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Outras EspecialidadesDermatologia

Quem mais dorme nessa cama

Escabiose, pediculose e infecções bacterianas cutâneas (impetigo, erisipela)

As dermatoses que menos dependem do exame e mais dependem do que se decide sobre o convívio: como se reconhece escabiose no adulto, no lactente e no idoso; por que tratar contatos e roupa de cama é prescrição e não conselho; a escabiose crostosa, que é outra doença e é surto; a pediculose com a mesma lógica; o que separa impetigo, erisipela e celulite à beira do leito; por que a erisipela de repetição exige procurar a porta de entrada — e o que decide internação.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Departamento de Atenção Básica. Área Técnica de Dermatologia Sanitária. Dermatologia na Atenção Básica de Saúde. 1. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2002. 142 p. (Cadernos de Atenção Básica, n. 9; Série A. Normas e Manuais Técnicos, n. 174). ISBN 85-334-0510-3.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 252 p. ISBN 978-65-5993-710-3.

Goiás. Secretaria de Estado da Saúde. Centro de Informações Estratégicas e Resposta em Vigilância em Saúde. Nota Técnica nº 1/2025/SES/CIEVS-21843 — Orientações sobre surtos de escabiose. Goiânia: SES-GO, 2025. Processo nº 202400010073944, documento SEI 70069165.

Porto Alegre. Secretaria Municipal de Saúde. Diretoria de Atenção Primária. Protocolo de Enfermagem na Atenção Primária à Saúde: Prevenção e Tratamento de Feridas. Porto Alegre: SMS-POA, 2024.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Protocolos de Acesso Ambulatorial: Consultas Especializadas — Hospitais Federais no Rio de Janeiro. Brasília: Ministério da Saúde, 2015.

01

Responda antes de ler

Mulher de 29 anos procura a unidade básica por prurido generalizado há um mês, que poupa a face e piora de madrugada a ponto de acordá-la. Ao exame há escoriações e pápulas em espaços interdigitais, face anterior dos punhos, região periumbilical e sulco interglúteo. O filho de 6 anos, atendido na mesma manhã, tem lesões com crosta amarelada na face e na perna. Moram seis pessoas na casa e nenhuma das outras quatro compareceu. Qual é a conduta que mais reduz a chance de recidiva?

02

O paciente que você vai ver

Sete e quarenta de uma terça-feira. A unidade fica onde o asfalto acaba, três quadras depois do ponto final do ônibus. Dezesseis nomes marcados na agenda da manhã, mais cinco encaixes que a recepção fechou antes das sete. Quem atende hoje é você: a médica da equipe saiu para a reunião mensal do distrito e só volta ao meio-dia, e a enfermeira Vergínia ficou com a sala ao lado e com o telefone.

Antes da primeira ficha, Vergínia empilha três pastas na sua mesa e larga, de passagem, uma observação que soa a arrumação de agenda e é hipótese: “essas três são a mesma coisa, você vai ver”. Depois sai, porque a sala de vacina abriu.

A primeira é de Wandeson Terto, 6 anos, 21 quilos. O motivo anotado na recepção é “brotoeja que não sara”. Ele entra na frente da mãe, senta na maca sem esperar, e não precisa tirar a camisa para você ver: há quatro lesões no queixo e no canto da boca, duas delas com uma crosta amarelada, grossa, cor de mel seco, e outras três na perna direita, uma delas escoriada. A mãe diz que começou há duas semanas com uma bolha, que estourou, e que desde então aparecem outras. Ela passou uma pomada que tinha em casa. Ele coça, mas ela não sabe dizer se coça mais de noite, porque ele dorme com os irmãos e ninguém repara.

A segunda pasta é da mãe. Neuzila Terto, 29 anos, auxiliar de cozinha numa creche do bairro. O motivo anotado é “alergia”. Ela senta e começa contando do filho, não dela — e é você quem tem de trazê-la de volta. Quando volta, a história é curta e muito específica: coça há um mês, coça em todo lugar menos na cara, e coça de um jeito que não deixa dormir. Ela diz “de madrugada eu acordo me coçando”, e diz isso como quem pede desculpa. Trocou o sabão em pó. Não adiantou.

A terceira pasta é de Iracildo Milani, 62 anos, 88 quilos, feirante. Ele descarrega caixa de peixe na madrugada de terça e de sexta e passa o dia em bota de borracha. A ficha diz “perna inchada e vermelha”. Ele já esteve aqui por isso: no prontuário há três episódios em dois anos, todos na mesma perna, todos tratados, todos resolvidos. É o quarto. Ele chega com a perna direita vermelha desde o tornozelo até a metade da panturrilha, quente, dolorida, com uma borda que dá para desenhar — e com 38,4 de temperatura axilar aferida na recepção. Ele veio andando.

Enquanto você lê a terceira pasta, o telefone da sala toca. É a enfermeira da instituição de longa permanência que fica a seis quadras, a mesma que manda pacientes para esta unidade desde sempre. Ela liga por causa da dona Maurília Cerqueira, 81 anos, acamada, que está com “a pele descamando muito, o corpo todo”, sem febre, e que não se queixa de nada. A enfermeira menciona, quase de passagem, no fim da ligação, que duas cuidadoras estão coçando as mãos há umas três semanas e acharam que era do produto de limpeza.

São quatro pessoas e, se você contar as duas cuidadoras, seis. Elas chegaram por quatro portas diferentes, com quatro queixas diferentes, e nenhuma delas disse a palavra que junta tudo. A ficha do Wandeson diz brotoeja. A da Neuzila diz alergia. A do Iracildo diz perna inchada. O telefonema diz pele descamando. Nenhuma diz sarna, nenhuma diz piolho, nenhuma diz infecção.

A tentação, com dezesseis nomes na agenda e cinco encaixes, é resolver cada uma no seu quadrado: pomada para o menino, anti-histamínico para a mãe, antibiótico para o feirante, e para a instituição um pedido de avaliação dermatológica. As quatro condutas são defensáveis isoladamente. As quatro, juntas, garantem que essas mesmas pessoas voltem — o menino em três semanas, a mãe em quatro, o feirante em cinco meses, e a instituição com mais casos do que hoje.

Este capítulo é sobre a diferença entre tratar o paciente e tratar o problema. As dermatoses daqui são as que menos dependem do exame e as que mais dependem do que se decide sobre o convívio: quem mais dorme naquela cama, quem mais lava aquela roupa, quem mais divide aquele quarto, e por onde a bactéria entrou da última vez. Em nenhuma delas o laboratório vai te salvar. Em todas, o que separa a cura do retorno cabe numa receita — desde que a receita não seja escrita só para quem está sentado na sua frente.

Nas quatro histórias há também uma quinta coisa, que é o motivo de elas estarem no mesmo capítulo do Internato e não em quatro capítulos separados: a decisão que importa não é qual pomada, é o que se faz fora do consultório. E há uma sexta, que aparece só no fim: entre essas quatro pessoas, uma pode precisar de internação hoje, e não é a que está mais vermelha.

Você tem quarenta minutos até o próximo encaixe. Comece pelo que junta.

03

Quem adoece disso

A primeira coisa a saber sobre a epidemiologia destas doenças no Brasil é que ela é, em boa medida, invisível — e isso não é descuido de quem escreve, é consequência de uma decisão normativa. Escabiose, pediculose, impetigo, ectima e erisipela não são de notificação compulsória. O Caderno de Atenção Básica nº 9 diz isso caso a caso, com a mesma frase repetida no verbete de cada uma: não é doença de notificação compulsória. Sem notificação individual não há série histórica, não há incidência nacional e não há denominador. O que existe é o atendimento, que ninguém soma.

A segunda coisa é uma ausência, e é ela que constitui o achado. Não existe Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Ministério da Saúde para escabiose, nem para pediculose, nem para impetigo, nem para erisipela. Na listagem oficial de protocolos por letra, os que começam com E são endometriose, epidermólise bolhosa, epilepsia, esclerose lateral amiotrófica, esclerose múltipla, esclerose sistêmica, espasticidade, espondilite anquilosante, esquizofrenia e estratégias para atenuar a progressão da doença renal crônica. Escabiose não está. Erisipela não está. Nenhuma das cinco doenças deste capítulo tem protocolo federal.

A terceira: também não estão no Guia de Vigilância em Saúde. No volume 2 da edição de 2024, as poucas ocorrências desses radicais são todas de passagem, como diagnóstico diferencial de outra coisa — escabiose aparece na lista de diferenciais da sífilis congênita tardia e da oncocercose; impetigo aparece entre os diferenciais infecciosos da esporotricose; piodermite aparece como complicação do calazar. Nenhuma delas tem capítulo próprio, o que é coerente: o Guia organiza doenças sob vigilância, e estas não estão.

O que sobra como régua brasileira, então, é um documento de 2002: o Caderno de Atenção Básica nº 9, Dermatologia na Atenção Básica de Saúde, do Ministério da Saúde. Ele é de primeira edição, tem 142 páginas e nunca teve segunda. Não há errata nem retificação publicadas, não há ato de revogação, e não há substituto federal. A vigência dele, portanto, apoia-se em parte por ausência de substituto — e esse é o mais fraco dos argumentos possíveis, coisa que quem lê precisa saber para calibrar a confiança no resto.

Mas há um segundo teste, e esse é forte. Em janeiro de 2025, a Secretaria de Estado da Saúde de Goiás publicou uma nota técnica sobre surtos de escabiose, assinada por quatro autoridades e processada pelo sistema eletrônico do estado. Nas referências dela, o primeiro item é o Caderno de Atenção Básica nº 9. Um documento de 2025 cita um de 2002 como a régua em uso: é assim que se prova que uma norma velha continua governando conduta. Ela não está esquecida num arquivo — ela está sendo copiada.

E é copiada com fidelidade suficiente para carregar os defeitos junto, o que você vai ver na seção de critérios. A nota de 2025 corrige uma coisa importante do documento de 2002 e reproduz, letra por letra, uma tabela de doses cujo desenho tem vinte e três anos e dois buracos aritméticos. Esse é o motivo prático de o capítulo do Internato passar tempo em auditoria de fonte: o que você vai encontrar impresso na parede da unidade descende dessa linhagem.

Sobre magnitude, o que dá para dizer com honestidade é qualitativo, e vem do próprio Caderno e da nota goiana. A escabiose ocorre sob a forma de surtos em comunidades fechadas — asilos, instituições de longa permanência, quartéis, presídios, escolas, creches — e em grupos familiares, especialmente onde coexistem superlotação e acesso limitado ao tratamento. A pediculose faz surtos em escolas, creches e ambientes confinados. O impetigo incide mais no verão e ocorre de forma esporádica ou em pequenas epidemias familiares. A erisipela é universal, sem predileção etária, e tem fatores de risco declarados: doença vascular, doenças debilitantes, má nutrição, uso de drogas e álcool, trauma.

Repare no que essas quatro frases têm em comum. Nenhuma delas descreve um indivíduo: todas descrevem um arranjo de pessoas. Comunidade fechada, grupo familiar, sala de aula, condição vascular somada a trabalho em pé. É a epidemiologia dizendo, antes da clínica, o que a conduta vai ter de fazer.

A definição operacional de surto de escabiose que a nota goiana adota é a mais útil disponível em documento brasileiro, e vale decorar porque muda o que você faz num telefonema como o da dona Maurília: dois ou mais casos com vínculo epidemiológico em instituição fechada, ou em indivíduos institucionalizados. Dois. Também conta como surto o aumento de casos acima do esperado no município, e, se não houver registro anterior para comparar, a nota manda monitorar os atendimentos por semana epidemiológica até que o esperado exista.

E aqui aparece a única porta de notificação destas doenças: o surto. O caso isolado não se notifica, mas o surto se notifica — comunicação imediata à vigilância epidemiológica municipal, que informa a regional e o centro estadual de informações estratégicas; preenchimento do relatório de investigação de surto; registro no sistema de notificação de agravos, na ficha de surto, sob o código B86. A nota registra ainda um detalhe operacional que costuma travar tudo na prática: o município precisa pedir à regional a habilitação daquele código para conseguir digitar a ficha.

Duas coisas que este capítulo não vai fazer, e é melhor dizer antes. A epidemiologia da glomerulonefrite que segue ao impetigo não é daqui: ela é do capítulo “O que mata aqui não é a creatinina”, da apostila de Nefrologia Pediátrica, que trata da glomerulonefrite difusa aguda pós-estreptocócica e que, por sua vez, mandou o manejo do impetigo para cá. E a epidemiologia da febre reumática, que é a outra sequela do estreptococo, é do capítulo de febre reumática e cardiopatia reumática crônica, na apostila de Cardiologia. Aqui a sequela entra como razão para tratar, e para com isso.

04

Por que acontece o que acontece

O Sarcoptes scabiei é um ácaro que não voa, não salta e não sobrevive muito tempo longe de um hospedeiro. Toda a epidemiologia da escabiose sai dessa limitação física. A fêmea fecundada penetra o estrato córneo — o Caderno de 2002 diz que ela atravessa a pele em cerca de dois minutos e meio — e passa o resto da vida escavando um túnel horizontal, onde vai depositando os ovos. Três a quatro dias depois eclodem as larvas; elas sobem à superfície, cavam bolsas rasas, amadurecem e acasalam, e o ciclo inteiro leva de quatro a seis semanas. Numa escabiose comum, o número total de ácaros adultos vivendo numa pessoa é pequeno: da ordem de uma dezena. Guarde esse número, porque é dele que sai quase tudo o que vem adiante — a transmissão exigir contato demorado e pele a pele; o fômite contar pouco na forma comum; o raspado dar negativo com frequência; e a forma crostosa, onde o número explode, comportar-se como outra doença.

