Clínica Médica › Endocrinologia
Não é falta de vontade
Obesidade e síndrome metabólica
Medir de verdade, excluir o que a receita explica, contar os componentes que mudam a conduta e tratar em degraus — com as três réguas brasileiras de cintura que não coincidem, a régua que autoriza a cirurgia e a que a paga, e a resposta curta sobre o que o Sistema Único de Saúde entrega.
Ministério da Saúde, Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas de Sobrepeso e Obesidade em Adultos, aprovado pela Portaria SCTIE/MS nº 53, de 11 de novembro de 2020 (Relatório de Recomendação nº 567/2020 da Conitec)
Ministério da Saúde — Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília, 2024. ISBN 978-65-5993-710-3, 252 páginas
Ministério da Saúde — Portaria nº 424/GM/MS, de 19 de março de 2013, que redefine as diretrizes para a organização da prevenção e do tratamento do sobrepeso e obesidade como linha de cuidado prioritária, publicada no Diário Oficial da União nº 54, de 20 de março de 2013, Seção 1
Conselho Federal de Medicina — Resolução CFM nº 2.429, de 25 de abril de 2025, publicada no Diário Oficial da União de 20 de maio de 2025, edição 93, Seção 1, página 170
Sociedade Brasileira de Hipertensão, Sociedade Brasileira de Cardiologia, Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, Sociedade Brasileira de Diabetes e Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade — I Diretriz Brasileira de Diagnóstico e Tratamento da Síndrome Metabólica. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, volume 84, Suplemento I, abril de 2005
Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica — Estratégias para o cuidado da pessoa com doença crônica: obesidade. Cadernos de Atenção Básica nº 38, Brasília, 2014, 212 páginas
Saraiva JFK, Valerio CM, Rached FH e colaboradores, por ABESO, SBD, SBC, SBEM e Academia Brasileira do Sono — Diretriz Brasileira Baseada em Evidências de 2025 para o Manejo da Obesidade e Prevenção de Doenças Cardiovasculares e Complicações Associadas à Obesidade. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, 2025;122(9):e20250621, DOI 10.36660/abc.20250621
Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente — Vigitel Brasil 2023: vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico
Ministério da Saúde, Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas de Diabete Melito Tipo 2, aprovado pela Portaria SCTIE/MS nº 13, de 21 de fevereiro de 2026
Brandão AA e colaboradores — Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2025. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, 2025;122(9):e20250624
Rached FH e colaboradores — Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose 2025. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, 2025;122(9):e20250640
Ministério da Saúde — Portaria nº 425/GM/MS, de 19 de março de 2013 (regulamento técnico e critérios do serviço de assistência de alta complexidade ao indivíduo com obesidade)
Ministério da Saúde — Portaria de Consolidação nº 3, de 28 de setembro de 2017, Anexo IV (Rede de Atenção à Saúde das Pessoas com Doenças Crônicas)
Responda antes de ler
Homem de 46 anos com índice de massa corporal de 41 kg/m² chega convencido de que “tudo isso é da tireoide” e pede exames hormonais. Não tem intolerância ao frio, constipação, bradicardia nem rarefação de pelos; não tem giba, estrias violáceas, pele fina nem equimoses; e não usa corticoide. Segundo o material do Ministério da Saúde sobre o cuidado da pessoa com obesidade, o que sustenta a conversa com ele?
O paciente que você vai ver
São oito e vinte de uma terça-feira e o posto do bairro abriu há quarenta minutos; a rua de fora só tem asfalto até a esquina. A agenda tem dezessete nomes e a balança fica no corredor, entre a sala de vacina e a sala de curativo, encostada na parede, com o antropômetro preso em cima. Quem passa por ali vê quem está em cima dela. Isso não é um detalhe de arquitetura: é a primeira coisa que este capítulo vai pedir que você olhe com atenção.
A terceira ficha da manhã é a de Rosicleia Serralva, 44 anos, auxiliar de cozinha numa creche conveniada há onze anos. Ela entra com um envelope pardo, senta, coloca o envelope em cima da mesa e não o abre. A ficha diz que ela veio buscar resultado de exames. Antes de você perguntar qualquer coisa, ela diz a frase que traz preparada: “eu sei, doutor, eu preciso emagrecer”.
Preste atenção no que acabou de acontecer. Ela chegou dizendo o que imagina que você vai dizer. Não é adivinhação: é experiência. Ela já ouviu isso em consulta de dor no joelho, em consulta de pressão, em consulta de sinusite. Aprendeu que a frase vem, e aprendeu a dizê-la primeiro, porque dizer primeiro dói menos. O que ela está pedindo, sem pedir, é que hoje a consulta seja sobre outra coisa.
Aqui está a decisão que o capítulo inteiro persegue, e ela acontece nos primeiros vinte segundos: você vai concordar com ela e passar adiante, vai repetir a frase com um pouco mais de detalhe — comer menos, andar mais —, ou vai fazer a única coisa que muda alguma coisa, que é tratar o excesso de peso como se trata qualquer outra doença crônica. Medir direito. Investigar. Classificar. Estabelecer o que se persegue. Marcar retorno. Combinar o que fazer quando o peso voltar.
Porque ele volta. Essa é a parte que quase ninguém diz na consulta, e é a parte que decide se a pessoa continua vindo. Um tratamento que promete descida em linha reta produz uma pessoa que some da unidade no dia em que a balança subir dois quilos, com vergonha de ter falhado numa coisa que nunca dependeu só dela.
A ficha de Rosicleia tem os dados que a técnica de enfermagem já anotou: 89,5 kg, 1,61 m, pressão 142 por 88 no braço direito. O envelope tem glicemia de jejum, colesterol total e frações, triglicerídeos, creatinina e um hemograma. Falta uma medida, e é justamente a que muda mais coisa nesta consulta: a fita métrica continua enrolada dentro da gaveta, e ninguém pensou nela.
Este capítulo é sobre a consulta que a Rosicleia vai ter hoje. O que se mede e como se mede, porque o número que todo mundo usa classifica mal e sozinho não decide nada. O que se investiga antes de dizer que a obesidade é primária, incluindo a lista de remédios que engordam e que costuma estar na própria receita que a pessoa carrega. O que muda quando os fatores de risco se juntam e viram um conjunto com nome. O tratamento em degraus, e a pergunta que se responde antes de abrir a boca na frente do paciente: quanto dessa escada o sistema público entrega. Quando a cirurgia entra, e por qual das réguas brasileiras — porque são duas, e elas não dizem a mesma coisa. E, no fim, como se pesa e se fala de peso sem produzir abandono.
Duas palavras sobre de onde este capítulo fala. Quem atende aqui é o interno do posto, com o elenco de medicamentos que o município entrega e com o que o sistema público custeia — e não o residente do ambulatório de endocrinologia de hospital-escola, nem o consultório particular em que a caneta injetável é uma linha de receita como outra qualquer. Sempre que o que a diretriz pede e o que a sua paciente alcança estiverem longe um do outro, o texto vai medir esse vão em voz alta, em vez de fingir que ele não existe.
Quem adoece disso
Isto é doença de posto de saúde por uma razão aritmética, e ela vem primeiro. No conjunto das 27 capitais brasileiras e do Distrito Federal, o sistema de vigilância por inquérito telefônico do Ministério da Saúde estimou, em 2023, que 61,4% das pessoas adultas têm excesso de peso — 63,4% dos homens e 59,6% das mulheres — e que 24,3% têm obesidade, com números praticamente iguais entre mulheres (24,8%) e homens (23,8%). Traduzindo para a sua manhã: em dezessete fichas, dez pessoas entram na faixa e quatro têm obesidade. Não é uma condição que você vai encontrar de vez em quando. É a condição de fundo da agenda inteira.
Esses números têm duas limitações que precisam ser ditas antes de serem usados. A primeira é geográfica: o inquérito cobre capitais e o Distrito Federal, e não a população brasileira. A segunda é de método: peso e altura são referidos pela pessoa entrevistada por telefone, não aferidos. Peso referido tende a ser menor que o peso medido e altura referida tende a ser maior que a altura medida, e os dois erros empurram o índice para baixo. Ou seja: a estimativa que você acabou de ler é, se erra, uma estimativa por baixo.
A distribuição importa mais que o número global, porque ela diz onde a doença está. No mesmo inquérito de 2023, a frequência de excesso de peso aumenta com a idade até os 54 anos — vai de 37,4% na faixa de 18 a 24 anos para 70,7% entre 45 e 54 — e diminui com o aumento da escolaridade. Para a obesidade, a queda com a escolaridade aparece na população total e entre as mulheres. Isso desmonta, com dado nacional, a explicação individual: uma doença que se concentra sistematicamente em quem estudou menos não é uma soma de escolhas pessoais desafortunadas.
O protocolo federal de sobrepeso e obesidade abre com a série histórica do mesmo inquérito e afirma que a prevalência de obesidade entre pessoas adultas passou de 11,8% em 2006 para 20,3% em 2018 — um aumento de 72% —, e que o excesso de peso subiu de 42,6% para 55,4%, um aumento de 30%. As duas contas fecham quando refeitas: 20,3 dividido por 11,8 dá 1,72, e 55,4 dividido por 42,6 dá 1,30. O que não fecha é o intervalo: o texto chama esse período de treze anos, e de 2006 a 2018 vão doze. É um detalhe, e está aqui por um motivo prático — o hábito de refazer a conta do documento é o mesmo hábito que, três parágrafos adiante, vai pegar um erro que muda conduta.
Duas mudanças de escala ajudam a entender por que a consulta da atenção primária é o lugar disso. A primeira: entre 2006 e 2023, a estimativa de obesidade nas capitais passou de pouco menos de doze por cento para quase um quarto da população adulta. Nenhuma mudança genética acontece em dezessete anos. O que mudou foi o ambiente — o que se vende, a que preço, onde, com que publicidade, e quanto tempo e quanto espaço sobram para andar. A segunda: essa curva não é brasileira. O protocolo federal registra que a prevalência quase triplicou no mundo em quarenta anos.
Há um custo que não aparece nas tabelas de prevalência e que decide se o seu paciente volta. O mesmo protocolo abre citando a Organização Mundial da Saúde para dizer que a extensão e a gravidade da crise da obesidade só se comparam à negligência e ao estigma enfrentados pelas pessoas com obesidade — e depois gasta várias páginas descrevendo como esse estigma funciona: o discurso de falha moral, a associação com preguiça e gula, a aversão que se manifesta como violência e assédio, e a correlação com escolaridade, renda e estado civil. É um documento oficial brasileiro dizendo, em texto normativo, que a culpabilização é parte da doença.
O trecho que interessa diretamente a você é o que vem em seguida. O protocolo afirma que profissionais de saúde podem ter comportamentos preconceituosos e estigmatizantes, explícitos ou implícitos, por meio de falas que culpabilizam apenas o indivíduo e de atitudes que demonstram que o profissional não acredita que o tratamento vá funcionar — e que isso resulta em discriminação e em iatrogenia relacionada ao tratamento, além de desencorajar a pessoa a procurar o serviço. Não é uma nota de rodapé sobre gentileza. É a descrição de um mecanismo de dano documentado no documento que rege o cuidado.
Por fim, o que a doença cobra. A obesidade aparece nas réguas brasileiras de outras condições como fator de risco, e é por essa porta que ela chega à sua consulta: o protocolo brasileiro de diabetes tipo 2, de fevereiro de 2026, dispensa o critério de idade para rastrear diabetes diante de excesso de peso somado a um fator de risco, e lista a apneia do sono, a privação crônica de sono e o trabalho em turno noturno entre esses fatores. A diretriz brasileira de obesidade de 2025, assinada por cinco sociedades, organiza o tratamento inteiro em torno do risco cardiovascular e do risco de insuficiência cardíaca. Ou seja: o peso não é o desfecho que se persegue. É o caminho por onde se chega aos desfechos que se persegue.
Por que acontece o que acontece
A frase que o aluno traz é que obesidade é a soma de comer demais e mexer-se de menos. A frase não é falsa em termos de física — nenhum tecido aparece sem energia — e é inútil em termos de clínica, porque responde à pergunta errada. A pergunta não é de onde vem a energia. É por que, entre duas pessoas expostas ao mesmo ambiente, uma acumula e a outra não, e por que quem perde peso quase sempre o recupera. As duas respostas estão no mesmo lugar: o peso corporal é uma variável regulada, e não uma variável livre.
Regulada quer dizer que existe um sistema que a mede e a defende. O hipotálamo recebe sinais periféricos contínuos sobre o tamanho do estoque de gordura e sobre a chegada de comida — leptina, produzida pelo próprio tecido adiposo em proporção à sua massa; insulina; grelina, que sobe antes das refeições; e os hormônios intestinais liberados quando o alimento passa, entre eles o peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1. Com esses sinais, o sistema ajusta apetite, saciedade e gasto energético para manter o estoque onde ele estava. Não onde seria saudável: onde ele estava.
Daí sai a explicação de por que o peso volta, e ela não é moral. Quando o estoque cai, a leptina cai junto, e a queda da leptina é lida pelo hipotálamo como ameaça: o apetite aumenta, a saciedade a cada refeição diminui, e o gasto energético em repouso cai mais do que a perda de massa explicaria. O corpo passa a gastar menos do que uma pessoa do mesmo tamanho que nunca emagreceu. É um sistema de defesa contra a escassez funcionando exatamente como foi desenhado, num ambiente onde a escassez não é o problema. O paciente que reganha peso não parou de se esforçar; ele passou a se esforçar contra uma pressão que aumentou.
Há assimetria nessa defesa, e ela explica a direção do problema populacional. O sistema reage com força ao déficit e com frouxidão ao excesso: perder é defendido, ganhar é tolerado. Some-se a isso um fenômeno que os documentos brasileiros nomeiam — o ambiente obesogênico —, e o desenho fica completo. O protocolo federal cita a formulação de que a força motriz do aumento da prevalência nas populações é o ambiente cada vez mais obesogênico, e não mutações genéticas. Genética explica quem, dentro de uma população; ambiente explica por que a população inteira se deslocou.
A genética não é figura de retórica, mas também não é destino. O protocolo federal registra que centenas de locos cromossômicos associados à obesidade explicam somente cerca de 5% da variação do índice de massa corporal, e que os genes identificados se expressam sobretudo no sistema nervoso central, na regulação do apetite e da saciedade, na secreção e na ação da insulina, na adipogênese e no metabolismo energético. Traduzindo: a herança que existe é herança de regulação do apetite, não de preguiça — e ela se manifesta na presença de um ambiente que a permite.
O segundo mecanismo do capítulo é o que transforma gordura em doença, e ele não depende da quantidade total, mas de onde o tecido está. O tecido adiposo subcutâneo, sobretudo o glúteo-femoral, funciona como depósito seguro: guarda triglicerídeos e os mantém guardados. Quando esse depósito satura, ou quando é constitucionalmente pequeno, a gordura passa a se acumular onde não deveria — na cavidade abdominal, entre as vísceras, e dentro de fígado e músculo. O tecido visceral é metabolicamente ativo, drena pela veia porta e libera ácidos graxos livres direto no fígado, além de secretar mediadores inflamatórios. É por isso que a fita métrica acrescenta informação que a balança não tem: duas pessoas com o mesmo índice podem ter compartimentos completamente diferentes.
