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Clínica MédicaEndocrinologia

O choque que pede cortisol

Insuficiência adrenal e crise addisoniana

Vômito, dor abdominal, sódio baixo e uma pressão que não sobe com soro nem com noradrenalina podem ser a adrenal — a que adoeceu ou a que meses de corticoide calaram. O que se colhe antes da hidrocortisona e por que não se espera o resultado, como a pele e o potássio separam a primária da central, a reposição que o SUS entrega, as regras do dia doente, o frasco que o paciente leva para casa e como tirar um corticoide crônico sem provocar a crise.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Insuficiência Adrenal. Portaria Conjunta nº 20, de 24 de novembro de 2020, que revoga a Portaria SAS/MS nº 1.170, de 19 de novembro de 2015.

Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. Portaria GM/MS nº 6.324/2024. ISBN 978-65-5993-710-3.

Santa Catarina. Secretaria de Estado da Saúde. Diretoria de Assistência Farmacêutica. Insuficiência adrenal: resumo do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para o Componente Especializado da Assistência Farmacêutica. Florianópolis, maio de 2021.

Pernambuco. Secretaria Estadual de Saúde. Farmácia de Pernambuco. Insuficiência adrenal primária — doença de Addison: documentos para solicitação de medicamento do Componente Especializado. Revisão 3, de 23 de maio de 2022.

Bornstein SR, Allolio B, Arlt W, Barthel A, Don-Wauchope A, Hammer GD, et al. Diagnosis and Treatment of Primary Adrenal Insufficiency: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2016;101(2):364-389. DOI 10.1210/jc.2015-1710.

01

Responda antes de ler

Homem de 54 anos, ex-lavrador, com paracoccidioidomicose tratada há sete anos, chega com cinco meses de fadiga, perda de 9 kg, tontura ao levantar e avidez por sal, e agora dois dias de vômitos. Exames: sódio de 122 mmol/L, potássio de 6,3 mmol/L e glicemia de 66 mg/dL. Qual dado, somado à história, indica que a insuficiência adrenal é primária e não central?

02

O paciente que você vai ver

Onze e quarenta da noite de uma quinta-feira, pronto-socorro de um hospital geral de cento e vinte leitos. Você é o interno do plantão clínico, e a técnica de enfermagem acabou de trocar o segundo frasco de Ringer lactato na maca 4. Na maca está dona Evangelina Paraopeba, 71 anos, 54 quilos, que a filha trouxe de carro depois de três dias de diarreia e vômitos. A história que chegou com a ficha da triagem cabe numa linha — gastroenterite em idosa, desidratada, hipotensa —, e a conduta que costuma acompanhar essa linha também: soro, antiemético, exames, reavaliar.

Os números da triagem eram pressão de 76 por 42 mmHg, frequência cardíaca de 118, frequência respiratória de 22, saturação de 95% em ar ambiente, temperatura axilar de 37,9 °C e glicemia capilar de 61 mg/dL. Ela está sonolenta, responde quando chamada pelo nome e volta a fechar os olhos. A mucosa oral está seca, o abdome é doloroso de maneira difusa, sem defesa localizada, e os ruídos hidroaéreos estão aumentados. Em uma hora e meia recebeu mil e quinhentos mililitros de cristaloide e glicose hipertônica pela ordem do plantonista; a glicemia repetida subiu para 104 mg/dL e a pressão, para 82 por 46.

O residente olha o monitor, pede noradrenalina em veia periférica enquanto não há acesso central e manda colher gasometria venosa, lactato, eletrólitos, função renal, hemograma e duas hemoculturas, porque febre baixa com hipotensão em idosa é sepse até prova em contrário. Ele tem razão em pensar nisso, e as culturas colhidas antes do antimicrobiano continuam certas. A noradrenalina começa em dose baixa e sobe duas vezes nos vinte minutos seguintes. A pressão chega a 84 por 48 e não passa daí.

A gasometria venosa volta primeiro: sódio de 127 mmol/L, potássio de 4,6 mmol/L, bicarbonato de 17 mmol/L e lactato de 3,1 mmol/L. A creatinina, que chega depois, é de 1,9 mg/dL. Nada disso destoa de uma desidratação por diarreia em idosa — e é justamente por não destoar que o raciocínio costuma parar aqui, com o diagnóstico de fachada confirmado por exames que ele mesmo explica.

Enquanto você preenche a ficha de admissão, a filha tira da bolsa o saco plástico com os remédios da mãe, que a enfermeira pediu para ver. Há um anti-hipertensivo que ela diz que a mãe não toma há meses, um protetor gástrico, cálcio com vitamina D e uma cartela de prednisona de 5 mg com a receita dobrada junto: dois comprimidos pela manhã. A reumatologista prescreveu há onze meses, para uma dor nos ombros e na cintura que não deixava dona Evangelina pentear o cabelo, e a dor foi embora. Você pergunta quando foi o último comprimido. “Domingo”, responde a filha. “Ela vomitava tudo, então achou melhor não tomar com o estômago assim.”

Onze meses de 10 mg de prednisona por dia, e três dias sem nenhum. Vômito, dor abdominal, sonolência, sódio baixo, uma glicemia que caiu sem que ela tenha diabetes e uma pressão que já recebeu litro e meio de cristaloide e duas subidas de noradrenalina sem responder como deveria. Dona Evangelina pode ter sepse de foco intestinal, e essa hipótese continua na mesa. Mas existe uma segunda explicação que reúne todos os achados da noite, que não aparece em nenhum dos exames que o plantão pediu e que se trata com um frasco que está na farmácia de qualquer pronto-socorro do país.

O relógio marca meia-noite e cinco. O laboratório informa que cortisol só sai de manhã, e nenhum endocrinologista atende o telefone a esta hora. O que você colhe nos próximos cinco minutos, o que você prescreve logo depois e por que a conduta certa não espera o resultado do exame que acabou de pedir é o assunto deste capítulo. Ele também fica com o que vem depois da madrugada: descobrir se a adrenal de dona Evangelina adoeceu ou foi calada pelo remédio, o que ela vai tomar todos os dias, o que fazer no próximo dia em que vomitar e como, algum dia, retirar a prednisona sem trazê-la de volta a esta maca.

03

Quem adoece disso

Não há número brasileiro para a insuficiência adrenal, e o protocolo federal de 2020 diz isso com todas as letras. Os dados que ele usa são europeus: a forma primária é rara, com prevalência entre 39 e 221 casos por milhão de habitantes, e vem crescendo, sobretudo entre mulheres, nos registros de seguro de saúde da Alemanha. A raridade tem uma consequência que o próprio protocolo registra: como as manifestações da forma crônica são inespecíficas, o diagnóstico é feito com frequência durante uma crise, e o atraso no diagnóstico parece ser o principal determinante da qualidade de vida desses pacientes.

O que existe no Brasil é a distribuição das causas, e ela não é a dos livros estrangeiros. Nos Estados Unidos e na Europa, a adrenalite autoimune responde por 70% a 90% dos casos de insuficiência primária. Numa série de São Paulo citada pelo protocolo, a autoimune também lidera, mas com 39%; em seguida vêm a paracoccidioidomicose, com 28%, a tuberculose, com 11%, e a adrenoleucodistrofia, com 7,3%. Quase quatro em cada dez casos dessa série vieram de duas infecções granulomatosas, e é por isso que o protocolo manda investigar laboratorialmente quem tem quadro compatível e história de tuberculose, de paracoccidioidomicose ou de infecção pelo HIV.

A causa mais comum de insuficiência adrenal, porém, não aparece nessa série, porque não é doença da adrenal. O protocolo afirma que é o uso prolongado de corticoide, que suprime o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal. A diretriz conjunta das sociedades europeia e americana de endocrinologia, de 2024, parte de uma estimativa: ao menos 1% dos adultos dos Estados Unidos e do Reino Unido usa glicocorticoide oral em qualquer momento, o que põe vários milhões de pessoas em risco só nesses dois países. O interno reconhece essa população sem precisar de estatística: a senhora com artrite reumatoide em 5 mg há anos, o homem com doença pulmonar obstrutiva crônica que fez quatro ciclos de prednisona no ano, a moça com lúpus, o transplantado renal, o rapaz com doença inflamatória intestinal.

O risco não mora só no comprimido. A mesma diretriz reúne as prevalências de insuficiência adrenal por via de administração: entre usuários de corticoide inalatório, 7,8% no conjunto, 27,4% entre os que usam há mais de um ano e 21,5% entre os que usam dose alta; depois de infiltração intra-articular, 52,2%; com corticoide tópico na pele, 4,7%. São prevalências da insuficiência, não da crise, mas explicam por que a pergunta “a senhora usa algum corticoide?” precisa nomear a bombinha, a pomada, o colírio e a injeção no joelho — o paciente raramente chama essas coisas de corticoide.

A crise é o desfecho que mata, e ela se concentra em momentos previsíveis. Uma coorte britânica citada pela diretriz de 2024, com 70.638 usuários de glicocorticoide oral, encontrou aumento abrupto da mortalidade nos dois primeiros meses depois da suspensão, que caía rapidamente a partir do terceiro mês; só 13 óbitos tinham insuficiência adrenal registrada como causa, e a diretriz lê essa relação com o tempo como suspeita de crises que ninguém diagnosticou. Os fatores de risco para a crise, na mesma diretriz, são crise prévia, idade acima de 65 anos, adolescência e passagem do cuidado pediátrico para o adulto, e carga de comorbidades — e o desmame e a suspensão do corticoide são chamados de momentos cruciais.

O gatilho é quase sempre outra doença. Na tabela de 2024, valem para qualquer paciente com insuficiência adrenal as infecções — gastrointestinais, urinárias, respiratórias e a sepse —, a doença aguda com febre, o trauma, a cirurgia ou procedimento com anestesia geral, regional ou local, o preparo intestinal com laxante ou enema, o parto, o procedimento dentário, a dor e o estresse intensos e o exercício extenuante. Para quem tem a insuficiência causada pelo corticoide, somam-se a suspensão abrupta, o desmame abaixo da dose fisiológica, a troca entre corticoides inalatórios e o início de um indutor forte do citocromo P450 3A4 — carbamazepina, fenitoína, fenobarbital, primidona, rifampicina —, que acelera a destruição do glicocorticoide pelo fígado. É por isso que o paciente em crise costuma chegar com um diagnóstico verdadeiro na frente, como a gastroenterite de dona Evangelina: ela é real, e foi ela que desmascarou a adrenal.

Há um último grupo, que cresce junto com a medicina que o interno pratica. O protocolo brasileiro aponta como causas crescentes de insuficiência primária a hemorragia adrenal ligada à anticoagulação, a inibição da síntese de cortisol pelo etomidato e o catabolismo acelerado do glicocorticoide por fenitoína, fenobarbital e rifampicina, e descreve a deficiência de ACTH, às vezes isolada, com os antineoplásicos que atuam no sistema imune. A diretriz de 2024 acrescenta o outro lado da interação: inibidores fortes do citocromo P450 3A4, como os medicamentos que contêm ritonavir, fazem um corticoide inalatório ou tópico agir no corpo inteiro, com Cushing enquanto se usa e insuficiência adrenal quando se para.

04

Por que acontece o que acontece

A adrenal que interessa a este capítulo é o córtex, e ele trabalha em três camadas com comandos diferentes. A mais externa, a glomerulosa, faz aldosterona e obedece sobretudo à renina e ao potássio. A do meio, a fasciculada, faz cortisol e obedece ao ACTH, que a hipófise libera sob o comando do hormônio liberador de corticotrofina do hipotálamo; o cortisol, por sua vez, freia os dois andares de cima. A mais interna, a reticular, faz androgênios como o sulfato de desidroepiandrosterona. O circuito do cortisol — o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal — pulsa com o relógio: o pico vem ao acordar, o nível cai ao longo do dia e chega ao ponto mais baixo por volta da meia-noite. A diretriz de 2024 estima a produção diária em 9 a 10 mg, e as doses de reposição por boca são maiores do que isso porque descontam a biodisponibilidade.

Tirar o cortisol do corpo produz três falhas que o interno enxerga à beira do leito. A primeira é vascular: o cortisol é o que permite ao vaso responder à noradrenalina, e sem ele a parede arterial fica surda ao estímulo adrenérgico — o soro entra, a noradrenalina sobe e a pressão não acompanha. A segunda é metabólica: o cortisol sustenta a produção de glicose no jejum e na doença, e sua falta derruba a glicemia, sobretudo em quem não come porque vomita. A terceira é da água: sem cortisol, o hormônio antidiurético deixa de ser freado, o rim retém água livre e o sódio cai. Essa hiponatremia acontece na forma primária e na central, porque depende do cortisol, e não da aldosterona.

A aldosterona é a divisória entre as formas. Na insuficiência adrenal primária, a doença destrói o córtex inteiro, a glomerulosa vai junto, e o rim passa a perder sódio e a reter potássio: vêm a depleção de volume, a hipotensão postural, a avidez por sal e a hipercalemia. Na forma central — secundária quando a falha é da hipófise, terciária quando é do hipotálamo —, falta o ACTH, mas o sistema renina-angiotensina continua intacto e segue estimulando a glomerulosa. A aldosterona é preservada, e por isso o protocolo brasileiro é categórico: hiponatremia pode ocorrer nas duas formas, hipercalemia só na primária. O potássio de 4,6 mmol/L de dona Evangelina não afasta a adrenal; aponta para o andar de cima.

A pele é a outra divisória. O ACTH nasce de uma molécula maior, a pró-opiomelanocortina, que a hipófise corta em pedaços; um deles é o hormônio estimulador de melanócitos. Quando a adrenal falha, o cortisol some, o freio sobre a hipófise some junto, e ela passa a produzir pró-opiomelanocortina sem parar — o ACTH plasmático sobe e, com ele, o estímulo aos melanócitos. É daí que vem a hiperpigmentação, e é por isso que ela só existe na primária: na central, o problema é justamente não haver ACTH.

O corticoide que o paciente toma age sobre o eixo como o próprio cortisol: freia o hormônio liberador de corticotrofina e o ACTH pelo mesmo mecanismo da retroalimentação fisiológica. Enquanto a dose está acima da necessidade diária, a hipófise não tem motivo para trabalhar; mantida por semanas e meses, a supressão reduz a capacidade de resposta da hipófise e leva à atrofia do córtex adrenal. A diretriz de 2024 descreve o caminho de volta: suspenso o glicocorticoide, o ACTH ressurge e, na maioria dos casos, o córtex se recupera — mas o tempo até a recuperação completa é muito variável. Qualquer dose acima da fisiológica pode suprimir o eixo, por qualquer via, e o grau depende da potência, da dose, da duração e de uma suscetibilidade individual que ninguém mede de antemão.

