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Febre sem sinais localizatórios no lactente

O que decide não é o número no termômetro: é a idade, o estado geral e a caderneta. Quanto menor o lactente, menos o exame físico serve — e mais o protocolo decide por você.

Fontes deste capítulo

Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamentos Científicos de Pediatria Ambulatorial e Infectologia (gestão 2022-2024). Abordagem da Febre Aguda em Pediatria e Reflexões sobre a febre nas arboviroses. Documento Científico nº 206, 15 de maio de 2025.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamentos Científicos de Pediatria Ambulatorial e de Infectologia (gestão 2019-2021). Manejo da Febre Aguda. Documento Científico, 5 de outubro de 2021.

Sociedade de Pediatria de São Paulo. Departamento de Pediatria Ambulatorial. Fernandes TF. Febre não é doença, é um sinal. Recomendações — Atualização de Condutas em Pediatria, nº 87, abril de 2019.

Brasil. Ministério da Saúde; Organização Pan-Americana da Saúde; Fundo das Nações Unidas para a Infância. Manual de quadros de procedimentos: Aidpi Criança — 2 meses a 5 anos. Brasília: Ministério da Saúde, 2017. 74 p. ISBN 978-85-334-2502-6.

Machado BM, Cardoso DM, Paulis M, Escobar AMU, Gilio AE. Febre sem sinais localizatórios: avaliação de um protocolo de atendimento. Jornal de Pediatria (Rio de Janeiro). 2009;85(5):426-432. DOI 10.1590/S0021-75572009000500010.

01

Responda antes de ler

Num serviço com disponibilidade de procalcitonina, a coordenação propõe colher o exame em todos os lactentes com febre sem sinais localizatórios e bom estado geral, usando o corte de 0,9 ng/mL — sensibilidade de 86,7% e especificidade de 90,5% — para indicar antibiótico empírico. Nessa população, a prevalência de infecção bacteriana grave é de cerca de 2,1%. Qual é a crítica correta à proposta?

02

O paciente que você vai ver

Sábado, 21h10, unidade de pronto atendimento. Duas crianças esperam na mesma fila, e a triagem escreveu a mesma palavra nas duas fichas: febre.

A primeira é Antônio, 10 meses, 9 kg. A mãe conta que a temperatura chegou a 39,8 °C em casa, medida com termômetro digital na axila, e que ela deu antitérmico há duas horas. Está febril desde ontem à noite. Na sala, Antônio está sentado no colo, pega o crachá do interno, ri quando o pai faz careta, mama e aceita água. O exame é meticuloso: otoscopia normal dos dois lados, orofaringe sem alteração, ausculta limpa, abdome sem massa, fontanela normotensa, pele sem exantema e sem petéquias, articulações móveis, genitália normal. A caderneta está em dia, com todas as doses da idade. Não há foco. A temperatura aferida agora é 38,6 °C, a frequência cardíaca é 152, a respiratória 38, o enchimento capilar é imediato.

A segunda é Manuela, 24 dias, 3,4 kg, nascida de 39 semanas, parto sem intercorrência. A mãe mediu 38,1 °C na axila hoje à tarde, ficou com medo, mediu de novo e viu 37,9 °C, e resolveu vir. Manuela está no colo, quieta. Mamou às 17h e às 19h, um pouco menos do que costuma. Não vomitou, não teve diarreia, não tem tosse. O exame é normal: fontanela normotensa, coto umbilical já caído e sem secreção, pele sem lesão, ausculta limpa, abdome livre. A temperatura na unidade é 37,8 °C.

O interno olha as duas fichas e organiza o plantão pelo número: começa por Antônio, porque 39,8 é mais do que 38,1. Pede hemograma, proteína C reativa e hemocultura para Antônio — que está brincando — e deixa Manuela na fila para reavaliar depois, porque "a febre dela é baixa e ela está bem".

As duas decisões estão erradas, e são erradas pelo mesmo motivo. O que decide o que fazer com uma criança febril sem foco não é a altura da febre: é a idade, o estado geral e a caderneta de vacinação. Antônio, com 10 meses, caderneta completa e brincando, é a criança em que exame de sangue quase nunca muda conduta. Manuela, com 24 dias, é a criança em que o exame físico normal não exclui nada — e em que a conduta está escrita antes de você examinar.

03

Quem adoece disso

Febre é a queixa mais comum da pediatria. Estima-se que 20% a 30% das consultas pediátricas tenham a febre como sintoma principal, proporção que sobe para cerca de 65% nos serviços de emergência, onde ela aparece como um dos sinais da queixa principal, e cerca de 75% das ligações telefônicas a pediatras fora do horário de consultório começam por ela. Em pronto-socorro pediátrico brasileiro, cerca de um quarto dos atendimentos tem febre no motivo da consulta. Nenhum outro sintoma da infância chega perto disso — o que significa que a régua deste capítulo é aplicada mais vezes, por plantão, do que qualquer outra régua do internato.

Na maioria das vezes a história e o exame físico encontram a causa: otite, faringoamigdalite, quadro viral de vias aéreas, gastroenterite, exantema. Em cerca de 20% dos casos, não encontram — e essa criança passa a ter febre sem sinais localizatórios, definida como febre com menos de sete dias de duração em criança cuja história clínica e cujo exame físico não revelaram a causa. É uma definição de exclusão, e ela só vale depois de um exame físico completo: criança examinada vestida não tem febre sem foco, tem febre sem exame.

O que existe dentro desse grupo é o dado que reorganiza o plantão. A coorte prospectiva que validou o protocolo brasileiro mais usado acompanhou 251 crianças de 0 a 36 meses com febre sem sinais localizatórios, 215 delas com seguimento completo. Dessas 215, 107 (49,8%) melhoraram espontaneamente e 88 (40,9%) tiveram doença infecciosa benigna autolimitada. Vinte crianças (9,3%) tiveram infecção bacteriana grave — uma em cada onze. E a composição dessas vinte é o que importa: 16 infecções urinárias, 3 pneumonias, 1 bacteremia oculta e nenhuma meningite bacteriana. Traduzindo para prevalência na população que entra pela porta: infecção urinária em 7,4% (uma em cada treze crianças), pneumonia em 1,4% (uma em cada setenta e duas) e bacteremia oculta em 0,47% (uma em cada duzentas e quinze).

Ou seja: a infecção que você vai encontrar é a urinária, e ela responde por 80% de todas as infecções bacterianas graves desse grupo. A infecção que o plantão teme — bactéria circulando no sangue de uma criança que parece bem — é hoje a mais rara das quatro. Isso inverte a ordem natural do medo: procura-se urina com método, e não sangue por reflexo. A régua urinária propriamente dita, com quando colher, por qual método e como interpretar cada resultado, é tema do capítulo de infecção do trato urinário na criança e sai remetida daqui; o que fica aqui é a razão pela qual ela é a primeira pergunta.

A raridade da bacteremia oculta tem data e tem causa: as vacinas conjugadas. Depois da introdução da vacina conjugada contra Haemophilus influenzae tipo b, o risco de bacteremia oculta caiu para 1,5% a 3%; depois da pneumocócica conjugada heptavalente, caiu para 0,5% a 1%. Em uma análise de 591 crianças de 3 a 36 meses com febre sem sinais localizatórios e bom estado geral à admissão, submetidas a hemograma e marcadores inflamatórios, apenas 1% teve bacteremia oculta — metade dos casos por pneumococo, e nenhuma dessas crianças havia sido imunizada contra pneumococo. Com prevalência de 1%, é preciso rastrear cem crianças em bom estado geral para encontrar um caso; com 0,5%, duzentas. É a diferença entre procurar uma agulha num palheiro e construir o palheiro para procurar a agulha.

É por isso que a caderneta de vacinação deixou de ser dado de puericultura e virou dado de emergência. A ampliação da cobertura sorotípica continua: o Programa Nacional de Imunizações incorporou em 2026 a vacina pneumocócica conjugada 20-valente ao SUS, com regras de transição para quem já recebeu a 10-valente ou a 13-valente. O calendário em si é tema próprio e sai remetido; o que este capítulo usa da caderneta é uma pergunta só — as doses da idade contra pneumococo e contra Haemophilus influenzae tipo b estão feitas ou não estão.

04

Por que acontece o que acontece

Febre é resposta, não doença. Pirógenos exógenos — vírus, bactérias, fungos, toxinas — encontram macrófagos teciduais e induzem a produção de pirógenos endógenos, sobretudo interleucina 1, interleucina 6 e fator de necrose tumoral. Essas citocinas alcançam a circulação, chegam ao sistema nervoso central e ativam o centro termorregulador da região pré-óptica do hipotálamo a produzir prostaglandina E2, que eleva o ponto de ajuste da termorregulação. O corpo então trabalha para alcançar o novo ponto: vasoconstrição periférica, extremidades frias, ausência de sudorese, sensação de frio, eventualmente tremor. Taquicardia e taquipneia acompanham.

Três consequências práticas saem daí, e as três mudam conduta.

A primeira é que a febre tem função. Com a temperatura elevada, a atividade enzimática e o metabolismo celular aceleram, a migração de leucócitos para o tecido inflamado aumenta, a estabilidade da membrana lisossomal diminui — o que potencializa a atividade bactericida dos macrófagos — e a transformação linfocitária é estimulada, acelerando a produção de anticorpos. Há ainda um mecanismo indireto elegante: a febre inibe a absorção intestinal de ferro e aumenta sua captação hepática, reduzindo o ferro sérico, e o ferro é micronutriente essencial para a multiplicação bacteriana. A queda de hemoglobina que acompanha a fase aguda de uma infecção, e que pode chegar a 3 g/dL no escolar, é consequência desse mecanismo e retorna ao valor real em duas a quatro semanas depois do controle da infecção; tratá-la como anemia ferropriva no meio do quadro febril é confundir defesa com doença.

A segunda é que o número no termômetro não carrega informação diagnóstica nem prognóstica. Não existem evidências clínicas de que a magnitude da temperatura alcançada tenha valor de gravidade ou de etiologia — viral ou bacteriana — nos quadros infecciosos. A única exceção reconhecida no documento brasileiro é estreita: a intensidade da febre não serve como indicador de infecção bacteriana grave, exceto em menores de 3 meses com leucocitose ou aumento da proteína C reativa. Fora dela, uma criança com 40 °C brincando é uma criança brincando, e uma criança com 37,9 °C prostrada é uma criança prostrada. O mecanismo explica por quê: o ponto de ajuste sobe conforme a intensidade da sinalização inflamatória, e essa intensidade não é proporcional à virulência do agente.

Há um contraponto fisiológico que vale saber: temperatura corporal igual ou superior a 39,5 °C inibe o desempenho da atividade enzimática que depende de temperatura para funcionar, podendo prejudicar mecanismos de defesa dela dependentes. Isso não transforma o número em critério de tratamento — a indicação continua sendo o desconforto —, mas ajuda a entender por que temperaturas muito altas costumam vir acompanhadas de prostração real, e por que essa prostração merece exame, e não apenas antitérmico.

A terceira consequência separa febre de hipertermia, e a separação decide conduta. Na febre, o ponto de ajuste subiu e o corpo defende ativamente a nova temperatura: extremidades frias, tremor, sem sudorese. Na hipertermia, o ponto de ajuste está normal e o corpo está perdendo a briga contra o calor — excesso de roupa, ambiente aquecido, exercício intenso —, com extremidades quentes, sudorese intensa, sensação de calor e ausência de tremor. Métodos físicos de resfriamento agem sobre a troca de calor, não sobre o ponto de ajuste; por isso, na febre, produzem queda rápida e de curta duração com aumento do desconforto — calafrio e irritabilidade — e oferecem pequena vantagem sobre a terapêutica medicamentosa. Ficam reservados à hipertermia, definida por temperatura central igual ou superior a 40 °C acompanhada de alteração do sistema nervoso central.

O lactente pequeno hiperterma com facilidade porque a maquinaria de perda de calor ainda não amadureceu: as glândulas sudoríparas se desenvolvem no sentido craniocaudal e são pouco eficazes nos primeiros meses, o bebê passa a maior parte do tempo deitado — o que aumenta a área de troca por condução — e as roupas funcionam como barreira à dispersão de calor por radiação. Antes de chamar de febre, tire a roupa, espere e meça de novo.

Falta o mecanismo que dá nome ao capítulo: por que o exame físico do lactente pequeno vale menos. A resposta tem duas partes. A primeira é imunológica: nos primeiros três meses, a atividade macrofágica e de opsonização é reduzida e a atividade neutrofílica é menor, o que aumenta a chance de que uma bacteriemia se torne infecção invasiva em vez de ser contida. A segunda é semiológica: o repertório de sinais do recém-nascido é curto. Ele não localiza dor, não tem sinal meníngeo confiável, não tosse de forma útil, e o que a infecção invasiva produz nele é inespecífico — mamar menos, ficar mais quieto, ficar irritado, ficar ictérico, fazer pausa respiratória. Pior: recém-nascidos, sobretudo prematuros, podem não apresentar febre mesmo infectados, e o prematuro infectado com frequência faz hipotermia — consequência da vasoconstrição periférica somada à pouca quantidade de tecido celular subcutâneo e à aferição periférica da temperatura, e não de imaturidade do centro termorregulador, que já sintetiza pirógenos endógenos a partir da 33ª a 36ª semana de gestação. Desnutridos graves também podem não fazer febre quando infectados, por menor capacidade de síntese proteica de interleucinas.

Junte as duas partes e o eixo do capítulo aparece escrito em fisiologia: quanto menor o lactente, maior a chance de que a infecção seja invasiva e menor a chance de que ela apareça no exame. O exame físico normal, que num pré-escolar é informação forte, no recém-nascido é quase silêncio. É exatamente onde a informação clínica falta que o protocolo por idade assume — e é por isso que ele é rígido no começo da vida e frouxo depois.

A última peça do mecanismo é populacional, e é a que mudou a régua nas últimas duas décadas. A bacteremia oculta clássica era doença de bactérias encapsuladas — pneumococo, Haemophilus influenzae tipo b, meningococo — que atravessam a mucosa, circulam e, em uma fração dos casos, semeiam meninge, osso, articulação ou pulmão. A criança pequena responde mal a antígeno polissacarídico capsular, e é por isso que ela era a hospedeira ideal. A vacina conjugada resolve exatamente esse ponto: ao ligar o polissacarídeo capsular a uma proteína carreadora, converte uma resposta timo-independente em resposta timo-dependente, com memória, e passa a funcionar no lactente. Reduz doença invasiva em quem se vacina e reduz a portação nasofaríngea, o que protege também quem não se vacinou. Retirada a bactéria da circulação, o exame que a procurava perdeu o alvo — e é por isso que hemograma e hemocultura saíram da rotina do lactente vacinado e em bom estado geral. Em quem não se vacinou, o alvo continua lá, e a régua volta a ser a antiga.

Três faixas etárias de febre sem foco: 0–29 dias, 30–89 dias e 90 dias–36 meses; uma faixa superior prioriza sinais de gravidade em qualquer idade.
A idade modifica o risco e a investigação da febre sem foco. As faixas do quadro acompanham a referência do capítulo; outros protocolos podem usar cortes diferentes. Avalie gravidade primeiro e aplique integralmente a regra escolhida, sem combinar critérios de diretrizes distintas.
05

Como se apresenta de verdade

Febre sem sinais localizatórios não tem quadro clínico próprio: é o que sobra quando a busca pelo foco falhou. Por isso o espectro deste capítulo não é o espectro de uma doença — é o espectro do que a criança febril consegue mostrar em cada idade, e do que ela consegue esconder.

