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Clínica MédicaEndocrinologia

A causa antes do comprimido

Osteoporose e metabolismo ósseo

O homem que quebra a vértebra, quem toma corticoide há meses e quem tem fosfatase alcalina alta sem explicação pedem alguém que procure o que está roubando o osso — e que saiba quando o bisfosfonato começa, o que ele exige e quando ele para.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Osteoporose. Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 22, de 22 de outubro de 2025, que revoga a Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 19, de 28 de setembro de 2023.

Brasil. Ministério da Saúde. Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec). Relatório de Recomendação nº 1102: Romosozumabe e teriparatida no tratamento para homens com osteoporose grave e falha terapêutica aos medicamentos disponíveis no SUS. Brasília, maio de 2026. Registro de Deliberação nº 1.103/2026; decisão tornada pública pela Portaria SCTIE/MS nº 33, de 12 de junho de 2026.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença de Paget. Portaria Conjunta nº 2, de 17 de janeiro de 2020, que revoga a Portaria SAS/MS nº 456, de 21 de maio de 2012.

Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. Portaria GM/MS nº 6.324/2024. ISBN 978-65-5993-710-3.

Moreira CA, Ferreira CES, Madeira M, Silva BCC, Maeda SS, Batista MC, Bandeira F, Borba VZC, Lazaretti-Castro M. Reference values of 25-hydroxyvitamin D revisited: a position statement from the Brazilian Society of Endocrinology and Metabolism (SBEM) and the Brazilian Society of Clinical Pathology/Laboratory Medicine (SBPC/ML). Arch Endocrinol Metab. 2020;64(4):462-478. DOI 10.20945/2359-3997000000258.

01

Responda antes de ler

Homem de 52 anos, com doença celíaca diagnosticada há um ano e dieta irregular, tem dor óssea difusa e densitometria com escore Z de −2,4 na coluna lombar. Exames: cálcio 8,1 mg/dL com albumina normal, fósforo 2,1 mg/dL, fosfatase alcalina 290 U/L, paratormônio 180 pg/mL, 25-hidroxivitamina D 8 ng/mL e creatinina normal. Qual é a conduta?

02

O paciente que você vai ver

Quinta-feira, duas e dez da tarde, ambulatório de endocrinologia de um hospital de ensino que recebe encaminhamentos de onze unidades básicas e de dois pronto-atendimentos. A agenda da tarde tem catorze nomes, e o quarto vem com um pedido escrito à mão pela residente da reumatologia, grampeado num envelope de radiografia: “Paciente em corticoterapia prolongada, fratura vertebral. Favor avaliar osso.” Você é o interno do ambulatório. A preceptora lê o pedido por cima do seu ombro, devolve a folha e diz só: “Antes de pensar em remédio, me diga por que esse homem quebrou a vértebra.”

Hugolino Cintra tem 68 anos e foi motorista de ônibus intermunicipal por trinta e dois. Entra devagar, com a mão espalmada na parte de baixo das costas, acompanhado da mulher, e senta de lado na cadeira, como quem já descobriu que sentar reto dói. Há três semanas abaixou-se para pegar do chão o carrinho de plástico do neto e sentiu “uma fisgada que parecia facada” na altura da cintura, atrás. Não caiu, não bateu em nada. Foi à unidade de pronto-atendimento no mesmo dia; lá fizeram uma radiografia, deram dipirona na veia e mandaram procurar o ortopedista. O laudo, dentro do envelope, diz: “Redução da altura anterior do corpo vertebral de T12, com aspecto em cunha. Demais corpos vertebrais de altura preservada.”

A história que o levou à reumatologia começou há dez meses: uma dor de cabeça nova, do lado direito, que não passava com nada, e uma manhã em que a vista do olho direito ficou “embaçada uns minutos”. No pronto-socorro do hospital, com a velocidade de hemossedimentação alta, fizeram o diagnóstico de arterite de células gigantes e começaram prednisona 60 mg por dia na mesma noite. A caixa de remédios que a mulher tira da bolsa conta o resto: um mês inteiro em 60 mg, depois uma descida em degraus até 10 mg, e há onze semanas ele está em 7,5 mg por dia — um comprimido e meio de 5 mg. A cefaleia sumiu na primeira semana e não voltou. Na bolsa não há cálcio nem vitamina D, e nenhuma das receitas dos dez meses fala neles.

Fuma um maço por dia desde os vinte anos. Bebe cerveja no domingo, “duas latas, no máximo”. Toma losartana 50 mg para a pressão. A balança do ambulatório marca 72 kg. A altura medida hoje é de 1,70 m, e a carteira de motorista vencida que ele mostra, sem entender por que alguém se interessaria por ela, diz 1,73 m. Café com leite de manhã, e “queijo quase nunca, que é caro”. Quando você pergunta por desejo e ereção, ele olha para a mulher, ri e diz que “isso aí está como sempre esteve”. Nunca teve pedra no rim, nunca quebrou nenhum osso, nunca teve diarreia que durasse. O pai morreu de derrame; a mãe “ficou corcunda no fim da vida”, e ele não sabe dizer de quê.

No exame, há uma cifose discreta na transição toracolombar, a percussão do processo espinhoso de T12 dói, e força, sensibilidade e reflexos dos membros inferiores estão normais. Ele levanta da cadeira sem apoiar as mãos, e isso também você anota. A pressão é de 138 por 84 mmHg. Quando você pede para ver a boca, ele abre com vergonha: falta um molar embaixo, à esquerda, e o vizinho está quebrado ao meio, escurecido, com a gengiva vermelha em volta. “Esse aí dói quando eu tomo coisa gelada. Vou arrancar quando der.”

A mulher faz a pergunta que vinha guardando desde o pronto-atendimento: “Doutor, lá falaram que é osteoporose. Mas osteoporose não é doença de mulher?” Hugolino emenda a dele: “E se foi a prednisona que fez isso, eu posso parar a prednisona?”

A preceptora, que ouviu tudo da porta, espera o casal ir para a sala de coleta e resume o que falta decidir, contando nos dedos: se a fratura já é o diagnóstico ou se ainda falta a densitometria; o que mais, além do corticoide, pode estar tirando osso de um homem de 68 anos; que exames pedir hoje e quais não pedir; o que começa hoje e o que espera; quem mexe na prednisona; o que fazer com aquele dente antes do primeiro comprimido; e por quanto tempo ele vai tomar o que você prescrever. “E escreva no prontuário a régua que você usou em cada decisão. Ele vai voltar aqui por cinco anos.”

03

Quem adoece disso

Osteoporose parece doença de mulher porque os estudos, os protocolos e a maior parte das consultas são de mulheres. Os números brasileiros, lidos com cuidado, desmentem a impressão. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Osteoporose, aprovado pelo Ministério da Saúde em outubro de 2025, estima que cerca de metade das mulheres e um em cada cinco homens com 50 anos ou mais terão uma fratura osteoporótica ao longo da vida. No estudo BRAZOS, que examinou 2.420 brasileiros acima de 40 anos de várias regiões, fratura de baixo impacto apareceu em 15,1% das mulheres e em 12,8% dos homens, sem diferença significativa entre os sexos, e a maioria de quem já tinha fraturado não sabia que tinha osso frágil. Os sítios mais comuns foram antebraço distal, quadril, úmero, costelas e coluna, nessa ordem.

A fratura vertebral é a mais subestimada. Num estudo com idosos de baixa renda da comunidade em São Paulo, acima de 65 anos, a fratura vertebral morfométrica apareceu em 17,1% das mulheres e em 13,2% dos homens. O protocolo lembra que ela é frequentemente assintomática, que uma vértebra fraturada aumenta muito o risco das seguintes e que as fraturas vertebrais recorrentes pioram a qualidade de vida na proporção do seu número. A de quadril é a mais grave: no levantamento de todas as internações por essa fratura numa cidade da região Sul, de 2010 a 2012, a incidência anual foi de 268 casos por 100.000 mulheres e de 153 por 100.000 homens, com mortalidade hospitalar de 7,5% e de 25% em doze meses. O protocolo registra ainda aumento de 12% a 20% na mortalidade nos dois anos seguintes e metade desses pacientes precisando de institucionalização permanente.

O que separa o homem da mulher não é tanto a frequência, é a causa. O protocolo estima osteoporose secundária em cerca de 30% das mulheres na pós-menopausa, em 40% a 50% das mulheres na pré-menopausa e em 50% a 55% dos homens com o diagnóstico. No homem, procurar a causa não é excesso de zelo: é a hipótese mais provável. E a causa secundária mais comum, pelo posicionamento conjunto de 2020 da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, da Sociedade Brasileira de Estomatologia e Patologia Oral e da Associação Brasileira de Avaliação Óssea e Osteometabolismo, é o glicocorticoide.

O resumo da atualização de 2020 das diretrizes da Sociedade Brasileira de Reumatologia situa as fraturas vertebrais e não vertebrais entre 30% e 50% de quem usa glicocorticoide por mais de três meses. A diretriz de 2022 do American College of Rheumatology acrescenta a relação com a dose: a partir de 2,5 mg/dia de prednisona o risco sobe na coluna e no quadril, abaixo disso ainda sobe na coluna, e doses diárias de 30 mg ou mais, ou acumuladas de 5 g ou mais em um ano, aumentam o risco além disso, com pico de incidência em doze meses. O mesmo documento reconhece que muitos pacientes em corticoide não são avaliados nem tratados, e que disso resultam fraturas evitáveis. Hugolino passou de 5 g de prednisona antes de completar seis meses de tratamento, e ninguém perguntou pelo osso.

A vitamina D tem a epidemiologia oposta: o problema é tanto a falta quanto o excesso de prescrição. O posicionamento brasileiro de 2020 sobre os valores de referência da 25-hidroxivitamina D afirma que muitas das solicitações do exame são questionáveis e cita uma série de 5.527 pacientes com deficiência em 59% e intoxicação em 2,7%. A maior parte dos relatos de intoxicação, pelo mesmo documento, vem de doses empíricas ou suprafisiológicas de colecalciferol, sobretudo injetáveis. Quem pede o exame para todo mundo encontra deficiência em muita gente; quem prescreve megadose sem controle fabrica o outro problema.

Duas raridades entram neste capítulo porque mudam a conduta de quem as desconhece. A osteonecrose de mandíbula ligada a antirreabsortivo, o medo mais comum de quem vai começar bisfosfonato, tem prevalência de 0 a 0,04% com o bisfosfonato oral na osteoporose, com a maioria dos relatos abaixo de 0,001%; nos ensaios clínicos, o risco com ácido zoledrônico (0,017%) e com denosumabe (0,04%) foi comparável ao do placebo (0 a 0,02%). E a doença de Paget, que costuma se anunciar por uma fosfatase alcalina alta sem explicação, teve prevalência de 0,68% em adultos acima de 45 anos num estudo de Recife citado pelo protocolo federal de 2020; a incidência que o mesmo parágrafo imprime não fecha com essa prevalência, e a conta está nas notas do bloco de critérios.

04

Por que acontece o que acontece

O osso adulto se renova em pequenas unidades: osteoclastos escavam, osteoblastos preenchem, e o saldo de cada ciclo decide se o esqueleto ganha ou perde. O saldo positivo tem prazo. O protocolo de 2025 situa o pico de aquisição de massa óssea aos 12 anos nas meninas e aos 14 nos meninos, com cerca de 95% da massa adulta formada até o fim da adolescência, e atribui de 60% a 80% dela à genética; cálcio, vitamina D, atividade física, medicamentos e doenças modulam o restante. Depois disso, todo adulto vive de poupança, e qualquer coisa que acelere a escavação ou freie o preenchimento — hormônio, fármaco, inflamação, falta de substrato — gasta a poupança mais depressa.

A densitometria mede a poupança, não o risco. O protocolo explica que o T-escore indica risco relativo, e não absoluto, e que a maior parte das fraturas acontece em quem tem osteopenia, simplesmente porque a distribuição da massa óssea na população concentra a maioria das pessoas entre −1,0 e −2,5 desvios-padrão. Por isso a fratura por fragilidade pesa mais que o número: uma vértebra que cede quando alguém pega um brinquedo do chão prova que aquele osso, naquela pessoa, já não aguenta a carga do cotidiano, e o protocolo a aceita como diagnóstico independentemente do T-escore. A leitura da densitometria e do FRAX, com os sítios e as réguas, está em Osteoporose pós-menopausa: rastreamento e prevenção, na apostila de Ginecologia, e este capítulo usa essas réguas como estão lá.

O glicocorticoide ataca as duas metades do ciclo, em tempos diferentes. A diretriz americana de 2022 descreve a perda mais rápida nos primeiros três a seis meses de tratamento, por ativação precoce dos osteoclastos, seguida de menor proliferação e maior apoptose de osteoblastos e de osteócitos. O osso perde massa e, sobretudo, capacidade de reparo — o que ajuda a entender por que o protocolo brasileiro desce o corte de tratamento para −2,0 nesses pacientes e por que a calculadora de risco subestima quem usa doses muito altas. O mesmo documento registra a outra face: crianças e adultos jovens costumam recuperar osso quando o corticoide é suspenso, e é daí que nasce a pergunta sobre quando parar o remédio do osso.