Isso explica o paradoxo de quem tem insuficiência por corticoide: enquanto toma o remédio, não sente nada, porque o comprimido faz o trabalho da glândula. A falha aparece em duas situações. Na primeira, o comprimido some — o paciente para por conta própria, vomita a dose, fica em jejum para um exame, recebe alta sem a receita. Na segunda, o comprimido continua, mas a necessidade aumenta: uma infecção, uma cirurgia, um trauma, e a adrenal atrofiada não produz o cortisol extra que o estresse exige. Os dois caminhos levam ao mesmo lugar, e dona Evangelina percorreu os dois de uma vez — a gastroenterite aumentou a necessidade na mesma semana em que a prednisona parou.

A crise é a soma das falhas em alguém que já estava no limite. O choque vem da vasodilatação sem resposta à noradrenalina e, na primária, também da perda de sódio e água pela falta de aldosterona; por isso a diretriz de 2024 descreve um choque desproporcional ao gatilho e resistente a volume e a inotrópico enquanto o glicocorticoide parenteral não chega. Náusea, vômito e dor abdominal fazem parte do quadro, e não apenas o acompanham — o que fecha o círculo de quem vomita o comprimido e piora por não absorvê-lo. Febre, confusão, hipoglicemia, hiponatremia e, na primária, hipercalemia completam o retrato.

O tratamento responde ao mecanismo ponto por ponto. A hidrocortisona é o próprio cortisol, e na dose usada na crise tem atividade mineralocorticoide suficiente — por isso o protocolo dispensa a fludrocortisona enquanto a hidrocortisona intravenosa está em dose de crise. Prednisona e prednisolona são glicocorticoides de ação intermediária, quatro vezes mais potentes que a hidrocortisona e com pequeno efeito mineralocorticoide, o que obriga a somar a fludrocortisona na primária e permite dispensá-la na central; a prednisona ainda precisa ser ativada no fígado, e a prednisolona já chega ativa. A dexametasona age por dias e é difícil de titular: o protocolo não a preconiza para reposição, e a diretriz de 2016 recomenda contra, pelo risco de Cushing. E o mecanismo cobra um cuidado na volta: reposto o cortisol, o hormônio antidiurético é freado de novo, o rim despeja a água retida, e o sódio pode subir mais depressa do que o limite que Distúrbios do sódio no internado: hiponatremia ensina a vigiar.

05

Como se apresenta de verdade

A insuficiência adrenal se apresenta de dois jeitos, e quem decide qual é a velocidade da perda. Quando a produção hormonal cai devagar, ao longo de meses, o corpo se adapta e o quadro é crônico, vago e fácil de atribuir a outra coisa. Quando cai de repente — ou quando uma doença intercorrente exige de uma adrenal já insuficiente o que ela não pode dar —, o quadro é a crise addisoniana, que o protocolo federal descreve como risco de vida quando não tratada. As seções seguem a ordem em que o interno encontra a doença: a crise, a forma arrastada, o que separa a primária da central, o paciente que usa corticoide, os disfarces e as situações que mudam a leitura.

Este capítulo assume a insuficiência adrenal como entidade — diagnóstico, teste de estímulo, reposição crônica —, que Hipoglicemia no não-diabético e manejo da hipoglicemia grave registrou como ainda sem capítulo neste nível: a crise e sua hidrocortisona, a separação entre primária, secundária e terciária, a reposição de todos os dias e a educação que a acompanha, a dose de estresse em cirurgia, parto e doença intercorrente, e a retirada do corticoide crônico sem provocar a crise. Cede o que tem dono: a dose de glicose da hipoglicemia fica com aquele capítulo; o limite de correção do sódio, com Distúrbios do sódio no internado: hiponatremia; a hipercalemia com repercussão no eletrocardiograma, com Potássio: hipo e hipercalemia na enfermaria; o diagnóstico diferencial do choque, com Hipotensão na enfermaria: causas e conduta imediata e com Diferenciar os tipos de choque e conduzir cada um; a hidrocortisona do choque séptico, que é outra indicação com outra régua, com Sepse e choque séptico: identificação precoce e pacotes iniciais; e a ordem entre tireoide e adrenal, que Hipotireoidismo e rastreamento tireoidiano já adverte. A síndrome de Cushing e as doenças da hipófise têm capítulo nesta apostila — Síndrome de Cushing e hiperaldosteronismo (HAS secundária) e Doenças da hipófise (diabetes insípido, acromegalia, hipopituitarismo) —: este capítulo reconhece a insuficiência de causa hipofisária e a encaminha, e a investigação da lesão fica com eles.

Percurso de aprendizagem

Primeira leitura: emergência — reconhecer, colher se imediato e tratar; não esperar confirmação.

Segunda leitura: primária, central e induzida por glicocorticoide, relacionando mecanismo a eletrólitos e necessidade de mineralocorticoide.

Aprofundamento: retirada, testes e cobertura em procedimentos. Antes de memorizar tabelas, ensaie regras de doença e uso do recurso de emergência.

1. A crise: um choque maior que a doença que o provocou

A crise adrenal é um diagnóstico clínico. A diretriz de 2024 a define por hipotensão ou choque hipovolêmico somados a ao menos um de quatro achados — náusea ou vômito, fadiga intensa, febre e alteração da consciência, que vai da letargia e da confusão ao delírio, às convulsões e ao coma — e diz que as alterações laboratoriais ajudam, mas não são exigidas. A característica que mais ensina é a desproporção: o paciente está muito mais grave do que a infecção urinária, a gastroenterite ou o pequeno procedimento que desencadeou o quadro deveria deixá-lo.

O protocolo brasileiro dá a pista do pronto-socorro numa frase: dor abdominal e hipotensão que não responde a volume ou a vasopressor obrigam a investigar crise addisoniana. A dor abdominal pode ser intensa, vir com vômitos e ser tomada por abdome agudo; a hipotensão costuma ser tratada como sepse ou desidratação, e às vezes também é — só que não responde como a sepse e a desidratação respondem.

Os exames, quando chegam, reforçam: hiponatremia, tipicamente com sódio urinário alto; hipercalemia na primária; ureia e creatinina elevadas pela depleção de volume; hipoglicemia; linfocitose e eosinofilia no hemograma. Nenhum deles é necessário para começar o tratamento, e nenhum, sozinho, fecha o diagnóstico. A diretriz de 2016 lista os mesmos sinais como motivo para testar o doente agudo sem outra explicação — depleção de volume, hipotensão, hiponatremia, hipercalemia, febre, dor abdominal, hiperpigmentação e, sobretudo na criança, hipoglicemia — e manda tratar antes do resultado quando os sintomas são graves.

2. A forma arrastada: meses de sintomas que ninguém soma

Fora da crise, o protocolo reconhece que o diagnóstico é desafiador, porque as queixas mais frequentes são as mais inespecíficas da medicina: fadiga, perda de peso, náusea, vômitos, dor abdominal, dores articulares e musculares. Cada uma tem dezenas de explicações, e o paciente costuma ter passado por várias antes de alguém somá-las.

Três achados são mais específicos e precisam ser procurados, porque o paciente raramente os traz: a hiperpigmentação, a hipotensão postural e a avidez por sal. A pressão deitada pode ser normal; é a medida em pé que mostra a queda e reproduz a tontura que ele descreve ao levantar da cama. A avidez por sal aparece como hábito — o sal na fruta, o salgadinho à noite, a salmoura bebida do vidro de conserva — e só é relatada quando alguém pergunta.

Os antecedentes fazem a suspeita subir. Na primária autoimune, o protocolo lembra as síndromes poliglandulares: a do tipo 1, com candidíase mucocutânea, hipoparatireoidismo e diabetes tipo 1, e a do tipo 2, com doença autoimune da tireoide, diabetes tipo 1 e hipogonadismo hipergonadotrófico. Tuberculose, paracoccidioidomicose ou infecção pelo HIV no passado, num paciente com esse quadro, indicam investigação laboratorial. Na central, pesam a cirurgia de hipófise, a radioterapia do sistema nervoso central e outras deficiências hipofisárias conhecidas — e, acima de todas, o uso de corticoide.

A mulher antes da menopausa tem um marcador a mais: o sulfato de desidroepiandrosterona baixo para sexo e idade reforça o diagnóstico, porque a camada reticular também falha; depois dos 50 anos ele perde especificidade, pela queda fisiológica com a idade. E há uma pista que vem de outro capítulo: Hipotireoidismo e rastreamento tireoidiano adverte que a insuficiência primária não tratada eleva o hormônio estimulante da tireoide, que normaliza quando o glicocorticoide entra.

3. A pele e o potássio: o que só a primária tem

A hiperpigmentação da primária é difusa, mas se concentra onde a pele é dobrada, atritada ou exposta: vincos das palmas, nós dos dedos, cotovelos, joelhos, mucosa da boca e gengiva. Ela se instala devagar, e quem convive com o paciente não percebe; a comparação com uma fotografia de um ou dois anos atrás costuma mostrar o que o espelho escondeu. Em pele parda ou preta, os sinais que mais ajudam são a mucosa oral manchada e os vincos palmares mais escuros do que o resto da mão.

Palmas com tom basal semelhante, comparando pregas habituais e hiperpigmentação acentuada nas pregas da mão à direita.
Hiperpigmentação adquirida, incluindo pregas palmares e áreas de atrito, pode ocorrer na insuficiência adrenal primária associada ao aumento de ACTH. Sua ausência não exclui o diagnóstico, e variação natural de pigmentação exige comparação com a história da pessoa. O achado não é esperado pelo mesmo mecanismo na insuficiência central. Ilustração didática original.

O potássio é a divisória laboratorial, pelo mecanismo da aldosterona: hiponatremia aparece nas duas formas, hipercalemia só na primária. O protocolo acrescenta que, confirmada a primária, a deficiência de mineralocorticoide deve ser documentada com aldosterona e renina — aldosterona abaixo de 3 ng/dL com renina elevada para o método é hipoaldosteronismo e define quem precisa de fludrocortisona. O mesmo parágrafo do protocolo escreve hipercalcemia onde o contexto e o próprio documento pedem hipercalemia; o eletrólito a olhar é o potássio, e o defeito está registrado em Fluxos e tabelas.

Na central, o retrato é outro: sem hiperpigmentação, sem hipercalemia, com menos depleção de volume. O ACTH costuma ser o último hormônio hipofisário a se perder, e por isso a insuficiência central raramente vem sozinha quando a causa é tumor, cirurgia ou radioterapia — vêm junto hipotireoidismo central, hipogonadismo, deficiência de hormônio do crescimento. A exceção que o protocolo nomeia é a hipofisite, inclusive a associada aos antineoplásicos que atuam no sistema imune, que pode tirar só o ACTH. Na criança com hipopituitarismo, a falta simultânea de cortisol e de hormônio do crescimento dá hipoglicemia.

4. Quem toma ou tomou corticoide: a insuficiência que não escurece a pele

A insuficiência causada pelo corticoide é central: o eixo foi calado de cima. Ela não escurece a pele, não sobe o potássio e não pede fludrocortisona — a diretriz de 2024 recomenda contra usá-la nessa forma. O que se vê, muitas vezes, é o contrário da hiperpigmentação: face em lua cheia, giba, estrias violáceas, pele fina com equimoses, fraqueza da musculatura proximal. A diretriz manda presumir insuficiência adrenal induzida em todo paciente com sinais de Cushing exógeno, atual ou recente — o Cushing é a prova de que houve exposição suficiente para calar o eixo.

Quanto corticoide é suficiente? O protocolo brasileiro dá uma referência para a anamnese: doses equivalentes a mais de 5 mg de prednisona por mais de 30 dias, ou a 20 mg por mais de duas semanas, são capazes de suprimir o eixo. A diretriz de 2024 define a exposição de risco pela via oral como a que excede dois limiares ao mesmo tempo — três a quatro semanas ou mais, e dose acima da fisiológica: 15 a 25 mg de hidrocortisona, 4 a 6 mg de prednisona ou prednisolona, 3 a 5 mg de metilprednisolona, 0,25 a 0,5 mg de dexametasona. E recomenda não desmamar quem usou por menos de três a quatro semanas, qualquer que tenha sido a dose.

As duas frases parecem brigar no paciente que tomou 20 mg por três semanas, e não brigam: respondem a perguntas diferentes, feitas em momentos diferentes. A do protocolo serve à suspeita — diante de alguém com sintomas, duas semanas a 20 mg bastam para pôr a adrenal na lista. A da diretriz serve à decisão sobre quem está bem e terminou um ciclo curto: para de uma vez, sem desmame e sem teste. As duas cabem no mesmo paciente: ele suspende no fim do ciclo e, se voltar vomitando e hipotenso na semana seguinte, recebe hidrocortisona como qualquer suspeito de crise — a própria diretriz manda considerar crise em quem usa ou usou corticoide e chega com instabilidade, vômito ou diarreia, qualquer que tenham sido o tipo, a via e a dose.

As vias que o paciente não chama de corticoide entram na mesma conta. A diretriz de 2024 pede atenção a quem usa formulação não oral e tem sintomas, a quem usa várias formulações ao mesmo tempo, a quem usa inalatório ou tópico em dose alta ou por mais de um ano, a quem recebeu infiltração intra-articular nos dois meses anteriores e a quem toma junto um inibidor forte do citocromo P450 3A4. Na enfermaria, o exemplo clássico é o homem com doença pulmonar obstrutiva crônica em corticoide inalatório de dose alta, que recebeu ciclos de prednisona em cada exacerbação do ano e agora vai operar.

Há um diagnóstico diferencial que só existe nesse grupo: a síndrome de retirada do glicocorticoide. Durante o desmame, em geral quando a prednisona desce abaixo de 15 mg por dia, o paciente pode sentir mal-estar, fadiga, náusea, dores musculares e articulares, insônia e mudança de humor, com eletrólitos normais e, com frequência, ainda com traços de Cushing. A insuficiência adrenal dá as mesmas queixas, mas traz perda de peso, hipotensão, queda postural, hiponatremia e hipoglicemia. E a doença de base que volta a se manifestar é a terceira possibilidade, com os próprios sinais — a sinovite na artrite reumatoide, a dor na cintura escapular na polimialgia.