O prurido não é do ácaro; é do sistema imune reagindo a ele, aos ovos e às fezes depositados no túnel. Isso tem três consequências que decidem conduta. A primeira: na infestação inicial, o prurido só aparece quando a sensibilização se estabelece — quatro a seis semanas depois, diz a nota de 2025 — e nesse intervalo a pessoa transmite sem sintoma nenhum. É por isso que se trata quem não coça. A segunda: numa reinfestação, em quem já foi sensibilizado, a coceira volta em dias, não em semanas. A terceira: como a reação é a ácaro morto tanto quanto a vivo, o prurido persiste por duas a quatro semanas depois da cura parasitológica — e quem não sabe disso reaplica escabicida achando que falhou.

Essa terceira consequência é a origem de um dano frequente e evitável, e o Caderno de 2002 o nomeia com todas as letras: evitar a iatrogenia utilizando o escabicida repetidas vezes. Ele fixa dois prazos que separam falha de reinfestação e de prurido residual: sinais e sintomas ainda presentes após duas semanas contam como fracasso terapêutico; sintomas que reaparecem depois de quatro semanas contam como reinfestação. Entre um e outro está a coceira que não é nem uma coisa nem outra, e que se trata com anti-histamínico e explicação, não com mais veneno.

A piora noturna, que é o dado semiológico mais citado da escabiose, tem no documento brasileiro uma explicação de cronobiologia do parasita: a noite é o período de reprodução e deposição de ovos. Convém dizer ao aluno que essa é a explicação que o Caderno oferece, e que a pele humana também fica mais quente e mais pruriginosa à noite por conta própria. Para a decisão clínica o mecanismo importa menos do que o padrão: a queixa que acorda a pessoa de madrugada é diferente da queixa que incomoda durante o dia, e a primeira pesa mais.

Quarto pequeno ao amanhecer, com uma cama de casal desarrumada, duas almofadas lado a lado, uma camiseta infantil dobrada no canto do colchão e um colchão menor no chão ao lado.
O ácaro não voa e não salta: ele passa pelo contato demorado, pele a pele, e pelo tecido que duas pessoas dividem. É por isso que a cama, a roupa e as pessoas do quarto entram na prescrição, e não no conselho.

A escabiose crostosa — que os documentos brasileiros ainda chamam de sarna norueguesa — não é uma escabiose grave: é outra doença, e tratá-la com a cabeça da escabiose comum é o erro que abre surto. Ela acontece quando a resposta imune não contém a multiplicação do ácaro, e a carga parasitária deixa de ser uma dezena e passa a ser milhares. O Caderno de 2002 descreve as lesões como crostas espessas ou dermatite generalizada com intensa descamação, registra que é grande a quantidade de parasitos, e afirma que esses doentes são altamente infectantes.

Três coisas mudam junto com o número. Primeira: o prurido pode ser pequeno ou não existir — o documento diz isso explicitamente ao descrever a forma em idosos —, de modo que o sinal que você usa para suspeitar de escabiose comum desaparece justamente onde ela é mais transmissível. Segunda: com milhares de ácaros descamando junto com a crosta, o fômite passa a contar, e por isso o mesmo documento manda lavar com água quente todos os fômites desses pacientes, o que não pede para a forma comum. Terceira: o contato deixa de precisar ser demorado — segurar um braço para dar banho basta —, e é por isso que quem adoece em volta são as cuidadoras.

Do lado bacteriano, o mecanismo relevante é a divisão de trabalho entre dois germes e a profundidade que cada quadro alcança. O impetigo é infecção da epiderme por Staphylococcus aureus e Streptococcus pyogenes, isolados ou associados; o ectima é a mesma infecção que atravessou para a derme e por isso ulcera e pode deixar cicatriz; a erisipela compromete a derme superficial e os vasos linfáticos, o que lhe dá a borda elevada e nítida; a celulite desce ao subcutâneo, e por isso a borda se perde. A profundidade não é curiosidade anatômica: é o que você lê na borda com o olho, e é o que decide a via do antibiótico. O reservatório do estafilococo, por sua vez, é a própria pessoa, e o Caderno registra o número que explica a recidiva: 20 a 30% da população geral é portadora de estafilococo coagulase-positivo nas narinas, e as mãos são o meio mais importante de transmitir a infecção. Uma criança com impetigo tratado que continua colonizada e continua levando a mão da narina para a lesão faz o quadro voltar sem que ninguém tenha errado o antibiótico.

Por fim, o mecanismo que fecha o capítulo e que é o motivo de a erisipela estar aqui: ela precisa de uma porta. A bactéria não atravessa pele íntegra. Alguma coisa abriu — uma fissura entre os dedos, uma úlcera, um calcanhar rachado, uma picada coçada, uma micose interdigital macerada. O protocolo municipal de feridas de Porto Alegre, de 2024, lista entre os fatores que aumentam a probabilidade de erisipela justamente a presença de lesões fúngicas, principalmente interdigitais, e orienta a inspecionar a pele dos membros inferiores e a secar entre os dedos dos pés. Quem trata o episódio e não fecha a porta combinou o próximo episódio.

05

Como se apresenta de verdade

Objetivos práticos no internato. Separar infestação de infecção bacteriana; tratar contatos quando indicado, selecionar via e duração e reconhecer infecção profunda. O interno colhe e apresenta os dados, propõe o plano e executa atividades sob supervisão; prescrições, procedimentos e documentos são validados pelo profissional responsável. Estude o caso acompanhando o que cada achado muda na decisão, não apenas decorando critérios.

As cinco doenças deste capítulo se reconhecem com a pele exposta, luz razoável e uma pergunta bem-feita sobre a casa. Nenhuma delas tem um exame que decida, e quatro delas se confundem entre si e com coisas piores. O que segue é organizado pelo que muda a conduta, não pela taxonomia.

A ordem também não é acadêmica: começa pela que você mais vai deixar passar, e termina pela que mais mata.

Escabiose no adulto: a distribuição e a hora do dia

A escabiose do adulto tem uma assinatura topográfica que o Caderno de Atenção Básica nº 9 descreve com precisão, e que vale mais do que a morfologia das lesões: regiões interdigitais, face anterior dos punhos, prega anterior das axilas, região periumbilical, sulco interglúteo e genitália externa masculina. A nota goiana de 2025 acrescenta cotovelos, cintura, coxas, mamas e as nádegas. O que essas áreas têm em comum é serem dobras, e o que elas não incluem, no adulto, é a cabeça.

As lesões elementares são vesículas, pápulas e pequenos sulcos — o túnel — e, na prática de uma unidade lotada, o que você vai ver não é nada disso: vai ver escoriação, crosta de coçadura e liquenificação, porque o paciente chega depois de semanas se coçando. Procurar o túnel é bom, achar o túnel é ótimo, e não achar não afasta.

A queixa tem uma forma característica e é ela que carrega o diagnóstico: prurido intenso, generalizado, caracteristicamente maior à noite. Quando o paciente descreve acordar de madrugada se coçando, você está com um dado forte na mão. Quando ele descreve coceira que incomoda de dia e some à noite, você está com outro problema.

O segundo dado forte não está no corpo do paciente: está na casa. O Caderno diz, em uma frase que vale a consulta inteira, que a escabiose raramente vem como caso isolado. Pergunte quem mais coça e pergunte com nome: o marido, os filhos, quem dorme na mesma cama, quem dividiu o quarto no último mês. Um segundo coçador na mesma casa transforma uma suspeita razoável em diagnóstico de trabalho.

O período de incubação declarado é largo — de um dia a seis semanas —, e a razão da largura é a diferença entre primoinfestação e reinfestação, discutida no mecanismo. Na prática isso significa que a pergunta “desde quando?” não te ajuda a datar o contágio, mas a pergunta “já teve isso antes?” ajuda a prever a velocidade.

Os diferenciais que mais custam são o estrófulo — o prurigo por picada de inseto, que o próprio Caderno lista como diferencial recíproco —, a dermatite atópica em crise, a dermatite de contato e a xerose do idoso. Os três primeiros não respeitam a topografia das dobras; a xerose não acorda ninguém de madrugada; e nenhum dos quatro costuma vir com um segundo caso na mesma casa.

O que muda no lactente e o que muda no idoso

Nos dois extremos da vida a escabiose muda de aparência, e nos dois ela é subdiagnosticada — por motivos opostos.

No lactente, a regra topográfica do adulto se quebra. O Caderno é explícito: em crianças e idosos as lesões podem ocorrer também no couro cabeludo, nas palmas e nas plantas. Um bebê com pústulas e vesículas palmoplantares, nódulos no tronco e lesões no couro cabeludo não está fora do quadro: está dentro dele. Se você aplicar a regra “escabiose não pega a cabeça” num lactente, você erra por definição.

E o lactente não tem queixa. Ele não diz que coça: ele fica irritado, mama mal, dorme mal, acorda chorando. A queixa que chega à consulta é da mãe — “ele não dorme” — e o achado que fecha, frequentemente, é a própria mãe coçando enquanto conta. Examine o cuidador. É a manobra de maior rendimento diagnóstico deste capítulo e não custa nada.

A infecção secundária pela coçadura é a complicação comum nessa idade, e é o motivo de o lactente com escabiose chegar frequentemente com impetigo por cima. Quando os dois estão juntos, os dois se tratam; tratar só o impetigo deixa a causa da coçadura no lugar, e tratar só a escabiose deixa a bactéria.

No idoso, o problema é o inverso: o prurido diminui ou desaparece. O Caderno registra isso ao descrever a forma crostosa e diz que ela pode ocorrer também em idosos, nos quais o prurido é menor ou não existe. O que sobra é pele seca, descamação e crosta — três coisas que todo mundo atribui à idade, ao banho quente e ao sabonete. É assim que um idoso institucionalizado passa meses com escabiose sendo tratado com hidratante.

A consequência prática é uma regra de baixo custo: em idoso acamado ou institucionalizado com descamação generalizada que não melhora com emoliente, escabiose entra na lista mesmo sem prurido — e, se ele vive em instituição, entra junto a pergunta sobre quem cuida dele.

Escabiose crostosa: é outra doença, e é um surto

A escabiose crostosa merece uma seção própria porque se você a enxergar como “escabiose mais feia” vai tomar as decisões erradas em três frentes: dose, isolamento e busca de casos.

O quadro é de crostas espessas, aderentes, sobre placas eritematosas ou sobre pele difusamente descamativa, com acometimento que pode incluir couro cabeludo, mãos e pés, unhas espessadas, e uma descamação que suja o lençol. O Caderno descreve lesões que formam crostas espessas ou dermatite generalizada com intensa descamação. E o dado que mais confunde: o prurido pode ser leve ou ausente.

O terreno é imunodepressão em sentido amplo — o documento fala em pacientes imunocomprometidos e acrescenta o idoso —, e na prática brasileira isso significa idoso institucionalizado, pessoa com infecção pelo vírus da imunodeficiência humana, uso prolongado de corticoide, quimioterapia, desnutrição grave e limitação motora que impede a pessoa de se coçar.

A consequência epidemiológica é imediata e é o que você faz com o telefonema da dona Maurília: um caso de escabiose crostosa numa instituição de longa permanência ou numa enfermaria não é um caso, é a explicação de vários. O Caderno manda, para o paciente hospitalizado, isolamento a fim de evitar surtos em enfermarias, tanto para outros doentes quanto para profissionais de saúde, e diz que isso vale especialmente para a forma crostosa. Se duas cuidadoras estão coçando, o critério de surto da nota de 2025 — dois ou mais casos com vínculo epidemiológico em instituição — já está preenchido antes de você chegar lá.

Qual precaução, com qual equipamento, por quanto tempo e como se tira a luva sem se contaminar é assunto do capítulo “As mãos que circulam entre os leitos”, da apostila de Comunicação, Ética e Segurança na Prática, que cobre higienização das mãos e precauções por via de transmissão — inclusive a razão de a escabiose exigir água e sabão em vez de álcool. Aqui fica a decisão clínica que antecede a precaução: quem se trata, quando, e todos ao mesmo tempo.

Pediculose: três parasitas, três casas diferentes

O Caderno separa a pediculose em duas entradas e a ftiríase numa terceira, e a separação é útil porque cada uma vive num lugar diferente e por isso se trata num lugar diferente.

A pediculose do couro cabeludo, pelo Pediculus humanus capitis, dá prurido intenso principalmente nas regiões retroauricular e occipital, com lêndeas aderidas à haste do cabelo — grãos brancos que não deslizam quando você puxa, ao contrário da caspa, que desliza. O parasita vive na cabeça. A complicação é a piodermite do couro cabeludo pela coçadura, e é comum a criança chegar com linfonodo cervical e occipital palpável, que assusta mais do que devia.

A pediculose do corpo, pelo Pediculus humanus corporis, é outra história inteiramente. As lesões são pápulo-urticariformes e hemorrágicas no tronco, no abdome e nas nádegas, com escoriação, liquenificação e hipercromia — o Caderno registra a designação antiga e cruel de “doença do vagabundo”. O ponto clínico é este: esse piolho vive na roupa, não no corpo, e vai ao corpo para se alimentar. Trocar e lavar a roupa não é medida coadjuvante: é o tratamento. E como a condição que a produz é a impossibilidade de trocar de roupa, ela é um sinal de vulnerabilidade social tanto quanto um diagnóstico.

