Clínica Médica › Gastroenterologia
A diarreia que não é infecciosa
Doenças inflamatórias intestinais: doença de Crohn e retocolite ulcerativa
Entre o primeiro sintoma e o diagnóstico de doença inflamatória intestinal passam-se anos, porque cada episódio é atendido como gastroenterite e encerrado em sete dias. E a colite aguda grave que chega ao pronto-socorro é lida como disenteria e recebe antiespasmódico e antibiótico, quando o que ela precisa é de corticoide venoso, de exclusão de infecção e de uma decisão tomada no terceiro dia.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde. Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 51, de 18 de maio de 2026 — aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença de Crohn
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 9, de 12 de setembro de 2024 — aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas de Retocolite Ulcerativa
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2025. 254 páginas
Travis SP, Farrant JM, Ricketts C, Nolan DJ, Mortensen NM, Kettlewell MG, Jewell DP. Predicting outcome in severe ulcerative colitis. Gut. 1996;38(6):905-910. doi:10.1136/gut.38.6.905
Angkeow J, Rothman A, Chaaban L, Paul N, Melia J. Systematic Review: Outcome Prediction in Acute Severe Ulcerative Colitis. Gastro Hep Advances. 2023;3(2):260-270. doi:10.1016/j.gastha.2023.11.001
Brasil. Ministério da Saúde. Portaria SECTICS/MS nº 19, de 18 de abril de 2024 — torna pública a decisão de incorporar ao SUS o exame de calprotectina fecal no monitoramento de pacientes com doença de Crohn envolvendo o cólon, conforme protocolo clínico do Ministério da Saúde; Relatório de Recomendação nº 888/2024 da Conitec
Brasil. Ministério da Saúde. Portaria SECTICS/MS nº 34, de 2025 — incorporação do vedolizumabe para o tratamento da doença de Crohn moderada a grave ativa após falha, intolerância ou contraindicação a um anti-TNF; Relatório de Recomendação nº 1.000/2025 da Conitec
IDSA — Clinical Practice Guidelines for Infectious Diarrhea, 2017. https://www.idsociety.org/practice-guideline/infectious-diarrhea/
Responda antes de ler
Paciente de 29 anos chega ao pronto-socorro com dez evacuações sanguinolentas por dia há quatro dias, febre de 38,5 °C, frequência cardíaca de 116 e hemoglobina de 9,4 g/dL. Refere cólica intensa e pede algo para a dor. O plantonista anterior havia prescrito butilbrometo de escopolamina e dipirona, além de ciprofloxacino com metronidazol por suspeita de disenteria. Qual ajuste é prioritário na prescrição?
O paciente que você vai ver
Quinta-feira, oito e dez da manhã. A unidade básica fica no fim de uma avenida que vira estrada depois do posto de gasolina, e o hospital que recebe os encaminhamentos está a uma hora e vinte de ônibus, com baldeação. Você é o interno da sala 2. A agenda da manhã tem catorze nomes e mais quatro encaixes de demanda espontânea, e o terceiro encaixe é Elivânia Zuchi, 26 anos, auxiliar de cozinha, 51 quilos.
A queixa que a recepção anotou na ficha tem quatro palavras: diarreia há uma semana. Elivânia senta, apoia a bolsa no colo e começa exatamente pelo fim: "doutor, eu já tomei o remédio do amebíase duas vezes esse ano, e não adianta". Ela conta que tem cólica antes de evacuar, que vai ao banheiro cinco, seis vezes por dia, e que há uns três dias começou a ver um pouco de sangue. Diz que já está acostumada, que sempre passa, que veio porque desta vez o sangue apareceu.
O prontuário eletrônico tem três atendimentos anteriores nesta mesma unidade, e é neles que está o capítulo inteiro. Há dois anos e meio: diarreia, dor abdominal, prescrição de metronidazol por sete dias e sais de reidratação oral. Há um ano e quatro meses: diarreia com muco, febre baixa, prescrição de ciprofloxacino e um antiespasmódico, com orientação de retorno se não melhorasse. Há sete meses: dor abdominal e diarreia, hipótese de síndrome do intestino irritável, prescrição do mesmo antiespasmódico e orientação dietética. Nenhum dos três atendimentos pediu exame nenhum. Nos três, o campo de duração dos sintomas foi preenchido com uma palavra: dias.
Elivânia pesava 58 quilos no primeiro desses atendimentos — está anotado, porque a balança da unidade funciona e alguém a usou. Hoje pesa 51. Em dois anos e meio ela perdeu sete quilos, e isso não está em lugar nenhum da evolução, porque cada consulta foi um episódio e nenhuma foi um seguimento. Ela nunca voltou para mostrar que não melhorou; voltou para começar de novo.
No exame, o abdome é flácido, com dor à palpação profunda de fossa ilíaca direita, sem massa palpável e sem descompressão dolorosa. Há duas úlceras rasas na mucosa jugal. A pele da região perianal tem uma plicoma volumosa e endurecida, à direita, que Elivânia chama de hemorroida e que ninguém examinou antes porque ninguém olhou. A temperatura axilar é 37,6 °C, a frequência cardíaca é 92, a pressão é 104 por 68, e a conjuntiva está descorada.
O que muda o raciocínio é o conjunto do prontuário: episódios de diarreia por anos, sem recuperação sustentada, e perda de peso entre os atendimentos. Esse padrão não deve ser tratado como uma sucessão de gastroenterites autolimitadas. Ele exige investigar doença inflamatória, má absorção e infecção persistente, entre outras causas; duração e emagrecimento aumentam a preocupação, mas não definem a etiologia sozinhos.
Este capítulo começa aqui, no consultório onde a doença inflamatória intestinal é diagnosticada tarde, e termina no pronto-socorro onde ela mata. São os dois extremos do mesmo problema, e o erro é o mesmo nos dois: ler como infecção o que é inflamação. Na unidade básica, o preço são anos. No pronto-socorro, o preço é o cólon.
Quem adoece disso
O Brasil tem número federal para a doença de Crohn, e ele está dentro do protocolo em vigor. O PCDT de 2026 cita um estudo populacional brasileiro que estimou incidência de 3,22 casos por 100.000 habitantes em 2019 e de 2,68 casos por 100.000 habitantes em 2020, com prevalência de 33,68 casos por 100.000 habitantes, dos quais 59,17% em mulheres. São números pequenos ao lado dos internacionais que o mesmo protocolo registra: 322 casos por 100.000 na Alemanha e 319 por 100.000 no Canadá, ou seja, quase dez vezes a prevalência brasileira estimada.
A leitura fácil dessa diferença é dizer que aqui a doença é rara. A leitura honesta é notar que prevalência estimada em base administrativa mede quem foi diagnosticado, não quem tem. Um país onde o intervalo entre o primeiro sintoma e o diagnóstico se mede em anos produz, por construção, uma prevalência menor do que um país onde o mesmo paciente é investigado no segundo episódio. A queda da incidência de 2019 para 2020 aparece no ano em que a atenção ambulatorial fechou — e a doença não caiu 17% em doze meses.
O PCDT de 2026 descreve o mapa da doença de Crohn ao diagnóstico: cerca de 30% dos pacientes têm doença ileal, 20% colônica e 50% ileocolônica, com comprometimento isolado do trato gastrointestinal superior em até 5% dos casos, em geral como localização adicional. Por comportamento, o fenótipo inflamatório ocorre em 50%, o estenosante em 20% e o fistulizante ou penetrante em 30%. A manifestação perianal acomete até 40% dos pacientes, frequentemente associada aos fenótipos colônico ou ileocolônico, mas ocorrendo também de forma independente da localização intestinal.
Esses três números são a razão de o exame perianal pertencer a este capítulo e não ao capítulo de doença anorretal. Quarenta por cento é quase metade. Uma fissura que não cicatriza, uma fístula que reabre, uma plicoma grande e endurecida numa mulher de 26 anos com diarreia crônica não são doença hemorroidária — são a doença de Crohn se apresentando pela porta que ninguém examina. A doença hemorroidária, a fissura anal comum e o abscesso anorretal isolado ficam com o capítulo de Coloproctologia sobre doença anorretal. A doença perianal do Crohn é deste capítulo, e a diferença entre as duas se faz olhando.
A retocolite ulcerativa tem outro perfil na mesma família. O PCDT de 2024 registra que o sintoma principal é a diarreia com sangue e que cerca de 90% dos pacientes apresentam hematoquezia. A doença acomete predominantemente a camada mucosa do cólon, começa pelo reto e sobe de forma contínua, sem áreas de mucosa normal entre as porções afetadas. As manifestações extraintestinais ocorrem entre 10% e 35% dos pacientes, com acometimento articular, cutâneo, hepatobiliar, oftalmológico e hematológico.
Há uma assimetria entre os dois documentos federais que vale conhecer antes de abrir qualquer um deles. O protocolo da doença de Crohn menciona o tabagismo quatro vezes e manda orientar o paciente fumante a parar, conforme o PCDT do Tabagismo vigente. O protocolo da retocolite ulcerativa não menciona tabagismo nenhuma vez, e o que diz sobre nicotina é que não há evidência conclusiva de que adesivos sejam úteis no tratamento. As duas doenças se comportam de modo diferente diante do cigarro, e os dois documentos refletem isso de forma desigual: um transforma em conduta, o outro deixa de fora.
O que o SUS oferece para essas duas doenças mudou muito em três anos, e a lista importa porque define o que você pode prometer no consultório. Entre 2023 e 2026 entraram: mesalazina em sachê de 2 g para retocolite leve a moderada, pela Portaria Sectics/MS nº 15, de 10/5/2023; ustequinumabe para Crohn moderada a grave, pela Portaria SECTICS/MS nº 1, de 22/1/2024; calprotectina fecal no monitoramento da doença de Crohn com acometimento do cólon, pela Portaria SECTICS/MS nº 19, de 18/4/2024; vedolizumabe para Crohn após falha de anti-TNF, em 2025; e infliximabe subcutâneo para fístula perianal complexa, também em 2025. É um elenco que cresceu na ponta cara e continua estreito na ponta barata.
Porque a ponta barata é onde o problema deste capítulo mora. Nenhuma das duas doenças precisa de imunobiológico para ser suspeitada. Precisa de alguém que conte quantas semanas dura a diarreia, que pese o paciente duas vezes, que examine a região perianal e que peça um exame de fezes e um hemograma. O gargalo brasileiro dessas doenças não está no vedolizumabe; está nos três atendimentos de sete dias que se somam a três anos.
Por que acontece o que acontece
Duas doenças, uma família, e a diferença inteira cabe em duas palavras de geometria: profundidade e continuidade. A doença de Crohn é transmural e segmentar. A retocolite ulcerativa é mucosa e contínua. Tudo o que as separa na prática — o que cada uma faz, o que cada uma complica, o que cada uma exige que você procure — deriva dessas duas palavras, e vale a pena percorrer a derivação em vez de decorar a tabela.
Transmural significa que a inflamação atravessa a parede, da mucosa à serosa. Uma parede inflamada em toda a espessura cicatriza encurtando e endurecendo, e uma alça que endurece em anel vira estenose. Uma parede inflamada em toda a espessura também pode se abrir para fora, e uma abertura para fora que encontra outra alça, a bexiga, a vagina ou a pele vira fístula. É por isso que o protocolo brasileiro descreve os três comportamentos do Crohn — inflamatório, fibroestenosante e fistulizante ou penetrante — e é por isso que a cirurgia entra por obstrução e por abscesso, não por sangramento.
Segmentar significa que a inflamação escolhe trechos e pula outros, de forma assimétrica e descontínua, e que ela pode escolher qualquer ponto do tubo digestivo, da boca ao ânus. Daí as úlceras aftoides na boca, daí a ileíte terminal, daí a fístula perianal, e daí a exigência técnica que o PCDT faz da colonoscopia: sempre que possível, ileocolonoscopia com intubação do íleo terminal e coleta de material em cinco sítios distintos. Se a doença pula trechos, examinar um trecho não a exclui — só a exclui naquele trecho.
Mucosa significa que a retocolite fica na camada mais superficial, a que tem vasos e é friável. Uma mucosa inflamada e friável sangra, e sangra a cada passagem de fezes. Por isso o sintoma cardinal da retocolite é diarreia com sangue e não dor obstrutiva; por isso 90% têm hematoquezia; e por isso a retocolite quase nunca produz fístula e quase nunca produz estenose fibrótica. O que ela produz, quando piora, é uma perda de superfície tão extensa que o cólon deixa de funcionar como órgão.
Contínua significa que a doença começa no reto e sobe, sem saltos, com uma demarcação nítida entre mucosa inflamada e mucosa normal. É essa continuidade que permite a classificação por extensão, de Montreal, em proctite, colite esquerda e pancolite — e é essa mesma continuidade que torna a retossigmoidoscopia um exame útil na urgência: se a doença começa no reto, a parte mais distal já mostra se há doença ativa, sem preparo e sem insuflar um cólon doente.
Agora o ponto que este capítulo existe para ensinar: por que a colite grave mata pela dilatação. Quando a inflamação da mucosa é extensa e intensa, ela atinge o plexo nervoso da parede e a musculatura perde tônus. Um cólon sem tônus, cheio de gás, dilata. Um cólon dilatado tem parede fina e mal perfundida, e uma parede fina e mal perfundida translocam bactérias, isquemia e, por fim, perfura. Esse é o megacólon tóxico: não é uma complicação exótica, é o desfecho mecânico de uma colite grave que ninguém interrompeu.
E é por isso que dois medicamentos banais se tornam perigosos exatamente aqui. O antiespasmódico anticolinérgico reduz o tônus e a motilidade — é o que se pede dele. Num cólon já atônico e já dilatando, é combustível. O opioide, além de reduzir motilidade, apaga a dor abdominal, que é o único sinal de alarme que sobra num paciente sob corticoide em dose alta. O PCDT de Retocolite Ulcerativa escreve a regra numa linha só, dentro da seção de colite aguda grave: esses pacientes devem evitar o uso de narcótico ou de medicamento com efeito anticolinérgico. É uma linha curta para uma regra que decide amputação de cólon.
Falta explicar por que existe a calprotectina fecal. Ela é uma proteína de neutrófilo. Se há neutrófilo migrando para a luz intestinal, há inflamação de mucosa; se não há, a diarreia pode ser muitas coisas, mas dificilmente é inflamatória. O PCDT de 2026 a descreve como marcador não invasivo da infiltração de neutrófilos na mucosa, correlacionada com a atividade endoscópica e histológica, que permite distinguir a doença inflamatória intestinal da síndrome do intestino irritável. Guarde a frase — e guarde também que, no SUS, ela foi incorporada para monitorar, não para essa distinção.

Como se apresenta de verdade
Seis recortes, e o primeiro é o único que a atenção primária precisa acertar sozinha. Os outros cinco são o que o interno vê depois, no ambulatório de especialidade e no pronto-socorro — mas o último deles, a colite aguda grave, é o que decide se o paciente sai com o cólon.
Em todos eles, uma pergunta antecede a hipótese: há quanto tempo dura, e o peso voltou?
A diarreia que dura: tempo, recorrência e sinais de alarme
O PCDT da Doença de Crohn usa diarreia prolongada como pista para distinguir a doença de um episódio infeccioso agudo habitual. Use essa pista com o restante da história: seis semanas não constituem uma fronteira etiológica. Infecções persistentes, inclusive parasitárias, podem durar mais, e uma doença inflamatória pode exigir investigação antes desse prazo. Sangramento, perda de peso, sintomas noturnos e gravidade orientam a prioridade da avaliação.
O problema é que quase nenhum paciente chega dizendo seis semanas. Elivânia chegou dizendo uma semana. O que ela tem é uma diarreia de três anos que se apresenta em episódios de uma semana, e a diferença entre as duas leituras é inteiramente do médico que conta. A pergunta que abre o diagnóstico não é "há quanto tempo está com diarreia?", que devolve o episódio. É "quantas vezes isso já aconteceu, e no intervalo o intestino voltou ao normal?", que devolve a doença.
