Clínica Médica › Endocrinologia
Quem pediu este TSH
Hipotireoidismo e rastreamento tireoidiano
Rastreamento tireoidiano, hipotireoidismo subclínico e a levotiroxina que existe de fato na farmácia da unidade
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Rastreamento. Brasília: Ministério da Saúde, 2010. 95 p. (Cadernos de Atenção Primária, n. 29; Série A. Normas e Manuais Técnicos). ISBN 978-85-334-1729-8
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Sanofi Medley Farmacêutica Ltda. Puran T4 (levotiroxina sódica), comprimidos de 12,5, 25, 37,5, 50, 62,5, 75, 88, 100, 112, 125, 150, 175, 200 e 300 microgramas. Bula do paciente
Bekkering GE, Agoritsas T, Lytvyn L, Heen AF, Feller M, Moutzouri E, et al. Thyroid hormones treatment for subclinical hypothyroidism: a clinical practice guideline. BMJ. 2019;365:l2006
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Mulher de 46 anos usa levotiroxina 100 mcg/dia há três anos e afirma não esquecer nenhuma dose. Toma o comprimido junto com o café da manhã e com o carbonato de cálcio prescrito por outro serviço. O exame traz hormônio estimulante da tireoide de 11,5 mU/L e tiroxina livre de 1,7 ng/dL, com referência de 0,7 a 1,8. Qual a conduta mais adequada?
O paciente que você vai ver
Terça-feira, sete e cinquenta da manhã, unidade básica de um bairro que fica a vinte e cinco minutos de ônibus do hospital de referência. A agenda marcada tem dezesseis nomes, e a recepção já encaixou três de demanda espontânea antes de abrir a porta. Você é o interno escalado para a manhã. A médica da equipe atende na sala ao lado, com a porta encostada, e o combinado é o de sempre: você começa, ela entra quando você chamar.
Antes da primeira ficha, a enfermeira Cesarina deixa três envelopes de laboratório em cima da mesa, presos com um clipe, e diz uma frase que parece organização e é um problema: "esses três são de gente que está na agenda de hoje, e os três vieram com a tireoide alterada".
Você abre os três. Em nenhum deles o pedido saiu desta unidade. O primeiro é de uma senhora de setenta e dois anos e faz parte de um pacote de check-up que a filha comprou de presente num laboratório do centro: doze exames numa folha só, e o hormônio estimulante da tireoide é o quarto de cima para baixo, com o valor 5,2 e uma seta para cima ao lado. O segundo veio de um exame admissional que não deu em nada porque a vaga foi para outra pessoa. O terceiro é de uma mulher que já toma levotiroxina há três anos e trouxe o exame por conta própria, porque "a médica pediu de seis em seis meses e faz um ano que ninguém olha".
Os três envelopes têm em comum a coisa que este capítulo trata primeiro: ninguém decidiu pedir aquele exame. Ele veio no pacote, veio na rotina de outro serviço, veio do hábito. E a partir do momento em que o número está impresso e está na sua frente, a decisão de não fazer nada já não é a mesma que a de nunca ter pedido — é mais difícil, e vai ter que ser explicada.
Dona Anilda Gondim tem 72 anos, é viúva, foi lavadeira de um hospital municipal por vinte e dois anos e hoje cuida de dois netos em idade escolar. Ela entra andando sem apoio, senta, e a primeira coisa que fala é que não está sentindo nada. Veio porque a filha marcou. Cansaço, ela tem — "o cansaço de quem tem setenta e dois anos e dois netos". Intestino, funciona. Frio, ela sente como todo mundo sente. O que ela quer saber é se aquela seta para cima significa alguma coisa, porque a filha leu na internet que significa.
Zeferino Ibiapina tem 54 anos, 78 quilos, 1,72 m, é funileiro numa oficina de dois funcionários. O exame admissional que ele fez há três semanas trazia um hormônio estimulante da tireoide de 42 e uma tiroxina livre de 0,4, com o intervalo de referência de 0,7 a 1,8 impresso ao lado. Ele não veio buscar esse papel: veio porque a mulher marcou, dizendo que ele está "devagar". Devagar há mais ou menos um ano. Ganhou seis quilos sem mudar nada, a voz ficou grossa de um jeito que os colegas imitam, e ele parou de trabalhar de manhã cedo no inverno porque a mão não fecha direito antes das nove.
Miralva Osterno tem 46 anos, 68 quilos, é auxiliar de cozinha numa creche municipal. Toma levotiroxina de 100 microgramas há três anos, todos os dias, sem falhar um. O exame que ela trouxe mostra hormônio estimulante da tireoide de 11,5 com tiroxina livre de 1,7 — o que, lido depressa, parece um paciente sem tratamento nenhum. Ela toma o comprimido junto com o café da manhã, porque foi assim que aprendeu a não esquecer, e toma junto com o carbonato de cálcio que outro serviço prescreveu.
Três envelopes, três problemas diferentes, e nenhum deles se resolve olhando só o número. O primeiro é sobre a quem se oferece o exame. O segundo é sobre como se trata quando a doença é inequívoca e a farmácia da unidade tem cinco apresentações e nenhuma a mais. O terceiro é sobre por que um tratamento correto na receita falha no copo de café. A manhã inteira cabe nesses três, e a ordem em que você vai resolvê-los é a ordem deste capítulo.
Quem adoece disso
O hipotireoidismo é comum, e o subclínico é mais comum ainda. O consenso brasileiro estima a prevalência de hipotireoidismo subclínico na população geral entre 4% e 10%, maior em mulheres, maior em idosos, e inversamente proporcional ao conteúdo de iodo da dieta. Não é uma doença rara que você vai ver uma vez no estágio: é uma linha de exame que vai aparecer na sua frente muitas vezes por semana pelo resto da vida profissional.
Os números brasileiros que o consenso reúne são de amostras locais e variam bastante, o que já diz alguma coisa. Numa amostra representativa de 1.220 mulheres adultas da cidade do Rio de Janeiro, a prevalência de hormônio estimulante da tireoide elevado foi de 12,3%, chegando a 19,1% entre as acima de 70 anos. Na região metropolitana de São Paulo, entre 1.085 indivíduos, a prevalência de hipotireoidismo foi de 8,0%. Entre 1.110 pessoas com 30 anos ou mais da população nipo-brasileira de Bauru, foi de 11,1% no sexo feminino e 8,7% no masculino. E numa população idosa da cidade de São Paulo, o hipotireoidismo subclínico apareceu em 6,5% das mulheres e 6,1% dos homens.
Guarde o 19,1% das cariocas acima de 70 anos ao lado de outro número, porque a distância entre os dois é o assunto da primeira metade deste capítulo. Rastrear identifica gente. A pergunta que o rastreamento não responde sozinho é se a gente identificada fica melhor por ter sido identificada.
A parte instável desses números é grande. Num estudo populacional israelense citado pelo consenso, 62% dos pacientes com hormônio estimulante da tireoide elevado normalizaram o exame em cinco anos de seguimento. A recomendação norte-americana, olhando outro conjunto de estudos, registra que cerca de 37% das pessoas rotuladas com hipotireoidismo subclínico voltam sozinhas ao estado normal. As duas frações não medem a mesma coisa nem a mesma janela, e é por isso que estão aqui as duas: a única conclusão que as duas sustentam é que uma parte grande do que se chama de doença numa dosagem isolada não é doença nenhuma.
A reversão espontânea depende de onde o valor caiu. O consenso registra que a volta ao eutireoidismo é mais frequente entre os que tinham TSH de 4 a 6, enquanto valores entre 10 e 15 raramente normalizam. A progressão segue a mesma lógica em espelho: num estudo prospectivo, a incidência de hipotireoidismo manifesto foi de 1,76% entre os que tinham TSH abaixo de 10, subiu para 19,7% na faixa de 10 a 14,9 e chegou a 73,5% na faixa de 15 a 19,9. O número, na tireoide, prediz a si mesmo melhor do que prediz sintoma.
A autoimunidade muda a inclinação dessa curva. No estudo clássico de Whickham, mulheres com TSH acima de 6 e anticorpos antitireoidianos positivos progrediram para hipotireoidismo manifesto a 4,3% ao ano; com anticorpos negativos, a 2,6% ao ano. É pouca diferença por ano e muita diferença em dez anos, e é a razão de o anticorpo antitireoperoxidase importar mais para saber o que vai acontecer do que para saber o que está acontecendo.
Do outro lado do problema está o excesso de tratamento, que é grande e mensurado. No estudo do Colorado, cerca de 40% dos pacientes em uso de levotiroxina estavam com dose acima do necessário. Num estudo multicêntrico brasileiro citado pelo mesmo consenso, 14,4% dos pacientes com hipotireoidismo em tratamento estavam hipertratados. Isso não é um detalhe de qualidade assistencial: o hipertireoidismo subclínico induzido por dose excessiva associa-se a fibrilação atrial, sobretudo acima dos 65 anos, e a perda de massa óssea em mulheres na pós-menopausa.
Há ainda uma epidemiologia de rótulo, que não é da doença e sim do corte. Nos dados populacionais norte-americanos, usar 0,4 a 4,5 como faixa normal diagnostica hipotireoidismo em 9,7% a 12,9% das pessoas acima de 65 anos; baixar o limite superior para 2,5, como alguns pesquisadores defendem, levaria o diagnóstico a 35% dessa mesma população. Nenhuma tireoide mudou entre as duas contas. Mudou onde alguém desenhou a linha, e três em cada dez idosos entraram ou saíram da doença por causa disso.
Por que acontece o que acontece
A hipófise mede a tiroxina e responde com hormônio estimulante da tireoide numa relação log-linear: pequenas variações do hormônio livre produzem grandes variações do TSH. É por isso que o TSH é o melhor teste isolado para a falência primária da glândula — ele amplifica. E é pela mesma razão que ele é um péssimo teste para ser lido uma vez só: um amplificador amplifica tudo, inclusive o que não é doença da tireoide.
A secreção de TSH é pulsátil e tem ritmo circadiano, com os maiores pulsos entre 22 horas e 4 da madrugada. Os níveis médios ficam por volta de 1,3 a 1,4, mas a variação ao longo do dia é real e conhecida. Uma coleta às sete da manhã e outra às quatro da tarde, na mesma pessoa saudável, não devolvem o mesmo número — e a diferença entre elas pode ser maior do que a distância entre o valor dela e o corte que define doença.
O eixo também tem inércia, e a inércia tem prazo. Depois que a dose de levotiroxina muda, o tireotrofo hipofisário leva de seis a oito semanas para chegar ao novo estado de equilíbrio. A tiroxina livre, ao contrário, reflete o que aconteceu nos últimos dias. Essa diferença de relógio explica o padrão que parece contraditório e não é: hormônio estimulante da tireoide alto com tiroxina livre normal ou alta, no paciente que toma o comprimido de forma intermitente e caprichou na semana do exame. O TSH está contando o trimestre; a tiroxina livre está contando a semana.
A absorção da levotiroxina acontece sobretudo no jejuno e no íleo proximal e depende do que mais estiver no tubo digestivo naquele momento. Alimento reduz. Carbonato de cálcio, antiácido e sucralfato reduzem — a bula manda separar a administração desses do comprimido tanto quanto possível. Sulfato ferroso reduz. O protocolo de rede acrescenta a esse grupo o uso crônico de inibidor de bomba de prótons, dieta rica em fibras e soja, doença celíaca, doença inflamatória intestinal e infecção por Helicobacter pylori. Nenhuma dessas coisas mexe na tireoide: todas mexem em quanto do comprimido entra.
Há um segundo caminho para a mesma falha, que é o metabolismo. Rifampicina, fenobarbital, carbamazepina, fenitoína, sertralina e estrogênio aumentam a necessidade de levotiroxina por acelerarem a depuração hepática ou por elevarem a proteína ligadora; androgênio em mulheres e corticoide em síndrome nefrótica fazem o contrário. O envelhecimento, isoladamente, reduz a necessidade. A dose que funcionava não é uma propriedade do paciente: é uma propriedade do paciente mais tudo o que ele está tomando e comendo naquele semestre.
As proteínas transportadoras explicam por que a tiroxina total engana e a tiroxina livre não. Apenas 0,02% do T4 e 0,2% do T3 circulam livres, e é a fração livre que é biologicamente ativa. Qualquer coisa que suba ou desça a globulina ligadora de tiroxina — gravidez, estrogênio, síndrome nefrótica, herança — sobe ou desce os hormônios totais sem que o estado tireoidiano tenha mudado. Salicilatos, fenitoína, carbamazepina e furosemida competem pela ligação e deslocam hormônio: os salicilatos chegam a aumentar a fração livre de tiroxina em até 100%, e carbamazepina e furosemida em cerca de 30%.
O TSH sobe fisiologicamente com a idade, e essa subida não é uma doença lenta: é o eixo em outro ponto de operação. O consenso brasileiro registra que a elevação do TSH no idoso pode representar fator de proteção cardiovascular e está associada a maior longevidade. Quem trata esse número para baixo está mexendo num ajuste que o corpo fez, e não corrigindo um defeito — que é exatamente o motivo de a idade aparecer, adiante, em três réguas brasileiras diferentes e discordantes.
Por fim, doença grave não tireoidiana desarranja o eixo inteiro sem tocar na glândula. Cai o T3, sobe o T3 reverso, e o T4 e o TSH ficam normais ou baixos. Estresse, glicocorticoide, dopamina, amiodarona, furosemida, salicilato e fenitoína contribuem, cada um pelo seu mecanismo. É por isso que o exame não se pede de rotina em paciente internado grave: no meio de uma sepse, o resultado descreve a sepse.