5. Os disfarces: onde a adrenal se esconde na enfermaria

A hiponatremia sem explicação é o disfarce mais comum. Na hiponatremia euvolêmica, a insuficiência adrenal secundária imita a secreção inapropriada de hormônio antidiurético, e os critérios de secreção inapropriada exigem função adrenal normal antes de o diagnóstico ser dado. Distúrbios do sódio no internado: hiponatremia manda dosar cortisol matinal nesse cenário e quando há hipotensão, hiperpigmentação, hipoglicemia ou eosinofilia; na hiponatremia com sódio urinário alto em paciente desidratado, a primária está na lista das perdas renais.

A hipoglicemia do adulto que não usa insulina nem sulfonilureia é o segundo. Hipoglicemia no não-diabético e manejo da hipoglicemia grave ensina a colher cortisol junto com a amostra crítica, porque é a chance de flagrar a insuficiência no momento em que ela se manifesta; este capítulo recebe o paciente quando esse cortisol vem baixo.

O choque que não responde é o terceiro, e é o de dona Evangelina. Hipotensão na enfermaria: causas e conduta imediata e Sepse e choque séptico: identificação precoce e pacotes iniciais põem a insuficiência adrenal na lista do choque que não melhora com volume e vasopressor, ao lado do sangramento oculto, do foco infeccioso não controlado e da causa mecânica. No pós-operatório de quem usava corticoide e ficou em jejum sem cobertura, a hipotensão da primeira noite deve ser tratada como crise até prova em contrário.

Os demais aparecem de lado: a dor abdominal com exame de imagem normal em paciente emagrecido; a fadiga e a perda de peso investigadas como neoplasia; a eosinofilia sem alergia nem parasitose; o hormônio estimulante da tireoide discretamente elevado; a hipotensão postural atribuída a um anti-hipertensivo que a paciente parou de tomar há meses. Nenhum deles é específico. O que têm em comum é a pergunta que resolve boa parte dos casos — “o senhor usa ou usou corticoide, de qualquer forma?” — e a lembrança de que o restante é doença da própria glândula.

6. Situações que mudam a leitura

Na gestação, o estrogênio aumenta a globulina ligadora de cortisol, o cortisol total sobe, e o protocolo avisa que isso eleva falsamente o valor basal. A necessidade de glicocorticoide também aumenta: o protocolo preconiza cerca de 7,5 mg por dia de prednisona ou prednisolona na grávida com insuficiência, prefere os glicocorticoides que a placenta inativa em boa parte — prednisona, prednisolona, hidrocortisona — para poupar o feto e prevê hidrocortisona em dose de estresse no parto.

No doente grave, o erro é o oposto. A diretriz de 2016 lembra que síndrome nefrótica, doença hepática, pós-operatório imediato e terapia intensiva reduzem a globulina ligadora e a albumina, e o cortisol total medido cai sem que a adrenal esteja falhando. É um dos motivos pelos quais o cortisol isolado do paciente crítico é tão difícil de interpretar, e a hidrocortisona do choque séptico, que Sepse e choque séptico: identificação precoce e pacotes iniciais considera de forma individualizada, não é a mesma decisão da crise adrenal deste capítulo.

Três pacientes merecem a pergunta mesmo sem corticoide na receita. O operado de síndrome de Cushing ou de tumor de hipófise, porque a correção do excesso de cortisol cala o eixo como o corticoide exógeno cala, e porque a cirurgia pode ter levado o ACTH. O paciente oncológico em imunoterapia, pela hipofisite. E o anticoagulado com dor abdominal e choque, pela hemorragia adrenal que o protocolo lista entre as causas medicamentosas de insuficiência primária.

Quem já tem insuficiência adrenal e começa um indutor forte do citocromo P450 3A4 — a rifampicina do esquema da tuberculose, a fenitoína, a carbamazepina, o fenobarbital — passa a destruir mais depressa o glicocorticoide que toma. A diretriz de 2024 lista o início de indutor forte entre os gatilhos de crise na insuficiência induzida, e o protocolo cita o catabolismo acelerado entre as causas medicamentosas; a reposição de quem inicia um desses fármacos precisa de revisão clínica próxima por quem acompanha o paciente.

A criança fica fora do eixo deste capítulo, com uma exceção deliberada. O recém-nascido e o lactente com hiperplasia adrenal congênita perdedora de sal chegam em crise nas primeiras semanas de vida, e Puberdade precoce e distúrbios do desenvolvimento sexual ensina a reconhecê-la pelo sódio baixo com potássio alto num lactente desidratado, que se trata como crise antes de qualquer confirmação. A dose de hidrocortisona da crise pediátrica decide na urgência e não tem capítulo neste nível, então este capítulo a assume em Fluxos e tabelas, junto com o erro de dose que o protocolo federal contém; o diagnóstico da hiperplasia, a reposição por superfície corporal e o crescimento ficam com a pediatria.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação da insuficiência adrenal responde a três perguntas, nesta ordem: falta cortisol? a falha é da adrenal ou do andar de cima? qual é a causa? O protocolo federal resume as duas primeiras numa frase — confirmar a baixa secreção de cortisol e determinar a etiologia pelo ACTH plasmático —, e a terceira depende da resposta da segunda. O paciente que usa ou usou corticoide pula quase tudo: nele, a causa é a história, e o exame só entra na hora de saber se o eixo voltou.

Antes das três, o doente grave impõe uma quarta: o exame pode atrasar o tratamento? Não pode, e ninguém precisa escolher. A amostra se colhe em dois minutos, na mesma punção do acesso venoso; o resultado só chega depois, e a hidrocortisona entra no intervalo. O que não se recupera é a ordem inversa: sangue colhido depois da hidrocortisona mede o remédio, não a glândula.

1. Na crise: colher em dois minutos, tratar sem esperar

A diretriz de 2016 é direta: diante de sintomas graves de insuficiência adrenal ou de crise, a hidrocortisona intravenosa em dose de estresse vem antes do resultado de qualquer teste, porque o atraso aumenta morbidade e mortalidade. O protocolo brasileiro diz o mesmo para o paciente instável — glicocorticoide imediato, mesmo antes da confirmação — e acrescenta que o hemodinamicamente estável pode ser submetido a métodos diagnósticos mais precisos.

Esta apostila lê as duas frases como cronologia, e não como disputa. Estabilidade dá tempo de colher, nunca de esperar: no paciente estável com quadro de crise — vomitando, confuso, com sódio baixo — colhem-se cortisol e ACTH antes da hidrocortisona, e ela entra sem aguardar o laudo. Os métodos mais precisos do protocolo, o teste de estímulo e a investigação da causa, pertencem ao paciente fora da crise, e nenhum deles cabe no plantão de quem ainda vomita. Quem usa ou usou corticoide segue a mesma regra, com um reforço da diretriz de 2024: instabilidade, vômito ou diarreia bastam para considerar crise, qualquer que tenham sido o tipo, a via e a dose do corticoide.

O pedido da madrugada é curto. Cortisol sérico e ACTH plasmático, este em tubo com EDTA, levado no gelo e centrifugado em centrífuga refrigerada, como o protocolo exige; sódio, potássio, ureia, creatinina, glicemia e hemograma; e as culturas e exames que o gatilho pedir. Se o laboratório não tiver como processar o ACTH à noite, colhe-se o cortisol assim mesmo e registra-se a hora da coleta e a hora da hidrocortisona na prescrição.

No paciente com história clara de corticoide crônico interrompido, como dona Evangelina, a amostra acrescenta pouco: o cortisol baixo é o esperado de um eixo suprimido e não muda a conduta da noite. Ela não atrapalha se couber nos mesmos dois minutos; atrapalha se virar motivo para esperar.

2. Fora da crise: o cortisol entre 6 e 9 horas

O primeiro exame da investigação ambulatorial é o cortisol sérico basal, colhido pela manhã, entre 6 e 9 horas. O protocolo considera a insuficiência altamente provável com cortisol matinal de 3 a 5 mcg/dL ou menos, e diz que um valor de 15 mcg/dL ou mais tem alto valor preditivo para resposta normal num teste de estímulo. Cortisol salivar e cortisol urinário de 24 horas não têm valor no diagnóstico da insuficiência — servem ao excesso, não à falta.

Na suspeita de primária, o cortisol se lê junto com o ACTH. Cortisol abaixo de 5 mcg/dL com ACTH pelo menos duas vezes acima do limite superior — em geral acima de 100 pg/mL — é altamente sugestivo; cortisol acima de 15 mcg/dL com ACTH normal torna o diagnóstico pouco provável; entre 5 e 15, o protocolo indica teste de estímulo. Há uma exceção que ele mesmo abre: ACTH acima de 100 pg/mL já representa estímulo máximo à adrenal, e com hiperpigmentação, hipercalemia e hiponatremia o diagnóstico é muito sugestivo mesmo com cortisol na faixa intermediária.

Na suspeita de central, o corte de baixo muda: cortisol de 3 mcg/dL ou menos com ACTH baixo ou normal confirma; entre 3 e 15, com ACTH normal, indica teste de estímulo, e antecedente de corticoterapia prolongada, radioterapia ou cirurgia de hipófise aumenta a probabilidade; acima de 15, é muito pouco provável. Um ACTH normal diante de cortisol baixo não é normal — é a hipófise que deveria estar gritando e não está.

Os fluxogramas do protocolo e o texto que os acompanha não concordam nas bordas: o texto usa menor que 5 e maior que 15, a figura usa menor ou igual a 5 e maior ou igual a 15, e o ramo do teste na figura da primária exige sulfato de desidroepiandrosterona baixo, que o texto não exige. Esta apostila adota o texto, onde o sinal é explícito: cortisol de 5 ou de 15 mcg/dL exatos, o valor menos conclusivo de todos, vai para o teste; na central, 3 mcg/dL exatos já confirmam, porque texto e figura concordam em menor ou igual a 3; e sulfato de desidroepiandrosterona normal não dispensa ninguém do teste. A conta de cada borda está em Fluxos e tabelas.

3. As armadilhas: a hora, o estrogênio, a proteína e o próprio remédio

A hora é a primeira. O cortisol cai ao longo do dia por fisiologia, e um valor baixo às 16 horas não diagnostica nada; a régua do protocolo vale para a amostra das 6 às 9. No ambulatório que só colhe à tarde, o pedido precisa dizer a hora, e o resultado precisa ser lido com ela.

O estrogênio é a segunda. O cortisol dosado é o total, e cerca de 90% dele circula ligado a proteínas, principalmente à globulina ligadora de cortisol. Anticoncepcional oral com estrogênio e gestação aumentam essa proteína e elevam falsamente o cortisol basal — um valor normal numa mulher em uso de anticoncepcional combinado não afasta a doença. O protocolo manda suspender a reposição de estradiol para investigar o eixo e não fixa o intervalo; na prática, o momento da coleta se combina com o laboratório e com quem vai interpretar o exame.

A proteína baixa é a terceira, e engana para o outro lado. Síndrome nefrótica, doença hepática, pós-operatório imediato e terapia intensiva reduzem a globulina ligadora e a albumina, e o cortisol total cai sem que a adrenal tenha falhado, lembra a diretriz de 2016. O cortisol baixo do cirrótico descompensado ou do paciente de terapia intensiva não é diagnóstico por si.

O próprio remédio é a quarta. A hidrocortisona é cortisol, e qualquer amostra colhida depois dela mede a dose. Os outros glicocorticoides suprimem o eixo e podem interferir no imunoensaio a depender do método — a diretriz de 2016 lembra que a cromatografia líquida com espectrometria de massa escapa dessas interferências —, e por isso a diretriz de 2024 recomenda não testar o eixo de quem ainda está em dose suprafisiológica ou ainda precisa do corticoide para a doença de base. O teste de recuperação só tem sentido depois de chegar à dose fisiológica, com a última dose suspensa há pelo menos 24 horas e a amostra colhida entre 8 e 9 horas.

E todo corte é aproximado. A diretriz de 2016 marca os seus como dependentes do ensaio, e a de 2024 avisa que os valores em mcg/dL e em nmol/L foram arredondados para uso clínico e não são conversões exatas. Diante de um resultado encostado no corte, o método do laboratório importa tanto quanto o número.

4. O ACTH: primária ou central, e como não estragar a amostra

O ACTH é o exame que separa os andares, e é também o mais fácil de estragar. O protocolo manda colhê-lo entre 6 e 9 horas, junto com o cortisol, em tubo com EDTA, no gelo, com centrifugação refrigerada. Amostra que esperou em temperatura ambiente no balcão do posto pode dar valor falsamente baixo e empurrar uma primária para a coluna errada.

Com cortisol baixo, ACTH acima de duas vezes o limite superior do método aponta a primária; a diretriz de 2016 lembra que ACTH muito alto representa estímulo máximo à síntese de cortisol, e que ACTH elevado com cortisol ainda normal pode ser o primeiro sinal de uma primária em fase inicial. ACTH baixo ou normal com cortisol baixo aponta a central.

Confirmada a primária, o protocolo pede aldosterona e renina plasmáticas: aldosterona abaixo de 3 ng/dL com renina elevada para o método define hipoaldosteronismo e a necessidade de fludrocortisona. Na central, não há por que dosá-las para esse fim: a aldosterona está preservada.

5. O teste de estímulo que o Brasil tem

A diretriz de 2016 sugere, como teste de confirmação, a corticotropina sintética em dose padrão — 250 µg por via intravenosa, com cortisol em 30 ou 60 minutos; pico abaixo de 18 mcg/dL indica insuficiência, com a ressalva de que o corte depende do ensaio. O protocolo brasileiro de 2020 registra que a cortrosina não tinha registro na Anvisa, e por isso põe como alternativa o teste de hipoglicemia insulínica.

O teste consiste em provocar hipoglicemia, que é o estímulo mais forte ao hormônio liberador de corticotrofina e ao ACTH, e medir a resposta do cortisol. Pelo protocolo, a insulina vai na dose de 0,1 UI/kg — 0,05 UI/kg quando se suspeita de hipopituitarismo —, com o objetivo de levar a glicemia a 40 mg/dL; o cortisol é dosado em 0, 30, 60 e 90 minutos, mesmo que o paciente tenha recebido glicose intravenosa para corrigir a hipoglicemia antes do fim. Cortisol de 18 mcg/dL ou mais em qualquer tempo afasta a insuficiência.

É um teste que se faz com médico ao lado, em ambiente com recurso para intercorrência, e o protocolo o contraindica em quem tem história de convulsão, cardiopatia ou doença cerebrovascular e em criança com menos de 20 kg. Na prática, isso exclui boa parte dos pacientes idosos da enfermaria clínica. Para eles, a decisão costuma se apoiar no cortisol basal, no ACTH e na clínica, e o próprio resumo estadual do Componente Especializado de Santa Catarina prevê relato médico justificando quando o teste de estímulo não pôde ser feito.

