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Clínica MédicaEndocrinologia

Antes da hipótese, a glicemia

Hipoglicemia no não-diabético e manejo da hipoglicemia grave

Reconhecer a hipoglicemia, corrigir pela via adequada e prevenir recorrência. A coleta crítica e a tiamina têm seu lugar, sem atrasar glicose na emergência; depois do resgate, investigar a causa e organizar um plano seguro.

Fontes deste capítulo

Ministério da Saúde, Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde / Conitec — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Diabete Melito Tipo 2. Portaria SCTIE/MS nº 13, de 21 de fevereiro de 2026

Ministério da Saúde, Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Diabete Melito Tipo 1. Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 17, de 12 de novembro de 2019. Brasília: Ministério da Saúde, 2020, 68 p.

Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Hospitalar às Urgências — Protocolos de Suporte Avançado de Vida. SAMU 192. Brasília/DF, 2014, 638 p. (protocolos AC29, AC21, AC25, ATox 4, AP29 e APed 25)

Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica — Estratégias para o cuidado da pessoa com doença crônica: diabetes mellitus. Cadernos de Atenção Básica, n. 36. Brasília: Ministério da Saúde, 2013, 160 p.

Ministério da Saúde, Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde — Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024, 252 p.

01

Responda antes de ler

Homem de 52 anos, em situação de rua, é trazido rebaixado, com hálito etílico e aparência de desnutrição. Glicemia capilar: 34 mg/dL. Há acesso venoso. A farmácia informa que a unidade não tem tiamina injetável. Qual conduta é a correta?

02

O paciente que você vai ver

Quatro e dez da manhã de um domingo. O hospital é municipal, tem oitenta e seis leitos, e atende a cidade inteira mais os três distritos do outro lado do rio. Você é o interno da escala noturna. A sala vermelha tem dois leitos e, quinze minutos atrás, os dois estavam vazios. Agora não estão, e os dois pacientes que chegaram têm a mesma coisa — só que ninguém ainda sabe disso, e as duas fichas dizem outra coisa.

No leito 1 está o senhor Osvalindo Piatti, 72 anos, 66 quilos, aposentado da roça, trazido pelo vizinho num carro particular. O vizinho, seu Eunápio, é quem fala, porque o Osvalindo não fala coisa com coisa: “ele bateu na minha porta às três e meia, doutor, todo molhado de suor, dizendo que tinha gente na casa dele. Aí sentou no meu degrau e não levantou mais.” A ficha da classificação de risco traz uma palavra escrita com letra rápida: confusão. Ao lado, entre parênteses, alguém acrescentou uma hipótese que não pediram: idoso, provável quadro demencial agudizado.

No leito 2 está a Maurina Colodel, 34 anos, cozinheira de uma escola municipal. Ela convulsionou no chão da cozinha de casa, na frente do marido, uma crise única que durou perto de um minuto e cedeu sozinha. Chegou sonolenta, respondendo devagar. A ficha dela diz: primeira crise convulsiva, investigar. E, num canto, alguém escreveu tomografia com um ponto de interrogação. Maurina não tem diabetes, não toma remédio nenhum, nunca convulsionou na vida.

As duas fichas estão erradas na mesma medida, e pelo mesmo motivo: as duas trazem uma hipótese antes de um número. O técnico de enfermagem, o Percival, está no meio da sala com o glicosímetro na mão porque ninguém pediu, mas ele já viu isso antes. Ele fura o dedo do Osvalindo: 27 mg/dL. Fura o da Maurina: 31 mg/dL.

Levou quarenta segundos por paciente. Nesses quarenta segundos, dois diagnósticos caíram e dois apareceram — e o que apareceu é o mesmo dos dois lados. Só que a partir daqui os dois caminhos se separam de forma quase completa, e é essa separação que este capítulo ensina. No Osvalindo, a hipoglicemia é o diagnóstico: trate, ache o que a causou dentro da caixa de remédios dele e decida quanto tempo ele fica. Na Maurina, a hipoglicemia é um achado: trate igual, e depois explique — porque uma mulher de 34 anos sem diabetes e sem remédio não faz glicemia de 31 mg/dL sem que alguma coisa tenha quebrado.

Há um detalhe que vai custar caro daqui a vinte minutos, e é bom você já saber que ele existe. O sangue que responde a pergunta da Maurina é o que está circulando nela agora, com a glicemia em 31. Quando você corrigir — e você vai corrigir, porque não se deixa ninguém em 31 — esse sangue deixa de existir, e nenhum exame colhido depois recupera a informação. É o único momento do atendimento inteiro em que apressar o tratamento sem pensar dois segundos custa alguma coisa. Dois segundos, não mais que isso.

E há uma terceira maca, na sala ao lado, que entra neste capítulo mais adiante: um homem de 54 anos que a viatura trouxe da calçada, cheirando a álcool, com glicemia de 38 mg/dL. Nele, a ordem das duas primeiras injeções não é indiferente — e o país tem, para a primeira delas, exatamente zero apresentação injetável no elenco de medicamentos essenciais.

03

Quem adoece disso

A pergunta natural aqui seria quantos brasileiros passam por isso todo ano. Ela não tem resposta, e a razão de não ter é a primeira informação epidemiológica deste capítulo: a hipoglicemia não é, no Brasil, um evento com nome próprio em documento nenhum. Ela aparece sempre como efeito adverso de outra coisa — como critério para liberar um análogo de insulina, como argumento para afrouxar uma meta, como linha de segurança de um protocolo de diabetes. Nunca como o assunto.

Isso é verificável, e vale verificar, porque muda o modo como você vai ler tudo o que vem depois. A hipoglicemia não tem, no Brasil, protocolo clínico próprio, e o Ministério da Saúde nunca publicou diretriz terapêutica sobre ela. Na letra H do repositório oficial há dezesseis documentos, de hanseníase a homocistinúria clássica, passando por hiperprolactinemia e hipoparatireoidismo, e nenhum deles é sobre o tema. Na letra D estão o diabete melito tipo 1 e o tipo 2, e é dentro deles que a hipoglicemia mora.

A diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes segue o mesmo desenho. Ela é uma diretriz viva, com dezenas de capítulos publicados e atualizados um a um, e tem dois capítulos dedicados à cetoacidose diabética — o clássico e o euglicêmico —, um à síndrome hiperglicêmica hiperosmolar não cetótica e três à hiperglicemia hospitalar, separando o paciente crítico do não crítico. Não há capítulo de hipoglicemia. As duas emergências do açúcar alto têm texto próprio; a emergência do açúcar baixo, que mata mais depressa, não tem.

O documento brasileiro mais novo sobre diabetes ilustra bem onde a conta para. O protocolo de diabete melito tipo 2, aprovado em fevereiro de 2026, classifica a hipoglicemia em três níveis, ensina a tratar o nível 1 com 15 gramas de carboidrato e o nível 2 com 30 gramas, e então, ao chegar no nível 3 — o evento grave, o que traz o paciente à sua sala —, escreve uma frase e passa adiante: indica-se a intervenção da emergência médica. Que intervenção, em que dose, por qual via, o protocolo não diz. As palavras glucagon e glicose a 50% não aparecem nenhuma vez no texto inteiro.

O protocolo de diabete melito tipo 1, de 2019, faz o mesmo com um agravante de ironia: ele fala em hipoglicemia grave catorze vezes, define o termo com precisão jurídica — necessidade de atendimento emergencial ou de auxílio de terceiro para a resolução — e usa essa definição como critério para liberar análogos de insulina de ação prolongada pelo Sistema Único de Saúde. É a população de maior risco do país, e o documento que a governa não traz uma linha sobre como tratar o evento que ele próprio usa como moeda.

O que o país compra, isso sim é mensurável e diz muito. A Rename 2024 traz tiras reagentes de medida de glicemia capilar e lancetas para punção digital como insumos do Componente Básico, disponíveis em todo o território, e traz glicose injetável em três concentrações — 50 mg/mL, 100 mg/mL e 500 mg/mL —, todas no Componente Básico, sob o código V06DC01. Ou seja: o diagnóstico à beira do leito e o tratamento endovenoso estão comprados. O que não está comprado é a alternativa para quem não tem veia: glucagon não aparece uma única vez na Rename 2024, e também não aparece uma única vez nas 638 páginas do manual de suporte avançado de vida do SAMU.

Some-se a isso o que o protocolo de 2026 diz sobre quem adoece: pessoas mais velhas concentram o risco, por necessitarem mais de insulina, por deficiência de secreção, por perda progressiva da função renal e por déficit cognitivo que atrapalha o autocuidado — e a hipoglicemia grave, por sua vez, associa-se a risco aumentado de demência. É um ciclo que se fecha sobre si mesmo, e ele explica por que a maior parte dos episódios graves que chegam ao pronto-socorro brasileiro chega dentro de um corpo de setenta e poucos anos, com uma ficha que diz confusão e uma hipótese escrita antes do número.

04

Por que acontece o que acontece

O cérebro é o órgão que não negocia. Ele consome glicose de forma contínua, quase não guarda reserva própria e, ao contrário do músculo, não sabe viver de ácido graxo circulante. Toda a fisiologia da glicemia existe para manter esse suprimento constante, e é por isso que o organismo defende o piso com mais empenho do que defende o teto: passar horas com a glicemia alta produz complicação em anos, e passar minutos com a glicemia muito baixa produz sequela na mesma tarde.

A defesa é escalonada, e a ordem dos degraus explica os sintomas. O primeiro degrau é a queda da própria secreção de insulina, que acontece ainda dentro da faixa normal. O segundo é hormonal e contrarregulador — glucagon e adrenalina entram para mobilizar glicogênio hepático e sustentar a gliconeogênese —, e é esse degrau que produz o quadro que todo mundo reconhece: tremor, suor frio, palidez, taquicardia, fome, ansiedade. Nada disso é a hipoglicemia atingindo o cérebro; é o corpo avisando. O terceiro degrau é o cérebro já em déficit, e aí os sintomas mudam de natureza: lentificação, dificuldade de concentração, alteração da visão, confusão, comportamento estranho, sonolência, convulsão, coma. A primeira família chama-se autonômica; a segunda, neuroglicopênica.

O protocolo brasileiro de 2026 fixa números para os degraus mais rasos, e vale decorá-los porque eles decidem conduta: entre 54 e 70 mg/dL há o nível 1, de alerta, que importa porque a queda tende a continuar; abaixo de 54 mg/dL há o nível 2, clinicamente importante, que é o limiar em que os sintomas neuroglicopênicos aparecem; e há o nível 3, que não tem número nenhum — define-se por comprometimento grave da cognição ou coma, com necessidade de assistência de terceiro. A ausência de número no nível 3 é deliberada e é a coisa mais importante do quadro: gravidade se lê no paciente, não na fita.

Em quem tem diabetes, esses degraus quebram na ordem inversa. A insulina que está circulando é exógena e não sabe cair: injetada, ela continua agindo. O glucagon perde a resposta cedo na doença de longa data. Sobra a adrenalina — e ela também se desgasta, porque episódios repetidos de hipoglicemia deslocam o disparo da resposta adrenérgica para glicemias mais baixas. O resultado é a hipoglicemia sem aviso: o paciente perde os sintomas autonômicos e passa a estrear pelo neuroglicopênico, ou seja, já confuso. É por isso que a esposa percebe antes dele, e é por isso que a pergunta “o senhor sente quando abaixa?” tem valor diagnóstico.

As sulfonilureias merecem um parágrafo à parte porque são a razão de metade dos episódios graves que você vai ver, e porque o mecanismo delas explica o rebote. Elas fecham o canal de potássio dependente de trifosfato de adenosina da célula beta, e o pâncreas passa a secretar sem consultar a glicemia daquele instante. Duas consequências saem daí. A primeira: o remédio não sabe que o paciente não almoçou. A segunda, e é a que aparece na sua madrugada: quando você injeta glicose num paciente que está sob efeito de sulfonilureia, o açúcar que você acabou de dar volta a estimular a célula beta e produz uma nova onda de insulina. Você corrige o número e recarrega a causa. Em quem tem função renal ruim, a droga demora mais a sair, e a onda se repete por horas.

A insulina exógena tem o mesmo problema com outro relógio. Uma dose de insulina humana de ação intermediária aplicada às dez da noite ainda está trabalhando às quatro da manhã, e o bolus de glicose que você deu às quatro e cinco dura minutos. Corrigir com glicose hipertônica e nada mais é apagar um incêndio com um copo d'água quando a torneira do combustível continua aberta — e a torneira é a farmacocinética da droga, não a sua conduta.

A tiamina participa do metabolismo oxidativo da glicose e deve ser reposta prontamente em pessoas com risco de deficiência, como desnutrição e uso intenso de álcool. Isso não torna a glicose contraindicada antes dela: na hipoglicemia grave, corrigir imediatamente. Administrar tiamina antes ou concomitantemente quando já disponível, ou logo que possível; a ASAM permite qualquer ordem e a administração simultânea. A profilaxia da deficiência e o tratamento de suspeita de encefalopatia de Wernicke são situações distintas; suspeita neurológica exige esquema parenteral de tratamento e avaliação específica, não apenas a dose preventiva citada aqui.

Por fim, o mecanismo que sustenta a segunda metade do capítulo. Em quem não tem diabetes e não usa medicamento hipoglicemiante, essas defesas funcionam — e funcionam tão bem que jejuns prolongados de dias não derrubam a glicemia abaixo do limiar sintomático. Por isso uma glicemia plasmática baixa documentada num não-diabético não é um número azarado: é a evidência de que alguma coisa está empurrando a glicose para baixo ou de que uma das defesas parou. Ou há insulina onde não deveria haver, ou falta o hormônio que sustenta o piso, ou o fígado que fabrica glicose não está fabricando. Nenhuma dessas três hipóteses se resolve mandando o paciente para casa com orientação de comer de três em três horas.

