PediatriaGastroenterologia Pediátrica

O leite que volta e o peso que sobe

Refluxo gastroesofágico fisiológico versus doença do refluxo no lactente

O lactente que regurgita, da primeira consulta à alta: separar a regurgitação fisiológica — que começa nas primeiras semanas, tem pico por volta dos 4 meses e some sem remédio — da doença do refluxo e das doenças que se disfarçam de golfada; decidir pela curva de peso e pelos sinais de alarme, fazer a conta da mamadeira, espessar e testar a retirada do leite de vaca por prazo quando há doença, não dar inibidor de bomba nem procinético ao bebê que só chora e golfa, e manter o sono de barriga para cima, no plano, sem cabeceira elevada.

Fontes deste capítulo

Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento Científico de Gastroenterologia (gestão 2022-2024). Doença do Refluxo Gastroesofágico. Guia Prático de Orientação nº 185, 10 de dezembro de 2024.

Rosen R, Vandenplas Y, Singendonk M, Cabana M, Di Lorenzo C, Gottrand F, et al. Pediatric Gastroesophageal Reflux Clinical Practice Guidelines: Joint Recommendations of the North American Society for Pediatric Gastroenterology, Hepatology, and Nutrition and the European Society for Pediatric Gastroenterology, Hepatology, and Nutrition. J Pediatr Gastroenterol Nutr. 2018;66(3):516-554. doi:10.1097/MPG.0000000000001889.

Benninga MA, Nurko S, Faure C, Hyman PE, St James Roberts I, Schechter NL. Childhood Functional Gastrointestinal Disorders: Neonate/Toddler. Gastroenterology. 2016;150(6):1443-1455. doi:10.1053/j.gastro.2016.02.016.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento Científico de Medicina do Sono (gestão 2022-2024). Recomendações da Academia Americana de Pediatria sobre sono seguro em menores de um ano. Nota de Alerta nº 56, 24 de março de 2023.

Brasil. Ministério da Saúde. Caderneta da Criança: Passaporte da Cidadania. 7. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2024.

01

Responda antes de ler

Lactente de 3 meses, em fórmula infantil de partida, é trazido porque golfa depois de quase todas as mamadas desde a segunda semana de vida e chora muito no fim da tarde. Recebe 180 mL a cada 2 horas e meia, dia e noite. Não tem febre, vômito verde nem sangue; a fontanela é plana, o abdome é normal e o peso segue a mesma faixa da curva desde o nascimento. A mãe pede um exame e um remédio para refluxo. Qual é a conduta mais adequada?

02

O paciente que você vai ver

Segunda-feira, nove e vinte da manhã, ambulatório de pediatria da unidade básica onde você faz o internato. Miguelina Galiza entra com Felício no colo e uma fralda de pano no ombro, já úmida de leite. Ele tem 3 meses e 10 dias. Antes de sentar, ela diz a frase que o pediatra ouve toda semana: “Doutor, ele tem refluxo. Golfa em toda mamada, sai até pelo nariz, e chora demais. Eu quero fazer o exame e começar o remédio.”

Felício nasceu a termo, de parto normal, com 3.300 gramas, e mamou no peito até as seis semanas. A mãe parou porque o leite, nas palavras dela, “não sustentava”: ele golfava depois de quase toda mamada, e a família leu a golfada como prova de leite fraco. Desde então toma fórmula infantil de partida. As golfadas começaram na segunda semana de vida, aumentaram aos poucos e hoje vêm depois de quase toda mamadeira: leite branco ou talhado, que escorre pelo canto da boca ou sai num jato curto junto com o arroto, às vezes pelo nariz. Nunca saiu verde, nunca saiu com sangue. Ele não teve febre, molha todas as fraldas e evacua fezes pastosas uma vez por dia, sem sangue e sem muco.

A conta da mamadeira aparece quando você pergunta de quanto em quanto tempo ele mama, e quanto. Miguelina prepara 180 mL e oferece sempre que ele chora — de duas horas e meia em duas horas e meia, dia e noite — e ele quase sempre termina. Depois golfa, chora de novo, e ela oferece de novo. A avó materna, que mora com eles, pôs um travesseiro debaixo do colchão do berço para deixar a cabeceira mais alta e passou a pôr o neto para dormir de lado, “para não engasgar”. Há quatro dias, numa ida ao pronto-socorro de madrugada, saíram com uma receita de bromoprida em gotas, que ela vem pingando antes das mamadas. Na semana passada, no meio de uma mamadeira, ele engasgou com uma golfada, tossiu, ficou vermelho e em poucos segundos voltou a respirar e a olhar para ela; não ficou roxo nem mole.

No exame, Felício está rosado, acordado, segue o seu rosto e sorri quando você fala com ele. A temperatura axilar é de 36,6 °C. A fontanela anterior está plana e macia, a mucosa oral é úmida, o abdome é flácido, sem distensão, sem massa palpável e sem hérnia. A pele não tem eczema. O tônus e os movimentos são simétricos. Pesado despido na balança da unidade, tem 6.500 gramas. Na Caderneta da Criança, os pontos de 1, 2 e 3 meses — 4.400, 5.500 e 6.300 gramas — correm juntos da linha do meio do gráfico de peso, e o ponto de hoje continua nela. O perímetro cefálico acompanha a curva.

Na mesa esperam três pedidos: o exame do refluxo, o remédio que o bebê da vizinha toma e a bromoprida que já está em casa. No berço esperam o travesseiro e a posição de lado. E, na cadeira à sua frente, espera uma mãe que dorme em blocos de duas horas desde que o filho nasceu, que desistiu de amamentar por causa da golfada e que acha que alguém está deixando de tratar uma doença.

A pergunta desta manhã é uma só: Felício é um bebê doente que vomita ou um bebê saudável que golfa? A resposta está na curva que você acabou de marcar e nas perguntas que ainda não fez. O que se faz com ela decide se ele sai daqui com três intervenções que não precisa ou com nenhuma — e se a mãe sai sabendo exatamente o que faria você mudar de ideia.

03

Quem adoece disso

Regurgitar é parte do desenvolvimento normal do lactente, e os números mostram isso antes de qualquer argumento. O Guia Prático de Orientação nº 185 da Sociedade Brasileira de Pediatria (dezembro de 2024) resume a série: a regurgitação aparece em 50% dos lactentes antes dos 2 meses, em 60% a 70% aos 3 ou 4 meses e cai para cerca de 5% por volta de 1 ano. O capítulo de lactentes do critério de Roma IV (Benninga e colaboradores, 2016) conta de outro jeito e chega ao mesmo desenho: entre 41% e 67% dos lactentes saudáveis de 4 meses regurgitam mais de uma vez por dia, o pico é aos 4 meses e a regurgitação some em 90% deles até os 12 meses. Os percentuais variam entre as fontes porque cada estudo define a golfada e a frequência de um modo; a curva — sobe nas primeiras semanas, faz pico no quarto mês e desce até o fim do primeiro ano — é a mesma em todas.

Felício, com 3 meses e 10 dias, está exatamente no pico. Isso não é um detalhe: a idade é o primeiro dado epidemiológico que se usa à beira do leito. A diretriz conjunta das sociedades norte-americana e europeia de gastroenterologia pediátrica (NASPGHAN/ESPGHAN, 2018) e o guia da SBP dizem o mesmo: é raro o refluxo fisiológico aparecer na primeira semana de vida, e raro que ele comece depois dos 6 meses. Golfada que começa no terceiro dia, ou que aparece pela primeira vez aos 7 meses, está fora da janela e pede outra explicação. Na outra ponta, o guia brasileiro registra resolução espontânea entre 12 e 24 meses na maioria, e a diretriz conjunta trata como sinal de alarme o sintoma que aumenta ou persiste depois dos 12 a 18 meses.

A doença do refluxo gastroesofágico (DRGE) do lactente é a minoria dentro dessa multidão. O refluxo passa a ser doença quando causa sintoma incômodo que atrapalha a vida da criança ou complicação — esofagite, recusa alimentar com perda de ganho de peso, sangramento, aspiração —, e não quando simplesmente se vê. O guia da SBP descreve a DRGE pediátrica como comum e crescente, mas nenhuma das fontes dá uma prevalência confiável da doença no lactente, justamente porque os estudos usam definições diferentes. O que as fontes dão com segurança é o contrário: a maioria dos lactentes que regurgitam não tem doença induzida pelo ácido e melhora com o tempo.

O problema do dia a dia não é deixar de diagnosticar a DRGE, e sim diagnosticá-la demais. A diretriz de 2018 descreve a cena que você viveu com Miguelina: o lactente que se agita, chora e arqueia o corpo, com ou sem golfada, mas que cresce bem, chega com a família pressionando por exame e por remédio, porque o sintoma parece grave. A resposta da diretriz é que, sem sinal de alarme e sem impacto na alimentação, no crescimento ou no desenvolvimento, nem exame nem supressão ácida são necessários. O comitê de Roma IV foi além e tirou da definição de regurgitação do lactente a palavra “incômodo”: o bebê não diz se está incomodado, e a leitura que pais e médicos faziam do incômodo vinha produzindo investigação e tratamento desnecessários em lactentes com regurgitação que não tinham DRGE. O refluxo não é causa comum de choro inexplicado em lactente saudável.

O custo do excesso é concreto. Cinco ensaios clínicos randomizados de inibidor de bomba de prótons em lactentes, a termo e pré-termo, com duração de 2 a 4 semanas, não mostraram redução de sintoma em relação ao placebo — e é por isso que a diretriz conjunta não aceita o teste com inibidor de bomba como prova diagnóstica no lactente. Do lado do risco, estudos de caso-controle associam a supressão ácida em lactentes e crianças a mais enterocolite necrosante, pneumonia, infecção de vias aéreas superiores, sepse, infecção urinária e infecção por Clostridioides difficile. O guia da SBP acrescenta que o efeito do uso prolongado nessa idade não foi estudado e que alguns estudos associam a supressão ácida à alergia alimentar. Um remédio sem benefício demonstrado e com dano plausível é o pior negócio que se pode oferecer a uma família cansada.

Há, porém, lactentes em quem o refluxo é doença de verdade e pesa mais. A diretriz de 2018 destaca as condições crônicas com risco alto de complicação do refluxo — a criança com comprometimento neurológico e a criança com fibrose cística —, que entram inclusive na discussão de cirurgia antirrefluxo. Nesses grupos a conta muda, e o manejo sai da atenção básica para o especialista. O lactente deste capítulo é o outro: o que nasceu bem, cresce bem e golfa.

No Brasil, a régua precisa ser dita com precisão. O Ministério da Saúde trata do refluxo no manual do Método Canguru (3ª edição, 2017), escrito para o recém-nascido pré-termo e de baixo peso, e a Caderneta da Criança (7ª edição, 2024) não fala de refluxo: fala em pôr o bebê na posição vertical para arrotar depois da mamada e em fazê-lo dormir de barriga para cima, sem travesseiro. Para o lactente que chega à consulta, a régua brasileira do diagnóstico e do tratamento é, desde dezembro de 2024, o guia nº 185 da SBP, que se apoia na diretriz conjunta de 2018 — sem edição posterior — e aplica o critério de Roma IV. O critério de sono é o da Nota de Alerta nº 56 da SBP (março de 2023), que resume a atualização de 2022 da Academia Americana de Pediatria e escreve, com todas as letras, que o bebê com refluxo dorme de barriga para cima.

O elenco do SUS completa o retrato e muda a conduta. A Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (Rename 2024) tem omeprazol só em cápsula de 10 e de 20 mg, sem nenhuma apresentação líquida de inibidor de bomba, e tem metoclopramida em solução oral de 4 mg/mL — um procinético que as duas réguas mandam não usar na DRGE da criança. Não constam domperidona, bromoprida, famotidina, ranitidina, esomeprazol, lansoprazol, sucralfato nem alginato. Na prática, isso significa que quase tudo o que a família de Felício pediu ou recebeu nesta semana ou está fora do SUS, ou está no SUS e não deveria ser usado para ele — e que a ferramenta mais poderosa da consulta é gratuita: a curva de crescimento da Caderneta, lida junto com a conta da mamadeira.

04

Por que acontece o que acontece

O mecanismo do refluxo no lactente é o mesmo do adulto, e não precisa ser reaprendido: o esfíncter esofágico inferior abre sozinho, sem deglutição, várias vezes ao dia, e o conteúdo do estômago sobe. Esses relaxamentos transitórios do esfíncter são, como lembra o guia da SBP, o principal mecanismo do refluxo em qualquer idade; a barreira antirrefluxo, a hérnia de hiato e o que acontece com o esôfago de quem tem refluxo por anos estão explicados no capítulo Sete anos de omeprazol, da apostila de Gastroenterologia, que cede a criança à Pediatria. Este capítulo fica com o que muda no lactente — e o que muda não é a válvula: é o que está em volta dela.

