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Quem fabrica a insulina agora é ele
Diabetes mellitus tipo 1 e insulinoterapia
Reconhecer o tipo 1 no adulto antes da cetoacidose, começar a insulina pela dose certa e ensinar o paciente a ajustá-la sozinho — na refeição, na madrugada e no dia de doença —, com a régua do protocolo de 2019, os pontos em que ela se contradiz e a porta do SUS de cada insulina.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Diabete Melito Tipo 1. Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 17, de 12 de novembro de 2019. Brasília: Ministério da Saúde, 2020. 68 p. ISBN 978-85-334-2802-7.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Estratégias para o cuidado da pessoa com doença crônica: diabetes mellitus. Brasília: Ministério da Saúde, 2013. 160 p. (Cadernos de Atenção Básica, n. 36). ISBN 978-85-334-2059-5.
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. ISBN 978-65-5993-710-3.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Diabete Melito Tipo 2. Portaria SCTIE/MS nº 13, de 21 de fevereiro de 2026.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Retinopatia Diabética. Portaria Conjunta nº 17, de 1º de outubro de 2021.
American Diabetes Association. 4. Comprehensive Medical Evaluation and Assessment of Comorbidities: Standards of Care in Diabetes—2026. Diabetes Care. 2026;49(Suppl 1):S61–S88. doi:10.2337/dc26-S004.
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Responda antes de ler
Mulher de 26 anos recebeu diagnóstico de diabetes tipo 1 há três meses, depois de seis semanas de poliúria, sede e perda de peso, e está bem controlada com NPH e regular. Pelos protocolos brasileiros do diabetes tipo 1, da retinopatia diabética e do diabetes tipo 2, o que o seguimento deste primeiro ano deve incluir?
O paciente que você vai ver
São 14h10 de uma quinta-feira na unidade básica, e a moto de entrega está parada na calçada com a caixa térmica ainda presa ao bagageiro. Xavier Nabuco, 29 anos, entrou com o capacete na mão e pediu para ser atendido logo, porque tem pedido marcado para as três. A ficha conta que, dez semanas atrás, ele passou por esta mesma sala com glicemia de jejum de 212 mg/dL e hemoglobina glicada de 9,8%, recebeu o diagnóstico de diabetes tipo 2 e saiu com metformina 850 mg duas vezes ao dia.
“Não baixa”, ele diz, e mostra no celular as fotos do glicosímetro emprestado da tia: 318, 296, 344. Conta que bebe dois litros de água só no turno da tarde, que levanta quatro vezes por noite para urinar e que a calça de março não para mais na cintura. A balança da recepção marca 60 kg. Na primeira consulta, marcava 69. São nove quilos em três meses, tomando o comprimido direito, sem dieta nenhuma — e com mais fome, não com menos.
A enfermeira já fez a glicemia capilar: 347 mg/dL, duas horas depois do almoço. Como ele emagreceu e a glicemia passou de 300, ela fez também a fita de urina: glicose com quatro cruzes e cetona com duas. Pressão de 118 por 72 mmHg, frequência cardíaca de 96, frequência respiratória de 16, temperatura de 36,4 °C, mucosas úmidas. Ele não vomitou, não tem dor na barriga, não tem hálito de fruta, conversa normalmente e olha o relógio a cada minuto.
O preceptor, doutor Jacinto Pádua, lê a ficha por cima do seu ombro e fica um tempo sem dizer nada. Depois aponta três coisas com a caneta: os nove quilos, as duas cruzes de cetona e a data da primeira consulta. “Ele fez tudo o que o tipo 2 manda fazer”, diz. “E emagreceu fazendo.”
Xavier quer uma resposta curta. “Doutor, é só aumentar o remédio? Eu não posso parar. Se for injeção eu perco o serviço, que não tem como ficar parando a moto para aplicar.”
Há uma decisão que precisa sair desta sala antes das três, e ela não é sobre a dose da metformina. É se aquilo é mesmo tipo 2; se ele vai para casa ou para o pronto-socorro; que insulina começa hoje, em que dose e por que porta do SUS ela chega; o que ele leva escrito para a primeira noite e para o dia em que ficar doente; e quando ele volta.
Este capítulo é do adulto com diabetes tipo 1 fora da crise: como ele é reconhecido, como a insulina começa, como o próprio paciente aprende a ajustá-la em casa e o que se vigia pelo resto da vida. A cetoacidose instalada, a hipoglicemia grave e a insulina dentro da enfermaria têm capítulos próprios, e cada fronteira está declarada no ponto em que aparece.
Quem adoece disso
O protocolo brasileiro do diabetes tipo 1 traz o número que explica por que o Xavier passou dez semanas no fluxo errado: cerca de 90% das pessoas com diabetes têm o tipo 2. O Caderno de Atenção Básica nº 36, de 2013, atribui ao tipo 1 aproximadamente 8%. Na unidade básica, o adulto que chega com glicemia alta é tipo 2 até prova em contrário — e, na enorme maioria das vezes, é mesmo. O problema está no resto.
O resto não é pequeno. O protocolo estima para o Brasil 25,6 casos novos de diabetes tipo 1 por 100.000 habitantes por ano e classifica essa incidência como elevada. O pico está entre os 10 e os 14 anos, mas o mesmo documento afirma que a doença começa, menos comumente, em adultos de qualquer idade, e que o diagnóstico em adultos é recorrente. Uma parte desses adultos tem o diabetes latente autoimune do adulto, o LADA da sigla em inglês, em que a destruição das células beta é lenta e progressiva.
É a lentidão que confunde. O protocolo escreve que o tratamento desses pacientes costuma ser feito, de maneira inadequada, com antidiabéticos orais até que a deficiência de insulina fique evidente, e que alguns adultos diagnosticados como tipo 2 por causa da idade deterioram rapidamente e só depois são reclassificados. O tipo 1 do adulto raramente é um erro do primeiro dia. É um erro de reavaliação nos meses seguintes.
O segundo número é o do controle. Num estudo multicêntrico brasileiro citado pelo protocolo, cerca de 80% das pessoas com tipo 1 atendidas em centros públicos tinham hemoglobina glicada acima de 7% — e todas estavam em acompanhamento com endocrinologista em serviço secundário ou terciário. A doença é difícil de controlar mesmo nas mãos de quem mais a conhece, e a maior parte do dia a dia dela acontece longe do especialista: na casa do paciente, no trabalho dele e na unidade básica.
O preço do controle é a hipoglicemia. O protocolo registra que o tratamento intensivo, que é o que reduz o surgimento e a progressão das complicações crônicas, pode tornar a hipoglicemia grave três vezes mais frequente, e que o ganho de peso acompanha a intensificação. É por isso que meta, dose e educação não se separam neste capítulo: cada ponto de glicada que se ganha com insulina é ganho contra um risco que o próprio tratamento cria.
Duas associações pesam no seguimento. Pelo protocolo, as doenças da tireoide aparecem em 17% a 30% das pessoas com tipo 1, e a doença celíaca em 1,6% a 16,4%. Insuficiência adrenal primária, hepatite autoimune, gastrite autoimune, dermatomiosite e miastenia grave são menos frequentes, mas também mais comuns do que na população geral.
O último dado é onde esse paciente é cuidado no SUS, e ele muda o que você faz na unidade. O protocolo recomenda acompanhamento em centro de referência, com endocrinologista e equipe multiprofissional, em conjunto com a atenção primária, e consulta médica pelo menos duas vezes por ano — com o endocrinologista ou, na falta dele, com um clínico experiente em diabetes. O Caderno 36 acrescenta que a pessoa com tipo 1, embora geralmente acompanhada pela atenção especializada, deve ter o cuidado garantido também na atenção básica. É na rede básica que o Xavier vai retirar a NPH, a regular, as tiras e as seringas — e é lá que o dia de doença, a hipoglicemia da madrugada e a glicada atrasada vão aparecer primeiro.
Por que acontece o que acontece
O diabetes tipo 1 é a destruição das células beta do pâncreas, na maior parte das vezes por um processo autoimune que se denuncia por autoanticorpos circulantes: anti-ilhota, anti-insulina, antidescarboxilase do ácido glutâmico (o anti-GAD) e antitirosina fosfatase (o anti-IA2), entre outros. Esse é o tipo 1A. Numa proporção menor não se identifica a causa, e ele é chamado idiopático, ou 1B. Na criança a destruição costuma ser rápida. No diabetes latente autoimune do adulto ela é lenta, e por meses ou anos sobra insulina bastante para manter o paciente longe da cetose, mas não para manter a glicemia.
Quando a destruição se completa, a deficiência é absoluta, e é por isso que o protocolo escreve que a insulina é essencial para prevenir cetoacidose, coma e morte, e que o tratamento com insulina não pode ser interrompido no tipo 1. A insulina não serve só para guardar a glicose que se come. Ela é o freio da lipólise e da produção de corpos cetônicos no fígado, e esse freio precisa estar puxado o dia inteiro, coma o paciente ou não. Tire toda a insulina de quem não fabrica nenhuma e a gordura começa a virar cetona em horas. O traço clínico que o protocolo e o Caderno 36 escolhem para definir o tipo 1 é exatamente esse: a tendência à hiperglicemia grave e à cetoacidose.
Daí a lógica do esquema basal-bolus. Uma parte da dose — entre 40% e 60% do total diário, pelo protocolo — imita a secreção contínua do pâncreas e segura a produção de glicose e de cetona no jejum e na madrugada: é a insulina basal, feita com NPH duas a três vezes ao dia ou com análogo de ação prolongada uma ou duas vezes. O restante vem em bolus antes das refeições, com insulina regular ou com análogo de ação rápida, para cobrir o carboidrato da refeição e corrigir a glicemia que já está alta. O esquema intensivo, com pelo menos três aplicações por dia, reduz o surgimento e a progressão das complicações crônicas; o custo, que o próprio protocolo registra, é mais hipoglicemia e algum ganho de peso.
A NPH explica metade dos erros deste capítulo, e a explicação é farmacocinética. Pela tabela do protocolo, ela começa a agir em 2 a 4 horas, tem pico entre 4 e 10 horas e dura de 10 a 18 horas. Aplicada no jantar, às sete da noite, chega ao pico de madrugada — quando o paciente dorme e não come — e já está no fim quando o dia clareia, que é a hora em que o corpo mais resiste à insulina. O resultado é a combinação que engana: hipoglicemia às três da manhã e glicemia alta no café. Por isso o protocolo manda aplicar a última NPH do dia ao deitar, por volta das 22 horas, ou oito horas antes de acordar, e avisa que doses grandes de NPH provocam hipoglicemia quando a refeição atrasa ou é pulada.
A insulina regular tem o problema oposto. Começa em 30 a 60 minutos, tem pico em 2 a 3 horas e dura de 5 a 8 horas. Para que a ação coincida com a absorção da refeição, ela precisa ser aplicada 30 minutos antes de comer, e é essa meia hora que torna difícil ajustar a dose ao que vai ser comido de fato. Os análogos de ação rápida começam em 5 a 15 minutos e duram de 3 a 4 horas; podem ser aplicados imediatamente antes ou logo depois da refeição e, por isso, deixam o paciente acertar a dose pelo prato que tem na frente. É essa diferença, e não uma potência maior, que o protocolo usa para justificá-los: menos hipoglicemia grave e noturna, com melhora pequena da glicada.
Onde a insulina entra também muda o que ela faz. Nas coxas e nas nádegas a absorção é a mais lenta, nos braços é intermediária e no abdome é a mais rápida, e ela se altera quando o membro que recebeu a aplicação é usado em exercício. O Caderno 36 manda manter distância mínima de 1,5 cm entre as aplicações e não repetir o mesmo ponto em menos de 15 a 20 dias, para prevenir a lipodistrofia. O exercício tem ainda um efeito tardio: o Caderno recomenda vigiar a glicemia por até 48 horas depois do esforço em quem já não produz insulina, porque o músculo continua captando glicose para repor o glicogênio, na presença da insulina aplicada.
Nas primeiras semanas de tratamento, muitos pacientes entram na remissão parcial, a lua de mel: com a glicemia controlada, as células beta que sobraram voltam a contribuir por um tempo, e a necessidade diária cai para menos de 0,5 UI/kg, segundo o protocolo. Quem mantém a dose do começo passa a ter hipoglicemia, e quem interpreta a queda como cura para a insulina. A remissão termina, e a necessidade do adulto sobe então para 0,7 a 1,0 UI/kg por dia.
A hipoglicemia do tipo 1 nasce de um descompasso simples: a insulina aplicada não se desliga quando a glicose cai. O protocolo lista as causas que precisam ser procuradas antes de qualquer troca de insulina — comer menos sem reduzir a dose, fazer exercício sem reduzir a dose, local de aplicação que precisa de revisão, dose excessiva e álcool em excesso —, e o protocolo do tipo 2, de 2026, acrescenta a hipoglicemia tardia depois de beber. O dia de doença é o descompasso ao contrário: a infecção aumenta a necessidade de insulina, o paciente come menos e conclui que precisa de menos, e a omissão da insulina — o Caderno 36 põe a infecção e a má aderência entre os principais precipitantes da cetoacidose — transforma uma gripe numa internação. Por que a hipoglicemia repetida apaga os sintomas de alarme, e o paciente passa a estrear já confuso, está explicado no capítulo “Antes da hipótese, a glicemia”, nesta apostila.