05

Como se apresenta de verdade

Não existe um quadro clínico da hipoglicemia. Existem dois conjuntos de sintomas que aparecem em ordem, e uma coleção de apresentações que não lembram nada de açúcar — e é a coleção que engana. O que segue está ordenado pela frequência com que o rótulo errado chega antes de você.

Uma advertência que vale para as seis seções: nenhuma delas é específica. Não há sinal, sintoma ou combinação de sintomas que feche o diagnóstico sem o número, e não há apresentação que o exclua. O que existe é uma pergunta barata que se responde em quarenta segundos e que, quando positiva, reverte tudo.

Percurso de aprendizagem

Primeiro, resgate: glicemia, via de administração, segurança da deglutição e resposta.

Depois, recorrência: duração do fármaco, função renal, alimentação e monitorização mudam o tempo de cuidado.

Aprofundamento: tríade de Whipple e amostra crítica no não diabético, com interpretação conjunta e investigação especializada quando necessária.

1. As duas famílias, e por que a ordem importa

A família autonômica é a do aviso: tremor, sudorese, palidez, taquicardia, fome, formigamento, ansiedade, uma sensação de apreensão que o paciente descreve como “senti que ia acontecer alguma coisa”. Ela é desconfortável, é reconhecível e, principalmente, é útil — é o que faz a pessoa comer antes de perder a consciência. A ficha AC29 do SAMU lista exatamente esses sinais como critério de suspeita, ao lado de tontura, cefaleia, fraqueza, parestesias e distúrbios visuais.

A família neuroglicopênica é a do cérebro já em falta: lentificação, dificuldade de concentração, visão embaçada, confusão, comportamento inadequado, agressividade, sonolência, convulsão, coma. O protocolo brasileiro de 2026 associa a família neuroglicopênica ao nível 2, abaixo de 54 mg/dL, e descreve dificuldade de concentração, confusão mental, alteração na visão e tonturas como o que caracteriza esse limiar.

A ordem em que as duas famílias aparecem é informação clínica, não curiosidade. Quem chega com sintoma autonômico chegou cedo e ainda tem defesa. Quem chega direto no neuroglicopênico, sem ter sentido nada antes, ou caiu muito depressa, ou perdeu a resposta de alerta — e essa perda tem nome, tem causa e é reversível com algumas semanas de metas mais frouxas. Perguntar “o senhor sente quando abaixa?” não é conversa fiada: é o que separa um episódio isolado de um paciente que vai voltar.

2. O idoso confuso, que é a apresentação mais comum e a mais mal rotulada

No idoso, tremor e suor costumam simplesmente faltar. O que chega é confusão, sonolência, apatia, fala arrastada, uma queda sem explicação, uma noite ruim que a família descreve como “ele ficou estranho”. Todos esses são achados que a enfermaria e o pronto-socorro atribuem, por hábito, a delirium, demência, infecção urinária ou simplesmente à idade.

O que torna essa confusão perigosa não é a dificuldade do diagnóstico — é a facilidade do rótulo alternativo. Um idoso confuso às quatro da manhã tem, na ficha, umas seis explicações plausíveis esperando para serem escritas, e cinco delas exigem exame, tempo e internação. A sexta exige uma lanceta. O erro não é intelectual: é de ordem.

Vale registrar a consequência do rótulo errado. Se você escreve delirium e prescreve observação, a hipoglicemia continua correndo e o cérebro continua sem substrato; se você escreve hipoglicemia e fura o dedo, e a fita der 118 mg/dL, você perdeu quarenta segundos e ganhou uma hipótese a menos. A assimetria entre os dois erros é o argumento inteiro deste capítulo.

3. O agitado e sudoreico, que vira embriaguez, ansiedade ou abstinência

Sudorese profusa, taquicardia, agitação, fala desconexa e comportamento inadequado formam um quadro que a triagem lê como intoxicação, crise de ansiedade ou síndrome de abstinência. O próprio SAMU registra a armadilha na ficha de intoxicação e abstinência alcoólica, ao lembrar que uma pessoa agitada e com alteração de comportamento, aparentemente intoxicada, pode não ser isso.

O agravante é social e é preciso dizê-lo com todas as letras: pacientes que chegam com hálito etílico, em situação de rua ou com transtorno mental conhecido recebem menos exames, e o dedo deles é furado com menos frequência. A hipoglicemia se aproveita disso. Um homem que cheira a álcool e não responde direito tem, além de todas as outras razões, uma razão a mais para estar hipoglicêmico: o etanol inibe a gliconeogênese hepática, e o fígado de quem bebe muito e come pouco entra na madrugada sem glicogênio para queimar.

Aqui a conduta se ramifica de um jeito que quase nenhum outro quadro exige. Nesse paciente, a glicose sozinha não basta e pode fazer mal — a ordem correta das injeções é matéria do bloco de conduta, e a razão bioquímica está no mecanismo. O que a apresentação ensina é mais simples: cheiro de álcool não é diagnóstico, e a fita não pergunta de onde o paciente veio.

4. Quem convulsiona

A crise convulsiva é a apresentação que mais rapidamente sequestra o raciocínio para outro lugar. Uma primeira crise em adulto aciona, com razão, uma lista que inclui lesão estrutural, infecção do sistema nervoso central, distúrbio eletrolítico e abstinência. Quase sempre alguém escreve tomografia antes de alguém escrever glicemia capilar, e o paciente desce para o tomógrafo com a causa ainda correndo.

O próprio manual do SAMU coloca a convulsão na lista de indicações do procedimento de avaliação da glicemia capilar, ao lado da alteração do nível de consciência e dos sinais de hipo ou hiperglicemia. Não é uma sugestão de completude: crise convulsiva por hipoglicemia é comum, é reversível na hora e não deixa diagnóstico de epilepsia atrás de si — desde que alguém tenha medido.

E há o período pós-ictal, que confunde a reavaliação. Um paciente que convulsionou por hipoglicemia e recebeu glicose pode continuar sonolento por dez, vinte, trinta minutos, com a glicemia já normal. Isso não significa que o tratamento falhou nem que existe uma segunda causa — significa que o cérebro está saindo da crise. O que decide não é a impressão: é a glicemia repetida. Se ela subiu e o paciente melhora aos poucos, o quadro é coerente; se ela subiu e o paciente não melhora nada, você tem duas coisas e precisa procurar a segunda.

5. O déficit focal que imita acidente vascular cerebral

A hipoglicemia é a única causa metabólica que produz déficit neurológico focal convincente — hemiparesia, disartria, desvio do olhar — e por isso ocupa o primeiro lugar em todas as listas de imitadores de acidente vascular cerebral. É também a única imitadora que se trata furando o dedo.

Este capítulo cede o assunto inteiro, e cede de propósito: a bifurcação do protocolo de acidente vascular cerebral, o reexame depois da correção, o que fazer quando o déficit persiste com a glicemia já normal e o peso da glicemia baixa como contraindicação relativa à trombólise estão no capítulo “Déficit neurológico focal agudo”, na apostila de Síndromes do Paciente na Emergência. Se o seu paciente chegou com déficit focal, é lá que a conduta está escrita.

O que fica aqui é a metade que pertence à hipoglicemia: um déficit focal que desaparece com a correção não encerra o assunto, encerra apenas o protocolo do acidente vascular. Ele abre outro — a investigação de por que a glicemia caiu —, e essa investigação é a segunda metade deste capítulo.

6. As apresentações que não parecem nada

Há um grupo de apresentações que não chega com a palavra hipoglicemia em lugar nenhum, e que só aparece se você perguntar. A queda no banheiro de madrugada. O acidente com o carro voltando do trabalho. A briga fora de caráter. O pesadelo com sudorese que molha o travesseiro e que a pessoa conta como insônia. A dor de cabeça matinal recorrente. O “ele acordou meio bobo e depois melhorou sozinho”.

Todas essas têm em comum o fato de que o episódio já terminou quando você conversa com o paciente — e, portanto, nenhum exame de hoje vai mostrar nada. O diagnóstico dessas apresentações é retrospectivo e depende inteiramente da anamnese: horário, relação com refeição e com a dose de medicamento, quem presenciou, o que resolveu. Uma pergunta que rende muito é sobre o que a pessoa passou a fazer para evitar aquilo, porque quem tem episódios repetidos costuma já ter inventado uma solução — dormir com bala na cabeceira, comer antes de dirigir, tomar meio comprimido em vez de um.

A apresentação silenciosa é a mais séria do grupo, e tem nome: hipoglicemia sem percepção, em que o paciente já não tem sintoma autonômico nenhum e vai direto para o comprometimento cognitivo. É um estado funcional e reversível, e a única forma de identificá-lo no consultório é perguntar. Quem não sente que abaixou não tem como se defender, e o próximo episódio dele acontece sem testemunha.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação da hipoglicemia tem uma peculiaridade que nenhum outro quadro deste nível tem: ela é dividida em duas por um evento que você mesmo provoca. Antes de corrigir, existe uma janela em que o sangue circulante contém a resposta. Depois de corrigir, essa janela fecha e não reabre.

A prioridade é reconhecer e corrigir a hipoglicemia. Na pessoa sem causa evidente, organizar a amostra crítica na mesma punção se isso puder ser feito imediatamente, sem atrasar glicose. Se tubos, acesso ou equipe não permitirem, tratar primeiro e registrar a limitação; nunca prolongar neuroglicopenia para obter um conjunto ideal de exames.

1. A fita: o que ela responde, o que ela não responde e como se erra nela

A glicemia capilar é o exame mais desproporcional da medicina de urgência: custa centavos, sai em menos de um minuto, não exige que ninguém saia do lado do paciente e identifica uma causa que reverte por completo. A Rename traz o glicosímetro, as tiras reagentes e as lancetas como insumos do Componente Básico, o que significa que ela existe da unidade básica ao hospital terciário.

O procedimento tem passos que parecem burocráticos e não são. O manual do SAMU manda escolher a lateral da polpa digital, limpar com álcool a 70% e aguardar a secagem, fazer leve pressão para favorecer o enchimento capilar antes da punção, e obter volume suficiente para preencher o campo reagente. Cada um desses passos existe para evitar um erro conhecido: álcool ainda úmido dilui a gota e derruba o valor; ordenhar o dedo com força traz líquido intersticial e também derruba; gota insuficiente gera erro ou leitura baixa. Em um paciente que você está prestes a classificar como hipoglicêmico, três fontes independentes de erro empurram todas para o mesmo lado.

A leitura tem duas advertências. A primeira é para baixo: valor baixo com paciente assintomático e perfusão ruim merece repetição, de preferência em outro dedo — mas repetir não pode atrasar o tratamento de quem está com sintoma neuroglicopênico. A segunda é para cima, e é a que mais se esquece: valor normal não promove nenhuma hipótese. A fita subtrai a hipoglicemia da lista e devolve as outras exatamente do tamanho em que estavam — quem lê um número normal como confirmação de causa neurológica está tirando conclusão de um exame que respondeu outra pergunta.

Por fim, o glicosímetro é aparelho de triagem, não de diagnóstico. Ele mede sangue capilar total, com faixa de erro tolerada pela própria regulamentação, e não serve para documentar a hipoglicemia de quem não tem diabetes. Para essa finalidade, o número que vale é o da glicemia plasmática dosada em laboratório — que é o assunto da próxima seção.

2. Capilar e plasmática: por que os dois números discordam e qual deles decide o quê

A fita e o laboratório medem coisas parecidas em compartimentos diferentes e por métodos diferentes, e discordam de forma previsível. A diretriz internacional que governa a avaliação do não-diabético é explícita ao ancorar seus cortes na glicemia plasmática, e não na capilar: o limiar de 55 mg/dL abaixo do qual o adulto saudável desenvolve sintomas é plasmático.

Há uma armadilha pré-analítica que decide diagnóstico e quase ninguém ensina. O sangue coletado em tubo sem inibidor de glicólise continua consumindo glicose dentro do próprio tubo enquanto espera a centrífuga. Um tubo esquecido na bancada por uma hora devolve uma glicemia mais baixa do que a que o paciente tinha, e essa queda artificial acontece justamente na amostra que você colheu com pressa, no meio da noite, para documentar uma hipoglicemia. Se o valor que vai fundamentar uma investigação inteira sai de um tubo mal escolhido, a investigação inteira sai errada.

A divisão prática, então, é esta. Para tratar, use a fita: ela é o que existe à beira do leito, e o paciente sintomático não espera laboratório. Para documentar, use o plasma: é ele que autoriza dizer que houve hipoglicemia verdadeira e que abre a investigação do não-diabético. E, para o diabético em tratamento, a fita basta para as duas coisas, porque a causa já é conhecida e o que está em jogo é o ajuste da dose — assunto do capítulo de diabetes tipo 2 na unidade básica, aqui ao lado nesta apostila, e, no diabetes tipo 1, do capítulo “Quem fabrica a insulina agora é ele”, na posição 6.

Uma consequência disso aparece na alta. Um paciente que teve glicemia capilar de 40 mg/dL, foi corrigido e melhorou, e que não tem diabetes nem medicamento que explique, não pode receber alta com a frase “glicemia capilar baixa”. O que está documentado é uma triagem alterada; o que abre porta de investigação é o par glicemia plasmática baixa e resolução dos sintomas com a correção.

