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Clínica MédicaGastroenterologia

Tratar e provar que tratou

Doença ulcerosa péptica e Helicobacter pylori

Três pacientes com dor no andar de cima do abdome e as decisões que cabem ao interno: quem vai para a endoscopia e quem testa e trata, o que prescrever quando o esquema preferido pelo consenso não está na farmácia do SUS, e como provar que a bactéria foi embora antes de chamar a úlcera de curada.

Fontes deste capítulo

Coelho LGV, Sanches BSF, Maguilnik I, Marinho JR, Chaves SR, Ramos AFP, et al. Vth Brazilian Consensus Conference on Helicobacter pylori infection. Arq Gastroenterol. 2026;63:e26043. doi:10.1590/S0004-2803.24612026-043

Universidade Federal do Rio Grande do Sul, TelessaúdeRS-UFRGS; Rio Grande do Sul, Secretaria Estadual da Saúde. Protocolos de Regulação Ambulatorial: Gastroenterologia adulto. 3. ed. Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS; 27 jan. 2025

Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde; 2024. Portaria GM/MS nº 6.324/2024

Coelho LGV, Marinho JR, Genta R, Ribeiro LT, Passos MCF, Zaterka S, et al. IVth Brazilian Consensus Conference on Helicobacter pylori infection. Arq Gastroenterol. 2018;55(2):97-121

Omeprazol cápsula dura 20 mg — bula para o profissional de saúde. Geolab Indústria Farmacêutica S/A; versão V.02_11/2022

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Responda antes de ler

Mulher de 30 anos, sem queixas, traz sorologia IgG positiva para H. pylori de um exame de rotina da empresa. Não tem dispepsia, não usa anti-inflamatório, não tem anemia e não há câncer gástrico na família. Pergunta se precisa tratar. Qual é a conduta mais adequada?

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O paciente que você vai ver

Quarta-feira, 13h10, unidade básica de saúde de um bairro que cresceu mais depressa do que o posto. A recepção abriu a agenda da tarde com três fichas em que a mesma palavra foi escrita à mão — estômago — e a preceptora pediu que você as lesse antes de chamar qualquer um dos três. Não há diagnóstico em nenhuma delas, e é por aí que o capítulo começa: a queixa é a mesma, os destinos são três, e cada destino depende de perguntas que se fazem antes de pedir exame ou de escrever receita.

Na primeira ficha, Firmiano Poças, 31 anos, entregador de aplicativo, descreve queimação na boca do estômago há quatro meses, pior quando passa muitas horas sem comer e capaz de acordá-lo de madrugada. Melhora com um pão e volta uma hora depois. Não emagreceu, não vomita, não teve fezes escuras, e ninguém na família teve câncer de estômago. Há dez dias começou a tomar omeprazol de uma cartela da mãe, uma cápsula por dia, e diz que está bem melhor. Quer fazer hoje "o exame da bactéria", porque um colega de entrega tratou e ficou bom.

Na segunda, Laurinda Pignatari, 68 anos, costureira aposentada, conta seis semanas de empachamento e dor em peso no epigástrio depois das refeições. Tem artrose nos dois joelhos e há três meses toma diclofenaco de 50 mg duas vezes ao dia, comprado sem receita, porque "o de sempre não segura mais". Usa ácido acetilsalicílico de 100 mg desde um acidente vascular cerebral isquêmico, há dois anos. O hemograma que o agente comunitário trouxe mostra hemoglobina de 10,9 g/dL com ferritina baixa, e ela não sabe dizer quando alguém perguntou pela última vez a cor das suas fezes.

Na terceira, Nazário Ornelas, 49 anos, pedreiro, veio com o laudo de uma endoscopia feita há três semanas no hospital regional: úlcera de 8 mm na parede anterior do bulbo duodenal, teste rápido da urease positivo e biópsias de antro e corpo com gastrite crônica ativa e Helicobacter pylori. Ele se lembra de ter tratado "essa bactéria" há três anos, com três remédios por uma semana, e de nunca ter feito exame nenhum depois. Fuma dez cigarros por dia. A dor voltou há dois meses, igual à de antes, e ele pergunta se dá para "pegar a mesma receita".

Os três têm dor no andar de cima do abdome, e é só isso que têm em comum. O primeiro tem menos de 40 anos, nenhum sinal de alarme e dez dias de um remédio que apaga o resultado do teste que ele quer fazer hoje. A segunda tem idade, anemia sem causa conhecida e dois fármacos que lesam a mucosa — e um deles não pode ser simplesmente suspenso. O terceiro já tem o diagnóstico, uma bactéria que sobreviveu a um tratamento que ninguém confirmou, e vai receber a receita num serviço cuja farmácia não tem o sal de bismuto que o consenso brasileiro elege para a primeira linha.

Este capítulo ensina as decisões dessas três consultas: quem vai para a endoscopia e quem pode testar e tratar; qual teste pedir e o que suspender antes; que esquema prescrever com o que o SUS entrega; como e quando provar que a bactéria foi embora; o que fazer com o anti-inflamatório e com o ácido acetilsalicílico de quem tem úlcera ou risco dela; e o que fazer com a úlcera que não fecha. A régua para tudo o que envolve o Helicobacter pylori é o V Consenso Brasileiro, de 2026; a régua de encaminhamento é o protocolo de gastroenterologia do TelessaúdeRS, revisado em 2025; e, onde os dois discordam, o capítulo diz de que lado fica e por quê.

A fronteira com os vizinhos está traçada assim. A doença do refluxo, o uso prolongado do inibidor de bomba e a comparação entre as listas brasileiras de alarme são do capítulo Sete anos de omeprazol, nesta apostila; este capítulo assume a dispepsia — quem vai para a endoscopia e quem testa e trata —, a úlcera péptica e o diagnóstico e a erradicação do Helicobacter pylori. A úlcera perfurada é do capítulo O minuto que ele sabe de cor, na apostila de Urgência e Emergência Cirúrgica. A úlcera que sangra — a classificação de Forrest, a terapia endoscópica e o inibidor de bomba venoso — é do capítulo Hemorragia digestiva alta, na apostila de Cirurgia do Aparelho Digestivo. A indicação oncológica da erradicação é do capítulo Dois cânceres com o mesmo nome, na mesma apostila, e a sequência de investigação da anemia é do capítulo Anemia ferropriva, na apostila de Hematologia e Hemoterapia. Em todos esses casos, o esquema de erradicação, a duração e o teste de confirmação são deste capítulo.

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Quem adoece disso

A infecção pelo Helicobacter pylori ainda é a infecção crônica mais comum do estômago humano, mas está em queda. Uma revisão de 224 estudos de 71 países, com quase 3 milhões de pessoas, estimou prevalência de 58,2% na década de 1980 e de 43,1% entre 2011 e 2022; outra, com 1.748 estudos, mostrou queda de 52,6% para 43,9% nos adultos, com as crianças ainda em 35,1%. O consenso brasileiro de 2026 registra que os estudos nacionais acompanham essa tendência, com variação regional grande, e cita uma cidade do Sudeste em que 20,5% de 161 crianças, com idade média de 7,8 anos, tinham a bactéria no teste respiratório. A queda acompanha saneamento e condições de vida mais do que tratamento individual: na maior parte dos países, só uma minoria dos infectados chega a ser tratada.

A aquisição é da infância, quase sempre antes dos 10 anos, e a via fecal-oral é a mais relevante. Dentro de casa, a transmissão de mãe para filho e entre irmãos é a regra nos países em desenvolvimento — em estudos de genotipagem, a cepa coincidiu em 56% dos pares de mãe e filho, em nenhum dos pares de pai e filho e em 81% das famílias entre irmãos —, enquanto a transmissão entre cônjuges segue controversa. O consenso lista como grupos de risco para a infecção as populações sem saneamento básico, as comunidades rurais, os domicílios com caso documentado, os profissionais de saúde e os imunossuprimidos. A reinfecção do adulto tratado é baixa em países desenvolvidos e mais frequente onde a prevalência é alta; quando a bactéria reaparece pouco depois do tratamento, o mais comum é que ela nunca tenha ido embora.

Dispepsia — dor ou desconforto na região gastroduodenal — atinge cerca de 20% da população, e a maioria dos casos investigados é funcional. A úlcera é a minoria que tem lesão, e a sua causa mudou de proporção: com menos gente infectada e mais gente usando anti-inflamatório e ácido acetilsalicílico, as úlceras por fármaco ganharam espaço. Num estudo coreano multicêntrico com 26.785 pessoas, 38,8% delas acima de 65 anos, a infecção explicou 41,8% das úlceras, o ácido acetilsalicílico ou o anti-inflamatório 36,1%, e 22,1% ficaram sem causa determinada. Mesmo assim, a bactéria segue como a causa mais frequente das úlceras gástrica e duodenal, e o consenso a responsabiliza por 70% a 80% das úlceras gástricas benignas.

O número que justifica todo o esforço de erradicar é o da recidiva. Sem tratar a bactéria, a úlcera gástrica voltou em 52% e a duodenal em 64% dos pacientes; depois da erradicação, a recidiva anual caiu para 0 a 2,3% na gástrica e para 0 a 1,6% na duodenal, com seguimento de até 9,8 anos. É por isso que o consenso chama a erradicação de recomendação universal na úlcera — e é por isso que um tratamento sem confirmação vale pouco: a distância entre as duas taxas é exatamente a distância entre ter e não ter eliminado a bactéria.