A vitamina D é substrato antes de ser hormônio. O colecalciferol da pele ou do comprimido é hidroxilado no fígado a 25-hidroxivitamina D, que é o estoque e é o que se dosa; o rim a converte na forma ativa, a 1,25-di-hidroxivitamina D, que abre o intestino ao cálcio. O posicionamento brasileiro de 2020 explica por que a forma ativa não serve para medir estoque: meia-vida de quatro a seis horas, controle rígido por cálcio, fósforo, paratormônio e FGF-23 e, o detalhe que engana, valores normais ou até altos na deficiência, porque o paratormônio elevado estimula a enzima renal que a produz. Sem substrato, o intestino absorve menos cálcio, o paratormônio sobe para defender o cálcio do sangue e vai buscá-lo no osso: é o hiperparatireoidismo secundário, e a densitometria de quem o tem cai por reabsorção.

Quando a falta é longa, o problema muda de natureza. O mesmo posicionamento registra que a hipovitaminose D crônica e a baixa ingestão de cálcio levam a mineralização óssea deficiente: raquitismo na criança, osteomalácia no adulto. O osso da osteomalácia não é pouco osso, é matriz que não mineralizou. Na densitometria, as duas situações podem sair com o mesmo número baixo, e a diferença é de conduta: o bisfosfonato freia a reabsorção, mas não entrega cálcio nem vitamina D a um osso que não mineraliza, e num paciente com cálcio no limite tira de cena justamente a reabsorção que estava segurando o cálcio do sangue. Há ainda osteomalácias em que o defeito não é a vitamina D, e sim o fósforo — por excesso de FGF-23, por exemplo —, e é para as formas hipofosfatêmicas, para a deficiência de 1-alfa-hidroxilase, para a insuficiência hepática, para o hipoparatireoidismo e para a doença renal crônica avançada que o protocolo de 2025 reserva o calcitriol, que não repõe 25-hidroxivitamina D.

A doença de Paget é o oposto em ritmo. O protocolo federal a descreve como doença óssea hipermetabólica de um ou mais ossos, com reabsorção osteoclástica aumentada seguida de reparo osteoblástico desorganizado. O resultado é um osso maior e mais frágil, que dói, deforma, fratura e comprime nervos e vasos vizinhos, com preferência por crânio, pelve, vértebras, fêmur e tíbia; a transformação neoplásica, sobretudo em osteossarcoma, acontece em menos de 1% dos pacientes. Como o osteoblasto trabalha dobrado, a fosfatase alcalina, produto da formação óssea, sobe, e é por ela que a doença costuma ser descoberta e acompanhada.

Os bisfosfonatos têm afinidade altíssima pela matriz mineral, depositam-se onde há reabsorção ativa, são captados pelo osteoclasto e desorganizam seu citoesqueleto até a apoptose. O posicionamento brasileiro sobre efeitos orais dos antirreabsortivos lembra que o esqueleto retém bisfosfonato por até dez anos, conforme o ritmo de remodelação, e é essa retenção que permite pausa em quem tem baixo risco. O denosumabe, anticorpo contra o RANKL, não se acumula: o efeito cessa quando a dose falta, e há rebote com aumento de fraturas nos doze meses seguintes à suspensão, razão pela qual ele não admite pausa. O romosozumabe inibe a esclerostina e forma osso, mas o protocolo limita seu uso a um ano, seguido imediatamente de bisfosfonato para não perder o ganho.

A osteonecrose de mandíbula nasce do mesmo encontro entre remodelação e reparo. Os maxilares remodelam muito, a mucosa que os cobre é fina e se machuca com facilidade, e a boca é colonizada por bactérias que chegam ao osso pela cárie, pela doença periodontal e pelos processos periapicais. Com a remodelação freada, o reparo depois de uma infecção ou de uma extração pode não acontecer, e fica osso necrótico exposto. A definição adotada pelo posicionamento brasileiro exige osso exposto, ou sondável por fístula, por pelo menos oito semanas, em quem usou antirreabsortivo ou antiangiogênico e não recebeu radioterapia de cabeça e pescoço. O dente quebrado do Hugolino, com a gengiva inflamada, pesa mais nessa conta que uma extração planejada: o documento aponta a infecção dental, mais do que a extração em si, como o principal fator local.

Osso trabecular normal, perda de trabéculas e conexões na osteoporose e camada de osteoide não mineralizado na osteomalácia.
Osteoporose envolve perda de massa e deterioração da microarquitetura; osteomalácia envolve mineralização inadequada da matriz. Ambas podem reduzir a densidade mineral e podem coexistir. Investigar causas e distúrbios de mineralização orienta o tratamento; a densitometria isolada não estabelece a distinção. A faixa rosada representa osteoide por convenção didática. Ilustração didática original.
05

Como se apresenta de verdade

Este capítulo é dono do osso fora da pós-menopausa. A mulher na pós-menopausa — rastreamento, densitometria, investigação da fratura por fragilidade e tratamento pelo protocolo de 2025 — é de Osteoporose pós-menopausa: rastreamento e prevenção, na apostila de Ginecologia, e o climatério é de Climatério e menopausa: sintomas e diagnóstico. Este capítulo assume o que não tinha dono no nível — a osteoporose do homem, a secundária em quem não combina com a idade e o sexo, a segurança e a duração do tratamento, a vitamina D e o cálcio do adulto, a osteomalácia e o reconhecimento da doença de Paget — e passa a ser o dono da osteoporose induzida por glicocorticoide, que Osteoporose pós-menopausa registrava na sua tabela de casos especiais por não haver outro capítulo do nível que a cobrisse.

As outras fronteiras também têm endereço. A dor lombar aguda e seus sinais de alarme ficam em Lombalgia e hérnia de disco: red flags e conduta, na apostila de Ortopedia, e em Dor lombar aguda: os sinais de alarme; a fratura de quadril, em Fratura de quadril no idoso: colo do fêmur e transtrocantérica; as fraturas de punho e úmero, em Fraturas do membro superior (supracondiliana, Colles, escafoide); as quedas, em Síndromes geriátricas: quedas e imobilidade; o hiperparatireoidismo primário e o paratormônio, em Hiperparatireoidismo e nódulo/massa cervical, na apostila de Cirurgia de Cabeça e Pescoço; a hipocalcemia e a hipercalcemia que pedem tratamento agudo, em Distúrbios do cálcio, magnésio e fósforo (hipercalcemia/hipocalcemia), na apostila de Medicina Intensiva; a criança com falta de vitamina D e raquitismo, em Deficiências de micronutrientes: ferro, vitamina A, vitamina D, iodo e zinco, na apostila de Nutrologia Pediátrica. A apresentação que interessa aqui é a de quem passa por qualquer uma dessas portas e sai sem que ninguém pergunte pelo osso.

Percurso de aprendizagem

Primeiro, fratura e risco: reconhecer quem precisa de tratamento mesmo antes de discutir todos os pontos de corte.

Depois, metabolismo ósseo, causas secundárias e escolha de terapia, com cálcio e vitamina D individualizados.

Aprofundamento: Paget, duração de tratamento, procedimentos dentários e casos de muito alto risco; mantenha cada pergunta em seu contexto.

1. A fratura que já é o diagnóstico

O protocolo de 2025 inclui para tratamento quem tem fratura de fêmur proximal, rádio distal, úmero proximal ou coluna vertebral por baixo impacto — queda da própria altura ou menos —, comprovada em radiografia, sem necessidade de densitometria. O critério é de sítio e de mecanismo, e não de sexo: vale para Hugolino exatamente como vale para a mulher de 75 anos. Quando o T-escore também está igual ou abaixo de −2,5, o protocolo chama o quadro de osteoporose grave.

A fratura vertebral é a que se perde. O protocolo lembra que ela é frequentemente assintomática e manda radiografar a coluna dorsal e a lombar, em anteroposterior e perfil, quando há dor aguda intensa, dor crônica que persiste ou perda de altura maior que 4 cm. Duas perguntas encontram vértebras que ninguém procurou: se a pessoa diminuiu de altura, conferida contra um documento antigo, e se a coluna “entortou” nos últimos anos. A dor de Hugolino foi súbita, ao se abaixar, sem trauma; a carteira de motorista marcava 3 cm a mais.

Dor lombar com febre, perda de peso, déficit neurológico, história de câncer ou trauma de alta energia não é assunto deste capítulo antes de ser assunto do capítulo de coluna: os sinais de alarme saem daqui para Lombalgia e hérnia de disco: red flags e conduta. Afastados eles, o que resta — o osso por trás da vértebra que cedeu — é daqui.

2. O homem: quem procurar e o que perguntar

O protocolo indica densitometria para todo homem a partir dos 70 anos e, antes disso, na presença de fator de risco: baixo peso, fratura prévia, uso de medicamento ou doença que sabidamente afeta o osso. Acima dos 50 anos, a osteoporose densitométrica do homem se define pelo mesmo T-escore da mulher na pós-menopausa. Abaixo dessa idade o T-escore deixa de ser a régua; para quem tem menos de 40 anos, a diretriz americana de corticoide lê o escore Z, e um Z igual ou abaixo de −2,0 indica massa óssea baixa para a idade, sem estimar risco de fratura.

A anamnese do homem com osso frágil é uma lista de causas. Glicocorticoide, com dose, tempo e desenho de uso. Privação androgênica para câncer de próstata. Tabagismo e álcool, que entram no FRAX. Sinais de hipogonadismo — desejo, ereção, pelos, ginecomastia —, porque o hipogonadismo está entre as causas endócrinas que o posicionamento brasileiro de 2020 lista. Diarreia, perda de peso, anemia, cirurgia bariátrica. Anticonvulsivantes e antirretrovirais, que aceleram a degradação da vitamina D. Doença renal crônica. Fratura de quadril num dos pais. Quedas.

A privação androgênica tem régua própria. O protocolo de 2025 trata como caso especial o homem com câncer de próstata que inicia e mantém agonista ou antagonista de GnRH ou antiandrogênico: o fármaco para o osso é indicado com fratura osteoporótica prévia, T-escore igual ou abaixo de −2,0 em coluna ou quadril, ou FRAX acima do limiar — o mesmo corte rebaixado do corticoide. É um hipogonadismo produzido de propósito: a testosterona que o tratamento do câncer retira é a que protegia o osso, e dosá-la nesse homem não acrescenta nada. O câncer é de Câncer de próstata (rastreamento PSA, estadiamento), na apostila de Urologia; o osso desse homem é daqui, e a pergunta por ele cabe a qualquer médico que o acompanhe no primeiro ano do bloqueio.

Hugolino tem glicocorticoide em dose alta, tabagismo e uma fratura. Não tem sinal de hipogonadismo, diarreia nem anemia conhecida. A lista não fecha a investigação — o painel de laboratório é que fecha —, mas diz quais exames entram além do painel e quais não entram.

3. Quem toma corticoide: a dose, o tempo e o desenho

Dois limiares convivem. O protocolo brasileiro define o caso especial pelo plano de manter dose diária superior a 5 mg de prednisona, ou equivalente, por três meses ou mais. A diretriz americana de 2022 avalia a partir de 2,5 mg/dia por mais de três meses e pede a primeira avaliação o quanto antes, dentro de seis meses do início. Por que os dois convivem, e qual deles decide o quê, está no bloco de divergências.

A anamnese do usuário de corticoide pergunta a dose de hoje, a maior dose já usada, desde quando e em que desenho — contínuo, em pulsos, em ciclos curtos repetidos — e soma a dose acumulada. A diretriz americana põe no risco muito alto quem recebe 30 mg/dia ou mais por mais de 30 dias ou acumula 5 g ou mais em um ano, independentemente da densitometria, e manda corrigir o FRAX quando a dose passa de 7,5 mg/dia, multiplicando por 1,15 o risco de fratura maior e por 1,2 o de quadril, com o aviso de que nem essa correção alcança as doses muito altas. Hugolino recebeu 60 mg por 28 dias e desceu em degraus: somam 5.600 mg em 224 dias.

A avaliação clínica da mesma diretriz é uma lista curta: álcool, tabagismo, hipogonadismo, fraturas anteriores (inclusive as assintomáticas), baixo peso, perda de peso importante, fratura de quadril num dos pais, quedas, doença tireoidiana, hiperparatireoidismo, artrite reumatoide, má absorção, doença hepática crônica e doença inflamatória intestinal. O FRAX não é validado abaixo dos 40 anos.

A doença que exige o corticoide pertence a quem a trata. O lúpus é de Lúpus eritematoso sistêmico, na apostila de Reumatologia; a urgência visual da arterite de células gigantes é de Perda visual sem olho vermelho, na apostila de Oftalmologia, e a doença sistêmica, com a retirada do corticoide, de Vasculites sistêmicas, na apostila de Reumatologia. Quem ajusta a dose é quem trata a doença, e este capítulo protege o osso enquanto a dose for a que a doença exigir.

4. Quando o osso não combina com a pessoa

Algumas pistas mandam procurar causa secundária antes de rotular: homem; mulher antes da menopausa; adulto jovem; escore Z baixo para a idade; fratura nova apesar de tratamento bem feito, situação em que o protocolo manda reinvestigar causas secundárias; e qualquer exame alterado no caminho — cálcio, fósforo, fosfatase alcalina, creatinina, hemograma. A pergunta que organiza a investigação é por qual mecanismo aquele osso está sendo perdido naquela pessoa.

