: por quais achados o senhor quer que eu te ligue, a qualquer hora, sem pensar duas vezes? Eu prefiro ter essa lista agora do que descobrir às três da manhã."

Não diga: Evite deixar essa conversa para depois da primeira chamada difícil, que é quando ela fica constrangedora. E evite aceitar a resposta genérica me liga se precisar — peça valores. Uma lista combinada no primeiro dia remove de você, na madrugada, a decisão de decidir, que é a parte que este capítulo inteiro tenta tirar do seu caminho.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

A enfermagem pode solicitar os exames que o próprio protocolo lhe manda solicitar?

Protocolo da SES-DF — assistência de enfermagem do Estrato 3

O protocolo estadual, dirigido à equipe de enfermagem, lista entre as intervenções do Estrato 3 solicitar hemograma completo, bioquímica com sódio, potássio, ureia, creatinina, transaminases, CPK e desidrogenase láctica, coagulograma, hemocultura em dois pares diante de febre, radiografia de tórax e eletrocardiograma. Repare que o mesmo bloco usa a ressalva conforme prescrição médica para antitérmico, hipotensor e oxigenoterapia, e não a usa para nenhum dos exames — o que sugere que a diferença é deliberada, e não descuido de redação.

Protocolo de Atenção à Saúde — Prevenção da Deterioração Clínica em Pacientes Adultos em Serviço Hospitalar, SES-DF, item 8.1.1, Estrato 3

Lei nº 12.842, de 10 de julho de 2013 — a chamada Lei do Ato Médico

A leitura corrente da lei que dispõe sobre o exercício da medicina é a de que a indicação e a prescrição de meios diagnósticos e terapêuticos são atividade privativa do médico, e que a solicitação de exame complementar não é ato autônomo de outra profissão da saúde. Nessa leitura, um protocolo estadual não teria como criar competência que a lei federal reserva, e o verbo solicitar do documento teria de ser entendido como requerer ao médico, e não como pedir diretamente ao laboratório.

Lei nº 12.842/2013, atividades privativas do médico; não consultada no original para este capítulo — a auditoria do alcance da lei é de Quatro princípios e nenhum árbitro, na apostila de Medicina Legal e Bioética

Como decidir

Diante do leito, esta divergência não precisa ser resolvida — precisa ser contornada em trinta segundos. Se a enfermeira do plantão disser que vai pedir os exames do protocolo, você não discute competência profissional na frente do leito — você faz o que resolve a dúvida sem custo, que é prescrever você mesmo, com o aval de quem supervisiona, os exames que estiverem indicados. O paciente ganha as duas coisas: o exame sai e ninguém fica exposto. Guarde a discussão para a reunião do serviço, onde ela tem lugar, e leve-a como pergunta ao preceptor e não como acusação à enfermagem, que está seguindo o documento que a instituição lhe deu. A fronteira entre as profissões, tomada como assunto, é de Dois planos para o mesmo paciente, na posição 10 desta apostila; o que fica aqui é só o efeito dela sobre a chamada.

Preocupação sem alteração de sinais vitais deve obrigar a chamar com a mesma urgência de um valor alterado?

Protocolo do HUWC, 2020 — a preocupação é o degrau mais lento

No código de cores do hospital cearense, preocupação da equipe com o estado clínico do paciente é Código Verde, com uma hora para a chegada do médico, na mesma lista da admissão de pacientes clínicos, da avaliação de raio X e da avaliação de inadequação na prescrição. A lógica implícita é a de que um critério sem número não pode receber a mesma prioridade de um critério medido, sob pena de o canal rápido ser ocupado por impressões e deixar de responder a quem tem sinal objetivo alterado.