São quatro degraus, e eles não se separam por gravidade: separam-se por quanto da informação clínica é confiável. O recém-nascido, em que quase nada é confiável. O lactente de 1 a 3 meses, em que o exame já diz alguma coisa, mas não o suficiente para sozinho autorizar a alta. O lactente e o pré-escolar de 3 a 36 meses, em que estado geral e caderneta passam a decidir. E a criança acima de 3 anos, que verbaliza, localiza e permite que o exame feche o caso.

1 · A febre que a família mediu e a febre que você mede

A primeira informação do caso é um número que alguém obteve em casa, com um aparelho que você não viu, numa técnica que você não observou. Trate-o como dado de história, não como medida: pergunte com que termômetro, em que local do corpo, por quanto tempo, quantas vezes e qual foi o maior valor. Relato de que a criança estava "quente ao toque" é dado válido e entra na conta — a estratégia de atenção básica brasileira aceita explicitamente febre determinada pela anamnese, criança quente ao toque ou temperatura igual ou superior a 37,5 °C como porta de entrada da avaliação da febre.

A recomendação sobre o instrumento é específica por idade e por cenário. Em lactentes com menos de um ano, em qualquer ambiente, recomenda-se apenas termômetro digital para medida axilar, porque as evidências sobre outros dispositivos nessa faixa etária são escassas. Em ambiente escolar e domiciliar, a medida axilar com termômetro digital é a recomendada. Em ambiente hospitalar ou ambulatorial, o termômetro infravermelho — timpânico ou de pele — pode ser usado em crianças maiores de quatro semanas, e apenas por profissional de saúde treinado, porque o uso desses dispositivos está sujeito a erro nas mãos de quem não foi treinado. Abaixo de quatro semanas de idade, a recomendação é medida axilar com termômetro digital em todos os contextos. Termômetro de coluna de mercúrio está proibido no Brasil desde janeiro de 2019, por resolução da vigilância sanitária alinhada à Convenção de Minamata.

A medida retal é a que melhor reflete a temperatura central e é considerada padrão-ouro para essa determinação, especialmente em pediatria, mas é física e psicologicamente invasiva e não entra na rotina.

E há a variação fisiológica, que produz falso febril. A temperatura corporal tem ritmo circadiano: os menores valores ocorrem na madrugada e os maiores no fim da tarde. No adulto, a amplitude é de cerca de 0,5 °C; no lactente, pode chegar a 1 °C. Fim de tarde de dia quente, criança agasalhada, aferição logo depois de chorar ou de mamar — tudo isso empurra o número para cima. Antes de rotular como febre um valor de fronteira, tire a roupa da criança, espere alguns minutos em ambiente fresco e meça de novo. Esse gesto de trinta segundos evita um protocolo inteiro.

2 · O limiar mudou, e o que ele decide é quem entra no protocolo

O valor que define febre não é o mesmo nos documentos brasileiros, e ele se moveu recentemente. A recomendação do departamento de pediatria ambulatorial da Sociedade de Pediatria de São Paulo, de abril de 2019, firma o conceito de febre para temperatura axilar acima de 37,8 °C. O documento científico da Sociedade Brasileira de Pediatria de outubro de 2021 registra que, no Brasil e em muitos países, a febre é definida quando a temperatura axilar ultrapassa 37,3 °C, e lista as faixas aceitas por local de medida: retal acima de 38 a 38,3 °C, oral acima de 37,5 a 37,8 °C, axilar acima de 37,2 a 37,3 °C e auricular acima de 37,8 a 38 °C. O documento de maio de 2025 da mesma sociedade fixa: a febre medida por temperatura axilar é geralmente definida como temperatura igual ou superior a 37,5 °C, correspondendo a 38 °C quando medida por via oral ou retal. A estratégia de atenção básica brasileira já usava 37,5 °C desde 2017, e protocolos de hospital público ainda em circulação usam 37,8 °C axilar como critério de entrada.

Este capítulo adota 37,5 °C axilar — equivalente a 38 °C retal —, e o motivo é operacional, não doutrinário: é o valor do documento brasileiro mais recente sobre o tema e o mesmo já usado pela atenção básica, o que faz a régua da unidade básica e a do pronto-socorro coincidirem. É justamente na transição entre as duas que a criança se perde.

O que muda de fato quando o limiar desce meio grau não é o tratamento: é quem entra no protocolo. Um recém-nascido de 20 dias com 37,6 °C aferida corretamente na axila, pelo limiar de 37,8 °C, seria mandado para casa como afebril; pelo limiar de 37,5 °C, entra na régua etária e é internado. É nessa faixa estreita, e praticamente só nela, que meio grau decide destino — e ela cai justamente sobre a idade em que o exame físico não protege ninguém. Acima de três meses, o limiar quase não muda conduta, porque quem decide ali é o estado geral.

Um cuidado de leitura na direção contrária: temperatura normal não exclui infecção grave no recém-nascido e no prematuro, que podem responder com hipotermia. Recém-nascido com temperatura axilar abaixo de 36 °C, mamando mal e mais quieto, é caso de avaliação de infecção invasiva do mesmo modo que o febril — nessa idade, a hipotermia é sinal do mesmo processo.

3 · "Bom estado geral" é avaliação estruturada, não impressão

Esta é a variável mais poderosa do capítulo e a mais subjetiva. No fluxograma brasileiro, comprometimento do estado geral manda internar, colher culturas e iniciar antibiótico empírico independentemente da idade — é a única linha que vence todas as outras. Se ela depender de impressão, o protocolo inteiro depende de impressão. Por isso a avaliação tem itens, e os itens têm números.

O que se observa e se registra: frequência cardíaca, com alerta abaixo de 12 meses a partir de 160 batimentos por minuto, entre 12 e 24 meses a partir de 150, e de 2 a 5 anos a partir de 140. Frequência respiratória, com alerta acima de 50 incursões por minuto entre 6 e 12 meses e acima de 40 acima de 12 meses, e saturação de oxigênio igual ou inferior a 95%. Tempo de enchimento capilar, com alerta acima de 3 segundos. Grau de hidratação, avaliando mucosas e turgor da pele. E o grau de atividade e de responsividade aos estímulos. Essa avaliação classifica a criança em verde, amarelo ou vermelho — o chamado protocolo semáforo — e é essa classificação que direciona o conjunto de investigações e a conduta inicial.

A atenção básica brasileira usa uma lista mais curta e mais dura, a dos sinais gerais de perigo, que serve como piso mínimo em qualquer cenário. Pergunte: a criança consegue beber ou mamar no peito, vomita tudo o que ingere, apresentou convulsões ou movimentos anormais há menos de 72 horas. Observe: se está letárgica ou inconsciente, se o tempo de enchimento capilar está acima de 2 segundos, se há batimento de asa do nariz ou gemência. Qualquer um desses sinais exige assistência urgente: completar imediatamente a avaliação, administrar o tratamento indicado prévio à referência e referir com urgência ao hospital.

Três armadilhas de medida, porque os números acima são obtidos durante a febre. Primeira: a própria febre eleva frequência cardíaca e respiratória, e a criança com 40 °C está taquicárdica por definição — o valor que informa é o que persiste depois que a temperatura desce. Segunda: o enchimento capilar depende de onde e de como se comprime, e a discordância entre os documentos brasileiros — alerta acima de 3 segundos na régua das sociedades de pediatria, acima de 2 segundos na régua da atenção básica — pesa menos na prática do que parece no papel, porque quem tem enchimento realmente lento não deixa dúvida; na faixa entre 2 e 3 segundos, o que resolve é reavaliar depois que a febre ceder. Terceira: choro não é responsividade. A criança que chora forte, olha para você, se acalma no colo e volta a interagir está bem; a criança que chora fraco, não se consola, não fixa o olhar e volta a ficar sonolenta assim que para de chorar não está.

A anotação vale tanto quanto o exame. "Bom estado geral" no prontuário não é registro: é opinião. Registro é "ativo, reativo ao exame, sorri e pega objeto, mamou 80 mL na sala, FC 148 com Tax 38,2 °C, FR 36, enchimento capilar 2 s, mucosas úmidas, turgor normal, diurese presente". A diferença entre as duas anotações aparece na reavaliação de amanhã, quando outra pessoa precisa decidir se a criança piorou — e só consegue decidir se houver algo comparável escrito ontem.

Quadro qualitativo com colunas tranquilizador, exige atenção e alarme, comparando interação, respiração, perfusão, hidratação e sinais vitais.
O quadro organiza a observação clínica e ajuda a reconhecer piora, mas não é um escore nem a reprodução integral de um protocolo. Considere a idade, confira sinais vitais e integre todos os achados. Febre no recém-nascido requer abordagem própria, mesmo com aparência inicialmente boa.

4 · Os quatro degraus da idade

Recém-nascido, até 30 dias. É o degrau em que o exame físico normal não exclui nada, e em que a apresentação da infecção invasiva costuma ser exatamente o que a mãe descreveu na porta: mamou menos, ficou mais quieto, ficou irritado, ficou amarelo, teve pausa respiratória, está com a temperatura instável. Não há sinal meníngeo confiável, não há localização de dor, e a bacteriemia pode não dar nenhum sinal focal antes de virar meningite. Vale a inversão: nessa idade, hipotermia tem o mesmo peso de alarme que febre.

Lactente de 1 a 3 meses. O exame já informa mais, e a maioria dessas crianças tem doença viral — mas o sistema imune ainda é imaturo o suficiente para que uma parcela não desprezível tenha infecção bacteriana grave com aparência preservada. É a faixa em que a estratificação laboratorial foi criada justamente para permitir que uma parte fique em casa: o exame sozinho não basta, e internar todo mundo também não se sustenta.

Lactente e pré-escolar de 3 a 36 meses. Aqui aparece o espectro clássico: criança febril, incomodada, que melhora o comportamento quando a temperatura desce, e cujo foco se declara em 24 a 48 horas. É a faixa em que estado geral e situação vacinal passam a governar a conduta, e em que a infecção urinária é o foco oculto dominante. É também a faixa em que mais se pede exame desnecessário no Brasil.

Acima de 36 meses. A criança localiza, verbaliza, e o exame fecha o caso na maioria das vezes. Febre sem sinais localizatórios continua existindo, mas a conversa muda: passa a ser sobre duração e sobre sinais de doença sistêmica, não sobre risco de bacteriemia oculta.

Duas fronteiras da própria idade merecem cuidado. A primeira: idade se conta em dias, não em "mais ou menos um mês". Um lactente de 29 dias e um de 31 dias caem em condutas diferentes, e o que separa é a data de nascimento, não a impressão de quem atende — anote a idade em dias no prontuário do menor de três meses. A segunda: em prematuro, a idade corrigida serve para avaliar maturidade e comportamento, mas a régua do protocolo acompanha a idade cronológica somada ao agravo da prematuridade; prematuridade é fator que aumenta o rigor, não que adia a régua.

5 · O que muda a régua

Cinco condições transformam uma criança que caberia num degrau na criança do degrau anterior — isto é, aumentam o rigor da conduta em relação ao que a idade sozinha indicaria. Elas se perguntam antes de decidir destino, não depois.

Prematuridade. Menor competência imunológica, maior chance de apresentação atípica e de hipotermia em vez de febre. O prematuro febril nas primeiras semanas é avaliado com o rigor do recém-nascido, e o limiar para internar é mais baixo.

Vacinação incompleta. É a única variável do fluxograma brasileiro que separa duas condutas explicitamente dentro da faixa de 3 a 36 meses. Quem não recebeu as doses da idade contra pneumococo e contra Haemophilus influenzae tipo b tem risco de bacteremia oculta próximo do risco pré-vacinal. Pergunte pela caderneta e olhe a caderneta; "acho que está em dia" não é resposta, e caderneta esquecida em casa é caderneta incompleta até prova em contrário.

Comorbidade. Cardiopatia, nefropatia, pneumopatia crônica, desnutrição grave, síndromes genéticas, cateter central, cirurgia recente. Um caso tem regra escrita e é o mais esquecido: toda criança com doença falciforme que apresente febre deve ser referida à unidade hospitalar o mais breve possível — a asplenia funcional a coloca em risco de sepse pneumocócica fulminante, e ela não entra na conversa de "observar em casa".

Imunossupressão. Neutropenia por quimioterapia, imunodeficiência primária, uso de imunossupressor, infecção pelo HIV. Febre nessa criança é urgência com fluxo próprio, e a régua deste capítulo não se aplica: colhem-se culturas e inicia-se antibiótico de amplo espectro rapidamente, segundo o protocolo do serviço.

Uso recente de antibiótico. Antibiótico parcialmente administrado mascara sinais, esteriliza culturas e é, classicamente, o cenário em que uma meningite se apresenta decapitada. A pergunta "tomou algum remédio nos últimos dias, mesmo sobra de receita antiga ou remédio de outra pessoa?" muda a interpretação de tudo que vier depois.

6 · A febre que não é o que parece

Febre pós-vacinal. É esperada, costuma começar nas primeiras 24 a 48 horas depois da dose e é autolimitada. Ela não isenta a criança da avaliação — sobretudo o lactente pequeno, em que uma coincidência de datas não exclui infecção —, mas contextualiza. O que não se faz é antitérmico profilático de rotina antes de vacinar: evidências indicam que o paracetamol profilático pode reduzir a imunogenicidade de algumas vacinas, especialmente nas primeiras doses, ainda que os títulos de anticorpos geralmente permaneçam protetores. A orientação é usar antitérmico de forma terapêutica, em caso de febre ou dor significativa depois da vacinação; em situações especiais, como criança com reação adversa prévia ou de grupo de risco, o uso profilático pode ser considerado individualmente, pela relação risco-benefício.

Superaquecimento. Criança agasalhada em ambiente quente, no fim da tarde, com extremidades quentes e sudorese: isso é hipertermia, não febre, e o tratamento é tirar a roupa e refrescar o ambiente. Meça de novo depois de dez minutos antes de dar qualquer coisa.

Dentição. Erupção dentária não é causa de febre alta nem de febre por vários dias. Atribuir febre à dentição é o caminho mais curto para não procurar o foco em um lactente de 6 a 12 meses — que é justamente a faixa em que infecção urinária é frequente.

Febre com foco que só aparece depois. É a regra, não a exceção — e é por isso que reavaliação marcada é conduta, e não gentileza.

7 · Quando a febre deixa de ser deste capítulo

Assim que o foco aparece, o caso muda de dono, e o interno precisa saber para onde ele vai. Febre com exantema é assunto do capítulo de doenças exantemáticas. Febre com tosse, taquipneia ou tiragem é pneumonia adquirida na comunidade na criança. Febre com crise convulsiva no lactente é crise febril — e vale a nota que fecha a fronteira nos dois sentidos: a crise não muda a régua da febre. A criança que convulsionou continua sendo estratificada por idade, estado geral e caderneta como qualquer outra criança febril, e o que se investiga depois de a crise passar é a febre, não a crise.

Febre em área com transmissão de arbovírus, com início súbito, mialgia, dor retro-orbitária e exantema, é dengue na criança, com uma consequência de conduta que atravessa este capítulo: nesse contexto não se usam anti-inflamatórios não esteroidais, incluindo ibuprofeno, nem ácido acetilsalicílico, pelo risco aumentado de sangramento e de insuficiência renal em vigência de extravasamento plasmático. Vale ainda a inversão de leitura mais perigosa da dengue pediátrica: a queda súbita da febre entre o terceiro e o quinto dia pode marcar a entrada na fase crítica, e não a melhora.