3. A tríade de Whipple: quem se investiga, e quem não se investiga

A porta de entrada da investigação é a tríade de Whipple, de 1938, que continua sendo a régua internacional: sintomas ou sinais compatíveis com hipoglicemia, concentração plasmática de glicose baixa medida durante esses sintomas, e resolução dos sintomas quando a glicemia sobe. A diretriz da sociedade internacional que governa o tema recomenda, com o grau mais alto de qualidade de evidência que ela concede, investigar apenas quem preenche os três.

Os três juntos, e a exigência tem um propósito muito prático: eliminar da fila de investigação o paciente que sente mal-estar depois de comer e atribui à “glicose baixa”, o paciente cujo glicosímetro marcou 62 mg/dL numa manhã em que ele estava bem, e o paciente que teve sintoma sem medida. Nenhum desses três preenche a tríade, e investigar qualquer um deles consome exame caro, gera achado incidental e produz rótulo.

A recíproca é a parte que interessa ao interno de plantão, porque ela é a que gera trabalho. Quem preenche a tríade tem de ser explicado. Uma mulher de 34 anos que convulsionou com glicemia de 31 mg/dL e acordou com a correção preencheu os três itens diante de testemunhas, dentro do seu pronto-socorro, e não existe alta possível com o diagnóstico de crise convulsiva a esclarecer.

Vale notar quem já está dispensado da tríade. O paciente com diabetes em uso de insulina ou secretagogo tem uma explicação pronta e plausível para a hipoglicemia, e nele a pergunta muda: não é por que caiu, é qual linha da prescrição derrubou. Nesse paciente, a régua brasileira usa 70 mg/dL como valor de alerta, e não 55.

4. A amostra crítica: o exame que só existe naquele minuto

Diante de um não-diabético hipoglicêmico, existe uma coleta que não se recupera depois, e ela tem nome: amostra crítica. Colhe-se, no momento da hipoglicemia espontânea e antes da correção, um conjunto de dosagens que só faz sentido junto: glicose plasmática, insulina, peptídeo C, pró-insulina e beta-hidroxibutirato, mais o rastreamento de hipoglicemiantes orais. Os anticorpos anti-insulina completam a lista, e esses podem ser colhidos depois. Essa prioridade diagnóstica vale somente quando a coleta é imediata e não atrasa a correção. Em convulsão, rebaixamento ou instabilidade, preparar e administrar glicose já, com coleta simultânea quando viável.

A lógica do conjunto é simples e cabe em três perguntas. Havia insulina agindo? Se sim, a insulina está alta e o beta-hidroxibutirato está suprimido, porque insulina bloqueia cetogênese — um quadro hipoglicêmico com cetose exuberante não é mediado por insulina. Se havia insulina, ela era de dentro ou de fora? O peptídeo C responde: ele é secretado pelo pâncreas junto com a insulina endógena, e a insulina de farmácia não o traz. Insulina alta com peptídeo C alto é secreção própria — tumor, hipoglicemia pós-cirurgia bariátrica, autoimune, ou uma sulfonilureia que ninguém contou. Insulina alta com peptídeo C baixo é insulina injetada.

É por isso que o rastreamento de hipoglicemiantes orais entra na mesma coleta e não é um refinamento acadêmico: sem ele, uma sulfonilureia tomada por engano — a caixa do cônjuge, o comprimido trocado na cartela semanal, o medicamento comprado por conta própria — é indistinguível de um tumor produtor de insulina. A diferença entre as duas conclusões é uma tomografia de abdome e uma cirurgia.

Operacionalmente, a coleta cabe em três tubos e não atrasa nada. Puncione a veia, colha os tubos, e injete a glicose pelo mesmo acesso em seguida. O paciente é tratado no mesmo minuto; a diferença é que a resposta ficou guardada. Onde não houver todos os exames disponíveis — e em boa parte dos serviços não haverá —, colha o soro e congele: o laboratório de referência dosa depois, desde que alguém tenha guardado o tubo.

A diretriz internacional acrescenta um teste que fecha o raciocínio e que o Brasil quase não consegue fazer: injetar 1 mg de glucagon por via endovenosa ao fim do episódio e medir a glicemia aos 10, 20 e 30 minutos. Uma subida robusta indica que o fígado ainda tem glicogênio guardado — o que só acontece quando é a insulina que está derrubando a glicose. O teste é elegante e é barato em qualquer país que tenha glucagon no elenco público; sobre a disponibilidade dele aqui, o bloco de critérios traz a conta.

Bandeja com quatro ampolas fechadas, um encaixe vazio, lancetador e tira de teste.
Reconhecer hipoglicemia e conhecer os recursos de resposta do serviço evita atrasos. O encaixe vazio lembra a necessidade de conferir disponibilidade real de materiais e medicamentos. As ampolas são genéricas e não identificam fármacos, concentrações ou uma prescrição padrão; via de correção e medidas adicionais dependem da condição clínica. Ilustração didática original.

5. As causas que o interno encontra de fato

A lista de causas de hipoglicemia é longa em qualquer livro e curta em qualquer plantão. A diretriz internacional organiza a lista por uma pergunta que resolve quase tudo: o paciente parece doente ou medicado, ou parece saudável?

No doente ou medicado — que é a esmagadora maioria do que chega — as causas são fármacos, em primeiro lugar e com folga: insulina, secretagogos e álcool. Depois vêm as doenças críticas: insuficiência hepática, renal ou cardíaca e sepse. Depois as deficiências hormonais: cortisol, glucagon, epinefrina. E, por último, tumores de células não ilhotas.

Duas dessas merecem destaque porque o interno as vê e não as nomeia. A insuficiência renal prolonga a ação da insulina e das sulfonilureias e é a razão pela qual um paciente estável há meses começa a hipoglicemiar sem que ninguém tenha mudado a dose — o que mudou foi a depuração. E a insuficiência adrenal é a causa que se apresenta como hipoglicemia com hiponatremia, hipotensão e mal-estar arrastado, e cujo tratamento inicial cabe num frasco-ampola de 100 mg de hidrocortisona, que existe no Componente Básico. Insuficiência adrenal como entidade — diagnóstico, teste de estímulo, reposição crônica — é do capítulo Insuficiência adrenal e crise addisoniana, nesta apostila; o que fica aqui é a obrigação de lembrar dela diante de uma hipoglicemia que não tem outra explicação.

No aparentemente saudável, a lista é a que exige a amostra crítica: hiperinsulinismo endógeno — insulinoma, nesidioblastose, hipoglicemia após cirurgia bariátrica —, hipoglicemia autoimune por anticorpos anti-insulina ou anti-receptor, e a hipoglicemia acidental, subreptícia ou provocada por terceiro. Esta última não é curiosidade forense: é a única do grupo que se resolve com uma pergunta e um rastreamento de sulfonilureia, e é a que mais se perde por constrangimento em perguntar.

O insulinoma fecha a lista, e como tumor ele tem capítulo — Tumores neuroendócrinos, na apostila de Oncologia; aqui fica a parte que o encontra. Ele é raro, é o diagnóstico que todo mundo lembra e quase ninguém encontra, e ele não se procura por imagem — procura-se pela bioquímica da amostra crítica, e a imagem vem depois de a bioquímica apontar. Colher a amostra é a parte que cabe ao interno; o que vem depois dela é do endocrinologista.

6. O que não se pede, e o que custa pedir

Três exames aparecem com frequência em pedido de hipoglicemia e não deveriam. O primeiro é a tomografia de crânio pedida antes da glicemia capilar em paciente confuso ou convulsivo: ela não está errada como exame, está errada como ordem, e o tempo que ela consome é tempo de cérebro sem substrato. O segundo é a curva glicêmica ou o teste de tolerância à glicose oral pedidos para investigar hipoglicemia: eles foram desenhados para diagnosticar diabetes, produzem quedas tardias em pessoas normais e transformam gente saudável em paciente. O terceiro é a insulina dosada em jejum, fora do episódio: sem hipoglicemia concomitante, o valor não significa nada.

Do outro lado, três exames baratos rendem muito e passam batido. Eletrólitos, função renal e função hepática explicam boa parte das hipoglicemias do paciente internado e mudam a prescrição do dia seguinte. O hemograma com a avaliação de infecção entra porque sepse derruba glicemia e porque o quadro confusional pode ter duas causas somadas. E o cortisol colhido junto com a amostra crítica custa pouco e é a única chance de flagrar insuficiência adrenal no momento em que ela está se manifestando.

Uma palavra sobre o que fazer quando o laboratório não tem o painel completo. Peptídeo C e pró-insulina não existem em todo serviço, e o rastreamento de sulfonilureia existe em pouquíssimos. Isso não anula a coleta: guarde o soro congelado, registre no prontuário a hora exata e a glicemia daquele momento, e encaminhe com o tubo. Um tubo congelado com hora anotada vale mais para o endocrinologista do que um resumo de alta com seis linhas de história.

07

As doses, as ampolas e o que cada documento brasileiro manda fazer

A prioridade é reconhecer e corrigir hipoglicemia pela via adequada, sem atrasar o resgate por exames ou tiamina. Depois, entender o mecanismo da causa, prever recorrência e decidir quem precisa de investigação específica. Tudo o que este capítulo pede que você calcule cabe nas quatro tabelas abaixo, e todas as contas estão feitas por extenso para um adulto de 66 quilos — o senhor Osvalindo do bloco de conduta — e para uma criança de 20 quilos onde a régua pediátrica difere. A primeira tabela mostra o que cada documento manda dar, porque eles não mandam a mesma coisa. A segunda converte miligrama em mililitro e em ampola, que é a unidade em que o remédio chega na sua mão. A terceira traz a classificação de gravidade e o que cada nível pede. A quarta pesa, contra a tabela brasileira de composição de alimentos, a lista de equivalências que o protocolo de 2026 oferece para os 15 gramas de carboidrato. No fim vêm as notas, e elas registram conferência por conferência — inclusive as que bateram.

  1. 1Paciente confuso, sonolento, sudoreico, agitado, convulsivo ou com déficit focal: fure o dedo antes de escrever a hipótese. Quarenta segundos.
  2. 2Glicemia capilar abaixo de 70 mg/dL com sintoma compatível, ou qualquer valor baixo com alteração da consciência: é para tratar agora, sem esperar laboratório.
  3. 3Antes de injetar, faça a pergunta de dois segundos: este paciente tem diabetes ou usa medicamento que explique isto? Se a resposta for não, colha a amostra crítica pelo mesmo acesso antes de correr a glicose.
  4. 4Se o paciente está acordado, coopera e engole com segurança: 15 gramas de carboidrato de absorção rápida por via oral e nova glicemia em 15 minutos. Se ainda estiver baixa, repita os 15 gramas.
  5. 5Se o paciente tem sintoma neuroglicopênico importante mas ainda engole: 30 gramas de carboidrato de absorção rápida.
  6. 6Se o paciente não engole com segurança — sonolento, confuso, pós-ictal, vomitando: nada pela boca. Nada de açúcar sob a língua em quem não engole.
  7. 7Sem via oral segura e com acesso venoso: glicose 50%, 30 a 50 mL por via endovenosa em bolus lento pelo acesso mais calibroso disponível, seguida de flush com soro fisiológico.
  8. 8Uso intenso de álcool, desnutrição, vômitos prolongados ou cirurgia bariátrica pedem atenção à deficiência de tiamina e reposição pronta. Administrar antes/junto se disponível ou logo que possível; a glicose urgente não espera e a via oral não substitui tratamento parenteral de Wernicke suspeita.
  9. 9Sem via oral e sem acesso venoso: punção intraóssea com a mesma dose de glicose, ou glucagon 1 mg por via intramuscular ou subcutânea onde ele existir — sabendo que ele não consta no elenco público e que não funciona em quem bebeu.
  10. 10Reavalie a glicemia capilar 15 minutos depois, e repita a medida no mesmo intervalo enquanto ela não ultrapassar os 100 mg/dL. Se não subiu, repita a dose e procure a segunda causa.
  11. 11Recuperada a consciência, alimente: carboidrato complexo com proteína. O bolus dura minutos; a refeição é o que sustenta.
  12. 12Instale manutenção com glicose 10% em quem usou secretagogo, insulina de ação prolongada, tem insuficiência renal, é desnutrido ou repetiu a queda.
  13. 13Procure a causa antes de represcrever a mesma dose, e registre-a na evolução: qual linha da prescrição, qual refeição que não veio, qual função que caiu.
  14. 14Sulfonilureia envolvida: observação de 48 a 72 horas. Não é sugestão de cautela — é o tempo em que a droga continua trabalhando.
  15. 15Não-diabético com tríade de Whipple completa: o episódio não se explica sozinho e não recebe alta como crise convulsiva ou lipotimia a esclarecer.
Documento brasileiro, e sua dataA partir de que glicemia manda tratar pela veiaDose de glicose a 50%Em grama, e em ampola de 10 mLO que mais a mesma ficha manda fazer
SAMU 192, ficha AC29 — Hipoglicemia (revisão de outubro de 2014)Capilar abaixo de 60 mg/dL com sinais e sintomas30 a 50 mL, por via endovenosa ou intraóssea15 a 25 g — 3 a 5 ampolasNo risco de deficiência, administrar tiamina parenteral prontamente, antes/concomitante se disponível ou assim que possível. Não adiar glicose urgente para obtê-la; repetir glicemia e titular o resgate conforme a resposta.
SAMU 192, ficha ATox 4 — Intoxicação e abstinência alcoólica (elaboração de janeiro de 2016)Capilar abaixo de 70 mg/dL40 mL, por via endovenosa20 g — 4 ampolasTiamina 300 mg por via intramuscular, se disponível, junto com o acesso venoso e a solução cristaloide
SAMU 192, ficha AC21 — Acidente vascular cerebral (revisão de outubro de 2014)Capilar abaixo de 80 mg/dL30 a 50 mL15 a 25 g — 3 a 5 ampolasAcesso venoso no membro não parético; determinar a hora de início dos sintomas; não reduzir a pressão na fase pré-hospitalar salvo os limites que a ficha define
Cadernos de Atenção Básica n. 36, Quadro 11 (2013)Diante de sinais de hipoglicemia grave, sem número25 mL, em acesso de grande calibre, à velocidade de 3 mL por minuto12,5 g — 2,5 ampolasManter veia com glicose a 10% até recuperar plenamente a consciência ou passar de 60 mg/dL; depois esquema oral; quem usa sulfonilureia fica em observação por 48 a 72 horas
Protocolo de Diabete Melito Tipo 2, Portaria SCTIE/MS nº 13, de 21 de fevereiro de 2026Não estabelece limiar para via parenteralNão menciona glicose injetávelNão se aplicaNível 1: 15 g de carboidrato por via oral, repetir em 15 minutos; nível 2, com o paciente consciente: 30 g; nível 3: indica-se a intervenção da emergência médica
Protocolo de Diabete Melito Tipo 1, Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 17, de 12 de novembro de 2019Não estabelece limiar para via parenteralNão menciona glicose injetávelNão se aplicaDefine hipoglicemia grave pela necessidade de atendimento emergencial ou de auxílio de terceiro, e usa a definição como critério de acesso a análogos de insulina
Bula profissional da solução de glicose a 50%, frasco de 500 mLIndicação textual: hipoglicemia induzida por insulina20 a 50 mL, por injeção endovenosa10 a 25 g — 2 a 5 ampolasAmostra crítica antes da correção apenas se colhida imediatamente na mesma abordagem, sem atrasar o resgate. Se não for possível, corrigir a hipoglicemia e documentar o dado que faltou.
Bula profissional da solução de glicose a 25% e a 50%, ampolas de 10 e 20 mLNão menciona hipoglicemiaPosologia definida a critério médico, sem númeroNão se aplicaIndicação registrada: fonte calórica em nutrição parenteral; administração intravenosa lenta; descartar o volume não utilizado após abrir a ampola