A ftiríase, pelo Phthirus pubis, acomete os pelos pubianos e se transmite geralmente por contato sexual. O Caderno registra que pode ocorrer na região ciliar de crianças por contaminação de adultos infectados. Fica declarado aqui que o documento não qualifica essa contaminação; a avaliação de maus-tratos e de violência sexual na infância, quando ela se impõe, é do capítulo “Violência e maus-tratos infantis”, da apostila de Emergências Pediátricas, e não deste.

Os piolhos sobrevivem até dez dias nos utensílios do hospedeiro, segundo o próprio Caderno, e o período de transmissibilidade dura enquanto houver piolhos vivos na pessoa ou nos fômites. Esses dois números são o argumento para tratar a casa e não só a cabeça, e para repetir a aplicação em sete dias: o ovo não morre com o mesmo tratamento que mata o adulto.

Impetigo e ectima: a crosta cor de mel e a que fica

O impetigo é a piodermite mais comum da infância e tem duas formas que se distinguem à inspeção. No impetigo bolhoso, vesículas e bolhas surgem em pele normal, sem eritema ao redor, no tronco, na face, nas mãos, em áreas intertriginosas, no tornozelo e no dorso dos pés, nas coxas e nas nádegas; o conteúdo dessseca e deixa a crosta amarelada característica. O Caderno traz uma comparação que o aluno guarda: a lesão inicial é muitas vezes referida como se fosse uma bolha de queimadura de cigarro.

No impetigo não bolhoso, o começo é eritematoso, seguem-se vesículas e pústulas que se rompem rápido e deixam áreas erosadas com a crosta cor de mel. Localiza-se preferencialmente na face, nos braços, nas pernas e nas nádegas, e é comum haver lesões satélites por autoinoculação — o mecanismo que explica por que a lesão do queixo do Wandeson virou quatro.

Quando o impetigo não é tratado e envolve a derme, ele vira ectima: úlcera superficial que forma crosta seca, dura e aderente, preferencialmente nas pernas e nos pés, com duração de semanas ou meses, que pode curar deixando cicatriz. A diferença prática entre os dois cabe numa manobra: a crosta do impetigo sai com água morna e compressa; a do ectima está grudada e o que há embaixo é uma úlcera, não uma erosão.

O Caderno usa “piodermite” como sinonímia de ectima. Registro que essa equivalência é imprecisa — piodermite é o nome do grupo, que inclui impetigo, ectima, foliculite, furúnculo, erisipela e celulite — e que ler a sinonímia ao pé da letra confunde. Essa é leitura minha, não do documento.

As complicações declaradas do impetigo são glomerulonefrite e septicemia. A glomerulonefrite difusa aguda pós-estreptocócica — quando suspeitar, o que pedir, o que a hipertensão e a oligúria significam nessa criança — é do capítulo “O que mata aqui não é a creatinina”, da apostila de Nefrologia Pediátrica, que declara, do lado dele, que o manejo do impetigo pertence à Dermatologia. O que fica deste lado é o que fazer com a pele, e a informação que aquele capítulo pede emprestada daqui: a data. Anote no prontuário quando a lesão apareceu.

O diferencial que mais importa é herpes simples — que vem em buquê de vesículas agrupadas sobre base eritematosa, com ardor mais que prurido e história de recorrência no mesmo lugar — e a queimadura, sobretudo quando a lesão é única, arredondada e a história não fecha. O Caderno lista os dois. A queimadura de cigarro na criança abre outra porta, e essa porta é do capítulo de violência e maus-tratos infantis.

Erisipela, celulite e o que não é nenhuma das duas

Erisipela e celulite são a mesma família com profundidades diferentes, e é a profundidade que você lê na borda. A erisipela compromete a derme superficial e os linfáticos: a placa é vermelho-vivo, quente, dolorosa, elevada, com borda bem delimitada — você consegue apoiar a caneta e desenhar por onde ela passa. A celulite desce ao subcutâneo: o eritema é mais fosco, o edema domina, e a borda se dissolve — você não sabe onde parar a caneta.

A febre também separa. O protocolo de feridas de Porto Alegre, de 2024, descreve na erisipela febre repentina e elevada, entre 38,5 e 40 graus, com calafrios, mal-estar e náuseas, e uma placa eritematosa vermelho-viva, única, de bordas bem delimitadas e definidas, geralmente num dos membros inferiores. Na celulite a febre costuma vir depois e mais baixa. O mesmo protocolo separa ainda a forma bolhosa da erisipela, com bolhas volumosas não purulentas, e a forma com ulceração superficial.

Do lado do germe, a regra prática é que a erisipela é predominantemente estreptocócica e a celulite tem maior participação do estafilococo, sobretudo quando há pus, abscesso ou porta de entrada traumática visível. Isso muda escolha de antibiótico, e a escolha vem na conduta.

Existe um sinal que decide muita coisa e que ninguém ensina: erisipela e celulite verdadeiras são quase sempre unilaterais. Quando as duas pernas estão vermelhas ao mesmo tempo, com a mesma cara, a hipótese mais provável não é infecção bilateral simultânea — é dermatite de estase, lipodermatoesclerose, eczema de contato ou insuficiência venosa descompensada. Registro que essa formulação é leitura minha; os documentos brasileiros deste capítulo descrevem a lesão como única e num dos membros, mas não enunciam a regra do bilateral.

Os diferenciais que precisam ser nomeados, com o endereço de quem os trata: trombose venosa profunda, do capítulo de trombose venosa profunda, na apostila de Cirurgia Vascular, que traz o escore de Wells; gota, do capítulo “O cristal não absolve”, na apostila de Reumatologia; artrite séptica, do capítulo de monoartrite aguda e artrite séptica, da mesma apostila. O Caderno de 2002 lembra ainda o erisipeloide, que surge em ponto de inoculação após manuseio de carne de peixe ou de porco contaminada — o que, no caso do Iracildo, não é uma curiosidade.

E a que mata. A fasciíte necrosante tem capítulo próprio — infecções necrosantes de partes moles, na apostila de Urgência e Emergência Cirúrgica —, que conduz a sala, o antimicrobiano e a primeira hora. Este capítulo fica com o reconhecimento a partir da erisipela: dor desproporcional ao que se vê, dor que vira anestesia ou hipoestesia na área central, bolhas hemorrágicas, equimose, necrose cutânea, crepitação, toxemia, e progressão que se mede em horas — a borda avança enquanto você observa. A decisão que ela exige é exploração cirúrgica, não antibiótico melhor — e o roteiro dessa decisão está no capítulo de infecções necrosantes de partes moles, na apostila de Urgência e Emergência Cirúrgica. O que o interno precisa saber é a hora de chamá-lo e não esperar a próxima dose.

06

Como fechar o diagnóstico

Todas as cinco doenças deste capítulo têm diagnóstico clínico e epidemiológico — é a expressão que o Caderno de Atenção Básica nº 9 repete verbete a verbete. Isso não significa que não haja exame nenhum a pedir: significa que nenhum exame confirma o suficiente para valer a espera, e que o exame entra por outras razões, quase sempre para avaliar gravidade ou para procurar o que abriu a porta.

Vale registrar o que o próprio Ministério da Saúde escreve quando organiza o encaminhamento dessas condições. Nos Protocolos de Acesso Ambulatorial dos hospitais federais do Rio de Janeiro, de 2015, a linha de cuidado “piodermites — erisipela, abscessos, carbúnculo” tem, no campo de exames complementares sugeridos, a resposta “não há”. Um documento federal declarando que não há exame a pedir antes de encaminhar é a confirmação institucional do que a clínica já diz.

O que confirma escabiose, e por que o negativo não serve

O Caderno admite dois caminhos: clínico e/ou visualização do ácaro à microscopia, pelo raspado ou pela biópsia de pele. Na prática de uma unidade básica, o segundo não existe — e mesmo onde existe, ele é assimétrico: encontrar o ácaro, o ovo ou o cíbalo fecha o diagnóstico; não encontrar não afasta nada.

A razão é aritmética e vem do mecanismo. Se a escabiose comum tem da ordem de uma dezena de ácaros num corpo inteiro, a chance de o seu raspado cair sobre um deles é baixa. Um exame com sensibilidade ruim e especificidade excelente serve para confirmar e não serve para excluir. Pedi-lo e depois tratar mesmo com resultado negativo é coerente; pedi-lo e deixar de tratar por causa do negativo é erro de lógica.

Onde o raspado ganha valor é justamente na forma crostosa, pelo motivo oposto: com milhares de parasitas na crosta, o rendimento é alto. Se a instituição tem acesso ao exame, é no caso da dona Maurília que ele vale a pena — e vale não para tratá-la, que se trata de qualquer jeito, mas para sustentar a notificação de surto e a mobilização da instituição inteira, que é uma decisão cara e que a gestão vai querer justificada.

A prova terapêutica é a ferramenta real, e ela tem prazo. O Caderno fixa: considerar fracasso terapêutico a presença de sinais e sintomas após duas semanas; se os sintomas reaparecerem após quatro semanas, considerar reinfestação. Quem trata sem marcar essas duas datas no prontuário não vai conseguir interpretar o retorno.

Impetigo, ectima e a cultura que quase nunca entra

O diagnóstico do impetigo é clínico e epidemiológico, e a cultura da lesão não faz parte da rotina — nem no documento brasileiro nem na prática. Ela entra em situações específicas: falha do tratamento adequado, quadro extenso ou recorrente, imunossupressão, e suspeita de germe resistente num serviço que tenha esse problema documentado.

Há, porém, uma indicação de cultura que o Caderno traz e que quase ninguém executa, e ela é interessante porque revela a lógica do controle: em caso de epidemia, principalmente em creches, realizar cultura dos contactantes para identificação dos portadores assintomáticos em cavidade nasal, para tratamento com mupirocina. É a mesma lógica de tratar o convívio, aplicada à bactéria — e, como você vai ver na tabela de disponibilidade, é uma recomendação que hoje esbarra no elenco.

No ectima, o valor do exame é outro: as úlceras que duram semanas ou meses nas pernas de um adulto merecem que você pense em leishmaniose tegumentar americana, que o próprio Caderno lista como diferencial, e em úlcera de perna vascular. Aí o exame deixa de ser da bactéria e passa a ser da úlcera.

Uma pergunta que rende mais do que qualquer exame: há quanto tempo, e o que já se passou por cima. Impetigo tratado com corticoide tópico piora e muda de cara; impetigo tratado com antisséptico caseiro pode ter virado dermatite de contato por cima da infecção; e ferida que “não sara há meses” em adulto exposto ao sol muda de capítulo — carcinoma espinocelular é do capítulo “As duas lesões que passam pela sala sem serem vistas”, nesta mesma apostila.

Erisipela e celulite: o que pedir é para medir gravidade, não para confirmar

A erisipela se diagnostica com a perna à mostra. Hemograma, proteína C reativa e velocidade de hemossedimentação não confirmam e não afastam — sobem em infecção e sobem em muita outra coisa. Eles têm uma utilidade real, que é servir de linha de base para comparar em 48 e 72 horas quando você não tem certeza da resposta.

A hemocultura tem rendimento baixo em celulite não complicada e não deve atrasar o antibiótico. Ela ganha sentido quando há sinais sistêmicos importantes, imunossupressão, suspeita de mordedura, imersão em água ou quadro grave — e, nesse caso, o pacote que se aplica não é o deste capítulo: é o do capítulo “Sepse: reconhecer e tratar na primeira hora”, da apostila de Medicina Intensiva e Emergências, e ele tem hora marcada.

A função e a glicemia entram por outro motivo: mudam dose e mudam prognóstico. Ajuste em disfunção renal é do capítulo de ajuste de dose na disfunção renal e hepática, na apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado; hiperglicemia no internado é do capítulo de hiperglicemia hospitalar, da mesma apostila. Aqui só se registra que diabetes descompensado transforma uma celulite de enfermaria numa celulite de decisão difícil.

A imagem tem duas indicações honestas e uma armadilha. As honestas: ultrassonografia de partes moles quando você suspeita de coleção que precisa ser drenada, e ultrassonografia com Doppler venoso quando a dúvida com trombose venosa profunda não se resolve pela clínica — decisão que o escore de Wells organiza, e o escore é do capítulo de trombose venosa profunda, na apostila de Cirurgia Vascular. A armadilha: imagem normal não exclui fasciíte necrosante, e nenhum exame deve atrasar a exploração cirúrgica quando a suspeita é forte.

A investigação que muda tudo: procurar a porta de entrada

Numa erisipela, a parte da investigação que mais muda o futuro do paciente não é laboratorial e leva dois minutos: tirar a bota, tirar a meia e olhar entre os dedos.

O protocolo de feridas de Porto Alegre lista, entre os fatores que aumentam a probabilidade de erisipela, diabetes, obesidade, doença arterial obstrutiva periférica, linfedema crônico e a presença de lesões fúngicas, principalmente interdigitais — e orienta que se oriente sempre o paciente a inspecionar a pele dos membros inferiores e a secar entre os dedos dos pés, observando a presença de lesões fúngicas. É uma recomendação de enfermagem de um documento municipal, e é a formulação brasileira mais direta do princípio deste capítulo.

A lista do que procurar, na ordem em que compensa: espaço interdigital macerado ou fissurado; unha distrófica; calcanhar rachado; úlcera de qualquer origem; ponto de trauma recente, inclusive picada coçada; e, em quem trabalha molhado ou calçado fechado o dia inteiro, o pé inteiro. No caso do Iracildo, que passa a madrugada de bota de borracha descarregando peixe, a probabilidade de haver micose interdigital é alta antes de você olhar.