Febre com rigidez de nuca, abaulamento de fontanela ou petéquias é doença febril muito grave: dá-se a primeira dose de antibiótico recomendado, trata-se a criança para evitar hipoglicemia e refere-se com urgência ao hospital — o manejo da meningite é de Meningites bacterianas e virais na infância, na apostila de Infectologia Pediátrica. Febre com sinais de disfunção orgânica, perfusão ruim, alteração de consciência ou hipotensão é a criança séptica: reconhecer, acionar ajuda, garantir acesso, colher cultura e iniciar antibiótico rapidamente, com o manejo detalhado em Choque na criança: hipovolêmico, séptico e distributivo, nesta apostila. E febre no lactente cuja história não fecha — lesão sem mecanismo compatível, atraso inexplicado na procura, versões que mudam — pede a leitura do capítulo de violência e maus-tratos infantis antes da alta.

Uma fronteira temporal, por fim. Febre com menos de sete dias sem foco é o assunto daqui. A partir do quinto dia de febre diária a investigação muda de escopo e a doença de Kawasaki entra na lista; a partir de 14 dias sem causa, o caso deixa de ser febre aguda e passa a ser febre de origem indeterminada, com investigação própria.

06

Como fechar o diagnóstico

O interno não erra por não conhecer a febre. Erra por pedir exame de sangue em quem não precisa e por não colher urina em quem precisa — as duas coisas no mesmo plantão, muitas vezes na mesma criança. O que organiza este bloco é uma pergunta antes de cada exame: o que este resultado vai mudar na conduta desta criança, hoje?

Se a resposta for "nada", o exame não é neutro. Ele custa punção, custa espera, custa vaga na sala de observação, e — sobretudo — produz números discretamente alterados que puxam o plantão para antibiótico que não seria dado. É assim que exame vira dano.

1 · O primeiro exame é o exame físico completo, e ele tem partes que se esquecem

Antes de qualquer decisão sobre laboratório, o rótulo "sem sinais localizatórios" precisa ser merecido. Ele só é legítimo depois de um exame com a criança despida, em ambiente com luz, com a família ajudando a posicionar. Criança examinada por cima da roupa não tem febre sem foco; tem febre sem exame.

A lista do que se esquece é curta e sempre a mesma. Otoscopia dos dois lados — otite média aguda é o foco oculto mais banal e o mais frequentemente não procurado, porque exige instrumento e paciência. Orofaringe, com abaixador, procurando vesícula, exsudato e abaulamento. Pele inteira, incluindo dobras, região retroauricular, couro cabeludo e a pesquisa ativa de petéquias — que exige olhar e não apenas passar a mão. Fontanela, com a criança sentada e calma. Coto umbilical, no recém-nascido. Genitália e região perianal, incluindo o escroto: torção e orquiepididimite se apresentam como choro e febre no lactente. Articulações e ossos longos, movimentando passivamente cada membro e observando se a criança protege ou chora com algum movimento — artrite séptica e osteomielite no lactente aparecem como "não usa o braço", não como dor localizada verbalizada. E o comportamento espontâneo, observado antes de tocar na criança.

Repetir o exame algumas horas depois é parte da investigação, não sinal de insegurança. Boa parte dos focos aparece no segundo exame — exantema que não estava, hiperemia timpânica que não estava, sopro que não estava. Registrar o horário dos dois exames é o que permite comparar.

2 · A urina é a primeira pergunta — e a régua dela é de outro capítulo

Nesta população, infecção urinária responde por 5% a 7% dos casos de febre sem sinais localizatórios e por 80% das infecções bacterianas graves encontradas na coorte brasileira que validou o protocolo. É a doença que a busca encontra. Por isso, no fluxograma nacional, urina aparece em quase todos os ramos: no recém-nascido, no lactente de 1 a 3 meses, no lactente vacinado de 3 a 36 meses e no não vacinado com temperatura mais alta.

A régua urinária é tema do capítulo de infecção do trato urinário na criança e sai remetida por inteiro: quando colher, por qual método segundo o controle esfincteriano, quais contagens de colônias fecham diagnóstico em cada método, o que um saco coletor autoriza e o que não autoriza, e como interpretar fita, sedimento e cultura. Nada disso se reescreve aqui.

O que fica deste lado da fronteira são duas frases operacionais. A primeira: lactente febril sem foco tem urina colhida — a decisão de colher é clínica e não depende do resultado de nenhum outro exame. A segunda: a urina é colhida antes da primeira dose de antibiótico, e essa é a única etapa irreversível do atendimento. Antibiótico dado antes da coleta esteriliza a amostra e apaga o diagnóstico que sustentaria dez dias de tratamento e uma investigação de imagem depois.

3 · O hemograma: o que ele responde, o que ele não responde e em quem ele entra

O hemograma foi criado, nesta indicação, para responder a uma pergunta única: esta criança em bom estado geral tem risco aumentado de bacteremia oculta? Tradicionalmente, segundo os critérios de Baraff, contagem acima de 15.000 leucócitos/mm³ marcava esse risco aumentado. O protocolo brasileiro usa corte mais alto e adiciona a contagem absoluta: leucócitos iguais ou superiores a 20.000/mm³ ou neutrófilos iguais ou superiores a 10.000/mm³ mandam seguir para hemocultura e radiografia de tórax; abaixo disso, mantém-se reavaliação diária.

O que mudou é que a pergunta ficou pequena. Evidências recentes demonstram o limitado valor diagnóstico do leucograma para evidenciar infecção bacteriana grave em lactentes febris, e a queda da prevalência de bacteremia oculta depois das vacinas conjugadas derrubou o valor preditivo positivo de qualquer corte. A neutropenia — contagem de neutrófilos abaixo de 1.500/mm³ —, considerada fator de risco pelos critérios de Rochester, não se confirmou como fator de risco para bacteremia oculta em estudo caso-controle com pacientes acima de três meses, o que coloca em dúvida a indicação imediata de antibiótico em lactente febril neutropênico não oncológico.

Onde o hemograma continua entrando no protocolo brasileiro: no recém-nascido, dentro da triagem completa; no lactente de 1 a 3 meses, como parte da estratificação de risco; e no lactente de 3 a 36 meses com vacinação incompleta, temperatura axilar acima de 39 °C e exame de urina sem leucocitúria significativa. Onde ele não entra: no lactente de 3 a 36 meses com vacinação completa e bom estado geral — nesse ramo o fluxograma pede pesquisa de vírus respiratório quando disponível, exame de urina e urocultura, e reavaliação diária. Sem hemograma.

O tamanho do desperdício está medido. Em serviço que passou a checar a situação vacinal antes de decidir, 100% dos lactentes de 6 a 24 meses com febre sem foco acima de 39 °C tinham hemograma colhido antes do protocolo; a taxa caiu 58% quando a vacinação antipneumocócica e antimeningocócica estava completa. E, em levantamento de serviços de emergência, 58,6% das crianças de até três anos com febre sem foco e bom estado geral não tiveram nenhum exame solicitado, com hemograma feito em apenas 20%.

4 · Hemocultura: baixa positividade, resultado tardio e um risco que justifica colher em quem se decidiu colher

A hemocultura é limitada pela baixa positividade e pelo tempo até o resultado. Em estudo prospectivo multicêntrico, houve crescimento bacteriano em 1,5% de 65.169 hemoculturas, com o pneumococo como germe mais frequentemente isolado, em 27,3% dos casos com crescimento; 47,1% das crianças tinham menos de um ano de vida. A taxa aceitável de hemoculturas contaminadas — tipicamente por estafilococo coagulase-negativo — é de 3% a 4%, e cada contaminante custa internação, gasto e antibiótico desnecessários.

O argumento a favor de colher, em quem o protocolo manda colher, é o desfecho que ela antecipa: lactentes com febre sem foco e bacteremia têm risco de aproximadamente 10% de desenvolver infecção focal como meningite, de modo que identificar precocemente uma hemocultura positiva pode evitar complicação bacteriana grave. Repare no encadeamento: a hemocultura não muda a conduta de hoje; muda a de depois de amanhã. É por isso que ela só faz sentido acoplada a um plano de reavaliação e a um telefone que funcione — colher hemocultura de uma criança que ninguém vai reencontrar é fazer o exame pela metade.

Consequência prática que o interno assina: quem colhe hemocultura fica responsável por buscar o resultado. Anote no prontuário quem vai checar, quando e por qual contato a família será localizada.

5 · Marcadores inflamatórios: o número que parece decidir e o que ele decide de fato

Proteína C reativa e procalcitonina entraram na conversa porque o leucograma decepcionou. A proteína C reativa tem sensibilidade discretamente melhor que o leucograma para esse propósito, mas também tem limitações para indicar isoladamente antibioticoterapia no paciente febril. A procalcitonina tem cinética mais favorável, com elevação já nas primeiras seis horas de febre, o que importa porque o lactente febril costuma chegar ao pronto-socorro justamente nas primeiras horas — quando a proteína C reativa ainda não subiu.

Os números de acurácia disponíveis vêm de coortes de lactentes com febre sem sinais localizatórios. Em 1.112 lactentes, infecção bacteriana grave foi diagnosticada em 2,1% dos casos, e procalcitonina acima de 0,5 ng/mL foi o único fator independente de risco, com razão de chances de 21,69. Em outro trabalho, com 868 lactentes com febre sem foco em bom estado geral à admissão, a procalcitonina no corte de 0,9 ng/mL teve sensibilidade de 86,7% e especificidade de 90,5%, enquanto a proteína C reativa no corte de 91 mg/L teve sensibilidade de 33,3% e especificidade de 95,9%. Há ainda o Lab-score, que combina procalcitonina, proteína C reativa e fita urinária numa pontuação de 0 a 9: no corte de 3, sensibilidade de 94% e especificidade de 78% para infecção bacteriana grave em crianças de sete dias a 36 meses.

Sensibilidade e especificidade, sozinhas, enganam. O que decide conduta é o valor preditivo, e ele depende da prevalência. Aplicando os mesmos números a 1.000 lactentes com febre sem sinais localizatórios e prevalência de infecção bacteriana grave de 2,1% — 21 doentes e 979 sadios: a procalcitonina acima de 0,9 ng/mL identifica 18,2 dos 21 doentes e marca positivo em 93,0 dos 979 sadios, num total de 111,2 positivos. Valor preditivo positivo de 16,4%: de cada 100 exames positivos, cerca de 16 correspondem a doença e 84 não. O valor preditivo negativo é de 99,7%.

A proteína C reativa acima de 91 mg/L, na mesma população, identifica 7,0 dos 21 doentes e marca positivo em 40,1 dos 979 sadios: valor preditivo positivo de 14,8% e negativo de 98,5% — mas com razão de verossimilhança negativa de 0,70, o que significa que um resultado normal quase não move a probabilidade. O Lab-score igual ou maior que 3 identifica 19,7 dos 21 doentes ao custo de 215,4 positivos falsos: valor preditivo positivo de 8,4% e negativo de 99,8%.

A leitura prática é a mesma para os três: no lactente febril sem foco em bom estado geral, marcador inflamatório alterado não confirma infecção bacteriana grave, e marcador normal quase a exclui. São exames para tranquilizar, não para acusar. Quem trata com base apenas num deles trata cerca de cinco crianças sem doença para cada uma com doença.

Em população mais grave, a mesma acurácia produz outra conta. Com prevalência de 9,3% — a da coorte brasileira que validou o protocolo, que incluía recém-nascidos e lactentes jovens —, a procalcitonina acima de 0,9 ng/mL passa a ter valor preditivo positivo de 48,3% e a proteína C reativa acima de 91 mg/L, de 45,4%. É a mesma tecnologia, funcionando muito melhor: o marcador não melhorou, a população mudou. É por isso que o protocolo brasileiro reserva laboratório para as faixas de maior risco e libera a faixa de menor risco de exames.

Uma nota de realidade de rede fecha a seção: a procalcitonina, que é o melhor dos três nesses estudos, é o menos disponível na maior parte dos serviços públicos brasileiros, e o fluxograma nacional não a inclui em nenhum ramo.

Grade de mil pontos com 18 verdadeiros positivos, 93 falsos positivos, 3 falsos negativos e 886 verdadeiros negativos; o contorno reúne os 111 resultados positivos.
Simulação didática com contagens arredondadas: de 111 testes positivos, 18 pertencem a crianças com a doença, produzindo valor preditivo positivo de aproximadamente 16%. Os parâmetros de partida são prevalência de 2,1%, sensibilidade de 86,7% e especificidade de 90,5%. Não é uma coorte observada: o exemplo demonstra como a baixa frequência prévia pode limitar a interpretação de um resultado positivo.

6 · Radiografia de tórax, punção lombar e pesquisa de vírus respiratório

Radiografia de tórax não se pede de rotina em criança sem sinais ou sintomas respiratórios, mesmo frustros. No fluxograma brasileiro ela aparece em dois lugares: na triagem completa de quem tem comprometimento do estado geral ou é recém-nascido, e no ramo do lactente não vacinado com leucocitose, para procurar pneumonia oculta — se o filme vier alterado, o diagnóstico passa a ser pneumonia e o caso sai deste capítulo; se vier normal, o que resta é risco de bacteremia oculta.

Punção lombar tem três indicações claras dentro desta régua. A primeira: recém-nascido com febre sem foco, em que ela integra a triagem de rotina, porque o exame não exclui meningite nessa idade. A segunda: qualquer criança com comprometimento do estado geral, independentemente da idade. A terceira: lactente de 1 a 3 meses classificado como de alto risco pelos critérios laboratoriais. Fora disso, punção lombar não faz parte da avaliação de rotina da febre sem foco — e a criança de qualquer idade com rigidez de nuca, abaulamento de fontanela ou petéquias não está mais neste capítulo: recebe a primeira dose de antibiótico e é referida com urgência. O manejo da meningite é tema próprio.

Um ponto de sequência que se perde no plantão: quando a punção lombar está indicada e vai demorar — falta de material, falta de quem faça, criança instável —, o antibiótico não espera. Colhem-se as hemoculturas, inicia-se o antibiótico e faz-se a punção quando for seguro; o líquor tratado ainda informa muito, e a meningite não tratada não perdoa a demora.

A pesquisa de vírus respiratório aparece em quase todos os ramos do fluxograma brasileiro com a ressalva "quando disponível", e a lógica é simples: identificar um vírus respiratório numa criança febril sem foco reduz a probabilidade de infecção bacteriana concomitante e ajuda a sustentar a decisão de observar em vez de tratar. É um exame que serve para retirar intervenção, não para acrescentar.

7 · O que não pedir, e o preço de pedir

Hemograma e hemocultura de rotina no lactente de 3 a 36 meses com bom estado geral e vacinação completa. É a recomendação explícita da literatura brasileira sobre bacteremia oculta e é o que o fluxograma nacional faz. O preço de pedir: punção venosa desnecessária, e — pior — a chance real de encontrar leucocitose discreta em criança com virose, o que empurra o plantão para ceftriaxona sem indicação.

Proteína C reativa "para saber se é vírus ou bactéria". Nenhum marcador faz essa separação sozinho, e o valor preditivo positivo calculado acima explica por quê. O preço de pedir é o mesmo: tratar quem não precisa.

Radiografia de tórax sem sintoma respiratório, em criança de 3 a 36 meses. O preço é radiação, custo e achado duvidoso lido como pneumonia.

Repetir hemograma no dia seguinte porque a febre continua, sem nada novo no exame. Febre no segundo dia é o comportamento esperado de uma virose; o que se repete é o exame físico, não a punção.