Miligrama, mililitro, ampola: o elenco deste capítulo num adulto de 66 quilos

Medicamento e apresentação realQuanto tem em cada unidadeA dose que o protocolo pedeQuantas ampolas ou frascos isso éO que a Rename 2024 fornece, e por qual componente
Glicose 50% (500 mg/mL), ampola plástica de 10 mL5 g de glicose por ampola30 a 50 mL, pela ficha AC29 do SAMU3 a 5 ampolasSim — glicose 500 mg/mL solução injetável, Componente Básico, código V06DC01
Glicose 50% (500 mg/mL), ampola plástica de 20 mL10 g de glicose por ampola30 a 50 mL, pela ficha AC29 do SAMU1,5 a 2,5 ampolasSim — mesma linha do elenco; o que muda é o volume da ampola do fabricante
Glicose 10% (100 mg/mL), frasco de 500 mL50 g de glicose por frascoManutenção venosa até recuperar a consciência ou passar de 60 mg/dL, pelo Quadro 11 do Caderno 361 frasco, e a taxa depende do peso e da causaSim — glicose 100 mg/mL solução injetável, Componente Básico, código V06DC01
Glicose 25% (250 mg/mL), ampola plástica de 10 mL2,5 g de glicose por ampola2 a 4 mL/kg na criança acima de 1 mês, pela ficha APed 25 do SAMU — numa criança de 20 kg, 40 a 80 mL4 a 8 ampolas numa criança de 20 kgNão — o elenco traz apenas as concentrações de 5%, 10% e 50%
Glucagon, frasco-ampola de 1 mg com seringa de 1 mL de diluente1 mg, equivalente a 1 UI, por frasco-ampola1 mg no adulto; 0,5 mg na criança abaixo de 25 kg, por via subcutânea ou intramuscular1 frasco-ampola inteiro no adulto; metade do frasco reconstituído na criança pequenaNão — glucagon não aparece nenhuma vez na Rename 2024
Cloridrato de tiamina, comprimido de 300 mg300 mg por comprimido100 mg por via intramuscular pela ficha AC29; 300 mg por via intramuscular pela ficha ATox 4Nenhuma ampola existe no elenco: a única apresentação é oralParcialmente — cloridrato de tiamina 300 mg comprimido, Componente Básico, código A11DA01; não há apresentação injetável
Succinato sódico de hidrocortisona, frasco-ampola de 100 mg100 mg de hidrocortisona base, correspondentes a 134 mg do sal100 mg por via endovenosa diante de suspeita de insuficiência adrenal aguda1 frasco-ampola de 100 mgSim — succinato sódico de hidrocortisona 100 mg e 500 mg pó para solução injetável, Componente Básico, código H02AB09
Tiras reagentes de glicemia capilar e lancetas para punção digitalUma tira e uma lanceta por medidaUma medida a cada 15 minutos até passar de 100 mg/dLDe 2 a 6 tiras num atendimento típico de hipoglicemia graveSim — os dois constam como Insumos do Componente Básico

Os três níveis do protocolo brasileiro de 2026, e o que cada um manda fazer

NívelGlicemiaComo o protocolo o chamaO que o protocolo manda fazerO que o protocolo não diz, e onde você vai buscar
1Igual ou acima de 54 e abaixo de 70 mg/dLAlerta15 g de carboidrato de absorção rápida por via oral; esperar 15 minutos; se não normalizou, repetir os 15 gNada falta aqui: é o único nível com dose, via, tempo e critério de repetição
2Abaixo de 54 mg/dLClinicamente importanteCom o paciente consciente, 30 g de carboidrato de absorção rápida — mel, açúcar ou formulação de carboidrato em gelO que fazer se o paciente não estiver consciente, que é o cenário que o próprio nível descreve ao citar confusão mental
3Independentemente do valor de glicemiaEmergênciaIndica-se a intervenção da emergência médicaToda a conduta: dose, via, apresentação, tempo de reavaliação, manutenção e tempo de observação. O que existe está na ficha AC29 do SAMU, no Quadro 11 do Caderno 36 e na bula

Os 15 gramas do protocolo de 2026, pesados contra a tabela brasileira de composição de alimentos

O que o protocolo oferece como equivalente a 15 gO que a tabela brasileira registra, por 100 gQuanto de carboidrato aquilo entrega de fatoDiferença em relação aos 15 g
150 mL de suco de laranjaLaranja pêra, suco: 7,6 g. Valência: 8,6 g. Lima: 9,2 g. Da terra: 9,6 gDe 11,4 g a 14,4 g, tomando densidade de 1 g/mLDe 24% abaixo a 4% abaixo, conforme a laranja
150 mL de refrigerante comumTipo cola: 8,7 g. Tipo guaraná: 10,0 g. Tipo laranja: 11,8 gDe 13,1 g a 17,7 g, tomando densidade de 1 g/mLDe 13% abaixo a 18% acima, conforme o sabor
1 fruta: banana, pera ou maçãBanana prata: 26,0 g. Banana nanica: 23,8 g. Maçã Fuji: 15,2 g. Pera Park: 16,1 g. Pera Williams: 14,0 gPara chegar a 15 g são precisos 58 g de banana prata, 99 g de maçã Fuji ou 107 g de pera Williams de parte comestívelA massa de fruta necessária varia 1,9 vez dentro da mesma linha da tabela
4 bolachas maisenaBiscoito doce, maisena: 75,2 gOs 15 g exigem 19,9 g de biscoito, ou seja, unidades de 4,99 g cadaSó entrega 15 g se a bolacha da marca pesar cerca de 5 g; acima disso, entrega mais
1 colher de sopa de açúcar ou melAçúcar cristal: 99,6 g. Açúcar refinado: 99,5 gPraticamente cada grama de açúcar é um grama de carboidrato: os 15 g exigem 15,1 g de açúcar cristalA dose inteira depende de quão cheia está a colher, e a colher não tem massa definida em documento nenhum

A conferência mais importante deste capítulo é uma ausência, e ela se verifica em três lugares independentes. O Ministério da Saúde nunca publicou protocolo sobre hipoglicemia: o repositório oficial traz dezesseis títulos na letra H, nenhum deles sobre o tema, e na letra D estão apenas os dois de diabete melito. A diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes tem capítulo para a cetoacidose diabética, para a cetoacidose euglicêmica, para a síndrome hiperglicêmica hiperosmolar e três para a hiperglicemia hospitalar, e nenhum para a hipoglicemia. E o protocolo brasileiro mais novo sobre diabetes, de fevereiro de 2026, encerra o assunto do nível 3 numa frase sem dose, sem via e sem droga.

O protocolo de 2026 não contém as palavras glucagon nem glicose a 50% em nenhuma passagem do texto. O de 2019, para o tipo 1, também não. Significa que os dois documentos que governam o tratamento do diabetes no Sistema Único de Saúde descrevem a hipoglicemia grave e não prescrevem nada para ela.

O manual de suporte avançado de vida do SAMU carrega, dentro de si, três limiares diferentes para injetar glicose endovenosa no adulto. A ficha de hipoglicemia manda tratar abaixo de 60 mg/dL com sintomas; a de intoxicação e abstinência alcoólica manda corrigir abaixo de 70; a de acidente vascular cerebral manda administrar glicose a 50% abaixo de 80. As três estão no mesmo volume, e a equipe aplica a que corresponder à ficha que abriu.

O mesmo manual traz duas doses de tiamina intramuscular para a mesma situação fisiológica: 100 mg na ficha de hipoglicemia e 300 mg na de intoxicação e abstinência alcoólica. A razão entre as duas é de 3 vezes. Nenhuma das duas pode ser cumprida com o elenco da Rename 2024, que traz cloridrato de tiamina apenas como comprimido de 300 mg, sem apresentação injetável.

A dose de glicose diverge entre dois documentos do próprio Ministério da Saúde, ambos em uso. O Quadro 11 do Caderno de Atenção Básica n. 36 manda 25 mL de glicose a 50%, que são 12,5 g e 2,5 ampolas de 10 mL. A ficha AC29 do SAMU manda 30 a 50 mL, que são 15 a 25 g e 3 a 5 ampolas. Entre o piso de um e o teto do outro há um fator de 2 vezes, aplicado ao mesmo paciente inconsciente.

A velocidade do Caderno 36 fecha, e vale registrar porque é a única que existe: 25 mL a 3 mL por minuto levam 25 dividido por 3, ou 8,33 minutos — oito minutos e vinte segundos de injeção lenta com o paciente inconsciente na sua frente. Nenhum outro documento brasileiro estabelece velocidade para esse bolus.

A bula da ampola de glicose a 50% — que é a apresentação da emergência, em caixas de 200 unidades de 10 mL — não contém a palavra hipoglicemia em nenhuma passagem. A indicação registrada é fonte calórica em nutrição parenteral, e a posologia remete ao critério médico sem número. A única bula que traz dose para hipoglicemia é a do frasco de 500 mL, do mesmo princípio ativo: 10 a 25 g, correspondentes a 20 a 50 mL. Quem procurar a dose na bula da ampola que tem na mão não vai encontrá-la.

A osmolaridade declarada na bula do frasco fecha exatamente: 500 g de glicose anidra por litro divididos pela massa molar de 180,16 g/mol dão 2,7753 mol/L, ou 2.775 mOsm/L, e a bula diz 2.775 mOsm/L. A equivalência entre as formas também fecha: 50 g de glicose anidra correspondem a 55,00 g de mono-hidratada pela razão entre as massas molares de 198,17 e 180,16, e a bula diz 55 g. São duas conferências que dão certo, e a segunda importa: o número de gramas que interessa ao paciente é o da anidra.

Há uma tensão interna na bula do frasco que vale conhecer antes de puxar a seringa. A mesma bula que autoriza 20 a 50 mL em injeção endovenosa na hipoglicemia declara que o medicamento é administrado por infusão lenta, após mistura com soluções de aminoácidos ou diluição em outros fluidos compatíveis, e fixa a velocidade máxima sem glicosúria em 0,5 g por quilo por hora. Nos 66 quilos do Osvalindo, isso são 33 g por hora, ou 66 mL de glicose a 50% por hora. O bolus de 25 g dado em um minuto entrega, naquele minuto, algo em torno de 45 vezes essa taxa. A discrepância é conhecida e aceita na emergência, mas quem prescreve precisa saber que a está criando de propósito.

As contas da ficha pediátrica APed 25 do SAMU fecham todas, e é justo registrar isso: 2 a 4 mL/kg de glicose a 25% correspondem a 0,5 a 1,0 g/kg, exatamente como o documento afirma, porque a solução tem 250 mg/mL; 2 a 5 mg/kg/min de glicose a 10% correspondem a 1,2 e a 3,0 mL/kg/hora, exatamente como o documento afirma; e o bolus neonatal de 200 mg/kg corresponde a 2 mL/kg de glicose a 10%. Duas aproximações menores aparecem: a manutenção neonatal de 8 mg/kg/min daria 4,8 mL/kg/hora e o documento arredonda para 5,0, uma diferença de 4,2%; e a diluição sugerida de 10 mL de glicose a 50% em 100 mL de soro glicosado a 5% resulta em 10 g em 110 mL, ou 9,09%, que o documento chama honestamente de concentração aproximada de 10%.