No lactente, o mesmo relaxamento que no adulto devolve um pouco de conteúdo ao esôfago devolve leite à boca. O capítulo de Roma IV resume a razão em três palavras: esôfago de volume pequeno, excesso de alimentação e posição. A dieta é líquida, o volume por quilo é enorme e o bebê passa a maior parte do dia deitado. Faça a conta de Felício antes do ajuste: entre 1.620 e 1.800 mL de fórmula por dia com 6,5 kg, cerca de 260 mL por quilo. Um adulto de 70 kg na mesma proporção beberia mais de 18 litros de líquido por dia. Quando o estômago recebe uma refeição líquida grande para o seu tamanho e o esôfago é curto e estreito, o relaxamento normal do esfíncter não termina no esôfago — termina na fralda de pano do ombro da mãe.

A maior parte desse refluxo nem é ácida. Logo depois da mamada, o leite ainda ocupa o estômago e tampona o ácido, e a diretriz de 2018 descreve o refluxo pós-prandial como tipicamente não ácido. O guia da SBP registra que, na pH-impedanciometria do lactente, os refluxos não ácidos e fracamente ácidos são a maioria dos episódios, 53% a 56%, e que a irritabilidade acompanha mais o volume do que sobe do que a acidez dele. Essa é a explicação fisiológica do resultado dos ensaios clínicos: o inibidor de bomba muda a acidez do que sobe, não a quantidade nem o número de vezes que sobe. O bebê tratado continua golfando o mesmo tanto — só que um leite menos ácido — e continua chorando pelas mesmas razões pelas quais chorava.

Espessar a dieta age em outro ponto da mesma cadeia. A diretriz conjunta relata que, em dois ensaios que usaram a pH-impedanciometria, o espessamento não diminuiu a carga total de refluxo: o esfíncter continua abrindo, e o conteúdo continua subindo pelo esôfago. O que diminui é a regurgitação visível, porque um conteúdo mais espesso chega menos à boca. Espessar, portanto, trata a golfada que se vê — a roupa, o susto, o cheiro azedo —, não protege o esôfago. E espessante tem risco próprio: a diretriz de 2018 lembra o arsênio inorgânico do cereal de arroz (a agência reguladora norte-americana propôs em 2016 um limite de 100 partes por bilhão para o cereal infantil de arroz), restringe a goma xantana a maiores de 1 ano, por associação com enterocolite necrosante, e a goma de alfarroba a lactentes com mais de 42 semanas de idade gestacional corrigida. Para o leite materno, o guia da SBP registra que não existe espessante no Brasil.

O refluxo vira doença quando o conteúdo que sobe fere ou atrapalha. O ácido e a pepsina em contato prolongado com a mucosa inflamam o esôfago; a mamada passa a doer; a dor aparece como choro durante a mamada, recusa depois de poucos mililitros e um corpo que arqueia para trás. O lactente não diz que sente queimação: o guia da SBP descreve a irritabilidade e a recusa alimentar como os correspondentes não verbais da queimação retroesternal. Quem recusa mama menos, e quem mama menos para de ganhar peso — por isso a curva é o sinal mais objetivo de doença. O refluxo também pode chegar à laringe e à árvore respiratória e produzir tosse, chiado, estridor, aspiração e, raramente, apneia, e pode se manifestar por uma postura distônica do pescoço, a síndrome de Sandifer. A diretriz conjunta ressalva, porém, que irritabilidade e dor como manifestação única dificilmente se devem ao refluxo.

Existe uma segunda porta para o mesmo quadro, e ela explica um passo da conduta. A alergia à proteína do leite de vaca pode inflamar o esôfago e o estômago, alterar a motilidade e aumentar o refluxo — é o que diz o guia da SBP —, e a diretriz de 2018 descreve um subgrupo de lactentes alérgicos cuja regurgitação e cujo vômito são indistinguíveis dos do refluxo fisiológico ou da DRGE. Não há exame que separe os dois à beira do leito; o que os separa é a resposta à retirada da proteína. Por isso a prova de exclusão do leite de vaca, por prazo definido, entra antes de qualquer remédio para ácido no lactente com doença. O mecanismo da alergia, as duas formas que ela tem e a confirmação pela volta do leite são do capítulo Dois relógios para o mesmo leite, desta apostila.

A regurgitação some porque a criança muda. Roma IV registra resolução em 90% até os 12 meses, e a melhora costuma coincidir com a idade em que a criança passa a ficar sentada, a dieta ganha consistência com a alimentação complementar e o volume de leite por quilo cai. Nada disso depende de remédio, e esse é o fato que torna tão enganoso qualquer tratamento iniciado aos 3 ou 4 meses: se o bebê melhora aos 8 meses, a família credita a melhora ao remédio — e o remédio passa a ser mantido, renovado e recomendado à próxima família.

A posição é o ponto em que a intuição da família e a fisiologia se desencontram. Deitar de bruços ou de lado diminui o refluxo — o capítulo de Roma IV registra que a posição lateral esquerda e a prona depois da mamada reduzem a regurgitação, e a diretriz conjunta cita um estudo em pré-termos, com impedanciometria, com o mesmo achado —, mas dormir de bruços ou de lado aumenta o risco de síndrome da morte súbita do lactente. A Nota de Alerta nº 56 da SBP explica a anatomia que tranquiliza: com o bebê de barriga para cima, a traqueia passa por cima do esôfago, e o leite que sobe encontra mais dificuldade para entrar nela; de barriga para baixo, a traqueia fica embaixo, e o conteúdo regurgitado encontra o caminho aberto. Elevar a cabeceira também não serve: a diretriz de 2018 lembra que o bebê em plano inclinado escorrega para o pé do berço e pode ficar numa posição que compromete a respiração. A posição que parece perigosa é a que protege; a que parece proteger é a que mata.

Bebê deitado de barriga para cima, em colchão firme e plano, sem objetos soltos. Um detalhe anatômico em perfil mostra a traqueia anterior e acima do esôfago nessa posição.
O bebê com refluxo deve ser colocado de barriga para cima para dormir, em superfície firme, plana e sem objetos soltos. Nessa posição, a traqueia fica anterior e acima do esôfago. A anatomia e os reflexos protetores ajudam a manter a via aérea livre; não é correto atribuir o retorno do leite ao estômago apenas à gravidade. Inclinar o colchão não é uma solução segura para o refluxo.
05

Como se apresenta de verdade

Diante do lactente que regurgita, avalie três apresentações: regurgitação sem repercussão, sintomas que comprometem alimentação ou bem-estar e vômitos por outra doença. Crescimento, exame, características do episódio e sinais de alarme orientam a distinção. Alergia alimentar, obstrução e infecções entram no diferencial quando houver elementos que as sustentem; o nome refluxo não encerra essa investigação.

A régua das seções é a mesma do capítulo inteiro: o critério de Roma IV para a regurgitação do lactente, as tabelas de sinais e de sinais de alarme da diretriz conjunta de 2018 e as tabelas equivalentes do guia nº 185 da SBP, de dezembro de 2024.

O bebê que golfa e cresce

A regurgitação do lactente tem critério, e o critério cabe numa consulta. Pelo capítulo de lactentes de Roma IV, é o lactente saudável, de 3 semanas a 12 meses de idade, que regurgita duas ou mais vezes por dia, há três semanas ou mais, e que não tem ânsia de vômito, hematêmese, aspiração, apneia, déficit de crescimento, dificuldade para mamar ou deglutir, nem postura anormal. O guia da SBP acrescenta a frase que protege o raciocínio: depois de avaliação adequada, os sinais não podem ser explicados por outra condição — o que inclui procurar, um por um, os sinais de alarme.

Repare no que o critério não pede. Não pede exame. Não pede que o bebê pare de chorar. E não pede que a golfada seja pequena: a família descreve leite escorrendo pelo canto da boca, saindo com o arroto, às vezes pelo nariz, às vezes em quantidade que molha a roupa dos dois. O que define a regurgitação é o jeito de sair — sem esforço, sem contração do abdome, com o bebê que continua tranquilo ou volta a ficar tranquilo logo depois — e o que define a benignidade é o resto do bebê.

Felício preenche o critério inteiro. As golfadas começaram na segunda semana, acontecem várias vezes por dia há bem mais de três semanas, e ele não tem nenhum dos itens de exclusão: mama sem dificuldade, não aspira, não teve apneia, não tem postura anormal e cresce em cima da linha do meio da curva. O engasgo da semana passada — tosse no meio da mamadeira, rosto vermelho, recuperação em segundos, sem ficar roxo nem mole — teve explicação à vista, a própria golfada. Não é um BRUE: a sigla, que as tabelas da diretriz conjunta e do guia da SBP listam entre as manifestações possíveis da doença, quer dizer evento breve, resolvido e sem explicação.

O que o critério também diz, por ausência, é que o choro não entra na definição. Um bebê de 3 meses chora — e chora mais no fim da tarde — com ou sem refluxo. Tratar a golfada que se vê como a causa do choro que se ouve é a ponte que leva do diagnóstico certo ao tratamento errado, e a seção sobre o choro volta a isso.

Golfada, vômito e ruminação

As três palavras descrevem coisas diferentes, e o capítulo de Roma IV as separa com precisão. Regurgitação é o conteúdo do estômago que volta à boca sem esforço. Vômito é um reflexo comandado pelo sistema nervoso central, que envolve musculatura autônoma e esquelética e expulsa o conteúdo gástrico com força, por contração coordenada do intestino delgado, do estômago, do esôfago e do diafragma. Ruminação é o alimento já deglutido que volta à boca, é mastigado e deglutido de novo. A distinção importa porque o vômito verdadeiro, sobretudo o que muda de natureza, é o primeiro passo de muitas doenças que não são refluxo.

Na prática, a família não usa essas palavras: diz que o bebê “vomita” quando golfa e diz que “golfou forte” quando vomita. Por isso a pergunta útil não é o nome, é a cena: sai escorrendo ou sai em jato, sai junto com o arroto ou atravessa o quarto, o bebê fica tranquilo ou fica pálido e mole, quer mamar de novo ou recusa, sempre foi assim ou começou pequeno e foi piorando. A separação completa, em cinco perguntas, entre a golfada que não importa e o vômito que importa diante da suspeita de obstrução do piloro está no capítulo Ele vomita, e continua com fome, que é dono da estenose hipertrófica de piloro; este capítulo usa a conclusão dele e não a repete.

A ruminação merece uma frase porque é rara e costuma ser confundida com refluxo que não responde. Na revisão de Roma V para os distúrbios pediátricos do trato digestivo alto (2026), o critério exige início depois dos 3 meses, pelo menos dois meses de regurgitação aparentemente sem esforço durante ou logo depois da refeição, que não acontece durante o sono e não responde ao manejo habitual da DRGE ou da regurgitação do lactente. O manejo é comportamental e de especialista, e não tem capítulo neste nível; este capítulo assume dela só o reconhecimento: lactente maior que golfa acordado, nunca dormindo, e não melhora com nada, vai ao gastroenterologista pediátrico com essa hipótese escrita.

Quando a golfada vira doença

A DRGE do lactente se reconhece pelo que o refluxo faz com a criança, não pela quantidade de leite que sai. As tabelas de sinais e sintomas associados à DRGE — a da diretriz conjunta e a do guia da SBP, que partem da mesma lista — reúnem quatro famílias. Na alimentação e no crescimento: recusa alimentar, choro e desconforto ligados à mamada, perda de peso ou ganho insuficiente, anemia. No esôfago: hematêmese, esofagite e, na criança maior, disfagia e dor. Na via aérea: tosse, chiado, estridor, rouquidão, apneia, pneumonia por aspiração, otite de repetição e BRUE. E na postura: a síndrome de Sandifer.

Duas ressalvas impedem que a lista vire armadilha. A primeira é da própria diretriz conjunta: quando irritabilidade e dor são a única manifestação, é pouco provável que se devam à DRGE. A segunda é de lógica clínica: quase todos os itens da lista também aparecem em outras doenças, e alguns — perda de peso, irritabilidade excessiva — estão ao mesmo tempo na tabela de sinais de DRGE e na tabela de sinais de alarme que apontam para outro diagnóstico. A pergunta certa diante de um deles não é “isto é DRGE?”, e sim “o que mais pode estar produzindo isto, e eu já afastei?”.

O quadro típico que você vai ver no ambulatório é o de um lactente que golfava e crescia bem e que, em algum momento, passa a chorar e arquear o corpo durante a mamada, solta o bico ou o peito depois de poucos minutos, aceita menos volume e, semanas depois, mostra na curva um ganho menor que o esperado. Nessa criança o refluxo deixou de ser só visível: passou a ter impacto na alimentação e no crescimento, que é exatamente o limite que a diretriz de 2018 usa para indicar investigação ou tratamento.

Os sintomas respiratórios pedem o cuidado inverso. A diretriz conjunta manda não usar bloqueador H2 nem inibidor de bomba para sintoma extraesofágico — tosse, chiado, asma — a não ser que haja sintoma típico de DRGE ou exame que sugira a doença. Atribuir ao refluxo o chiado de um lactente que golfa, e tratá-lo com supressão ácida, é um atalho que as fontes não autorizam. O BRUE, como entidade, é de Síndrome da morte súbita do lactente: fatores de risco e prevenção, na apostila de Emergências Pediátricas; este capítulo assume dele só a parte que toca o refluxo: o evento sem explicação não se explica por golfada que não foi vista, e não se trata com remédio para ácido.