O diagnóstico e o tratamento da micose superficial em si — como se distingue de eczema disidrótico, quando o exame micológico direto vale a pena, qual antifúngico, por quanto tempo — pertencem ao capítulo “A borda que a pomada apagou”, de micoses superficiais, nesta mesma apostila. Este capítulo usa a micose interdigital como porta de entrada da erisipela e cede o diagnóstico dela.

Há uma segunda porta que não fica no pé: o linfedema. A erisipela lesa linfáticos, o linfedema resultante predispõe à próxima erisipela, e a próxima piora o linfedema. É um circuito, e é o motivo de a profilaxia prolongada existir. O Caderno registra a saída do lado da drenagem — quando houver edema residual, orientar o uso de meias elásticas — e o protocolo de Porto Alegre registra a contrapartida, que é uma trava importante: em casos de celulite e processo inflamatório intenso a compressão não está indicada. Compressão é para depois do fogo apagar, não durante.

A investigação do convívio: como se pergunta, e o que se registra

Esta é a parte da investigação que não tem código de procedimento e que decide o resultado. Ela tem três perguntas.

A primeira: quem mais. “Quem mais coça na sua casa?” não é a mesma pergunta que “alguém mais coça?”. A segunda aceita “acho que não” como resposta; a primeira obriga a percorrer as pessoas. Peça nomes e idades, e escreva no prontuário. Você vai precisar do número para escrever a receita.

A segunda: onde se dorme. Quantos cômodos, quantas camas, quem divide qual. Uma casa de seis pessoas com dois quartos e três camas tem uma logística de tratamento diferente de uma casa de seis pessoas com quatro quartos, e a diferença aparece no dia em que você marca o tratamento simultâneo.

A terceira: o que dá para fazer. Tem máquina de lavar? Tem água quente? Tem tanque? Tem onde secar? Quem trabalha em turno e não estará em casa naquela noite? Essas perguntas parecem assistência social e são farmacologia aplicada: um esquema que a família não consegue executar tem eficácia zero, independentemente do que diz o ensaio clínico.

Nas instituições, as três perguntas mudam de nome mas não de natureza: quantos residentes, quantos cuidadores, quantos turnos, quem entra em contato com quem, quem lava a roupa de quem, e quem já está coçando entre a equipe. A nota goiana de 2025 acrescenta uma quarta que costuma ser esquecida e que tem consequência jurídica e epidemiológica: não transferir o paciente sem notificar o estabelecimento que vai recebê-lo sobre o diagnóstico. Transferir um caso crostoso sem avisar é exportar o surto.

Registre tudo isso no prontuário em texto corrido, com nomes e números. É esse registro que sustenta a receita para seis pessoas quando a farmácia perguntar, e é ele que permite, no retorno, distinguir falha de tratamento de falha de execução — que são coisas diferentes e pedem condutas opostas.

O que não pedir

Vale uma lista curta do que não tem indicação e consome consulta, porque no ambulatório lotado o exame desnecessário custa a próxima consulta de outra pessoa.

Não peça exame para confirmar escabiose antes de tratar uma suspeita clínica razoável com casos na casa: o tratamento é barato, disponível e de baixo risco, e a espera perpetua a transmissão. Não peça cultura de rotina de impetigo simples. Não peça hemograma para decidir se uma erisipela típica em paciente sem comorbidade e sem sinal sistêmico é ou não erisipela. Não peça radiografia de partes moles em busca de gás como triagem de fasciíte: a ausência de gás não afasta, e o tempo gasto é o que falta na sala cirúrgica.

E não peça sorologia nenhuma para pediculose. A pergunta útil na pediculose é quantas cabeças existem na casa e quando foi a última vez que cada uma foi olhada com pente fino sob luz.

07

Da porta à receita: como se decide, e o que a conferência das fontes mostrou

O fluxo abaixo vale para as cinco doenças porque a decisão é sempre a mesma em três tempos: reconhecer o quadro, decidir a extensão do tratamento — que quase nunca é só o paciente — e decidir onde ele dorme hoje. Depois das tabelas vêm as notas de auditoria: as contas dos documentos oficiais, as que fecham e as que não fecham, cada uma com a conta explícita.

  1. 11. Exponha a pele. Não decida nada de escabiose, pediculose ou piodermite com o paciente vestido; e não decida erisipela sem tirar a meia.
  2. 22. Separe prurido de infecção. Se a queixa dominante é coceira que piora de madrugada, comece pelo eixo da escabiose; se é lesão que apareceu e cresceu, comece pelo eixo bacteriano. Os dois coexistem com frequência.
  3. 33. No eixo do prurido, olhe as dobras no adulto e acrescente couro cabeludo, palmas e plantas na criança e no idoso.
  4. 44. Pergunte quem mais coça, com nome e idade. A resposta muda o tamanho da receita.
  5. 55. Se o paciente é idoso institucionalizado ou imunodeprimido, com descamação difusa e pouco ou nenhum prurido, pense em escabiose crostosa — e trate o achado como surto até prova em contrário.
  6. 66. Na cabeça, procure lêndea aderida sob boa luz; no tronco de quem não troca de roupa, procure pápula urticariforme e escoriação, e lembre que o parasita vive na roupa.
  7. 77. No eixo bacteriano, decida a profundidade pela lesão: crosta cor de mel sobre erosão é impetigo; úlcera com crosta aderente é ectima; placa quente de borda nítida é erisipela; edema com borda que se perde é celulite.
  8. 88. Antes de qualquer antibiótico, procure a porta de entrada. Entre os dedos, primeiro.
  9. 99. Marque a borda com caneta e escreva a hora ao lado da marca. É o único parâmetro de resposta que não depende de laboratório.
  10. 1010. Procure ativamente os sinais de fasciíte necrosante. Se estiverem lá, saia do fluxo e chame o cirurgião.
  11. 1111. Decida a extensão do tratamento: o paciente, os contatos domiciliares, os contatos institucionais, e as roupas e fômites. Nas parasitoses, todos ao mesmo tempo.
  12. 1212. Escreva a receita para o número de pessoas que você contou, não para a pessoa sentada na sua frente.
  13. 1313. Escreva as medidas não farmacológicas na mesma folha da receita, com temperatura, tempo e prazo: água quente, ferro, saco plástico por sete dias, afastamento de 24 horas depois do tratamento eficaz.
  14. 1414. Decida onde este paciente dorme hoje, usando a tabela de internação — e conte, entre os critérios, a impossibilidade de executar o tratamento em casa.
  15. 1515. Marque o retorno com data, e marque também as duas datas que separam fracasso de reinfestação: duas semanas e quatro semanas.
  16. 1616. Se houver instituição envolvida, comunique a vigilância epidemiológica municipal no mesmo dia e avise o estabelecimento de destino antes de qualquer transferência.

O que separa os cinco quadros com o paciente na frente

QuadroA queixa, na boca do pacienteO que se vêA pergunta do convívio que fechaO que decide a conduta
Escabiose comumCoceira que piora de madrugada e não deixa dormir; começou há semanasPápulas, vesículas e sulcos em dobras: interdigitais, punhos, axilas, umbigo, sulco interglúteo, genitália; muita escoriação por cima; poupa a cabeça no adultoQuem mais coça na casa, com nome e idadeTratar o caso e todos os contatos no mesmo dia; roupa e cama junto
Escabiose crostosaFrequentemente nenhuma — quem chama é o cuidador, por causa da descamaçãoCrostas espessas e aderentes, descamação intensa e difusa, unhas espessadas, couro cabeludo e extremidades; prurido leve ou ausenteQuantos residentes e quantos cuidadores; quem da equipe está coçandoIsolamento, notificação de surto e tratamento de toda a coorte exposta, não só do caso
PediculoseCoceira na cabeça, principalmente atrás da orelha e na nuca; ou coceira no tronco em quem não troca de roupaLêndeas aderidas à haste, que não deslizam; escoriação occipital; linfonodo cervical; no corpo, pápulas urticariformes e hemorrágicas no troncoQuantas cabeças na casa e na sala de aula; quem dorme juntoCapitis trata-se a cabeça; corporis trata-se a roupa, porque é nela que o parasita vive
Impetigo e ectimaFerida que criou casquinha e vai aparecendo em outros lugaresCrosta cor de mel sobre erosão, com lesões satélites; ou bolha em pele sem eritema ao redor; no ectima, úlcera com crosta seca e aderente nas pernasQuem mais tem feridinha em casa ou na creche; quem coça e leva a mão ao narizHigiene das mãos e das crostas, antibiótico conforme extensão, e a data da lesão anotada para o rim
ErisipelaComeçou de repente, com febre e calafrio, e a perna ficou vermelha e quente em horasPlaca vermelho-viva, quente, dolorosa, elevada, de borda nítida que dá para desenhar; unilateral; febre altaO que abriu a pele: micose entre os dedos, úlcera, fissura, trauma — e se já houve episódio anteriorAntibiótico, repouso com o membro elevado, e fechar a porta de entrada; recorrência pede profilaxia
CeluliteFoi ficando vermelho e inchado; a febre veio depois, se veioEritema mais fosco, edema dominante, borda mal definida; pode haver pus, abscesso ou porta traumática visívelTrauma, mordedura, injeção, ferida, imersão em água — e comorbidadeCobrir estafilococo, drenar o que for coleção, e reavaliar a decisão de via oral em 48 a 72 horas
Fasciíte necrosante (o que não pode passar)A dor é muito pior do que parece; depois a área central fica dormenteDor desproporcional, bolhas hemorrágicas, equimose, necrose, crepitação, toxemia, progressão em horasNão é pergunta de convívio: é pergunta de relógio — de quanto em quanto tempo a marca avançouCirurgia. Antibiótico não substitui exploração, e exame normal não afasta

Ivermectina na escabiose: a escala de peso brasileira contra os 200 mcg/kg que ela própria declara

Faixa de pesoComprimidos de 6 mgDose (mg)mcg/kg no extremo mais levemcg/kg no extremo mais pesadoO que a conta mostra
15 a 24 kgmeio3200,0 (a 15 kg)125,0 (a 24 kg)É a única faixa que acerta o alvo no piso e despenca até 37,5% abaixo dele no teto — a faixa das crianças é a pior calibrada da tabela
25 a 35 kgum6240,0 (a 25 kg)171,4 (a 35 kg)Acerta 200 no meio da faixa, aos 30 kg; sobra 20% embaixo e falta 14% em cima
36 a 50 kgum e meio9250,0 (a 36 kg)180,0 (a 50 kg)Acerta 200 aos 45 kg; a sobra no extremo leve chega a 25%
51 a 65 kgdois12235,3 (a 51 kg)184,6 (a 65 kg)Acerta 200 aos 60 kg; o teto de 65 kg é o ponto de sobreposição com a faixa seguinte
65 a 79 kgdois e meio15230,8 (a 65 kg)189,9 (a 79 kg)Começa em 65, que a faixa anterior já havia fechado: quem pesa exatamente 65 kg tem duas respostas na mesma tabela, 12 mg ou 15 mg
80 kg ou maistrês18225,0 (a 80 kg)cai à medida que o peso sobeSem teto declarado: aos 120 kg a mesma dose entrega 150 mcg/kg; e entre 79 e 80 kg não existe faixa nenhuma

Tratamentos citados e apresentações na Rename 2024

Fármaco ou insumoO que o documento brasileiro pedeO que consta da Rename 2024Consequência na hora de escrever a receita
PermetrinaCreme a 5% para escabiose (CAB 9 e nota goiana de 2025) e xampu a 1% para pediculose (CAB 9)Loção 1% (10 mg/g; 10 mg/mL) e loção 5% (50 mg/g; 50 mg/mL), Componente Básico, código P03AC04A forma farmacêutica pedida não existe no elenco; o que a unidade tem é loção. Prescreva pela loção e diga como aplicar, senão a receita volta da farmácia
IvermectinaComprimido, dose única pela escala de peso, repetida após uma semanaComprimido de 6 mg, Componente Básico, código P02CF01Disponível e compatível; a escala é que precisa de cuidado, e a nota de 2025 acrescenta a contraindicação em gestante e abaixo de 15 kg, que o documento de 2002 não trazia
Benzoato de benzilaNão é prescrito pelo CAB 9 nem pela nota goiana, mas é o escabicida que mais aparece na prática e em material didáticoZero ocorrências — não consta do elencoNão há o que prescrever pelo SUS; se for usado, é compra do paciente, e isso precisa ser dito na consulta
DeltametrinaLoções e xampus na escabiose e xampu a 0,02% na pediculose (CAB 9 e nota goiana)Zero ocorrências — não consta do elencoRecomendação vigente que a farmácia básica não pode atender
Enxofre a 10% em petrolatoOpção para gestantes e crianças abaixo de dois anos (CAB 9 e nota goiana)Zero ocorrências, e o veículo também não: nem enxofre, nem vaselina, nem petrolato constamJustamente o grupo mais frágil fica sem a alternativa que o documento reservou para ele
Antibiótico tópico para impetigoPomada de neomicina, mupirocina ou gentamicina (CAB 9); e mupirocina nasal nos portadores assintomáticos em crecheNenhum dos três como dermatológico. Mupirocina: zero. Gentamicina: só pomada e solução oftálmicas. Neomicina: só em associação otológica e oftálmica. Em todo o grupo D da Rename não há antibiótico tópico cutâneoO passo tópico do tratamento oficial do impetigo não tem produto correspondente no elenco nacional; sobram a limpeza e o antibiótico sistêmico
Cefalexina30 a 50 mg/kg/dia, de 6 em 6 horas (impetigo, ectima e erisipela)Cápsula 500 mg, comprimido 500 mg e suspensão oral 50 mg/mL, Componente Básico, J01DB01, classificação AcessoCompatível na criança: 20 kg a 30 mg/kg/dia dão 150 mg por tomada, ou 3 mL da suspensão; a 50 mg/kg/dia, 250 mg, ou 5 mL
AmoxicilinaNão é prescrita pelo CAB 9 para nenhuma das piodermites deste capítulo — só para doença de LymeCápsula 500 mg, comprimido 500 mg e suspensão oral 50 mg/mL, Componente Básico, J01CA04, AcessoEstá disponível, mas nenhum documento brasileiro deste tema a indica aqui; usá-la é escolha do prescritor, e vale saber que ela não cobre estafilococo produtor de betalactamase
Penicilina benzatinaProfilaxia de erisipela recorrente: indicação, dose, intervalo e duração individualizados após controle dos fatores de risco; conferir protocolo e alergias.600.000 UI e 1.200.000 UI, pó e suspensão injetável, Componente Básico, J01CE08, AcessoOs dois esquemas são executáveis com o elenco, mas não são equivalentes entre si — a conta está nas notas
Penicilina procaína400.000 UI de 12 em 12 horas por dez dias na erisipela (CAB 9)Só a associação: benzilpenicilina procaína + benzilpenicilina potássica, 300.000 UI + 100.000 UI, Componente Básico, J01CE30, Acesso. Não há procaína isoladaA dose pedida é ambígua contra o frasco disponível — 400.000 UI é o total do frasco, mas só 300.000 UI são de procaína
Estolato de eritromicina40 mg/kg/dia no impetigo; 30 a 50 mg/kg/dia no ectima e na erisipela do alérgico (CAB 9)Comprimido 500 mg e suspensões de 25 mg/mL e 50 mg/mL, Componente Básico, J01FA01, classificação AWaRe AlertaDisponível, mas é antimicrobiano de vigilância na classificação de acesso; e as duas taxas do mesmo documento diferem em 1,67 vez para a mesma criança
Permanganato de potássioSolução a 1:40.000 para remoção de crostas no impetigo e no ectima (CAB 9)Comprimido para uso tópico de 100 mg e pó de 100 mg, Componente Básico, D08AX06Disponível, mas a diluição precisa ser escrita: um comprimido de 100 mg rende quatro litros, e quem dissolver em um litro entrega uma solução quatro vezes mais concentrada