Como se apresenta de verdade
Hipotireoidismo tem uma apresentação clássica que quase ninguém apresenta e uma apresentação real que quase todo mundo apresenta: nenhuma. Entre esses dois extremos existe uma faixa de queixas verdadeiras, inespecíficas e compartilhadas com meia dúzia de outras doenças, e é nessa faixa que a maior parte do trabalho acontece.
A regra prática que organiza este bloco é de método, não de semiologia: quanto mais inespecífica a queixa, mais o exame precisa ser confirmado antes de virar diagnóstico; quanto mais eloquente o quadro, menos a confirmação atrasa a conduta. É a mesma lógica de qualquer teste, e ela decide se você repete em três meses ou começa hoje.
As seis situações abaixo cobrem o que chega à unidade básica. A última existe para dizer o que não é deste capítulo, porque metade dos erros de tireoide na atenção primária é tratar aqui o que era do vizinho.
Percurso de aprendizagem
Comece pela pergunta que motivou o exame e pelo eixo hipotálamo–hipófise–tireoide.
Depois separe hipotireoidismo franco, subclínico, interferências e doença não tireoidiana. Repetição e contexto evitam diagnósticos precipitados.
Aprofunde controvérsias de rastreamento e pontos de corte após dominar a consulta, a tomada da levotiroxina e a reavaliação.
O paciente que não tem apresentação
É a regra, não a exceção. O hipotireoidismo subclínico é definido bioquimicamente — hormônio estimulante da tireoide elevado com tiroxina livre normal — e o termo subclínico existe justamente porque não há sintoma óbvio de falência hormonal. Quando existe sintoma, ele é inespecífico o bastante para não corroborar coisa nenhuma.
O consenso brasileiro é explícito sobre isso e mede: num estudo que construiu um índice clínico de gravidade do hipotireoidismo, apenas 24% dos pacientes com hipotireoidismo subclínico foram classificados como clinicamente hipotireóideos. No estudo transversal do Colorado, quem tinha a alteração relatou mais sintomas do que os controles, mas com sensibilidade e valor preditivo positivo baixos. Num estudo comunitário australiano e num transversal brasileiro, não houve piora de bem-estar ou qualidade de vida.
Isso muda a regra probatória da consulta. Quando não há queixa que sustente o achado, uma dosagem alterada não basta para nomear doença, e a pressa em nomear é o principal produtor de tratamento desnecessário. Dona Anilda é esse paciente: 72 anos, sem queixa, com um 5,2 impresso e uma seta para cima.
O que muda a consulta dela não é o número: é a idade dela, a persistência do número e o que mais estiver no envelope. As três coisas entram na régua do bloco seguinte, e nenhuma delas se resolve hoje.
Os sintomas que servem para tudo
A lista existe e é longa: pele ressecada, queda de cabelo, unhas frágeis, edema, alterações menstruais, constipação, fraqueza, letargia, cansaço, intolerância ao frio, lentificação do pensamento e da fala, alterações do sono, alterações de memória e distúrbios psiquiátricos. A intensidade acompanha a gravidade da disfunção, e é essa dependência que salva a lista de ser inútil.
Nenhum desses sintomas, isolado, aponta para a tireoide. Cansaço com alterações menstruais e palidez pede hemograma antes de pedir hormônio — a investigação das anemias é do capítulo de anemia ferropriva, em Hematologia. Lentificação com anedonia e insônia pede uma avaliação de humor, que é do capítulo de transtorno depressivo maior, em Psiquiatria. Ganho de peso com cansaço num paciente com circunferência abdominal aumentada é do capítulo de obesidade e síndrome metabólica, nesta mesma apostila.
O que muda a probabilidade não é a lista: é o agrupamento e a duração. Quatro ou cinco itens da lista aparecendo juntos, instalando-se ao longo de meses, num paciente que tem um dos fatores de risco do bloco seguinte, é outra coisa — e aí a dosagem deixa de ser rastreamento e passa a ser investigação de suspeita clínica, que é uma decisão diferente com uma régua diferente.
Zeferino é esse paciente. Ganho de peso, lentificação, intolerância ao frio, voz grossa e um ano de instalação. Ninguém precisa de rastreamento para chegar nele; precisa de alguém que ouça a mulher dele.
Quando a doença se anuncia de longe
No hipotireoidismo franco a clínica volta a ser útil. A voz muda de timbre, a pele fica seca e infiltrada, o edema não deixa cacifo, a bradicardia aparece sem beta-bloqueador para explicá-la, o reflexo aquileu tem relaxamento lento, e o paciente se descreve com uma palavra que a família usa antes dele: devagar. A tiroxina livre já está abaixo do intervalo de referência, e o hormônio estimulante da tireoide está em dezenas.
Nesse cenário não há dúvida probatória a resolver e não há três meses a esperar. Existe uma conduta a iniciar hoje, com uma única cautela que não é sobre a tireoide e sim sobre o coração, e que é o assunto do bloco de conduta.
No extremo dessa faixa existe o coma mixedematoso: hipotermia, bradicardia, hipoventilação com retenção de gás carbônico, hiponatremia e rebaixamento do nível de consciência, quase sempre num idoso com hipotireoidismo de longa data, desencadeado por infecção, frio, sedativo ou suspensão da levotiroxina. É raro e é grave. Nenhum outro capítulo deste nível o assume, e por isso ele fica aqui, no tamanho que cabe: reconhecer, não esperar exame para agir, garantir via aérea e temperatura, tratar o desencadeante e transferir. O manejo hospitalar completo não é de atenção primária e não está aqui.
O que a unidade básica precisa saber sobre ele é uma coisa só: paciente com hipotireoidismo conhecido que rebaixa não está tendo apenas uma infecção urinária. A hipótese entra na lista antes da tomografia.
O laboratório que abre o caso antes do paciente
Uma parte importante dos diagnósticos não começa por queixa nem por rastreamento: começa por uma alteração em outro exame, pedida por outro motivo. O protocolo de rede lista o que a falta de hormônio tireoidiano produz no laboratório: aumento do colesterol de baixa densidade, das transaminases, da creatinofosfoquinase, do paratormônio, da vitamina D e da prolactina; e queda do sódio sérico, da testosterona total e do estradiol total.
Na prática da unidade, quatro dessas alterações são as que fazem alguém dosar o hormônio estimulante da tireoide: hipercolesterolemia que não fecha com a dieta e com o peso, hiponatremia sem causa aparente, creatinofosfoquinase elevada sem esforço nem estatina, e hiperprolactinemia. A quinta, anemia, entra pela clínica e não pelo mecanismo.
A hiperprolactinemia merece um aviso de fronteira: hipotireoidismo primário é causa reconhecida dela, e a investigação da hiperprolactinemia e da galactorreia é do capítulo próprio, em Ginecologia. O que este capítulo assume é o outro sentido da seta — a prolactina alta que aparece no envelope e que se resolve tratando a tireoide, sem imagem de sela e sem encaminhamento.
Essa via de entrada é a mais segura das três da abertura, porque o exame foi pedido por um motivo. Ela também é a que mais produz cascata: uma prolactina que veio junto de um pacote de doze exames não tem motivo nenhum atrás dela, e a conduta correta diante dela pode ser não a repetir.
Quem já toma levotiroxina e continua com o exame alterado
É a apresentação mais frequente do ambulatório e a menos ensinada. O paciente está em tratamento, a receita está certa, e o hormônio estimulante da tireoide não desce. A tentação é subir a dose, e subir a dose é o erro na maioria das vezes.
O padrão laboratorial ajuda a separar. Hormônio estimulante da tireoide alto com tiroxina livre baixa, em quem toma a medicação, aponta para dose insuficiente ou absorção comprometida. Hormônio estimulante da tireoide alto com tiroxina livre normal ou alta aponta para uso intermitente: o consenso brasileiro dos testes descreve exatamente esse par discordante no paciente com má adesão que tomou a medicação nos dias que antecederam a coleta.
Miralva é o segundo caso. Ela não falha um dia — e é justamente por isso que a resposta não é dose. Ela toma o comprimido com o café e com o carbonato de cálcio, duas interferências de absorção conhecidas e nomeadas em bula, e o que precisa mudar é o horário, não o miligrama.
Antes de chamar isso de hipotireoidismo refratário existe uma ordem a cumprir, e ela é do protocolo de rede: descartar adesão incorreta e as demais causas de interferência primeiro. Refratário é o que sobra depois disso, não o que se conclui na frente do exame.
O que está aqui e o que está no vizinho
Este capítulo trata do hipotireoidismo do adulto e da decisão de dosar ou não a tireoide de quem não tem queixa. Tudo o que segue tem dono e está mais bem tratado lá.
Hipertireoidismo, doença de Graves, crise tireotóxica e as tireoidites — inclusive a tireoidite subaguda e a pós-parto, cuja fase hipotireóidea é transitória e não se trata como hipotireoidismo permanente — são do capítulo de hipertireoidismo e doença de Graves, nesta apostila. Nódulo tireoidiano, bócio nodular e câncer de tireoide são do capítulo de nódulo tireoidiano e câncer de tireoide, e a decisão cirúrgica é do capítulo de bócio, hipertireoidismo e indicações de tireoidectomia, em Cirurgia de Cabeça e Pescoço.
Tireoidopatia na gestação — rastreio, cortes por trimestre, ajuste de dose e o que fazer no pós-parto — é do capítulo de tireoidopatias na gestação, em Obstetrícia. O teste do pezinho é do capítulo das triagens neonatais, em Puericultura, e o hipotireoidismo congênito — a confirmação e o prazo de tratamento do recém-nascido — é de Hipotireoidismo congênito: rastreio e tratamento, na apostila de Endocrinologia Pediátrica. Este capítulo não repete nenhum dos dois, e os números que aparecerem aqui sobre gestação existem apenas para explicar por que a régua do adulto não serve para ela.
Dislipidemia como diagnóstico e a estratificação de risco cardiovascular global são do capítulo de dislipidemias, em Cardiologia; obesidade e síndrome metabólica têm capítulo próprio nesta apostila. Aqui, colesterol e peso entram só como pista e como consequência, nunca como alvo de tratamento.
Como fechar o diagnóstico
A investigação do hipotireoidismo tem duas perguntas em série e a maioria dos erros vem de responder a segunda sem ter respondido a primeira. A primeira é a quem se oferece o exame. A segunda é o que fazer com o exame que já está pronto.
As duas perguntas têm réguas brasileiras diferentes, e as réguas discordam. Isso não é um defeito da exposição: é o estado real da questão no Brasil em 2026, e o aluno que sai daqui achando que existe uma resposta única vai errar por excesso de confiança em cima de um documento que é opinião de especialista com grau de recomendação D.
As seis seções abaixo vão da decisão de pedir até a decisão de acreditar no resultado.
Quem se rastreia: três réguas brasileiras, e elas discordam
A régua federal é a mais restritiva das três, e ela funciona por ausência. O caderno de rastreamento do Ministério da Saúde fecha com uma tabela de recomendações para adultos que tem nove linhas: dislipidemia em quatro recortes de sexo e idade, hipertensão arterial acima dos 18 anos, diabetes tipo 2 em quem tem pressão sustentadamente alterada, tabagismo, uso de álcool e obesidade. Tireoide não está na tabela de adultos. Aparece uma vez em todo o caderno, na tabela de crianças, como triagem neonatal de hipotireoidismo congênito, com grau de recomendação A.
O mesmo caderno vai além do silêncio num ponto específico. Ao tratar da mulher que entra no climatério, ele descreve a tendência de investigar com os exames mais variados — nomeando ultrassonografia transvaginal, dosagem hormonal com hormônio estimulante da tireoide, hormônio folículo-estimulante, hormônio luteinizante e estradiol, perfil lipídico e glicemia — e conclui que não há evidência para a realização da maioria desses exames. É a frase brasileira mais próxima de um "não rastreie" para tireoide em adulto assintomático, e ela vem do Ministério.
A régua da sociedade é a mais permissiva e vai na direção oposta. O consenso brasileiro sobre testes de função tireoidiana recomenda dosar o hormônio estimulante da tireoide como triagem em pacientes acima de 35 anos a cada cinco anos, e em pacientes com fatores de risco. O grau dessa recomendação é D — opinião desprovida de avaliação crítica, na classificação de Oxford que o próprio documento adota. O consenso do hipotireoidismo subclínico repete a mesma ideia na recomendação 4, também com grau D, falando em rastreamento em grupos específicos de alto risco e citando mulheres acima de 35 anos a cada cinco anos.
A régua de rede fica no meio e é a que mais se parece com a prática. O protocolo de hipotireoidismo da Secretaria Municipal da Saúde manda rastrear na presença de sinais e sintomas sugestivos e na presença de fator de risco, e lista os fatores: idade acima de 60 anos, bócio, história de radiação em cabeça e pescoço, tireoidectomia prévia, doenças autoimunes, síndromes genéticas como Down e Turner, gestação, hipercolesterolemia e uso de lítio, amiodarona, interferon e outros fármacos. Note que a idade que ele usa é 60, não 35, e que ele não fixa periodicidade.
A lista de risco do consenso dos testes é mais longa e vale conhecer inteira, porque é dela que sai a maior parte dos pedidos justificáveis: disfunção tireoidiana prévia, bócio, cirurgia de tireoide, radioterapia cervical, outras doenças autoimunes como diabetes tipo 1, vitiligo, anemia perniciosa e insuficiência adrenal primária, uso de lítio, citocinas, amiodarona e contrastes iodados, história familiar de doença tireoidiana ou autoimune, alterações laboratoriais sugestivas — hipercolesterolemia, hiponatremia, anemia, elevação de creatinofosfoquinase e desidrogenase láctica, hiperprolactinemia — e comorbidades como apneia do sono, depressão e demência.