A mulher antes da menopausa e o adulto jovem pedem cuidado dobrado com o rótulo. Pelo protocolo, a osteoporose secundária responde por 40% a 50% dos diagnósticos na mulher antes da menopausa, e o T-escore, que define a doença na pós-menopausa e no homem acima de 50 anos, não é a régua dela. Abaixo dos 40 anos, a diretriz americana de corticoide lê o escore Z, lembra que ele não estima risco de fratura e trata o adulto jovem em uso de corticoide, sem fratura e sem dose muito alta, como de baixo risco e com grande capacidade de recuperar a massa perdida: nesse grupo o antiosteoporótico não deve ser iniciado. O risco sobe para moderado em quem mantém 7,5 mg/dia ou mais por seis meses com escore Z abaixo de −3 ou perda significativa de densidade, e para muito alto em quem fraturou ou recebeu 30 mg/dia ou mais, ou 5 g em um ano. Na mulher que pode engravidar, a mesma diretriz pede cautela com o bisfosfonato e com o denosumabe. A investigação da amenorreia é de Amenorreia primária e secundária: investigação, na apostila de Ginecologia; a perda óssea da mulher jovem, quando pede avaliação, segue a lógica deste capítulo.

O posicionamento brasileiro de 2020 sobre efeitos orais dos antirreabsortivos agrupa as causas: doenças inflamatórias crônicas (reumáticas, intestinais e respiratórias), neoplasias como o mieloma múltiplo, doenças endócrinas (hipogonadismo, hiperparatireoidismo primário e síndrome de Cushing) e condições que causam má absorção intestinal, além dos medicamentos, com o glicocorticoide como o mais comum. O painel do protocolo acrescenta a tireoide, pelo TSH e pelo T4 livre — hipertireoidismo, inclusive o produzido por excesso de levotiroxina, que é assunto de Hipotireoidismo e rastreamento tireoidiano, nesta apostila —, e a função renal.

Hugolino tem uma causa evidente e pelo menos duas outras possíveis que só o laboratório afasta. O corticoide não dispensa o painel: quem para na primeira causa encontrada deixa passar a segunda.

5. Osteomalácia: quando a queixa é dor e fraqueza

A osteomalácia do adulto aparece em quem ficou muito tempo sem vitamina D ou sem absorvê-la. O posicionamento brasileiro de 2020 lista os grupos de risco para deficiência: idosos, pele escura, barreiras à luz solar como roupa e protetor, pessoas acamadas ou confinadas, obesidade, gestação, insuficiência hepática grave, doença renal crônica, anticonvulsivantes, antirretrovirais, cetoconazol e isoniazida, doenças inflamatórias como lúpus, artrite reumatoide e tuberculose, hiperparatireoidismo primário e as síndromes de má absorção — doença celíaca, doença de Crohn, fibrose cística, insuficiência pancreática, cirurgia bariátrica e ressecções intestinais.

O quadro é de dor óssea difusa, pior em quadris, costelas e pernas, fraqueza dos músculos proximais — dificuldade para levantar da cadeira e subir degraus — e fraturas com trauma mínimo. O laboratório conta a história antes da imagem: cálcio baixo ou no limite inferior, fósforo baixo, fosfatase alcalina alta, paratormônio alto e 25-hidroxivitamina D muito baixa.

A armadilha é a densitometria. Na pessoa com esse perfil, o número baixo é o último dado a considerar, e não o primeiro, porque a mesma densidade baixa sai da falta de mineral e da falta de osso. Quem trata o número com bisfosfonato trata a doença errada e arrisca derrubar um cálcio que já estava no limite. As formas em que o defeito é o fósforo ou a ativação da vitamina D têm protocolo federal próprio, o de raquitismo e osteomalácia, e vão para o serviço especializado.

6. Paget: a fosfatase alcalina que ninguém explicou

O protocolo federal de 2020 descreve a doença de Paget como frequentemente descoberta por acaso: fosfatase alcalina alta em quem não tem doença hepatobiliar ou outra doença óssea, ou alteração sugestiva numa radiografia feita por outro motivo. A maioria dos pacientes não tem sintoma. Quando há, o mais frequente é dor óssea profunda, de intensidade leve a moderada, que pode piorar à noite, com deformidades que se anunciam por fratura ou por compressão de estruturas vizinhas; a perda auditiva, por acometimento do osso temporal, é a complicação mais comum, e cefaleia e compressão de raízes ou da medula também aparecem. Insuficiência cardíaca de alto débito e transformação neoplásica são muito raras, e a doença raramente se manifesta antes dos 40 anos.

O interno não trata Paget sozinho; reconhece. O homem de 74 anos com fosfatase alcalina três vezes acima da referência, aminotransferases normais, dor profunda numa tíbia que se arqueou e televisão cada vez mais alta sai da consulta com radiografia, cálcio, vitamina D garantida e encaminhamento — e o caso a completar deste capítulo segue esse caminho até o fim.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação do osso fora da pós-menopausa responde duas perguntas, nesta ordem: há outra doença tirando osso? E o paciente está pronto para o remédio? A primeira pede o painel que o protocolo fixa e os poucos exames que a história acrescenta; a segunda pede cálcio, rim, esôfago e boca. A densitometria participa das duas e não decide nenhuma sozinha.

Tudo o que se pede tem de caber numa frase que diga o que o resultado muda. Exame sem essa frase — 1,25-di-hidroxivitamina D para avaliar estoque, marcador de reabsorção para decidir extração dentária, densitometria de três em três meses — só produz número.

1. O painel do protocolo, exame por exame

O protocolo de 2025 lista, para diagnosticar causas secundárias ou monitorar o tratamento, hemograma, velocidade de hemossedimentação, cálcio, fósforo, albumina, creatinina, fosfatase alcalina, paratormônio, TSH, T4 livre, 25-hidroxivitamina D e cálcio na urina de 24 horas, e admite outros exames conforme o quadro clínico e a história. Esse painel de causa secundária é o mínimo do homem, da mulher antes da menopausa, do adulto jovem e de quem usa corticoide.

Cada exame procura uma coisa. O hemograma e a velocidade de hemossedimentação procuram anemia e inflamação, que abrem a porta ao mieloma e às doenças inflamatórias — lembrando que o corticoide em dose alta abaixa a velocidade de hemossedimentação e tira dela parte do valor. O cálcio, lido junto com a albumina, procura hipercalcemia, que manda ao paratormônio e ao capítulo de hiperparatireoidismo, e hipocalcemia, que proíbe o bisfosfonato. O fósforo baixo é a assinatura das osteomalácias e do hiperparatireoidismo. A creatinina decide o fármaco. A fosfatase alcalina alta aponta para osteomalácia, doença de Paget ou fratura em consolidação. O paratormônio separa o hiperparatireoidismo primário, com cálcio alto, do secundário, com cálcio normal ou baixo. TSH e T4 livre procuram hipertireoidismo. A 25-hidroxivitamina D mede estoque. A calciúria de 24 horas baixa conversa com falta de vitamina D ou má absorção; alta, pede investigação própria.

O mesmo painel volta quando o tratamento falha: o protocolo manda repetir exames laboratoriais a critério clínico, basicamente para verificar vitamina D e cálcio ou para reinvestigar causas secundárias se o tratamento não for eficaz.

2. O que a história acrescenta ao painel

Os outros exames conforme o quadro que o protocolo admite entram porque a história os pediu, e não por rotina. Homem com queixa de desejo, ereção, pelos ou ginecomastia: testosterona total colhida pela manhã, porque o hipogonadismo está na lista brasileira de causas. Anemia sem explicação, cálcio alto, perda de função renal ou dor óssea em vários pontos: eletroforese de proteínas séricas, pelo mieloma múltiplo. Diarreia crônica, anemia ferropriva ou perda de peso: sorologia de doença celíaca. Aspecto cushingoide em quem não usa corticoide: rastreio de hipercortisolismo pelo método que o serviço usa.

No homem com privação androgênica o hipogonadismo já está dado pelo tratamento, e dosar testosterona não muda nada. No usuário de corticoide exógeno, rastrear Cushing é redundante. A história também tira exame da lista.

Para o Hugolino, a história não pede testosterona nem sorologia. Esta apostila acrescenta a eletroforese de proteínas séricas por escolha própria: é um homem com fratura vertebral cuja velocidade de hemossedimentação está domesticada pela prednisona, e o painel sozinho perde parte da triagem do mieloma.

3. Imagem: a radiografia que acha a vértebra e a densitometria que vira régua

O protocolo indica radiografias da coluna dorsal e da lombar, em anteroposterior e perfil, para diagnosticar fraturas vertebrais, sintomáticas ou não, no paciente com diagnóstico densitométrico ou clínico, no início do tratamento e sempre que houver dor sugestiva ou perda de altura maior que 4 cm. A diretriz americana pede, no usuário de corticoide, densitometria com avaliação de fratura vertebral ou radiografia de coluna já na primeira avaliação. Achar uma segunda vértebra muda a categoria de risco e o prazo do tratamento.

A densitometria de quem já fraturou não serve para fazer o diagnóstico, que a fratura fez; serve de linha de base. O protocolo pede o exame inicial e sua repetição a cada um a dois anos até a massa óssea estabilizar, sempre no mesmo aparelho, e aceita o antebraço quando os outros sítios têm artefato ou no hiperparatireoidismo. Os sítios, as duas réguas de leitura, o limiar de intervenção do FRAX Brasil disponibilizado pela Abrasso e a decisão por densitometria na mulher estão em Osteoporose pós-menopausa: rastreamento e prevenção, na apostila de Ginecologia.

Densitometria na mão, lembre o que ela não diz: não separa osteoporose de osteomalácia, não diagnostica fratura vertebral sem a avaliação específica que a diretriz americana pede junto e, no usuário de doses muito altas de corticoide, subestima o risco que a fratura e a dose já declararam.

4. 25-hidroxivitamina D: quando pedir e quando não

O posicionamento de 2020 da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial recomenda a dosagem nos grupos com risco de deficiência — os da seção de osteomalácia deste capítulo — e registra que muitas solicitações são questionáveis. Cansaço inespecífico, curiosidade de check-up e dor lombar mecânica não estão na lista. Osteoporose, fratura por fragilidade, quedas recorrentes, doença renal crônica, má absorção, cirurgia bariátrica e uso de medicamentos que interferem no metabolismo da vitamina D estão.

Os valores do documento são quatro. Abaixo de 20 ng/mL, deficiência. De 20 a 60 ng/mL, adequado para a população geral abaixo de 65 anos. De 30 a 60 ng/mL, o ideal para os vulneráveis — idosos e caidores, operados de bariátrica, gestantes, usuários de fármacos que interferem no metabolismo da vitamina D e pessoas com osteoporose, hiperparatireoidismo secundário, osteomalácia, diabetes tipo 1, câncer, doença renal crônica ou má absorção. Acima de 100 ng/mL, risco de intoxicação; e nenhum benefício demonstrado acima de 60. No usuário de corticoide, a diretriz americana pede manter entre 30 e 50 ng/mL.

Dois cuidados de leitura. A 1,25-di-hidroxivitamina D não avalia estoque, pode estar normal ou alta na deficiência, e o posicionamento a reserva para doença renal crônica, osteomalácia oncogênica, raquitismos hereditários e doenças granulomatosas. E vitamina D e paratormônio se interpretam juntos: a mesma 25-hidroxivitamina D de 22 ng/mL com paratormônio alto conta uma história diferente da que conta com paratormônio normal.

5. Fosfatase alcalina alta sem explicação

A primeira pergunta é de onde ela vem. O protocolo da doença de Paget manda dosar aminotransferases e bilirrubinas para excluir doença hepatobiliar e cálcio para afastar hiperparatireoidismo, com paratormônio quando o cálcio está alto. Excluído o fígado, a fosfatase alcalina é óssea, e a combinação com cálcio, fósforo, paratormônio e 25-hidroxivitamina D separa as hipóteses; a tabela de critérios faz essa separação linha a linha.

Na suspeita de Paget, a imagem confirma. A cintilografia óssea mostra a extensão, localizando as áreas de atividade metabólica aumentada, e as áreas acometidas devem ser radiografadas. Onde não há cintilografia, o protocolo aceita começar por radiografias de abdome, crânio com ossos da face e as duas tíbias, que alcançam até 93% dos pacientes. O diagnóstico radiológico exige pelo menos um de três achados: espessamento da cortical, trabéculas desorganizadas e espessadas, expansão do osso. Tomografia e ressonância ficam para complicações — compressão nervosa ou vascular, suspeita de neoplasia —, e a biópsia, para a dúvida diagnóstica.

O protocolo adota a própria fosfatase alcalina como marcador de atividade e de resposta ao tratamento, sem necessidade dos outros marcadores de formação ou de reabsorção. Quem pede CTX e deoxipiridinolina para confirmar Paget gasta sem mudar a conduta.

6. Antes do primeiro comprimido

Cálcio sérico normal, lido com a albumina. O protocolo lista a hipocalcemia entre as contraindicações dos bisfosfonatos orais, e o da doença de Paget pede garantir aporte de cálcio e de vitamina D antes de iniciar o bisfosfonato. Quem começa com cálcio no limite e 25-hidroxivitamina D muito baixa escolhe o momento de maior risco para o primeiro comprimido.

Depuração de creatinina calculada, e não só a creatinina lida. Pelo Cockcroft-Gault, a depuração em mL/min é (140 − idade) × peso em kg ÷ (72 × creatinina em mg/dL), multiplicada por 0,85 na mulher. O protocolo contraindica o bisfosfonato oral abaixo de 30 mL/min, não recomenda o alendronato abaixo de 35 e exclui do tratamento medicamentoso os estágios 4 e 5 da doença renal crônica; a diretriz americana manda, em geral, não usar bisfosfonato abaixo de 35 e avaliar antes o distúrbio mineral e ósseo. Hugolino: (140 − 68) × 72 ÷ (72 × 1,1) = 65,5 mL/min.

