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A borda que a pomada apagou
Micoses superficiais (dermatofitoses, pitiríase versicolor, candidíase)
Reconhecer micose superficial pela lesão e pelo lugar, saber o que se resolve com creme e o que exige comprimido, e entender por que o corticoide em cima do fungo é o erro que mais destrói diagnóstico na atenção primária.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Departamento de Atenção Básica. Dermatologia na Atenção Básica de Saúde. 1ª edição. Brasília: Ministério da Saúde, 2002. 142 p. (Série Cadernos de Atenção Básica, n. 9; Série A. Normas e Manuais Técnicos, n. 174). ISBN 85-334-0510-3. Reprodução parcial ou total permitida desde que citada a fonte.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. ISBN 978-65-5993-710-3. Licença Creative Commons Atribuição – Não Comercial – Compartilhamento pela mesma licença 4.0 Internacional.
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Faculdade de Medicina, TelessaúdeRS-UFRGS; Rio Grande do Sul, Secretaria Estadual da Saúde. Protocolos de Regulação Ambulatorial – Dermatologia Adulto: versão digital 2023. Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS, 4 jan. 2018 [atual. 5 mai. 2023]. Protocolo 6 (Micoses) e Quadros 15 a 18.
Geolab Indústria Farmacêutica S/A. Bula para o profissional de saúde — cetoconazol comprimido 200 mg (medicamento genérico) e cetoconazol creme 2%. Versão V.01_06/2018.
Laboratórios Aché. Bula do paciente — cloridrato de terbinafina comprimido 250 mg (medicamento genérico, Lei n.º 9.787/1999). Código de bula PH 3674 BU 01a VP, SAP 4238300, 03/19.
Sociedade Brasileira de Dermatologia. Perfil nosológico das consultas dermatológicas no Brasil. Anais Brasileiros de Dermatologia, v. 81, n. 6, p. 549-558, 2006.
Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Alerta SNVS/Anvisa/NUVIG/GFARM n.º 08, de 7 de novembro de 2013 — cetoconazol: risco de reações hepáticas graves associadas ao uso oral.
CDC — tratamento das dermatofitoses
AAD — confirmação antes de antifúngico oral
AAD — diagnóstico e tratamento da onicomicose
Prefeitura de São Paulo — elenco local, emergência e dispensação
Ministério da Saúde — Rename 2024, financiamento, p. 17 (cópia oficial municipal)
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Adolescente de 16 anos apresenta, no tórax anterior e nos ombros, múltiplas máculas hipocrômicas de limites irregulares, sem relevo, notadas depois do verão. Ao estirar a pele entre os polegares surge descamação fina sobre a lesão. A sensibilidade térmica e dolorosa está preservada em todas as manchas. Qual é a conduta mais adequada?
O paciente que você vai ver
Terça-feira, oito e quarenta, posto de saúde de um bairro cortado por uma avenida de ônibus. Na agenda da manhã há dezessete nomes, e o quarto é o de Erasmo Carvalhaes, 34 anos, entregador de aplicativo. Na ficha, a queixa está escrita em quatro palavras pela recepção: atestado para o trabalho. Ele senta com o celular na mão, com a pressa de quem deixou a moto estacionada em fila dupla, e diz que só precisa de um papel, que torceu o pé no domingo e que a empresa exige.
Você faz a consulta do tornozelo. Enquanto ele levanta a barra da bermuda para mostrar o pé, aparece outra coisa, na face lateral da coxa direita: uma placa avermelhada do tamanho aproximado de uma tampa de pote, com contorno ovalado e um limite que não se decide entre existir e não existir. O centro é mais claro que a periferia, mas a periferia não tem a saliência que se espera de uma borda. A pele ali parece fina, e há um brilho que não combina com inflamação.
Você pergunta desde quando. Ele responde com a naturalidade de quem já resolveu o assunto: faz uns dois meses, começou pequena, coçava muito, um colega deu uma pomada e em três dias parou de coçar. Faz cinco semanas que ele passa a pomada todo dia. A coceira não voltou. Você pergunta se a mancha diminuiu. Ele para para pensar, o que já é uma resposta, e diz que não, que aumentou, mas que não incomoda mais.
A pomada está na mochila. É um tubo genérico, com dois princípios ativos no rótulo: um corticoide e um antibiótico. Nenhum antifúngico. Esse tubo é o assunto deste capítulo, e a frase dele — parou de coçar e aumentou — é o resumo do que aconteceu na pele daquela coxa. O sintoma que fazia o paciente procurar ajuda foi desligado; o processo que produzia o sintoma continuou.
Antes de qualquer conduta, olhe o resto. Você pede para ele tirar a meia dos dois pés, e o que aparece entre o quarto e o quinto dedo do pé direito é uma fissura branca, macerada, com a pele descolando em lâmina, no fundo daquele espaço estreito onde ninguém enxuga. Ele diz que aquilo é assim desde sempre, que é do calor, que todo entregador tem. A unha do hálux direito está grossa, opaca, amarelada, descolada da ponta, e o pó branco que sai quando você raspa com a espátula não é sujeira.
São três achados e um único assunto. A coxa, o espaço interdigital e a unha estão ligados por uma história que ele não contou porque ninguém perguntou: o fungo mora no pé, viaja na mão que coça e na toalha que seca, e chega à coxa. A ordem cronológica quase sempre é essa, e ela importa, porque tratar a coxa e deixar o pé é garantir a volta da coxa em três meses.
Há um quarto elemento, que não é lesão e sim tempo. Erasmo trabalha doze horas por dia dentro de um tênis fechado, sobre uma moto, no calor. Ele lava o tênis raramente e o calça ainda úmido. Nenhum comprimido resolve isso, e é justamente por isso que a orientação de prevenção não é o apêndice simpático do fim da consulta: é metade do tratamento, e a metade que decide se ele volta aqui no verão que vem.
Repare no que a consulta ainda não tem. Não tem exame. Não tem laudo. E, para as três lesões juntas, ela não vai precisar de exame nenhum para começar — mas vai precisar de um para uma delas, e este capítulo é sobre saber qual. A régua que separa o que se trata olhando do que se trata confirmando não é a gravidade da lesão: é quanto tempo de medicamento a decisão custa.
E repare no que a consulta já perdeu. Cinco semanas de corticoide numa micose não são cinco semanas de nada: são cinco semanas em que o fungo cresceu com a resposta inflamatória local abaixada, num campo que agora está mais fino, mais claro e sem a marca que tornava a lesão reconhecível. A lesão que você tem à frente é mais difícil de diagnosticar do que a que existia há cinco semanas, e ela ficou assim por causa de um tratamento.
Erasmo veio buscar um atestado de tornozelo. Vai sair com o tornozelo resolvido em duas linhas e com três diagnósticos que ele não veio buscar, um dos quais vai exigir dele três meses de comprimido. A consulta que ele imaginava durava quatro minutos. A que ele precisa dura doze. Essa diferença de oito minutos é a matéria deste capítulo.
Quem adoece disso
Micose superficial não é assunto menor da dermatologia brasileira: é o segundo maior. O estudo de autoria institucional da Sociedade Brasileira de Dermatologia, publicado nos Anais Brasileiros de Dermatologia em 2006, levantou durante uma semana os diagnósticos de uma amostra de dermatologistas e de 49 serviços com residência médica, e chegou a 57 mil consultas. As micoses superficiais, agrupadas nos códigos B35 a B37, foram 5.003 atendimentos, ou 8,7% do total, atrás apenas da acne, com 8.049 e 14%.
O que interessa mais do que o posto é a composição interna desses 5.003. O artigo a decompõe assim: 42% eram tínea das unhas, 32,56% dermatofitose sem outra especificação, 18,27% pitiríase versicolor e 4,10% candidíase sem outra especificação. Refazendo a conta sobre os 5.003, isso dá cerca de 2.101, 1.629, 914 e 205 consultas. A soma dos quatro percentuais é 96,93%, e os 3,07% restantes — cerca de 154 consultas — não recebem nome no texto. O capítulo registra isso porque a decomposição é usada adiante e a fração não nomeada é pequena, mas existe.
Duas leituras saem daí, e as duas mudam o que você faz na quarta-feira. A primeira: a micose mais frequente na consulta brasileira é a da unha — 42% de tudo que se rotula micose superficial. É também a única que não se trata com creme, a que exige meses de comprimido e a que mais se confunde com alteração ungueal de outra causa. A forma mais comum é a mais cara de errar.
A segunda leitura é uma advertência sobre o próprio número. Esse censo mediu consultas de dermatologistas, e não a doença na população. Os próprios autores dizem que a predominância da onicomicose e a baixa proporção de candidíase refletem o mecanismo de referência ao especialista — quem chega ao dermatologista é quem tem o tratamento mais complexo. Na unidade básica a proporção é outra: a candidíase de dobra e a tinha do corpo, que se resolvem com creme, param antes de virar encaminhamento.
A conferência aritmética da tabela principal do artigo fecha, e vale dizer que fechou. Dividindo cada N pelo respectivo percentual, os denominadores implícitos ficam entre 57.000 e 57.902, compatíveis com os 57 mil declarados e com o arredondamento dos percentuais a uma casa. A única aparência de erro está na coluna de percentual acumulado: 14 mais 8,7 dá 22,7, e o artigo imprime 22,8. Recalculando sobre valores não arredondados — 8.049 e 5.003 sobre 57.493 dão 14,00% e 8,70%, somando 22,70% —, e seguindo a coluna até o oitavo posto, todos os degraus seguintes batem. É arredondamento de exibição, não erro de conta.
Sobre quem adoece de quê, o Caderno de Atenção Básica n.º 9 dá as características que ainda governam a suspeita. A tinha do corpo é frequente em crianças, tem reservatório animal — cães e gatos — além do humano, e período de incubação de 4 a 10 dias; é a única do grupo em que perguntar por bicho em casa muda a conduta, porque o animal também precisa ser tratado. A tinha dos pés é mais comum em adultos jovens do sexo masculino, no verão, e o mesmo Caderno diz que é rara na infância. A tinha do couro cabeludo é o oposto: rara no adulto, acomete principalmente as crianças.
Essa distribuição por idade é o atalho diagnóstico mais barato que existe neste assunto. Criança com placa descamativa e falha de cabelo é tinha do couro cabeludo até prova em contrário; adulto com descamação e fissura entre os dedos do pé é tinha dos pés até prova em contrário. E, ao contrário, tinha do couro cabeludo em adulto e tinha dos pés em criança pequena são as duas situações em que o rótulo fácil merece desconfiança e exame.
A pitiríase versicolor tem uma epidemiologia diferente das outras porque não se comporta como infecção adquirida. O Caderno registra que se admite que o fungo seja comensal da epiderme e que as lesões apareçam por predisposição constitucional do indivíduo, e que a transmissão de pessoa a pessoa não é frequente. Doença universal, com maior ocorrência em países tropicais e no verão. Isso resolve, de uma vez, a pergunta que a família sempre faz: não é preciso separar toalha nem afastar da escola.
A candidíase, por sua vez, não é um encontro com um fungo de fora: é um desequilíbrio com um que já mora ali. O Caderno registra que a Candida albicans está presente na pele e nas mucosas de pessoas saudáveis, e que atrito, calor e umidade facilitam o desenvolvimento do fungo já existente. Por isso a epidemiologia da candidíase cutânea é a epidemiologia das condições que produzem dobra úmida e macerada — e não a de um contágio.
Falta um número, e vale dizer qual falta. Não há, no Brasil, série nacional publicada de prevalência de micose superficial na atenção primária, nem sistema de notificação: o Caderno de Atenção Básica registra, para cada uma das cinco entidades que descreve, que não é doença de notificação compulsória e que os objetivos de vigilância epidemiológica não se aplicam. Tudo o que existe é o censo de consultas de especialista de 2006. É pouco, é antigo, e é o que há.
Por que acontece o que acontece
Dermatófito é fungo que come queratina. Essa frase de cinco palavras explica quase tudo o que vem depois: onde a lesão aparece, por que ela tem a forma que tem, por que alguns lugares não respondem a creme e por que o tratamento dura mais do que a lesão. Os gêneros envolvidos são Trichophyton, Microsporum e Epidermophyton, e eles vivem na camada mais externa da pele, na haste do pelo e na lâmina da unha — todos tecidos queratinizados, todos sem vaso.
A forma anular vem do modo de crescer. O fungo se instala num ponto e avança para os lados, em todas as direções, consumindo queratina à medida que avança. A frente de avanço é onde há fungo vivo em atividade e onde a resposta inflamatória do hospedeiro está acontecendo agora: é por isso que a periferia é elevada, avermelhada, às vezes com vesículas ou pústulas, e é onde a descamação é maior. O centro é território já percorrido, com menos fungo e inflamação em regressão, e por isso clareia. Anel com borda ativa e centro claro não é um formato bonito: é o registro visível de uma frente que anda.