Antibiótico empírico "para cobrir" em criança de 3 a 36 meses, vacinada, em bom estado geral e sem foco. O preço é duplo: mascara o diagnóstico que apareceria em 24 horas e esteriliza a urocultura que ainda não foi colhida.

Exames "porque a família quer". Esse é o pedido mais comum e o menos defensável. A resposta não é recusar de mau humor — é ocupar o espaço com outra coisa: explicar o que a febre é, o que você examinou, o que vai reavaliar e quando, e entregar por escrito o que deve fazer a família voltar antes. Família que sai com plano não sai com exame.

Uma exceção que não é exceção: quando o seguimento não é possível — família sem condição de retornar, sem transporte, sem telefone, criança de área distante —, a régua não muda, mas o destino muda. O protocolo brasileiro é explícito: em caso de incerteza do seguimento, opta-se por manter o paciente em regime hospitalar. A alternativa à observação em casa não é pedir mais exames; é observar dentro do serviço.

8 · O diferencial, que mora aqui dentro

Separar o diferencial em bloco próprio mentiria sobre como se raciocina: o exame que confirma um diagnóstico é o mesmo que exclui outro. A lista dos focos ocultos da criança febril sem sinais localizatórios é curta e cada item tem seu exame.

Infecção urinária — o mais frequente, encontrado pelo exame de urina e pela urocultura colhida por método confiável; régua remetida ao capítulo próprio. Pneumonia oculta — encontrada pela radiografia de tórax, indicada quando há sintoma respiratório ou leucocitose no ramo do não vacinado; manejo remetido ao capítulo de pneumonia adquirida na comunidade na criança. Bacteremia oculta — encontrada pela hemocultura, hoje rara em criança vacinada. Meningite bacteriana — encontrada pela punção lombar, obrigatória no recém-nascido e em quem tem comprometimento do estado geral; manejo remetido. Gastroenterite bacteriana — coprocultura apenas se houver diarreia. Osteomielite e artrite séptica — encontradas no exame físico, pela recusa de mover um membro, não em exame de sangue. Otite média aguda — encontrada na otoscopia, e só nela.

Fora do território bacteriano, três hipóteses mudam tudo e não aparecem em nenhum exame de triagem. Arbovirose, em área com transmissão, mudando o antitérmico e a vigilância — capítulo próprio. Doença de Kawasaki, que entra a partir do quinto dia de febre — ou já no quarto, com quatro ou mais critérios clássicos, pela AHA 2017 —; os critérios e a forma incompleta estão em Doença de Kawasaki: critérios diagnósticos e tratamento, na apostila de Infectologia Pediátrica. E maus-tratos, quando a história não fecha com o exame — capítulo próprio, na mesma apostila.

O que existe no SUS, para fechar: exame de urina, urocultura, hemograma, hemocultura e radiografia de tórax estão disponíveis em serviço de urgência da rede pública, e é com esses cinco que o protocolo nacional foi desenhado e validado. Procalcitonina, Lab-score e pesquisa de vírus respiratório existem de forma desigual — o fluxograma trata a pesquisa viral como "quando disponível" e não usa procalcitonina em nenhum ramo. Planejar a conduta com o exame que o serviço não tem é a forma mais silenciosa de não ter conduta nenhuma.

07

A régua por idade, os parâmetros de alerta e as doses

O fluxograma nacional cabe em três perguntas feitas nesta ordem: o estado geral está comprometido? Que idade a criança tem, em dias? A caderneta está completa para a idade? Nenhuma das três é sobre a temperatura.

  1. 11 · Confirme a febre. Temperatura axilar igual ou superior a 37,5 °C com termômetro digital — ou 38 °C oral ou retal —, ou relato de febre, ou criança quente ao toque. Valor de fronteira em criança agasalhada: dispa, espere e meça de novo antes de rotular.
  2. 22 · Avalie o estado geral de forma estruturada: frequência cardíaca, frequência respiratória e saturação, enchimento capilar, hidratação, atividade e responsividade. Anote os números, não a impressão.
  3. 33 · Estado geral comprometido em qualquer idade: suporte imediato, avaliação de sepse e internação. Colha culturas oportunamente, mas não atrase antibiótico por dificuldade de coleta, punção lombar ou imagem. Punção depende de estabilidade e indicação; radiografia de tórax responde a suspeita clínica, não é exame automático de toda febre.
  4. 44 · Estado geral preservado: procure o foco com exame físico completo, com a criança despida, incluindo otoscopia, orofaringe, pele inteira, fontanela, genitália e ossos longos. Achou o foco, trate o foco — a criança sai deste fluxo.
  5. 55 · Sem foco, 0–29 dias: o percurso conservador aqui adotado indica internação, investigação de infecção invasiva e antibiótico empírico conforme protocolo neonatal. Inclua culturas e avaliação liquórica quando segura; imagem e testes virais dependem do contexto. Boa aparência não garante baixo risco.
  6. 66 · Sem foco, 30–89 dias, previamente hígido e com bom estado geral: aplicar integralmente a estratégia de estratificação adotada pela unidade. O quadro de Rochester descrito é uma referência do percurso nacional, não sinônimo de protocolos atuais que incorporam procalcitonina. Prematuridade, comorbidades, antibiótico prévio e outros critérios de exclusão exigem avaliação individual.
  7. 76a · Baixo risco: reavaliação diária obrigatória, com retorno marcado em 24 horas e telefone anotado.
  8. 86b · Alto risco: internação, culturas e avaliação de infecção invasiva, com líquor quando indicado e seguro, e antibiótico empírico. Exames não adiam suporte nem tratamento necessário.
  9. 97 · Sem foco, 3 a 36 meses, vacinação completa para a idade: pesquisa de vírus respiratório quando disponível, exame de urina e urocultura; reavaliação diária. Sem hemograma e sem hemocultura de rotina.
  10. 108 · Sem foco, 3 a 36 meses, vacinação incompleta: pesquisa de vírus respiratório quando disponível, e a seguir o corte de temperatura.
  11. 118a · Temperatura axilar igual ou inferior a 39 °C: reavaliação diária, considerando exame de urina e urocultura.
  12. 128b · Temperatura axilar acima de 39 °C: exame de urina e urocultura.
  13. 139 · Exame de urina com leucocitúria significativa: trate como infecção urinária e siga a régua do capítulo próprio, com a urocultura colhida antes do antibiótico.
  14. 1410 · Exame de urina sem leucocitúria significativa: hemograma. Leucócitos abaixo de 20.000/mm³ e neutrófilos abaixo de 10.000/mm³: reavaliação diária, sem antibiótico.
  15. 1511 · Leucócitos iguais ou superiores a 20.000/mm³ ou neutrófilos iguais ou superiores a 10.000/mm³: hemocultura e radiografia de tórax. Radiografia alterada é pneumonia — trate como tal.
  16. 1612 · Radiografia normal com leucocitose no não vacinado: risco de bacteremia oculta. Ceftriaxona 50 mg/kg por via intramuscular, uma vez ao dia, com reavaliação diária até o resultado final das culturas.
  17. 1713 · Em qualquer ramo ambulatorial: reavaliação marcada em 24 horas, sinais de retorno imediato escritos e entregues, e antitérmico prescrito por desconforto com a dose em miligramas e em mililitros. Sem seguimento garantido, o destino é observação no serviço.
  18. 1814 · Febre diária por mais de cinco dias sem foco: investigação ampliada, com a doença de Kawasaki entrando na lista. Febre igual ou superior a 38,3 °C por 14 dias ou mais, sem causa: febre de origem indeterminada, com investigação própria.

Estado geral vence idade, e idade vence temperatura

A ordem das três perguntas não é estilística. Comprometimento do estado geral interna e trata em qualquer idade. Idade define o pacote de exames e o destino quando o estado geral está preservado. Temperatura só aparece em um lugar do fluxograma inteiro — no corte de 39 °C do lactente de 3 a 36 meses com vacinação incompleta. Quem começa pela temperatura inverte a régua.

O que "vacinação completa" quer dizer aqui

Verifique especialmente a proteção para a idade contra pneumococo e Haemophilus influenzae tipo b. Diferencie doses comprovadas, atraso documentado e informação ainda não confirmada. Caderneta esquecida não demonstra ausência de vacinação; registre a incerteza e defina como será resolvida.

Reavaliação diária é prescrição, não conselho

"Reavaliação diária" aparece em cinco dos ramos do fluxograma e é o que autoriza mandar para casa uma criança febril sem diagnóstico. Prescrição significa: data e hora do retorno escritas, unidade nomeada, telefone da família anotado no prontuário, e quem vai checar as culturas identificado. Reavaliação combinada de boca é a diferença entre observação e abandono.

Antitérmico: o alvo é o conforto, não o número

Não existe valor de temperatura fixado por consenso a partir do qual se medica. A indicação é desconforto evidente: choro intenso, irritabilidade, redução da atividade, redução do apetite, distúrbio do sono. Um antitérmico só, com dose em miligramas e em mililitros para o peso daquela criança. Sem alternância, sem antitérmico de horário e sem métodos físicos fora da hipertermia.

Faixa e situaçãoO que se colheDestinoAntibiótico empíricoReavaliação
Qualquer idade, estado geral comprometidoHemocultura, urocultura, líquor conforme indicação e estabilidade; radiografia de tórax quando houver suspeita respiratóriaInternaçãoSimContínua, no hospital
Menos de 30 dias, estado geral preservadoPesquisa viral, hemograma, hemocultura, exame de urina, urocultura, líquor conforme indicação e estabilidade; radiografia de tórax quando houver suspeita respiratóriaInternaçãoSimContínua, no hospital
1 a 3 meses, baixo risco por RochesterPesquisa viral, hemograma, exame de urinaDomicílioNãoDiária obrigatória, retorno em 24 h
1 a 3 meses, alto risco por RochesterHemocultura, urocultura, líquor conforme indicação e estabilidade; radiografia de tórax quando houver suspeita respiratóriaInternaçãoSimContínua, no hospital
3 a 36 meses, vacinação completaPesquisa viral quando disponível, exame de urina, uroculturaDomicílioNãoDiária
3 a 36 meses, vacinação incompleta, Tax ≤ 39 °CPesquisa viral quando disponível; considerar exame de urina e uroculturaDomicílioNãoDiária
3 a 36 meses, vacinação incompleta, Tax > 39 °C, urina com leucocitúriaExame de urina e uroculturaConforme a régua da infecção urináriaSim, dirigido ao trato urinárioConforme o capítulo próprio
3 a 36 meses, vacinação incompleta, Tax > 39 °C, urina sem leucocitúria, leucócitos < 20.000 e neutrófilos < 10.000HemogramaDomicílioNãoDiária
3 a 36 meses, vacinação incompleta, leucócitos ≥ 20.000 ou neutrófilos ≥ 10.000, radiografia normalHemograma, hemocultura, radiografia de tóraxDomicílio, se o seguimento for garantidoCeftriaxona 50 mg/kg IM 1×/diaDiária até o resultado final das culturas

Parâmetros de alerta na avaliação da criança febril

ParâmetroFaixa etáriaValor de alerta
Frequência cardíacaMenos de 12 meses≥ 160 bpm
Frequência cardíaca12 a 24 meses≥ 150 bpm
Frequência cardíaca2 a 5 anos≥ 140 bpm
Frequência respiratória6 a 12 meses> 50 irpm
Frequência respiratóriaAcima de 12 meses> 40 irpm
Saturação de oxigênioQualquer≤ 95%
Enchimento capilarQualquer> 3 segundos (> 2 segundos pela régua da atenção básica)
HidrataçãoQualquerMucosas secas, turgor diminuído
Atividade e responsividadeQualquerLetargia, irritabilidade que não se consola, resposta reduzida ao estímulo
Sinais gerais de perigoQualquerNão consegue beber ou mamar; vomita tudo; convulsão ou movimento anormal há menos de 72 h; letargia ou inconsciência; batimento de asa do nariz ou gemência

Antitérmico para desconforto: dose por peso e volume na apresentação disponível no SUS

Droga e apresentaçãoA partir deDose por tomadaIntervaloTeto diário4 kg7 kg10 kg
Paracetamol solução oral 200 mg/mLNeonatos acima de 3 kg10 a 15 mg/kg4 a 6 horas50 a 75 mg/kg/dia40 a 60 mg = 0,20 a 0,30 mL70 a 105 mg = 0,35 a 0,53 mL100 a 150 mg = 0,50 a 0,75 mL
Dipirona solução oral 500 mg/mL (25 mg por gota)3 meses e acima de 5 kg10 a 16 mg/kg6 a 8 horas40 a 64 mg/kg/dianão indicada nessa idade e peso70 a 112 mg = 0,14 a 0,22 mL (3 a 4 gotas)100 a 160 mg = 0,20 a 0,32 mL (4 a 6 gotas)
Ibuprofeno suspensão oral 50 mg/mL6 meses e acima de 5 kg5 a 10 mg/kg6 a 8 horas40 mg/kg/dianão indicado nessa idade35 a 70 mg = 0,70 a 1,40 mL50 a 100 mg = 1,00 a 2,00 mL

Critérios laboratoriais de baixo risco no lactente febril de até 90 dias

CritérioBostonFiladélfiaRochester
Idade (dias)28 a 8929 a 560 a 60
Temperatura (°C)≥ 38,0≥ 38,2≥ 38,0
Leucócitos/mm³5.000 a 20.000< 15.0005.000 a 15.000
BastõesNão consideradosÍndice neutrofílico < 0,2< 1.500/mm³
Urinálise< 10 leucócitos/campo< 10 leucócitos/campo< 10 leucócitos/campo
Líquor< 10 leucócitos/mm³< 8 leucócitos/mm³Apenas se leucopenia ou leucocitose
Leucócitos fecaisSe diarreiaSe diarreiaSe diarreia
Radiografia de tóraxSe sintomas respiratóriosEm todos os pacientesSe sintomas respiratórios

Valor preditivo dos marcadores em 1.000 lactentes febris sem foco (prevalência de infecção bacteriana grave de 2,1%: 21 doentes e 979 sadios)

Marcador e corteSensibilidadeEspecificidadePositivos verdadeirosPositivos falsosValor preditivo positivoValor preditivo negativo
Procalcitonina > 0,9 ng/mL86,7%90,5%18,293,016,4%99,7%
Proteína C reativa > 91 mg/L33,3%95,9%7,040,114,8%98,5%
Lab-score ≥ 394%78%19,7215,48,4%99,8%

Portas de entrada e limites do percurso

GrupoDecisão a demonstrarLimite para aplicar baixo risco
Qualquer idade com alteração clínicaSuporte, investigação dirigida e tratamento urgenteNão aplicar escore de criança bem a quem deteriorou.
0–29 diasAvaliação hospitalar e estratégia neonatal conservadora descritaExame normal e afebril após antitérmico não afastam infecção.
30–89 dias, bem e sem exclusõesAplicar todos os componentes de uma estratégia validada e o retornoNão trocar Rochester por um marcador isolado; conferir critérios de inclusão.
90 dias–36 meses, bemInvestigar conforme clínica, risco de ITU e vacinação comprovadaSituação vacinal incerta precisa ser registrada; não equivale a atraso demonstrado.
Qualquer proposta de altaResultados pendentes com responsável e reavaliação acessívelSem capacidade de retorno ou observação confiável, rever o destino.