O anti-inflamatório e a bactéria somam risco de forma independente. Na metanálise que o consenso de 2018 cita, comparados a quem não tinha nenhum dos dois, o risco de úlcera foi 19,4 vezes maior com o anti-inflamatório sozinho, 18,1 vezes com a infecção sozinha e 61,1 vezes com os dois juntos; para sangramento, 4,85 vezes com o fármaco, 1,79 vez com a bactéria e 6,13 vezes com a combinação. Idade a partir de 65 anos, úlcera ou sangramento prévio, tabagismo, uso de mais de um anti-inflamatório e uso junto de antiagregante, anticoagulante ou corticoide são os fatores que o mesmo texto soma a esse risco.

No tratamento, o retrato brasileiro é o de um hábito que envelheceu. No registro nacional de manejo do H. pylori, a tríplice com inibidor de bomba, amoxicilina e claritromicina foi usada em 95% de 1.557 tratamentos de primeira linha, com erradicação de 78% — abaixo da meta de mais de 90% que o próprio consenso fixa. A resistência explica boa parte: o consenso de 2018 registrava, num estudo multicêntrico nacional de 2016, resistência primária de 16,9% à claritromicina e de 13,4% às fluoroquinolonas, cerca de 54% ao metronidazol somando sete estudos e resistência à amoxicilina e à tetraciclina geralmente abaixo de 5%. O tabagismo quase dobra a chance de falha. E cerca de 10% da população se diz alérgica à penicilina, mas menos de 5% desses têm alergia verdadeira — um rótulo mal conferido que tira do paciente o antibiótico mais confiável dos esquemas.

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Por que acontece o que acontece

O Helicobacter pylori é um bacilo espiralado e flagelado que vive onde quase nenhuma bactéria sobrevive: na camada de muco que recobre o epitélio do estômago. Ele se protege do ácido produzindo urease, que quebra a ureia em amônia e cria ao redor de si um microambiente menos ácido, e usa os flagelos para nadar até perto da superfície das células, onde o pH é mais alto. A urease é a mesma enzima que os testes exploram — o teste respiratório mede o gás carbônico marcado que sai da ureia quebrada, e o teste rápido da biópsia muda de cor com a amônia — e é por isso que qualquer coisa que reduza a carga de bactérias ou a atividade da urease torna esses testes falsamente negativos.

A infecção produz gastrite em todos os infectados — infiltrado de neutrófilos, linfócitos e plasmócitos na mucosa —, e na maioria das pessoas essa gastrite não dá sintoma nenhum. O que decide se ela vai virar úlcera duodenal, úlcera gástrica, câncer ou nada é a combinação entre a cepa, o tempo de infecção, a genética do hospedeiro e o ambiente. O consenso descreve dois padrões de gastrite, e eles explicam por que a mesma bactéria produz doenças quase opostas.

No primeiro padrão, a gastrite predomina no antro. A inflamação interfere nos circuitos que regulam a secreção ácida, e o estômago passa a produzir mais ácido. A carga ácida maior que chega ao duodeno induz ali áreas de metaplasia gástrica — ilhas de epitélio de tipo gástrico no bulbo —, que a bactéria coloniza, e o epitélio duodenal inflamado ulcera. É o caso de Nazário: gastrite antral, ácido de sobra, úlcera no bulbo. Num estudo prospectivo alemão citado pelo consenso, a infecção por cepa cagA positiva multiplicou por 18,4 o risco de úlcera duodenal e por 2,9 o de úlcera gástrica.

No segundo padrão, a gastrite toma o estômago inteiro — a pangastrite —, destrói glândulas produtoras de ácido e leva a atrofia, hipocloridria e, numa parte dos pacientes, metaplasia intestinal e câncer. A úlcera gástrica nasce nesse terreno: ela aparece na mucosa que não secreta ácido ou perto da junção com a que secreta, inclusive no alto da pequena curvatura, porque a pangastrite converteu mucosa secretora em não secretora. O refluxo de bile e de lecitina do duodeno torna essa mucosa sensível até a pouco ácido, e a bactéria altera a camada de mucina que a protegeria. É também por isso que a úlcera gástrica pede biópsia e endoscopia de controle, e a duodenal quase nunca: o câncer gástrico pode se apresentar como úlcera de aspecto benigno, e o câncer de duodeno é raro.

O anti-inflamatório lesa por outro caminho. Ao inibir a ciclo-oxigenase, ele tira da mucosa as prostaglandinas que mantêm o muco, o bicarbonato e o fluxo sanguíneo que a defendem; o ácido acetilsalicílico faz o mesmo em dose baixa, porque acetila a enzima de forma irreversível. O efeito é sistêmico e não depende de o comprimido se dissolver no estômago, e por isso trocar o comprimido comum pelo de revestimento entérico não elimina o risco. A dispepsia do usuário de anti-inflamatório também não prevê a lesão: há quem tenha sintoma sem úlcera e quem só descubra a úlcera quando ela sangra. Quando a bactéria está presente, as duas agressões se somam, e erradicar a bactéria reduz a parte dela sem tocar na parte do fármaco.

O inibidor de bomba não é coadjuvante decorativo no esquema de erradicação. A bactéria sobrevive em pH de 4 a 8 e só se multiplica entre 6 e 8 — e é multiplicando-se que ela fica vulnerável aos antibióticos; a claritromicina e a amoxicilina, além disso, degradam em meio ácido. Subir o pH intragástrico acima de 4 a 6 conserva o antibiótico e expõe a bactéria a ele. Os inibidores de bomba de primeira geração, como o omeprazol, são metabolizados pela CYP2C19, e quem metaboliza rápido fica com menos supressão: numa metanálise citada pelo consenso, o fenótipo de metabolizador rápido teve 82% mais chance de falha. É esse o racional das doses mais altas e mais frequentes, e da vonoprazana, que bloqueia a bomba por competição com o potássio, não depende da CYP2C19 e tem meia-vida de 6 a 9 horas, contra 1 a 2 horas dos inibidores de bomba.

A falha tem mecanismos que o interno pode antecipar na consulta. A resistência à claritromicina e às quinolonas cresce com o uso prévio desses antibióticos para qualquer infecção, e por isso a primeira pergunta antes de escolher o esquema é quais antibióticos a pessoa já tomou. A resistência ao metronidazol é alta no Brasil, mas pesa menos no resultado, porque dose e duração maiores a vencem em parte. A resistência à amoxicilina e à tetraciclina é rara, e é por isso que os esquemas apoiados nelas funcionam sem antibiograma. O cigarro reduz a erradicação por três vias — altera o metabolismo pela CYP2C19, aumenta a acidez e diminui o fluxo sanguíneo da mucosa —, e o biofilme que a bactéria forma é vencido, na prática, por bismuto, supressão ácida adequada e adesão.

Os mesmos mecanismos explicam as regras do diagnóstico e da cicatrização. Inibidor de bomba e vonoprazana reduzem a carga bacteriana e a urease sem erradicar — num estudo randomizado, depois de 14 dias de omeprazol 20 mg ao dia, a sensibilidade do teste respiratório ficou entre 77,1% e 85,4% —; antibiótico e bismuto suprimem a bactéria por semanas, e o bismuto foi estimado como causa de 45% a 55% de falsos-negativos no teste respiratório. Daí os prazos de suspensão antes de qualquer teste. Já a cicatrização segue a causa: na úlcera duodenal pela bactéria, erradicar basta para cicatrizar, e prolongar o antissecretor não mudou a taxa de cicatrização; na úlcera gástrica, sobretudo acima de 10 mm, a evidência de que a erradicação sozinha basta é fraca, e o antissecretor continua por algumas semanas depois do esquema.

Bactérias curvas e flageladas no muco junto ao epitélio gástrico, com inflamação na lâmina própria.
O H. pylori ocupa o muco próximo à superfície epitelial gástrica. A atividade da urease fundamenta o teste respiratório e o teste rápido da urease; outros métodos detectam antígenos, material genético ou a bactéria por histologia. A imagem não representa um exame de paciente. Ilustração didática original.
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Como se apresenta de verdade

O paciente quase nunca chega dizendo úlcera. Chega com dor, queimação ou empachamento; com uma anemia no exame de rotina; com o laudo de uma endoscopia pedida por outro médico; com uma sorologia positiva de check-up; ou com a pergunta de quem vai começar um anti-inflamatório por meses. Cada porta pede uma leitura diferente, e as seções abaixo são essas portas.

Uma regra atravessa todas elas: nenhum sintoma separa com segurança a úlcera da dispepsia sem lesão, nem a úlcera benigna do câncer. O que separa é a combinação entre idade, sinais de alarme e fármacos em uso — e é essa combinação, não o adjetivo da dor, que decide o exame.

Dispepsia: a palavra do paciente e a classificação do médico

Dispepsia é dor ou desconforto na região gastroduodenal — o epigástrio —, persistente ou recorrente, com ou sem empachamento, saciedade precoce, queimação ou náusea. Enquanto ninguém olhou a mucosa, ela é dispepsia não investigada, e é sobre essa que o interno decide entre endoscopia e testar e tratar. Depois da endoscopia, o consenso brasileiro de 2026 usa a classificação de Roma IV: dispepsia orgânica, quando a endoscopia explica o sintoma, como na úlcera ou no câncer; dispepsia associada ao H. pylori, quando a infecção está presente e a erradicação resolve o sintoma de forma sustentada por mais de 6 meses; e dispepsia funcional, quando não há lesão relevante nem infecção, ou quando o sintoma persiste depois de a bactéria ter sido erradicada — que é a imensa maioria.