A síndrome de Sandifer

A síndrome de Sandifer é a postura distônica do pescoço que as tabelas da diretriz conjunta e do guia da SBP incluem entre os sinais de DRGE. Não há capítulo no nível que trate dela, e este capítulo a assume. O critério de Roma IV já dá a regra de bolso: postura anormal exclui a regurgitação funcional do lactente. Um bebê que golfa e faz postura estranha não é um bebê com golfada fisiológica, qualquer que seja o resto do quadro.

O ponto de decisão é outro: movimento anormal no lactente pode ser crise convulsiva, e convulsão está na tabela de sinais de alarme da diretriz de 2018, ao lado da fontanela abaulada e do perímetro cefálico que cresce rápido. Antes de chamar a postura de Sandifer, o exame neurológico e o desenvolvimento precisam estar normais, e a relação dos episódios com a mamada precisa ser consistente. Pedir à família que filme os episódios com o celular costuma dar ao médico o registro mais útil dessa hora. Na dúvida entre as duas coisas, a hipótese que se investiga primeiro é a que mata mais rápido — a crise —, e a DRGE espera.

Se a postura é mesmo Sandifer, o lactente tem DRGE com manifestação que merece o especialista: é uma criança que sai do manejo de atenção básica e vai para o gastroenterologista pediátrico, com as medidas iniciais do capítulo já em curso.

O choro que não é refluxo

O choro é o sintoma que mais leva o lactente ao diagnóstico de refluxo e o que menos o sustenta. O capítulo de Roma IV é explícito: o refluxo não é causa comum de choro, irritabilidade ou comportamento de desconforto inexplicados em lactente saudável, e não há correlação entre choro, irritabilidade e episódios de refluxo. A diretriz conjunta transformou isso em recomendação: não usar bloqueador H2 nem inibidor de bomba para tratar choro ou desconforto em lactente saudável.

A cólica do lactente — que a revisão de Roma V (2026) passou a chamar de infant distress syndrome — é o nome que costuma caber nesse choro, sobretudo no fim da tarde e nos primeiros meses. Ela não tem capítulo neste nível, e este capítulo assume dela só a separação do refluxo, que é o que decide a conduta aqui: choro sem recusa alimentar, sem ganho ruim e sem os demais sinais de DRGE, num bebê que cresce, não é doença do refluxo e não se trata com remédio para ácido, mesmo que o bebê também golfe.

Dois cuidados completam a separação. Primeiro, o choro durante a mamada, com recusa e corpo arqueado, é diferente do choro que vem em crises sem relação com a alimentação — o primeiro entra na lista da DRGE, o segundo não. Segundo, choro que muda de padrão, que vem com palidez, sonolência, vômito ou fezes com sangue, sai do território da cólica e do refluxo: é sinal de alarme, e pode ser invaginação, infecção ou outra doença da seção seguinte.

O que se disfarça de golfada

A tabela de sinais de alarme da diretriz conjunta e a do guia da SBP dizem a mesma coisa com arranjos diferentes: certos achados, no lactente que regurgita ou vomita, tornam outro diagnóstico mais provável do que o refluxo. Eles se agrupam pelo que apontam, e cada grupo tem um capítulo dono no nível.

Obstrução. Vômito bilioso é sintoma de obstrução intestinal até prova em contrário — atresia, má rotação com volvo, doença de Hirschsprung, invaginação — e é do capítulo A cor do vômito e a fralda que não sujou, da apostila de Cirurgia Pediátrica. Vômito persistente e em jato nas primeiras semanas, até cerca de 2 meses, aponta estenose hipertrófica de piloro, do capítulo Ele vomita, e continua com fome. Distensão abdominal indica obstrução, dismotilidade ou anomalia anatômica. Choro em crises com palidez e, mais tarde, fezes com sangue no lactente maior é o quadro do capítulo Invaginação intestinal do lactente.

Infecção. Febre e letargia sugerem infecção sistêmica; a disúria, no lactente que vomita, sugere infecção urinária, que é do capítulo Infecção urinária na criança, da apostila de Nefrologia Pediátrica. O lactente febril sem foco é do capítulo Febre sem sinais localizatórios no lactente, e a meningite na infância é do capítulo A ordem certa não é a ordem do raciocínio, da apostila de Infectologia Pediátrica — com o período neonatal no capítulo Começar sem saber, parar sem prova, da apostila de Neonatologia.

Sistema nervoso central. Fontanela abaulada, perímetro cefálico que cresce rápido, vômito noturno e convulsão apontam hipertensão intracraniana — meningite, hidrocefalia, tumor, hematoma subdural — e pedem avaliação no mesmo dia. O hematoma subdural num lactente sem trauma contado é também uma porta para o capítulo Violência e maus-tratos infantis, da apostila de Emergências Pediátricas, e a Tabela 3 da diretriz de 2018 lista negligência, abuso e condição pediátrica falsificada entre os diagnósticos diferenciais do refluxo.

Sangue, diarreia e pele. Hematêmese e melena sugerem sangramento do esôfago, do estômago ou do duodeno, e podem ser esofagite de refluxo — mas não se presumem assim. Sangue nas fezes e diarreia crônica sugerem gastroenteropatia induzida por proteína alimentar, mais provável, diz a diretriz conjunta, no lactente com eczema ou com história familiar forte de atopia; o dono é o capítulo Dois relógios para o mesmo leite, desta apostila.

Idade e trajetória. Regurgitação ou vômito que começam depois dos 6 meses, ou que aumentam ou persistem depois dos 12 a 18 meses, fogem da história natural e pedem outro diagnóstico; o guia da SBP usa o corte de 12 meses para a persistência. Perda de peso — e não só ganho menor — e irritabilidade ou dor excessivas completam a lista.

Metabolismo e o resto da Tabela 3. A diretriz de 2018 inclui no diagnóstico diferencial erros inatos do metabolismo (galactosemia, intolerância hereditária à frutose, defeitos do ciclo da ureia, acidemias orgânicas e aminoacidopatias, defeitos da oxidação de ácidos graxos), hiperplasia adrenal congênita e crise adrenal, insuficiência renal e uropatia obstrutiva, insuficiência cardíaca e anel vascular, intoxicação por chumbo e outras. Os erros inatos do metabolismo não têm capítulo neste nível; este capítulo assume deles só a regra de encaminhamento: lactente que vomita e fica letárgico, ou que piora em vez de crescer sem explicação, não é refluxo até prova em contrário e é avaliado no mesmo dia em serviço com laboratório e pediatra.

Uma causa não entra na tabela de alarme e é a mais comum de todas: a conta errada da mamadeira. Volume por mamada acima do que o estômago comporta, intervalos curtos porque todo choro vira mamadeira, e fórmula preparada com medida errada. Ela não é doença, mas explica muita golfada e é a primeira coisa que se corrige — como mostra a investigação.

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Como fechar o diagnóstico

No lactente que regurgita, a investigação é a história, o exame e a curva. O exame complementar só entra para responder a uma pergunta que a história levantou — está obstruído? está infectado? a cabeça está com pressão alta? o esôfago está ferido? — e nenhum deles responde à pergunta que a família traz, “ele tem refluxo?”, porque todo lactente tem. A diretriz conjunta diz, na seção de abordagem do lactente, que uma história completa e um exame físico com atenção aos sinais de alarme costumam bastar para o diagnóstico clínico de refluxo não complicado.

A história que decide

A lista de perguntas da diretriz de 2018 parece longa e cabe em cinco minutos, porque cada item fecha uma porta. Comece pela idade em que a golfada começou e pela trajetória: sempre igual, melhorando ou piorando; se mudou, quando mudou e como. Depois, o que sai e como sai: leite, leite talhado, bile, sangue; escorrendo, com o arroto, em jato; logo depois da mamada ou horas depois; de dia ou de noite. Vômito noturno, bile, sangue e piora progressiva nas primeiras semanas são perguntas de alarme e se fazem com essas palavras.

A história alimentar é a parte que mais rende e a que mais se pula. A diretriz conjunta manda perguntar a duração da mamada, o volume de cada mamada, o tipo de fórmula, como a mãe percebe a produção de leite, como a fórmula é preparada, se há algo acrescentado ao leite, se algum alimento foi retirado da dieta da mãe ou da criança e o intervalo entre as mamadas. No bebê em fórmula, peça que a mãe mostre quantas medidas põe em quanta água, e some o dia inteiro: foi assim que a conta de Felício apareceu — 180 mL a cada duas horas e meia, dia e noite. No bebê amamentado, a pergunta é outra: quanto tempo mama, se solta e volta, se chora no peito, e se a técnica e a pega foram vistas por alguém. A avaliação da mamada no peito, da pega e da produção é do capítulo Aleitamento materno exclusivo até 6 meses, da apostila de Nutrologia Pediátrica.

Pergunte pelo choro separando os dois choros: o que vem durante a mamada, com recusa e corpo arqueado, e o que vem em crises, sobretudo no fim da tarde, sem relação com a alimentação. Pergunte por tosse, chiado, engasgo e por qualquer episódio em que o bebê ficou roxo, pálido, mole ou parou de respirar — e, se houve, peça a cena inteira, minuto a minuto. Pergunte por febre, pelo xixi, pelas fezes (diarreia, sangue, muco) e pela pele (eczema). Pergunte pela história familiar de alergia, asma e eczema, que a diretriz de 2018 associa às formas induzidas por proteína alimentar.

Três perguntas finais costumam ser esquecidas e mudam a conduta. Que remédios o bebê já recebeu, inclusive os de farmácia, os do pronto-socorro e os caseiros — bromoprida, domperidona, simeticona, chás. Quem fuma na casa, porque a diretriz conjunta inclui a exposição ao tabaco na história e o guia da SBP manda evitá-la. E como está a família: quem cuida, quanto dorme, o que teme. A diretriz de 2018 inclui a história psicossocial da família entre os gatilhos a investigar, e o capítulo de Roma IV lembra que a consulta de um distúrbio funcional do lactente é também sobre o medo de quem cuida.

O exame que decide: curva, cabeça e barriga

Pese o bebê despido e marque o ponto na Caderneta da Criança diante da mãe. Um ponto sozinho diz pouco; o que decide é a linha formada pelos pontos anteriores — a criança que segue a própria faixa cresce bem, a que atravessa faixas para baixo está perdendo. A leitura da curva, das faixas de escore z e da velocidade de ganho é do capítulo A linha, não o ponto, da apostila de Puericultura e Desenvolvimento; aqui ela entra como o dado que mais separa a regurgitação fisiológica da DRGE e de outra doença.

Meça o perímetro cefálico e marque também, porque cabeça que cresce rápido é sinal de alarme. Palpe a fontanela com o bebê calmo, sentado no colo: abaulada e tensa é alarme. Olhe a hidratação, a cor e o estado de alerta: bebê sonolento, pálido, hipoativo não é bebê que golfa.

No abdome, procure distensão, massa, alças visíveis e hérnias, inclusive a inguinal. Na pele, eczema. No desenvolvimento, confira os marcos da idade na Caderneta — o sorriso social, o sustento da cabeça —, porque o lactente com comprometimento neurológico é outro paciente, com outro risco, e a regressão de um marco é alarme; os marcos por faixa etária são do capítulo O marco que ela tinha e perdeu, da mesma apostila de Puericultura.

Se puder, veja uma mamada. A mamadeira que entra em poucos minutos por um bico de furo largo, o bebê que engole ar, o choro que começa depois de 30 mL e o bebê que solta o bico arqueando dizem, em dez minutos, o que a história levaria uma consulta inteira para contar.

Quando não se pede exame nenhum

Lactente que preenche o critério de Roma IV, sem nenhum sinal de alarme, com curva preservada e sem impacto na alimentação e no desenvolvimento, não faz exame. É a recomendação da diretriz conjunta, e é a do guia da SBP: a evolução do refluxo fisiológico é benigna e autolimitada, e não são necessários exames diagnósticos nem medicamentos. Felício está aqui.

Não pedir exame não é deixar de investigar: é concluir a investigação com os instrumentos certos e registrar a conclusão. O prontuário e a Caderneta recebem o peso marcado, a conta da mamadeira, a lista de sinais de alarme perguntados e ausentes e o diagnóstico nominal — regurgitação do lactente. Esse registro protege a criança na próxima consulta, feita por outro médico, que vai ver escrito que alguém já procurou e não achou alarme, e protege você.

A família costuma ouvir “não precisa de exame” como “não quis pedir”. A conversa que desfaz isso está no bloco de conversa; o argumento clínico é que os exames disponíveis veem refluxo em bebês saudáveis, não medem o que importa e podem gerar achado que leva a tratamento desnecessário.

Os exames que não mostram refluxo: seriografia, ultrassonografia e cintilografia

A radiografia contrastada de esôfago, estômago e duodeno — a seriografia — é o exame mais pedido “para ver o refluxo” e o que menos serve para isso. A diretriz de 2018 sugere não usá-la para diagnosticar DRGE em lactente ou criança: ver contraste subir durante poucos minutos de fluoroscopia não separa o bebê saudável do doente. Ela tem uso real, e é outro: excluir anomalia anatômica que imita ou predispõe ao refluxo — hérnia de hiato, má rotação, estenose do piloro, membrana duodenal ou antral, estreitamento ou estenose do esôfago, acalasia, compressão extrínseca —, e avaliar a criança já operada de fundoplicatura com sintomas.