O que decide internação — e o que decide só cuidado ambulatorial vigiado

SituaçãoPor que pesaO que fazer antes de decidir
Sinais sistêmicos de gravidade: hipotensão, taquipneia, confusão, oligúriaDeixou de ser infecção de pele e passou a ser sepse; o relógio muda de escalaAplicar o pacote da primeira hora, que é do capítulo de sepse e choque séptico, na apostila de Medicina Intensiva e Emergências, e internar
Dor desproporcional, bolhas hemorrágicas, necrose, crepitação, progressão em horasSuspeita de fasciíte necrosante — a única deste capítulo em que a demora se mede em vidasChamar o cirurgião agora; não pedir exame para confirmar antes de chamar; marcar a borda com hora
Incapacidade de tomar medicação por via oral, vômitos, ou não retenção do que tomaA via oral é a premissa de todo o tratamento ambulatorialConsiderar dose parenteral inicial e reavaliar; internação se não houver retaguarda
Falha do esquema oral adequado após 48 a 72 horas de uso corretoOu o germe não é o presumido, ou há coleção, ou o diagnóstico está erradoReexaminar procurando coleção, revisar o diagnóstico diferencial inteiro, e só então trocar o antibiótico
Comorbidade que muda o terreno: diabetes descompensado, imunossupressão, doença arterial periférica, linfedema, cirrose, uso de imunobiológicoMuda a velocidade da progressão e a chance de complicaçãoBaixar o limiar; se mantiver ambulatorial, encurtar o retorno para 24 a 48 horas
Face, região periorbitária, mão e períneoLocalizações em que a complicação é desproporcional à extensãoDiscutir com o especialista da região antes de mandar para casa
Extremos de idade: lactente e idoso frágilReserva menor, apresentação atípica, e febre que pode não existirAvaliar hidratação, aceitação e quem cuida em casa
Não há quem execute o tratamento em casa, ou não há como retornar em 48 horasUm esquema correto que ninguém aplica tem eficácia zero — e isso é dado clínico, não socialNomear a limitação em voz alta, acionar a equipe da unidade e o agente comunitário, e considerar internação por impossibilidade de tratamento ambulatorial

A unidade da ivermectina está errada no documento que governa o tema no Brasil, e o erro é de fator mil. O Caderno de Atenção Básica nº 9 escreve, dentro do mesmo parêntese em que dá a escala de peso, “ou 200 mg/kg”. A dose correta da ivermectina é 200 microgramas por quilo. Num adulto de 70 quilos, a leitura literal dá 200 × 70 = 14.000 mg, isto é, 14 gramas, ou 2.333 comprimidos de 6 mg. A própria escala, na mesma frase, manda dois comprimidos e meio, que são 15 mg. A razão entre o que a frase diz e o que a tabela ao lado manda é de 933 vezes, e a razão entre a frase e a dose correta é exatamente 1.000 — o fator que separa micrograma de miligrama.

O mesmo erro aparece em mais dois lugares do mesmo documento, e num deles o número também muda. No verbete de pediculose, à página 72: “Ivermectina, na dose de 100mg/kg em dose única”. No verbete de ftiríase, à página seguinte: “Ivermectina, na dose de 200mg/kg mata as formas adultas”. Ou seja: além do fator 1.000 na unidade, há um fator 2 no número entre dois verbetes vizinhos. Uma criança de 30 quilos tratada ao pé da letra pela linha da pediculose receberia 100 × 30 = 3.000 mg, ou 500 comprimidos de 6 mg; a escala do próprio Caderno, para a faixa de 25 a 35 kg, manda um comprimido, que são 6 mg e entregam exatamente 200 mcg/kg nessa criança.

O valor de 65 quilos pertence a duas faixas da mesma tabela. A escala diz “51 a 65 kg — 2 comprimidos” e, na linha seguinte, “65 a 79 kg — 2 1/2 comprimidos”. Quem pesa exatamente 65 quilos tem duas respostas: 12 mg, que dão 184,6 mcg/kg, ou 15 mg, que dão 230,8 mcg/kg. As duas leituras da mesma tabela diferem em 1,25 vez, ou 3 mg. Não é um caso raro de balança: 65 kg é um peso comum e é o único número que aparece duas vezes na tabela.

Entre 79 e 80 quilos não existe faixa. A penúltima linha termina em “65 a 79 kg” e a última começa em “80 kg ou mais”. Um adulto de 79,5 quilos não é coberto por nenhuma linha. O defeito é do mesmo gênero do anterior, com sinal trocado: uma tabela tem uma sobreposição e um vão, os dois no mesmo intervalo de quinze quilos.

A faixa das crianças é a pior calibrada da tabela, e a conta mostra por quê. Nas faixas de adulto, a dose acerta os 200 mcg/kg no meio do intervalo, sobrando de um lado e faltando do outro. Na primeira faixa não: meio comprimido, que são 3 mg, entrega exatamente 200,0 mcg/kg numa criança de 15 quilos — o piso da faixa — e apenas 125,0 mcg/kg numa de 24 quilos, o teto. São 37,5% abaixo do alvo declarado, e é o maior desvio da tabela inteira. Nas outras faixas o pior desvio no teto é de 14,3%.

Conferência que fechou, e vale registrar porque calibra a confiança nas demais: os percentuais da permetrina na Rename 2024 estão certos. A relação é 1% = 10 mg/g = 10 mg/mL. O elenco traz “10 mg/g (1%) 10 mg/mL (1%) loção” e “50 mg/g (5%) 50 mg/mL (5%) loção”, e as duas linhas conferem: 10 ÷ 10 = 1,0% e 50 ÷ 10 = 5,0%. Nenhum dígito fora do lugar.

A nota técnica goiana de 2025 se contradiz sobre a permetrina dentro de três páginas. O texto corrido diz que o medicamento deve ser mantido por 8 a 14 horas e removido no banho, idealmente aplicado à noite e removido pela manhã, e que o tratamento deverá ser repetido com 7 dias — o que dá duas aplicações. O Quadro 2 do mesmo documento, sob a coluna “tempo de tratamento”, diz “Permetrina 5% creme — 6 noites”, que é o que o Caderno de 2002 mandava. Seis noites contra duas aplicações é uma diferença de três vezes na exposição ao escabicida, num documento que também alerta contra a iatrogenia do uso repetido.

A mesma nota se contradiz sobre quem recebe o quê nos primeiros dois anos de vida. O texto corrido diz que o tratamento deve ser feito com solução ou creme de permetrina a 5% “para maiores de 2 meses de idade”. O Quadro 2 reserva “enxofre 10% diluído em petrolatum” para “mulheres grávidas e crianças abaixo de dois anos”. Uma criança de oito meses tem, portanto, duas primeiras escolhas diferentes no mesmo documento de três páginas. É a tabela contradizendo o texto corrido, e o intervalo em conflito — de 2 meses a 2 anos — é justamente onde a decisão é mais delicada.

Os dois esquemas de profilaxia da erisipela recorrente que o Caderno oferece lado a lado, ligados por “ou”, não são equivalentes. O primeiro: 2.400.000 UI a cada 20 dias durante um ano — são 18 aplicações (365 ÷ 20 = 18,25), duas ampolas de 1.200.000 UI por vez, 36 ampolas e 43.200.000 UI no curso. O segundo: 1.200.000 UI a cada três semanas por no mínimo cinco anos — são 86 aplicações (1.825 ÷ 21 = 86,90), uma ampola por vez, 86 ampolas e 103.200.000 UI no curso. O segundo entrega 2,4 vezes a exposição total do primeiro, com metade da dose por aplicação, um dia a mais de intervalo e cinco vezes a duração. O documento não diz quando escolher um ou outro.

A frase que traz esses esquemas perdeu o sujeito no caminho. Ela aparece sob o cabeçalho “MEDIDAS DE CONTROLE” do verbete de erisipela e começa assim: “2.400.000 UI, de 20 em 20 dias, durante um ano para evitar a reinfecção, ou pode-se aplicar uma dose de 1.200.000 UI (IM) de penicilina benzatina, a cada três semanas...”. O nome do fármaco só aparece na alternativa, e o antecedente do primeiro esquema está no parágrafo anterior, sob outro cabeçalho — “administrar penicilina benzatina por período prolongado”. Quem ler só a seção de medidas de controle encontra uma dose sem droga e sem via.

A dose de penicilina procaína da erisipela é ambígua contra a única apresentação do elenco, e a ambiguidade vale um terço da dose. O Caderno pede “penicilina procaína na dose de 400.000 UI, de 12 em 12 horas por dez dias”. A Rename 2024 só tem a associação: benzilpenicilina procaína 300.000 UI + benzilpenicilina potássica 100.000 UI por frasco — total de 400.000 UI. Se “400.000 UI” for o total do frasco, é um frasco por dose e 20 frascos no curso. Se for 400.000 UI de procaína, são 1,3333 frascos por dose, 26,7 frascos no curso, e a potássica sobe junto para 2.666.667 UI. As duas leituras diferem em 1,33 vez na procaína entregue, e o documento não desfaz a dúvida.

A cefalexina do adulto não cabe na faixa que o próprio documento manda. O Caderno prescreve 30 a 50 mg/kg/dia de 6 em 6 horas, sem separar adulto de criança. A posologia adulta usual, e a que a apresentação da Rename permite escrever com cápsulas inteiras de 500 mg, é 500 mg de 6 em 6 horas — 2.000 mg/dia, que num adulto de 70 quilos são 28,6 mg/kg/dia, abaixo do piso de 30 que o documento fixa. Para caber na faixa, esse adulto precisaria de 525 a 875 mg por tomada, ou de 4,2 a 7 cápsulas por dia. A regra pediátrica aplicada ao adulto sem ressalva é o gênero de erro que produz subdose silenciosa.

A eritromicina aparece com duas taxas diferentes no mesmo documento para quadros vizinhos. No impetigo: 40 mg/kg/dia dividida de 6 em 6 horas. No ectima e na erisipela do alérgico: 30 a 50 mg/kg/dia, mesmo intervalo. Uma criança de 20 quilos recebe, portanto, entre 600 e 1.000 mg por dia conforme a página que se abrir — 1,67 vez de diferença. Com a suspensão de 50 mg/mL da Rename, isso é 3,0 mL contra 5,0 mL por tomada; com a de 25 mg/mL, 6,0 mL contra 10,0 mL. As duas concentrações no mesmo elenco são, por sinal, outra fonte de erro de dispensação.

Erro de digitação com potencial de confusão, na mesma linha do tratamento da erisipela: o Caderno escreve “cefalexina na dose de 30 a 50/mg/kg/dia”. A barra entre o 50 e o “mg” não tem função. Não muda o sentido para quem lê com atenção, mas está na frase que carrega o par de doses e ao lado de uma dose de eritromicina escrita corretamente, o que aumenta a chance de leitura apressada.

O verbete de pediculose traz dois códigos da Classificação Internacional de Doenças para si mesmo. O cabeçalho da seção diz “PEDICULOSES — CID-10: B85.0”; o subtítulo interno, na mesma página, diz “PEDICULOSIS CAPITIS E CORPORIS (CID-10: B85.1)”. São dois códigos diferentes para o mesmo verbete no mesmo documento, e a discordância é interna: apontá-la não depende de nenhuma outra fonte.