A ordem importa para o paciente com a bactéria. O consenso recomenda a erradicação como primeira opção terapêutica na dispepsia investigada com H. pylori, com benefício modesto e real — são precisos de 9 a 15 pacientes tratados para que um melhore do sintoma por causa da erradicação —, e só depois dela o sintoma persistente ganha o nome de funcional. Chamar de funcional antes de testar a bactéria é pular um tratamento que resolve parte dos casos.

A fronteira com o refluxo foi traçada pelo capítulo Sete anos de omeprazol, que assumiu da dispepsia funcional o mínimo que a decisão dele exige: queimação retroesternal que sobe e regurgitação se tratam como refluxo; dor localizada no epigástrio, plenitude depois das refeições e saciedade precoce respondem pior ao inibidor de bomba. Este capítulo assume a dispepsia até a classificação, a erradicação e o encaminhamento. A dispepsia que persiste depois da erradicação e de 8 semanas de inibidor de bomba segue para a gastroenterologia pelo critério do protocolo de regulação, e o tratamento com neuromoduladores e procinéticos não é ensinado neste capítulo.

A dor da úlcera: o que a história sugere e o que ela não prova

A descrição clássica existe e ajuda a formular hipótese. Na úlcera duodenal, a dor em queimação ou em fome aparece horas depois das refeições e de madrugada, e melhora com alimento ou antiácido — é a história de Firmiano e de Nazário. Na úlcera gástrica, a dor tende a piorar com a refeição, e o empachamento e a perda de peso por medo de comer aparecem com mais frequência. Nenhuma dessas histórias confirma ou exclui úlcera, e nenhuma separa úlcera benigna de câncer: a úlcera gástrica maligna pode doer igual à benigna, e uma parte grande das úlceras, sobretudo no idoso e no usuário de anti-inflamatório, não dói até sangrar ou perfurar.

O exame físico da úlcera sem complicação costuma ser pobre — dor à palpação do epigástrio, quando tanto. O que o exame procura são os sinais de que a úlcera já passou do ponto em que este capítulo decide sozinho: palidez, taquicardia e melena no toque retal; abdome em tábua e dor à descompressão; e o abdome distendido com vômitos de alimento ingerido muitas horas antes, que sugere obstrução da saída do estômago. Laurinda, com hemoglobina de 10,9 g/dL, precisa que alguém pergunte pela cor das fezes e examine as mucosas antes de qualquer outra coisa.

Os sinais de alarme que mudam o destino

Sinal de alarme é o achado que manda ver a mucosa, em qualquer idade, porque o que ele procura — câncer, úlcera complicada, estenose — não pode esperar o resultado de um teste de fezes. O protocolo de regulação do TelessaúdeRS lista, para a dispepsia: disfagia esofágica, odinofagia, emagrecimento, vômitos persistentes, sangramento gastrointestinal crônico ou anemia por deficiência de ferro sem causa definida depois da investigação na atenção primária, massa epigástrica, alteração suspeita em radiografia contrastada do esôfago, estômago e duodeno, e dispepsia recente em quem tem parente de primeiro grau com câncer gástrico ou esofágico. O consenso de 2026, ao justificar a endoscopia, cita as mesmas categorias das diretrizes globais: perda de peso, anemia ferropriva, sangramento, massa palpável, disfagia e história familiar de câncer gástrico.

Na prática da consulta, a lista só funciona se for perguntada item por item e registrada. "Sem sinais de alarme" escrito no prontuário sem que ninguém tenha perguntado por emagrecimento é a frase que atrasa diagnósticos. Laurinda tem um alarme que nenhuma pergunta precisou revelar — a anemia ferropriva no hemograma — e ele basta para indicar endoscopia com biópsias, independentemente da idade. A investigação completa da anemia, com o intestino grosso, segue o capítulo Anemia ferropriva; a comparação entre as listas de alarme dos documentos brasileiros de refluxo e de H. pylori é do capítulo Sete anos de omeprazol.

Quando a primeira manifestação é a complicação

Uma parte dos pacientes conhece a úlcera pela complicação. Hematêmese, melena e anemia aguda com instabilidade são hemorragia digestiva alta, e o manejo nas primeiras horas — ressuscitação, inibidor de bomba venoso, endoscopia, Forrest — é do capítulo Hemorragia digestiva alta. Dor súbita e intensa com abdome em tábua é perfuração até prova em contrário, e é do capítulo O minuto que ele sabe de cor. Vômitos persistentes com alimento de horas antes, plenitude e emagrecimento são obstrução da saída gástrica, sinal de alarme que leva à endoscopia com prioridade.

Depois que a complicação foi controlada, a úlcera volta para este capítulo: a pesquisa da bactéria, o esquema, a duração, a prova de cura e a retirada do anti-inflamatório. Há um cuidado próprio desse paciente. O sangramento reduz a carga bacteriana, e o paciente internado costuma estar sob inibidor de bomba e, às vezes, antibiótico — três condições que produzem falso-negativo. O consenso de 2026 aponta a sorologia IgG por ELISA como complemento justamente nessas situações de carga bacteriana baixa, e a pesquisa negativa colhida durante o sangramento precisa ser repetida depois, fora dessas condições.

A bactéria sem a doença: o resultado positivo que chega sem queixa

A infecção causa gastrite crônica em todo infectado, e o consenso de 2026 recomenda a erradicação em todos os casos de gastrite associada ao H. pylori, com recomendação forte. Recomenda também erradicar quando o próprio paciente deseja, com recomendação fraca, e pede decisão compartilhada no idoso frágil, quando o benefício esperado é marginal e quando se discute insistir depois de várias falhas. A consequência prática: a pessoa sem sintoma, com infecção ativa demonstrada, recebe a oferta de tratamento — mas a infecção precisa estar demonstrada.

É aí que mora a armadilha do check-up. A sorologia detecta anticorpos, não bactéria viva, e o consenso a reserva a estudos epidemiológicos e a situações clínicas específicas, sem papel na prova de cura. Um IgG positivo de exame de empresa pede um teste que mostre infecção atual — respiratório ou antígeno fecal monoclonal — antes de qualquer receita. O mesmo consenso lista outras indicações de testar e tratar que chegam sem queixa digestiva: anemia ferropriva sem explicação e púrpura trombocitopênica imune no adulto; refluxo em uso crônico de antissecretor; uso planejado e prolongado de anti-inflamatório ou de ácido acetilsalicílico; e o pré-operatório de cirurgia bariátrica. As indicações ligadas ao câncer gástrico — parentes de primeiro grau, atrofia e metaplasia, estômago que sobrou depois da ressecção — são do capítulo Dois cânceres com o mesmo nome. O rastreamento populacional da infecção não é recomendado no Brasil.

O usuário de anti-inflamatório e de ácido acetilsalicílico

Este é o paciente em que a úlcera mais se esconde. O anti-inflamatório entra por receita de outro especialista, por automedicação, por associações vendidas para dor muscular e cólica que o paciente não reconhece como anti-inflamatório, e por meses que viram anos. O ácido acetilsalicílico em dose baixa entra pela prevenção cardiovascular e cerebrovascular, e o paciente não o menciona porque "não é remédio para dor". Por isso a pergunta se faz pelo nome de cada classe e pelo nome comercial do que ele traz na bolsa.

O risco não é igual para todos. O consenso brasileiro de 2018 soma ao anti-inflamatório os fatores que aumentam a chance de úlcera e de complicação — idade a partir de 65 anos, úlcera ou sangramento prévio, tabagismo, mais de um anti-inflamatório ao mesmo tempo, e uso junto de antiagregante, anticoagulante ou corticoide — e escreve que, no paciente de alto risco, erradicar a bactéria não basta e o inibidor de bomba é obrigatório. A edição de 2026 acrescenta, com recomendação forte, que quem usa ácido acetilsalicílico, anti-inflamatório ou antiagregante deve ser testado e ter a infecção erradicada, se possível antes de começar. Laurinda reúne dois desses fatores — 68 anos e diclofenaco junto com ácido acetilsalicílico — e ainda traz uma anemia ferropriva que pode ser sangramento lento. O que fazer com cada fármaco dela está na conduta.

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Como fechar o diagnóstico

A investigação responde a duas perguntas, em sequência. Este paciente precisa que alguém veja a mucosa, ou basta saber se ele tem a bactéria? E, se o caminho é o teste, qual teste, feito quando, e com o paciente sem tomar o quê? Errar a primeira atrasa um câncer ou gasta uma vaga de endoscopia; errar a segunda produz um resultado que não vale — e o erro mais comum é sempre o mesmo: testar quem está tomando omeprazol.

Nenhum exame de sangue diagnostica úlcera. O hemograma entra para procurar anemia, que é sinal de alarme; a ferritina, para classificar a anemia; e a sorologia para H. pylori, como se verá, serve a muito pouco na decisão do interno.

1. Endoscopia ou testar e tratar: a primeira decisão

O consenso brasileiro de 2026 indica endoscopia digestiva alta com biópsias gástricas em quatro situações: sinais de alarme; sintomas dispépticos a partir de 40 anos; falha do antissecretor ou da estratégia de testar e tratar; e parentes de primeiro grau, a partir de 30 anos, de quem teve câncer gástrico. Na mesma edição, recomenda testar e tratar — pesquisar a bactéria por método não invasivo e tratá-la se presente, sem endoscopia inicial — para quem tem até 45 anos, dispepsia não investigada e nenhum sinal de alarme. A justificativa é de evidência alta: numa metanálise em rede com 15 ensaios e 6.162 pacientes, testar e tratar ficou em primeiro lugar na redução de sintomas, empatou com a endoscopia imediata e fez muito menos endoscopias em 12 meses, com taxa de neoplasia de 0,4% em todos os braços.