Agora o corticoide. Um corticoide tópico não mata fungo e não impede que ele coma queratina; ele desliga a resposta inflamatória local, que é a parte do processo que produz vermelhidão, elevação e coceira. O paciente sente melhora em dois ou três dias, porque o sintoma sumiu. O fungo, enquanto isso, encontra um terreno com defesa local rebaixada e cresce mais rápido e mais longe. O resultado é o que estava na coxa do Erasmo: uma lesão maior, com o contorno diluído, sem a elevação periférica e sem a descamação de borda que fariam o diagnóstico.
Esse fenômeno tem um custo diagnóstico específico, e é ele que justifica o título deste capítulo. A borda ativa é o sinal com maior poder de decisão em toda a dermatologia da atenção primária — é o que separa micose de eczema numular, de psoríase em placa e de dermatite de contato sem exame nenhum. Apagar a borda não deixa o médico sem um sinal: deixa o médico sem o sinal. E o corticoide acrescenta os seus próprios achados por cima — atrofia, brilho, telangiectasia, hipocromia — que empurram a lesão para outros diagnósticos.
Há uma consequência menos óbvia e igualmente prática: a suspensão do corticoide provoca piora. Quando o creme para, a inflamação represada volta de uma vez, e a lesão fica mais vermelha e mais pruriginosa do que estava no dia da consulta. Se o paciente não for avisado, ele lê isso como prova de que o remédio novo não presta e o antigo prestava, e volta ao tubo do colega. A bula do cetoconazol creme antecipa exatamente essa situação e propõe uma retirada gradual do corticoide, assunto que este capítulo retoma adiante.
Malassezia, a levedura da pitiríase versicolor, joga outro jogo. É lipofílica e comensal: vive no sebo da própria pele de gente saudável, e a doença acontece quando ela prolifera, não quando ela chega. Isso explica a distribuição das lesões nas áreas mais sebáceas — pescoço, tórax, raízes dos membros superiores, que é exatamente onde o Caderno as localiza — e explica a recidiva no verão seguinte, que não é falha do tratamento e sim recolonização do mesmo terreno pelo mesmo comensal. Explica também por que o tratamento profilático intermitente faz sentido aqui e não faz nas dermatofitoses.
A mancha clara da versicolor não é uma área onde a pele foi destruída; é uma área onde a produção de melanina está interferida enquanto a levedura está ativa, e por isso a cor demora muito mais a voltar do que o fungo demora a morrer. O TelessaúdeRS transforma isso em orientação obrigatória: avisar o paciente de que as áreas de hipopigmentação podem permanecer depois do tratamento e de que a repigmentação será gradual, ao longo dos meses. Sem esse aviso, o paciente com o fungo já morto volta convencido de que o tratamento não funcionou — e recebe um segundo, desnecessário.
Candida é a terceira lógica. Não come queratina e não avança em anel: cresce onde há umidade, calor, atrito e maceração, isto é, dentro de dobras. Por isso o mapa da candidíase cutânea é o mapa das dobras — inframamária, inguinal, axilar, nuca, interdigital, e a área de fralda —, exatamente como o Caderno descreve, e por isso a lesão não é um anel, e sim uma placa eritematosa viva, com a maceração no fundo da prega e, na periferia, as lesões eritemato-vésico-pustulosas destacadas do corpo principal que o Caderno chama de lesões satélites. Satélite é a assinatura: é o que diz levedura e não dermatófito.
Como se apresenta de verdade
Objetivos práticos no internato. Escolher tratamento pelo agente provável, local e extensão; reconhecer tinha modificada por corticoide, acometimento capilar e diagnóstico diferencial ungueal. O interno colhe e apresenta os dados, propõe o plano e executa atividades sob supervisão; prescrições, procedimentos e documentos são validados pelo profissional responsável. Estude o caso acompanhando o que cada achado muda na decisão, não apenas decorando critérios.
Micose superficial se reconhece por duas informações que chegam antes de qualquer exame: o aspecto da lesão e o lugar onde ela está. Este bloco percorre os seis quadros que respondem por quase toda a demanda, e cada um deles é apresentado pela pergunta que decide — não pela lista de sinônimos. A ordem não é alfabética: começa pela lesão que se apaga, porque é a que chega já descaracterizada.
Antes de começar, uma advertência de método. As descrições abaixo valem para pele que ainda não recebeu tratamento. Diante de qualquer lesão que já usou creme com corticoide, o passo zero é descobrir isso — perguntando pelo tubo, e de preferência pedindo para ver o tubo —, porque a semiologia que vem a seguir foi construída sobre a lesão intacta e não se aplica à lesão tratada.
1. A placa anular do tronco e dos membros: tinha do corpo
É a lesão que a palavra micose evoca, e a que mais se perde quando alguém interfere nela. O Caderno de Atenção Básica a define como micose superficial que compromete a epiderme da face, do tronco e dos membros, frequente em crianças, caracterizada por lesões pápulo-vesiculosas de crescimento centrífugo, isoladas ou múltiplas, por vezes confluentes, acompanhadas de prurido. O reservatório inclui animais domésticos, cães e gatos, além de humanos, e a incubação é de 4 a 10 dias.
Vale registrar uma diferença entre esse texto e a semiologia que este capítulo ensina, porque é uma diferença que muda o que o aluno procura. O Caderno descreve a descamação como central, aparecendo depois também na periferia. A descrição que torna a lesão reconhecível na cadeira é a inversa: a descamação e o relevo estão na frente de avanço, isto é, na periferia, e é o centro que clareia. Essa leitura da divergência é deste capítulo, não do documento — mas ela tem consequência prática direta, porque quem procura descamação no meio da placa e não a encontra pode descartar o diagnóstico certo, e porque o raspado para exame deve ser colhido da borda, onde há fungo vivo, e não do centro.
Achados que favorecem a hipótese na consulta, sem confirmação isolada: passar o dedo pela periferia e sentir relevo; ver o contorno se destacar melhor com a luz vinda de lado do que de cima; achar prurido na história; e encontrar mais de uma placa, porque a lesão isolada perfeitamente redonda é também o formato do eczema numular. O diferencial que o próprio Caderno lista para esta lesão é longo e útil de decorar: dermatite seborreica, pitiríase rósea de Gibert, psoríase, granuloma anular, eritema anular centrífugo e sífilis secundária. Placa anular no tronco de adulto sexualmente ativo, sem prurido, com lesões palmoplantares associadas, não é micose.
2. O pé: entre os dedos, na planta, e a porta que ele abre
A tinha dos pés tem duas caras e o Caderno descreve as duas numa frase: infecção fúngica que acomete os espaços interdigitais e as regiões plantares, com lesões que podem ser intensamente pruriginosas, descamativas e maceradas nos espaços interdigitais, podendo ocorrer fissuração. Sinonímia: frieira, pé-de-atleta. Os agentes são Epidermophyton floccosum e diversas espécies de Trichophyton, e a transmissão é por contato direto ou indireto, através de objetos e de pisos contaminados.
A forma interdigital vive no quarto espaço, o mais estreito e o último a secar, e é a que os pacientes não relatam porque não a consideram doença — como o Erasmo, que disse que aquilo era do calor e que todo entregador tem. A forma plantar é outra história e engana mais: descamação fina, seca, difusa, cobrindo a planta e subindo pelas bordas laterais até onde um mocassim cobriria o pé. Não coça necessariamente, não tem borda, e é rotulada por anos como pele seca — inclusive por quem a examina.
Um achado do pé muda a conversa com outro capítulo. O Caderno de Atenção Básica, ao descrever a erisipela, registra que as portas de entrada frequentes nos membros inferiores são as úlceras de perna e as dermatomicoses interdigitais. A fissura entre os dedos é uma solução de continuidade permanente numa área úmida e colonizada. O manejo da erisipela e das piodermites pertence ao capítulo de escabiose e piodermites desta apostila; o que pertence a este é a outra ponta da mesma cadeia — reconhecer e tratar a micose interdigital, que é a porta, e reconhecê-la também no paciente que já teve erisipela, porque nele ela deixa de ser desconforto e passa a ser prevenção de recidiva.
3. A unha: a micose mais comum, e a que este capítulo teve de assumir
A onicomicose responde por 42% das micoses superficiais no censo da Sociedade Brasileira de Dermatologia, e é a única das cinco entidades deste capítulo que não tem seção própria no Caderno de Atenção Básica n.º 9. Ela aparece lá uma única vez, como uma linha dentro da descrição da candidíase, junto com a paroníquia — sem quadro clínico próprio, sem diagnóstico diferencial e sem tratamento. Não há, no documento federal, código, seção nem esquema para a forma mais frequente. Este capítulo assume o assunto e declara que assumiu.
O quadro que faz suspeitar: espessamento da lâmina, perda do brilho, cor amarelada ou acastanhada, descolamento da borda livre — onicólise — e acúmulo de material friável sob a unha, a hiperceratose subungueal, que é o pó branco que sai à raspagem. Começa quase sempre pela borda distal ou lateral e caminha em direção à matriz. E quase nunca vem sozinha: unha de pé alterada em adulto com descamação plantar ou fissura interdigital é a mesma doença em dois lugares.
Também é preciso saber o que não é. Unha traumatizada de forma repetida — corredores, quem usa bico estreito —, psoríase ungueal, líquen plano ungueal e onicodistrofia por doença vascular periférica produzem unha feia sem fungo nenhum. Essa distinção não é acadêmica: ela decide entre não tratar e tratar por três meses com comprimido diário. O TelessaúdeRS reconhece isso ao listar, entre os motivos de encaminhamento, a suspeita de alteração ungueal não associada à infecção fúngica.
4. O couro cabeludo da criança: a única que nunca é tópica
O Caderno descreve a tinha do couro cabeludo como micose superficial caracterizada por lesões eritematosas, escamosas e alopecia tonsurante; inicia-se com pequena lesão eritematosa, escamosa, folicular, evolui de forma crônica com o surgimento de tonsura, pode ser única ou múltipla, é rara no adulto e acomete principalmente as crianças. Tonsura quer dizer cabelo quebrado rente, não caído pela raiz: dentro da placa restam cotos, e é isso que separa da alopecia areata, em que a área fica lisa.
A forma inflamatória tem nome próprio e cara de infecção bacteriana. O Caderno registra o Kerion Celsi: intensa reação inflamatória com formação de pústulas e microabscessos. É uma massa dolorosa, elevada, com pus saindo dos óstios foliculares, e é rotineiramente tratada como abscesso ou impetigo — com antibiótico, às vezes com drenagem. Tratar kerion como abscesso e não como fungo custa cabelo: a inflamação prolongada destrói folículo e deixa alopecia cicatricial definitiva.
A regra de conduta deste quadro é curta e não tem exceção no material brasileiro: o tratamento é sempre com antifúngico oral, nas palavras do TelessaúdeRS. A razão é anatômica — o fungo está dentro da haste e do folículo, e nenhum creme atravessa a queratina do pelo. Antifúngico tópico entra aqui apenas como medida complementar, do jeito que o Caderno o coloca, e xampu tem papel de reduzir a dispersão de esporos, não de curar. Diferencial que o Caderno lista para esta lesão: dermatite seborreica, psoríase, alopecia areata, impetigo e foliculite.
5. A mancha do tronco que descama ao estirar: pitiríase versicolor
Versicolor é o nome e é a descrição: as manchas podem ser hipocrômicas, eritematosas ou acastanhadas, no mesmo paciente e às vezes na mesma região. O Caderno as localiza no pescoço, no tórax e nas raízes dos membros superiores, com descamação fina, furfurácea — quer dizer, farelenta, como farelo de pão. O problema clínico é que essa descamação frequentemente não se vê: a pele parece apenas manchada e lisa, e o paciente jura que não descama.
Existem duas manobras de consultório para fazer a descamação aparecer, e as duas estão nomeadas no Caderno. Passar a unha sobre a lesão faz o farelo se levantar em linhas — é o sinal da unha. Estirar a pele da lesão entre os dois polegares faz a descamação aparecer sobre o estiramento — é o sinal de Zileri. São dez segundos de exame, não custam nada e transformam uma mancha inespecífica em um diagnóstico. O glossário do próprio Caderno define o sinal de Zileri como a descamação observada pelo estiramento da pele na pitiríase versicolor.
O diferencial obrigatório desta mancha não é outra micose: é a hanseníase indeterminada, e o Caderno a lista em primeiro lugar. O que separa as duas não é a cor, nem o tamanho, nem a localização — é a sensibilidade. A mancha da versicolor tem sensibilidade preservada, descama ao estiramento e costuma coçar em ambiente quente; a mancha hansênica perde sensibilidade, começando pela térmica, é seca por anidrose e não por descamação, e não coça. Toda mancha hipocrômica exige teste de sensibilidade antes de virar receita de antifúngico, e mancha que recebeu antifúngico correto e continuou ali é motivo para testar sensibilidade, não para trocar de antifúngico. A hanseníase em si — formas, diagnóstico e poliquimioterapia — é o primeiro capítulo desta apostila, e é para lá que vai o paciente cuja mancha não sente.