Nota de leitura sobre o fluxograma nacional. A Tabela 1 do documento científico de 2025 traz, no ramo do lactente de 3 a 36 meses com vacinação incompleta, dois retângulos irmãos com o mesmo rótulo: "Tax ≤ 39 °C" nos dois. Nas versões anteriores do mesmo fluxograma — a recomendação da Sociedade de Pediatria de São Paulo, de 2019, e o documento científico de 2021 —, os rótulos são "Tax ≤ 39 °C" e "Tax ≥ 39 °C". A leitura correta é a das versões anteriores, e ela também é a única compatível com o desenho das setas: o ramo da temperatura mais baixa segue para reavaliação diária considerando exame de urina, e o da temperatura mais alta segue para exame de urina e urocultura obrigatórios. Este capítulo adota o corte em 39 °C, com o lado alto sendo "acima de 39 °C".

Nota sobre os cortes de leucocitúria do mesmo fluxograma. As duas caixas de sedimento urinário aparecem como "≤ 5 x 10⁴/mL" e "> 5 x 10⁵/mL", nas três versões publicadas do fluxograma — o que deixa a faixa entre 50.000 e 500.000 leucócitos por mililitro sem ramo definido. O corte é único e o expoente de um dos lados está trocado. Na prática do plantão isso raramente decide, porque a leitura do sedimento vem em leucócitos por campo e o que separa é leucocitúria significativa ou ausente; a definição operacional de leucocitúria e a conduta que se segue a ela são da régua da infecção urinária na criança.

Nota sobre os cortes do hemograma. Os dois ramos do fluxograma são escritos como "leucócitos ≤ 20.000/mm³ ou neutrófilos ≤ 10.000/mm³" e "leucócitos ≥ 20.000/mm³ ou neutrófilos ≥ 10.000/mm³". Com o conectivo "ou" dos dois lados e os mesmos números nas duas bordas, uma criança com 15.000 leucócitos e 12.000 neutrófilos satisfaz os dois ramos ao mesmo tempo. A leitura que preserva a intenção é: segue para hemocultura e radiografia quem tiver leucócitos iguais ou acima de 20.000/mm³ ou neutrófilos iguais ou acima de 10.000/mm³; segue para reavaliação diária quem estiver abaixo dos dois. É a régua usada neste capítulo.

Teto diário de paracetamol não é dose-alvo. O documento citado apresenta limites diferentes conforme o contexto. Neonatos, hepatopatia, desnutrição, jejum ou desidratação exigem avaliação e esquema próprios; não se considera 60 mg/kg/dia universalmente seguro nessas situações. Some todas as apresentações usadas e confira dose, intervalo e duração com o responsável.

Nota sobre a combinação de dose e intervalo. Paracetamol na dose máxima de 15 mg/kg a cada 4 horas dá 6 tomadas e 90 mg/kg/dia — 1,2 vez o teto de 75 mg/kg/dia. O intervalo de 4 horas só é compatível com o teto usando dose menor; com 15 mg/kg, o intervalo mínimo seguro é de 6 horas, que fecha em 60 mg/kg/dia. Dipirona a 16 mg/kg a cada 6 horas fecha exatamente em 64 mg/kg/dia, e ibuprofeno a 10 mg/kg a cada 6 horas fecha exatamente em 40 mg/kg/dia: nesses dois, a dose máxima e o intervalo mínimo já ocupam o teto inteiro, e não sobra espaço para dose de resgate.

08

A conduta, hora a hora

A avaliação acompanha a criança desde a triagem até a resolução e o resultado das culturas. Defina primeiro gravidade, depois idade exata e contexto de risco. Os grupos deste percurso nacional são 0–29 dias, 30–89 dias e a partir de 90 dias até 36 meses; protocolos internacionais podem usar outros cortes e critérios. Não combine os exames de uma estratégia com a regra de alta de outra. Piora durante a observação reabre a avaliação imediatamente.

As doses abaixo vêm do quadro de antitérmicos do documento científico brasileiro sobre febre aguda, das apresentações financiadas pelo SUS conforme a Relação Nacional de Medicamentos Essenciais, e do fluxograma nacional de febre sem sinais localizatórios. Onde a dose depende de idade gestacional e de idade pós-natal — o esquema do recém-nascido —, isso está dito, porque é exatamente essa dependência que torna o recém-nascido febril um caso de internação e não de prescrição na porta.

  1. Minuto 0 — triagem, e a única medida que você mesmo faz

    Meça a temperatura você, ou veja quem mediu. Termômetro digital, axila, criança sem excesso de roupa. Ao mesmo tempo, colha da família o número que ela obteve em casa, com qual aparelho e em que local do corpo — porque o pico de 39,8 °C de ontem à noite entra na história ainda que a criança chegue afebril. Registre a idade em dias se for menor de três meses. E pergunte, antes de qualquer outra coisa, se a criança está mamando ou bebendo, se vomita tudo e se teve convulsão.

    Prescrição
    • Aferir temperatura axilar com termômetro digital; abaixo de 1 ano, apenas termômetro digital, em qualquer ambiente.
    • Registrar: temperatura aferida, temperatura relatada e método usado em casa, idade em dias (se menor de 3 meses), peso, frequência cardíaca, frequência respiratória, saturação, enchimento capilar.
    • Valor de fronteira em criança agasalhada: despir, aguardar 10 minutos em ambiente fresco e repetir a medida antes de rotular como febre.
  2. Minuto 5 — a pergunta que vence todas as outras

    Descreva atividade, responsividade, perfusão, hidratação, frequência cardíaca e respiratória e saturação. Se houver comprometimento, inicie suporte e discuta sepse e internação. Colha culturas rapidamente quando possível antes do antibiótico, sem fazer a sequência depender da punção lombar ou de toda a lista de exames. Sinais neurológicos orientam investigação de meningite; instabilidade pode exigir adiar a punção e tratar enquanto se estabiliza.

    Prescrição
    • Estado geral comprometido, qualquer idade: internação, com coleta de hemocultura, urocultura, líquor e radiografia de tórax se houver indicação clínica respiratória, e antibiótico empírico logo após as culturas.
    • Ceftriaxona 50 a 100 mg/kg/dia por via intravenosa é o esquema empírico descrito para o lactente febril de risco fora do período neonatal, mantido até o resultado das culturas quando não há meningite.
    • Rigidez de nuca, abaulamento de fontanela ou petéquias: primeira dose de antibiótico recomendado, medida para evitar hipoglicemia e referência urgente ao hospital — manejo da meningite em capítulo próprio.
    • Sinais de disfunção orgânica, perfusão ruim, alteração de consciência ou hipotensão: acionar ajuda, garantir acesso, colher culturas e iniciar antibiótico rapidamente — manejo em Choque na criança: hipovolêmico, séptico e distributivo, nesta apostila.
    • NÃO adiar o antibiótico esperando vaga para punção lombar quando a criança está grave: colher hemoculturas, tratar e puncionar quando for seguro.
  3. Minuto 15 — a anamnese que muda a régua

    Cinco perguntas mudam o destino desta criança, e nenhuma delas é sobre a altura da febre. Idade exata em dias. Caderneta de vacinação, com a caderneta na mão. Prematuridade e peso ao nascer. Comorbidade — com atenção especial a doença falciforme, cateter, imunossupressão. E uso recente de antibiótico, incluindo sobra de receita antiga e remédio de outra pessoa. Pergunte também o que a família já deu e o que já tentou: banho frio, álcool, chá, antitérmico e qual, em que dose e em que apresentação.

    Prescrição
    • Registrar a situação vacinal a partir da caderneta física ou do registro eletrônico: doses da idade da pneumocócica conjugada e da vacina contra Haemophilus influenzae tipo b feitas ou não feitas.
    • Caderneta/registro indisponível: registrar situação vacinal não comprovada, tentar confirmação e justificar como essa incerteza influencia o plano.
    • Criança com doença falciforme e febre: referir à unidade hospitalar o mais breve possível, independentemente do estado geral.
    • Criança imunossuprimida ou com neutropenia por quimioterapia: sair desta régua e seguir o fluxo de neutropenia febril do serviço, com culturas e antibiótico de amplo espectro rapidamente — a primeira hora da criança com câncer e febre está no capítulo A febre que não espera, na apostila de Oncologia.
  4. Minuto 30 — o exame que autoriza dizer "sem foco"

    Despir a criança inteira, com luz, com calma e com a família ajudando. O rótulo de febre sem sinais localizatórios só é honesto depois disso — e o exame precisa passar pelos pontos que se esquecem, listados no bloco de investigação. Observe o comportamento espontâneo antes de tocar na criança, porque depois do primeiro toque você já não vê mais o basal.

    Prescrição
    • Exame físico completo com a criança despida, incluindo otoscopia bilateral, orofaringe, pele integral, fontanela, genitália e ossos longos.
    • Registrar o horário do exame — o segundo exame, horas depois, é parte da investigação e precisa de referência para comparação.
    • Achado de foco encerra este fluxo: tratar o foco e seguir o capítulo correspondente.
  5. Hora 1 — a régua da idade, parte 1: menos de 30 dias

    Aqui a decisão não é sua, e essa é a boa notícia. Recém-nascido com febre sem foco fica no hospital, faz triagem completa e recebe antibiótico empírico, mesmo com exame físico impecável. O papel do interno não é escolher a droga: é não deixar esse bebê ir para casa. A dose do esquema neonatal depende da idade gestacional e da idade pós-natal e vem do protocolo de sepse neonatal do serviço — e é justamente essa dependência que faz do recém-nascido um caso de internação, e não de prescrição de porta.

    Prescrição
    • Internação, com coleta de pesquisa de vírus respiratório, hemograma, hemocultura, exame de urina por método confiável, urocultura, líquor e radiografia de tórax se houver indicação clínica respiratória.
    • Antibiótico empírico após as culturas: penicilina (ampicilina) associada a aminoglicosídeo é o esquema descrito no protocolo público brasileiro para essa faixa; a dose segue o protocolo de sepse neonatal do serviço, por depender da idade gestacional e pós-natal.
    • Hipotermia — temperatura axilar abaixo de 36 °C — no recém-nascido tem o mesmo peso de alarme que febre e entra na mesma conduta.
    • NÃO usar exame físico normal como argumento para alta nessa faixa etária: ele não exclui infecção invasiva.
  6. Hora 1 — a régua da idade, parte 2: 1 a 3 meses

    É a única faixa em que exame de laboratório decide destino em criança que parece bem. Colhe-se pesquisa de vírus respiratório, hemograma e exame de urina, e a criança é classificada como de baixo ou de alto risco pelos critérios laboratoriais. Baixo risco vai para casa com reavaliação diária obrigatória; alto risco fica, com culturas completas, líquor e antibiótico empírico. Baixo risco não é sinônimo de "sem risco": é a autorização condicional a um retorno marcado que vai acontecer.

    Prescrição
    • Coleta inicial: pesquisa de vírus respiratório quando disponível, hemograma e exame de urina.
    • Baixo risco: domicílio com reavaliação diária obrigatória, retorno marcado em 24 horas, telefone da família no prontuário e sinais de retorno imediato entregues por escrito.
    • Alto risco: internação com hemocultura, urocultura, líquor e radiografia de tórax se houver indicação clínica respiratória, e antibiótico empírico com ceftriaxona 50 a 100 mg/kg/dia até o resultado das culturas, quando não há meningite.
    • Urina colhida por método confiável antes da primeira dose de antibiótico — a régua de método é a do capítulo de infecção urinária na criança.
  7. Hora 1 — a régua da idade, parte 3: 3 a 36 meses com vacinação completa

    Esta é a faixa em que o Brasil pede mais exames do que precisa. Criança de 3 a 36 meses, caderneta completa para a idade, bom estado geral e sem foco: a temperatura, por mais alta que esteja, não acrescenta um único exame aqui.

    Prescrição
    • Pesquisa de vírus respiratório quando disponível; exame de urina e urocultura colhidos por método confiável.
    • Reavaliação diária marcada, com retorno em 24 horas.
    • NÃO colher hemograma nem hemocultura de rotina nessa faixa com bom estado geral e vacinação completa.
    • NÃO prescrever antibiótico empírico sem foco identificado nesse ramo.
    • Antitérmico prescrito por desconforto, com a dose em miligramas e em mililitros para o peso da criança.
  8. Hora 1 — a régua da idade, parte 4: 3 a 36 meses com vacinação incompleta

    Sem as doses da idade contra pneumococo e contra Haemophilus, a criança volta para a régua antiga — e é aqui que a temperatura finalmente entra no fluxograma, no único lugar em que ela entra. O encadeamento a partir do corte de 39 °C está na prescrição abaixo e no fluxo do bloco de critérios.

    Prescrição
    • Temperatura axilar ≤ 39 °C: reavaliação diária, considerando exame de urina e urocultura.
    • Temperatura axilar > 39 °C: exame de urina e urocultura obrigatórios.
    • Urina com leucocitúria significativa: tratar como infecção urinária, com a urocultura colhida antes do antibiótico — régua no capítulo próprio.
    • Urina sem leucocitúria significativa: hemograma. Leucócitos < 20.000/mm³ e neutrófilos < 10.000/mm³: reavaliação diária, sem antibiótico.
    • Leucócitos ≥ 20.000/mm³ ou neutrófilos ≥ 10.000/mm³: hemocultura e radiografia de tórax.
    • Radiografia alterada: tratar como pneumonia — capítulo próprio.
    • Radiografia normal com leucocitose: ceftriaxona 50 mg/kg por via intramuscular, uma vez ao dia, com reavaliação diária até o resultado final das culturas.
    • Registrar quem vai checar as culturas, quando, e por qual telefone a família será localizada.
  9. Hora 2 — o antitérmico, que trata a criança e não o número

    Antitérmico tem uma indicação e uma só: desconforto evidente — choro intenso, irritabilidade, redução da atividade, redução do apetite, distúrbio do sono. Não existe valor de temperatura fixado por consenso a partir do qual se medica. Escolha um antitérmico e mantenha-o. Escreva a dose nas duas unidades, em miligramas e em mililitros ou gotas, para o peso daquela criança — porque a família dosa em mililitros, não em miligramas por quilo. Vale saber o tamanho do problema que essa frase resolve: em levantamento brasileiro com 575 cuidadores, 43,3% das crianças receberam subdose, 48,7% dose adequada e 8,0% dose acima da terapêutica, e um dos fatores apontados foi o gotejador, que muitas vezes entrega gotas de volume pequeno.