As duas regras se sobrepõem entre 40 e 45 anos, e o próprio documento não diz qual vence. Esta apostila adota testar e tratar como regra nessa faixa, porque a declaração que o manda é recomendação forte e a que manda a endoscopia é fraca, e reserva a endoscopia, entre 40 e 45 anos, a quem traz um motivo individual ou vive numa rede sem teste não invasivo; a conta e a posição estão nas notas de auditoria. A partir de 46 anos, endoscopia com biópsias. O protocolo de regulação do TelessaúdeRS, anterior ao consenso, só indica endoscopia por idade a partir de 50 anos e com dispepsia recente — a divergência e o lado que esta apostila toma estão no bloco de divergências.

Duas indicações do protocolo de regulação valem para qualquer idade e completam a lista: a pessoa com dispepsia que vai iniciar antiagregante ou anticoagulante vai para a endoscopia, e a dispepsia sem controle depois de 8 semanas de inibidor de bomba e da erradicação da bactéria, quando comprovada, também. Aplicando as regras aos três pacientes da cena: Firmiano, 31 anos, sem alarme, testa e trata; Laurinda, com anemia ferropriva, vai para a endoscopia; Nazário já tem a endoscopia, e o que falta a ele é o esquema certo e a prova de cura.

2. O teste não invasivo: respiratório com ureia marcada e antígeno nas fezes

O teste respiratório com ureia marcada com carbono 13 é o padrão-ouro não invasivo para diagnosticar a infecção e para confirmar a erradicação, com recomendação forte do consenso de 2026, e está validado no Brasil para adultos e crianças acima de 6 anos. O paciente ingere a ureia marcada, a urease da bactéria a quebra, e o gás carbônico marcado aparece no ar expirado; o consenso recomenda ácido cítrico como refeição de teste. A versão com carbono 14 tem acurácia um pouco menor e deve ser evitada em crianças e gestantes.

O antígeno fecal por ELISA com anticorpo monoclonal é alternativa válida, para diagnosticar e para confirmar a cura. Duas ressalvas mudam o pedido. A primeira é o método: os testes rápidos por imunocromatografia e os de anticorpo policlonal têm acurácia menor, podem servir para diagnóstico rápido, e não servem para confirmar erradicação — o nome "antígeno fecal" no catálogo do laboratório não diz qual deles é, e o interno precisa perguntar. A segunda é a amostra: armazenamento inadequado e diarreia derrubam o desempenho do exame.

A disponibilidade no SUS é desigual, e a decisão precisa de uma posição para a rede que não tem nenhum dos dois. Esta apostila adota: sem teste respiratório nem antígeno fecal monoclonal disponíveis, a sorologia não entra no lugar deles, porque não mostra infecção ativa. Abaixo de 40 anos, sem alarme, faz-se prova com omeprazol por até 8 semanas; se o sintoma não for controlado, ou voltar ao suspender, o paciente vai para a endoscopia com biópsias, depois de 14 dias sem o remédio — que é o critério de encaminhamento do protocolo de regulação. É uma posição com custo declarado: quem melhora com o omeprazol sai sem saber se tem a bactéria, e a volta do sintoma é o que o traz de novo para a investigação. Entre 40 e 45 anos, na mesma rede, a endoscopia com biópsias entra de saída.

3. A endoscopia que responde: biópsias, frascos e a úlcera gástrica

A endoscopia só responde à pergunta da bactéria se o pedido e as biópsias forem feitos para isso. O consenso de 2026 põe a histologia como padrão-ouro invasivo, porque diagnostica a infecção e avalia a integridade da mucosa, e recomenda pelo menos quatro biópsias — duas do antro e duas do corpo — em frascos separados e identificados, com biópsia da incisura angular desejável. O teste rápido da urease isolado é alternativa em serviços com poucos recursos, mas não é recomendado para confirmar a erradicação. Cultura e testes moleculares de sensibilidade ficam para a resistência ao tratamento.

A úlcera gástrica acrescenta uma obrigação: biópsias da borda para excluir neoplasia na primeira endoscopia e endoscopia de controle depois do tratamento, para ver a cicatrização. A úlcera duodenal sem complicação não precisa de nova endoscopia para ser dada como curada — basta a prova de cura da bactéria. O pedido que o interno escreve deve dizer o que se quer: "pesquisa de H. pylori com biópsias de antro e corpo em frascos separados; uso de inibidor de bomba: sim, desde tal data, ou não".

Antes da endoscopia eletiva feita para pesquisar a bactéria, os mesmos prazos de suspensão dos testes não invasivos valem, porque histologia, teste da urease e cultura também são afetados. A exceção é o sinal de alarme: a endoscopia de quem tem alarme não espera 14 dias de suspensão. Laurinda faz a endoscopia com prioridade, em uso de omeprazol se já o começou, e o pedido registra isso; se a pesquisa vier negativa sob o remédio, ela é repetida depois — positiva sob omeprazol, ao contrário, vale.

4. O que suspender antes do teste, e por quanto tempo

O consenso de 2026 fixa os prazos, com recomendação forte: 14 dias sem inibidor de bomba ou vonoprazana; 4 semanas sem antibiótico e sem bismuto; 2 horas sem antagonista do receptor H2. Sucralfato, alginato e antiácido não precisam ser suspensos. A regra vale para teste respiratório, antígeno fecal e para as biópsias. O consenso de 2018 escrevia os prazos de um modo que se lia como teto, e a edição nova os escreve como mínimo — que é como devem ser seguidos.

No SUS, a regra tem uma consequência prática. A saída clássica para os 14 dias sem omeprazol — trocar por famotidina ou ranitidina — não existe na farmácia da unidade, porque nenhuma das duas consta da Rename 2024. O que consta, no Componente Básico, é o hidróxido de alumínio, e antiácido não atrapalha o teste. Firmiano, portanto, suspende hoje o omeprazol da mãe, usa o antiácido nos dias de queimação e colhe o antígeno fecal a partir do 15º dia.

O antibiótico recente também entra na anamnese do dia do pedido: amoxicilina para um dente, azitromicina para uma sinusite, qualquer esquema nas últimas 4 semanas adia o teste. E o sal de bismuto, que chega ao paciente por farmácia de manipulação, às vezes vem em fórmulas para estômago que ele não reconhece como remédio — pergunte.

5. Sorologia: onde serve e onde engana

A sorologia detecta anticorpos, principalmente IgG, contra a bactéria. Anticorpo não é bactéria viva: ele fica depois da cura, e por isso o consenso de 2026 escreve que a sorologia não detecta infecção ativa, que sua indicação principal são estudos epidemiológicos e que ela não deve ser usada para confirmar erradicação. Também exige validação local, e o método mais acurado é o IgG por ELISA no sangue.

O lugar clínico dela é estreito e específico. Nas situações de carga bacteriana baixa — úlcera que sangrou, linfoma MALT gástrico, câncer gástrico, atrofia, uso recente de inibidor de bomba, antibiótico ou bismuto —, o IgG por ELISA pode complementar o diagnóstico, justamente porque os testes que dependem da bactéria viva falham ali. Fora dessas situações, a sorologia não decide tratamento: o positivo de check-up pede teste de infecção atual, e o negativo depois do tratamento não prova nada.

Os marcadores séricos de atrofia — gastrina-17 e pepsinogênios — servem para estratificar risco de câncer gástrico e não entram nas decisões deste capítulo; o assunto é do capítulo Dois cânceres com o mesmo nome.

6. A prova de cura: quando testar e com quê

Todo paciente tratado faz prova de cura. Não é exame opcional para quem continua com sintoma: é o que separa a recidiva anual de 0 a 2,3% da de 52% a 64%. O exame é o teste respiratório com ureia marcada ou o antígeno fecal monoclonal, feito pelo menos 4 semanas depois da última dose de antibiótico — o prazo que o consenso de 2018 escrevia e que a regra de suspensão de 2026 mantém — e com pelo menos 14 dias sem antissecretor. No esquema de 14 dias em que o omeprazol termina junto com o antibiótico, isso significa colher a partir do 42º dia contado do início.

A úlcera gástrica tem controle próprio: endoscopia com biópsias entre 8 e 12 semanas depois do fim da erradicação, sempre com pelo menos 14 dias sem omeprazol, para ver a cicatrização, biopsiar a cicatriz quando houver dúvida e pesquisar a bactéria na mesma passagem. O protocolo de regulação conta esse prazo de dois modos em dois protocolos; a conta e a janela que esta apostila adota estão nas notas de auditoria. Na úlcera duodenal sem complicação, a prova de cura é o teste não invasivo; a endoscopia só entra quando a rede não tem o teste, ou quando o sintoma persiste com o teste negativo.

Não servem para dizer que a bactéria foi embora: sorologia, teste rápido da urease isolado, antígeno fecal por imunocromatografia e a melhora da dor. Resultado positivo depois do tratamento é falha, e o que fazer está na conduta. Resultado negativo com dor persistente é dispepsia funcional até prova em contrário, ou outra causa — e a endoscopia que o consenso indica depois de falha do testar e tratar é o passo seguinte.