6. A placa viva das dobras, com satélites: candidíase cutânea
A candidíase de pele não se parece com nenhuma das anteriores, e é por isso que é a mais fácil de acertar quando se sabe o que procurar. O Caderno descreve o intertrigo atingindo com mais frequência as dobras cutâneas — nuca, virilhas, axilas, região inframamária e interdigitais — e descreve, na periferia, as lesões eritemato-vésico-pustulosas que são as lesões satélites. O corpo principal é uma placa eritematosa intensa, brilhante, úmida, com o fundo da prega macerado e às vezes fissurado, e o odor característico da maceração.
As três diferenças que decidem contra dermatofitose: a cor é vermelho-viva e não rosa-acastanhada; não há centro claro, porque a placa é homogênea; e há lesões destacadas fora do contorno principal, que a dermatofitose não produz. O Caderno acrescenta o diferencial que mais confunde nas dobras: dermatite seborreica, tinha cruris e eritrasma. Na área de fraldas, a irritação e a maceração provocadas pela urina e pelas fezes favorecem o desenvolvimento da levedura, com eritema intenso nas dobras e lesões satélites na periferia — é o mesmo mecanismo em escala de lactente.
Há ainda as formas de mucosa e de unha, e cada uma tem dono. A candidíase oral — a forma pseudomembranosa, com placas brancas removíveis, e a forma atrófica, com placas vermelhas lisas sobre o palato — está neste capítulo pelo que ela informa sobre o hospedeiro. A paroníquia crônica com onicólise das mãos, típica de quem trabalha com as mãos molhadas, aparece adiante, no tratamento da onicomicose. A candidíase vulvovaginal pertence ao capítulo de corrimento vaginal, na apostila de Ginecologia, que trata a candidíase de repetição no contexto certo. E a candidíase do imunossuprimido, incluindo a oroesofágica, pertence ao capítulo de HIV da apostila de Infectologia.
Como fechar o diagnóstico
A pergunta deste bloco não é qual exame existe para micose: é quando a decisão clínica muda por causa do exame. Micose superficial é dos poucos assuntos em que o custo de confirmar e o custo de não confirmar podem ser calculados na consulta, porque os dois se medem na mesma moeda — quanto tempo de medicamento a suspeita vai custar ao paciente.
A régua brasileira, aqui, tem uma característica que precisa ser dita antes: ela diz quando pedir e não diz como fazer. Nem o Caderno de Atenção Básica nem o protocolo do TelessaúdeRS descrevem a técnica do exame micológico direto. O Caderno registra, em cada entidade, que o diagnóstico é clínico, epidemiológico e laboratorial, sem detalhar o laboratorial; o TelessaúdeRS menciona o exame micológico direto e a cultura uma única vez, na lista do que anexar ao encaminhamento. O que segue sobre a técnica é conhecimento corrente da prática, não citação de documento nacional, e está marcado como tal.
1. As quatro situações em que o diagnóstico é clínico e ponto final
Placa anular com borda ativa no tronco ou nos membros, em paciente que não usou corticoide, tratada com creme por três semanas: não precisa de exame. O tratamento é barato, tópico, quase sem risco sistêmico, e a resposta em duas semanas é o próprio teste diagnóstico. Pedir exame aqui adiciona semanas de espera e nenhuma decisão.
Mancha do tronco com sinal de Zileri positivo, em adolescente ou adulto jovem: não precisa de exame, desde que a sensibilidade tenha sido testada e esteja preservada. Intertrigo de dobra com lesões satélites: não precisa de exame para começar o creme — precisa, isso sim, de investigação do hospedeiro, que é outro assunto e está na seção 5 deste bloco. Fissura macerada no quarto espaço interdigital: não precisa de exame.
O denominador comum das quatro é que a conduta que se segue é tópica, curta e reversível. A régua deste capítulo, portanto, não é a gravidade da lesão nem a certeza do médico: quando a suspeita leva a creme, trate; quando leva a meses de comprimido, confirme. Essa frase resolve a maioria das dúvidas de conduta que este assunto produz numa unidade básica.
2. O exame micológico direto e a cultura: o que cada um responde
São dois exames com perguntas diferentes, e confundi-los é a causa mais comum de pedido inútil. O micológico direto responde se há estrutura fúngica no material — hifas, artrosporos, leveduras — e responde em minutos ou horas: o material raspado da lesão é clarificado com hidróxido de potássio, que dissolve a queratina e deixa o fungo visível ao microscópio. O Caderno usa essa mesma técnica quando descreve o diagnóstico da candidíase oral, com esfregaço preparado em hidróxido de potássio a 10%, e acrescenta que as culturas permitem a identificação da espécie.
A cultura responde qual é o fungo, e é ela que separa dermatófito de levedura — separação que muda o esquema na unha, porque o protocolo do TelessaúdeRS prescreve fármacos diferentes para onicomicose por Candida e por dermatófito. O preço é o tempo: cultura de fungo demora semanas, e não há como iniciar tratamento longo esperando por ela em todo paciente. Na prática, o direto negativo em material bem colhido pesa contra o diagnóstico; o direto positivo autoriza começar; a cultura resolve os casos em que o esquema depende do agente.
Duas armadilhas de coleta valem mais do que a teoria toda, e ambas são conhecimento de prática, não citação. A primeira: raspe da borda, não do centro — é onde há fungo vivo. Na unha, o material útil é o debris subungueal do ponto mais proximal do acometimento, não a lasca da ponta. A segunda: antifúngico recente derruba a sensibilidade do exame, e o paciente que passou creme na véspera pode dar direto negativo tendo micose. Quem pretende confirmar precisa suspender o antifúngico tópico antes de colher — e isso significa decidir pela confirmação antes de prescrever, não depois.
3. A luz de Wood: onde ela está no documento brasileiro e o que ela não resolve
O Caderno de Atenção Básica cita a luz de Wood uma única vez, e num lugar que vale reparar: não na seção da pitiríase versicolor, e sim na da pitiríase alba. Ali ele afirma que a luz de Wood é de extrema importância no diagnóstico diferencial da pitiríase versicolor e do vitiligo, que na pitiríase versicolor aparece fluorescência rósea-dourada e que no vitiligo se visualiza tratar-se de mancha acrômica nacarada. A instrução está arquivada sob a doença que não é a micose — e quem lê a seção da versicolor não a encontra.
O protocolo do TelessaúdeRS de 2023 não menciona a luz de Wood nenhuma vez, em nenhum dos seus protocolos de pele. Portanto, o material brasileiro disponível sobre o assunto tem uma única frase sobre o aparelho, escrita em 2002, fora do lugar onde seria procurada. Registrar isso é mais útil do que fingir que existe uma recomendação nacional de uso.
E há um limite prático que precisa acompanhar a citação: fluorescência ausente não afasta pitiríase versicolor. A observação vale para o consultório real, onde a maioria das unidades básicas não tem o aparelho — e onde os dois sinais de estiramento e de unha, que não custam nada, resolvem o mesmo problema com mais frequência do que a lâmpada resolveria.
4. Antes do comprimido longo: unha e couro cabeludo mudam a régua
Uma onicomicose de pé tratada segundo o protocolo do TelessaúdeRS significa terbinafina 250 mg por dia durante três meses, ou itraconazol em pulsos por três meses. São entre 90 e cerca de 24 dias de exposição a um antifúngico sistêmico para um problema que não ameaça a vida do paciente. Prescrever isso a uma unha distrófica por trauma repetido é expor por meses alguém que não tem a doença. É aqui que a confirmação deixa de ser luxo.
O mesmo raciocínio, com o agravante da idade, vale para a tinha do couro cabeludo: o tratamento oral dura de 6 a 12 semanas com griseofulvina ou de 4 a 6 semanas com terbinafina, numa criança. E há uma segunda razão específica desta lesão: como o tratamento é obrigatoriamente sistêmico, o diagnóstico errado não se corrige espontaneamente. Uma alopecia areata tratada como tinha recebe semanas de antifúngico e não melhora — e o tempo perdido não é o problema principal, é a conclusão errada de que a criança tem uma micose resistente.
Há um contraste que merece ser dito com todas as letras, porque é ele que define a responsabilidade de quem prescreve. Os documentos brasileiros não exigem confirmação micológica antes de iniciar o tratamento sistêmico: o TelessaúdeRS pede o laudo de exame confirmatório, preferencialmente, no momento do encaminhamento ao dermatologista, e não como condição para tratar na atenção primária. A redação desses documentos não torna a confirmação dispensável: neste capítulo, recomenda-se confirmar a etiologia antes de exposição oral prolongada, organizando coleta ou referência conforme a rede e discutindo exceções com supervisão.
5. Candidíase de repetição: o que procurar por trás
Candidíase cutânea que volta não é falha do creme: é sinal de que a condição que a produziu continua ali. O protocolo do TelessaúdeRS abre o tratamento do intertrigo por Candida com a instrução de avaliar e tratar fatores predisponentes, e nomeia cinco: diabetes tipo 2, hiperidrose, incontinência urinária, uso de corticoides tópicos e uso de medicamentos imunossupressores. Note que dois deles são iatrogênicos — a lista inclui o que o médico prescreveu.
O Caderno de Atenção Básica acrescenta o restante do mapa: atividades com imersão frequente em água e diabetes são fatores predisponentes para a candidíase de unha e paroníquia; a infecção mucocutânea crônica pode estar associada a doenças endócrinas como o diabetes melito, a tratamento com antibióticos de amplo espectro ou a imunodeficiência, sendo frequente na infecção por HIV; e complicações sistêmicas são mais comuns em imunodeprimidos e diabéticos. Somando os dois documentos, a investigação mínima do paciente com candidíase cutânea recorrente é curta e concreta.
Na prática: glicemia — porque candidíase de dobra em adulto pode ser a primeira manifestação de um diabetes ainda não diagnosticado; revisão da lista de medicamentos, atrás de corticoide sistêmico ou tópico prolongado, imunossupressor e antibiótico de amplo espectro recente; pergunta sobre continência e sobre trabalho com as mãos ou os pés molhados; e oferta de testagem para HIV quando o quadro for extenso, recorrente ou acompanhado de candidíase oral em adulto sem prótese dentária e sem uso de corticoide inalatório. Candidíase oral em adulto imunocompetente que não usa corticoide inalatório nem dentadura é achado que pede explicação, não creme.
6. Quando o problema não é o exame, e sim o diagnóstico errado
Existe uma categoria de fracasso que nenhum exame micológico resolve, porque a pergunta estava errada desde o começo: a lesão nunca foi micose. Esse é o motivo mais frequente de lesão que não sara com pomada — mais frequente do que resistência a antifúngico, que na atenção primária é rara.

As três armadilhas mais caras desse grupo já têm dono nesta apostila, e o dever deste capítulo é fazer o encaminhamento interno. Placa avermelhada de limites nítidos, coberta por escama ou por crosta, que muda muito devagar e atravessou meses de creme sem ceder — sobretudo na perna de uma mulher idosa ou no antebraço de quem trabalhou ao sol a vida inteira — é assunto do capítulo de carcinoma basocelular e espinocelular, o segundo desta apostila. Mancha hipocrômica que não recupera a cor e cuja sensibilidade não foi testada é assunto do capítulo de hanseníase, o primeiro. Lesão pigmentada que mudou de tamanho, forma ou cor é assunto do capítulo de melanoma. Nenhuma das três se resolve trocando o antifúngico.
A regra operacional que sai daí é um prazo, e ela cabe numa linha do prontuário: micose superficial tratada corretamente por via tópica melhora de forma perceptível em duas a três semanas. Lesão que completou o tratamento tópico adequado e não mudou nada não merece um segundo creme — merece que o diagnóstico seja reaberto do zero, com exame micológico, com teste de sensibilidade se for mancha hipocrômica, e com a pergunta sobre biópsia se for placa fixa de meses.
Da lesão à receita: o fluxo da consulta, o que o SUS fornece e as contas refeitas
O fluxo abaixo é o roteiro de uma consulta em que a micose apareceu — tenha sido ela a queixa ou não. As quatro tabelas respondem, nesta ordem, a quatro perguntas diferentes: o que é, o que separa a mancha clara das três doenças que a produzem, o que existe no elenco do SUS e quanto de comprimido e de frasco cada esquema significa. As notas ao final trazem, com a conta à vista, as passagens dos documentos oficiais cujos números não se sustentam — e também as que se sustentaram.
- 1Pergunte pelo tubo antes de olhar a lesão de perto: o senhor passou alguma pomada? Qual? Tem aí? Se houver corticoide na fórmula, a semiologia clássica não se aplica ao que você vai ver.
- 2Descubra o tempo de evolução e a direção: aumentou, diminuiu ou ficou igual desde que começou o creme. Parou de coçar e aumentou é a assinatura do corticoide sobre micose.
- 3Com a luz vindo de lado, procure relevo na periferia da placa e clareamento no centro. Passe o dedo pela borda; borda ativa se sente antes de se ver.
- 4Peça para tirar as meias dos dois pés, sempre. Abra o quarto espaço interdigital com os dedos e olhe o fundo dele. Olhe as dez unhas dos pés.