Esôfago e postura. As contraindicações do oral incluem a incapacidade de ficar sentado ou de pé por 30 a 60 minutos depois do comprimido, e o ácido zoledrônico existe no protocolo justamente para quem tem intolerância, dificuldade de deglutição por doença esofágica que retarda o esvaziamento — estenose, acalasia —, refluxo importante ou má absorção do oral. Na mulher que pode engravidar, a diretriz americana pede cautela com o bisfosfonato, pela potência e pela meia-vida longa no osso do feto.

A boca. O posicionamento brasileiro de 2020 recomenda encaminhar ao dentista, para procedimentos preventivos e orientação, todo paciente que vai iniciar antirreabsortivo, antes do início. O mesmo documento diz que o CTX medido antes de procedimento dentário não prediz osteonecrose e que o corte de 150 pg/mL não se associou à complicação. O dente quebrado do Hugolino, com gengiva inflamada, é exatamente o que se resolve antes.

Quem chega usando denosumabe, comprado ou obtido fora do SUS, muda a pergunta. O posicionamento brasileiro de 2020 lembra que ele não se acumula no esqueleto, que o efeito cessa quando a dose falta e que há rebote, com aumento de fraturas nos doze meses seguintes à suspensão — por isso ele não admite pausa. A diretriz americana acrescenta que as fraturas vertebrais da suspensão podem ser evitadas se um bisfosfonato começar seis a sete meses depois da última aplicação. Como o denosumabe não consta da Rename, o paciente que não consegue mais comprá-lo não pode simplesmente parar: o bisfosfonato do protocolo entra no lugar, dentro desse prazo, com cálcio normal e depuração conferida. Abaixo de 30 mL/min, a mesma diretriz registra hipocalcemia mais grave e prolongada com o denosumabe.

07

As réguas, os números e as contas

O objetivo é reconhecer fragilidade óssea, investigar causas relevantes e prevenir novas fraturas com tratamento viável. Densitometria é parte da avaliação: fratura prévia, quedas, corticoide, nutrição e função também decidem o risco. O capítulo decide com três documentos federais — o protocolo da osteoporose de 2025, o da doença de Paget de 2020 e a Rename 2024 —, com a decisão da Conitec de 2026 para o homem, com dois posicionamentos brasileiros de sociedade (vitamina D e efeitos orais dos antirreabsortivos) e, onde o protocolo não alcança o paciente com corticoide, com a diretriz americana de 2022. As contas usam o Hugolino: 68 anos, 72 kg, creatinina de 1,1 mg/dL.

  1. 1Fratura de fêmur proximal, rádio distal, úmero proximal ou vértebra por queda da própria altura ou menos, comprovada em radiografia: é osteoporose, em homem ou mulher, sem esperar densitometria (protocolo de 2025)
  2. 2Mulher na pós-menopausa sem outro fator: segue Osteoporose pós-menopausa, na apostila de Ginecologia; homem, mulher antes da menopausa, adulto jovem e usuário de corticoide seguem este capítulo
  3. 3Homem sem fratura: densitometria a partir dos 70 anos, ou antes com baixo peso, fratura prévia, medicamento ou doença que afeta o osso
  4. 4Glicocorticoide de 2,5 mg/dia ou mais por mais de 3 meses: avaliar o osso em até 6 meses do início — fraturas, densitometria com radiografia de coluna e FRAX a partir dos 40 anos (diretriz americana de 2022)
  5. 5Plano de mais de 5 mg/dia por 3 meses ou mais: tratamento medicamentoso com fratura prévia, T-escore igual ou abaixo de −2,0 em coluna ou quadril, ou FRAX acima do limiar (protocolo de 2025)
  6. 6Em todos acima: painel de causa secundária do protocolo, mais o que a história pedir
  7. 7Cálcio baixo, fósforo baixo, fosfatase alcalina e paratormônio altos, 25-hidroxivitamina D muito baixa: tratar como osteomalácia — vitamina D e cálcio primeiro, bisfosfonato não
  8. 8Fosfatase alcalina alta com aminotransferases, bilirrubinas e cálcio normais: pensar em Paget — radiografia da área que dói e cintilografia para a extensão
  9. 9Antes do bisfosfonato: cálcio normal, depuração de creatinina calculada, esôfago e postura, encaminhamento ao dentista, vitamina D em reposição
  10. 10Depuração abaixo de 35 mL/min: nenhum bisfosfonato antes de avaliar distúrbio mineral e ósseo; abaixo de 30 mL/min ou estágios 4 e 5, o protocolo não preconiza fármaco
  11. 11Primeira escolha no SUS: alendronato (Componente Básico) ou risedronato; intravenoso só quando o oral não pode ser usado
  12. 12Homem com falha terapêutica: rever adesão, técnica, absorção e causa secundária — o SUS não oferece anabólico ao homem (Conitec, 2026)
  13. 13Densitometria a cada 1 a 2 anos no mesmo aparelho; reavaliar aos 5 anos de oral ou 3 de intravenoso; estender até 10 ou 6 anos com T-escore abaixo de −3,0 ou fratura
  14. 14Procedimento dentário em uso de antirreabsortivo: não suspender, não pedir CTX; preparar a boca e fechar a ferida

Quem recebe fármaco pela régua brasileira, e o que este capítulo acrescenta

SituaçãoO que indica tratamento medicamentosoRéguaO que este capítulo acrescenta
Qualquer adulto com fratura maior por baixo impactoA própria fratura, comprovada em radiografia, sem densitometriaProtocolo de 2025, critérios de inclusãoPainel de causa secundária antes do primeiro comprimido
Homem acima de 50 anos sem fraturaT-escore igual ou abaixo de −2,5 em fêmur proximal, coluna lombar ou rádio; ou T-escore de −1,0 a −2,49 em paciente frágil, com risco de queda aumentado ou FRAX acima do limiarProtocolo de 2025, critérios de inclusãoDensitometria a partir dos 70 anos, ou antes com fator de risco
Plano de glicocorticoide acima de 5 mg/dia de prednisona por 3 meses ou maisFratura prévia, T-escore igual ou abaixo de −2,0 em coluna ou quadril, ou FRAX acima do limiarProtocolo de 2025, casos especiaisAvaliação a partir de 2,5 mg/dia, em até 6 meses do início (ver divergências)
Glicocorticoide de 2,5 a 5 mg/diaCritérios gerais: fratura, T-escore igual ou abaixo de −2,5 ou FRAX acima do limiarProtocolo de 2025, critérios de inclusãoCálcio, vitamina D e reavaliação a cada 1 a 2 anos
Homem com câncer de próstata em privação androgênicaFratura prévia, T-escore igual ou abaixo de −2,0 em coluna ou quadril, ou FRAX acima do limiarProtocolo de 2025, casos especiaisO câncer é de Câncer de próstata, na apostila de Urologia; o osso é daqui
Doença renal crônica estágios 4 e 5Nenhum fármaco do protocolo; medidas não medicamentosas e controle da doença renalProtocolo de 2025, critérios de exclusãoDistúrbio mineral e ósseo avaliado com a nefrologia

Remédio, componente do SUS e limite renal

MedicamentoRename 2024 e componenteEsquema do protocoloQuem pode usarLimite renal ou alerta
Alendronato de sódioComprimidos de 10 e 70 mg — Básico70 mg 1 vez por semana ou 10 mg/dia; jejum, 200 mL de água, 30 a 60 min sem deitarPrimeira escolha, em homem ou mulherNão recomendado com depuração abaixo de 35 mL/min
Risedronato sódicoComprimido de 35 mg — Especializado35 mg 1 vez por semana; jejum, 30 min sem deitarPrimeira escolha; o protocolo registra prevenção de fraturas também em homensOral contraindicado abaixo de 30 mL/min; com perda renal prévia, função a cada 1 a 3 meses
Ácido zoledrônicoSolução para infusão de 5 mg/100 mL — Especializado5 mg intravenoso 1 vez por anoIntolerância, dificuldade de deglutição ou má absorção do oralSem corte próprio no protocolo além dos estágios 4 e 5; diretriz americana: evitar bisfosfonato abaixo de 35 mL/min
Pamidronato dissódicoPó para solução injetável de 60 mg — Especializado60 mg intravenoso a cada 3 meses, em 500 mL de soro fisiológico, no mínimo 2 hSó se o ácido zoledrônico estiver indisponível ou contraindicadoMesma exclusão dos estágios 4 e 5
RaloxifenoComprimido de 60 mg — Especializado60 mg/diaSó mulher na pós-menopausa, pela régua de Osteoporose pós-menopausaNão se aplica a este capítulo
CalcitoninaSolução nasal de 200 UI/dose — Especializado400 UI/dia por via intranasalOsteonecrose de mandíbula, fratura atípica de fêmur ou contraindicação absoluta aos outrosProtocolo pede evitar ou limitar o uso prolongado
RomosozumabeSolução injetável de 90 mg/mL — Especializado210 mg subcutâneo por mês, por 12 meses, seguido de bisfosfonatoSó mulher na pós-menopausa com osteoporose grave e falha; não incorporado para homens em 2026Não iniciar após infarto ou AVC no último ano
TeriparatidaSó na lista de exclusões (Portaria SECTICS/MS nº 39/2024)Excluída do SUSNinguém, pelo SUSNão se aplica
DenosumabeNão constaNão se aplicaFora do SUS; quem chega usando não pode parar sem terapia sequencialCom filtração abaixo de 30 mL/min, hipocalcemia mais grave e prolongada (diretriz americana)
CalcitriolCápsula de 0,25 mcg — Especializado0,25 mcg 2 vezes por diaDepuração até 30 mL/min, osteomalácia hipofosfatêmica, deficiência de 1-alfa-hidroxilase, insuficiência hepática, hipoparatireoidismoNão repõe 25-hidroxivitamina D
Carbonato de cálcio, isolado ou com colecalciferol; fosfato de cálcio tribásico com colecalciferolCarbonato 1.250 mg (500 mg de cálcio); associações de 500 ou 600 mg de cálcio com 200 ou 400 UI — BásicoCálcio total de 1.000 a 1.200 mg/dia com a dieta; suplemento abaixo de 1.400 mg/dia, fracionadoTodos os esquemasColecalciferol isolado não consta da Rename

Doses em comprimido e frasco — as contas do Hugolino (68 anos, 72 kg, creatinina 1,1 mg/dL)

ItemDose ou alvoApresentaçãoContaResultado
Depuração de creatinina (Cockcroft-Gault)Decide o bisfosfonatoNão se aplica(140 − 68) × 72 ÷ (72 × 1,1)65,5 mL/min: sem restrição renal
Prednisona acumulada nos primeiros 224 dias60 mg por 28 dias, depois 50, 40, 30 e 25 mg por 14 dias cada, 20, 15 e 12,5 mg por 28 dias cada e 10 mg por 56 diasComprimidos de 5 e 20 mg1.680 + 700 + 560 + 420 + 350 + 560 + 420 + 350 + 5605.600 mg: mais de 5 g em menos de um ano, risco muito alto pela diretriz americana
Alendronato por 5 anos70 mg por semanaComprimido de 70 mg1 comprimido × 52 semanas × 5 anos260 comprimidos (18.200 mg)
Teto do cálcio suplementarAbaixo de 1.400 mg/diaCarbonato de cálcio + colecalciferol, 500 ou 600 mg de cálcio por comprimido3 × 500 = 1.500; 3 × 600 = 1.800No máximo 2 comprimidos por dia (1.000 ou 1.200 mg)
Colecalciferol que o SUS consegue entregar800 a 1.000 UI/dia; até 2.000 UI/dia a partir dos 60 anosAssociação com 400 UI por comprimido2 × 400 = 800 UI; 2.000 UI exigiriam 5 comprimidos, com 2.500 a 3.000 mg de cálcioCom o teto de cálcio, no máximo 800 UI/dia
Colecalciferol de correção, fora da Rename50.000 UI por semanaCápsula ou comprimido de 50.000 UI50.000 ÷ 7; 8 semanas × 50.000Cerca de 7.143 UI/dia; 400.000 UI no ciclo de 8 semanas
Colecalciferol de manutenção do HugolinoAté 2.000 UI/dia a partir dos 60 anos2 comprimidos da associação (800 UI) + 7.000 UI isoladas por semana800 + 7.000 ÷ 7 = 800 + 1.0001.800 UI/dia, dentro do limite
Unidades de vitamina D400, 1.000 e 50.000 UINão se aplica1 mcg de colecalciferol = 40 UI400 UI = 10 mcg; 1.000 UI = 25 mcg; 50.000 UI = 1,25 mg
Ácido zoledrônico, se precisasse5 mg intravenoso por anoFrasco de 5 mg/100 mL5 mg ÷ 0,05 mg/mL100 mL, o frasco inteiro
Pamidronato, se precisasse60 mg em 500 mL, no mínimo 2 hFrasco-ampola de 60 mg500 mL ÷ 2 h; 60 mg ÷ 2 hAté 250 mL/h, 30 mg/h