07

Quatro decisões, e o que a farmácia do SUS entrega para cada uma

A decisão completa inclui indicação de investigação, escolha de um esquema viável e comprovação de erradicação. Exposição prévia a antibióticos, alergia, resistência e disponibilidade mudam a escolha. A data e o método da prova de cura pertencem ao plano inicial, porque melhora da dor não comprova eliminação da bactéria. Quatro decisões governam o capítulo, e cada uma tem régua própria. Quem vai para a endoscopia: o V Consenso Brasileiro sobre H. pylori, de 2026, que vence o protocolo de regulação do TelessaúdeRS, de 2025, onde os dois divergem. Qual teste e o que suspender antes: o consenso de 2026. Qual esquema: o consenso de 2026 filtrado pela Rename 2024, porque o esquema que ele prefere depende de um sal de bismuto que o SUS não fornece. E o antissecretor depois da erradicação e junto do anti-inflamatório: aqui a edição de 2026 não repete a regra, a última palavra brasileira escrita é a de 2018, e o texto avisa, cada vez que a usa, que ela vale por ausência de substituto.

  1. 1Antes de qualquer exame, perguntar pelo nome: sinais de alarme, idade, anti-inflamatório, ácido acetilsalicílico, antiagregante, anticoagulante e corticoide, antibióticos do último mês e esquemas anteriores contra H. pylori, alergia a penicilina com a descrição da reação, e tabagismo.
  2. 2Sinal de alarme em qualquer idade: endoscopia com biópsias, sem esperar a suspensão do inibidor de bomba; pesquisa da bactéria negativa sob o remédio se repete depois.
  3. 3Sem alarme, abaixo de 40 anos: testar e tratar com teste respiratório ou antígeno fecal monoclonal; sem nenhum dos dois na rede, prova com omeprazol por até 8 semanas e endoscopia se não houver controle.
  4. 4Sem alarme, de 40 a 45 anos: testar e tratar como regra desta apostila; endoscopia com biópsias se houver motivo individual ou se a rede não tiver teste não invasivo.
  5. 5Sem alarme, a partir de 46 anos, e em quem vai iniciar antiagregante ou anticoagulante com dispepsia: endoscopia com biópsias de antro e corpo.
  6. 6Antes de qualquer teste da bactéria: 14 dias sem inibidor de bomba ou vonoprazana e 4 semanas sem antibiótico ou bismuto; antiácido pode.
  7. 7Teste positivo: esclarecer alergia a penicilina e perguntar se o paciente consegue o bismuto manipulado.
  8. 8Consegue o bismuto: quádruplo com bismuto, tetraciclina, metronidazol e omeprazol por 14 dias.
  9. 9Não consegue: dupla com amoxicilina 1 g e omeprazol 40 mg, três vezes ao dia, por 14 dias; quatro vezes ao dia na obesidade. Claritromicina só com sensibilidade documentada e nunca repetida.
  10. 10Úlcera: retirar o anti-inflamatório; na gástrica, omeprazol 20 mg ao dia por 4 a 8 semanas depois do esquema; na duodenal sem complicação, o omeprazol para junto com o antibiótico.
  11. 11Prova de cura para todos: teste respiratório ou antígeno fecal monoclonal a partir de 4 semanas depois do antibiótico e com 14 dias sem antissecretor; úlcera gástrica, endoscopia de controle com biópsias.
  12. 12Prova de cura positiva: segunda linha sem repetir esquema; sem bismuto depois de uma dupla, ou na segunda falha, gastroenterologia. Úlcera aberta no controle após 8 a 12 semanas de tratamento otimizado: rever adesão, anti-inflamatório escondido e biópsias, e encaminhar.
  13. 13Anti-inflamatório ou ácido acetilsalicílico por tempo longo: testar e erradicar antes de começar, se possível; com fator de risco, omeprazol 20 mg ao dia enquanto durar a exposição.

Endoscopia ou teste: o que cada documento manda, e o que esta apostila adota

SituaçãoV Consenso Brasileiro (2026)TelessaúdeRS, Gastroenterologia adulto (2025)Esta apostila adota
Sinal de alarme, qualquer idadeEndoscopia com biópsias gástricas (declaração 18)Endoscopia ou encaminhamento (Protocolo 9)Endoscopia com prioridade, sem adiar pela suspensão do inibidor de bomba
Menos de 40 anos, sem alarmeTestar e tratar (declaração 6)Sem critério de endoscopia por idadeTestar e tratar com teste não invasivo
40 a 45 anos, sem alarmeCabe nas duas condutas: testar e tratar (declaração 6, forte) e endoscopia (declaração 18, fraca)Sem critério de endoscopia por idadeTestar e tratar; endoscopia com motivo individual ou sem teste não invasivo na rede
46 a 49 anos, sem alarmeEndoscopia (declaração 18)Sem critério de endoscopia por idadeEndoscopia com biópsias
50 anos ou mais, sem alarmeEndoscopia (declaração 18)Endoscopia se a dispepsia for de início recente (Protocolos 7 e 9)Endoscopia com biópsias, recente ou não
Dispepsia em quem vai iniciar antiagregante ou anticoagulanteTestar e erradicar antes de iniciar antiagregante, se possível (declaração 12)Endoscopia (Protocolo 7)Endoscopia com biópsias; sem dispepsia, teste não invasivo antes do antiagregante
Sintoma persistente depois de testar e tratar ou de antissecretorEndoscopia (declaração 18)Endoscopia se sem controle após 8 semanas de inibidor de bomba e erradicação (Protocolo 9)Endoscopia com biópsias, depois de 14 dias sem antissecretor
Parente de primeiro grau de quem teve câncer gástricoTeste não invasivo dos 20 aos 29 anos; endoscopia a partir de 30 (declarações 11 e 18)Dispepsia recente nesse contexto é sinal de alarmeIndicação do capítulo Dois cânceres com o mesmo nome; o esquema é deste

Os esquemas do consenso de 2026 e o que a Rename 2024 entrega

EsquemaFármacos, doses e duração no consensoNa Rename 2024Quando esta apostila usa
Quádruplo com bismuto — primeira linha preferidaSubcitrato de bismuto 240 mg 2×/dia, tetraciclina 500 mg 4×/dia, metronidazol 400 a 500 mg 4×/dia e inibidor de bomba em dose padrão 2×/dia; 10 a 14 diasTetraciclina, metronidazol e omeprazol constam; bismuto não consta e só se obtém manipuladoPrimeira escolha quando o paciente consegue o bismuto; 14 dias, porque os 10 dias valem para a cápsula única, indisponível no Brasil
Dupla com amoxicilina em dose altaAmoxicilina 750 a 1.000 mg 3 ou 4×/dia (3 a 4 g/dia) com inibidor de bomba em dose alta 3 ou 4×/dia, ou vonoprazana 20 mg 2×/dia; 14 diasAmoxicilina e omeprazol constam; vonoprazana não constaPrimeira escolha sem bismuto: amoxicilina 1 g e omeprazol 40 mg 3×/dia; 4×/dia na obesidade
Tríplice com claritromicina e amoxicilinaClaritromicina 500 mg e amoxicilina 1 g 2×/dia, otimizada com bismuto ou com vonoprazana; 14 diasClaritromicina, amoxicilina e omeprazol constam; o que otimiza não constaSó com sensibilidade à claritromicina documentada, e não em quem já recebeu claritromicina num esquema
ConcomitanteClaritromicina, amoxicilina e metronidazol com inibidor de bomba; 14 diasOs quatro constamNão é primeira escolha: usa um ou dois fármacos potencialmente ineficazes, que alimentam resistência, e a resistência dupla compromete o resultado
Segunda linha com levofloxacinoBismuto 240 mg 2×/dia, levofloxacino 500 mg 1×/dia, amoxicilina 1 g 2×/dia e inibidor de bomba em dose padrão 2×/dia; 14 diasLevofloxacino consta no Componente Estratégico, destinado a programas; bismuto não constaDecisão da gastroenterologia
Resgate com rifabutinaRifabutina 150 mg 2×/dia, amoxicilina 1 g 2×/dia e inibidor de bomba; 14 diasRifabutina consta só para micobactéria; fora do mercado brasileiroDecisão da gastroenterologia
Alergia verdadeira à penicilinaQuádruplo com bismuto; ou tetraciclina 500 mg 3 ou 4×/dia com vonoprazana 20 mg 2×/dia; 14 diasTetraciclina consta; bismuto e vonoprazana nãoQuádruplo se houver bismuto; sem bismuto nem vonoprazana, gastroenterologia

O teste certo, para a pergunta certa

TestePara diagnosticarPara provar a curaO que atrapalhaUso neste capítulo
Respiratório com ureia marcada com carbono 13Padrão-ouro não invasivoPadrão-ouroInibidor de bomba ou vonoprazana nos 14 dias anteriores; antibiótico ou bismuto nas 4 semanas anterioresTestar e tratar e prova de cura, onde houver
Antígeno fecal por ELISA monoclonalAlternativa válidaAlternativa válidaOs mesmos prazos; armazenamento inadequado; diarreiaSubstitui o respiratório; confirmar o método no laboratório
Antígeno fecal por imunocromatografia ou anticorpo policlonalDiagnóstico rápido, com acurácia menorNão indicadoOs mesmos prazosNunca para a prova de cura
Histologia de biópsias de antro e corpoPadrão-ouro invasivo, que também avalia a mucosaVálida quando a endoscopia está indicadaOs mesmos prazos; biópsias em número insuficienteEndoscopia indicada, úlcera gástrica e controle
Teste rápido da urease na biópsiaAlternativa em serviço com poucos recursosNão recomendado isoladoOs mesmos prazos; carga bacteriana baixa, como no sangramentoAceitável no diagnóstico; não encerra tratamento
Sorologia IgGEstudos epidemiológicos; complemento quando a carga bacteriana é baixaSem papelNão distingue infecção atual de passadaNão decide tratamento