Some a isso os sintomas que o protocolo lista, em ordem de frequência ao diagnóstico: diarreia é o mais comum, seguida de dor abdominal em 70%, perda de peso em 60% e sangramento em 40% a 50% dos casos. E os sinais: febre, palidez, caquexia, massas abdominais, fístulas e fissuras perianais. O protocolo acrescenta a observação que resume este capítulo — esses sinais e sintomas podem ocorrer, de forma intermitente, ao longo de vários anos antes da confirmação diagnóstica.
Persistência ou recorrência sem retorno ao padrão habitual, perda de peso documentada, sangue nas fezes e evacuações noturnas são sinais que ampliam a investigação. Não é necessário esperar seis semanas quando há alarme. Esses achados favorecem a procura de doença orgânica, mas não são exclusivos de doença inflamatória intestinal; infecção e outras causas continuam no diagnóstico diferencial.
Um corte de fronteira, explícito. Diarreia aguda infecciosa, com plano de reidratação, é do capítulo Diarreia aguda infecciosa e reidratação, nesta apostila, no adulto, e do capítulo de Gastroenterologia Pediátrica sobre diarreia aguda e desidratação, na criança. Parasitose intestinal do adulto é do capítulo de Infectologia sobre esquistossomose e geo-helmintíases. Este capítulo assume o que sobra: a diarreia que não cabe em nenhum dos dois porque não termina.
Doença de Crohn: três formas, três histórias diferentes
O protocolo brasileiro classifica o Crohn por comportamento, e cada comportamento chega com uma queixa própria. O fenótipo inflamatório, metade dos casos, é o de Elivânia: diarreia, dor, perda de peso, anemia, sem massa e sem obstrução. É o que mais se confunde com infecção, porque é o que menos tem sinal de alarme.
O fenótipo fibroestenosante, um quinto dos casos, chega com dor em cólica que piora depois de comer, distensão que aumenta ao longo do dia, ruídos aumentados e, às vezes, vômitos. O paciente costuma dizer que come pouco porque "cai mal", e emagrece por medo de comer, não por má absorção. Quando esse quadro se agudiza, ele deixa de ser deste capítulo e passa a ser um abdome agudo obstrutivo — e a decisão cirúrgica é do capítulo de Urgência e Emergência Cirúrgica sobre abdome agudo. Este capítulo entrega o paciente até a porta da sala: reconhecer que a obstrução tem uma doença de base, dizer isso ao cirurgião, e lembrar que o PCDT indica intervenção em estenose sintomática do cólon e em estenose longa, acima de 5 cm, do intestino delgado.
O fenótipo fistulizante ou penetrante, três de cada dez, é o que mais atrasa, porque a queixa chega deslocada. Sai fezes pela vagina; sai ar pela urina; abre uma secreção no glúteo que sara e reabre; dói para sentar. Nada disso soa intestinal para quem ouve, e a paciente costuma percorrer a ginecologia e a urologia antes de chegar aqui.
A doença perianal merece parágrafo próprio porque é frequente, é examinável e é abandonada. Até 40% dos pacientes a têm. O PCDT separa as fístulas em simples — superficiais ou interesfincterianas — e complexas — transesfincterianas, supraesfincterianas ou extraesfincterianas — e trata cada grupo de modo diferente: as simples e assintomáticas não requerem tratamento específico; as complicações perianais não supurativas usualmente respondem a metronidazol com ou sem cloridrato de ciprofloxacino; as complexas, supurativas, requerem drenagem cirúrgica, como os abscessos perianais e perirretais. O exame que separa esses grupos é uma inspeção com boa luz e um toque, e leva dois minutos.
A distinção prática, à beira do leito, entre a doença perianal do Crohn e a doença anorretal comum: a do Crohn costuma vir com plicomas grandes, largos, endurecidos e indolores, com orifícios múltiplos, com fissuras em posição lateral em vez da linha média posterior, e num paciente com diarreia crônica. A doença hemorroidária, a fissura anal típica e o abscesso anorretal isolado do paciente sem diarreia crônica são do capítulo de Coloproctologia sobre doença anorretal — e é para lá que vai o manejo daquelas condições em si.
Retocolite ulcerativa: a extensão decide a via do remédio
A retocolite se apresenta de forma tão estereotipada que quase se descreve sozinha: diarreia com sangue, muco, urgência evacuatória e tenesmo, que é a sensação de defecação incompleta. O PCDT acrescenta que os casos mais graves vêm acompanhados de sintomas sistêmicos — febre, anemia e emagrecimento — e faz uma observação clínica que muda a anamnese: os sintomas variam conforme a extensão, com manifestações locais nos pacientes com proctite e quadro sistêmico nos pacientes com colite extensa.
Traduzindo para a beira do leito: um paciente com sangramento retal, urgência e tenesmo, mas sem febre, sem perda de peso e com estado geral preservado, provavelmente tem doença distal. Um paciente com o mesmo sangramento mais febre, taquicardia e emagrecimento tem doença extensa. A extensão não é uma curiosidade classificatória — ela decide a via de administração do medicamento.
Porque a classificação de Montreal, que o protocolo adota, tem consequência terapêutica direta. Proctite, com doença limitada ao reto: supositório de mesalazina, tratamento tópico priorizado, porque garante maiores concentrações locais e menos eventos adversos. Colite esquerda, distal à flexura esplênica: enema de mesalazina associado à mesalazina oral, porque a combinação é superior a qualquer uma delas isolada. Pancolite, acima da flexura esplênica: sulfassalazina ou mesalazina por via oral, sendo a sulfassalazina preferida pelo custo.
Guarde a consequência mais contraintuitiva dessa tabela: no paciente com proctite, o tratamento por via oral isolado é a escolha pior. O medicamento que interessa precisa alcançar o reto, e o reto se alcança por baixo. Prescrever comprimido para proctite é errar a via, não a droga — e é um erro comum, porque o supositório dá mais trabalho de explicar.
Uma nota sobre expectativa, que vale dizer ao paciente na primeira consulta: o PCDT registra que pacientes com um episódio único de proctite não necessitam de terapia de manutenção. Nem toda retocolite é uma sentença de medicação contínua, e dizer isso muda a adesão de quem está com medo.
Diferenciar as duas na porta, sem colonoscopia
O PCDT da doença de Crohn diz, com todas as letras, que o diagnóstico pode ser desafiador pela similaridade com outras doenças inflamatórias intestinais, e que não existem critérios universais ou absolutos. Diferenciar Crohn de retocolite é trabalho da colonoscopia com biópsia, e às vezes nem ela resolve. Mas há uma primeira aproximação que se faz na anamnese e no exame, e ela orienta o encaminhamento.
Sangue sempre presente e proporcional à diarreia empurra para retocolite; diarreia sem sangue ou com sangue intermitente empurra para Crohn. Dor em fossa ilíaca direita e massa palpável empurram para Crohn ileocolônico; tenesmo e urgência retal empurram para retocolite distal. Perda de peso e febre marcadas, com diarreia sem sangue, empurram para Crohn; perda de peso costuma aparecer na retocolite apenas quando a doença já é extensa.
Boca e ânus decidem muitas dúvidas em quinze segundos. Úlceras aftoides recorrentes e doença perianal praticamente não pertencem à retocolite, que é doença de mucosa colônica e não do tubo inteiro. Achar qualquer uma das duas num paciente com diarreia crônica desloca a hipótese com força.
E há uma pergunta que quase ninguém faz e que o protocolo brasileiro trata como conduta: o paciente fuma? O PCDT do Crohn manda orientar a parada do tabagismo como parte do tratamento, e trata o cigarro como fator de risco da doença. O de retocolite não menciona tabagismo. Perguntar não fecha diagnóstico, mas entra na conta.
Duas armadilhas de fronteira. A primeira: nem toda colite é doença inflamatória intestinal — a colite infecciosa, a isquêmica e a induzida por antimicrobiano existem e serão o assunto do próximo recorte. A segunda: uma parcela de pacientes permanece indeterminada mesmo após investigação completa, e isso não é falha de quem investigou. O tratamento inicial das duas doenças, na fase leve a moderada, é o mesmo aminossalicilato — o que dá tempo para a classificação amadurecer.
A manifestação extraintestinal articular — artrite periférica e dor lombar inflamatória com sacroileíte — aparece nas duas doenças e é citada aqui porque a sua presença reforça a hipótese e porque o paciente costuma reclamar dela antes de reclamar do intestino. O manejo da artrite em si é do capítulo Espondiloartrites e artrite psoriásica, na apostila de Reumatologia, que assume a artrite enteropática; o que este capítulo assume é a leitura: articulação inflamada num paciente com diarreia crônica não é coincidência.
Colite aguda grave: a apresentação que mata
É aqui que a diarreia deixa de ser um problema de ambulatório. O PCDT de Retocolite Ulcerativa define a agudização grave, pelos critérios de Truelove e Witts, como mais de 6 evacuações por dia com sangue e com evidência de comprometimento sistêmico, tais como febre, taquicardia, anemia e velocidade de sedimentação globular acima de 30. E acrescenta, na mesma frase, o que é o coração deste bloco: casos com suspeita de megacólon tóxico também devem ser considerados graves.
Essa é a única vez que a expressão megacólon tóxico aparece nos dois protocolos federais somados. O PCDT da Doença de Crohn de 2026 não a menciona nenhuma vez. Nenhum dos dois define o quadro, nenhum dos dois fixa um diâmetro para ele e nenhum dos dois descreve o seu manejo. O que o protocolo da retocolite oferece de mais próximo está na seção de acompanhamento da colite aguda grave: radiografia simples de abdome deve ser realizada para identificar dilatação do cólon acima de 5,5 cm, que se associa a maior chance de colectomia. Esse número é um preditor de colectomia, e é assim que ele deve ser lido — não como a definição de megacólon tóxico, que a norma brasileira não fornece.
Como o quadro se apresenta na prática, para que você o reconheça sem uma definição federal: o paciente com colite grave que estava evacuando quinze vezes por dia começa a evacuar menos. Isso parece melhora e é o contrário — é o cólon parando. Some a isso distensão abdominal progressiva, timpanismo, redução ou desaparecimento dos ruídos hidroaéreos, febre, taquicardia e queda da pressão, num paciente que já vinha em corticoide. A queda no número de evacuações num paciente que não melhorou clinicamente é o sinal mais traiçoeiro de toda esta apostila, porque ele engana a enfermagem, engana o plantonista e engana a família.
A dor pode não estar lá. O corticoide em dose alta mascara o abdome, e o paciente que perfurou sob corticoide pode não ter defesa e não ter descompressão dolorosa. Por isso o exame de escolha para acompanhar não é o abdome, é a radiografia — e por isso qualquer analgésico opioide, que apaga o pouco de dor que sobrou, tira do médico o último dado.
O outro perigo é o oposto: fazer colonoscopia completa num cólon assim. O protocolo é preciso na alternativa — retossigmoidoscopia, sem preparo de cólon, pode ser considerada em casos selecionados para confirmar o diagnóstico e descartar, pela análise histopatológica, colite por citomegalovírus. Sem preparo, e sem subir. Preparar e insuflar um cólon dilatado é acrescentar risco a quem já está no limite.
Guarde a assimetria e leve-a para o plantão: a colite aguda grave é um diagnóstico da retocolite ulcerativa no vocabulário do protocolo brasileiro, mas o Crohn colônico extenso produz o mesmo quadro, e o protocolo de 2026 lhe dá outro nome — atividade intestinal grave ou fulminante, com febre alta, vômitos persistentes, sinais obstrutivos, caquexia, irritação peritoneal ou abscessos intra-abdominais. São dois nomes para uma emergência que se maneja de forma quase idêntica: internação, corticoide venoso, exclusão de infecção, equipe cirúrgica avisada desde o primeiro dia.
O que não é doença inflamatória intestinal e se parece
Antes de imunossuprimir, é preciso ter certeza de que a inflamação não é infecção — e essa certeza é a fronteira mais perigosa do capítulo, porque o erro nas duas direções é grave. Tratar como infecção o que é doença inflamatória custa anos. Imunossuprimir uma colite infecciosa custa uma internação em terapia intensiva.
A colite por Clostridioides difficile é a primeira da lista, e o PCDT de Retocolite Ulcerativa a inclui na rotina da colite aguda grave: esses pacientes devem ter pesquisa fecal de toxina para o agente. O protocolo grafa o gênero com o nome antigo, Clostridium, mas a conduta é a mesma. Diarreia com sangue e febre num paciente que usou antimicrobiano nas últimas semanas, ou que já tem doença inflamatória e piorou, exige a pesquisa antes de qualquer escalonamento.
A colite por citomegalovírus é a segunda, e é típica de quem já está imunossuprimido — o paciente em azatioprina ou corticoide que deixa de responder ao tratamento. O protocolo a coloca como uma das duas razões para a retossigmoidoscopia sem preparo na colite aguda grave, e a resposta vem da histopatologia, não da sorologia.
A terceira é a mais brasileira delas, e está numa linha só do PCDT de Retocolite Ulcerativa: é preconizado o tratamento empírico de Strongyloides antes do início do tratamento com prednisona. Estrongiloidíase disseminada em paciente que recebeu corticoide é um desfecho descrito e evitável, e num país onde a parasitose é endêmica, a linha faz sentido. O protocolo, no entanto, não nomeia o medicamento nem a dose desse tratamento empírico, e o protocolo da doença de Crohn não menciona Strongyloides nenhuma vez, embora prescreva os mesmos corticoides. A conduta específica da parasitose é do capítulo de Infectologia sobre esquistossomose e geo-helmintíases; o que este capítulo assume é a obrigação de lembrar dela antes da primeira dose.
Complete o diferencial com infecções agudas ou persistentes, medicamentos, má absorção e colite isquêmica conforme o contexto. Revise anti-inflamatórios não esteroides, que podem agravar doença inflamatória intestinal. A síndrome do intestino irritável deve ser considerada por critérios clínicos; sangramento, perda ponderal ou evacuações noturnas exigem investigar outras causas antes de atribuir todo o quadro a um distúrbio funcional.
O câncer colorretal fecha a lista de mimetizadores e sai deste capítulo pela porta da frente: rastreamento populacional, estadiamento e cirurgia são do capítulo de Coloproctologia sobre câncer colorretal. O que fica aqui é apenas a vigilância na colite de longa data, porque ela é consequência da doença deste capítulo — e ela aparece adiante, no bloco de reavaliação.
Como fechar o diagnóstico
A investigação da doença inflamatória intestinal se organiza em duas perguntas, e a ordem entre elas não é negociável. A primeira é: esta diarreia é inflamatória? A segunda é: se é, qual doença, onde, e com que atividade? A primeira pergunta é da atenção primária e se responde com exames baratos. A segunda é do serviço especializado e se responde com endoscopia. Inverter a ordem produz colonoscopia em quem não precisa e nenhuma colonoscopia em quem precisava.
Os exames baratos que abrem o caso
Hemograma, proteína C reativa e velocidade de hemossedimentação. O PCDT de 2026 é honesto sobre o que eles valem: auxiliam na definição diagnóstica, embora não sejam específicos; a proteína C reativa é mais sensível para inflamação aguda e pode se elevar expressivamente, e a velocidade de hemossedimentação é um marcador mais lento, que complementa a interpretação especialmente em fases subagudas ou de recuperação. O uso combinado ajuda no monitoramento da atividade inflamatória ao longo do tempo. O mesmo raciocínio aparece no protocolo de 2024, com um alerta útil: esses marcadores podem não estar alterados na doença distal.
Traduzindo o alerta: proteína C reativa normal não exclui proctite. Um paciente com sangramento retal, urgência e tenesmo pode ter tudo normal no sangue, porque a área inflamada é pequena. Nesse paciente, o exame que decide é o exame que olha, não o que dosa.
A anemia merece atenção porque é o achado que mais frequentemente aparece antes do diagnóstico. Elivânia está descorada, e os dois protocolos nomeiam a anemia — o de Crohn seis vezes, o de retocolite sete. Nenhum dos dois, porém, escreve a palavra ferro em qualquer lugar do texto, e nenhum dos dois estabelece como investigar ou repor a deficiência de ferro nesses pacientes. A investigação da anemia microcítica e a reposição de ferro são do capítulo de Hematologia sobre anemia ferropriva. O que fica aqui é a leitura: anemia ferropriva numa mulher jovem com diarreia crônica não se explica só por menstruação.