A ficha pediátrica prescreve uma concentração que a Rename 2024 não fornece. A APed 25 manda administrar glicose a 25% na dose de 2 a 4 mL/kg para a criança acima de 1 mês, e o elenco de medicamentos essenciais traz glicose injetável apenas a 5%, a 10% e a 50%. Numa criança de 20 quilos, a dose da ficha corresponde a 40 a 80 mL, ou 4 a 8 ampolas de 10 mL de uma apresentação que existe no mercado e não no elenco.

A lista de equivalências dos 15 gramas do protocolo de 2026 não fecha contra a tabela brasileira de composição de alimentos, e a variação está toda para dentro de uma mesma linha. Os 150 mL de suco de laranja entregam 11,4 g se a laranja for pêra e 14,4 g se for da terra — abaixo dos 15 g em todas as variedades tabeladas. Os 150 mL de refrigerante comum entregam 13,1 g no tipo cola e 17,7 g no tipo laranja. E a linha da fruta é a mais aberta: para chegar aos mesmos 15 g são precisos 58 g de banana prata ou 107 g de pera Williams, uma variação de 1,9 vez. O problema é do próprio documento, que na frase seguinte adverte ser fundamental controlar a quantidade de carboidratos ingeridos para evitar picos de hiperglicemia.

Ainda na mesma lista, o protocolo diz que alimentos com gordura retardam a resposta glicêmica aguda e omite a fibra, que faz o mesmo. Três dos itens oferecidos — banana, pera e maçã — são frutas inteiras, e a pera Park registra 3,0 g de fibra alimentar por 100 g. Uma fruta inteira não é carboidrato de absorção rápida no mesmo sentido em que um copo de refrigerante é, e a diferença aparece justamente nos 15 minutos que o protocolo manda esperar antes de repetir.

A conversão entre sal e base da hidrocortisona fecha: 100 mg de hidrocortisona base multiplicados pela razão entre as massas molares do succinato sódico e da hidrocortisona, 484,52 sobre 362,46, dão 133,7 mg, e a bula declara 134 mg. Para o frasco de 500 mg a conta dá 668,4 mg e a bula declara 670 mg, um arredondamento de 0,24%. Importa porque o que se prescreve e o que se administra é a base: 100 mg de hidrocortisona são um frasco-ampola inteiro de 100 mg.

Uma última conferência, esta sobre disponibilidade e não sobre aritmética. A octreotida, que é o antídoto racional da hipoglicemia por sulfonilureia porque inibe a secreção de insulina, existe na Rename 2024 — mas só no Componente Especializado e com o protocolo de acromegalia como documento norteador. Ou seja: existe no elenco e não existe no plantão. O diazóxido não aparece. Isso encerra a discussão sobre o que fazer com o rebote da sulfonilureia no Brasil: sobra glicose de manutenção e tempo de observação.

08

A conduta, hora a hora

O tratamento da hipoglicemia grave é uma das poucas condutas deste nível em que a ordem cronológica é o conteúdo inteiro. Não há decisão difícil, não há droga cara, não há exame que atrase — há uma sequência de sete minutos que, feita na ordem, resolve, e que, feita fora de ordem, produz sequela, recorrência ou um diagnóstico perdido para sempre.

A linha do tempo abaixo segue o senhor Osvalindo Piatti, 72 anos, 66 quilos, aposentado, encontrado confuso e sudoreico pelo vizinho às três e meia da madrugada, com glicemia capilar de 27 mg/dL às quatro e dez. Ele tem diabetes tipo 2 há dezoito anos e trouxe, no bolso da camisa do vizinho, duas cartelas: glibenclamida de 5 mg e uma caneta de insulina humana de ação intermediária.

Duas coisas ficam de fora de propósito, e vale dizer onde estão. O ajuste ambulatorial da dose, a escolha entre glibenclamida e gliclazida, o afrouxamento de meta no idoso e a orientação escrita de hipoglicemia estão no capítulo de diabetes tipo 2 na unidade básica, na posição 2 desta mesma apostila; no paciente com diabetes tipo 1, por que a hipoglicemia aconteceu e qual dose muda depois dela estão no capítulo de diabetes mellitus tipo 1 e insulinoterapia, “Quem fabrica a insulina agora é ele”, na posição 6. A hipoglicemia produzida pela prescrição de insulina dentro da enfermaria — a capilar das três da manhã, a redução da basal, a dieta suspensa sem aviso — está no capítulo de hiperglicemia hospitalar, dentro de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado. O que segue é o episódio agudo diante de você.

  1. Minuto 0 — o que se faz antes de saber qualquer coisa

    Confirmada a responsividade, a respiração e o pulso, três coisas acontecem ao mesmo tempo e nenhuma delas espera pela outra: cabeceira e posicionamento que protejam a via aérea, monitorização, e a lanceta. A glicemia capilar entra na avaliação secundária de todo paciente com alteração do nível de consciência, com convulsão ou com sinais de hipo ou hiperglicemia, e é a primeira das quatro palavras do plantão — fita, exame, acesso, laboratório. O Osvalindo está sonolento, responde ao chamado com uma frase incompleta e volta a fechar os olhos. Não é candidato a nada pela boca. A fita dá 27 mg/dL. Registre a hora. Ela vai importar duas vezes: para medir a resposta e, se este fosse um paciente sem explicação, para acompanhar a amostra crítica.

    Prescrição
    • Glicemia capilar imediata, sem triagem prévia.
    • Decúbito lateral se não houver suspeita de trauma; aspiração se houver secreção.
    • Oxigênio por máscara não reinalante a 10 a 15 L/min se a saturação estiver abaixo de 94%.
    • Monitorização cardíaca, oximetria e sinais vitais.
    • Registrar no prontuário a hora exata da medida e o valor.
  2. Minuto 1 — a pergunta de dois segundos, e a única coisa que se colhe antes de tratar

    Antes de injetar, uma pergunta: existe medicamento ou doença que explique esta hipoglicemia? No Osvalindo, existe — duas cartelas no bolso do vizinho respondem. Nele, a glicose entra imediatamente. Se a resposta fosse não, o mesmo minuto teria mais um passo: puncionar a veia, colher os tubos da amostra crítica e só então injetar pelo mesmo acesso. É o que vai acontecer com a Maurina, no leito ao lado. A regra prática que vale para os dois: a punção venosa que você já vai fazer para injetar é a mesma que colhe o sangue. Não existe cenário em que colher atrase o tratamento — existe cenário em que não colher apaga a resposta.

    Prescrição
    • Acesso venoso periférico calibroso, de preferência em veia de grande calibre do antebraço.
    • No paciente sem diabetes e sem droga que explique: colher glicose plasmática, insulina, peptídeo C, pró-insulina, beta-hidroxibutirato, cortisol e rastreamento de hipoglicemiantes orais antes de administrar a glicose.
    • Colher também função renal, função hepática, eletrólitos e hemograma.
    • Onde o painel completo não existir: colher o soro, centrifugar e congelar, anotando a hora.
  3. Minuto 2 — a boca: quem recebe por ela, quem não recebe, e a conta dos 15 gramas

    A via oral é a de primeira escolha em todo paciente acordado, cooperativo e capaz de deglutir com segurança, e é a que resolve a maioria dos episódios que nunca chegam ao hospital. São 15 g de carboidrato de absorção rápida, nova medida em 15 minutos e repetição dos 15 g se não normalizou. Diante de sintoma neuroglicopênico em paciente ainda consciente, o protocolo brasileiro de 2026 dobra a dose inicial para 30 g. A parte que ninguém confere é o que são 15 g. Uma colher de sopa de açúcar chega perto, porque o açúcar cristal é 99,6% carboidrato e a única variável é o quanto cabe na colher. Um copo pequeno de refrigerante comum entrega entre 13 e 18 g conforme o sabor. Um copo de suco de laranja entrega entre 11 e 14 g. Fruta inteira entrega quantidade muito variável e ainda traz fibra, que atrasa. A tabela do bloco de critérios traz cada uma dessas contas. O Osvalindo não entra aqui, e é neste ponto que o erro mais comum do capítulo acontece: nada de água com açúcar, nada de suco, nada de bala e nada de açúcar sob a língua em paciente sonolento, confuso, pós-ictal ou que acabou de convulsionar. O risco é broncoaspiração em quem já tem a proteção de via aérea comprometida, e uma pneumonia aspirativa transforma um evento de dez minutos numa internação de dez dias. Há um documento brasileiro que orienta o contrário para o cenário domiciliar, e essa divergência está registrada no bloco próprio deste capítulo.

    Prescrição
    • Paciente acordado e deglutindo: 15 g de carboidrato de absorção rápida por via oral.
    • Sintoma neuroglicopênico com paciente ainda consciente: 30 g.
    • Nova glicemia capilar em 15 minutos; repetir a dose se não passou de 70 mg/dL.
    • Evitar chocolate, leite e biscoito recheado nesta fase: a gordura atrasa a resposta.
    • Suspender toda via oral enquanto houver rebaixamento da consciência; aspirar e manter decúbito lateral se houver secreção.
  4. Minuto 4 — a veia: a dose, a ampola, e por que em quem bebe a ordem das injeções não é indiferente

    O Osvalindo tem acesso. A régua brasileira mais operacional para o adulto é a ficha AC29 do SAMU: 30 a 50 mL de glicose a 50% por via endovenosa ou intraóssea, com repetição da glicemia e da dose se os sintomas persistirem. Em ampola de 10 mL, isso são 3 a 5 ampolas; em ampola de 20 mL, 1,5 a 2,5. Em grama, 15 a 25 g. Escolhemos 40 mL para ele — 20 g, 4 ampolas de 10 mL —, valor que fica no meio da faixa e coincide com o que a ficha de intoxicação alcoólica do mesmo manual prescreve. O calibre e a veia não são detalhe. A solução tem osmolaridade de 2.775 mOsm/L e pH baixo, e a própria bula avisa que pode causar dor local, irritação da veia, tromboflebite e necrose tecidual em caso de extravasamento. Use a veia mais calibrosa disponível, confirme o refluxo antes de empurrar, empurre devagar e lave o acesso com soro fisiológico depois. Na sala ao lado, o homem de 54 anos que a viatura trouxe da calçada, com glicemia de 38 mg/dL e hálito etílico, muda a ordem. A ficha AC29 manda administrar tiamina 100 mg por via intramuscular antes da glicose, para prevenção de encefalopatia, em paciente etilista, hepatopata ou desnutrido; a ficha ATox 4, do mesmo manual, manda 300 mg. A dificuldade é logística e é grave: a Rename 2024 traz cloridrato de tiamina apenas como comprimido de 300 mg, sem apresentação injetável, o que significa que a ampola, quando existe no serviço, chegou por compra local. A regra que resolve o impasse à beira do leito: aplique a tiamina antes se ela estiver na bandeja, e não deixe a procura por uma ampola que pode não existir atrasar a glicose de quem está em coma. Um cérebro sem glicose lesa em minutos; a carga glicêmica isolada é um risco de encefalopatia num organismo já depletado, e o que se faz nesse caso é aplicar a tiamina assim que ela aparecer, na mesma hora.

    Prescrição
    • Glicose 50%, 40 mL por via endovenosa em bolus lento pelo acesso mais calibroso, seguidos de 10 mL de soro fisiológico a 0,9% para lavar o acesso. Corresponde a 20 g e a 4 ampolas de 10 mL.
    • Confirmar refluxo antes de injetar e vigiar o sítio durante toda a injeção.
    • No risco de deficiência de tiamina, administrar a apresentação parenteral prontamente conforme indicação e protocolo local, antes ou concomitante se já disponível, mas nunca atrasar glicose urgente. Dose preventiva e tratamento de suspeita de Wernicke são regimes distintos.
    • Não aguardar a tiamina para injetar glicose em paciente em coma ou convulsivo; solicitá-la à farmácia no mesmo minuto e aplicá-la assim que chegar.
    • Repetir a glicemia capilar 15 minutos após o término da injeção e repetir a dose se permanecer abaixo de 70 mg/dL.
  5. Minuto 5 — quando não há veia

    É o cenário em que o Brasil fica mais pobre do que os protocolos internacionais sugerem, e o interno precisa saber disso antes de precisar. As opções, na ordem prática: insistir na veia com um segundo profissional e um garrote melhor; punção intraóssea, que a ficha AC29 explicitamente autoriza para a mesma dose de glicose; e glucagon 1 mg por via intramuscular ou subcutânea. O glucagon vem com quatro limitações que precisam ser ditas juntas. Primeira: não consta na Rename 2024 e não aparece nas 638 páginas do manual do SAMU, o que significa que ele não está comprado no elenco público e você não deve contar com ele. Segunda: a bula o indica para reações hipoglicêmicas graves em pessoas com diabetes tratadas com insulina, e não para o resto. Terceira, e é a que decide: a própria bula declara que o glucagon tem pouco ou nenhum efeito em jejum prolongado, em hipoglicemia crônica e em hipoglicemia causada por ingestão excessiva de álcool — ou seja, ele falha exatamente no paciente sem veia que mais aparece na madrugada. Quarta: é pó liofilizado guardado entre 2 e 8 °C, que precisa ser reconstituído e usado imediatamente. Quando ele funciona, funciona rápido: a resposta aparece em cerca de dez minutos, e a bula manda administrar glicose endovenosa se em dez minutos não houver resposta. E manda dar carboidrato pela boca assim que a pessoa recuperar a consciência, porque o glucagon esgota o glicogênio hepático que ele acabou de mobilizar — sem essa reposição, a hipoglicemia volta.