A ultrassonografia segue a mesma lógica. A diretriz conjunta sugere não usá-la para diagnosticar DRGE, e sugere usá-la para excluir anomalia anatômica; o guia da SBP resume que ela não diferencia refluxo fisiológico de doença e que diagnostica a estenose hipertrófica de piloro. Pedir ultrassonografia para o bebê que golfa e cresce não acrescenta nada; pedir ultrassonografia de piloro para o bebê de 5 semanas com vômito em jato que piora é a conduta certa — e a conduta do capítulo Ele vomita, e continua com fome.

A cintilografia esofagogástrica mede o refluxo pós-prandial, o esvaziamento gástrico e, às vezes, a aspiração pulmonar, mas a diretriz de 2018 sugere que não seja usada para diagnosticar DRGE, e o guia da SBP registra a mesma sugestão. A manometria também não diagnostica refluxo — serve quando se suspeita de distúrbio motor —, e a pepsina salivar e os demais marcadores extraesofágicos disponíveis não devem ser usados para diagnóstico.

Endoscopia com biópsias e pH-impedanciometria: os exames do especialista

A endoscopia digestiva alta com biópsias não diagnostica DRGE no sentido de confirmar refluxo, e a diretriz conjunta sugere não usá-la para isso. Ela é indicada para avaliar complicações do refluxo, quando se suspeita de doença da mucosa e antes de escalar o tratamento. No lactente, quem pede é o gastroenterologista pediátrico, e a pergunta que ela responde é se existe esofagite erosiva — que justifica inibidor de bomba — ou outra doença da mucosa que se confunde com refluxo, como a esofagite eosinofílica, listada no diagnóstico diferencial da diretriz de 2018. A esofagite eosinofílica não tem capítulo neste nível; este capítulo assume dela só a indicação da biópsia.

A pH-impedanciometria esofágica registra, por 24 horas, os episódios de refluxo ácido e não ácido e permite correlacioná-los com os sintomas. A diretriz conjunta a restringe a quatro perguntas: correlacionar sintoma incômodo persistente com os episódios de refluxo, esclarecer o papel do refluxo numa esofagite ou em outro sinal sugestivo, medir a eficácia da supressão ácida e, na criança com endoscopia normal, separar doença não erosiva, esôfago hipersensível e pirose funcional. A pHmetria sozinha, quando a impedância não está disponível, responde às três primeiras só para o refluxo ácido — e, no lactente, a maioria dos episódios não é ácida, o que limita o que ela enxerga.

Nenhum dos dois é exame de atenção básica, e nenhum dos dois é pedido para tranquilizar a família. Na referência, eles entram depois das medidas iniciais e da prova de exclusão do leite de vaca, para a criança que continua com doença.

Quando há sinal de alarme, o exame é da doença que ele aponta

Diante de um sinal de alarme, pare de investigar refluxo. O exame que se pede é o da doença que o sinal aponta, com a urgência dela, e o caminho está no capítulo dono. Febre, letargia, irritabilidade que não cede ou ganho de peso que parou sem explicação pedem, no mínimo, exame de urina — tipo 1 e urocultura —, colhido pela técnica e com a interpretação do capítulo Infecção urinária na criança; a febre sem foco segue o capítulo Febre sem sinais localizatórios no lactente.

Vômito bilioso é tratado como obstrução intestinal até prova em contrário e segue o capítulo A cor do vômito e a fralda que não sujou; vômito em jato progressivo nas primeiras semanas, com fome logo depois, segue Ele vomita, e continua com fome, com a ultrassonografia de piloro e os exames que ele descreve. Fontanela abaulada, perímetro cefálico crescendo rápido, vômito noturno ou convulsão pedem avaliação no mesmo dia e, se houver febre, o caminho do capítulo de meningites da apostila de Infectologia Pediátrica. Sangue nas fezes com eczema ou diarreia crônica segue o capítulo Dois relógios para o mesmo leite. Letargia com vômito, ou piora sem explicação, vai para avaliação no mesmo dia em serviço com laboratório.

O exame que não se faz, nessas crianças, é justamente o do refluxo: seriografia “para ver o refluxo” num bebê com vômito bilioso atrasa a cirurgia; inibidor de bomba num bebê com infecção urinária trata um diagnóstico que ele não tem enquanto a infecção segue sem nome.

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Fluxo, tabelas e contas do refluxo no lactente

Comece pela história do episódio e pelos sinais de alarme. Depois leia crescimento, alimentação e medidas já tentadas. O quadro de consulta reúne evolução habitual, situações que pedem avaliação dirigida e urgências. A conta do volume de fórmula ajuda a reconhecer excesso de oferta, mas não é uma prescrição rígida para todo lactente da mesma idade.

  1. 1Idade e início: a golfada começou depois da primeira semana e antes dos 6 meses? Fora dessa janela, procure outro diagnóstico antes de falar em refluxo.
  2. 2Sinais de alarme, um por um, com as palavras da família: vômito verde, sangue, jato que piora, febre, bebê mole ou sonolento, fontanela alta, cabeça crescendo rápido, convulsão, distensão, perda de peso, início tardio. Qualquer um presente: a criança sai deste fluxo e vai para o capítulo dono (Tabela 1).
  3. 3Curva: peso despido e perímetro cefálico marcados na Caderneta. Linha preservada sustenta regurgitação do lactente; queda de faixa sustenta doença.
  4. 4Critério de Roma IV para regurgitação do lactente: de 3 semanas a 12 meses, duas ou mais golfadas por dia há três semanas ou mais, sem ânsia, hematêmese, aspiração, apneia, déficit de crescimento, dificuldade para mamar ou deglutir, nem postura anormal.
  5. 5Critério preenchido e nenhum alarme: não peça exame, não prescreva remédio; registre o diagnóstico nominal e os alarmes perguntados.
  6. 6Bebê em fórmula: faça a conta da mamadeira (Tabela 2) e corrija volume, número, preparo e gatilho da oferta antes de qualquer outra medida.
  7. 7Bebê amamentado: mantenha o peito; a técnica e a pega são do capítulo de aleitamento; não existe no Brasil espessante para leite materno.
  8. 8Arroto na vertical depois da mamada; sono sempre de barriga para cima, em berço plano e firme, sem travesseiro sob o colchão, sem rolinho e sem inclinação; ninguém fuma perto do bebê.
  9. 9Suspenda o que não tem indicação: procinético (bromoprida, domperidona, metoclopramida), antiácido e sucralfato, e inibidor de bomba iniciado para golfada ou choro.
  10. 10Reavalie em 2 semanas: cada medida não farmacológica precisa de pelo menos 2 semanas para ser julgada.
  11. 11Sinais de DRGE sem alarme — recusa com choro na mamada, ganho de peso caindo, corpo arqueado, sintoma respiratório com sintoma típico: mantenha o volume certo e espesse a fórmula do bebê não amamentado por 2 semanas.
  12. 12Sem melhora: prova de exclusão do leite de vaca por 2 a 4 semanas — dieta da mãe sem leite de vaca no amamentado, fórmula extensamente hidrolisada no não amamentado — pelo capítulo Dois relógios para o mesmo leite; melhora leva à reintrodução programada por aquele capítulo.
  13. 13Sem melhora com a prova: encaminhe ao gastroenterologista pediátrico. Se o encaminhamento não é possível em tempo útil, considere teste com omeprazol por 4 a 8 semanas (Tabela 3), fora da bula abaixo de 1 ano, com reavaliação em 4 semanas, retirada ao fim e encaminhamento mantido.
  14. 14Esofagite erosiva confirmada por endoscopia: inibidor de bomba é o tratamento de primeira linha, conduzido pelo especialista.
  15. 15Recidiva depois da retirada, ou necessidade de remédio contínuo: especialista. Cirurgia antirrefluxo só com DRGE comprovada e indicação da diretriz, no serviço de referência.
  16. 16Alta do problema: golfada rara ou ausente, curva preservada, sem remédio — em geral entre o fim do primeiro ano e os 2 anos.

Sinais de alarme: hipótese e destino da avaliação

SinalO que apontaO que se faz na horaCapítulo dono no nível
Vômito bilioso (verde)Obstrução intestinal: atresia, má rotação com volvo, doença de Hirschsprung, invaginaçãoEncaminhamento imediato para serviço com cirurgia pediátrica; nada de seriografia “para ver refluxo”A cor do vômito e a fralda que não sujou (Cirurgia Pediátrica)
Vômito em jato persistente, piorando, nas primeiras semanas (até cerca de 2 meses), com fome logo depoisEstenose hipertrófica de piloroUltrassonografia de piloro e avaliação cirúrgica no mesmo diaEle vomita, e continua com fome (Cirurgia Pediátrica)
Febre, letargia, disúria, irritabilidade que não cedeInfecção sistêmica ou urináriaAvaliação no mesmo dia; urina tipo 1 e urocultura pela técnica do capítulo donoFebre sem sinais localizatórios no lactente (Emergências Pediátricas); Infecção urinária na criança (Nefrologia Pediátrica)
Fontanela abaulada, perímetro cefálico crescendo rápido, vômito noturno, convulsãoHipertensão intracraniana: meningite, hidrocefalia, tumor, hematoma subduralAvaliação no mesmo dia em serviço com pediatraA ordem certa não é a ordem do raciocínio (Infectologia Pediátrica); Violência e maus-tratos infantis (Emergências Pediátricas), se há hematoma sem trauma contado
Hematêmese ou melenaSangramento do esôfago, do estômago ou do duodeno, inclusive esofagiteAvaliação no mesmo dia; gastroenterologista pediátrico para endoscopiaEste capítulo, pela esofagite; a urgência pelo sangramento
Sangue nas fezes, diarreia crônica, eczema ou atopia familiar forteProctocolite ou gastroenteropatia induzida por proteína alimentarProva de exclusão do leite de vaca por prazo, sem suspender o peitoDois relógios para o mesmo leite (Gastroenterologia Pediátrica)
Distensão abdominalObstrução, dismotilidade ou anomalia anatômicaAvaliação cirúrgica no mesmo diaA cor do vômito e a fralda que não sujou (Cirurgia Pediátrica)
Início depois dos 6 meses; aumento ou persistência depois dos 12 a 18 mesesOutro diagnóstico que não o refluxo do lactenteRefazer a investigação pelos grupos desta tabela; gastroenterologista pediátricoEste capítulo
Perda de peso, e não só ganho menorDoença sistêmica, obstrução, erro inato do metabolismo ou DRGE graveAvaliação no mesmo dia em serviço com laboratório; nenhum remédio para refluxo antes do diagnósticoErros inatos do metabolismo não têm capítulo no nível; este capítulo assume o encaminhamento
Postura anormal ou movimento em episódiosSíndrome de Sandifer (DRGE) ou crise convulsivaExame neurológico no mesmo dia; a crise se investiga primeiroEste capítulo, pela síndrome de Sandifer

O bebê em fórmula que golfa: o que se mede na consulta, a régua e o que muda

MedidaComo obter na consultaRéguaO que se muda se passar da régua
Volume por mamadaA mãe mostra a mamadeira que prepara e quanto costuma sobrarGuia Prático de Alimentação da SBP (2021) — 0 a 30 dias: 60 a 120 mL; 30 a 60 dias: 120 a 150 mL; 2 a 3 meses: 150 a 180 mL; 3 a 6 meses: 180 a 200 mLVoltar ao volume da faixa de idade; não aumentar o volume porque o bebê chora depois de golfar
Número de mamadas em 24 horasContar o dia e a noite, perguntando o que acontece quando o bebê choraMesmo guia — 0 a 30 dias: 6 a 8; 30 a 60 dias: 6 a 8; 2 a 3 meses: 5 a 6; 3 a 6 meses: 5 a 6Espaçar para a faixa; choro antes da hora recebe primeiro colo, arroto e troca de fralda, não mamadeira
Total do diaVolume por mamada vezes número de mamadasNa faixa de 3 a 6 meses, o produto das pontas da régua vai de 900 a 1.200 mLFelício: 180 mL em 9 a 10 mamadas = 1.620 a 1.800 mL/dia (249 a 277 mL/kg), 1,35 a 1,50 vezes o máximo; plano de 180 mL em 6 mamadas = 1.080 mL/dia (166 mL/kg)
PreparoA mãe descreve quantas medidas põe em quanta água e como medeDiluição do rótulo; fórmula pronta com 60 a 70 kcal por 100 mL (guia da SBP, pelas resoluções da Anvisa)Corrigir a diluição; medida a mais concentra a fórmula, medida a menos faz o bebê pedir mais volume
Ritmo da mamadaVer uma mamadeira na consulta ou pedir vídeo à famíliaCaderneta da Criança: depois da mamada, o bebê vai para a posição vertical para arrotarPausas para arrotar na vertical; observar pressa, engasgo e ar engolido e corrigir o que se viu
Gatilho da ofertaPerguntar se toda vez que chora recebe mamadeiraNASPGHAN: evitar o excesso ajustando frequência e volume à idade e ao peso, com total diário adequadoCombinar com a família outros gestos para o choro entre as mamadas e registrar mamadas e golfadas num diário de três dias

Omeprazol no lactente pela cápsula de 10 mg da Rename: quanto cada peso recebe (teto de 40 mg/dia em qualquer peso)