- 5Se houver mancha clara em qualquer lugar do corpo, teste a sensibilidade antes de dizer a palavra micose. Térmica e dolorosa, comparando com a pele vizinha.
- 6Se a mancha clara tiver sensibilidade preservada, estire a pele entre os polegares e passe a unha sobre ela: sinal de Zileri e sinal da unha fecham a pitiríase versicolor sem exame.
- 7Nas dobras, procure lesões destacadas fora do contorno principal. Lesões-satélite favorecem candidíase; borda ativa com clareamento central favorece dermatofitose. Nenhum desses sinais é confirmação isolada.
- 8Escolha a via por localização, extensão, profundidade, hospedeiro e diagnóstico. Tinea capitis costuma exigir antifúngico sistêmico. Em onicomicose, confirmar infecção antes de tratamento oral prolongado e considerar matriz, extensão, interações e preferência; casos limitados podem receber tópico ou cuidado sem tratamento específico imediato. Na pele glabra, tópicos são usuais em doença localizada; doença extensa, profunda ou refratária pode exigir via oral.
- 9Antes de tratamento oral prolongado de unha, buscar confirmação fúngica e revisar diagnóstico, matriz, extensão, interações e fígado. No couro cabeludo, colher material quando viável; em tinea capitis inflamatória típica, não atrasar o tratamento sistêmico indicado enquanto se aguarda resultado.
- 10Se for colher, colha antes de prescrever qualquer antifúngico tópico, e raspe da borda da lesão ou do debris subungueal mais proximal.
- 11Havendo candidíase de dobra, investigue o hospedeiro na mesma consulta: glicemia, lista de medicamentos, continência, mãos e pés molhados no trabalho.
- 12Escreva no prontuário as três coisas que a próxima consulta vai precisar: onde estão todas as lesões, o que foi prescrito e por quanto tempo, e a data em que o tratamento termina.
- 13Diga em voz alta, e repita na receita, que o creme continua por uma a duas semanas depois de a lesão sumir — sem isso, o paciente para no dia em que a pele fica lisa.
- 14Marque o retorno pela duração do tratamento, não pelo sintoma: duas a três semanas na pele glabra, e retorno com a caixa vazia nos esquemas orais longos.
Onde está a lesão, o que ela é, e o que a localização já decide sobre a via
| Onde e como se apresenta | O que costuma ser | O que fecha sem exame | Via de tratamento |
|---|---|---|---|
| Tronco ou membros: placa com borda elevada e descamativa, centro mais claro, prurido | Tinha do corpo | Relevo sentido ao dedo na periferia; mais de uma placa; prurido na história | Tópica, 1 a 3 semanas ou até resolver. Oral só se refratária ou extensa |
| Quarto espaço interdigital do pé: maceração branca, descolamento em lâmina, fissura | Tinha dos pés, forma interdigital | O aspecto e o lugar. Olhar os dois pés e as dez unhas na mesma consulta | Tópica, 1 a 4 semanas ou até resolver |
| Planta e bordas laterais do pé: descamação fina e seca, com distribuição em mocassim | Tinha dos pés, forma plantar | A distribuição, que respeita o contorno de um mocassim; unhas alteradas junto | Tópica prolongada; oral se falhar ou se houver unha acometida |
| Unha do pé espessada, opaca, amarelada, descolada da ponta, com pó branco subungueal | Onicomicose | Nenhum sinal fecha sozinho — é o quadro em que o exame decide | Oral por cerca de 3 meses. Esmalte só na forma leve, e fora do elenco do SUS |
| Couro cabeludo de criança: placa descamativa com cabelo quebrado rente dentro da área | Tinha do couro cabeludo | Tonsura, isto é, cotos de cabelo dentro da placa — e não área lisa | Confirmar micose e individualizar: tópico em casos limitados sem matriz; oral quando indicado pela extensão, matriz, repercussão e avaliação do paciente. A duração depende do fármaco e da unha afetada. |
| Couro cabeludo de criança: massa dolorosa e elevada, com pústulas e saída de pus | Kerion, a forma inflamatória da mesma tinha | Pus saindo pelos óstios foliculares, com dor — não é abscesso nem impetigo | Sempre oral. Antibiótico sozinho não resolve e custa cabelo definitivo |
| Pescoço, tórax e raízes dos braços: manchas claras, rosadas ou acastanhadas, sem relevo | Pitiríase versicolor | Sinal de Zileri e sinal da unha, com sensibilidade preservada | Tópica. Oral só se extensa, recorrente ou refratária — e nunca terbinafina oral |
| Dobras: placa vermelho-viva, úmida, macerada no fundo da prega, com lesões destacadas | Candidíase cutânea | As lesões satélites na periferia e a ausência de centro claro | Tópica. Oral se falhar ou for extensa — e investigar o hospedeiro sempre |
Mancha clara no tronco: as três que se confundem, e o que separa cada uma
| O que você testa ou observa | Pitiríase versicolor | Pitiríase alba | Hanseníase indeterminada |
|---|---|---|---|
| Sensibilidade térmica e dolorosa na mancha | Preservada | Preservada | Alterada, começando pela térmica — é o achado que decide |
| Descamação ao estirar a pele (sinal de Zileri) | Aparece descamação fina, furfurácea | Descamação fina pode existir, ligada à xerose | Não descama; a secura é por anidrose |
| Prurido | Comum, sobretudo com calor e suor | Ausente ou discreto | Ausente |
| Idade e contexto típicos | Adolescente e adulto jovem; piora no verão | Criança e adolescente; piora com banho quente, sabão e inverno | Qualquer idade; área endêmica e contato domiciliar pesam |
| Luz de Wood, quando disponível | Fluorescência rósea-dourada, segundo o Caderno de 2002; ausência não afasta | Sem fluorescência | Sem fluorescência; a lâmpada não substitui o teste de sensibilidade |
| O que fazer com o resultado | Tratar como micose, tópico, e avisar que a cor demora meses a voltar | Hidratar e umectar; o Caderno admite creme com corticoide aqui | Não prescrever antifúngico: é o capítulo de hanseníase desta apostila |
Medicamentos para micoses na Rename 2024: verificar acesso local
| Fármaco | Apresentação na Rename 2024 | Componente | O que isso significa para este capítulo |
|---|---|---|---|
| Cetoconazol | 20 mg/mL (2%) xampu — e apenas isso | Básico | Serve à versicolor e ao eczema seborreico. Não há cetoconazol oral no elenco |
| Nitrato de miconazol | 2% (20 mg/g) creme, loção e pó; 2% gel oral; 2% creme vaginal | Básico | É o antifúngico tópico de rotina do SUS: serve à tinha, ao intertrigo e à boca |
| Nistatina | 100.000 UI/mL suspensão oral | Básico | Candidíase de boca; ação local na mucosa, sem absorção sistêmica relevante |
| Fluconazol | 150 mg cápsula; 100 mg cápsula; 10 mg/mL suspensão oral; 2 mg/mL injetável | Básico (o injetável, Estratégico) | O azólico oral de acesso amplo; a suspensão resolve a dose pediátrica fracionada |
| Itraconazol | 100 mg cápsula; 10 mg/mL solução oral | Básico e Estratégico | Alternativa oral para tinha, versicolor, intertrigo e onicomicose por Candida |
| Terbinafina | Não consta em nenhuma forma | — | Primeira escolha da onicomicose por dermatófito está fora do elenco nacional |
| Griseofulvina | Não consta em nenhuma forma | — | Primeira escolha da tinha do couro cabeludo depende de manipulação e de pactuação local |
| Ciclopirox e amorolfina em esmalte | Não constam | — | A apresentação tópica ungueal citada não consta da Rename 2024 consultada. Verificar elenco municipal/estadual, indicação e dispensação local; ausência nessa edição não prova indisponibilidade em todo o SUS. |
| Sulfeto de selênio | Não consta; a palavra selênio só aparece como micronutriente de um pó vitamínico | — | O xampu que o Caderno de 2002 indica para a versicolor não existe no elenco |
mg, comprimido e frasco: o que cada esquema significa na apresentação real
| Fármaco e apresentação registrada | O que o esquema pede | Quanto isso é na apresentação | O que a conta revela |
|---|---|---|---|
| Terbinafina comprimido 250 mg (uso oral, uso adulto) | 250 mg por dia no adulto | 1 comprimido inteiro por dia | Onicomicose de pé por 3 meses são cerca de 90 comprimidos |
| Terbinafina comprimido 250 mg (uso oral, uso adulto) | 125 mg por dia na criança de 20 a 40 kg | Meio comprimido de 250 mg | A dose pediátrica exige partir um comprimido rotulado para adulto |
| Terbinafina comprimido 250 mg (uso oral, uso adulto) | 62,5 mg por dia na criança de 10 a 20 kg | Um quarto de comprimido de 250 mg | Fracionar em quatro é impreciso; o comprimido de 125 mg não está na bula lida |
| Itraconazol cápsula 100 mg | 200 mg por dia (tinha do corpo, versicolor) | 2 cápsulas por dia | Uma semana de tinha do corpo são 14 cápsulas |
| Itraconazol cápsula 100 mg | 400 mg por dia (tinha dos pés, intertrigo, pulso da unha) | 4 cápsulas por dia | O pulso mensal de 1 semana consome 28 cápsulas por ciclo |
| Fluconazol cápsula 150 mg | 300 mg uma vez por semana (versicolor) | 2 cápsulas de 150 mg de uma vez, 1 dia por semana | Com a cápsula de 100 mg seriam 3; a receita precisa dizer qual foi dispensada |
| Nistatina suspensão 100.000 UI/mL | 4 a 6 mL, 4 vezes ao dia (adulto, boca) | 16 a 24 mL por dia, ou 1,6 a 2,4 milhões de UI | Sete a catorze dias consomem de 112 a 336 mL de suspensão |
| Cetoconazol xampu 2% (20 mg/mL) | Contato de 5 a 10 minutos com a pele, 1 vez ao dia | Cerca de 10 mL por aplicação equivalem a 200 mg de cetoconazol | É a única forma de cetoconazol no elenco, e é de contato, não de ingestão |
| Miconazol creme 2% (20 mg/g) | Aplicação 2 vezes ao dia sobre a lesão | Cada grama de creme entrega 20 mg de miconazol | Um tubo de 30 g contém 600 mg do fármaco e cobre semanas de uso tópico |
A régua brasileira, primeiro. Não existe protocolo clínico e diretriz terapêutica do Ministério da Saúde para micose superficial. A relação de protocolos e diretrizes da Conitec traz, em dermatologia, dermatite atópica, psoríase, ictioses hereditárias, hidradenite supurativa e hemangioma infantil — e nada para dermatofitose, tinea, pitiríase versicolor, candidíase cutânea ou onicomicose. O documento federal mais específico continua sendo o Caderno de Atenção Básica n.º 9, de 2002, que tem 24 anos e cuja vigência se apoia apenas na ausência de substituto. É por isso que este capítulo lê as doses de 2002 contra a Rename de 2024, contra a bula atual de cada fármaco e contra o protocolo estadual de 2023: nenhum deles, sozinho, é a régua nacional.
Erro achado — dose pediátrica que ultrapassa a do adulto na mesma frase. Na pitiríase versicolor, o Caderno de 2002 escreve que a opção de uso sistêmico é o cetoconazol, 15 mg/kg/dia por 10 dias, e, no adulto, cetoconazol 200 mg/dia por 10 dias. As duas doses estão no mesmo parágrafo e não há a ressalva de não exceder a dose do adulto. Refazendo: 200 dividido por 15 dá 13,33 kg — a partir desse peso a criança recebe mais que o adulto. Uma criança de 20 kg receberia 300 mg/dia, 1,5 vez a dose adulta; uma de 30 kg receberia 450 mg/dia, 2,25 vezes; uma de 40 kg, 600 mg/dia, o triplo.
Erro achado — o mesmo fármaco, duas doses pediátricas diferentes dentro do mesmo Caderno. Na candidíase, o cetoconazol pediátrico é de 4 a 7 mg/kg/dia; na pitiríase versicolor, 15 mg/kg/dia. A razão entre elas é de 2,14 vezes contra o topo da primeira faixa e de 3,75 vezes contra o piso. Numa criança de 20 kg isso significa 80 a 140 mg/dia numa seção e 300 mg/dia na outra; numa de 30 kg, 120 a 210 mg/dia contra 450 mg/dia. Não há nota no documento explicando por que a mesma droga teria margem terapêutica diferente em duas micoses.
Erro achado — faixa de dose que o próprio teto amputa. Na tinha dos pés, o Caderno prescreve griseofulvina oral de 10 a 20 mg/kg/dia com dose máxima de 500 mg/dia, e a mesma página afirma que a doença é mais comum em adultos jovens do sexo masculino e rara na infância. Refazendo a conta: o topo da faixa encosta no teto já aos 25 kg, e o piso da faixa encosta aos 50 kg. Acima de 50 kg, portanto, nem a menor dose da faixa cabe dentro do teto — num adulto de 70 kg, 10 mg/kg dariam 700 mg/dia contra um teto de 500. Para o paciente típico da doença, a faixa prescrita é inteiramente inalcançável.