Coproparasitológico e coprocultura entram por exclusão, não por confirmação. E a pesquisa de toxina de Clostridioides difficile entra sempre que houver antimicrobiano recente ou piora inexplicada — o PCDT de Retocolite Ulcerativa a coloca na rotina obrigatória da colite aguda grave.
Nenhum desses exames prova doença inflamatória intestinal. O que eles fazem é decidir se a colonoscopia é urgente, eletiva ou desnecessária — e esse é exatamente o trabalho da atenção primária neste capítulo.
Calprotectina fecal: o que ela responde e para quem o SUS a oferece
A calprotectina fecal é o exame que resolveria o problema de Elivânia, e é preciso ser exato sobre o que o Brasil oferece dela. O PCDT de 2026 a define como marcador não invasivo da infiltração de neutrófilos na mucosa intestinal, correlacionada com a atividade endoscópica e histológica, capaz de distinguir a doença inflamatória intestinal da síndrome do intestino irritável, de avaliar atividade, de avaliar resposta à terapia e de antecipar a recorrência.
Os cortes que o protocolo fixa, e que valem decorar: concentrações iguais ou menores que 100 mcg/g são suficientemente acuradas para afastar doença de Crohn intestinal ativa; concentrações acima de 100 mcg/g têm sensibilidade de 73% e especificidade de 73% para detecção de doença ativa no intestino delgado; valores acima de 150 mcg/g têm sensibilidade de 70% e especificidade de 69% para detecção de recorrência pós-cirúrgica; e o corte de 250 mcg/g indica presença de grandes úlceras à colonoscopia com sensibilidade de 60,4% e especificidade de 79,5%. Abaixo de 250 mcg/g, o protocolo registra predição de remissão endoscópica com sensibilidade de 94,1% e valor preditivo negativo de 96,6%.
A periodicidade também é normativa e costuma ser esquecida: a cada 3 meses no primeiro ano de tratamento se a doença estiver ativa; a cada 6 meses no segundo ano com doença controlada; anualmente a partir do terceiro ano se controlada. E uma proibição explícita — dosagem em intervalos menores que 3 meses não é recomendada, mesmo em paciente com doença ativa. Pedir calprotectina de mês em mês não é zelo, é contrariar a norma.
Agora o ponto que muda a conduta na unidade básica, e que precisa ser dito sem eufemismo. A incorporação da calprotectina fecal ao SUS, pela Portaria SECTICS/MS nº 19, de 18 de abril de 2024, tem um recorte estreito: monitoramento de pacientes com doença de Crohn envolvendo o cólon. Não é rastreio de diarreia crônica, não é ferramenta de triagem na atenção primária, e não é para retocolite ulcerativa — cujo protocolo, de 2024, não menciona a calprotectina uma única vez.
A consequência prática é desconfortável e vale enfrentá-la: o exame que serviria justamente para responder à primeira pergunta deste capítulo — esta diarreia é inflamatória? — foi incorporado para responder à segunda, em quem já tem diagnóstico. Não peça calprotectina esperando que ela abra a porta do sistema para Elivânia; peça o que abre, que é o encaminhamento com a duração somada dos sintomas, a perda de peso documentada e o achado perianal escritos na guia.
E se a calprotectina estiver disponível por outra via, leia-a com a régua certa: um valor baixo num paciente com sintoma alto é útil, porque reduz a probabilidade de inflamação; um valor alto não fecha diagnóstico, porque infecção intestinal e uso de anti-inflamatório também elevam o marcador.
A endoscopia: como se pede, e o que ela precisa trazer
O PCDT de 2026 não pede uma colonoscopia genérica. Ele especifica: sempre que possível, recomenda-se a realização sob a forma de ileocolonoscopia, com intubação do íleo terminal e coleta de material em cinco sítios distintos ao longo do trato intestinal inferior. Essas duas exigências — intubar o íleo e biopsiar cinco sítios — são o que separa um exame que responde de um exame que precisa ser repetido, e as duas devem estar escritas na solicitação.
O que o exame procura no Crohn: lesões ulceradas entremeadas de áreas com mucosa normal, com padrão focal, assimétrico e descontínuo. O protocolo é explícito quanto ao limite — nenhum achado endoscópico isolado é suficiente para estabelecer o diagnóstico de forma definitiva, mas o conjunto morfológico e topográfico pode ser altamente sugestivo.
O que o exame procura na retocolite: acometimento da mucosa desde a margem anal, estendendo-se proximalmente de forma contínua e simétrica, com clara demarcação entre mucosa inflamada e normal. Na doença inicial há perda da trama vascular submucosa com eritema e edema; com a progressão, a mucosa fica granular, friável e recoberta por exsudato mucopurulento; nos casos graves há úlceras. Na doença de longa duração aparecem perda das haustrações, pseudopólipos inflamatórios e encurtamento do cólon.
A histopatologia fecha o que a endoscopia sugere. No Crohn, o protocolo cita a European Crohn's and Colitis Organization para dizer que não há achado patognomônico e que o diagnóstico depende de granulomas, anormalidades arquiteturais crípticas focais, infiltrado focal de linfócitos e plasmócitos e preservação de mucina nos sítios inflamados. Na retocolite, o achado é a distorção arquitetural difusa de criptas com infiltrado transmucoso e plasmocitose basal, eventualmente com criptite e abscessos crípticos.
Repare na palavra que separa as duas descrições histológicas: focal no Crohn, difusa na retocolite. É a mesma geometria do bloco de mecanismo, vista no microscópio.
Para o intestino delgado, a endoscopia baixa não basta. O protocolo indica, se disponíveis, radiografia de trânsito de delgado, entero-tomografia ou entero-ressonância para investigar doença do delgado, e registra que os achados mais característicos na tomografia e na ressonância são o acometimento do delgado e a presença de estenoses e fístulas. A escolha do método depende do que o serviço tem; a indicação depende de haver suspeita de doença ileal, que influencia conduta e seguimento.
Medir atividade: o Índice de Harvey-Bradshaw e o que ele não diz
O protocolo brasileiro adota, para a doença de Crohn, o Índice de Harvey-Bradshaw, e explica por quê: é uma ferramenta simplificada com forte correlação com o Índice de Atividade da Doença de Crohn, considerado o padrão-ouro, com coeficiente de correlação de Pearson de 0,93. Ele soma cinco variáveis: bem-estar geral, de 0 a 4; dor abdominal, de 0 a 3; número de evacuações líquidas por dia, um ponto por evacuação; massa abdominal, de 0 a 3; e complicações, um ponto por item, entre artralgia, uveíte, eritema nodoso, úlceras aftoides, pioderma gangrenoso, fissura anal, nova fístula e abscesso.
É um índice que se preenche à beira do leito em um minuto, sem exame nenhum, e essa é a sua virtude. Repare que a terceira variável não tem teto: um paciente com doze evacuações líquidas soma doze pontos só nela, o que faz o índice ser dominado pela frequência evacuatória. Isso é intencional no instrumento original e explica por que ele responde rápido ao tratamento.
As faixas que o protocolo publica são: escore menor ou igual a 4 indicativo de remissão clínica; doença leve a moderada com escore de 5 a 7; doença moderada a grave com escore maior que 8; e manifestações graves ou fulminantes também com escore superior a 8, distinguidas pela descrição clínica. Uma redução de 3 pontos em relação à avaliação anterior caracteriza resposta clínica relevante.
Essas faixas, como estão impressas, deixam o valor 8 sem classe e usam a mesma faixa para dois estratos diferentes de gravidade. A tabela do bloco seguinte mostra a conta e a nota de auditoria correspondente explica o que fazer com um paciente que soma exatamente 8. Não é preciosismo: o escore governa o acesso ao biológico, porque o próprio protocolo escreve que o quadro que justifica anti-TNF corresponde a um índice maior que 8.
Para a retocolite, a régua é outra. O protocolo adota os critérios de Truelove e Witts, que classificam as agudizações em leve, moderada e grave conforme o número de evacuações diárias, a presença de sangue, o comprometimento sistêmico e a velocidade de sedimentação globular. Também aqui a transcrição publicada deixa uma faixa sem dono, e também aqui a conta está na tabela e a leitura segura está na nota.
Uma terceira régua aparece nos dois protocolos e não serve para decidir hoje: os escores endoscópicos. O de Crohn cita o CDEIS, o SES-CD e o índice de Lewis, registrando que o SES-CD se destaca por simplicidade e reprodutibilidade, e acrescentando que não há estudos formais de validação dessas escalas para o contexto brasileiro. O de retocolite usa o subescore endoscópico de Mayo, definindo cicatrização da mucosa como valor 0 ou 1. Você não precisa saber calculá-los; precisa saber que existem, que o alvo de tratamento moderno é endoscópico e não apenas sintomático, e que quem os aplica é o endoscopista.
Antes de imunossuprimir: a lista que não pode faltar
Os dois protocolos federais exigem rastreio de tuberculose antes de qualquer biológico, e a exigência é detalhada e igual nos dois. Pesquisar tuberculose ativa e infecção latente; radiografia simples de tórax para excluir doença ativa; prova tuberculínica com derivado proteico purificado ou teste de liberação de interferon-gama para a infecção latente; tratar a infecção latente quando a prova tuberculínica for maior ou igual a 5 mm ou o teste de interferon for reagente, uma vez excluída a doença ativa.
Duas regras práticas do mesmo trecho, que costumam ser ignoradas. A primeira: quando houver alteração radiográfica compatível com tuberculose prévia não tratada, ou contato próximo com caso de tuberculose pulmonar nos últimos dois anos, trata-se a infecção latente sem necessidade de realizar o teste de interferon ou a prova tuberculínica. A segunda: o biológico começa quatro semanas após o início do tratamento da infecção latente — não se espera o tratamento inteiro.
O rastreio se mantém depois. Nos pacientes com prova tuberculínica menor que 5 mm ou teste de interferon não reagente, os protocolos recomendam repetir o exame anualmente, especialmente em locais com alta carga de tuberculose, o que descreve boa parte do Brasil. E há uma regra de coerência de método: quem iniciou o acompanhamento com a prova tuberculínica mantém a prova tuberculínica; quem iniciou com o teste de interferon mantém o teste de interferon, para que o próprio biológico não altere o resultado.
Uma frase do protocolo que protege o paciente do sistema: a dispensação dos medicamentos para a doença de base não deve ser condicionada à apresentação desses exames de acompanhamento. Isso está escrito, e serve para quando a farmácia recusa a entrega por falta de um exame anual.
Agora a assimetria, que é o achado mais importante deste bloco. O PCDT da Doença de Crohn de 2026 exige, além da tuberculose, o rastreamento sorológico para os vírus das hepatites B e C e para o HIV em todos os pacientes candidatos a terapia biológica, com anti-HBs, HBsAg, anti-HBc total, anti-HCV e anti-HIV. O PCDT de Retocolite Ulcerativa de 2024 não menciona sorologia, nem HBsAg, nem anti-HBc, nem HIV em nenhum ponto do texto. A única referência à hepatite B naquele documento contraindica o tofacitinibe nas hepatites B ou C agudas — que é a fase errada da doença para o risco em questão, já que o que reativa sob anti-TNF é a infecção crônica do portador.
Assuma o pedido, mesmo na retocolite, e declare por quê: dois pacientes com o mesmo infliximabe correm o mesmo risco de reativação, e a régua de quem pedir e o que fazer com cada padrão sorológico é do capítulo de Hepatite B, primeiro desta apostila. Peça os cinco exames do protocolo do Crohn antes do primeiro biológico, seja qual for a doença inflamatória intestinal, e leve o resultado para a régua daquele capítulo. Complete com a atualização vacinal antes de começar — os dois protocolos mandam atualizar todas as vacinas antes da imunossupressão e proíbem vacinas vivas depois dela.
No pronto-socorro: o que se pede na primeira hora
O paciente com colite aguda grave chega com diarreia sanguinolenta de alta frequência, febre e taquicardia, e a investigação da primeira hora tem quatro tarefas simultâneas: medir a gravidade, excluir infecção, procurar dilatação e avisar o cirurgião.
Medir a gravidade é contar. Número de evacuações nas últimas 24 horas, presença de sangue em cada uma, temperatura, frequência cardíaca, hemoglobina e velocidade de sedimentação globular. Esses são os itens de Truelove e Witts, e eles precisam estar escritos no prontuário em números, porque a decisão do terceiro dia vai comparar com eles.
Excluir infecção é obrigação normativa e não cortesia: o PCDT manda que esses pacientes tenham pesquisa fecal de toxina para Clostridioides difficile. Acrescente coprocultura, e considere a retossigmoidoscopia sem preparo, em casos selecionados, para confirmar o diagnóstico e descartar colite por citomegalovírus pela histopatologia.
Procurar dilatação é pedir radiografia simples de abdome. O protocolo a coloca no acompanhamento, para identificar dilatação do cólon acima de 5,5 cm — e num paciente sob corticoide, cuja dor está mascarada, ela vale mais que o exame físico seriado.
Avisar o cirurgião é a tarefa que mais se adia e a que menos custa. O protocolo escreve duas vezes, em parágrafos diferentes da mesma seção, que se preconiza avaliação precoce e acompanhamento por equipe cirúrgica pelo risco de necessidade de colectomia em qualquer momento da evolução. Chamar o cirurgião no primeiro dia não é declarar derrota clínica; é garantir que, se a decisão vier no terceiro dia, ela seja tomada por quem já viu o paciente antes.
E há a proteína C reativa, que precisa ser colhida na entrada e repetida no terceiro dia, porque ela é metade do critério que decide o resgate. A unidade em que o seu laboratório a informa importa, e importa mais do que parece — a nota de auditoria sobre o critério de Oxford, no bloco seguinte, mostra o porquê com a conta feita.
As réguas que o Brasil usa nestas duas doenças, o que elas decidem e onde elas não fecham
A aprendizagem inicial é reconhecer um quadro inflamatório, avaliar gravidade, excluir infecções relevantes e encaminhar a investigação. Duração, sangue nas fezes, sintomas noturnos, perda ponderal e manifestações extraintestinais orientam a suspeita, mas duração isolada não separa infecção de doença inflamatória. Terapias avançadas devem ser estudadas depois desse percurso, pela indicação, pelo benefício e pelos cuidados que exigem. Quatro decisões deste capítulo têm régua brasileira escrita: qual é a doença, quanto ela está ativa, o que o SUS fornece para tratá-la e quando o corticoide venoso falhou. As três primeiras estão nos dois protocolos federais em vigor — o da doença de Crohn, aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 51, de 18 de maio de 2026, que revogou o de 2017, e o da retocolite ulcerativa, aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 9, de 12 de setembro de 2024, que revogou o de 2021. A quarta, a decisão do terceiro dia, o Brasil importou de um artigo de 1996 e a chama de critério de Oxford. As tabelas abaixo reúnem o que essas réguas dizem, e as notas registram onde as contas não fecham. Nenhum dos dois protocolos define megacólon tóxico, nenhum dos dois fixa dose para o tratamento empírico de Strongyloides que um deles exige, e nenhum dos dois nomeia o antiespasmódico e o antidiarreico que o pronto-socorro prescreve — os três vãos estão declarados nas notas, e nos três este capítulo assume a orientação e diz que assumiu.
- 1Diarreia persistente ou recorrente, sobretudo com perda de peso, sangue nas fezes ou evacuações noturnas, exige investigar a doença por trás dos episódios. Não espere completar seis semanas diante de sinais de alarme. A duração ajuda no diagnóstico diferencial, mas não separa sozinha doença inflamatória de infecção: algumas infecções persistem por semanas ou meses. Integre história, exposições, medicamentos e exames, incluindo pesquisa de causas infecciosas conforme o contexto antes de imunossupressão.
- 2Peça o barato e peça sempre: hemograma, proteína C reativa, velocidade de hemossedimentação, coproparasitológico, coprocultura e, se houve antimicrobiano recente ou piora inexplicada, pesquisa de toxina de Clostridioides difficile. Proteína C reativa normal não exclui doença distal.