A consequência dessa gordura mal alocada é a resistência à insulina, e é dela que sai o conjunto que o capítulo chama de síndrome metabólica. No fígado, o excesso de substrato e a sinalização inflamatória aumentam a produção de glicose e a montagem de lipoproteínas ricas em triglicerídeos; daí vêm a glicemia de jejum mais alta e os triglicerídeos elevados. O intercâmbio de lipídios entre essas partículas e as demais reduz o colesterol da lipoproteína de alta densidade e produz partículas de baixa densidade menores e mais densas. No músculo, a captação de glicose cai. No rim e no vaso, a hiperinsulinemia e a ativação simpática elevam a pressão. Cinco achados, um mecanismo — e é essa unidade de mecanismo que justifica olhá-los juntos em vez de tratá-los como cinco coincidências.
O mecanismo termina em duas consequências práticas, e nenhuma delas é teórica. A primeira: porque o problema é a gordura mal alocada, e não o número da balança, perdas modestas de peso produzem melhoras desproporcionais. A gordura visceral é a primeira a sair, e por isso pressão, glicemia e triglicerídeos melhoram bem antes de a pessoa mudar de faixa de classificação. O protocolo federal chega a registrar que a gordura visceral se reduz de forma significativa quando as recomendações de exercício são cumpridas, mesmo que nenhum peso seja perdido. A segunda: como o sistema defende o estoque, o tratamento não tem alta. Tem manutenção. Um plano que só descreve a fase de perda é um plano escrito pela metade.

Como se apresenta de verdade
A obesidade quase nunca chega como queixa. Ela chega como joelho que dói, como falta de ar para subir a rua, como pressão que não fecha, como cansaço que não passa, como ficha de renovação de receita. E chega, com muita frequência, dentro de uma frase de defesa dita antes de qualquer pergunta. Esta seção é sobre reconhecer o que está na sala quando o assunto oficial é outro.
Um aviso sobre o vocabulário, porque ele é instrumento de trabalho e não questão de etiqueta. Fala-se de pessoa com obesidade, e não se usa a palavra como substantivo que define alguém. Não se fala em peso ideal, que é uma medida que não existe para a maior parte das pessoas. E não se transforma o número da balança em juízo sobre esforço. Quem escolhe as palavras é você; quem decide se volta na próxima consulta é a pessoa que ouviu.
Percurso de aprendizagem
Primeira passagem: história, medidas, complicações, função e fatores que favorecem ganho de peso.
Segunda passagem: plano compartilhado e acompanhamento, com ações graduais e avaliação de resposta.
Aprofundamento: fármacos, cirurgia e critérios distintos de indicação e acesso, ligados às necessidades clínicas da pessoa.
A consulta em que o peso não é a queixa
O padrão mais comum é este: a pessoa marca por outra coisa, e o peso aparece por acidente — na balança do corredor, num exame que veio alterado, num comentário de quem acompanha. Quando isso acontece, você tem duas opções, e as duas são legítimas. Pode tratar a queixa de hoje e agendar o peso para uma consulta com tempo, deixando isso combinado em voz alta. Ou pode pedir licença e abrir o assunto agora. O que não funciona é abrir o assunto sem pedir licença e sem tempo para terminá-lo.
Pedir licença não é formalidade. O protocolo federal de sobrepeso e obesidade recomenda, com todas as letras, solicitar permissão à pessoa para que suas medidas sejam aferidas, e que a aferição seja feita em local que resguarde a privacidade, para evitar constrangimento — e isso vale tanto para a consulta inicial quanto para as de seguimento. É uma recomendação escrita num documento normativo, não uma delicadeza opcional. A balança encostada no corredor da unidade, com gente passando, é o descumprimento mais banal e mais frequente dessa linha.
Uma pergunta abre o assunto sem acusar e devolve o controle à pessoa: se ela quer falar sobre peso hoje. Se a resposta for não, isso é informação clínica — registre e ofereça de novo em outra consulta. Se for sim, a segunda pergunta não é quanto ela come. É desde quando o peso está assim, e o que aconteceu na vida dela quando ele mudou. Emprego, luto, gestação, internação, remédio novo, turno noturno. A linha do tempo do peso é a anamnese desta doença, e ela costuma vir com um evento colado.
Registre também o peso máximo que a pessoa já atingiu na vida, e em que ano. Parece detalhe de curiosidade e não é: a diretriz brasileira de obesidade de 2025 ancora uma de suas recomendações de meta exatamente nesse número, e não no peso de hoje. Quem já perdeu dez quilos sozinho antes de chegar à sua sala está num ponto do tratamento que a balança de hoje não mostra.
O que a pessoa já tentou, e por que isso é dado clínico
Quase todo adulto com obesidade que senta na sua frente já tentou emagrecer várias vezes, e a maior parte dessas tentativas funcionou por algum tempo. Perguntar o que ela já fez não é conversa de preenchimento: é o que separa uma pessoa que nunca recebeu orientação de uma pessoa que já perdeu quinze quilos duas vezes e os recuperou nas duas.
Pergunte o que ela fez, quanto perdeu, em quanto tempo, e o que aconteceu depois. A resposta “eu perco e volta tudo” é o achado mais importante da consulta, porque é a descrição clínica exata do mecanismo de defesa do peso, e porque diz que o problema dela não é a fase de perda — é a de manutenção. Planejar mais uma fase de perda para quem já provou saber perder é repetir o que não funcionou.
Pergunte pelo que veio de fora da unidade. Fórmulas manipuladas, chás, medicamentos comprados sem receita, dietas de exclusão severa, jejuns prolongados, remédio emprestado por parente. O caderno de atenção básica do Ministério da Saúde sobre obesidade registra que o Brasil está entre os países com maiores índices de uso de medicamentos controlados para emagrecer, e que esses medicamentos têm efeitos adversos sérios. Isso não se pergunta com cara de reprovação: pergunta-se como se pergunta qualquer medicação em uso, porque é exatamente isso que é.
Pergunte por compulsão alimentar e por episódios de perda de controle. O protocolo federal é explícito quanto à ordem: diante de transtorno alimentar coexistente, o tratamento do transtorno vem primeiro, e as medidas de redução de peso depois. Prescrever restrição calórica a quem tem compulsão não tratada é acender o gatilho que se quer apagar.
E pergunte pelo que a pessoa espera. Quem chega esperando voltar ao peso que tinha aos vinte anos vai encontrar, em algum momento, a distância entre o que esperava e o que aconteceu — e é nesse ponto que as pessoas somem. A conversa sobre expectativa é mais barata antes do tratamento do que depois.
O que o excesso de peso já fez, e que a pessoa não liga ao peso
Boa parte das queixas que essa pessoa traz há anos tem relação com o peso, e ninguém fez a ligação em voz alta. Vale perguntar dirigidamente, porque nenhuma delas é espontânea.
Sono: ronco alto que incomoda quem dorme junto, pausas respiratórias observadas por terceiros, sono não reparador, sonolência diurna, dor de cabeça ao acordar. A apneia obstrutiva do sono tem capítulo próprio em Pneumologia e é lá que ela se investiga e se trata; o que é seu, aqui, é fazer as perguntas e encaminhar. Vale saber por quê: o protocolo brasileiro de diabetes de 2026 põe apneia do sono e privação crônica de sono na lista de fatores que, somados ao excesso de peso, derrubam o critério de idade do rastreamento.
Articulações: dor em joelhos e quadris que piora ao fim do dia e ao subir escada, dor lombar mecânica. É a queixa que traz a pessoa à unidade com mais frequência, e a que responde melhor a perdas modestas.
Digestivo: azia, regurgitação, sensação de comida parada — o refluxo é mais frequente e mais difícil de controlar com aumento da pressão intra-abdominal. E enzimas hepáticas alteradas ou fígado descrito como esteatótico numa ultrassonografia pedida por outro motivo; a doença hepática gordurosa tem capítulo próprio — Doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA), na apostila de Gastroenterologia.
Genitourinário e reprodutivo: perda de urina aos esforços, infecções urinárias e genitais de repetição, irregularidade menstrual, dificuldade para engravidar. Ciclos irregulares com sinais de hiperandrogenismo apontam para síndrome dos ovários policísticos, que é de Ginecologia — e cuja relação com resistência à insulina faz dela vizinha permanente deste capítulo.
Pele e vida diária: intertrigo e micoses em dobras, foliculites, dificuldade de higiene, dor ao caminhar distâncias curtas, catraca de ônibus, cadeira com braço, avental que não fecha, manguito que não serve. Essa última lista não é sofrimento avulso: é a razão pela qual muita gente adia consulta por anos, e cada item dela é resolvível dentro da unidade.
O exame físico desta consulta
O exame começa antes de tocar: peso, altura e circunferência da cintura, feitos com a pessoa informada do que vai acontecer e em ambiente reservado. O protocolo federal lista, entre os itens de avaliação clínica do acompanhamento, frequência cardíaca, pressão arterial, peso com índice de massa corporal e perímetro da cintura — quatro medidas, não uma.
A pressão arterial nesta consulta tem uma armadilha técnica que produz diagnóstico errado o dia inteiro: o manguito. Um manguito pequeno demais para o braço superestima a pressão, e a unidade que só tem manguito de adulto padrão vai transformar gente normotensa em hipertensa e gente hipertensa em hipertensa grave. Meça a circunferência do braço, use o manguito adequado, e registre no prontuário qual manguito foi usado. Se a unidade não tiver o tamanho certo, isso é um pedido à coordenação, e não uma limitação a se conviver.
Procure acantose nigricante — hiperpigmentação aveludada em nuca, axilas e virilhas. A primeira diretriz brasileira sobre síndrome metabólica manda examinar pescoço e dobras cutâneas justamente por isso. Não é critério diagnóstico de nada, e é um marcador clínico visível de resistência à insulina que custa dez segundos e que muda a probabilidade de tudo o que vem depois.
Examine as dobras: intertrigo, candidíase, maceração, odor, lesões que a pessoa não vai mencionar. Examine os pés, porque boa parte dessas pessoas terá diabetes em algum momento e porque o pé é onde a doença cobra em silêncio. Examine a tireoide, e volte a esta seção quando chegar à parte das causas secundárias.
Procure o que aponta para causa secundária, que é raro e é obrigatório procurar: giba dorsal, face arredondada e pletórica, pele fina, equimoses sem trauma, estrias largas e violáceas, fraqueza proximal. Estria fina e clara em flanco de quem ganhou peso não é isso. E procure o que aponta para complicação já instalada: edema, turgência jugular, terceira bulha, sopro carotídeo, pulsos periféricos.
Uma nota sobre a balança. Pergunte se a pessoa quer saber o número. Muita gente prefere ser pesada de costas para o visor, e essa é uma preferência a se respeitar e a se registrar no prontuário para as próximas consultas. O dado que interessa ao tratamento é a série de pesos ao longo do tempo, e ela existe com ou sem a pessoa olhando o visor.
Duas apresentações que mudam a conduta desta consulta
A primeira é a pessoa cujo índice de massa corporal não chama atenção e cuja cintura chama. Josivaldo Ribamar tem 51 anos, 1,76 m e 87,0 kg — índice de 28,1, que qualquer régua brasileira chama de sobrepeso e que a maioria dos prontuários não registra como problema. A cintura dele mede 103 cm, acima do corte de qualquer um dos três documentos brasileiros que fixam esse número. A diretriz brasileira de obesidade de 2025 afirma que a obesidade abdominal, medida pela circunferência da cintura, é forte preditora independente de morbidade e mortalidade em qualquer categoria de índice, e que mesmo quem está abaixo de 30 pode ter risco cardiometabólico alto. Josivaldo não é um caso leve: é um caso que a balança sozinha não vê.
A segunda é a pessoa cujo peso subiu depressa e por um motivo identificável. Ganho de dez a quinze quilos em seis meses, em quem estava estável, não é a história natural da obesidade comum — é uma pergunta em aberto. As respostas mais frequentes estão na receita da pessoa e são o assunto do bloco seguinte; as menos frequentes são endócrinas e também estão lá. O que muda aqui é o ritmo: essa pessoa não sai da consulta só com orientação de vida, sai com investigação.
Há ainda um cenário que não é deste capítulo e que precisa ser reconhecido para ser encaminhado. Pessoa com obesidade e dispneia progressiva, edema, ortopneia; ou com sonolência diurna intensa somada a cefaleia matinal e cianose; ou com dessaturação em repouso. Aqui a conversa sobre peso espera, e o que se faz é avaliar insuficiência cardíaca e insuficiência respiratória, que são de outros capítulos, pelo caminho que a gravidade indicar.
Como fechar o diagnóstico
A investigação da obesidade tem uma peculiaridade que atrapalha o aprendizado: o diagnóstico é clínico e barato, feito com balança, antropômetro e fita métrica, e por isso quase ninguém ensina a fazê-lo direito. Esta seção é sobre as três perguntas que a investigação responde — quanto, onde, e por quê — e sobre os exames que se pedem e os que não se pedem.
Quanto: o índice, e o que ele não vê
O diagnóstico de sobrepeso e obesidade é clínico e se baseia na estimativa do índice de massa corporal, que é o peso dividido pelo quadrado da altura, em quilogramas por metro quadrado. A classificação brasileira para pessoas adultas está escrita em norma, e não em livro: a portaria do Ministério da Saúde que organiza a linha de cuidado define sobrepeso como índice a partir de 25 e abaixo de 30, e obesidade a partir de 30, dividida em grau I de 30 a menos de 35, grau II de 35 a menos de 40, e grau III de 40 em diante. As faixas são contíguas e não deixam buraco — o que, como você vai ver no bloco de critérios, não vale para tudo o que está escrito na mesma portaria.
Rosicleia tem 89,5 kg e 1,61 m. A conta é 89,5 dividido por 1,61 ao quadrado, ou seja, por 2,5921: dá 34,5. Obesidade grau I, a dois pontos e meio da faixa seguinte. Guarde esse número, porque ele vai voltar quando se discutir meta.
O índice tem limitações que o próprio protocolo federal lista, e que valem mais que o número em três situações concretas. Ele não é medida direta de gordura e não diz nada sobre distribuição. Não distingue massa muscular de tecido adiposo — e por isso classifica mal quem tem muita massa magra. Não distingue sexo nem etnia. E é menos acurado em pessoas idosas e em algumas populações, entre elas a asiática e a indígena. Onde essas limitações mordem, o número não vira mentira: vira insuficiente, e pede a segunda medida.
Duas faixas etárias têm régua própria e são erradas com frequência. Entre 18 e 20 anos incompletos, o protocolo manda usar índice de massa corporal para a idade em escore z, e não a tabela do adulto. Para pessoas idosas, ele apresenta a classificação em que abaixo do peso é índice até 22, eutrofia vai de mais de 22 a menos de 27, e sobrepeso começa em 27 — cortes mais altos que os do adulto, e por uma razão clínica: no idoso, o problema mais frequente e mais letal é a perda de massa, não o excesso. Aplicar a tabela do adulto a uma pessoa de 78 anos produz diagnóstico de sobrepeso em quem está no melhor ponto da curva.
Onde: a fita métrica, e o Brasil que tem três cortes
A fita métrica é a única medida de consultório que dá uma ideia do quanto de tecido adiposo está dentro da cavidade, entre as vísceras — que é o que carrega risco. Separa duas pessoas com o mesmo índice, e é a que quase nunca chega ao prontuário.