    Prescrição
    • Paracetamol solução oral 200 mg/mL: 10 a 15 mg/kg por dose, a cada 4 a 6 horas, teto de 75 mg/kg/dia. Lactente de 4 kg: 40 a 60 mg = 0,20 a 0,30 mL. De 7 kg: 70 a 105 mg = 0,35 a 0,53 mL. De 10 kg: 100 a 150 mg = 0,50 a 0,75 mL. É o único antitérmico recomendado abaixo de um mês de idade, com a dose ajustada segundo a idade gestacional.
    • Dipirona solução oral 500 mg/mL, com 25 mg por gota: 10 a 16 mg/kg por dose, a cada 6 a 8 horas, teto de 40 a 64 mg/kg/dia, a partir de 3 meses e 5 kg. Lactente de 7 kg: 70 a 112 mg = 0,14 a 0,22 mL, ou 3 a 4 gotas. De 10 kg: 100 a 160 mg = 0,20 a 0,32 mL, ou 4 a 6 gotas.
    • Ibuprofeno suspensão oral 50 mg/mL: 5 a 10 mg/kg por dose, a cada 6 a 8 horas, teto de 40 mg/kg/dia, a partir de 6 meses e 5 kg. Lactente de 7 kg: 35 a 70 mg = 0,70 a 1,40 mL. De 10 kg: 50 a 100 mg = 1,00 a 2,00 mL.
    • Escrever a dose sempre em duas unidades e conferir a concentração do frasco que a família tem em casa antes de dar o número de gotas.
    • NÃO usar a regra popular de uma gota de dipirona por quilo: na apresentação de 500 mg/mL isso entrega 25 mg/kg por dose, 1,56 vez o teto de 16 mg/kg, e a cada 6 horas chega a 100 mg/kg/dia contra um teto de 64 — Doses excessivas aumentam o risco de efeitos adversos; hipotensão exige avaliação clínica e não deve ser atribuída automaticamente à dose.
    • NÃO alternar nem associar dois antitérmicos: todos inibem a ciclo-oxigenase e reduzem a produção de prostaglandina E2, de modo que a combinação multiplica o risco de erro de dose e de intoxicação sem ganho terapêutico.
    • NÃO prescrever antitérmico de horário para manter a temperatura baixa nem para prevenir convulsão febril.
    • NÃO usar ácido acetilsalicílico como antitérmico em criança, pelo risco de síndrome de Reye.
    • NÃO usar ibuprofeno nem outro anti-inflamatório não esteroidal quando houver suspeita de dengue ou de outra arbovirose.
    • NÃO usar métodos físicos de resfriamento fora da hipertermia com temperatura central igual ou superior a 40 °C acompanhada de alteração do sistema nervoso central: eles aumentam o desconforto com calafrio e irritabilidade.
    • Ajustes por comorbidade: em hepatopatia crônica, priorizar paracetamol em dose ajustada; em insuficiência renal crônica, evitar ibuprofeno; em asma, cautela com ibuprofeno pelo fenômeno de asma induzida por anti-inflamatórios.
  10. Hora 3 — a decisão de destino

    Três destinos existem e o critério de escolha é conhecido: internação, observação no serviço e domicílio com reavaliação marcada. O que empurra para observação no serviço, mesmo quando a régua etária permitiria a alta, é a incerteza do seguimento: família sem transporte, sem telefone, moradia distante, cuidador que não conseguiu repetir de volta as orientações. O protocolo público brasileiro é explícito nesse ponto — em caso de incerteza do seguimento, opta-se por manter o paciente em regime hospitalar.

    Prescrição
    • Internação: recém-nascido; lactente de 1 a 3 meses de alto risco; qualquer idade com comprometimento do estado geral; comorbidade que aumente o risco; e criança com seguimento inviável.
    • Observação no serviço por algumas horas: criança de fronteira, em que a reavaliação depois da queda da temperatura vai decidir — e a reavaliação é registrada com números.
    • Domicílio: apenas com retorno marcado em 24 horas, sinais de retorno imediato entregues por escrito e telefone de contato registrado.
    • Antes de assinar a alta, confirmar em voz alta com a família: onde voltar, quando voltar e o que faz voltar antes.
  11. Dia 1 — a reavaliação em 24 horas, que é a conduta principal do capítulo

    Reavaliação diária não é gentileza: é o que substitui o exame que não foi feito. Nela se refaz o exame físico completo — porque o foco costuma aparecer agora —, se repetem os parâmetros de alerta fora do pico febril, se checa o resultado das culturas e se confirma que a família entendeu o plano. Uma criança que veio ontem sem foco e hoje tem hiperemia timpânica, exantema ou taquipneia mudou de capítulo; uma criança que veio ontem sem foco e hoje está mais prostrada mudou de conduta.

    Prescrição
    • Refazer o exame físico completo, com a criança despida, procurando o foco que ontem não existia.
    • Repetir frequência cardíaca, frequência respiratória, saturação, enchimento capilar e hidratação, preferencialmente fora do pico febril.
    • Checar hemocultura e urocultura colhidas; hemocultura positiva em criança que hoje está bem exige contato imediato com a família e reavaliação presencial, ainda que a criança pareça melhor.
    • Revisar a técnica e a dose do antitérmico que a família está usando, em miligramas e em mililitros.
    • Sem melhora do estado geral, ou com piora: internar.
  12. Dias 2 e 3 — as culturas e a febre que continua

    A urocultura volta em 48 a 72 horas e é a que mais muda conduta nessa população, porque infecção urinária é o foco oculto mais frequente; a revisão do tratamento conforme a cultura e o antibiograma é assunto do capítulo de infecção urinária na criança. Hemocultura positiva pede diferenciar patógeno de contaminante — a taxa aceitável de contaminação é de 3% a 4%, e estafilococo coagulase-negativo em frasco único, em criança que melhorou, costuma ser contaminante. Febre que persiste ao terceiro dia sem foco é indicação de reavaliação presencial com reexame completo, e não de troca de antitérmico por telefone.

    Prescrição
    • Checar ativamente urocultura e hemocultura no dia previsto, com responsável nomeado no prontuário.
    • Urocultura positiva: seguir a régua do capítulo de infecção urinária na criança, incluindo duração de tratamento e investigação por imagem.
    • Hemocultura positiva com germe patogênico: reavaliar presencialmente e internar para tratamento parenteral, mesmo que a criança pareça bem.
    • Febre ao terceiro dia sem foco: reexame completo presencial, revisão da história e reconsideração da régua etária — não trocar de antitérmico por telefone.
  13. Dia 5 — quando a febre deixa de ser aguda

    Febre diária por mais de cinco dias já obriga investigação segundo a régua da atenção básica, e a partir daí a lista de hipóteses muda: entram a doença de Kawasaki, as arboviroses de curso prolongado, infecções profundas e a possibilidade de doença não infecciosa.

    Prescrição
    • Febre diária por mais de cinco dias: reavaliação completa e investigação ampliada, com a doença de Kawasaki entrando ativamente na lista.
    • Reexaminar pele, mucosa oral, conjuntivas, extremidades e linfonodos cervicais, além de rever a história de viagem, contato e exposição a vetor.
    • Encaminhar para investigação estruturada quando não houver diagnóstico ao completar 14 dias de febre.
  14. Alta — a receita e a orientação, que valem mais que o exame que você não pediu

    A receita da criança febril sem foco é curta, e a maior parte do valor dela está no que não contém. O que vai é antitérmico único para desconforto, com dose escrita em miligramas e em mililitros, e um papel com os sinais de retorno em português que a família reconheça. O que não vai é antibiótico sem foco, antitérmico de horário, alternância e pedido de exame para amanhã sem plano de quem vai lê-lo. Antes de entregar, peça que o cuidador repita de volta, com as próprias palavras, o que vai fazer e o que faz voltar antes.

    Prescrição
    • Antitérmico único, com dose calculada para o peso e escrita nas duas unidades. Exemplo para uma criança de 10 kg: paracetamol solução oral 200 mg/mL, 0,6 mL (120 mg) por via oral, a cada 6 horas, se desconforto ou dor — no máximo 4 doses em 24 horas.
    • Alternativa para a mesma criança de 10 kg: dipirona solução oral 500 mg/mL, 5 gotas (125 mg) por via oral, a cada 6 horas, se desconforto; ou ibuprofeno suspensão oral 50 mg/mL, 1,5 mL (75 mg) por via oral, a cada 8 horas, se desconforto.
    • Retorno marcado em 24 horas na unidade nomeada, com data e horário escritos na receita.
    • Sinais de retorno imediato, escritos e lidos em voz alta: não consegue mamar ou beber; vomita tudo o que ingere; fica muito sonolento ou difícil de acordar; fica irritado e não se acalma no colo; respira rápido, com o peito afundando, com o nariz abrindo ou fazendo barulho; fica com manchas roxas ou vermelhas na pele que não somem quando se estica a pele; tem convulsão; pescoço duro; moleira alta e tensa; fica pálido, com as mãos e os pés frios e mosqueados; não faz xixi por muitas horas; ou febre que passa de três dias.
    • Manter oferta de líquidos e de leite materno com mais frequência, sem forçar alimentação sólida.
    • NÃO prescrever antibiótico sem foco identificado e sem indicação pela régua etária.
    • NÃO prescrever antitérmico de horário, alternância de antitérmicos, corticoide para febre, nem banho frio ou compressa de álcool.
    • Registrar no prontuário: orientação entregue por escrito, cuidador repetiu de volta, telefone de contato, e quem checará as culturas.
09

Como saber se está funcionando

Nesta doença, a reavaliação é o tratamento. Como a maior parte das crianças não recebe antibiótico, o que garante segurança não é a droga: é o retorno acontecer, o exame ser refeito e alguém comparar com o que estava escrito ontem. Os parâmetros abaixo dizem o que acompanhar, em quanto tempo e o que significa melhora — e, em cada um, o que fazer quando ela não vem.

Estado geral estruturado — atividade, responsividade, aceitação alimentarA cada 4 a 6 horas se em observação; em 24 horas se em domicílio

Esperado: Criança que interage, se consola no colo, aceita líquido e leite materno, e melhora o comportamento quando a temperatura cede.

Se não melhora: Prostração que persiste depois da queda da temperatura é o achado mais importante do capítulo, e vale mais que qualquer exame. Refaça o exame físico completo, reconsidere a régua etária e interne. Não repita hemograma como substituto de reavaliar.

Frequência cardíaca, frequência respiratória, saturação e enchimento capilar fora do pico febrilCerca de 1 a 2 horas depois do antitérmico, com a temperatura em queda

Esperado: Frequência cardíaca abaixo do valor de alerta para a idade, frequência respiratória adequada, saturação acima de 95%, enchimento capilar até 2 segundos.

Se não melhora: Taquicardia que persiste com a criança afebril, taquipneia sem foco respiratório, saturação igual ou inferior a 95% ou enchimento capilar acima de 3 segundos tiram a criança do rótulo de bom estado geral — e mudam a conduta para internação e triagem completa, qualquer que seja a idade.

Aparecimento de foco no exame físicoEm 24 a 48 horas

Esperado: O foco se declara na maioria dos casos: otite, exantema, quadro respiratório, sinal de gastroenterite. Quando aparece, o caso muda de capítulo e a conduta passa a ser a do foco.

Se não melhora: Segundo exame ainda sem foco em criança que continua bem não é falha: é o curso esperado de boa parte das viroses. O que se faz é manter a reavaliação diária e conferir se a urina foi colhida e se a cultura está a caminho — não acrescentar exames por ansiedade.

Curva térmica e resposta ao antitérmicoContinuamente, com registro dos horários e valores

Esperado: Melhora do desconforto depois do antitérmico. Note que o alvo é o conforto: a temperatura não precisa normalizar para que o tratamento esteja correto.

Se não melhora: Se o antitérmico não alivia o desconforto, reconfira a dose em miligramas por quilo e a concentração do frasco antes de trocar de droga — subdose é muito mais comum que falha real, e quase metade das crianças recebe subdose em levantamento brasileiro. Não alterne antitérmicos. E, se a temperatura cai e a criança continua prostrada, o problema não é a febre: é a doença por trás dela.

Urocultura48 a 72 horas

Esperado: Cultura negativa em criança que melhorou encerra a hipótese urinária; cultura positiva em amostra colhida por método confiável fecha o diagnóstico e muda o plano.

Se não melhora: Cultura positiva colhida por método não confiável não fecha diagnóstico. A leitura de cada método e de cada contagem é a régua do capítulo de infecção urinária na criança, e é lá que a decisão de tratar, de recoletar e de investigar imagem se resolve.

Hemocultura24 a 72 horas, com responsável nomeado por checar

Esperado: Negativa na imensa maioria — a positividade global é de cerca de 1,5%, e a taxa aceitável de contaminação é de 3% a 4%.

Se não melhora: Hemocultura positiva com germe patogênico exige contato imediato e reavaliação presencial, mesmo em criança que hoje está bem: o risco de infecção focal, incluindo meningite, é de cerca de 10% no lactente bacterêmico. Estafilococo coagulase-negativo em frasco único, em criança que melhorou espontaneamente, costuma ser contaminante — mas essa conclusão se toma reexaminando a criança, não pelo telefone.

Duração da febreContada em dias desde o início, não desde a consulta

Esperado: Resolução em até três dias na maior parte das viroses.

Se não melhora: Febre ao terceiro dia sem foco pede reexame presencial completo, e não troca de antitérmico por telefone. A partir do quinto dia e do décimo quarto, valem os marcos correspondentes da conduta.

Compreensão da famíliaAntes da alta, e de novo no retorno

Esperado: O cuidador repete de volta, com as próprias palavras, a dose em mililitros ou gotas, quando voltar e pelo menos quatro dos sinais de retorno imediato.

Se não melhora: Cuidador que não consegue repetir o plano é critério de observação no serviço, e não de mais uma folha impressa. Em caso de incerteza do seguimento, o protocolo público brasileiro manda manter o paciente em regime hospitalar.

Quando escalonar e pedir ajudaA qualquer momento em que a resposta a uma destas perguntas seja não

Esperado: A criança está melhor do que ontem? O foco apareceu ou a febre cedeu? A família consegue voltar? Você continua confortável com a decisão de não internar?

Se não melhora: Chame o pediatra assistente e reveja três coisas nesta ordem: se a idade em dias foi conferida na certidão ou na pulseira, se a caderneta foi de fato olhada, e se a criança foi examinada despida na reavaliação. As três falhas mais comuns são de método, não de conhecimento.

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Onde o erro machuca

Organizar o plantão pela altura da febre

O dano: Inverte a fila e inverte o cuidado: a criança de 10 meses com 39,8 °C e caderneta em dia recebe punção venosa que não muda conduta, enquanto o recém-nascido com 38,1 °C espera. Não existem evidências clínicas de que a magnitude da temperatura tenha valor de gravidade ou de etiologia nos quadros infecciosos.

Como pegar a tempo: Faça as três perguntas na ordem certa: estado geral, idade em dias, caderneta. No fluxograma inteiro, a temperatura aparece em um único ponto — o corte de 39 °C do lactente de 3 a 36 meses com vacinação incompleta.

Deixar o recém-nascido febril ir para casa porque o exame está normal

O dano: É o erro de maior consequência do capítulo. Nessa idade, o exame físico normal não exclui bacteriemia nem meningite, e a apresentação da infecção invasiva é inespecífica — mamar menos, ficar quieto, ficar ictérico, fazer pausa. A criança volta em 24 horas em choque, ou não volta.

Como pegar a tempo: Trate a idade como critério e não como contexto. Menos de 30 dias com febre sem foco: internação, triagem completa e antibiótico empírico, com exame normal ou não. E lembre da inversão: hipotermia abaixo de 36 °C, nessa faixa, tem o mesmo peso de alarme.

Pedir hemograma, proteína C reativa e hemocultura no lactente de 3 a 36 meses vacinado e em bom estado geral

O dano: Punção desnecessária e, sobretudo, a chance de achar leucocitose discreta numa virose e transformar isso em ceftriaxona. Com prevalência de infecção bacteriana grave de 2,1%, um marcador com sensibilidade de 86,7% e especificidade de 90,5% tem valor preditivo positivo de 16,4% — de cada 100 positivos, 84 não têm doença.

Como pegar a tempo: Antes de assinar o pedido, responda em voz alta: o que este resultado muda hoje nesta criança? Nesse ramo, a resposta é nada — o fluxograma pede pesquisa viral quando disponível, urina e urocultura, e reavaliação diária.

Não colher urina

O dano: Deixa passar o diagnóstico mais provável do grupo: infecção urinária responde por 5% a 7% dos casos de febre sem foco e por 80% das infecções bacterianas graves na coorte brasileira. Sem urocultura, a criança recebe antibiótico empírico sem diagnóstico, ou não recebe nada e volta com pielonefrite.