Como se apresenta de verdade
O tipo 1 do adulto aparece de seis jeitos na unidade básica e no ambulatório, e só os dois primeiros têm cara de diabetes novo. Os outros quatro são o paciente conhecido que mudou de padrão: a hipoglicemia que vem de madrugada ou sem aviso, a lua de mel que parece cura, o dia de doença e a mulher que quer engravidar.
Duas apresentações não estão aqui. A cetoacidose instalada — vômito, respiração profunda e rápida, desidratação, sonolência — é do capítulo “Cetoacidose diabética”, na posição 1 desta apostila. E o tipo 1 da criança e do adolescente, na crise e fora dela, é de Diabetes mellitus tipo 1 e cetoacidose diabética na criança, na apostila de Endocrinologia Pediátrica: este é o capítulo do adulto, e não assume a pediatria.
Percurso de aprendizagem
Comece pela classificação clínica e pela avaliação urgente da cetose: queda da glicemia sozinha não garante alta.
Depois, domine basal, prandial, técnica e plano para hipoglicemia/doença. O primeiro esquema deve ser seguro e compreensível.
Avance para padrões, contagem de carboidratos e fator de correção quando as etapas básicas estiverem demonstradas, com retorno e supervisão.
O adulto que o fluxo do tipo 2 não explica
É a apresentação do Xavier, e a mais perigosa, porque chega com diagnóstico já dado. O protocolo avisa que, na idade adulta, a maior parte dos diagnósticos é de tipo 2 e que, por isso mesmo, o diagnóstico de tipo 1 no adulto exige atenção: alguns pacientes rotulados como tipo 2 pela idade deterioram rapidamente e só depois são reclassificados. O que denuncia é o comportamento da doença sob tratamento, e não o valor da glicemia do primeiro dia.
Desconfie quando o adulto emagrece apesar do tratamento, quando é magro desde o começo, quando a glicemia sobe mês a mês com boa adesão ao antidiabético oral, quando aparece cetona na urina ou quando há outra doença autoimune na história, como uma tireoidite. Nenhum desses sinais fecha o diagnóstico sozinho, e o protocolo não os transforma em escore com ponto de corte. O que eles fazem é trocar a pergunta: em vez de qual é o próximo comprimido, a pergunta passa a ser se este paciente ainda fabrica insulina.
O primeiro atendimento do Xavier não foi um erro. Dez semanas atrás, a glicemia de jejum era 212 mg/dL e a glicada, 9,8%, e o protocolo do tipo 2, de 2026, indica insulina desde o início ao jovem sintomático com glicemia de 250 mg/dL ou mais e glicada de 8,5% ou mais — ele não chegava ao primeiro número. O erro seria não reavaliar agora, quando a doença mostrou, com nove quilos e duas cruzes de cetona, que não se comporta como tipo 2.
O diabetes latente autoimune do adulto é a versão lenta dessa história. Pascoal Valente, 47 anos, magro, usa metformina e gliclazida há três anos, e a glicada foi de 7,2% para 9,6% no último ano enquanto ele perdia peso sem tentar. O protocolo do tipo 2 lembra que a dúvida diagnóstica é o momento de considerar tipo 1, formas monogênicas e causas secundárias. No Pascoal a dúvida já existe: a investigação, com peptídeo C e autoanticorpos, está no bloco seguinte, e a insulina não fica esperando o resultado.
Hiperglicemia com sintoma e cetona na urina, sem acidose
É o Xavier na sala: glicemia acima de 300 mg/dL e cetonúria, mas lúcido, hidratado, sem vômito, sem dor abdominal e com respiração normal. Diante da tendência à hiperglicemia grave e à cetoacidose, o protocolo escreve que não há dúvida de que a insulina deve começar imediatamente. A pergunta prática é onde.
O Caderno 36 dá à unidade básica uma tabela de decisão para a descompensação aguda, e ela separa três situações pela cetonúria e pelos agravantes. Glicemia acima de 250 mg/dL com cetonúria e hálito cetônico, desidratação ou vômitos: encaminhamento imediato ao serviço de emergência. Glicemia acima de 250 com cetonúria, sem esses agravantes: insulina regular na unidade, hidratação e reavaliação em quatro horas. Glicemia acima de 250 sem cetonúria, mas com manifestação clínica: dose menor de regular e observação de quatro em quatro horas. As doses, e a forma de aplicá-las a quem ainda não tem dose diária, estão na conduta. A tabela histórica do Caderno 36 não deve dispensar avaliação de acidose na pessoa com deficiência de insulina e cetonúria. Nesta revisão, ausência de hálito cetônico, vômitos ou desidratação não é suficiente para excluir CAD nem para garantir alta por glicemia menor.
O que separa quem fica de quem vai não é o número da glicemia; é o que o corpo está fazendo com a cetona. Respiração profunda e rápida, vômito que não para, dor abdominal, sonolência e mucosa seca contam mais do que 347 ou 450 no glicosímetro. Diante de qualquer um deles, a cetoacidose deixou de ser risco e virou hipótese, e o paciente passa ao capítulo “Cetoacidose diabética”.
Hipoglicemia em casa: com sintoma, de madrugada e sem aviso
O protocolo usa três definições que você vai aplicar o tempo todo. Hipoglicemia não grave é a glicemia capilar abaixo de 54 mg/dL, com ou sem sintoma, ou abaixo de 70 mg/dL acompanhada de sintoma — tremor, suor frio, palpitação, sensação de desmaio. Hipoglicemia grave é a que precisa de atendimento de emergência ou da ajuda de outra pessoa para ser resolvida. E a noturna, que o protocolo conta à parte. Para o resgate clínico, qualquer glicemia confirmada <70 mg/dL requer ação, mesmo sem sintomas; não esperar <54. As definições de documentação para acesso a insulinas não devem retardar a correção de um episódio.
A hipoglicemia noturna quase nunca chega com esse nome. Chega como pesadelo, lençol molhado de suor, dor de cabeça ao acordar e cansaço de manhã — e, com frequência, como glicemia de jejum alta, que leva o médico a subir a NPH da noite e a piorar o que queria corrigir. O Caderno 36 manda investigar a hiperglicemia matinal persistente como possível consequência de hipoglicemia noturna e diferenciá-la da falta de insulina de madrugada, porque as duas pedem condutas opostas: reduzir ou mudar o horário da insulina noturna numa, aumentar a dose na outra. Isso só se resolve medindo a glicemia da madrugada.
A hipoglicemia sem aviso é a do paciente que a descobre pelo glicosímetro ou pela família, porque já não sente tremor nem suor. Para o cálculo da correção, o protocolo usa objetivo glicêmico de 150 mg/dL, em vez de 100, em quem tem hipoglicemia sem sintoma, e o Caderno 36 manda relaxar as metas de quem tem hipoglicemias assintomáticas ou muito frequentes.
O tratamento da hipoglicemia grave, as equivalências dos 15 gramas de carboidrato em alimento e a orientação à família quando o paciente já não engole estão no capítulo “Antes da hipótese, a glicemia”. O que é deste capítulo é por que a hipoglicemia aconteceu naquele paciente com tipo 1 e qual dose muda depois dela.
A lua de mel que parece cura
Semanas depois do começo da insulina, o paciente que chegou com 347 mg/dL volta contando tremor às quatro da tarde e uma glicemia de 58 antes do jantar. Alguns chegam contentes, dizendo que o diabetes está indo embora. Outros chegam com medo, e já pararam uma das doses por conta própria.
O protocolo descreve a remissão parcial com dose diária geralmente abaixo de 0,5 UI/kg e, depois dela, a volta da necessidade para 0,7 a 1,0 UI/kg no adulto. A conduta é reduzir a dose que governa o horário da hipoglicemia, e não suspender a insulina: a regra de que o tratamento com insulina não pode ser interrompido no tipo 1 vale também na lua de mel. A remissão termina, e quem parou a insulina descobre isso pela cetose.
O dia de doença
Todo paciente com tipo 1 vai ter uma gastroenterite, uma gripe forte ou uma infecção urinária. A apresentação típica não é a cetoacidose. É a chegada à unidade no segundo dia, com febre, comendo pouco, glicemia de 300 — e a informação, dita sem culpa, de que não aplicou a insulina da manhã porque não tinha tomado café.
É o erro mais previsível do tipo 1. O protocolo inclui as intercorrências, as infecções e os dias de doença entre os fatores que mudam a dose, e o Caderno 36 põe a infecção e a omissão da insulina entre os principais precipitantes da cetoacidose. A insulina basal continua mesmo sem comida. O que se decide é quanto acrescentar, e a unidade tem regra escrita para isso, com glicemia e cetonúria.
Uma limitação muda o plano que o paciente leva para casa: a Rename 2024 não traz fita para cetona entre os insumos. O plano escrito de dia de doença tem, então, de funcionar só com o glicosímetro, e a cetonúria se faz na unidade. As contas estão no critério, e o plano, na conduta.
A mulher com tipo 1 que quer engravidar — ou que já engravidou
A gestação da mulher com diabetes prévio não tem capítulo escrito neste nível. O capítulo “Quem fica, quem vai — e quem volta”, de Obstetrícia, põe o diabetes anterior à gestação entre as condições de alto risco e decide o encaminhamento; o capítulo “Diabetes mellitus gestacional” trata do diabetes que aparece ou é descoberto na gestação. Este capítulo assume, então, a parte que é da insulina, e declara aqui que a assume.
Antes da concepção, o protocolo manda incorporar o aconselhamento reprodutivo à rotina de toda mulher com tipo 1 que pode engravidar, prescrever contracepção eficaz até que ela esteja pronta e buscar o melhor controle possível antes de engravidar — glicada abaixo de 6,5% —, mantendo o esquema basal-bolus. As razões que ele dá são o risco de anomalia congênita, pré-eclâmpsia, macrossomia e piora da retinopatia.
Depois da concepção, a dose não fica parada, e o protocolo descreve a curva. A necessidade aumenta no início do primeiro trimestre, cai entre a 9ª e a 16ª semana, com mais hipoglicemia, e sobe depressa depois da 16ª, cerca de 5% por semana, até chegar a aproximadamente o dobro no fim do terceiro trimestre, com menos de 50% da dose em basal e mais de 50% em bolus. Depois do parto, a necessidade cai cerca de 60% em relação à dose total da gestação; durante a amamentação, pode ficar cerca de 10% abaixo da dose de antes da gravidez.
A mulher com tipo 1 que engravidou vai ao pré-natal de alto risco sem suspender a insulina e sem trocar de insulina por conta própria: para quem já usa análogo, o protocolo deixa ao médico assistente, com relatório, a avaliação de risco e benefício de cada um na gestação. A automonitorização passa a ser feita em jejum e depois das refeições, com as metas que estão nas notas do critério.
Como fechar o diagnóstico
No tipo 1, investigar tem três objetivos, e só o primeiro é diagnóstico: saber que diabetes o paciente tem, saber como a insulina está funcionando no corpo dele e procurar, na hora certa, o que a doença faz nos olhos, nos rins, nos pés e nas outras glândulas.
Uma regra atravessa as seis seções: nenhum exame desta lista atrasa a insulina de quem tem sinal de falta de insulina.
Fechar o diagnóstico de diabetes
A confirmação é laboratorial. Com sintomas clássicos — poliúria, polidipsia, polifagia, noctúria e perda de peso sem explicação —, uma glicemia colhida ao acaso, sem jejum, acima de 200 mg/dL consolida o diagnóstico, e o protocolo dispensa a repetição no paciente com sintomas inequívocos de falta de insulina. Sem sintomas, valem a glicemia de jejum de pelo menos oito horas igual ou acima de 126 mg/dL em duas ocasiões próximas — uma a duas semanas de intervalo, no exemplo do documento — e a hemoglobina glicada igual ou acima de 6,5%, repetida quando não há hiperglicemia inequívoca. O teste oral com 75 g de glicose, com glicemia de duas horas igual ou acima de 200 mg/dL, também diagnostica, mas o protocolo lembra que é pouco usado e que a sobrecarga oferece risco a quem já está muito hiperglicêmico.
Dois cuidados valem para o adulto. A glicada só serve para diagnóstico quando o método do laboratório é certificado pelo programa norte-americano de padronização da hemoglobina glicada. E hiperglicemia de estresse agudo — infeccioso, traumático ou circulatório — não conta, porque costuma ser transitória: o paciente é reavaliado fora do quadro agudo, que é a mesma regra usada dentro do hospital pelo capítulo “Hiperglicemia no paciente internado”.