Protocolo PRO.GAS.002 — Time de Resposta Rápida, HUWC/UFC/Ebserh, versão 1, 2020, Quadro 1 e Anexo 2

Os dois estudos brasileiros de código amarelo, 2013 e 2023

Em Londrina, seriamente preocupado com o estado geral do paciente foi o motivo mais frequente das 150 chamadas, presente em 38% delas, à frente de qualquer parâmetro isolado. O estudo de São Paulo registra, citando a experiência do Instituto do Coração, que 42% dos enfermeiros consideram que o time deve ser acionado quando o profissional está preocupado ainda que os sinais vitais estejam estáveis, e observa que aguardar o paciente preencher os critérios objetivos para tomar conduta pode acarretar desfecho desfavorável. Nessa leitura, tratar a preocupação como critério de segunda classe é rebaixar o detector mais sensível disponível na enfermaria.

Taguti PS et al., Rev Bras Ter Intensiva 2013;25(2):99-105, Tabela 1; Santos PKL et al., Rev Bras Enferm 2023;76(2):e20220181, introdução

Como decidir

Não decida pela regra geral, decida pelo custo do erro naquele leito. A pergunta que resolve é: se a preocupação estiver certa e ninguém for agora, o que se torna irreversível na próxima hora? Num paciente com reserva fisiológica pequena — idoso, com doença pulmonar ou cardíaca, em pós-operatório, em uso de opioide ou sedativo — a resposta costuma ser alguma coisa, e a preocupação vale como gatilho imediato. Num paciente jovem e estável em que a preocupação vem de um desconforto vago, o meio-termo honesto é o que este capítulo recomenda: vá ao leito imediatamente e refaça os sinais na hora. Isso quase sempre converte o gatilho sem número num gatilho com número, porque a folha do posto tem, em média, quase cinco horas — e resolve a divergência sem que você precise ter opinião sobre ela.

O escore de alerta precoce é porteiro da chamada ou piso da chamada?

Protocolo da SES-DF, na sua estrutura — o escore como porteiro

No documento do Distrito Federal, o escore não é um alarme entre outros: é o organizador de toda a resposta. A pontuação define o estrato, o estrato define a periodicidade da reavaliação e o conjunto de intervenções, e é o estrato que diz quando a avaliação médica se torna necessária. Na prática, quem não pontua não gera chamada, e a estrutura do protocolo não prevê nenhuma via alternativa para o profissional que está preocupado sem que o escore acompanhe.

Protocolo de Atenção à Saúde — Prevenção da Deterioração Clínica, SES-DF, itens 8 e 10, Quadros 1 e 2

Protocolo do HUWC e o estudo de São Paulo — o escore como piso

O protocolo cearense diz explicitamente que, quando os critérios de acionamento não forem contemplados pelo escore, o código de cores pode ser acrescentado de forma complementar — isto é, trata o escore como insuficiente por desenho. O estudo de São Paulo dá a medida do problema: o NEWS calculado sobre os sinais vitais que antecederam os chamados teve média de 2,2, faixa em que a própria regra de monitorização manda apenas reavaliar dentro de quatro a seis horas; ainda assim as equipes chamaram, e 25 daqueles 107 atendimentos foram seguidos de evento adverso.

Protocolo PRO.GAS.002, HUWC/UFC/Ebserh, item 1.2; Santos PKL et al., Rev Bras Enferm 2023;76(2):e20220181, resultados

Como decidir

Para o paciente à sua frente, use o escore só na direção em que ele é confiável. Escore alto é motivo suficiente para chamar e você não precisa de mais nada — essa é a direção em que ele funciona e é assim que ele deve ser usado a seu favor, inclusive como argumento ao telefone. Escore baixo nunca é motivo para não chamar, e a razão está nas contas do bloco de critério: no escore da rede do Distrito Federal, uma saturação de 84% em ar ambiente soma zero ponto. A regra prática, então, é assimétrica de propósito: o escore autoriza, mas não proíbe. Se o número estiver baixo e a sua percepção estiver alta, a percepção decide, e o número entra na conversa como informação e não como veredito.