Como pegar a tempo: A decisão de colher é clínica e independe de qualquer outro exame: lactente febril sem foco, colhe urina. Método, contagem e interpretação são a régua do capítulo de infecção urinária na criança.

Dar a primeira dose de antibiótico antes de colher as culturas

O dano: É a única etapa irreversível do atendimento. A urina esteriliza em horas, a hemocultura perde sensibilidade, e o que sobra é uma criança em tratamento sem diagnóstico — o que decide errado a duração do antibiótico e a investigação de imagem que viria depois.

Como pegar a tempo: Colha culturas antes do antibiótico quando isso for viável sem atraso relevante. Instabilidade, coleta difícil ou punção lombar insegura não podem atrasar estabilização e antimicrobiano indicado. Colha o que for possível prontamente, trate e complete a investigação assim que houver segurança.

Aceitar "a caderneta está em dia" sem ver a caderneta

O dano: A situação vacinal é a única variável que separa duas condutas dentro da faixa de 3 a 36 meses. Tratar como completa uma criança que não recebeu as doses da idade contra pneumococo devolve a ela o risco pré-vacinal sem a investigação correspondente — e, na coorte de 591 crianças em bom estado geral, todas as bacteremias pneumocócicas ocorreram em não imunizadas.

Como pegar a tempo: Procure caderneta física e registro eletrônico. Se indisponíveis, registre situação vacinal não comprovada, quais doses a família informa e como confirmá-las. Isso é incerteza, não prova de esquema incompleto. A equipe pondera essa incerteza junto da clínica e do acesso ao retorno, sem inventar doses realizadas ou ausentes.

Alternar antitérmicos, ou prescrever antitérmico de horário para manter a temperatura baixa

O dano: Todos os antitérmicos disponíveis inibem a ciclo-oxigenase e reduzem a produção de prostaglandina E2 — o mecanismo é o mesmo, e alternar multiplica o risco de erro de dose e de intoxicação sem ganho terapêutico. A prática é comum: em estudo brasileiro com 692 crianças, 26,7% dos cuidadores relataram alternância, em grande parte por orientação médica.

Como pegar a tempo: Um antitérmico só, prescrito por desconforto e não por número, com a dose em miligramas e em mililitros. Diga à família, com essas palavras, que a meta não é o termômetro marcar 36,5 e sim a criança ficar confortável.

Prescrever dipirona pela regra de uma gota por quilo

O dano: Na apresentação de 500 mg/mL, uma gota contém 25 mg. Uma gota por quilo entrega 25 mg/kg por dose — 1,56 vez o teto de 16 mg/kg — e, repetida a cada 6 horas, chega a 100 mg/kg/dia contra um teto de 64. Doses excessivas aumentam o risco de efeitos adversos; hipotensão exige avaliação clínica e não deve ser atribuída automaticamente à dose.

Como pegar a tempo: Calcule em miligramas por quilo e converta para gotas: 10 a 16 mg/kg por dose dividido por 25 mg por gota dá cerca de 0,4 a 0,6 gota por quilo. Uma criança de 10 kg toma 4 a 6 gotas, não 10. E confira sempre a concentração do frasco que a família tem.

Examinar a criança vestida e chamar isso de febre sem sinais localizatórios

O dano: Otite, exantema, petéquias, lesão de pele, artrite e infecção de partes moles não se veem por cima da roupa. O rótulo errado leva a criança a um protocolo de exames que ela não precisaria — ou, pior, faz passar uma meningococcemia inicial cujas primeiras petéquias estavam no tronco.

Como pegar a tempo: Despir por completo, com luz, otoscópio na mão e a família ajudando a posicionar. Se o exame não foi assim, o rótulo correto não é febre sem foco: é febre com exame incompleto — e a conduta é completar o exame.

Dar alta sem retorno marcado e sem sinais de retorno em português

O dano: Toda a segurança da conduta ambulatorial depende de a reavaliação acontecer. Sem data, sem unidade nomeada e sem telefone, a criança de baixo risco vira criança sem seguimento — e a única rede de proteção que restava desaparece.

Como pegar a tempo: Trate a reavaliação como prescrição: data, hora, unidade, telefone e nome de quem checa as culturas, tudo escrito. Peça ao cuidador que repita de volta o plano e pelo menos quatro sinais de retorno. Se ele não consegue, o destino muda para observação no serviço.

Ler "afebril na chegada" como "não teve febre"

O dano: A criança que recebeu antitérmico em casa chega sem febre, e o pico de 39,5 °C de duas horas atrás desaparece do raciocínio. O protocolo por idade é acionado pela febre relatada de forma confiável, não apenas pela febre medida na sala — e o recém-nascido que chega afebril depois de febre documentada em casa continua sendo um recém-nascido febril.

Como pegar a tempo: Pergunte sempre o maior valor medido, com que aparelho e em que local, e o horário do último antitérmico. Anote o pico relatado no prontuário junto com a temperatura da sala.

Usar métodos físicos e banho frio para baixar a temperatura

O dano: Na febre, o ponto de ajuste está elevado; resfriar a pele produz queda rápida e curta com calafrio e irritabilidade, aumentando o desconforto justamente da criança que já estava incomodada. Não há vantagem relevante sobre a terapêutica medicamentosa.

Como pegar a tempo: Reserve métodos físicos à hipertermia definida por temperatura central igual ou superior a 40 °C com alteração do sistema nervoso central. Nas demais situações, a conversa com a família é sobre roupa leve, ambiente fresco e líquidos.

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O que dizer ao paciente e à família

As frases abaixo são as que faltam na hora. O interno costuma saber a conduta e não saber a sentença — e é a sentença que decide se a família vai aceitar ir para casa sem exame, ou vai aceitar internar um bebê que "está bem".

Duas ideias organizam todas elas. A primeira: a família não veio pedir exame, veio pedir segurança; quem oferece plano no lugar do exame quase sempre é aceito. A segunda: o papel do profissional é combater a febrefobia com empatia, entendendo a ansiedade de quem passou a noite acordado com um termômetro na mão — e não impondo a informação como correção.

Explicar que a febre não está fazendo mal

"A febre é a defesa dele trabalhando. Ela não queima o cérebro, não deixa sequela e o número em si não diz se a doença é grave ou leve. O que me diz isso é como ele está: se brinca, se mama, se responde à senhora. E hoje ele está respondendo."

Não diga: "Febre é normal, mãe, não se preocupa" — desqualifica o medo em vez de explicar, e a família volta a outro serviço em duas horas.

Explicar por que não vai pedir exame de sangue

"Entendo querer um exame para ter certeza. O problema é que, nessa idade e com a vacina em dia, esse exame acerta pouco: de cada cem resultados alterados, cerca de oitenta e quatro são de crianças que não têm nada. Ele levaria a gente a dar antibiótico sem precisar. O que protege de verdade aqui é a urina, que eu vou colher, e a senhora voltar amanhã para eu examinar de novo."

Não diga: "Não precisa de exame" sem substituir por nada. Recusa sem plano soa como economia, e a família procura outro serviço para conseguir o exame.

Explicar por que vai internar um recém-nascido que parece bem

"Ela está bonita no exame, e isso é verdade. Mas com vinte e quatro dias de vida o exame normal não me garante nada: nessa idade o bebê adoece grave sem dar sinal, e o que mostra é o exame de sangue, o de urina e o do líquido da espinha. Por isso a regra é ficar, colher tudo e começar o antibiótico enquanto os exames voltam. Não é porque eu vi algo ruim — é porque nessa idade eu não posso confiar em não ter visto."

Não diga: "É protocolo" como resposta única. Protocolo sem explicação é o que faz a família assinar alta a pedido no meio da madrugada.

Dizer que ainda não se sabe a causa

"Hoje eu não identifiquei o motivo da febre, e isso é comum: na maioria das crianças o motivo aparece em um ou dois dias, quando surge uma manchinha, uma tosse, uma dor de ouvido. Não estou dizendo que não é nada — estou dizendo que ainda não sei, e por isso quero ver o Antônio de novo amanhã."

Não diga: "É virose" dito como diagnóstico fechado no primeiro dia. Fecha a porta da reavaliação e é a frase que a família repete quando decide não voltar.

Explicar por que não vai dar antibiótico

"Antibiótico só ajuda se a causa for bactéria, e a maior parte dessas febres é vírus. Se eu der agora sem saber, duas coisas acontecem: eu apago o resultado do exame de urina que colhi, e ele fica com efeito colateral sem benefício. Se a cultura mostrar bactéria, eu ligo para a senhora no mesmo dia e a gente começa."

Não diga: "Antibiótico não resolve virose" isolado. É verdade e não responde ao medo; o que responde é dizer o que você vai fazer se der bactéria, e quando.

Ensinar a dose

"Vou escrever de dois jeitos: em miligramas, que é o que o médico lê, e em mililitros, que é o que a senhora vai medir. Para os dez quilos dele, são 0,6 mL do paracetamol, que é essa marquinha aqui na seringa, de seis em seis horas, e só se ele estiver incomodado. Me mostre no frasco quanto a senhora daria — quero ver antes de vocês saírem."

Não diga: "Dá conforme a bula" e "uma gota por quilo". A primeira transfere a decisão para um texto que a família não vai ler; a segunda entrega uma vez e meia o teto da dipirona.

Entregar os sinais de retorno

"Vou dizer o que faz vocês voltarem antes de amanhã, e depois quero que a senhora me repita. Se ele não conseguir mamar ou beber; se vomitar tudo; se ficar muito mole ou difícil de acordar; se respirar rápido, com o peito afundando; se aparecerem manchas roxas ou vermelhas que não somem quando a senhora estica a pele; ou se a febre passar de três dias. Agora me conta: o que faz vocês voltarem?"

Não diga: Entregar a folha e dizer "qualquer coisa, volta". "Qualquer coisa" não é instrução, e a família só usa a folha se ela tiver sido lida em voz alta.

Responder a "e se piorar de madrugada?"

"De madrugada vocês voltam aqui mesmo, sem precisar de encaminhamento e sem esperar amanhecer. Se ele estiver muito mal, chamem o 192. Eu prefiro que vocês voltem dez vezes sem precisar do que uma vez a menos do que precisava."

Não diga: "Aí vocês procuram a unidade básica" quando a unidade básica está fechada. Instrução que não funciona no horário em que a piora acontece não é instrução.

O que não prometer

"Eu não posso prometer que a febre acaba amanhã, nem que não vai aparecer outra coisa. O que eu posso prometer é que a urina está colhida, que o resultado vem em dois dias, que eu ou o colega de plantão vamos olhar esse resultado, e que se ele mudar alguma coisa a senhora é avisada."

Não diga: "Não é nada grave" e "amanhã ele já está bom". As duas frases são apostas, e quando erram destroem a confiança de que o retorno depende.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Qual temperatura axilar define febre na criança

Febre medida por temperatura axilar é definida como temperatura igual ou superior a 37,5 °C, correspondendo a 38 °C quando medida por via oral ou retal.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamentos Científicos de Pediatria Ambulatorial e Infectologia, Documento Científico nº 206, 2025; e Ministério da Saúde, Aidpi Criança 2 meses a 5 anos, 2017, que já usa 37,5 °C.

No Brasil e em muitos países, a febre é definida quando a temperatura axilar ultrapassa 37,3 °C, com faixas aceitas de 37,2 a 37,3 °C na axila, 37,5 a 37,8 °C na boca e 38 a 38,3 °C no reto.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamentos Científicos de Pediatria Ambulatorial e de Infectologia, Manejo da Febre Aguda, Documento Científico de 2021.

O conceito de febre é firmado para temperatura axilar acima de 37,8 °C, valor que segue como critério de entrada em protocolo assistencial de hospital público brasileiro.

Sociedade de Pediatria de São Paulo, Recomendações nº 87, 2019; e Hospital Universitário Ana Bezerra da UFRN, protocolo PRT.DM.046, 2021.

Como decidir

Pergunte onde a diferença muda alguma coisa. Acima de três meses, praticamente em lugar nenhum: quem decide ali é o estado geral, e uma criança com 37,6 °C e bom estado geral tem a mesma conduta com qualquer dos três limiares. A faixa em que meio grau decide destino é a do menor de três meses, e sobretudo a do recém-nascido, em que 37,6 °C separa "ir para casa" de "internar e colher tudo". Nessa faixa, decida pelo limiar mais baixo — o custo do falso positivo é uma noite de observação, e o do falso negativo é uma meningite que voltou tarde. E use o limiar que o serviço à sua frente usa quando for encaminhar: adotar 37,5 °C alinha o pronto-socorro com a atenção básica, que é onde a criança vai ser reavaliada amanhã.

O gatilho do antitérmico: desconforto ou um número de temperatura

Não existe valor "mágico" fixado por consensos para administrar antitérmico. A recomendação é indicá-lo quando a febre está associada a desconforto evidente — choro intenso, irritabilidade, redução da atividade, redução do apetite, distúrbio do sono — e não com base em um número predeterminado, a fim de não engessar os pais em valores.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Documento Científico nº 206, 2025; e Sociedade de Pediatria de São Paulo, Recomendações nº 87, 2019.

Nos quadros de conduta da criança febril, a orientação é dar antitérmico se a temperatura for igual ou superior a 38,0 °C, em todas as classificações de doença febril.

Brasil, Ministério da Saúde, Organização Pan-Americana da Saúde e UNICEF, Manual de quadros de procedimentos: Aidpi Criança 2 meses a 5 anos, 2017.

Como decidir

As duas posições servem a públicos diferentes, e é isso que resolve. A régua por desconforto é de julgamento clínico e pressupõe alguém treinado avaliando a criança; a régua por número é operacional, feita para ser aplicada por qualquer profissional em qualquer unidade da atenção básica, inclusive por quem tem pouco tempo de contato com aquela criança. Para o interno na beira do leito, com a criança à frente, use o desconforto: é a régua que evita medicar uma criança que está brincando com 39 °C e que evita deixar sem analgesia uma criança gemendo com 37,9 °C. Para escrever a orientação que vai para casa, dê os dois: "dê se ele estiver incomodado" resolve a maioria, e um número de referência ajuda a família insegura a não travar às três da manhã.

Colher hemograma no lactente de 3 a 36 meses com bom estado geral e vacinação completa

Nessa faixa, o impacto da vacinação conjugada torna desnecessária a coleta de hemograma e hemocultura em pacientes que se apresentam em bom estado geral; o fluxograma nacional pede apenas pesquisa de vírus respiratório quando disponível, exame de urina e urocultura, com reavaliação diária.

Mekitarian Filho E, Brunow de Carvalho W, Jornal de Pediatria, 2015; e o fluxograma da Tabela 1 do Documento Científico nº 206 da Sociedade Brasileira de Pediatria, 2025.

Crianças de 3 a 36 meses sem toxemia e com temperatura axilar acima de 39 °C devem ser submetidas a avaliação de urina; sendo esta normal, deve ser solicitado hemograma, com a situação vacinal entrando apenas depois, para decidir sobre antibiótico quando a radiografia é normal.

Hospital Universitário Ana Bezerra da UFRN, Protocolo clínico para manejo da febre sem sinais localizatórios, PRT.DM.046, 2021.

Como decidir

A diferença prática é a ordem em que a caderneta entra: como filtro antes do laboratório, ou como critério depois dele. Decida pela reversibilidade do erro e pela criança à sua frente. Em criança com caderneta comprovadamente completa, bom estado geral e retorno garantido, não colher é seguro e evita a cascata que começa numa leucocitose discreta de virose. Em criança com caderneta duvidosa, comorbidade, prematuridade, ou em que o retorno em 24 horas não vai acontecer, o hemograma volta a ter função — não por acurácia, mas porque a rede de segurança da reavaliação não existe. E se o serviço usa o protocolo local, siga o protocolo local e registre a caderneta no prontuário: é isso que permite ao pediatra da manhã seguinte discutir a mudança com dado, e não com opinião.