Fosfatase alcalina alta: o que separa as causas

HipóteseCálcioFósforoParatormônio25-hidroxivitamina DO que confirma e para onde vai
Doença hepatobiliarNormalNormalNormalQualquerAminotransferases e bilirrubinas alteradas; sai do eixo ósseo
Doença de PagetNormal; hipercalcemia com paratormônio normal ou baixo também entra no protocoloNormalNormal ou baixoQualquerRadiografia das áreas acometidas e cintilografia para a extensão; protocolo federal de 2020, serviço especializado
Osteomalácia por falta de vitamina DBaixo ou no limite inferiorBaixoAltoMuito baixaResposta à reposição de vitamina D e cálcio; formas hipofosfatêmicas vão ao protocolo de raquitismo e osteomalácia
Hiperparatireoidismo primárioAltoBaixo ou normalAlto ou inapropriadamente normalQualquerHiperparatireoidismo e nódulo/massa cervical, na apostila de Cirurgia de Cabeça e Pescoço
Distúrbio mineral e ósseo da doença renal crônicaVariávelAlto nos estágios avançadosAltoFrequentemente baixaFiltração reduzida; exames acompanhados em Doença renal crônica: estadiamento e manejo e tratamento pelo protocolo federal próprio
Fratura recente em consolidaçãoNormalNormalNormalQualquerHistória e radiografia; repetir a fosfatase alcalina depois da consolidação

Vitamina D do protocolo de 2025 contra o elenco do SUS. O item 7.2.1 recomenda 800 a 1.000 UI/dia de colecalciferol (ou 7.000 UI por semana) e até 2.000 UI/dia (ou 14.000 UI por semana) a partir dos 60 anos, e manda manter o cálcio suplementar abaixo de 1.400 mg/dia, fracionado em doses de 500 mg. O item 7.2.7 só lista colecalciferol associado a cálcio — 200 ou 400 UI por comprimido, com 500 ou 600 mg de cálcio elementar —, e a Rename 2024 não tem colecalciferol isolado. Conta: 1.000 UI/dia exigem 2,5 comprimidos de 400 UI, que carregam de 1.250 a 1.500 mg de cálcio; 2.000 UI/dia exigem 5 comprimidos, com 2.500 a 3.000 mg de cálcio, quase o dobro do teto. Com o elenco federal, o teto de cálcio trava a vitamina D em 800 UI/dia. No mesmo protocolo, as duas apresentações de 600 mg já passam, num único comprimido, da fração de 500 mg do item 7.2.1, enquanto o esquema do fosfato tribásico aceita 600 mg por vez. Muda conduta em todo idoso e em todo paciente com deficiência: quem tenta chegar à dose do protocolo com a associação passa do teto de cálcio. Este capítulo prescreve o cálcio pela associação e a vitamina D que falta em colecalciferol isolado, e escreve na receita que ele é comprado fora do elenco.

Cálcio na doença de Paget contra cálcio na osteoporose, dois protocolos federais em vigor. O protocolo da doença de Paget, de 2020, prescreve carbonato de cálcio com colecalciferol em 1,2 a 1,5 g/dia de cálcio elementar e 600 a 1.200 UI/dia de colecalciferol, em 3 doses, por 6 meses; o da osteoporose, de 2025, manda manter o cálcio suplementar abaixo de 1.400 mg/dia por preocupação cardiovascular acima desse valor. Conta: com o comprimido de 500 mg + 400 UI do Básico, as 3 doses do esquema de Paget dão 1.500 mg de cálcio e 1.200 UI, 100 mg acima do teto da osteoporose; com o de 600 mg, 3 doses dão 1.800 mg. Muda conduta no paciente que tem as duas doenças. Pelo escopo, no ciclo de tratamento da doença de Paget vale o protocolo de Paget; fora do ciclo, e em quem tem só osteoporose, vale o teto de 2025.

Incidência da doença de Paget no protocolo federal de 2020. A introdução atribui a um estudo de Recife prevalência de 0,68% em adultos acima de 45 anos e incidência de 50,3 por 1.000 pessoas-ano. Conta: numa doença que o próprio protocolo manda acompanhar por toda a vida, prevalência é aproximadamente incidência vezes duração média; 0,0068 ÷ 0,0503 = 0,135 ano, ou 49 dias de doença em média, o que é impossível. Com 50,3 por 100.000 pessoas-ano, a duração média seria de 13,5 anos, compatível com a doença — a denominação por 100.000 é leitura deste capítulo, não do protocolo. Muda o que o aluno lê: com 5% ao ano, toda fosfatase alcalina alta num adulto acima de 45 anos seria Paget até prova em contrário. O capítulo usa só a prevalência.

Suspensão do tratamento quando o corticoide acaba, na diretriz americana de 2022. Para o adulto que para o glicocorticoide sem fratura por fragilidade nova e com T-escore igual ou acima de −2,5, a recomendação é parar o antiosteoporótico e manter cálcio e vitamina D; para o adulto de 40 anos ou mais que para o glicocorticoide e segue em alto risco, definido como T-escore igual ou abaixo de −2,5, a recomendação é manter ou trocar de classe. Conta: o T-escore de exatamente −2,5 satisfaz as duas definições ao mesmo tempo, e o laudo de densitometria imprime uma casa decimal, de modo que o valor aparece na prática. Muda conduta: o mesmo paciente para ou continua o bisfosfonato conforme a frase que o médico ler primeiro. Este capítulo resolve pela régua brasileira: T-escore igual ou abaixo de −2,5 é critério de inclusão do protocolo de 2025, e com −2,5 o tratamento continua.

08

A conduta, hora a hora

A linha do tempo é a do Hugolino, do dia em que ele chega com a radiografia até a decisão dos cinco anos. Cada marco diz o que se decide, com qual régua e o que vai para a receita. As doses são as do protocolo federal de 2025 e as apresentações, as da Rename 2024; quando a escolha não vem de documento nenhum, o marco avisa que ela é desta apostila.

Duas regras atravessam os oito marcos. A primeira: quem mexe na prednisona é quem trata a arterite, e o osso se protege com a dose que a doença exigir. A segunda: nada que o Hugolino não consiga fazer em casa — jejum, água, meia hora sem deitar, comprimido de cálcio longe do de osso — sobrevive a cinco anos, e a receita tem de caber na semana dele.

  1. Primeira consulta, dia 0 — o diagnóstico está feito; a causa, não

    A fratura de T12 por esforço mínimo, comprovada em radiografia, fecha o diagnóstico de osteoporose pelo protocolo de 2025 — no homem como na mulher — e dispensa a densitometria para esse fim; ela é pedida mesmo assim, como linha de base. O que falta é a causa. O glicocorticoide é a óbvia: plano de mais de 5 mg/dia por mais de três meses e fratura prévia preenchem o caso especial do protocolo. Mas metade dos homens com osteoporose tem causa secundária, e a primeira encontrada não afasta as outras. Colhe-se hoje o painel do protocolo. A eletroforese de proteínas entra por escolha desta apostila, porque a velocidade de hemossedimentação de quem toma prednisona perde valor de triagem; testosterona e sorologia de doença celíaca ficam de fora, porque a história não as pediu. A dor da fratura se trata com analgésico simples, e o cálcio começa hoje, porque faz parte de todos os esquemas. Não se prescreve bisfosfonato antes de ver cálcio, rim, vitamina D e boca. A carta para a reumatologia pergunta qual é a menor dose de prednisona que controla a arterite — sem sugerir suspensão.

    Prescrição
    • Dipirona 500 mg: 2 comprimidos (1 g) por via oral até de 6 em 6 horas, se dor — Componente Básico
    • Carbonato de cálcio 1.250 mg + colecalciferol 400 UI: 1 comprimido após o almoço — Componente Básico
    • Prednisona 7,5 mg/dia mantida; carta à reumatologia pedindo a menor dose que controle a arterite de células gigantes
    • Hemograma, velocidade de hemossedimentação, cálcio, fósforo, albumina, creatinina, fosfatase alcalina, paratormônio, TSH, T4 livre, 25-hidroxivitamina D e cálcio em urina de 24 horas (painel do protocolo de 2025)
    • Eletroforese de proteínas séricas (escolha desta apostila)
    • Radiografias de coluna dorsal e lombar em anteroposterior e perfil; densitometria de coluna lombar e fêmur
    • Encaminhamento à saúde bucal da unidade básica: molar inferior esquerdo fraturado, com gengiva inflamada, antes de iniciar antirreabsortivo
    • Oferta do tratamento do tabagismo da unidade
    • Retorno em 3 semanas com os exames
  2. Semana 3 — o painel mostra que a prednisona não está sozinha

    Os exames: cálcio 8,8 mg/dL com albumina de 4,0 g/dL; fósforo 2,9 mg/dL; creatinina 1,1 mg/dL, depuração de 65,5 mL/min; fosfatase alcalina 121 U/L, dentro da referência; paratormônio 92 pg/mL, acima da referência do laboratório; 25-hidroxivitamina D 12 ng/mL; TSH e T4 livre normais; hemoglobina 14,1 g/dL; velocidade de hemossedimentação 8 mm; calciúria de 62 mg em 24 horas; eletroforese sem pico monoclonal. As radiografias mostram só a fratura de T12. A densitometria dá T-escore de −2,7 na coluna lombar, −2,3 no colo do fêmur e −2,1 no fêmur total. A leitura: osteoporose grave pelo protocolo (T-escore igual ou abaixo de −2,5 com fratura), com três causas somadas — glicocorticoide em dose acumulada acima de 5 g, tabagismo e deficiência de vitamina D abaixo do corte de 20 ng/mL do posicionamento brasileiro, com hiperparatireoidismo secundário e calciúria baixa. Nada aponta para mieloma, tireoide ou rim. A diretriz americana, para esse risco muito alto, prefere anabólico; no SUS, o homem não tem anabólico — a teriparatida foi excluída em 2024 e a Conitec recomendou em 2026 não incorporar teriparatida nem romosozumabe para homens —, e a escolha é o alendronato do Componente Básico. Antes dele vem a vitamina D: com paratormônio alto e 25-hidroxivitamina D de 12, é agora que o bisfosfonato mais arriscaria o cálcio. Esta apostila adota iniciar o alendronato depois de quatro semanas de reposição e de um cálcio sérico de controle normal, apoiada na contraindicação do protocolo na hipocalcemia e na regra do protocolo de Paget de garantir cálcio e vitamina D antes do bisfosfonato. A reumatologia desceu a prednisona para 5 mg/dia na semana 2. Os exames poderiam ter mudado o plano, e vale dizer como: com cálcio baixo, o bisfosfonato esperaria a correção e a investigação da causa; com pico monoclonal na eletroforese, a consulta seguinte seria com a hematologia, e não com o alendronato; com TSH suprimido, a tireoide entraria na conta antes do osso; com depuração abaixo de 35 mL/min, a decisão passaria antes pela nefrologia.

    Prescrição
    • Colecalciferol 50.000 UI: 1 cápsula por via oral 1 vez por semana, por 8 semanas — fora da Rename, comprado pelo paciente (dose usual de correção do posicionamento SBEM e SBPC/ML de 2020)
    • Carbonato de cálcio 1.250 mg + colecalciferol 400 UI: 1 comprimido após o almoço e 1 após o jantar (1.000 mg de cálcio/dia, abaixo do teto de 1.400 mg) — Componente Básico; voltar a 1 comprimido se a dieta passar a ter queijo ou iogurte todos os dias
    • Prednisona 5 mg/dia, conforme a reumatologia
    • Cálcio e albumina em 4 semanas
    • Confirmada com a saúde bucal a extração do molar fraturado nesta semana, com o preparo e a técnica que o dentista definir
    • Retorno em 4 semanas
  3. Semana 4 — o primeiro comprimido de alendronato, com a instrução escrita

    Cálcio de 9,1 mg/dL com albumina normal. O molar foi extraído na semana 2, e o dentista registrou gengiva cicatrizando. A depuração de 65,5 mL/min não impõe restrição, ele não tem doença esofágica e consegue ficar sentado por uma hora. Começa o alendronato semanal. A instrução vai por escrito, com o porquê de cada item, porque técnica errada é a falha mais comum e a menos visível: o comprimido em jejum, só com água, porque café, leite e suco atrapalham a absorção; meia hora antes da primeira refeição e dos outros remédios; sentado ou de pé por 30 a 60 minutos, porque o comprimido que volta ao esôfago o irrita. O cálcio fica para depois do almoço e do jantar, longe do alendronato. Hugolino escolhe a manhã de domingo, quando não tem horário para nada. Se ele tivesse estenose de esôfago, refluxo importante ou não conseguisse ficar sentado depois do comprimido, a escolha seria o ácido zoledrônico, pelo Componente Especializado e pelos critérios do protocolo — e, por decisão desta apostila, só depois da vitamina D reposta e do cálcio normal, pela mesma razão que adiou o alendronato.