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O raciocínio, em voz alta

Elídio Pedreira, 63 anos, 78 quilos, diabético em uso de metformina, no quinto dia de tratamento venoso de uma celulite extensa da perna esquerda. Quatro e dez da manhã de um domingo. O hospital é municipal, tem noventa leitos e fica a cento e dez quilômetros da capital; a enfermaria de clínica médica ocupa dezesseis deles. Você é o interno da escala noturna; não há residente hoje e o clínico plantonista está no pronto-socorro. A técnica de enfermagem te procura no posto e diz: "Doutor, o seu Elídio não quis levantar para o banheiro e está falando coisa que não tem nada a ver." A folha do posto traz sinais de vinte e duas horas: 132 por 78, frequência cardíaca 88, frequência respiratória 18, temperatura 37,2, saturação 96%, glicemia capilar 204, orientado.

  1. 1 — O aviso já bastava, e a folha não bastava

    Duas informações chegaram na mesma frase e as duas são gatilho. A primeira é mudança aguda do comportamento habitual — está falando coisa que não tem nada a ver —, que está na lista dos gatilhos objetivos deste capítulo e nos critérios de acionamento dos dois protocolos brasileiros. A segunda é a preocupação de quem conhece o paciente, que foi o motivo mais frequente de chamado de piora no estudo de Londrina. Nenhuma das duas depende de você conferir nada antes de ir. A folha do posto, por sua vez, é de vinte e duas horas: tem seis horas, mais do que a média de quase cinco horas medida no estudo de São Paulo, e descreve um paciente que já não existe.

  2. 2 — Os dois minutos, e o par

    No leito: 92 por 54, frequência cardíaca 118, frequência respiratória 24, temperatura 38,6, saturação 93% em ar ambiente, glicemia capilar 288, confuso e desorientado no tempo, perfusão de três segundos, extremidades frias, e a perna esquerda com a borda desenhada a caneta ontem agora ultrapassada em quatro dedos. Anote cada valor com o horário e ponha ao lado o valor de vinte e duas horas. É esse par — 132 por 78 e 88 batimentos há seis horas contra 92 por 54 e 118 agora — que vai fazer alguém levantar da cadeira, e não o valor isolado.

  3. 3 — O que o escore diz, e por que ele não é a questão

    Se o seu serviço usa o MEWS na versão do protocolo do Distrito Federal, a conta é: sistólica de 92 mmHg pontua 1 na faixa de 81 a 100; frequência cardíaca de 118 pontua 2 na faixa de 111 a 129; frequência respiratória de 24 pontua 2 na faixa de 21 a 29; temperatura de 38,6 pontua 2 por estar acima de 38,5; e confusão pontua 1. Total: 8 pontos, que é a faixa de sete ou mais — monitorização constante, Estrato 4, paciente grave em risco iminente de morte. Repare, porém, em duas coisas. A saturação de 93% e a glicemia de 288 não entram na conta, porque não são parâmetros do escore. E você não precisava do escore para decidir: ele serve aqui como argumento ao telefone, não como autorização. O escore autoriza, mas não proíbe.

  4. 4 — Escolher o degrau pela pergunta certa

    O que eu quero que aconteça nos próximos dez minutos? Olhos no paciente e uma decisão terapêutica — o que significa alguém que está no prédio e tem autonomia para prescrever. Não há residente esta noite, então o primeiro degrau disponível é o clínico plantonista do pronto-socorro. O médico assistente, que está em casa, é o degrau para a decisão sobre plano e destino, e não para presença; ele vem depois, se for preciso. Reconhecer isso em cinco segundos evita o terceiro modo de falha, que é pedir ao degrau errado.