No paciente que retira corticoide, o teste dinâmico não é rotina: a diretriz de 2024 sugere contra, e a recuperação do eixo se acompanha pelo cortisol matinal, pela régua própria dessa situação.

6. Depois do diagnóstico: a causa, e o que mais procurar

Na primária, o protocolo pede tomografia do abdome superior com cortes finos, à procura de calcificações ou massas que sugiram causa infecciosa ou metástase; havendo lesão adrenal, uni ou bilateral, sólida ou cística, a biópsia guiada por tomografia define a etiologia e o tratamento. Paciente com síndrome poliglandular autoimune ou adrenoleucodistrofia já diagnosticada dispensa a imagem. A diretriz de 2016 começa a busca da causa pelo anticorpo contra a 21-hidroxilase, em ensaio validado, e manda procurar outras causas quando ele é negativo; o protocolo brasileiro não menciona o anticorpo e vai direto à imagem — o que, num país em que paracoccidioidomicose e tuberculose somaram quase quatro de cada dez casos da série paulista, faz sentido prático.

O tratamento da micose ou da tuberculose que destruiu a adrenal foge ao eixo deste capítulo e segue a régua da doença infecciosa. O que fica aqui é o recado: o protocolo trata a reposição da primária como tratamento por toda a vida, e ela não termina quando o antifúngico ou o esquema da tuberculose termina.

Na central sem hipopituitarismo conhecido, o protocolo pede ressonância magnética de hipófise e hipotálamo e a avaliação dos outros eixos: hormônio do crescimento e fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1, gonadotrofinas, estradiol na mulher e testosterona no homem, hormônio estimulante da tireoide com tiroxina livre e prolactina. A investigação da lesão é de Doenças da hipófise (diabetes insípido, acromegalia, hipopituitarismo), nesta apostila; a este capítulo cabe não deixar que o paciente saia sem glicocorticoide enquanto ela acontece.

Na primária autoimune, o acompanhamento procura as doenças que andam junto. A diretriz de 2016 destaca a doença autoimune da tireoide, lembra a doença celíaca, presente em cerca de 5% dos pacientes com primária, e a deficiência de vitamina B12 quando há sinais dela; o protocolo lembra o diabetes tipo 1 e o hipoparatireoidismo das síndromes poliglandulares. Na insuficiência causada pelo corticoide, nada disso se aplica: não há lesão a procurar, e a única investigação que interessa é a da recuperação do eixo, quando chegar a hora.

07

As réguas, as doses e as contas da adrenal

Você deve reconhecer crise adrenal, iniciar suporte e glicocorticoide sem esperar exames e distinguir posteriormente as formas de insuficiência. O cuidado só se completa com regras de estresse, treinamento e acesso ao medicamento. O capítulo decide com um documento federal — o protocolo da insuficiência adrenal de 2020 —, com a Rename 2024 para o que o SUS entrega e com duas diretrizes internacionais onde o protocolo não fixa regra operacional: a da Endocrine Society de 2016, para a forma primária, e a conjunta das sociedades europeia e americana de 2024, para quem usa ou retira corticoide. As contas usam um adulto de 60 kg e a equivalência da diretriz de 2024: 20 mg de hidrocortisona equivalem a 5 mg de prednisona ou de prednisolona, a 4 mg de metilprednisolona e a 0,5 mg de dexametasona.

  1. 1Hipotensão ou choque desproporcional ao gatilho, com vômito, dor abdominal, confusão, febre, hiponatremia, hipercalemia ou hipoglicemia — sobretudo em quem usa ou usou corticoide, tem pele escurecida ou insuficiência adrenal conhecida: pense em crise adrenal.
  2. 2Na mesma punção do acesso venoso, em dois minutos: cortisol, ACTH em tubo com EDTA no gelo, sódio, potássio, ureia, creatinina, glicemia, hemograma e as culturas que o gatilho pedir.
  3. 3Hidrocortisona 100 mg por via intravenosa em bolus de cerca de 30 segundos — intramuscular se não houver veia. Não espere o resultado do cortisol.
  4. 4Soro fisiológico 1.000 mL na primeira hora e depois conforme a resposta; glicose se houver hipoglicemia, pela régua de Hipoglicemia no não-diabético e manejo da hipoglicemia grave.
  5. 5Manutenção: hidrocortisona 50 mg IV a cada 6 horas, 200 mg/dia. Sem fludrocortisona enquanto a hidrocortisona estiver em dose de crise.
  6. 6Procure e trate o gatilho. Vigie pressão, glicemia, diurese, potássio e sódio — este com o limite de correção de Distúrbios do sódio no internado: hiponatremia.
  7. 7Melhorou e voltou a comer: desça a hidrocortisona para 100 mg/dia no dia seguinte, como faz a diretriz de 2016, e passe para a via oral.
  8. 8Defina a forma: pele escurecida, potássio alto e ACTH alto indicam primária; corticoide na história indica insuficiência induzida; lesão, cirurgia ou radioterapia de hipófise indica central.
  9. 9Primária: prednisona 5 a 7,5 mg/dia, ou prednisolona em solução, mais fludrocortisona 0,1 mg/dia pelo Componente Especializado. Central: prednisona 2,5 a 5 mg/dia, sem fludrocortisona.
  10. 10Induzida por corticoide: volte à dose que o paciente tomava, ou à dose fisiológica se o plano já era retirar, e só desmame com a doença de base controlada.
  11. 11Alta com as regras do dia doente por escrito, cartão ou pulseira de identificação, frasco de hidrocortisona 100 mg com seringa e agulha, e alguém da casa treinado para aplicar.
  12. 12Primária e central: febre de 38,5 °C ou mais pede pelo menos o dobro da dose oral. Induzida por corticoide: prednisona abaixo de 10 mg sobe para 10 mg nos dias de doença. Vômito que não deixa o comprimido ficar: hidrocortisona 100 mg IM e hospital. Cirurgia, parto, trauma grave ou internação: hidrocortisona 100 mg IV e 200 mg em 24 horas.
  13. 13Retirada: menos de 3 a 4 semanas de uso, suspenda sem desmame; mais que isso, desmame até 4 a 6 mg de prednisona e então siga descendo com vigilância ou dose o cortisol às 8–9 horas, com 24 horas sem a dose.
  14. 14Cortisol matinal acima de 10 mcg/dL: suspender. Entre 5 e 10: manter a dose fisiológica e repetir em semanas a meses. Abaixo de 5: manter e repetir em alguns meses. Um ano sem recuperar, ou crise no caminho: endocrinologista.

Cortisol das 6 às 9 horas: o que o número manda fazer, e em qual paciente

PacienteCortisolACTHLeitura e condutaRégua
Suspeita de primária, sem corticoideAbaixo de 5 mcg/dLAcima de 2 vezes o limite superior, em geral acima de 100 pg/mLAltamente sugestivo: tratar; aldosterona e renina; tomografia do abdome superiorProtocolo federal de 2020, item 3.2.1
Suspeita de primária, sem corticoideDe 5 a 15 mcg/dL, bordas incluídasAcima de 100 pg/mL, com pele escurecida, hipercalemia e hiponatremiaMuito sugestivo mesmo na faixa intermediáriaProtocolo federal de 2020, item 3.2.1
Suspeita de primária, sem corticoideDe 5 a 15 mcg/dL, bordas incluídasNormal ou pouco elevadoTeste de estímulo; no Brasil, em geral o de hipoglicemia insulínicaProtocolo federal de 2020; bordas pelo texto (ver notas)
Suspeita de central por lesão, cirurgia ou radioterapia de hipófise ou hipotálamo3 mcg/dL ou menosBaixo ou normalCentral confirmada: glicocorticoide sem fludrocortisona; ressonância e outros eixos hipofisáriosProtocolo federal de 2020, item 3.2.2
Suspeita de central, sem corticoideAcima de 3 e até 15 mcg/dLNormalTeste de estímuloProtocolo federal de 2020; borda de 15 pelo texto (ver notas)
Qualquer suspeita, sem corticoideAcima de 15 mcg/dLNormalPouco provávelProtocolo federal de 2020
Retirada de corticoide, já na dose fisiológica, com 24 horas sem a dose e coleta às 8–9 horasAcima de 10 mcg/dLNão é necessárioEixo recuperado: suspender o glicocorticoideDiretriz de 2024, R2.7, adotada por escopo (ver divergências)
Retirada de corticoide, nas mesmas condiçõesDe 5 a 10 mcg/dLNão é necessárioManter a dose fisiológica e repetir em semanas a meses, com as regras de estresseDiretriz de 2024, R2.7
Retirada de corticoide, nas mesmas condiçõesAbaixo de 5 mcg/dLNão é necessárioManter e repetir em alguns meses; sem recuperação em um ano, endocrinologistaDiretriz de 2024, R2.7 e R2.11
Crise ou doente graveNão se interpreta antes de tratarColher junto, se não atrasarHidrocortisona sem esperar; a amostra serve para depoisDiretriz de 2016, R1.3; protocolo de 2020, item 6.3

Miligrama, frasco, comprimido e mililitro: o elenco do capítulo num adulto de 60 kg

Medicamento e apresentação (Rename 2024, componente)Dose que o capítulo usaEm frascos, comprimidos ou mLEquivalência em hidrocortisonaObservação
Succinato sódico de hidrocortisona 100 mg, pó para solução injetável (Básico)Crise, cirurgia, parto, vômito em casa: 100 mg IV em bolus, ou IM1 frasco-ampola; bolus de cerca de 30 segundosÉ a própria hidrocortisonaO volume do diluente varia com o fabricante: prescreva em mg e conte em frascos, não em mL
Succinato sódico de hidrocortisona 100 mg (Básico)Manutenção da crise: 50 mg IV a cada 6 horas, 200 mg/diaMeio frasco por dose; 2 frascos por dia200 mg/dia equivalem a 50 mg/dia de prednisonaReconstituída, a solução vale 24 horas em temperatura ambiente e 3 dias refrigerada, pela bula
Succinato sódico de hidrocortisona 500 mg (Básico)Não é a apresentação do bolus1 frasco = 10 doses de 50 mg ou 5 de 100 mgNão se aplicaRefrigerado depois de reconstituído, cobre 2,5 dias de manutenção de 200 mg/dia, dentro dos 3 dias de estabilidade
Prednisona 5 mg, comprimido (Básico e Estratégico)Reposição: 5 a 7,5 mg/dia na primária, 2,5 a 5 mg/dia na central1 a 1,5 comprimido; 2,5 mg = meio comprimido5 mg = 20 mg; 7,5 mg = 30 mgDia doente pelo protocolo: pelo menos dobrar, 2 a 3 comprimidos
Prednisona 20 mg, comprimido (Básico e Estratégico)Início do desmame de doses altas1 comprimido = 20 mg20 mg = 80 mgA dose fisiológica é de 4 a 6 mg/dia de prednisona; acima disso, o eixo pode ser suprimido
Fosfato sódico de prednisolona 1 mg/mL, solução oral (Básico)Degraus de 1 mg no fim do desmame1 mg = 1 mL; 5 mg = 5 mL5 mg = 20 mgPermite o degrau de 1 mg que o comprimido de 5 mg não permite
Fosfato sódico de prednisolona 3 mg/mL, solução oral (Básico)Reposição de 5 a 7,5 mg/dia5 mg = 1,7 mL; 7,5 mg = 2,5 mL5 mg = 20 mgChega ativa, sem depender da conversão hepática da prednisona
Acetato de fludrocortisona 0,1 mg, comprimido (Especializado)Só na primária: 0,1 mg/dia, com variação de 0,05 a 0,4 mg1 comprimido; 0,05 mg = meio comprimidoNão substitui o glicocorticoideLaudo do Componente Especializado, CID E27.1 ou E27.4; não se usa na insuficiência causada por corticoide
Dexametasona 4 mg, comprimido, e 4 mg/mL, injetável (Básico)Não é reposição1 comprimido ou 1 mL = 4 mg4 mg = 160 mgO protocolo não a preconiza na reposição; a diretriz de 2024 manda trocá-la por corticoide de ação curta quando o efeito longo deixa de ser necessário
Cloreto de sódio 0,9%, solução injetável (Básico)Crise no adulto: 1.000 mL na primeira hora, depois conforme a resposta1.000 mL = 154 mEq de sódioNão se aplica0,154 mEq/mL, pela Rename; vigiar a velocidade de subida do sódio
Glicose 50% (500 mg/mL), solução injetável (Básico)Hipoglicemia da criseDose e diluição em Hipoglicemia no não-diabético e manejo da hipoglicemia graveNão se aplicaA glicose corrige o número; a hidrocortisona corrige a causa

