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Clínica MédicaGastroenterologia

Quatro perguntas, todo dia

Cirrose hepática e suas complicações (ascite, PBE, encefalopatia)

A peritonite do cirrótico muitas vezes não dói e só aparece se alguém puncionar; a encefalopatia sem gatilho procurado é diagnóstico pela metade; e o rim que some quase sempre começou numa infecção. Quatro perguntas na admissão, refeitas todo dia, e três linhas na alta que impedem o próximo episódio.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 8.041, de 25 de setembro de 2025 — altera a Portaria de Consolidação GM/MS nº 4, de 28 de setembro de 2017, institui a Política Nacional de Doação e Transplantes e define o Regulamento Técnico do Sistema Nacional de Transplantes. Republicada no Diário Oficial da União de 21 de janeiro de 2026, edição 14, seção 1, página 78

Distrito Federal. Secretaria de Estado de Saúde. Protocolo de Atenção à Saúde — Protocolo de Tratamento: Encefalopatia Hepática. Aprovado pela Portaria SES-DF nº 279, de 14 de junho de 2024, publicada no Diário Oficial do Distrito Federal nº 114, de 18 de junho de 2024

Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024

Biggins SW, Angeli P, Garcia-Tsao G, Ginès P, Ling SC, Nadim MK, Wong F, Kim WR. Diagnosis, Evaluation, and Management of Ascites, Spontaneous Bacterial Peritonitis and Hepatorenal Syndrome: 2021 Practice Guidance by the American Association for the Study of Liver Diseases. Hepatology. 2021;74(2):1014-1048

European Association for the Study of the Liver. EASL Clinical Practice Guidelines for the management of patients with decompensated cirrhosis. Journal of Hepatology. 2018;69(2):406-460

01

Responda antes de ler

Um homem de 55 anos, cirrótico, está em uso de espironolactona 400 miligramas e furosemida 160 miligramas por dia há dez dias, com dieta hospitalar hipossódica cumprida e conferida pela nutrição. O peso não cai. A pressão está estável, a creatinina é 1,1 e o sódio sérico é 132. Ele não apresenta encefalopatia. Qual exame ajuda a avaliar a resposta natriurética e o balanço de sódio, em conjunto com a ingestão e a evolução do peso?

02

O paciente que você vai ver

O prontuário do leito 8 tem, no campo do motivo da internação, uma frase de três palavras escrita por alguém do plantão de domingo à noite: descompensação da cirrose. É quarta-feira agora, faltam vinte minutos para a visita da manhã, e o senhor Aldair Itamaracá — 58 anos, 74 quilos, ex-torneiro mecânico — está no quarto dia dessa frase.

Essa frase não é um diagnóstico. É o nome de um lugar. Cirrose descompensada é como dizer que o paciente está no pronto-socorro: informa onde ele está, não o que ele tem. E a diferença entre um interno que evolui esse leito bem e um que evolui mal não é conhecimento raro — é ter, na cabeça, quatro perguntas que se refazem todo santo dia, e que nesse paciente decidem o desfecho.

A técnica de enfermagem, a Inácia, passa pelo posto e diz de passagem que o do 8 dormiu bem, comeu pouco, e que a barriga parece a mesma de ontem. Nada nessa frase é sinal de alarme. Nada nessa frase é sinal de segurança, tampouco. Um cirrótico com peritonite bacteriana espontânea pode ter dormido bem, comido pouco e ter a barriga igual à de ontem — porque a peritonite bacteriana espontânea, ao contrário do que o nome sugere, muitas vezes não dói.

As quatro perguntas são estas. A primeira: ele tem infecção que ninguém procurou? A segunda: ele está sangrando, ou vai sangrar? A terceira: ele está encefalopático — e, se está, qual é o gatilho? A quarta: o rim está indo embora? Nenhuma delas se responde olhando o paciente da porta. Três das quatro se respondem com exames que já estão pedidos ou que custam quase nada. Uma delas — a primeira — só se responde se alguém puncionar.

O senhor Aldair tem ascite. O ultrassom da admissão descreveu líquido em moderada quantidade em todos os quadrantes. No prontuário, nas noventa e seis horas desde a entrada, não há laudo de líquido ascítico. Ninguém puncionou. E o protocolo brasileiro mais recente que trata do assunto — um protocolo de Secretaria estadual, porque documento federal sobre isso não existe — diz, com todas as letras, que o cirrótico com ascite puncionável deve ser submetido a paracentese diagnóstica na admissão.

O que o interno faz com esse leito é o assunto daqui em diante. Não sobre a técnica da punção: o gesto, o ponto, os tubos, o gradiente entre a albumina do soro e a do líquido e a reposição por litro retirado são do capítulo de paracentese, na apostila de Procedimentos e Vias de Acesso. Aqui é a doença. É saber por que se pune, o que a contagem responde, o que muda de conduta quando ela vem alterada, e o que se faz nos outros três eixos enquanto o resultado não volta.

Um aviso de calibração antes de começar. Cirrose não é uma doença de curso lento em que nada acontece entre uma consulta e outra. É uma doença em que a maior parte da mortalidade se concentra nos dias de internação, e em que o que mata quase nunca é o fígado diretamente: é uma infecção que virou disfunção circulatória, um rim que parou, um sangramento que não foi previsto. O fígado é o cenário. As quatro perguntas são o enredo.

03

Quem adoece disso

Comece pelo rim, porque é o número mais duro que existe sobre este paciente e vem de um documento brasileiro. As recomendações da Sociedade Brasileira de Hepatologia para o manejo da injúria renal aguda no cirrótico registram que ela ocorre em até 20% dos pacientes internados com cirrose. Um em cada cinco leitos. Não é complicação rara: é evento esperado da internação.

O mesmo documento traz a distribuição das causas numa série de 463 cirróticos internados com injúria renal aguda, e essa distribuição é a razão de ser da primeira pergunta deste capítulo. A causa mais frequente foi infecção bacteriana, com 46%. Depois depleção de volume, com 32% — perda por sangramento, por diurético, por perda gastrintestinal. Depois síndrome hepatorrenal, com 13%. E nefropatia parenquimatosa, com 9%. Entre as infecções, a peritonite bacteriana espontânea e a bacteremia espontânea foram as mais comuns.

Repare no que essa lista diz. Quase metade da falência renal do cirrótico internado começa numa infecção — e a infecção mais comum é a que só aparece se alguém puncionar. A pergunta do rim e a pergunta da infecção não são duas perguntas: são a mesma pergunta feita em dois momentos, e a segunda chega tarde demais para mudar a primeira.

A mortalidade da série inteira em 90 dias foi de 60%, e o documento é explícito ao dizer que ela foi particularmente alta entre os pacientes cuja injúria renal se associava a infecção ou a síndrome hepatorrenal — e que, em análise multivariada ajustada para variáveis de confusão, a causa da injúria renal se associou de forma independente ao prognóstico. Ou seja: não basta saber que a creatinina subiu. Saber por que ela subiu muda a expectativa de sobrevida, e não apenas o tratamento.

Sobre a infecção em si, os números vêm das diretrizes europeias e da orientação norte-americana. Quem sobrevive a um episódio de peritonite bacteriana espontânea tem probabilidade de recorrência acumulada em um ano de aproximadamente 70%. A probabilidade de sobreviver um ano após um episódio é de 30% a 50%, e cai para 25% a 30% em dois anos. Esses números são a justificativa de duas condutas que o interno assina: a profilaxia secundária e a avaliação para transplante — porque, com essa sobrevida, o episódio de peritonite deixa de ser um evento e passa a ser um marcador de fila.

A profilaxia secundária tem um dos efeitos mais nítidos da hepatologia. No ensaio randomizado, duplo-cego e controlado por placebo que a fundamenta, a probabilidade de recorrência em um ano caiu de 68% no placebo para 20% com antibiótico oral contínuo. É uma redução que quase nenhuma intervenção da clínica médica alcança, e ela depende de alguém escrever uma linha na receita de alta.

Sobre o sangramento, o dado que organiza a terceira decisão da alta é este: sem profilaxia secundária, o ressangramento após um episódio de hemorragia varicosa ocorre em aproximadamente 60% a 70% dos pacientes, em geral dentro de um a dois anos do evento índice. Manejar o sangramento em si — sala, droga vasoativa, endoscopia, ligadura — cabe ao capítulo de hemorragia digestiva alta, entre os de cirurgia do aparelho digestivo. Sobra para cá o antes e o depois: quem recebe betabloqueador sem nunca ter sangrado, e quem sai da internação com a dupla que impede o segundo episódio.

Há um número que este capítulo não tem, e é honesto dizer. Não foi encontrado documento brasileiro recente que descreva a prevalência de cirrose no país, a distribuição por etiologia nas enfermarias públicas, ou a mortalidade hospitalar do cirrótico internado no Sistema Único de Saúde. A epidemiologia que sustenta as decisões deste capítulo é internacional, com exceção da série de injúria renal aguda citada acima — e vale saber que se está usando régua de fora quando se cita o resto.

04

Por que acontece o que acontece

Cirrose é fibrose difusa com formação de nódulos de regeneração. Isso é a definição de patologia, e ela não explica nada do que acontece na enfermaria. O que explica é a consequência hemodinâmica: o fígado fibrosado resiste ao fluxo, a pressão no sistema porta sobe, e o organismo responde a essa pressão de um jeito que resolve o problema local e cria todos os problemas sistêmicos deste capítulo.

A resposta é vasodilatação esplâncnica. Os vasos que drenam para o sistema porta se dilatam, e o sangue se acumula ali. Do ponto de vista do território arterial sistêmico, isso é indistinguível de uma hemorragia lenta e permanente: o volume existe, mas está no lugar errado. O corpo lê como hipovolemia — e é por isso que se fala em hipovolemia efetiva, com o adjetivo carregando todo o sentido. O paciente tem líquido sobrando, e o barorreceptor acha que falta.

O que o corpo faz quando acha que falta volume é conhecido, e todo o resto decorre daí. Ativa o sistema renina-angiotensina-aldosterona, ativa o simpático e libera hormônio antidiurético. A aldosterona manda o rim reter sódio. O hormônio antidiurético manda reter água livre. O simpático e a angiotensina contraem a arteríola renal. O resultado é um paciente que retém sódio, retém água mais do que sódio e perfunde mal o próprio rim — as três coisas ao mesmo tempo, pelo mesmo mecanismo.

Retenção de sódio com pressão portal alta produz ascite, e não edema apenas. A hipertensão portal muda a hemodinâmica do leito esplâncnico de tal forma que o líquido retido se acumula preferencialmente na cavidade peritoneal. Reter água além de sódio produz a hiponatremia dilucional que acompanha a cirrose avançada — o sódio do paciente não está baixo porque falta sal, está baixo porque sobra água, e essa distinção governa toda a conduta. Ler o sódio a fundo cabe ao capítulo de hiponatremia na enfermaria, em Prescrição e Cuidado do Paciente Internado. Neste capítulo ele vale por dois papéis simultâneos: marcador de gravidade e teto de dose do diurético.

Na síndrome hepatorrenal, as alterações circulatórias da cirrose reduzem a perfusão renal efetiva e favorecem vasoconstrição renal; inflamação sistêmica e lesão tubular podem coexistir. Não é necessário supor um rim estruturalmente perfeito, e proteinúria ou doença renal crônica não excluem por si só um componente hepatorrenal. No cirrótico com ascite e injúria renal aguda, a avaliação procura a causa predominante e os fatores reversíveis, usando evolução, exame, urina e imagem quando indicada. A resposta ao suporte ajuda a refinar a hipótese, mas não substitui o raciocínio clínico (ADQI-ICA 2024).

Paralelamente, a hipertensão portal abre colaterais. O sangue que não passa pelo fígado procura caminho, e os caminhos que ele encontra são as veias da submucosa esofágica e gástrica, que não foram feitas para essa pressão. Daí as varizes. E daí também o segundo efeito das colaterais, menos lembrado e mais relevante para a terceira pergunta: o sangue intestinal, carregado de amônia e de outros produtos da flora, passa a chegar ao cérebro sem ter sido detoxificado pelo fígado. As diretrizes brasileiras registram que a circulação colateral sozinha pode responder por redução de até 50% na detoxificação hepática da amônia, e que em quem tem derivação portossistêmica intra-hepática esse percentual pode chegar a 93%.

A quarta peça é a translocação bacteriana. A hipertensão portal aumenta a permeabilidade da parede intestinal e altera a motilidade; bactérias entéricas atravessam para os linfonodos mesentéricos e para a linfa, e chegam ao líquido ascítico — que, num cirrótico, é um meio de cultura com pouca capacidade opsonizante, sobretudo quando a concentração de proteína nele é baixa. Não é preciso perfuração, não é preciso foco. A peritonite se chama espontânea porque é exatamente isso: nasce dentro, sem porta de entrada visível. E é por isso que o exame físico do abdome não a exclui — não há inflamação de parede, não há peritônio irritado por conteúdo, há bactéria em líquido.

Uma última peça fecha o circuito e explica por que este capítulo insiste tanto em procurar infecção antes de qualquer outra coisa. A infecção, mesmo pequena, agrava a disfunção circulatória que já existe: mais vasodilatação, mais ativação neuro-humoral, mais vasoconstrição renal. É por isso que, na série brasileira, quase metade da injúria renal aguda começou numa infecção — e é por isso que, num cirrótico, tratar infecção é tratar rim. Cada uma das quatro perguntas puxa as outras três.