Tipo 1 ou tipo 2: peptídeo C e autoanticorpos
Na maior parte dos casos, o tipo 1 se reconhece pela clínica: hiperglicemia importante, perda de peso, cetose. O exame entra quando a clínica não basta — o adulto de comportamento intermediário, o LADA em uso de antidiabético oral, o paciente que emagrece no fluxo do tipo 2. Para esses, o protocolo afirma que a pesquisa de autoanticorpos específicos e a dosagem de peptídeo C são importantes para o diagnóstico correto.
O Caderno 36 dá a leitura: anticorpos positivos com peptídeo C abaixo de 0,9 ng/mL sugerem tipo 1; anticorpos negativos com peptídeo C elevado sugerem tipo 2. O verbo é sugerir, e ele é do documento. Resultado discordante — anticorpo positivo com peptídeo C preservado, ou o contrário — não reclassifica ninguém sozinho e se lê junto com a história e com a evolução.
O que o SUS paga está no protocolo, com os códigos da tabela de procedimentos: dosagem de peptídeo C (02.02.06.028-4), pesquisa de anticorpos anti-ilhota de Langerhans (02.02.03.051-2) e pesquisa de anticorpos anti-insulina (02.02.03.052-0). O anti-GAD, que o Caderno 36 cita como o anticorpo da dúvida entre os tipos e que o protocolo lista entre os marcadores da autoimunidade, não está nessa lista de códigos. Peça o que o laboratório da sua rede faz, e escreva no pedido a pergunta clínica. A disponibilidade/codificação não define a interpretação: anticorpo anti-insulina após insulina exógena pode não esclarecer etiologia. Escolher e interpretar o painel com o contexto e considerar GAD, IA-2 ou ZnT8 quando indicados e disponíveis.
Para o LADA, o protocolo transforma o exame em condição de acesso: o adulto com suspeita clínica que vá usar análogo de insulina precisa, além dos critérios gerais, da dosagem de peptídeo C e da pesquisa e titulação de pelo menos um marcador de autoimunidade. Os casos com sintomas de falta de insulina e só um dos dois resultados alterados ficam a critério do médico assistente. A investigação é ambulatorial — o capítulo “Hiperglicemia no paciente internado” a deixa para depois da alta —, e é este capítulo que a assume.
O paciente que chega de outro serviço já usando análogo — de convênio, comprado ou de outra rede — entra no protocolo pelos critérios de manutenção, e não pelos de inclusão: o que se documenta, nos últimos seis meses, é a meta atingida, a redução mínima de 0,5% na glicada, a melhora das hipoglicemias ou uma condição clínica transitória que explique o descontrole. Antes de preencher o laudo, peça o caderno, as glicadas do período e o registro das hipoglicemias.
Cetona: quem mede, com o quê e o que o resultado muda
O Caderno 36 manda pesquisar corpos cetônicos na urina da pessoa com tipo 1 quando a glicemia passa de 300 mg/dL, quando há estresse agudo ou quando há sintoma de hiperglicemia ou de cetose. Na unidade básica, isso é a fita do exame de urina, e o resultado escolhe a linha da tabela de conduta: cetonúria com agravante vai para a emergência; cetonúria sem agravante recebe a dose maior de insulina regular e reavaliação em quatro horas; sem cetonúria, com sintoma, a dose menor.
Duas limitações precisam estar na sua cabeça. A primeira é de acesso: sem fita para cetona na Rename 2024, o paciente mede glicemia em casa, e a cetona é medida na unidade. A segunda é de leitura: o capítulo “Cetoacidose diabética” mostra por que a cetonúria atrasa em relação ao quadro, pode ficar mais positiva justamente quando ele melhora e permanece positiva por horas ou dias, e por que dentro do hospital se prefere a cetonemia capilar. Na unidade básica, a fita de urina é o que existe, e ela serve bem para a pergunta que ali importa: quem fica e quem vai.
A glicemia capilar é o exame que decide a dose
O protocolo indica a automonitorização para todas as pessoas com tipo 1: ela serve para ajustar a insulina e avaliar o tratamento, porque aponta os momentos do dia em que falta ou sobra insulina. Recomenda pelo menos três a quatro testes por dia, com a distribuição das tiras seguindo as normas de cada local e aumentando conforme a necessidade; o Caderno 36 recomenda três ou mais por dia a quem usa insulina em doses múltiplas.
Onde não há como descarregar os dados do aparelho, o protocolo pede o registro em tabela por pelo menos 15 a 30 dias, analisado na consulta. Leia o caderno por horário, e não pela média. A regra do protocolo — mexer na última dose de basal aplicada antes da alteração — pressupõe essa leitura, e ela é simples no esquema com três NPH: o jejum fala da NPH das 22 horas; a glicemia antes do almoço, da NPH e da regular da manhã; a de antes do jantar, das doses do almoço; a de duas horas depois de uma refeição, do bolus daquela refeição. A glicemia das três da manhã é a única que separa a madrugada em que sobra insulina da madrugada em que ela falta.
Para ajustar a basal, o protocolo exige um cuidado que quase ninguém cumpre: observar a variação da glicemia sem lanche entre as refeições, sem correção de hiperglicemia pós-prandial e sem lanche nem bolus antes de dormir. Nessas condições, queda ou subida de mais de 30 mg/dL entre duas refeições ou durante o sono é o sinal para mexer em 10% a 20% na dose de basal que governa aquele período. Com lanche e correção no meio, a variação medida não diz nada sobre a basal.
O caderno é também o documento do laudo. Para os critérios de hipoglicemia do análogo, o protocolo aceita como comprovação o relatório de atendimento de emergência e os registros em programa de computador, em tabela ou no próprio glicosímetro. Hipoglicemia que não foi anotada, para o SUS, não aconteceu — e é por isso que o registro precisa começar no primeiro dia, e não quando alguém pensa em pedir o análogo.
A hemoglobina glicada e o que ela não mostra
A glicada reflete os últimos três meses. O protocolo manda dosá-la no início do tratamento e a cada três meses, admitindo o intervalo semestral para quem está em controle ótimo; o Apêndice D do mesmo documento escreve seis meses para todos, e a escolha desta apostila, com o porquê, está no bloco de divergências. A meta do adulto é abaixo de 7%; a da criança e do adolescente, abaixo de 7,5%; a do idoso, individualizada, com a contradição registrada nas notas do critério.
O próprio protocolo avisa que a avaliação do controle não pode ficar restrita à glicada: a frequência de hipoglicemias, sobretudo as noturnas e as graves, e a variabilidade da glicemia contam tanto quanto ela. Glicada de 6,8% com três hipoglicemias por semana não é bom controle — é média boa feita de extremos ruins. É por isso que a glicada nunca decide sozinha que a dose sobe.
O rastreio: olhos, rins, pés, tireoide e intestino
O item de acompanhamento do protocolo manda rastrear anualmente as complicações crônicas a partir do quinto ano de doença, ou antes na puberdade ou por critério clínico: retinopatia pelo exame de fundo de olho; doença renal pela albuminúria em amostra isolada de urina corrigida pela creatinina, com creatinina sérica; neuropatia pelo exame neurológico dos pés, com sensibilidade térmica, vibratória e protetora, esta pelo monofilamento de 10 gramas. Pressão arterial pelo menos duas vezes por ano, perfil lipídico pelo menos uma vez por ano, e avaliação macrovascular em quem tem sintoma ou, em quem não tem, conforme a estratificação do risco cardiovascular.
Para o primeiro fundo de olho, o documento de escopo é o protocolo de retinopatia diabética, de 2021: no tipo 1, em até cinco anos após a instalação do diabetes ou no início da puberdade; no tipo 2, logo depois do diagnóstico. Para a albuminúria, o protocolo do tipo 2, de 2026, escreve o mesmo prazo: após cinco anos do diagnóstico do tipo 1. O Apêndice D do protocolo do tipo 1 manda o adulto ao fundo de olho e à albuminúria já no diagnóstico. Como esta apostila resolve a contradição, e a exceção do adulto cuja doença começou muito antes de ser diagnosticada, está nas divergências.
O exame dos pés esta apostila faz desde a primeira consulta e todo ano, como escreve o Apêndice D, porque custa um monofilamento e alguns minutos, serve de base para as consultas seguintes e abre a orientação sobre calçado e inspeção diária; o item de acompanhamento do mesmo protocolo põe a neuropatia no pacote do quinto ano, e, entre as duas regras do documento, a escolha é desta apostila. A estratificação do risco e o cuidado com a úlcera são do capítulo “Pisar na própria ferida”, de Cirurgia Vascular; a leitura do laudo de retina é do capítulo “O laudo que volta”, de Oftalmologia; o estadiamento da doença renal é do capítulo “O rim que não volta”, de Nefrologia.
A tireoide o protocolo manda avaliar desde o diagnóstico e anualmente. A diretriz norte-americana de 2026 rastreia a tireoidopatia autoimune logo depois do diagnóstico e repete quando há indicação clínica; a régua brasileira é a do protocolo, e é a que este capítulo usa: TSH anual. O tratamento do hipotireoidismo encontrado é do capítulo “Quem pediu este TSH”, nesta apostila.
Para a doença celíaca, o protocolo do tipo 1 registra a associação sem fixar rastreio, e o PCDT da Doença Celíaca, de 2025, fixa: pessoas com diabetes tipo 1 pertencem aos grupos de risco que devem ser rastreados com antitransglutaminase IgA e IgA total, com ou sem sintoma. Esta apostila adota essa régua — é a norma brasileira escrita para a doença que se rastreia, e o protocolo do tipo 1 não a contradiz. A diretriz norte-americana de 2026 rastreia o adulto só quando há sintoma gastrointestinal, como diarreia, má absorção e dor abdominal, sinal como osteoporose, deficiência de vitaminas e anemia ferropriva, ou suspeita clínica; a posição fica registrada, com data, e esta apostila não a segue. A indicação no adulto com tipo 1 fica neste capítulo; a doença celíaca como causa de sintoma intestinal é do capítulo Síndrome do intestino irritável e diarreia crônica, na apostila de Gastroenterologia. A mesma diretriz manda considerar a dosagem de vitamina B12 na pessoa com tipo 1 que tem neuropatia periférica ou anemia sem explicação.
As contas da insulina num adulto de 60 quilos, a porta do SUS de cada insulina e o calendário do rastreio
O aprendizado começa na segurança do diabetes tipo 1 novo e da primeira noite com insulina. Depois vêm técnica, leitura de padrões e ajuste; contagem de carboidratos e documentação para análogos não devem obscurecer essas bases. As contas deste bloco estão feitas por extenso para 60 kg, o peso do Xavier no dia do diagnóstico; refaça a sua trocando o peso, porque a conta é a mesma. A primeira tabela mostra onde a dose começa e para onde ela vai. A segunda converte unidade em mililitro, em seringa e em consumo do mês, e traz as três contas que o paciente aprende a fazer em casa — correção, carboidrato e dia de doença. A terceira mostra por que porta do SUS cada insulina e cada insumo chegam ao paciente. A quarta é o calendário do rastreio, com as contradições do protocolo já resolvidas. As notas registram sete pontos em que o protocolo de 2019 se contradiz num número que muda o que você prescreve.
- 1Suspeite de tipo 1 no adulto que emagrece apesar do tratamento, que é magro, que piora mês a mês com boa adesão ao comprimido, que tem cetona na urina ou outra doença autoimune.
- 2Glicemia acima de 250 mg/dL em quem tem ou pode ter tipo 1: faça a cetonúria. Cetonúria com vômito, desidratação ou hálito cetônico é emergência agora — capítulo “Cetoacidose diabética”.
- 3Cetonúria sem sinais clínicos clássicos ainda exige avaliar acidose, eletrólitos e evolução no mesmo dia. Não aplicar reforços repetidos e decidir alta somente por glicemia. Se a unidade não consegue excluir CAD e monitorar, encaminhar; o esquema ambulatorial pressupõe crise excluída e estabilidade.
- 4Calcule a dose total: 0,5 UI/kg/dia no adulto recém-diagnosticado fora da cetoacidose, subindo pela glicemia capilar até o teto de 1,0 UI/kg/dia da fase inicial.
- 5Metade da dose total é basal: NPH em três aplicações — antes do café, antes do almoço e às 22 horas. A outra metade é bolus: regular 30 minutos antes do café, do almoço e do jantar.
- 6Suspenda o antidiabético oral. Colha peptídeo C e autoanticorpos quando a clínica deixar dúvida, e não espere o resultado para começar a insulina.
- 7Entregue por escrito: técnica de aplicação, hipoglicemia (15 g de carboidrato e nova glicemia em 15 minutos), dia de doença (a basal nunca é suspensa) e o dia do retorno.
- 8Ajuste a basal pela glicemia do período que ela governa: variação de mais de 30 mg/dL sem lanche nem correção pede 10% a 20% na última dose de basal aplicada antes da alteração.