- 3Examine a região perianal com boa luz, e faça o toque. Até 40% dos pacientes com doença de Crohn têm manifestação perianal, e plicoma endurecida, fístula ou fissura fora da linha média posterior num paciente com diarreia crônica deslocam a hipótese com força.
- 4Encaminhe ao serviço especializado com o que abre porta: duração somada dos sintomas em semanas, as duas pesagens com data, o achado perianal e o resultado dos exames baratos. A confirmação exige laudo endoscópico, cirúrgico, anatomopatológico ou radiológico, e é ela que dá acesso ao protocolo.
- 5Peça a endoscopia com as duas exigências escritas na guia: ileocolonoscopia com intubação do íleo terminal e biópsias em cinco sítios distintos. Sem elas, o exame pode voltar sem responder.
- 6Meça a atividade antes de tratar e registre o número: Índice de Harvey-Bradshaw na doença de Crohn, critérios de Truelove e Witts na retocolite ulcerativa. O número escrito hoje é o que vai permitir dizer, daqui a seis semanas, se houve resposta — e no Crohn é ele que define o degrau terapêutico.
- 7Antes de qualquer imunossupressor ou biológico, complete a lista: radiografia de tórax, prova tuberculínica ou teste de interferon-gama, sorologias para hepatite B, hepatite C e HIV, atualização vacinal, e tratamento empírico de Strongyloides antes do primeiro corticoide.
- 8Diante de mais de 6 evacuações sanguinolentas por dia com febre, taquicardia ou anemia, interne. Corticoide venoso, hidratação, pesquisa de toxina de Clostridioides difficile, profilaxia de tromboembolismo venoso, radiografia de abdome, equipe cirúrgica avisada no primeiro dia, e nenhum narcótico e nenhum anticolinérgico. Reavalie no terceiro dia com número de evacuações e proteína C reativa em mãos.
Crohn e retocolite: os eixos que mudam a conduta, não os que enfeitam a prova
| Eixo | Doença de Crohn | Retocolite ulcerativa |
|---|---|---|
| Profundidade e distribuição, segundo os protocolos federais | Acometimento segmentar, assimétrico e transmural de qualquer porção do tubo digestivo, da boca ao ânus. | Inflamação que acomete predominantemente a camada mucosa do cólon, do reto para cima, de forma contínua, sem áreas de mucosa normal entre as porções afetadas. |
| Queixa que abre o caso | Diarreia, seguida de dor abdominal em 70%, perda de peso em 60% e sangramento em 40% a 50%. Sinais frequentes: febre, palidez, caquexia, massas abdominais, fístulas e fissuras perianais. | Diarreia com sangue, com hematoquezia em cerca de 90%. Acompanham cólica, tenesmo, urgência evacuatória e exsudato mucopurulento. Sintomas sistêmicos aparecem nos casos graves. |
| Como se classifica a extensão | Por localização ao diagnóstico: ileal em cerca de 30%, colônica em 20%, ileocolônica em 50%, com trato superior isolado em até 5%, em geral como localização adicional. | Pela classificação de Montreal, conforme a maior extensão macroscópica à colonoscopia: proctite, colite esquerda até a flexura esplênica e pancolite acima dela. |
| Como se classifica a gravidade | Índice de Harvey-Bradshaw, somando bem-estar, dor, evacuações líquidas, massa abdominal e complicações. | Critérios de Truelove e Witts, somando frequência evacuatória, sangue, comprometimento sistêmico e velocidade de sedimentação globular. |
| O que complica | Estenose sintomática, fístula intra-abdominal e perianal, abscesso, obstrução. Entre 50% e 80% precisarão de cirurgia em algum momento. | Colite aguda grave, com risco de dilatação colônica e de colectomia de urgência. O protocolo indica avaliação cirúrgica precoce em todos os casos graves. |
| A via do primeiro remédio | Sistêmica desde o início. A doença pula trechos e alcança o delgado, onde nenhum tratamento tópico chega. | Depende da extensão: tópica na proctite, tópica somada à oral na colite esquerda, oral na pancolite. Errar a via é o erro mais comum na doença distal. |
| Papel do tabagismo nos documentos brasileiros | Listado como fator de risco, com orientação expressa de cessação conforme o PCDT do Tabagismo vigente. | Não mencionado. O documento registra apenas que não há evidência conclusiva de que adesivos de nicotina sejam úteis no tratamento. |
| Calprotectina fecal no SUS | Incorporada em 2024 para monitoramento de doença com acometimento do cólon, com cortes e periodicidade fixados no protocolo de 2026. | Não citada em nenhum ponto do protocolo de 2024. |
As duas réguas de atividade como os protocolos as imprimem, e onde a faixa não fecha
| Estrato | Doença de Crohn — Índice de Harvey-Bradshaw | Retocolite ulcerativa — Truelove e Witts | Onde a régua impressa deixa vão |
|---|---|---|---|
| Remissão | Escore menor ou igual a 4 é indicativo de remissão clínica, na seção de diagnóstico. Na seção de monitoramento, o texto diz escore menor que 4. | Não há estrato de remissão nos critérios de agudização; a remissão é definida clinicamente e pela cicatrização de mucosa, com subescore endoscópico de Mayo 0 ou 1. | O valor 4 é remissão por uma passagem do mesmo documento e não é por outra. |
| Leve | Doença leve a moderada, escore de 5 a 7, acompanhada ambulatorialmente em conjunto com a atenção primária, com boa tolerância alimentar, sem perda de peso acima de 10% e sem sinais de toxicidade. | Menos de 3 evacuações por dia, com ou sem sangue, sem comprometimento sistêmico e com velocidade de sedimentação globular normal. | Na retocolite, 3 e 4 evacuações por dia ficam fora de leve e fora de moderada. |
| Moderado | Não há estrato isolado: a faixa de 5 a 7 é rotulada leve a moderada e a faixa acima de 8 é rotulada moderada a grave. | Mais de 4 evacuações por dia com mínimo comprometimento sistêmico. | O valor 8 do índice de Crohn não pertence a nenhuma das duas faixas impressas. |
| Grave | Escore maior que 8, com estado geral comprometido, febre, perda de peso, dor acentuada, anemia ou 3 ou mais evacuações diárias. | Mais de 6 evacuações por dia com sangue e evidência de comprometimento sistêmico, tais como febre, taquicardia, anemia e velocidade de sedimentação globular acima de 30. | A faixa acima de 8 é a mesma para moderada a grave e para grave ou fulminante; na retocolite, 7 ou mais evacuações satisfazem moderada e grave ao mesmo tempo. |
| Fulminante | Escore superior a 8, sem sucesso ambulatorial, ou febre alta, vômitos persistentes, sinais obstrutivos, caquexia, irritação peritoneal ou abscessos intra-abdominais. | Casos com suspeita de megacólon tóxico devem ser considerados graves; a expressão não é definida e não recebe critério no documento. | Nenhum dos dois protocolos define megacólon tóxico nem fixa diâmetro para ele. |
| O que a régua decide | O degrau terapêutico e o acesso ao biológico: o protocolo escreve que o quadro que justifica anti-TNF corresponde a índice maior que 8. | O cenário de indução, entre proctite, colite esquerda, pancolite, moderada a grave e colite aguda grave — e portanto a via e o ambiente do tratamento. | Nos dois casos, um vão de faixa é um vão de acesso, não apenas de nomenclatura. |
Tabela de conversão, recalculada para um adulto de 62 quilos, contra as apresentações que os protocolos e a Rename 2024 listam
| Medicamento e esquema da norma | Dose calculada para 62 kg | Apresentação disponível | Conta prática, com o que sobra ou falta |
|---|---|---|---|
| Ciclosporina intravenosa na colite aguda grave refratária a corticoide: 2 mg/kg/dia em infusão contínua por 7 dias | 124 mg por dia; 868 mg no ciclo de 7 dias | O PCDT lista ampolas de 50 mg e de 250 mg; a Rename 2024 lista apenas cápsulas de 10, 25, 50 e 100 mg e solução oral de 100 mg/mL | 2,48 ampolas de 50 mg por dia. A apresentação injetável, que é a que o esquema exige, não consta do elenco impresso da Rename 2024 em nenhuma das duas cópias conferidas |
| Ciclosporina oral após resposta: 5 mg/kg/dia divididos em duas tomadas, por 12 semanas | 310 mg por dia, ou 155 mg a cada 12 horas | Cápsulas de 10, 25, 50 e 100 mg; solução oral de 100 mg/mL | 155 mg saem de 1 cápsula de 100, 1 de 50 e uma sobra de 5 mg que só a cápsula de 10 mg cobre pela metade; pela solução oral, 1,55 mL por tomada |
| Azatioprina, manutenção: 2,0 a 2,5 mg/kg/dia | 124 a 155 mg por dia | Comprimido de 50 mg, apresentação única nos dois protocolos e na Rename | Só 3 comprimidos, ou 150 mg, caem dentro da janela: 2 comprimidos dão 1,61 mg/kg, abaixo do piso. Fracionar não é opção neste comprimido |
| Metilprednisolona intravenosa na doença de Crohn grave: 1 mg/kg/dia em bolus, dividido de 6 em 6 horas | 62 mg por dia, ou 15,5 mg a cada 6 horas | Pó para solução injetável de 500 mg, apresentação única na Rename 2024 | Reconstituído a 125 mg/mL, cada dose é 0,124 mL. Um frasco cobriria 8 dias de tratamento, mas 87,6% do frasco se perde na primeira reconstituição |
| Succinato sódico de hidrocortisona na colite aguda grave: 100 mg intravenoso | 300 mg por dia se de 8 em 8 horas; 400 mg por dia se de 6 em 6 horas | Pó para solução injetável de 100 mg e de 500 mg, componente básico da assistência farmacêutica | A diferença entre os dois intervalos que as normas admitem é de 100 mg por dia, ou 33%; em 7 dias, 28 frascos de 100 mg contra 21 |
| Metronidazol na doença de Crohn: 20 mg/kg/dia por via oral, dividido de 8 em 8 horas | 1.240 mg por dia, ou 413 mg a cada 8 horas | Comprimidos de 250 mg e de 400 mg | Um comprimido de 400 mg a cada 8 horas aproxima bem. Num paciente de 80 kg a mesma regra pede 533 mg por tomada, e o protocolo não declara teto de dose diária |
| Infliximabe, indução e manutenção: 5 mg/kg por infusão intravenosa | 310 mg por dose | Frasco-ampola de 100 mg, pó para solução injetável | 3,1 frascos por dose: arredondando para 4 frascos, sobram 90 mg, isto é, 22% do último frasco. No escalonamento para 10 mg/kg, 620 mg exigem 7 frascos |
| Mesalazina enema na colite esquerda: 1 g por dia | 1.000 mg por aplicação | Enema de 10 mg/mL na Rename 2024; o protocolo o descreve como enema de 1 g | 1.000 mg divididos por 10 mg/mL dão 100 mL por aplicação; um mês de tratamento são 28 g de mesalazina e 2,8 litros de enema |
| Mesalazina oral na doença de Crohn: 4 g/dia, divididos de 6 em 6, de 8 em 8 ou de 12 em 12 horas | 4.000 mg por dia | Comprimidos de 400 mg e de 800 mg e comprimido de liberação prolongada de 500 mg, segundo a Rename 2024 | 10 comprimidos de 400 mg, ou 8 de 500 mg, ou 5 de 800 mg por dia. O protocolo de 2026 também lista um comprimido de liberação prolongada de 800 mg, que não consta da Rename 2024 |
| Sulfassalazina: 2 a 4 comprimidos de 500 mg de 8 em 8 horas, na doença de Crohn; 2 a 4 g por dia divididos de 12 em 12 horas, na retocolite | 3.000 a 6.000 mg por dia pela régua do Crohn; 2.000 a 4.000 mg por dia pela régua da retocolite | Comprimido de 500 mg, apresentação única | O teto do protocolo do Crohn é 1,5 vez o teto do protocolo da retocolite para o mesmo comprimido, e o piso também: 6 a 12 comprimidos por dia contra 4 a 8 |
| Sulfametoxazol com trimetoprima na profilaxia de Pneumocystis, quando houver tripla imunossupressão na retocolite: 800 mg com 160 mg, 3 vezes por semana | 800 mg com 160 mg por tomada, 3 tomadas por semana | Comprimido de 400 mg com 80 mg | 2 comprimidos por tomada, 6 comprimidos por semana. A norma escreve a dose e não a apresentação, e a conta precisa ser feita à mão na prescrição |
| Ácido fólico junto da sulfassalazina, na retocolite: 5 mg, 3 vezes por semana | 5 mg por tomada | Comprimido de 5 mg | 1 comprimido por tomada. É a linha mais barata desta tabela e a mais esquecida na prescrição de alta |
O que o SUS fornece nestas duas doenças, por componente da assistência farmacêutica, segundo a Rename 2024
| Medicamento e apresentação | Componente | Documento norteador impresso na Rename 2024 | O que isso significa na prática |
|---|---|---|---|
| Sulfassalazina 500 mg comprimido | Especializado | PCDT de Doença de Crohn e PCDT de Retocolite Ulcerativa, entre outros | Cobre as duas doenças. É o aminossalicilato preferido na pancolite por custo, com a ressalva de infertilidade masculina reversível que o protocolo registra |
| Mesalazina 400 mg e 800 mg comprimido e 500 mg comprimido de liberação prolongada | Especializado | PCDT de Doença de Crohn e PCDT de Retocolite Ulcerativa | As apresentações orais servem às duas doenças |
| Mesalazina supositório de 250, 500 e 1.000 mg e enema de 10 mg/mL | Especializado | Apenas PCDT de Retocolite Ulcerativa | As apresentações retais estão vinculadas somente à retocolite. É por elas que passa o tratamento correto da proctite e da colite esquerda |
| Mesalazina 2 g granulado revestido de liberação prolongada | Especializado | PCDT de Retocolite Ulcerativa, por incorporação da Portaria Sectics/MS nº 15, de 10/5/2023 | O sachê, que o protocolo aponta como mais cômodo e de melhor aceitação que os comprimidos em quatro tomadas |
| Azatioprina 50 mg comprimido | Especializado | PCDT de Doença de Crohn, entre vários outros | Imunossupressor de manutenção das duas doenças, embora o elenco impresso vincule a apresentação a uma lista em que a retocolite não figura nominalmente |
| Ciclosporina, cápsulas de 10, 25, 50 e 100 mg e solução oral de 100 mg/mL | Especializado | PCDT de Retocolite Ulcerativa, entre outros | Cobre a fase oral de 12 semanas após a resposta. Não há apresentação injetável no elenco impresso |
| Succinato sódico de hidrocortisona 100 mg e 500 mg pó para solução injetável | Básico | Elenco básico, sem vinculação a PCDT específico | É o corticoide venoso da colite aguda grave e está no componente mais acessível dos três |
| Succinato sódico de metilprednisolona 500 mg pó para solução injetável | Especializado | PCDT de Doença de Crohn, entre outros | Alternativa venosa citada no mesmo parágrafo da hidrocortisona, mas em componente diferente — o que muda quem compra e onde o frasco está |
| Prednisona 5 mg e 20 mg comprimido | Básico e estratégico | Elenco básico | Corticoide oral das duas doenças, disponível na unidade básica |
| Infliximabe 100 mg pó para solução injetável | Especializado, grupo 1A | PCDT de Doença de Crohn e PCDT de Retocolite Ulcerativa | O biológico de primeira linha das duas doenças e a alternativa à ciclosporina no resgate da colite aguda grave |
| Adalimumabe 40 mg solução injetável | Especializado, grupo 1A | PCDT de Doença de Crohn, entre outros | Apresentação única. O esquema pediátrico do protocolo de 2026, para crianças abaixo de 40 kg, pede doses de 10 a 20 mg a cada duas semanas, que essa apresentação não produz |
| Certolizumabe pegol 200 mg solução injetável | Especializado | PCDT de Doença de Crohn, entre outros | Terceiro anti-TNF do Crohn; não figura para retocolite |
| Ustequinumabe 45 mg/0,5 mL e 130 mg solução injetável | Especializado, grupo 1A | PCDT de Doença de Crohn, por incorporação da Portaria SECTICS/MS nº 1, de 22/1/2024 | Segunda linha do Crohn após falha de anti-TNF. O protocolo não o recomenda na fístula perianal complexa, por escassez de dados |
| Vedolizumabe 300 mg pó para solução injetável | Especializado, grupo 1A | Na Rename 2024 impressa, apenas PCDT de Retocolite Ulcerativa | A incorporação para doença de Crohn veio depois, em 2025, e o protocolo de 2026 já o prescreve como segunda linha. O protocolo da retocolite proíbe seu uso na colite aguda grave |
| Tofacitinibe 5 mg comprimido | Especializado | PCDT de Retocolite Ulcerativa, entre outros | Inibidor de JAK da retocolite moderada a grave. Não figura para doença de Crohn |
| Metronidazol 250 mg e 400 mg comprimido; ciprofloxacino 250 mg e 500 mg comprimido | Básico | Elenco básico | Antimicrobianos da doença perianal não supurativa. O protocolo é explícito em que antimicrobiano isolado não trata a doença de Crohn |
| Loperamida, butilbrometo de escopolamina e colestiramina | Não constam | Nenhum | Nenhum dos três consta da Rename 2024, conferida em duas cópias normalizadas. O antiespasmódico que o pronto-socorro prescreve nessa diarreia não está sequer no elenco essencial |
O critério de Oxford, que é a régua brasileira da decisão do terceiro dia, está impresso com a unidade errada no PCDT de Retocolite Ulcerativa. O protocolo escreve que pacientes que no terceiro dia apresentam mais de 8 evacuações ao dia e proteína C reativa acima de 45 mg/dL têm 85% de risco de evoluir para colectomia. O artigo original, que é a referência 79 do próprio protocolo, escreve que se podia prever, no terceiro dia, que 85% dos pacientes com mais de oito evacuações naquele dia, ou com frequência entre três e oito somada a proteína C reativa acima de 45 mg/L, precisariam de colectomia. A conta é direta: 45 mg/dL são 450 mg/L, ou seja, dez vezes o valor que o artigo fixa. Uma proteína C reativa de 200 mg/L, que é um valor alto e frequente na colite aguda grave, equivale a 20 mg/dL e não dispara a regra como ela está impressa. Na prática, com a unidade publicada, o segundo braço do critério praticamente nunca se cumpre.