Abdome com fígado nodular, colaterais portossistêmicas e ascite; detalhe de vasoconstrição arteriolar renal.
A hipertensão portal contribui para formação de colaterais e ascite. Alterações circulatórias sistêmicas podem reduzir a perfusão renal. Ascite não significa infecção, e a disfunção renal na cirrose tem diferentes causas: o esquema não torna peritonite bacteriana espontânea ou síndrome hepatorrenal diagnósticos automáticos. Ilustração didática original.
05

Como se apresenta de verdade

O que segue não é a apresentação da cirrose. É a apresentação de cada uma das quatro perguntas — porque cada uma tem um jeito próprio de não se apresentar, e é exatamente aí que o interno perde o paciente. Em três das quatro, o quadro clássico do livro é a exceção, não a regra.

Uma observação transversal antes das seções: nenhum dos quatro eixos se avalia bem sem duas informações que costumam faltar no prontuário e que custam zero. A primeira é o peso de hoje comparado com o peso de ontem, na mesma balança e no mesmo horário. A segunda é a lista completa do que o paciente tomava em casa, incluindo o que ele comprou por conta própria. Metade da encefalopatia e boa parte da injúria renal do cirrótico internado estão dentro dessas duas linhas.

Peritonite bacteriana espontânea: a infecção que não dói

O nome engana três vezes. Peritonite sugere abdome em tábua; bacteriana sugere febre e leucocitose; espontânea é a única palavra honesta do conjunto. Na prática, uma parcela expressiva dos episódios cursa sem dor abdominal, sem febre, sem defesa e sem descompressão dolorosa. O paciente que tem os três sinais clássicos existe — mas se você esperar por ele, vai diagnosticar tarde no resto.

A apresentação mais frequente na enfermaria é a apresentação por consequência. O paciente piora de encefalopatia sem que nada tenha mudado na prescrição. A creatinina sobe dois décimos sem que ninguém tenha desidratado ninguém. A pressão, que era 110 por 70, passa a ser 92 por 58 e o plantão anota hipotensão sem causa. A diurese cai. O paciente fica quieto — e quieto, num cirrótico, é sintoma. Qualquer um desses quatro eventos, isolado, num paciente com ascite, é indicação de punção.

Há uma forma que se apresenta como ela mesma, e é a menos comum: dor abdominal difusa de instalação subaguda, febre, e um abdome doloroso à palpação mas sem a rigidez da peritonite secundária. Quando esse quadro aparece, ele é fácil. O problema deste capítulo é o outro.

Duas armadilhas de leitura. A primeira: a ausência de leucocitose no sangue não exclui nada — o cirrótico tem hiperesplenismo e pode ter leucócitos e plaquetas persistentemente baixos, de modo que um leucograma de 6.000 pode ser, para ele, uma leucocitose. A segunda: um paciente que já toma antibiótico por outro motivo pode ter contagem de polimorfonucleares no líquido menor do que teria sem ele, e ainda assim estar infectado. Antibiótico em curso não é motivo para não puncionar; é motivo para interpretar com mais cuidado.

E a distinção que muda o desfecho de verdade: peritonite secundária. Um paciente com contagem alta de polimorfonucleares no líquido pode ter uma diverticulite, uma colecistite ou uma perfuração — e a orientação norte-americana é explícita ao dizer que o paciente com entidade inflamatória intra-abdominal focal pode ter a contagem elevada e não deve ser tratado como peritonite espontânea. A pista clínica é a que não fecha: dor localizada, quadro que não melhora com antibiótico em 48 horas, ar livre na imagem, contagem que sobe apesar do tratamento. Aí é imagem e cirurgia, não é este capítulo.

Encefalopatia: o gatilho é metade do diagnóstico

Encefalopatia hepática é disfunção cerebral, e ela vem em graus. As diretrizes brasileiras registram a classificação em tipos, pela doença de base: tipo A quando associada à falência hepática aguda, tipo B quando há derivação portossistêmica sem lesão hepatocelular intrínseca, e tipo C quando associada à cirrose. Na enfermaria de clínica médica, o paciente é quase sempre tipo C — e essa etiqueta importa menos do que a segunda pergunta.

A graduação clínica em uso é a de West-Haven, e o interno precisa dela porque ela decide destino. O grau mais leve é a inversão do ciclo sono-vigília, a euforia ou a ansiedade, com déficit de atenção que só aparece se você testar. O seguinte é letargia, desorientação no tempo, mudança de personalidade e comportamento inadequado — e é aqui que aparece o asterixe, o tremor de bater de asas que se procura com os braços estendidos, os punhos em dorsiflexão e os dedos abertos. Depois vem a sonolência com resposta a estímulo, desorientação grosseira e confusão franca. E por último o coma.

Existe ainda a encefalopatia mínima, um estágio pré-clínico em que o paciente parece normal na conversa e falha em testes neuropsicológicos ou neurofisiológicos — as diretrizes brasileiras registram que ela existe e que a detecção exige testes específicos. Na enfermaria, ela raramente é o problema. Ela é o motivo de a família dizer que ele anda diferente há meses.

Agora o ponto do capítulo. Encefalopatia num cirrótico não é diagnóstico completo. É metade. A outra metade é: por quê? O protocolo brasileiro sobre o tema lista os precipitantes a procurar, e são estes: infecção, sangramento do trato gastrintestinal, uso de diurético, distúrbios renais e hidroeletrolíticos, constipação, uso de benzodiazepínicos e narcóticos, e piora aguda da função renal. Ele acrescenta, no fluxograma, a ingesta proteica excessiva e a piora aguda da função hepática. E diz uma frase que vale sublinhar: o tratamento desses eventos, por si só, já se associa à melhora do quadro.

Repare que a norma federal mais recente sobre transplante caminha na mesma direção, por outro caminho. Ao definir os critérios que qualificam encefalopatia hepática como situação especial na fila, ela exige, para os graus mais altos, que o episódio seja espontâneo — a portaria usa a expressão, entre parênteses, sem fator precipitante associado — e recorrente. Ou seja: a régua brasileira do transplante não aceita como marcador de gravidade a encefalopatia que tinha causa. Encefalopatia com gatilho é gatilho; encefalopatia sem gatilho, procurado e não achado, é doença.

O diferencial obrigatório, e ele é grande: hipoglicemia, distúrbio do sódio, uremia, hipoxemia e hipercapnia, intoxicação e abstinência alcoólica, sepse com disfunção cerebral, hematoma subdural — a queda que ninguém viu, num paciente com plaquetas baixas e tempo de protrombina alargado, é um cenário real — e delirium, que no idoso internado é a explicação mais comum de confusão aguda e tem capítulo próprio, em Síndromes do Paciente Internado. A dosagem de amônia não faz o diagnóstico e não o exclui; o próprio documento brasileiro registra que os níveis venosos não se relacionam diretamente com o grau de encefalopatia e têm valor diagnóstico muito restrito.

Sangramento: o que se vê, o que não se vê e o que se prevê

O sangramento tem três apresentações no cirrótico internado, e só uma delas é a do filme. A primeira é a hematêmese, que se anuncia sozinha e vai direto para o capítulo de hemorragia digestiva alta, na apostila de Cirurgia do Aparelho Digestivo — a sala, a reposição, a droga vasoativa, a endoscopia e a ligadura são de lá.

A segunda é a melena sem hematêmese. Fezes pretas, brilhantes, de odor característico, num paciente que não vomitou nada. É a que se perde, porque depende de alguém olhar — e a única forma de olhar é o toque retal, que num cirrótico internado com queda de hemoglobina ou com encefalopatia nova deixa de ser opcional. Sangue no tubo digestivo é carga proteica e é hipovolemia: precipita encefalopatia e precipita injúria renal ao mesmo tempo.

A terceira não se vê: é o sangramento que ainda não aconteceu e que a internação é a oportunidade de prevenir. O paciente com variz de alto risco que nunca sangrou precisa sair com profilaxia primária. O que já sangrou precisa sair com a dupla da profilaxia secundária. Esse é o eixo em que o interno mais frequentemente falha — não por errar o manejo do sangue vivo, mas por dar alta sem a linha que impede o próximo.

Uma correção de conceito que vale por vários erros: o paciente cirrótico não é um paciente anticoagulado. O tempo de protrombina alargado e o índice normalizado internacional alto medem a queda dos fatores produzidos pelo fígado — mas o fígado também produz os anticoagulantes naturais, e a queda é paralela. O resultado é um equilíbrio novo, mais instável e não necessariamente deslocado para o sangramento. Ler o coagulograma teste a teste cabe ao capítulo homônimo, em Interpretação de Exames à Beira do Leito. Daqui sai só a consequência prática, e ela reaparece no bloco de erros.

Rim: a creatinina que mente e a diurese que não

O rim do cirrótico se apresenta como um número, e o número é ruim. As recomendações brasileiras sobre injúria renal aguda no cirrótico são diretas ao registrar que a creatinina sérica pode permanecer dentro da faixa de referência apesar de reduções significativas da função renal, por causa da desnutrição proteico-calórica e da sarcopenia relacionada à cirrose — menos massa muscular, menos creatina, menos creatinina produzida. Acrescentam ainda que a creatinina demora a subir depois de uma mudança súbita da função, que o método do laboratório influencia o resultado, e que níveis altos de bilirrubina no sangue podem reduzir os valores medidos de creatinina.

Junte as três coisas: um cirrótico sarcopênico e ictérico tem, ao mesmo tempo, menos creatinina produzida, uma dosagem que a bilirrubina puxa para baixo, e um atraso na subida. A creatinina de 1,0 desse paciente não é a creatinina de 1,0 de um homem de 74 quilos com massa muscular preservada. É por isso que a variação importa mais do que o valor absoluto, e por isso que se compara com a basal do paciente e não com o intervalo do laudo.

A diurese, ao contrário, não mente — se alguém medir. Um cirrótico com ascite em uso de diurético precisa de balanço hídrico e de peso diário, e essas duas medidas respondem, juntas, a duas perguntas: o diurético está funcionando, e o rim está indo embora. O detalhe da coleta e da interpretação do balanço é do capítulo de oligúria e balanço hídrico, em Síndromes do Paciente Internado.

Suspeite de síndrome hepatorrenal associada à injúria renal aguda no paciente com cirrose e ascite quando creatinina e/ou débito urinário não melhoram após corrigir adequadamente a hipovolemia, se ela existir, e não há evidência forte de outra causa predominante. Procure infecção, choque, hemorragia, perdas, nefrotóxicos, lesão tubular e obstrução. Proteinúria ou doença renal crônica podem coexistir e precisam ser interpretadas, não usadas como exclusão automática. O capítulo de injúria renal aguda, em Nefrologia, completa a avaliação geral; aqui, o foco é reconhecer precocemente o componente hepatorrenal e discutir seu tratamento com hepatologia e nefrologia.

A ascite, e o que ela responde sobre gravidade

As diretrizes europeias graduam a ascite em três graus, e a graduação é clínica e simples: grau 1 é a que só o ultrassom detecta; grau 2 é a que se manifesta como distensão abdominal moderada e simétrica; grau 3 é a volumosa, que provoca distensão marcada. A graduação decide conduta — grau 1 não é indicação de diurético, grau 2 é o território do sal e do comprimido, grau 3 é o território da retirada.

A semiologia vale menos do que se ensina e mais do que se pratica. Macicez móvel em decúbito e piparote têm sensibilidade modesta para volumes pequenos, o que quer dizer que ascite grau 1 e boa parte da grau 2 escapam do exame físico de um paciente obeso. O que o exame físico responde bem é outra coisa: se a barriga cresceu depressa, se há hérnia umbilical sob tensão, se há dor localizada e se há sinal de peritonite secundária.

Uma ascite nova, num paciente sem diagnóstico prévio de cirrose, não é um problema deste capítulo até que se prove que é cirrose — a lista de causas inclui carcinomatose, tuberculose peritoneal, insuficiência cardíaca, síndrome nefrótica e trombose de veia porta ou hepática. O que separa essas causas se decide no líquido, e a análise do líquido é do capítulo de paracentese, em Procedimentos e Vias de Acesso.

O que fica aqui é o que a ascite diz sobre o paciente. Ascite é a primeira descompensação em boa parte dos cirróticos e marca a transição da fase compensada para a descompensada. Uma vez instalada, ela muda a expectativa de sobrevida e entra nos dois escores que este capítulo usa — em um deles como item pontuado, no outro nem por isso, e a diferença entre os dois é o assunto do bloco de critérios.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação deste capítulo é curta, barata e quase inteira disponível num hospital de porte médio. O que a torna difícil não é o acesso: é a disciplina de pedir na admissão, e não quando o paciente piora.

A punção da admissão, e o que ela responde

O protocolo brasileiro sobre encefalopatia hepática, ao listar o que fazer no primeiro atendimento, escreve entre parênteses uma frase que vale como regra geral da internação: pacientes com ascite puncionável devem ser submetidos a paracentese diagnóstica na admissão. Ele diz isso no contexto da busca de foco infeccioso, e é exatamente esse o ponto — a punção não é um procedimento de alívio, é um exame diagnóstico, e é o único exame que responde à primeira pergunta.

Puncione na admissão de todo cirrótico com ascite. Puncione de novo, na internação, sempre que houver: piora ou surgimento de encefalopatia, elevação da creatinina, hipotensão nova, queda da diurese, febre, dor abdominal, sangramento digestivo, ou simplesmente uma piora clínica que ninguém explica. A punção diagnóstica retira poucos mililitros, não exige correção de coagulograma e não tem contraindicação absoluta na coagulopatia da cirrose — o gesto, o ponto, a escolha da agulha e os tubos são do capítulo de paracentese, em Procedimentos e Vias de Acesso.