  5. 5 — A frase, e ela é curta de propósito

    "Doutor, aqui é o interno de plantão da enfermaria. Leito 8, senhor Elídio Pedreira, 63 anos, diabético, quinto dia de internação por celulite de perna esquerda. Ele mudou nas últimas seis horas: estava com 132 por 78, 88 de frequência e orientado às vinte e duas horas, e agora está com 92 por 54, 118, 24 incursões, 38,6 de temperatura, confuso, perfusão de três segundos e a borda da celulite quatro dedos além da marcação de ontem. Eu já elevei a cabeceira, refiz os sinais, conferi o acesso e medi a glicemia, que está em 288. Eu preciso que o senhor venha vê-lo agora. Se não der agora, me diga em quanto tempo dá." Note o que não está nessa fala: nenhum pedido de desculpas, nenhum diagnóstico proposto e nenhum adjetivo. O reconhecimento e o manejo do quadro que esses números sugerem são de Sepse: reconhecer e tratar na primeira hora, na apostila de Medicina Intensiva e Emergências, e de Hipotensão na enfermaria e Febre no paciente internado, na de Síndromes do Paciente Internado.

  6. 6 — O intervalo, e o que cabe nele

    Ele responde que vem em dez minutos. Você anota a hora. Nos dez minutos: fica no quarto ou deixa alguém no quarto; mantém a cabeceira elevada; instala monitorização se houver; confere que o acesso é pérvio e de bom calibre, e providencia um segundo se o serviço permitir a punção pela enfermagem; repete os sinais de cinco em cinco minutos, cada série com horário; deixa o carrinho de emergência por perto; separa a folha de sinais, o prontuário aberto, a prescrição impressa, o peso e a última creatinina para entregar na chegada. O que você não faz: não inicia antibiótico novo, não expande volume por conta própria, não muda dose e não indica transferência. E dá vinte segundos à filha, se houver alguém ali, sobre o processo e não sobre o prognóstico.

  7. 7 — Se o prazo vencer, e o registro que fica

    Se a presença prometida não se concretizar ou houver piora antes, acionar imediatamente a equipe de emergência ou outro médico disponível, sem repetir espera. A prioridade é atendimento efetivo ao leito. Avisar direção técnica diante de cobertura insuficiente, em paralelo ao suporte e à busca de ajuda. Registrar achados, hipóteses clínicas, contatos, respostas e responsabilidade assumida, sem juízo de culpa.

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Faça você

Macário Peixe, 58 anos, 84 quilos, internado há três dias por insuficiência cardíaca descompensada. Uma e vinte da manhã de uma terça-feira. A enfermaria de clínica médica tem catorze leitos e fica no terceiro andar de um hospital geral que atende três municípios. Você é o interno de plantão e não há residente escalado esta noite. A técnica te chama: ele acordou com falta de ar e não consegue ficar deitado. No leito: frequência respiratória 30, saturação 88% em ar ambiente, pressão 168 por 98, frequência cardíaca 124, temperatura 36,8, alerta e orientado, estertores em ambas as bases, turgência jugular a 45 graus. Você liga para o clínico plantonista, que atende do centro cirúrgico e diz: "Estou numa laparotomia que começou às onze e meia. Não consigo sair daqui por pelo menos quarenta minutos." Não é má vontade: é verdade.

  1. 1 — Calcule o escore e diga o que ele dispara — e o que ele não vê

    Some os cinco parâmetros do MEWS na versão do protocolo do Distrito Federal e diga em qual estrato ele cai e qual é a resposta prevista para esse estrato. Depois responda a pergunta que interessa mais: quais dos achados deste paciente o escore não enxerga, e o que isso significa para quem usa o escore como porteiro.

  2. 2 — Qual é o degrau seguinte, e por quê

    O plantonista deu uma resposta honesta e um prazo real de quarenta minutos. Liste, em ordem, quais degraus existem a partir daqui num hospital geral de porte médio na madrugada, e diga qual deles você aciona primeiro e o que exatamente você pede a ele. Justifique pela pergunta que este capítulo usa: o que eu quero que aconteça nos próximos dez minutos, e quem pode fazer isso acontecer?

  3. 3 — Escreva a fala da subida anunciada

    Escreva, palavra por palavra, as duas falas: a que você diz ao plantonista para avisar que vai acionar outra pessoa, e a que você diz a essa outra pessoa. As duas têm de conter as cinco partes e terminar num pedido com prazo. Na segunda, inclua o que já foi tentado e a razão de você estar ligando para ela e não para o plantonista.