A técnica está escrita e é simples: com fita métrica, no ponto médio entre a última costela e a crista ilíaca, com a pessoa em expiração. É essa a instrução do protocolo federal, e é essencialmente a mesma da primeira diretriz brasileira de síndrome metabólica, que a define como o meio da distância entre a crista ilíaca e o rebordo costal inferior, e da diretriz brasileira de hipertensão de 2025. Onde o protocolo federal vai além dos outros é ao oferecer uma alternativa quando o ponto médio não é identificável: medir 2 cm acima da cicatriz umbilical. Guarde que essa alternativa é só dele — e que, num abdome volumoso, os dois pontos não caem na mesma altura.
O corte é onde o Brasil não tem uma resposta só, e o interno precisa saber disso para não brigar com o colega que usou outro número. Três documentos brasileiros em circulação dão três réguas diferentes. O caderno de atenção básica sobre obesidade usa risco cardiovascular aumentado acima de 80 cm em mulheres e acima de 94 cm em homens. A primeira diretriz brasileira de síndrome metabólica, e com ela a diretriz brasileira de hipertensão de 2025, usam 88 cm em mulheres e 102 cm em homens. E o protocolo federal de sobrepeso e obesidade abandona o par único e apresenta uma tabela por etnia, na qual a linha latina traz risco elevado a partir de 83 cm em mulheres e 88 cm em homens, e risco significativamente elevado a partir de 90 cm e 94 cm.
Isso tem consequência prática imediata. Uma mulher com 89 cm de cintura tem obesidade abdominal pelo caderno de atenção básica (passou de 80), preenche o componente de cintura da síndrome metabólica pela diretriz de 2005 (passou de 88), e está na faixa de risco elevado, mas ainda não na de risco significativamente elevado, pela tabela do protocolo federal (passou de 83, não chegou a 90). Três leituras corretas do mesmo corpo. O bloco de critérios traz a tabela lado a lado e a recomendação de como decidir; o que não se faz é medir e não registrar, que é o que acontece hoje.
Rosicleia mede 106 cm de cintura. Esse número está acima de todos os cortes de todos os documentos citados, o que resolve a dúvida no caso dela e não resolve no caso da vizinha de agenda. Josivaldo mede 103 cm, com índice de 28,1: obesidade abdominal por qualquer régua, sobrepeso pelo índice. Anote os dois números sempre, porque é o par que informa, e não cada um isolado.
Por quê: as causas secundárias que se tem obrigação de excluir
Aqui há um achado sobre as réguas brasileiras que precisa ser dito antes do conteúdo clínico, porque muda onde você vai procurar a informação. O protocolo federal de sobrepeso e obesidade, que é a régua vigente do Sistema Único de Saúde para esta doença, não tem seção de causas secundárias. Uma busca no texto integral não devolve nenhuma ocorrência de hipotireoidismo, de Cushing, de hormônio estimulante da tireoide, de corticoide ou de antipsicótico. Ele cita medicamentos obesogênicos de passagem, na introdução, e não diz quais são.
O documento brasileiro que tem essa lista é o caderno de atenção básica número 38, de 2014, para o qual o próprio protocolo remete como material de apoio. É de onde vem tudo o que segue. É também um documento de doze anos atrás, e o capítulo diz isso porque o aluno tem direito de saber a idade da informação que está usando.
O caderno organiza as condições endócrinas associadas ao excesso de peso e faz, logo na abertura da seção, a advertência que economiza exame: em geral essas condições são raras, como a obesidade hipotalâmica e a síndrome de Cushing, ou não se associam a grande excesso de peso, como o hipotireoidismo — e em geral vêm acompanhadas de outros achados clínicos. Traduzindo: elas se suspeitam pelo quadro, não pelo peso.
Hipotireoidismo. O caderno descreve fadiga, intolerância ao frio, constipação, bradicardia e rarefação de pelos, e comenta que o ganho de peso é modesto e não explica obesidade de grande monta. Essa frase é a mais útil da seção, porque desmonta a expectativa mais comum do paciente e do interno. O hormônio estimulante da tireoide se dosa quando há quadro clínico compatível; o rastreamento tireoidiano, as faixas de normalidade e o que fazer com um resultado limítrofe são do capítulo de hipotireoidismo e rastreamento tireoidiano, nesta mesma apostila.
Síndrome de Cushing. O caderno lista obesidade central, giba, atrofia da pele, estrias violáceas e equimoses, registra que é rara, e nomeia a causa mais comum: o uso crônico de corticosteroides. Ou seja, a causa mais frequente da síndrome não está na hipófise nem na suprarrenal, está na receita. A investigação e o tratamento da síndrome de Cushing pertencem ao capítulo de síndrome de Cushing e hiperaldosteronismo desta apostila; o que é seu aqui é suspeitar pelo conjunto de sinais e encaminhar com a suspeita escrita.
Síndrome dos ovários policísticos, com hirsutismo, oligomenorreia ou amenorreia e resistência insulínica; e deficiência de hormônio do crescimento, com história de deficiência na infância ou pan-hipopituitarismo associado. Sobre a primeira, o caderno faz uma ressalva honesta que vale repetir: a relação de causa e efeito com a obesidade não está estabelecida. A síndrome dos ovários policísticos tem capítulo próprio em Ginecologia.
Fechando a lista, o que não é causa secundária e é confundido com uma: ganho de peso após parar de fumar, após início de insulina ou sulfonilureia, após imobilização prolongada, e durante o inverno de quem trabalha em turno. São causas identificáveis, não são doenças endócrinas, e o manejo é diferente — mas o primeiro passo é o mesmo, que é perguntar.
Os fármacos que engordam, e que estão na receita que a pessoa trouxe
Esta é a parte da investigação com maior retorno por minuto gasto, e a mais esquecida, porque a informação não está no corpo do paciente: está na sacola de caixas que ele deixou em cima da mesa. O caderno de atenção básica traz um quadro de medicamentos associados a ganho de peso, e a lista é maior do que quase todo interno imagina.
Psicofármacos: antipsicóticos típicos, com a clorpromazina nomeada; antipsicóticos atípicos, com risperidona, clozapina e olanzapina; estabilizadores de humor, com lítio, ácido valproico e carbamazepina; antidepressivos tricíclicos, com amitriptilina, imipramina, nortriptilina e mirtazapina; inibidores seletivos da recaptação de serotonina, com a paroxetina nomeada; antiepilépticos, com valproato de sódio; e benzodiazepínicos, com diazepam, alprazolam e flurazepam.
Antidiabéticos: insulina e sulfonilureias. Hormônios: corticosteroides e medroxiprogesterona. Repare que boa parte dessa lista sai da farmácia da própria unidade e é prescrita por você — o que significa que o ganho de peso induzido por medicamento é, em boa medida, um problema que a atenção primária cria e pode evitar.
A conduta que o caderno indica é sóbria e é a certa: nesses casos, deve-se considerar medicamentos alternativos com menos impacto no ganho de peso. Considerar, não trocar automaticamente. Trocar clozapina de quem está estável há três anos por causa de oito quilos é uma decisão que não é sua sozinha, e o mesmo vale para o corticoide de uma doença reumatológica ativa. O que cabe a você e a mais ninguém: montar a lista, contar ao paciente que aquele ganho tem explicação farmacológica, e levar a pergunta de volta a quem prescreveu.
Dizer isso ao paciente tem valor terapêutico próprio e imediato. A pessoa que ganhou doze quilos depois de começar olanzapina passou dois anos achando que tinha perdido a força de vontade. Nomear a causa devolve a ela a possibilidade de continuar o tratamento psiquiátrico sem se odiar por isso — e reduz a chance de ela abandonar o remédio por conta própria, que é o desfecho pior.
Os exames desta consulta, e os que não se pede
O protocolo federal é econômico neste ponto, e a economia é deliberada: ele diz que exames não são recomendados como prática cotidiana e devem ser solicitados pelo profissional quando houver necessidade. Na lista de exames complementares que podem ser pedidos conforme a necessidade, ele apresenta glicemia, hemoglobina glicada, colesterol total e frações, triglicerídeos, exame coprológico funcional e urinálise.
Na prática da unidade básica, o painel que se justifica na primeira consulta de quem tem excesso de peso não é um painel de obesidade: é o painel das doenças que a obesidade produz e cujo achado muda conduta hoje. Glicemia plasmática de jejum, porque a régua de 2026 derruba o critério de idade do rastreamento diante de excesso de peso com um fator de risco associado. Perfil lipídico com colesterol total, frações e triglicerídeos, porque dois dos cinco componentes da síndrome metabólica vêm dele. E pressão arterial aferida com o manguito certo, que é exame físico e não laboratório.
Hemoglobina glicada quando disponível e quando a glicemia de jejum ou o quadro sugerirem; enzimas hepáticas e creatinina conforme o caso. O que decide a conduta do diabetes, incluindo quantas amostras fecham o diagnóstico e o que se começa, é do capítulo de diabetes tipo 2 na unidade básica, que é a segunda posição desta apostila. Meta de colesterol e cálculo de risco global pertencem ao capítulo de dislipidemias e risco cardiovascular global, em Cardiologia; meta de pressão, ao capítulo de hipertensão arterial sistêmica, na mesma apostila.
O que não se pede de rotina: dosagem de hormônio estimulante da tireoide em todo mundo com excesso de peso, cortisol em quem não tem sinais de Cushing, insulina de jejum e índices de resistência insulínica calculados a partir dela, e densitometria ou tomografia para medir compartimento de gordura. Os dois primeiros produzem investigação em cascata a partir de resultado limítrofe em pessoa sem doença. O terceiro não tem corte de decisão estabelecido para uso individual — a própria diretriz de síndrome metabólica de 2005 registra que o critério que ela adota dispensa métodos acurados de avaliação de resistência insulínica. O quarto é caro, existe pouco no sistema, e a diretriz de 2025 cita imagem como padrão para estudos clínicos, não para a consulta.
Repare no que a lista revela: a investigação da obesidade na atenção primária cabe inteira na primeira consulta, com exames que a unidade já pede para outras coisas. O que falta na prática quase nunca é exame. É a fita métrica e a pergunta sobre a receita.
Quando os cinco viram um: a síndrome metabólica
Síndrome metabólica é o nome que se dá ao agrupamento, na mesma pessoa, de achados que compartilham o mesmo mecanismo — adiposidade central e resistência à insulina. O rótulo não existe para produzir um diagnóstico a mais: existe porque o conjunto informa mais do que a soma das partes lidas separadamente.
A régua brasileira é uma só, e a idade dela é o primeiro dado do capítulo. É a primeira diretriz brasileira de diagnóstico e tratamento da síndrome metabólica, publicada em abril de 2005 por cinco entidades — Sociedade Brasileira de Hipertensão, Sociedade Brasileira de Cardiologia, Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, Sociedade Brasileira de Diabetes e a associação brasileira para o estudo da obesidade. Ela se chama primeira e nunca teve segunda edição. Vinte e um anos depois, continua sendo o documento brasileiro que fixa os critérios com números.
Ela adota a definição do painel norte-americano de tratamento do adulto em sua terceira versão, por simplicidade e praticidade, e porque essa definição não exige comprovar resistência insulínica. São cinco componentes, e o diagnóstico se faz com pelo menos três: circunferência abdominal acima de 102 cm em homens e acima de 88 cm em mulheres; triglicerídeos iguais ou acima de 150 mg/dL; colesterol da lipoproteína de alta densidade abaixo de 40 mg/dL em homens e abaixo de 50 mg/dL em mulheres; pressão arterial sistólica igual ou acima de 130 ou diastólica igual ou acima de 85 mmHg; e glicemia de jejum igual ou acima de 110 mg/dL.
Duas regras da diretriz brasileira evitam erro na contagem, e as duas são pouco conhecidas. A primeira: para pressão arterial e triglicerídeos, o uso de medicação anti-hipertensiva ou hipolipemiante preenche o critério, assim como o diagnóstico prévio de diabetes — quem está tratado e controlado continua pontuando. A segunda, escrita como nota do próprio quadro: a presença de diabetes não exclui o diagnóstico de síndrome metabólica.
O componente de glicemia guarda um problema que só apareceu com o tempo e que o bloco de critérios detalha com a conta: o corte de 110 mg/dL da diretriz de 2005 não é mais o corte que o Brasil usa para chamar de alterada uma glicemia de jejum. A própria diretriz previu isso, ao registrar que a recomendação internacional havia mudado de 110 para 100 e que isso poderia futuramente influir no critério. O futuro chegou e a diretriz não foi reeditada.
Fecha a seção com a pergunta que o interno faz e que ninguém responde: o que muda quando o rótulo se aplica? Não muda a farmacologia — não existe remédio para síndrome metabólica, e cada componente continua sendo tratado pela sua própria régua, nos capítulos que os governam. O que muda são três coisas concretas: a pessoa deixa de ser cinco problemas leves em cinco consultas e passa a ser um problema de risco somado; a intensidade da intervenção de vida sobe, porque a diretriz de 2005 mostra que perda de peso e exercício atacam todos os componentes ao mesmo tempo; e a estratificação de risco cardiovascular, que é do capítulo de dislipidemias, deixa de ser opcional.
Os cortes, as réguas que não coincidem, e as contas refeitas
Aprenda a avaliar obesidade como condição crônica, com linguagem respeitosa, história de peso e avaliação de complicações e função. O plano precisa caber na vida da pessoa; medidas e critérios de acesso apoiam essa conversa. As contas deste bloco estão feitas por extenso para a Rosicleia Serralva, da abertura — 89,5 kg e 1,61 m —, e para o Josivaldo Ribamar, 87,0 kg e 1,76 m. Refaça as suas trocando peso e altura: as fórmulas são as mesmas. A primeira tabela existe porque quatro documentos brasileiros convivem hoje nas unidades e não dão a mesma resposta às mesmas perguntas; a terceira existe porque a definição brasileira de síndrome metabólica tem vinte e um anos e um de seus cinco cortes já não conversa com a régua brasileira do diabetes; a quarta existe porque a pergunta prática deste capítulo — o que eu posso receitar — tem uma resposta curta e desconfortável. Fecham o bloco as conferências que este capítulo fez linha a linha nos documentos: as que bateram e as que não bateram.
- 1Peça licença antes de medir, e meça em local reservado. Está escrito no protocolo federal, e é a primeira coisa que se perde na unidade com balança no corredor.
- 2Meça e registre os quatro: peso, altura, circunferência da cintura e pressão arterial com o manguito adequado ao braço. Calcule o índice de massa corporal e escreva os dois números — índice e cintura — no prontuário.
- 3Classifique pelo índice, com a régua da portaria: sobrepeso de 25 a menos de 30; obesidade grau I de 30 a menos de 35; grau II de 35 a menos de 40; grau III de 40 em diante. Entre 18 e 20 anos incompletos, use escore z; em pessoa idosa, use a tabela do idoso.
- 4Leia a cintura sabendo qual régua está usando, e escreva no prontuário qual foi. O número não é opcional mesmo quando o índice já classificou: é ele que separa dois pacientes com o mesmo índice.
- 5Faça a linha do tempo do peso e registre o peso máximo já atingido na vida, com o ano. Pergunte o que já foi tentado, o que funcionou e o que aconteceu depois.