O que se pede no líquido, para a pergunta deste capítulo: contagem total e diferencial de células, com o número absoluto de polimorfonucleares; e cultura, semeada ainda no leito dentro de frascos próprios de hemocultura, porque a semeadura tardia derruba o rendimento. As diretrizes europeias registram que a cultura do líquido é essencial para guiar o antibiótico. A dosagem de proteína total no líquido responde a outra pergunta — a da profilaxia primária — e vale pedir na mesma punção, porque é o número que define quem entra nela.

Uma segunda punção precoce, 48 horas depois de iniciado o antibiótico, serve para uma pergunta específica: o tratamento está funcionando? A contagem que não cai, ou que sobe, com antibiótico adequado, é o sinal que empurra o raciocínio para peritonite secundária ou para germe resistente.

Os exames que constroem os escores

A norma federal de transplante lista, no artigo que trata do cálculo, exatamente cinco exames para o escore de doença hepática terminal na versão 3.0, em maiores de doze anos: creatinina sérica, bilirrubina total, índice normalizado internacional, sódio sérico e albumina sérica. É uma lista curta e vale saber de cor, porque nenhum desses exames é caro e todos costumam já estar pedidos no cirrótico internado.

A mesma norma impõe uma exigência que se perde na prática de enfermaria e que o interno pode salvar: os diferentes exames necessários para cada cálculo devem ser realizados em amostra de uma única coleta de sangue do candidato. Não vale montar o escore com a creatinina de hoje e a bilirrubina de anteontem. Se o paciente está sendo avaliado para lista, a coleta é uma só.

Para a classificação funcional, os itens são outros cinco, e três deles são clínicos: bilirrubina, albumina, tempo de protrombina expresso como índice normalizado internacional, mais ascite e encefalopatia. Repare na diferença entre as duas listas — ela é o assunto do bloco de critérios, e é a razão de os dois escores responderem a perguntas diferentes.

Além disso, na admissão: hemograma completo, sódio, potássio, ureia, glicemia, gasometria se houver rebaixamento, culturas de sangue e de urina, e radiografia de tórax. Ler o padrão de lesão — o que sobe primeiro, o que separa o colestático do hepatocelular — cabe ao capítulo de provas hepáticas, em Interpretação de Exames à Beira do Leito.

O sódio urinário, e por que ele resolve uma discussão

Quando a ascite não responde ao tratamento, existe uma discussão de corredor que se repete: o diurético está fraco ou o paciente está comendo sal? Um único exame decide, e é barato: a excreção urinária de sódio. As diretrizes europeias registram que a avaliação da excreção urinária de sódio pode ficar reservada aos não respondedores, justamente para revelar ingesta excessiva de sódio.

A lógica é aritmética. Se o paciente está numa dieta com sódio limitado e o rim está excretando mais sódio do que ele ingere, ele deveria estar perdendo peso — se não está perdendo, entrou sódio que não foi contado. Se, ao contrário, a excreção está baixa apesar da dose máxima de diurético, o problema é o rim, não a dieta, e o paciente entra na definição de ascite refratária.

As mesmas diretrizes fixam um limite operacional útil: em ascite refratária, manter o diurético só se justifica quando a excreção renal de sódio sob diurético excede 30 milimoles por dia; abaixo disso, o diurético deve ser suspenso, porque está entregando efeito adverso sem entregar natriurese.

A norma brasileira de transplante usa o mesmo exame com outra finalidade e outro corte. Para reconhecer ascite refratária como situação especial na fila, ela pede informação do sódio urinário em urina de vinte e quatro horas e fixa que o maior valor aceito para ascite refratária será de 80 miliequivalentes por 24 horas. É a mesma medida, servindo a duas decisões diferentes — uma clínica, outra de fila.

O que não se pede

Amônia sérica não entra na investigação de rotina da encefalopatia. O documento brasileiro sobre o tema é claro ao dizer que os níveis venosos não se relacionam diretamente com o grau de encefalopatia e têm valor diagnóstico muito restrito. Uma amônia normal não exclui encefalopatia e uma amônia alta não a confirma num paciente confuso por outra causa. Ela não muda conduta, e pedir cria a ilusão de que a pergunta foi respondida.

Tomografia de crânio não é exame diagnóstico de encefalopatia hepática. O protocolo brasileiro registra a indicação com precisão: não para diagnóstico, mas para exclusão de outras etiologias, especialmente em casos mais acentuados ou com apresentações menos características, sendo a tomografia sem contraste o exame inicial. A tradução prática: peça se houver sinal focal, trauma, anticoagulação, primeira crise convulsiva, rebaixamento desproporcional ou ausência de resposta ao tratamento do gatilho. Não peça como parte do pacote.

Coagulograma de controle diário no cirrótico estável não muda conduta e alimenta a tentação de corrigir número. Endoscopia de urgência no paciente que não sangrou não tem indicação — a endoscopia de rastreamento de variz tem indicação e tem momento, e não é a madrugada da internação.

Biópsia renal não é exame de rotina para diagnosticar síndrome hepatorrenal. Urinálise, revisão de medicamentos, busca de infecção e ultrassonografia quando indicada ajudam a identificar causas alternativas ou associadas. A ausência de resposta em até 24 horas após ressuscitação volêmica adequada, quando clinicamente indicada, entra nos critérios ADQI-ICA 2024. Não se exige administrar albumina por 48 horas a todos antes de reconhecer a síndrome; em euvolemia ou sobrecarga, isso pode causar dano e atrasar tratamento.

Uma sequência para o quarto dia de internação

É útil ter uma ordem para o paciente já internado que piora, porque é onde o tempo se perde. Primeiro, olhe a folha de sinais vitais das últimas 24 horas inteira, não o último registro: pressão que caiu dez milímetros de mercúrio ao longo do dia é informação, o último valor isolado não é. Segundo, pese e compare com ontem. Terceiro, olhe a diurese das 24 horas. Quarto, faça o toque retal.

Quinto, releia a prescrição inteira procurando as três classes que precipitam: diurético em dose que ficou grande para o paciente de hoje, sedativo e opioide que entraram sem que ninguém revisse, e anti-inflamatório não esteroidal que apareceu como analgésico de horário. Sexto, pergunte à enfermagem quando foi a última evacuação — constipação é precipitante e ninguém anota.

Sétimo, e só então, punção e coleta. Nessa ordem, porque os seis primeiros passos custam quinze minutos, não dependem de laboratório e frequentemente já entregam o gatilho — e porque, se você começar pela punção, vai esperar duas horas por um resultado enquanto o diurético que causou tudo continua prescrito.

07

As duas réguas de gravidade, os degraus da ascite e quem entra em cada profilaxia

Use as quatro perguntas como roteiro de visita, ligando cada resposta a uma decisão e a um prazo de reavaliação. Ascite, infecção, sangramento, encefalopatia e disfunção renal se influenciam: reconhecer um precipitante evita tratar apenas a manifestação. Para aprofundar complicações, articule a leitura com Hemorragia digestiva, Sepse e Lesão renal aguda. Quatro decisões se tomam neste bloco, e cada uma tem régua própria. A primeira é quanto este paciente está grave — e aqui há duas réguas, não uma, porque elas respondem a perguntas diferentes e usar a errada é o erro mais comum do leito. A segunda é o que fazer com a ascite, que se trata por degraus e não por dose. A terceira é quem sai da internação com profilaxia e de qual tipo. A quarta é a mais prosaica e a que mais falha na farmácia: o que existe, em que apresentação, e o que o Sistema Único de Saúde fornece.

  1. 1Na admissão de todo cirrótico com ascite, puncione. Peça contagem total e diferencial de células com o número absoluto de polimorfonucleares, cultura semeada ainda no leito em frascos próprios de hemocultura, e proteína total no líquido — essa última porque é o número que decide profilaxia primária, e ela só se colhe se alguém lembrar na hora.
  2. 2Antes do resultado voltar, responda às outras três perguntas com o que custa quinze minutos: peso comparado com o de ontem, diurese das 24 horas, toque retal, revisão da prescrição inteira à procura de diurético, sedativo, opioide e anti-inflamatório, e a data da última evacuação.
  3. 3Se a contagem de polimorfonucleares no líquido for igual ou superior a 250 células/mm³, comece antibiótico imediatamente, sem esperar cultura, e some albumina — não é adjuvante nem conforto: é a intervenção que reduz a progressão para síndrome hepatorrenal e a mortalidade.
  4. 4Se houver encefalopatia, escreva no prontuário o grau e o gatilho. Se não achou gatilho, escreva que procurou e não achou, e o que procurou. Encefalopatia sem gatilho registrado é diagnóstico pela metade — e é assim que a norma federal de transplante trata a questão, ao só aceitar como marcador de gravidade a encefalopatia dos graus mais altos que seja espontânea e recorrente.
  5. 5Trate a ascite conforme o grau e a repercussão. Na ascite moderada, oriente restrição moderada de sódio e diuréticos, com monitorização. Na ascite volumosa ou tensa, grau 3, a paracentese de grande volume é tratamento inicial, com albumina conforme o volume retirado e o protocolo; não exija falha prévia da escalada de diuréticos. Depois, planeje prevenção de reacúmulo. A paracentese diagnóstica na admissão ou na suspeita de infecção tem indicação própria e não deve aguardar esses degraus.
  6. 6Se a ascite deixou de responder à dose máxima do par de diuréticos por pelo menos uma semana, com dieta cumprida, ela é refratária. A partir daí a conduta muda de natureza: não é mais aumentar dose, é retirar líquido, reavaliar o diurético e — a decisão que sobra — encaminhar para avaliação de transplante.
  7. 7Antes da alta, responda por escrito às três profilaxias: sangramento, infecção do líquido e encefalopatia. Cada uma tem critério próprio de entrada e nenhuma delas se prescreve para todo mundo.
  8. 8E responda à quarta pergunta da alta, que não é clínica e é a que ninguém escreve: este paciente tem indicação de avaliação para transplante hepático? Um episódio de peritonite bacteriana espontânea, uma ascite refratária ou uma encefalopatia recorrente já bastam para levantar a pergunta.

As duas réguas de gravidade, e a pergunta que cada uma responde

Classificação funcional de Child-PughEscore de doença hepática terminal, versão 3.0
Do que é feitaCinco itens: bilirrubina, albumina, tempo de protrombina expresso como índice normalizado internacional, e dois itens clínicos — ascite e encefalopatia. Cada item vale de 1 a 3 pontos.Cinco exames de laboratório, e nenhum item clínico: creatinina sérica, bilirrubina total, índice normalizado internacional, sódio sérico e albumina sérica. A norma federal os lista um a um.
Pergunta que respondeQuanto de função hepática restou, incluindo o que o exame físico vê. É a régua da conversa de enfermaria e da estratificação de risco em procedimento.Qual a probabilidade de morrer em curto prazo sem transplante. É a régua da fila — não da conduta clínica de hoje.
Como se lê o resultadoSomando os pontos: 5 a 6 é classe A, 7 a 9 é classe B, 10 a 15 é classe C. É a leitura clássica da escala, e vale ler a nota de auditoria correspondente.Como um número contínuo. A norma federal fixa 11 como o mínimo aceito para inscrição em lista e não publica a fórmula: o cálculo é feito pelo sistema informatizado do Ministério.
O que ela tem de fracoDois dos cinco itens dependem de julgamento — ascite pouca ou moderada, encefalopatia leve ou acentuada — e dois pacientes com o mesmo fígado podem cair em classes diferentes segundo quem examina.Não enxerga ascite refratária, encefalopatia recorrente nem carcinoma hepatocelular: um paciente pode estar morrendo por qualquer um dos três com pontuação baixa. É por isso que existe a lista de situações especiais.
Uso concreto na enfermariaEntra como critério de entrada em condutas específicas — a profilaxia primária da peritonite bacteriana espontânea usa a classe funcional, e a decisão de betabloqueador na variz pequena também.Entra quando a pergunta é encaminhamento. Cinco exames, uma única coleta de sangue, e você já sabe se o paciente cruza o piso de inscrição.
Prazo de validade dos examesNão tem prazo normatizado: é uma classificação clínica, refeita quando o paciente muda.Tem, e é escalonado pela própria gravidade: de 11 a 18 pontos, validade de três meses com exames dos últimos catorze dias; de 19 a 25, validade de um mês com exames dos últimos sete dias; acima de 25, validade de sete dias com exames das últimas quarenta e oito horas.