- 9Ajuste o bolus pela glicemia de duas horas depois da refeição, com alvo abaixo de 180 mg/dL, e só quando a glicemia de antes daquela refeição estiver no alvo.
- 10Abaixo de 70 mg/dL antes de uma refeição, trate a hipoglicemia primeiro e só depois aplique o bolus da refeição, reduzido.
- 11Hipoglicemia repetida: procure a causa — refeição pulada, exercício, álcool, local de aplicação, dose excessiva, horário da NPH — antes de pensar em análogo. O laudo do análogo só se justifica com a causa excluída e o critério mantido.
- 12Glicada a cada 3 meses fora da meta ou depois de mudar o esquema; a cada 6 meses no controle estável; meta do adulto abaixo de 7%.
- 13Todo ano: TSH, perfil lipídico e exame dos pés; pressão arterial em toda consulta. Fundo de olho e albuminúria a partir do quinto ano de doença — já no diagnóstico, se a doença começou muito antes dele.
Onde a dose começa e para onde ela vai — adulto de 60 kg
| Fase | Dose total diária | Num adulto de 60 kg | Basal (NPH) | Bolus (regular) por refeição principal |
|---|---|---|---|---|
| Início, diagnóstico recente sem cetoacidose — piso da faixa, que é o ponto de partida desta apostila | 0,5 UI/kg/dia | 30 UI/dia | metade da dose total = 15 UI: 5 UI antes do café, 5 UI antes do almoço e 5 UI às 22 h | 15 UI divididas: 5 UI 30 minutos antes do café, do almoço e do jantar |
| Teto da faixa inicial (diagnóstico recente ou logo depois de cetoacidose) | 1,0 UI/kg/dia | 60 UI/dia | 40% a 60% = 24 a 36 UI | o restante, 24 a 36 UI: 8 a 12 UI por refeição |
| Lua de mel (remissão parcial) | abaixo de 0,5 UI/kg/dia | abaixo de 30 UI/dia | abaixo de 0,25 UI/kg = abaixo de 15 UI | reduzir em 10% a 20% a dose que governa o horário da hipoglicemia; nunca suspender a basal |
| Depois da remissão, adulto | 0,7 a 1,0 UI/kg/dia | 42 a 60 UI/dia | 0,3 a 0,5 UI/kg = 18 a 30 UI | com metade da dose total em bolus: 21 a 30 UI, ou 7 a 10 UI por refeição |
Da unidade ao mililitro, à seringa e ao mês — e as três contas que o paciente faz em casa
| Grandeza | Regra | Na conta do Xavier (60 kg, 30 UI/dia) | De onde vem |
|---|---|---|---|
| Concentração | 100 UI/mL: 1 UI = 0,01 mL | 5 UI = 0,05 mL; 30 UI/dia = 0,30 mL/dia | Rename 2024: NPH e regular a 100 UI/mL |
| Consumo do mês | UI por dia × 30 ÷ 100 = mL no mês | 30 UI/dia = 9,0 mL em 30 dias: 4,5 mL de NPH e 4,5 mL de regular | conta desta apostila sobre a concentração da Rename |
| Seringa com agulha acoplada | a de 100 UI é graduada de 2 em 2 unidades; as de 50 e de 30 UI, de 1 em 1; há a de 30 UI com escala de meia unidade | doses de 5 UI e reduções de 10% a 20% (4,5 ou 4 UI) pedem seringa de 30 ou de 50 UI: a de 100 UI não marca dose ímpar | Protocolo do tipo 1, item 7.5 |
| Injeções e seringas no mês | Planejar insumos suficientes, priorizando uso único e técnica compatível com o produto; na mistura permitida, aspirar regular antes da NPH. | Sem mistura: 6 aplicações/dia =180/mês; com mistura no café e almoço: 4/dia =120/mês. Não dividir a necessidade mensal por oito como regra de fornecimento. | A recomendação antiga de reutilização do Caderno 36 não substitui planejamento de acesso e técnica atual. |
| Tiras e lancetas | pelo menos 3 a 4 testes por dia | 90 a 120 tiras em 30 dias; no dia de doença, glicemia de 4 em 4 horas soma 6 testes naquele dia | Protocolo do tipo 1, item 12 |
| Correção no dia de doença | Avaliar cetose/acidose, potássio, hidratação e insulina ativa. Manter cobertura basal e individualizar correção e local de cuidado. | 20% de 30 são 6 unidades, mas a conta não valida reforços repetidos numa pessoa cuja dose diária ainda é estimada. Não decidir alta só pela glicemia. | Revisão da aplicação do Caderno 36 à luz da avaliação de CAD do consenso 2024. |
| Bolus de correção | (glicemia atual − objetivo) ÷ fator de correção; objetivo de 100 mg/dL no adulto e de 150 mg/dL em quem tem hipoglicemia sem sintoma; fator do adulto entre 40 e 60 | glicemia de 250 com fator 50: (250 − 100) ÷ 50 = 3 UI, somadas à dose da refeição | Protocolo do tipo 1, apêndice C |
| Bolus da refeição por contagem de carboidrato | gramas de carboidrato da refeição ÷ relação carboidrato/insulina; relação do adulto entre 10 e 20 g por unidade | prato com 60 g de carboidrato e relação de 15 g por unidade: 60 ÷ 15 = 4 UI | Protocolo do tipo 1, apêndice C |
| Troca de NPH por glargina de 100 UI/mL | somar as doses de NPH do dia e reduzir 20%; a glargina vai uma vez ao dia | 15 UI de NPH por dia → 12 UI de glargina uma vez ao dia | Protocolo do tipo 1, apêndice C |
A porta do SUS de cada insulina e de cada insumo
| Item | Onde está na Rename 2024 | Quem recebe | O que o prescritor faz |
|---|---|---|---|
| Insulina humana NPH, 100 UI/mL | Componente Básico | toda pessoa com tipo 1: é a basal do primeiro degrau do protocolo | receita comum; em duas a três aplicações diárias, nunca uma só, e nunca em monoterapia: sempre com regular ou com análogo rápido |
| Insulina humana regular, 100 UI/mL | Componente Básico | toda pessoa com tipo 1: é o bolus do primeiro degrau | receita comum; 30 minutos antes das refeições principais |
| Insulina análoga de ação rápida, 100 UI/mL | Componente Especializado | quem usou NPH com regular por pelo menos 3 meses e, nos últimos 6 meses, depois de excluídas as causas, teve hipoglicemia grave, hipoglicemias não graves repetidas (2 ou mais por semana), noturnas repetidas (mais de 1 por semana) ou mau controle persistente pela glicada de 12 meses; com automonitorização de pelo menos 3 vezes ao dia e acompanhamento pelo menos 2 vezes ao ano | laudo médico com os critérios; a molécula é a que o Ministério adquirir por custo-minimização; a renovação exige, nos últimos 6 meses, meta atingida, redução mínima de 0,5% na glicada, melhora das hipoglicemias ou condição clínica transitória |
| Insulina análoga de ação prolongada, 100 e 300 UI/mL | Componente Especializado | quem usou NPH com análogo rápido por pelo menos 3 meses e preenche os mesmos critérios de hipoglicemia ou de mau controle | laudo médico; sem critério de manutenção, volta à NPH, depois de reforçada e registrada em prontuário a adesão |
| Tiras reagentes de glicemia capilar, lancetas, seringas com agulha acoplada, caneta e agulha para caneta | Insumos do Componente Básico | pessoa em uso de insulina | prescrever a quantidade do mês; as tiras seguem a norma local, com pelo menos 3 a 4 testes por dia recomendados pelo protocolo |
| Glucagon, fita para cetona, glicosímetro e sensor de glicose | não constam | — | a hipoglicemia grave em casa se resolve com socorro; o plano de dia de doença não depende de cetona em casa; o fornecimento do glicosímetro se confere na rede local |
| Sistema de infusão contínua de insulina | não consta; decisão de não incorporar pela Portaria SCTIE/MS nº 38/2018 | — | — |
O calendário do rastreio no adulto com tipo 1
| O que | Quando começa | Periodicidade | Régua adotada |
|---|---|---|---|
| Fundo de olho | em até 5 anos após a instalação do diabetes; no diagnóstico, se a doença começou muito antes dele | anual, ou em intervalo menor conforme o estágio | Protocolo de retinopatia diabética, 2021; a exceção é leitura desta apostila |
| Albuminúria em amostra isolada corrigida pela creatinina, com creatinina sérica | a partir do 5º ano do diagnóstico; no diagnóstico, se a doença começou muito antes dele | anual | Protocolo do tipo 1, item 13, e protocolo do tipo 2, de 2026; a exceção é leitura desta apostila |
| Exame dos pés: monofilamento de 10 g, sensibilidade térmica e vibratória | no diagnóstico | anual | Protocolo do tipo 1, apêndice D; escolha desta apostila entre as duas regras do documento |
| Pressão arterial | no diagnóstico | em toda consulta | Protocolo do tipo 1, apêndice D |
| Perfil lipídico | no diagnóstico | anual | Protocolo do tipo 1, item 13 e apêndice D |
| TSH | no diagnóstico | anual | Protocolo do tipo 1, apêndice D |
| Hemoglobina glicada | no início do tratamento | a cada 3 meses; a cada 6 meses no controle estável na meta | Protocolo do tipo 1, item 12 |
| Doença celíaca | pertencer ao grupo de risco basta: antitransglutaminase IgA e IgA total, com ou sem sintoma | não fixada pelo PCDT; repetir diante de sintoma, sinal ou suspeita | PCDT da Doença Celíaca de 2025; a diretriz norte-americana de 2026, que rastreia o adulto só por suspeita, fica registrada |
| Vitamina B12 | neuropatia periférica ou anemia sem explicação | quando surgir a indicação | Diretriz norte-americana de 2026 |
| Avaliação psicológica e emocional | cetoacidose ou dificuldade de controle da glicose | quando ocorrer | Protocolo do tipo 1, apêndice D |
Dose de início: a tabela e o texto do mesmo item não se encontram. O item 9 do protocolo escreve que a dose total diária no diagnóstico recente, ou logo depois de uma cetoacidose, varia de 0,5 a 1 UI/kg/dia, e que a fase de remissão parcial fica abaixo de 0,5. A Tabela 4, logo abaixo, rotula a linha de menos de 0,5 UI/kg/dia como “diagnóstico recente (lua de mel)”. Num adulto de 60 kg, quem lê a tabela começa com menos de 30 UI/dia; quem lê o texto começa com 30 a 60 UI/dia. As duas faixas não têm um único valor em comum, e o teto do texto é o dobro do teto da tabela. A lua de mel vem depois que a insulina começa, e não é o ponto de partida. Esta apostila segue o texto e começa no piso, 0,5 UI/kg/dia, subindo pela glicemia capilar; começar no piso, fora do hospital, é leitura desta apostila, pelo risco de hipoglicemia de quem vai para casa.
NPH uma vez ao dia: a Tabela 3 permite o que o item 9 não permite. Na coluna de posologia da tabela de farmacocinética, o protocolo escreve para a NPH “1-3x/dia”, e na mesma linha dá a duração de ação de 10 a 18 horas. O item 9 manda usar a NPH em duas a três aplicações diárias — a maior parte dos pacientes usa três. Uma dose única a cada 24 horas, com duração de 10 a 18 horas, deixa de 6 a 14 horas por dia sem insulina basal, e no tipo 1 poucas horas sem basal bastam para a cetose começar. Esta apostila segue o item 9: no tipo 1, NPH nunca uma vez ao dia.
Escala de correção do Apêndice C: o exemplo dá insulina a quem está em hipoglicemia. A escala, montada para fator de correção 50 e dose fixa de 5 UI, manda aplicar 3 UI com glicemia abaixo de 50 mg/dL e 4 UI entre 51 e 70. O mesmo protocolo, nos critérios de inclusão, chama de hipoglicemia a glicemia abaixo de 54 mg/dL, com ou sem sintoma, e abaixo de 70 com sintoma. A escala ainda deixa dois valores sem linha: 50 mg/dL, entre “abaixo de 50” e “51 a 70”, e 401 mg/dL, entre “351 a 400” e “acima de 401”. E o exemplo de cálculo do bolus de correção está escrito sem parênteses, 281 − 100/40 = 4,5 U: pela ordem das operações, isso é 281 − 2,5 = 278,5 UI, mais de 60 vezes o resultado certo, que é (281 − 100) ÷ 40 = 4,5 UI. Esta apostila escreve a fórmula com parênteses e, abaixo de 70 mg/dL, manda tratar a hipoglicemia primeiro e só aplicar o bolus, reduzido, quando a refeição for de fato comida.