O Caderno oferece ao paciente alérgico, na profilaxia da erisipela, “sulfametoxazol mais trimetoprima ou ainda sulfisoxizol”. A primeira opção consta da Rename 2024 em três apresentações. A segunda está grafada assim, com essa ortografia, e não consta do elenco em nenhuma forma. Na prática, o alérgico à penicilina tem uma opção, não duas.

A diluição do permanganato de potássio precisa ser escrita por extenso na receita, porque a conta não é intuitiva e o erro é para mais. O Caderno manda solução a 1:40.000 para remover crostas no impetigo e no ectima. Isso é 1 grama em 40.000 mL, ou 1 mg em 40 mL. O comprimido da Rename tem 100 mg, e portanto rende exatamente 4 litros de solução. Quem dissolver um comprimido em um litro — que é o volume de balde mais intuitivo — entrega 1:10.000, quatro vezes mais concentrado do que o prescrito, sobre a pele de uma criança.

Conferência de licença e identidade que fechou. A Rename 2024 é estabelecida pela Portaria GM/MS nº 6.324, de 26 de dezembro de 2024, tem 252 páginas, ISBN 978-65-5993-710-3, e é disponibilizada sob licença Creative Commons Atribuição–Não Comercial–Compartilhamento pela mesma licença 4.0 Internacional, permitida a reprodução parcial ou total desde que citada a fonte. O Caderno de Atenção Básica nº 9 tem ISBN 85-334-0510-3, 142 páginas, primeira edição de 2002, e traz a cláusula “É permitida a reprodução parcial ou total desta obra, desde que citada a fonte”.

A conferência mais consequente deste capítulo é uma ausência, e ela se fez por busca literal no texto da Rename 2024 depois de normalizar espaço, hífen e acento — não por leitura corrida. O grupo D do elenco — medicamentos dermatológicos — tem vinte entradas, e nenhuma delas é antibiótico tópico para a pele. Os quatro itens do subgrupo D06 são sulfadiazina de prata (D06BA01), aciclovir creme (D06BB03), podofilotoxina (D06BB04) e imiquimode (D06BB10); a clindamicina tópica está classificada como antiacne (D10AF01); os antissépticos estão no D08 (clorexidina, permanganato de potássio e álcool etílico). Mupirocina: zero ocorrências. Ácido fusídico: zero. Gentamicina existe, mas só como pomada e solução oftálmicas; neomicina, só em associação otológica e oftálmica. O passo tópico do tratamento oficial do impetigo — e a descolonização nasal com mupirocina que o mesmo documento recomenda em creches — não tem produto correspondente no elenco nacional.

Na Rename 2024 consultada, foram identificadas permetrina em loção e ivermectina em comprimido entre os escabicidas citados. Os demais nomes pesquisados não foram localizados nessa edição. A Rename 2024 descreve o elenco nacional e componentes; não é inventário de cada serviço. Confirmar atualização, indicação, REMUME/RESME, padronização hospitalar e estoque com a farmácia antes de prometer ou negar acesso. A ausência do enxofre na lista não elimina sua possibilidade de manipulação local nem substitui a escolha clínica apropriada à idade e à gestação.

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A conduta, hora a hora

A conduta destas cinco doenças tem uma característica que o interno costuma descobrir tarde: a parte farmacológica é curta e quase sempre a mesma; a parte que decide o resultado é a extensão — quantas pessoas, quantas roupas, quantos dias, e quem executa. Por isso os marcos abaixo estão organizados pelo que se decide, não pelo que se prescreve.

Todas as doses vêm dos dois documentos brasileiros que governam o tema, conferidas contra a apresentação real do elenco nacional. Onde o documento manda algo que o elenco não tem, o marco diz isso em vez de fingir que a receita sai.

  1. Escabiose confirmada ou fortemente suspeitada — na mesma consulta, antes de qualquer exame

    Na escabiose clássica, tratar simultaneamente o caso e contatos domiciliares ou íntimos relevantes, mesmo assintomáticos, com esquema adequado a cada pessoa. Permetrina a 5% é uma opção de primeira linha: aplicar nas áreas orientadas, deixar por 8–14 horas e repetir em cerca de sete dias conforme protocolo. Em lactentes e crianças pequenas, incluir cabeça e pescoço conforme orientação, evitando olhos e mucosas; aprovação e segurança dependem da idade e formulação. Ivermectina oral, quando indicada, usa 200 microgramas/kg por dose, com repetição em 7–14 dias; não aplicar teto fixo de três comprimidos a todo paciente acima de 80 kg. A segurança na gestação e abaixo de 15 kg não está estabelecida, favorecendo alternativas tópicas avaliadas pela equipe.

    Prescrição
    • Selecionar permetrina a 5% OU ivermectina oral conforme idade, peso, gestação, extensão e possibilidade de aplicação; não associar ambas automaticamente na forma clássica.
    • Ivermectina: calcular 200 microgramas/kg por dose, conferir apresentação e arredondamento com o protocolo e repetir em 7–14 dias.
    • Permetrina: escrever áreas, tempo de 8–14 horas e repetição em aproximadamente sete dias.
    • Sintomático para prurido é adjuvante; avaliar sedação, risco de queda e contraindicações, sobretudo em idosos.
  2. Quando o contato ou o paciente é gestante, lactente, ou pesa menos de 15 kg

    Na gestação e abaixo de 15 kg, priorizar alternativa tópica avaliada pelo médico. Permetrina pode ser usada a partir da idade aprovada para a formulação, usualmente dois meses; lactente menor exige escolha específica, podendo incluir enxofre conforme protocolo. Não transferir automaticamente o esquema do adulto para a cabeça ou pele do lactente. Disponibilidade deve ser confirmada localmente, sem usar a RENAME como prova de que o produto não pode ser obtido.

    Prescrição
    • Permetrina loção a 5%, aplicação tópica noturna, com orientação escrita sobre área, tempo de permanência e número de noites
    • Não prescrever ivermectina em gestante nem abaixo de 15 kg (nota técnica SES-GO, 2025)
    • Registrar em prontuário a indisponibilidade do enxofre a 10% em petrolato no elenco nacional
  3. Na mesma folha da receita, sempre — nunca só de boca

    As medidas de ambiente não são conselho: são parte da prescrição, e elas falham quando saem faladas. Escreva com número. O Caderno manda lavar as roupas de banho e de cama com água quente, a pelo menos 55 graus; a nota de 2025 fecha o par que faltava, com água a 60 graus por pelo menos 20 minutos, e acrescenta passar a ferro ou usar a secadora, e deixar em saco plástico fechado por sete dias o que não puder ser lavado. Os dois mandam afastar o indivíduo da escola ou do trabalho até 24 horas após o término do tratamento, e não compartilhar toalha, roupa de cama, travesseiro, sabonete nem barbeador. Escreva também o que não fazer: não repetir o escabicida por conta própria, porque a coceira vai continuar por duas a quatro semanas mesmo com o parasita morto, e repetir é o caminho conhecido para a dermatite de contato por cima da escabiose curada.

    Prescrição
    • Lavar roupa de cama, banho e vestir em água quente a 60 °C por pelo menos 20 minutos e passar a ferro
    • O que não puder ser lavado: saco plástico fechado por 7 dias
    • Afastamento de escola ou trabalho até 24 horas após o término do tratamento
    • Não repetir o escabicida sem reavaliação — a coceira persiste 2 a 4 semanas após a cura
  4. Diante de um caso institucional, ou de dois casos com vínculo — no mesmo dia

    Escabiose crostosa em instituição de longa permanência, ou dois ou mais casos com vínculo epidemiológico numa instituição fechada, é surto pela definição que a nota goiana de 2025 adota, e a conduta muda de escala. O Caderno manda isolar o paciente hospitalizado para evitar surto em enfermaria, tanto para outros doentes quanto para os profissionais, e diz que isso vale especialmente para a forma crostosa; manda ainda lavar com água quente todos os fômites desses pacientes, exigência que ele não faz para a forma comum. Trate a coorte inteira de expostos ao mesmo tempo — residentes do mesmo setor e a equipe que os toca —, não só quem coça, porque quem está no período de sensibilização ainda não coça e já transmite. Comunique a vigilância epidemiológica municipal no mesmo dia, preencha o relatório de investigação de surto e registre no sistema de notificação sob o código B86, lembrando que o município pode precisar pedir à regional a habilitação do código. E não transfira ninguém sem avisar o serviço de destino do diagnóstico. Qual precaução, com qual equipamento e por quanto tempo é do capítulo “As mãos que circulam entre os leitos”, da apostila de Comunicação, Ética e Segurança na Prática.

    Prescrição
    • Tratamento simultâneo de toda a coorte exposta: residentes do setor e profissionais em contato, coçando ou não
    • Escabiose crostosa: associar tratamento tópico e oral sob equipe experiente, com múltiplas doses e calendário definido pela gravidade, além de medidas de contato e controle institucional; duas doses isoladas podem ser insuficientes.
    • Comunicação imediata à vigilância epidemiológica municipal; ficha de surto no sistema, CID B86
    • Nenhuma transferência sem informar o diagnóstico ao serviço de destino
  5. Pediculose confirmada — capitis ou corporis

    Confirme infestação ativa por piolhos vivos e examine conviventes. Trate infestados e pessoas que compartilham a cama simultaneamente; não é necessário medicar indiscriminadamente toda cabeça normal. Permetrina a 1% segue tempo de aplicação da apresentação e repetição conforme ciclo, frequentemente no nono dia. Pente fino ajuda na remoção mecânica. Lêndeas antigas isoladas não demonstram falha; vinagre não é etapa obrigatória e pode irritar. Na pediculose do corpo, acesso a banho e troca e lavagem de roupas é central, com avaliação de infecções associadas se houver febre.

    Prescrição
    • Usar pediculicida conforme idade, formulação e resistência local; não confundir permetrina a 1% para pediculose com a 5% para escabiose.
    • Remover mecanicamente com pente fino e reexaminar; não exigir vinagre.
    • Examinar conviventes e tratar casos ativos e pessoas que compartilham cama.
    • Garantir roupas limpas e lavagem adequada na pediculose do corpo.
  6. Impetigo ou ectima, na primeira consulta

    Impetigo limitado pode receber antibiótico tópico apropriado; lesões numerosas, surto ou ectima favorecem via oral. Limpeza delicada é suficiente, sem exigir permanganato ou remoção traumática. Escolha antibiótico segundo provável agente, alergia, epidemiologia e resistência local; cultura é útil em falha, recorrência ou suspeita de resistência. Não deduzir necessidade de via oral apenas da ausência de um tópico no elenco nacional.

    Prescrição
    • Impetigo limitado: considerar mupirocina tópica por cinco dias conforme protocolo e disponibilidade.
    • Impetigo extenso ou ectima: considerar cefalexina por sete dias, com dose por peso, função renal e protocolo pediátrico ou adulto; avaliar alternativas segundo alergia e resistência.
    • Orientar higiene, não compartilhar toalhas e reavaliar se progressão, febre ou ausência de resposta.
  7. Erisipela ou celulite — decisão tomada com o paciente ainda na maca

    Antes do antibiótico, três atos. Marque a borda com caneta e escreva a hora ao lado da marca; eleve o membro, que o Caderno chama de essencial e não de coadjuvante — repouso no leito com o membro mantido elevado; e procure a porta de entrada entre os dedos. Depois decida a via e a droga. O esquema que o documento brasileiro traz é penicilina procaína 400.000 UI de 12 em 12 horas por dez dias, com a ressalva de que o elenco só tem a associação com procaína de 300.000 UI por frasco; para o alérgico, eritromicina 30 a 50 mg/kg/dia de 6 em 6 horas por sete a dez dias, ou cefalexina na mesma faixa. Esta apostila só aceita a cefalexina nesse lugar quando a reação à penicilina foi de baixo risco e o culpado não foi a amoxicilina nem a ampicilina. A cefalexina é aminocefalosporina, com a cadeia lateral da ampicilina, e a régua de Reações de hipersensibilidade a drogas, na apostila de Imunologia, a deixa fora depois de reação a aminopenicilina, mesmo no exantema tardio leve, e em toda reação de risco maior — urticária generalizada, angioedema, broncoespasmo, anafilaxia ou farmacodermia grave. Onde há pus, abscesso ou porta traumática, o estafilococo pesa mais e a cobertura precisa contemplá-lo — e coleção se drena, porque antibiótico não entra em pus. Quadros graves, diz o mesmo documento, podem exigir penicilina cristalina endovenosa associada a oxacilina ou vancomicina, das quais só a penicilina cristalina consta do elenco. E saia do fluxo na hora certa: dor desproporcional, bolha hemorrágica, necrose, crepitação ou progressão em horas não é erisipela grave, é suspeita de fasciíte necrosante, e a conduta é chamar o cirurgião — o dono da fasciíte é o capítulo de infecções necrosantes de partes moles, na apostila de Urgência e Emergência Cirúrgica, e o que este assume é o reconhecimento.