    Prescrição
    • Alendronato de sódio 70 mg: 1 comprimido por via oral 1 vez por semana, aos domingos, em jejum, com 200 mL de água, pelo menos 30 minutos antes do café e dos outros remédios; ficar sentado ou de pé por 30 a 60 minutos — Componente Básico
    • Suspender o alendronato e procurar a unidade se aparecer dor para engolir, azia nova ou dor atrás do esterno
    • Mantidos o colecalciferol 50.000 UI por semana até completar 8 semanas e o carbonato de cálcio + colecalciferol 2 comprimidos por dia
    • Prednisona 5 mg/dia, conforme a reumatologia
    • 25-hidroxivitamina D, paratormônio e cálcio na semana 12
  4. Semana 12 — a vitamina D chegou, e o paratormônio diz se era só ela

    25-hidroxivitamina D de 41 ng/mL, dentro da faixa de 30 a 60 que o posicionamento brasileiro considera ideal para quem tem osteoporose; paratormônio de 58 pg/mL, normal; cálcio de 9,3 mg/dL. O hiperparatireoidismo era secundário e fechou com a reposição. Se o paratormônio tivesse continuado alto com cálcio alto, a hipótese passaria a ser hiperparatireoidismo primário, e o paciente iria para Hiperparatireoidismo e nódulo/massa cervical, na apostila de Cirurgia de Cabeça e Pescoço. Termina a correção e começa a manutenção. O protocolo admite até 2.000 UI/dia a partir dos 60 anos; os dois comprimidos da associação entregam 800 UI, o teto de cálcio impede um terceiro, e a diferença vem de colecalciferol isolado, fora da Rename: 7.000 UI por semana, que somam 1.000 UI/dia. Total: 1.800 UI/dia. Sem azia, sem dor ao engolir, quatro comprimidos de alendronato tomados do jeito certo.

    Prescrição
    • Colecalciferol 7.000 UI: 1 cápsula por via oral 1 vez por semana, contínuo — fora da Rename
    • Carbonato de cálcio 1.250 mg + colecalciferol 400 UI: 1 comprimido após o almoço e 1 após o jantar — Componente Básico
    • Alendronato de sódio 70 mg semanal, mantido — Componente Básico
    • Cálcio e 25-hidroxivitamina D em 6 meses; densitometria em 1 ano, no mesmo aparelho
    • Retorno em 3 meses
  5. Mês 6 — a técnica conferida, a dor que foi embora e a dose que desceu

    A dor lombar sumiu no segundo mês. A altura segue em 1,70 m. A reumatologia baixou a prednisona para 2,5 mg/dia. Pedido para mostrar como toma o alendronato, Hugolino conta que em dois domingos tomou com o café com leite, “para não esquecer” — e a instrução é refeita, com o comprimido deixado ao lado do copo d’água na noite de sábado. Com 2,5 mg/dia, o caso especial do protocolo, que exige mais de 5 mg/dia, já não se aplica; a indicação dele não dependia só disso, porque a fratura e o T-escore de −2,7 são critérios de inclusão por si. Parou de fumar há seis semanas com o grupo da unidade. Levanta da cadeira sem as mãos e não caiu; a avaliação de quedas, se precisar, segue Síndromes geriátricas: quedas e imobilidade. Uma azia nova, se tivesse aparecido, pediria primeiro a revisão da técnica — água, jejum, tempo sem deitar — e só depois a discussão de outra via: a técnica errada produz o sintoma e a falha ao mesmo tempo.

    Prescrição
    • Alendronato de sódio 70 mg semanal mantido, com a técnica refeita e escrita de novo — Componente Básico
    • Carbonato de cálcio 1.250 mg + colecalciferol 400 UI: 2 comprimidos por dia, após almoço e jantar — Componente Básico
    • Colecalciferol 7.000 UI por semana, contínuo — fora da Rename
    • Prednisona 2,5 mg/dia, conforme a reumatologia
    • Cálcio e 25-hidroxivitamina D colhidos hoje; densitometria no mês 12
  6. Ano 1 — a densitometria no mesmo aparelho

    Coluna lombar de 0,812 para 0,838 g/cm², aumento de 3,2%, com T-escore de −2,5; colo do fêmur estável. Nenhuma fratura nova, altura mantida. Pelo protocolo, é tratamento bem-sucedido: densidade crescente ou estável sem fratura nova. O mesmo aparelho importa, e o laudo registra que é o mesmo. A diretriz americana pede reavaliação a cada um a dois anos no usuário de corticoide e aceita densitometria anual até estabilizar no risco muito alto; esta apostila repete em um ano. Cálcio de 9,4 mg/dL e 25-hidroxivitamina D de 44 ng/mL. Para chamar o aumento de 3,2% de ganho densitométrico significativo, comparar com a menor variação significativa do serviço; usar o mesmo aparelho é necessário, mas não basta. Ausência de fratura nova, adesão e estabilidade clínica continuam essenciais para julgar resposta.

    Prescrição
    • Alendronato de sódio 70 mg semanal — Componente Básico
    • Carbonato de cálcio 1.250 mg + colecalciferol 400 UI: 2 comprimidos por dia — Componente Básico
    • Colecalciferol 7.000 UI por semana — fora da Rename
    • Creatinina com depuração calculada anualmente
    • Densitometria em 1 ano, no mesmo aparelho
  7. Mês 14 — a prednisona acaba; o alendronato não

    A reumatologia suspendeu a prednisona. A pergunta da família é a óbvia: se o corticoide era a causa, o remédio do osso acaba junto? A diretriz americana manda parar o antiosteoporótico quando o corticoide acaba sem fratura nova e com T-escore igual ou acima de −2,5, e manter quando o T-escore está igual ou abaixo de −2,5 — e o T-escore dele é exatamente −2,5, número que cabe nas duas regras (a conta está nas notas do critério). A decisão, por isso, não sai dali. A régua escolhida por esta apostila, descrita nas divergências, manda seguir o prazo do protocolo em quem tem critério de inclusão independente do corticoide, e Hugolino tem uma fratura vertebral por fragilidade: continua até completar a reavaliação dos cinco anos.

    Prescrição
    • Alendronato de sódio 70 mg semanal, mantido até a reavaliação dos 5 anos — Componente Básico
    • Carbonato de cálcio 1.250 mg + colecalciferol 400 UI: 2 comprimidos por dia — Componente Básico
    • Colecalciferol 7.000 UI por semana — fora da Rename
    • Densitometria a cada 1 a 2 anos, no mesmo aparelho; radiografia de coluna se dor nova ou perda de altura acima de 4 cm
  8. Ano 5 — a pergunta da pausa, e um implante no caminho

    Hugolino tem 73 anos, 70 kg e creatinina de 1,3 mg/dL: (140 − 73) × 70 ÷ (72 × 1,3) = 50,1 mL/min, sem restrição. T-escore de −2,1 na coluna lombar e de −2,0 no colo femoral, nenhuma fratura em cinco anos. O protocolo manda manter cinco anos de bisfosfonato oral e permite pausa de um a dois anos depois deles, mas estende o tratamento até dez anos quando há T-escore abaixo de −3,0 ou fratura; o posicionamento brasileiro reserva a pausa para quem está em baixo risco. A fratura vertebral do início tira Hugolino do baixo risco, e esta apostila adota continuar, com densitometria a cada um a dois anos e a pergunta refeita a cada exame — se ele nunca tivesse fraturado, com esse T-escore, a pausa estaria indicada. No mesmo mês, o dentista propõe um implante no espaço dos molares. O posicionamento de 2020 diz que o bisfosfonato oral não é contraindicação explícita a implante, pede cautela, técnica minimamente invasiva e consentimento informado sobre falha do implante e osteonecrose. Não se suspende o alendronato; escreve-se a carta. O contraste ensina a regra: o mesmo homem, sem a fratura do início, chegaria aos cinco anos com T-escore acima de −2,5, sem corticoide e em baixo risco, e a pausa de um a dois anos seria a escolha pelo protocolo e pelo posicionamento, com reavaliação periódica para ver se o risco voltou a subir.

    Prescrição
    • Alendronato de sódio 70 mg semanal, estendido além dos 5 anos pela fratura prévia (protocolo de 2025: até 10 anos, com individualização) — Componente Básico
    • Carbonato de cálcio 1.250 mg + colecalciferol 400 UI: 2 comprimidos por dia — Componente Básico
    • Colecalciferol 7.000 UI por semana — fora da Rename
    • Carta ao dentista: bisfosfonato oral mantido; implante sem contraindicação explícita, com técnica minimamente invasiva, cobertura do osso pela gengiva e consentimento informado (posicionamento SBEM, Sobep e Abrasso, 2020)
    • Densitometria a cada 1 a 2 anos; creatinina anual
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Como saber se está funcionando

Reavaliar osteoporose não é reavaliar crise. O que muda em semanas é o laboratório da reposição; o que muda em anos é o osso. Os dois ritmos convivem na mesma receita, e o erro mais comum é trocar um pelo outro — pedir densitometria em três meses ou deixar a 25-hidroxivitamina D sem controle por cinco anos.

O protocolo de 2025 define sucesso de modo simples, densidade crescente ou estável sem fratura nova, e manda repetir os exames laboratoriais a critério clínico, basicamente para vitamina D e cálcio ou para reinvestigar causas secundárias quando o tratamento não funciona. Os sete parâmetros abaixo são os que mudam alguma decisão.

Dor e altura — o termômetro da vértebraEm toda consulta; altura no mesmo estadiômetro

Esperado: Dor da fratura vertebral cedendo em semanas; altura estável

Se não melhora: Dor aguda nova, dor crônica que persiste ou perda de altura acima de 4 cm: nova radiografia de coluna dorsal e lombar em perfil (protocolo de 2025). Déficit neurológico, febre ou perda de peso levam aos sinais de alarme de Lombalgia e hérnia de disco: red flags e conduta.

Cálcio sérico — antes do primeiro comprimido e depois da reposiçãoAntes de iniciar o bisfosfonato, depois de 8 a 12 semanas de reposição de vitamina D e a critério clínico

Esperado: Normal, lido com albumina normal

Se não melhora: Baixo: não iniciar ou suspender o bisfosfonato e rever vitamina D, ingestão e absorção; sintomas de hipocalcemia vão para Distúrbios do cálcio, magnésio e fósforo (hipercalcemia/hipocalcemia). Alto com paratormônio alto: Hiperparatireoidismo e nódulo/massa cervical.

25-hidroxivitamina D — o estoque depois da carga8 a 12 semanas depois da dose de correção; depois, a critério clínico

Esperado: De 30 a 60 ng/mL em quem tem osteoporose ou osteomalácia (SBEM e SBPC/ML, 2020); de 30 a 50 ng/mL em quem usa glicocorticoide (diretriz americana, 2022)

Se não melhora: Abaixo de 30: conferir se o colecalciferol isolado foi comprado e é tomado, procurar má absorção (doença celíaca, cirurgia bariátrica, doença inflamatória intestinal) e fármacos que aceleram a degradação. Acima de 100: suspender pelo risco de intoxicação com hipercalcemia; acima de 60, não há benefício em insistir.

Paratormônio — se era só a vitamina DJunto com a 25-hidroxivitamina D de controle

Esperado: Normaliza quando a 25-hidroxivitamina D passa de 30 ng/mL

Se não melhora: Persistindo alto com cálcio alto: hiperparatireoidismo primário, para Hiperparatireoidismo e nódulo/massa cervical. Persistindo alto com cálcio normal e vitamina D reposta: rever a função renal e a ingestão de cálcio antes de qualquer rótulo.

Adesão e técnica do bisfosfonatoEm toda consulta, com o paciente mostrando como toma

Esperado: Comprimido semanal em jejum, só com água, 30 a 60 minutos sem deitar, cálcio longe dele, sem sintomas esofágicos

Se não melhora: Técnica errada: refazer a instrução por escrito antes de concluir que o remédio falhou. Azia, dor ao engolir ou dor retroesternal: suspender e avaliar o esôfago; se o oral não puder ser usado por intolerância ou dificuldade de deglutição, ácido zoledrônico pelo Componente Especializado (protocolo de 2025).

Densitometria — sempre no mesmo aparelhoA cada 1 a 2 anos até a massa óssea estabilizar (protocolo de 2025); anual até estabilizar no usuário de corticoide em risco muito alto (diretriz americana, 2022)

Esperado: Densidade estável ou crescente, sem fratura nova

Se não melhora: Duas fraturas em uso por pelo menos 1 ano, ou uma fratura depois de 1 ano com perda de mais de 5% em algum sítio, com boa adesão e sem causa secundária: falha pelo protocolo. Antes de trocar, rever adesão, absorção, fármacos e causas secundárias. Perda de densidade sem fratura, ou fratura logo depois do início, não é falha.

Glicocorticoide e rim — as duas coisas que mudam a réguaDose de corticoide em toda consulta; creatinina com depuração calculada ao menos 1 vez por ano

Esperado: Menor dose que controla a doença; depuração acima de 35 mL/min

Se não melhora: Corticoide suspenso sem fratura nova e com T-escore acima de −2,5: rever se ainda há indicação, pela régua do bloco de divergências. Depuração abaixo de 35 mL/min: não iniciar bisfosfonato e avaliar distúrbio mineral e ósseo com a nefrologia; abaixo de 30 ou nos estágios 4 e 5, o protocolo não preconiza fármaco.

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Onde o erro machuca

Prescrever glicocorticoide por meses sem perguntar pelo osso

O dano: A perda mais rápida acontece nos primeiros três a seis meses. Quem só é avaliado depois da fratura perdeu justamente a janela em que a prevenção agia — como o Hugolino, que passou de 5 g de prednisona em menos de seis meses sem cálcio, sem vitamina D e sem densitometria.

Como pegar a tempo: Na receita que inicia 2,5 mg/dia ou mais por mais de três meses, incluir cálcio e vitamina D e pedir a avaliação de risco de fratura para os primeiros seis meses (diretriz americana de 2022). Com plano de mais de 5 mg/dia por três meses ou mais, aplicar os casos especiais do protocolo de 2025: fratura prévia, T-escore igual ou abaixo de −2,0 ou FRAX acima do limiar indicam fármaco.