Meta pós-prandial: 140 ou 180. A Tabela 2 do protocolo, de objetivos glicêmicos, fixa para o adulto glicemia pós-prandial abaixo de 180 mg/dL. O Apêndice C, ao ensinar o ajuste da relação carboidrato/insulina, escreve que para adultos se usa geralmente objetivo pós-prandial entre 90 e 140 mg/dL, e manda reduzir a relação em 1 a 2 g por unidade quando a pós-prandial fica consistentemente acima do alvo. Com glicemia de duas horas de 165 mg/dL, a Tabela 2 diz que está no alvo e o Apêndice C diz que não: a relação cai de 15 para 14 ou 13 g por unidade, e num prato de 60 g o bolus passa de 4,0 para 4,3 ou 4,6 UI — de 7% a 15% mais insulina em cada refeição. A escolha e o porquê estão nas divergências.
Início do rastreio e periodicidade da glicada: o Apêndice D contra os itens 13 e 12. O item 13 manda rastrear as complicações crônicas anualmente a partir do quinto ano de doença, ou antes na puberdade ou por critério clínico; o Apêndice D escreve, para o adulto, avaliação oftalmológica e de nefropatia “após o diagnóstico”, anual. Num adulto diagnosticado aos 30 anos, a primeira regra pede o primeiro fundo de olho e a primeira albuminúria até os 35; a segunda pede cinco rodadas anuais — aos 30, 31, 32, 33 e 34 anos — que a primeira não pede. O mesmo apêndice escreve hemoglobina glicada a cada seis meses para todos, enquanto o item 12 manda dosar a cada três meses e só admite o semestral no controle ótimo: fora da meta, são duas dosagens por ano contra quatro. O prazo de cinco anos é também o do protocolo de retinopatia diabética, de 2021, e o do protocolo do tipo 2, de 2026, para a albuminúria no tipo 1.
Meta de jejum da gestante: 95 ou 90. O item 6.3 do protocolo fixa, para a gestante com tipo 1, glicemia de jejum e pré-prandial entre 65 e 95 mg/dL — até 99 em quem tem risco de hipoglicemia —, com pico de até 140 uma hora e até 120 duas horas depois da refeição. A Tabela 2 do mesmo documento escreve, na coluna das gestantes, glicemia pré-prandial abaixo de 90. Com jejum de 92 mg/dL, a gestante está no alvo pelo item 6.3 e fora dele pela tabela, e a basal — que depois da 16ª semana já sobe cerca de 5% por semana — subiria ainda mais. Esta apostila adota 95 mg/dL, do item escrito para a gestante, que é também a meta de jejum usada no capítulo “Diabetes mellitus gestacional”, de Obstetrícia.
Meta do idoso: a tabela e a nota de rodapé dizem coisas diferentes. A Tabela 1 do protocolo — a régua do critério de manutenção dos análogos — fixa para o idoso hemoglobina glicada “entre 7,5 e 8,5”%. A nota da mesma tabela diz que o idoso saudável deve ter objetivo mais baixo, como abaixo de 7,5%, e o idoso com múltiplas doenças, comprometimento cognitivo ou dependência, objetivo menos rigoroso, como abaixo de 8,0% a 8,5%. Um idoso saudável com glicada de 7,2% está abaixo da faixa da tabela e dentro da meta da nota. No laudo de manutenção do análogo, escreva a meta individual pela nota e diga qual é.
A conduta, hora a hora
A conduta do tipo 1 não tem hora zero de pronto-socorro. Tem um primeiro dia, que decide se o paciente sai da unidade com insulina e com um papel na mão, e depois uma sequência de consultas em que a dose é ajustada pela glicemia que o próprio paciente mede. Os marcos abaixo seguem o Xavier do primeiro dia ao primeiro ano e à consulta anual que vem depois dele.
A lógica da prescrição vem do protocolo: esquema basal-bolus com NPH e regular no primeiro degrau, dose total por peso, metade em basal, ajuste da basal pela glicemia do período que ela governa e do bolus pela refeição. O que torna tudo isso difícil não é a conta. É que a conta precisa ser entregue a quem vai executá-la sozinho, várias vezes por dia, sem médico por perto.
A fronteira com o hospital fica aqui. A insulina de quem está internado — a basal no jejum, a escala de correção da enfermaria, a passagem da infusão venosa para a subcutânea — é do capítulo “Hiperglicemia no paciente internado”, de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado, e a cetoacidose instalada é do capítulo “Cetoacidose diabética”. O dia de doença em casa e na unidade básica, antes da cetoacidose, é deste capítulo.
Use duas passagens neste capítulo: primeiro, segurança do diagnóstico e da primeira noite, aplicação correta, reconhecimento de hipoglicemia e regra de não suspender basal; depois, leitura do padrão por horário, relação insulina–carboidrato e correções. Um esquema de seis aplicações descrito em um caso não é obrigação universal: técnica, risco e rotina orientam o esquema viável com a equipe.
Dia 0, 14h30 — na unidade: é insulina, e começa hoje
A primeira decisão é excluir uma emergência metabólica. Xavier tem emagrecimento importante, provável deficiência de insulina e cetonúria de duas cruzes. Ausência de vômitos ou respiração típica não exclui CAD: obter avaliação urgente no mesmo dia com gasometria, eletrólitos e, preferencialmente, beta-hidroxibutirato. Se a unidade não puder avaliar e monitorar, encaminhar à emergência sem esperar quatro horas por uma nova glicemia. Se houver acidose/cetose compatíveis, seguir Cetoacidose diabética. O tratamento com insulina não espera peptídeo C ou autoanticorpos, mas seu regime depende dessa avaliação inicial e do potássio. A proposta basal–prandial abaixo é para depois de excluída a crise e de asseguradas estabilidade, alimentação, técnica e acesso aos insumos. A dose de 0,5 unidade/kg/dia em 60 kg totaliza 30 unidades/dia e serve como exemplo inicial supervisionado; ela será titulada pelo registro e pela resposta. Não transformar 20% de uma dose diária ainda estimada em regra validada de correção repetida. Uma glicemia de 231 mg/dL ao fim da observação, isoladamente, não autoriza alta. Registrar a exclusão de acidose relevante, a reavaliação das cetonas e o plano para a primeira noite. Se a CAD foi confirmada, a transição é a daquele capítulo, com cobertura basal antes de interromper insulina IV. A metformina isolada não atende à deficiência de insulina deste quadro; a classificação etiológica segue sem atrasar o tratamento.
Prescrição- Suspender cloridrato de metformina 850 mg.
- Avaliação urgente no mesmo dia: gasometria venosa, eletrólitos com potássio e cetonemia quando disponível. Tratamento inicial com insulina e líquidos pela equipe conforme exclusão ou confirmação de CAD; não repetir automaticamente 6 unidades calculadas como 20% de uma dose ainda estimada.
- Soro fisiológico 0,9% por via venosa, em acesso calibroso, durante a observação, como pede o Caderno 36 para esta linha da tabela; o volume se decide pela clínica, e o documento não o fixa.
- Monitorar glicemia e estado clínico durante a avaliação, com recontrole precoce após insulina segundo o protocolo utilizado. Sem meios para excluir CAD ou acompanhar a resposta, encaminhar imediatamente. Alta somente depois de documentada estabilidade metabólica e assegurados tratamento e retorno.
- Insulina humana NPH 100 UI/mL: 5 UI por via subcutânea antes do café, 5 UI antes do almoço e 5 UI às 22 horas, a partir das 22 horas de hoje (Protocolo do tipo 1, itens 9 e 9.1).
- Insulina humana regular 100 UI/mL: 5 UI por via subcutânea 30 minutos antes do café, do almoço e do jantar, a partir do jantar de hoje.
Dia 0, 18h40 — antes de ele sair, o que vai escrito no papel
O Xavier não vai guardar quase nada do que for dito depois da palavra insulina. Por isso tudo o que decide a primeira noite vai escrito, e a aplicação da NPH das 22 horas é ensaiada ainda na sala, com a enfermeira, na seringa e na barriga dele. Técnica, pelo Caderno 36: rolar o frasco de NPH entre as mãos até homogeneizar; quando misturar as duas na mesma seringa, aspirar antes a regular, para não contaminar o frasco dela com NPH; pinçar a pele levemente, sem necessidade de álcool; mudar o ponto a cada aplicação, com pelo menos 1,5 cm entre um e outro, sem repetir o mesmo ponto antes de 15 a 20 dias. O frasco lacrado fica na geladeira, entre 2 °C e 8 °C, nunca no congelador; o frasco em uso pode ficar em temperatura ambiente, entre 15 °C e 30 °C, e perde potência depois de um mês, então a data de abertura vai escrita nele. Na moto, a insulina anda em bolsa térmica, sem gelo encostado e longe do sol. Hipoglicemia: glicemia abaixo de 70 mg/dL, mesmo sem sintomas, são 15 g de carboidrato de absorção rápida e nova glicemia em 15 minutos. Se ele ficar confuso e não conseguir engolir, a instrução para quem estiver junto é deitá-lo de lado, não forçar nada pela boca e chamar socorro; as equivalências dos 15 g e o que se faz no serviço estão no capítulo “Antes da hipótese, a glicemia”. Antes de subir na moto, glicemia: dirigir está entre as atividades que o protocolo cita como limitadas pela hipoglicemia grave. Dia de doença: a NPH não é suspensa, nem sem comida. A frase vai sublinhada no papel.

O cuidado inclui técnica de aplicação, monitorização, reconhecimento de hipoglicemia, descarte seguro e registro. NPH em suspensão é turva e regular é transparente, mas aspecto não substitui leitura de rótulo e conferência da prescrição. A mistura, quando prescrita e compatível, exige técnica própria; nem todas as insulinas podem ser misturadas. A quantidade de açúcar desenhada não representa uma dose. Ilustração didática original. Prescrição- Dispensar seringas/agulhas compatíveis com a dose e insumos suficientes, preferindo uso único conforme o produto e as recomendações de técnica; conferir graduação, descarte e capacidade de enxergar/manusear. A orientação antiga de reutilização não deve substituir o planejamento de acesso aos insumos.
- Tiras reagentes e lancetas para 4 glicemias por dia: antes do café, do almoço e do jantar e ao deitar (Protocolo do tipo 1: pelo menos 3 a 4 testes por dia).
- Caderno de registro: horário, glicemia, dose aplicada, o que comeu, exercício e sintomas.
- Carboidrato de absorção rápida sempre no bolso da jaqueta, na quantidade de 15 g.
- Plano escrito de dia de doença: a NPH nunca é suspensa; glicemia de 4 em 4 horas; ida à unidade no mesmo dia; vômito persistente, dor abdominal, respiração rápida ou incapacidade de beber levam direto à emergência.
- Retorno amanhã às 8 horas, em jejum, com o caderno.
Dia 1, 8 horas — o caderno da primeira noite e os exames da primeira manhã
O caderno tem três números: 198 mg/dL antes do jantar, 176 ao deitar e 164 em jejum. Nenhuma hipoglicemia, nenhum vômito, cetonúria de uma cruz na fita de hoje. Nada se ajusta com uma noite de dados — o protocolo pede a leitura da variação da glicemia ao longo de dias, sem lanche e sem correção no meio —, e o que a primeira manhã faz é conferir a técnica e colher o que o diagnóstico e o seguimento pedem. A técnica tem um erro, e ele aparece quando se pede ao Xavier para mostrar como preparou a seringa: ele aspirou primeiro a NPH e depois enfiou a mesma agulha no frasco da regular. O Caderno 36 manda aspirar a regular antes justamente para que o frasco dela não se contamine com NPH. Ele refaz com a enfermeira, e o frasco de regular é trocado. Os exames saem juntos. Peptídeo C e pesquisa de anticorpos anti-ilhota e anti-insulina, pelos códigos do protocolo, para registrar o tipo de diabetes e deixar pronta, se um dia for preciso, a documentação dos análogos. Hemoglobina glicada, porque o protocolo a pede no início do tratamento. TSH e perfil lipídico, que o Apêndice D pede desde o diagnóstico. O exame dos pés, com monofilamento, na própria consulta. O fundo de olho e a albuminúria não entram agora: a doença do Xavier começou há poucos meses, com sintomas que têm data, e a régua é a dos cinco anos.
Prescrição- Manter o esquema de ontem, sem mudança de dose.
- Colher exames para classificação e seguimento conforme disponibilidade e avaliação clínica: peptídeo C com glicemia simultânea, autoanticorpos apropriados, hemoglobina glicada, TSH e perfil lipídico. Interpretar anti-insulina com cautela após início de insulina exógena; GAD, IA-2 e ZnT8 podem contribuir. Nenhum desses resultados deve atrasar insulina no quadro de deficiência clínica.
- Exame dos pés com monofilamento de 10 g e sensibilidade vibratória e térmica, registrado hoje.
- Revisão da técnica com a enfermeira: regular aspirada primeiro; substituir o frasco de regular contaminado.
- Retorno em 7 dias com o caderno completo e duas glicemias às 3 horas nas noites da semana.