Da dose à cápsula: os esquemas deste capítulo num adulto de 70 kg

O que se prescreveApresentação na Rename 2024Uma tomadaUm diaTratamento inteiro
Omeprazol 40 mg 3×/dia, 14 dias — dupla em dose altaCápsula de 20 mg2 cápsulas6 cápsulas (120 mg)84 cápsulas
Amoxicilina 1 g 3×/dia, 14 dias — dupla em dose altaCápsula ou comprimido de 500 mg2 unidades6 unidades (3 g)84 unidades
Dupla na obesidade: omeprazol 40 mg e amoxicilina 1 g, 4×/dia, 14 diasAs mesmas2 cápsulas de cada16 unidades (160 mg e 4 g)224 unidades
Omeprazol 40 mg 2×/dia, 14 dias — quádruplo com bismutoCápsula de 20 mg2 cápsulas4 cápsulas (80 mg)56 cápsulas
Tetraciclina 500 mg 4×/dia, 14 dias — quádruploCápsula de 500 mg1 cápsula4 cápsulas (2 g)56 cápsulas
Metronidazol 400 mg 4×/dia, 14 dias — quádruploComprimido de 400 mg1 comprimido4 comprimidos (1,6 g)56 comprimidos
Subcitrato de bismuto 240 mg 2×/dia, 14 dias — quádruploNão consta; cápsula manipulada, comprada pelo paciente1 cápsula2 cápsulas (480 mg)28 cápsulas; o quádruplo inteiro soma 14 unidades por dia e 196 no tratamento
Omeprazol 20 mg 1×/dia antes do café — úlcera gástrica depois do esquema, ou gastroproteçãoCápsula de 20 mg1 cápsula1 cápsula (20 mg)28 cápsulas em 4 semanas, 56 em 8; na gastroproteção, enquanto durar a exposição

Uma faixa de idade pertence a duas condutas no consenso de 2026. A declaração 6 recomenda testar e tratar na dispepsia não investigada sem alarme até 45 anos, inclusive; a declaração 18 indica endoscopia com biópsias a partir de 40 anos com sintoma dispéptico; e a Tabela 1, das indicações de tratamento, escreve "abaixo de 45 anos". A conta: dos 40 aos 44 anos, o mesmo paciente sem alarme recebe duas condutas; aos 45, as duas declarações ainda valem e a Tabela 1 já o exclui — seis idades com conduta dupla, uma delas com três leituras. As duas declarações não pesam o mesmo no próprio documento: a 6 é recomendação forte com evidência alta, e a 18 é fraca com evidência moderada, classe que o consenso define como aquela em que escolhas diferentes cabem a pacientes diferentes. Esta apostila adota testar e tratar como regra até 45 anos e reserva a endoscopia, entre 40 e 45, a quem traz motivo individual ou vive numa rede sem teste não invasivo; a partir de 46, endoscopia. É leitura desta apostila, não do consenso.

A dose alta do inibidor de bomba da terapia dupla é definida de dois modos no mesmo documento. A declaração 28 e a linha da dupla nas Tabelas 3 e 4 mandam a dose alta três ou quatro vezes ao dia; o rodapé das mesmas tabelas define dose alta como 54 a 128 mg de equivalente de omeprazol duas vezes ao dia, com o exemplo de 60 mg duas vezes ao dia. A conta: o exemplo do rodapé dá 120 mg por dia na frequência do rodapé, e 180 mg (três tomadas) ou 240 mg (quatro) na frequência da declaração — 1,5 e 2 vezes mais. O teto do rodapé, 128 mg por tomada, é 1,7 vez o maior valor que a Tabela 2 do mesmo consenso classifica como dose alta, 74 mg do rabeprazol 40 mg. O único esquema duplo ocidental com dose explícita citado no texto, de um ensaio alemão em retratamento, usou omeprazol 40 mg quatro vezes ao dia, 160 mg por dia. Esta apostila adota omeprazol 40 mg três vezes ao dia, antes das três refeições — 120 mg por dia, o total do exemplo do rodapé na frequência que a declaração exige —, e quatro vezes ao dia, 160 mg, na obesidade, junto com a amoxicilina 1 g quatro vezes ao dia que o consenso indica para esse paciente. A escolha é desta apostila.

O protocolo de regulação conta de dois modos o prazo da endoscopia que confirma a erradicação na úlcera péptica. O Protocolo 7 escreve 8 a 12 semanas depois do tratamento da infecção e do uso de inibidor de bomba; o Protocolo 8, 8 a 12 semanas depois do tratamento da infecção; o Protocolo 9 não dá prazo. A conta, numa úlcera gástrica tratada com 14 dias de esquema seguidos de 8 semanas de omeprazol: pelo Protocolo 8, a janela vai do dia 70 ao dia 98, e o dia 70 é o último dia do omeprazol — zero dia de suspensão contra os 14 que o consenso de 2026 exige, com risco de pesquisa falsamente negativa; pelo Protocolo 7, a janela vai do dia 126 ao dia 154, oito semanas mais tarde. Esta apostila adota a janela do Protocolo 8 com a trava do consenso: endoscopia entre 8 e 12 semanas depois do fim da erradicação e nunca antes de 14 dias sem antissecretor — no exemplo, entre os dias 84 e 98.

08

A conduta, hora a hora

Aqui a conduta se mede em semanas, e o seu defeito típico é acabar cedo demais. O paciente sai com a receita, melhora no quarto dia, e ninguém marca o teste que diria se a bactéria morreu. Os oito marcos abaixo acompanham o paciente da primeira consulta à alta — e a alta, neste capítulo, é um resultado negativo com data, não o fim da caixa de remédio.

Os marcos usam os três pacientes da cena. Firmiano Poças mostra o caminho de testar e tratar; Laurinda Pignatari, o da endoscopia com anti-inflamatório e ácido acetilsalicílico; Nazário Ornelas, o do tratamento que já falhou uma vez e da prova de cura que nunca foi feita.

  1. Primeira consulta, antes de pedir qualquer coisa

    O trabalho que decide o resto é feito com perguntas, e cada uma tem destino. O alarme decide se a mucosa precisa ser vista agora. A idade, sem alarme, decide entre endoscopia e testar e tratar. Os fármacos decidem o que sai hoje e o que precisa de proteção. Os antibióticos já usados decidem que esquema não repetir, e a alergia a penicilina, perguntada com a descrição da reação, decide se a amoxicilina está mesmo proibida: o consenso de 2026 considera de baixo risco sintoma gastrointestinal, dor de cabeça, coceira sem lesão de pele e reação desconhecida ou duvidosa de mais de 10 anos, e manda para teste cutâneo ou alergista quem teve urticária, anafilaxia, reação repetida ou reação a vários betalactâmicos. Nazário, por exemplo, não tem alergia, mas recebeu claritromicina há três anos — e isso tira a claritromicina do esquema dele antes de qualquer exame.

    Prescrição
    • Perguntar um a um: disfagia, odinofagia, emagrecimento, vômitos persistentes, fezes escuras, anemia conhecida, massa epigástrica e câncer de estômago ou esôfago em parente de primeiro grau
    • Listar anti-inflamatório (inclusive associações vendidas para dor muscular e cólica), ácido acetilsalicílico, antiagregante, anticoagulante e corticoide, com dose e início
    • Registrar antibióticos das últimas 4 semanas e esquemas anteriores contra H. pylori, com os nomes
    • Registrar alergia a penicilina descrevendo a reação e há quanto tempo ocorreu
    • Registrar tabagismo em cigarros por dia e o uso atual de omeprazol, com a data de início
    • Escrever no prontuário a decisão — endoscopia com biópsias ou testar e tratar — e o critério que a decidiu
  2. Testar e tratar: os 14 dias sem o remédio que esconde a bactéria

    Firmiano tem 31 anos, nenhum alarme e dez dias de omeprazol emprestado. O teste de hoje daria um negativo que não vale. O omeprazol sai hoje, e o teste fica para depois de 14 dias; no intervalo, a queimação se controla com o antiácido da farmácia da unidade, que não interfere no resultado. O laboratório da rede faz antígeno fecal por ELISA monoclonal, e é esse o pedido. Se a rede dele não tivesse teste não invasivo, o caminho desta apostila seria a prova com omeprazol por até 8 semanas e a endoscopia se o sintoma não fosse controlado — mas a rede tem, e a bactéria merece ser procurada.

    Prescrição
    • Suspender o omeprazol hoje
    • Hidróxido de alumínio comprimido nos dias de queimação, na posologia da bula do produto dispensado; não é preciso suspender antes do teste
    • Antígeno fecal por ELISA monoclonal (ou teste respiratório com ureia marcada com carbono 13), com coleta a partir do 15º dia sem omeprazol
    • Não usar antibiótico sem avisar a unidade até a coleta
    • Retorno com o resultado; qualquer sinal de alarme no intervalo antecipa a consulta
  3. Endoscopia indicada: o pedido e os fármacos no mesmo dia

    Laurinda vai para a endoscopia por causa da anemia ferropriva, e a endoscopia de quem tem alarme não espera suspensão de remédio. O que muda hoje são os fármacos. O diclofenaco sai, porque é causa provável e ela não precisa dele para viver: a dor do joelho passa a ser tratada com paracetamol ou dipirona, os dois na farmácia da unidade. O ácido acetilsalicílico fica, porque é prevenção de um novo acidente vascular cerebral, e trocar esse risco pelo gastrointestinal não é decisão de uma consulta de dispepsia. Ela começa omeprazol hoje: tem 68 anos, uso de ácido acetilsalicílico e provável lesão da mucosa, e o consenso de 2018 escreve que, no alto risco, o inibidor de bomba é obrigatório — ponto que a edição de 2026 não retomou. O pedido da endoscopia registra o omeprazol, para que uma pesquisa negativa seja lida como provisória.