Erro achado — três tetos diferentes para o mesmo fármaco no mesmo documento. A griseofulvina aparece em três seções do Caderno: na tinha do corpo, 10 a 20 mg/kg/dia por 30 dias, sem teto declarado; na tinha do couro cabeludo, 15 mg/kg/dia por 30 a 60 dias, sem teto declarado; na tinha dos pés, 10 a 20 mg/kg/dia com teto de 500 mg/dia. Um adulto de 70 kg tratado a 20 mg/kg receberia 1.400 mg/dia pela primeira regra e 500 mg/dia pela terceira, um fator de 2,8. Uma criança de 30 kg receberia 600 mg pela primeira e 500 pela terceira. A dose depende de qual página foi aberta.
Erro achado — dose de criança em mililitros, sem a concentração declarada. Na candidíase oral, o Caderno prescreve para o adulto nistatina de 500.000 a 1 milhão de UI, 3 a 5 vezes ao dia, e para a criança 1 a 2 mL, 3 vezes ao dia — mudando de unidade sem dizer a concentração do frasco. Usando os 100.000 UI/mL que a Rename 2024 fornece, a criança receberia de 300.000 a 600.000 UI/dia contra 1,5 a 5 milhões do adulto, uma razão de até 16,7 vezes entre o teto adulto e o piso infantil. O protocolo de 2023 prescreve, para a criança, 4 a 6 mL quatro vezes ao dia, isto é, 1,6 a 2,4 milhões de UI/dia — de 2,7 a 8 vezes o que a leitura literal do Caderno entregaria.
Erro achado — faixas de peso em que um mesmo peso pertence a duas classes e outro não pertence a nenhuma. O protocolo do TelessaúdeRS escreve a terbinafina pediátrica como 10 a 20 kg, 62,5 mg; 20 a 40 kg, 125 mg; acima de 40 kg, 250 mg, e repete essas faixas em dois quadros. Uma criança de exatamente 20 kg cai em duas faixas, e uma de exatamente 40 kg também; uma criança de 8 kg não cai em nenhuma. O documento de 2002, mais velho, escreve as mesmas três faixas sem ambiguidade — abaixo de 20 kg, de 20 a 40 kg, acima de 40 kg —, e nele cada peso pertence a uma classe só. Na prática o intervalo tem pouca consequência clínica, mas a redação mais nova é a menos precisa.
Erro achado — apresentação prescrita que a bula não traz. Ao tratar a tinha do couro cabeludo, o Caderno prescreve terbinafina 62,5 mg por dia para crianças abaixo de 20 kg e explica entre parênteses que isso é metade de um comprimido de 125 mg. A conta interna fecha, porque 125 dividido por 2 dá exatamente 62,5. O problema é o comprimido: a bula do genérico lida para este capítulo declara, como apresentação, comprimidos de 250 mg, e a marca a faixa etária como uso adulto. Executar a dose pediátrica exige, portanto, partir em quatro um comprimido de 250 mg rotulado para adulto — o que é diferente do que a frase do Caderno faz supor.
Achado normativo — o fármaco que o Caderno manda dar por boca não tem, hoje, essa indicação em bula. A bula profissional do cetoconazol comprimido 200 mg indica o medicamento para blastomicose, coccidioidomicose, histoplasmose, cromomicose e paracoccidioidomicose, em pacientes que apresentaram falha ou intolerância a outras terapias, e abre a seção de indicações dizendo que, pelo risco de toxicidade hepática grave, o fármaco só deve ser usado se os benefícios superarem os riscos, consideradas outras terapias antifúngicas eficazes; é contraindicado em doença hepática aguda ou crônica. Micose superficial não está entre as indicações. O protocolo do TelessaúdeRS diz o mesmo por outro caminho, em duas notas de rodapé: o cetoconazol sistêmico deve ser evitado no tratamento das dermatofitoses e da pitiríase versicolor, por perfil risco-benefício desfavorável em comparação com as outras opções disponíveis. A recomendação de 2002 e a bula de hoje não convivem.
Achado normativo — o mesmo fármaco, resultados opostos por via. A bula do cetoconazol creme 2% indica a forma tópica para micoses superficiais, incluindo tinha do corpo, tinha crural, tinha das mãos, tinha dos pés, candidíase cutânea e pitiríase versicolor. É a mesma molécula da tabela anterior, com indicação ampla por fora e indicação restrita por dentro. A lição não é sobre cetoconazol: é que via não é intensidade. A bula da terbinafina oral fecha o argumento pelo outro lado ao registrar que, ao contrário da terbinafina tópica, o cloridrato de terbinafina oral não é eficaz na pitiríase versicolor. O comprimido do mesmo fármaco que cura a lesão pelo creme não cura essa micose — e prescrevê-lo é expor sem tratar.
Achado de elenco — o que a Rename 2024 não tem, conferido item por item com busca exata sobre o texto normalizado sem espaço nem hífen, em dois espelhos independentes do arquivo. Terbinafina: zero ocorrências. Griseofulvina: zero. Clotrimazol: zero. Ciclopirox e amorolfina: zero. Cetoconazol aparece duas vezes, e as duas são o xampu de 20 mg/mL — não há comprimido. Fluconazol e itraconazol estão, em cápsula e em solução oral. Miconazol e nistatina estão, em formas tópicas e de mucosa. Uma armadilha de busca merece registro: procurar por selênio devolve duas ocorrências, e as duas são o micronutriente de 17 mcg dentro de um pó vitamínico. Não há sulfeto de selênio no elenco. Quem contasse ocorrências sem ler o contexto concluiria o contrário.
Consequência prática do elenco, dita sem rodeio porque muda o que se escreve na receita. Os dois fármacos de primeira escolha para as duas micoses que obrigam tratamento oral — terbinafina para a onicomicose por dermatófito e griseofulvina para a tinha do couro cabeludo — estão fora da Rename. O próprio protocolo do TelessaúdeRS marca essas linhas com asterisco e explica que a aquisição depende de pactuação dos gestores estaduais e municipais, e que os serviços especializados também não fornecem o medicamento caso ele não esteja disponível no SUS; e ainda acrescenta que a griseofulvina micronizada é obtida sob manipulação. Antes de prescrever, vale saber o que a farmácia da sua unidade tem — porque a alternativa disponível pode mudar o esquema inteiro.
Achado de cobertura — a micose mais comum não tem seção no documento federal. O Caderno de 2002 tem seção própria, com código, quadro clínico, diferencial e tratamento, para candidíase, pitiríase versicolor, tinha do corpo, tinha do couro cabeludo e tinha dos pés. Não tem seção para onicomicose e não tem seção para tinha crural: as expressões tinha crural e tinea cruris não aparecem no documento, e a palavra onicomicose aparece apenas dentro da descrição da candidíase. Cruzando com o censo da Sociedade Brasileira de Dermatologia, em que a tínea das unhas responde por 42% das micoses superficiais, o resultado é que a apresentação mais frequente é justamente a que o único documento federal não descreve.
Divergência de dose entre os dois documentos brasileiros, na mesma doença. Para a tinha do couro cabeludo, o Caderno de 2002 prescreve griseofulvina 15 mg/kg/dia por 30 a 60 dias; o protocolo de 2023 prescreve griseofulvina micronizada 20 a 25 mg/kg/dia, com máximo de 1.000 mg/dia, por 6 a 12 semanas. A razão entre os topos de dose é de 1,67 e a razão entre os topos de duração é de 2,80 — o esquema de 2023 entrega, no limite, cerca de 4,7 vezes a exposição total do esquema de 2002. Numa criança de 30 kg são 450 mg/dia contra 600 a 750 mg/dia. O teto de 1.000 mg começa a cortar a dose aos 40 kg pela regra dos 25 mg/kg e aos 50 kg pela dos 20 mg/kg. Nenhum dos dois documentos menciona o outro.
Conferência que fechou — a tabela do censo dermatológico. Dividindo cada N pelo respectivo percentual da tabela principal do artigo da Sociedade Brasileira de Dermatologia, os denominadores implícitos das oito primeiras linhas ficam entre 57.000 e 57.902, coerentes com os 57 mil declarados e com percentuais arredondados a uma casa. A coluna de percentual acumulado parece falhar no segundo posto — 14 mais 8,7 dá 22,7 e o artigo imprime 22,8 —, mas recalculando sobre os valores não arredondados, 8.049 e 5.003 sobre 57.493 dão 14,00% e 8,70% com soma de 22,70%, e todos os degraus seguintes da coluna batem exatamente. É arredondamento de exibição. Dentro das micoses superficiais, a decomposição de 42%, 32,56%, 18,27% e 4,10% soma 96,93%, e os 3,07% restantes — cerca de 154 consultas — não são nomeados pelo texto.
Conferência que fechou — os espelhos do Caderno de 2002. Duas capturas do mesmo arquivo do bvsms, de 2018 e de 2020, foram baixadas e extraídas separadamente. O texto resultante é idêntico byte a byte, com o mesmo SHA-256 e 144.195 caracteres nas duas cópias, e a cadeia de 1.504 dígitos do documento também é a mesma. Nenhuma dose, nenhum teto e nenhum percentual difere entre as versões — o que significa que os erros aritméticos relatados acima estão no documento e não na extração de uma cópia específica.
A conduta, hora a hora
O que segue é a consulta do Erasmo, do minuto em que a placa aparece até a porta. Ele tem três problemas de fungo em três lugares, um deles sob corticoide há cinco semanas, e veio buscar um atestado de tornozelo. A consulta cabe em doze minutos se você souber a ordem — e a ordem começa por desfazer o que o tubo fez.
As doses citadas nos marcos são as do protocolo do TelessaúdeRS de 2023, que é o documento brasileiro mais recente com posologia para estas doenças; onde o Caderno de 2002 diverge, a divergência está registrada nas notas do bloco anterior. As formas fornecidas pelo SUS estão na tabela do elenco: dois dos fármacos abaixo não constam da Rename, e isso precisa ser conferido com a farmácia da sua unidade antes de o paciente sair com a receita.
Local e agente mudam a via. Tinha corporal limitada costuma permitir terapia tópica; tinha do couro cabeludo exige antifúngico sistêmico, e xampu é adjuvante para reduzir transmissão. No quérion, inflamação intensa não significa automaticamente abscesso bacteriano: não drenar por rotina. Suspeita de infecção bacteriana associada deve ser avaliada antes de retirar antibiótico. Nistatina pode tratar Candida, mas não dermatófitos. Não usar cetoconazol oral para micose superficial, devido ao perfil de toxicidade e à disponibilidade de alternativas. Antes de antifúngico oral, revisar gestação, fígado, interações e confirmação diagnóstica quando pertinente.
Minuto 2 — a placa aparece no meio da consulta do tornozelo
Você viu a placa quando ele levantou a bermuda. A tentação é resolver o tornozelo, assinar o atestado e dizer que ele volte outro dia para ver a mancha — e ele não volta, porque a mancha não incomoda mais. Interrompa uma vez, com uma frase curta, e olhe. O que muda tudo nos próximos onze minutos é uma pergunta de sete palavras feita agora, antes de qualquer hipótese: o senhor está passando alguma pomada aí?
Prescrição- Pedir para ver o tubo, e ler os princípios ativos do rótulo, em voz alta se preciso.
- Registrar no prontuário o nome dos princípios ativos e há quantas semanas está em uso.
- Perguntar a direção da lesão desde que o creme começou: aumentou, diminuiu ou ficou igual.
Minuto 4 — o exame que a queixa não pediu
Uma lesão de fungo na coxa obriga a examinar o resto, porque o fungo raramente está num lugar só e porque o reservatório costuma estar longe da queixa. São três gestos: pedir para tirar as duas meias, abrir com os dedos o quarto espaço interdigital dos dois pés, e olhar as dez unhas. No Erasmo, os três gestos rendem dois diagnósticos que ele não trouxe. Aproveite a mesma exposição para procurar mancha clara em tronco e braços — e, se houver, teste a sensibilidade antes de qualquer palavra.
Prescrição- Examinar os dois pés, incluindo plantas, bordas laterais e todos os espaços interdigitais.
- Examinar as vinte unhas, e não apenas a que o paciente aponta.
- Desenhar ou descrever no prontuário onde estão todas as lesões — a próxima consulta depende disso.
- Testar sensibilidade térmica e dolorosa em qualquer mancha hipocrômica encontrada.
Minuto 6 — suspender o corticoide e explicar a piora antes de ela acontecer
O tubo sai da rotina hoje, e o paciente precisa saber o que vem a seguir. Ao parar o corticoide, a inflamação represada volta e a lesão fica mais vermelha e mais pruriginosa do que está agora, por alguns dias. Quem não é avisado lê isso como prova de que o tratamento novo é pior, e volta ao tubo antigo — e aí o ciclo recomeça. A bula do cetoconazol creme antecipa esse cenário e descreve uma retirada gradual, com corticoide de menor potência pela manhã e o antifúngico à noite, retirando o corticoide ao longo de 2 a 3 semanas; este capítulo trata a escolha entre suspender de uma vez e desmamar como divergência aberta, no bloco adiante.