Dias 2 a 7 — ajustar pela glicemia que cada dose governa
A semana traz o caderno inteiro, e o padrão só aparece lendo por horário. Ao deitar, entre 138 e 152 mg/dL, sem lanche; em jejum, 186, 194, 179, 201 e 188. A glicemia das três da manhã, medida em duas noites, deu 164 e 172: sem hipoglicemia, a madrugada sobe sozinha. Antes do almoço, entre 118 e 136; antes do jantar, entre 112 e 131. Nenhum valor abaixo de 70. Do deitar ao jejum, sem lanche nem bolus antes de dormir, a glicemia sobe de 40 a 50 mg/dL — acima dos 30 que o protocolo usa como sinal. A dose que governa esse período é a última basal antes da alteração, a NPH das 22 horas, e a regra é aumentá-la em 10% a 20%. Com o jejum consistentemente acima do alvo pré-prandial do adulto, que vai de 70 a 130 mg/dL, ela sobe 20%: de 5 para 6 UI. As outras doses ficam como estão, porque os valores que elas governam estão no alvo. Mude uma dose por vez e leia alguns dias de caderno antes da próxima mudança. É essa disciplina, e não uma fórmula, que evita a oscilação que faz o paciente desistir. A escala de correção fica para depois: na primeira semana, com dose fixa e comida constante, o que se quer ver é o padrão, e cada correção no meio apaga um pedaço dele.
Prescrição- Insulina humana NPH 100 UI/mL: 5 UI antes do café, 5 UI antes do almoço e 6 UI às 22 horas — aumento de 20% na dose que governa a madrugada (Protocolo do tipo 1, item 9.1).
- Insulina humana regular 100 UI/mL: manter 5 UI 30 minutos antes do café, do almoço e do jantar.
- Glicemia às 3 horas em duas noites da próxima semana, sem lanche antes de dormir.
- Retorno em 7 dias.
Semana 6 — hipoglicemia às quatro da tarde e os exames que voltaram
O caderno mudou de lado. Jejum entre 96 e 124, antes do almoço entre 88 e 110 — e, em três dias da última semana, glicemias de 62, 58 e 66 mg/dL entre as 16 e as 17 horas, com tremor e suor, que ele tratou com açúcar como estava no papel. Duas foram em dias de muita entrega, com o almoço engolido às 11h30 e nada até a noite. São duas causas somadas, e o protocolo manda procurar as causas antes de mexer em qualquer outra coisa: refeição reduzida sem redução da dose e, muito provavelmente, a entrada na remissão parcial — a dose total dele, 31 UI, passou a sobrar num pâncreas que, com a glicemia controlada, voltou a contribuir um pouco. A dose que governa a tarde é a NPH aplicada antes do almoço, que tem pico nesse horário. Ela cai 20%, de 5 para 4 UI, e o lanche da tarde entra no plano. A regra do protocolo para a hipoglicemia por lanche omitido ou refeição atrasada é essa: reduzir em 10% a 20% a última basal aplicada antes do episódio. Os exames voltaram. Anticorpo anti-ilhota positivo e peptídeo C de 0,4 ng/mL — abaixo dos 0,9 ng/mL que o Caderno 36 usa para sugerir tipo 1 —, com glicada de 11,4% no dia 1, TSH normal e perfil lipídico dentro do esperado. O diagnóstico fica registrado, e a notícia que o Xavier precisa ouvir é a da conversa deste capítulo: a dose caiu, pode cair mais um pouco, e a insulina não para.
Prescrição- Insulina humana NPH 100 UI/mL: 5 UI antes do café, 4 UI antes do almoço e 6 UI às 22 horas (redução de 20% na dose que governa a tarde — Protocolo do tipo 1, item 9.1).
- Insulina humana regular 100 UI/mL: 5 UI antes do café, do almoço e do jantar; no dia em que não houver almoço de verdade, a regular do almoço não é aplicada, e a NPH do almoço é mantida.
- Lanche com carboidrato no meio da tarde, antes das 16 horas, nos dias de entrega.
- Registrar no prontuário o diagnóstico de diabetes tipo 1 com os resultados: anticorpo anti-ilhota positivo e peptídeo C de 0,4 ng/mL.
- Retorno em 4 semanas; hemoglobina glicada na semana 12.
Mês 3 — a primeira glicada de controle e o prato que muda de tamanho
Glicada de 7,4%, contra 11,4% no começo. O alvo do adulto é abaixo de 7%, e o caderno mostra onde está a diferença: jejum e glicemias antes das refeições quase todos entre 90 e 140 mg/dL, mas a glicemia de duas horas depois do jantar oscila de 150 a 260, porque o jantar muda muito de um dia para outro — prato cheio depois de doze horas na rua, ou só um lanche. É aqui que entra a contagem de carboidrato. O protocolo a descreve como a estratégia em que o paciente conta os gramas da refeição e ajusta a insulina, com relação carboidrato/insulina do adulto entre 10 e 20 g por unidade, e diz que ela pode ser usada por qualquer pessoa com diabetes; para quem não conta, prevê dose fixa com quantidade constante de carboidrato. O Xavier quer contar. A nutricionista da equipe começa com 15 g por unidade no jantar: 60 g de carboidrato, 4 UI de regular; 90 g, 6 UI. E entra a correção, com a fórmula escrita com parênteses: com fator 50 e objetivo de 100 mg/dL, glicemia de 250 antes do jantar soma (250 − 100) ÷ 50 = 3 UI à dose do prato. Com a regular, a conta tem um limite que precisa ser dito: a aplicação é 30 minutos antes, então o prato precisa estar decidido antes de começar a comer. O análogo rápido, que permite aplicar logo antes da refeição, não é porta aberta para ele: o protocolo exige, entre outros requisitos, hipoglicemia grave, hipoglicemias repetidas ou mau controle persistente, e ele não tem nenhum dos três. O ajuste da relação espera a glicemia de antes do jantar estar no alvo e usa a meta de duas horas abaixo de 180 mg/dL que esta apostila adota: consistentemente acima, a relação cai 1 a 2 g por unidade; consistentemente abaixo, sobe.
Prescrição- Insulina humana regular 100 UI/mL antes do jantar: 1 UI para cada 15 g de carboidrato do prato (60 g = 4 UI; 90 g = 6 UI), 30 minutos antes (Protocolo do tipo 1, apêndice C).
- Correção antes do jantar: (glicemia − 100) ÷ 50, somada à dose do prato; abaixo de 70 mg/dL, tratar a hipoglicemia primeiro e reduzir a dose.
- Glicemia 2 horas depois do jantar em todos os dias da próxima quinzena.
- Manter NPH 5 UI antes do café, 4 UI antes do almoço e 6 UI às 22 horas, e regular 5 UI antes do café e do almoço.
- Nova hemoglobina glicada em 3 meses (fora da meta, a cada 3 meses — Protocolo do tipo 1, item 12).
Mês 6 — a consulta de rastreio, o dia de doença que aconteceu e a moto
Glicada de 6,9%. Duas hipoglicemias leves no mês, as duas explicadas — um jogo de futebol sem lanche e uma cerveja num aniversário —, nenhuma grave, nenhuma noturna. E um dia de doença de verdade, no mês 4: uma virose com febre e diarreia em que ele fez o que estava no papel. Manteve a NPH, mediu de 4 em 4 horas e, com 286 mg/dL e prostração, foi à unidade; a fita de urina não tinha cetona, ele recebeu 10% da dose diária em regular, 3 UI, e a glicemia caiu para 212 em quatro horas. As duas hipoglicemias são duas das causas que o protocolo manda procurar antes de qualquer outra coisa: exercício sem redução de dose e álcool. O futebol pede lanche antes e glicemia antes e depois, lembrando que o Caderno 36 manda vigiar a glicemia por até 48 horas depois do esforço em quem já não produz insulina. A cerveja pede comida junto e glicemia antes de dormir, porque o protocolo do tipo 2, de 2026, alerta para a hipoglicemia tardia depois de beber em quem usa insulina. O rastreio segue o calendário do critério: TSH e perfil lipídico no aniversário do diagnóstico, exame dos pés anual, pressão arterial em toda consulta, e o primeiro fundo de olho e a primeira albuminúria até o quinto ano da doença. A moto também entra na consulta: ele mede a glicemia antes de sair, e o carboidrato continua no bolso da jaqueta.
Prescrição- Manter o esquema; hemoglobina glicada a cada 3 meses até dois resultados seguidos na meta, e depois a cada 6 meses (Protocolo do tipo 1, item 12).
- Antes de futebol ou de esforço longo: lanche com carboidrato e glicemia antes e depois; vigiar a glicemia por até 48 horas (Caderno 36).
- Bebida alcoólica sempre com comida e com glicemia antes de dormir (Protocolo do tipo 2, 2026: hipoglicemia tardia depois de beber).
- Rastreio no aniversário do diagnóstico: TSH, perfil lipídico e exame dos pés; primeiro fundo de olho e primeira albuminúria até o 5º ano (Protocolo de retinopatia diabética, 2021; Protocolo do tipo 2, 2026).
Todo ano, pela vida — a consulta que renova o que não pode faltar
A partir daqui, o tipo 1 é consulta de manutenção, e o protocolo fixa o piso: acompanhamento por toda a vida, com avaliação clínica e laboratorial pelo menos duas vezes por ano, com endocrinologista sempre que possível ou, na falta dele, com clínico experiente em diabetes, e em conjunto com a atenção primária. O que a consulta anual renova não é só a receita. Ela renova o plano de dia de doença e o de hipoglicemia, por escrito. Revê a técnica e o rodízio dos locais de aplicação, que o Caderno 36 manda planejar para evitar a lipodistrofia. Confere se o registro das hipoglicemias continua existindo, porque é ele que um dia pode justificar ou negar o laudo do análogo. E, na mulher com potencial de engravidar, recoloca a contracepção e o planejamento da gravidez na conversa, com a meta de glicada abaixo de 6,5% antes da concepção. A consulta anual também olha para o que não é dose. O protocolo lembra que pessoas com depressão e ansiedade têm pior controle glicêmico, e que intervenções psicológicas para a adesão reduzem a glicada, ainda que com efeito pequeno. Recomenda cessação do tabagismo e cuidado odontológico, porque a doença periodontal prejudica o controle, e descreve o cuidado não médico feito por enfermeiro, farmacêutico, nutricionista, psicólogo, cirurgião-dentista, assistente social e educador físico. Encaminhar para essa equipe também é prescrição, e vai escrito como tal. Se, em algum desses anos, as hipoglicemias voltarem a se repetir — duas ou mais por semana abaixo de 54 mg/dL, ou abaixo de 70 com sintoma, ou mais de uma noturna por semana — depois de excluídas as causas, com automonitorização de pelo menos três vezes ao dia e acompanhamento em dia, o laudo do análogo de ação rápida é o próximo degrau. Três meses de NPH com análogo rápido, e o mesmo critério, abrem o análogo de ação prolongada. E a manutenção de cada um se comprova pelos critérios dos seis meses anteriores, ou o paciente volta ao degrau de antes.
Prescrição- Consulta médica pelo menos duas vezes por ano (Protocolo do tipo 1, item 13).
- Renovar por escrito o plano de dia de doença e o de hipoglicemia.
- Revisar a técnica e o rodízio dos locais de aplicação.
- Renovar a receita de NPH, regular, tiras, lancetas e seringas.
- Na mulher com potencial de engravidar: contracepção eficaz até glicada abaixo de 6,5% e decisão de engravidar (Protocolo do tipo 1, item 6.3).
- Avaliação psicológica quando houver cetoacidose ou dificuldade de controle (Protocolo do tipo 1, apêndice D).
Como saber se está funcionando
No tipo 1, reavaliar é ler o caderno e perguntar, para cada horário, se aquela glicemia está dizendo que a insulina daquele período falta ou sobra. A glicada fecha o trimestre; o caderno decide a semana.
Os sete parâmetros abaixo são os que mudam dose ou mudam o lugar do cuidado. Os alvos são os da tabela de objetivos do protocolo para o adulto, com as escolhas desta apostila indicadas onde o documento se contradiz.
Esperado: 70 a 130 mg/dL, o alvo pré-prandial do adulto
Se não melhora: Acima do alvo por vários dias: antes de subir a NPH das 22 horas, meça a glicemia das 3 horas. Madrugada sem hipoglicemia e subida de mais de 30 mg/dL do deitar ao jejum, sem lanche: aumente em 10% a 20% a NPH das 22 horas. Madrugada baixa: a NPH está sobrando de madrugada — confira se é aplicada às 22 horas, e não no jantar, e reduza de 10% a 20%.
Esperado: nenhum valor abaixo de 70 mg/dL e nenhuma queda de mais de 30 mg/dL em relação à glicemia ao deitar
Se não melhora: Hipoglicemia noturna: NPH noturna às 22 horas e redução de 10% a 20% nela. Mais de uma noturna por semana que persiste depois de corrigidas as causas, com automonitorização e acompanhamento em dia, é critério do protocolo para o laudo do análogo.