A ascite por degraus: o que se faz em cada um, e o que faz o degrau seguinte começar

DegrauO que caracterizaO que se fazO que faz passar para o degrau seguinte
Ascite detectável só por imagemDistensão ausente ao exame; o ultrassom vê líquido. É a graduação 1 das diretrizes europeias.Tratar a causa da cirrose e nada mais. Não há indicação de diurético nem de restrição de sódio profilática — as diretrizes europeias registram que a restrição de sal em quem nunca teve ascite não tem suporte de evidência.O aparecimento de distensão clínica.
Ascite clinicamente evidente e moderadaDistensão abdominal simétrica e moderada, sem desconforto respiratório. Graduação 2.Primeiro degrau real: restrição moderada de sódio, entre 80 e 120 milimoles por dia, o que as diretrizes europeias traduzem como cerca de 5 a 7 gramas de sal — na prática, dieta sem sal adicionado e sem alimento pronto. Dietas muito pobres em sódio, abaixo de 40 milimoles por dia, devem ser evitadas porque favorecem complicação induzida por diurético e pioram a ingesta.Ausência de resposta ao sal isolado, medida pelo peso.
Ascite moderada sem resposta ao salMesma distensão, com a dieta cumprida e sem perda de peso.Diurético. No primeiro episódio, as diretrizes europeias recomendam antimineralocorticoide isolado, começando em 100 miligramas por dia, com aumentos de 100 em 100 miligramas a cada 72 horas até o teto de 400. Em ascite antiga ou recorrente, recomendam a combinação desde o início. A furosemida entra ou se soma em degraus de 40 miligramas, até 160.Resposta insuficiente ao antimineralocorticoide isolado pode justificar associação de furosemida. Hipercalemia exige avaliar gravidade, função renal e ECG quando indicado; conforme o quadro, reduzir ou suspender o antimineralocorticoide e tratar a alteração. Não manter a dose automaticamente apenas porque a ascite persiste.
Ascite volumosaDistensão marcada, com desconforto. Graduação 3.Retirada de líquido, e não subida de dose: a paracentese de grande volume é o tratamento de primeira linha desse degrau, com reposição de expansor. O procedimento e a reposição por litro são do capítulo de paracentese, em Procedimentos e Vias de Acesso. Depois da retirada, volta-se ao sal e ao diurético para impedir o reacúmulo.A necessidade de repetir a retirada em intervalos cada vez menores.
Ascite refratáriaDuas situações, e as duas contam: a que não responde à dose máxima do par de diuréticos — 400 miligramas de antimineralocorticoide e 160 de furosemida — mantida por pelo menos uma semana com dieta cumprida; e a que não tolera o diurético, porque ele produz encefalopatia, injúria renal, hiponatremia ou hipercalemia antes de produzir natriurese.Retiradas seriadas com reposição, reavaliação do diurético — as diretrizes europeias mandam suspendê-lo se a excreção urinária de sódio sob diurético não passar de 30 milimoles por dia — e, sobretudo, encaminhamento para avaliação de transplante. A norma federal reconhece ascite refratária como situação especial na fila.Aqui o degrau seguinte não é uma dose: é uma lista de espera, ou uma derivação portossistêmica em quem tem indicação.

As três profilaxias: quem entra, com o quê, e por quanto tempo

ProfilaxiaQuem entraO que se prescreveQuando termina
Sangramento varicoso — primáriaQuem tem variz de alto risco e nunca sangrou. As diretrizes europeias definem alto risco como: variz pequena com sinal vermelho, variz média ou grande independentemente da classe funcional, ou variz pequena em paciente classe C.Betabloqueador não seletivo, ou ligadura elástica endoscópica. As duas foram igualmente eficazes em prevenir o primeiro sangramento em quem tem variz de alto risco, e a escolha depende de fatores como preferência do paciente e disponibilidade. Propranolol e carvedilol constam da Rename 2024, no Componente Básico.Não termina enquanto durar a hipertensão portal. É medicação de uso contínuo, e a dose se titula pela frequência cardíaca e pela tolerância.
Sangramento varicoso — secundáriaTodo paciente que já teve hemorragia varicosa. Sem profilaxia, o ressangramento chega a 60% a 70%, em geral no primeiro ou segundo ano.A dupla: betabloqueador não seletivo somado a ligadura elástica em sessões programadas. As diretrizes europeias registram que a terapia combinada reduz o risco de ressangramento em comparação com qualquer uma das duas isoladas.Não termina. As sessões de ligadura terminam quando as varizes são erradicadas; o betabloqueador continua.
Peritonite bacteriana espontânea — primáriaAqui há divergência entre a formulação da recomendação e o ensaio que a sustenta, detalhada no bloco de divergências. Os elementos em jogo são quatro: proteína total baixa no líquido ascítico, doença hepática avançada com classe funcional 9 ou mais e bilirrubina de 3 miligramas por decilitro ou mais, disfunção renal, e hiponatremia com sódio de 130 miliequivalentes por litro ou menos.Quinolona oral contínua. A recomendação europeia nomeia norfloxacino 400 miligramas por dia; um ensaio duplo-cego usou ciprofloxacino 500 miligramas por dia com benefício de sobrevida em um ano. Ver a nota de auditoria sobre o que a Rename 2024 fornece.As diretrizes europeias mandam suspender em quem tiver melhora clínica duradoura e desaparecimento da ascite.
Peritonite bacteriana espontânea — secundáriaTodo paciente que sobreviveu a um episódio. Sem profilaxia, a recorrência em um ano é de aproximadamente 70%.Quinolona oral contínua. No ensaio que fundamenta a conduta, a recorrência em um ano caiu de 68% para 20%. O uso intermitente de ciprofloxacino se associou a maior taxa de germe resistente e deve ser evitado — o esquema é diário.É incerto: as diretrizes europeias registram que não se sabe se a profilaxia deve seguir sem interrupção até o transplante ou o óbito, ou se pode ser interrompida em quem melhora. Na prática, mantém-se, e o episódio dispara a avaliação para transplante.
Encefalopatia hepática — secundáriaQuem teve um episódio de encefalopatia manifesta. O protocolo brasileiro é explícito: após o tratamento do primeiro episódio, o paciente deve manter o dissacarídeo por tempo indeterminado.Lactulose oral, titulada pelo efeito e não pela dose fixa, com o alvo de 2 a 3 evacuações pastosas por dia. Nos casos de repetição, o protocolo permite considerar a associação de rifaximina.Por tempo indeterminado, até melhora clínica sustentada ou transplante. O protocolo prevê ainda que, se não houver recorrência em três meses, a rifaximina pode ser descontinuada.

Conversão para um adulto de 74 quilos: o que se prescreve, em que apresentação, e o que o Sistema Único de Saúde fornece

MedicamentoDose citada nos documentosO que isso dá no adulto de 74 kgApresentação e contaConsta da Rename 2024?
Espironolactona100 mg/dia como início, em degraus de 100 até 400 mg/diaIndepende do peso: 100 mg no primeiro degrau, 400 mg no tetoComprimidos de 25 mg e de 100 mg. O degrau inicial é 1 comprimido de 100 mg; o teto são 4 comprimidos de 100 mg por diaSim — as duas apresentações, no Componente Básico
Furosemida40 mg/dia somados ao antimineralocorticoide, em degraus de 40 até 160 mg/diaIndepende do peso: 40 mg no primeiro degrau, 160 mg no tetoComprimido de 40 mg e solução injetável de 10 mg/mL. O teto são 4 comprimidos de 40 mg por dia. A razão entre o par é 2,5 e se mantém idêntica em todos os quatro degrausSim — comprimido e injetável, no Componente Básico
Albumina humana na peritonite bacteriana espontânea1,5 g/kg no dia do diagnóstico e 1 g/kg no terceiro dia111 g no dia 1 e 74 g no dia 3Frasco a 20% contém 20 g em 100 mL, ou 10 g em 50 mL. O dia 1 são 555 mL de solução a 20%, cerca de 11 frascos de 10 g; o dia 3 são 370 mL, cerca de 7 frascosNão — nenhuma forma de albumina humana consta da Rename 2024; a via de acesso é a de hemoderivados
Lactulose30 a 45 mL por via oral, 2 a 4 vezes ao dia, tituladas pelo número de evacuaçõesIndepende do peso: titula-se pelo efeito, não pela balançaXarope de 667 mg/mL. Recalculado: 30 mL são 20,01 g e 45 mL são 30,015 g — a conversão impressa no protocolo brasileiro fecha, com desvio de 0,05%. A dose máxima do protocolo, 45 mL quatro vezes ao dia, são 180 mL e 120 g de lactulose por diaSim — xarope de 667 mg/mL, no Componente Básico
Rifaximina550 mg de 12 em 12 horas por via oralIndepende do peso: 1.100 mg por diaComprimido revestido de 550 mg. São 2 comprimidos por diaNão — não consta da Rename 2024, embora o protocolo brasileiro a coloque na associação de primeira escolha
Antibiótico da peritonite bacteriana espontâneaCefalosporina de terceira geração por via intravenosa, iniciada imediatamente ao diagnósticoNão se ajusta por peso no adulto; ajusta-se por função renalCefotaxima em pó para solução injetável de 500 mg; ceftriaxona em pó para solução injetável de 250 mg, 500 mg e 1 gSim, ambas, no Componente Básico e ambas com a marcação de uso sob vigilância na classificação de antimicrobianos da própria Rename
Quinolona oral da profilaxiaNorfloxacino 400 mg/dia na recomendação europeia; ciprofloxacino 500 mg/dia no ensaio de profilaxia primária e como alternativa na orientação norte-americanaIndepende do pesoCiprofloxacino em comprimidos de 250 mg e de 500 mg — 1 comprimido de 500 mg ao diaNorfloxacino não consta. Ciprofloxacino consta, no Componente Básico, com marcação de uso sob vigilância

Sobre a classificação funcional, uma advertência de honestidade: nenhuma das fontes abertas para este capítulo imprime a tabela de pontuação de Child-Pugh. As diretrizes europeias a usam sem reproduzi-la, citando classe C e escore igual ou maior que 9; a norma federal de transplante também cita Child C sem publicar a tabela. Os cinco itens, os pontos de 1 a 3 e as faixas de 5 a 6, 7 a 9 e 10 a 15 são a formulação clássica da escala, e estão aqui como leitura minha, não como citação de fonte aberta. Se você precisa da tabela oficial para uma decisão formal, vá à publicação original da escala.

Sobre o escore de doença hepática terminal, o que a norma federal faz e o que ela não faz. Ela lista, no art. 133, exatamente cinco exames para maiores de doze anos — creatinina, bilirrubina total, índice normalizado internacional, sódio e albumina — e três para menores de doze anos, na variante pediátrica: albumina, bilirrubina total e índice normalizado internacional. E ela não publica a fórmula em lugar nenhum das 110 páginas: o cálculo é atribuído ao sistema informatizado de gerenciamento do acesso às listas de espera. Consequência prática: o interno consegue verificar se os cinco exames estão colhidos e válidos, e não consegue conferir a conta.

Erro achado na norma federal, e é de redação com efeito de conteúdo. O art. 128, inciso I, define os critérios de Milão para carcinoma hepatocelular e enumera as alíneas a, c, d e e. Não existe alínea b. A sequência salta de a para c, e as quatro exigências que sobram — tamanho e número dos nódulos, ausência de invasão vascular, ausência de lesão extra-hepática, e limite de alfafetoproteína — ficam sem o item que a numeração original previa. Confirmado por leitura direta do texto republicado em 21 de janeiro de 2026, que é justamente a versão que corrigiu incorreções da publicação original.

Erro de unidade dentro da mesma norma federal, por fator 100. No art. 128, inciso I, alínea e, o limite de alfafetoproteína está em nanogramas por mililitro: menor que 1.000 ng/mL. No art. 139, inciso XV, alínea a, que trata do carcinoma hepatocelular tratado por redução de estádio, o mesmo exame aparece em nanogramas por decilitro: resultado de até 500 ng/dL. Como 1 dL são 100 mL, 500 ng/dL correspondem a 5 ng/mL — isto é, uma alfafetoproteína essencialmente normal. Lido ao pé da letra, o critério exigiria normalização completa do marcador. As duas outras menções ao marcador na mesma norma, ambas com o corte de 100, não trazem unidade nenhuma.

A janela do fígado agudo: confirmada, e com uma ressalva sobre o que não confirmei. A norma vigente define insuficiência hepática aguda grave, para efeito de urgência máxima, como o desenvolvimento de encefalopatia até doze semanas após o início da icterícia, em paciente sem doença hepática pré-existente, que preencha os critérios do King's College ou de Clichy-Beaujon e esteja internado em unidade de terapia intensiva. As doze semanas aparecem duas vezes no texto, no art. 146 para o fígado isolado e no art. 164 para o enxerto multivisceral — não é erro de digitação num artigo só. O que eu não consegui confirmar por leitura direta foi a afirmação de que a janela anterior era de oito semanas: o Anexo I da Portaria de Consolidação nº 4 de 2017, que continha a regra antiga, foi expressamente revogado por esta norma, e não localizei o texto revogado em fonte primária acessível. Registro a mudança como não verificada por mim.

Duas incoerências internas no protocolo brasileiro de encefalopatia hepática, ambas com consequência clínica. A primeira é de escala: a introdução descreve a graduação de West-Haven como uma escala de 0 a 4, e a seção de monitorização, sete páginas depois, descreve a mesma escala como uma escala de 1 a 4. O grau zero é justamente o do paciente sem alteração detectável — sem ele, o instrumento perde o ponto de partida contra o qual se mede melhora, e a encefalopatia mínima, que o próprio documento define, fica sem posição na escala.

A segunda incoerência do mesmo protocolo é mais séria porque inverte uma conduta. Na seção de critérios de exclusão, ele exclui do protocolo os pacientes com quadro confusional agudo por acidose e uremia, por medicamentos — neurolépticos, opioides e benzodiazepínicos — por hiponatremia e hipercalemia, e por alcoolismo. Na seção de conduta, duas páginas adiante, ele lista distúrbios renais e hidroeletrolíticos, uso de benzodiazepínicos e narcóticos e piora aguda da função renal como fatores precipitantes da encefalopatia, a serem procurados e tratados. São as mesmas condições, nos dois papéis opostos: motivo para dizer que não é encefalopatia, e causa da encefalopatia. O cirrótico confuso com sódio de 126 cai nos dois lados ao mesmo tempo.

Ainda no protocolo brasileiro, uma tabela que contradiz o texto do mesmo documento. A nota sobre o metronidazol diz que em metanálises comparativas não foi possível mostrar eficácia e que os dados que corroboram seu uso ainda são insuficientes. O esquema de administração, na página seguinte, prescreve o metronidazol na frase que define o tratamento. O documento recomenda no quadro o que desaconselha na nota.