  4. 4 — O que cabe e o que não cabe nos quarenta minutos

    Separe em duas colunas o que você pode fazer sozinho neste intervalo e o que você não pode. Para cada item da segunda coluna, diga em uma frase por que ele não é seu. Considere especificamente: oxigênio, posição, acesso, monitorização, diurético venoso, nitrato, ventilação não invasiva e pedido de vaga de terapia intensiva.

  5. 5 — O que se registra hoje, e o que se leva ao preceptor amanhã

    Escreva as cinco linhas de prontuário desta noite. Depois responda: o que aconteceu aqui é episódio ou é padrão do serviço, e o que diferencia um do outro? Se for padrão, a quem se comunica e com que palavras — e por que essa comunicação não é uma queixa contra o plantonista.

Ver como fecharíamos

Macário tem deterioração respiratória com hipoxemia, taquipneia e sinais de congestão. O MEWS calculável não mede toda a gravidade. A impossibilidade de o plantonista sair da cirurgia exige acionar imediatamente outro médico ou equipe de emergência disponível, e a direção técnica se faltar cobertura. Enquanto isso, permanecer com a enfermagem, oferecer suporte inicial apropriado, monitorizar e preparar avaliação avançada. Nitrato, diurético e ventilação não invasiva dependem de avaliação e prescrição habilitada; acionar o médico e preparar material não devem esperar quarenta minutos. Comunicar com nome, situação, tendência, medidas e pedido explícito de presença. Registrar resposta, horário e profissional que assume; a transmissão administrativa da vaga é paralela à estabilização.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

A piora respiratória com esforço, hipoxemia ou alteração de consciência exige avaliação médica imediata. Confirmar a leitura sem atrasar suporte, pedir explicitamente presença ao leito e acionar resposta rápida ou equipe de emergência disponível. Se o primeiro profissional não puder responder a tempo ou minimizar risco persistente, escalar agora; não esperar vinte minutos nem um limiar de saturação. Manter alguém ao lado, avaliação ABC e medidas iniciais para as quais a equipe está treinada, conforme protocolo e supervisão. Como a tabela aceita mais de um motivo por chamada, as porcentagens somam mais de cem, e ainda assim a preocupação sem número isolada supera qualquer parâmetro isolado. O que isso ensina não é sociologia: é que o detector mais sensível disponível numa enfermaria é uma pessoa que conhece aquele paciente e percebeu que ele mudou, porque é a única coisa que compara o paciente de hoje com o paciente de ontem, comparação que escore nenhum faz. Vale saber que um protocolo hospitalar brasileiro classifica esse mesmo critério no seu degrau mais lento, com uma hora para a chegada do médico, na mesma linha da avaliação de raio X — uma discrepância entre o que mais dispara chamadas reais e a prioridade que um documento lhe atribui.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Sem consultar o texto, resolva a cena de abertura: Reconhecer deterioração e conseguir ajuda efetiva sem esperar um escore ou prazo fixo. Descreva os achados que sustentam a decisão, um erro evitável e o plano para mudança do quadro; depois compare com o caso resolvido.

Em 30 dias

Retome um caso real acompanhado sob supervisão ou simule o caso do capítulo. Explique o que mudou na sua decisão, confira se o próximo passo ocorreu e identifique uma melhoria concreta. Não use dados identificáveis fora do ambiente autorizado. Competência a demonstrar: Reconhecer deterioração e conseguir ajuda efetiva sem esperar um escore ou prazo fixo.

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Agora atenda

Agora atenda: enfermaria de clínica médica, duas da manhã, sem residente na escala e com o clínico plantonista preso no pronto-socorro. A técnica de enfermagem te avisa que um paciente do terceiro dia de internação está diferente, sem saber dizer o que é. Vá ao leito, refaça os sinais, examine, decida se e a quem você chama, e diga a chamada em voz alta nas cinco partes — terminando pelo pedido com prazo. Depois administre o que vier: a resposta que minimiza, o prazo que vence e a decisão de subir um degrau.