Esperado: 70 a 130 mg/dL
Se não melhora: Acima do alvo com a glicemia de duas horas depois da refeição anterior também alta: o problema começa no bolus daquela refeição. Acima do alvo com a pós-prandial anterior no alvo: suba de 10% a 20% a NPH do período — a da manhã para o pré-almoço, a do almoço para o pré-jantar. Abaixo de 70: procure lanche omitido ou refeição atrasada e reduza de 10% a 20% a basal aplicada antes do episódio.
Esperado: abaixo de 180 mg/dL, com a glicemia de antes daquela refeição no alvo
Se não melhora: Consistentemente acima: suba a dose fixa daquela refeição, ou reduza a relação carboidrato/insulina em 1 a 2 g por unidade. Consistentemente abaixo, ou hipoglicemia antes da refeição seguinte: faça o contrário. Entre 140 e 180, não mexa na dose por causa desse número.
Esperado: nenhuma grave, nenhuma noturna; as leves raras e com causa conhecida
Se não melhora: Duas ou mais por semana abaixo de 54 mg/dL, ou abaixo de 70 com sintoma: procure refeição menor, exercício, álcool, local de aplicação e dose excessiva, e reduza a dose que governa o horário. Hipoglicemia grave: plano revisto com a família e meta relaxada; se ela se repetir com as causas excluídas, laudo do análogo pelo critério do protocolo.
Esperado: abaixo de 7% no adulto, sem hipoglicemia repetida
Se não melhora: Glicada alta com caderno bom: o caderno está incompleto, a técnica tem erro ou a insulina perdeu potência — confira data de abertura, armazenamento e local de aplicação antes de subir dose. Glicada alta com caderno ruim: ajuste por horário, uma dose por vez. Glicada na meta com hipoglicemias repetidas: não é controle bom, e a dose desce.
Esperado: peso estável depois da recuperação inicial; pele dos locais de aplicação sem nódulo nem área endurecida
Se não melhora: Perda de peso num paciente com tipo 1 já tratado: insulina insuficiente ou omitida — pergunte, sem acusar, se alguma dose está sendo pulada. Ganho de peso com a intensificação: revise dose e alimentação. Nódulo ou área endurecida no local de aplicação: lipodistrofia, e o rodízio precisa ser refeito.
Onde o erro machuca
O dano: O paciente recebe mais um comprimido, depois outro, enquanto a deficiência de insulina avança. O protocolo descreve esse caminho — antidiabético oral até que a falta de insulina fique evidente — e o chama de inadequado; o desfecho que ele prepara é a cetoacidose, que o Caderno 36 lembra ser, diversas vezes, a primeira manifestação do tipo 1.
Como pegar a tempo: Reavalie o diagnóstico sempre que o adulto emagrecer sem tentar, piorar mês a mês com boa adesão, tiver cetona na urina ou for magro. Nesse paciente, a pergunta é se ele ainda fabrica insulina, e a resposta prática é começar a insulina e colher peptídeo C e anticorpos, sem esperar o resultado.
O dano: Sem insulina basal, quem não fabrica insulina produz cetona em horas, e o dia de doença — em que a infecção já aumentou a necessidade de insulina — vira cetoacidose. É exatamente a omissão que o protocolo proíbe quando escreve que o tratamento com insulina não pode ser interrompido no tipo 1.
Como pegar a tempo: Entregue por escrito, no primeiro dia e em toda consulta anual, que a basal nunca é suspensa. No dia de doença, o bolus acompanha o que se come, e o reforço de regular acompanha a glicemia e a cetonúria da unidade.
O dano: A NPH do jantar tem pico de madrugada e se esgota ao amanhecer. O jejum alto pode ser falta de insulina no fim da noite ou consequência de hipoglicemia de madrugada, e subir a dose, no segundo caso, aprofunda a hipoglicemia noturna que o paciente muitas vezes nem percebe.
Como pegar a tempo: Aplique a última NPH às 22 horas, ou oito horas antes de acordar, como manda o protocolo. Antes de subir a dose noturna, meça a glicemia das 3 horas em duas ou três noites.
O dano: A escala de exemplo do protocolo dá 3 UI com glicemia abaixo de 50 mg/dL e 4 UI entre 51 e 70, sem mandar tratar a hipoglicemia antes. Quem segue a tabela ao pé da letra aplica insulina de ação curta em quem já está em hipoglicemia pela definição do próprio protocolo.
Como pegar a tempo: Abaixo de 70 mg/dL: 15 g de carboidrato de absorção rápida, nova glicemia em 15 minutos e só então a refeição, com o bolus reduzido. Ensine a escala com ela na mão, riscando as duas primeiras linhas.
O dano: Na lua de mel, depois de exercício, com refeição pulada ou depois de beber, a dose que era certa passa a sobrar, e a hipoglicemia se repete. A repetição tira do paciente o aviso dos sintomas e prepara a hipoglicemia grave — e, se o médico concluir que falta um análogo, a troca de insulina esconde uma causa que continua lá.
Como pegar a tempo: Procure as causas que o protocolo lista antes de trocar de insulina, reduza em 10% a 20% a dose que governa o horário do episódio e ensine o paciente a reduzir ou pular o bolus da refeição menor. A lua de mel pede redução, nunca suspensão.
O dano: Aspirar a NPH antes da regular contamina o frasco da regular com NPH. NPH sem homogeneizar entrega doses diferentes a cada aplicação. Repetir o mesmo ponto leva à lipodistrofia, que o Caderno 36 manda prevenir com o rodízio. Nos três casos, a glicemia oscila sem que a dose prescrita tenha mudado, e o médico ajusta a dose errada.
Como pegar a tempo: Peça ao paciente para preparar e aplicar na sua frente no primeiro retorno e na consulta anual: rolar a NPH, aspirar a regular primeiro, pinçar a pele, manter 1,5 cm entre os pontos e não repetir o mesmo ponto antes de 15 a 20 dias.
O que dizer ao paciente e à família
A conversa do tipo 1 não é uma, é uma série, e a primeira acontece com o paciente pensando no emprego, e não na doença. O que ele precisa sair sabendo no primeiro dia é pouco e é concreto: que é para sempre, que tem conserto no dia a dia, que a insulina de base não para e o que fazer com uma glicemia baixa.
As falas abaixo foram escritas para o Xavier e para quem mora com ele. Troque as palavras e mantenha a ordem das ideias: primeiro o que é, depois o que muda amanhã, por último o que está nas mãos dele.
Dar o diagnóstico a quem achava que tinha tipo 2
““Xavier, o seu diabetes não é o tipo 2 que piorou. O jeito como o seu corpo reagiu mostra que o pâncreas parou de fabricar insulina, e comprimido nenhum faz ele voltar a fabricar. É por isso que o remédio não baixava a glicose, e é por isso que você emagreceu. A insulina que falta a gente repõe, e ela começa a funcionar hoje.””
Não diga: Dizer que ele “não se cuidou” ou que “o diabetes ficou grave”. Ele fez o que foi pedido, e a culpa afasta o paciente justamente quando ele precisa voltar amanhã.
“Isso é para sempre?”
““É. O tipo 1 não passa. Nas próximas semanas a sua dose pode até diminuir, porque no começo o pâncreas ainda ajuda um pouco — mas isso é uma fase, e ela acaba. Se um dia a sua glicose ficar boa com pouca insulina, é sinal de que a dose está certa, não de que você pode parar.””
Não diga: Prometer que a insulina “talvez possa ser suspensa depois”, ou deixar a lua de mel ser entendida como cura.
“E a moto? Eu vivo disso.”
““Você vai continuar trabalhando. O que muda é o que vai no bolso e o que você faz antes de sair: medir a glicose antes de subir na moto, levar o açúcar na jaqueta e parar a moto se sentir tremor, suor frio ou a vista escurecer. Glicose baixa em cima da moto é o que a gente não pode deixar acontecer, e dá para evitar.””
Não diga: Proibir o trabalho sem alternativa, ou tratar o risco como detalhe. As duas respostas fazem o paciente parar de contar a verdade sobre as hipoglicemias.
Orientar quem mora com ele sobre a hipoglicemia
““Se ele ficar estranho, suado ou confuso, e ainda conseguir engolir, dê açúcar ou suco e meça a glicose depois de 15 minutos. Se ele não conseguir engolir, não ponha nada na boca dele: deite-o de lado e chame o socorro pelo 192. Depois que passar, anote a hora e o que ele tinha comido, porque é isso que vai mudar a dose.””
Não diga: Ensinar a forçar comida ou líquido na boca de quem não engole, ou deixar a família sem o número do socorro.
“Se eu não comer, não tomo a insulina, né?”
““A insulina da comida, a regular, depende do que você come: sem refeição, sem aquela dose. A NPH é diferente. Ela é a insulina que o seu corpo usaria até dormindo, e sem ela a glicose sobe e aparece cetona em poucas horas, com comida ou sem comida. Doente, com febre ou diarreia, a NPH continua, você mede a glicose de quatro em quatro horas e vem à unidade no mesmo dia.””
Não diga: Responder “se não comer, não aplica” sem separar as duas insulinas — é a frase que manda o paciente para a cetoacidose.
“Posso beber?”
““Pode, com três cuidados. Sempre com comida, nunca de estômago vazio. Medir a glicose antes de dormir. E saber que a glicose pode cair horas depois de beber, de madrugada, quando você não está vendo — então quem estiver com você precisa saber que você usa insulina.””
Não diga: Proibir de forma genérica, que faz o paciente beber do mesmo jeito e deixar de contar, ou liberar sem falar da hipoglicemia tardia.
“Meu primo usa uma caneta que aplica na hora de comer. Por que eu não?”
““Essa insulina existe no SUS, mas tem regra para entrar. Primeiro se usa a NPH com a regular por pelo menos três meses. Se, mesmo com tudo certo — horário, comida, técnica —, aparecerem hipoglicemias repetidas, uma hipoglicemia grave ou o controle não chegar lá, eu faço um laudo, e você recebe a outra. Por isso o seu caderno é tão importante: é ele que prova.””
Não diga: Dizer que “no SUS não tem”, que é falso, ou prometer a caneta sem critério. As duas respostas quebram a confiança no dia em que a farmácia responder.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
No diagnóstico, e anual — Protocolo do tipo 1, Apêndice D (Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 17/2019)
A tabela de avaliação e monitoramento do Apêndice D separa criança e adulto. Para a criança, avaliação oftalmológica e de nefropatia depois de cinco anos de doença ou na puberdade; para o adulto, “após o diagnóstico”, anual, com a ressalva de que o início pode ser antecipado a critério médico. As referências da tabela são as diretrizes britânicas de excelência clínica para crianças e para adultos e a diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes de 2017-2018.
Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Diabete Melito Tipo 1, Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 17, de 12/11/2019, Apêndice D
Até o quinto ano, e anual — Protocolo do tipo 1, item 13 (2019); protocolo de retinopatia diabética (2021); protocolo do tipo 2 (2026)
O item de acompanhamento do mesmo protocolo manda rastrear as complicações crônicas anualmente a partir do quinto ano de duração da doença, ou antes na puberdade ou por critério clínico. O protocolo de retinopatia diabética, de 2021, escrito para o olho, fixa o primeiro exame no tipo 1 em até cinco anos após a instalação do diabetes, ou no início da puberdade, e reserva o exame logo após o diagnóstico para o tipo 2. O protocolo do tipo 2, de 2026, escreve o rastreio da doença renal no diagnóstico do tipo 2 e após cinco anos do diagnóstico do tipo 1.
Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 17/2019, item 13; Portaria Conjunta nº 17, de 01/10/2021 (retinopatia diabética), seção 3; Portaria SCTIE/MS nº 13, de 21/02/2026 (tipo 2)
Esta apostila adota o quinto ano. Para o olho, decide o escopo: o protocolo de retinopatia é o documento escrito para essa decisão, e é dois anos mais novo. Para o rim, decide a coerência: o Apêndice D contradiz o item 13 do próprio protocolo, e o documento mais novo que trata do assunto, o do tipo 2 de 2026, escreve os cinco anos para o tipo 1. A exceção decide pelo paciente, e é leitura desta apostila: o prazo do protocolo de retinopatia conta da instalação da doença, e há adultos em que ela começou muito antes do diagnóstico — o LADA tratado anos com comprimido, o adulto que chega com glicemia alta sem data de início. Nesses, a instalação é desconhecida, e os dois exames vão no diagnóstico, como no tipo 2. No Xavier, cujos sintomas têm data de poucos meses, a régua é a dos cinco anos; no Pascoal, com três anos de comprimido e glicada subindo, o fundo de olho e a albuminúria vão agora.
Alvo entre 90 e 140 mg/dL — Protocolo do tipo 1, Apêndice C (2019)
Ao ensinar o ajuste da relação carboidrato/insulina, o apêndice escreve que, para adultos, se usa geralmente como objetivo pós-prandial glicemia entre 90 e 140 mg/dL, medida duas a três horas depois da refeição, e manda aumentar ou reduzir a relação em 1 a 2 g por unidade quando a pós-prandial fica consistentemente abaixo ou acima do alvo, de preferência nas refeições em que a glicemia de antes está no alvo.
Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Diabete Melito Tipo 1, Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 17/2019, Apêndice C
Alvo abaixo de 180 mg/dL — Protocolo do tipo 1, Tabela 2 (2019), com base na diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes de 2017-2018
A tabela de objetivos glicêmicos do corpo do protocolo fixa, para o adulto, glicemia pré-prandial entre 70 e 130 mg/dL, pós-prandial abaixo de 180 mg/dL e hemoglobina glicada abaixo de 7%. É a tabela que o próprio documento apresenta como a dos objetivos a determinar individualmente, conforme a idade do paciente e a capacidade de identificar e tratar hipoglicemias.
Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Diabete Melito Tipo 1, Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 17/2019, item 7, Tabela 2
Esta apostila adota abaixo de 180 mg/dL. Os dois números estão no mesmo documento, então escopo, data e natureza empatam, e decide a coerência: a Tabela 2 é a declaração de metas do protocolo e conversa com a meta de glicada do adulto, enquanto o 90 a 140 aparece só no apêndice, como prática usual, sem se reconciliar com a tabela. A consequência para o paciente pesa do mesmo lado: perseguir 140 depois de cada refeição, com regular aplicada 30 minutos antes e contagem aproximada, aumenta o bolus de 7% a 15% por refeição num paciente cuja ameaça imediata é a hipoglicemia. Pós-prandial consistentemente acima de 180, com a glicemia de antes no alvo: ajuste. Entre 140 e 180: não mexa na dose por causa desse número. Entre as duas regras do documento, a escolha é desta apostila.
A cada 6 meses, para todos — Protocolo do tipo 1, Apêndice D (2019)
A tabela de avaliação e monitoramento do Apêndice D lista a hemoglobina glicada a partir do diagnóstico, a cada seis meses, sem separar quem está na meta de quem não está. Uma nota do mesmo documento, junto ao Apêndice D, recomenda para adultos com controle estável duas medidas anuais.
Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Diabete Melito Tipo 1, Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 17/2019, Apêndice D
No início e a cada 3 meses; semestral só no controle ótimo — Protocolo do tipo 1, item 12 (2019)
O item de monitorização manda medir a glicada no início do tratamento e a cada três meses, podendo ser apenas semestral para quem tem controle ótimo. O mesmo item lembra que a glicada reflete os últimos três meses de controle e que a avaliação não se restringe a ela.
Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Diabete Melito Tipo 1, Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 17/2019, item 12
Esta apostila adota o item 12. Para quem está bem, não há conflito: o semestral do Apêndice D e o semestral do controle ótimo coincidem no paciente estável na meta, e a nota do próprio documento diz isso. O conflito está no paciente fora da meta, e ali decide a coerência: a glicada mede três meses, e dosá-la a cada seis num esquema que está sendo ajustado deixa uma mudança de dose sem avaliação por um trimestre inteiro. No Xavier, dosada no dia 1 e no mês 3, ela volta no mês 6 e segue trimestral até dois resultados seguidos na meta; só então passa a semestral. Tomar dois resultados seguidos como a definição prática de controle ótimo é leitura desta apostila, porque o protocolo não define o termo.
O raciocínio, em voz alta
Lédia Pastore, 44 anos, costureira, tem tipo 1 desde os 19. Usa insulina humana NPH 14 UI antes do café e 10 UI às 19 horas, no jantar, e regular 6 UI antes do café, 6 UI antes do almoço e 4 UI antes do jantar — 40 UI por dia, para 62 kg. Veio à unidade porque a glicemia de jejum “não desce”: 232, 248, 261 e 239 mg/dL na última semana. Há dois meses, outro médico subiu a NPH da noite de 8 para 10 UI, e o jejum piorou. Ela conta pesadelos, lençol molhado de suor três vezes na semana e dor de cabeça ao acordar. A glicada é de 8,4%. No fim da consulta, pergunta pela “insulina da caneta”, que viu a vizinha usar.
Ler o padrão antes de ler a dose
Jejum alto, sintomas noturnos e piora depois de subir a NPH da noite formam o padrão da hipoglicemia de madrugada, e não o da falta de insulina. Pela farmacocinética da tabela do protocolo, a NPH aplicada às 19 horas tem pico entre as 23 horas e as 5 da manhã e está se esgotando quando ela acorda. O Caderno 36 manda investigar a hiperglicemia matinal persistente como possível consequência de hipoglicemia noturna antes de aumentar a dose, porque as duas explicações pedem condutas opostas.
Confirmar com a glicemia das 3 horas
Três noites com despertador às 3 horas: 52, 47 e 58 mg/dL — as duas primeiras sem que ela acordasse sozinha. Pela definição do protocolo, são hipoglicemias não graves, abaixo de 54 mg/dL com ou sem sintoma, e noturnas repetidas. E há um segundo achado, que muda o plano: ela não sente essas quedas. Os pesadelos e o suor eram o único aviso.
Mudar o horário da NPH noturna e reduzir a dose
A NPH da noite vai para as 22 horas, que é o horário que o protocolo manda, e cai 20%, que é a redução prevista quando a hipoglicemia vem da última basal aplicada: de 10 para 8 UI. A NPH da manhã e as regulares ficam como estão. Uma mudança por vez, porque o jejum desta semana ainda não diz nada sobre a manhã dela.
Tratar a hipoglicemia sem aviso como tal
Enquanto as hipoglicemias noturnas não desaparecem, as metas ficam relaxadas, como pede o Caderno 36 para quem tem hipoglicemia assintomática, e, se ela passar a usar correção, o objetivo glicêmico da conta sobe de 100 para 150 mg/dL, como o protocolo prevê para quem tem hipoglicemia sem sintoma. O marido aprende o que fazer se a encontrar confusa ou sem conseguir engolir — o tratamento da hipoglicemia grave e as equivalências dos 15 g estão no capítulo “Antes da hipótese, a glicemia”. Glicemia ao deitar todos os dias e, por duas semanas, às 3 horas.
Duas semanas depois, ler de novo
Madrugada entre 112 e 138 mg/dL, nenhum valor abaixo de 70, jejum entre 128 e 156, sem pesadelos. O jejum ainda passa de 130 em alguns dias, mas a variação do deitar ao jejum, sem lanche, ficou abaixo de 30 mg/dL, e a regra do protocolo não pede mudança na basal. A decisão é manter a dose e reler o caderno em duas semanas — subir agora arriscaria trazer de volta a hipoglicemia que acabou de sair.
A insulina da caneta
Lédia usa NPH e regular há anos, o que cumpre o primeiro requisito do protocolo para o análogo de ação rápida. Mas o critério de hipoglicemia só vale depois de excluídas as causas, e a causa das hipoglicemias noturnas dela era a NPH aplicada no jantar. Corrigida a causa, não há critério. Se as noturnas voltarem mais de uma vez por semana com a NPH às 22 horas, técnica revista e alimentação em ordem, com automonitorização de pelo menos três vezes ao dia e acompanhamento pelo menos duas vezes ao ano, o laudo do análogo rápido se justifica — e o de ação prolongada só depois de três meses de NPH com análogo rápido. É isso que ela ouve, com as palavras dela: a caneta existe, e o caderno é que decide.
O que vai para o prontuário
O padrão identificado, as três glicemias das 3 horas, a causa corrigida, a nova prescrição, a meta temporariamente relaxada e o motivo. Esse registro tem duas funções previstas pelo protocolo: se as hipoglicemias persistirem, sustenta o laudo do análogo; e se um dia um análogo tiver de ser interrompido por falta de critério de manutenção, o documento exige que as medidas de adesão tentadas antes estejam registradas em prontuário. Glicada em três meses.
Faça você
Secundino Patrocínio, 53 anos, porteiro, tem tipo 1 diagnosticado aos 45, depois de dois anos tratado com comprimido. Usa NPH 12 UI às 7 horas e 8 UI às 22 horas, e regular 6 UI antes do café, do almoço e do jantar. Chega à unidade às 10 horas do segundo dia de febre e diarreia, comendo pouco, e conta que não aplicou nada hoje de manhã “porque não tomou café”. Glicemia capilar de 312 mg/dL; na fita de urina, cetona com uma cruz. Não vomita há seis horas, bebe água, está lúcido e sem hálito cetônico. Pressão de 124 por 78 mmHg, frequência cardíaca de 102, frequência respiratória de 18, temperatura de 38,1 °C, mucosas úmidas.
Fica na unidade ou vai para a emergência?
Complete: quais agravantes da tabela do Caderno 36 você procura, e o que o Secundino tem de cada um.
Quanto de insulina agora, e qual
Complete: a dose diária dele, a conta do reforço e o destino da NPH das 7 horas que ele não aplicou.
Às 14 horas, glicemia de 268 mg/dL
Complete: repete a dose, não repete ou encaminha — e o que faria você mudar de linha na tabela.
O plano para a noite e para amanhã
Complete: o que ele leva escrito, o que acontece com as doses das refeições enquanto come pouco e quando volta.
Ver como fecharíamos
Primeiro, avaliar a gravidade e a cetose no mesmo dia. Secundino tem doença aguda, omissão de basal e glicemia de 312 com cetonúria. Estar lúcido e sem vômitos atuais reduz alguns sinais de gravidade, mas não exclui acidose. Obter gasometria, potássio e beta-hidroxibutirato quando disponível; se a unidade não tem meios para avaliação e monitorização, encaminhar sem uma espera obrigatória de quatro horas. A hidratação e o tratamento do precipitante são guiados pela clínica. A basal não pode simplesmente desaparecer do plano. Rever o horário da dose omitida com a equipe e restabelecer cobertura, ajustando alimentação e risco de hipoglicemia. A dose habitual total é 38 unidades/dia; 20% são 7,6, arredondadas para 8, mas essa conta do Caderno 36 não é uma autorização para correções repetidas sem avaliar insulina ainda ativa, potássio e acidose. Fora de CAD, individualizar a correção e monitorar a resposta; na CAD, seguir o protocolo próprio. Às 14 horas, glicemia de 268 não decide isoladamente repetir 8 unidades ou liberar. Reavaliar sintomas, cetonas, acidose, hidratação e insulina ativa. Persistência ou piora da cetose, acidose, vômitos, alteração respiratória ou impossibilidade de acompanhamento exige emergência. A decisão de alta requer estabilidade clínica e metabólica, capacidade de beber, tratamento e reavaliação acessíveis, não apenas cruzar 250. O plano escrito deve manter cobertura basal inclusive quando ele não come, individualizar prandial/correção com a ingestão e prever controles inclusive à noite. Orientar hidratação fracionada e retorno precoce. Vômitos persistentes, dor abdominal, respiração rápida, sonolência ou incapacidade de ingerir líquidos exigem atendimento imediato. A doença febril pode aumentar a necessidade de insulina, mas inapetência e rim também podem elevar o risco de hipoglicemia; o ajuste depende da evolução.
O primeiro fundo de olho no tipo 1, pelo protocolo de retinopatia diabética de 2021, é feito em até cinco anos após a instalação do diabetes, ou no início da puberdade; o exame logo no diagnóstico é a regra do tipo 2. A albuminúria segue o mesmo prazo, pelo item de acompanhamento do protocolo do tipo 1 e pelo protocolo do tipo 2 de 2026, que escreve o rastreio renal após cinco anos do diagnóstico do tipo 1. Nesta paciente, a doença tem início datado de poucos meses, e a régua é a dos cinco anos; o Apêndice D do protocolo do tipo 1, que pede os dois exames já no diagnóstico do adulto, contradiz o próprio documento. TSH e perfil lipídico anuais desde o diagnóstico estão no protocolo do tipo 1, e o exame dos pés anual desde o diagnóstico está no mesmo Apêndice D. A doença celíaca não entra pela régua desses três protocolos: o rastreio no tipo 1 vem do PCDT da Doença Celíaca, de 2025, que não fixa periodicidade anual.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Explique quando suspeitar de deficiência de insulina e como excluir CAD. Demonstre preparo, aplicação, rodízio e tratamento de hipoglicemia; peça ao paciente simulado que execute a sequência e explique a regra da basal.
Em 30 dias
Leia uma semana de glicemias por horário e proponha um ajuste justificado, considerando refeições, exercício e hipoglicemia. Acrescente um dia de doença e mostre como evitar tanto omissão de basal quanto sobreposição de correções.
Agora atenda
Agora atenda: Damiana Mesquita, 27 anos, professora, tem tipo 1 desde os 15 e usa NPH e regular. A glicada é de 8,6%, ela não usa método contraceptivo e conta, no fim da consulta de rotina, que ela e o marido querem ter um filho “no ano que vem”. Decida o que ela leva hoje sobre contracepção e sobre a meta de glicada antes de engravidar, que exames estão atrasados para quem tem doze anos de doença, o que o caderno precisa mostrar antes de mexer em dose e o que acontece com a insulina e com o encaminhamento no dia em que o teste der positivo.