PesoUma cápsula de 10 mg entregaDentro de 1 a 4 mg/kg/dia (NASPGHAN, Tabela 4)Dentro de 1 a 1,7 mg/kg/dia (doses que cicatrizaram esofagite, NASPGHAN)Dentro de 0,7 a 3,5 mg/kg/dia (texto do guia da SBP)
4 kg2,50 mg/kg/diasimnão, acima (2,50)sim
5 kg2,00 mg/kg/diasimnão, acima (2,00)sim
6 kg1,67 mg/kg/diasimsimsim
7 kg1,43 mg/kg/diasimsimsim
7,45 kg (Felício aos 6 meses)1,34 mg/kg/diasimsimsim
8 kg1,25 mg/kg/diasimsimsim
9 kg1,11 mg/kg/diasimsimsim
10 kg1,00 mg/kg/diasimsimsim

Exames pedidos “para ver o refluxo” no lactente: o que cada um responde

ExameServe para diagnosticar DRGE?Pergunta que ele respondeQuem pede e quando
Seriografia (radiografia contrastada de esôfago, estômago e duodeno)Não (NASPGHAN)Há anomalia anatômica — má rotação, estenose, membrana, hérnia de hiato, compressão extrínseca? A fundoplicatura está obstruída ou frouxa?Especialista ou cirurgião, diante de suspeita anatômica; nunca para tranquilizar
Ultrassonografia abdominalNão (NASPGHAN; guia da SBP)Há estenose hipertrófica de piloro ou outra anomalia anatômica?Médico da urgência ou do ambulatório, diante de vômito em jato progressivo nas primeiras semanas
Cintilografia esofagogástricaNão (NASPGHAN; guia da SBP)Esvaziamento gástrico e aspiração, em perguntas de especialistaNão entra na rotina do lactente que regurgita
Endoscopia digestiva alta com biópsiasNão confirma refluxo (NASPGHAN)Há esofagite erosiva, esofagite eosinofílica ou outra doença da mucosa? Há complicação?Gastroenterologista pediátrico: complicação, suspeita de doença da mucosa, antes de escalar tratamento
pH-impedanciometria esofágica de 24 horasNão como exame isolado (NASPGHAN)O sintoma persistente se relaciona com refluxo ácido ou não ácido? A supressão ácida está funcionando?Gastroenterologista pediátrico, depois das medidas iniciais e da prova de exclusão
pHmetria esofágicaNão como exame isoladoAs mesmas perguntas, só para refluxo ácido — que no lactente é a minoria dos episódiosEspecialista, quando a impedância não está disponível
Teste com inibidor de bomba de prótonsNão no lactente (NASPGHAN)Nenhuma: os ensaios em lactentes não mostraram benefício sobre placebo, e melhora com o tempo confundeNão se usa como prova diagnóstica; o teste terapêutico com prazo tem outras condições (fluxo)

Regurgitação: uma síntese para a consulta

ApresentaçãoInterpretaçãoConduta
Golfadas sem esforço, boa alimentação e evolução de crescimentoCompatível com regurgitação fisiológica no contexto típicoOrientação, alimentação adequada, sono seguro e acompanhamento
Recusa, desconforto importante ou repercussão na alimentaçãoExige avaliação da causa; refluxo é uma hipóteseHistória e exame dirigidos, intervenção justificada e retorno
Perda ponderal ou crescimento insuficienteSinal de repercussão, sem etiologia definida pelo pesoAvaliar ingestão, doença associada e necessidade de encaminhar
Vômito bilioso, sangramento relevante, distensão ou prostraçãoPode indicar doença que precisa de atendimento urgenteAvaliação imediata conforme gravidade
Sintomas persistentes apesar de manejo bem executadoRever hipótese e indicação dos tratamentosDiscussão especializada e investigação pertinente

Critério de Roma IV com duas faixas etárias no mesmo documento. O guia nº 185 da SBP (dezembro de 2024) escreve, na introdução, que a regurgitação do lactente saudável é critério “de três a 12 meses de idade”, e na seção Refluxo nos lactentes, “de três semanas a 12 meses”. O critério original (Benninga e colaboradores, Gastroenterology 2016, G1) é de 3 semanas a 12 meses. Conta: um lactente de 7 semanas, com 3 golfadas por dia há 3 semanas e ganhando peso, fica fora do critério pela primeira frase — e vira candidato a exame e a remédio — e dentro dele pela segunda e pelo original. A faixa que a primeira frase exclui, de 3 semanas a 3 meses, é a do pico: o próprio guia registra regurgitação em 50% dos lactentes antes dos 2 meses. Este capítulo usa 3 semanas.

Posologia de antiácido com alumínio para lactente. A Tabela 7 do guia da SBP traz a linha “antiácido com Mg ou Al: 2,5 mL três vezes ao dia abaixo de 5 kg; 5 mL três vezes ao dia acima de 5 kg” e cita, entre as fontes, a diretriz NASPGHAN/ESPGHAN de 2018. Na Tabela 4 dessa diretriz, exatamente essa posologia é a de alginato de magnésio com simeticona, e o texto da mesma diretriz diz que antiácido com alumínio não deve ser usado em lactente nem em criança com insuficiência renal. Conta: um lactente de 4 kg receberia 7,5 mL por dia de um antiácido com alumínio pela linha da SBP, numa idade em que a fonte citada contraindica o produto. Este capítulo não prescreve antiácido com alumínio ao lactente (ver divergências).

Sucralfato em dose fixa, sem ajuste por peso. A mesma Tabela 7 dá, para “lactentes e crianças menores de 6 anos”, 2,5 mL da suspensão de 200 mg/mL quatro vezes ao dia, e para maiores de 6 anos, 1 g quatro vezes ao dia; o texto do guia define o sucralfato como complexo de sacarose com hidróxido de alumínio. Conta: 2,5 mL × 200 mg/mL × 4 = 2 g/dia; num lactente de 5 kg, 400 mg/kg/dia; na criança de 6 anos com 20 kg, 4 g/dia = 200 mg/kg/dia. O lactente recebe, por quilo, o dobro do que a mesma tabela dá à criança maior, de um sal de alumínio. O sucralfato não consta da Rename 2024.

Teto do omeprazol dobrado e duas faixas de dose no mesmo guia. A Tabela 8 do guia da SBP dá omeprazol de 1 a 4 mg/kg/dia com dose máxima de 80 mg, e lansoprazol com máxima de 60 mg; a Tabela 4 da NASPGHAN/ESPGHAN dá 40 mg e 30 mg, declarando que o teto se baseia na dose do adulto, e a bula do omeprazol (Geolab, 2022) limita o uso pediátrico, acima de 1 ano, a no máximo 40 mg. O texto corrido do mesmo guia da SBP dá outra faixa para o omeprazol, de 0,7 a 3,5 mg/kg/dia. Conta: criança de 15 kg a 4 mg/kg/dia = 60 mg — cabe no teto da tabela da SBP e passa 50% do teto da bula e da NASPGHAN; lactente de 11 kg a 4 mg/kg/dia = 44 mg. Este capítulo usa 40 mg como teto (ver divergências).

Indicação de cirurgia antirrefluxo escrita de dois jeitos na diretriz NASPGHAN/ESPGHAN de 2018. No corpo do texto, a recomendação 6.1 fala em complicação com risco de vida “por exemplo, insuficiência cardiorrespiratória” depois de falha do tratamento clínico ótimo; no resumo das recomendações, a mesma 6.1 fala em complicação com risco de vida “como apneias ou BRUE”. Conta: um lactente com um BRUE, resolvido, sem outra complicação e sem resposta ao tratamento clínico, entra na indicação pela lista-resumo e não entra pelo corpo. Este capítulo usa o corpo, que traz a justificativa, e deixa a indicação ao serviço de referência.

08

A conduta, hora a hora

Felício é acompanhado dos três aos dez meses: primeiro apresenta regurgitação sem repercussão; depois, mudanças na mamada e na curva obrigam a rever a hipótese. Cada intervenção deve ter um objetivo e uma data de avaliação. A sequência do algoritmo organiza o caso estável, mas não adia o atendimento de sinais de alarme.

Na criança estável, dê tempo suficiente para avaliar uma intervenção planejada e evite mudar várias coisas sem motivo. Em geral, o período de observação das medidas alimentares é de pelo menos duas semanas. Esse prazo não vale para piora, desidratação, hematêmese, vômito bilioso ou outro sinal de alarme, que exige avaliação antecipada.

Tratamento cirúrgico da doença do refluxo na criança é excepcional e depende de confirmação diagnóstica, avaliação das alternativas e discussão especializada. O cuidado do lactente que cresce e se alimenta bem começa por orientação, alimentação adequada e sono seguro; a presença de uma indicação cirúrgica no algoritmo não a transforma em etapa obrigatória.

  1. Segunda-feira, 9h50 — dia 0, 3 meses e 10 dias, 6.500 g

    Você fecha o raciocínio antes de falar. A golfada começou na segunda semana, está no pico da idade, acontece várias vezes por dia há meses e vem sem nenhum item de exclusão do critério de Roma IV. Você pergunta os sinais de alarme um por um — verde, sangue, jato que piora, febre, bebê mole, fontanela alta, convulsão, barriga inchada — e todos são negados; no exame, a fontanela está plana, o abdome é normal e a curva segue a linha do meio. É regurgitação do lactente. O que explica o volume das golfadas está na conta: 180 mL em 9 a 10 mamadas dão 1.620 a 1.800 mL por dia, de 35% a 50% acima do máximo que a tabela da SBP admite de 3 a 6 meses. O engasgo da semana passada teve explicação à vista. Não há pergunta que um exame responda, e não há doença que um remédio trate. Então a consulta tira três coisas e corrige duas. Tira a bromoprida, que o guia da SBP diz não ter indicação na DRGE, que a NASPGHAN manda não usar e que nem consta da Rename. Tira o travesseiro sob o colchão e o sono de lado, contra a Nota de Alerta nº 56 da SBP. Tira o pedido de exame. Corrige o volume e o gatilho da oferta, e corrige a leitura da família sobre o peito que ela abandonou: a golfada nunca foi sinal de leite fraco, e, se Miguelina quiser tentar voltar a amamentar, esse desejo merece a atenção da equipe da unidade. Você marca o peso na Caderneta diante dela, escreve o diagnóstico com todas as letras e combina a volta.

    Prescrição
    • Suspender a bromoprida em gotas
    • Fórmula infantil de partida, preparada conforme o rótulo: 180 mL por mamada, 6 mamadas em 24 horas, intervalo de cerca de 4 horas (1.080 mL/dia, 166 mL/kg/dia)
    • Choro antes da hora da mamada: colo, arroto e troca de fralda antes de oferecer leite
    • Depois de cada mamada: arrotar no colo, na posição vertical
    • Sono sempre de barriga para cima, no berço plano e firme; retirar o travesseiro de baixo do colchão; sem rolinho, ninho ou posicionador; ninguém fuma perto do bebê
    • Nenhum exame complementar e nenhum medicamento
    • Diário de mamadas e golfadas por 3 dias antes do retorno
    • Retorno em 14 dias para pesar; voltar antes, no mesmo dia, se houver vômito verde, sangue no vômito ou nas fezes, febre, bebê mole ou difícil de acordar, fontanela alta, vômito em jato cada vez mais forte ou recusa de mamar
  2. Dia 14 — 3 meses e 24 dias, 6.850 g

    Miguelina volta com o diário escrito à mão. Com 6 mamadas de 180 mL, as golfadas caíram de quase dez para três ou quatro por dia, menores; o ganho foi de 350 g em 14 dias, e o ponto continua na linha. A bromoprida saiu sem nenhuma diferença. O sono de barriga para cima, no berço plano, assustou a avó na primeira noite e deixou de assustar na terceira. O choro, porém, continua — agora concentrado no fim da tarde, em crises que não têm relação com a mamadeira e que cedem no colo. É o choro que o capítulo de Roma IV descreve como não explicado pelo refluxo: não vem com recusa, não vem com arqueamento durante a mamada, e o bebê cresce. A mãe pergunta pela fórmula “antirrefluxo” que viu na farmácia. A resposta honesta é que espessar reduz a golfada que se vê e não protege o esôfago de nada; num bebê que já golfa menos e cresce na linha, ela não trata doença nenhuma, custa caro e não é fornecida pelo SUS. Você não a proíbe, mas não a prescreve, e registra por quê. Os alarmes são perguntados de novo e seguem ausentes. A próxima consulta é a de puericultura dos 4 meses.