Dose de estresse, situação por situação

SituaçãoO que fazerViaDe onde vem a régua
Febre de 38,5 °C ou mais, sem vômitoPelo menos dobrar a dose diária até a recuperação, em geral 2 a 3 dias; triplicar com 39 °C ou mais, o que cabe no pelo menos dobrar do protocoloOralLimiar do protocolo de 2020, que esta apostila adota; duração e triplicação da diretriz de 2016
Doença que obriga a ficar de cama ou que exige antibióticoDobrar a dose oral enquanto durarOralDiretriz de 2016, primeira regra do dia doente; o protocolo não trata dessas situações
Insuficiência causada por corticoide, doença fora do hospital com febre, antibiótico ou repousoPrednisona abaixo de 10 mg sobe para 10 mg/dia por 2 a 5 dias; quem já toma 10 mg ou mais não aumenta sem instabilidadeOralDiretriz de 2024, tabela de estresse, adotada por escopo
Gastroenterite com desidratação, retendo o comprimidoDobrar a dose e aumentar os líquidos com sal; vomitou a dose, passa à linha seguinteOralProtocolo de 2020; diretriz de 2016
Vômito ou diarreia persistentes, ou impossibilidade de tomar o comprimidoHidrocortisona 100 mg IM imediatamente e ida ao hospital; pode ser repetida em 6 horasIMDiretrizes de 2016 e 2024; o protocolo não fixa essa regra
Procedimento pequeno com anestesia local, extração dentáriaPrimária e central: dobrar a dose oral no dia, uma hora antes do procedimento. Induzida por corticoide: prednisona abaixo de 10 mg sobe para 10 mg uma hora antes; com 10 mg ou mais, não aumentaOralDiretriz de 2016, primeira regra; diretriz de 2024, tabela de estresse, para a induzida
Preparo de colonoscopia ou jejum para procedimento sem anestesia geralPrimária: hidrocortisona injetável, pela segunda regra da diretriz de 2016. Induzida por corticoide: manter a dose habitual e passar à equivalente IV se o jejum se prolongar, pela diretriz de 2024IM ou IV; oral na induzidaCada diretriz no paciente para o qual foi escrita
Cirurgia com anestesia geral ou regional, trauma grave, doença que interna, terapia intensivaHidrocortisona 100 mg IV na indução ou na chegada e 200 mg em 24 horas, em infusão ou 50 mg a cada 6 horas; sem jejum prolongado, dose oral dobrada por 48 horas e depois a dose prévia; em jejum, 200 mg/24 h enquanto durarIVDiretrizes de 2016 e 2024 e item 6.5 do protocolo (ver divergências e notas)
Trabalho de parto e cesáreaHidrocortisona 100 mg IV no início do trabalho de parto e 200 mg em 24 horasIVDiretrizes de 2016 e 2024; o protocolo prevê 200 a 300 mg/dia na indução do parto
Estresse emocional e exercício habitualPrimária e central: não aumentar. Induzida por corticoide: estresse emocional intenso, como o luto, pede prednisona de 10 mg por 2 a 5 diasOralProtocolo de 2020 para primária e central; diretriz de 2024 para a induzida, por escopo
Crise adrenal do adultoHidrocortisona 100 mg IV imediata e 200 mg em 24 horas; soro fisiológico 1.000 mL na primeira hora; 100 mg/dia no dia seguinte, se houver melhoraIVDiretriz de 2016; protocolo de 2020
Crise adrenal da criançaAtaque de 20 mg IV no recém-nascido, 50 mg no lactente e no pré-escolar, 100 mg no escolar e no adolescente; manutenção de 60 a 100 mg/m²/dia dividida, sem passar dos 200 mg/dia do adultoIVProtocolo de 2020, item 6.5, com a manutenção corrigida (ver notas); diretriz de 2016

Retirar o corticoide crônico: as decisões em ordem

MomentoPergunta que decideCondutaRégua
Fim de um cicloUsou por menos de 3 a 4 semanas?Suspender sem desmame e sem teste, qualquer que tenha sido a doseDiretriz de 2024, R2.1
Antes de começar a descerA doença de base está controlada e o corticoide deixou de ser necessário?Só então desmamar; se não, a pergunta ainda não é de retiradaDiretriz de 2024, R2.2
Corticoide de ação longaEstá em dexametasona ou betametasona?Trocar por prednisona ou hidrocortisona quando o efeito longo não for mais necessárioDiretriz de 2024, R2.5
Descida até a dose fisiológicaEm que faixa de prednisona está o paciente?Acima de 40 mg: cortar 5 a 10 mg por semana. De 20 a 40 mg: 5 mg por semana. De 10 a 20 mg: 2,5 mg a cada 1 a 4 semanas. De 5 a 10 mg: 1 mg a cada 1 a 4 semanasDiretriz de 2024, tabela de desmame
Sintomas durante a descidaÉ síndrome de retirada, insuficiência ou a doença de base voltando?Retirada: voltar à última dose tolerada e alongar. Insuficiência: não descer e tratar. Doença de base: devolver ao especialista que prescreveuDiretriz de 2024, R2.3 e tabela de sinais
Chegou a 4 a 6 mg de prednisonaSeguir descendo ou dosar o cortisol?Descer 1 mg a cada 4 semanas com vigilância clínica, ou cortisol às 8–9 horas com 24 horas sem a doseDiretriz de 2024, R2.6 e tabela de desmame
Resultado do cortisol matinalAcima de 10, entre 5 e 10 ou abaixo de 5 mcg/dL?Acima de 10: suspender. De 5 a 10: manter e repetir em semanas a meses. Abaixo de 5: manter e repetir em alguns mesesDiretriz de 2024, R2.7, adotada contra o corte de 15 do protocolo (ver divergências)
Um ano depoisO eixo não voltou na dose fisiológica, ou houve crise no caminho?Encaminhar ao endocrinologistaDiretriz de 2024, R2.11
Durante todo o caminhoAdoeceu, vai operar ou vomitou?Regras de estresse até a recuperação confirmada; nunca fludrocortisona nessa formaDiretriz de 2024, R3.1 e R2.12

Hipercalemia escrita como hipercalcemia. No item 3.2.1, o protocolo federal de 2020 diz que aldosterona abaixo de 3 ng/dL com renina elevada é hipoaldosteronismo e que esses pacientes podem apresentar hiponatremia e hipercalcemia. A falta de aldosterona faz o rim reter potássio — dá hipercalemia —, e o item 3.1 do mesmo documento afirma que a hipercalemia só ocorre na primária, por deficiência de mineralocorticoide. O resumo de Santa Catarina, que transcreve os critérios do protocolo, lê a passagem como potássio elevado. Quem segue a frase ao pé da letra procura o cálcio para documentar a falta de aldosterona e deixa de valorizar o potássio, que é o eletrólito que separa a primária da central e o que se acompanha depois que a fludrocortisona começa.

Cortes de cortisol com borda em duas classes. Texto do item 3.2.1, na primária: abaixo de 5 mcg/dL com ACTH acima de duas vezes o limite, altamente sugestivo; entre 5 e 15, teste de estímulo; acima de 15 com ACTH normal, pouco provável. Figura 1: menor ou igual a 5 com ACTH acima de 100 pg/mL, diagnóstico muito provável; maior ou igual a 15 com ACTH normal, pouco provável; e o ramo do teste exige, além do cortisol entre 5 e 15, sulfato de desidroepiandrosterona baixo. Conta: cortisol de 5,0 mcg/dL com ACTH de 150 pg/mL fecha o diagnóstico pela figura e vai ao teste pelo texto; 15,0 com ACTH normal encerra pela figura e vai ao teste pelo texto; 8,0 com sulfato de desidroepiandrosterona normal não tem ramo na figura. Na central, o 15,0 repete o conflito entre o texto e a Figura 2. Como o teste disponível é o de hipoglicemia insulínica, com contraindicações reais, a borda decide quem é submetido a ele. Esta apostila adota o texto.

Dose de estresse do protocolo em duas grandezas. O item 6.1 manda pelo menos dobrar a dose habitual em síndrome febril, gastroenterite com desidratação, parto normal ou cesárea, cirurgia com anestesia geral e grande trauma; o item 6.5 do mesmo documento prescreve hidrocortisona 200 mg/dia, em 50 mg IV a cada 6 horas, em estresse ou crise no adulto, e 200 a 300 mg/dia na indução do parto. Conta, com 5 mg de prednisona equivalendo a 20 mg de hidrocortisona: a dose habitual de 5 mg dobrada dá 10 mg, ou 40 mg de hidrocortisona — 5 vezes menos que 200 mg e 7,5 vezes menos que 300 mg; a de 7,5 mg dobrada dá 15 mg, ou 60 mg — 3,3 e 5 vezes menos. E quem está em jejum para a anestesia não absorve comprimido. As diretrizes de 2016 e de 2024 dão 100 mg IV na indução e 200 mg em 24 horas. Esta apostila reserva o dobrar ao estresse menor com via oral preservada e aplica o item 6.5 e as diretrizes à cirurgia, ao parto e ao trauma.

Manutenção da crise sem distinção de idade. No item 6.5, o protocolo gradua a dose de ataque da crise addisoniana — 20 mg IV no recém-nascido, 50 mg no lactente e no pré-escolar, 100 mg no escolar, no adolescente e no adulto — e escreve logo abaixo, sem idade, manutenção de 50 mg IV a cada 6 horas; o mesmo item dá à criança em estresse ou crise 60 a 100 mg/m²/dia. Conta pela fórmula de Mosteller: recém-nascido de 3,5 kg e 50 cm tem 0,22 m², o que dá 13 a 22 mg/dia, contra 200 mg/dia pela linha de manutenção — 9 a 15 vezes mais; pré-escolar de 15 kg e 100 cm tem 0,65 m², o que dá 39 a 65 mg/dia — 3 a 5 vezes mais. A diretriz de 2016 dá à criança 50 a 100 mg/m² em bolus e 50 a 100 mg/m²/dia divididos a cada 6 horas. Esta apostila usa o ataque graduado do protocolo e, na criança, a manutenção por superfície corporal do mesmo item, sem passar dos 200 mg/dia do adulto.

Portaria revogada citada como base. O formulário do Componente Especializado de Pernambuco para a doença de Addison, revisão 3, de 23 de maio de 2022, com próxima revisão prevista para maio de 2024 e ainda disponível no portal da farmácia estadual, cita a Portaria SAS/MS nº 1.170, de 19 de novembro de 2015, que o art. 5º da Portaria Conjunta nº 20, de 24 de novembro de 2020, revogou. O protocolo de 2015 tratava só da forma primária; o de 2020 incluiu a secundária e a terciária e é o que está em vigor. Para a fludrocortisona, que só serve à primária, os códigos do formulário, E27.1 e E27.4, coincidem com os do resumo de Santa Catarina, que já cita a portaria de 2020 — mas quem for à norma pelo formulário vai ler a revogada.

Faixas de desmame que dividem as bordas. A tabela de desmame da diretriz de 2024 organiza a descida por dose atual de prednisona em faixas de 20 a 40 mg, de 10 a 20 mg e de 5 a 10 mg, e as bordas de 20 e de 10 mg pertencem a duas faixas ao mesmo tempo. Conta: a 10 mg exatos, o degrau seguinte é de 2,5 mg a cada 1 a 4 semanas pela faixa de cima e de 1 mg a cada 1 a 4 semanas pela de baixo — 2,5 vezes maior por uma leitura que pela outra; a 20 mg, é de 5 mg por semana ou de 2,5 mg a cada 1 a 4 semanas, com o dobro do tamanho e até quatro vezes a velocidade. Esta apostila aplica a borda à faixa de cima, o que casa com o comprimido de 5 mg do SUS a 10 mg (7,5 mg é um comprimido e meio), e passa aos degraus de 1 mg, com a prednisolona de 1 mg/mL, assim que a dose entra na faixa de 5 a 10 mg.

08

A conduta, hora a hora

A conduta tem duas metades que se encaixam: a da madrugada, em que a hidrocortisona entra antes de qualquer certeza, e a dos meses seguintes, em que cada decisão depende de saber que insuficiência é aquela. Os marcos seguem dona Evangelina da maca 4 até o dia em que a prednisona sai de vez, e anotam onde a prescrição da forma primária seria outra.

A dose da madrugada é a do protocolo federal e das duas diretrizes: 100 mg de hidrocortisona intravenosa e 200 mg nas 24 horas seguintes. A bula do succinato sódico permite de 100 a 500 mg repetidos a cada 2, 4 ou 6 horas, e há serviços que repetem os 100 mg a cada 6 horas; esta apostila adota os 200 mg por dia, pelo escopo — o protocolo e as diretrizes foram escritos para a insuficiência adrenal, e a bula, para todas as indicações do fármaco.

A segunda metade tem uma fronteira a declarar. A cobertura de corticoide na cirurgia de quem usa corticoide não tem dono em Avaliação pré-operatória e estratificação de risco cirúrgico, que registra o corticoide crônico apenas como fator de risco de complicação pulmonar; este capítulo assume a dose de estresse perioperatória e a do parto, e o último marco é delas. A velocidade do desmame, por outro lado, é também uma decisão sobre a doença de base e fica com quem a trata: o que este capítulo ensina é como descer sem provocar a crise.

  1. Minuto 0 — a suspeita, antes de qualquer resultado

    Onze meses de prednisona interrompida, vômito, dor abdominal, sonolência, hiponatremia, hipoglicemia e um choque que não obedece ao volume: a hipótese de crise adrenal já basta para agir, e ela não compete com a sepse — as duas podem estar presentes, e as duas são tratadas ao mesmo tempo. O primeiro gesto é aproveitar a punção: o sangue da investigação sai antes de qualquer corticoide, com a hora anotada, porque depois da hidrocortisona o cortisol dosado será o do frasco. Nada do que se colhe aqui será esperado.

    Prescrição
    • Cortisol sérico e ACTH plasmático (tubo com EDTA, no gelo) na mesma punção, antes de qualquer corticoide, com a hora da coleta anotada. Colher apenas se a amostra puder ser obtida imediatamente; dificuldade de coleta não atrasa hidrocortisona e suporte.
    • Sódio, potássio, ureia, creatinina, glicemia, gasometria venosa com lactato e hemograma.
    • Hemoculturas e exames do foco provável antes do antimicrobiano, mantida a suspeita de infecção.
    • Monitor cardíaco, oximetria contínua e pressão arterial a cada 15 minutos.
    • Glicemia capilar agora e a cada hora enquanto não se alimentar.
  2. Minutos 5 a 60 — hidrocortisona, soro e glicose

    A hidrocortisona entra em bolus logo depois da coleta: 100 mg por via intravenosa, em cerca de 30 segundos, como a bula orienta; sem veia, a mesma dose vai por via intramuscular, e o acesso é resolvido depois. O volume segue a diretriz de 2016 — mil mililitros de solução isotônica na primeira hora e depois conforme a resposta —, reavaliando ausculta pulmonar e saturação a cada etapa, porque é uma idosa que já recebeu litro e meio. A noradrenalina continua pela meta do plantão e é reduzida à medida que a pressão passa a responder. A glicose da hipoglicemia vem na dose de Hipoglicemia no não-diabético e manejo da hipoglicemia grave, e o antimicrobiano, se a suspeita de infecção bacteriana grave se mantiver, pela régua de Sepse e choque séptico: identificação precoce e pacotes iniciais. Fludrocortisona não entra: a hidrocortisona em dose de crise já tem efeito mineralocorticoide.