Dona Anilda entra por uma dessas réguas e não pelas outras duas. Ela tem 72 anos: pela lista da rede, a idade sozinha já a incluiria, se alguém tivesse decidido. Pelo consenso de sociedade, ela deveria ter dosado o exame a cada cinco anos desde os 35. Pela tabela do Ministério, nunca. E o exame que ela trouxe não foi pedido por nenhuma das três: veio num pacote comprado.
Quem não se rastreia, e por que rastrear custa
A força-tarefa norte-americana de serviços preventivos avaliou exatamente esta pergunta. Sua recomendação final é de 2015, foi mantida corrente por vigilância de literatura em maio de 2024, e diz que não se sabe se rastrear disfunção tireoidiana no adulto assintomático não gestante faz mais bem do que mal. É um grau I: não é um não, é a declaração de que a conta não fecha nem para um lado nem para o outro.
O que ela encontrou de evidência adequada é o que mais importa para você: rastrear e tratar disfunção tireoidiana em adultos assintomáticos não melhorou qualidade de vida nem produziu melhora clinicamente relevante de pressão arterial, índice de massa corporal, densidade mineral óssea ou perfil lipídico, e não melhorou função cognitiva na duração dos ensaios disponíveis. Sobre os danos, a evidência foi julgada inadequada, com indícios indiretos de que são importantes e frequentes.
O caderno do Ministério chega ao mesmo lugar por outro caminho, e usa este exame como seu exemplo didático. Ao ensinar a diferença entre desfecho intermediário e desfecho que importa ao paciente, ele escreve o caso: um hormônio estimulante da tireoide pedido para rastreio que volta alterado com tiroxina livre normal é uma situação limítrofe para a qual a ciência ainda não tem resposta sobre se a reposição vai beneficiar o paciente; e conclui que o que interessa não é se o exame normalizou, e sim se a normalização melhora a vida de quem foi tratado.
O dano tem nomes concretos, e nenhum deles é hipotético. Rotulação: a pessoa passa a ter uma doença crônica no prontuário e na cabeça. Cascata: um exame alterado puxa anticorpo, ultrassonografia, repetição, retorno. Tratamento desnecessário: uma parte grande dos valores levemente altos volta sozinha ao normal, e quem começou levotiroxina antes de esperar não vai saber que estava nesse grupo. E dose excessiva, com fibrilação atrial em idoso e perda óssea em mulher na pós-menopausa.
O mesmo caderno do Ministério fecha a tabela de recomendações com uma frase que serve de régua geral: poucas são as recomendações de rastreamento que realmente merecem ser aplicadas em pessoas assintomáticas, e o que se percebe é o abuso da solicitação de exames complementares, que transfere a confiança do profissional para o exame e condiciona o usuário a fazer cada vez mais check-ups. A tireoide é o caso em que essa frase mais se aplica.
Um resultado isolado não fecha nada
Esta é a regra que resolve o envelope de dona Anilda e ela é unânime nas três réguas brasileiras. O consenso dos testes de função tireoidiana é textual: em todas as situações, deve-se confirmar a elevação do hormônio estimulante da tireoide, repetindo a dosagem, antes de iniciar a reposição com levotiroxina, e a segunda amostra vai acompanhada de tiroxina livre. O protocolo de rede diz o mesmo e acrescenta o que pedir junto: tiroxina livre, anticorpo antitireoperoxidase e anticorpo antitireoglobulina.
O consenso do hipotireoidismo subclínico coloca prazo na repetição — e coloca dois. A recomendação 5 diz que o exame deve ser repetido inicialmente em três meses para confirmar persistência. A recomendação 17 diz que o tratamento só deve ser considerado após confirmação em três a seis meses. As duas frases estão no mesmo documento e não dizem a mesma coisa; o capítulo usa três meses porque é o prazo da recomendação que trata da repetição, e porque três meses é o que cabe numa agenda de unidade básica.
A razão de a repetição não ser burocracia está na epidemiologia: uma proporção grande normaliza sozinha, e quanto mais próximo do corte, maior a chance. Repetir não é desconfiar do laboratório: é dar ao paciente a chance de não ter a doença.
A ordem certa dos exames também importa. Hormônio estimulante da tireoide alterado pede tiroxina livre; hormônio estimulante da tireoide normal, num paciente sem suspeita de doença hipofisária, não pede nada. Pedir a tiroxina livre junto no primeiro pacote não está errado, mas gasta o que a unidade tem e não muda a conduta na esmagadora maioria dos casos — o que muda a conduta é a segunda dosagem, três meses depois.
E há uma exceção que inverte tudo isso: tiroxina livre baixa com hormônio estimulante da tireoide alto e clínica franca não pede repetição para confirmar. Pede tratamento. A regra probatória do assintomático não se aplica a quem tem a doença escrita no corpo.
As interferências que fazem o exame mentir
Antes de aceitar um hormônio estimulante da tireoide elevado como doença da tireoide, há uma lista de causas de elevação que o consenso brasileiro imprime numa tabela própria e que se percorre com anamnese, não com exame: ajuste recente de dose de levotiroxina, hipotireoidismo subtratado, recuperação de tireoidite subaguda, período após radioiodo para doença de Graves, fase de recuperação da doença de Graves, elevação fisiológica pela idade, uso de hormônio estimulante da tireoide recombinante em operados de câncer de tireoide, insuficiência adrenal primária não tratada, reação cruzada com anticorpos heterófilos contra proteínas de rato e mutações no receptor.
Duas dessas merecem destaque na atenção primária. A insuficiência adrenal primária não tratada eleva o hormônio estimulante da tireoide e some quando o corticoide entra — tratar a tireoide antes da adrenal, num paciente com hiperpigmentação, hiponatremia e hipotensão postural, é a ordem errada, e a insuficiência adrenal tem capítulo próprio nesta apostila. E a fase de recuperação de doença debilitante: o exame colhido nas semanas seguintes a uma internação descreve a internação.
Do outro lado, medicamentos. Lítio e amiodarona podem produzir tanto elevação reversível e transitória quanto hipotireoidismo verdadeiro — o protocolo de rede registra que o lítio leva a hipotireoidismo subclínico em 20% dos casos e a hipotireoidismo franco em outros 20%. Amiodarona e contrastes iodados reduzem o T3 e elevam modestamente o T4 por inibição das desiodases. Interferon, interleucina 2, inibidores de tirosinoquinase, análogos de somatostatina, talidomida e glicocorticoide em altas doses também aparecem na lista de fármacos capazes de alterar a função tireoidiana.
As interferências de imunoensaio existem e têm tamanho conhecido: a prevalência na população geral é de 0,1% a 2%, subindo para 1% a 10% nas doenças tireoidianas. A assinatura delas é um valor inapropriadamente anormal de hormônio livre ou total na presença de hormônio estimulante da tireoide normal. Quando o par não fecha com a clínica, a hipótese de interferência de ensaio entra antes da hipótese de doença rara.
Uma última, específica e simples de detectar: a heparina eleva a tiroxina livre por um fenômeno que acontece no tubo, e não no paciente. A incubação da amostra ativa a lipase lipoproteica, sobe o ácido graxo não esterificado e desloca hormônio da proteína. O sangue está certo; a coleta é que estava.
O consenso brasileiro sobre testes de função tireoidiana é de 2013 e, por isso, não trata da interferência por biotina, que entrou na discussão laboratorial depois dele. Não existe documento brasileiro nesta lista que a cubra, e por isso este capítulo não afirma nada sobre a magnitude nem o sentido desse efeito.
Anticorpos e ultrassom: o que muda, e o que não
O anticorpo antitireoperoxidase é o teste mais sensível para detectar doença autoimune da tireoide e está presente em 90% a 95% dos pacientes com tireoidite autoimune. O anticorpo antitireoglobulina aparece em 70% a 80% deles. Quando o custo obriga a escolher um, o consenso recomenda o antitireoperoxidase.
O que o anticorpo positivo faz não é fechar diagnóstico: é mudar a probabilidade do futuro. Ele prediz progressão para hipotireoidismo manifesto e, no consenso do subclínico, é um dos critérios que autorizam considerar tratamento abaixo de 10. O que ele não faz é dizer que existe doença: 9% a 25% de indivíduos saudáveis têm anticorpos detectáveis, e 10% a 15% de pacientes com doença tireoidiana não autoimune também.
A ausência também não exclui. Uma minoria dos pacientes com tireoidite autoimune tem anticorpos indetectáveis, e é por isso que o consenso lembra que a positividade sozinha não faz o diagnóstico e a negatividade sozinha não o desfaz.
O ultrassom entra pela mesma porta e pela mesma razão: alterações sugestivas de tireoidite autoimune, sobretudo hipoecogenicidade, associam-se a maior risco de progressão, e um estudo brasileiro citado pelo consenso mostrou isso em nossa população. Ele não entra para procurar nódulo em paciente com hipotireoidismo — essa é uma indicação de outro capítulo, e pedir ultrassom de tireoide por causa de um hormônio estimulante da tireoide alterado é a forma mais comum de abrir uma cascata que termina em punção.
Uma indicação de anticorpo que não é de risco e sim de vigilância: o consenso recomenda pesquisar antitireoperoxidase e antitireoglobulina em quem vai usar ou usa amiodarona, interferon e lítio, porque a presença deles aumenta o risco de disfunção durante o tratamento. Aqui o exame antecede o problema em vez de reagir a ele, que é a única situação em que o rastreamento de anticorpo tem função clara.
E uma que não existe: não há indicação de monitorar anticorpos durante o tratamento do hipotireoidismo. O título não mede resposta e não muda dose. Repetir antitireoperoxidase de ano em ano num paciente já diagnosticado é gasto sem consequência.
Quando o hormônio estimulante da tireoide não serve
Há quatro situações em que ele é o exame errado, e reconhecê-las evita erros grandes.
A primeira é o hipotireoidismo central. Na doença hipofisária ou hipotalâmica, o hormônio estimulante da tireoide pode estar baixo, normal ou até discretamente elevado — o teste não é confiável, e tanto o diagnóstico quanto o controle da reposição se fazem pela tiroxina livre. Um paciente com quadro clínico de hipotireoidismo e hormônio estimulante da tireoide normal, se houver suspeita de doença de hipófise, precisa de tiroxina livre, e não de repetição do primeiro exame. O fluxograma do protocolo de rede leva esse caminho até ressonância de sela.
A segunda é o paciente criticamente doente. As alterações de função tireoidiana são frequentes e quase sempre não significam doença da tireoide; a avaliação não deve ser feita de rotina nesse cenário, e sim quando houver suspeita forte — história prévia de disfunção, bócio, oftalmopatia ou bradicardia inexplicada.
A terceira é o primeiro semestre depois de uma disfunção grave tratada. Em hipotireoidismo ou hipertireoidismo crônico e grave, o hormônio estimulante da tireoide pode permanecer alterado apesar de os hormônios livres já terem normalizado, e isso dura de dois meses a um ano por hipertrofia ou supressão prévia dos tireotrofos. Nesse intervalo, a tiroxina livre é mais confiável que o hormônio estimulante da tireoide.
A quarta é a má adesão, já descrita: hormônio estimulante da tireoide alto com tiroxina livre normal ou alta. O consenso recomenda usar os dois exames juntos no monitoramento de quem se suspeita não estar tomando a medicação como prescrita, exatamente porque o par discordante é a assinatura do problema.
Fora dessas quatro, e no paciente ambulatorial que não está grave, a dosagem do hormônio estimulante da tireoide é o teste inicial e basta. Ensaios de segunda e terceira geração são equivalentes em certeza diagnóstica; o de primeira geração, não, e não deve ser usado.
A régua, e onde ela discorda de si mesma
O objetivo é interpretar testes tireoidianos no contexto e decidir com o paciente quando investigar, tratar, observar ou ajustar. Conhecer a fisiologia e as interferências é mais útil do que decorar diferenças de redação entre documentos. Três documentos brasileiros governam este capítulo e nenhum é protocolo federal: o índice de protocolos clínicos do Ministério da Saúde traz hipotireoidismo congênito e hipoparatireoidismo, e o hipotireoidismo do adulto não está lá. O que existe é um caderno federal de rastreamento de 2010, um par de consensos de sociedade de 2013 e protocolos de rede escritos por serviço. Eles discordam sobre a quem se oferece o exame, sobre onde termina o normal e sobre quem se trata. As tabelas abaixo põem as réguas lado a lado; as notas ao final trazem as contas que não fecham dentro de cada documento, com o número explícito.
- 1O exame chegou. Antes de qualquer coisa: alguém decidiu pedi-lo? Se veio de pacote, de admissional ou de campanha, isso não invalida o resultado — mas muda o que você deve à pessoa em explicação.
- 2Tiroxina livre baixa com hormônio estimulante da tireoide alto e clínica compatível: hipotireoidismo franco. Não repita para confirmar. Trate hoje.
- 3Rebaixamento de consciência, hipotermia e bradicardia em quem tem hipotireoidismo conhecido: pense em coma mixedematoso, garanta via aérea e temperatura, trate o desencadeante e transfira. Não espere exame.
- 4Hormônio estimulante da tireoide alto com tiroxina livre normal, em paciente ambulatorial: é candidato a hipotireoidismo subclínico, não é diagnóstico. Repita em três meses, com tiroxina livre e anticorpo antitireoperoxidase.
- 5Antes de repetir, percorra a anamnese em busca de causa transitória: ajuste recente de levotiroxina, recuperação de tireoidite subaguda, pós-radioiodo, doença grave recente, insuficiência adrenal não tratada, lítio, amiodarona, interferon.