    Prescrição
    • Manter 180 mL por mamada, 6 mamadas em 24 horas, e o sono de barriga para cima no berço plano
    • Fórmula antirregurgitação não indicada: golfada em queda e ganho de peso na linha
    • Choro do fim da tarde: colo, rotina de acalmar e orientação sobre a evolução com a idade; nenhum remédio
    • Retorno na consulta de puericultura dos 4 meses; voltar antes se aparecer qualquer sinal de alarme ou recusa de mamar
  3. 4 meses e 3 semanas, 7.250 g — a consulta em que a história muda

    Na consulta dos 4 meses Felício pesava 7.050 g e seguia bem. Hoje Miguelina volta antes do combinado: há dez dias ele chora e arqueia o corpo para trás no meio da mamadeira, larga o bico depois de 90 a 100 mL e não aceita mais; as golfadas voltaram a aumentar; há duas semanas apareceram placas ásperas e avermelhadas nas bochechas. Em 19 dias ganhou só 200 g — o ganho, que vinha de 20 a 25 g por dia, caiu para cerca de 10 —, e o ponto de hoje começa a se afastar da linha. O pai tem asma e rinite desde criança. Isso já não é o bebê que golfa e cresce: há impacto na mamada e na curva, que é o limite que a NASPGHAN usa para agir. Antes de chamar de DRGE, você procura o que mais produziria isso. Não há febre, a fontanela é plana, o abdome é normal, não há sangue nas fezes nem diarreia, a urina tem cheiro e cor habituais — e, ainda assim, irritabilidade nova com ganho que parou pede exame de urina, colhido pela técnica do capítulo Infecção urinária na criança. Afastado o alarme evidente, o primeiro passo do algoritmo para o bebê em fórmula com suspeita de DRGE é manter o volume certo e espessar a dieta por duas semanas. O eczema e a atopia do pai tornam a alergia à proteína do leite de vaca mais provável, e ela entra na próxima volta se o espessamento não bastar.

    Prescrição
    • Urina tipo 1 e urocultura, colhidas pela técnica do capítulo de infecção urinária
    • Trocar a fórmula de partida por fórmula antirregurgitação (espessada) para lactentes, no mesmo volume: até 180 mL por mamada, 6 mamadas, sem forçar o que o bebê recusa
    • Manter arroto na vertical e sono de barriga para cima no berço plano
    • Peso em 14 dias; voltar antes se houver vômito verde, sangue, febre, bebê mole ou recusa total
  4. 5 meses e 5 dias, 7.300 g — duas semanas de fórmula espessada

    A urina veio normal e a urocultura, negativa. A fórmula espessada fez o que se espera dela: as golfadas diminuíram de novo. O que ela não poderia fazer, não fez: Felício continua chorando e arqueando no meio da mamadeira, recusa depois de 100 mL e ganhou 50 g em duas semanas. O eczema continua. O algoritmo da NASPGHAN e a figura do guia da SBP dão o passo seguinte para o lactente em fórmula cuja DRGE não melhorou com as medidas iniciais: a prova de exclusão do leite de vaca por 2 a 4 semanas, com fórmula extensamente hidrolisada. A atualização de alergia alimentar da ASBAI com a SBP (2025) põe a fórmula extensamente hidrolisada como primeira escolha e dá à dieta de eliminação diagnóstica o mesmo prazo de 2 a 4 semanas. A escolha da fórmula, o caminho para obtê-la pelo SUS e o que fazer com o resultado — inclusive a volta do leite para confirmar — são do capítulo Dois relógios para o mesmo leite, desta apostila. E há uma segunda decisão que não espera o resultado: o peso parou há mais de um mês. Você encaminha Felício ao gastroenterologista pediátrico hoje, pela regulação, porque a fila existe e o encaminhamento feito só depois da prova falhar chegaria tarde.

    Prescrição
    • Prova de exclusão do leite de vaca por 2 a 4 semanas: fórmula extensamente hidrolisada no lugar da fórmula espessada, no mesmo volume, conforme o capítulo de alergia à proteína do leite de vaca
    • Nenhum outro alimento novo durante a prova
    • Encaminhamento ao gastroenterologista pediátrico pela regulação: lactente de 5 meses com suspeita de DRGE, recusa alimentar e ganho de peso parado há 5 semanas, sem resposta a volume corrigido e fórmula espessada; urina normal; em prova de exclusão do leite de vaca
    • Peso semanal na unidade durante a prova
    • Sono de barriga para cima no berço plano; sinais de alarme revistos com a mãe
  5. 5 meses e 26 dias, 7.450 g — três semanas de fórmula hidrolisada

    Três semanas depois, nada mudou: a recusa e o choro na mamada seguem iguais, o ganho foi de 150 g em 21 dias e o eczema não melhorou. Uma prova de exclusão bem feita, que não mexe em nada no prazo, torna a alergia à proteína do leite de vaca pouco provável como causa desse quadro; a volta à fórmula de partida segue o capítulo Dois relógios para o mesmo leite. A regulação marcou o gastroenterologista pediátrico para daqui a quatro meses. É exatamente a situação que o algoritmo da NASPGHAN prevê — encaminhamento que não é possível em tempo útil — e que o guia da SBP repete: considerar supressão ácida por 4 a 8 semanas e retirar ao fim. As condições estão todas presentes: sinais de DRGE com impacto na alimentação e no crescimento, nenhum sinal de alarme, volume corrigido, fórmula espessada e prova de exclusão sem resposta. O remédio possível no SUS é o omeprazol em cápsula de 10 mg da Rename. A bula do omeprazol só prevê uso pediátrico acima de 1 ano, na esofagite de refluxo; em Felício o uso é fora da bula, e isso se explica à mãe e se escreve no prontuário. Uma cápsula de 10 mg em 7,45 kg entrega 1,34 mg/kg/dia, entre os 1 e 4 mg/kg/dia da Tabela 4 da NASPGHAN e entre os 1 e 1,7 mg/kg/dia que cicatrizaram esofagite nos ensaios. O teste tem data para ser julgado e data para acabar. O encaminhamento continua na fila. E Felício faz 6 meses na semana que vem: a alimentação complementar começa, sem restrição de leite, pelo capítulo O que não escorre da colher, da apostila de Nutrologia Pediátrica.

    Prescrição
    • Voltar à fórmula infantil de partida, 180 a 200 mL por mamada, 5 a 6 mamadas em 24 horas, conforme o capítulo de alergia à proteína do leite de vaca para encerrar a prova negativa
    • Omeprazol cápsula de 10 mg (Rename, Componente Básico): 1 cápsula por via oral, uma vez ao dia, pela manhã, antes da primeira mamada — 10 mg = 1,34 mg/kg/dia; teto de 40 mg/dia
    • Modo de dar: abrir a cápsula, misturar os microgrânulos inteiros, sem triturar, numa colher com um pouco de água, nunca no leite, e oferecer imediatamente
    • Duração: teste de 8 semanas, com reavaliação obrigatória em 4 semanas; sem nenhuma melhora em 4 semanas, suspender
    • Uso fora da bula abaixo de 1 ano explicado à mãe e registrado no prontuário
    • Encaminhamento ao gastroenterologista pediátrico mantido
    • Alimentação complementar a partir dos 6 meses pelo capítulo de introdução alimentar
    • Peso a cada 2 semanas na unidade; sinais de alarme e sono de barriga para cima revistos
  6. 6 meses e 24 dias, 7.900 g — quatro semanas de omeprazol

    Felício mama sem chorar. Aceita a mamadeira inteira, não arqueia mais, golfa duas ou três vezes por dia e começou a comer legumes e fruta amassados com interesse. Ganhou 450 g em 28 dias, e a curva voltou a subir. É a melhora que autoriza completar o teste — e é também uma melhora que não prova doença ácida. Ela coincide com a idade em que a maioria dos lactentes melhora sozinha, com o começo da comida mais consistente e com o bebê passando mais tempo sentado. É por isso que o teste tem fim marcado: só a retirada, sem volta dos sintomas, permite dizer que o remédio já não é necessário, e só a volta dos sintomas depois da retirada justifica o especialista mais cedo. Nenhum efeito adverso foi notado. Miguelina pergunta se pode continuar “para sempre, já que funcionou”. Você explica que não: a NASPGHAN manda reavaliar regularmente a necessidade de supressão ácida, e o guia da SBP lembra que o balanço entre risco e benefício do inibidor de bomba nessa idade não é favorável sem doença comprovada e que o efeito do uso prolongado não foi estudado.

    Prescrição
    • Manter omeprazol 10 mg uma vez ao dia, pela manhã, até completar 8 semanas
    • Manter fórmula de partida e alimentação complementar pelo capítulo de introdução alimentar
    • Retorno em 4 semanas para a retirada; voltar antes se voltar a recusa ou aparecer sinal de alarme
  7. 7 meses e 22 dias, 8.300 g — oito semanas: a retirada

    O teste termina com Felício mamando bem, comendo a comida da família amassada, golfando raramente e ganhando 400 g em quatro semanas. É hora de retirar. O guia da SBP descreve, depois de uso prolongado, uma retirada gradual e empírica, em dias alternados e depois espaçando as doses, porque a suspensão abrupta pode provocar rebote de ácido; a NASPGHAN fala em desmamar o remédio quando os sintomas melhoram. Oito semanas não são uso de anos, e esta apostila adota, para o teste de 8 semanas no lactente, a forma mais curta que cabe na descrição do guia: uma semana em dias alternados e, depois, parar. O critério de sucesso não é a semana da retirada, e sim as semanas seguintes: se a recusa e o choro na mamada voltarem, Felício tem doença que precisa de especialista e não de uma nova receita de 8 semanas feita na atenção básica. A mãe sai com o sinal de retorno escrito.

    Prescrição
    • Omeprazol 10 mg em dias alternados por 7 dias e, depois, suspender
    • Observar por 4 semanas depois da suspensão: volta da recusa, do choro na mamada ou queda do ganho de peso leva ao retorno imediato e à antecipação do especialista
    • Encaminhamento ao gastroenterologista pediátrico mantido até a consulta
    • Sono de barriga para cima no berço plano até completar 1 ano
  8. 10 meses, 9.100 g — a consulta com o especialista e a alta do problema

    A consulta marcada pela regulação chega quando o problema já passou. Felício está sem remédio há dois meses e meio, não recusa leite nem comida, golfa uma vez ou outra, dorme de barriga para cima e voltou a correr a curva na mesma faixa em que andava antes da queda. O gastroenterologista pediátrico lê a carta de encaminhamento, que conta a história na ordem certa — golfada fisiológica, impacto na mamada e na curva aos 4 meses e meio, volume corrigido, fórmula espessada, prova de exclusão negativa, teste de 8 semanas de omeprazol com melhora e retirada sem recidiva —, e não vê indicação de endoscopia nem de pH-impedanciometria numa criança sem sintoma, com crescimento recuperado e sem sinal de alarme. A alta é do problema, não da criança: Felício segue na puericultura da unidade, com a Caderneta em dia. A carta também serve de lição para quem a escreveu: o especialista pôde decidir em cinco minutos porque cada passo tinha motivo, prazo e resultado anotados. E Miguelina, que chegou pedindo exame e remédio para um bebê que só golfava, sai sabendo a diferença entre o leite que volta e o peso que não sobe.

    Prescrição
    • Alta do acompanhamento especializado para refluxo
    • Puericultura de rotina na unidade básica, com peso e perímetro cefálico na Caderneta
    • Nenhum medicamento; nenhuma restrição alimentar
    • Retorno à unidade se voltarem recusa alimentar, choro na alimentação, perda de peso ou qualquer sinal de alarme
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Como saber se está funcionando

Acompanhe crescimento, qualidade da mamada, desconforto e sinais de alarme. Ganho de peso adequado favorece uma interpretação benigna no contexto típico, mas não exclui sozinho toda doença. Um diário simples de episódios, alimentação e sintomas pode ajudar a comparar a evolução sem exigir contagem obsessiva de cada golfada.

Reveja o objetivo e a execução da medida combinada, permitindo tempo de resposta na criança estável. Antecipe retorno diante de piora ou novos sinais; não troque sucessivamente fórmulas nem prolongue medicação sem reavaliar a indicação e o benefício.