O mesmo critério perdeu, na transcrição, a estrutura lógica. O original tem dois braços unidos por ou: mais de oito evacuações, isoladamente; ou três a oito evacuações somadas à proteína C reativa elevada. O protocolo brasileiro os une por e, e não menciona a faixa de três a oito evacuações. Na redação brasileira as duas condições passam a ser cumulativas, e some do enunciado justamente o braço que existe para alcançar o paciente com frequência intermediária e inflamação alta. Ler o critério pela versão impressa deixa de fora quem ele foi desenhado para identificar.
A leitura segura para o plantão, e que este capítulo assume como orientação: no terceiro dia de corticoide venoso, o paciente com mais de 8 evacuações naquele dia, ou com 3 a 8 evacuações e proteína C reativa acima de 45 mg/L, tem alto risco de colectomia e precisa de decisão de resgate hoje. Confira antes em que unidade o seu laboratório informa a proteína C reativa: se o resultado vier em mg/dL, o número a comparar é 4,5, e não 45.
As faixas do Índice de Harvey-Bradshaw, como o PCDT de 2026 as imprime, deixam o valor 8 sem classe. Remissão é escore menor ou igual a 4; leve a moderada é a faixa de 5 a 7; moderada a grave é escore maior que 8, o que começa em 9. Um paciente que soma exatamente 8 não pertence a nenhuma das três descrições. E como o protocolo escreve, na seção do biológico, que o quadro que justifica anti-TNF corresponde a índice maior que 8, o vão não é apenas nominal: ele cai sobre o acesso ao medicamento. A leitura conservadora é tratar o escore 8 como moderado a grave, porque a descrição clínica associada à faixa alta — comprometimento do estado geral, febre, perda de peso, anemia ou três ou mais evacuações diárias — costuma já estar presente nesse ponto.
O mesmo protocolo define remissão de duas maneiras incompatíveis. Na seção de diagnóstico, um escore menor ou igual a 4 é indicativo de remissão clínica. Na seção de monitoramento, pacientes sem sintomas, com escore menor que 4 e sem uso de corticoide, são considerados em remissão. As duas frases citam a mesma referência. O valor 4 é remissão pela primeira e não é pela segunda. A conferência que dá certo, e que também vale registrar: o corte menor ou igual a 4 coincide com a formulação clássica do índice, em que remissão é escore abaixo de 5.
A seção de tratamento da doença leve a moderada tem título e corpo em desacordo. O título é tratamento da doença de Crohn com atividade intestinal leve a moderada, com índice de 5 a 7. Dentro dela, a recomendação de iniciar sulfassalazina é dada para doença leve colônica isolada ou ileocolônica com índice menor que 5 — que é a faixa que o próprio documento chama de remissão. A conta é simples: a faixa do título e a faixa da recomendação não têm um único valor em comum.
A transcrição dos critérios de Truelove e Witts no PCDT de Retocolite Ulcerativa deixa duas evacuações órfãs. Leve é menos de 3 evacuações por dia, o que abrange 0, 1 e 2. Moderada é mais de 4 por dia, o que começa em 5. Grave é mais de 6 por dia, o que começa em 7. Um paciente com 3 ou com 4 evacuações diárias não pertence a nenhum dos três estratos. E, na outra ponta, 7 ou mais evacuações satisfazem ao mesmo tempo a definição de moderada e a de grave. A orientação prática deste capítulo: com 3 ou 4 evacuações sanguinolentas por dia, classifique pelo comprometimento sistêmico — se houver febre, taquicardia, anemia ou velocidade de sedimentação globular acima de 30, trate como grave.
Ainda nos critérios de Truelove e Witts, o protocolo lista os itens sistêmicos da forma grave unidos por e: febre, taquicardia, anemia e velocidade de sedimentação globular acima de 30. Lido literalmente, o paciente precisaria dos quatro. Nenhum valor numérico é dado para febre, taquicardia ou anemia, embora o corte de 30 seja dado para a velocidade de sedimentação. A leitura que este capítulo assume, e declara como leitura sua: qualquer um dos quatro basta para caracterizar comprometimento sistêmico, porque exigir os quatro atrasaria a internação de um paciente que já está grave.
Nenhum dos dois protocolos federais define megacólon tóxico. A expressão aparece uma única vez nos dois documentos somados, na frase do PCDT de Retocolite Ulcerativa segundo a qual casos com suspeita de megacólon tóxico também devem ser considerados graves. O PCDT da Doença de Crohn de 2026 não a menciona nenhuma vez. O único número de dilatação que a norma brasileira publica é o do acompanhamento da colite aguda grave — dilatação do cólon acima de 5,5 cm à radiografia simples de abdome, associada a maior chance de colectomia — e ele é apresentado como preditor de colectomia, não como definição da entidade. Este capítulo assume o reconhecimento clínico, e declara que assume: distensão progressiva, queda no número de evacuações sem melhora clínica, timpanismo, redução de ruídos hidroaéreos e piora sistêmica num paciente sob corticoide.
A dose de corticoide venoso na colite aguda grave difere entre dois pontos do mesmo documento e entre os dois documentos. A seção 6.1.5 do PCDT de Retocolite Ulcerativa prescreve hidrocortisona 100 mg por via intravenosa de 6 em 6 horas por 7 a 10 dias, o que dá 400 mg por dia. A seção de esquemas de administração do mesmo protocolo admite 100 mg de 6 em 6 ou de 8 em 8 horas, o que abre para 300 mg por dia. O PCDT da Doença de Crohn de 2026 prescreve 100 mg de 8 em 8 horas, apenas. A diferença entre os extremos é de 100 mg por dia, ou 33%, e em 7 dias significa 28 frascos de 100 mg contra 21.
A dose de sulfassalazina difere entre os dois protocolos em 50%. O da retocolite prescreve 2 a 4 g por dia divididos de 12 em 12 horas. O do Crohn prescreve 2 a 4 comprimidos de 500 mg de 8 em 8 horas, o que é 3 a 6 g por dia. Mesmo comprimido, mesma família de doença, e um teto que é uma vez e meia o outro. Nenhum dos dois documentos justifica a diferença.
O teto do corticoide oral também diverge. O PCDT de Retocolite Ulcerativa prescreve prednisona 40 a 60 mg por dia, explicitando entre parênteses 0,75 a 1 mg/kg/dia não excedendo a dose máxima diária de 60 mg. O PCDT da Doença de Crohn prescreve 40 a 60 mg por dia ou, em altas doses, 1 mg/kg/dia, sem declarar teto. Para um paciente de 80 kg, a régua da retocolite limita a 60 mg e a do Crohn autoriza 80 mg. Vale registrar, na régua da retocolite, uma conferência que dá certo por pouco: o teto de 60 mg e a regra de 1 mg/kg se encontram exatamente em 60 kg, de modo que acima desse peso o teto é que governa, como o próprio parêntese manda.
Ainda na prednisona da retocolite, as duas formas da mesma dose divergem no piso. A faixa fixa começa em 40 mg; a regra por peso, em 0,75 mg/kg. Elas coincidem em 53,3 kg. Abaixo disso, a faixa fixa prescreve mais: num paciente de 45 kg, 40 mg contra 33,75 mg, uma diferença de 19%. Como os comprimidos são de 5 mg e 20 mg, 33,75 mg não é sequer construtível, e 40 mg é. Na prática o piso fixo vence, mas quem prescreve deve saber que está escolhendo entre duas leituras da mesma linha.
O quadro de administração do ustequinumabe deixa uma faixa de peso sem dose. As bandas impressas são: até 55 kg, 260 mg; de 56 kg até 85 kg, 390 mg; acima de 85 kg, 520 mg. Um paciente de 55,5 kg não pertence a nenhuma delas, porque 55,5 não é menor ou igual a 55 nem maior ou igual a 56. Peso não é número inteiro, e a faixa aberta entre 55 e 56 quilos existe de fato na balança. A leitura conservadora é arredondar para a banda superior.
O esquema do infliximabe no PCDT da Doença de Crohn de 2026 traz uma unidade de tempo incorreta, repetida em três lugares. O texto escreve 5 mg/kg/semana para indução e manutenção, e em seguida descreve o esquema real — semanas 0, 2 e 6 e, depois, a cada 8 semanas. Não há dose semanal em nenhum ponto do tratamento descrito. Lida ao pé da letra, a expressão 5 mg/kg/semana multiplicaria por oito a exposição no intervalo de manutenção. A dose correta, que o próprio parágrafo descreve, é 5 mg/kg por infusão, nas semanas indicadas.
O esquema pediátrico do adalimumabe prescreve uma apresentação que não existe no elenco. Para crianças abaixo de 40 kg, o protocolo indica 80 mg na semana 0, 40 mg na semana 2 e, a partir da semana 4, 10 mg a 20 mg a cada 2 semanas. A própria lista de medicamentos do protocolo registra apenas solução injetável de 40 mg, e a Rename 2024 registra apenas adalimumabe 40 mg solução injetável. As doses de 10 mg e 20 mg não têm apresentação correspondente em nenhum dos dois documentos.
A ciclosporina intravenosa é o caso mais grave de descompasso entre protocolo e elenco. O PCDT de Retocolite Ulcerativa a indica como primeira escolha no resgate do paciente que não responde ao corticoide venoso, na dose de 2 mg/kg/dia em infusão contínua por 7 dias, e lista ampolas de 50 mg e 250 mg entre os medicamentos do protocolo. A Rename 2024, conferida em duas cópias de origens diferentes e normalizadas para ignorar espaço e hífen, lista ciclosporina apenas em cápsulas de 10, 25, 50 e 100 mg e em solução oral de 100 mg/mL. Não há apresentação injetável no elenco impresso. Isso muda conduta: em serviço sem a ampola, o resgate disponível é o infliximabe, que o próprio protocolo considera de eficácia semelhante.
Loperamida, butilbrometo de escopolamina e colestiramina não constam da Rename 2024. A busca foi feita por termo normalizado, sem espaço e sem hífen, nas duas cópias, que saíram idênticas caractere a caractere depois da normalização. O achado importa porque o antiespasmódico anticolinérgico é justamente o medicamento que a colite aguda grave não pode receber, e porque o antidiarreico é o outro. Nenhum dos dois protocolos os nomeia; o que o PCDT de Retocolite Ulcerativa escreve, na seção da colite aguda grave, é que se deve evitar o uso de narcótico ou de medicamento com efeito anticolinérgico. Este capítulo assume a tradução para o nome comercial da bandeja do pronto-socorro e declara que assumiu.
O tratamento empírico de Strongyloides antes da prednisona é exigido pelo PCDT de Retocolite Ulcerativa numa única frase, sem nomear medicamento, dose ou duração. O PCDT da Doença de Crohn de 2026 não menciona Strongyloides em nenhum ponto, embora prescreva os mesmos corticoides sistêmicos, inclusive em dose alta e por via venosa. O vão de conteúdo é real e o capítulo o registra sem preenchê-lo com dose própria: a conduta antiparasitária pertence ao capítulo de Infectologia sobre esquistossomose e geo-helmintíases.
O intervalo de vigilância de câncer de cólon na doença de Crohn está impresso sem unidade. O PCDT de 2026 escreve que a colonoscopia para pesquisa de câncer de cólon está indicada 8 a 10 após o início da doença de Crohn em pacientes com ao menos 30% do cólon acometido. A palavra anos não aparece na frase. O sentido é inequívoco pelo contexto, e o capítulo o lê como 8 a 10 anos, mas registra que o texto normativo, como publicado, não traz a unidade.
A frequência de hemograma sob azatioprina difere entre os dois protocolos por mais de uma ordem de grandeza, e essa divergência está desenvolvida no bloco de divergências. O de retocolite pede hemograma completo semanalmente no primeiro mês, quinzenalmente no segundo e no terceiro e, depois, mensalmente. O de Crohn pede hemograma com transaminases duas semanas após o início e, em doses estáveis, a cada 6 meses. Mesmo fármaco, mesma faixa de dose, mesmo risco de mielotoxicidade.
O acompanhamento laboratorial dos aminossalicilatos também diverge, em fator menor mas na mesma direção. Os dois protocolos pedem hemograma, exame qualitativo de urina e creatinina sérica antes de iniciar sulfassalazina ou mesalazina. O de Crohn manda repetir a cada 4 meses; o de retocolite, a cada 6 meses. Para um paciente que use o mesmo comprimido por dez anos, a diferença é de 30 coletas contra 20.
Duas conferências que fecham, e que valem tanto quanto as que não fecham. A primeira: as duas cópias da Rename 2024 usadas neste capítulo, vindas de origens diferentes, ficaram idênticas caractere a caractere depois de normalizadas para ignorar espaço e hífen, de modo que qualquer busca por princípio ativo vale igualmente para as duas. A segunda: os percentuais de comportamento da doença de Crohn publicados pelo PCDT de 2026 somam exatamente 100% — inflamatório 50%, estenosante 20%, fistulizante ou penetrante 30% — e os de localização também — ileal 30%, colônica 20%, ileocolônica 50%, com o trato superior isolado declarado à parte, em até 5%, como localização adicional e não como quarta fatia da mesma torta.
A conduta, hora a hora
O que segue é um paciente e um relógio. Naldemir Simplício tem 34 anos, 62 quilos, diagnóstico de retocolite ulcerativa há quatro anos, em uso irregular de sulfassalazina, e chega ao pronto-socorro de um hospital de 120 leitos numa terça-feira às 21h40, trazido pela irmã. Está evacuando doze vezes por dia, todas com sangue, há cinco dias. Está febril, com 38,3 °C de temperatura axilar; a frequência cardíaca é de 118, a pressão de 96 por 60 e a hemoglobina de 9,1 g/dL.