- 6Hormônio estimulante da tireoide baixo ou normal com tiroxina livre baixa: não é hipotireoidismo primário. Pense em hipotireoidismo central, controle pela tiroxina livre e encaminhe para investigação de sela.
- 7Paciente grave, internado, sem suspeita clínica forte de tireoidopatia: não dose. O resultado vai descrever a doença de base.
- 8Repetição confirmou e a tiroxina livre continua normal: agora sim é hipotireoidismo subclínico persistente. A decisão de tratar depende de três coisas — o valor, a idade e o que mais o paciente tem.
- 9Hormônio estimulante da tireoide sustentado em 10 ou mais: o consenso brasileiro recomenda tratar, em qualquer idade. Acima de 65 anos, a recomendação seguinte do mesmo documento pede valor acima de 10 — ver a nota sobre o número 10 exato.
- 10Hormônio estimulante da tireoide abaixo de 10, paciente com menos de 65 anos: considere tratar se houver anticorpo positivo, elevação progressiva, ou doença cardiovascular estabelecida ou risco alto com valor acima de 7.
- 11Hormônio estimulante da tireoide abaixo de 10, paciente acima de 65 anos, sem sintoma: não trate. Repita em seis a doze meses e registre por que não tratou.
- 12Acima de 85 anos, mesmo em quem já usa levotiroxina, o protocolo de rede manda vigiar e reavaliar a necessidade da medicação, em vez de perseguir uma meta.
- 13Iniciando levotiroxina: adulto sem cardiopatia, dose plena de 1,6 a 1,8 microgramas por quilo; idoso frágil ou coronariopata, 12,5 a 25 microgramas, subindo devagar. Em jejum, com água, sem outro comprimido junto.
- 14Reavalie o hormônio estimulante da tireoide seis a oito semanas após cada ajuste de dose — nunca antes. Atingida a meta, a cada seis a doze meses.
- 15Hormônio estimulante da tireoide que não desce: antes de subir a dose, confira horário, jejum, cálcio, ferro, inibidor de bomba e o par tiroxina livre. Refratário é o que sobra depois disso.
| Decisão | O que a régua diz | Documento e ano | Grau declarado |
|---|---|---|---|
| Rastrear adulto assintomático sem fator de risco | Ausente da tabela de recomendações para adultos, que tem nove linhas e nenhuma de tireoide | Caderno de rastreamento do Ministério da Saúde, 2010, e sua reimpressão de 2013 | Não consta |
| Pedir dosagem hormonal, inclusive tireoide, na mulher que entra no climatério | Não há evidência para a realização da maioria desses exames | Caderno de rastreamento do Ministério da Saúde, 2010 | Texto corrido, sem grau |
| Rastrear adulto assintomático não gestante | Evidência insuficiente para pesar benefícios e danos | Força-tarefa norte-americana de serviços preventivos, 2015, corrente em 2024 | I |
| Dosar a partir dos 35 anos, a cada cinco anos | Recomendado como triagem | Consenso brasileiro sobre testes de função tireoidiana, 2013 | D |
| Dosar na presença de sintoma ou de fator de risco, com idade acima de 60 entre os fatores | Recomendado, sem periodicidade fixada | Protocolo de hipotireoidismo da Secretaria Municipal da Saúde, 2023-24 | Sem grau declarado |
| Limite superior do normal do hormônio estimulante da tireoide no adulto | 0,4 a 4,5 | Consenso brasileiro do hipotireoidismo subclínico, 2013, recomendação 2 | A |
| Percentil 97,5 do hormônio estimulante da tireoide por faixa etária | 4,30 em todas as idades; 4,70 dos 60 aos 69; 5,60 dos 70 aos 79; 6,30 acima de 80 | Mesmo consenso, Tabela 2, sobre 13.296 pessoas sem doença tireoidiana | Tabela, sem grau |
| Definição de hipotireoidismo subclínico | Valor igual ou acima de 4,5 com tiroxina livre normal; teto de 20 aceito para o diagnóstico | Mesmo consenso, recomendação 3 | A para o piso, D para o teto |
| Confirmar antes de decidir | Repetir a dosagem em três meses | Mesmo consenso, recomendação 5 | D |
| Tratar todo subclínico persistente | Valor igual ou acima de 10 | Mesmo consenso, recomendação 18 | A e B |
| Tratar o subclínico acima de 65 anos | Apenas com valor sustentado acima de 10 | Mesmo consenso, recomendação 20 | A e B |
| Meta de hormônio estimulante da tireoide em tratamento | 1 a 2,5 abaixo dos 60 anos; 3 a 4 dos 60 aos 70; 4 a 6 acima dos 70; vigilância acima dos 85 | Protocolo da Secretaria Municipal da Saúde, 2023-24 | Sem grau declarado |
| Levotiroxina que o Sistema Único de Saúde financia | 12,5, 25, 37,5, 50 e 100 microgramas em comprimido, todas no Componente Básico | Rename 2024, código H03AA01 | Elenco |
Conversão para o senhor Zeferino, 78 quilos: dose alvo, como montá-la com o elenco do Sistema Único de Saúde e o que existe em comprimido único no comércio
| Dose alvo em microgramas por dia | De onde vem o alvo | Como se monta com o elenco da Rename 2024 | Comprimidos por dia | Existe em comprimido único no comércio? |
|---|---|---|---|---|
| 12,5 | Início em coronariopata e idoso frágil, protocolo de rede | 12,5 | 1 | Sim, e está no elenco |
| 25 | Início em coronariopata e idoso frágil, protocolo de rede | 25 | 1 | Sim, e está no elenco |
| 50 | Dose inicial do adulto, bula | 50 | 1 | Sim, e está no elenco |
| 75 | Piso da manutenção recomendada em bula | 50 mais 25 | 2 | Sim, mas fora do elenco |
| 78 | 1,0 micrograma por quilo, início mínimo do protocolo de rede | 75, o degrau mais próximo, com 3 a menos | 2 | Não |
| 100 | Degrau da titulação em bula | 100 | 1 | Sim, e está no elenco |
| 112,5 | Degrau intermediário entre 100 e 125 | 100 mais 12,5 | 2 | Não; o comercial é 112 |
| 124,8 | 1,6 microgramas por quilo, piso da reposição plena | 125, com 0,2 a mais | 2 | Sim, mas fora do elenco |
| 137,5 | Degrau intermediário entre 125 e 150 | 100 mais 37,5 | 2 | Não |
| 140,4 | 1,8 microgramas por quilo, teto da reposição plena | 137,5, o degrau mais próximo, com 2,9 a menos | 2 | Não |
| 150 | Teto que a bula diz bastar à maioria dos pacientes | 100 mais 50 | 2 | Sim, mas fora do elenco |
| 175 | Degrau seguinte da titulação em bula | 100 mais 50 mais 25 | 3 | Sim, mas fora do elenco |
| 195 | 2,5 microgramas por quilo, teto do refratário pelo peso | 200, com 5 a mais | 2 | Não |
| 200 | Teto do refratário pelo valor absoluto, e dose acima da qual a bula fala em má absorção, erro diagnóstico ou não adesão | 100 mais 100 | 2 | Sim, mas fora do elenco |
As catorze apresentações comerciais da marca de referência e as cinco do elenco
| Concentração em microgramas | Está na Rename 2024? | Se não está, como se chega ao valor com o elenco | Comprimidos por dia |
|---|---|---|---|
| 12,5 | Sim | — | 1 |
| 25 | Sim | — | 1 |
| 37,5 | Sim | — | 1 |
| 50 | Sim | — | 1 |
| 62,5 | Não | 50 mais 12,5 | 2 |
| 75 | Não | 50 mais 25, ou 37,5 mais 37,5 | 2 |
| 88 | Não | Não se chega ao valor exato; o degrau mais próximo é 87,5, com 50 mais 37,5 | 2 |
| 100 | Sim | — | 1 |
| 112 | Não | Não se chega ao valor exato; o degrau mais próximo é 112,5, com 100 mais 12,5 | 2 |
| 125 | Não | 100 mais 25 | 2 |
| 150 | Não | 100 mais 50 | 2 |
| 175 | Não | 100 mais 50 mais 25 | 3 |
| 200 | Não | 100 mais 100 | 2 |
| 300 | Não | 100 mais 100 mais 100 | 3 |
As metas de tratamento por idade do protocolo de rede, ao lado do que o mesmo número significaria em quem não está tratado
| Faixa etária | Meta de hormônio estimulante da tireoide em tratamento | Percentil 97,5 na mesma faixa, pela Tabela 2 do consenso | O que o topo da meta significaria em quem não toma levotiroxina |
|---|---|---|---|
| Abaixo de 60 anos | 1 a 2,5 | 3,60 dos 20 aos 29; 3,90 dos 40 aos 49; 4,20 dos 50 aos 59 | Normal por qualquer régua |
| De 60 a 70 anos | 3 a 4 | 4,70 dos 60 aos 69 | Normal por qualquer régua |
| Acima de 70 anos | 4 a 6 | 5,60 dos 70 aos 79; 6,30 acima de 80 | Um valor de 5,0 seria hipotireoidismo subclínico pelo corte de 4,5 do mesmo consenso, e normal pela tabela dele |
| Acima de 85 anos | Vigilância, e reavaliar a necessidade de manter a medicação | 6,30 acima de 80 | Sem meta declarada |
A régua federal foi conferida em duas tiragens, e a conferência fechou. O caderno de rastreamento circula em dois arquivos com endereços diferentes: um datado de 2010 e outro de 2013. O de 2013 declara na folha de rosto 1ª edição, 1ª reimpressão, tiragem de 5.000 exemplares, com o mesmo número internacional normalizado 978-85-334-1729-8, as mesmas 95 páginas e a nota de copyright de 2010. Comparados os dois textos com espaço e hífen normalizados, o miolo tem cerca de 201 mil caracteres e catorze trechos divergentes, todos de composição — uma sigla escrita por extenso num e abreviada no outro, um ponto final, uma quebra de linha. As tabelas de recomendação são idênticas nas duas tiragens. A régua federal sobre tireoide em adulto, portanto, não mudou entre 2010 e 2013.
A tabela de adultos do caderno federal tem nove linhas: dislipidemia em quatro recortes de sexo e idade, hipertensão acima dos 18 anos, diabetes tipo 2 em quem tem pressão sustentada alterada, tabagismo, uso de álcool e obesidade. Tireoide não está entre elas. Aparece uma única vez no caderno inteiro, na tabela de crianças, como triagem neonatal de hipotireoidismo congênito, com grau A. Ausência de linha não é proibição: é ausência de recomendação, e a diferença entre as duas coisas precisa ficar clara para quem lê.
A frase do mesmo caderno sobre o climatério é mais explícita e, ao mesmo tempo, deixa um vão. Ela nomeia seis investigações — ultrassonografia transvaginal, hormônio estimulante da tireoide, hormônio folículo-estimulante, hormônio luteinizante, estradiol, perfil lipídico e glicemia — e conclui que não há evidência para a realização da maioria desses exames. Maioria, e não todos: o documento exime uma minoria que não nomeia, e o leitor não tem como saber qual. A leitura conservadora, que este capítulo adota, é que a tireoide está entre os que a frase recusa, porque a tabela de recomendações do mesmo caderno não a inclui.
Um deslize de unidade no caderno federal, que não muda o ensino mas muda o número. No exemplo didático sobre desfecho intermediário, ele escreve que o hormônio estimulante da tireoide veio alterado para 10 UI. A unidade do exame é milésimo de unidade por litro, ou micro-unidade por mililitro; 10 UI, ao pé da letra, seriam mil vezes o valor que o exemplo descreve. O prefixo caiu na composição, e o raciocínio do trecho continua correto.
O corte de 4,5 do consenso brasileiro não é o percentil da tabela que o próprio consenso imprime. A recomendação 2 fixa o normal do adulto entre 0,4 e 4,5, com grau A, citando as referências 4 e 19. A Tabela 2, declarada como modificada da referência 19, traz para todas as idades juntas percentil 2,5 de 0,42 e percentil 97,5 de 4,30. Ou seja: o teto que a recomendação adota está 0,20 acima do percentil 97,5 da tabela que ela cita. É uma diferença pequena em número e grande em consequência, porque é justamente na vizinhança de 4,5 que se concentra a população que reverte sozinha.
Há um dado brasileiro dentro do mesmo consenso que dá um teto mais baixo ainda, e não é o adotado. Num estudo nacional com 960 adultos de 18 a 60 anos, sem bócio, sem anticorpos e sem medicações que alterem a função, o valor médio do hormônio estimulante da tireoide foi 1,52, com percentil 2,5 de 0,43 e percentil 97,5 de 3,24. O consenso registra esse número e mesmo assim adota 4,5, que vem de grandes estudos populacionais norte-americanos. A distância entre 3,24 e 4,5 é de 1,26 — e é dentro dessa faixa que caem muitos dos exames que chegam à unidade básica.
Dois valores exatos não pertencem a classe nenhuma na classificação de gravidade do subclínico. O texto corrido do consenso escreve leve-moderado como maior que 4,5 até 9,9, e a recomendação 6, três linhas abaixo, escreve a mesma faixa como de 4,5 a 9,9. Um valor de exatamente 4,5 é hipotireoidismo subclínico pela recomendação 3, que usa igual ou maior, é leve-moderado pela recomendação 6 e não é nada pelo texto corrido. E um valor de 9,95, que qualquer laboratório com duas casas decimais devolve, fica fora das duas faixas: acima do 9,9 que fecha a leve-moderada e abaixo do 10,0 que abre a grave.