Uma conferência do mesmo protocolo que fechou, e vale registrar porque a maioria não fecha. Ele apresenta a lactulose como xarope de 667 mg/mL e escreve, entre colchetes, que 30 a 45 mL correspondem a 20 a 30 gramas. Recalculado: 30 mL vezes 667 mg/mL são 20.010 mg, ou 20,01 g; 45 mL são 30.015 mg, ou 30,015 g. Desvio de 0,05% nas duas pontas. A conversão está certa.

Dois erros de unidade no documento brasileiro sobre encefalopatia hepática, e a prova de que estão no papel e não na extração. O texto afirma que a amônia arterial em níveis superiores a 200 g/dL aumenta a pressão intracraniana, e, mais adiante, cita níveis de amônia sérica maiores que 150 mmol/L. O mesmo documento, três páginas antes, dá as faixas corretas em micromoles por litro: 40 a 60 na cirrose e 200 a 240 na insuficiência hepática aguda. Logo 150 mmol/L são 150.000 micromoles por litro, 625 vezes o teto que o próprio documento declara; e 200 g/dL seriam 2 quilogramas de amônia por litro de sangue. A prova de que não é artefato de extração: o caractere micro sobrevive intacto no mesmo arquivo, nas três ocorrências de micromol por litro, e a grafia mg/dL aparece corretamente em outras duas passagens — o que falta é onde deveria estar.

Uma frase do mesmo documento que não fecha por outra razão. Ele afirma que 100 gramas ao dia é a quantidade de proteína necessária para suprir nossas necessidades de nitrogênio, sem referência a peso corporal. A necessidade proteica é por quilograma: a 0,8 g/kg/dia, 100 gramas correspondem a um adulto de 125 quilos; para um homem de 74 quilos, a necessidade básica são 59 gramas por dia e o alvo recomendado na cirrose, de 1,2 a 1,5 g/kg/dia, são 89 a 111 gramas. O número não é absurdo como alvo do cirrótico de porte médio; é errado como constante fisiológica geral.

A confusão que mais muda conduta neste capítulo tem duas letras e um fator 2,54: sódio não é sal. A orientação norte-americana escreve restrição moderada de sódio, 2 gramas ou 90 milimoles por dia. Dois gramas de sódio correspondem a 5,08 gramas de sal de cozinha — o quem lê 2 gramas e orienta 2 gramas de sal está entregando 0,79 grama de sódio, ou 34 milimoles, menos da metade da meta e dentro da faixa de dieta muito pobre que as diretrizes europeias mandam evitar. E o mesmo documento norte-americano converte a mesma meta de dois jeitos diferentes: 90 milimoles no enunciado da recomendação e 88 milimoles nos critérios de ascite refratária. Recalculado, 2.000 mg de sódio divididos por 22,99 dão 87,0 milimoles — nem 90 nem 88.

A conversão europeia do mesmo item, conferida. As diretrizes europeias escrevem 80 a 120 milimoles por dia, correspondendo a 4,6 a 6,9 gramas de sal. Recalculado com a massa molar do cloreto de sódio, 58,44: 80 milimoles são 4,68 gramas e 120 milimoles são 7,01 gramas. O piso fecha; o teto sai 1,6% abaixo do calculado. Diferença sem consequência clínica, registrada porque a mesma conta feita com a massa do sódio, e não do sal, daria 1,8 a 2,8 gramas — e é esse o erro que se vê na beira do leito.

Para a decisão clínica, adote contagem de polimorfonucleares no líquido ascítico igual ou superior a 250 células/mm³ como critério para tratar suspeita de PBE, após avaliar fonte intra-abdominal secundária. Cultura negativa não afasta ascite neutrocítica infectada. Não condicione o tratamento de uma contagem de exatamente 250 à presença de febre, dor ou de quatro sinais adicionais: apresentações pouco sintomáticas são frequentes. Divergências de redação entre maior que e maior ou igual a não justificam adiar o antibiótico nesse limite.

A faixa de proteína ascítica que não pertence a classe nenhuma. As diretrizes europeias abrem a seção de profilaxia primária definindo baixa concentração de proteína no líquido como menor que 10 gramas por litro, e fecham a mesma seção recomendando a profilaxia para proteína menor que 15 gramas por litro — que é o corte dos dois ensaios citados no meio. Um paciente com 1,2 g/dL de proteína no líquido, ou 12 g/L, não é de baixa proteína pela definição de abertura e é elegível pela recomendação de fechamento, no mesmo par de páginas.

Uma sigla que troca a escala de um corte por fator 2,14, e ela aparece na definição de disfunção renal da profilaxia primária. As diretrizes europeias escrevem nitrogênio ureico sanguíneo maior ou igual a 25 mg/dL. Laboratório brasileiro reporta ureia, não nitrogênio ureico. Recalculado com a massa molar da ureia, 60,06, e o nitrogênio que ela contém, 28,01: o fator é 2,1438, e 25 mg/dL de nitrogênio ureico correspondem a 53,6 mg/dL de ureia. Quem aplica o corte de 25 diretamente ao valor de ureia do laudo brasileiro está usando um limiar equivalente a 11,7 mg/dL de nitrogênio ureico — e classificando como disfunção renal um paciente com ureia normal.

Duas conversões das diretrizes europeias que fecharam, conferidas com as massas molares. Bilirrubina de 4 mg/dL corresponde a 68,4 micromoles por litro; o documento escreve 68, desvio de 0,6%. Creatinina de 1 mg/dL corresponde a 88,4 micromoles por litro; o documento escreve 88, desvio de 0,5%. Ambos são arredondamentos honestos, e valem tanto quanto os erros: dizem que o documento converte com cuidado nos pontos em que converte.

O elenco: o que a Rename 2024 traz e o que ela deixa de fora, verificado com busca exata sobre texto normalizado para espaço e hífen, em quatro cópias independentes com resultado idêntico. Constam, no Componente Básico: lactulose xarope 667 mg/mL, espironolactona 25 e 100 mg, furosemida 40 mg e 10 mg/mL injetável, propranolol, carvedilol, ciprofloxacino 250 e 500 mg, ceftriaxona 250 mg, 500 mg e 1 g, e cefotaxima 500 mg. Consta, no Componente Especializado, o acetato de octreotida. Não constam, em nenhuma forma: albumina humana, rifaximina, norfloxacino, terlipressina e midodrina. Três dessas ausências mudam conduta e estão detalhadas na nota seguinte.

As três ausências que mudam conduta. Primeira: a albumina humana não está na Rename, o que não significa que o Sistema Único de Saúde não a forneça — significa que ela não corre pelos componentes da assistência farmacêutica e sim pela via de hemoderivados; o interno que pedir albumina como se pede furosemida vai descobrir isso tarde. Segunda: o norfloxacino, que é a droga nomeada na recomendação europeia de profilaxia da peritonite bacteriana espontânea, não consta da Rename — e a orientação norte-americana registra que ele foi retirado do mercado dos Estados Unidos em 2014 e propõe como alternativa razoável o ciprofloxacino oral 500 mg/dia, que consta da Rename. Terceira: a rifaximina não consta da Rename, embora o protocolo brasileiro de encefalopatia hepática a coloque na associação de primeira escolha com a lactulose — o que é uma divergência entre dois documentos brasileiros e não um erro de nenhum deles, já que a Secretaria estadual pode ter elenco próprio.

Um número da norma federal que quase fecha com a aritmética clássica. O art. 139, inciso XI, alínea b, fixa que o maior valor do sódio na urina de 24 horas aceito para caracterizar ascite refratária será de 80 miliequivalentes por 24 horas. A conta clássica que ancora esse tipo de corte parte de uma dieta de 88 milimoles de sódio por dia menos cerca de 10 milimoles de perdas não renais, chegando a 78 milimoles excretáveis. A norma arredonda para 80 — diferença de 2 milimoles, ou 2,6%, sem consequência prática, mas registrada porque o mesmo exame é usado com outro corte pelas diretrizes europeias, que mandam suspender o diurético abaixo de 30 milimoles por dia. Mesma medida, três números, três finalidades.

08

A conduta, hora a hora

O que segue é a linha do tempo do senhor Aldair Itamaracá, 58 anos, 74 quilos, quarto dia de internação por descompensação da cirrose, com ascite moderada, sódio de 129, creatinina de 1,3 — que na admissão era 1,0 — e uma esposa, dona Sinhorinha, que dorme na poltrona e sabe mais sobre os últimos três dias dele do que o prontuário inteiro.

As doses aqui são as dos documentos abertos para este capítulo, e valem para um adulto com função renal ainda utilizável. O ajuste de dose para quem tem disfunção renal ou hepática instalada é do capítulo de ajuste de dose na disfunção renal e hepática, em Prescrição e Cuidado do Paciente Internado.

  1. 7h10 — antes da visita, quinze minutos no posto

    Você não vai ao leito primeiro. Vai à folha. Nas últimas 24 horas a pressão do senhor Aldair caiu de 112 por 70 na manhã de ontem para 96 por 58 às cinco da manhã de hoje, e ninguém registrou nada porque nenhum valor isolado é hipotensão. A diurese caiu de 1.400 para 800 mililitros. O peso não foi aferido nem ontem nem hoje. A última evacuação registrada é de anteontem. E a prescrição, que você lê inteira pela primeira vez, tem duas linhas que ninguém revisou desde a admissão: espironolactona com furosemida em dose que já estava alta para o paciente de domingo, e dipirona associada a um anti-inflamatório de horário que entrou por lombalgia na primeira noite.

    Prescrição
    • Suspender imediatamente o anti-inflamatório não esteroidal — em cirrótico com ascite ele é contraindicado, e essa linha sozinha explica parte da creatinina
    • Suspender o par de diuréticos hoje, diante de queda de pressão, queda de diurese e creatinina em elevação
    • Prescrever peso diário em jejum, na mesma balança e no mesmo horário, e balanço hídrico rigoroso de 24 horas
    • Perguntar à enfermagem, nominalmente, a data e o aspecto da última evacuação
  2. 7h25 — o exame do leito, com quatro alvos

    Agora sim, o leito. Quatro alvos, nessa ordem, porque cada um responde a uma das quatro perguntas. Nível de consciência e asterixe, com os braços estendidos e os punhos em dorsiflexão por vinte segundos — o senhor Aldair mantém, mas erra o dia da semana e chama você pelo nome do genro. Abdome: distensão moderada, sem dor à palpação, sem defesa. Toque retal: fezes escuras, aderentes, com o odor que não se confunde. Perfusão e pressão de pé e deitado. Em três minutos você tem encefalopatia grau 2, ascite grau 2, melena e hipotensão postural.

    Prescrição
    • Registrar no prontuário o grau de encefalopatia pela escala clínica, e não a palavra confuso
    • Registrar a melena com as palavras que a descrevem, porque é ela que muda a conduta das próximas horas
    • Solicitar hemograma, sódio, potássio, ureia, creatinina, bilirrubinas, albumina, índice normalizado internacional e glicemia — todos na mesma coleta, que é o que a norma de transplante exige se este paciente for para lista
    • Solicitar duas hemoculturas de sítios diferentes e urocultura antes do antibiótico
  3. 7h40 — a punção, que é o exame e não o procedimento

    Encefalopatia nova, hipotensão nova e creatinina em elevação num paciente com ascite são, cada uma isoladamente, indicação de paracentese diagnóstica. Aqui há as três. A punção retira poucos mililitros e não exige correção de coagulograma. O gesto, o ponto e os tubos são do capítulo de paracentese, em Procedimentos e Vias de Acesso; o que este capítulo cobra é que ela seja pedida hoje, e não depois do resultado do hemograma.

    Prescrição
    • Paracentese diagnóstica agora, com contagem total e diferencial de células e o número absoluto de polimorfonucleares
    • Cultura do líquido semeada ainda no leito, em frascos próprios de hemocultura, e não enviada em seringa para o laboratório
    • Proteína total no líquido ascítico na mesma punção — é o número que define profilaxia primária, e a segunda chance de colhê-lo é uma segunda punção
    • Não pedir amônia sérica: ela não confirma nem exclui, e não muda nenhuma linha do que vem a seguir
  4. 8h10 — o antibiótico não espera a cultura, e a albumina não é adjuvante

    A contagem volta com 480 polimorfonucleares por milímetro cúbico. Está feito o diagnóstico de peritonite bacteriana espontânea, e ele foi feito num paciente que não tinha dor abdominal, não tinha febre e não tinha defesa — o que a orientação norte-americana antecipa ao registrar que até um terço dos pacientes com infecção espontânea pode ser inteiramente assintomático ou apresentar-se apenas com encefalopatia ou com injúria renal aguda. O antibiótico começa agora, empírico, sem esperar a cultura. E a albumina começa junto, porque no ensaio que fundamenta a conduta ela reduziu a progressão para síndrome hepatorrenal de 30% para 10% e a mortalidade de 29% para 10%, comparada ao antibiótico sozinho.