    Prescrição
    • Suspender o diclofenaco hoje e trocar a analgesia por paracetamol ou dipirona, nas doses da bula
    • Manter o ácido acetilsalicílico 100 mg ao dia
    • Omeprazol 20 mg ao dia, 30 a 60 minutos antes do café, a partir de hoje
    • Endoscopia com prioridade: biópsias da borda de úlcera gástrica, se houver, e biópsias de antro e corpo em frascos separados; escrever no pedido "em uso de omeprazol desde" a data de hoje
    • Pesquisa da bactéria negativa sob omeprazol: repetir o teste depois, com 14 dias sem ele
    • Seguir a investigação da anemia pelo capítulo Anemia ferropriva
  4. O dia da receita: o esquema se escolhe pelo acesso ao bismuto

    Nazário tem úlcera duodenal com H. pylori, recebeu tríplice com claritromicina há três anos e nunca confirmou a cura: é, na prática, uma falha de primeira linha, e o consenso de 2026 manda não repetir o esquema nem a claritromicina. A pergunta seguinte é se ele consegue comprar o subcitrato de bismuto manipulado. Se conseguisse, o esquema seria o quádruplo com bismuto por 14 dias. Ele não consegue — e então o esquema é a dupla em dose alta, com amoxicilina e omeprazol, os dois na farmácia da unidade. O consenso manda dose alta de inibidor de bomba três ou quatro vezes ao dia e define essa dose de modo contraditório; esta apostila adota omeprazol 40 mg três vezes ao dia, e quatro vezes na obesidade, que não é o caso dele. Se ele pudesse comprar vonoprazana, ela substituiria o omeprazol, na dose de 20 mg duas vezes ao dia, com uso fora de bula para esta indicação documentado no registro brasileiro. A receita sai com horários ancorados nas refeições dele, com as quantidades totais e com a data da prova de cura. Quando a claritromicina entrar — na tríplice guiada por sensibilidade —, duas cautelas acompanham a receita: o consenso pede cuidado com intervalo QT prolongado e eletrocardiograma em quem tem risco, como cardiopata, idoso, paciente com distúrbio eletrolítico ou em uso de antiarrítmico, antipsicótico ou antidepressivo; e a bula do omeprazol registra aumento recíproco da concentração plasmática dos dois fármacos.

    Prescrição
    • Omeprazol 20 mg: 2 cápsulas 30 a 60 minutos antes do café, 2 antes do almoço e 2 antes do jantar, por 14 dias (84 cápsulas)
    • Amoxicilina 500 mg: 2 cápsulas logo depois do café, do almoço e do jantar, por 14 dias (84 cápsulas)
    • Na obesidade: as duas, 4 vezes ao dia, com a quarta tomada antes de dormir (112 cápsulas de cada)
    • Se houver bismuto manipulado: subcitrato de bismuto 240 mg 2×/dia, tetraciclina 500 mg 4×/dia, metronidazol 400 mg 4×/dia e omeprazol 40 mg 2×/dia, por 14 dias
    • Anotar no prontuário o esquema, a data de início, a data do último dia e a data prevista da prova de cura
  5. Durante os 14 dias

    A maior parte das falhas que o interno consegue evitar acontece aqui. Doze cápsulas por dia são um pedido grande para quem melhora da dor no quarto dia, e a melhora vem do omeprazol, não da morte da bactéria. Efeitos adversos leves são comuns e não suspendem o esquema — no quádruplo com bismuto eles chegam a 40% dos pacientes, em geral leves e passageiros. Reação de pele com amoxicilina suspende, e o paciente passa a ser tratado como alérgico até esclarecimento. O cigarro quase dobra a chance de falha, e reduzir ou parar durante o tratamento é conselho que muda resultado. No quádruplo, a tetraciclina perde absorção quando tomada junto com leite, antiácido ou sal de ferro. E o paciente costuma perguntar por probiótico: o consenso de 2026 registra que cepas específicas podem aumentar a erradicação e reduzir efeitos adversos, mas que cepa, dose, momento e duração ainda não estão definidos — esta apostila não o prescreve de rotina e não o proíbe a quem já usa.

    Prescrição
    • Contato no 7º dia, por telefone ou retorno, para contar cápsulas e perguntar por efeitos adversos
    • Orientar que a melhora da dor não encerra o tratamento
    • Diarreia leve, enjoo e gosto ruim não suspendem; lesão de pele, inchaço, falta de ar e diarreia com sangue ou febre suspendem e trazem o paciente à unidade no mesmo dia
    • Aconselhar parar ou reduzir o cigarro durante o tratamento
    • No quádruplo, tetraciclina longe de leite, antiácido e sulfato ferroso
  6. Terminado o antibiótico: o antissecretor que fica e o que sai

    A decisão depende do lugar da úlcera e dos fármacos que continuam. Na úlcera duodenal sem complicação, a erradicação basta para cicatrizar, e o consenso de 2018 escreve que o inibidor de bomba não precisa continuar; o omeprazol de Nazário para no 14º dia, junto com a amoxicilina, e o antiácido cobre sintoma eventual até o teste. Na úlcera gástrica ou complicada, o mesmo texto mantém o inibidor de bomba por 4 a 8 semanas depois da erradicação, com benefício descrito sobretudo acima de 10 mm; esta apostila adota 4 semanas até 10 mm e 8 semanas acima disso, na dose de 20 mg ao dia que a bula dá para úlcera gástrica. Os dois pontos vêm da edição de 2018 e valem por ausência de substituto: a de 2026 não os repete. O anti-inflamatório continua fora; se voltar a ser indispensável, volta só com omeprazol. E quem mantém ácido acetilsalicílico com fator de risco, como Laurinda, mantém o omeprazol enquanto mantiver o ácido acetilsalicílico — uma indicação que a revisão do inibidor de bomba de uso prolongado, feita no capítulo Sete anos de omeprazol, não deve retirar.

    Prescrição
    • Úlcera duodenal sem complicação: suspender o omeprazol no 14º dia, junto com o antibiótico
    • Úlcera gástrica ou complicada: omeprazol 20 mg ao dia antes do café por 4 semanas; 8 semanas se a úlcera media mais de 10 mm
    • Anti-inflamatório: continua suspenso; se indispensável, só com omeprazol 20 mg ao dia enquanto durar
    • Ácido acetilsalicílico com fator de risco para úlcera: omeprazol 20 mg ao dia enquanto durar o ácido acetilsalicílico
  7. A prova de cura, com data

    Nazário terminou o esquema no 14º dia e parou o omeprazol no mesmo dia. A prova de cura é o antígeno fecal monoclonal ou o teste respiratório a partir do 42º dia, quando já se passaram 4 semanas da última amoxicilina e muito mais de 14 dias sem omeprazol. Uma úlcera gástrica faria endoscopia de controle com biópsias entre 8 e 12 semanas depois do fim da erradicação, com a trava dos 14 dias sem antissecretor. Há um paciente em que as duas regras se chocam: quem precisa manter o omeprazol por causa do ácido acetilsalicílico. Esta apostila adota, para ele, a endoscopia de controle sem suspender, para ver a cicatrização e biopsiar — pesquisa positiva ali vale, negativa não —, e a prova de cura pelo teste não invasivo depois de uma pausa de 14 dias com antiácido, marcada quando a úlcera já estiver cicatrizada. Se a pausa for arriscada demais — sangramento prévio, dupla antiagregação, anticoagulante —, quem decide a prova de cura é o gastroenterologista.

    Prescrição
    • Úlcera duodenal: antígeno fecal monoclonal ou teste respiratório a partir do 42º dia contado do início do esquema
    • Úlcera gástrica: endoscopia de controle com biópsias entre 8 e 12 semanas depois do fim da erradicação e com pelo menos 14 dias sem omeprazol
    • Sem teste não invasivo na rede: endoscopia com biópsias de antro e corpo na mesma janela
    • Não usar sorologia, teste rápido da urease isolado nem antígeno por imunocromatografia para dar a bactéria como eliminada
    • Registrar o resultado com a data: é ele que dá alta ao tratamento
  8. Quando a prova volta positiva, ou a úlcera não fecha

    Prova de cura positiva é falha, e a segunda linha não repete esquema. Depois de uma dupla em dose alta, o próximo é o quádruplo com bismuto; depois do quádruplo, a dupla em dose alta, que o SUS entrega; depois da tríplice com claritromicina, qualquer dos dois, sem claritromicina. Os esquemas de segunda linha e de resgate que o consenso lista com levofloxacino ou rifabutina dependem de fármacos que a farmácia da unidade não entrega para esta indicação, e por isso esta apostila encaminha à gastroenterologia a falha depois de uma dupla sem bismuto disponível e toda segunda falha; depois de três falhas, o consenso pede teste de sensibilidade. A úlcera que persiste no controle endoscópico após 8 a 12 semanas de tratamento otimizado, com erradicação, é critério de encaminhamento no protocolo de regulação — mas antes de escrever o encaminhamento, o interno confere o que mais explica a falha: comprimidos não tomados, anti-inflamatório que o paciente não declarou, cigarro, bactéria pesquisada sob omeprazol e biópsia que precisa ser repetida. As causas raras de úlcera que não cicatriza, como a hipersecreção do gastrinoma, são investigação da gastroenterologia, e o gastrinoma como tumor está em Tumores neuroendócrinos, na apostila de Oncologia.