- 6Reveja a receita inteira à procura de fármaco que engorda — antipsicótico, estabilizador de humor, tricíclico, paroxetina, valproato, benzodiazepínico, corticoide, medroxiprogesterona, insulina e sulfonilureia. Se houver, diga isso ao paciente e leve a pergunta a quem prescreveu.
- 7Procure causa secundária pelo quadro, não pelo peso: giba, estrias violáceas, pele fina e equimoses; ou fadiga, intolerância ao frio, constipação e bradicardia. Sem esses achados, não se dosa hormônio de rotina.
- 8Peça o painel que muda conduta hoje: glicemia plasmática de jejum e perfil lipídico completo. Hemoglobina glicada quando houver. Nada de insulina de jejum, de índice de resistência calculado a partir dela, nem de imagem para medir gordura.
- 9Conte os componentes da síndrome metabólica pela régua brasileira de 2005: cintura, triglicerídeos, colesterol da lipoproteína de alta densidade, pressão e glicemia. Três de cinco fecham. Medicação anti-hipertensiva ou hipolipemiante em uso preenche o componente, e diabetes não exclui o diagnóstico.
- 10Estabeleça o que se persegue, em quilos, e diga em voz alta que o alvo não é o peso da tabela de eutrofia. O protocolo federal afirma que o tratamento não tem como objetivo atingir índice correspondente à eutrofia, e que o critério de perda bem-sucedida é manter perda igual ou superior a 10% do peso inicial após um ano.
- 11Comece por mudança de vida em todos, sempre, independentemente do risco. Restrição de 500 a 1.000 kcal/dia sobre o gasto estimado, elaborada por profissional capacitado; ao menos 150 minutos semanais de atividade física moderada, combinando aeróbico e resistido; e suporte psicológico baseado em entrevista motivacional ou terapia cognitivo-comportamental.
- 12Marque retorno curto. O protocolo federal registra que intervenções com intervalos semanais nos primeiros seis meses são altamente eficazes, e que há evidência de acompanhamento por doze meses ou mais, com intervalo mensal, quando possível.
- 13Combine, na primeira consulta, o que fazer quando o peso voltar — e diga que ele tende a voltar. Sem esse combinado, a primeira subida na balança vira alta por abandono.
- 14Encaminhe à atenção especializada quando o índice for igual ou maior que 30 com comorbidades, ou igual ou maior que 40, e as possibilidades terapêuticas da atenção básica estiverem esgotadas — é o que diz a portaria que organiza a linha de cuidado. Índice entre 25 e 40 sem isso é assistência da própria unidade.
- 15Para cirurgia, escreva o que a régua que paga exige: índice, comorbidades, e o registro do tratamento clínico longitudinal por, no mínimo, dois anos, com protocolo seguido. Sem esse registro no prontuário, o encaminhamento volta.
| A decisão | Caderno de Atenção Básica nº 38 (Ministério da Saúde, 2014) | I Diretriz Brasileira de Síndrome Metabólica (2005) | PCDT Sobrepeso e Obesidade em Adultos (Portaria SCTIE/MS nº 53/2020) | Diretriz Brasileira de Obesidade — cinco sociedades (2025) |
|---|---|---|---|---|
| Corte de cintura na mulher | acima de 80,0 cm | acima de 88,0 cm | 83,0 cm (risco elevado) e 90,0 cm (significativamente elevado) na linha latina | não fixa número; recomenda cintura, relação cintura/quadril e cintura/altura |
| Corte de cintura no homem | acima de 94,0 cm | acima de 102,0 cm | 88,0 cm (risco elevado) e 94,0 cm (significativamente elevado) na linha latina | não fixa número; mesma observação acima |
| Onde a fita passa | não descreve o ponto de referência | meio da distância entre a crista ilíaca e o rebordo costal inferior | ponto médio entre a última costela e a crista ilíaca, em expiração; se não for identificável, 2 cm acima da cicatriz umbilical | não descreve o ponto de referência |
| O que conta como sucesso | perda gradual; 1 a 2 kg em um a dois meses já traz ganho; perdas grandes e abruptas não se sustentam | redução de peso sustentada como base do tratamento não medicamentoso, sem percentual fixado | manter perda igual ou maior que 10% do peso inicial após 1 ano; 5% a 10% já melhora fatores de risco; a meta não é chegar à eutrofia | pelo menos 5% sustentados no risco moderado; pelo menos 10% do peso máximo já atingido na vida no risco moderado a alto |
| Fármaco antiobesidade | não trata de farmacoterapia da obesidade | trata dos componentes, não do peso | avaliados e com recomendação contrária à incorporação no SUS (Portarias SCTIE nº 14 e nº 15, de 24/04/2020) | agonista do receptor de GLP-1 ou coagonista GLP-1/GIP no risco cardiovascular moderado ou alto |
| Quem indica a cirurgia | reproduz os critérios da Portaria GM/MS nº 424/2013 | não trata do assunto | remete ao Anexo 1 do Anexo IV da Portaria de Consolidação nº 3, de 28/09/2017 | índice igual ou maior que 35 com risco cardiovascular moderado a alto, ou risco alto de insuficiência cardíaca, quando o tratamento clínico disponível for insuficiente |
Conversão antropométrica — refeita em Python para as três pessoas do capítulo
| Pessoa, peso e altura | Índice de massa corporal e classificação | 5% do peso | 10% do peso e o índice depois dele | Peso que mudaria a faixa de classificação |
|---|---|---|---|---|
| Rosicleia Serralva — 89,5 kg, 1,61 m | 89,5 ÷ 2,5921 = 34,5 kg/m²; obesidade grau I | 4,5 kg (novo peso 85,0 kg; índice 32,8) | 9,0 kg (novo peso 80,5 kg; índice 31,1 — continua grau I) | 77,8 kg, ou seja 11,7 kg a menos, para cair abaixo de 30 |
| Josivaldo Ribamar — 87,0 kg, 1,76 m | 87,0 ÷ 3,0976 = 28,1 kg/m²; sobrepeso | 4,4 kg (novo peso 82,6 kg; índice 26,7) | 8,7 kg (novo peso 78,3 kg; índice 25,3 — continua sobrepeso) | 77,4 kg, ou seja 9,6 kg a menos, para cair abaixo de 25 |
| Vitorina Bomfim — 78,4 kg, 1,52 m | 78,4 ÷ 2,3104 = 33,9 kg/m²; obesidade grau I | 3,9 kg (novo peso 74,5 kg; índice 32,2) | 7,8 kg (novo peso 70,6 kg; índice 30,5 — continua grau I) | 69,3 kg, ou seja 9,1 kg a menos, para cair abaixo de 30 |
| Regra geral da conversão | índice = peso em kg ÷ (altura em m)² | 5% do peso = peso × 0,05 | peso após perda de x% = peso × (1 − x/100) | peso que corresponde a um índice-alvo = índice × (altura)² |
Os cinco componentes da síndrome metabólica pela régua brasileira, e onde um deles envelheceu
| Componente | Corte da I Diretriz Brasileira (2005) | O que a régua brasileira de hoje diz do mesmo número | Consequência prática |
|---|---|---|---|
| Circunferência abdominal | acima de 102 cm em homens; acima de 88 cm em mulheres | o protocolo federal de 2020 usa 88 cm no homem e 83 cm na mulher para a linha latina; o caderno de 2014 usa 94 e 80 | três cortes em circulação; escreva no prontuário qual você usou |
| Triglicerídeos | iguais ou acima de 150 mg/dL | o protocolo de diabetes de 2026 usa o mesmo 150 mg/dL ao listar fatores de risco | sem conflito; medicação hipolipemiante em uso preenche o componente |
| Colesterol da lipoproteína de alta densidade | abaixo de 40 mg/dL em homens; abaixo de 50 mg/dL em mulheres | os mesmos valores aparecem no protocolo de diabetes de 2026 entre os fatores de risco | sem conflito; a meta lipídica em si é do capítulo de dislipidemias, em Cardiologia |
| Pressão arterial | sistólica igual ou acima de 130 mmHg ou diastólica igual ou acima de 85 mmHg | a diretriz brasileira de hipertensão de 2025 governa o diagnóstico e a meta de hipertensão, que são de outro capítulo | medicação anti-hipertensiva em uso preenche o componente, mesmo com pressão controlada |
| Glicemia plasmática de jejum | igual ou acima de 110 mg/dL | o protocolo de diabetes de fevereiro de 2026 chama de pré-diabetes a faixa de 100 a 125 mg/dL | glicemia de 104 mg/dL é pré-diabetes pela régua de 2026 e não pontua o componente pela régua de 2005 |
| Como se fecha | pelo menos três dos cinco | a presença de diabetes não exclui o diagnóstico, por nota do próprio quadro de 2005 | o rótulo não muda a farmacologia; muda a intensidade da intervenção e obriga a estratificar risco |
O que existe no Brasil, o que o SUS financia, e o que sobra para a sua receita
| Fármaco | Dose de referência citada pela diretriz brasileira de 2025 | Consta na Rename 2024? | O que isso significa na consulta da unidade básica |
|---|---|---|---|
| Sibutramina | 10 a 15 mg/dia | não — busca exata sobre o texto normalizado devolve zero ocorrência | compra particular; a mesma diretriz de 2025 recomenda não usar em quem tem risco cardiovascular alto |
| Orlistate | 120 mg, três vezes ao dia | não — zero ocorrência | compra particular; a Conitec recomendou contra a incorporação em 2020 |
| Liraglutida | 3,0 mg/dia, por via subcutânea | não — zero ocorrência | compra particular; custo mensal fora do alcance da maior parte dos pacientes da unidade |
| Semaglutida | 2,4 mg por semana, por via subcutânea | não — zero ocorrência | compra particular; é o fármaco com maior evidência cardiovascular na diretriz de 2025 e o mais distante da farmácia da unidade |
| Tirzepatida | 5 a 15 mg por semana | não — zero ocorrência | compra particular |
| Naltrexona associada a bupropiona | citada entre as medicações aprovadas no Brasil, sem dose única de referência no texto lido | não — zero ocorrência para nenhum dos dois nomes como antiobesidade | compra particular |
| Cloridrato de metformina | não é fármaco antiobesidade; entra pelo diabetes | sim — 500 mg e 850 mg comprimido, Componente Básico, código ATC A10BA02 | é o único fármaco desta tabela que sai da farmácia da unidade, e sai para tratar diabetes, não peso |
Conferência que fechou — o crescimento da prevalência no protocolo federal. O documento afirma que a obesidade em adultos passou de 11,8% em 2006 para 20,3% em 2018, um aumento de 72%, e que o excesso de peso passou de 42,6% para 55,4%, um aumento de 30%. Refeitas em Python: 20,3 ÷ 11,8 = 1,7203, ou seja +72,0%; e 55,4 ÷ 42,6 = 1,3005, ou seja +30,0%. As duas fecham na primeira casa decimal.
Conferência que não fechou — o intervalo do mesmo parágrafo. A frase chama esse período de treze anos, e de 2006 a 2018 vão doze. O erro não muda conduta; está registrado porque foi o hábito de refazer a conta deste parágrafo que encontrou, três páginas adiante, o erro da nota seguinte.
Conferência que não fechou, e é a mais grave do protocolo federal — o intervalo de confiança do orlistate. O item 8.1 diz que, na metanálise que comparou orlistate a placebo, a diferença média de peso foi de −2,68 kg, com intervalo de confiança de 95% escrito como “3,01-2,35”. Como está impresso, o limite inferior (3,01) é maior que o superior (2,35), o que não pode acontecer num intervalo; e, sem sinal negativo, o intervalo não contém a própria estimativa (−2,68). A leitura coerente é (−3,01; −2,35). Duas linhas acima, no mesmo item, o intervalo da sibutramina está escrito corretamente e com sinais: −5,03; −1,61. O erro é de digitação num único par de números, e é exatamente o tipo de erro que passa despercebido quando ninguém recalcula.
Conferência que não fechou — o denominador da frase mais citada do protocolo. Ele afirma que “mais da metade da população brasileira, 55,4%, tem excesso de peso”, atribuindo o número ao sistema de vigilância por inquérito telefônico. Esse sistema entrevista pessoas adultas com telefone nas 27 capitais e no Distrito Federal, e trabalha com peso e altura referidos, não aferidos. O número é das capitais, não do Brasil; e, como peso referido tende a ser menor e altura referida tende a ser maior que os medidos, é uma estimativa por baixo. A afirmação seria correta escrita como “da população adulta das capitais”.
Conferência que não fechou — a linha africana do Quadro 3 do protocolo federal inverte os sexos. A tabela de perímetro da cintura por etnia mantém, em todas as linhas, o corte do homem acima do da mulher: caucasiana 80 e 94 no risco elevado, 88 e 102 no significativamente elevado; latina 83 e 88, depois 90 e 94; asiática 80 e 85. Na linha africana, o risco elevado segue o padrão (71,5 na mulher, 76,5 no homem), mas o risco significativamente elevado o rompe: 81,5 cm na mulher contra 80,5 cm no homem. É a única linha da tabela em que o corte feminino de maior risco supera o masculino. A mesma tabela deixa as duas colunas de maior risco da linha asiática sem valor, marcadas como não disponível — de modo que, para essa população, o documento brasileiro não oferece banda superior.
Conferência que não fechou, e esta muda quem opera — o buraco em 35,00 dentro da mesma portaria. A Portaria GM/MS nº 424, de 19 de março de 2013, define no art. 3º, §3º, inciso II, obesidade grau II como índice igual ou maior que 35 e menor que 40. No Anexo I da mesma portaria, o item 1.c indica cirurgia para “indivíduos com IMC > 35 kg/m² e com comorbidades”, com o sinal de maior estrito. O item 1.b começa em 40. Resultado: uma pessoa com índice de exatamente 35,00 e comorbidades é obesidade grau II pelo artigo e não satisfaz nenhum dos três itens do anexo — 35,00 não é maior que 35, e está abaixo de 40. É um valor que pertence a uma classe pelo corpo da norma e a nenhuma pelo anexo dela.
Conferência que não fechou — o caderno de atenção básica de 2014 alterou a norma que reproduz. O Quadro 20 do caderno declara reproduzir as diretrizes gerais da Portaria GM/MS nº 424/2013. Comparando palavra a palavra com o texto publicado no Diário Oficial de 20 de março de 2013, o item II difere em três pontos. Primeiro: a norma diz que, entre 16 e 18 anos, poderá ser indicado o tratamento cirúrgico a quem tiver escore z maior que +4, porém não antes da consolidação das epífises; o caderno inverte as duas orações e perde o “porém”, transformando uma restrição em sequência. Segundo: some do caderno a exigência de que a avaliação clínica do jovem “necessita constar em prontuário”. Terceiro, e decisivo: onde a norma exige avaliação “realizada por equipe multiprofissional com participação de dois profissionais médicos especialistas na área”, o caderno escreve “com participação de profissional especialista” — um, e não necessariamente médico. Quem seguir o manual do Ministério em vez da portaria do Ministério indica cirurgia em adolescente com metade da avaliação que a norma exige.
Conferência que fechou — a Rename 2024 e a metformina. Busca exata sobre o texto normalizado (acentos removidos, todos os caracteres não alfanuméricos removidos, de modo que hifenização e espaçamento de extração não possam esconder o termo) devolve “cloridrato de metformina”, apresentações de 500 mg e 850 mg comprimido, Componente Básico, código ATC A10BA02 — no elenco principal e no índice remissivo. Glibenclamida, gliclazida e insulina humana aparecem pelo mesmo método. A régua de quando e como prescrevê-las é do capítulo de diabetes tipo 2 na unidade básica, nesta apostila.