    Prescrição
    • Sem veia: punção intraóssea com a mesma dose de glicose a 50%.
    • Onde houver glucagon: 1 mg por via subcutânea ou intramuscular no adulto; 0,5 mg abaixo de 25 kg. Um frasco-ampola por dose no adulto.
    • Após glucagon: glicose endovenosa se não houver resposta em 10 minutos.
    • Após a recuperação: carboidrato por via oral, obrigatoriamente, para repor o glicogênio hepático.
  6. Minuto 20 — a reavaliação, e o que fazer quando não subiu

    Quinze minutos depois do bolus, a capilar do Osvalindo dá 96 mg/dL e ele está acordado, orientado no tempo e reclamando do frio da sala. É o desfecho esperado, e é justamente aqui que o plantão comete o erro de considerar o caso encerrado. Se a glicemia não tivesse subido, três explicações competiriam, e a ordem para verificá-las é esta: a dose foi insuficiente ou extravasou — repita e confira o acesso; existe uma segunda causa somada, e o rebaixamento não era só da hipoglicemia — procure sepse, intoxicação, lesão estrutural, distúrbio do sódio; ou a causa continua produzindo insulina, e o bolus está sendo consumido em tempo real — é a sulfonilureia, e a resposta a ela não é repetir bolus indefinidamente, é instalar manutenção. E se a glicemia subiu mas o paciente não acordou, a leitura muda de novo. Um período pós-ictal explica sonolência por dezenas de minutos com glicemia já normal. Uma hipoglicemia muito prolongada pode deixar rebaixamento residual. E existe a possibilidade que ninguém gosta: as duas coisas ao mesmo tempo. O que decide é o tempo — reavalie em intervalos curtos e escreva a evolução hora a hora.

    Prescrição
    • Glicemia capilar a cada 15 minutos até ultrapassar 100 mg/dL, e depois a cada hora nas primeiras 4 horas.
    • Alvo: manter acima de 100 mg/dL, e não apenas acima de 70.
    • Reexaminar o nível de consciência a cada medida e registrar.
    • Se a glicemia normalizou e o paciente não melhorou em 30 minutos: procurar a segunda causa, aí sim com laboratório e imagem.
  7. Hora 1 — a refeição, a manutenção e a causa

    Três coisas acontecem juntas nesta hora, e nenhuma delas é opcional. A primeira é comer. O bolus de glicose hipertônica dura minutos; o que sustenta a glicemia nas horas seguintes é carboidrato complexo com proteína — pão com queijo, bolacha com leite, a bandeja da copa. O Quadro 11 do Caderno 36 diz exatamente isso ao mandar manter esquema oral depois da correção venosa. A segunda é a manutenção venosa. O mesmo Quadro 11 manda manter veia com glicose a 10% até o paciente recuperar plenamente a consciência ou a glicemia passar de 60 mg/dL. Em quem usou secretagogo, insulina de ação prolongada, tem insuficiência renal, é desnutrido ou já repetiu a queda, essa manutenção não é opcional e não termina em uma hora. A terceira é achar a causa, e a causa quase sempre está escrita numa receita. No Osvalindo: glibenclamida de 5 mg, com 72 anos e creatinina que ainda vai voltar; a droga não é recomendada a partir dos 60 anos e é depurada pelo rim. Some-se a isso o que o vizinho conta quando você pergunta direito — que ele jantou pouco porque estava sem apetite desde ontem. Uma sulfonilureia de meia-vida longa, uma refeição que não veio e um rim de 72 anos: os três juntos são o diagnóstico completo, e nenhum deles aparece na fita.

    Prescrição
    • Dieta: carboidrato complexo com proteína assim que o nível de consciência permitir.
    • Soro glicosado a 10%, 500 mL por via endovenosa, mantido enquanto durar o risco de recorrência.
    • Suspender a glibenclamida e registrar a suspensão na prescrição e na evolução, com o motivo.
    • Creatinina, ureia, sódio, potássio, hemograma e função hepática.
    • Anotar na evolução as três causas somadas: droga, jejum e função renal.
  8. Horas 2 a 72 — o rebote, e quem não vai para casa

    Esta é a decisão que separa o plantão que resolveu do plantão que devolveu o paciente para a próxima madrugada. Uma sulfonilureia continua estimulando a célula beta por muito mais tempo do que dura o seu bolus, e cada carga de glicose que você oferece volta a estimulá-la. É o rebote, e ele tem hora marcada: reaparece quando a manutenção termina, tipicamente de madrugada, tipicamente com o paciente já em casa. O Quadro 11 do Caderno de Atenção Básica n. 36 é o documento brasileiro que fixa o prazo, e ele é claro: pacientes que recebem sulfonilureias devem ser observados por 48 a 72 horas para detectar possível recorrência. Não é excesso de zelo: é a farmacocinética da droga somada à função renal do paciente. O Osvalindo fica. Fica com glicemia capilar a cada 4 horas nas primeiras 24, soro glicosado a 10% em manutenção, dieta oferecida a cada 3 horas, glibenclamida suspensa e um plano de saída que não é o mesmo com que ele entrou. E, se você quiser saber o que substitui a glibenclamida na receita dele e como se afrouxa a meta de um idoso com episódio grave documentado, o capítulo de diabetes tipo 2 na unidade básica, na posição 2 desta apostila, resolve isso melhor do que este. A regra para quem não usou sulfonilureia: hipoglicemia por insulina de ação rápida, com causa identificada e corrigida, paciente acordado, alimentado e com acompanhante em casa, pode receber alta depois de um período de observação e de uma refeição feita dentro do serviço. Hipoglicemia sem causa identificada não recebe alta com a causa em aberto, tenha ou não o paciente diabetes.

    Prescrição
    • Internação em observação por 48 a 72 horas para todo episódio grave envolvendo sulfonilureia.
    • Glicemia capilar de 4 em 4 horas nas primeiras 24 horas, incluindo a madrugada.
    • Soro glicosado a 10% em manutenção enquanto durar a observação, com dieta oferecida a cada 3 horas.
    • Glibenclamida suspensa; revisão de toda a prescrição domiciliar antes da alta.
    • Alta com orientação escrita, entregue e lida em voz alta, e com retorno marcado na unidade básica.
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Como saber se está funcionando

Sete parâmetros governam as primeiras 72 horas depois de um episódio grave, e cada um tem um relógio próprio. O erro típico não é deixar de olhar nenhum deles: é olhar só o primeiro, ver o número bonito e considerar o caso encerrado.

Vale uma advertência sobre o alvo. Corrigir até 70 mg/dL é sair do território do dano imediato, não é estar seguro: 70 é o limiar de alerta do protocolo brasileiro, e um paciente que está em 72 mg/dL com uma sulfonilureia trabalhando está a poucos minutos de voltar. Trate para passar de 100.

Glicemia capilarA cada 15 minutos até ultrapassar 100 mg/dL; depois, de hora em hora nas primeiras 4 horas; depois, de 4 em 4 horas nas primeiras 24 horas, incluindo a madrugada.

Esperado: Subida acima de 100 mg/dL dentro de 15 minutos após o bolus, e permanência acima disso sem novas doses de resgate.

Se não melhora: Se não subiu: confira o acesso, repita a dose e considere segunda causa. Se subiu e voltou a cair antes da próxima medida programada, o problema não é a dose do bolus — é que a causa continua trabalhando, e a resposta é manutenção venosa contínua, não bolus repetido.

Nível de consciênciaA cada medida de glicemia, com registro do que o paciente respondeu e não apenas de uma escala.

Esperado: Recuperação progressiva a partir da normalização da glicemia; pacientes que convulsionaram podem levar dezenas de minutos.

Se não melhora: Glicemia acima de 100 mg/dL por mais de 30 minutos com o paciente ainda rebaixado obriga a procurar a segunda causa: sepse, intoxicação, distúrbio do sódio, lesão estrutural, estado de mal não convulsivo. Neste ponto, a tomografia que era desnecessária no minuto zero passa a ser indicada.

A droga que causou, e o relógio delaNa primeira hora, e revisto a cada plantão enquanto durar a observação.

Esperado: Uma causa nomeada na evolução: qual medicamento, qual dose, quando foi tomado, e o que mudou nas últimas 48 horas — refeição, função renal, atividade, ingestão de álcool.

Se não melhora: Se nenhuma causa explica o episódio, organizar investigação de hipoglicemia no não diabético. Se não foi possível colher amostra crítica, não deixar o paciente hipoglicêmico nem provocar recorrência: planejar com endocrinologia avaliação monitorizada. Um novo episódio espontâneo deve ser tratado prontamente, com coleta simultânea quando viável.

O sítio de infusãoDurante toda a injeção do bolus e a cada troca de plantão enquanto houver soro glicosado correndo.

Esperado: Acesso pérvio, sem dor, sem edema, sem eritema no trajeto da veia.

Se não melhora: Dor, endurecimento ou palidez local durante a injeção obrigam a parar imediatamente: a solução tem 2.775 mOsm/L e a bula descreve tromboflebite e necrose tecidual no extravasamento. Interrompa, aspire pelo cateter antes de retirar, eleve o membro e registre. A dose que faltou vai por outro acesso.

Alimentação efetivamente ingeridaAssim que o nível de consciência permitir, e a cada 3 horas enquanto durar a observação.

Esperado: Refeição com carboidrato complexo e proteína aceita de fato, e não apenas oferecida e registrada como oferecida.

Se não melhora: Paciente que recusa, vomita ou aceita mal é paciente que vai repetir a queda quando a manutenção venosa terminar. Nesse caso a manutenção não é retirada, e a causa da recusa entra na investigação — náusea, dor, delirium ou a própria doença que o trouxe.

PotássioNa primeira coleta e uma vez por dia enquanto houver infusão contínua de glicose.

Esperado: Potássio dentro da faixa. A oferta de glicose desloca potássio para dentro da célula, e um paciente que já vinha com potássio baixo pode cair mais.

Se não melhora: A conduta da hipocalemia — quanto repor, por qual via, em quanto tempo e por que a velocidade importa — é do capítulo de potássio na enfermaria, dentro de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado. Aqui, a obrigação é uma só: lembrar de dosar.

Percepção dos sintomas pelo pacienteUma vez, com calma, antes da alta, e de novo no retorno.

Esperado: Que ele descreva o que sentiu antes de perder a consciência. Quem descreve tremor, suor e fome tem defesa preservada.

Se não melhora: Quem responde que não sentiu nada tem hipoglicemia sem percepção, um estado funcional e reversível que exige metas mais frouxas por algumas semanas e que muda a receita de saída. Essa conversa e esse ajuste pertencem ao acompanhamento na unidade básica, e o capítulo de diabetes tipo 2 desta apostila traz a régua.

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Onde o erro machuca

Não furar o dedo porque o quadro não parece hipoglicemia

O dano: É o erro que gera todos os outros, e ele nunca se apresenta como erro: apresenta-se como um diagnóstico plausível escrito na ficha antes do número. Idoso confuso vira delirium; homem com hálito etílico vira embriaguez; adulto que convulsionou vira primeira crise a esclarecer; hemiparesia vira acidente vascular cerebral. Enquanto o rótulo é investigado, o cérebro segue sem substrato, e a janela de reversão completa se fecha.

Como pegar a tempo: Inverta a ordem: a fita antes da hipótese, em todo paciente com alteração do nível de consciência, convulsão, agitação, sudorese inexplicada, déficit focal ou queda sem causa. Custa quarenta segundos e uma tira reagente que está no Componente Básico. Quando der normal, você perdeu quarenta segundos e ganhou uma hipótese a menos.

Colocar açúcar na boca de quem não engole

O dano: Broncoaspiração em paciente com proteção de via aérea comprometida. Um episódio que se resolveria em dez minutos com uma injeção vira pneumonia aspirativa, antibiótico, oxigênio e uma internação de dias — e o quadro pulmonar aparece horas depois, quando ninguém mais liga uma coisa à outra.

Como pegar a tempo: Regra sem exceção dentro do serviço: enquanto houver rebaixamento do nível de consciência, nada pela boca. A via é a veia, e na ausência dela a intraóssea. A instrução domiciliar do Caderno de Atenção Básica n. 36, que orienta açúcar ou mel entre a gengiva e a bochecha, foi escrita para quem está longe de qualquer serviço e sem alternativa nenhuma.

Parar no bolus

O dano: O bolus de glicose hipertônica sustenta a glicemia por minutos. Sem refeição e sem manutenção venosa, a curva volta a cair, e ela cai quando a equipe já mudou de paciente — tipicamente no meio da madrugada, com o caso considerado resolvido na passagem de plantão.

Como pegar a tempo: Trate o bolus como o primeiro dos três atos, não como o tratamento. Ato dois: comida de verdade, carboidrato complexo com proteína, assim que a consciência permitir. Ato três: soro glicosado a 10% em manutenção sempre que houver secretagogo, insulina de ação prolongada, insuficiência renal, desnutrição ou uma segunda queda.

Dar alta a quem tomou sulfonilureia

O dano: A droga continua estimulando a secreção de insulina por muito mais tempo do que dura qualquer bolus, e cada carga de glicose reabastece o estímulo. O paciente sai bem, come em casa, e volta de madrugada — ou não volta. Em quem tem função renal reduzida, a janela de recorrência é ainda maior.

Como pegar a tempo: Observação de 48 a 72 horas, que é o prazo que o Quadro 11 do Caderno de Atenção Básica n. 36 fixa para quem recebe sulfonilureias. Não existe atalho farmacológico disponível: a octreotida consta na Rename 2024 apenas no Componente Especializado, com o protocolo de acromegalia como documento norteador, e o diazóxido não consta. Sobram glicose e tempo.