    Prescrição
    • Cefalosporina de terceira geração intravenosa imediatamente — cefotaxima ou ceftriaxona, as duas na Rename no Componente Básico
    • Não usar aminoglicosídeo: as diretrizes europeias vedam expressamente antibióticos potencialmente nefrotóxicos como terapia empírica nesse cenário
    • Albumina humana 1,5 g/kg no dia do diagnóstico — 111 g para 74 quilos, cerca de 555 mL de solução a 20%
    • Programar albumina humana 1 g/kg no terceiro dia — 74 g, cerca de 370 mL a 20%
    • Solicitar a albumina pela via de hemoderivados da instituição, e não pela farmácia de dispensação: ela não consta da Rename
  5. 8h30 — a encefalopatia, tratada pelo gatilho antes do xarope

    O senhor Aldair tem três gatilhos ao mesmo tempo, e o protocolo brasileiro nomeia os três na sua lista de precipitantes: infecção, sangramento do trato gastrintestinal e uso de diurético. A lactulose entra, mas ela é a menor parte do tratamento — o que resolve a encefalopatia dele é o antibiótico, a suspensão do diurético e o controle do sangue no tubo digestivo. O documento brasileiro é explícito ao dizer que o tratamento dos precipitantes, por si só, já se associa à melhora, e que deve ser prontamente instituído.

    Prescrição
    • Lactulose xarope 667 mg/mL, 30 mL por via oral de 8 em 8 horas, titulada para 2 a 3 evacuações pastosas por dia
    • Registrar no prontuário os três gatilhos identificados, nominalmente — é o que separa diagnóstico completo de diagnóstico pela metade
    • Não restringir proteína na dieta: o protocolo brasileiro afirma que a restrição proteica não traz benefício e que a desnutrição é marcador de mau prognóstico a longo prazo
    • Reavaliar diariamente a necessidade de proteção de via aérea se o grau piorar — o mesmo protocolo manda avaliar intubação nos graus mais altos
  6. 9h20 — o sangramento, que é do vizinho mas começa aqui

    Melena num cirrótico é hemorragia digestiva alta até prova em contrário, e daqui em diante quem conduz é o capítulo de hemorragia digestiva alta, na apostila de cirurgia: estabilização, droga vasoativa, transfusão e endoscopia estão todas lá. O que não se cede é o que se faz nesse paciente porque ele é cirrótico e não porque está sangrando — e é uma linha só, que muda mortalidade. A profilaxia antibiótica no sangramento digestivo do cirrótico não é opcional: as diretrizes europeias a colocam no fluxo do sangramento agudo, e a orientação norte-americana registra que a ceftriaxona intravenosa é hoje o antibiótico recomendado nesse cenário, porque a resistência a quinolona derrubou a eficácia profilática do norfloxacino.

    Prescrição
    • Comunicar imediatamente o plantonista e acionar o fluxo de hemorragia digestiva alta da instituição
    • Manter a cefalosporina de terceira geração já iniciada — ela cobre também a indicação de profilaxia do sangramento, e não se somam duas
    • Não corrigir o índice normalizado internacional com plasma fresco congelado apenas porque ele está alargado e o paciente sangra: a decisão de hemocomponente é do capítulo de hemorragia digestiva alta e não se toma pelo número isolado
    • Reservar leito de maior vigilância e reavaliar de hora em hora enquanto o sangramento estiver ativo
  7. Dia 2 ao dia 5 — o rim, e a prova terapêutica que faz parte do diagnóstico

    A creatinina de Aldair sobe de 1,3 para 1,8 mg/dL no dia seguinte. A variação confirma injúria renal aguda; na cirrose, sarcopenia pode fazer a creatinina subestimar a disfunção. Reavalie imediatamente perfusão, balanço, perdas, infecção, nefrotóxicos e congestão, lembrando a albumina já administrada pela peritonite bacteriana espontânea. Não some automaticamente um segundo esquema de albumina ao primeiro. O consenso ADQI-ICA 2024 atualizou os critérios: no cirrótico com ascite, a ausência de melhora da creatinina e/ou diurese em até 24 horas após reposição adequada, quando clinicamente indicada, e a ausência de evidência forte de outra causa predominante sustentam HRS-AKI. Não há obrigação de aguardar dois dias de albumina. Se houver hipovolemia, corrigi-la e reavaliar; se houver euvolemia ou sobrecarga, não expandir por rotina. A possibilidade de componente hepatorrenal deve ser discutida cedo com hepatologia e nefrologia, sem esperar que toda causa associada desapareça.

    Prescrição
    • Reavaliar a indicação dos diuréticos conforme volemia, perfusão e congestão. Corrigir hipovolemia quando presente, com solução e volume definidos pela equipe, e reavaliar a resposta em até 24 horas. Contabilizar a albumina já recebida pela PBE; não prescrever automaticamente mais 1 g/kg/dia por dois dias em paciente euvolêmico ou congesto (ADQI-ICA 2024).
    • Ultrassonografia de rins e vias urinárias para excluir obstrução, e sedimento urinário com proteinúria
    • Revisar a prescrição inteira a cada 24 horas procurando nefrotóxico: anti-inflamatório, contraste, aminoglicosídeo
    • Se o conjunto sustentar HRS-AKI, discutir prontamente vasoconstritor com albumina individualizada, monitorização e avaliação para transplante, com hepatologia/nefrologia. Não aguardar uma prova obrigatória de 48 horas de albumina; não usar ausência de resposta isolada como confirmação diagnóstica.
    • Reavaliar o balanço hídrico e o peso diariamente — a expansão que trata o rim é a mesma que pode encher o pulmão
  8. Dia 8 — a alta, e as quatro linhas que o interno assina

    O senhor Aldair vai para casa. A ascite regrediu, a encefalopatia cedeu com o antibiótico, a creatinina voltou a 1,1, a endoscopia mostrou varizes de médio calibre e foi feita ligadura. A parte difícil da alta não é clínica: é que quatro decisões que valem mais do que toda a internação cabem em quatro linhas, e as quatro se perdem se ninguém as escrever. As mecânicas da alta — receita, retorno, sinais de alarme e relatório — são do capítulo dos quatro papéis, em Prescrição e Cuidado do Paciente Internado. O que é deste capítulo é o conteúdo dessas quatro linhas.

    Prescrição
    • Profilaxia secundária da peritonite bacteriana espontânea: quinolona oral contínua, diária e não intermitente, porque este paciente teve um episódio e a recorrência em um ano sem profilaxia é de cerca de 70%
    • Profilaxia secundária do sangramento: betabloqueador não seletivo somado ao programa de sessões de ligadura até erradicação das varizes
    • Profilaxia secundária da encefalopatia: lactulose por tempo indeterminado, titulada para 2 a 3 evacuações pastosas por dia, conforme o protocolo brasileiro
    • Encaminhamento para avaliação de transplante hepático: colher os cinco exames do escore numa única coleta, como a norma exige, e escrever no relatório o episódio de peritonite, a ascite e a encefalopatia — porque duas dessas três são situações especiais na fila
    • Escrever no relatório de alta, com todas as letras, que este paciente não pode receber anti-inflamatório não esteroidal e não pode receber aminoglicosídeo
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Como saber se está funcionando

Sete parâmetros, e nenhum deles é caro. O que os torna difíceis é a periodicidade: quase todos precisam ser medidos diariamente e comparados com o dia anterior, e é a comparação, não o valor, que carrega a informação.

Peso diário, na mesma balança e no mesmo horárioTodo dia, em jejum, antes do café.

Esperado: É a única medida objetiva de resposta ao tratamento da ascite. As diretrizes europeias fixam os dois limites: durante a terapia diurética, a perda máxima recomendada é de 0,5 quilo por dia no paciente sem edema periférico e de 1 quilo por dia no paciente com edema. E fixam o piso de resposta: redução de peso menor que 2 quilos por semana define não resposta ao antimineralocorticoide isolado e é o gatilho para somar a furosemida. Perder mais rápido que o teto não é eficiência — é o caminho para injúria renal e encefalopatia.

Diurese das 24 horas e balanço hídricoDiariamente enquanto houver diurético, ascite ou creatinina em movimento.

Esperado: Queda de diurese precede a queda de pressão e a subida de creatinina. Um paciente que passa de 1.400 para 800 mililitros em 24 horas mudou de estado, mesmo com sinais vitais dentro da faixa. A técnica da medida e o que fazer com um balanço positivo persistente são do capítulo de oligúria e balanço hídrico, em Síndromes do Paciente Internado.

Creatinina, comparada com a basal do próprio pacienteDiariamente na fase aguda; a cada 48 a 72 horas depois de estabilizado.

Esperado: Aqui a comparação é obrigatória e o intervalo de referência do laudo não serve. As recomendações brasileiras registram que a creatinina do cirrótico pode ficar dentro da faixa normal apesar de redução significativa da função, por sarcopenia e desnutrição, que ela demora a subir depois de uma mudança súbita, e que bilirrubina alta pode reduzir o valor medido. A variação em relação à basal é o sinal; o número absoluto não é.

Grau de encefalopatia, registrado pela escala e não pelo adjetivoEm cada visita, e a cada vez que a equipe de enfermagem descrever comportamento diferente do da véspera.

Esperado: Escreva o grau, o achado que o define e a data. Melhora esperada em 24 a 48 horas se o gatilho foi corrigido. Piora, ou ausência de melhora, com o gatilho tratado, é indicação de reprocurar gatilho — punção nova, toque retal novo, eletrólitos novos — e de considerar as causas que não são hepáticas, incluindo hematoma subdural em quem caiu. A diferenciação com delirium no idoso internado é do capítulo de delirium, em Síndromes do Paciente Internado.

Sódio séricoDiariamente enquanto o diurético estiver prescrito.

Esperado: As diretrizes europeias registram que a maioria dos especialistas concorda em suspender o diurético, ao menos temporariamente, quando o sódio cai abaixo de 120 a 125 milimoles por litro. Sódio caindo num cirrótico em uso de diurético quase nunca é falta de sal: é excesso de água. Conduzir a hiponatremia em detalhe cabe ao capítulo homônimo, em Prescrição e Cuidado do Paciente Internado. A cobrança daqui é uma só: suspender o diurético, e não repor sódio.

Potássio sérico, nos dois sentidosDiariamente enquanto o diurético estiver prescrito, e a cada mudança de dose.

Esperado: Espironolactona pode elevar potássio, e furosemida pode reduzi-lo, mas a combinação não garante equilíbrio. Na hipercalemia, avalie valor, tendência, função renal, perfusão, interações e ECG quando indicado. Alteração relevante pode exigir suspensão ou redução do antimineralocorticoide e tratamento imediato, não apenas acrescentar furosemida. Na hipocalemia, reveja perdas e diurético e corrija de forma monitorizada. O capítulo de potássio na enfermaria, em Prescrição e Cuidado do Paciente Internado, detalha o manejo; sinais de gravidade exigem ação antes da próxima coleta programada.

Contagem de polimorfonucleares no líquido, 48 horas após iniciar o antibióticoUma segunda punção, 48 horas depois do início do tratamento, sempre que a resposta clínica não for clara.

Esperado: Queda expressiva da contagem confirma que o antibiótico é adequado e permite pensar em duração curta — a orientação norte-americana registra um estudo em que suspender o antibiótico quando a contagem caiu abaixo do corte encurtou a média de 9,6 para 4,8 dias. Contagem que não cai, ou que sobe, com antibiótico adequado, empurra o raciocínio para duas hipóteses: germe resistente, ou peritonite secundária a foco intra-abdominal — e a segunda é cirúrgica, não clínica.

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Onde o erro machuca

Restringir proteína na dieta do paciente encefalopático

O dano: É a conduta desfeita mais persistente da enfermaria brasileira, e ela sobrevive porque a lógica parece boa: se a amônia vem do nitrogênio, tire o nitrogênio. O protocolo brasileiro de encefalopatia hepática, de 2024, é direto ao afirmar que os pacientes cirróticos com encefalopatia devem evitar dieta com restrição proteica, que a medida não apresenta benefício no tratamento, e que a desnutrição é marcador de mau prognóstico a longo prazo. O dano da restrição não é abstrato: o cirrótico já é sarcopênico, a sarcopenia piora a própria encefalopatia porque o músculo é um sítio alternativo de metabolização da amônia, e o paciente que sai da internação com dois quilos de massa magra a menos volta antes. Quando aparecer na prescrição a linha dieta hipoproteica num cirrótico, a conduta é apagar a linha e procurar o gatilho que ninguém procurou.

Corrigir o coagulograma de rotina, antes de procedimento ou por hábito

O dano: O cirrótico não é um paciente anticoagulado: o fígado deixa de produzir os fatores pró-coagulantes e os anticoagulantes naturais na mesma proporção, e o índice normalizado internacional alargado mede metade dessa história. Transfundir plasma fresco congelado para normalizar um número, num paciente que não está sangrando, entrega volume a quem já tem hipertensão portal — e volume, aqui, aumenta a pressão portal e o risco de sangramento que se queria prevenir. Some a isso o risco transfusional. Paracentese diagnóstica não exige correção prévia. A decisão de hemocomponente, quando o paciente sangra de verdade, é clínica e não numérica, e a leitura fina de cada teste é do capítulo de coagulograma, em Interpretação de Exames à Beira do Leito.

Prescrever anti-inflamatório não esteroidal ao cirrótico com ascite

O dano: Costuma entrar pela porta lateral: uma dor lombar na primeira noite, um analgésico de horário que o plantonista escreve sem olhar o diagnóstico de base. O mecanismo do dano é direto — o rim do cirrótico com ascite mantém a filtração à custa de prostaglandinas que dilatam a arteríola aferente contra uma vasoconstrição sistêmica máxima; o anti-inflamatório bloqueia exatamente essa compensação. O resultado é injúria renal, retenção de sódio, ascite refratária a diurético e, na presença de variz, risco de sangramento. Numa enfermaria, a maneira mais rápida de encontrar esse erro é ler a prescrição inteira do cirrótico todo dia, incluindo os itens se necessário — que é onde ele mora.