O teto de 20 do diagnóstico briga com a definição do próprio consenso. A recomendação 1 define hipotireoidismo subclínico pela elevação do hormônio estimulante da tireoide com tiroxina livre normal, sem teto. A recomendação 3, com grau D, aceita valores até 20 como limite máximo para o diagnóstico. Um paciente com valor de 24 e tiroxina livre normal satisfaz a definição da recomendação 1 e está fora do teto da recomendação 3 — não é subclínico por ela e não é franco, porque a tiroxina livre está normal. Na prática ninguém deixa esse paciente sem tratamento, e a recomendação 18 já mandaria tratá-lo por estar acima de 10; mas o vão de classificação existe e está escrito.
O prazo da repetição tem dois valores no mesmo documento. A recomendação 5 diz que o exame deve ser repetido, inicialmente, em três meses, para confirmar hipotireoidismo subclínico persistente. A recomendação 17 diz que o tratamento só deve ser considerado após confirmação em três a seis meses. As duas descrevem o mesmo ato e dão janelas diferentes.
O número mais disputado deste capítulo é o 10,0 exato, e três documentos o tratam de três maneiras. A recomendação 18 do consenso manda tratar todos os pacientes com subclínico persistente e valor igual ou acima de 10 — o exato 10,0 entra. A recomendação 20 do mesmo consenso diz que, acima de 65 anos, o tratamento é recomendado apenas com valor sustentado acima de 10 — o exato 10,0 sai. E a tabela do protocolo de rede tem três colunas, menor que 7, entre 7 e 9,9, e acima de 10: o exato 10,0 não pertence a nenhuma delas. Um paciente de 70 anos com dois exames de 10,0 é tratado por um parágrafo, não é tratado pelo parágrafo seguinte e não é classificável pela tabela do serviço.
O texto e a tabela do protocolo de rede pedem coisas diferentes na mesma página. O texto manda iniciar levotiroxina se houver elevação persistente acima de 10, ou valor entre 4,5 e 10 associado a anticorpos positivos, dislipidemia, bócio ou sinais e sintomas. A tabela ao lado, para quem tem menos de 65 anos e valor menor que 7, responde NÃO na linha de risco cardiovascular alto e NÃO na de doença cardiovascular, e só responde SIM para sintomático e para risco de progressão. Dislipidemia é marcador de risco cardiovascular: um paciente de 50 anos com valor de 5,5 e dislipidemia é tratado pelo texto e não é tratado pela tabela. O consenso de sociedade, nesse ponto, concorda com a tabela e não com o texto, porque exige valor acima de 7 para considerar tratamento por risco cardiovascular abaixo dos 65 anos.
Duas normas brasileiras em uso divergem sobre a partir de quando se trata todo mundo. O consenso de 2013 recomenda tratamento para todos com subclínico persistente e valor igual ou acima de 10. O protocolo de rede escreve, na mesma seção, que os novos consensos orientam tratar a todos quando o valor está acima de 20. A distância entre 10 e 20 é a faixa em que está a maior parte dos pacientes cuja decisão é difícil.
O erro mais grave encontrado é de unidade e vale mil vezes. Na seção de dose, o protocolo de rede escreve que a dose inicial no idoso frágil e no coronariopata é de 12,5 mcg a 25 mcg. Adiante, na seção de situações especiais, escreve para o mesmo paciente coronariopata: iniciar com a dose de 12,5mg ou 25mg. Doze vírgula cinco miligramas são 12.500 microgramas, mil vezes a dose pretendida — o equivalente a 125 comprimidos de 100 microgramas por dia, e mais de 60 vezes o teto de 200 microgramas que o próprio documento usa para definir refratariedade. É erro de composição, o parágrafo anterior desmente o seguinte, e é exatamente o tipo de linha que vira prescrição quando copiada sem conferir.
Os dois critérios de refratariedade do protocolo de rede só concordam num peso. Ele define hipotireoidismo refratário por doses de levotiroxina acima de 2,5 microgramas por quilo por dia ou acima de 200 a 300 microgramas por dia. Recalculando: 2,5 microgramas por quilo equivalem a 200 microgramas exatamente aos 80 quilos. Abaixo disso, o critério por peso é mais rígido — numa mulher de 60 quilos ele dispara em 150 microgramas por dia, enquanto o critério absoluto só dispararia em 200, uma diferença de 33%. Acima de 80 quilos a relação se inverte. O mesmo paciente é ou não é refratário conforme a linha que se leia.
Um segundo erro de unidade no mesmo documento, em frases vizinhas, e este é de sessenta vezes. Na seção de puerpério, ele escreve que a descontinuidade pode ser considerada se a dose está menor do que 50 mcg/kg, e na frase seguinte escreve, para o mesmo limiar, se a dose estava acima de 50mcg/dia. Numa mulher de 60 quilos, 50 microgramas por quilo dariam 3.000 microgramas por dia — dez vezes o teto de 300 microgramas que o próprio documento usa para refratariedade. A conduta puerperal em si é do capítulo de tireoidopatias na gestação, em Obstetrícia; o que fica aqui é a aritmética, porque é o mesmo documento que governa a dose do adulto.
O intervalo de jejum tem dois valores brasileiros, e a diferença é de meia hora. A bula da marca de referência manda administrar com estômago vazio, uma hora antes ou duas horas depois do café da manhã ou de qualquer alimento, e repete a instrução em duas seções. O protocolo de rede manda um intervalo de pelo menos 30 minutos entre a tomada e o desjejum. Trinta minutos é o que se ensina de boca em boca nas unidades; sessenta é o que está escrito no documento que acompanha o comprimido. Nenhum dos dois é errado por si, e o capítulo orienta o intervalo maior porque é o da bula do medicamento que a pessoa vai tomar.
O intervalo de titulação da bula é mais curto do que o tempo que o exame leva para responder. A bula manda aumentar 25 microgramas a cada duas ou três semanas até o efeito desejado. O consenso brasileiro sobre testes de função tireoidiana registra que o hormônio estimulante da tireoide reflete um estado de seis a oito semanas de uso da tiroxina, e o protocolo de rede manda repetir os exames em seis a oito semanas — e, adiante, na seção do coronariopata, manda aumentar a dose a cada 15 a 30 dias, que é um terceiro intervalo dentro do mesmo documento. Subir a dose a cada duas ou três semanas significa, na melhor das hipóteses, subir sem saber o efeito da subida anterior — e o capítulo usa o prazo de seis a oito semanas, que é o do exame, e não o de duas a três, que é o da bula.
A faixa de manutenção que a bula recomenda não existe no elenco do Sistema Único de Saúde em nenhum de seus dois extremos. A bula recomenda 75 a 125 microgramas por dia para a manutenção; a Rename 2024 tem 12,5, 25, 37,5, 50 e 100. Chegar a 75 exige dois comprimidos (50 mais 25, ou 37,5 duas vezes) e chegar a 125 exige dois (100 mais 25). Das catorze concentrações comerciais da marca de referência, nove não têm equivalente no elenco: 62,5, 75, 88, 112, 125, 150, 175, 200 e 300. Duas delas, 88 e 112, não são sequer alcançáveis exatamente por soma — os degraus mais próximos são 87,5 e 112,5.
O que foi conferido e fechou pesa tanto quanto o que não fechou, e por isso fica escrito. As cinco apresentações de levotiroxina e o Componente Básico foram confirmados por busca exata sobre o texto normalizado da Rename 2024, nas duas listas em que ela aparece — o anexo por componente e o anexo do Componente Básico —, com o mesmo código H03AA01 e sem nenhuma apresentação acima de 100 microgramas. Com no máximo dois comprimidos por dia, o elenco alcança todos os doze degraus de 12,5 em 12,5 microgramas entre 12,5 e 150; só a partir de 162,5 é preciso um terceiro comprimido. A Tabela 2 do consenso é internamente coerente, com os percentis subindo monotonicamente dos 13 aos 80 anos sem faixa órfã. E a aritmética por peso do senhor Zeferino fecha: 1,6 micrograma por quilo em 78 quilos dá 124,8, a 0,2 do degrau de 125 que se monta com dois comprimidos.
A conduta, hora a hora
Conduzir hipotireoidismo na unidade básica é fazer três coisas em ordem: decidir se existe doença, escolher a dose que a farmácia da unidade consegue entregar, e garantir que o comprimido prescrito vire hormônio absorvido. A terceira é a que mais falha e a que menos se ensina.
Duas coisas atravessam todos os marcos abaixo. A primeira é que o relógio do exame é de seis a oito semanas: qualquer decisão tomada antes disso, depois de uma mudança de dose, está sendo tomada sobre um número que ainda descreve o passado. A segunda é que a levotiroxina do Sistema Único de Saúde vem em cinco apresentações, e a dose que você escreve tem de ser montada com elas — a receita que pede uma concentração que não existe no elenco não é uma receita, é um problema transferido para o balcão.
Os oito marcos seguem os três pacientes da abertura, na ordem em que eles resolvem: o que tem doença inequívoca, a que tem um número e nenhuma doença, e a que tem tratamento correto e resultado errado.

O percurso de raciocínio tem três etapas: por que o exame foi pedido; se a combinação de TSH e T4 livre indica doença persistente, interferência ou contexto especial; e se tratar produzirá benefício neste paciente. Nas alterações subclínicas, idade, sintomas, tendência, autoimunidade e comorbidades importam mais que discutir isoladamente o sinal de igualdade de um corte. Na doença hipofisária, TSH isolado não exclui hipotireoidismo: articular com O cortisol vem antes.
Primeira consulta do paciente com hipotireoidismo franco
Zeferino chega com hormônio estimulante da tireoide de 42 e tiroxina livre de 0,4, abaixo do intervalo de referência de 0,7 a 1,8, e com um ano de clínica. Aqui não se repete para confirmar: a regra da segunda amostra existe para o assintomático, em quem o número está sozinho. Ele tem tiroxina livre baixa e sintoma, e a demora de três meses seria três meses de doença. O que se pede junto, na mesma coleta, é o anticorpo antitireoperoxidase — não para autorizar o tratamento, que começa hoje, mas para nomear a causa, que na esmagadora maioria será tireoidite autoimune, e para saber que é permanente. Junto vão hemograma, sódio, creatinina, colesterol total e frações, e um eletrocardiograma, porque a decisão de dose depende do coração dele. Antes de escrever a receita, três perguntas rápidas. Ele usa lítio, amiodarona ou interferon? Tem sintoma de insuficiência adrenal — hiperpigmentação, hipotensão postural, hiponatremia? Fez cirurgia de tireoide ou radioiodo? A primeira muda a causa, a segunda muda a ordem do tratamento e a terceira muda o seguimento.
Prescrição- Anticorpo antitireoperoxidase, na mesma coleta.
- Hemograma, sódio, creatinina, colesterol total e frações.
- Eletrocardiograma antes de definir a dose inicial.
- Retorno em 8 semanas com novo hormônio estimulante da tireoide.
Escolha da dose inicial, e a exceção do coração
Em adulto sem cardiopatia, a reposição plena entra de uma vez. O protocolo de rede dá a dose do adulto jovem como 1,6 a 1,8 microgramas por quilo por dia, e diz que a dose inicial nessa população deve ser de pelo menos 1 micrograma por quilo. Nos 78 quilos de Zeferino, isso é 124,8 a 140,4 microgramas por dia de reposição plena, e um piso inicial de 78. A bula da marca de referência fala outra língua e é preciso saber qual das duas você está seguindo: ela manda começar com 50 microgramas por dia e subir 25 a cada duas ou três semanas, com manutenção de 75 a 125, e diz que a maioria dos pacientes não exige mais de 150. Para um homem de 54 anos sem cardiopatia, começar em 50 e levar dois meses para chegar onde a conta de peso já mandava é atraso sem ganho — e este capítulo inicia pela conta de peso. A exceção não é a idade sozinha: é o coração. Em idoso frágil e em coronariopata, o protocolo de rede manda iniciar com 12,5 a 25 microgramas e subir devagar. A razão é que a reposição aumenta o consumo miocárdico de oxigênio e pode desmascarar angina. Se o eletrocardiograma de Zeferino mostrar isquemia, ou se ele tiver angina, a dose inicial cai para 25 e a subida passa a ser guiada por sintoma, não por conta.
Prescrição- Levotiroxina sódica 125 mcg por via oral, um comprimido de 100 mcg mais um de 25 mcg, uma vez ao dia.
- Em coronariopata ou idoso frágil: levotiroxina sódica 25 mcg por via oral, uma vez ao dia, com aumentos guiados por sintoma.
- Orientar procurar atendimento se surgir dor torácica, palpitação ou piora de cansaço aos esforços.
Montar a dose com o que existe na farmácia da unidade
A Rename 2024 traz levotiroxina sódica em cinco apresentações, todas no Componente Básico: 12,5, 25, 37,5, 50 e 100 microgramas em comprimido. Não há apresentação acima de 100. Quem escreve 75 microgramas está escrevendo dois comprimidos; quem escreve 125, também; quem escreve 175, três. A boa notícia é que o elenco é uma grade fina. Com no máximo dois comprimidos por dia ele alcança todos os degraus de 12,5 em 12,5 microgramas entre 12,5 e 150 — 12,5, 25, 37,5, 50, 62,5, 75, 87,5, 100, 112,5, 125, 137,5 e 150. Só a partir de 162,5 é preciso um terceiro comprimido. Nenhum ajuste clinicamente relevante fica sem degrau. A má notícia é de balcão e de adesão. Nove das catorze concentrações comerciais da marca de referência estão fora do elenco, e duas delas — 88 e 112 — não se montam nem por soma. Um paciente que vinha usando 88 microgramas de um comprimido só, comprados na farmácia, passa a tomar dois comprimidos por dia para chegar a 87,5. Isso muda a adesão, e a mudança tem de ser dita na consulta, com a receita explicando os dois comprimidos e a razão.