    Prescrição
    • Succinato sódico de hidrocortisona 100 mg IV em bolus de cerca de 30 segundos (1 frasco-ampola de 100 mg); IM se não houver acesso.
    • Soro fisiológico 0,9% 1.000 mL IV na primeira hora e depois conforme a resposta, com reavaliação a cada etapa.
    • Glicose IV se glicemia baixa, na dose de Hipoglicemia no não-diabético e manejo da hipoglicemia grave.
    • Noradrenalina mantida pela meta do plantão, reduzida à medida que a pressão responde.
    • Antimicrobiano pela régua de Sepse e choque séptico, se a suspeita de infecção bacteriana grave se mantiver.
    • Sem fludrocortisona.
  3. Horas 1 a 24 — manter a cobertura e caçar o gatilho

    A hidrocortisona continua a 200 mg por dia, em 50 mg a cada 6 horas ou em infusão contínua, e a prednisona oral fica suspensa enquanto durar: a hidrocortisona já é a cobertura. Os eletrólitos são repetidos cedo, porque dois riscos aparecem nas primeiras horas. O sódio de 127 mmol/L pode subir mais do que o permitido quando o cortisol volta e o rim despeja a água retida, e o limite e as medidas de freio são os de Distúrbios do sódio no internado: hiponatremia. Na primária, o potássio alto costuma cair com hidrocortisona e soro; com repercussão no eletrocardiograma, o tratamento é o de Potássio: hipo e hipercalemia na enfermaria. O gatilho de dona Evangelina é a gastroenterite, e ela recebe o cuidado de qualquer gastroenterite com desidratação; num paciente sem gatilho evidente, a procura por infecção é ativa.

    Prescrição
    • Succinato sódico de hidrocortisona 50 mg IV a cada 6 horas (200 mg/dia; meio frasco de 100 mg por dose), ou 200 mg em infusão contínua de 24 horas.
    • Sódio, potássio, glicemia e creatinina 4 a 6 horas depois da chegada e a cada 6 a 8 horas no primeiro dia.
    • Limite de subida do sódio pela régua de Distúrbios do sódio no internado: hiponatremia.
    • Antiemético, hidratação guiada por diurese e pressão, e dieta assim que tolerar.
    • Prednisona oral suspensa enquanto durar a hidrocortisona intravenosa.
  4. Dias 2 e 3 — descer a dose e voltar à boca

    Sem noradrenalina desde a madrugada, com glicemia estável e aceitando a dieta, dona Evangelina desce para 100 mg de hidrocortisona no segundo dia, como a diretriz de 2016 faz. No terceiro, comendo e sem vômito, volta ao comprimido: a gastroenterite ainda está terminando, e o protocolo manda pelo menos dobrar a dose habitual nessa situação, o que a diretriz de 2024 também faz na saída de um estresse maior — dose aumentada por 48 horas e depois a dose prévia. Na forma primária, a transição seria outra: prednisona de reposição e, junto com ela, a fludrocortisona, que o protocolo manda iniciar quando a reposição passa para a via oral.

    Prescrição
    • Dia 2: succinato sódico de hidrocortisona 25 mg IV a cada 6 horas (100 mg/dia), se a pressão se manteve sem vasopressor e a glicemia está estável.
    • Dia 3, comendo e sem vômito: prednisona 20 mg VO pela manhã (1 comprimido de 20 mg) por 48 horas, e então de volta aos 10 mg/dia.
    • Na primária, ao passar para a via oral: prednisona 5 mg/dia e acetato de fludrocortisona 0,1 mg/dia.
    • Sódio e potássio diários enquanto internada; pressão deitada e em pé antes da alta.
  5. Antes da alta — que insuficiência é esta, e qual a dose de todo dia

    O cortisol colhido na admissão volta em 1,8 mcg/dL, com ACTH no limite inferior da referência. O resultado não muda nada do que foi feito e confirma o que a história já dizia: insuficiência induzida pelo corticoide, central, sem pele escurecida e com potássio normal. Não há fludrocortisona a prescrever — a diretriz de 2024 recomenda contra nessa forma —, nem imagem a pedir. A dose de todo dia é a que tratava a polimialgia, 10 mg, e a pergunta sobre retirá-la é da reumatologista, que precisa saber da crise. Para comparação: a primária recebe prednisona de 5 a 7,5 mg por dia com fludrocortisona 0,1 mg, esta pelo Componente Especializado, com laudo e CID E27.1 ou E27.4; a central por lesão de hipófise recebe prednisona de 2,5 a 5 mg, sem fludrocortisona, e encaminhamento para a investigação da lesão.

    Prescrição
    • Prednisona 10 mg VO pela manhã, todos os dias, sem pausa, até decisão da reumatologista.
    • Sem fludrocortisona: insuficiência induzida por corticoide.
    • Resumo de alta para a reumatologista com a data da crise, o gatilho, a dose atual e o pedido de plano de retirada quando a doença permitir.
    • Cálcio e vitamina D mantidos; a avaliação do osso de quem usa corticoide há quase um ano segue Osteoporose e metabolismo ósseo.
    • Registrar cortisol e ACTH da admissão, horário e relação com última dose de corticoide. Interpretar com doença crítica, método e exposição a glicocorticoides; o par de resultados isolado nem sempre define a origem da insuficiência.
  6. Na alta — as regras de estresse, o cartão e o frasco

    A alta é o marco que previne a próxima crise, e ela não cabe numa frase dita na porta. O protocolo pede identificação — pulseira, corrente ou cartão com a condição e os contatos de emergência — e educação sobre os sintomas de descompensação; a diretriz de 2016 organiza a educação em duas regras e num kit de injeção. Dona Evangelina tem insuficiência causada por corticoide e toma 10 mg, e por isso a primeira regra dela é a da diretriz de 2024: com 10 mg ou mais, doença leve fora do hospital não pede aumento; quando a dose estiver abaixo de 10 mg, sobe para 10 mg por 2 a 5 dias. A segunda regra vale para qualquer forma: vômito que não deixa o comprimido ficar é injeção e hospital. A hidrocortisona injetável está no Componente Básico da Rename; se a farmácia do município não dispensar o frasco para casa, ele é prescrito para compra, e o treino da filha acontece antes da alta, com um frasco de verdade.

    Prescrição
    • Regra 1, por escrito: enquanto tomar 10 mg ou mais, doença leve não pede aumento; abaixo de 10 mg, febre, antibiótico ou repouso no leito pedem prednisona de 10 mg por 2 a 5 dias.
    • Regra 2, por escrito: vomitou a dose, diarreia persistente, trauma ou desmaio — hidrocortisona 100 mg IM na coxa e ir ao pronto-socorro.
    • Receita de 1 frasco-ampola de succinato sódico de hidrocortisona 100 mg, seringa e agulha intramuscular, com a filha treinada antes da alta.
    • Cartão de identificação com o diagnóstico, a dose diária, a dose de emergência e o telefone de contato; pulseira ou corrente, se possível.
    • Nunca suspender a prednisona por conta própria; se faltar o remédio, procurar a unidade no mesmo dia.
  7. Meses depois — retirar a prednisona sem trazer a crise de volta

    Cinco meses depois, a reumatologista considera a polimialgia controlada e decide retirar. O desmame segue a tabela da diretriz de 2024 e a velocidade da doença de base. A 10 mg exatos, a tabela põe o valor em duas faixas — degraus de 2,5 mg na de 10 a 20 mg, de 1 mg na de 5 a 10 mg —; esta apostila usa o degrau de 2,5 mg para chegar a 7,5 mg, por caber no comprimido de 5 mg do SUS, e o de 1 mg daí para baixo, com a prednisolona em solução de 1 mg/mL, que permite o degrau que o comprimido não permite. Cansaço, dor difusa e insônia na descida pedem a distinção da seção de apresentação: síndrome de retirada, que volta à última dose tolerada; insuficiência, com hipotensão, perda de peso e sódio baixo, que não desce; ou polimialgia de volta, que é da reumatologista. Chegando a 5 mg, abrem-se dois caminhos equivalentes: seguir descendo 1 mg a cada 4 semanas com vigilância, ou dosar o cortisol matinal.

    Prescrição
    • De 10 mg para 7,5 mg/dia (1 comprimido e meio de 5 mg), se a polimialgia seguir controlada.
    • De 7,5 mg para baixo: trocar para prednisolona 1 mg/mL e descer 1 mL (1 mg) a cada 1 a 4 semanas até 5 mL (5 mg/dia).
    • Em 5 mg, se optar por seguir descendo: 1 mg a menos a cada 4 semanas, com vigilância clínica.
    • Em 5 mg, se optar pelo teste: cortisol sérico às 8–9 horas, com a última dose tomada há pelo menos 24 horas.
    • Cortisol acima de 10 mcg/dL: suspender; de 5 a 10: manter 5 mg e repetir em semanas a meses; abaixo de 5: manter e repetir em alguns meses.
    • Regras de estresse e frasco de emergência mantidos até a recuperação confirmada; um ano sem recuperar, endocrinologista.
  8. Toda vez que operar, parir ou internar — até o eixo voltar

    A diretriz de 2024 manda cobrir com dose de estresse todo paciente com uso atual ou recente de corticoide que não tenha tido a insuficiência afastada por exame, e usar a via parenteral em cirurgia com anestesia geral ou regional, em estresse moderado a grave, em jejum prolongado e em vômito ou diarreia. Se dona Evangelina fraturar o fêmur no meio do desmame, a prescrição é a mesma que valeria para a doença de Addison: hidrocortisona na indução e nas 24 horas seguintes, e a volta ao comprimido em dose dobrada por dois dias quando voltar a comer. O protocolo pede o mesmo na indução do parto, com 200 a 300 mg por dia. O que mais falha aqui não é a dose — é a informação: o corticoide precisa estar escrito na avaliação pré-operatória, na folha da anestesia e na prescrição do pós-operatório, porque é no jejum da primeira noite que a crise volta.

    Prescrição
    • Na indução anestésica: succinato sódico de hidrocortisona 100 mg IV.
    • Nas 24 horas seguintes: 200 mg em infusão contínua ou 50 mg IV a cada 6 horas.
    • Sem jejum prolongado: prednisona oral no dobro da dose habitual por 48 horas e depois a dose prévia.
    • Em jejum prolongado: hidrocortisona 200 mg/24 h enquanto durar.
    • Trabalho de parto: hidrocortisona 100 mg IV no início e 200 mg em 24 horas.
    • Registro na avaliação pré-operatória e na folha de anestesia: corticoide, dose, tempo de uso e plano de cobertura.
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Como saber se está funcionando

Sete parâmetros dizem se a crise está cedendo e se a transição está segura, e eles mudam de natureza ao longo do caminho: nas primeiras horas, pressão, glicemia e eletrólitos; a partir do segundo dia, a dose e a via do glicocorticoide; depois da alta, os sinais de falta e de excesso que o protocolo manda procurar em cada consulta.

O ponto que mais engana é o de partida. Melhora depois da hidrocortisona não prova insuficiência adrenal — a sepse também melhora com volume e antimicrobiano —, e piora depois dela não a afasta, porque o gatilho pode ser grave por si. A reavaliação serve para ajustar o tratamento; a forma da insuficiência se fecha pela história e pelo cortisol e pelo ACTH colhidos antes da primeira dose.

Pressão arterial e perfusãoA cada 15 minutos na primeira hora e a cada hora nas primeiras 24 horas

Esperado: Pressão que passa a responder ao volume, noradrenalina em redução, extremidades aquecendo e diurese voltando

Se não melhora: Confirme que a hidrocortisona foi de fato administrada e na dose certa. Depois reabra o diagnóstico do choque — sangramento, foco infeccioso não controlado, causa cardíaca ou mecânica, hemorragia adrenal no anticoagulado — pela régua de Hipotensão na enfermaria e de Diferenciar os tipos de choque; aumentar a hidrocortisona não substitui essa busca.

Glicemia capilarNa chegada, a cada hora enquanto não se alimenta e antes das refeições depois

Esperado: Glicemia sustentada no alvo de Hipoglicemia no não-diabético e manejo da hipoglicemia grave, sem nova necessidade de glicose depois da hidrocortisona

Se não melhora: Repita a glicose pela régua daquele capítulo, confira se a hidrocortisona está sendo feita a cada 6 horas e procure outra causa de hipoglicemia, como sepse grave, insuficiência hepática ou fármaco.

SódioNa chegada, 4 a 6 horas depois e a cada 6 a 8 horas no primeiro dia; diário até a alta

Esperado: Subida progressiva, dentro do limite de Distúrbios do sódio no internado: hiponatremia

Se não melhora: Subida acima do limite: medidas de freio daquele capítulo, sem suspender a hidrocortisona. Sódio que não sobe: reveja volume e hidratação e, na primária, a fludrocortisona quando a via oral começar.

Potássio e eletrocardiogramaNa chegada e junto com cada sódio; eletrocardiograma se o potássio estiver alto

Esperado: Na primária, queda do potássio com hidrocortisona e soro; na induzida por corticoide, potássio que já era normal e continua normal

Se não melhora: Hipercalemia com alteração no eletrocardiograma: tratamento de Potássio: hipo e hipercalemia na enfermaria. Potássio que cai abaixo do normal depois do início da fludrocortisona: revisar a dose dela.

Vômito, dor abdominal e consciênciaA cada avaliação médica e de enfermagem

Esperado: Consciência clara, dor abdominal cedendo e vômito que para a ponto de permitir dieta e comprimido

Se não melhora: Mantenha a via intravenosa. Dor abdominal que persiste ou se localiza com o choque controlado deixa de ser atribuível à adrenal e pede avaliação do abdome; consciência que não melhora pede glicemia, sódio e busca de outra causa.

Dose e via do glicocorticoideDiariamente, a partir do segundo dia

Esperado: Descida para 100 mg/dia de hidrocortisona no dia seguinte e passagem para a via oral quando o paciente come, sem retorno de hipotensão, hipoglicemia ou vômito

Se não melhora: Piora na descida: volte à dose anterior por mais 24 horas e procure o gatilho que ainda não foi controlado. Paciente que não come: hidrocortisona intravenosa mantida, sem pressa de converter.

Seguimento: sinais de falta e de excessoEm cada consulta — pelo protocolo, com endocrinologista a cada 2 a 6 meses, e sódio, potássio e creatinina a cada 6 meses no primeiro ano e anuais depois

Esperado: Sem hipotensão postural, sonolência ou perda de peso, que indicam falta; sem giba, estrias violáceas, face em lua cheia, fragilidade capilar, fraqueza proximal ou hipertensão, que indicam excesso; na primária, sódio e potássio normais, renina não suprimida e pressão normal

Se não melhora: Falta: rever adesão, regras de estresse e dose. Excesso: descer à menor dose que controle os sintomas. Renina suprimida ou hipertensão na primária: reduzir a fludrocortisona. Não ajuste a reposição pelo cortisol nem pelo ACTH — o protocolo e a diretriz de 2016 são explícitos nisso.

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Onde o erro machuca

Esperar o cortisol para dar a hidrocortisona

O dano: Horas de choque sem tratamento num quadro que a diretriz de 2016 manda tratar antes do resultado. O laboratório que só libera cortisol de manhã transforma a madrugada inteira em espera, e a crise não espera junto.