Conferência que não fechou, e é o achado que mais muda a sua conduta — nenhum fármaco antiobesidade consta da Rename 2024. A mesma busca exata sobre o texto normalizado devolve zero ocorrência para sibutramina, zero para orlistate e para orlistat, zero para liraglutida e zero para semaglutida, no elenco e no índice. O protocolo federal de 2020 dedica ao assunto centenas de menções a sibutramina e orlistate e a diretriz de 2025 traz uma tabela inteira de medicamentos antiobesidade aprovados no Brasil — e nenhum deles consta da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024. O protocolo explica por quê: a avaliação da Conitec foi contrária à incorporação dos dois, e a decisão de não incorporar saiu pelas Portarias SCTIE nº 14 e nº 15, de 24 de abril de 2020. Consequência prática: o interno da unidade básica não tem, hoje, nenhum fármaco antiobesidade para prescrever dentro do sistema. Dizer isso ao paciente é parte do tratamento; deixar que ele descubra sozinho na fila da farmácia não é.
Conferência que não fechou — a redução de risco do XENDOS na diretriz de 2025. O sumário de evidências afirma que a incidência cumulativa de diabetes foi de 9% no grupo placebo contra 6,2% no grupo orlistate, “o que corresponde a uma redução de risco de 37,3%”. Refazendo com os dois números impressos na mesma frase: (9,0 − 6,2) ÷ 9,0 = 0,311, ou seja 31,1%. O 37,3% é a redução do modelo de riscos proporcionais do estudo original, e não a razão entre as incidências citadas ao lado. Não há erro de fato; há troca silenciosa de estimador dentro de uma frase — e o interno que refizer a conta não chega ao número impresso.
Conferência que não fechou — o intervalo da associação naltrexona com bupropiona, na mesma diretriz de 2025: “a diferença de perda de peso foi de 5,0 kg (5.94-3.96)”. Os sinais foram omitidos, os limites estão em ordem decrescente e o separador decimal muda de vírgula para ponto dentro da mesma frase. A leitura coerente é (−5,94; −3,96). É o mesmo gênero de defeito do intervalo do orlistate no protocolo federal, em documento independente e quinze anos mais novo: o par de números copiado é o lugar onde a revisão falha.
Divergência entre dois documentos brasileiros em uso, com consequência por paciente — o corte da glicemia. A I Diretriz Brasileira de Síndrome Metabólica, de 2005, fixa o componente glicêmico em glicemia de jejum igual ou acima de 110 mg/dL. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas de Diabete Melito Tipo 2, aprovado pela Portaria SCTIE/MS nº 13, de 21 de fevereiro de 2026, define no Quadro 4 a faixa de 100 a 125 mg/dL como pré-diabetes. Uma glicemia de jejum de 104 mg/dL, portanto, é pré-diabetes pela régua vigente do diabetes e não pontua como componente da síndrome metabólica pela régua vigente da síndrome. A própria diretriz de 2005 antecipou o problema, registrando que a recomendação internacional havia mudado de 110 para 100 mg/dL e que isso “futuramente poderá influir no critério diagnóstico”. O futuro chegou; a diretriz não foi reeditada. Na prática: conte pelo critério de 2005, que é a régua brasileira da síndrome, e registre o valor absoluto no prontuário — quem ler depois faz a própria conta.
Divergência entre três documentos brasileiros — o corte da cintura. Tome uma mulher com 89 cm. Pelo caderno de atenção básica de 2014 (acima de 80 cm), ela tem risco cardiovascular aumentado. Pela I Diretriz de Síndrome Metabólica de 2005 e pela diretriz brasileira de hipertensão de 2025 (acima de 88 cm), ela preenche o componente de cintura. Pelo protocolo federal de 2020, linha latina, ela está em risco elevado (passou de 83) e ainda não em risco significativamente elevado (não chegou a 90). Três leituras corretas do mesmo corpo, com três documentos brasileiros vigentes. Nenhum deles revoga os outros. Como decidir está na parte de divergências deste capítulo; o que não se faz é deixar de medir por causa da dúvida.
Divergência de técnica, no mesmo assunto — onde a fita passa. A I Diretriz de 2005 e a diretriz de hipertensão de 2025 mandam medir no meio da distância entre a crista ilíaca e o rebordo costal inferior. O protocolo federal de 2020 diz o mesmo e acrescenta uma alternativa que nenhum dos outros oferece: na impossibilidade de identificar essa região, medir 2 cm acima da cicatriz umbilical. Num abdome volumoso, os dois pontos não caem na mesma altura, e a diferença entre eles é maior do que a diferença entre alguns dos cortes discutidos acima. Consequência: registre no prontuário qual ponto foi usado, para que a medida da próxima consulta seja comparável.
O que a régua brasileira da síndrome metabólica é, e desde quando. É a I Diretriz Brasileira de Diagnóstico e Tratamento da Síndrome Metabólica, publicada em Arquivos Brasileiros de Cardiologia, volume 84, suplemento I, abril de 2005, por cinco entidades nacionais. Chama-se primeira e nunca teve segunda edição. Procurada uma atualização, não foi encontrada — e é preciso dizer com essas palavras que a vigência dela se sustenta por ausência de substituto, que é o teste mais fraco. A diretriz brasileira de obesidade de 2025, das cinco sociedades, e a diretriz brasileira de dislipidemias de 2025 citam a síndrome e enumeram seus componentes, mas nenhuma delas reedita os cortes. Vale registrar também o que a diretriz de 2005 dizia de si mesma: que não foram encontrados estudos sobre a prevalência da síndrome com dados representativos da população brasileira.
Ressalva de leitura sobre o mesmo quadro de 2005. Na extração do arquivo, a linha da pressão arterial aparece como “Pressão arterial ≥ 130 mmHg ou ≥ 85 mmHg”, sem os rótulos de sistólica e diastólica — não é possível distinguir, a partir do texto extraído, se os rótulos faltam no documento impresso ou se se perderam na conversão da tabela. O critério do painel adotado é pressão sistólica igual ou acima de 130 ou diastólica igual ou acima de 85 mmHg, e é assim que a linha deve ser lida. Está registrado porque um par de números sem rótulo é o gênero de defeito que já produziu erro de escala em outros documentos.
O que a régua federal do sobrepeso e da obesidade não tem. Busca no texto integral do protocolo aprovado pela Portaria SCTIE/MS nº 53, de 11 de novembro de 2020, devolve zero ocorrência para hipotireoidismo, zero para Cushing, zero para hormônio estimulante da tireoide, zero para corticoide e zero para antipsicótico. O documento que rege o cuidado da obesidade no Sistema Único de Saúde não diz ao interno o que excluir antes de chamar a obesidade de primária, nem quais fármacos engordam. Essa informação existe em documento brasileiro, mas está no caderno de atenção básica nº 38, de 2014, para o qual o próprio protocolo remete como material de apoio ao gestor. É de lá que vêm as listas deste capítulo, e é de 2014 que elas são.
Conferência que fechou — as faixas de índice das duas normas de cirurgia. Na Resolução CFM nº 2.429/2025, as três faixas são contíguas e não se sobrepõem: igual ou maior que 40; igual ou maior que 35 e menor que 40; igual ou maior que 30 e menor que 35. Na Portaria GM/MS nº 424/2013, art. 3º, §3º, as faixas de classificação também são contíguas e exaustivas acima de 25. Foi justamente porque essas duas conferências fecharam que o buraco em 35,00 do anexo da portaria ficou visível.
Tensão interna da Resolução CFM nº 2.429/2025, que o interno precisa saber para não prometer o que a norma não promete. Os aspectos gerais dizem que a cirurgia “pode ser considerada quando houver falha no tratamento clínico”, e a lista de contraindicações abre com “obesidade ou doença metabólica passíveis de controle com tratamento clínico”. A indicação para índice igual ou maior que 40, porém, é redigida como “independentemente da presença de comorbidade associada”. As duas coisas convivem: independer de comorbidade não é independer de falha do tratamento clínico. E a resolução removeu qualquer prazo — a falha passa a ser reconhecida por avaliação consensual da equipe multidisciplinar, sem tempo definido. Consequência: pela régua do conselho não existe mais uma data no calendário que, sozinha, autorize; pela régua que paga, existe, e são dois anos.
Licenças, conferidas com busca insensível a espaço e a hífen. A Rename 2024 declara, logo abaixo da ficha catalográfica, Licença Creative Commons Atribuição–Não Comercial–Compartilhamento pela mesma licença 4.0 Internacional, e permite reprodução parcial ou total desde que citada a fonte (ISBN 978-65-5993-710-3, 252 páginas). O caderno de atenção básica nº 38 traz, na mesma página, duas cláusulas opostas: “© 2014 Ministério da Saúde. Todos os direitos reservados.” e, logo abaixo, “Esta obra é disponibilizada nos termos da Licença Creative Commons – Atribuição – Não Comercial – Sem Derivações 4.0 Internacional. É permitida a reprodução parcial ou total desta obra, desde que citada a fonte.” As duas frases estão no impresso; este capítulo cita e parafraseia, não transcreve tabela.
A meta ancorada no peso máximo da vida, e a conta que ela muda. A diretriz brasileira de obesidade de 2025 recomenda considerar redução sustentada de pelo menos 10% do peso máximo já atingido na vida em quem tem risco cardiovascular moderado a alto — e não 10% do peso de hoje. A diferença é grande na consulta real. Rosicleia pesa 89,5 kg e informa ter chegado a 97,0 kg há três anos: 10% do peso de hoje são 9,0 kg, e 10% do peso máximo são 9,7 kg medidos a partir de 97,0 kg, ou seja, um alvo de 87,3 kg. Ela está a 2,2 kg desse alvo, e não a 9,0 kg como a conta sobre o peso de hoje faria supor — porque os 7,5 kg que ela já perdeu sozinha, entre o máximo e hoje, contam. Registrar o peso máximo, com o ano, é o que permite dizer a uma pessoa que ela já cumpriu parte do caminho, em vez de recomeçar do zero a cada consulta.
A conduta, hora a hora
Tratar obesidade no posto é tomar, de novo e de novo, por anos, o mesmo punhado de decisões — e o engano mais comum do interno é achar que a primeira consulta é o tratamento. Os oito marcos abaixo seguem a Rosicleia, da abertura, do dia em que o assunto se abre até o dia em que o peso volta — porque ele volta, e o que a consulta faz nesse dia decide se ela continua sendo paciente da unidade.
Uma advertência de escala antes do primeiro marco. Este é um capítulo de conduta sem receita de fármaco, e isso não é omissão: é o retrato do que existe. Nenhum medicamento antiobesidade consta da relação nacional de medicamentos essenciais, e a Conitec recomendou contra a incorporação dos dois que foram avaliados. O que a unidade tem é consulta, tempo, equipe, academia da saúde, grupo, e as farmácias de hipertensão e diabetes. Um plano honesto é o que se constrói com isso.
Em cada retorno, avalie o que mudou além da balança: sono, dor, mobilidade, fôlego, relação com a comida, pressão, glicemia e participação nas atividades. Metas são pactuadas e podem priorizar função ou manutenção. O cuidado medicamentoso ou especializado, quando indicado, integra esse acompanhamento; o paciente não precisa demonstrar merecimento ou esgotar sozinho todos os recursos para receber avaliação.
Dia 0 — a consulta em que o assunto se abre
Rosicleia disse a frase de defesa antes de você perguntar. A primeira coisa a fazer é não concordar com ela. Diga que hoje vocês vão olhar o peso como se olha pressão ou açúcar: medindo, investigando e combinando um plano — e pergunte se ela quer fazer isso hoje. Depois, peça licença para medir e leve-a para a sala, não para o corredor. Peso, altura, circunferência da cintura no ponto médio entre a última costela e a crista ilíaca, em expiração, e pressão arterial com manguito adequado ao braço. Ela pesa 89,5 kg com 1,61 m, o que dá índice de 34,5 kg/m², obesidade grau I; a cintura mede 106 cm, acima de qualquer corte brasileiro; a pressão, com o manguito grande, cai para 136 por 84. A anamnese desta consulta é a linha do tempo do peso. Ela conta que engordou depois da segunda gestação e de novo quando passou a trabalhar de manhã e à noite; que chegou a 97 kg há três anos; que perdeu sete quilos por conta própria no ano passado e parou. Registre o peso máximo com o ano. Pergunte por ronco, pausas respiratórias, sonolência, dor em joelhos, azia, perda de urina, ciclo menstrual e compulsão. E abra a sacola de remédios.
Prescrição- Registrar no prontuário: peso, altura, índice de massa corporal, circunferência da cintura com o ponto de referência usado, e o tamanho do manguito.
- Registrar o peso máximo já atingido na vida, com o ano.
- Glicemia plasmática de jejum.
- Colesterol total e frações e triglicerídeos.
- Retorno em 30 dias, com data marcada antes de a pessoa sair da sala.
Dia 0 — a receita que sai, e nenhuma linha dela é de remédio
O protocolo federal define o tratamento não farmacológico com números, e eles cabem numa receita. Na alimentação, restrição de 500 a 1.000 kcal por dia sobre o gasto energético estimado, com o plano elaborado por profissional capacitado após avaliação nutricional — o que, na prática da unidade, significa encaminhar à nutricionista da equipe e, enquanto a vaga não sai, trabalhar com o que o guia alimentar organiza: base de alimentos in natura ou minimamente processados, limitar os processados, evitar os ultraprocessados, substituir bebidas açucaradas por água e fazer ao menos três refeições por dia. Na atividade física, ao menos 150 minutos semanais de intensidade moderada, ou 75 de vigorosa, combinando aeróbico e resistido, com fortalecimento em dois ou mais dias. Para quem não faz nada, o protocolo autoriza começar por dez minutos diários e progredir — e ensina a controlar a intensidade sem equipamento, pela escala subjetiva de esforço de zero a dez, com 5 ou 6 para moderado, e pelo teste da fala: intensidade moderada é aquela em que ainda se consegue conversar. Uma informação que vale ser dita à paciente na hora de prescrever caminhada, porque muda a adesão de quem não vê a balança mexer: o próprio protocolo registra que a gordura visceral se reduz de forma significativa quando as recomendações de exercício são cumpridas, mesmo que nenhum peso seja perdido. E o terceiro pilar, que quase ninguém prescreve: suporte psicológico. O protocolo recomenda abordagem baseada em entrevista motivacional e em terapia cognitivo-comportamental, individual ou em grupo, conforme a escolha da pessoa. Onde houver oferta, as práticas integrativas entram como complemento; o documento cita ioga, tai chi chuan e auriculoterapia, esta com tratamento de doze semanas.
Prescrição- Encaminhamento à nutricionista da equipe, com o índice, a cintura e a linha do tempo do peso no papel.
- Caminhada de 30 minutos, cinco dias por semana, em intensidade em que ainda se consegue conversar; se hoje não faz nada, começar com 10 minutos diários e progredir.
- Exercício resistido em dois dias não consecutivos da semana, dos grandes grupos musculares.
- Encaminhamento ao polo da Academia da Saúde ou ao grupo da unidade, quando houver.
- Substituir bebidas açucaradas por água; fazer ao menos três refeições por dia.