Prescrição- Suspender o creme com corticoide e recolher a orientação de uso do tubo do colega.
- Avisar que pode haver aumento transitório da inflamação após retirar o corticoide, sem prometer piora obrigatória; dor importante, secreção ou progressão exigem reavaliação.
- Combinar o que fazer se a coceira ficar insuportável: compressa fria e anti-histamínico, não o tubo.
Minuto 7 — a placa da coxa: tópico, e por quanto tempo de verdade
A tinha do corpo começa tópica, mesmo quando o corticoide apagou a borda: o corticoide pode modificar o aspecto e favorecer extensão ou acometimento folicular; a presença de pápulas, pústulas ou nódulos exige reavaliar profundidade e via de tratamento. O protocolo indica antifúngico azólico tópico duas vezes ao dia por 1 a 3 semanas ou até a resolução clínica, e o miconazol creme 2% é o que o SUS fornece. O ponto que decide a recidiva não é a escolha do creme: é o paciente entender que a pele fica lisa antes de o fungo acabar, e continuar aplicando depois disso.
Prescrição- Miconazol creme 2%, aplicar na lesão e em 2 cm de pele sadia ao redor, 2 vezes ao dia.
- Manter por 1 a 3 semanas e continuar por mais 1 semana depois de a lesão desaparecer.
- Escrever na receita a data em que o tratamento termina, e não só a duração em semanas.
- Reservar o antifúngico oral para o caso de falha ou de lesões extensas, na reavaliação.
Minuto 8 — o pé, que é o reservatório, e não o detalhe
Tratar a coxa e não tratar o pé é garantir a volta da coxa. A forma interdigital responde a antifúngico tópico por 1 a 4 semanas, e o creme precisa entrar no fundo do espaço interdigital, o que exige secar antes. Aqui a orientação de higiene não é conselho geral: é a parte do tratamento que impede a reinfecção do mesmo pé pelo mesmo tênis, e o próprio Caderno a escreve como medida de controle — cuidado especial ao enxugar os espaços interdigitais, tênis ao sol, pó antifúngico no calçado, chinelo no banho coletivo.
Prescrição- Miconazol creme ou pó 2% nos espaços interdigitais dos dois pés, 2 vezes ao dia, por 1 a 4 semanas.
- Secar entre os dedos com a ponta da toalha antes de aplicar, e trocar a meia sempre que suar.
- Alternar dois pares de calçado para que cada um seque 24 horas, e deixá-los ao sol.
- Se houver fissura, avisar sobre sinais de erisipela: dor, vermelhidão que sobe pela perna e febre.
Minuto 9 — a unha: a decisão que custa três meses
Distrofia ungueal tem diferenciais como trauma e psoríase. Confirme infecção fúngica antes de tratamento sistêmico prolongado, com coleta adequada e método disponível. Terapia tópica pode ser opção em acometimento limitado sem matriz, com menor eficácia e tratamento longo. Terbinafina oral é opção para onicomicose por dermatófito quando indicada; discutir benefícios, interações, doença hepática, avaliação laboratorial basal e duração por unha afetada. Não tratar a unha agora pode ser uma escolha compartilhada, mantendo cuidado dos pés e das fissuras.
Prescrição- Colher material subungueal do ponto mais proximal do acometimento, antes de qualquer antifúngico tópico.
- Explicar as três opções com honestidade: tratar 3 meses por boca, tratar só o pé e a coxa, ou não tratar a unha agora.
- Se decidir tratar: terbinafina 250 mg, 1 comprimido ao dia, por 3 meses, conferindo antes a disponibilidade na rede.
- Se considerar antifúngico tópico ungueal, selecionar casos leves e explicar duração, eficácia e acesso; ausência no elenco não é contraindicação farmacológica.
Minuto 10 — o que este paciente precisa saber sobre reinfecção
Erasmo passa doze horas por dia dentro de um tênis fechado, no calor, sobre uma moto. Enquanto isso não mudar, qualquer esquema que você escrever compra alguns meses. A conversa sobre calçado, meia e secagem não é o encerramento simpático da consulta: é a única parte do plano que atua sobre a causa. Ela precisa ser específica ao trabalho dele, e precisa caber na vida dele — orientação impossível de cumprir não é orientação.
Prescrição- Meia de algodão trocada no meio da jornada, e uma meia sobrando na mochila.
- Nunca calçar tênis ainda úmido; lavar num dia em que ele possa secar 24 horas.
- Não compartilhar toalha, chinelo nem cortador de unha em casa.
- Secar os pés por último no banho, e enxugar entre os dedos separadamente.
Minuto 12 — o atestado, o retorno e a linha que a próxima consulta vai ler
Reavalie o tornozelo pelo motivo da consulta e emita documento apenas quando clinicamente justificado, com validação do responsável. Registre as lesões cutâneas, os esquemas e o retorno. Atestado não deve ser usado como moeda de adesão. Compare atividade, extensão e execução do tratamento antes de declarar falha terapêutica.
Prescrição- Definir com o supervisor a necessidade clínica e o conteúdo do atestado após avaliar o tornozelo e a atividade profissional.
- Registrar as três lesões, os esquemas e as datas de término de cada um.
- Marcar retorno em 3 semanas para a coxa e o pé, com a orientação de trazer as embalagens.
- Anotar se o material ungueal foi colhido e onde o resultado será visto.
Como saber se está funcionando
Micose superficial dá um retorno com sinais claros, e é por isso que ela é um bom assunto para aprender a reavaliar. Cada parâmetro abaixo tem um prazo, um resultado esperado e uma conduta para quando o resultado não vem — e, em quase todos, a conduta para o fracasso não é trocar o antifúngico, e sim reabrir o diagnóstico.
Esperado: Redução progressiva. Em lesão que vinha sob corticoide, espere piora do prurido nos primeiros 3 a 5 dias após a suspensão, seguida de melhora.
Se não melhora: Prurido que aumenta depois da segunda semana, ou que se espalha para além da lesão, sugere dermatite de contato ao próprio creme. Suspenda, troque a classe do tópico e reavalie.
Esperado: Contorno recuando para dentro, com a área total menor do que a marcada na primeira consulta. A borda pode reaparecer nos primeiros dias após a retirada do corticoide, e isso é achado esperado, não falha.
Se não melhora: Placa do mesmo tamanho após 3 semanas de tópico correto não pede segundo creme: pede exame micológico e reconsideração do diagnóstico — eczema numular, psoríase, doença de Bowen. Placa que cresce apesar do antifúngico correto merece a mesma reabertura.
Esperado: Peça a embalagem. Um tubo de 30 g aplicado duas vezes ao dia numa placa de palma da mão acaba em poucas semanas; tubo quase cheio depois de três semanas é resposta sobre adesão, não sobre eficácia.
Se não melhora: Antes de escalar para oral, resolva a adesão: número de aplicações, horário, quem aplica nas costas, e se o paciente parou quando a lesão sumiu. Falha de adesão tratada como falha de fármaco produz exposição sistêmica desnecessária.
Esperado: Espaço interdigital seco, sem lâmina branca e sem fissura. É o parâmetro que mais depende de comportamento e menos de fármaco.
Se não melhora: Reveja a rotina de secagem e de calçado antes de trocar o creme. Se houver dor desproporcional, eritema subindo pela perna ou febre, a pergunta deixou de ser micose e passa a ser erisipela — assunto do capítulo de escabiose e piodermites desta apostila.
Esperado: Faixa proximal de unha normal, avançando em direção à borda livre. A unha do pé cresce devagar: o tratamento termina muito antes de a unha parecer curada, e o parâmetro é a faixa nova, não o aspecto geral.
Se não melhora: Ausência de qualquer faixa proximal sadia 3 meses após o fim do esquema oral obriga a rever o diagnóstico com exame, e não a repetir o esquema. Trauma repetido, psoríase ungueal e doença vascular produzem unha feia sem fungo.
Esperado: As manchas param de descamar e param de aumentar, mas continuam claras. A repigmentação é gradual, ao longo de meses, e o protocolo brasileiro manda avisar isso ao paciente antes de começar.
Se não melhora: Mancha ainda clara com sinal de Zileri negativo é fungo tratado, e não pede novo tratamento. Mancha ainda clara com Zileri positivo é fungo ativo. Mancha clara que perdeu sensibilidade nunca foi versicolor.
Esperado: Placa resolvida e, mais importante, causa identificada: glicemia conhecida, medicamento revisado, umidade da dobra manejada.
Se não melhora: Terceiro episódio no ano sem causa encontrada obriga a ampliar a investigação do hospedeiro, incluindo oferta de testagem para HIV, e não a prolongar o creme. A candidíase de repetição é sintoma de alguma coisa; tratá-la isoladamente é tratar o sintoma.
Onde o erro machuca
O dano: Este é o erro que batiza o capítulo, e o mais difundido do assunto na atenção primária, porque funciona: em dois ou três dias a coceira some e o paciente fica satisfeito. O que acontece por baixo é o oposto — a defesa local cai, o fungo avança, a área cresce e a borda ativa desaparece. O custo não é só o tempo perdido: é que a lesão seguinte é mais difícil de diagnosticar do que a original, porque uma pista importante à inspeção foi apagada, e no lugar dele entraram atrofia, brilho e telangiectasia, que sugerem outras doenças.
Como pegar a tempo: Faça da pergunta um automatismo, não uma decisão: toda lesão de pele começa com o senhor está passando alguma coisa aí, e de preferência com o tubo na mão. E não prescreva corticoide tópico para lesão descamativa de contorno definido antes de excluir micose — quando a dúvida entre eczema e micose for genuína, o antifúngico tópico é o teste seguro, porque errar para o lado do antifúngico não destrói o diagnóstico e errar para o lado do corticoide destrói.
O dano: São os dois lugares onde o fungo está dentro de uma estrutura de queratina que o tópico não atravessa: a lâmina ungueal e a haste do pelo. Meses de creme na unha não produzem nem melhora nem piora — produzem a conclusão errada de que a micose é resistente, e atrasam um tratamento que já é longo. No couro cabeludo o preço é maior, porque a inflamação prolongada do kerion destrói folículo e deixa alopecia cicatricial definitiva.
Como pegar a tempo: Definir tratamento pela localização e pelo conjunto clínico. Tinea capitis exige usualmente terapia sistêmica; para onicomicose, confirmar infecção e individualizar necessidade e via, considerando extensão e matriz. Tópico pode ser opção em unha com acometimento limitado e não é apenas complemento obrigatório.
O dano: A pele fica lisa antes de o fungo acabar, porque o que se vê é a inflamação e não o fungo. Parar nesse momento é a causa mais comum de recidiva em quatro a oito semanas — e a recidiva costuma ser lida, pelo paciente e pelo médico seguinte, como resistência ao antifúngico. O paciente conclui que o remédio não presta; o médico seguinte escala para oral um caso que nunca foi tratado até o fim por via tópica.
Como pegar a tempo: Prescreva por data e não por sintoma: escreva na receita o dia em que o creme termina, e diga em voz alta que ele continua por uma a duas semanas depois de a pele ficar normal. Nos esquemas orais longos, marque o retorno para a data do fim da caixa e peça que o paciente traga a embalagem.
O dano: A tinha do corpo do adulto costuma vir do próprio pé, e a da criança costuma vir do animal de casa ou de um contato escolar. Tratar só a placa visível cura a placa e garante a próxima: em poucos meses o paciente volta com uma lesão nova, em outro lugar, e a história recomeça. No caso da tinha do couro cabeludo o custo é coletivo, porque o Caderno recomenda examinar as crianças contactantes no ambiente familiar e na escola.
Como pegar a tempo: Examine sempre os dois pés e as vinte unhas de quem tem tinha do corpo, mesmo sem queixa. Em criança, pergunte por cão e gato em casa — o Caderno registra os dois como reservatório — e por outras crianças com lesão parecida. E trate todos os focos encontrados na mesma receita.
O dano: A lesão que não sara com pomada quase nunca é um fungo resistente: é outra doença. Placa eritematosa e descamativa fixa há meses em área fotoexposta ou em perna de mulher idosa pode ser carcinoma; mancha hipocrômica pode ser hanseníase; lesão pigmentada que mudou pode ser melanoma. Cada troca de antifúngico compra mais algumas semanas de atraso — e nesses três diagnósticos o atraso muda o desfecho, não só o incômodo.
Como pegar a tempo: Adote um prazo e cumpra: tratamento tópico adequado por 3 semanas sem nenhuma mudança encerra a hipótese de micose. Nesse ponto, exame micológico, teste de sensibilidade se for mancha clara, e a pergunta sobre biópsia se for placa fixa. As três armadilhas têm capítulo próprio nesta apostila: carcinomas, hanseníase e melanoma.