Prescrição- Escrever a dose em microgramas por dia e, ao lado, quantos comprimidos de cada apresentação.
- Preferir a menor combinação de comprimidos que atinja o degrau — dois, no máximo, até 150 mcg.
- Registrar na receita que os comprimidos são tomados juntos, de uma vez, e não divididos ao longo do dia.
A tomada — onde metade dos tratamentos falha
A instrução vale para todos os pacientes deste capítulo e é a que mais muda resultado. A bula manda administrar com estômago vazio, uma hora antes ou duas horas depois do café da manhã ou de qualquer alimento. O protocolo de rede manda tomar ao acordar, em jejum, apenas com água potável, sem nenhum outro remédio junto, com intervalo mínimo de trinta minutos até o desjejum. Onde os dois discordam, este capítulo usa o intervalo maior, que é o do documento que acompanha o comprimido. Quatro coisas não podem ir junto, e três delas são muito comuns na mesma receita: carbonato de cálcio, antiácido e sucralfato reduzem a absorção, e a bula manda separá-los tanto quanto possível; sulfato ferroso faz o mesmo. Some a isso o que o protocolo de rede lista como redutor de absorção intestinal — uso crônico de inibidor de bomba de prótons, dieta rica em fibras e soja, doença celíaca, doença inflamatória intestinal, infecção por Helicobacter pylori e parasitoses. Na prática da unidade básica, a orientação que funciona é uma frase e um lugar: o comprimido fica na cabeceira com um copo de água, é o primeiro ato do dia, e qualquer outro comprimido — inclusive o cálcio, inclusive o ferro — vai para o almoço ou para a noite. Escreva isso na receita, não só na conversa.
Prescrição- Levotiroxina em jejum, ao acordar, com água, uma hora antes do café da manhã.
- Separar levotiroxina de cálcio, ferro, antiácidos e sucralfato por pelo menos 4 horas; escolher horários que a pessoa consiga manter e registrar na receita.
- Orientar que, esquecida a dose, ela não se soma à do dia seguinte.
Primeira consulta da paciente assintomática com exame alterado
Dona Anilda tem 72 anos, nenhuma queixa e um hormônio estimulante da tireoide de 5,2 vindo de um pacote de check-up. A conduta correta hoje não é tratar e não é tranquilizar sem plano: é repetir em três meses, com tiroxina livre e anticorpo antitireoperoxidase, e explicar por quê. Três coisas justificam a espera, e todas são dela e não do exame. A primeira é que uma proporção grande dos valores levemente altos normaliza sozinha, e a reversão é mais frequente justamente na faixa de 4 a 6, onde ela está. A segunda é que o percentil 97,5 do hormônio estimulante da tireoide na faixa de 70 a 79 anos, na tabela do próprio consenso brasileiro, é 5,60 — o 5,2 dela está dentro do intervalo que descreve pessoas sem doença tireoidiana da idade dela. A terceira é que, mesmo que a repetição confirme, o consenso não recomenda tratar acima de 65 anos com valor abaixo de 10. O que se faz hoje, então: anamnese dirigida aos fatores de risco — tireoidectomia, radiação cervical, doença autoimune, lítio, amiodarona, história familiar; exame físico com palpação da tireoide e frequência cardíaca; e o pedido da segunda dosagem. Se o pacote de check-up trouxe colesterol ou sódio alterados, eles entram na conta, porque mudam a probabilidade e a decisão futura.
Prescrição- Repetir hormônio estimulante da tireoide em 3 meses, com tiroxina livre e anticorpo antitireoperoxidase.
- Nenhuma medicação hoje.
- Registrar em prontuário o valor, a idade e a decisão de não tratar, com a razão.
A repetição confirmou, e a decisão é não tratar
Três meses depois, o exame de dona Anilda volta em 5,4, com tiroxina livre normal e anticorpo antitireoperoxidase negativo. Agora existe hipotireoidismo subclínico persistente, e a decisão continua sendo não tratar — mas agora ela precisa ser escrita, porque a próxima pessoa que abrir o prontuário vai ver um exame alterado duas vezes e a ausência de receita. A regra que sustenta a decisão é a recomendação 20 do consenso brasileiro: acima de 65 anos, o tratamento é recomendado apenas com valor sustentado acima de 10. As razões que o próprio consenso dá são três — não há associação com risco cardiovascular e de mortalidade nessa faixa etária, não há efeito favorável do tratamento em estudos de coorte, e o risco de insuficiência cardíaca no idoso concentra-se acima de 10. E há a recomendação 21, que fecha a porta do lado do sintoma: não há recomendação de tratar idoso com subclínico para alívio de sintoma ou melhora de qualidade de vida. O que muda essa decisão no futuro, e o que se combina com ela: valor subindo em medidas sucessivas, anticorpo que positive, aparecimento de sintoma que ela mesma reconheça como novo, ou valor que ultrapasse 10. Fora isso, repetir de seis em seis a doze meses e não pedir mais nada.
Prescrição- Nenhuma medicação.
- Repetir hormônio estimulante da tireoide em 6 a 12 meses.
- Anotar em prontuário: hipotireoidismo subclínico persistente, valor abaixo de 10, idade acima de 65 — sem indicação de tratamento.
- Orientar retorno antes do prazo se surgir sintoma novo.
O exame que não desce em quem toma a medicação
Miralva usa 100 microgramas há três anos e o exame veio com hormônio estimulante da tireoide de 11,5 e tiroxina livre de 1,7. Esse par é a assinatura descrita pelo consenso brasileiro: o hormônio estimulante da tireoide reflete um estado de seis a oito semanas, e a tiroxina livre reflete os últimos dias. Alto com livre normal ou alta é o padrão de quem não absorve de forma constante, ou de quem toma de forma intermitente. Ela toma todos os dias — e é por isso que a resposta não é dose. Ela toma com o café e com o carbonato de cálcio, duas interferências nomeadas em bula. A conduta é mudar o horário, separar o cálcio, e repetir o exame em oito semanas com a mesma dose. Subir para 125 agora significaria, se o horário for corrigido depois, hipertratar uma mulher de 46 anos — e hipertratamento tem consequência medida: 14,4% dos pacientes em tratamento no estudo multicêntrico brasileiro estavam com dose acima do necessário. A ordem das verificações, antes de qualquer aumento, é sempre esta: toma todo dia? toma em jejum? quanto tempo até comer? o que mais toma no mesmo horário? começou inibidor de bomba, cálcio, ferro, sulfato ferroso da gestação, suplemento com soja? mudou de fabricante? Só depois de as seis respostas fecharem é que a dose entra na conversa. E, aí sim, o aumento é de 12,5 a 25 microgramas, com exame em seis a oito semanas.
Prescrição- Manter levotiroxina 100 mcg, sem aumento.
- Passar a tomada para o jejum, ao acordar, com água, uma hora antes do café.
- Carbonato de cálcio transferido para o almoço e para a noite.
- Repetir hormônio estimulante da tireoide e tiroxina livre em 8 semanas.
Quando se decide tratar um subclínico sintomático — e quando se para
Existe uma situação em que o tratamento entra sem que o valor mande: o paciente com menos de 65 anos, com subclínico persistente e com sintomas que ele atribui à tireoide. O consenso brasileiro é honesto sobre isso: não encontrou evidência que sustente tratar com levotiroxina para alívio de sintoma, melhora de qualidade de vida ou de função cognitiva. E, ainda assim, aceita — na dependência de julgamento clínico individual — a realização de um teste terapêutico por curto período. O que transforma isso em conduta defensável, e não em início disfarçado de tratamento vitalício, é a segunda metade da mesma recomendação, que quase ninguém cumpre: se as manifestações clínicas permanecerem inalteradas após a normalização do hormônio estimulante da tireoide, o tratamento deverá ser suspenso. Na prática, isso significa combinar antes de começar. Escolha com o paciente dois ou três sintomas que ele espera que melhorem, anote-os no prontuário com as palavras dele, marque o prazo — normalização do exame mais oito a doze semanas de dose estável — e diga, na consulta em que a receita é entregue, que se os sintomas não mudarem o remédio será suspenso. Sem esse combinado escrito, o teste terapêutico vira uma prescrição para a vida inteira que ninguém revisa.
Prescrição- Anotar em prontuário, com as palavras do paciente, os dois ou três sintomas que serão o desfecho do teste.
- Levotiroxina em dose baixa, ajustada até normalizar o hormônio estimulante da tireoide.
- Reavaliar sintomas 8 a 12 semanas após a normalização.
- Suspender a levotiroxina se os sintomas estiverem inalterados, e registrar a suspensão.
Como saber se está funcionando
Reavaliar hipotireoidismo é, sobretudo, respeitar um relógio. O hormônio estimulante da tireoide leva de seis a oito semanas para chegar ao equilíbrio depois de uma mudança de dose, e nenhuma pressa encurta esse prazo — o exame colhido em três semanas mede a dose anterior e induz um aumento em cima de um aumento.
Os parâmetros abaixo estão em ordem de peso. Os três primeiros dizem se a dose está certa; os três seguintes dizem se ela está sendo tomada; o último diz se ela está fazendo mal.
Nenhum deles se avalia sozinho: o par hormônio estimulante da tireoide e tiroxina livre, lido junto, separa dose insuficiente de absorção falha, e é a leitura que muda a conduta com mais frequência.
Esperado: Queda progressiva até a meta da faixa etária: 1 a 2,5 abaixo dos 60 anos, 3 a 4 dos 60 aos 70, 4 a 6 acima dos 70
Se não melhora: Antes de aumentar a dose, percorra as seis perguntas de adesão e absorção. Se todas fecharem e a tiroxina livre estiver baixa, aumente 12,5 a 25 microgramas e repita em seis a oito semanas.
Esperado: Subida para dentro do intervalo de referência do método, tipicamente 0,7 a 1,8 nanogramas por decilitro
Se não melhora: Livre baixa com hormônio estimulante alto é dose ou absorção. Livre normal ou alta com hormônio estimulante alto é uso intermitente ou coleta logo após a tomada. Livre baixa com hormônio estimulante normal ou baixo pede investigação de hipófise.
Esperado: Melhora dos sintomas escolhidos, com as palavras que ele usou na primeira consulta
Se não melhora: Se o exame normalizou e os sintomas não mudaram, o sintoma não era da tireoide. Em teste terapêutico de subclínico, isso é indicação de suspender a levotiroxina, e não de subir a dose.
Esperado: Sem taquicardia, palpitação, tremor, insônia ou perda de peso não intencional
Se não melhora: Palpitação e insônia são as reações mais comuns da levotiroxina e apontam dose excessiva. Reduza um degrau e repita o exame em seis a oito semanas.
Esperado: Ausência de angina nova ou de piora do padrão anterior
Se não melhora: Volte à dose anterior e trate a coronariopatia antes de retomar a subida. A meta de exame cede à segurança do coração — em quem tem angina, ficar levemente hipotireóideo é preferível a desmascarar isquemia.
Esperado: Tomada diária, em jejum, com água, e nenhum outro comprimido no mesmo horário
Se não melhora: Pergunte onde o comprimido fica guardado e o que acontece antes do café. A resposta costuma ser prática — a cartela está na cozinha, ao lado do cálcio — e a solução também.
Esperado: Hormônio estimulante da tireoide dentro da meta da idade, ritmo cardíaco regular
Se não melhora: Hormônio estimulante da tireoide suprimido em uso crônico associa-se a fibrilação atrial, sobretudo acima dos 65 anos, e a perda de massa óssea na pós-menopausa. Reduza a dose ao menor nível eficaz, como manda a própria bula.
Onde o erro machuca
O dano: Uma parte grande dos valores levemente elevados volta sozinha ao normal, e quem começou o tratamento antes de repetir nunca vai saber que estava nesse grupo. O paciente ganha uma doença crônica no prontuário, um comprimido diário e um seguimento vitalício por um número que talvez já não exista.
Como pegar a tempo: Fora do hipotireoidismo franco, nenhuma dosagem isolada fecha diagnóstico. Repita em três meses, com tiroxina livre e anticorpo antitireoperoxidase, antes de qualquer receita — a repetição é a intervenção, não a espera.
O dano: Corrigido o horário depois, o paciente fica com dose acima do necessário e ninguém volta a reduzir. Hipertratamento crônico tem desfecho conhecido: fibrilação atrial acima dos 65 anos e perda de massa óssea na pós-menopausa.
Como pegar a tempo: Antes de qualquer aumento, seis perguntas: toma todo dia, toma em jejum, quanto tempo até comer, o que mais toma junto, começou cálcio, ferro ou inibidor de bomba, mudou de fabricante. O par com a tiroxina livre normal ou alta já aponta o caminho.
O dano: A elevação do hormônio estimulante da tireoide com a idade é fisiológica, e o consenso brasileiro registra que no idoso ela pode representar proteção cardiovascular e associar-se a maior longevidade. Empurrar o número de um paciente de 80 anos para 2,0 é tratá-lo com dose que, para a idade dele, é excessiva.
Como pegar a tempo: Use a meta da faixa etária: 4 a 6 acima dos 70 anos, e vigilância com reavaliação da necessidade da medicação acima dos 85. E lembre que o percentil 97,5 do exame acima de 80 anos é 6,30 em pessoas sem doença tireoidiana.
O dano: O ultrassom não é exame de função e não muda a decisão de tratar. O que ele faz, com frequência, é achar um nódulo incidental que ninguém procurava, abrindo uma cascata de punção e seguimento numa pessoa que tinha apenas um número de laboratório.