Escolher aminoglicosídeo como antibiótico empírico da peritonite

O dano: As diretrizes europeias vedam expressamente o uso de antibióticos potencialmente nefrotóxicos, e nomeiam os aminoglicosídeos, como terapia empírica da peritonite bacteriana espontânea. A razão é a mesma que atravessa o capítulo: quase metade da injúria renal aguda do cirrótico internado começa numa infecção, e tratar a infecção com uma droga que fecha o túbulo é somar as duas causas. A cobertura empírica de escolha é cefalosporina de terceira geração, e tanto a cefotaxima quanto a ceftriaxona constam da Rename 2024 no Componente Básico — o erro aqui não é de disponibilidade, é de escolha.

Registrar encefalopatia hepática sem registrar o gatilho, ou a busca por ele

O dano: Escrever encefalopatia hepática na evolução e prescrever lactulose parece completo e não é. É a metade do diagnóstico, e a metade que não muda o desfecho: o que resolve o episódio é corrigir o precipitante, e o protocolo brasileiro afirma isso literalmente. O dano tem duas camadas. A imediata é clínica — a infecção não procurada segue evoluindo, o sangramento segue, o diurético segue prescrito. A tardia é de fila: a norma federal de transplante só aceita encefalopatia de graus altos como situação especial quando ela é espontânea, sem fator precipitante associado, e recorrente. Um paciente cujas evoluções nunca registram busca de gatilho não consegue, depois, sustentar que os episódios eram espontâneos. A ausência de registro tira dele um argumento na fila.

Aumentar a dose do diurético quando a ascite não responde, sem antes conferir a dieta e o sódio urinário

O dano: É o reflexo natural e o mais caro. Diurético que parece fraco tem, na enfermaria, três explicações muito mais frequentes que a resistência verdadeira: o paciente está recebendo sódio que ninguém contou — em soro, em antibiótico diluído, em alimento trazido de casa; a proporção do par foi quebrada, com furosemida subindo sozinha; ou o rim já não excreta. Um exame de sódio urinário de 24 horas separa as três, e as diretrizes europeias registram que ele existe justamente para o não respondedor. Subir a dose sem essa informação entrega hiponatremia, hipocalemia, injúria renal e encefalopatia, que são exatamente as quatro complicações que fazem a ascite ser chamada de refratária por intolerância — e o paciente entra na categoria por iatrogenia, não por doença.

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O que dizer ao paciente e à família

Sete situações que se repetem no leito do cirrótico, e em todas elas a dificuldade é a mesma: o paciente e a família aprenderam uma história sobre a doença que é quase certa, e o quase é onde mora o dano.

Explicar por que vai furar a barriga de alguém que não está sentindo nada

"Seu Aldair, eu preciso tirar um pouquinho do líquido da sua barriga hoje. Não é para desinchar — é para examinar. Esse líquido pode infeccionar sem doer, sem febre, sem nada que o senhor sinta, e quando isso acontece o único jeito de descobrir é olhando o líquido no microscópio. Eu sei que é estranho furar quem não está com dor. Mas se eu esperar o senhor sentir alguma coisa, essa infecção já vai ter mexido com o seu rim. É uma agulha fina, na lateral da barriga, com anestesia na pele, e leva menos de cinco minutos. Eu vou tirar uma quantidade pequena, do tamanho de um copinho de café."

Dizer à família que a confusão tem causa e que a causa é o que se trata

"Dona Sinhorinha, essa confusão do seu marido tem nome: encefalopatia. Ela acontece quando o fígado não consegue mais limpar do sangue umas substâncias que vêm do intestino, e elas chegam ao cérebro. A parte importante é esta: quase sempre existe um motivo que fez ela aparecer agora, e não ontem, nem no mês passado. Pode ser uma infecção, pode ser um sangramento, pode ser um remédio, pode ser um intestino que não funcionou. Eu não vou só dar o xarope. Eu vou procurar o motivo, porque é ele que faz o senhor Aldair voltar a conversar com a senhora. Achando o motivo e tratando, isso melhora em um ou dois dias."

Desmontar a orientação de não comer carne

"Eu sei que alguém já disse ao senhor para não comer carne, e eu vou pedir o contrário. Isso mudou. Hoje a gente sabe que tirar a proteína do cirrótico piora, não melhora: o senhor perde músculo, e o músculo é justamente um dos lugares onde o corpo neutraliza essa substância que sobe para a cabeça. Quanto mais magro o senhor fica, mais fácil de dar confusão. Então eu quero o senhor comendo proteína, distribuída ao longo do dia, e comendo bem. O que a gente vai controlar é o sal, não a carne."

Explicar sal e não sódio — a diferença que muda a dieta pela metade

"Quando eu falo em diminuir o sal, eu não estou falando principalmente do saleiro da mesa. Eu estou falando do sal que já vem dentro das coisas: caldo de galinha em cubinho, tempero pronto, embutido, presunto, salsicha, macarrão instantâneo, enlatado, biscoito salgado. Uma colher de tempero pronto tem mais sal do que a senhora coloca na panela o dia inteiro. A conta que a gente usa dá umas cinco a sete gramas de sal por dia — mas ninguém pesa sal em casa, então a regra prática é esta: cozinhe com pouco sal, não coloque sal no prato pronto, e não use nada que venha em pacote com tempero dentro."

Explicar por que a albumina é tratamento e não soro caro

"Essa bolsinha que a gente vai passar na veia não é alimentação, e não é vitamina. É uma proteína do próprio sangue. No caso do senhor, ela faz uma coisa muito específica: quando a barriga infecciona, a circulação toda do corpo se desregula e o rim é o primeiro a sentir. Essa proteína segura a circulação enquanto o antibiótico resolve a infecção. Sem ela, uma parte das pessoas nessa situação acaba com o rim parado. Por isso ela entra junto com o antibiótico, no mesmo dia, e vai repetir daqui a dois dias."

Falar de transplante sem prometer nem assustar

"Eu quero conversar sobre uma coisa que não é para hoje nem para amanhã, mas que precisa começar agora. O que aconteceu nessa internação — a infecção no líquido da barriga — é um sinal de que o fígado chegou num ponto em que a gente precisa avaliar transplante. Isso não quer dizer que o senhor vai transplantar, e não quer dizer que é urgente esta semana. Quer dizer que existe uma fila, que a entrada nela depende de exames que eu posso pedir aqui mesmo, e que quem entra cedo tem mais chance do que quem entra tarde. Eu vou colher esses exames antes da alta e escrever tudo no relatório. Quem decide não sou eu, é a equipe do transplante — o meu trabalho é fazer o senhor chegar lá com o papel completo."

Explicar por que o remédio de todo dia não acaba nunca

"Esses três remédios que estão na receita não são para uma semana. O xarope é para o senhor fazer cocô duas ou três vezes por dia, todo dia — se parar, a confusão volta. O comprimido do coração é para segurar a pressão dentro das veias do estômago, e ele não faz o senhor sentir nada de diferente, o que engana muito: parece que não está fazendo efeito, e está. E o antibiótico de tomar todo dia é para não repetir a infecção da barriga, que volta em sete de cada dez pessoas que não tomam. Nenhum dos três é para tomar quando sentir. Os três são para tomar sempre, mesmo se o senhor estiver ótimo — principalmente se estiver ótimo."

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Quanta albumina se repõe por litro retirado, e a partir de qual volume

Oito gramas por litro, número único

As diretrizes europeias sobre cirrose descompensada, de 2018, escrevem um número só: albumina 8 gramas por litro de ascite retirada, tanto na recomendação sobre a expansão após retirada de grande volume quanto na recomendação sobre retiradas repetidas como primeira linha da ascite refratária. O argumento por trás do número único é de segurança do teto: expansores artificiais só se mostraram equivalentes à albumina quando se retirava menos de 5 litros, e acima disso a albumina foi superior — logo, na faixa em que a reposição importa, não faz sentido oferecer a dose mais baixa da faixa.

European Association for the Study of the Liver. EASL Clinical Practice Guidelines for the management of patients with decompensated cirrhosis. J Hepatol. 2018;69(2):406-460

Seis a oito gramas por litro, faixa

A orientação norte-americana de 2021 escreve uma faixa: 6 a 8 gramas de albumina por litro de ascite retirada, e situa a indicação a partir do quinto litro. O mesmo documento registra que, num estudo em que se limitou a retirada a menos de 8 litros por sessão e se ofereceu dose acima da recomendada — 9,0 gramas por litro, com desvio-padrão de 2,5 —, a função renal e a sobrevida podem melhorar, o que mostra que a própria faixa está sob discussão nas duas direções. Para um adulto de 74 quilos numa retirada de 6 litros, a diferença entre as duas posições é de 36 a 48 gramas, isto é, entre 3,6 e 4,8 frascos de 10 gramas.

Biggins SW, Angeli P, Garcia-Tsao G, et al. AASLD 2021 Practice Guidance. Hepatology. 2021;74(2):1014-1048

Como decidir

Decida pelo paciente que está na sua frente e pelo estoque que existe. O ponto em que as duas posições concordam é mais importante do que aquele em que divergem: acima de 5 litros retirados, repõe-se albumina, e não outro expansor. Abaixo disso, as duas admitem alternativa. Se o paciente tem creatinina em elevação, sódio baixo, pressão no limite inferior ou já teve disfunção circulatória após retirada anterior, use o teto da faixa — 8 gramas por litro — porque o risco que se está prevenindo é justamente o que ele já está manifestando. Se ele está estável, com função renal preservada e a retirada é pequena, o piso da faixa é defensável. E, em qualquer dos dois casos, escreva no prontuário o volume retirado e a dose reposta: sem esses dois números, ninguém consegue avaliar depois se a piora foi da doença ou da reposição insuficiente. O procedimento em si é do capítulo de paracentese, em Procedimentos e Vias de Acesso.

Quem entra na profilaxia primária da peritonite bacteriana espontânea, e com qual droga

Todos os critérios somados, como está escrito na recomendação

A recomendação das diretrizes europeias exige, na mesma frase, classe funcional igual ou maior que 9 e bilirrubina igual ou maior que 3 mg/dL, mais disfunção renal ou hiponatremia, mais proteína no líquido ascítico menor que 15 g/L. Lido assim, é preciso ter doença hepática avançada e comprometimento renal ou de sódio ao mesmo tempo, além da proteína baixa. É a leitura mais restritiva, e ela tem a seu favor a preocupação explícita do próprio documento com o uso indiscriminado de antibiótico contínuo — que ele quer estritamente restrito a pacientes de alto risco, pelo risco de selecionar germe resistente.

European Association for the Study of the Liver. EASL Clinical Practice Guidelines for the management of patients with decompensated cirrhosis. J Hepatol. 2018;69(2):406-460

Um ou outro, como randomizou o ensaio que a recomendação cita

O ensaio que o mesmo documento descreve, duas linhas acima da recomendação, randomizou pacientes com proteína no líquido menor que 15 g/L que tivessem falência hepática avançada — definida como classe funcional igual ou maior que 9 com bilirrubina igual ou maior que 3 mg/dL — ou função renal comprometida, definida como creatinina igual ou maior que 1,2 mg/dL, nitrogênio ureico sanguíneo igual ou maior que 25 mg/dL, ou sódio igual ou menor que 130 mEq/L. É um ou, não um e. Sob essa leitura, um paciente com classe funcional 10, bilirrubina 4, creatinina normal, sódio normal e proteína ascítica de 1,2 g/dL entra na profilaxia — e ele fica de fora pela redação da recomendação.

Mesmo documento, seção de profilaxia primária, na descrição do ensaio de Fernández e colaboradores

Como decidir

Duas decisões, e elas se resolvem em ordem. A primeira é se este paciente entra: use a proteína ascítica baixa como porta obrigatória — sem ela, ninguém entra — e, dentro dela, decida pelo risco global e não pela lógica formal da frase. Um paciente com fígado terminal e rim normal é de altíssimo risco, e negar profilaxia a ele porque a creatinina está boa é usar a redação contra o dado. Registre no prontuário qual das duas leituras você usou; é isso que permite a quem vier depois entender a decisão. A segunda decisão é qual droga, e aí a resposta brasileira é diferente da europeia: o norfloxacino que a recomendação nomeia não consta da Rename 2024 e foi retirado do mercado norte-americano em 2014, enquanto o ciprofloxacino 500 mg por dia — que tem ensaio duplo-cego próprio de profilaxia primária, com benefício de sobrevida em um ano — consta da Rename no Componente Básico. Prescreva o que existe, em esquema diário e nunca intermitente.

O paciente com exatamente 250 polimorfonucleares por milímetro cúbico no líquido

Redação dos documentos: não converter a diferença de sinal em atraso terapêutico

Alguns trechos dos documentos citados usam a expressão acima de 250. Essa redação não sustenta uma estratégia própria de deixar sem tratamento o paciente com contagem de exatamente 250. A orientação clínica atual da AASLD explicita o critério de pelo menos 250 células/mm³.

EASL CPG decompensated cirrhosis, J Hepatol 2018 e AASLD 2021 Practice Guidance, Hepatology 2021

Igual ou maior que 250, como se lê na beira do leito

A orientação operacional usa PMN igual ou superior a 250 células/mm³, inclusive com cultura negativa, avaliando ao mesmo tempo a possibilidade de fonte secundária. Não é necessário acrescentar febre, dor, encefalopatia ou piora renal para tratar uma contagem nesse limite.