Como pegar a tempo: Colha na mesma punção e prescreva a hidrocortisona em seguida. Escreva a hora da coleta e a da dose, e deixe o resultado para confirmar a forma da insuficiência depois.

Dar a hidrocortisona antes de colher

O dano: O cortisol dosado passa a ser o do frasco. Um valor alto colhido depois da dose pode ser lido como adrenal normal, e a chance de documentar a doença se perde justamente no dia em que ela se manifestou.

Como pegar a tempo: Os dois minutos da coleta cabem antes do bolus em quase todo paciente. Quando não couberem, a hidrocortisona vai assim mesmo, e a investigação fica para quando a reposição puder ser ajustada com orientação especializada.

Suspender o corticoide crônico no jejum, na internação ou na cirurgia

O dano: É o gatilho mais evitável de crise: o paciente em dieta zero deixa de receber o comprimido, ninguém prescreve a equivalência intravenosa, e a hipotensão da primeira noite vira investigação de sepse.

Como pegar a tempo: Toda prescrição de internação e toda avaliação pré-operatória perguntam pelo corticoide em qualquer forma. Jejum não suspende corticoide, muda a via; cirurgia com anestesia geral ou regional pede hidrocortisona 100 mg na indução e 200 mg em 24 horas.

Dobrar o comprimido de quem está vomitando

O dano: O comprimido dobrado sai no vômito seguinte, e o paciente fica sem glicocorticoide nenhum no momento em que mais precisa dele. É assim que a gastroenterite vira crise dentro de casa.

Como pegar a tempo: Vômito que não deixa o comprimido ficar é a segunda regra: hidrocortisona 100 mg IM e hospital. Frasco, seringa e agulha em casa, e alguém da família treinado antes da alta.

Tratar a tireoide antes da adrenal

O dano: O hormônio estimulante da tireoide alto de uma insuficiência primária não tratada leva à prescrição de levotiroxina, e o hormônio tireoidiano acelera a depuração de um cortisol que já falta. Hipotireoidismo e rastreamento tireoidiano chama essa sequência de ordem errada.

Como pegar a tempo: Pele escurecida, hiponatremia, hipotensão postural ou hipercalemia junto com o hormônio estimulante da tireoide alto pedem cortisol e ACTH antes da levotiroxina. Confirmada ou fortemente suspeita a insuficiência, glicocorticoide primeiro, tireoide depois.

Testar o eixo em quem ainda toma dose alta, ou ler o cortisol sem as condições da coleta

O dano: Cortisol colhido em quem toma 20 mg de prednisona, à tarde, sob anticoncepcional combinado ou depois da dose do dia não informa nada, e leva tanto à suspensão precoce, com crise, quanto à reposição desnecessária por anos.

Como pegar a tempo: Não teste em dose suprafisiológica. Na retirada, teste em 4 a 6 mg de prednisona, com 24 horas sem a dose e coleta entre 8 e 9 horas. Anote ao lado do resultado a hora, o anticoncepcional, a gestação e a albumina baixa.

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O que dizer ao paciente e à família

A insuficiência adrenal é uma doença em que a conversa trata. A crise que não acontece é a que o paciente preveniu em casa, sozinho, com uma regra que alguém explicou direito — e o protocolo federal chama de extrema relevância a educação do paciente, o conhecimento dos sintomas de descompensação e a adesão ao tratamento.

As sete falas cobrem os momentos em que a palavra errada custa caro: dar o diagnóstico, explicar a quem usava corticoide por que não pode parar agora, ensinar as duas regras, treinar a injeção, combinar a cobertura com o cirurgião e o anestesista, responder a quem quer parar a prednisona de uma vez e dar alta a quem teve crise porque parou o remédio.

Dar o diagnóstico de doença de Addison ao paciente que chegou em crise, já estável

“O que o senhor teve não foi só a virose. As glândulas que ficam em cima dos rins pararam de fabricar dois hormônios de que o corpo não abre mão: um que segura a pressão e o açúcar do sangue, outro que segura o sal. É por isso que o senhor foi escurecendo, emagrecendo e sentindo tontura nos últimos meses, e é por isso que a virose derrubou o senhor desse jeito. A boa notícia é que esses hormônios existem em comprimido. O que precisa ficar claro é que o senhor vai tomar os dois todos os dias, e vai aprender o que fazer nos dias em que ficar doente.”

Não diga: Não diga “sua glândula está fraca, mas vai melhorar”. Na primária, o protocolo trata a reposição como para toda a vida, e a promessa de melhora é o que leva o paciente a parar o comprimido quando se sente bem.

Explicar à paciente com insuficiência causada por corticoide por que não pode parar a prednisona agora, e por que um dia poderá

“A senhora tomou a prednisona por muitos meses, e ela fez o trabalho que a sua glândula fazia. A glândula ficou quieta, como um músculo que ficou sem uso. Quando o remédio parou de repente, não havia ninguém para fazer o serviço, e foi isso que trouxe a senhora para cá. A glândula pode voltar a trabalhar, mas devagar, e o remédio vai sair do mesmo jeito: devagar, combinado com a reumatologista, com um exame no final. Até lá, nada de parar por conta própria, nem quando estiver se sentindo ótima.”

Não diga: Não trate o corticoide como vilão na frente dela. Ele tratava uma doença real, e o medo do remédio é exatamente o que faz o paciente suspendê-lo de novo.

Ensinar as duas regras do dia doente, com a família presente

“São duas regras, e eu vou deixar as duas escritas. A primeira: febre, doença que deixa a senhora de cama ou que precisa de antibiótico — siga a dose de doença que está neste papel e avise a unidade. A segunda é a mais importante: se vomitar o comprimido, se tiver uma diarreia que não para, se cair ou desmaiar, a injeção vai na coxa na hora, e depois vocês vão direto para o pronto-socorro com este cartão. A injeção não substitui o hospital; ela ganha o tempo até chegar lá.”

Não diga: Não resuma em “se passar mal, procure o médico”. A crise se instala em horas, e a família que não sabe qual situação pede injeção espera o dia amanhecer.

Treinar a filha a aplicar a hidrocortisona intramuscular antes da alta

“Este é o frasco que vai ficar em casa, guardado no armário, longe do calor, junto com esta seringa e esta agulha. Você coloca o líquido que vem junto dentro do pó, agita até dissolver tudo, puxa para a seringa e aplica aqui, na parte da frente e de fora da coxa. Agora faça você, com este frasco, enquanto eu olho. Depois de aplicar, liga para o serviço de emergência ou traz sua mãe para cá, e traz o frasco vazio, para a equipe saber a dose que ela já recebeu.”

Não diga: Não deixe o treino para o retorno nem para o folheto. Quem aplica pela primeira vez no dia da crise, sem nunca ter visto, trava; o treino com um frasco de verdade, ainda na enfermaria, faz parte da alta.

Combinar a cobertura com o cirurgião e o anestesista de um paciente em prednisona

“O seu Valdemiro toma prednisona 7,5 mg há dois anos e nunca teve a adrenal testada, então para mim o eixo dele está suprimido até prova em contrário. Deixei prescrito hidrocortisona 100 mg na indução e 50 mg a cada 6 horas nas primeiras 24 horas. Se ele voltar a comer no dia seguinte, a prednisona volta em dose dobrada por dois dias e depois a de sempre; se ficar em jejum, a hidrocortisona continua. Podemos deixar isso também na folha da anestesia?”

Não diga: Não escreva só “paciente usa corticoide” na avaliação pré-operatória. Informação sem conduta vira nota de rodapé, e é a dose da indução que acaba esquecida.

Responder ao paciente que quer parar a prednisona de uma vez porque leu que ela faz mal

“O senhor tem razão em querer tomar o mínimo possível: ela tem efeitos que a gente quer evitar, nos ossos, no açúcar, na pressão. Mas depois de tanto tempo, parar de uma vez é mais perigoso do que continuar mais algumas semanas, porque a glândula que ficou quieta não volta a funcionar no dia seguinte. A gente vai descer aos poucos, junto com o seu médico, e no fim vai medir se ela voltou. Parar de uma vez é o caminho mais curto para o pronto-socorro.”

Não diga: Não responda com “não pode parar nunca”. Na insuficiência causada por corticoide, a recuperação é possível e é o objetivo, e o paciente que ouve “nunca” para escondido.

A alta de quem teve crise por ter parado o remédio

“A senhora não fez nada de absurdo: vomitava tudo e achou que o remédio ia piorar o estômago. Muita gente pensaria a mesma coisa, e é por isso que agora a senhora e sua filha sabem algo que pouca gente sabe — quando vomitar, o remédio não para, ele muda de caminho e vira injeção. Este papel diz o que fazer, este frasco é para isso, e este cartão fica na bolsa.”

Não diga: Não repreenda (“a senhora nunca podia ter parado”). A culpa não ensina a regra, e a vergonha faz o paciente esconder a próxima suspensão.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

O cortisol matinal de quem retira corticoide: suspender acima de 10 mcg/dL ou mandar ao teste de estímulo até 15?

Acima de 10 mcg/dL, suspender; sem teste dinâmico de rotina — diretriz conjunta ESE e Endocrine Society, 2024

Escrita para quem usa ou retira glicocorticoide. Com a dose já na faixa fisiológica e 24 horas sem a dose, o cortisol entre 8 e 9 horas é lido como um contínuo: acima de 10 mcg/dL indica recuperação, e o corticoide pode ser suspenso; entre 5 e 10, mantém-se a dose fisiológica e repete-se o exame em semanas a meses; abaixo de 5, mantém-se e repete-se em alguns meses. A diretriz sugere contra o teste dinâmico de rotina nessa situação e manda ao endocrinologista quem não recupera em um ano.

Beuschlein F, Else T, Bancos I, et al. J Clin Endocrinol Metab. 2024;109(7):1657-1683, recomendações R2.7, R2.8 e R2.11

Acima de 15 mcg/dL, pouco provável; entre 3 e 15, teste de estímulo; reposição central por toda a vida — protocolo federal, 2020

O protocolo cobre toda a insuficiência central e inclui nela a causada pela retirada de corticoide. Cortisol basal de 3 mcg/dL ou menos com ACTH baixo ou normal confirma a insuficiência; entre 3 e 15, com ACTH normal, indica teste de estímulo, e o antecedente de corticoterapia aumenta a probabilidade do diagnóstico; acima de 15, torna-o muito pouco provável. O teste disponível, pelo próprio protocolo, é o de hipoglicemia insulínica, e a reposição da central é descrita como feita por toda a vida.

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Insuficiência Adrenal. Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 20/2020, itens 3.2.2 e 7

Como decidir

O primeiro degrau decide: escopo. A diretriz de 2024 foi escrita para o paciente que está retirando corticoide; o protocolo, para a insuficiência central em geral, de qualquer causa. O segundo degrau, a data, aponta para o mesmo lado. Para dona Evangelina em 5 mg de prednisona, com cortisol matinal de 12 mcg/dL colhido nas condições certas, esta apostila adota a diretriz de 2024: suspender, sem submeter ao teste de hipoglicemia insulínica, com os riscos que o próprio protocolo reconhece, uma paciente que o valor já classifica. O protocolo continua sendo a régua de quem tem insuficiência central sem corticoide na história — lesão, cirurgia ou radioterapia de hipófise e hipotálamo —, e nesse paciente a faixa de 3 a 15 segue pedindo teste. E a frase do protocolo sobre reposição por toda a vida não governa quem tem insuficiência induzida: nesse paciente, a recuperação do eixo é o objetivo, e a diretriz de 2024 manda procurá-la.

Cirurgia com anestesia geral em quem tem insuficiência adrenal ou usa corticoide: dobrar a dose habitual ou hidrocortisona intravenosa em dose de estresse?

Pelo menos dobrar a dose habitual — protocolo federal de 2020, item 6.1

O item 6.1 manda ajustar o glicocorticoide nas situações de estresse, quando se deve pelo menos dobrar a dose habitual, e põe na lista a cirurgia com anestesia geral, o grande trauma e o parto normal ou cesárea, ao lado da síndrome febril e da gastroenterite com desidratação. Num adulto em prednisona de 5 mg, a leitura literal dá 10 mg no dia da cirurgia.

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Insuficiência Adrenal. Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 20/2020, item 6.1

Hidrocortisona 100 mg IV na indução e 200 mg em 24 horas — Endocrine Society, 2016; ESE e Endocrine Society, 2024; item 6.5 do mesmo protocolo

A diretriz de 2016 dá, para cirurgia maior com anestesia geral, trauma, parto ou doença que exige terapia intensiva, 100 mg de hidrocortisona intravenosa seguidos de 200 mg em 24 horas, com redução rápida depois. A de 2024 dá o mesmo esquema na indução de quem usa corticoide, com dose oral aumentada por 48 horas quando o paciente volta a comer. O item 6.5 do protocolo brasileiro prescreve a mesma grandeza: 200 mg/dia de hidrocortisona em estresse ou crise no adulto, e 200 a 300 mg/dia na indução do parto.

Bornstein SR, et al. J Clin Endocrinol Metab. 2016;101(2):364-389; Beuschlein F, Else T, et al. J Clin Endocrinol Metab. 2024;109(7):1657-1683; Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 20/2020, item 6.5

Como decidir

Os três primeiros degraus não fecham: o escopo empata na primária, a data favorece o protocolo sobre a diretriz de 2016 e a de 2024 sobre o protocolo, e a natureza favorece o protocolo. O quarto degrau decide. O protocolo contradiz a si mesmo no ponto em disputa: o item 6.1 põe a cirurgia com anestesia geral e o parto no pelo menos dobrar, e o item 6.5 dá ao estresse 200 mg/dia de hidrocortisona, de 3,3 a 5 vezes a dose habitual dobrada — a conta está em Fluxos e tabelas. Vence a posição coerente, que é a das duas diretrizes e a do próprio item 6.5. Esta apostila adota hidrocortisona 100 mg IV na indução e 200 mg nas 24 horas seguintes para todo paciente com insuficiência adrenal ou com uso atual ou recente de corticoide sem eixo testado, e reserva o dobrar ao estresse menor em quem mantém a via oral — lembrando que quem está em jejum para a anestesia não tem como tomar comprimido nenhum.

Quanto de glicocorticoide repõe a adrenal na insuficiência primária: prednisona de 5 a 7,5 mg ou prednisolona de 3 a 5 mg por dia?