Como pegar a tempo: O ultrassom entra para caracterizar tireoidite autoimune quando isso muda a estimativa de progressão, e para investigar nódulo palpável ou massa cervical — que é assunto de outro capítulo. Exame de função alterado, sozinho, pede repetição, não imagem.
O dano: O título não mede resposta ao tratamento e não muda dose. O consenso é explícito: não há indicação de monitorar anticorpos antitireoidianos durante o curso do tratamento do hipotireoidismo. É gasto e coleta sem consequência.
Como pegar a tempo: Dose o anticorpo uma vez, para nomear a causa e estimar o risco de progressão. Depois disso, o seguimento é hormônio estimulante da tireoide, e mais nada.
O dano: O resultado descreve a dose anterior. Lido como se descrevesse a atual, ele produz um segundo aumento em cima de um aumento que ainda não teve efeito — e o paciente chega em duas ou três voltas a uma dose bem acima da que precisava.
Como pegar a tempo: Seis a oito semanas, sempre, depois de cada mudança. Se a agenda não tem vaga em oito semanas, marque em dez — não em quatro. E marque o exame antes da consulta, para que os dois aconteçam na mesma semana.
O que dizer ao paciente e à família
Metade das conversas deste capítulo é sobre não fazer nada, e essa é a conversa mais difícil da atenção primária. Não fazer nada, dito sem explicação, soa como descaso; dito com plano e com data, é conduta.
A regra que organiza todas as falas abaixo é uma: nomeie o número, diga o que ele significa na idade daquela pessoa, e diga o que vai acontecer e quando. O paciente que sai com uma data na mão não volta ansioso na semana seguinte com o mesmo papel.
E há uma segunda, que vale para o paciente que já toma o remédio: pergunte o horário antes de falar em dose, e pergunte de um jeito que não peça confissão.
Explicar por que não vai tratar hoje um exame alterado em quem não tem queixa
“"A senhora tem um exame de tireoide um pouco acima do que o laboratório imprime como normal. Só que esse valor, na sua idade, muitas vezes é o valor da sua idade — a tireoide sobe um pouco esse número conforme a gente envelhece, e isso não é doença. Além disso, quando ele está pouco acima como o seu, em boa parte das pessoas ele volta sozinho ao normal em alguns meses. Por isso eu não vou começar remédio hoje. Vou pedir para a senhora repetir em três meses, junto com dois outros exames que vão me dizer se isso tende a piorar ou não. Se piorar, a gente trata; se ficar como está, a gente acompanha e a senhora não toma um comprimido que não precisa."”
Não diga: Evite "está tudo bem" e "não é nada": o exame está alterado, e o paciente tem o papel na mão. Negar o achado destrói a confiança quando o segundo exame vier igual.
Responder à filha que pesquisou na internet e trouxe o pacote de exames
“"A senhora fez uma coisa boa, que foi trazer a sua mãe. Sobre esse exame: o que a internet mostra é a faixa de referência do laboratório, que é a mesma para uma pessoa de trinta e para uma de setenta e dois. Só que a faixa das pessoas saudáveis de setenta e dois anos é mais alta — está em tabela, em documento brasileiro. O número da sua mãe está dentro da faixa das pessoas da idade dela. Isso não quer dizer ignorar: quer dizer repetir em três meses, e é isso que a gente vai fazer."”
Não diga: Evite desqualificar a busca da família. Quem procurou informação e trouxe a mãe à consulta é aliado; tratada como intrusa, ela leva a mãe a outro serviço e volta com a receita pronta.
Contar a um paciente com hipotireoidismo franco que o tratamento é para a vida toda
“"O seu exame mostra que a tireoide está produzindo pouco hormônio, e isso explica o cansaço, o peso, a voz e a mão travada de manhã. O remédio é o próprio hormônio, em comprimido. Ele funciona bem, e o senhor provavelmente vai se sentir melhor em algumas semanas. A parte que eu preciso que fique clara é que, na causa mais comum, que é a que a gente vai confirmar com um exame hoje, isso não volta ao normal: o comprimido é para sempre. Não é um remédio de tratamento, é um remédio de reposição, como um óculos. Parar porque melhorou é o jeito mais comum de voltar ao ponto de partida em alguns meses."”
Não diga: Evite prometer prazo de melhora sintoma a sintoma. Cansaço e peso respondem devagar e desigualmente, e a promessa não cumprida vira abandono do tratamento.
Explicar por que o comprimido tem de ser tomado em jejum, sem culpar quem tomava errado
“"A senhora está tomando certinho todo dia, e isso é a parte difícil. O que a gente vai mudar é só a hora. Esse comprimido é absorvido no intestino e é muito sensível ao que está lá junto — comida, café, e principalmente o cálcio que a senhora toma. Com o café e com o cálcio junto, boa parte dele não entra. Então não é que a dose está pequena: é que ela está sendo desperdiçada. A gente não vai aumentar nada. Vamos deixar o comprimido na cabeceira, com um copo de água, e ele é a primeira coisa do dia. O café vem uma hora depois, e o cálcio fica para o almoço."”
Não diga: Evite "a senhora estava tomando errado". Ninguém foi avisado, e a culpa transferida ao paciente reduz a chance de ele contar a verdade na próxima consulta.
Explicar que não vai aumentar a dose mesmo com o exame alto
“"Eu sei que parece contraditório: o exame subiu e eu não vou aumentar o remédio. É que esse exame demora seis a oito semanas para responder a qualquer mudança, e o que eu preciso testar primeiro é a hora da tomada, não a quantidade. Se eu aumentar agora e a senhora corrigir o horário, daqui a dois meses a senhora estará com remédio demais — e remédio demais de tireoide, na sua idade, mexe no coração e no osso. Então a gente muda o horário, mantém a dose, e refaz o exame em oito semanas. Se ele não descer, aí sim eu aumento."”
Não diga: Evite deixar o paciente sair sem data. "A gente vê depois" transforma uma decisão correta em abandono, e ele volta em um ano com o mesmo exame.
Dizer ao paciente jovem com subclínico que o remédio pode ser suspenso se não adiantar
“"A gente vai tentar. Eu preciso que o senhor me diga hoje duas ou três coisas que o incomodam e que o senhor espera que melhorem — eu vou anotar com as suas palavras. A gente ajusta o remédio até o exame normalizar, espera mais uns dois meses, e a gente senta de novo e olha essas duas ou três coisas. Se não tiverem mudado, o remédio sai. Isso não é desistir: é que, se o exame normalizou e o que incomodava continua igual, o problema não era esse — e continuar tomando só acrescenta risco."”
Não diga: Evite começar o teste terapêutico sem combinar a regra de parada. Sem ela, o teste vira prescrição vitalícia, e o próximo profissional herda um diagnóstico que nunca existiu.
Responder ao paciente que quer repetir o exame antes do prazo
“"Eu entendo a vontade de saber logo, e eu também queria. O problema é que o exame não sabe ainda. Ele mede uma média das últimas seis a oito semanas, então se a gente colher em três semanas o resultado vai ser sobre a dose antiga, e a gente pode tomar uma decisão errada com um número que parece certo. Vamos manter a data. Se aparecer palpitação, tremor, insônia ou perda de peso antes disso, aí o senhor volta antes — e aí a gente colhe, porque nesse caso o que me interessa é o sintoma, não o exame."”
Não diga: Evite ceder para encerrar a consulta. O exame antecipado quase sempre gera um ajuste desnecessário, e o paciente aprende que o prazo é negociável.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Não consta como rastreamento recomendado — Ministério da Saúde, 2010, reimpresso em 2013
A tabela de recomendações de rastreamento para adultos do caderno federal tem nove linhas — dislipidemia em quatro recortes, hipertensão, diabetes tipo 2 sob condição, tabagismo, álcool e obesidade — e tireoide não é nenhuma delas. O mesmo caderno, ao tratar da mulher no climatério, nomeia a dosagem hormonal com hormônio estimulante da tireoide entre os exames pedidos por hábito e conclui que não há evidência para a realização da maioria deles. E usa justamente um valor de tireoide alterado com tiroxina livre normal como seu exemplo de desfecho que não se sabe se ajuda o paciente. É a régua mais restritiva das três e é a única federal.
Brasil, Ministério da Saúde, Departamento de Atenção Básica. Rastreamento, Cadernos de Atenção Primária n. 29, 2010, tabela de recomendações para adultos, seção sobre climatério e seção sobre desfechos intermediários; conferida contra a 1ª reimpressão de 2013, com tabelas idênticas
Dosar a partir dos 35 anos, a cada cinco anos — Departamento de Tireoide da SBEM, 2013
O consenso brasileiro sobre testes de função tireoidiana recomenda a dosagem como triagem em pacientes acima de 35 anos a cada cinco anos, além dos grupos de risco. O consenso do hipotireoidismo subclínico, do mesmo departamento e do mesmo ano, repete a ideia na recomendação 4, citando mulheres acima de 35 anos a cada cinco anos. Os dois declaram para essa recomendação o grau D da classificação de Oxford que eles próprios adotam: opinião desprovida de avaliação crítica. O argumento é clínico e não de ensaio — a doença é prevalente, o exame é barato, o tratamento é conhecido, e o hipotireoidismo franco não diagnosticado tem consequência.
Carvalho GA, Perez CLS, Ward LS. Utilização dos testes de função tireoidiana na prática clínica. Arq Bras Endocrinol Metab. 2013;57(3):193-204, recomendação sobre situações de dosagem; e Sgarbi JA e cols., mesmo volume, p. 166-83, recomendação 4
Evidência insuficiente para decidir — força-tarefa norte-americana, 2015, corrente em 2024
A recomendação final de 2015, mantida corrente por vigilância de literatura em maio de 2024, é de grau I: a evidência é insuficiente para pesar benefícios e danos do rastreamento em adultos assintomáticos não gestantes. O que a força-tarefa julgou adequado, e que pesa contra rastrear, é que rastrear e tratar nesse grupo não melhorou qualidade de vida, pressão arterial, índice de massa corporal, densidade mineral óssea, perfil lipídico nem função cognitiva na duração dos ensaios. Sobre os danos, a evidência foi julgada inadequada, com indícios indiretos de que são importantes e frequentes — rotulação, cascata e tratamento de gente que reverteria sozinha, o que ocorre em cerca de 37% dos casos.
U.S. Preventive Services Task Force. Thyroid Dysfunction: Screening. Final Recommendation Statement, 24 de março de 2015, grau I; Ann Intern Med. 2015;162(9):641-50
Decida pela pessoa e não pela regra. Se o paciente à sua frente tem qualquer fator da lista de risco — tireoidectomia, radiação cervical, doença autoimune, lítio, amiodarona, interferon, história familiar, bócio, ou uma alteração laboratorial sugestiva como hipercolesterolemia, hiponatremia, creatinofosfoquinase alta ou prolactina alta —, as três posições convergem: dose. Se não tem nenhum e não tem queixa, as três divergem, e o que decide é o que você vai fazer com o resultado. Se um valor de 5,0 nesse paciente não mudaria nada da sua conduta, não peça: você terá criado um problema sem criar uma decisão. E se o exame já chegou pronto, de pacote ou de admissional, a divergência acabou — o número existe, e o que resta é aplicar a regra da repetição em três meses antes de qualquer rótulo.
Corte único de 4,5 para todo adulto — consenso brasileiro, 2013, recomendação 2, grau A
O valor de referência do adulto é de 0,4 a 4,5, e o hipotireoidismo subclínico é diagnosticado por valor igual ou acima de 4,5 com tiroxina livre normal. O corte vem de grandes estudos populacionais norte-americanos e tem a vantagem de ser único, reprodutível entre laboratórios e fácil de aplicar. É o corte que os laudos brasileiros imprimem e o que o protocolo de rede pressupõe.
Sgarbi JA e cols. Arq Bras Endocrinol Metab. 2013;57(3):166-83, recomendações 2 e 3
Faixa que sobe com a idade — tabela do mesmo consenso, sobre 13.296 pessoas
A Tabela 2 do mesmo documento, construída sobre 13.296 indivíduos livres de doença tireoidiana, dá percentis 97,5 que sobem com a idade: 3,60 dos 20 aos 29, 3,90 dos 40 aos 49, 4,70 dos 60 aos 69, 5,60 dos 70 aos 79 e 6,30 acima de 80. Pela mesma tabela, o percentil de todas as idades juntas é 4,30, e não 4,5. O texto do consenso reforça a posição ao lembrar que a elevação fisiológica do valor no idoso pode representar proteção cardiovascular e associar-se a maior longevidade. Por esta régua, uma pessoa de 72 anos com 5,2 não tem alteração nenhuma.
Mesmo consenso, Tabela 2 e seção sobre o efeito da idade; a recomendação 2 do mesmo documento manda avaliar idosos pelos intervalos de normalidade da faixa etária
Baixar o teto para 2,5 — posição defendida por parte dos pesquisadores, registrada em 2013
O argumento é que estudos com critérios rigorosos de seleção — excluindo autoanticorpos e alterações à ultrassonografia — mostram média de cerca de 1,5 e mais de 95% da população saudável com valor igual ou abaixo de 2,5, e que a progressão para hipotireoidismo franco e a prevalência de anticorpos são maiores acima de 2,5. Um dado brasileiro citado no mesmo consenso vai na mesma direção: em 960 adultos de 18 a 60 anos sem doença tireoidiana, o percentil 97,5 foi 3,24. O custo está medido no próprio documento que registra a posição: baixar o teto de 4,5 para 2,5 levaria o diagnóstico de hipotireoidismo de 9,7% a 12,9% para 35% das pessoas acima de 65 anos.