- Avaliação psicológica da equipe, com pergunta dirigida sobre compulsão alimentar.
Dia 0 — a sacola de remédios, que é a parte mais rápida e a mais rentável
Rosicleia toma losartana, omeprazol e amitriptilina 25 mg à noite, esta última prescrita há dois anos para dor e insônia, por outro serviço. A amitriptilina está na lista de medicamentos associados a ganho de peso do caderno de atenção básica, entre os antidepressivos tricíclicos, ao lado de imipramina, nortriptilina e mirtazapina. O que se faz com isso não é suspender por conta própria. É três coisas. Primeira: dizer à paciente, com todas as letras, que parte do ganho de peso dos últimos dois anos tem causa farmacológica e não falta de esforço. Segunda: reavaliar se a indicação segue de pé — dor e insônia de dois anos atrás podem já não existir, e nesse caso a retirada é sua. Terceira: se a indicação segue, levar a pergunta a quem prescreveu, escrevendo o motivo, porque a orientação do caderno é considerar alternativas de menor impacto sobre o peso, e não trocar automaticamente. A mesma revisão vale para corticoide em uso crônico — que é a causa mais comum de síndrome de Cushing, segundo o mesmo caderno —, para antipsicóticos atípicos, estabilizadores de humor, paroxetina, valproato, benzodiazepínicos, medroxiprogesterona, insulina e sulfonilureias. Boa parte dessa lista sai da farmácia da sua unidade.
Prescrição- Listar no prontuário todos os medicamentos em uso, com dose e há quanto tempo, e marcar os associados a ganho de peso.
- Reavaliar a indicação de cada um deles; retirar o que não tem mais indicação.
- Contato escrito com o serviço que prescreveu, quando a indicação persistir, pedindo avaliação de alternativa de menor impacto sobre o peso.
- Dizer ao paciente, na consulta, qual parte do ganho tem causa farmacológica.
Dia 30 — o retorno curto, que existe para o vínculo antes de existir para o número
Trinta dias não mudam peso de forma confiável, e o retorno não é sobre peso. É sobre se o plano coube na vida da pessoa. Pergunte o que ela conseguiu fazer, o que não conseguiu, e por quê — e ajuste o plano ao que apareceu, em vez de repetir o que não funcionou. O protocolo federal dá respaldo a esse ritmo: registra que intervenções de mudança de estilo de vida com intervalos semanais nos primeiros seis meses se mostram altamente eficazes, e que há evidência favorável ao acompanhamento por aproximadamente doze meses ou mais, com intervalo mensal entre as abordagens quando possível. O intervalo curto não é zelo excessivo: é a intervenção. Os exames chegaram. A glicemia de jejum de Rosicleia veio 104 mg/dL, os triglicerídeos 168 mg/dL e o colesterol da lipoproteína de alta densidade 44 mg/dL. Some com a cintura de 106 cm e com o uso de losartana: pela régua brasileira de 2005, ela tem quatro dos cinco componentes — cintura, triglicerídeos, colesterol de alta densidade e pressão, esta preenchida pelo uso de anti-hipertensivo. A glicemia de 104 mg/dL não pontua pelo critério de 2005, que exige 110, e é pré-diabetes pela régua de 2026. Quatro de cinco já fecham o diagnóstico, que exige três.
Prescrição- Perguntar o que coube na vida e ajustar o plano ao que apareceu.
- Repetir peso, cintura e pressão, com a mesma técnica e o mesmo manguito da primeira consulta.
- Contar e registrar no prontuário os componentes da síndrome metabólica, com os valores absolutos.
- Estratificação de risco cardiovascular, conforme o capítulo de dislipidemias.
- Retorno em 30 dias.
Mês 3 — a primeira avaliação de resposta, e o que fazer com ela
Rosicleia está com 86,3 kg: perdeu 3,2 kg, ou 3,6% do peso inicial. A cintura caiu de 106 para 102 cm. A pressão está 128 por 80. O índice caiu de 34,5 para 33,3 — mesma faixa de classificação. Esse é o momento em que o interno inexperiente diz que “ainda está longe” e o experiente diz o contrário, e os dois estão olhando o mesmo número. A régua: o protocolo federal registra que reduções entre 5% e 10% podem não mudar a classificação do estado nutricional — a pessoa continuará com sobrepeso ou obesidade — e ainda assim resultam em melhora significativa de pressão, glicemia e triglicerídeos. E a diretriz de 2025 recomenda redução sustentada de pelo menos 5% em quem tem risco cardiovascular moderado, exatamente para reduzir hipertensão e dislipidemia e atrasar ou evitar o diabetes tipo 2. A decisão dos três meses é ajustar, não trocar de estratégia. Se houve perda e adesão, mantenha e intensifique o que está funcionando. Se não houve nenhuma perda apesar de adesão real, revise as três coisas que costumam explicar isso antes de culpar o esforço: fármaco que engorda que continuou na receita; transtorno alimentar não tratado; e um plano que nunca foi executável na rotina daquela pessoa.
Prescrição- Peso, cintura e pressão; comparar com o dia 0, não com o valor ideal.
- Dizer em voz alta o que a perda de 3,6% já produziu na pressão e na cintura.
- Manter o plano de vida, com o ajuste que a própria pessoa indicou.
- Repetir glicemia de jejum e perfil lipídico em 3 a 6 meses, conforme o risco.
- Retorno em 60 a 90 dias.
Mês 6 — o platô, que é fisiologia e não falha
O peso parou em 84,8 kg e não se move há dois meses, embora nada tenha mudado no que ela faz. Essa é a apresentação mais frequente do sexto mês, e é o ponto de maior risco de abandono. O que dizer é o mecanismo, e ele está no bloco de mecanismo deste capítulo: a queda do estoque reduz a leptina, o hipotálamo lê isso como ameaça, o apetite sobe e o gasto de repouso cai mais do que a perda de massa explicaria. O corpo dela passou a gastar menos do que o de uma pessoa do mesmo tamanho que nunca emagreceu. O platô é o sistema funcionando, não a pessoa desistindo. O que fazer com ele é mudar o objetivo declarado desta fase: de perder para manter. Manter 84,8 kg por um ano é resultado, e precisa ser nomeado como resultado dentro da consulta, porque ninguém sustenta um esforço que é chamado de fracasso a cada trinta dias. O exercício resistido ganha peso na prescrição aqui, porque preserva massa magra — e o protocolo federal registra que o exercício de resistência agrega ganho muscular ao resultado, enquanto o aeróbico se mostrou melhor para a redução do peso propriamente dita.
Prescrição- Nomear a manutenção como objetivo desta fase, em voz alta e no prontuário.
- Aumentar a proporção de exercício resistido na prescrição, mantendo o aeróbico.
- Revisar consumo de calorias líquidas e de ultraprocessados, que é onde a dieta afrouxa primeiro.
- Automonitoramento do peso em casa uma vez por semana, se a pessoa quiser e tiver balança — e não fazer se isso gerar ansiedade.
- Retorno em 90 dias.
Mês 12 — o balanço do ano, e a pergunta do encaminhamento
Ao fim de doze meses, Rosicleia está com 83,9 kg. Perdeu 5,6 kg em relação aos 89,5 kg do dia 0, ou 6,3%. Em relação ao peso máximo de 97,0 kg, está 13,1 kg abaixo, o que corresponde a 13,5% do peso máximo — acima dos 10% que a diretriz de 2025 propõe como alvo para quem tem risco cardiovascular moderado a alto. A cintura está em 99 cm. A glicemia de jejum voltou a 98 mg/dL. Repare que ela continua com obesidade grau I, com índice de 32,4 kg/m², e continua com síndrome metabólica por três componentes. O critério de sucesso do protocolo federal — manter perda igual ou superior a 10% do peso inicial após um ano — não foi atingido pela conta sobre o peso do dia 0. Foi atingido pela conta sobre o peso máximo. As duas contas estão certas, e é por isso que se registra o peso máximo. A pergunta do encaminhamento se responde pela régua da portaria que organiza a linha de cuidado: a atenção básica encaminha quando o índice for igual ou maior que 30 com comorbidades, ou igual ou maior que 40, e as possibilidades terapêuticas da unidade estiverem esgotadas. Rosicleia tem índice acima de 30 e comorbidades — mas as possibilidades da unidade não se esgotaram: ela está respondendo. Encaminhar agora é ocupar uma vaga que outra pessoa precisa mais.
Prescrição- Balanço escrito no prontuário: peso do dia 0, peso máximo da vida, peso de hoje, e os dois percentuais.
- Repetir glicemia de jejum, perfil lipídico, creatinina e pressão anualmente.
- Manter o seguimento na unidade, com consulta a cada 3 a 6 meses.
- Encaminhar conforme gravidade, complicações, suspeita de causa secundária, necessidade de tratamento específico e capacidade de cuidado da rede, documentando o que já foi tentado. Manter seguimento na unidade durante a avaliação especializada; não condicionar toda referência a esgotamento prévio ou a um ano fixo de espera.
O dia em que o peso volta — e este marco existe porque esse dia chega
Dezoito meses. Rosicleia entra com 88,0 kg, quatro quilos acima do melhor momento, e com a mesma frase da primeira consulta na boca — só que agora com vergonha, porque desta vez ela havia conseguido. É aqui que a maior parte dos pacientes some, e é aqui que a primeira consulta é cobrada. Se, no dia 0, você disse que o peso tende a voltar e combinou o que fazer nesse dia, este é o dia de cumprir o combinado, e ele não tem nada de excepcional: recomeça-se de onde se está, com o mesmo plano, sem punição e sem recomeço do zero. Ela ainda está 9,0 kg abaixo do peso máximo e 1,5 kg abaixo do peso do dia 0. Essa conta precisa ser feita em voz alta, porque a pessoa não a faz sozinha. Investigue o que mudou, porque quase sempre mudou alguma coisa: turno de trabalho, doença na família, medicamento novo, luto, lesão que tirou a caminhada. E investigue de novo a receita — em dezoito meses entram remédios. A norma brasileira que trata do desfecho mais radical desta doença diz a mesma coisa sobre recidiva, e vale citá-la aqui exatamente porque é o contexto em que menos se espera ouvir isso: a resolução do Conselho Federal de Medicina de 2025 registra que pacientes submetidos à cirurgia bariátrica ou metabólica, independentemente da técnica, podem apresentar recidiva não só da obesidade como das comorbidades prévias, e prevê cirurgia revisional para isso. Se a recidiva é esperada depois da operação, ela não é falha moral depois de uma caminhada.
Prescrição- Fazer a conta em voz alta: peso de hoje contra o peso máximo e contra o peso do dia 0.
- Investigar o que mudou na vida e na receita nos últimos meses.
- Retomar o plano no ponto em que está, com retorno curto — 30 dias — para restabelecer o vínculo.
- Não prescrever restrição mais severa como punição pelo reganho.
- Registrar no prontuário que o reganho foi discutido e que o seguimento continua.
Como saber se está funcionando
O que se olha no retorno de uma doença crônica não é o valor de hoje: é a série. Os sete parâmetros abaixo se registram sempre com a mesma técnica, porque medida que muda de método a cada consulta não produz série nenhuma.
Esperado: Perda de 5% a 10% do peso inicial ao longo de meses; manter perda igual ou superior a 10% após um ano é o critério de sucesso do protocolo federal. O protocolo diz também, com todas as letras, que o objetivo do tratamento não é atingir índice de eutrofia.
Se não melhora: Antes de concluir que houve falha de adesão, revise três coisas: fármaco que engorda que permaneceu na receita, transtorno alimentar não tratado, e um plano que nunca foi executável na rotina daquela pessoa. Peso estável em quem vinha ganhando é resultado, e precisa ser nomeado como tal.
Esperado: Queda proporcionalmente maior que a do peso, porque o compartimento visceral é o primeiro a responder. É o parâmetro que melhora quando a balança não se move.
Se não melhora: Confira se o ponto de referência foi o mesmo — o protocolo federal admite dois pontos, e num abdome volumoso eles não coincidem. Confira também se a medida foi feita em expiração. Cintura que não cai com peso que cai levanta a hipótese de perda de massa magra, o que reorienta a prescrição para o exercício resistido.
Esperado: Melhora precoce, antes de mudança de faixa de classificação. É um dos desfechos que a diretriz de 2025 nomeia ao recomendar redução sustentada de pelo menos 5% no risco moderado.
Se não melhora: Confira primeiro o manguito: manguito pequeno para o braço superestima e produz hipertensão que não existe, ou gravidade que não existe. O diagnóstico, a estratificação e as metas de pressão são do capítulo de hipertensão arterial sistêmica, em Cardiologia.
Esperado: Queda da glicemia com a perda de peso; e, em quem estava na faixa de pré-diabetes, retorno a valores abaixo de 100 mg/dL.
Se não melhora: Glicemia que sobe apesar de perda de peso pede investigação para diabetes pela régua do capítulo de diabetes tipo 2 na unidade básica, que é a segunda posição desta apostila, e não ajuste do plano alimentar por conta própria. Atenção ao número: 104 mg/dL é pré-diabetes pela régua vigente do diabetes e não pontua na régua de 2005 da síndrome metabólica.
Esperado: Queda dos triglicerídeos e alguma elevação do colesterol de alta densidade acompanhando a perda de peso e o exercício — são os dois componentes da síndrome metabólica que mais respondem a intervenção de vida.
Se não melhora: Reveja consumo de álcool e de calorias líquidas antes de atribuir à dieta sólida. A meta lipídica, a decisão de estatina e a estratificação de risco global são do capítulo de dislipidemias e risco cardiovascular global, em Cardiologia; aqui se mede, se conta como componente e se encaminha a decisão.
Esperado: Aumento do que a pessoa consegue fazer: subir a rua sem parar, dormir melhor, dor no joelho que diminui. Progressão até os 150 minutos semanais, com fortalecimento em dois ou mais dias.
Se não melhora: Pergunte o que impediu, não se ela fez. Turno, distância, segurança do bairro, dor, vergonha de usar espaço público, cuidado de outra pessoa. A maior parte das barreiras tem solução dentro da unidade — grupo, horário, polo da Academia da Saúde — e nenhuma delas se resolve com repetição da orientação.
Esperado: Que a pessoa continue voltando. Falta consecutiva a duas consultas de seguimento é o achado mais previsível de abandono, e é acionável pela agente comunitária de saúde.
Se não melhora: Diante de compulsão alimentar ou bulimia, o protocolo federal é explícito quanto à ordem: trata-se o transtorno primeiro e as medidas de redução de peso depois. Sintomas depressivos importantes ou ideação suicida saem deste capítulo e vão para o capítulo de risco de suicídio, em Psiquiatria.
Onde o erro machuca
O dano: A pessoa não volta, e não volta em silêncio — o que se perde não é uma consulta de peso, é o acompanhamento da pressão, do colo do útero e de tudo o mais. O protocolo federal registra que estigma e discriminação desencorajam a pessoa a procurar o serviço.
Como pegar a tempo: Peça permissão para aferir e faça a medida em local que resguarde a privacidade, como o protocolo recomenda por escrito, tanto na consulta inicial quanto nas de seguimento. Pergunte se a pessoa quer saber o número e registre a preferência no prontuário. Se a balança da sua unidade está no corredor, isso é assunto de reunião de equipe, não uma fatalidade.