Peso e perímetro cefálico na CadernetaEm toda consulta; a cada 2 semanas enquanto houver suspeita de DRGE; semanal durante a prova de exclusão do leite de vaca se o peso estiver parado

Esperado: Pontos que seguem a mesma faixa da curva; perímetro cefálico acompanhando a curva

Se não melhora: Queda de faixa com golfada e recusa: DRGE, pelo fluxo do critério. Perda de peso: sinal de alarme, avaliação no mesmo dia. Perímetro cefálico que cresce rápido: hipertensão intracraniana até prova em contrário

Número e jeito das golfadasDiário da família por 3 dias antes de cada retorno nas primeiras semanas

Esperado: Queda do número e do volume depois de corrigir a conta da mamadeira; golfada que escorre, sem esforço, com bebê tranquilo

Se não melhora: Golfada que muda de natureza — jato que piora, verde, com sangue, noturna — sai do refluxo e vai para o capítulo dono. Golfada igual, com bebê que cresce, não pede remédio: pede tempo e, se a família quiser, fórmula espessada no bebê não amamentado

A mamada: volume aceito, duração, recusa e choro durante a alimentaçãoEm toda consulta, pela história e, se possível, vendo uma mamada

Esperado: Mamadeira terminada no volume da faixa de idade, ou mamada no peito sem soltar e chorar; nenhum arqueamento durante a mamada

Se não melhora: Recusa com choro e arqueamento na mamada: sinal de DRGE — espessar a fórmula por 2 semanas e, sem resposta, prova de exclusão do leite de vaca; no amamentado, dieta da mãe sem leite de vaca, sem suspender o peito

Choro e sonoEm toda consulta

Esperado: Choro em crises no fim da tarde, sem relação com a mamada, que cede no colo e diminui com a idade; sono de barriga para cima, em berço plano

Se não melhora: Choro sem recusa e sem queda de curva não muda a conduta do refluxo e não justifica remédio para ácido. Choro que muda de padrão, com palidez, sonolência, vômito ou sangue nas fezes: sinal de alarme

Sinais de alarmePerguntados um por um em toda consulta e explicados à família na primeira

Esperado: Ausentes

Se não melhora: Qualquer sinal presente tira a criança do fluxo do refluxo: avaliação no mesmo dia e caminho do capítulo dono (Tabela 1 do critério)

Resposta à prova de exclusão do leite de vacaEntre 2 e 4 semanas depois do início, com o prazo marcado na receita

Esperado: Resposta clara — melhora da recusa, do choro na mamada e do ganho de peso — ou ausência clara de resposta

Se não melhora: Sem resposta: alergia ao leite pouco provável como causa; encerrar a prova pelo capítulo Dois relógios para o mesmo leite e encaminhar ao gastroenterologista pediátrico. Com resposta: a reexposição programada por aquele capítulo confirma ou afasta a alergia — a melhora com fórmula hidrolisada, sozinha, não prova alergia

Teste com omeprazol (quando o especialista não está acessível)Reavaliação obrigatória em 4 semanas; fim em 8 semanas; observação por 4 semanas depois da retirada

Esperado: Mamada sem choro e sem recusa, retomada do ganho de peso; nenhuma volta dos sintomas depois da retirada

Se não melhora: Sem nenhuma melhora em 4 semanas: suspender e insistir no especialista. Melhora e volta dos sintomas depois da retirada: especialista, sem renovar a receita na atenção básica. Nunca manter o remédio sem data de fim

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Onde o erro machuca

Prescrever inibidor de bomba ao lactente que golfa, chora e cresce

O dano: Não reduz a golfada nem o choro — cinco ensaios em lactentes não mostraram benefício sobre placebo — e expõe a criança ao risco de infecção associado à supressão ácida: enterocolite necrosante, pneumonia, infecção de vias aéreas, sepse, infecção urinária e por Clostridioides difficile. A melhora com a idade é creditada ao remédio, que passa a ser renovado sem fim, fora da bula abaixo de 1 ano.

Como pegar a tempo: Aplique a recomendação da NASPGHAN: não usar bloqueador H2 nem inibidor de bomba para choro ou para regurgitação visível em lactente saudável. Decida pela curva e pelos sinais de DRGE, não pelo volume da golfada. Se o bebê chegou em uso, e não tem doença, suspenda e explique.

Receitar procinético — bromoprida, domperidona, metoclopramida — para a golfada

O dano: Sem benefício demonstrado na DRGE da criança, com efeitos extrapiramidais (metoclopramida e bromoprida), prolongamento do intervalo QT (domperidona), agitação e piora da cólica. A metoclopramida está na Rename em solução oral, o que dá ao erro uma aparência de conduta oficial.

Como pegar a tempo: Guarde as duas frases: o guia da SBP diz que não há indicação de metoclopramida nem de bromoprida na DRGE, e a NASPGHAN sugere não usar domperidona nem metoclopramida. Estar na Rename não é indicação para o lactente que golfa.

Mandar elevar a cabeceira, pôr de lado ou de bruços para dormir

O dano: Troca menos golfada por mais risco de síndrome da morte súbita do lactente; o bebê em plano inclinado escorrega para o pé do berço e pode ficar em posição que compromete a respiração. A família sai da consulta fazendo o contrário da regra de sono seguro, com a autorização do médico.

Como pegar a tempo: Sono sempre de barriga para cima, em berço plano e firme, sem travesseiro sob o colchão, rolinho ou posicionador, também no bebê com refluxo — é a letra da Nota de Alerta nº 56 da SBP e da recomendação da NASPGHAN contra terapia posicional no lactente dormindo. Posição vertical é para depois da mamada, acordado e no colo.

Pedir seriografia, ultrassonografia ou cintilografia “para ver se tem refluxo”

O dano: Nenhum dos três diagnostica DRGE: o exame vê refluxo em bebê saudável, gera achado que leva a remédio desnecessário, ocupa fila e, na seriografia e na cintilografia, expõe a criança a radiação sem pergunta clínica. No bebê com vômito bilioso, o pedido errado atrasa a cirurgia.

Como pegar a tempo: Pergunte qual pergunta o exame responde (Tabela 4 do critério). Sem sinal de alarme, com critério de Roma IV e curva preservada, não há exame. Diante de alarme, o exame é o da doença que o alarme aponta.

Suspender o aleitamento, ou trocar a fórmula toda semana, por causa da golfada

O dano: A criança perde o peito por um sintoma que não é doença; a família lê a golfada como leite fraco; as trocas sucessivas impedem saber o que funcionou e empurram para fórmulas especiais e caras sem indicação.

Como pegar a tempo: No bebê amamentado, mantenha o peito — a NASPGHAN manda continuar o aleitamento, e a dieta de exclusão, quando indicada, é da mãe. No bebê em fórmula, corrija primeiro a conta da mamadeira e mude uma coisa de cada vez, com pelo menos duas semanas para julgar.

Deixar passar o sinal de alarme porque todo bebê golfa

O dano: Estenose de piloro com alcalose e desidratação, má rotação com volvo, infecção urinária, meningite, hipertensão intracraniana e erro inato do metabolismo chegam com a queixa de refluxo — e a frase “é normal, todo bebê golfa” adia o diagnóstico que tinha pressa.

Como pegar a tempo: Pergunte os sinais de alarme um por um, com as palavras da família, em toda consulta, e registre que perguntou. Golfada que começou fora da janela, que mudou de natureza ou que vem com bebê que não cresce é outra doença até prova em contrário.

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O que dizer ao paciente e à família

A família do lactente que regurgita chega convencida de uma doença e cansada de uma rotina. A conversa precisa fazer as duas coisas ao mesmo tempo: desfazer a doença que não existe sem desqualificar o cansaço que existe. O capítulo de Roma IV é direto sobre isso — a consulta de um distúrbio funcional do lactente é também sobre o medo de quem cuida, e o manejo depende de uma aliança com os pais. Frases prontas não servem se não vierem com o dado que as sustenta: a curva, a conta da mamadeira e a lista de sinais que mudariam a conduta.

As falas abaixo são com Miguelina, mãe de Felício, e uma delas com a avó, nas consultas da linha do tempo da conduta.

Explicar, na primeira consulta, que a golfada de Felício não é doença

“Miguelina, eu olhei tudo o que precisava olhar: perguntei cada coisa que me faria pensar em doença, examinei a cabeça, a barriga, e marquei o peso dele aqui na caderneta com a senhora. Olha esta linha: ele nasceu nela e continua nela. Um bebê doente não cresce assim. O que ele tem é o que mais da metade dos bebês desta idade tem: o leite volta porque o estômago é pequeno e a porta de cima ainda abre fácil. Isso tem nome, regurgitação do lactente, costuma piorar até uns 4 meses e ir sumindo até o primeiro ano. A senhora não está exagerando; ele golfa mesmo. Só que golfar, sozinho, não é doença.”

Não diga: “Isso é normal, mãe, todo bebê golfa, pode ir para casa.” — encerra a conversa sem mostrar o dado, sem dizer o que mudaria a conduta, e a mãe sai achando que ninguém examinou o filho.

Responder ao pedido do “exame do refluxo”

“Eu entendo por que a senhora quer o exame: seria bom ter uma prova. O problema é que os exames que existem enxergam refluxo em qualquer bebê, até nos que estão ótimos, e não dizem se o refluxo está fazendo mal. Se eu pedir, o mais provável é aparecer ‘refluxo’ no papel e ele ganhar um remédio de que não precisa. O exame que responde a pergunta da senhora é este aqui, o peso, e ele respondeu. Se aparecer algum dos sinais que eu vou escrever para a senhora, a história muda e aí eu peço o exame certo para aquilo, no mesmo dia.”

Não diga: “Não precisa, esse exame não serve pra nada.” — a mãe ouve recusa, não explicação, e procura quem peça.

Tirar o travesseiro do berço e a posição de lado, com a avó presente

“Dona, a senhora pôs o travesseiro e virou ele de lado para proteger o neto, e a intenção é a melhor possível. Mas deitado de lado ou de bruços, e com a cabeça mais alta, o bebê tem mais risco de morrer dormindo, e é justamente de barriga para cima que o leite que volta tem mais dificuldade de ir para o lugar errado: o tubo do ar fica por cima do tubo da comida. O jeito seguro é barriga para cima, no colchão reto, sem travesseiro, sem rolinho, até ele fazer 1 ano. Depois da mamada, pode e deve deixar em pé no colo para arrotar — acordado e com alguém olhando.”

Não diga: “A senhora está colocando o bebê em risco.” — acusa quem cuida, e a avó volta a fazer escondido o que acha que protege.

Suspender a bromoprida receitada no pronto-socorro

“O colega do pronto-socorro receitou essas gotas pensando em ajudar de madrugada. Hoje, com mais tempo e com a curva na mão, eu não vejo motivo para ele tomar: a Sociedade Brasileira de Pediatria diz que esse remédio não tem indicação para refluxo em criança, e ele pode dar efeito no sistema nervoso. A senhora pode parar hoje. Se alguém perguntar, está escrito aqui no prontuário por que parou.”

Não diga: “Quem passou isso errou.” — desautoriza o colega, deixa a mãe sem saber em quem confiar e não explica o motivo.

Dizer quando voltar antes, sem assustar

“Eu vou escrever aqui os sinais que trazem a senhora de volta no mesmo dia, antes do retorno marcado: vômito verde; sangue no vômito ou no cocô; febre; ele ficar mole, muito sonolento ou difícil de acordar; a moleira ficar alta e dura; vômito em jato cada vez mais forte; ou ele parar de querer mamar. Nenhum desses sinais está aqui hoje. Se aparecer um, não é culpa da senhora e não é exagero vir — é para isso que a lista existe.”

Não diga: “Qualquer coisa, volta.” — não diz o que é “qualquer coisa”, e a mãe volta pela golfada de sempre ou deixa de voltar pelo vômito verde.

Explicar o teste com omeprazol fora da bula, aos 6 meses, quando o especialista está longe

“Miguelina, fizemos tudo na ordem: acertamos a mamadeira, engrossamos o leite e tiramos o leite de vaca por três semanas, e o Felício continua sofrendo para mamar e parou de ganhar peso. O especialista só tem vaga daqui a quatro meses, e eu não quero esperar parado. Vou propor um teste com omeprazol, com começo e fim marcados: oito semanas, com uma revisão no meio. É um remédio que a bula só prevê para crianças acima de 1 ano; em bebê da idade dele se usa com cuidado, por pouco tempo e com motivo, e eu estou escrevendo esse motivo. Se ele não melhorar em quatro semanas, a gente para. Se melhorar, a gente tira no fim e vê se os sintomas voltam — e o encaminhamento continua marcado.”

Não diga: “Vou passar o omeprazol e a gente vê.” — sem prazo, sem critério de parada, sem dizer que é fora da bula: é a receita que vira uso contínuo por meses.

Acolher o choro que continua quando a golfada já melhorou

“Que bom que as golfadas caíram — isso foi trabalho da senhora, com o diário e as mamadas no horário. O choro do fim da tarde é outra coisa: não vem na mamada, ele não recusa o leite e continua crescendo, então não é o refluxo. É um choro que muitos bebês têm nessa fase e que costuma diminuir com a idade. Não é falta de cuidado e não é o leite. Eu sei que é exaustivo; vamos pensar juntas em quem pode revezar com a senhora nessas horas.”

Não diga: “É cólica, não tem o que fazer.” — chama de nada o que esgota a família e abre caminho para o remédio de farmácia.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Sucralfato e antiácido com alumínio no lactente com doença do refluxo

Podem entrar no tratamento do lactente — Guia Prático de Orientação nº 185 da SBP, dezembro de 2024

O guia lista, entre as medidas para lactentes, sucralfato ou alginato; no algoritmo do lactente, admite tentar antiácidos ou citoprotetores junto da fórmula espessada; escreve que sucralfato e famotidina podem ser usados nos casos mais leves e intermitentes, antes dos inibidores de bomba; e traz, na Tabela 7, posologia de antiácido com magnésio ou alumínio e de sucralfato para lactentes.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento Científico de Gastroenterologia. Doença do Refluxo Gastroesofágico. Guia Prático de Orientação nº 185, 10 de dezembro de 2024 (Tabelas 6 e 7, Figura 1).

Não usar antiácido ou alginato de forma crônica, e nunca antiácido com alumínio no lactente — diretriz NASPGHAN/ESPGHAN, 2018

A diretriz sugere não usar antiácidos nem alginatos no tratamento crônico da DRGE do lactente e da criança; admite que o alginato sob demanda e por pouco tempo parece não ter efeito adverso relevante; e afirma que o uso prolongado de antiácido com alumínio aumenta o alumínio no plasma do lactente, razão pela qual antiácido com alumínio não deve ser usado em lactente nem em criança com insuficiência renal.