A primeira decisão da noite não é qual medicamento. É reconhecer que este paciente não vai para casa — e cada marco abaixo existe para impedir uma decisão específica que já foi tomada errada por alguém antes.
21h40 — os primeiros dez minutos, na sala de observação
Doze evacuações sanguinolentas por dia, febre, taquicardia e anemia. Pelos critérios de Truelove e Witts, como o protocolo brasileiro os transcreve, isso é agudização grave por dois caminhos independentes: mais de 6 evacuações com sangue, e comprometimento sistêmico documentado. Não há decisão a tomar sobre internar; há apenas a decisão de onde. O protocolo é explícito em que pacientes com doença grave e comprometimento sistêmico devem ser tratados em ambiente hospitalar por equipe clínico-cirúrgica treinada. Escreva o número de evacuações no prontuário hoje, com data e hora — é contra ele que o terceiro dia vai comparar.
Prescrição- Internação em leito de enfermaria com monitorização de sinais vitais e balanço hídrico
- Hidratação intravenosa com cristaloide, ajustada às perdas e à pressão
- Dieta oral conforme tolerância, sem restrição proteica
- Registrar em prescrição, por escrito: proibido antiespasmódico anticolinérgico e proibido analgésico opioide
22h00 — antes da primeira dose de corticoide
Antes de imunossuprimir, exclua o que a imunossupressão piora. O protocolo põe a pesquisa fecal de toxina para Clostridioides difficile na rotina desses pacientes, e a razão é prática: colite pseudomembranosa e agudização de retocolite se apresentam iguais, e a conduta é oposta. Colha também a proteína C reativa da entrada — ela é metade do critério do terceiro dia e precisa existir para poder ser comparada. E lembre da linha do protocolo que quase ninguém cumpre: preconiza-se tratamento empírico de Strongyloides antes de iniciar prednisona, num país onde a parasitose é endêmica e a estrongiloidíase disseminada sob corticoide é um desfecho descrito.
Prescrição- Pesquisa de toxina A e B de Clostridioides difficile nas fezes, hoje
- Coprocultura e coproparasitológico
- Hemograma completo, proteína C reativa, velocidade de hemossedimentação, eletrólitos, ureia, creatinina, albumina, transaminases
- Radiografia simples de abdome em decúbito dorsal, hoje
- Sorologias para hepatite B com HBsAg, anti-HBc total e anti-HBs, hepatite C e HIV, colhidas agora porque o biológico pode ser necessário em 72 horas
- Tratamento empírico de estrongiloidíase antes da primeira dose de corticoide, conforme o capítulo de Infectologia sobre esquistossomose e geo-helmintíases
22h30 — a primeira dose, e a profilaxia que parece contraintuitiva
Corticoide venoso é o tratamento, e o protocolo dá a dose: hidrocortisona 100 mg por via intravenosa de 6 em 6 horas, por 7 a 10 dias, com hidratação intravenosa. A seção de esquemas do mesmo documento admite 8 em 8 horas; o intervalo de 6 em 6 horas é o que está escrito na seção específica da colite aguda grave, e é o que este capítulo segue. Junto com ele vem a prescrição que assusta o interno pela primeira vez: profilaxia de tromboembolismo venoso num paciente que está sangrando pelo intestino. Está no protocolo, e a razão é que a doença inflamatória intestinal em atividade é estado pró-trombótico, e o risco de trombose supera o risco de agravar um sangramento de mucosa.
Prescrição- Succinato sódico de hidrocortisona 100 mg por via intravenosa de 6 em 6 horas
- Profilaxia farmacológica de tromboembolismo venoso, conforme protocolo institucional
- Manter a sulfassalazina oral se houver tolerância; não iniciar aminossalicilato novo nesta fase
- Suspender qualquer anti-inflamatório não esteroide de uso domiciliar
- Concentrado de hemácias se houver instabilidade ou hemoglobina em queda, avaliado a cada exame
23h10 — o telefonema para o cirurgião, no primeiro dia
O protocolo escreve duas vezes, na mesma seção, que se preconiza avaliação precoce e acompanhamento por equipe cirúrgica pelo risco de necessidade de colectomia em qualquer momento da evolução. Precoce quer dizer hoje, não no terceiro dia. Um cirurgião que examinou Naldemir na noite da entrada tem um ponto de comparação; um cirurgião chamado às pressas na quinta-feira tem uma foto. O procedimento que o protocolo indica nos casos graves é a colectomia subtotal com ileostomia e programação de reconstrução de trânsito depois da recuperação do quadro agudo — dizer isso ao paciente e à família cedo, como possibilidade e não como ameaça, muda a conversa de quinta-feira.
Prescrição- Parecer da equipe de cirurgia hoje, com exame do paciente e registro em prontuário
- Comunicar ao paciente e ao acompanhante que a avaliação cirúrgica é rotina do quadro grave, e não sinal de piora
Dia 2, 7h20 — a visita que conta e mede
A visita do segundo dia tem três números e um exame. Os números são: quantas evacuações nas últimas 24 horas, quantas com sangue, e qual a temperatura máxima. O exame é o abdome, com a ressalva de que ele mente sob corticoide — a dor pode estar apagada e a defesa pode não existir mesmo com perfuração. Por isso a radiografia entra no acompanhamento, e não só na entrada: o protocolo a indica para identificar dilatação do cólon acima de 5,5 cm, que se associa a maior chance de colectomia. E há o sinal que engana: se Naldemir passar de doze para seis evacuações sem melhorar a febre, a taquicardia e o estado geral, isso não é resposta — é o cólon perdendo tônus.
Prescrição- Contagem diária de evacuações e de evacuações com sangue, registrada em número absoluto
- Radiografia simples de abdome se houver distensão, redução de ruídos, queda inexplicada no número de evacuações ou piora sistêmica
- Hemograma e eletrólitos diários
- Manter hidrocortisona; não escalonar dose de corticoide, que não aumenta resposta
Dia 3, 7h00 — a decisão que dá nome a este capítulo
O terceiro dia é a data marcada. O protocolo manda avaliar a resposta ao corticoide venoso sobretudo no terceiro dia, conforme o critério de Oxford. Naldemir amanhece com 9 evacuações nas últimas 24 horas, todas com sangue, e proteína C reativa de 132 mg/L. Pelo critério original, ele preenche o primeiro braço — mais de 8 evacuações no terceiro dia — e o risco de colectomia é de 85%. Pela versão impressa no protocolo brasileiro, que pede mais de 8 evacuações e proteína C reativa acima de 45 mg/dL, ele não preencheria, porque 132 mg/L são 13,2 mg/dL. Use a régua original: a nota de auditoria deste capítulo mostra a conta, e a decisão de hoje não pode depender de um erro de unidade.
Prescrição- Reavaliar hoje, com número de evacuações das últimas 24 horas e proteína C reativa em mãos
- Conferir em que unidade o laboratório informa a proteína C reativa antes de aplicar o corte
- Radiografia simples de abdome
- Reunir clínica e cirurgia à beira do leito para decidir entre resgate medicamentoso e colectomia
Dia 3, 10h30 — escolher o resgate, com o que o hospital tem
Duas opções, e o protocolo as considera de eficácia semelhante para o paciente refratário a corticoide venoso. A ciclosporina intravenosa é a primeira escolha do texto, em serviço com experiência no seu uso, na dose de 2 mg/kg/dia em infusão contínua por 7 dias — para Naldemir, 124 mg por dia. O infliximabe é a alternativa, e passa a ser a escolha preferencial em duas situações que o protocolo nomeia: paciente que já vinha em azatioprina, que tende a ter pior prognóstico com ciclosporina, e paciente com perda de função renal, pelo risco de nefrotoxicidade. Some a isso o dado de elenco: a ciclosporina injetável não consta da Rename 2024, e muitos hospitais não a têm. O vedolizumabe está proibido aqui — o protocolo diz, com todas as letras, que ele não pode ser usado no tratamento da colite aguda grave, por ausência de ensaio clínico que o tenha avaliado nessa situação.
Prescrição- Ciclosporina 2 mg/kg/dia, isto é, 124 mg/dia em infusão intravenosa contínua por 7 dias, em serviço com experiência, com creatinina e pressão arterial monitorizadas
- Ou infliximabe 5 mg/kg, isto é, 310 mg em infusão intravenosa de no mínimo 2 horas, se houver azatioprina prévia, perda de função renal ou indisponibilidade da ciclosporina injetável
- Não associar as duas nem fazer terapia sequencial: o protocolo registra que inexiste evidência suficiente para isso, e que nesses casos a colectomia deve ser indicada
- Não usar vedolizumabe na colite aguda grave
Dia 10 — a alta, e as linhas que impedem a próxima internação
Naldemir respondeu à ciclosporina e vai para casa. A alta de uma colite aguda grave tem uma sequência escrita no protocolo, e ela não é intuitiva: quem recebeu indução com ciclosporina intravenosa faz 12 semanas de ciclosporina oral, 5 mg/kg/dia divididos em duas tomadas — para ele, 155 mg de 12 em 12 horas — e depois transiciona para azatioprina 2 a 2,5 mg/kg/dia, com redução gradual do corticoide. Se em algum momento ele ficar com tripla imunossupressão, somando corticoide, ciclosporina e azatioprina, entra a profilaxia de Pneumocystis com sulfametoxazol e trimetoprima 800 mg com 160 mg, três vezes por semana. E vale dizer o que a internação revelou sobre a origem do problema: ele usava sulfassalazina de forma irregular, e a manutenção é o que impede o próximo episódio.
Prescrição- Ciclosporina oral 155 mg de 12 em 12 horas por 12 semanas, com creatinina, pressão arterial, hemograma, ácido úrico, potássio, lipídios e magnésio a cada 15 dias nos primeiros 3 meses
- Azatioprina iniciada com 50 mg por dia e escalonada até 124 a 155 mg por dia após exclusão de pancreatite, hepatotoxicidade e mielotoxicidade
- Prednisona em desmame gradual, reduzindo 5 a 10 mg por semana até 20 mg, depois 5 mg por semana até 5 mg e, então, 2,5 mg por semana até a suspensão
- Sulfametoxazol com trimetoprima 800 mg com 160 mg, 3 vezes por semana, enquanto houver tripla imunossupressão
- Ácido fólico 5 mg 3 vezes por semana enquanto usar sulfassalazina
- Consulta em serviço especializado de gastroenterologia ou proctologia em até 30 dias, com a data marcada antes da alta
Como saber se está funcionando
Sete parâmetros, e a ordem entre eles importa: os três primeiros valem para o paciente internado com colite grave, e os quatro últimos são o seguimento de quem já foi diagnosticado e vive com a doença.
Esperado: É a metade mais barata do critério que decide o resgate. Espera-se queda progressiva acompanhada de melhora da febre, da taquicardia e do estado geral. A armadilha é a queda isolada: menos evacuações sem melhora sistêmica, num paciente com distensão crescente, é perda de tônus colônico e não resposta ao tratamento. Mais de 8 evacuações no terceiro dia, isoladamente, já prevê 85% de colectomia pelo critério original.
Esperado: Queda substancial em relação à entrada. O corte que decide, no critério original, é 45 mg/L, associado a frequência evacuatória entre 3 e 8 no terceiro dia. Antes de aplicar o corte, confira a unidade do seu laboratório: o valor de 45 na unidade do artigo corresponde a 4,5 na outra, e o protocolo brasileiro imprime 45 na unidade errada, o que multiplica o corte por dez.
Esperado: Ausência de dilatação. O protocolo indica a radiografia no acompanhamento para identificar dilatação do cólon acima de 5,5 cm, que se associa a maior chance de colectomia. Num paciente sob corticoide em dose alta, a radiografia substitui o exame físico como parâmetro de segurança, porque a dor e a defesa podem estar mascaradas.
Esperado: Escore menor ou igual a 4, sem uso de corticoide, define remissão clínica. Redução de 3 pontos ou mais em relação à avaliação anterior caracteriza resposta clínica relevante. Quem precisa de corticoide para permanecer assintomático é corticodependente e não está em remissão, pelo risco de toxicidade do uso prolongado. A avaliação de resposta ao biológico é feita de 2 a 4 semanas após as doses.
Esperado: Valores iguais ou menores que 100 mcg/g afastam doença intestinal ativa com acurácia suficiente, e esse é também o corte mais baixo recomendado para doença ileal. Abaixo de 250 mcg/g prediz remissão endoscópica com valor preditivo negativo de 96,6%. Em paciente assintomático sob biológico, valor acima de 250 mcg/g em duas consultas consecutivas associou-se a risco três vezes maior de cirurgia, hospitalização, nova fístula, abscesso, estenose ou escalonamento de terapia.
Esperado: Ausência de citopenia e de elevação de transaminases. Leucopenia sob azatioprina exige redução da dose pela metade ou suspensão, conforme a gravidade. Sob infliximabe ou vedolizumabe, provas de função hepática antes de cada dose, com suspensão se as transaminases estiverem mais de 5 vezes acima do limite superior da normalidade. Sob metotrexato, considera-se biópsia hepática a partir de dose cumulativa entre 1.000 e 1.500 mg.
Esperado: Ausência de displasia e de lesão. O risco está aumentado na doença colônica extensa, embora o protocolo registre que a magnitude não está estimada, e é maior ainda em quem tem colangite esclerosante primária associada à retocolite. Pacientes em azatioprina têm risco aumentado de linfoma não Hodgkin e de câncer de pele não melanoma, e por isso o protocolo recomenda avaliação dermatológica anual. O rastreamento populacional de câncer colorretal, o estadiamento e a cirurgia são do capítulo de Coloproctologia sobre câncer colorretal; o que fica aqui é a vigilância motivada pela colite.
Onde o erro machuca
O dano: É o erro que mais custa cólon no Brasil, e ele é cometido por boa intenção: o paciente tem cólica, o antiespasmódico alivia cólica, a bandeja do pronto-socorro tem butilbrometo de escopolamina. Só que a cólica da colite grave vem de um cólon inflamado que já está perdendo tônus, e o anticolinérgico reduz tônus e motilidade por definição — é o que se pede dele. Num cólon que está começando a dilatar, isso é combustível. O PCDT de Retocolite Ulcerativa escreve a regra numa linha, dentro da seção de colite aguda grave: esses pacientes devem evitar o uso de narcótico ou de medicamento com efeito anticolinérgico. Não nomeia a droga, e por isso a regra não chega a quem prescreve. Some o dado de elenco: o butilbrometo de escopolamina não consta da Rename 2024, conferida em duas cópias — o medicamento que mais aparece nessa prescrição errada não está sequer na lista essencial. A alternativa é tratar a doença, não a cólica: corticoide venoso, hidratação e reavaliação.
O dano: Um paciente que evacuava quinze vezes e passou a evacuar cinco parece melhor em qualquer passagem de plantão. Se a febre não cedeu, se a taquicardia não cedeu, se o abdome distendeu e se os ruídos hidroaéreos diminuíram, ele não melhorou — o cólon parou. É a apresentação do megacólon tóxico, que nenhum dos dois protocolos federais define e que este capítulo assume descrever. O dano é de tempo: o paciente segue mais 24 ou 48 horas sob corticoide enquanto a parede afina, e a decisão de colectomia, que poderia ter sido eletiva no terceiro dia, passa a ser feita numa perfuração. A regra de segurança é simples: nenhuma queda no número de evacuações conta como resposta se não vier acompanhada de queda da febre, da frequência cardíaca e da proteína C reativa. Na dúvida, radiografia de abdome.
O dano: É o erro que produz os anos de atraso, e ele quase nunca aparece como erro no prontuário, porque cada consulta, isolada, está correta. Diarreia de sete dias com cólica realmente pode ser gastroenterite. O problema é que ninguém abre o histórico e soma. Elivânia recebeu metronidazol, ciprofloxacino e antiespasmódico em três consultas diferentes ao longo de dois anos e meio, perdeu sete quilos entre a primeira e a última, e nenhum dos três atendimentos pediu um hemograma. Persistência, recorrência e perda ponderal exigem investigação, sem depender de completar seis semanas. Esse prazo não exclui infecção persistente nem confirma doença de Crohn. A pergunta que corrige o erro custa dez segundos e é a mudança de foco do episódio para a doença: quantas vezes isso já aconteceu, e entre uma vez e outra o intestino voltou ao normal?