Tratar a densitometria baixa sem pedir o painel de causa secundária

O dano: Osteomalácia, hiperparatireoidismo, mieloma e doença renal saem com o mesmo número baixo. Na osteomalácia e na deficiência grave de vitamina D, o bisfosfonato não trata a doença e pode derrubar um cálcio que estava no limite.

Como pegar a tempo: Em homem, mulher antes da menopausa, adulto jovem e em quem não combina com o perfil, pedir o painel do protocolo antes do primeiro comprimido e exigir cálcio sérico normal como condição para começar.

Suspender o bisfosfonato para extração dentária, ou pedir CTX para decidir

O dano: Não há evidência de que suspender previna a osteonecrose; o único estudo que testou a interrupção antes de extração não mostrou diferença, e o CTX não prediz o risco. A pausa improvisada interrompe o tratamento de quem mais precisa dele.

Como pegar a tempo: Manter o antirreabsortivo; tratar a infecção, preparar a boca, fazer extração minimamente invasiva com fechamento primário, acompanhar até cicatrizar e registrar o consentimento informado, como pede o posicionamento de 2020 da SBEM, da Sobep e da Abrasso.

Prescrever bisfosfonato sem calcular a depuração de creatinina

O dano: Abaixo de 30 mL/min o bisfosfonato oral é contraindicado, e o protocolo não preconiza fármaco nos estágios 4 e 5; abaixo de 35 mL/min o alendronato não é recomendado. Nessa faixa, a doença óssea pode ser distúrbio mineral e ósseo — doença adinâmica, osteomalácia, osteíte fibrosa —, que pede outra avaliação antes de qualquer antirreabsortivo. A creatinina “normal” de um idoso magro esconde depuração baixa.

Como pegar a tempo: Cockcroft-Gault antes do primeiro comprimido e ao menos uma vez por ano. Abaixo de 35 mL/min, avaliar o distúrbio mineral e ósseo com a nefrologia antes de decidir; entre 30 e 34, se o distúrbio for afastado, o oral possível é o risedronato, com creatinina a cada um a três meses.

Dosar 25-hidroxivitamina D em todo mundo e prescrever megadose sem controle

O dano: Deficiência encontrada em quem não tem risco vira tratamento sem benefício. Dose empírica ou suprafisiológica, sobretudo injetável, é a origem da maior parte das intoxicações descritas, com hipercalcemia; acima de 100 ng/mL o risco é real.

Como pegar a tempo: Dosar nos grupos de risco do posicionamento de 2020; corrigir a deficiência com a dose usual de 50.000 UI por semana, recontrolar em 8 a 12 semanas e manter entre 400 e 2.000 UI/dia conforme idade e condição, sem buscar valores acima de 60 ng/mL.

Dar alta ao homem com fratura por fragilidade sem investigação, porque osteoporose seria doença de mulher

O dano: Um em cada cinco homens acima de 50 anos terá fratura osteoporótica; metade dos homens com osteoporose tem causa secundária, que fica sem diagnóstico. A próxima fratura pode ser a de quadril, que no sul do país teve mortalidade de 25% em doze meses.

Como pegar a tempo: Toda fratura de fêmur proximal, rádio distal, úmero proximal ou vértebra por baixo impacto é osteoporose até prova em contrário, em qualquer sexo. Escrever isso no encaminhamento, pedir o painel de causa secundária e tratar pelo protocolo.

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O que dizer ao paciente e à família

A conversa sobre osso tem dois adversários: o medo do remédio, alimentado por histórias de maxilar que apodreceu, e a sensação de que uma doença sem dor não merece cinco anos de comprimido. Hugolino tem os dois, e a mulher dele tem um terceiro — a certeza de que osteoporose é doença de mulher.

As falas abaixo são as que você diz a ele, na ordem das consultas. Em cada uma, o que se evita é a frase que parece tranquilizar e produz abandono. Toda fala que cita um número usa o número do documento, arredondado para caber na conversa, e nenhuma promete o que o documento não promete.

Na primeira consulta, a mulher pergunta se osteoporose não é doença de mulher.

É mais comum em mulher, mas não é só de mulher. De cada cinco homens com mais de cinquenta anos, um vai ter uma fratura desse tipo na vida. E no homem tem uma diferença importante: em metade das vezes há outra coisa por trás, além da idade. É por isso que hoje eu peço exames antes de passar o remédio do osso.

Não diga: Evite “é raro em homem, mas acontece”: o casal ouve que foi azar e não entende por que investigar.

Hugolino pergunta se pode parar a prednisona, já que foi ela que “estragou o osso”.

Não pare por conta própria. A prednisona está segurando uma inflamação que ameaça a sua vista, e quem decide a dose é a reumatologia. Eu vou mandar uma carta pedindo a menor dose que controle a arterite. Enquanto o senhor precisar dela, o meu trabalho é proteger o osso: cálcio, vitamina D e o remédio da semana.

Não diga: Evite “a culpa é da prednisona”: ele suspende sozinho, e a arterite volta com a vista em risco.

Na volta com os exames, ele conta que leu na internet que o remédio de osso faz o maxilar apodrecer.

Existe uma complicação no osso da boca, sim, e ela é real. Mas em quem usa esse remédio para osteoporose ela é muito rara: com o comprimido, nos estudos, fica em no máximo um caso em cada dois mil e quinhentos pacientes, e na maioria dos estudos bem menos, perto do que acontece em quem não toma nada. O que mais pesa é infecção no dente, e é por isso que o seu dente quebrado vai ser resolvido antes do primeiro comprimido.

Não diga: Evite “isso não existe”: negar o risco quebra a confiança na primeira notícia que ele ler depois.

Ao receber a receita do alendronato, ele pergunta por que não pode tomar com o café, como os outros remédios.

Esse comprimido só é bem absorvido com o estômago vazio e só com água; com café, leite ou suco, boa parte se perde. E ele irrita o esôfago se voltar, por isso o senhor toma sentado ou em pé e fica assim meia hora antes de comer ou de deitar. É uma vez por semana só. Escolha a manhã mais tranquila da semana e deixe o comprimido ao lado do copo d’água na noite anterior.

Não diga: Evite listar as regras sem o motivo: regra sem porquê é a primeira a ser abandonada no terceiro mês.

Ele reclama que a vitamina D de 50.000 não tem no posto e pergunta se pode tomar só a que vem no comprimido de cálcio.

O comprimido de cálcio do posto traz pouca vitamina D. Para subir o seu nível só com ele, o senhor teria de tomar tantos comprimidos que passaria do cálcio que é seguro tomar por dia. Por isso a vitamina D de correção é comprada à parte: são oito cápsulas, uma por semana. Depois fica uma cápsula menor por semana, e o cálcio do posto continua.

Não diga: Evite “toma a do posto, que é a mesma coisa”: a dose não é a mesma, e ele fica com a vitamina D baixa achando que está tratado.

Um ano depois, o dentista do posto quer suspender o alendronato por três meses antes de outra extração.

Pode fazer a extração sem parar o remédio. As sociedades brasileiras de endocrinologia, de estomatologia e de avaliação óssea escreveram juntas que não há prova de que parar ajude, e o único estudo que comparou quem parou com quem não parou não achou diferença. O que protege é o cuidado na extração. Eu escrevo isso numa carta para o dentista, com o pedido de fechar bem a gengiva e acompanhar até cicatrizar.

Não diga: Evite “faça o que o dentista mandar” e evite desautorizar o dentista na frente do paciente: a carta com a referência resolve as duas coisas.

No quinto ano, Hugolino pergunta se já pode parar, porque “o osso melhorou”.

Melhorou, e em boa parte por causa do remédio. Quem nunca teve fratura e chega a esse resultado pode fazer uma pausa depois de cinco anos, porque o remédio fica guardado no osso por muito tempo. O senhor já teve uma vértebra quebrada, e isso muda a conta: a regra permite continuar até dez anos, e eu acho que o senhor ganha mais continuando. A gente repete o exame a cada um ou dois anos e refaz essa pergunta toda vez.

Não diga: Evite “agora é para sempre” e evite “pode parar, já deu”: as duas frases pulam a decisão que depende da fratura.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

A partir de que dose de glicocorticoide o osso entra na conta

Plano de mais de 5 mg/dia por 3 meses ou mais — protocolo federal da osteoporose, outubro de 2025

O caso especial do glicocorticoide vale para o adulto com plano de iniciar e manter dose diária superior a 5 mg de prednisona, ou equivalente, por três meses ou mais. Nele, o tratamento medicamentoso é indicado com fratura osteoporótica prévia, T-escore igual ou abaixo de −2,0 em coluna ou quadril, ou FRAX acima do limiar de intervenção. Quem toma exatamente 5 mg por dia — um comprimido — fica fora do caso especial e volta aos critérios gerais do protocolo.

Brasil. Ministério da Saúde. PCDT da Osteoporose, Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 22/2025, item 6 (casos especiais)

A partir de 2,5 mg/dia por mais de 3 meses — American College of Rheumatology, 2022

A diretriz americana avalia todo adulto que inicia ou mantém 2,5 mg/dia ou mais por mais de três meses, o quanto antes e dentro de seis meses do início: história de fratura, densitometria com avaliação de fratura vertebral ou radiografia de coluna e FRAX a partir dos 40 anos, com correção pela dose acima de 7,5 mg/dia. Justifica o limiar pelo aumento do risco de fratura de coluna e de quadril a partir dessa dose, e define categorias de risco que incluem quem recebe 30 mg/dia ou mais por mais de 30 dias ou acumula 5 g em um ano.

Humphrey MB et al. 2022 American College of Rheumatology Guideline for the Prevention and Treatment of Glucocorticoid-Induced Osteoporosis. Arthritis Care Res. 2023;75(12):2405-2419

Como decidir

A régua de desempate é para documentos brasileiros, e aqui só um é brasileiro; a atualização de 2020 da Sociedade Brasileira de Reumatologia, que seria o segundo, não está em acesso aberto e não entra na decisão. Antes de desempatar, as duas regras respondem a perguntas diferentes do mesmo paciente: a diretriz americana diz quem deve ser avaliado, e o protocolo diz quando o SUS fornece fármaco a quem usa corticoide. Esta apostila adota as duas, cada uma na sua pergunta. Avaliar o osso — cálcio, vitamina D, densitometria, radiografia de coluna e FRAX — em todo adulto com 2,5 mg/dia ou mais por mais de três meses, dentro de seis meses do início. Indicar fármaco pelo caso especial do protocolo acima de 5 mg/dia e pelos critérios gerais (fratura, T-escore igual ou abaixo de −2,5 ou FRAX acima do limiar) entre 2,5 e 5 mg/dia. Avaliar a partir de 2,5 mg é escolha desta apostila, e não de um documento brasileiro: a avaliação não expõe o paciente a fármaco nenhum, e o protocolo não a proíbe.

Com que depuração de creatinina ainda se inicia bisfosfonato

Oral contraindicado abaixo de 30 mL/min e exclusão dos estágios 4 e 5 — protocolo federal, 2025, texto da classe

Para o alendronato e o risedronato, o protocolo inclui nas contraindicações a insuficiência renal grave, definida por depuração inferior a 30 mL/min, e exclui do tratamento medicamentoso os estágios 4 e 5 da doença renal crônica. Para o risedronato, pede monitorar a função a cada um a três meses em quem já tem perda renal. Para o ácido zoledrônico, não fixa corte próprio.

Brasil. Ministério da Saúde. PCDT da Osteoporose 2025, itens 5 (exclusão) e 7.2.2 (bisfosfonatos)

Alendronato não recomendado abaixo de 35 mL/min — protocolo federal, 2025, parágrafo do alendronato

No parágrafo do próprio alendronato, o protocolo dispensa ajuste de dose entre 35 e 60 mL/min e não recomenda o fármaco abaixo de 35 mL/min, pela falta de experiência nessa faixa.

Brasil. Ministério da Saúde. PCDT da Osteoporose 2025, item 7.2.2, alendronato de sódio

Evitar bisfosfonato abaixo de 35 mL/min — American College of Rheumatology, 2022

A diretriz americana afirma que, abaixo de 35 mL/min, a osteodistrofia renal — doença adinâmica, osteomalácia, osteíte fibrosa cística e formas mistas — se torna muito mais provável, recomenda avaliação especializada de distúrbio mineral e ósseo e manda, em geral, não usar bisfosfonato nessa faixa.

Humphrey MB et al. Arthritis Care Res. 2023;75(12):2405-2419

Como decidir

Abaixo de 30 mL/min não há disputa: ninguém inicia bisfosfonato, e o protocolo não preconiza fármaco nos estágios 4 e 5. A faixa disputada vai de 30 a 34 mL/min. Pelo escopo, o texto específico do alendronato governa o alendronato, e o texto da classe governa o risedronato; pela coerência, o parágrafo do alendronato e a diretriz americana apontam o mesmo corte pelo mesmo motivo. Esta apostila adota: abaixo de 35 mL/min, nenhum bisfosfonato começa antes de avaliar distúrbio mineral e ósseo com a nefrologia, com cálcio, fósforo, paratormônio, fosfatase alcalina e 25-hidroxivitamina D; afastado o distúrbio, entre 30 e 34 mL/min o oral possível é o risedronato, com creatinina a cada um a três meses, e o ácido zoledrônico fica de fora. O homem de 80 anos, 60 kg e creatinina de 1,5 mg/dL tem (140 − 80) × 60 ÷ (72 × 1,5) = 33,3 mL/min e está exatamente nessa faixa.

Quando o glicocorticoide acaba, o bisfosfonato acaba junto?