Corrigir e não colher, no paciente que não tem explicação

O dano: É o único erro deste capítulo que é irreversível. A informação que responde à pergunta está no sangue que circula durante a hipoglicemia, e a correção destrói essa informação. Depois disso, o paciente ou fica sem diagnóstico, ou é submetido a uma investigação muito mais longa, mais cara e menos conclusiva — às vezes com um jejum supervisionado de até 72 horas em ambiente hospitalar.

Como pegar a tempo: Faça a pergunta de dois segundos antes de empurrar a seringa: existe diabetes, insulina, secretagogo, álcool ou doença crítica que explique? Se não existe, colha pelo mesmo acesso — glicose plasmática, insulina, peptídeo C, pró-insulina, beta-hidroxibutirato, cortisol e rastreamento de hipoglicemiantes orais — e injete em seguida. Onde o painel não existir, guarde o soro congelado com a hora anotada.

Tratar a hipoglicemia do etilista sem lembrar da ordem, ou usar a ordem como desculpa para atrasar a glicose

O dano: O erro tem duas caras opostas e as duas produzem dano. Numa, a carga de glicose entra em um organismo com estoque de tiamina esgotado e consome o resíduo de cofator, com risco de precipitar encefalopatia. Na outra, o plantão segura a glicose de um paciente em coma enquanto alguém procura uma ampola de tiamina que o elenco público não fornece.

Como pegar a tempo: Tenha a resposta pronta antes do plantão: descubra se o seu serviço tem tiamina injetável comprada localmente e onde ela fica. Havendo, aplique antes. Não havendo, injete a glicose e aplique a tiamina assim que ela chegar, registrando na evolução que ela não estava disponível — o registro é o que faz o serviço comprar.

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O que dizer ao paciente e à família

A hipoglicemia grave produz duas conversas difíceis quase sempre: uma com quem viu e não entendeu, e outra com quem viveu e não lembra. E produz uma terceira, mais delicada que as duas, quando o paciente não tem diabetes e a resposta ainda não existe.

Há um traço comum às sete falas abaixo: nenhuma delas serve para tranquilizar. A hipoglicemia grave assusta com razão, e o objetivo da conversa não é reduzir o susto — é convertê-lo em comportamento.

Explicar ao acompanhante o que acabou de acontecer, ainda na sala

“O açúcar do sangue dele caiu muito, e foi isso que deixou ele confuso desse jeito. Já corrigimos pela veia e ele já está acordado. Não foi derrame e não foi problema da cabeça: era o açúcar, e o açúcar a gente conserta em minutos. O que a gente vai fazer agora é descobrir por que caiu, porque isso é que decide se vai acontecer de novo.”

Não diga: Não diga “foi só uma hipoglicemia”. O “só” é falso — o episódio foi grave por definição, exigiu terceiros e trouxe risco real — e ele mina toda a conversa seguinte sobre por que o paciente vai ficar internado.

Perguntar sobre álcool sem transformar a pergunta em acusação

“Preciso te perguntar sobre bebida, e não é para julgar nada: é porque bebida derruba o açúcar do sangue de um jeito específico e muda o remédio que eu vou usar agora. Quanto o senhor bebeu nas últimas 24 horas, e quando foi a última vez que comeu alguma coisa?”

Não diga: Não pergunte “o senhor bebe?”, que convida ao não. E não faça a pergunta na frente de acompanhante que o paciente não escolheu ter ali.

Descobrir o comprimido que não estava na receita

“Vou perguntar de um jeito específico. Além dos remédios do senhor, o senhor tomou nas últimas 24 horas algum comprimido de outra pessoa da casa, algum que sobrou de um tratamento antigo, ou algum que comprou por conta própria? Não tem problema nenhum, e me ajuda muito saber.”

Não diga: Não aceite a primeira negativa como final quando não há explicação para o episódio. Peça para alguém trazer todas as caixas de casa, inclusive as dos outros moradores, e confira você mesmo — o comprimido trocado na cartela semanal é comum e ninguém o descobre por interrogatório.

Dizer a quem não tem diabetes que a hipoglicemia é um achado, e não um diagnóstico

“O que a senhora teve foi uma queda do açúcar do sangue, e ela explica a convulsão inteira. Mas a senhora não tem diabetes e não toma remédio nenhum, e uma pessoa como a senhora não deveria conseguir chegar nesse número. Então a queda é a resposta de uma pergunta e é o começo de outra: por que o açúcar caiu. Isso a gente investiga, e é por isso que a senhora vai ficar aqui.”

Não diga: Não use “hipoglicemia reativa”, “hipoglicemia funcional” ou “é normal, foi o jejum”. As três frases encerram a investigação antes de ela começar, e nenhuma delas se aplica a quem convulsionou.

Combinar a coleta do sangue no momento do sintoma, com quem vai para casa investigar

“O exame que responde essa pergunta só serve se for colhido enquanto a senhora está passando mal. Depois que passa, ele não mostra mais nada. Então o combinado é este: se acontecer de novo, a senhora vem direto para cá, e na porta a senhora diz esta frase — preciso colher sangue antes de tomar açúcar. Vou deixar escrito num papel para a senhora levar na bolsa.”

Não diga: Não confie na memória do paciente nem na do serviço. Escreva o papel, liste os exames pelo nome e coloque a sua assinatura e a data. O papel é o que faz a coleta acontecer numa madrugada em que ninguém conhece o caso.

Explicar por que ele vai ficar internado 48 a 72 horas por uma coisa que já passou

“O senhor está bem agora, e vai continuar bem enquanto o soro estiver correndo. O remédio que derrubou o açúcar continua trabalhando por dois ou três dias, e ele não sabe que o senhor já foi tratado. Se o senhor for para casa hoje, a chance de isso se repetir de madrugada, sozinho, é grande. Por isso o senhor fica: não é porque piorou, é porque o remédio ainda está lá.”

Não diga: Não deixe essa explicação para o momento da recusa. Dê a informação assim que o paciente acorda, quando ainda não há uma decisão tomada para desmanchar.

Descobrir se ele perdeu o aviso

“Quando o açúcar do senhor abaixa, o senhor sente antes? Sente tremor, suor frio, fome, o coração acelerado? Ou o senhor só descobre quando alguém fala que o senhor ficou estranho?”

Não diga: Não aceite “às vezes” como resposta. Peça um exemplo concreto do último episódio: quem percebeu primeiro, o senhor ou outra pessoa. A resposta muda a meta de tratamento dele e é a única forma de identificar hipoglicemia sem percepção fora de um centro especializado.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Quanto de glicose hipertônica se injeta num adulto inconsciente

25 mL de glicose a 50%, a 3 mL por minuto, seguidos de manutenção com glicose a 10% — Ministério da Saúde, 2013

O Quadro 11 do Caderno de Atenção Básica n. 36 instrui o serviço de saúde a administrar 25 mL de glicose a 50% por via endovenosa em acesso de grande calibre, à velocidade de 3 mL por minuto, e a manter veia com glicose a 10% até a recuperação plena da consciência ou glicemia acima de 60 mg/dL. São 12,5 g, ou 2,5 ampolas de 10 mL, e uma injeção que leva 8 minutos e 20 segundos. A lógica é de dose mínima eficaz seguida de sustentação, com menos carga osmótica de uma vez e menor risco de hiperglicemia de rebote.

Brasil. Ministério da Saúde. Estratégias para o cuidado da pessoa com doença crônica: diabetes mellitus. Cadernos de Atenção Básica, n. 36. Brasília, 2013, Quadro 11

30 a 50 mL de glicose a 50%, repetindo se os sintomas persistirem — Ministério da Saúde, 2014

A ficha AC29 do manual de suporte avançado de vida do SAMU 192 instrui a administrar 30 a 50 mL de glicose a 50% por via endovenosa ou intraóssea diante de glicemia capilar abaixo de 60 mg/dL com sintomas, repetindo a glicemia e a dose em caso de persistência. São 15 a 25 g, ou 3 a 5 ampolas de 10 mL, sem velocidade estabelecida e sem manutenção prescrita. A lógica é a do atendimento pré-hospitalar: reverter depressa, com margem, num paciente que vai ser transportado.

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolos de Suporte Avançado de Vida, SAMU 192, ficha AC29 — Hipoglicemia, revisão de outubro de 2014

Como decidir

Os dois documentos são do mesmo Ministério, os dois estão em uso, e entre o piso de um e o teto do outro há um fator de 2 vezes. Decida pelo paciente e pelo lugar. Num serviço com laboratório, monitorização e possibilidade de manutenção venosa, a dose menor com sustentação é defensável e produz menos oscilação. Num paciente em coma, em convulsão, sem monitorização ou prestes a ser transportado, a dose maior é a que reverte com margem. O que não é defensável em nenhum dos dois cenários é a dose alta sem manutenção em quem usou sulfonilureia — porque aí a discussão sobre o bolus é secundária, e o que decide o desfecho são as 48 a 72 horas seguintes.

Açúcar na boca de quem não consegue engolir

Colocar açúcar ou mel sob a língua ou entre a gengiva e a bochecha, e levar imediatamente ao serviço — Ministério da Saúde, 2013

O Quadro 11 do Caderno de Atenção Básica n. 36 orienta amigos e familiares: se a pessoa não conseguir engolir, não forçar, mas colocar açúcar ou mel embaixo da língua ou entre a gengiva e a bochecha e levá-la imediatamente a um serviço de saúde. A instrução é dirigida a leigos, em domicílio, sem acesso venoso e sem alternativa, e opta por uma tentativa de absorção pela mucosa contra a certeza de nada fazer durante o transporte.

Brasil. Ministério da Saúde. Cadernos de Atenção Básica, n. 36. Brasília, 2013, Quadro 11, coluna “Amigo ou Familiar”

Carboidrato pela boca apenas depois de recuperada a consciência e a capacidade de ingerir — bula do glucagon, aprovada pela Anvisa

A bula profissional do glucagon condiciona expressamente a oferta de carboidrato oral ao momento em que a pessoa recupera a consciência e é capaz de ingeri-lo, e prescreve, para o intervalo anterior, a injeção. A lógica é a da proteção da via aérea: um paciente com nível de consciência rebaixado tem reflexo de proteção comprometido, e material colocado na boca pode ser aspirado.

Anvisa / Novo Nordisk. GlucaGen HypoKit — bula do profissional de saúde, CCDS v. 16, v. 2.0, item 8

Como decidir

A pergunta que resolve não é qual documento tem razão, e sim qual alternativa existe naquele lugar. Dentro do pronto-socorro ou da enfermaria, existe veia, existe intraóssea e existe aspiração, e nada precisa entrar pela boca de quem não engole. Em domicílio, a quilômetros do serviço, sem ninguém que puncione, a escolha real é entre uma tentativa imperfeita e nada. Ao orientar uma família na alta, diga as duas coisas: o que fazer enquanto a pessoa ainda engole — que é o cenário em que a orientação funciona de verdade — e a instrução de deitar de lado, não forçar nada e chamar socorro quando ela já não engole.

A partir de que número se chama aquilo de hipoglicemia

Abaixo de 55 mg/dL de glicemia plasmática, e só com a tríade de Whipple completa — diretriz internacional de 2009

A diretriz da Endocrine Society fixa 55 mg/dL como o limiar plasmático a partir do qual o adulto saudável desenvolve sintomas, e recomenda investigar apenas quem preenche os três itens da tríade de Whipple. O corte é alto para a exigência e baixo para o número, de propósito: a intenção declarada é impedir que sintomas inespecíficos com glicemias de 60 a 70 mg/dL gerem investigação e rótulo em pessoas saudáveis.

Cryer PE et al. Evaluation and Management of Adult Hypoglycemic Disorders: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. J Clin Endocrinol Metab 2009;94(3):709–728

Abaixo de 70 mg/dL de glicemia capilar já é nível de alerta e já se trata — protocolo brasileiro de 2026

O protocolo de diabete melito tipo 2 aprovado em fevereiro de 2026 classifica como nível 1, de alerta, a faixa entre 54 e 70 mg/dL, e manda tratá-la com 15 g de carboidrato, justificando pelo risco de queda progressiva, especialmente em quem tem hipoglicemias não reconhecidas. A ficha AC29 do SAMU, por sua vez, usa 60 mg/dL com sintomas como critério de inclusão, e a ficha de acidente vascular cerebral do mesmo manual manda administrar glicose abaixo de 80 mg/dL.

Brasil. Ministério da Saúde. PCDT do Diabete Melito Tipo 2, Portaria SCTIE/MS nº 13, de 21/02/2026, Quadro 10; e Protocolos de Suporte Avançado de Vida, SAMU 192, fichas AC29 e AC21

Como decidir

Os dois números respondem a perguntas diferentes, e confundi-los produz os dois erros opostos. Para tratar, o número brasileiro é o que vale, e ele é generoso de propósito: 70 mg/dL com sintoma, ou qualquer valor baixo com alteração da consciência, manda agir, e agir cedo não faz mal a ninguém. Para investigar quem não tem diabetes, o número internacional é o que vale, e ele é exigente de propósito: sem glicemia plasmática abaixo de 55 mg/dL documentada durante os sintomas e sem melhora com a correção, a investigação não começa. Escreva os dois no prontuário do mesmo paciente sem contradição: tratei porque a capilar deu 62 com sintoma neuroglicopênico; investigo porque a plasmática colhida no mesmo minuto deu 41.

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O raciocínio, em voz alta

Maurina Colodel tem 34 anos e 61 quilos, e trabalha na cozinha da merenda de uma escola municipal. Chegou às quatro da manhã de domingo, depois de uma crise convulsiva única, presenciada pelo marido, que durou perto de um minuto e cedeu sozinha. Ela nunca convulsionou, não tem diabetes, não usa medicamento contínuo nenhum e não bebe. Está sonolenta, responde devagar. A ficha da triagem diz primeira crise convulsiva, investigar, e alguém escreveu tomografia com um ponto de interrogação. O técnico fura o dedo: 31 mg/dL. Mora com o marido e com a sogra, dona Emerenciana, de 78 anos, que tem diabetes e hipertensão.