O dano: É o erro de via, e ele condena o paciente a semanas de tratamento inútil seguidas da conclusão errada de que o medicamento falhou. O PCDT de Retocolite Ulcerativa é direto: pacientes com proctite leve a moderada devem ser tratados com um supositório de mesalazina de 1 g por dia, e o tratamento tópico deve ser priorizado porque garante maiores concentrações locais e menos eventos adversos. Na colite esquerda, o enema associado ao oral é superior a qualquer um deles isolado. O medicamento certo por via errada não alcança o reto em concentração suficiente, e a consequência prática é o escalonamento indevido: o paciente que não respondeu ao comprimido acaba recebendo corticoide sistêmico que não precisaria. O supositório dá mais trabalho de explicar, e é justamente por isso que a explicação precisa ser feita bem — e ela está no bloco de conversa.
O dano: Os dois protocolos exigem pesquisa de tuberculose ativa e latente antes de qualquer biológico, com radiografia de tórax e prova tuberculínica ou teste de interferon-gama, e mandam tratar a infecção latente quando a prova for maior ou igual a 5 mm ou o teste for reagente. Pular essa etapa num país de alta carga de tuberculose é reativar doença. O erro gêmeo é mais sutil e nasce de uma assimetria entre os documentos: o protocolo do Crohn de 2026 exige sorologias para hepatite B, hepatite C e HIV antes do biológico, e o protocolo da retocolite de 2024 não menciona sorologia em nenhum ponto — sua única referência à hepatite B contraindica o tofacitinibe nas formas agudas, que não são a fase de risco. O paciente com retocolite recebe o mesmo infliximabe e corre o mesmo risco de reativação do vírus B. Peça os cinco exames nas duas doenças, e leve o resultado para a régua do capítulo de Hepatite B. Complete com a atualização vacinal antes de começar, e nunca vacina viva depois.
O dano: Até 40% dos pacientes com doença de Crohn têm manifestação perianal, e boa parte dela chega rotulada como hemorroida. O dano é duplo. Primeiro, o diagnóstico da doença de base atrasa outra vez, porque o achado que mais gritava foi arquivado com o nome errado. Segundo, e pior, uma fístula complexa ou um abscesso tratados como hemorroida podem ir para uma cirurgia anorretal convencional em terreno de Crohn, onde a cicatrização é ruim e a incontinência é um risco real. O que separa os dois quadros é o exame: plicoma larga, endurecida e indolor, orifícios múltiplos, fissura fora da linha média posterior, num paciente com diarreia crônica, é Crohn. O protocolo trata fístula simples e complexa de modos diferentes — a simples assintomática não requer tratamento específico, a complexa exige drenagem cirúrgica e anti-TNF depois de excluída sepse. A doença hemorroidária, a fissura comum e o abscesso anorretal do paciente sem doença inflamatória são do capítulo de Coloproctologia sobre doença anorretal.
O que dizer ao paciente e à família
Sete falas, e todas partem do mesmo lugar: o paciente com doença inflamatória intestinal já ouviu, várias vezes, que era coisa de nervoso ou coisa que comeu. A primeira tarefa da conversa é desfazer isso sem culpar quem atendeu antes.
Dizer a uma paciente de 26 anos que a diarreia dos últimos três anos nunca foi infecção
“"Elivânia, eu li os seus atendimentos aqui de trás para frente, e eu acho que a gente estava resolvendo o problema errado. Cada vez que a senhora veio, a diarreia parecia uma infecção, e por isso a senhora tomou remédio de infecção. Só que infecção vai embora e não volta, e o peso volta. A senhora foi de 58 para 51 quilos nesse tempo, e voltou três vezes. Isso não é uma diarreia que se repete: é uma doença que nunca parou. Existe um grupo de doenças em que o próprio intestino inflama sozinho, sem micróbio nenhum, e é isso que eu preciso investigar agora. Não é câncer, não é contagioso, e tem tratamento. Mas para tratar eu preciso primeiro provar, e para provar eu preciso de um exame que olha o intestino por dentro."”
Explicar por que o exame precisa ser feito num serviço distante, quando o paciente diz que não tem como ir
“"Eu sei que são dois ônibus e que a senhora perde o dia de trabalho. Eu não vou dizer que é fácil. Mas eu preciso ser honesto sobre o que acontece se a gente não fizer: a senhora continua tomando remédio que não é para essa doença, continua emagrecendo, e daqui a um tempo o intestino pode estreitar ou abrir uma comunicação, e aí o problema deixa de ser de comprimido e passa a ser de cirurgia. O exame é uma vez. Eu vou escrever na guia tudo que faz ela andar mais rápido: há quanto tempo é, quanto a senhora emagreceu, e o que eu achei no exame de hoje. E eu vou marcar a senhora aqui comigo daqui a três semanas, com ou sem o exame, para a gente não perder o fio de novo."”
Ensinar a usar supositório ou enema a quem acha que remédio sério é comprimido
“"O senhor vai me achar estranho, mas o comprimido é o remédio errado para o seu caso. A sua inflamação está nos últimos centímetros do intestino, bem perto da saída. Um comprimido é absorvido lá em cima e chega quase nada aqui embaixo. O supositório entrega o remédio exatamente onde a inflamação está, e por isso funciona melhor e dá menos efeito no resto do corpo. É à noite, na hora de deitar, e depois é só ficar deitado. Eu sei que dá mais trabalho e que muita gente desiste na primeira semana. Se o senhor tentar por duas semanas direito e não melhorar, a gente muda. Mas se o senhor trocar por comprimido por conta própria e não melhorar, a gente vai achar que o remédio falhou, quando na verdade ele nem chegou lá."”
Explicar por que se dá anticoagulante preventivo a um paciente que está evacuando sangue
“"Eu entendo o susto, porque parece o contrário do que faz sentido. O senhor está perdendo sangue pelo intestino e eu estou prescrevendo uma injeção que afina o sangue. Deixa eu explicar. Essa inflamação toda deixa o sangue mais propenso a coagular dentro das veias, principalmente com o senhor parado na cama. Trombose na perna e no pulmão é uma complicação real desse quadro, e é uma complicação que mata. A dose que eu estou usando é preventiva, é pequena, e ela não faz o sangramento do intestino aumentar de forma perigosa. É uma conta de risco: o que eu evito é maior do que o que eu arrisco. E eu vou acompanhar o seu hemograma todo dia — se alguma coisa mudar, eu mudo a conduta."”
Apresentar a possibilidade de retirar o intestino grosso, no primeiro dia e não no terceiro
“"Eu chamei o cirurgião para ver o senhor hoje, e eu quero que o senhor saiba por quê, para não se assustar quando ele entrar. Não é porque o senhor está pior do que eu disse. É porque, nesse quadro, existe uma chance de o remédio não segurar, e se isso acontecer a decisão precisa ser rápida. Eu prefiro que a pessoa que vai tomar essa decisão comigo tenha visto o senhor hoje, e amanhã, e depois — e não só no dia em que ela tiver que decidir. A cirurgia, se precisar, é a retirada do intestino grosso com uma bolsa temporária na barriga, e depois existe uma segunda operação para reconstruir. Eu não estou dizendo que vai ser preciso. Estou dizendo que, se for, o senhor já vai conhecer quem vai operar."”
Responder à pergunta sobre gravidez de uma paciente jovem recém-diagnosticada
“"Pode engravidar, sim, e eu prefiro que a gente planeje isso junto do que a senhora descubra sozinha na internet. Duas coisas importam. A primeira: mulher com a doença controlada tem a mesma fertilidade das outras; com a doença ativa, a fertilidade cai e o risco de perder a gestação, de parto prematuro e de bebê com baixo peso aumenta. Então o ideal é engravidar num período em que a doença esteja calma. A segunda: a maior parte dos remédios se mantém na gravidez, porque a doença ativa faz mais mal ao bebê do que o tratamento. Não pare nada por conta própria ao descobrir uma gravidez — me procure no mesmo dia, e a gente ajusta o que precisar ajustar."”
Falar com o paciente que abandonou a manutenção porque estava bem
“"O senhor parou o remédio porque melhorou, e eu entendo a lógica. O problema é que esse remédio não serve para melhorar — ele serve para não piorar. Enquanto o senhor toma, o intestino fica calmo e o senhor não sente nada; é exatamente por isso que parece que não está fazendo nada. Foi essa parada que trouxe o senhor para o hospital. Eu não vou dizer que é fácil tomar remédio quando a gente está bem, e eu quero saber, de verdade, o que atrapalhou: se foi o preço, se foi a quantidade de comprimidos, se foi o efeito no estômago. Porque, para cada um desses, existe uma saída — inclusive uma apresentação que se toma uma ou duas vezes ao dia em vez de quatro. O que não tem saída é parar."”
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Semanal no primeiro mês, quinzenal no segundo e no terceiro, mensal depois
O protocolo brasileiro da retocolite ulcerativa, em vigor desde setembro de 2024, escreve que a azatioprina pode acarretar leucopenia ou trombocitopenia graves por supressão da medula óssea, e fixa uma vigilância intensa: hemograma completo semanalmente no primeiro mês, quinzenalmente no segundo e no terceiro meses e, depois, mensalmente, com novos hemogramas sempre que a dose mudar. As transaminases seguem a mesma periodicidade nos primeiros 6 meses e passam a trimestrais depois. O argumento por trás do calendário é o padrão temporal da mielotoxicidade da tiopurina, que se concentra nas primeiras semanas e pode ser abrupta.
Brasil. Ministério da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 9, de 12 de setembro de 2024 — PCDT de Retocolite Ulcerativa, seção 7
Uma coleta com duas semanas e, em dose estável, a cada seis meses
O protocolo brasileiro da doença de Crohn, publicado em maio de 2026 e portanto o mais recente dos dois, prescreve hemograma completo com aspartato e alanina aminotransferase duas semanas após o início do tratamento e mensalmente quando houver mudança de dose; em pacientes com doses estáveis, o controle com hemograma e testes hepáticos passa a ser feito a cada 6 meses. O mesmo documento acrescenta a conduta diante do achado: ocorrendo leucopenia, reduzir a dose à metade ou suspender conforme a gravidade, e interromper o tratamento em caso de pancreatite aguda. O argumento implícito é de proporcionalidade entre risco e número de coletas num tratamento de anos.
Brasil. Ministério da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 51, de 18 de maio de 2026 — PCDT da Doença de Crohn, seção 7
Os dois documentos estão em vigor, tratam do mesmo fármaco, na mesma faixa de 2,0 a 2,5 mg/kg/dia, com o mesmo risco de mielotoxicidade, e diferem por mais de uma ordem de grandeza no primeiro trimestre. Para o paciente à sua frente, decida pelo momento do tratamento e não pela doença: nas primeiras 12 semanas, e sempre que a dose mudar, siga o calendário intenso, porque é a janela em que a citopenia aparece e porque o custo de um hemograma é irrisório diante de uma agranulocitose. Depois de três meses com dose estável e hemogramas normais, o calendário espaçado é defensável. Escreva no prontuário qual das duas réguas você adotou e por quê, e entregue ao paciente as datas das próximas coletas por escrito — a maior parte das falhas de monitoramento não é de calendário, é de quem não voltou.
Sim, e o rastreamento é completo: anti-HBs, HBsAg, anti-HBc total, anti-HCV e anti-HIV
O protocolo brasileiro da doença de Crohn de 2026 é explícito: o rastreamento sorológico para os vírus das hepatites B e C e para o HIV está indicado para todos os pacientes candidatos a terapia biológica, com os cinco exames nominados. O mesmo documento detalha o rastreio de tuberculose ativa e latente e a atualização vacinal prévia, e a lógica que sustenta as duas exigências é a mesma — o anti-TNF suprime a resposta imune que mantém o vírus contido, e a reativação do vírus B sob anti-TNF é evento descrito e grave.
Brasil. Ministério da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 51, de 18 de maio de 2026 — PCDT da Doença de Crohn, seção 7
A norma específica da retocolite não pede: exige tuberculose e cala sobre sorologia
O protocolo brasileiro da retocolite ulcerativa, de 2024, dedica parágrafos ao rastreio de tuberculose ativa e latente antes de infliximabe, vedolizumabe ou tofacitinibe, com radiografia de tórax, prova tuberculínica ou teste de interferon-gama, corte de 5 mm e regras de repetição. Sobre sorologia viral, o documento não traz exigência: não menciona HBsAg, anti-HBc, anti-HBs, anti-HCV nem anti-HIV em nenhum ponto. A única referência à hepatite B está entre as contraindicações do tofacitinibe, que são as hepatites B ou C agudas — e não a infecção crônica, que é a que reativa.
Brasil. Ministério da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 9, de 12 de setembro de 2024 — PCDT de Retocolite Ulcerativa, seção 7
A divergência é entre um documento que manda e um documento que se cala, e silêncio de norma não é proibição. Para o paciente à sua frente, o que decide é o mecanismo: se ele vai receber infliximabe, o risco de reativação do vírus B é o mesmo, tenha ele Crohn ou retocolite, porque quem reativa o vírus é o anti-TNF e não a doença intestinal. Peça os cinco exames antes da primeira infusão em qualquer das duas doenças, e leve o resultado para a régua de interpretação e de profilaxia do capítulo de Hepatite B, primeiro desta apostila. Se a farmácia ou a regulação questionar o pedido num paciente com retocolite, a justificativa a escrever é o protocolo do Crohn, que é federal, mais recente e trata do mesmo medicamento.
Ciclosporina intravenosa como primeira escolha, em serviço com experiência
O protocolo brasileiro da retocolite ulcerativa escreve que, na ausência de resposta ao corticoide, em serviço com experiência nesse uso, se preconiza o uso de ciclosporina intravenosa como primeira escolha, na dose de 2 mg/kg/dia em infusão contínua durante 7 dias, seguida de ciclosporina oral por 12 semanas e transição para azatioprina. O documento sustenta a preferência com um estudo de vida real de 740 pacientes, no qual não houve diferença estatística entre ciclosporina e infliximabe e houve mais eventos adversos graves no grupo do infliximabe, com 26% contra 15,4%.
Brasil. Ministério da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 9, de 12 de setembro de 2024 — PCDT de Retocolite Ulcerativa, seção 6.1.5
Infliximabe, pelo que a prática impõe e pelo que o próprio protocolo excetua
O mesmo protocolo abre exceções amplas que empurram para o anti-TNF: pacientes que já vinham em azatioprina durante o episódio tendem a apresentar pior prognóstico com a ciclosporina, e nos pacientes com perda de função renal, pelo risco de toxicidade, preconiza-se o infliximabe nas doses usuais de indução. O documento também registra que uma meta-análise avaliando estudos não randomizados apresentou resultado favorável ao infliximabe quanto à resposta clínica e à colectomia em 12 meses, e conclui que os dois são opções de eficácia semelhante. A isso soma-se um fato de elenco: a apresentação injetável da ciclosporina não consta da Rename 2024.
Brasil. Ministério da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 9, de 12 de setembro de 2024 — PCDT de Retocolite Ulcerativa, seção 6.1.5; e Rename 2024, entradas de ciclosporina
Para o paciente à sua frente, o critério não é qual das duas é melhor — o protocolo diz que são semelhantes — e sim qual delas o seu serviço consegue fazer com segurança hoje. Faça três perguntas em ordem. O paciente já usava azatioprina, ou tem creatinina alterada? Se sim, é infliximabe, por exceção do próprio protocolo. A farmácia tem ampola de ciclosporina e a equipe tem experiência com infusão contínua e dosagem de nível sérico? Se não, é infliximabe, porque ciclosporina mal monitorizada é nefrotoxicidade e convulsão. Sobrando as duas, escolha a que não atrasa: a que estiver disponível para começar hoje, porque o custo do adiamento no terceiro dia é maior que a diferença entre elas. E, decidida qual for, não planeje a segunda como plano B — o protocolo registra que inexiste evidência suficiente para terapia sequencial, e que nesses casos a colectomia deve ser indicada.