O dano: Além de não tratar, confirma a leitura de falha de caráter que o próprio documento oficial descreve como parte do dano. E produz uma consulta sem plano, sem meta e sem retorno, ou seja, sem nada que possa ser reavaliado depois.
Como pegar a tempo: Trate como doença crônica: meça, investigue causa secundária e fármaco, classifique, escreva o que se persegue em quilos, prescreva com números — 500 a 1.000 kcal de déficit, 150 minutos semanais — e marque retorno curto. Se a consulta não produziu uma linha que possa ser conferida daqui a trinta dias, ela não produziu tratamento.
O dano: Manguito inadequado superestima a pressão e cria hipertensão onde não há, ou gravidade onde não há. Cintura não medida apaga a informação que separa dois pacientes com o mesmo índice. Ponto de referência variável destrói a série e faz parecer melhora ou piora que não existiu.
Como pegar a tempo: Meça a circunferência do braço e use o manguito compatível, registrando qual foi. Meça a cintura no ponto médio entre a última costela e a crista ilíaca, em expiração, e anote o ponto usado. Se recorrer à alternativa dos 2 cm acima da cicatriz umbilical, escreva isso — e mantenha o mesmo ponto nas consultas seguintes.
O dano: O paciente se esforça contra um efeito farmacológico que ninguém nomeou, conclui que não tem força de vontade, e frequentemente abandona o remédio por conta própria — o que troca alguns quilos por uma recaída psiquiátrica ou por uma doença descompensada.
Como pegar a tempo: Liste todos os medicamentos com dose e tempo de uso, e marque os associados a ganho de peso: antipsicóticos típicos e atípicos, lítio, ácido valproico e carbamazepina, tricíclicos, paroxetina, benzodiazepínicos, corticoides, medroxiprogesterona, insulina e sulfonilureias. Reavalie a indicação, retire o que não tem mais razão de ser, leve a pergunta a quem prescreveu — e diga ao paciente o que encontrou.
O dano: Resultados limítrofes em pessoas sem doença geram cascata de exames, encaminhamentos e ansiedade, e adiam o tratamento que de fato precisa começar. E criam no paciente a expectativa de que existe um exame que vai explicar o peso — o que quase sempre termina em decepção e abandono.
Como pegar a tempo: Procure causa secundária pelo quadro clínico, como o caderno de atenção básica orienta: essas condições são raras, ou não cursam com grande excesso de peso, e vêm acompanhadas de outros achados. Dose hormônio tireoidiano diante de fadiga, intolerância ao frio, constipação, bradicardia e rarefação de pelos; suspeite de Cushing diante de giba, estrias violáceas, pele fina e equimoses — e lembre que a causa mais comum é corticoide em uso.
O dano: Uma meta inatingível transforma um bom resultado em fracasso. Rosicleia precisaria perder 11,7 kg só para sair da faixa de obesidade — e teria produzido melhora relevante de pressão, glicemia e triglicerídeos com metade disso. Sem o combinado sobre o reganho, a primeira subida na balança vira alta por abandono, e a pessoa volta anos depois, mais pesada.
Como pegar a tempo: Diga que a meta não é a tabela — o protocolo federal afirma que o objetivo não é atingir eutrofia — e escreva o alvo em quilos, ancorado no peso inicial e no peso máximo da vida. Diga, na primeira consulta, que o peso tende a voltar e por quê, e combine o que se faz nesse dia. Nunca prometa um resultado: prometa o acompanhamento.
O que dizer ao paciente e à família
O que vem abaixo se diz de boca, e quase tudo cabe em trinta segundos. Nenhuma delas depende de a unidade ter alguma coisa que ela não tem.
A pessoa senta e diz “eu sei, doutor, eu preciso emagrecer”
““A senhora chegou já dizendo o que imagina que eu vou falar. Eu não vou falar isso. O que eu quero é entender o peso da senhora do mesmo jeito que a gente entende uma pressão alta: medindo, vendo desde quando está assim, olhando os remédios que a senhora toma e combinando um plano com a senhora. Isso não é uma questão de vontade — é uma doença, e ela tem explicação. A senhora quer que a gente cuide disso hoje, ou prefere que eu resolva o que a senhora veio buscar e a gente marque uma consulta só para isso?””
Não diga: Não concorde com a frase dela, nem por gentileza. “Pois é, tem que emagrecer mesmo” fecha a consulta antes de começar. E não abra o assunto se não houver tempo de terminá-lo hoje.
Antes de pesar e de passar a fita
““Eu preciso de três medidas: peso, altura e a medida da cintura. A senhora me autoriza? A gente faz aqui dentro, com a porta fechada. E me diga uma coisa: a senhora quer ver o número da balança ou prefere que eu só anote? As duas coisas estão certas, é como a senhora se sentir melhor — eu vou anotar do mesmo jeito e a gente compara na próxima.””
Não diga: Não meça no corredor, não peça que a pessoa tire roupa além do necessário, e não faça comentário sobre o número enquanto ela está em cima da balança. Também não diga “relaxa que é só um número”: para ela, não é.
Explicando por que o peso volta, ainda na primeira consulta
““Tem uma coisa que eu preciso dizer agora, e não daqui a seis meses. Quando a gente perde peso, o corpo entende que faltou comida e reage: a fome aumenta e o corpo passa a gastar menos do que gastava antes. Isso não é falta de disciplina, é como o corpo é feito. Por isso, em algum momento o peso vai parar de cair, e provavelmente vai subir um pouco. Quando isso acontecer, eu quero que a senhora venha — e não que a senhora pare de vir por vergonha. A gente retoma de onde estiver. Combinado assim?””
Não diga: Não diga “se a senhora seguir direitinho, não volta”. É falso, e é a frase que produz o abandono que se quer evitar. Também não descreva o platô como castigo por ter afrouxado.
O paciente pergunta sobre a injeção que ele viu na televisão
““Existe, sim, e funciona — e eu não posso receitar aqui, porque essa medicação não está na lista do que o Sistema Único de Saúde fornece. Nenhum remédio para emagrecer está. Isso significa que seria compra por conta própria, todo mês, por tempo indeterminado, e eu não vou receitar uma coisa que o senhor não vai conseguir manter — porque quando para, o peso volta. O que eu tenho aqui para o senhor é consulta com hora marcada, a nutricionista da equipe, o grupo e o acompanhamento. Não é pouco, e é o que se sustenta.””
Não diga: Não diga que “não funciona” nem que “é modismo” para encerrar a conversa: é mentira, e o paciente descobre. E não prometa conseguir o medicamento por via administrativa sem saber se é possível.
O peso não caiu no retorno, e a pessoa se antecipa dizendo que não conseguiu
““Me conta o que atrapalhou. Não é para eu cobrar, é porque geralmente tem um motivo concreto e a gente consegue mexer nele. Turno de trabalho, dor, alguém em casa para cuidar, dinheiro, um remédio novo. E eu quero olhar uma coisa antes de a gente falar de esforço: a sua cintura caiu quatro centímetros e a sua pressão está melhor do que estava. Isso aconteceu com o que a senhora fez.””
Não diga: Não pergunte “a senhora está fazendo a dieta?”, que só admite duas respostas e as duas encerram a conversa. E não repita a orientação anterior mais devagar: se ela não coube, repetir não faz caber.
A pessoa reganhou peso depois de ter perdido, e está envergonhada
““Vamos fazer uma conta juntos. A senhora chegou aqui com 89 e meio, e o seu peso mais alto na vida foi 97. Hoje a senhora está com 88. Ou seja: a senhora está nove quilos abaixo do que já foi, e ainda abaixo do dia em que começou. Voltar um pouco faz parte, e acontece com quase todo mundo — inclusive com quem opera. O que não pode é a senhora sumir. A gente recomeça daqui, com o mesmo plano, e eu quero ver a senhora em trinta dias.””
Não diga: Não faça a conta só contra o melhor peso já atingido, que é a conta que produz vergonha. E não prescreva uma restrição mais severa como resposta ao reganho: isso lê o reganho como punição merecida.
O paciente pede encaminhamento para a cirurgia
““Vamos ver juntos o que é preciso. Pelo que o Sistema Único de Saúde exige, o senhor precisa de um índice numa determinada faixa, das doenças associadas, e do registro de que fez tratamento clínico aqui por pelo menos dois anos, seguindo o protocolo. Esse registro é o que costuma faltar e é o que faz o pedido voltar. Então a gente vai fazer duas coisas ao mesmo tempo: continuar o tratamento aqui, que conta, e ir documentando cada consulta. Eu vou anotar hoje que o senhor pediu, e a partir de agora isso está no seu prontuário.””
Não diga: Não diga que ele “não tem indicação” sem ter conferido as faixas, e não prometa a vaga nem o prazo — a fila não depende de você. Também não use a cirurgia como ameaça (“se o senhor não emagrecer, vai ter que operar”): ela não é castigo, é tratamento.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
80 cm na mulher e 94 cm no homem — a régua da atenção básica desde 2014
O caderno de atenção básica nº 38, publicado pelo Ministério da Saúde em 2014 e ainda indicado pelo protocolo federal como material de apoio, classifica risco cardiovascular aumentado a partir de mais de 80,0 cm em mulheres e mais de 94,0 cm em homens, atribuindo a origem dos cortes às recomendações da Organização Mundial da Saúde. É a régua mais sensível das três e a que está impressa na maior parte dos protocolos municipais.
Ministério da Saúde — Estratégias para o cuidado da pessoa com doença crônica: obesidade, Cadernos de Atenção Básica nº 38, 2014, item 3.3.11.1 e Quadro 9
88 cm na mulher e 102 cm no homem — a régua da síndrome metabólica desde 2005, repetida em 2025
A I Diretriz Brasileira de Diagnóstico e Tratamento da Síndrome Metabólica, de abril de 2005, fixa o componente de obesidade abdominal em mais de 102 cm no homem e mais de 88 cm na mulher, e a diretriz brasileira de hipertensão arterial de 2025 repete os mesmos valores como parâmetro antropométrico normal. A própria diretriz de 2005 registra que esses cortes têm sido questionados por não se adequarem a populações de diferentes etnias, e recomenda monitorização mais frequente na faixa intermediária — 80 a 88 cm em mulheres e 94 a 102 cm em homens.
I Diretriz Brasileira de Diagnóstico e Tratamento da Síndrome Metabólica, Arq Bras Cardiol 2005;84(Supl I), Quadro 1; e Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial — 2025, Arq Bras Cardiol 2025;122(9):e20250624, Quadro 4.2
83 e 90 cm na mulher, 88 e 94 cm no homem — a régua por etnia do protocolo federal de 2020
O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas de Sobrepeso e Obesidade em Adultos, aprovado pela Portaria SCTIE/MS nº 53/2020, abandona o par único e apresenta parâmetros por etnia, com duas bandas de risco. Na linha latina, risco cardiovascular elevado começa em 83,0 cm na mulher e 88,0 cm no homem, e risco significativamente elevado em 90,0 cm e 94,0 cm. É a régua vigente do Sistema Único de Saúde para esta doença, e a única que oferece duas bandas.
Ministério da Saúde — PCDT de Sobrepeso e Obesidade em Adultos, Portaria SCTIE/MS nº 53, de 11 de novembro de 2020, item 4, Quadro 3
O que decide não é qual número está certo, e sim o que a medida vai fazer nesta consulta. Se a pergunta é se existe adiposidade abdominal que justifique intensificar a intervenção de vida e rastrear as comorbidades, use o corte mais sensível — 80 e 94 —, porque a intervenção que ele desencadeia não tem dano. Se a pergunta é contar componentes da síndrome metabólica, use obrigatoriamente 88 e 102, porque é o critério do documento que define a síndrome no Brasil e misturar réguas dentro de um mesmo diagnóstico produz contagem errada. Se a pergunta é estratificar risco pelo documento vigente do Sistema Único de Saúde, use a tabela por etnia. Em qualquer caso, registre o valor absoluto em centímetros e qual régua você aplicou: o número medido não envelhece, a leitura envelhece.
Resolução CFM nº 2.429/2025 — o que o médico está autorizado a indicar
Publicada em 20 de maio de 2025 e vigente desde a publicação, revogou expressamente as Resoluções CFM nº 2.131/2015 e nº 2.172/2017. Considera elegíveis: índice igual ou maior que 40, independentemente de comorbidade; índice igual ou maior que 35 e menor que 40 com pelo menos uma doença agravada pela obesidade que melhore com a perda ponderal; e índice igual ou maior que 30 e menor que 35 na presença de diabetes tipo 2, doença cardiovascular grave com lesão de órgão alvo, doença renal crônica precoce em diabetes tipo 2, apneia do sono grave, doença gordurosa hepática não alcoólica com fibrose, afecções com indicação de transplante, refluxo com indicação cirúrgica ou osteoartrose grave. A partir de 16 anos valem os critérios do adulto; entre 14 e 16, apenas em casos excepcionais com índice acima de 40 e complicações que levem a risco de vida. Não há prazo fixo de falha clínica: a falha é reconhecida por avaliação consensual da equipe multidisciplinar.
Resolução CFM nº 2.429, de 25 de abril de 2025, publicada no Diário Oficial da União de 20 de maio de 2025, edição 93, seção 1, página 170 — Anexo, itens 1 e 2
Portaria GM/MS nº 424/2013, consolidada em 2017 — o que o Sistema Único de Saúde financia
As diretrizes gerais para o tratamento cirúrgico da obesidade no Sistema Único de Saúde indicam a cirurgia para quem tem índice igual ou maior que 50; para quem tem índice igual ou maior que 40, com ou sem comorbidades, sem sucesso no tratamento clínico longitudinal por no mínimo dois anos, com protocolos seguidos; e para quem tem índice maior que 35 com comorbidades — alto risco cardiovascular, diabetes ou hipertensão de difícil controle, apneia do sono, doenças articulares degenerativas —, também com dois anos de tratamento sem sucesso. Entre 16 e 18 anos, exige escore z acima de +4 e consolidação das epífises. O protocolo federal de 2020 remete a essas diretrizes, hoje no Anexo 1 do Anexo IV da Portaria de Consolidação nº 3, de 28 de setembro de 2017, e a própria resolução do conselho de 2025 manda os hospitais obedecerem às Portarias nº 424/2013 e nº 425/2013.
Portaria GM/MS nº 424, de 19 de março de 2013, Anexo I, itens 1 e 2 (Diário Oficial da União de 20/03/2013); consolidada no Anexo IV da Portaria de Consolidação nº 3, de 28/09/2017
As duas normas estão em vigor e respondem a perguntas diferentes: uma diz o que o médico pode indicar sem infringir norma ética, a outra diz o que o sistema público custeia. Elas divergem em três pontos que aparecem toda semana na unidade — índice entre 30 e 35, prazo de tratamento clínico, e idade —, e quem sofre a divergência é o paciente. Diante de alguém com índice de 32 e diabetes tipo 2: pela resolução do conselho ele é elegível, pela régua que paga ele não é, e prometer a cirurgia nessa conversa é criar uma expectativa que o sistema não vai cumprir. Diante de alguém com índice de 43 acompanhado há oito meses: pela resolução a decisão é da equipe multidisciplinar, pela régua que paga faltam dezesseis meses de registro. O que o interno faz, nos dois casos, é o mesmo e é concreto — continuar o tratamento clínico, que conta como tempo, e documentar cada consulta no prontuário, porque a ausência desse registro é o motivo mais frequente de o encaminhamento voltar. E dizer ao paciente, sem rodeio, qual das duas réguas se aplica ao caminho que ele está seguindo.