O dano: É o que o único documento federal brasileiro recomenda, e é a conduta que a bula atual do medicamento não sustenta. A bula profissional restringe o cetoconazol oral a micoses sistêmicas em quem falhou ou não tolerou outras terapias, abre a seção de indicações advertindo sobre risco de toxicidade hepática grave e o contraindica em doença hepática aguda ou crônica, registrando casos fatais e casos que exigiram transplante. Micose superficial não está entre as indicações — e o dano potencial é hepático, num tratamento de doença que não ameaça a vida.
Como pegar a tempo: Trate a versicolor por via tópica, que é onde o cetoconazol tem indicação em bula, inclusive na forma de xampu, que é o que a Rename fornece. Quando a versicolor precisar de via oral por ser extensa, recorrente ou refratária, o protocolo de 2023 usa fluconazol ou itraconazol, e diz explicitamente que o cetoconazol sistêmico deve ser evitado. E lembre que terbinafina oral também não serve aqui: a própria bula registra que ela não é eficaz na pitiríase versicolor.
O que dizer ao paciente e à família
As frases abaixo resolvem os seis momentos em que esta consulta costuma descarrilar. Todas partem do mesmo princípio: o paciente não fez nada errado ao usar a pomada que funcionou, e começar pela repreensão custa a adesão que o tratamento longo vai exigir.
Pedir para ver o tubo sem que a pergunta soe como acusação
“"O senhor tem aí o tubo da pomada? Se tiver, deixa eu dar uma olhada. Não é para reclamar, não — é que a pomada muda o jeito que a mancha fica, e eu preciso saber o que estou vendo."”
Não diga: Perguntar quem receitou aquilo, ou dizer que ele não devia ter usado. A informação de que você precisa é o rótulo; o julgamento fecha a conversa e o tubo some da mochila.
Explicar por que o remédio que funcionou é o problema
“"Essa pomada tem uma parte que desliga a coceira e a vermelhidão. Ela funcionou nisso, o senhor tem razão. Só que o que causa a mancha é um fungo, e essa pomada não mata fungo — ela só tira o aviso. Foi por isso que parou de coçar e mesmo assim aumentou."”
Não diga: Falar em imunossupressão local ou em resposta inflamatória. A frase útil é a que o paciente pode repetir para a esposa em casa: tirou o aviso, não tirou a causa.
Avisar que vai piorar antes de melhorar
“"Nos primeiros dias sem a pomada, a mancha vai ficar mais vermelha e vai coçar mais do que hoje. Isso é esperado, é a coceira que estava segurada voltando. Dura uns três a cinco dias. Se o senhor voltar para a pomada antiga nessa hora, a gente recomeça do zero."”
Não diga: Omitir a piora para não assustar. O paciente que não é avisado interpreta a piora como prova de que você errou — e o tubo antigo está a um metro dele, na mochila.
Quando ele diz que o problema entre os dedos é do calor e não é doença
“"É do calor, sim — o calor é o que deixa o fungo crescer aí. Só que essa casquinha entre os dedos é uma porta aberta na pele. É por ali que entra a bactéria que dá aquela perna inchada e vermelha com febre, que interna. Tratar isso agora é mais para evitar aquilo do que para tirar o incômodo."”
Não diga: Chamar de frescura ou tratar como detalhe. É o reservatório do quadro inteiro e a porta de entrada da erisipela; se ele não entender por que aquilo importa, não vai aplicar creme onde não dói.
Oferecer a decisão sobre a unha, em vez de impor três meses de comprimido
“"Para a unha, o tratamento é comprimido todo dia por três meses. Não é urgente e não é obrigatório: a unha não vai infeccionar por causa disso. Dá para tratar agora, dá para tratar depois, e dá para deixar quieto. O que muda a conta é se o senhor tiver diabetes ou se já tiver tido aquela perna inflamada. Quer pensar e me dizer no retorno?"”
Não diga: Prescrever três meses de comprimido sem oferecer a alternativa de não tratar. Adesão a esquema longo em doença que não incomoda depende de o paciente ter escolhido.
Explicar por que a mancha branca vai continuar branca depois do tratamento
“"O tratamento mata o fungo em poucas semanas, mas a cor demora bem mais. A pele vai voltar ao normal aos poucos, ao longo de meses, e pode ficar clara mesmo depois de o fungo já ter ido embora. Se em um mês parar de descamar, deu certo — mesmo que ainda esteja branca."”
Não diga: Deixar o paciente descobrir isso sozinho. Sem esse aviso, ele volta em quatro semanas convencido de que falhou e recebe um segundo tratamento que não era necessário.
Perguntar sobre glicemia numa candidíase de repetição, sem alarmar
“"Essa micose de dobra que volta várias vezes no ano costuma ter um motivo por trás. Um dos mais comuns é açúcar alto no sangue, e muita gente descobre exatamente assim. Vou pedir um exame simples de sangue — não é porque eu ache que a senhora tem, é porque é a pergunta certa quando volta tanto."”
Não diga: Pedir o exame sem explicar, ou anunciar diabetes antes do resultado. A frase que funciona diz por que a pergunta está sendo feita e mantém o exame como pergunta.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Confirmar antes, sempre que o esquema for oral e longo
Unha alterada tem várias causas sem fungo — trauma repetido, psoríase ungueal, líquen plano, onicodistrofia vascular —, e nenhum sinal clínico isolado fecha o diagnóstico. Tratar pela clínica significa expor alguém a cerca de 90 dias de antifúngico sistêmico por uma doença que não ameaça a vida e cuja queixa principal costuma ser estética. O próprio protocolo brasileiro reconhece a existência dessa confusão ao listar, entre os motivos de encaminhamento ao dermatologista, a suspeita de alteração ungueal não associada à infecção fúngica; e o mesmo protocolo prescreve fármacos diferentes conforme o agente seja dermatófito ou Candida, o que só a cultura responde.
TelessaúdeRS-UFRGS, Protocolos de Regulação Ambulatorial – Dermatologia, 2023: Protocolo 6, critérios de encaminhamento, e Quadro 18, esquemas por agente.
Tratar pela clínica, porque nenhum documento brasileiro exige o exame antes
Nenhum dos dois documentos brasileiros condiciona o início do tratamento a confirmação laboratorial. O protocolo de 2023 pede o laudo de exame confirmatório — preferencialmente, e admitindo a descrição do resultado no lugar do laudo — apenas no conteúdo mínimo do encaminhamento ao especialista, isto é, depois de o tratamento otimizado ter falhado. O Caderno de 2002 sequer descreve o exame. Numa rede em que a micologia não está disponível na atenção primária, exigir confirmação equivale, na prática, a não tratar — e a onicomicose interdigital e ungueal é fator de risco reconhecido para erisipela de repetição, que o mesmo protocolo trata como critério de encaminhamento.
Brasil, Ministério da Saúde, Cadernos de Atenção Básica n.º 9, 2002; e TelessaúdeRS-UFRGS, 2023, Protocolo 6, conteúdo descritivo mínimo do encaminhamento.
Antes de antifúngico oral prolongado para unha, buscar confirmação micológica por coleta adequada e método disponível. Diabetes ou erisipela prévia aumentam a importância do cuidado dos pés e das fissuras, mas não comprovam que a distrofia seja fúngica. Enquanto se organiza a confirmação, tratar portas de entrada e infecção bacteriana quando presentes. Se o exame não existir na rede, discutir acesso ou referência e documentar diagnóstico diferencial, benefício e risco de eventual decisão excepcional com o supervisor; indisponibilidade não transforma aparência típica em certeza. Tinea capitis inflamatória é outro cenário: colher quando viável e iniciar terapia sistêmica indicada sem aguardar o resultado.
Griseofulvina primeiro
É a escolha com a experiência pediátrica mais longa e a que os dois documentos brasileiros trazem em primeiro lugar: o Caderno de 2002 a coloca à frente da terbinafina, e o protocolo de 2023 a lista como primeira escolha ao lado dela. A forma líquida ou manipulada permite dose por peso sem partir comprimido, o que importa numa criança pequena. O preço é operacional: a griseofulvina micronizada é obtida sob manipulação, o tratamento dura de 6 a 12 semanas e a dose de 20 a 25 mg/kg/dia esbarra no teto de 1.000 mg/dia a partir de 40 kg.
TelessaúdeRS-UFRGS, 2023, Quadro 16 (tinea capitis); Brasil, Ministério da Saúde, Cadernos de Atenção Básica n.º 9, 2002, tinha do couro cabeludo.
Terbinafina primeiro
O tratamento é mais curto — 4 a 6 semanas contra 6 a 12 —, o que em criança se traduz em adesão, e o fármaco é industrializado, sem depender de farmácia de manipulação. O protocolo de 2023 a coloca como primeira escolha em igualdade com a griseofulvina, para crianças acima de 4 anos. As objeções são de execução: o comprimido registrado é de 250 mg, com a bula marcando uso adulto, de modo que a dose de 62,5 mg exige partir o comprimido em quatro; e as faixas de peso do protocolo não cobrem a criança abaixo de 10 kg.
TelessaúdeRS-UFRGS, 2023, Quadro 16; bula do paciente de cloridrato de terbinafina comprimido 250 mg, medicamento genérico.
Decida pela criança e pela farmácia, nesta ordem. Abaixo de 4 anos ou abaixo de 10 kg, o protocolo não oferece faixa de terbinafina, e a griseofulvina manipulada em suspensão resolve a dose — comece por ela. Acima disso, pergunte primeiro o que a sua rede consegue entregar por 6 a 12 semanas seguidas: um esquema de 12 semanas que a família não consegue retirar todo mês é pior do que um de 6 semanas que ela consegue. Em qualquer dos dois, registre a decisão de partir comprimido quando for o caso, e marque retorno pela data do fim da caixa e não pelo aspecto do couro cabeludo.
Suspender de uma vez e tratar só o fungo
É o que os documentos brasileiros descrevem: nem o Caderno de 2002 nem o protocolo de 2023 preveem corticoide no tratamento das dermatofitoses, e os dois prescrevem antifúngico tópico isolado como primeira linha. Manter corticoide sobre a lesão continua suprimindo a resposta local e prolonga o que causou o problema; e cada dia a mais de corticoide adiciona atrofia num campo já afinado. A piora dos primeiros dias é previsível, dura poucos dias e se maneja com compressa fria e anti-histamínico, sem devolver o corticoide.
TelessaúdeRS-UFRGS, 2023, Quadro 16; Brasil, Ministério da Saúde, Cadernos de Atenção Básica n.º 9, 2002, tinha do corpo e tinha dos pés.
Retirar gradualmente, sobrepondo o antifúngico
A bula do cetoconazol creme prevê exatamente esta situação e propõe conduta: se o produto for coadministrado com corticosteroide tópico, para prevenir o efeito rebote após a parada abrupta de um tratamento prolongado, recomenda-se continuar com um corticosteroide de menor potência pela manhã e aplicar o cetoconazol à noite, retirando gradualmente o corticoide ao longo de 2 a 3 semanas. O argumento prático é de adesão: o paciente que sente a piora sem estar preparado costuma abandonar o esquema novo e voltar ao tubo antigo, e nesse cenário o desmame controlado é o que mantém o tratamento de pé.
Bula profissional do cetoconazol creme 2%, seção de advertências e precauções, versão V.01_06/2018.
Pese o tempo de uso e o que você espera do paciente. Uso curto, de dias a poucas semanas, em lesão pequena: suspenda de uma vez, avise da piora e marque retorno curto. Uso prolongado, de muitas semanas, em área extensa ou em dobra, e em paciente que já demonstrou que volta ao tubo antigo quando piora: o desmame descrito na bula é uma opção defensável, com prazo escrito e sem renovação. Em qualquer dos dois caminhos, a decisão que não muda é a retirada da associação com corticoide da rotina — o que se discute é quanto tempo leva, não se acontece.