    Prescrição
    • Na celulite não purulenta estável, considerar cefalexina 500 mg por via oral a cada seis horas no adulto, ajustando função renal e contexto; cinco dias podem bastar com resposta adequada, prolongando se necessário.
    • Elevar o membro, tratar porta de entrada, marcar extensão com hora e reavaliar em 48–72 horas.
    • Purulência, coleção, exposição especial ou risco de resistência mudam a seleção; coleção requer avaliar drenagem.
    • Dor desproporcional, progressão rápida, toxicidade ou instabilidade exigem avaliação imediata, incluindo cirurgia se suspeita de infecção necrosante.
  8. Antes da alta da consulta, em todo paciente com erisipela — e sempre no segundo episódio

    Feche a porta e decida onde ele dorme hoje. Fechar a porta significa tratar a micose interdigital, cuidar da onicomicose, hidratar o calcanhar rachado, tratar a úlcera, e ensinar a secar entre os dedos — o protocolo de feridas de Porto Alegre orienta exatamente isso, inspecionar a pele dos membros inferiores e secar entre os dedos, procurando lesões fúngicas. O diagnóstico e o tratamento da micose em si são do capítulo “A borda que a pomada apagou”, de micoses superficiais, nesta mesma apostila. Se houver edema residual, o Caderno orienta meias elásticas, e o protocolo de Porto Alegre põe a trava: em celulite e processo inflamatório intenso, a compressão não está indicada — ela entra depois. Na erisipela de repetição, o Caderno oferece dois esquemas de profilaxia com penicilina benzatina que não são equivalentes entre si, e a escolha entre eles está nas Divergências. Por fim, decida a internação pela tabela — e conte, entre os critérios, a impossibilidade de executar o tratamento em casa, que é dado clínico e não juízo social.

    Prescrição
    • Tratar a porta de entrada; orientar secagem interdigital diária e inspeção dos pés
    • Meia elástica apenas depois de cedido o processo inflamatório agudo
    • Recorrências exigem tratar edema e portas de entrada; considerar profilaxia antibiótica apenas em episódios repetidos apesar dessas medidas, com especialista e protocolo individual. Não escolher automaticamente entre esquemas antigos de um ou cinco anos.
    • Retorno marcado em 48 a 72 horas, com a marca da borda como parâmetro
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Como saber se está funcionando

Todos os parâmetros abaixo são de beira de leito ou de consultório, e nenhum depende de laboratório. Isso não é limitação: é a natureza destas doenças. Marque as datas no prontuário no dia da primeira consulta, porque é a comparação com o que você escreveu que responde a pergunta do retorno.

Prurido da escabioseReavaliação em 14 dias; alerta em 28 dias

Esperado: Diminuição progressiva; pode persistir por 2 a 4 semanas mesmo com cura parasitológica

Se não melhora: Sinais e sintomas presentes após 2 semanas contam como fracasso terapêutico, pelo próprio Caderno; reaparecimento após 4 semanas conta como reinfestação. São condutas diferentes: a primeira revê o esquema, a segunda revê a casa

Novos casos entre os contatosPergunte ativamente em 14 e em 28 dias

Esperado: Nenhum caso novo se o tratamento foi simultâneo e as roupas foram tratadas

Se não melhora: Caso novo em contato tratado sugere execução incompleta — alguém não tomou, alguém não estava em casa, a roupa não foi lavada. Reconstrua a execução antes de trocar de droga

A marca da borda, na erisipela e na celuliteEm 24, 48 e 72 horas

Esperado: Parada da progressão em 24 a 48 horas e recuo da borda depois disso; a marca deve ficar para fora do eritema

Se não melhora: Borda que ultrapassou a marca em 24 horas com o antibiótico correto obriga a reexaminar procurando coleção, a revisar o diagnóstico e a considerar fasciíte. Progressão em horas é cirúrgica

FebreNas primeiras 48 a 72 horas

Esperado: Queda em 48 a 72 horas na erisipela tratada

Se não melhora: Febre persistente além de 72 horas com antibiótico adequado sugere coleção não drenada, germe não coberto ou outro diagnóstico; febre no internado tem capítulo próprio, na apostila de Síndromes do Paciente Internado

DorContinuamente, e sobretudo à reavaliação

Esperado: Redução junto com a febre e com o eritema

Se não melhora: Dor que aumenta enquanto o eritema estabiliza, ou dor que dá lugar a hipoestesia na área central, é o sinal mais precoce e mais ignorado de fasciíte necrosante

Lesões do impetigoEm 48 a 72 horas e em 7 dias

Esperado: Ausência de lesões novas em 48 a 72 horas; crostas descolando; reepitelização em 7 dias

Se não melhora: Lesões novas depois de 72 horas sugerem autoinoculação mantida, contato não tratado, portador nasal no domicílio, ou diagnóstico errado — reveja herpes simples e escabiose impetiginizada

A porta de entradaNa reavaliação e em todo retorno subsequente

Esperado: Espaço interdigital seco, íntegro, sem maceração; calcanhar sem fissura

Se não melhora: Porta aberta com erisipela resolvida é episódio seguinte marcado. Encaminhe o tratamento da micose e reavalie a indicação de profilaxia com penicilina benzatina

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Onde o erro machuca

Tratar só quem veio à consulta

O dano: É o erro estrutural deste capítulo e o que produz o maior número de retornos. A escabiose raramente é caso isolado, e uma casa tratada pela metade se reinfesta sozinha. O paciente volta em quatro semanas, o serviço conclui que o esquema falhou e troca a droga, quando o que falhou foi a extensão.

Como pegar a tempo: Conte as pessoas na consulta, com nome e idade, e escreva a receita para o número que você contou. Marque o dia do tratamento simultâneo. Se a farmácia questionar a quantidade, o registro no prontuário é o que sustenta a dispensação.

Repetir o escabicida porque o paciente continua coçando

O dano: O prurido persiste de duas a quatro semanas após a cura parasitológica, porque é reação imune a ácaro morto tanto quanto a vivo. Reaplicar produz dermatite de contato por cima de uma escabiose já curada, o que mantém a coceira, confirma para o paciente a impressão de que nada funciona, e leva a mais uma aplicação. O próprio Caderno adverte: evitar a iatrogenia utilizando o escabicida repetidas vezes.

Como pegar a tempo: Diga na primeira consulta, e escreva na receita, que a coceira vai continuar por semanas e que isso não é falha. Ofereça anti-histamínico sedante e emoliente. Use os prazos do documento — duas semanas para fracasso, quatro para reinfestação — em vez da impressão do paciente.

Prescrever pelo documento sem conferir o elenco

O dano: A receita sai com permetrina em creme, xampu de deltametrina, enxofre a 10% em petrolato ou pomada de mupirocina — tudo isso está nos documentos brasileiros e nada disso consta da Rename 2024. O paciente vai à farmácia da unidade, não recebe, não volta para avisar, e o tratamento simplesmente não acontece. Ninguém fica sabendo.

Como pegar a tempo: Antes de assinar, confira o fármaco e a forma farmacêutica contra o elenco vigente. Onde o documento e o elenco discordam, quem decide o que existe é o elenco. Se prescrever algo fora dele, diga ao paciente que é compra particular e registre isso no prontuário.

Tratar erisipela sem tirar a meia

O dano: O episódio resolve e o próximo já está agendado. A cada episódio o linfático fica mais lesado, o linfedema aumenta e a recorrência fica mais provável — é um circuito que se fecha sozinho. O paciente acumula quatro, cinco episódios em poucos anos, e a conclusão que o serviço tira é que ele tem “erisipela de repetição”, como se fosse um traço dele e não uma porta aberta.

Como pegar a tempo: Tire a bota e a meia em toda erisipela, sem exceção, e olhe entre os dedos, a unha e o calcanhar. Trate ou encaminhe a micose interdigital no mesmo atendimento. Só discuta profilaxia com penicilina benzatina depois de ter fechado a porta — profilaxia com porta aberta é remendo.

Tratar como celulite o que está nas duas pernas ao mesmo tempo

O dano: Celulite e erisipela bilaterais e simultâneas são raras; o que costuma estar ali é dermatite de estase, lipodermatoesclerose, eczema de contato ou insuficiência venosa descompensada. O paciente recebe cursos repetidos de antibiótico sem benefício, é rotulado de refratário, e a causa venosa segue sem tratamento — que seria, aliás, compressão, contraindicada enquanto se acredita haver infecção aguda.

Como pegar a tempo: Diante de eritema bilateral, exija os outros sinais antes de assumir infecção: febre, dor desproporcionada, borda nítida, início súbito. Na ausência deles, pense em causa venosa e inflamatória. Esta formulação é leitura minha; os documentos brasileiros descrevem a erisipela como lesão única em um dos membros, mas não enunciam a regra.

Atribuir a dor desproporcional ao limiar do paciente e esperar a próxima dose

O dano: É o erro que mata neste capítulo. A fasciíte necrosante começa com dor muito maior do que o que se vê, e a pele por cima pode estar quase normal nas primeiras horas. Esperar seis horas para reavaliar depois da próxima dose de antibiótico é exatamente o intervalo em que a fáscia se perde.

Como pegar a tempo: Trate dor desproporcional como sinal, não como característica do paciente. Marque a borda com a hora e reavalie em uma hora, não em seis. Procure ativamente bolha hemorrágica, equimose, hipoestesia central e crepitação. Se a suspeita se mantiver, chame o cirurgião — exame de imagem normal não afasta e não deve atrasar a exploração.

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O que dizer ao paciente e à família

Metade da conduta deste capítulo é dita, não escrita, e as frases abaixo carregam a parte que mais falha na prática: convencer alguém a tratar quem não está doente, e dizer a palavra sarna sem produzir vergonha.

Explicar à mãe que a casa inteira vai se tratar, sem que ela ouça acusação de sujeira

“Isso aqui é um bichinho que passa de pele em pele, entre gente que dorme perto — não tem nada a ver com limpeza da casa. Só que ele não fica só numa pessoa. Se eu tratar só o senhor Wandeson e a senhora, quem sobrou passa de volta em duas semanas e a gente começa tudo de novo. Então vou fazer diferente: vou escrever para todo mundo da casa, e todo mundo toma no mesmo dia.”

Não diga: Evite “higiene”, “sujeira”, “falta de cuidado” e qualquer pergunta sobre banho. O Caderno registra que a escabiose pode ou não estar vinculada a hábitos de higiene — usar a palavra é impreciso e custa a adesão que você precisa.

Avisar que a coceira vai continuar depois do tratamento

“Vou te avisar de uma coisa agora para você não se assustar depois: a coceira não para junto com o tratamento. Ela pode continuar por duas, três, até quatro semanas, e isso não quer dizer que não funcionou — é a pele ainda reagindo ao que morreu. Se você repetir o remédio por causa disso, a pele piora. Se estiver insuportável, toma o comprimido da coceira e me procura, mas não repete o creme.”

Não diga: Não diga “vai sarar rápido” nem “em dois dias passa”. É a promessa que faz o paciente reaplicar quando ela não se cumpre.

Quando o paciente ouve o nome da doença e se retrai

“O nome popular disso é sarna, e eu sei que é uma palavra pesada. Ela é uma das doenças de pele mais comuns que existem, aparece em asilo, em quartel, em creche, em casa de gente que se cuida. O que faz ela pegar não é sujeira, é gente dormindo perto de gente. Você não fez nada errado e não precisa contar para ninguém que não seja da casa.”

Não diga: Não trate o nome como um detalhe a ser evitado. Omitir o diagnóstico para poupar o paciente atrapalha quando ele precisa explicar à escola ou ao trabalho por que vai ficar 24 horas afastado.

Orientar a família sobre a escola, na pediculose

Vamos examinar quem mora na casa e tratar quem tem piolhos vivos e quem compartilha a cama, ao mesmo tempo. A escola pode orientar as famílias sem identificar ou constranger a criança. Vou explicar o tempo de aplicação, a repetição e como usar o pente fino.

Não diga: Não sugira afastamento prolongado nem corte de cabelo como conduta médica. Não permita que a criança seja identificada como origem do surto.

Dizer ao paciente com erisipela de repetição por que a perna volta a inchar

“Essa é a quarta vez, e as três anteriores foram tratadas certo. O que não foi tratado é por onde a bactéria entra: olha aqui entre os seus dedos, essa pele descascando e branquinha. É por aí que ela entra toda vez. Se a gente só tratar a perna vermelha, ela volta. O tratamento de verdade é esse pé aqui, e é ele que vai decidir se a gente se vê de novo em cinco meses.”

Não diga: Não descreva a recorrência como característica dele (“o senhor tem erisipela de repetição”). Isso o convence de que não há o que fazer, e há.

Falar com a instituição de longa permanência sobre um provável surto

“Pelo que a senhora me descreveu, a dona Maurília pode estar com uma forma da sarna que solta muito parasita, e as duas funcionárias que estão coçando provavelmente pegaram dela. Isso já conta como surto e tem um caminho definido: eu comunico a vigilância hoje, a gente trata todo mundo do setor no mesmo dia, inclusive quem não está coçando, e cuida das roupas. Não é culpa de ninguém aí, e quanto mais rápido a gente fizer, menos gente entra.”

Não diga: Evite qualquer coisa que soe a fiscalização. A instituição que se sente acusada esconde casos, e o surto cresce fora do seu campo de visão.

Quando o remédio que o documento manda não existe na farmácia da unidade

“O que está escrito nos manuais para esse caso é um creme que a farmácia daqui não tem — não é falta de estoque, ele não faz parte da lista nacional. O que a gente tem é a loção, que serve, e eu vou escrever certinho como usar. Se em algum momento te oferecerem o outro, ele é de compra, e eu prefiro que você use esse aqui, que é o que a unidade garante.”