Cinco anos de oral e três de intravenoso — protocolo federal da osteoporose, 2025

O protocolo manda manter o tratamento por cinco anos com bisfosfonato oral e por três com intravenoso, estendendo até dez e seis anos quando o T-escore está abaixo de −3,0 ou há fraturas, e admite pausa de um a dois anos depois de cinco anos de oral. Não separa o paciente cuja indicação veio só do corticoide.

Brasil. Ministério da Saúde. PCDT da Osteoporose 2025, itens 7.2.2 e 7.2.9

Parar ao suspender o corticoide, sem fratura nova e com T-escore igual ou acima de −2,5 — American College of Rheumatology, 2022

Para o adulto em tratamento que suspende o glicocorticoide sem fratura por fragilidade nova e com T-escore igual ou acima de −2,5, a diretriz americana recomenda fortemente parar o antiosteoporótico e manter cálcio e vitamina D; bisfosfonato e raloxifeno param sem terapia sequencial, enquanto denosumabe, análogos do paratormônio e romosozumabe exigem sequência. Se o risco segue alto, mantém ou troca de classe.

Humphrey MB et al. Arthritis Care Res. 2023;75(12):2405-2419

Como decidir

Pelo escopo, a diretriz americana foi escrita para o paciente com corticoide, e o prazo do protocolo foi escrito para a osteoporose em geral, com estudos feitos sobretudo na pós-menopausa. Esta apostila adota: se a indicação do bisfosfonato veio só do caso especial do corticoide — T-escore entre −2,0 e −2,4, sem fratura — e o corticoide foi suspenso, sem fratura nova e com T-escore acima de −2,5, o bisfosfonato para, cálcio e vitamina D continuam e a densitometria se repete em um a dois anos. Se o paciente tem critério do protocolo independente do corticoide — fratura por fragilidade ou T-escore igual ou abaixo de −2,5 —, segue o prazo do protocolo. Hugolino, com fratura vertebral, continua. O homem de 58 anos com sarcoidose, T-escore de −2,2 e sem fratura, que deixou a prednisona há quatro meses, para.

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O raciocínio, em voz alta

Vitalina Nascimento, 44 anos, 61 kg, auxiliar administrativa, chega ao ambulatório encaminhada pela ginecologista com uma densitometria de coluna lombar com escore Z de −2,6 e a anotação “osteoporose? iniciar alendronato”. Operou bypass gástrico há dez anos, perdeu 48 kg e parou as vitaminas no terceiro ano, “quando a vida voltou ao normal”. Há oito meses sente dor “nos ossos todos”, pior nos quadris e nas costelas, e não consegue levantar do sofá nem subir a escada do ônibus sem apoiar as mãos. Menstrua regularmente. Não tem diarreia. Exames trazidos: cálcio 8,0 mg/dL, albumina 4,0 g/dL, fósforo 2,0 mg/dL, fosfatase alcalina 386 U/L (referência do laboratório até 129), aminotransferases e bilirrubinas normais, creatinina 0,7 mg/dL, paratormônio 214 pg/mL, 25-hidroxivitamina D 7 ng/mL, hemoglobina 10,9 g/dL com microcitose.

  1. o que o número da densitometria não diz

    Uma mulher de 44 anos que menstrua não se classifica por T-escore; o escore Z baixo diz que a massa é baixa para a idade, e não diz por quê. Ela está no grupo em que o protocolo de 2025 estima causa secundária em 40% a 50% dos diagnósticos. A pergunta certa não é qual bisfosfonato, é o que está tirando mineral deste osso — e ela pertence a este capítulo, e não ao de pós-menopausa.

  2. juntar os cinco números

    Cálcio baixo com albumina normal, fósforo baixo, fosfatase alcalina três vezes acima da referência, paratormônio alto e 25-hidroxivitamina D de 7 ng/mL, muito abaixo do corte de deficiência de 20 ng/mL do posicionamento brasileiro de 2020. Aminotransferases e bilirrubinas normais tiram o fígado da fosfatase alcalina. O conjunto é o de hiperparatireoidismo secundário à falta de vitamina D com mineralização comprometida — osteomalácia até prova em contrário —, e a dor óssea difusa com fraqueza para levantar completa o quadro.

  3. por que não é hiperparatireoidismo primário nem Paget

    No hiperparatireoidismo primário, o paratormônio alto vem com cálcio alto; o dela está baixo, e o paratormônio subiu para defendê-lo. Na doença de Paget, cálcio, fósforo e paratormônio costumam ser normais, e o protocolo federal registra que ela raramente se manifesta antes dos 40 anos. A anemia microcítica aponta para a mesma porta que a vitamina D: o intestino operado, que o posicionamento brasileiro lista entre as causas de má absorção.

  4. o que o alendronato faria

    O bisfosfonato freia a reabsorção óssea, que é justamente o que o paratormônio está usando para segurar o cálcio dela em 8,0 mg/dL; com vitamina D de 7, o intestino não compensa. O protocolo de 2025 contraindica o bisfosfonato oral na hipocalcemia, e o protocolo da doença de Paget pede garantir cálcio e vitamina D antes do primeiro bisfosfonato. O alendronato não entra agora, e talvez não entre nunca: a densitometria dela só diz alguma coisa depois que o osso voltar a mineralizar.

  5. a reposição, na dose do intestino dela

    O posicionamento brasileiro dá 50.000 UI por semana como dose usual de correção e avisa que, depois da cirurgia bariátrica, doses bem maiores que as usuais podem ser necessárias, tituladas pela 25-hidroxivitamina D; o alvo para quem tem osteomalácia e para o operado de bariátrica é de 30 a 60 ng/mL. O protocolo de 2025 aceita cálcio acima do usual nas síndromes disabsortivas, a critério clínico. A receita sai com colecalciferol 50.000 UI por semana, comprado fora da Rename, e carbonato de cálcio 1.250 mg com colecalciferol 400 UI, um comprimido após o almoço e um após o jantar, pelo Componente Básico. A anemia segue a investigação de Anemia ferropriva e investigação de anemias microcíticas, na apostila de Hematologia e Hemoterapia.

  6. o que manda ir ao pronto-socorro

    Formigamento em volta da boca ou nas mãos, cãibras que não passam e espasmo das mãos sinalizam que o cálcio caiu mais. Nesse cenário a conduta deixa o ambulatório e passa a ser a de Distúrbios do cálcio, magnésio e fósforo (hipercalcemia/hipocalcemia), na apostila de Medicina Intensiva. Vitalina sai com esses sinais escritos na receita e com o telefone da unidade.

  7. o que volta para a ginecologista

    A carta de retorno diz o que mudou e por quê: a densitometria foi lida como osteomalácia por falta de vitamina D depois do bypass, e não como osteoporose; o alendronato não foi iniciado porque o cálcio estava baixo e porque bisfosfonato não trata defeito de mineralização; a reposição está em curso, com exames marcados; e a pergunta sobre osteoporose será refeita depois que o osso mineralizar. A carta registra ainda que, se um bisfosfonato vier a ser necessário, o plano reprodutivo dela entra na decisão, porque a diretriz americana pede cautela com ele na mulher que pode engravidar. Uma carta assim evita que o alendronato seja iniciado na próxima consulta por quem só viu a densitometria.

  8. como saber que funcionou

    Em oito a doze semanas: 25-hidroxivitamina D, cálcio, fósforo e paratormônio. Se a 25-hidroxivitamina D não subir com a dose usual, a dose sobe, porque a cirurgia não se desfaz. A dor e a força costumam melhorar antes de qualquer mudança na densitometria, e a fosfatase alcalina demora mais a descer. A densitometria se repete depois de meses de mineralização restaurada, e só então se pergunta se sobrou osteoporose para tratar — com o painel de novo, porque 44 anos continua sendo idade de procurar causa.

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Faça você

Clarimundo Gaspar, 74 anos, 66 kg, marceneiro aposentado, faz exames de rotina na unidade básica, e a fosfatase alcalina volta em 412 U/L (referência do laboratório até 129). Aminotransferases, bilirrubinas, cálcio (9,4 mg/dL), albumina e creatinina (1,0 mg/dL) são normais. Perguntado, conta que a perna direita dói “por dentro, lá no fundo”, pior à noite, há dois anos, e que a canela “foi entortando para a frente”. A mulher reclama que ele aumenta a televisão cada vez mais. Não tem febre, emagrecimento, nem dor em outro lugar. Toma anlodipino para a pressão e nunca usou bisfosfonato.

  1. o que a fosfatase alcalina já disse

    A fosfatase alcalina elevada, com dor e deformidade óssea, favorece origem óssea, mas aminotransferases e bilirrubinas normais não a comprovam. Se houver dúvida, usar GGT e/ou fração óssea e avaliar contexto hepatobiliar. Cálcio normal não exclui todas as formas de hiperparatireoidismo. A combinação de dor tibial, deformidade, idade e perda auditiva torna Paget uma hipótese importante a confirmar por imagem e investigação dirigida.

  2. o que pedir para confirmar

    Radiografia da tíbia direita e cintilografia óssea para a extensão; onde não houver cintilografia, o protocolo aceita radiografias de abdome, crânio com ossos da face e tíbias, que alcançam até 93% dos pacientes. Na imagem, procura-se pelo menos um de três achados: espessamento da cortical, trabéculas desorganizadas e espessadas, expansão do osso. A radiografia mostra espessamento da cortical e expansão da tíbia. Complete: o que ele já preenche dos critérios de inclusão do protocolo, e quantos critérios bastam?

  3. o que precisa estar pronto antes do bisfosfonato

    Complete: que dois nutrientes o protocolo manda garantir antes do primeiro bisfosfonato, em que dose diária e por quanto tempo, e por quê. Calcule a depuração de creatinina dele pelo Cockcroft-Gault e diga se ela restringe o bisfosfonato.

  4. o que o interno encaminha, e com que informação

    Complete: qual bisfosfonato é a escolha quando o oral não pode ser usado, com que dose e intervalo, em que componente da Rename ele está, quais são os esquemas orais do protocolo de Paget e em que eles diferem dos da osteoporose, como se acompanha a atividade da doença e o que se faz com a queixa da televisão.

Ver como fecharíamos

Com o diagnóstico radiológico, que é a condição de entrada, Clarimundo preenche três critérios de inclusão do protocolo de 2020 — fosfatase alcalina acima da referência, dor em área acometida e acometimento de osso longo de membro inferior —, e basta um. Antes do bisfosfonato, cálcio e vitamina D: o esquema do protocolo de Paget é de 1,2 a 1,5 g/dia de cálcio elementar e 600 a 1.200 UI/dia de colecalciferol, em três doses, por seis meses — três comprimidos de carbonato de cálcio 1.250 mg com colecalciferol 400 UI entregam 1.500 mg e 1.200 UI —, porque o bisfosfonato freia a reabsorção que sustenta o cálcio. A depuração é (140 − 74) × 66 ÷ (72 × 1,0) = 60,5 mL/min e não restringe. O ácido zoledrônico, 5 mg intravenoso com intervalo mínimo de doze meses para retratamento, é a escolha de quem não pode usar o oral e está no Componente Especializado. Os orais do protocolo de Paget não são os da osteoporose: alendronato 40 mg por dia por seis meses — quatro comprimidos de 10 mg — e risedronato 35 mg por dia por dois meses, em ciclos, e não comprimidos semanais por anos. A atividade se acompanha pela fosfatase alcalina a cada três a seis meses, espaçando para seis a doze quando estável, com novo ciclo se a dor ou a fosfatase voltarem, e o acompanhamento dura a vida toda, no serviço especializado para onde ele vai encaminhado com a radiografia, a cintilografia e os exames. A perda auditiva é a complicação mais comum da doença e pede avaliação auditiva.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Cálcio baixo, fósforo baixo, fosfatase alcalina e paratormônio altos e 25-hidroxivitamina D de 8 ng/mL, numa doença que causa má absorção, compõem hiperparatireoidismo secundário com mineralização comprometida: osteomalácia até prova em contrário. O protocolo federal contraindica o bisfosfonato oral na hipocalcemia, e o bisfosfonato não corrige mineralização. O calcitriol não repõe 25-hidroxivitamina D e fica para indicações específicas; a 1,25-di-hidroxivitamina D pode estar normal ou alta na deficiência e não mede estoque.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Avalie um caso com fratura de baixo trauma: mecanismo, dor, altura, quedas, medicamentos e exames dirigidos. Demonstre como orientar o bisfosfonato oral e conferir compreensão e contraindicações.

Em 30 dias

Reavalie após tratamento: adesão, técnica, fraturas, quedas, rim e exames. Interprete variação densitométrica considerando precisão do serviço e discuta manutenção ou pausa pelo risco, sem depender apenas do T-escore.

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Agora atenda

Agora atenda: Tarcísio Ricardo, 71 anos, 78 kg, em privação androgênica com gosserrelina há catorze meses por câncer de próstata, tabagista, que fraturou o punho ao cair da própria altura há dois meses e chega ao ambulatório com o gesso já retirado e um bilhete do urologista perguntando se o osso precisa de tratamento. Decida se a fratura já basta para indicar tratamento pela régua do protocolo, que causas secundárias ainda investigar e quais exames a história dele dispensa, como calcular a depuração de creatinina, qual bisfosfonato prescrever e por qual componente, o que fazer com o cálcio e a vitamina D, quando mandar ao dentista e por quanto tempo tratar.

Osteoporose e metabolismo ósseo – A causa antes do comprimido — Internato | OsceLabs