O raciocínio, em voz alta
Kaique Veiga tem 7 anos e chega à unidade básica numa quinta-feira de manhã, trazido pela mãe, dona Feliciana, que já entra falando: a escola mandou um bilhete dizendo que ele não pode voltar sem atestado. Há três semanas apareceu uma falha de cabelo do lado direito da cabeça, do tamanho de uma moeda, com casquinha. Há cinco dias a área inchou, ficou dolorida e começou a sair pus. Ele passou por um pronto-atendimento no sábado, recebeu cefalexina por sete dias e está no quinto dia do antibiótico. A mãe diz que não melhorou nada e que agora dói ao pentear. Ao exame: massa elevada de cerca de 4 cm no couro cabeludo parietal direito, dolorosa à palpação, com pústulas e saída de secreção purulenta pelos óstios foliculares, cabelos frouxos na área e alguns quebrados rente ao couro. Há gânglios cervicais posteriores palpáveis do mesmo lado. Sem febre. Em casa há um gato que chegou há dois meses. A irmã de 4 anos tem uma placa descamativa no braço.
o que penso antes de perguntar qualquer coisa
Massa purulenta no couro cabeludo de criança com cabelo quebrado dentro da área e linfonodo satélite é kerion até prova em contrário — a forma inflamatória da tinha do couro cabeludo, que o Caderno de Atenção Básica descreve como intensa reação inflamatória com formação de pústulas e microabscessos. O antibiótico não melhorou porque a doença não é bacteriana, e o pus não é sinal de bactéria: é a resposta inflamatória ao fungo. Duas coisas já mudaram a conduta antes de qualquer exame: a idade — o Caderno registra que a tinha do couro cabeludo é rara no adulto e acomete principalmente as crianças — e o cabelo quebrado rente, que é tonsura e separa de alopecia areata, em que a área fica lisa.
o que pergunto, e por quê
Há quanto tempo é a falha de cabelo, e há quanto tempo é o inchaço — porque a sequência falha primeiro, inflamação depois é a história do kerion, e o inverso sugere outra coisa. Quando o gato chegou e se ele tem falha de pelo, porque o Caderno registra cães e gatos como reservatório. Se outras crianças da casa ou da turma têm lesão parecida — e a irmã de 4 anos com placa no braço já respondeu. Se alguém passou alguma pomada. E se a criança tem alguma doença ou usa algum remédio contínuo.
o que examino, além da cabeça
O couro cabeludo inteiro, procurando outras placas menores; a pele do tronco e dos membros dele; e, na mesma consulta, a irmã de 4 anos, cuja placa no braço é provavelmente a mesma doença em pele glabra. Palpo as cadeias cervicais posteriores e retroauriculares dos dois lados. E olho o gato, se ele estiver por perto — falha de pelo em animal doméstico fecha a cadeia de transmissão e obriga a orientar tratamento veterinário.
o exame que peço, e o que faço enquanto ele não volta
Colho material para exame micológico direto e cultura, dos cotos de cabelo e da escama da borda da placa, antes de qualquer antifúngico tópico — porque o tratamento que vem a seguir dura de 6 a 12 semanas e vale ter o agente identificado. Mas não espero o resultado para começar: o quadro é típico, o tratamento é longo, e cada semana de inflamação do kerion custa folículo. Se a micologia não estiver disponível na rede, registro isso no prontuário e trato pelo quadro clínico.
por que não é tópico, e o que suspendo
O tratamento da tinha do couro cabeludo é sempre com antifúngico oral, sem ressalva no protocolo brasileiro de 2023 — o fungo está dentro da haste do pelo e do folículo, onde creme não chega. Suspendo a cefalexina, porque não há infecção bacteriana a tratar e porque manter o antibiótico sustenta a hipótese errada na cabeça da família. Antifúngico tópico e xampu entram apenas como medida complementar, para reduzir a dispersão de esporos, e não como tratamento.
o esquema que prescrevo, com a conta feita
Kaique pesa 24 kg. Pelo protocolo de 2023, griseofulvina micronizada 20 a 25 mg/kg/dia dão 480 a 600 mg/dia, bem abaixo do teto de 1.000 mg, por 6 a 12 semanas — mas ela depende de manipulação e não está na Rename. Terbinafina, também primeira escolha acima de 4 anos, seria 125 mg/dia na faixa de 20 a 40 kg, por 4 a 6 semanas: meio comprimido de 250 mg, que é a única apresentação registrada e cuja bula marca uso adulto. Antes de escolher, ligo para a farmácia da unidade. O que decide não é preferência teórica: é o que a família consegue retirar toda semana durante um a três meses.
o que faço com o kerion em si
Não drenar. Não é abscesso, e a incisão não encurta nada — acrescenta cicatriz num couro cabeludo que já está em risco de alopecia definitiva. O Caderno indica, para o kerion, compressas de permanganato de potássio a 1:40.000 associadas à griseofulvina oral; a Rename fornece permanganato de potássio em comprimido e em pó para uso tópico. As compressas ajudam a remover crosta e secreção; quem trata é o comprimido.
o que digo à escola, à mãe e à irmã
O atestado sai, e diz que a criança pode frequentar a escola com a lesão coberta e sob tratamento — afastamento prolongado não está previsto em nenhum dos documentos, e o Caderno registra apenas que a doença não é de notificação compulsória e recomenda exame das crianças contactantes no ambiente familiar e na escola. A irmã de 4 anos com placa no braço é atendida hoje, com miconazol creme 2%. À mãe: não compartilhar pente, escova, boné, travesseiro nem toalha; o gato precisa de veterinário; e o cabelo volta a crescer se o tratamento for completo — mas onde houve inflamação prolongada pode ficar falha definitiva, e é por isso que não se para no meio.
Faça você
Dona Ormezinda Sacramento tem 58 anos, é cozinheira de um restaurante popular e chega à unidade básica numa segunda-feira de manhã com o que ela chama de assadura embaixo do peito. É a quarta vez em treze meses: nas três anteriores recebeu creme, melhorou em duas semanas e voltou. Traz na bolsa três receitas antigas e um tubo de creme com dois princípios ativos — um antifúngico e um corticoide de média potência. Ao exame, sob as duas mamas: placa eritematosa vermelho-viva, úmida, com o fundo da prega macerado e uma fissura linear à direita, e, na periferia, algumas pápulas e pústulas destacadas do contorno principal. A mesma coisa, menor, nas duas virilhas. Os pés estão íntegros, sem descamação e sem alteração de unha. Ela pesa 92 kg e mede 1,58 m; a última aferição de pressão no prontuário, de dez meses atrás, foi 148 por 92, sem seguimento. Não há glicemia registrada em nenhum atendimento. Ela conta que anda cansada, que urina muito à noite e que atribui isso à idade. Nenhuma das três consultas anteriores pediu exame.
1. Nomeie a lesão e diga qual achado a separa de uma dermatofitose
Descreva o que você vê em termos de cor, umidade, contorno e periferia. Qual é o achado único que decide entre levedura e dermatófito nessa localização, e por que a ausência de centro claro pesa na mesma direção?
2. Liste os fatores predisponentes que o protocolo brasileiro manda procurar
O protocolo de 2023 abre o tratamento do intertrigo por Candida mandando avaliar e tratar fatores predisponentes, e nomeia cinco. Quais são, e quais deles estão visíveis ou sugeridos nesta vinheta? Repare que um deles está dentro da bolsa dela.
3. Decida o que pedir de exame hoje, e justifique cada pedido
Você tem três sintomas somados a um quadro de repetição: cansaço, noctúria e a quarta candidíase de dobra em treze meses. O que isso obriga a pedir, e o que seria pedido excessivo? Diga também o que você faria se o exame voltasse normal.
4. Escreva a prescrição da pele, com fármaco, forma, frequência e duração
Use o que a Rename 2024 fornece. Diga o que fazer com o tubo que ela trouxe, e escreva a instrução sobre a umidade da dobra com a mesma precisão com que escreveria uma dose.
5. Diga em que condição esta paciente passaria a precisar de tratamento oral
E, se precisar, qual seria o esquema para adulto segundo o protocolo de 2023, e quantas cápsulas isso significa na apresentação que o SUS fornece.
6. Escreva as três linhas do prontuário que evitam a quinta recidiva
O que precisa estar registrado hoje para que a próxima consulta não recomece do zero, como recomeçou três vezes?
Ver como fecharíamos
1. É candidíase cutânea de dobras — intertrigo candidiásico — em região inframamária e inguinal. O achado que decide é a presença de lesões satélites: pápulas e pústulas destacadas fora do contorno principal, que o Caderno de Atenção Básica descreve como lesões eritemato-vésico-pustulosas na periferia. Dermatófito cresce em anel, com borda ativa e centro que clareia; levedura produz placa homogênea, vermelho-viva e úmida, sem centro claro, com maceração no fundo da prega. A ausência de centro claro e a presença de satélites apontam para o mesmo lado. 2. O protocolo do TelessaúdeRS de 2023 nomeia cinco fatores predisponentes do intertrigo por Candida: diabetes tipo 2, hiperidrose, incontinência urinária, uso de corticoides tópicos e uso de medicamentos imunossupressores. Nesta vinheta há indícios de pelo menos três: hiperidrose e atrito favorecidos pelo peso, pelo trabalho em cozinha quente e pela dobra inframamária ampla; uso de corticoide tópico, que está dentro da bolsa dela na forma do creme combinado das receitas anteriores; e suspeita forte de diabetes, apoiada em cansaço, noctúria e recorrência. O Caderno de 2002 acrescenta ao mapa o diabetes melito, o uso de antibiótico de amplo espectro e a imunodeficiência, e registra a imersão frequente em água como fator para candidíase de unha e paroníquia — relevante numa cozinheira. 3. Glicemia de jejum e hemoglobina glicada hoje: candidíase de dobra recorrente em adulto pode ser a primeira manifestação de um diabetes ainda não diagnosticado, e os três sintomas somados tornam o pedido obrigatório, não opcional. Junto: aferição de pressão em duas medidas, porque há uma pressão de 148 por 92 sem seguimento há dez meses. Revisão completa da lista de medicamentos, atrás de corticoide e de antibiótico recente. Não é excessivo oferecer testagem para HIV, sobretudo se houver candidíase oral associada — mas seria excessivo pedir cultura de fungo da pele, que não muda a conduta tópica, ou hemograma e função tireoidiana sem sintoma que os justifique. Se a glicemia voltar normal, o quadro continua sendo candidíase de dobra por umidade e atrito somados a corticoide tópico, e o plano de manejo da dobra passa a ser o eixo do tratamento — com a glicemia repetida se os sintomas persistirem. 4. Miconazol creme 2%, que é o que a Rename 2024 fornece, aplicado nas lesões duas vezes ao dia até a melhora clínica completa, cerca de 2 a 4 semanas, conforme o protocolo de 2023. O tubo que ela trouxe sai de uso hoje: o corticoide da fórmula é um dos cinco fatores predisponentes que o próprio protocolo manda retirar, e mantê-lo perpetua o quadro que ele alivia. A instrução sobre a dobra tem de ser tão concreta quanto a dose — secar a prega com a ponta da toalha ou com secador no ar frio depois do banho, manter uma faixa de algodão limpa sob a mama e trocá-la quando umedecer, usar sutiã com sustentação que separe a dobra, e evitar talco perfumado, que empelota e aumenta o atrito. 5. Passaria a precisar de oral se houvesse falha do tratamento tópico bem feito ou apresentação extensa. O esquema para adulto no protocolo de 2023 é fluconazol 150 mg por semana ou itraconazol 200 mg duas vezes ao dia, por 2 a 6 semanas. Na apresentação da Rename, o fluconazol de 150 mg corresponde a uma cápsula por semana; o itraconazol de 400 mg por dia corresponde a quatro cápsulas de 100 mg por dia, isto é, 56 cápsulas em duas semanas e até 168 em seis. Vale registrar que o protocolo contraindica o itraconazol com sinvastatina e em insuficiência cardíaca — informação que só aparece se a lista de medicamentos dela tiver sido revista. 6. Primeira linha: onde estão todas as lesões e que esta é a quarta recidiva em treze meses, com as datas. Segunda: que o creme com corticoide foi suspenso, e por quê — sem isso o próximo médico represcreve. Terceira: que a investigação de diabetes foi solicitada nesta data, com o resultado a ser visto no retorno marcado, e que a pressão de 148 por 92 de dez meses atrás está pendente de confirmação. As três linhas transformam a quinta consulta de recomeço em seguimento.
Máculas no tronco e ombros com descamação fina provocada pelo estiramento e sensibilidade preservada favorecem pitiríase versicolor. Tratar com antifúngico tópico e explicar que a recuperação da cor pode demorar, mesmo após controle da infecção. O conjunto permite diagnóstico clínico; exame micológico pode ajudar se houver dúvida. Sensibilidade normal isoladamente não substitui avaliação dermatoneurológica quando outros achados levantam suspeita de hanseníase. Não há indicação de poliquimioterapia ou biópsia apenas por hipocromia. Terbinafina oral não é opção eficaz para pitiríase versicolor, embora formulações tópicas possam funcionar.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Sem consultar o texto, apresente o caso principal em um minuto. Explique: Escolher tratamento pelo agente provável, local e extensão; reconhecer tinha modificada por corticoide, acometimento capilar e diagnóstico diferencial ungueal. Justifique a primeira conduta e indique um achado que mudaria o destino do paciente.
Em 30 dias
Resolva novamente o caso para completar. Compare hipótese, diferenciais, gravidade, plano e seguimento com o gabarito. Acrescente uma mudança de contexto — comorbidade, piora, gestação, barreira de acesso ou baixa adesão — e explique como adaptaria a decisão com o supervisor.
Agora atenda
Você atende como interno numa unidade básica de bairro, com a preceptora na sala ao lado. Entra um entregador de aplicativo de 34 anos que veio buscar atestado por uma torção de tornozelo. Enquanto ele mostra o pé, aparece na coxa direita uma placa avermelhada de contorno mal definido, que ele trata há cinco semanas com uma pomada que um colega deu — parou de coçar em três dias e a mancha aumentou. Conduza a consulta: descubra o que tem no tubo, examine o que a queixa não pediu, decida a via de tratamento para cada lesão que encontrar, e explique a ele por que o creme que funcionou é justamente o problema — sem transformar isso em repreensão.