AASLD 2021 Practice Guidance, Hepatology 2021, na justificativa da escolha do ponto de corte

Como decidir

Com 250 PMN/mm³ ou mais, iniciar tratamento para suspeita de PBE sem aguardar cultura, considerando fonte secundária e contexto clínico. Não esperar 24 a 48 horas apenas porque o resultado foi exatamente 250 e o paciente parece bem. Contagens abaixo do corte, cultura positiva, punção hemorrágica e suspeita clínica persistente exigem interpretação própria; não devem ser confundidas com uma contagem neutrocítica que já atingiu o critério. Registrar o valor, o horário e a conduta.

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O raciocínio, em voz alta

Segunda-feira, 7h30, enfermaria de clínica médica. O senhor Ulisses Guaraciaba tem 61 anos, 68 quilos, é cirrótico por doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica, e está no terceiro dia de internação por ascite volumosa. Ontem foi submetido a retirada de líquido em grande volume, com reposição de albumina. Hoje, a técnica relata que ele dormiu mal e está trocando o nome dos filhos. Ele mantém asterixe, está orientado no espaço mas não no tempo, e responde às perguntas com atraso. A pressão é 104 por 62, contra 118 por 74 ontem. A diurese das 24 horas foi de 700 mililitros, contra 1.900 anteontem. O peso caiu 3,4 quilos desde ontem. A prescrição tem espironolactona 200 mg e furosemida 80 mg por dia, mantidas desde a admissão. Os exames de hoje: sódio 127 — era 133 na admissão — potássio 3,1, creatinina 1,6 contra 1,0 na entrada, bilirrubina total 3,4, índice normalizado internacional 1,7, albumina 2,6.

  1. o que penso agora

    Encefalopatia nova, grau 2, num cirrótico. A primeira coisa que eu escrevo não é lactulose: é a pergunta do gatilho. E aqui há três candidatos visíveis na própria folha, sem precisar de exame nenhum. Perdeu 3,4 quilos em 24 horas — o teto que as diretrizes europeias fixam durante terapia diurética é 0,5 quilo por dia sem edema e 1 quilo com edema, e ele está muito acima disso, somando a retirada de ontem com o diurético que ninguém suspendeu. O sódio caiu de 133 para 127. O potássio está em 3,1. Os três achados apontam para o mesmo lugar: depleção de volume e distúrbio eletrolítico induzidos pelo tratamento.

  2. o que faço primeiro

    Suspendo o par de diuréticos hoje. Não reduzo: suspendo. O sódio de 127 ainda não cruzou o limiar de 120 a 125 em que as diretrizes europeias mandam suspender ao menos temporariamente, mas eu não estou decidindo pelo sódio isolado — estou decidindo pela soma de queda de pressão, queda de diurese, creatinina em elevação e perda de peso três vezes acima do teto. Corrijo o potássio, porque hipocalemia é ela própria um precipitante de encefalopatia. E prescrevo peso diário e balanço hídrico, que não estavam prescritos.

  3. o que não deixo de procurar

    Ter encontrado um gatilho plausível não me autoriza a parar de procurar os outros. O senhor Ulisses tem ascite: punciono hoje, mesmo sem dor, sem febre e sem defesa — encefalopatia nova é indicação isolada de paracentese diagnóstica, e a orientação norte-americana registra que até um terço das infecções espontâneas se apresenta apenas com encefalopatia ou com injúria renal. Faço o toque retal, procurando melena. Pergunto a data da última evacuação. E leio a prescrição inteira procurando sedativo, opioide e anti-inflamatório.

  4. o que prescrevo

    Suspensão da espironolactona e da furosemida. Reposição de potássio. Lactulose xarope 667 mg/mL, 30 mL de 8 em 8 horas, titulada para 2 a 3 evacuações pastosas por dia. Dieta sem restrição proteica, com o registro explícito na prescrição para que ninguém a reintroduza. Paracentese diagnóstica com contagem diferencial, cultura em frascos de hemocultura e proteína total. Peso diário e balanço hídrico. E nenhuma amônia sérica: ela não confirmaria nem excluiria nada aqui.

  5. o que escrevo na evolução

    Escrevo o grau de encefalopatia pela escala clínica, não o adjetivo confuso. Escrevo os gatilhos identificados, nominalmente: perda ponderal de 3,4 kg em 24 h sob diurético após retirada de grande volume, hiponatremia de 133 para 127, hipocalemia de 3,1. Escrevo o que procurei e não achei: sem melena ao toque, sem febre, sem sedativo em uso, paracentese realizada e resultado pendente. Essa última linha parece burocrática e não é — é ela que sustenta, meses depois, se esse paciente for para lista, a diferença entre um episódio precipitado e um episódio espontâneo, que é o que a norma federal de transplante exige para reconhecer a encefalopatia como situação especial.

  6. o desfecho

    A contagem no líquido volta com 90 polimorfonucleares por milímetro cúbico: não é peritonite. Em 36 horas, com o diurético suspenso e o potássio corrigido, o senhor Ulisses está orientado, sem asterixe, com creatinina de 1,1 e sódio de 131. A ascite volta a se acumular discretamente, e o diurético é reintroduzido em dose menor, respeitando a proporção do par — espironolactona 100 mg e furosemida 40 mg —, com peso e eletrólitos diários. Na alta, ele sai com lactulose por tempo indeterminado, orientação de dieta sem sal adicionado e sem restrição proteica, e um relatório em que os cinco exames do escore foram colhidos numa única coleta.

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Faça você

Quinta-feira, 8h40. O senhor Hermenegildo Pirajá tem 49 anos, 81 quilos, cirrose alcoólica, e está no segundo dia de internação por ascite volumosa e edema de membros inferiores. Ele parou de beber há sete meses, e a esposa confirma. Não tem encefalopatia, não tem febre, não tem dor abdominal. A paracentese diagnóstica da admissão mostrou 60 polimorfonucleares por milímetro cúbico, cultura em andamento, e proteína total no líquido de 1,1 g/dL. Os exames: bilirrubina total 3,6, albumina 2,4, índice normalizado internacional 1,9, creatinina 0,9, sódio 134, potássio 4,2. Ele tem ascite ao exame e não tem encefalopatia. A endoscopia de rastreamento, feita ontem, descreveu varizes esofágicas de fino calibre, sem sinais vermelhos. Ele nunca sangrou e nunca teve peritonite. A esposa pergunta quando ele vai poder ir para casa, e o preceptor te pede o plano da alta antes da visita.

  1. o que já sei

    Um cirrótico compensado do ponto de vista neurológico e renal, descompensado do ponto de vista de ascite, sem infecção no líquido, com proteína ascítica baixa, com varizes finas sem sinal vermelho, sete meses de abstinência comprovada, e uma classe funcional que os números permitem calcular. As três profilaxias e a pergunta do transplante precisam todas ser respondidas antes da alta — e cada uma tem critério próprio, que este capítulo tabelou.

  2. o que eu preciso decidir

    Cinco decisões. Primeira: qual a classe funcional dele, somando bilirrubina, albumina, índice normalizado internacional, ascite e encefalopatia — e o que essa classe muda. Segunda: ele entra em profilaxia primária da peritonite bacteriana espontânea? A proteína de 1,1 g/dL é a porta; o que mais é preciso conferir, e onde as duas leituras da recomendação divergem? Terceira: variz fina sem sinal vermelho, num paciente que nunca sangrou — entra betabloqueador, e o que na classe funcional muda essa resposta? Quarta: qual a conduta da ascite dele, em que degrau ele está e com que par de doses se começa. Quinta: ele deve ser encaminhado para avaliação de transplante — e, se sim, o que a norma federal exige de um cirrótico alcoólico antes da inscrição, e o que ele já cumpre.

  3. as armadilhas deste caso

    Três. A primeira é a proteína ascítica de 1,1 g/dL, que cai exatamente na faixa em que as diretrizes europeias se contradizem — abaixo de 1,5 pela recomendação, acima de 1,0 pela definição de abertura da mesma seção. A segunda é a variz fina sem sinal vermelho: ela só é de alto risco em uma condição específica, e essa condição depende da classe funcional que você acabou de calcular. A terceira é a abstinência: a norma federal de transplante impõe um prazo mínimo para inscrição de quem tem doença hepática crônica de origem alcoólica, e impõe também documentos que não são exames — vale conferir se sete meses bastam e o que mais é preciso apresentar.

Ver como fecharíamos

A classe funcional soma 3 pontos por bilirrubina de 3,6 mg/dL, 3 por albumina de 2,4 g/dL, 2 por índice normalizado internacional de 1,9, 2 por ascite ainda não tratada e pontuada como controlável, e 1 por ausência de encefalopatia: total 11, classe C na leitura clássica da escala — e note que pontuar a ascite no grau máximo, dado o volume, levaria a 12, que continua sendo classe C, de modo que a conclusão não depende desse julgamento. Isso responde à terceira pergunta de imediato — as diretrizes europeias definem como variz de alto risco a variz pequena em paciente de classe C, e portanto ele tem indicação de betabloqueador não seletivo como profilaxia primária, embora a variz seja fina e sem sinal vermelho. Propranolol e carvedilol constam da Rename 2024 no Componente Básico. Na profilaxia primária da peritonite, a proteína de 1,1 g/dL abre a porta; ele tem classe funcional 11, portanto igual ou maior que 9, e bilirrubina de 3,6, portanto igual ou maior que 3 — ou seja, cumpre integralmente o ramo de doença hepática avançada. Não tem disfunção renal nem hiponatremia, o que significa que ele entra pela leitura do ensaio, que exigia um ramo ou o outro, e fica de fora pela redação literal da recomendação, que exige os dois — é exatamente o paciente da divergência, e a decisão deve ser registrada com a leitura adotada. Se prescrever, prescreva a quinolona que existe: ciprofloxacino 500 mg por dia, diário e não intermitente, já que o norfloxacino não consta da Rename. Na ascite, ele está no degrau da ascite volumosa e não respondeu ainda a nada, porque ainda não se tentou nada: a sequência é restrição moderada de sódio, entre 80 e 120 milimoles por dia, o que dá cerca de 5 a 7 gramas de sal — e não 2 gramas, que é a leitura errada do número norte-americano de sódio — mais retirada de líquido para o alívio da distensão, e diurético para impedir o reacúmulo. Como se trata de ascite antiga e recorrente, e não de primeiro episódio, as diretrizes europeias recomendam a combinação desde o início: espironolactona 100 mg com furosemida 40 mg, subindo em degraus de 100 e 40 a cada 72 horas, mantida a proporção de 2,5 entre os dois, com peso e eletrólitos diários e o teto de perda de 0,5 quilo por dia sem edema — ele tem edema, então o teto é 1 quilo. E sim, ele deve ser encaminhado: a norma federal aceita a cirrose alcoólica entre as condições de inscrição, exige no mínimo três meses de abstinência comprovada — que ele já cumpre com sete — e condiciona a inscrição, após esse período, à apresentação de relatório favorável emitido por médico hepatologista e por profissional da área de saúde mental, psiquiatra ou psicólogo, ou ambos, além de aprovação pela câmara técnica estadual ou, na ausência dela, pela nacional. Os cinco exames do escore devem ser colhidos numa única coleta de sangue, e o valor mínimo aceito para inscrição em lista é 11.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

A excreção urinária de sódio em 24 horas ajuda a comparar a eliminação renal com a oferta de sódio e a avaliar a resposta ao diurético. Confirmar coleta completa, doses recebidas e todas as fontes de sódio, inclusive soluções e diluentes. Natriurese aparentemente adequada sem perda de peso deve levar à revisão dessas medidas e do balanço hídrico; não prova, isoladamente, ingestão oculta. Natriurese baixa com ausência de perda ponderal apesar de tratamento otimizado pode apoiar ascite resistente a diuréticos, mas a definição exige resposta sustentada e exclusão de fatores reversíveis. Na ascite refratária, a diretriz EASL admite manter diurético quando tolerado e com excreção de sódio acima de 30 mmol/dia; esse ponto não é um teste isolado de refratariedade. SAAG, amônia e INR não substituem a avaliação de resposta e balanço.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Apresente um paciente com cirrose e ascite usando o roteiro do capítulo. Explique por que infecção pode aparecer sem febre ou dor abdominal e quando a paracentese diagnóstica é necessária. Depois relacione confusão, sangramento, função renal e medicamentos à busca de precipitantes. Consulte as tabelas para conferir doses e indicações; sua síntese precisa dizer o que fará hoje e o que espera encontrar na próxima avaliação.

Em 30 dias

Simule uma visita em que o peso caiu, mas a creatinina subiu e a pessoa ficou confusa. Reavalie volemia, perfusão, infecção, sangramento, eletrólitos e medicamentos antes de decidir manter ou intensificar diuréticos. Discuta o caso com o supervisor e defina os sinais que mudam o destino. Prepare uma alta com prevenção de novas descompensações, alimentação adequada, revisão de fármacos, vigilância indicada, avaliação para transplante quando pertinente e um retorno que o paciente consiga realizar.

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Agora atenda

Um homem de meia-idade, cirrótico, está no quarto dia de internação por descompensação e amanheceu confuso, sem febre e sem dor abdominal. A pressão caiu, a diurese caiu, a creatinina subiu e ninguém puncionou a ascite desde a entrada. Atenda: responda às quatro perguntas da admissão na ordem certa, decida o que suspender da prescrição antes de acrescentar qualquer coisa, indique a punção e diga o que pede no líquido, trate o gatilho e não só o sintoma, e escreva as linhas da alta que impedem o próximo episódio — sem pedir amônia sérica e sem restringir proteína.

Cirrose hepática e suas complicações – Quatro perguntas, todo dia — Internato | OsceLabs