Rosen R, Vandenplas Y, Singendonk M, et al. Pediatric Gastroesophageal Reflux Clinical Practice Guidelines: Joint Recommendations of NASPGHAN and ESPGHAN. J Pediatr Gastroenterol Nutr. 2018;66(3):516-554 (recomendação 5.1 e seção de segurança dos antiácidos e alginatos).

Como decidir

Os dois documentos têm o mesmo escopo — a DRGE do lactente — e, pelo degrau da data, o mais novo, o guia da SBP, levaria a posição. Ele a perde pelo degrau da coerência interna, justamente no ponto em disputa: a linha de posologia de antiácido com magnésio ou alumínio para lactentes abaixo e acima de 5 kg reproduz a dose que a própria fonte citada dá ao alginato de magnésio com simeticona, e a dose fixa de sucralfato — um sal de alumínio — entrega ao lactente de 5 kg o dobro, por quilo, do que a mesma tabela dá à criança de 20 kg (as contas estão nas notas do critério). A régua escreve o degrau da coerência para derrubar o da natureza, e aqui ele derruba o da data; por isso esta apostila declara que a escolha, contra o documento mais novo, é dela: não prescrever sucralfato nem antiácido com alumínio ao lactente. O elenco do SUS aponta na mesma direção, sem ser a razão da escolha: sucralfato e alginato não constam da Rename 2024, e o hidróxido de alumínio existe só em comprimido. Para o lactente à sua frente, nenhum dos dois entra no plano, que segue volume corrigido, fórmula espessada no não amamentado, prova de exclusão do leite de vaca e, só quando indicado, inibidor de bomba com prazo.

Dose máxima de omeprazol na criança

Até 80 mg por dia, com 1 a 4 mg/kg/dia — Tabela 8 do guia nº 185 da SBP, dezembro de 2024

A tabela de doses usuais do guia dá omeprazol de 1 a 4 mg/kg/dia com dose máxima de 80 mg, e lansoprazol com máxima de 60 mg. O texto corrido do mesmo guia dá, para o omeprazol, outra faixa: 0,7 a 3,5 mg/kg/dia.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento Científico de Gastroenterologia. Doença do Refluxo Gastroesofágico. Guia Prático de Orientação nº 185, 10 de dezembro de 2024 (Tabela 8 e seção de inibidores de bomba).

Até 40 mg por dia — Tabela 4 da diretriz NASPGHAN/ESPGHAN (2018) e bula do omeprazol (Geolab, 2022)

A diretriz dá omeprazol de 1 a 4 mg/kg/dia com teto de 40 mg, declarando que os tetos se baseiam na dose do adulto, e lansoprazol com teto de 30 mg. A bula do omeprazol prevê uso pediátrico só na esofagite de refluxo acima de 1 ano, com 10 mg abaixo de 20 kg, 20 mg acima, e aumento a critério médico até no máximo 40 mg.

Rosen R, et al. J Pediatr Gastroenterol Nutr. 2018;66(3):516-554 (Tabela 4); Omeprazol cápsula dura 20 mg, bula para o profissional de saúde, Geolab, versão V.02_11/2022.

Como decidir

Para a criança acima de 1 ano com esofagite, decide o degrau do escopo: a bula foi escrita para esse paciente e dá 40 mg. Para o lactente abaixo de 1 ano, fora da bula, o degrau da data favoreceria o guia da SBP, mais novo, e ele perde pelo da coerência interna: o mesmo documento dá duas faixas para a mesma droga, uma na tabela e outra no texto, e o teto da tabela é o dobro do que a fonte citada declara ter tirado da dose do adulto. Esta apostila adota 40 mg como teto em qualquer idade e declara que, abaixo de 1 ano, a escolha é dela. No lactente, a conta raramente chega perto do teto — 4 mg/kg/dia só passa de 40 mg acima de 10 kg —, e a dose usada no teste da atenção básica, uma cápsula de 10 mg da Rename, entrega de 1 a 2,5 mg/kg/dia entre 4 e 10 kg (Tabela 3 do critério).

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O raciocínio, em voz alta

Hilário Vilar, 2 meses e 3 semanas, 5.150 g, em aleitamento materno exclusivo, é trazido pela mãe à unidade básica porque golfa desde a terceira semana e, há dez dias, chora e arqueia o corpo no peito, solta e volta várias vezes, e as mamadas ficaram curtas. Nasceu a termo com 3.200 g; pesava 4.300 g com 1 mês e 5.000 g com 2 meses. Não teve febre, não vomitou verde nem com sangue, as fezes são amarelas e pastosas, sem sangue e sem muco, e a pele é limpa. A mãe toma café com leite duas vezes ao dia e come queijo; o pai tem rinite alérgica. No exame, bom estado geral, fontanela plana, abdome normal; numa mamada observada, a pega é adequada, e a mãe percebe as mamas cheias antes de amamentar.

  1. a pergunta que a curva responde

    Entre 1 e 2 meses Hilário ganhou 700 g, cerca de 23 g por dia; nas últimas três semanas ganhou 150 g, cerca de 7 g por dia, e o ponto de hoje cai abaixo da faixa em que ele vinha. Com choro e arqueamento no peito, a golfada deixou de ser só visível: tem impacto na mamada e na curva. Pelo critério de Roma IV não é regurgitação do lactente — dificuldade para mamar e déficit de crescimento estão entre os itens de exclusão —; é suspeita de DRGE.

  2. os alarmes que não estão lá

    Vômito verde, sangue, jato que piora, febre, bebê mole, fontanela abaulada, perímetro cefálico crescendo rápido, convulsão e distensão são perguntados e examinados, e estão ausentes. Irritabilidade nova com ganho que caiu pede exame de urina, tipo 1 e urocultura, colhido pela técnica do capítulo Infecção urinária na criança — e ele vem normal.

  3. a mamada vista

    A pega e a sucção observadas são adequadas e a mãe percebe produção; a avaliação da técnica e da produção de leite é do capítulo Aleitamento materno exclusivo até 6 meses, e ali não há o que corrigir. O problema de Hilário não é quanto leite chega à boca, é o que acontece quando ele chega.

  4. o que não se faz no bebê amamentado

    Não se suspende o peito: a NASPGHAN manda manter o aleitamento no lactente com suspeita de DRGE. Não se espessa: o guia da SBP registra que não existe no Brasil espessante para leite materno, e trocar o peito por fórmula espessada para poder espessar seria trocar o melhor alimento por uma medida que só reduz a golfada visível. E não se dá inibidor de bomba: ele não serve de prova diagnóstica no lactente e não é o passo seguinte do algoritmo.

  5. a prova de exclusão no amamentado

    O passo seguinte, no bebê amamentado, é retirar o leite de vaca da dieta da mãe por 2 a 4 semanas. A atualização de alergia alimentar da ASBAI com a SBP (2025) manda manter o peito, tirar o leite de vaca e seus derivados da dieta materna e repor cálcio e vitamina D para a mãe; a lista do que sai do prato, a leitura de rótulo e a dose de cálcio são do capítulo Dois relógios para o mesmo leite, desta apostila. O Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos lembra que, confirmada a alergia, a mulher não suspende a amamentação.

  6. a resposta em três semanas

    Três semanas depois Hilário mama por mais tempo, quase não arqueia, golfa menos e pesa 5.650 g — 500 g em 21 dias, cerca de 24 g por dia —, e o ponto volta a subir na curva.

  7. o que a melhora prova e o que não prova

    A melhora sustenta a hipótese de que a proteína do leite de vaca estava por trás do refluxo com doença, mas não a confirma: a alergia se confirma pela volta do leite à dieta da mãe, no prazo e do modo que o capítulo Dois relógios para o mesmo leite define, e a NASPGHAN manda, no lactente que melhorou, discutir a reintrodução da proteína no seguimento. Hilário não recebeu remédio nenhum e não vai receber.

  8. o sono e o retorno

    Até lá, sono de barriga para cima no berço plano, arroto na vertical depois da mamada, os sinais de alarme escritos para a mãe e retorno em duas semanas para pesar e programar a reexposição com o capítulo de alergia.

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Faça você

Cipriana Olinto, 10 semanas, 5.300 g, em aleitamento materno exclusivo, chega à unidade para a consulta de puericultura com uma receita de omeprazol 10 mg por dia, iniciado há três semanas num atendimento particular porque golfava e chorava muito. A mãe abre a cápsula e mistura o conteúdo no leite ordenhado. Cipriana golfa cinco ou seis vezes por dia desde a segunda semana, sem esforço, e chora em crises no fim da tarde, que cedem no colo; mama bem, sem soltar o peito chorando. Nasceu com 3.100 g e pesava 4.200 g com 1 mês; o ponto de hoje segue a mesma faixa da curva. Não teve febre, as fezes são normais, a pele é limpa, a fontanela é plana e o exame é normal. A mãe diz que o remédio não mudou nada e pergunta se deve dobrar a dose.

  1. o diagnóstico

    Decida, pelo critério de Roma IV e pela curva, se Cipriana tem regurgitação do lactente ou suspeita de DRGE, e liste os sinais de alarme que você precisa ter perguntado antes de decidir.

  2. o omeprazol

    Decida o que fazer com o omeprazol — manter, dobrar, trocar ou suspender —, justifique pela recomendação da NASPGHAN e pela bula, e diga o que está errado no modo como a mãe o oferece.

  3. o peito e a golfada

    Diga o que a família não deve mudar na alimentação e por quê, e se há papel, aqui, para espessante ou para dieta de exclusão do leite de vaca pela mãe.

  4. o choro e o sono

    Explique à mãe, em duas frases, o choro do fim da tarde, e oriente o sono em outras duas.

Ver como fecharíamos

Cipriana preenche o critério de Roma IV — tem entre 3 semanas e 12 meses, golfa duas ou mais vezes por dia há mais de três semanas e não tem ânsia, sangue, aspiração, apneia, dificuldade para mamar, déficit de crescimento nem postura anormal — e segue a faixa da curva: é regurgitação do lactente, não DRGE. Os sinais de alarme a perguntar são vômito verde, sangue, jato que piora, febre, bebê mole ou sonolento, fontanela abaulada, perímetro cefálico crescendo rápido, convulsão e distensão. O omeprazol se suspende hoje: a NASPGHAN recomenda não usar inibidor de bomba para regurgitação visível nem para choro em lactente saudável, e a bula só prevê uso pediátrico acima de 1 ano, na esofagite. Dobrar a dose seria dobrar um erro. Três semanas de uso, numa criança sem doença, esta apostila lê como uso curto, que se interrompe sem a retirada gradual que o guia da SBP descreve para o uso prolongado. O modo de dar também estava errado: a bula manda misturar o conteúdo da cápsula em água ou suco, nunca em leite. O peito fica como está — não se suspende, não se complementa por causa da golfada —, não existe no Brasil espessante para leite materno, e não há sinal de DRGE que justifique dieta de exclusão para a mãe. O choro do fim da tarde, que cede no colo e não vem com recusa, não é refluxo e não se trata com remédio para ácido; é um choro comum da idade, que costuma diminuir. O sono é sempre de barriga para cima, no berço plano e firme, sem travesseiro sob o colchão e sem rolinho, até 1 ano. Retorno em duas semanas para pesar, com os sinais de alarme escritos.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

O lactente preenche o critério de Roma IV para regurgitação do lactente — entre 3 semanas e 12 meses, golfadas diárias há mais de três semanas, sem sinais de exclusão — e cresce na mesma faixa da curva, sem nenhum sinal de alarme: não há exame que responda pergunta nenhuma nem doença a tratar. O que explica o volume das golfadas é a conta: 180 mL em 9 a 10 mamadas dão 1.620 a 1.800 mL por dia, acima do máximo de 1.200 mL que a tabela da SBP admite de 3 a 6 meses. A diretriz NASPGHAN/ESPGHAN recomenda não usar inibidor de bomba para regurgitação visível nem para choro em lactente saudável, sugere não usar procinéticos e recomenda sono de barriga para cima sem terapia posicional; seriografia, ultrassonografia e fórmula hidrolisada não entram sem doença.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Compare um lactente que regurgita e cresce com outro cuja alimentação e crescimento se deterioraram. Descreva os sinais que mudam a hipótese e calcule a oferta total de fórmula quando pertinente. Oriente sono seguro e medidas alimentares adequadas. Justifique por que exames ou medicamentos seriam úteis no caso escolhido, em vez de prescrevê-los apenas pelo relato de golfadas.

Em 30 dias

Retome um caso no retorno e compare mamadas, crescimento, desconforto e sinais de alarme. Identifique o que melhorou com a intervenção e decida manter, ajustar, suspender ou encaminhar. Explique à família quando esperar evolução habitual e quando procurar atendimento antes da consulta marcada.

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Agora atenda

Agora atenda: Calixta Martim, 6 semanas, trazida pelo pai à unidade básica porque golfa desde a segunda semana de vida e, nos últimos três dias, “vomitou forte” depois de algumas mamadas. Separe a golfada do vômito que importa, procure os sinais de alarme um por um, marque a curva, faça a conta da mamada, decida se ela sai com orientação, com exame no mesmo dia ou com encaminhamento — e explique ao pai, sem assustá-lo, o que faria vocês voltarem antes.

Refluxo gastroesofágico fisiológico versus doença do refluxo no… – O leite que volta e o peso que sobe — Internato | OsceLabs