Não diga: Não prescreva o indisponível em silêncio, esperando que o paciente resolva. E não desqualifique o documento na frente dele — o problema é de compatibilidade entre norma e elenco, não de erro do serviço.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Escabiose clássica: aplicação correta e repetição

Orientação clínica atual

Na escabiose clássica, tratar simultaneamente o caso e contatos domiciliares ou íntimos relevantes, mesmo assintomáticos, com esquema adequado a cada pessoa. Permetrina a 5% é uma opção de primeira linha: aplicar nas áreas orientadas, deixar por 8–14 horas e repetir em cerca de sete dias conforme protocolo. Em lactentes e crianças pequenas, incluir cabeça e pescoço conforme orientação, evitando olhos e mucosas; aprovação e segurança dependem da idade e formulação. Ivermectina oral, quando indicada, usa 200 microgramas/kg por dose, com repetição em 7–14 dias; não aplicar teto fixo de três comprimidos a todo paciente acima de 80 kg. A segurança na gestação e abaixo de 15 kg não está estabelecida, favorecendo alternativas tópicas avaliadas pela equipe.

https://www.cdc.gov/scabies/hcp/clinical-care/index.html

Como decidir

Escrever esquema completo e garantir tratamento simultâneo dos contatos. Dificuldade de retorno não é motivo para escolher seis noites consecutivas como equivalente; pactuar acesso à segunda aplicação.

A criança entre dois meses e dois anos: permetrina a 5% ou enxofre a 10% em petrolato?

Permetrina a 5%, a partir de dois meses de idade

O texto corrido da nota goiana de 2025 é explícito: o tratamento deve ser realizado com solução ou creme de permetrina a 5% para maiores de dois meses de idade. Pela letra dessa frase, o lactente de oito meses recebe permetrina, que é o único dos dois produtos que consta da Rename 2024 — em loção.

Nota Técnica nº 1/2025 SES-GO/CIEVS, seção de tratamento, texto corrido.

Enxofre a 10% em petrolato, abaixo de dois anos

O Quadro 2 da mesma nota, e antes dele o Caderno de 2002, reservam o enxofre a 10% diluído em petrolato para mulheres grávidas e crianças abaixo de dois anos, por sete dias. Pela letra dessa linha, a mesma criança de oito meses recebe enxofre — que não consta da Rename 2024, nem ele nem o veículo.

Nota Técnica nº 1/2025 SES-GO/CIEVS, Quadro 2; e CAB nº 9, 2002, verbete Escabiose.

Como decidir

Conferir idade, formulação e segurança: permetrina é opção a partir de dois meses nas apresentações aprovadas; lactentes menores precisam de alternativa específica. Não usar presença ou ausência na RENAME como critério de segurança. Enxofre manipulado exige concentração e preparo definidos pela equipe, não improvisação familiar.

Erisipela recorrente: quando considerar profilaxia

Prevenção e seleção individual

Corrigir edema, micose interdigital, fissuras e outros fatores. Episódios recorrentes apesar dessas medidas podem justificar profilaxia com penicilina ou alternativa apropriada, segundo alergia e protocolo, com revisão periódica.

https://www.idsociety.org/practice-guideline/skin-and-soft-tissue-infections/

Como decidir

Definir número de episódios, diagnóstico, adesão e fatores persistentes com a equipe. Não somar doses ao longo de anos para escolher entre esquemas antigos nem usar sulfametoxazol-trimetoprima como única alternativa automática à penicilina.

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O raciocínio, em voz alta

Unidade básica de saúde, terça-feira de manhã. Wandeson Terto, 6 anos, 21 quilos, veio por “brotoeja que não sara”: quatro lesões no queixo e no canto da boca, duas com crosta amarelada espessa, e três na perna direita, uma escoriada. Começou há duas semanas com uma bolha. A mãe, Neuzila Terto, 29 anos, auxiliar de cozinha numa creche, veio na sequência por “alergia”: coça há um mês, em todo lugar menos na cara, e acorda de madrugada se coçando. Trocou o sabão em pó e não adiantou. Na casa moram seis pessoas: o casal, três filhos de 6, 9 e 13 anos, e a avó de 68, que dorme no mesmo quarto que os meninos. Nenhum deles veio à consulta.

  1. 1. Junte as duas fichas antes de examinar qualquer um dos dois

    As duas queixas chegaram separadas e são um problema só. Prurido generalizado de predomínio noturno, com um mês de evolução, poupando a face, numa adulta cujo filho tem lesões crostosas: é escabiose familiar com impetiginização secundária até prova em contrário. O Caderno de Atenção Básica nº 9 diz que a escabiose raramente vem como caso isolado — a segunda ficha é o dado diagnóstico da primeira.

  2. 2. Examine a mãe nas dobras, e a criança nos dois eixos

    Na Neuzila, procure interdigitais, face anterior dos punhos, prega anterior das axilas, região periumbilical, sulco interglúteo e mamas. Escoriação e liquenificação são o que você vai encontrar; o túnel, se aparecer, confirma. No Wandeson, examine as lesões bacterianas e também as dobras — e, por ele ter 6 anos, inclua couro cabeludo, palmas e plantas, que o documento explicitamente inclui em crianças. Ele provavelmente tem escabiose por baixo do impetigo, e é ela que o faz coçar.

  3. 3. Não peça exame para confirmar

    O raspado confirma quando é positivo e não afasta quando é negativo, porque a escabiose comum tem da ordem de uma dezena de ácaros no corpo inteiro. Numa suspeita clínica razoável, com dois casos na mesma casa, o exame não muda conduta e a espera perpetua a transmissão. Cultura de impetigo simples também não entra.

  4. 4. Conte as pessoas, com nome e idade, e escreva no prontuário

    São seis: o casal, três crianças, a avó. Registre quem dorme com quem — a avó no quarto dos meninos é informação clínica, não detalhe. Pergunte também pela creche onde a Neuzila trabalha e por quem mais coça lá; se houver dois casos com vínculo, a definição de surto já se aplica e a vigilância municipal precisa saber.

  5. 5. Prescreva para a casa inteira, no mesmo dia

    Ivermectina 6 mg em dose única pela escala de peso, repetida em sete dias, para todos os que pesam 15 quilos ou mais — o Wandeson, com 21 quilos, entra na primeira faixa e recebe meio comprimido, que são 3 mg. Some permetrina em loção a 5%, aplicação noturna do pescoço para baixo. Escreva a receita para seis pessoas: se sair para uma, a farmácia dispensa para uma. E marque a data em que todos tomam juntos, porque tratamento sequencial numa mesma casa não zera nunca.

  6. 6. Trate o impetigo do Wandeson como o quadro extenso que ele é

    Sete lesões em dois sítios, com satélites por autoinoculação, ultrapassam o que se resolve só com limpeza. Comece pela remoção das crostas duas a três vezes ao dia com água e sabão ou permanganato de potássio a 1:40.000 — e escreva a diluição por extenso: um comprimido de 100 mg em quatro litros. Acrescente cefalexina 30 a 50 mg/kg/dia de 6 em 6 horas: para 21 quilos, entre 158 e 263 mg por tomada, o que na suspensão de 50 mg/mL são de 3 a 5 mL. Não prescreva mupirocina: ela não consta da Rename 2024, e a receita voltaria da farmácia.

  7. 7. Escreva as medidas de ambiente na mesma folha, com número

    Roupa de cama, banho e vestir das seis pessoas em água quente a 60 graus por pelo menos 20 minutos, com ferro depois; o que não puder ser lavado, saco plástico fechado por sete dias. Afastamento de 24 horas após o término do tratamento — o que vale para as três crianças na escola e para a Neuzila na creche. E a frase que evita o retorno errado: a coceira vai continuar por duas a quatro semanas depois de tudo morto, e ninguém deve repetir o creme por causa disso.

  8. 8. Anote a data da lesão do Wandeson e marque os dois retornos

    A data em que a primeira lesão apareceu é a informação que outro capítulo vai pedir emprestada: se essa criança voltar em seis semanas com edema periorbitário e hipertensão, quem resolve é o capítulo “O que mata aqui não é a creatinina”, da apostila de Nefrologia Pediátrica, e a primeira pergunta de lá é a data daqui. Marque o retorno em 14 dias, para julgar fracasso terapêutico, e oriente a retornar em 28 dias se a coceira reaparecer depois de ter cessado, porque aí a leitura é reinfestação e o problema volta a ser da casa.

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Faça você

Mesma manhã, terceira ficha. Iracildo Milani, 62 anos, 88 quilos, feirante, descarrega caixa de peixe na madrugada de terça e de sexta e passa o dia de bota de borracha. O prontuário registra três episódios de erisipela na perna direita em dois anos, todos tratados, todos resolvidos. Este é o quarto. Ele chega andando, com a perna direita vermelho-viva do tornozelo à metade da panturrilha, quente, dolorida, com borda nítida e elevada, e temperatura axilar de 38,4 aferida na recepção. Está lúcido, orientado, sem dispneia; a pressão é 132 por 84 e a frequência cardíaca, 96. Não é diabético conhecido. Mora com a mulher, tem carro na porta e a unidade fica a dez minutos da casa dele.

  1. 1. Nomeie o quadro pela borda, não pelo termo

    Placa vermelho-viva, quente, dolorosa, elevada, unilateral, com borda que dá para desenhar, e febre alta de início súbito: o conjunto separa erisipela de celulite, e a diferença é a profundidade — derme superficial e linfáticos de um lado, subcutâneo do outro. O que você conclui daqui muda a probabilidade de estreptococo contra estafilococo, e por isso muda a droga.

  2. 2. Faça os três atos que vêm antes do antibiótico

    Marque a borda com caneta e escreva a hora ao lado da marca. Eleve o membro — o documento chama o repouso com o membro elevado de essencial, não de coadjuvante. E tire a bota e a meia.

  3. 3. Olhe entre os dedos, e depois pergunte o que você encontrar

    Um homem que passa a madrugada de bota de borracha molhada e o dia calçado tem probabilidade alta de maceração e fissura interdigital antes de você olhar. O protocolo de feridas de Porto Alegre, de 2024, lista as lesões fúngicas interdigitais entre os fatores que aumentam a probabilidade de erisipela e manda orientar o paciente a inspecionar os membros inferiores e a secar entre os dedos. Se estiver lá, você encontrou o motivo dos quatro episódios.

  4. 4. Descarte ativamente o que não pode passar

    Antes de decidir a via, procure dor desproporcional ao que se vê, hipoestesia na área central, bolha hemorrágica, equimose, necrose e crepitação, e pergunte de quanto em quanto tempo a vermelhidão avançou desde ontem. Nenhum desses achados está presente aqui — mas eles precisam ser procurados e registrados, porque a ausência documentada é o que autoriza o tratamento ambulatorial.

  5. 5. Percorra a tabela de internação item a item

    Sem sinal sistêmico de gravidade; sem suspeita de fasciíte; tolera via oral; sem falha prévia deste esquema; sem comorbidade descompensada conhecida — vale medir a glicemia capilar antes de afirmar; localização não crítica; idade não extrema; e há quem execute o tratamento em casa e há como retornar em 48 horas. Nenhum critério isolado obriga a internar.

  6. 6. Escreva a prescrição, a reavaliação e o que fecha a porta

    Antibiótico por via oral, membro elevado, analgesia, retorno marcado em 48 horas com a marca da borda como parâmetro, e a orientação escrita de voltar antes se a marca for ultrapassada, se a dor aumentar ou se surgir bolha. E, na mesma consulta, o tratamento da porta de entrada — cujo diagnóstico e esquema pertencem ao capítulo “A borda que a pomada apagou”, de micoses superficiais, nesta apostila.

Ver como fecharíamos

Sem instabilidade, suspeita de infecção necrosante ou outra indicação de internação, o paciente pode receber tratamento ambulatorial com antibiótico adequado à celulite não purulenta, analgesia e elevação do membro, após avaliação do supervisor. Cefalexina 500 mg a cada seis horas é uma opção no adulto com função renal compatível; duração inicial de cinco dias pode ser suficiente se houver boa resposta, prolongando conforme evolução e protocolo. Reavaliar em 48 horas; dor desproporcional, toxicidade, progressão rápida ou piora geral exigem retorno imediato. Tratar micose e fissuras interdigitais e abordar edema crônico. Em recorrências apesar do controle dos fatores, discutir profilaxia individual com a referência, sem prescrever automaticamente anos de penicilina. A passagem deve conter extensão, sinais vitais, comorbidades, função renal relevante, porta de entrada e resposta ao tratamento.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

O quadro materno é típico de escabiose. Tratar simultaneamente os moradores e contatos próximos, inclusive assintomáticos, reduz reinfestação; é preciso identificar cada pessoa e adaptar o esquema à idade, peso, gestação e contraindicações. Orientar aplicação, repetição quando indicada e cuidados com roupas e cama. O filho tem lesões compatíveis com impetigo, mas apenas as crostas não confirmam escabiose impetiginizada: deve ser examinado e receber tratamento da infecção bacteriana conforme extensão e gravidade. Independentemente dessa confirmação, ele é contato domiciliar e integra a estratégia contra escabiose. Raspado negativo não exclui infestação.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Sem consultar o texto, apresente o caso principal em um minuto. Explique: Separar infestação de infecção bacteriana; tratar contatos quando indicado, selecionar via e duração e reconhecer infecção profunda. Justifique a primeira conduta e indique um achado que mudaria o destino do paciente.

Em 30 dias

Resolva novamente o caso para completar. Compare hipótese, diferenciais, gravidade, plano e seguimento com o gabarito. Acrescente uma mudança de contexto — comorbidade, piora, gestação, barreira de acesso ou baixa adesão — e explique como adaptaria a decisão com o supervisor.

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Agora atenda

Agora atenda: você é o interno da unidade básica e a enfermeira de uma instituição de longa permanência a seis quadras liga sobre uma residente de 81 anos, acamada, com descamação intensa e crostas espessas no corpo todo, sem febre, que não se queixa de nada — e menciona, no fim da ligação, que duas cuidadoras estão coçando as mãos há três semanas e acharam que era do produto de limpeza. Decida o que é isso, quem se trata, quando, o que se comunica e a quem, e o que precisa acontecer antes de qualquer transferência dessa paciente para outro serviço.