Prednisona ou prednisolona 5 a 7,5 mg/dia na primária e 2,5 a 5 mg/dia na central — protocolo federal de 2020

O protocolo registra que a hidrocortisona oral seria a preferência, mas não está disponível no Brasil, e usa prednisona ou fosfato sódico de prednisolona, glicocorticoides com pequeno efeito mineralocorticoide. A dose habitual na primária é de 5 a 7,5 mg/dia; na central, podem bastar 2,5 a 5 mg/dia. O esquema de administração dá ao adulto 2,5 a 7,5 mg/dia, em uma ou duas tomadas, e o texto manda usar a menor dose capaz de controlar os sintomas.

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Insuficiência Adrenal. Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 20/2020, itens 6.1, 6.2 e 6.5

Hidrocortisona 15 a 25 mg/dia em duas ou três tomadas; como alternativa, prednisolona 3 a 5 mg/dia — Endocrine Society, 2016

A diretriz da forma primária sugere hidrocortisona de 15 a 25 mg/dia, ou acetato de cortisona de 20 a 35 mg/dia, em duas ou três tomadas, com a maior ao acordar; como alternativa, sobretudo para quem tem dificuldade de adesão, prednisolona de 3 a 5 mg/dia em uma ou duas tomadas. Recomenda contra a dexametasona e contra ajustar a dose por dosagem hormonal.

Bornstein SR, et al. J Clin Endocrinol Metab. 2016;101(2):364-389, recomendações 3.2 a 3.6

Como decidir

O escopo empata: as duas foram escritas para o paciente com insuficiência primária, e o protocolo tem seção própria para ele. O segundo degrau decide, porque o protocolo, de 2020, é mais novo que a diretriz, de 2016, e o terceiro aponta para o mesmo lado, porque é norma. Esta apostila adota o protocolo: prednisona ou prednisolona de 5 a 7,5 mg/dia na primária, começando por 5 mg — um comprimido do Componente Básico — e subindo a 7,5 mg só se a clínica pedir, porque o próprio protocolo manda buscar a menor dose que controle os sintomas. As duas réguas se encostam em 5 mg, e o dano que as duas querem evitar é o mesmo: excesso de glicocorticoide por anos. A hidrocortisona oral da diretriz não está na Rename 2024, e para o paciente do SUS essa alternativa não se coloca.

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O raciocínio, em voz alta

Idalino Camargo tem 54 anos e 63 quilos — eram 72 no começo do ano — e trabalhou a vida inteira na lavoura no norte do Paraná. Há sete anos tratou paracoccidioidomicose pulmonar com itraconazol. Há cinco meses sente um cansaço que não passa, perdeu o apetite, fica tonto quando levanta da cama e passou a pôr sal na laranja. A esposa conta que ele foi ficando moreno e mostra as mãos dele: os vincos das palmas e os nós dos dedos estão escuros, e a gengiva tem manchas acastanhadas. Ele chega ao pronto-socorro depois de dois dias de vômitos e dor abdominal, com pressão de 84 por 52 mmHg deitado, frequência cardíaca de 112, temperatura axilar de 37,6 °C e glicemia capilar de 66 mg/dL, sonolento e orientado. Os primeiros exames mostram sódio de 122 mmol/L, potássio de 6,3 mmol/L, ureia de 96 mg/dL e creatinina de 1,8 mg/dL.

  1. 1. O quadro já tem nome antes de qualquer hormônio

    Hipotensão com vômito e dor abdominal, hiponatremia, hipercalemia e hipoglicemia, num homem que escureceu, emagreceu e tem avidez por sal, com paracoccidioidomicose no passado: é crise adrenal de uma insuficiência primária, com as duas divisórias presentes — a pele e o potássio. A micose é a segunda causa da série paulista citada pelo protocolo. Nenhum exame hormonal é necessário para agir; todos são necessários para documentar, e por isso o sangue sai antes do remédio.

  2. 2. Os primeiros quinze minutos, na ordem

    Na mesma punção: cortisol, ACTH em tubo com EDTA no gelo, gasometria, eletrólitos, glicemia, hemograma e hemoculturas, porque há febre baixa. Logo depois, hidrocortisona 100 mg por via intravenosa em bolus de cerca de 30 segundos, soro fisiológico 1.000 mL na primeira hora e glicose pela régua de Hipoglicemia no não-diabético e manejo da hipoglicemia grave. O potássio de 6,3 mmol/L pede eletrocardiograma imediato: com alteração, o tratamento da hipercalemia segue Potássio: hipo e hipercalemia na enfermaria; sem alteração, o potássio é repetido em poucas horas, junto com o sódio.

  3. 3. Os resultados que chegam de manhã

    Cortisol de 2,1 mcg/dL e ACTH de 610 pg/mL, colhidos antes da hidrocortisona. Pelo protocolo, cortisol abaixo de 5 mcg/dL com ACTH acima de duas vezes o limite superior, em geral acima de 100 pg/mL, é altamente sugestivo de primária, e com hiperpigmentação, hipercalemia e hiponatremia o quadro não deixa dúvida. Não há teste de estímulo a fazer: a diretriz de 2016 dispensa a confirmação quando os valores basais são inequívocos, e o teste de hipoglicemia insulínica, o disponível pelo protocolo, seria risco sem benefício num homem que acabou de sair de uma crise.

  4. 4. As primeiras 24 horas: a cobertura e o sódio

    Hidrocortisona 50 mg por via intravenosa a cada 6 horas. Na sexta hora, pressão de 108 por 66 sem vasopressor, glicemia de 112 mg/dL, potássio de 5,1 mmol/L e sódio de 127 mmol/L. O sódio subiu 5 mmol/L em seis horas porque o cortisol voltou e o rim começou a despejar a água retida; o limite do dia e o que fazer se ele for ultrapassado estão em Distúrbios do sódio no internado: hiponatremia, e o sódio passa a ser dosado a cada 4 a 6 horas. Fludrocortisona não entra: com 200 mg por dia de hidrocortisona, o efeito mineralocorticoide está coberto.

  5. 5. A causa: a tomografia que o protocolo pede

    Confirmada a primária, o protocolo pede tomografia do abdome superior com cortes finos. Ela mostra adrenais aumentadas, com calcificações, compatíveis com destruição por doença granulomatosa. Diante de lesão adrenal, o protocolo indica biópsia guiada por tomografia para definir a etiologia e orientar o tratamento — no caso dele, para saber se há micose em atividade, e o antifúngico, se houver, é decisão da infectologia. Aldosterona e renina documentam o hipoaldosteronismo que o potássio já anunciava.

  6. 6. Dias 2 a 4: a transição para o comprimido

    No segundo dia, hidrocortisona 100 mg/dia. No terceiro, comendo e sem vômito, a reposição passa para a via oral, e o protocolo manda iniciar a fludrocortisona nesse momento: prednisona 10 mg pela manhã por 48 horas — o dobro da dose de reposição, enquanto a gastroenterite termina — e acetato de fludrocortisona 0,1 mg uma vez ao dia. No quarto dia ele está sem hipotensão postural, com sódio de 133 mmol/L e potássio de 4,6 mmol/L. A prednisona vem do Componente Básico; a fludrocortisona, do Especializado, com laudo, os exames que o estado exigir e o CID E27.1 — e, enquanto o laudo não é aprovado, ela é prescrita para compra, porque ele não pode esperar a tramitação sem mineralocorticoide.

  7. 7. A alta: o que ele leva por escrito e no bolso

    Idalino sai com prednisona 10 mg por mais um dia e depois 5 mg pela manhã, fludrocortisona 0,1 mg, as duas regras do dia doente por escrito — febre de 38,5 °C ou mais, pelo menos o dobro da prednisona; vômito que não deixa o comprimido ficar, hidrocortisona 100 mg IM e hospital —, o frasco de hidrocortisona com seringa e agulha, a esposa treinada e o cartão com diagnóstico, doses e telefone. O retorno com endocrinologista fica dentro do intervalo de 2 a 6 meses do protocolo, com sódio, potássio, creatinina, renina e pressão deitado e em pé; a dose se ajusta pela clínica, não pelo ACTH, que costuma seguir alto mesmo com a dose certa. E a consulta de infectologia, pela micose, não substitui a de endocrinologia: o protocolo trata a reposição da primária como tratamento por toda a vida.

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Faça você

Pedrina Farinhada, 62 anos, 70 quilos, tem artrite reumatoide controlada há um ano com metotrexato e prednisona 7,5 mg por dia, que toma há três anos. Vai fazer colecistectomia videolaparoscópica eletiva, com anestesia geral e alta prevista para o dia seguinte. Nunca teve crise adrenal e nunca teve o eixo testado. A carta da reumatologista diz: doença controlada, pode iniciar a retirada da prednisona depois da cirurgia. Você é o interno do ambulatório de avaliação pré-operatória.

  1. 1. Ela tem risco de insuficiência adrenal, e precisa de teste antes da cirurgia?

    Compare a exposição dela com os limiares do protocolo federal e da diretriz de 2024, e diga o que a diretriz manda fazer com quem usa corticoide e nunca teve o eixo testado.

  2. 2. Qual é a prescrição de corticoide do dia da cirurgia e dos dois dias seguintes?

    Escreva doses, vias e horários, e diga o que muda se ela ficar em jejum por mais tempo do que o previsto.

  3. 3. Como retirar os 7,5 mg depois da cirurgia?

    Monte o desmame com as apresentações da Rename, diga o que ela faz nos dias de doença durante o desmame e o que fazer se, no meio dele, surgirem cansaço, dores e insônia.

  4. 4. Em 5 mg, o cortisol matinal veio 7,2 mcg/dL. E agora?

    Diga como o exame deve ter sido colhido, o que o resultado significa pela diretriz de 2024, o que o protocolo de 2020 mandaria fazer com o mesmo número e qual das duas leituras esta apostila adota.

Ver como fecharíamos

1. Sim ao risco, não ao teste. Pedrina toma 7,5 mg de prednisona há três anos: acima da dose fisiológica de 4 a 6 mg e muito além das três a quatro semanas da diretriz de 2024, e também acima do limiar do protocolo, de mais de 5 mg por mais de 30 dias. A diretriz recomenda não testar o eixo de quem está em dose suprafisiológica e manda cobrir com dose de estresse todo paciente com uso atual ou recente de corticoide que não teve a insuficiência afastada por exame. O teste, se vier, será no fim do desmame. 2. Na indução anestésica, hidrocortisona 100 mg por via intravenosa, um frasco-ampola de 100 mg; nas 24 horas seguintes, 200 mg em infusão contínua ou 50 mg intravenosos a cada 6 horas. Voltando a comer no dia seguinte, como previsto, a prednisona retorna por via oral em dose aumentada por 48 horas — 15 mg, o dobro da habitual, que atende ao pelo menos dobrar do protocolo e à dose aumentada da diretriz — e depois os 7,5 mg de sempre. Se o jejum se prolongar, a hidrocortisona de 200 mg em 24 horas continua enquanto ele durar. O que não pode acontecer é a dieta zero suspender a prednisona sem nada no lugar, e tudo isso fica escrito na avaliação pré-operatória e na folha da anestesia. 3. A reumatologista autorizou e a doença está controlada, que é a condição da diretriz para começar. Na faixa de 5 a 10 mg, a tabela de 2024 desce 1 mg a cada 1 a 4 semanas, e o comprimido de 5 mg não permite esse degrau: passa-se à prednisolona em solução de 1 mg/mL, do Componente Básico — 7,5 mL, depois 6,5, 5,5 e 5 mL —, com o intervalo que a reumatologista ajustar à doença. Nos dias de doença leve durante o desmame, ela sobe para 10 mg por 2 a 5 dias; vomitou a dose, injeção e hospital. Cansaço, dores musculares e articulares e insônia com sódio normal e sem hipotensão são, em geral, síndrome de retirada: volta-se à última dose tolerada e alonga-se o intervalo. Hipotensão postural, perda de peso, sódio baixo ou hipoglicemia são insuficiência: não se desce e trata-se como tal. Sinovite de volta é a artrite, e a decisão é da reumatologista. 4. A amostra deve ter sido colhida entre 8 e 9 horas, com a última dose tomada há pelo menos 24 horas, estando ela em 5 mg por dia. Pela diretriz de 2024, 7,2 mcg/dL cai na faixa de 5 a 10: mantém-se a dose fisiológica de 5 mg, com as regras de estresse, e repete-se o cortisol em semanas a meses; acima de 10, suspende-se; sem recuperação em um ano, endocrinologista. Pelo protocolo de 2020, o mesmo número cai entre 3 e 15 e indicaria teste de estímulo, que no Brasil é o de hipoglicemia insulínica. Esta apostila adota a diretriz de 2024 para quem retira corticoide, pelo escopo — ela foi escrita para esse paciente —, e reserva o teste para a insuficiência central sem corticoide na história.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Duas divisórias separam as formas. A hipercalemia depende da falta de aldosterona, que só ocorre quando o córtex inteiro é destruído; na central, o sistema renina-angiotensina mantém a aldosterona, e o protocolo afirma que hipercalemia só ocorre na primária. O escurecimento da pele vem do excesso de ACTH e dos fragmentos da pró-opiomelanocortina, e por isso também só existe na primária. A hiponatremia aparece nas duas formas, porque depende do cortisol; hipoglicemia e perda de peso acompanham qualquer insuficiência; e o ACTH da primária é alto.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Explique como suspeitar da crise a partir de história, choque e exames. Faça a passagem ao supervisor incluindo corticoides usados, última dose, amostras possíveis e tratamento que começa imediatamente.

Em 30 dias

Simule uma ligação por vômitos de paciente em reposição e uma consulta de retirada de corticoide. Justifique via, cobertura e encaminhamento na primeira, e avaliação de recuperação do eixo na segunda.

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Agora atenda

Agora atenda: Ivone Baracho, 38 anos, 55 kg, professora, com hipotireoidismo por tireoidite autoimune em uso de levotiroxina e vitiligo, que usa anticoncepcional oral combinado e chega à unidade básica com seis meses de cansaço, perda de 6 quilos, tontura ao levantar e vontade de comer sal, trazendo um hormônio estimulante da tireoide que subiu e um bilhete do colega sugerindo aumentar a levotiroxina. Decida o que o exame físico precisa procurar, se a levotiroxina sobe agora, que exames pedir, em que horário e com que cuidado em relação ao anticoncepcional, como interpretar um cortisol que venha normal, quais sinais a mandam ao pronto-socorro no mesmo dia e o que ela precisa saber antes de sair.

Insuficiência adrenal e crise addisoniana – O choque que pede cortisol — Internato | OsceLabs