  1. 1. O número muda o problema, e muda antes de qualquer imagem

    Glicemia capilar de 31 mg/dL num adulto que acabou de convulsionar explica a crise inteira, e explica de forma que nenhuma tomografia poderia. A convulsão é uma manifestação neuroglicopênica, e o próprio manual do SAMU lista a convulsão entre as indicações de medir a glicemia capilar, ao lado da alteração do nível de consciência. Isso não significa que a tomografia esteja definitivamente descartada. Significa que ela sai da frente da fila e volta para o lugar dela: exame a considerar se a paciente não recuperar completamente depois da correção.

  2. 2. Os dois segundos que decidem o caso inteiro

    Na Maurina, sem diabetes ou medicamento conhecido que explique o episódio, a amostra crítica tem alto valor. Aproveitar a punção já obtida para colhê-la se os tubos e a equipe estiverem prontos, mantendo a glicose preparada para administração imediata. Não impor uma espera de quarenta segundos ou qualquer atraso obrigatório ao paciente rebaixado. Se não for possível, corrigir e registrar; a investigação poderá continuar de forma supervisionada, sem provocar ou prolongar uma nova hipoglicemia no pronto-socorro.

  3. 3. O que se colhe, e por que cada tubo está ali

    Glicose plasmática, para documentar o valor real e não a triagem. Insulina, para saber se havia insulina agindo. Peptídeo C e pró-insulina, para saber se essa insulina veio de dentro ou de fora. Beta-hidroxibutirato, porque insulina bloqueia cetogênese e um quadro hipoglicêmico com cetose exuberante não é mediado por insulina. Cortisol, porque insuficiência adrenal se apresenta assim e é barata de flagrar. E o rastreamento de hipoglicemiantes orais, que é o tubo que a maioria dos serviços esquece e que, neste caso, vai ser o que resolve tudo. Colhido isso, a glicose entra pelo mesmo acesso: 40 mL de glicose a 50%, 20 g, 4 ampolas de 10 mL, em bolus lento, com flush de soro fisiológico depois. Quinze minutos depois, a capilar dá 108 mg/dL e a Maurina está acordada e orientada.

  4. 4. A tríade está completa, e por isso a alta não existe

    Sintomas compatíveis com hipoglicemia — uma crise convulsiva e rebaixamento —, glicemia baixa documentada durante os sintomas, e resolução com a correção. A tríade de Whipple está completa diante de testemunhas, dentro do serviço, com hora anotada. A diretriz internacional que governa a avaliação do adulto não-diabético recomenda investigar exatamente quem preenche os três itens, e este é o caso. Uma mulher de 34 anos, sem diabetes e sem medicamento, não chega a 31 mg/dL por acaso: ou há insulina onde não deveria haver, ou falta hormônio que sustente o piso, ou o fígado que fabrica glicose parou. Alta com o diagnóstico de crise convulsiva a esclarecer seria devolver à rua uma paciente com a causa correndo.

  5. 5. Os resultados chegam, e eles se leem juntos

    Glicose plasmática do momento: 34 mg/dL. Insulina: alta. Peptídeo C: alto. Pró-insulina: alta. Beta-hidroxibutirato: suprimido. A leitura em cadeia. Beta-hidroxibutirato suprimido com hipoglicemia significa que havia insulina agindo, porque insulina bloqueia a cetogênese. Insulina alta confirma. Peptídeo C alto diz que essa insulina foi secretada pelo próprio pâncreas dela, e não injetada — insulina de farmácia não traz peptídeo C junto. Pró-insulina alta acompanha. Até aqui, o quadro é de hiperinsulinismo endógeno, e é exatamente o perfil bioquímico do insulinoma. É neste ponto que muitos serviços pedem tomografia de abdome.

  6. 6. O tubo que quase ninguém colhe é o que muda o desfecho

    O rastreamento de hipoglicemiantes orais volta positivo para sulfonilureia. Isso reescreve o caso. A sulfonilureia produz exatamente o mesmo perfil bioquímico do insulinoma — insulina alta, peptídeo C alto, pró-insulina alta, cetose suprimida — porque ela age fechando o canal de potássio da própria célula beta e forçando a secreção endógena. A diferença entre um diagnóstico e outro não está em nenhum desses quatro exames: está no rastreamento da droga. Interrogada de novo, com calma e sem a sogra na sala, a Maurina conta que vem tomando à noite um comprimido que achava ser para dormir, tirado da caixa de organização semanal da dona Emerenciana. As caixas foram pedidas de casa e conferidas: no compartimento da noite havia glibenclamida de 5 mg. Sem esse tubo, a Maurina teria saído do pronto-socorro com uma tomografia de abdome pedida, um encaminhamento para investigação de insulinoma e o comprimido ainda na mesa de cabeceira.

  7. 7. O que isso muda no destino dela

    O diagnóstico é hipoglicemia por sulfonilureia tomada acidentalmente, e ele traz junto o mesmo problema de farmacocinética de qualquer sulfonilureia: a droga continua trabalhando por dois a três dias. A Maurina fica em observação de 48 a 72 horas, com glicemia capilar seriada incluindo a madrugada, soro glicosado a 10% em manutenção e dieta a cada três horas. Não porque está mal — porque a causa ainda está dentro dela. A conduta de alta tem uma parte que não é médica e é a que evita a recidiva: a caixa de organização semanal da casa é refeita com a farmacêutica da unidade ou com a equipe da estratégia de saúde da família, com identificação legível, e a dona Emerenciana passa a ter a caixa dela separada. E fica no prontuário, escrito com todas as letras, que o episódio foi acidental e que o rastreamento de sulfonilureia foi o exame que fechou o diagnóstico — porque a próxima equipe que ler essa ficha vai precisar saber por que não se procurou insulinoma.

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Faça você

Arnóbio Nogara, 54 anos, cerca de 60 quilos, é trazido pela viatura da calçada de uma avenida às cinco da manhã. Está sonolento, responde a estímulo doloroso, tem hálito etílico forte, roupas sujas, e uma escoriação antiga no joelho. Não há acompanhante e ninguém sabe o nome dele — o documento estava no bolso. Glicemia capilar: 38 mg/dL. Pressão 104 por 68, frequência cardíaca 104, temperatura axilar 36,1 °C, saturação 96% em ar ambiente. O acesso venoso não sai: as veias dos dois braços são finas e móveis, e duas tentativas falharam. A farmácia do plantão informa que não há tiamina injetável na unidade — só o comprimido de 300 mg.

  1. 1. Qual é a primeira decisão, e qual é a ordem correta das injeções neste paciente

    Antes de responder, separe duas perguntas que costumam vir grudadas: qual droga entra primeiro, e o que fazer quando essa droga não existe no serviço. As duas têm resposta, e a segunda é a que o plantão de verdade exige.

  2. 2. Sem veia depois de duas tentativas: quais são as opções reais, e por que uma delas não serve para este paciente em particular

    Liste as opções na ordem em que você as tentaria, e ao lado de cada uma escreva a limitação. Uma delas tem uma limitação específica que está escrita na própria bula e que se aplica exatamente a este homem.

  3. 3. O que se colhe, se é que se colhe alguma coisa, num paciente sem identificação e sem história

    Ele não tem acompanhante, não tem prontuário e não sabe dizer o que tomou. Decida se este caso pede amostra crítica, e justifique — a decisão não é óbvia nos dois sentidos.

  4. 4. Corrigida a glicemia, ele acorda e quer ir embora. O que precisa acontecer antes disso

    Enumere o que você faria antes de considerar a alta, incluindo pelo menos uma coisa que não é prescrição e que é a que mais muda o desfecho dele nas próximas 24 horas.

Ver como fecharíamos

1. Glicose urgente não espera tiamina. Administrar tiamina prontamente, antes ou junto se já disponível, mas sem atrasar a correção, pelo risco sugerido por três achados: hálito etílico, aparência de desnutrição e ausência de qualquer história alimentar. A ficha AC29 do SAMU manda 100 mg de tiamina por via intramuscular antes da glicose em etilista, hepatopata ou desnutrido; a ficha ATox 4, do mesmo manual, manda 300 mg. A razão é bioquímica: a tiamina é cofator de enzimas do aproveitamento oxidativo da glicose, e uma carga de glicose num organismo depletado consome o resíduo de cofator e pode precipitar encefalopatia. Aqui, porém, a tiamina injetável não existe na unidade, e isso não é acidente local: a Rename 2024 traz cloridrato de tiamina apenas como comprimido de 300 mg, sem apresentação injetável, no Componente Básico. A conduta correta não é segurar a glicose. Um paciente com 38 mg/dL e rebaixamento de consciência precisa de glicose agora; a tiamina entra assim que houver ampola, e a ausência dela é registrada na evolução — o registro é o que faz o serviço comprar. 2. Sem veia depois de duas tentativas, as opções, na ordem: chamar um segundo profissional e tentar de novo com garrote adequado e vasodilatação por calor local; punção intraóssea, que a ficha AC29 autoriza expressamente para a mesma dose de glicose; e glucagon 1 mg por via intramuscular ou subcutânea. O glucagon é a opção que não serve para este paciente, e o motivo está na própria bula: o glucagon mobiliza glicogênio hepático, e a bula declara que ele tem pouco ou nenhum efeito em jejum prolongado, em hipoglicemia crônica e em hipoglicemia causada por ingestão excessiva de álcool. O fígado de quem bebe muito e come pouco entra na madrugada sem o glicogênio que o glucagon precisaria mobilizar. Some-se que ele não consta na Rename 2024 nem aparece nas 638 páginas do manual do SAMU, e a conclusão prática é dupla: provavelmente não haverá glucagon na sua unidade, e se houvesse ele falharia neste homem. A via é a intraóssea. 3. Sim, colhe-se. Ele não tem diabetes conhecido, não tem história, não tem quem conte por ele e não há prescrição que explique a hipoglicemia — e “provavelmente é o álcool” é uma hipótese, não uma explicação documentada. O álcool derruba a glicose inibindo a gliconeogênese, e nesse mecanismo a insulina está baixa e a cetose é permitida; se a amostra crítica voltar com insulina alta e peptídeo C alto, a história é outra, e pode ser sulfonilureia — inclusive tomada por engano ou por terceiro. Colher custa três tubos pelo mesmo acesso intraósseo ou pela primeira veia que der certo. E, sem identificação, o tubo com hora anotada é a única informação que vai sobreviver à alta. Colha ainda função hepática, função renal, eletrólitos e hemograma, porque hepatopatia, insuficiência renal e sepse estão todas na lista de causas do paciente doente e nenhuma delas se exclui pelo cheiro. 4. Antes de qualquer alta: glicemia acima de 100 mg/dL de forma sustentada, com medidas seriadas; uma refeição de verdade ingerida dentro do serviço, com carboidrato complexo e proteína, porque o bolus dura minutos e o fígado dele continua sem estoque; manutenção venosa com glicose a 10% enquanto ele estiver em observação, já que a causa — o jejum somado ao etanol — não foi corrigida por nada do que você injetou; tiamina aplicada assim que a ampola chegar, ou iniciada por via oral se ele estiver deglutindo; e vigilância para síndrome de abstinência, cujo manejo pertence ao capítulo de transtornos por uso de álcool, na apostila de Psiquiatria. O item que não é prescrição, e que é o que mais muda as próximas 24 horas dele: descobrir onde ele vai comer e dormir hoje. Um homem que vai voltar para a mesma calçada, em jejum, com o fígado sem glicogênio, tem probabilidade alta de repetir o episódio antes de amanhã — e dessa vez pode não haver quem chame a viatura. Acionar o serviço social, a equipe de consultório na rua ou a referência de assistência do município é conduta, e é a conduta com maior efeito sobre o desfecho neste caso.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Glicose urgente não espera tiamina. O paciente tem risco de deficiência e deve receber tiamina parenteral prontamente, mas a ASAM permite qualquer ordem ou uso simultâneo. Registrar a falta da apresentação e providenciar reposição; comprimido por sonda não deve atrasar o resgate. Suspeita de Wernicke requer avaliação e regime parenteral de tratamento próprios.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Demonstre a abordagem de uma pessoa consciente e de outra que não consegue engolir. Confira a quantidade de glicose, a apresentação e o recontrole; explique quando a amostra crítica pode ser colhida sem atrasar o tratamento.

Em 30 dias

Compare hipoglicemia por insulina, por sulfonilureia e sem diabetes conhecido. Justifique observação, investigação e alta em cada uma, incluindo o que será modificado na receita e na rotina.

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Agora atenda

Agora atenda: homem de 68 anos, 70 quilos, aposentado, trazido pela filha ao pronto-socorro às cinco da manhã porque acordou “falando coisa com coisa” e molhado de suor. Tem diabetes tipo 2 há vinte anos, usa gliclazida e insulina humana de ação intermediária à noite, e ontem passou o dia com náusea e comeu quase nada. Está sonolento e não deglute com segurança. Você tem lanceta, tiras reagentes, ampolas de glicose a 50% de 10 mL e um acesso venoso periférico funcionando. Conduza os primeiros trinta minutos, decida a dose em ampolas, decida se ele vai para casa e diga à filha, com as suas palavras, por que.

Hipoglicemia no não-diabético e manejo da hipoglicemia grave – Antes da hipótese, a glicemia — Internato | OsceLabs