O raciocínio, em voz alta
Quinta-feira, 8h10, unidade básica. Elivânia Zuchi, 26 anos, auxiliar de cozinha, 51 quilos, chega como encaixe com queixa de diarreia há uma semana. Refere cinco a seis evacuações líquidas por dia, com cólica que precede a evacuação, e sangue nas fezes nos últimos três dias. Diz que acorda de madrugada para ir ao banheiro. O prontuário eletrônico da unidade registra três atendimentos anteriores por diarreia: há dois anos e meio, com metronidazol; há um ano e quatro meses, com ciprofloxacino e antiespasmódico; e há sete meses, com hipótese de síndrome do intestino irritável e o mesmo antiespasmódico. Nenhum dos três solicitou exames. No primeiro deles o peso registrado era 58 quilos. Ao exame: temperatura axilar 37,6 °C, frequência cardíaca 92, pressão arterial 104 por 68, conjuntivas descoradas, duas úlceras rasas em mucosa jugal, abdome flácido, com dor à palpação profunda de fossa ilíaca direita, sem massa e sem descompressão dolorosa. Na inspeção perianal, plicoma volumosa, larga e endurecida à direita, indolor, que a paciente chama de hemorroida.
o que eu vejo antes de pensar em diagnóstico
Duas informações mudam a leitura da queixa atual. Esta não é apenas uma diarreia de uma semana: há episódios ao longo de dois anos e meio, sem recuperação sustentada. Além disso, houve perda de sete quilos, quase 12% do peso inicial. A combinação exige investigar uma doença orgânica, incluindo doença inflamatória intestinal e infecção persistente. O erro dos atendimentos anteriores foi tratar cada episódio isoladamente, sem integrar a evolução e o emagrecimento. Nenhum limiar de duração, sozinho, confirma Crohn ou exclui infecção.
o que o exame acrescenta
Três achados que juntos deixam pouca dúvida sobre a família da doença. Úlceras aftoides em mucosa jugal, que apontam para acometimento do tubo digestivo alto e praticamente não pertencem à retocolite ulcerativa. Dor em fossa ilíaca direita, que aponta para íleo terminal. E a lesão perianal, que não é hemorroida — plicoma larga, endurecida e indolor num paciente com diarreia crônica é doença perianal, e até 40% dos pacientes com doença de Crohn a têm. Some o despertar noturno para evacuar, que a síndrome do intestino irritável diagnosticada há sete meses não produz. O quadro é de doença de Crohn ileocolônica com manifestação perianal, e o padrão de acometimento — ileal em cerca de 30%, colônica em 20%, ileocolônica em 50% — torna essa a apresentação mais frequente ao diagnóstico.
o que eu peço hoje, e o que eu não peço
Peço hemograma, proteína C reativa, velocidade de hemossedimentação, coproparasitológico e coprocultura. O hemograma importa porque a paciente está descorada e a anemia é o achado que mais frequentemente antecede o diagnóstico. O que eu não peço é calprotectina fecal, e vale saber por quê: no SUS ela foi incorporada, pela Portaria SECTICS/MS nº 19, de 2024, para o monitoramento de pacientes com doença de Crohn envolvendo o cólon — não para triar diarreia crônica em quem ainda não tem diagnóstico. Pedir aqui é pedir o que o sistema não oferece nesta indicação, e o pedido não substitui o que abre porta. Também não prescrevo antimicrobiano empírico pela quarta vez, e não prescrevo antiespasmódico, que é o que ela recebeu duas vezes.
o que eu escrevo na guia de encaminhamento
A guia é o instrumento clínico mais importante desta consulta, porque é ela que decide se a paciente vai ser vista em três semanas ou em oito meses. Escrevo, em números: diarreia crônica com quatro episódios documentados em dois anos e meio, com sangue nos últimos três dias; perda de 7 quilos, de 58 para 51, com as duas datas; despertar noturno para evacuar; úlceras aftoides orais; dor em fossa ilíaca direita; lesão perianal endurecida à inspeção; e a hipótese explícita de doença inflamatória intestinal. Peço ileocolonoscopia com intubação do íleo terminal e biópsias em cinco sítios distintos, que são as duas exigências que o protocolo faz e que, se não estiverem escritas, podem voltar sem resposta. Confirmação diagnóstica exige laudo endoscópico, cirúrgico, anatomopatológico ou radiológico — é esse laudo que dá acesso ao protocolo e aos medicamentos.
o que eu combino antes de ela sair da sala
Marco retorno em três semanas comigo, com ou sem o exame feito, e explico por que: o padrão dos últimos três anos foi ela voltar para começar de novo, e não para continuar. Oriento a suspender qualquer anti-inflamatório não esteroide, que os dois protocolos mandam evitar porque agravam as duas doenças. Pergunto se ela fuma — o PCDT do Crohn trata o tabagismo como fator de risco e manda orientar a cessação conforme o protocolo específico. E digo, em voz alta, a frase que muda a adesão: não é infecção, não é nervoso, tem nome e tem tratamento, e o exame serve para provar o que eu já suspeito.
o que vem depois, se a colonoscopia confirmar
Confirmada a doença de Crohn, mede-se a atividade pelo Índice de Harvey-Bradshaw antes de escolher o degrau. Doença colônica ou ileocolônica leve começa com sulfassalazina, que é o aminossalicilato eficaz na doença colônica; doença ileal recebe corticoide, porque a mesalazina tem efeito muito modesto nessa região. Se não houver resposta clínica significativa em 6 semanas, ou se houver intolerância ao aminossalicilato, trata-se como doença moderada a grave: prednisona ou metilprednisolona para induzir, azatioprina associada para manter, e anti-TNF se não houver resposta em 6 semanas de corticoide e imunomodulador. Antes do primeiro biológico, a lista completa de rastreio: radiografia de tórax, prova tuberculínica ou teste de interferon-gama, sorologias para hepatite B, hepatite C e HIV, e atualização vacinal. A doença perianal dela será classificada em simples ou complexa por exame sob anestesia ou imagem, e o tratamento muda conforme a classe.
Faça você
Sábado, 2h50, pronto-socorro de hospital geral de 120 leitos. Naldemir Simplício, 34 anos, 62 quilos, com diagnóstico de retocolite ulcerativa há quatro anos, está internado há 72 horas por agudização grave. Recebeu succinato sódico de hidrocortisona 100 mg por via intravenosa de 6 em 6 horas desde a admissão, hidratação e profilaxia de tromboembolismo venoso. A pesquisa de toxina de Clostridioides difficile foi negativa e a coprocultura não teve crescimento. Na admissão evacuava doze vezes ao dia, todas com sangue, com temperatura axilar de 38,3 °C, com frequência cardíaca de 118 e com proteína C reativa de 186 mg/L. Nas últimas 24 horas evacuou quatro vezes, ainda com sangue. A temperatura máxima foi 38,1 °C, a frequência cardíaca está em 122, a pressão em 92 por 56. O abdome está mais distendido do que ontem, timpânico, com ruídos hidroaéreos reduzidos, sem defesa e sem descompressão dolorosa. A proteína C reativa de hoje é 154 mg/L, a hemoglobina caiu de 9,1 para 8,2 g/dL, e a albumina está em 2,4 g/dL. O plantonista que sai anotou na evolução: melhora do número de evacuações, manter conduta. Naldemir nunca usou azatioprina e tem creatinina de 0,8 mg/dL. A farmácia do hospital informa que não dispõe de ciclosporina injetável.
o que eu já sei
Um paciente no terceiro dia de corticoide venoso por colite aguda grave, com infecção intestinal já excluída, com queda no número de evacuações e piora de tudo o mais: taquicardia maior, pressão menor, hemoglobina caindo, albumina baixa, abdome mais distendido e ruídos reduzidos. A anotação do plantão que sai lê a queda de doze para quatro evacuações como melhora. O terceiro dia é a data que o protocolo marca para avaliar a resposta ao corticoide, e há duas réguas circulando para essa avaliação — a do protocolo brasileiro e a do artigo que ele cita como referência.
o que eu preciso decidir
Sete decisões, e nenhuma pode esperar a visita das oito. Primeira: a queda no número de evacuações é resposta ao tratamento ou é outra coisa, e o que fazer a respeito ainda de madrugada. Segunda: qual exame de imagem pedir agora e o que exatamente procurar nele. Terceira: aplicar o critério do terceiro dia — com quais números, e com qual unidade de proteína C reativa. Quarta: se houve falha do corticoide venoso, qual resgate escolher, sabendo o que o paciente usou antes, qual a função renal dele e o que a farmácia tem. Quinta: quais medicamentos precisam ser conferidos e retirados da prescrição neste momento. Sexta: quem mais precisa ser chamado, e quando. Sétima: o que dizer a Naldemir e à irmã dele antes do amanhecer.
o que eu não posso deixar de fazer
Não posso repetir a leitura do plantão anterior. Não posso aumentar a dose do corticoide como se fosse a resposta. Não posso pedir colonoscopia com preparo neste paciente. Não posso prescrever nada que reduza motilidade ou apague a dor. E não posso adiar a decisão de resgate para a visita da manhã só porque é sábado de madrugada — o terceiro dia é hoje.
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Primeira decisão: a queda de doze para quatro evacuações não é melhora. O paciente segue febril, está mais taquicárdico, hipotenso, com hemoglobina em queda, abdome mais distendido, timpânico e com ruídos reduzidos. Queda no número de evacuações sem melhora sistêmica, com distensão progressiva, é perda de tônus colônico — o quadro que o PCDT de Retocolite Ulcerativa nomeia uma única vez, ao dizer que casos com suspeita de megacólon tóxico também devem ser considerados graves, e que nenhum dos dois protocolos federais define. A conduta imediata é radiografia simples de abdome agora, procurando dilatação do cólon acima de 5,5 cm, que o protocolo associa a maior chance de colectomia. Segunda decisão: aplicar o critério do terceiro dia. Naldemir tem 4 evacuações nas últimas 24 horas e proteína C reativa de 154 mg/L. Pela versão impressa no protocolo brasileiro — mais de 8 evacuações ao dia e proteína C reativa acima de 45 mg/dL —, ele não preencheria nenhuma das duas condições, porque 154 mg/L são 15,4 mg/dL. Pelo critério original de Travis, que é a referência 79 do próprio protocolo, ele preenche o segundo braço com folga: frequência entre três e oito evacuações somada a proteína C reativa acima de 45 mg/L, o que prevê 85% de risco de colectomia. A diferença é de unidade: 45 mg/dL são 450 mg/L, dez vezes o valor que o artigo fixa, e nenhum paciente de colite aguda grave chega perto disso. Use a régua original. Este é um paciente que falhou ao corticoide venoso, e a decisão de resgate é de hoje. Terceira decisão: qual resgate. O protocolo põe a ciclosporina intravenosa como primeira escolha, 2 mg/kg/dia em infusão contínua por 7 dias, o que para 62 quilos são 124 mg por dia. Naldemir não usava azatioprina e tem função renal normal, de modo que nenhuma das duas exceções do protocolo se aplica a ele — mas a farmácia não tem a apresentação injetável, e ela de fato não consta do elenco impresso da Rename 2024, que traz ciclosporina apenas em cápsulas e solução oral. Logo, o resgate disponível é o infliximabe, que o próprio protocolo considera de eficácia semelhante, na dose de 5 mg/kg, isto é, 310 mg em infusão intravenosa de no mínimo 2 horas — o que exige 4 frascos de 100 mg, com sobra de 90 mg. O vedolizumabe está expressamente proibido nesta situação. Não se planeja terapia sequencial: o protocolo registra que inexiste evidência suficiente para usar um após a falha do outro, e que nesses casos a colectomia deve ser indicada. Quarta decisão: conferir a prescrição e retirar. Nenhum analgésico opioide, nenhum antiespasmódico anticolinérgico — o protocolo manda evitar narcótico e medicamento com efeito anticolinérgico nesses pacientes, e é justamente aqui, num cólon dilatando, que eles fazem o dano. Nenhum anti-inflamatório não esteroide. Manter a hidrocortisona sem aumentar a dose, porque escalonar corticoide não aumenta a resposta. Manter a profilaxia de tromboembolismo venoso, apesar do sangramento. Transfundir hemácias pela queda associada à instabilidade. Quinta decisão: chamar o cirurgião agora, de madrugada, e não às oito. O protocolo escreve duas vezes, na mesma seção, que se preconiza avaliação precoce e acompanhamento por equipe cirúrgica pelo risco de colectomia em qualquer momento da evolução, e o procedimento indicado nos casos graves é a colectomia subtotal com ileostomia e programação de reconstrução depois. Antes de infundir o infliximabe, colher sorologias para hepatite B com HBsAg, anti-HBc total e anti-HBs, hepatite C e HIV, e pedir a radiografia de tórax e a prova tuberculínica ou o teste de interferon-gama — a exigência de sorologia está escrita no protocolo do Crohn e não no da retocolite, mas quem reativa o vírus B é o anti-TNF, e não a doença; a régua de interpretação está no capítulo de Hepatite B. Em situação de risco iminente de colectomia, a coleta é imediata e a infusão não espera o resultado, mas o resultado precisa ter sido colhido. Sexta decisão: o que dizer. À irmã e a Naldemir, que o número de idas ao banheiro caiu porque o intestino está funcionando menos, e não porque a doença melhorou; que hoje é o dia em que se decide trocar de remédio; que a cirurgia continua na mesa como possibilidade real e por isso o cirurgião vai vê-lo ainda hoje; e que, se a troca funcionar, a alta virá com um plano de manutenção, porque foi a interrupção da manutenção que trouxe Naldemir até aqui.
O PCDT de Retocolite Ulcerativa determina, na seção de colite aguda grave, que esses pacientes devem evitar o uso de narcótico ou de medicamento com efeito anticolinérgico. A razão é mecânica: a colite grave já reduz o tônus da parede colônica, e o anticolinérgico reduz tônus e motilidade por definição, o que favorece a dilatação; o opioide, além de reduzir motilidade, apaga a dor abdominal, que é o único sinal de alarme restante num paciente sob corticoide em dose alta. O antiespasmódico em questão sequer consta da Rename 2024. Aguardar coprocultura não é conduta: o quadro já preenche critérios de agudização grave por frequência e comprometimento sistêmico, e o tratamento é corticoide intravenoso com hidratação, profilaxia de tromboembolismo venoso, pesquisa de toxina de Clostridioides difficile e avaliação cirúrgica precoce.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Reconstrua a duração real da diarreia e procure perda de peso, sangramento, sintomas noturnos e manifestações extraintestinais. Compare Crohn e retocolite pelo mecanismo e pela distribuição, sem começar pelas classificações. Depois explique os exames iniciais, a necessidade de confirmar inflamação e a exclusão de infecções antes de imunossupressão. Confira os sinais de gravidade e diga quem precisa de avaliação hospitalar imediata.
Em 30 dias
Compare um primeiro episódio suspeito em paciente estável com uma pessoa com colite conhecida, muitas evacuações sanguinolentas e repercussão sistêmica. Para cada uma, justifique destino, investigação e contato com a equipe. Na simulação hospitalar, descreva quais parâmetros serão revistos diariamente e por que ausência de resposta exige decisão conjunta precoce, inclusive com cirurgia quando indicada. Estude biológicos e outras terapias avançadas a partir da pergunta sobre falha, segurança e objetivo terapêutico, sem exigir que o interno escolha sozinho toda a sequência especializada.
Agora atenda
Uma mulher jovem chega à unidade básica com diarreia há uma semana e um pouco de sangue nas fezes, e é a quarta vez em pouco mais de dois anos que ela vem pela mesma queixa. Nos três atendimentos anteriores recebeu antimicrobiano, antiespasmódico e o rótulo de intestino irritável, e nenhum deles pediu exame. Atenda: descubra a duração real dos sintomas em vez da duração do episódio, procure a perda de peso no próprio prontuário, examine a boca e a região perianal, decida quais exames pedir e quais não pedir, escreva o encaminhamento com o que faz a fila andar, e explique a ela por que isso nunca foi infecção — sem prescrever antimicrobiano pela quarta vez e sem prescrever antiespasmódico.