Onde fica o corte etário do lactente jovem e qual critério laboratorial usar

A estratificação separa menos de 30 dias, que interna sempre, de 1 a 3 meses, que é estratificado pelos critérios de Rochester; acima de 3 meses valem os critérios de Baraff.

Fluxograma HU-USP publicado no Tratado de Pediatria da Sociedade Brasileira de Pediatria, 2017, e reproduzido nos documentos científicos da SBP de 2021 e 2025.

Os algoritmos clássicos usam faixas etárias diferentes entre si: Rochester cobre 0 a 60 dias, Boston cobre 28 a 89 dias e Filadélfia cobre 29 a 56 dias, com cortes laboratoriais também diferentes de leucócitos, bastões e líquor.

Mekitarian Filho E, Brunow de Carvalho W, Manejo atual da bacteremia oculta do lactente, Jornal de Pediatria, 2015, Tabela 1.

Não há esquema padronizado para estimar o risco de bacteremia oculta em lactentes febris, e a conclusão é que o manejo ambulatorial deve ser fortemente considerado em lactentes acima de três meses com bom estado geral e esquema vacinal completo.

Mekitarian Filho E, Brunow de Carvalho W, Jornal de Pediatria, 2015, conclusões.

Como decidir

Não escolha o algoritmo pelo nome; escolha pelo que o seu serviço consegue executar e registre qual foi usado. Os três critérios concordam no essencial — leucograma dentro de faixa, urina sem leucocitúria, ausência de foco, criança previamente hígida e sem antibiótico recente — e divergem em detalhes que raramente mudam o desfecho de um paciente individual. O que muda desfecho é a fronteira dos 30 dias, em que todos concordam: abaixo dela não se estratifica, interna-se. Na dúvida entre duas faixas, decida pela mais conservadora e escreva no prontuário a idade em dias e o critério aplicado, para que a reavaliação de amanhã possa discordar de você com base no mesmo dado.

Marcadores inflamatórios como parte da régua da febre sem foco

A procalcitonina é apontada como marcador confiável de infecção bacteriana grave em crianças febris, com cinética mais favorável que a proteína C reativa e elevação já nas primeiras seis horas de febre; em coorte de 1.112 lactentes com febre sem foco, valores acima de 0,5 ng/mL foram o único fator independente de risco para infecção bacteriana grave, com razão de chances de 21,69.

Mekitarian Filho E, Brunow de Carvalho W, Manejo atual da bacteremia oculta do lactente, Jornal de Pediatria, 2015.

O fluxograma nacional de avaliação e seguimento de crianças até 36 meses com febre sem sinais localizatórios não inclui procalcitonina em nenhum ramo, e estrutura a decisão em pesquisa de vírus respiratório, hemograma, exame de urina, urocultura, hemocultura, líquor e radiografia de tórax.

Tabela 1 do Documento Científico nº 206 da Sociedade Brasileira de Pediatria, 2025, reproduzindo o protocolo publicado no Tratado de Pediatria da SBP em 2017.

Como decidir

Decida pela disponibilidade e pelo que o resultado muda. Onde a procalcitonina existe e sai no mesmo plantão, ela ajuda mais do que o leucograma na faixa de maior risco — o lactente de 1 a 3 meses —, porque um valor baixo tem valor preditivo negativo alto e sustenta a decisão de observar. Onde ela não existe, não faça o plano depender dela: a régua brasileira foi desenhada e validada com exames que a rede pública tem, e um exame que não sai não é conduta. E, em qualquer cenário, nenhum marcador isolado autoriza antibiótico numa criança em bom estado geral: com prevalência de infecção bacteriana grave de 2,1%, o valor preditivo positivo dos melhores cortes disponíveis fica entre 8% e 17%.

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O raciocínio, em voz alta

Quarta-feira, 3h40, pronto-socorro de pediatria. Otávio, 7 semanas de vida (49 dias), 4,6 kg, nascido de 38 semanas, sem intercorrência neonatal, em aleitamento materno exclusivo. A mãe conta que ele ficou "quentinho" desde ontem à noite e mediu 38,4 °C na axila com termômetro digital, às 23h. Mamou três vezes desde então, um pouco mais espaçado que o habitual, sem vômito, sem diarreia, sem tosse. Não recebeu nenhuma medicação. A caderneta mostra BCG e hepatite B na maternidade; as vacinas de 2 meses estão marcadas para a semana que vem.

  1. o que eu penso antes de encostar nele

    Três dados já organizam o caso, e nenhum é a temperatura. Primeiro: 49 dias de vida. Isso o coloca na faixa de 1 a 3 meses — não é recém-nascido, o que já me tira da conduta automática de internar todo mundo, mas também não é a faixa em que estado geral e caderneta decidem sozinhos. Segundo: caderneta com apenas as doses da maternidade, o que era esperado para a idade, mas significa que ele não tem proteção conjugada contra pneumococo nem contra Haemophilus. Terceiro: febre documentada em casa com método aceitável, ainda que ele possa chegar afebril aqui. O que decide o destino dele é a estratificação laboratorial, e eu já sei disso antes de examinar.

  2. o exame, feito por inteiro

    Dispo por completo. Ativo, chora forte, se consola no colo, pega o dedo, olha para mim. Temperatura axilar agora 38,2 °C. Frequência cardíaca 156, frequência respiratória 44, saturação 98% em ar ambiente, enchimento capilar de 2 segundos, mucosas úmidas, turgor normal. Fontanela normotensa. Otoscopia normal dos dois lados, orofaringe sem alteração. Ausculta limpa, sem tiragem, sem gemência, sem batimento de asa do nariz. Abdome livre. Coto umbilical já caído, cicatriz limpa. Pele inteira inspecionada com luz: sem exantema, sem petéquias, sem lesão em dobras nem em couro cabeludo. Genitália e região perianal normais, escroto sem alteração. Mobilizo cada membro passivamente: sem choro dirigido, sem assimetria. Não há foco.

  3. o que eu peço, e por quê

    Ele tem febre sem sinais localizatórios com 49 dias de vida e bom estado geral. Pela régua, isso pede pesquisa de vírus respiratório quando disponível, hemograma e exame de urina, para estratificar por critérios de risco. Peço os três. E peço a urina por método confiável, colhida antes de qualquer antibiótico — a técnica de coleta e a leitura da contagem seguem a régua do capítulo de infecção urinária, e é ela que vai dizer se essa amostra vale. Não peço proteína C reativa nem procalcitonina: não estão no fluxograma nacional, a procalcitonina não sai neste plantão, e nenhum dos dois mudaria o que eu vou fazer com os resultados que já vou ter.

  4. como a primeira resposta muda o que eu penso

    A pesquisa de vírus respiratório volta positiva para vírus sincicial respiratório. Isso baixa minha probabilidade de infecção bacteriana concomitante e me deixa mais confortável, mas não encerra o caso: com 49 dias, vírus identificado não me autoriza a pular a estratificação nem a deixar de colher urina. Continuo o protocolo.

  5. a estratificação

    Hemograma: 9.800 leucócitos/mm³, neutrófilos 4.100/mm³, sem desvio relevante. Exame de urina: 3 leucócitos por campo, nitrito negativo, esterase negativa. Ele é previamente hígido, nasceu de termo, não usou antibiótico, não tem foco ao exame, o leucograma está dentro da faixa, os bastões estão abaixo do corte e a urina está limpa. Isso o classifica como baixo risco. Baixo risco, nessa idade, autoriza domicílio — mas com reavaliação diária obrigatória, e a palavra obrigatória é a parte que sustenta a decisão.

  6. o que eu decido, e o que eu não faço

    Domicílio, com retorno marcado para daqui a menos de 24 horas, na mesma unidade, com data e horário escritos na receita e o telefone da mãe anotado no prontuário. Não interno: a estratificação foi favorável e o seguimento é viável — a mãe mora a dez minutos, tem telefone e veio sozinha de madrugada, o que já mostra que ela consegue voltar. Não peço líquor: ele não tem comprometimento do estado geral e não é de alto risco. Não prescrevo antibiótico: sem foco e sem critério de risco, antibiótico aqui só apagaria a urocultura que está no laboratório. Não peço radiografia de tórax: ele não tem sintoma respiratório e o leucograma está normal.

  7. a prescrição, escrita nas duas unidades

    Paracetamol solução oral 200 mg/mL, 0,25 mL — que são 50 mg, cerca de 11 mg/kg para os 4,6 kg dele —, por via oral, a cada 6 horas, apenas se ele estiver incomodado: chorando muito, irritado, mamando menos ou sem dormir. No máximo quatro doses em 24 horas. Não prescrevo dipirona nem ibuprofeno: ele tem menos de 3 meses e menos de 5 kg, e nenhum dos dois é indicado nessa idade. Não prescrevo antitérmico de horário e não mando alternar. Peço à mãe que me mostre na seringa quanto ela daria, e ela mostra.

  8. a orientação de retorno, dita e devolvida

    Digo os sinais em português e peço que ela repita: não conseguir mamar, vomitar tudo, ficar muito mole ou difícil de acordar, ficar irritado sem se acalmar no colo, respirar rápido com o peito afundando, aparecerem manchas roxas ou vermelhas que não somem quando se estica a pele, ter convulsão, ou a moleira ficar alta e tensa. Ela repete cinco deles com as próprias palavras. Escrevo no prontuário que a orientação foi entregue por escrito, que a mãe repetiu de volta e qual o telefone de contato. Registro também quem vai checar a urocultura e em que dia.

  9. o que acontece em 24 horas — e o que eu faço com isso

    Otávio volta no dia seguinte às 15h. A febre cedeu à noite, ele mamou bem, e ao exame surgiram coriza e leve congestão nasal, sem taquipneia e sem tiragem. Frequência cardíaca 138 sem febre. O foco apareceu, e ele é compatível com o vírus identificado. Reforço a orientação, mantenho o antitérmico apenas para desconforto e marco reavaliação em 48 horas. A urocultura volta negativa em 72 horas. Nenhum antibiótico foi usado no caso inteiro — que é exatamente o desfecho que o protocolo foi desenhado para produzir: na coorte que o validou, 60% das crianças não receberam antibiótico nenhum.

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Faça você

Sábado, 22h05, mesma unidade de pronto atendimento. Manuela, 24 dias de vida, 3,4 kg, nascida de 39 semanas, parto vaginal sem intercorrência, alta da maternidade com 48 horas. A mãe mediu 38,1 °C na axila com termômetro digital às 17h, mediu de novo às 18h e viu 37,9 °C. Manuela mamou às 17h e às 19h, um pouco menos do que costuma; não vomitou, não teve diarreia, não tem tosse, urinou normalmente. Não recebeu medicação. Caderneta com BCG e hepatite B da maternidade. Na unidade, temperatura axilar 37,8 °C, frequência cardíaca 148, frequência respiratória 46, saturação 98%, enchimento capilar 2 segundos, fontanela normotensa, coto umbilical caído e cicatriz limpa, ausculta limpa, abdome livre, pele sem lesão, sem exantema e sem petéquias. Ela está quieta no colo, mas acorda ao exame, chora e se consola. O exame não mostra foco.

  1. os três dados que você extrai da história antes de decidir

    Idade em dias: 24. Febre documentada em casa por método aceitável, com pico de 38,1 °C axilar — acima do limiar de 37,5 °C, e a temperatura mais baixa aferida aqui não desfaz o pico relatado. Estado geral preservado: acorda, chora, se consola, com parâmetros dentro dos valores para a idade.

  2. a pergunta que resolve o caso

    Não é "a febre está alta?" nem "o exame está normal?". É: com 24 dias de vida, o que um exame físico normal exclui? A resposta é o eixo do capítulo — nessa idade, quase nada. O repertório de sinais é curto, não há sinal meníngeo confiável, e a bacteriemia pode não dar sinal focal antes de virar meningite.

  3. o que você faz agora

    — sua vez —

Ver como fecharíamos

Internar a recém-nascida de 24 dias e iniciar a avaliação de possível infecção invasiva, mesmo com exame aparentemente normal. Confirmar sinais vitais e perfusão, obter culturas de sangue e urina por método confiável e avaliar líquor quando seguro. Não aguardar punção difícil nem resultados para iniciar antibiótico indicado, selecionado com a equipe pelo contexto neonatal e possível acometimento meníngeo. Radiografia depende de achados respiratórios ou outra suspeita; teste viral positivo não exclui infecção bacteriana nessa idade. O percurso conservador de 0–29 dias adotado aqui não propõe alta apenas por boa aparência ou proximidade da residência. Mamadas mais curtas reforçam a necessidade de observação e reavaliação. Registre horários de amostras, tratamento e próxima avaliação.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Sensibilidade e especificidade não dependem da prevalência, mas o valor preditivo depende — e é o valor preditivo que decide conduta. Em 1.000 lactentes com prevalência de 2,1%, há 21 doentes e 979 sadios; um corte com sensibilidade de 86,7% identifica 18,2 dos doentes e marca positivo em 93,0 dos sadios, num total de cerca de 111 positivos. Isso dá valor preditivo positivo de 16,4%: de cada 100 positivos, cerca de 84 não têm doença, e usar o exame como gatilho de antibiótico trataria mais de cinco crianças sadias para cada doente. O valor preditivo negativo, de 99,7%, é o que faz o exame útil — ele serve para tranquilizar, não para acusar. A alternativa sobre a cinética inverte um fato: a procalcitonina tem elevação já nas primeiras seis horas de febre, o que é justamente sua vantagem sobre a proteína C reativa no lactente que chega cedo. E dizer que o marcador não tem valor nenhum também não se sustenta: na mesma população, valores acima de 0,5 ng/mL foram o único fator independente de risco para infecção bacteriana grave, com razão de chances de 21,69. O erro da proposta não é o exame; é o uso dele como gatilho automático de tratamento em população de baixa prevalência.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Compare os casos de 20, 55 e 240 dias. Registre método e valor da temperatura, gravidade e elegibilidade para a estratégia escolhida. Diga o que colheria, o que não deve atrasar antibiótico e como confirmaria vacinação. Confira uma prescrição de antitérmico por desconforto, com dose por tomada, concentração, volume e teto diário.

Em 30 dias

Revise três retornos de febre sem foco. Mostre o que mudou no exame, qual resultado pendente foi conferido e por que o plano foi mantido ou revisto. Verifique se a orientação de alta permitia retorno imediato e se houve comunicação de cultura positiva. Uma classificação inicial de baixo risco não substitui a avaliação da evolução.

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Agora atenda

Agora atenda: você é o interno de plantão numa unidade de pronto atendimento, num sábado à noite, e recebe um lactente com febre e sem foco aparente. Meça a temperatura você mesmo e descubra o que a família mediu em casa, com qual aparelho e em que local. Pergunte a idade em dias e peça a caderneta de vacinação na mão. Avalie o estado geral de forma estruturada e registre os números, não a impressão. Examine a criança despida, sem pular otoscopia, pele inteira, fontanela, genitália e ossos longos. Aplique a régua da idade, decida quais exames pede e diga por que não pede os outros. Calcule a dose do antitérmico em miligramas e em mililitros para o peso daquela criança, prescrevendo por desconforto e não por número. E, antes de encerrar, entregue a orientação de retorno em palavras que a família reconheça e peça que ela repita de volta.