A régua brasileira escrita: três de cinco, com glicemia a partir de 110 mg/dL
A I Diretriz Brasileira, de 2005, adotou os critérios do painel norte-americano em sua terceira versão por simplicidade e por dispensarem a comprovação de resistência insulínica: cintura acima de 102 cm no homem e 88 cm na mulher, triglicerídeos iguais ou acima de 150 mg/dL, colesterol de alta densidade abaixo de 40 e 50 mg/dL, pressão sistólica igual ou acima de 130 ou diastólica igual ou acima de 85 mmHg, e glicemia de jejum igual ou acima de 110 mg/dL, sendo três de cinco suficientes. É o único documento brasileiro que fixa esses números, nunca foi reeditado, e sua vigência se sustenta por ausência de substituto.
I Diretriz Brasileira de Diagnóstico e Tratamento da Síndrome Metabólica, Arq Bras Cardiol 2005;84(Supl I), seção Conceituação, Epidemiologia e Diagnóstico, Quadro 1
A leitura contemporânea: os mesmos cinco eixos, com os cortes que o Brasil usa hoje em cada um deles
A diretriz brasileira de dislipidemias de 2025 caracteriza a síndrome pelos mesmos cinco eixos — aumento da circunferência da cintura, triglicerídeos elevados, colesterol de alta densidade reduzido, pressão elevada e glicemia de jejum elevada — sem reeditar cortes, e a diretriz brasileira de obesidade de 2025 define adiposidade por índice elevado somado a um parâmetro antropométrico elevado, ou por dois parâmetros antropométricos elevados. Nessa leitura, cada eixo é lido pela régua brasileira vigente do seu próprio domínio: glicemia de jejum alterada a partir de 100 mg/dL pelo protocolo de diabetes de fevereiro de 2026, e cintura pelos parâmetros do protocolo federal de obesidade.
Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose — 2025, Arq Bras Cardiol 2025;122(9):e20250640; Diretriz Brasileira de Obesidade — 2025, Arq Bras Cardiol 2025;122(9):e20250621; e PCDT de Diabete Melito Tipo 2, Portaria SCTIE/MS nº 13/2026, Quadro 4
A escolha só muda alguma coisa numa faixa estreita, e é exatamente nela que os pacientes da atenção primária se concentram: glicemia entre 100 e 109 mg/dL, com dois outros componentes presentes. Pela régua de 2005 essa pessoa tem dois componentes e não fecha; pela leitura contemporânea tem três e fecha. Como o rótulo não abre acesso a nenhum tratamento específico — não existe fármaco para a síndrome, e cada componente segue a régua do seu capítulo —, a decisão não muda prescrição; muda o que se escreve e o que se diz. O caminho que não erra: registre os cinco valores absolutos no prontuário, diga qual definição está usando quando escrever o rótulo, e trate o conjunto pela intensidade que o conjunto pede, independentemente de fechar em três ou em dois. Uma pessoa com cintura de 106 cm, triglicerídeos de 168 mg/dL e glicemia de 104 mg/dL precisa da mesma consulta, com ou sem o nome da síndrome escrito no papel.
O raciocínio, em voz alta
Quinta-feira, dez da manhã, mesma unidade básica. Josivaldo Ribamar tem 51 anos, é vigilante noturno há catorze e veio renovar a receita do omeprazol. Na ficha: 87,0 kg, 1,76 m, pressão 138 por 86. Ele não tem queixa de peso, não se considera acima do peso, e a ficha anterior, de dois anos atrás, traz o mesmo comentário que quase todo prontuário traz nesse caso: “sobrepeso leve, orientado”. Os exames que ele trouxe, pedidos por outro serviço, mostram glicemia de jejum de 108 mg/dL, triglicerídeos de 192 mg/dL e colesterol da lipoproteína de alta densidade de 36 mg/dL.
1. O que o índice diz, e por que ele é insuficiente aqui
87,0 dividido por 1,76 ao quadrado, ou seja por 3,0976, dá 28,1 kg/m². Sobrepeso pela portaria que organiza a linha de cuidado, e a explicação de por que ninguém nunca fez nada: sobrepeso não abre nenhuma porta, não gera encaminhamento e não assusta. O protocolo federal lista as limitações do índice, e a que morde aqui é a primeira delas — o índice não é medida direta de gordura e não diz nada sobre distribuição.
2. A medida que ninguém fez em catorze anos de vínculo
A cintura de Josivaldo mede 103 cm, no ponto médio entre a última costela e a crista ilíaca, em expiração. Esse número está acima do corte do caderno de atenção básica (94 cm), acima do corte da diretriz de síndrome metabólica (102 cm) e acima das duas bandas da linha latina do protocolo federal (88 e 94 cm). Não há divergência a resolver: as três réguas brasileiras dizem a mesma coisa sobre ele. A diretriz brasileira de obesidade de 2025 explica por que isso importa mais que os 28,1: a obesidade abdominal, medida pela circunferência da cintura, é forte preditora independente de morbidade e mortalidade em qualquer categoria de índice, e mesmo quem tem índice abaixo de 30 pode ter risco cardiometabólico alto, ligado à escassez de gordura subcutânea e ao acúmulo de gordura visceral.
3. A contagem, feita pela régua brasileira da síndrome
Pelos critérios da I Diretriz Brasileira de 2005: cintura de 103 cm, acima de 102 — pontua. Triglicerídeos de 192 mg/dL, acima de 150 — pontua. Colesterol de alta densidade de 36 mg/dL, abaixo de 40 no homem — pontua. Pressão de 138 por 86, com sistólica acima de 130 e diastólica acima de 85 — pontua. Glicemia de 108 mg/dL, abaixo de 110 — não pontua por essa régua, embora seja pré-diabetes pela régua vigente do diabetes, que começa em 100. Quatro de cinco. O diagnóstico exige três. O homem que estava no prontuário como “sobrepeso leve, orientado” tem síndrome metabólica e pré-diabetes, e isso apareceu com uma fita métrica e uma contagem.
4. A investigação que se faz, e a que não se faz
Faz-se: linha do tempo do peso e peso máximo da vida, com o ano; revisão de toda a receita à procura de fármaco que engorda; perguntas dirigidas sobre ronco, pausas respiratórias observadas e sonolência diurna — ele é vigilante noturno, e trabalho em turno noturno e privação crônica de sono estão entre os fatores de risco listados pelo protocolo brasileiro de diabetes de 2026; exame de pele em nuca e axilas à procura de acantose nigricante; e exame dos pés. Não se faz: hormônio estimulante da tireoide sem quadro clínico compatível, cortisol sem sinais de Cushing, insulina de jejum com cálculo de índice de resistência, e imagem para medir compartimento de gordura.
5. O que se prescreve, e o que se diz
Prescreve-se mudança de vida com números: déficit de 500 a 1.000 kcal por dia sobre o gasto estimado, com encaminhamento à nutricionista; ao menos 150 minutos semanais de atividade moderada, combinando aeróbico e resistido, com o teste da fala como controle de intensidade; e retorno em trinta dias. A condução do pré-diabetes, incluindo o intervalo de repetição dos exames, é do capítulo de diabetes tipo 2 na unidade básica; a decisão sobre estatina e a estratificação de risco global são do capítulo de dislipidemias, em Cardiologia. E diz-se a ele o que os exames significam, porque ele saiu de catorze anos de consultas achando que estava bem: que ele não tem um problema de peso leve, tem quatro fatores de risco que andam juntos, e que a barriga é a parte que mais responde ao que ele vai fazer. Uma perda de 8,7 kg — 10% do peso dele — o levaria a 78,3 kg e índice de 25,3, ainda sobrepeso pela tabela. É por isso que a meta não se escreve em faixa de classificação: escreve-se em quilos e em centímetros.
6. O que fica no prontuário
Peso, altura, índice, circunferência da cintura com o ponto de referência usado, pressão com o manguito registrado, peso máximo da vida com o ano, os cinco valores da contagem da síndrome metabólica em números absolutos, a régua usada para ler a cintura, a lista de medicamentos em uso com marcação dos associados a ganho de peso, e a data do retorno. Quem abrir esse prontuário daqui a dois anos consegue refazer todas as contas — e é isso que transforma consulta em série, e série em tratamento.
Faça você
Vitorina Bomfim tem 38 anos, é auxiliar de lavanderia de hospital e chega à unidade básica com um pedido pronto: quer o encaminhamento para a cirurgia de redução de estômago. Pesa 78,4 kg, mede 1,52 m e tem cintura de 101 cm. Conta que ganhou catorze quilos nos últimos dois anos, desde que passou a tomar olanzapina 10 mg à noite, prescrita pelo serviço de saúde mental para transtorno afetivo bipolar, que está estável desde então. Também usa medroxiprogesterona injetável trimestral como contraceptivo, e metformina 850 mg duas vezes ao dia por diabetes tipo 2 diagnosticado há um ano. A hemoglobina glicada mais recente é de 7,4%. Ela diz, com raiva contida, que já tentou de tudo e que “esse remédio da cabeça engorda, mas ninguém quer trocar”.
1. Calcule e classifique
Qual é o índice de massa corporal dela, e em que faixa da portaria que organiza a linha de cuidado ele cai? A circunferência de 101 cm está acima de qual ou quais dos três cortes brasileiros para mulheres? Escreva os dois números e a régua que você usou.
2. Decida sobre o pedido de cirurgia, com as duas réguas na mão
Ela é elegível pela Resolução CFM nº 2.429/2025? E pelas diretrizes que o Sistema Único de Saúde financia? Se as duas respostas forem diferentes, o que você diz a ela hoje — e o que você escreve no prontuário para que a resposta possa mudar no futuro?
3. Resolva a queixa que ela trouxe sobre o remédio
Quais dos medicamentos em uso estão na lista de fármacos associados a ganho de peso do caderno de atenção básica? O que você faz com cada um deles, sabendo que ela está psiquicamente estável há dois anos e que a orientação escrita é considerar alternativas de menor impacto, e não trocar automaticamente? Qual frase você diz a ela sobre a causa do ganho?
4. Estabeleça o alvo e o retorno
Qual perda em quilos corresponde a 5% e a 10% do peso dela, e que índice cada uma produz? Ela muda de faixa de classificação com alguma das duas? Que meta você escreve, e em quanto tempo você a vê de novo?
Ver como fecharíamos
1. Índice: 78,4 ÷ 1,52² = 78,4 ÷ 2,3104 = 33,9 kg/m² — obesidade grau I pela Portaria GM/MS nº 424/2013, art. 3º, §3º, inciso I (igual ou maior que 30 e menor que 35). Cintura de 101 cm: acima dos 80 cm do caderno de atenção básica, acima dos 88 cm da diretriz de síndrome metabólica de 2005 e acima dos 90 cm da banda superior da linha latina do protocolo federal. As três réguas concordam; registre 101 cm, o ponto de referência e qual régua você citou. 2. Cirurgia: pela Resolução CFM nº 2.429/2025 ela é elegível, porque tem índice igual ou maior que 30 e menor que 35 na presença de diabetes tipo 2 — a faixa que a resolução de 2025 acrescentou. Pelas diretrizes que o Sistema Único de Saúde financia, ela não é: o item que trata dessa faixa exige índice maior que 35 com comorbidades, além de dois anos de tratamento clínico sem sucesso. O que se diz hoje é isso, sem rodeio: existe uma norma do conselho de medicina que a torna candidata e uma régua de financiamento que ainda não. O que se escreve é o pedido dela, com data, e o registro estruturado de cada consulta a partir de agora — porque, se o índice subir ou se a régua mudar, o tempo de tratamento documentado é o que fará o encaminhamento andar. Não se promete vaga, não se promete prazo, e não se diz que ela “não tem indicação”, o que seria falso pela metade. 3. Fármacos: a olanzapina está na lista, entre os antipsicóticos atípicos, ao lado de risperidona e clozapina; a medroxiprogesterona está na lista, entre os hormônios. A metformina não está — e, ao contrário das sulfonilureias e da insulina, que estão, é o antidiabético que não cobra em peso. Conduta: nomear em voz alta que parte dos catorze quilos tem causa farmacológica e não falta de esforço, o que já é intervenção; não suspender a olanzapina, porque a estabilidade psiquiátrica de dois anos vale mais que os quilos e a decisão não é da unidade básica sozinha; escrever ao serviço de saúde mental pedindo avaliação de alternativa de menor impacto sobre o peso, com os números no papel; e discutir com ela a troca do contraceptivo injetável por um método sem esse efeito, que é decisão que cabe na sua consulta e é do capítulo de contracepção, em Ginecologia. 4. Alvo: 5% são 3,9 kg, levando-a a 74,5 kg e índice de 32,2; 10% são 7,8 kg, levando-a a 70,6 kg e índice de 30,5. Nenhuma das duas a tira da faixa de obesidade grau I — para isso ela precisaria chegar a 69,3 kg, ou 9,1 kg a menos. É exatamente por isso que a meta se escreve em quilos e em centímetros, e não em faixa: com 7,8 kg a menos ela terá melhora de glicada, de pressão e de triglicerídeos, e continuará aparecendo na tabela como obesidade grau I. Retorno em 30 dias, com encaminhamento à nutricionista, prescrição de atividade física com progressão a partir de dez minutos diários, e a data já marcada antes de ela sair da sala.
O caderno de atenção básica sobre obesidade abre a seção de avaliação de condições endócrinas dizendo que, em geral, essas condições são raras — como a obesidade hipotalâmica e a síndrome de Cushing — ou não se associam a grande excesso de peso, como o hipotireoidismo, e que em geral vêm acompanhadas de outros achados clínicos. Sobre o hipotireoidismo especificamente, registra ganho de peso modesto, que não explica obesidade de grande monta. Sobre a síndrome de Cushing, registra que é rara e que a causa mais comum é o uso crônico de corticosteroides — ou seja, está na receita, não na hipófise. Dosar hormônios em quem não tem quadro clínico produz resultados limítrofes, cascata de exames e adiamento do tratamento que precisa começar. Vale notar que o protocolo federal vigente sequer menciona essas causas: a lista existe nesse caderno, de 2014.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Pratique pedir permissão para conversar sobre peso e medir com técnica adequada. Construa uma linha do tempo com sono, alimentação, atividade e medicamentos e pactue uma meta que a pessoa considere relevante.
Em 30 dias
Reavalie alguém em platô ou reganho: identifique mudanças, benefícios mantidos e barreiras. Discuta opções de cuidado e referência sem culpa ou exigência de merecimento e registre metas além do peso.
Agora atenda
Agora atenda a mulher que chega à unidade básica dizendo, antes de qualquer pergunta, que já sabe que precisa emagrecer. Seu trabalho é não repetir a frase que ela trouxe pronta: pedir licença antes de medir, obter as quatro medidas que esta consulta exige — incluindo a circunferência da cintura e a pressão com o manguito certo —, construir a linha do tempo do peso e registrar o peso máximo da vida dela, abrir a sacola de medicamentos à procura do que engorda, contar os componentes da síndrome metabólica com os valores absolutos, escrever um alvo em quilos em vez de uma faixa de tabela, e sair da consulta tendo dito em voz alta que o peso tende a voltar e o que vocês dois vão fazer no dia em que isso acontecer.