Carvalho GA, Perez CLS, Ward LS. Arq Bras Endocrinol Metab. 2013;57(3):193-204, seção sobre valores normais; e Sgarbi JA e cols., mesmo volume, dado brasileiro dos 960 adultos
Não escolha um corte: escolha uma consequência. Diante de um valor entre 4,5 e 7 num paciente acima de 65 anos, as três posições concordam no que fazer agora, que é repetir em três meses e não tratar — a divergência só apareceria se você fosse tratar, e você não vai. Diante do mesmo valor num paciente de 35 anos com anticorpo positivo, as três também concordam: acompanhar de perto, porque o risco de progressão é o que importa e não o rótulo. O corte só decide de verdade quando o paciente já está em tratamento e você está escolhendo a meta — e aí use a meta da faixa etária, porque foi ela que foi medida em pessoas da idade dele.
Igual ou acima de 10 — consenso brasileiro, 2013, recomendação 18
O consenso recomenda levotiroxina para todos os pacientes com hipotireoidismo subclínico persistente e valor igual ou acima de 10, pela maior probabilidade de progressão ao hipotireoidismo franco, pelo maior risco de insuficiência cardíaca e pela associação com doença arterial coronariana e mortalidade. Abaixo de 10, restringe a subgrupos: sexo feminino com anticorpo positivo ou tireoidite à ultrassonografia e valor em elevação progressiva; e doença cardiovascular estabelecida ou risco alto, particularmente abaixo dos 65 anos e com valor acima de 7. Acima dos 65 anos, a recomendação 20 restringe o tratamento a valor sustentado acima de 10.
Sgarbi JA e cols. Arq Bras Endocrinol Metab. 2013;57(3):166-83, recomendações 16 a 21
Acima de 20 — protocolo de hipotireoidismo da Secretaria Municipal da Saúde, 2023-24
O protocolo de rede escreve, na seção de hipotireoidismo subclínico, que os novos consensos orientam tratar a todos quando o valor está acima de 20, e reserva a faixa entre 4,5 e 10 para quem tem anticorpos positivos, dislipidemia, bócio ou sinais e sintomas. A tabela impressa ao lado usa outros cortes: abaixo dos 65 anos, trata-se com valor menor que 7 apenas o sintomático e o de risco de progressão; entre 7 e 9,9 entram também a doença cardiovascular e o risco cardiovascular alto; acima de 10, trata-se em qualquer idade. O texto e a tabela do mesmo documento não coincidem, e a diferença entre 10 e 20 é a faixa em que estão os casos difíceis.
São Paulo (Município), Secretaria Municipal da Saúde, Departamento de Atenção Especializada. Protocolo SUS: Hipotireoidismo, 2023-24, seção de situações especiais e tabela de indicações de início de medicação
O tratamento do assintomático não melhorou desfecho medido — força-tarefa norte-americana, 2015
A força-tarefa julgou adequada a evidência de que rastrear e tratar disfunção tireoidiana em adultos assintomáticos não gestantes não melhora qualidade de vida nem produz melhora clinicamente relevante de pressão arterial, índice de massa corporal, densidade mineral óssea ou perfil lipídico, e não melhora função cognitiva na duração dos ensaios disponíveis, de um a dois anos ou mais. Ela não fixa um valor de corte para tratar: a posição é sobre a ausência de benefício demonstrado no grupo assintomático como um todo, e não sobre onde desenhar a linha.
U.S. Preventive Services Task Force. Thyroid Dysfunction: Screening. Final Recommendation Statement, 2015, seção de benefícios do rastreamento e do tratamento; Ann Intern Med. 2015;162(9):641-50
Ordene as perguntas em vez de escolher o documento. Primeiro: é persistente? Sem segunda dosagem em três meses, nenhuma das três posições se aplica. Segundo: quantos anos ele tem? Acima de 65, todas as três convergem para não tratar abaixo de 10, e a única faixa realmente disputada é o 10,0 exato. Terceiro: o que mais ele tem? Anticorpo positivo com valor em elevação progressiva num paciente jovem inclina a tratar por risco de progressão, e essa é a indicação em que os documentos brasileiros menos discordam. Quarto: o que ele espera do tratamento? Se a expectativa é alívio de cansaço, diga que a evidência não sustenta isso, combine a regra de parada antes de começar, e cumpra-a. Diante do valor exato de 10,0 num paciente acima de 65 anos, reconheça em voz alta que a régua não decide, repita o exame e decida pelo conjunto — anticorpo, tendência do valor e doença cardiovascular.
O raciocínio, em voz alta
Vitorino Facundo tem 71 anos, é aposentado da coleta de lixo, hipertenso em uso de losartana, e chega ao retorno com dois exames na mão. O primeiro, de março, tem hormônio estimulante da tireoide de 10,0. O segundo, colhido em junho a seu pedido, tem 10,0 de novo, com tiroxina livre de 1,0 — dentro do intervalo de referência de 0,7 a 1,8 — e anticorpo antitireoperoxidase positivo. Ele não tem queixa nova. Anda todo dia até a padaria, dorme bem, pesa o mesmo há dois anos. A frequência cardíaca é 64, regular, e a tireoide não é palpável.
É persistente?
Sim, e essa é a única pergunta cuja resposta é limpa. Dois valores separados por três meses, com tiroxina livre normal nas duas vezes, fecham hipotireoidismo subclínico persistente. Sem a segunda dosagem, nada do que vem abaixo se aplicaria.
O valor pertence a alguma classe?
Depende do documento. Pelo consenso brasileiro, 10,0 é subclínico grave, porque a faixa grave começa em 10,0. Pela tabela do protocolo de rede, 10,0 não pertence a coluna nenhuma: a coluna anterior termina em 9,9 e a seguinte começa acima de 10. Registre isso como está — o número dele caiu exatamente no vão.
O que a recomendação 18 manda
Tratar. Ela recomenda levotiroxina para todos os pacientes com subclínico persistente e valor igual ou acima de 10, e não abre exceção por idade nessa frase.
O que a recomendação 20 manda
Não tratar. Acima de 65 anos, ela restringe o tratamento a valor sustentado acima de 10 — e 10,0 não é acima de 10. Duas recomendações do mesmo documento, separadas por dois parágrafos, dão respostas opostas para este paciente.
O que o anticorpo acrescenta
Muda o prognóstico, não o rótulo. Anticorpo antitireoperoxidase positivo é preditor de progressão ao hipotireoidismo franco, e é um dos critérios que o consenso lista para considerar tratamento mesmo abaixo de 10. Num paciente de 71 anos com dois valores em 10,0 e anticorpo positivo, a probabilidade de que o terceiro exame venha acima de 10 é alta.
O que o coração dele acrescenta
Ele é hipertenso, sem doença coronariana conhecida, com frequência de 64. A recomendação 20 justifica a cautela no idoso justamente pelo risco de insuficiência cardíaca associado a valores acima de 10 — que é argumento a favor de tratar, e não contra. Já o risco do tratamento, no idoso, é fibrilação atrial por dose excessiva, o que se controla com dose baixa e meta de faixa etária, e não com abstenção.
A decisão, e como escrevê-la
Tratar, com dose baixa e meta de idoso. A soma de dois valores em 10,0, anticorpo positivo e 71 anos coloca-o na borda superior da faixa em que o próprio consenso manda tratar todos, e a régua que o excluiria o exclui por uma casa decimal. Escreva no prontuário que a decisão foi tomada com o valor no limiar, com anticorpo positivo, e que a meta é a da faixa etária.
A dose e o prazo
Levotiroxina 25 microgramas por dia, em jejum, com água, uma hora antes do café — dose de início cautelosa por idade, e não por cardiopatia, que ele não tem. Novo hormônio estimulante da tireoide em oito semanas. Meta de 4 a 6, que é a da faixa acima de 70 anos, e não de 1 a 2,5. Se ele chegar a 4,5 com 25 microgramas, a dose está certa e não se mexe mais nela.
Faça você
Auristela Girão tem 59 anos, 64 quilos, é diarista, e usa levotiroxina 100 microgramas há seis anos por hipotireoidismo diagnosticado num serviço que ela não frequenta mais. Menstruou pela última vez aos 51. Vem hoje por outra coisa — quer atestado para uma dor no ombro — e traz, num envelope amassado, um exame de dois meses atrás que ninguém olhou: hormônio estimulante da tireoide 0,05, tiroxina livre 1,9, com intervalo de referência de 0,7 a 1,8. Perguntada, ela diz que anda com o coração acelerado à noite e que emagreceu três quilos sem querer. Toma o comprimido em jejum, sozinho, todo dia, do jeito certo. A frequência cardíaca hoje é 96, e o pulso é irregular.
Nomeie o que o par de exames diz
Hormônio estimulante da tireoide suprimido com tiroxina livre acima do intervalo de referência, em quem toma levotiroxina. Diga o que isso é, e diga o que isso não é.
Decida se o exame de dois meses atrás basta
Ela tem sintoma hoje e pulso irregular hoje. Escreva o que você colhe agora e o que você não espera para agir.
Escreva a conduta com a levotiroxina
Diga se suspende, se reduz, e para quanto — usando as cinco apresentações do elenco, com o número de comprimidos.
Diga qual exame confirma a conduta e quando
Justifique o prazo pelo tempo de resposta do eixo, e não pela agenda da unidade.
Liste o que precisa ser investigado além da tireoide
O pulso irregular e a perda de peso pedem uma decisão que não é endocrinológica. Diga qual, e a quem ela pertence.
Ver como fecharíamos
O par é de hipertireoidismo iatrogênico por dose excessiva de levotiroxina: hormônio estimulante da tireoide suprimido em 0,05 com tiroxina livre acima do intervalo de referência, numa mulher que toma corretamente. Não é doença de Graves, não é tireoidite e não é erro de coleta — é a dose. O consenso brasileiro registra que uma proporção significativa dos pacientes em reposição usa doses supra-fisiológicas, com 14,4% de hipertratados num estudo multicêntrico brasileiro e cerca de 40% no estudo do Colorado, e nomeia as duas consequências que ela tem na frente: fibrilação atrial, sobretudo acima dos 65 anos, e perda de massa óssea em mulher na pós-menopausa. O exame de dois meses atrás não basta para conduzir, mas basta para agir. Ela tem sintoma adrenérgico e pulso irregular hoje: colha eletrocardiograma agora, na unidade, e novo hormônio estimulante da tireoide com tiroxina livre. Não espere o resultado do laboratório para mexer na dose — o exame antigo e a clínica de hoje já concordam. Sobre a levotiroxina: reduza, não suspenda. Suspender abruptamente devolve a paciente ao hipotireoidismo em algumas semanas, e ela tem doença de base real. A redução razoável é de um degrau largo, para 50 microgramas por dia — um comprimido de 50, que existe no elenco —, ou para 62,5, com 50 mais 12,5, se você preferir descer devagar. A bula manda ajustar a dose ao menor nível eficaz possível em mulheres na pós-menopausa com risco de osteoporose, e é exatamente esse o caso. O exame de controle é em seis a oito semanas, e o prazo não é da agenda: é o tempo que o tireotrofo hipofisário leva para chegar ao novo equilíbrio depois de uma mudança de dose. Colher em três semanas devolveria um número que ainda descreve os 100 microgramas. A meta, aos 59 anos, é a faixa de 1 a 2,5 do protocolo de rede — ela ainda não entrou na faixa de meta mais alta. O que não é da tireoide e não pode ficar aqui: pulso irregular aos 96 numa mulher de 59 anos com hormônio estimulante da tireoide suprimido é fibrilação atrial até prova em contrário, e isso é do capítulo de fibrilação atrial, em Cardiologia — eletrocardiograma hoje, e a decisão de anticoagulação e de controle de frequência segue a régua de lá, não a daqui. A perda de peso, se persistir depois de corrigida a dose, sai do escopo da tireoide. E a dor no ombro, que foi o motivo declarado da consulta, precisa de resposta: a paciente veio buscar um atestado e vai sair com um eletrocardiograma, e essa mudança de rota tem de ser explicada por você, com o tempo que ela exige.
O par hormônio estimulante da tireoide alto com tiroxina livre normal ou alta, em quem toma o comprimido, é a assinatura de absorção comprometida ou de uso irregular — o hormônio estimulante reflete um estado de seis a oito semanas, enquanto a tiroxina livre reflete os últimos dias. Aqui a causa está declarada na anamnese: alimento e carbonato de cálcio reduzem a absorção, e a bula manda separá-los tanto quanto possível. Corrigir o horário e repetir com a mesma dose é a conduta; aumentar agora produziria hipertratamento assim que o horário fosse corrigido, com risco de fibrilação atrial e de perda óssea. Refratariedade só se considera depois de descartadas adesão e interferências, e é definida por doses muito acima desta. Fracionar a dose não melhora absorção e piora a adesão.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Interprete três pares de TSH/T4 livre: doença primária, alteração subclínica e suspeita central. Explique o contexto em que repetir é mais útil que prescrever e quando o TSH não governa a reposição.
Em 30 dias
Conduza um retorno com TSH fora do alvo em uso de levotiroxina. Confira tomada, interações, adesão e tempo desde o ajuste; depois discuta dose e retorno. Compare com um idoso assintomático com alteração persistente.
Agora atenda
Agora atenda: mulher de 72 anos, aposentada, sem queixa nenhuma, que chega à unidade básica com um pacote de check-up comprado pela filha e um hormônio estimulante da tireoide de 5,2 com uma seta para cima ao lado. A filha veio junto e quer saber que remédio a mãe vai tomar. Decida se aquilo é doença na idade dela, o que você pede hoje e o que não pede, em quanto tempo ela volta, e o que precisaria acontecer para você começar levotiroxina. E explique a decisão de não prescrever de um jeito que a filha entenda que houve conduta, e não descaso.