    Prescrição
    • Positiva depois de dupla em dose alta: quádruplo com bismuto por 14 dias; sem bismuto, encaminhar à gastroenterologia
    • Positiva depois do quádruplo: dupla em dose alta por 14 dias
    • Positiva depois de tríplice com claritromicina: quádruplo com bismuto ou dupla em dose alta, sem claritromicina
    • Segunda falha: encaminhar à gastroenterologia com esquemas, doses, datas e resultados anteriores
    • Úlcera aberta no controle: conferir adesão, anti-inflamatório escondido, tabagismo e pesquisa feita sem antissecretor; repetir biópsias; encaminhar à gastroenterologia
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Como saber se está funcionando

Reavaliar, aqui, é conferir três coisas com data: que o tratamento foi tomado, que a bactéria foi embora e que a úlcera fechou. A dor, sozinha, não informa nenhuma das três — melhora com o omeprazol do esquema em quem ainda tem a bactéria, e persiste em quem já não a tem, porque a dispepsia funcional sobrevive à erradicação.

Os sete parâmetros abaixo são os que mudam o próximo passo. Os que medem sangramento, perfuração e anemia ficam com os capítulos vizinhos já nomeados.

Adesão ao esquemaNo 7º dia e no último dia do esquema

Esperado: Todas as cápsulas tomadas, nos horários combinados, até o 14º dia

Se não melhora: Descubra o motivo — efeito adverso, horário que não cabe na rotina, dinheiro para o bismuto. Interrupção por reação de pele à amoxicilina: suspender e tratar como alergia até esclarecer. Interrupção precoce da dupla em dose alta por outro motivo: resolvido o motivo, esta apostila reinicia o curso completo, porque a resistência à amoxicilina é rara; esquema com claritromicina interrompido não se reinicia com claritromicina.

Efeitos adversosContato no 3º ao 7º dia e no retorno

Esperado: Nenhum, ou leves e passageiros: diarreia sem sangue, enjoo, gosto ruim

Se não melhora: Lesão de pele, inchaço de face ou falta de ar suspendem o esquema e trazem o paciente no mesmo dia. Diarreia com sangue ou febre também. Sintoma leve que ameaça a adesão se trata sem suspender: horário junto da refeição, antiácido nos dias de queimação, explicação renovada.

Sintoma dispépticoNo fim do esquema e no dia da prova de cura

Esperado: Melhora clara; na dispepsia associada à bactéria, resolução sustentada por mais de 6 meses depois da erradicação

Se não melhora: Não troque o esquema pela dor: a prova de cura vem primeiro. Prova negativa com sintoma persistente é dispepsia funcional ou outra causa, e a endoscopia que o consenso indica depois de falha do testar e tratar é o passo seguinte, depois de 14 dias sem antissecretor.

Dias sem antissecretor e sem antibiótico no dia do testeNo dia marcado para qualquer teste da bactéria, inclusive a endoscopia de controle

Esperado: Pelo menos 14 dias sem inibidor de bomba ou vonoprazana e pelo menos 4 semanas sem antibiótico ou bismuto

Se não melhora: Remarque o exame. Se ele já foi feito, o resultado positivo vale e o negativo não: repita depois de cumprir os prazos, e registre por que repetiu.

Resultado da prova de curaA partir de 4 semanas depois do antibiótico e com 14 dias sem antissecretor — no esquema de 14 dias em que o omeprazol para junto, a partir do 42º dia

Esperado: Negativo, por teste respiratório, antígeno fecal monoclonal ou histologia

Se não melhora: Positivo é falha: segunda linha sem repetir esquema — quádruplo com bismuto depois de dupla, dupla depois de quádruplo — e gastroenterologia quando não houver bismuto depois de uma dupla ou na segunda falha.

Cicatrização da úlcera gástricaEndoscopia de controle entre 8 e 12 semanas depois do fim da erradicação, com pelo menos 14 dias sem omeprazol

Esperado: Cicatriz sem úlcera, biópsias sem displasia nem neoplasia, e biópsias de antro e corpo sem a bactéria

Se não melhora: Úlcera aberta depois de tratamento otimizado: confira adesão, anti-inflamatório não declarado, cigarro e a pesquisa da bactéria, repita as biópsias e encaminhe à gastroenterologia, que é o critério do protocolo de regulação.

Exposição a anti-inflamatório e a ácido acetilsalicílicoEm toda consulta, perguntando pelo nome

Esperado: Anti-inflamatório suspenso, ou mantido só se indispensável e com omeprazol; ácido acetilsalicílico com indicação vigente e omeprazol quando há fator de risco

Se não melhora: Anti-inflamatório reintroduzido por outro prescritor ou por automedicação: suspender ou proteger, e registrar a úlcera prévia na lista de problemas, onde o próximo prescritor a veja.

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Onde o erro machuca

Pedir o teste da bactéria com o paciente tomando omeprazol

O dano: O inibidor de bomba reduz a carga bacteriana e a atividade da urease, e o resultado vem negativo com a bactéria viva. O paciente sai sem tratamento, a úlcera volta, e quando volta ninguém desconfia da bactéria, porque "o exame deu negativo". O mesmo vale para antibiótico nas 4 semanas anteriores e para biópsias colhidas sob omeprazol.

Como pegar a tempo: Pergunte pelo omeprazol pelo nome, inclusive o emprestado e o comprado sem receita, e escreva a data de início no pedido. Suspenda por 14 dias antes do teste e ofereça o antiácido para o intervalo. Negativo sob antissecretor é provisório e se repete.

Prescrever a tríplice com claritromicina por hábito

O dano: Foi o esquema de 95% dos primeiros tratamentos no registro brasileiro, com erradicação de 78%, e a resistência nacional à claritromicina já passava do limite em que o consenso de 2026 desaconselha a tríplice empírica. Cada falha expõe o paciente a mais antibiótico, empurra a prova de cura para meses depois e seleciona resistência para o esquema seguinte.

Como pegar a tempo: Escolha o esquema pela sequência deste capítulo: alergia esclarecida, acesso ao bismuto, quádruplo se houver, dupla em dose alta se não houver. Claritromicina só com sensibilidade documentada, e nunca em quem já a recebeu num esquema.

Dar o tratamento por encerrado sem prova de cura

O dano: A diferença entre recidiva de 52% a 64% e recidiva anual de até 2,3% é a bactéria ter ido embora, e sem teste ninguém sabe de que lado o paciente está. É assim que Nazário chegou com a mesma úlcera três anos depois.

Como pegar a tempo: Marque a data da prova de cura no dia da receita, escreva-a no prontuário e na receita, e explique ao paciente que a alta é o resultado negativo, não a última cápsula.

Usar sorologia ou teste rápido da urease isolado para dizer que a bactéria foi embora

O dano: O anticorpo persiste depois da cura, e a sorologia positiva faz retratar quem já está curado; a negativa, quando aparece, não prova nada. O teste rápido da urease isolado não é recomendado para confirmar erradicação, e o antígeno fecal por imunocromatografia também não serve para isso.

Como pegar a tempo: Prova de cura só com teste respiratório com ureia marcada, antígeno fecal por ELISA monoclonal ou histologia, respeitando os prazos de suspensão. Confira o método do antígeno fecal no laboratório antes de pedir.

Tratar a úlcera gástrica sem biópsia e sem endoscopia de controle

O dano: O câncer gástrico pode se apresentar como úlcera de aspecto benigno e melhorar de sintoma com omeprazol. Sem biópsia inicial e sem controle, a úlcera que não fecha passa meses sendo tratada como úlcera.

Como pegar a tempo: Toda úlcera gástrica tem biópsias da borda na primeira endoscopia e controle endoscópico com biópsias entre 8 e 12 semanas depois do fim da erradicação, com 14 dias sem omeprazol. Úlcera aberta nesse controle é encaminhada.

Manter o anti-inflamatório sem proteção — ou suspender o ácido acetilsalicílico por conta própria

O dano: O anti-inflamatório mantido sem proteção num paciente com fator de risco produz a próxima úlcera ou o próximo sangramento. O ácido acetilsalicílico de prevenção secundária suspenso na consulta de dispepsia troca o risco gastrointestinal por um novo infarto ou acidente vascular cerebral.

Como pegar a tempo: Retire o anti-inflamatório sempre que houver alternativa e troque a analgesia. Mantenha o ácido acetilsalicílico indicado e proteja com omeprazol quem tem fator de risco. Teste e erradique a bactéria antes de começar tratamento prolongado com qualquer dos dois.

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O que dizer ao paciente e à família

O esquema de erradicação falha mais por adesão do que por qualquer outra razão que o interno controla, e a adesão se decide na conversa da receita. Doze cápsulas por dia durante 14 dias, para quem melhorou da dor no quarto dia, é pedido grande — e só é cumprido por quem entendeu para que serve cada cápsula e o que acontece depois da última.

As falas abaixo são com Nazário Ornelas, no dia da receita da dupla em dose alta, e com Firmiano Poças, no dia em que o omeprazol precisou ser suspenso antes do teste. Todas cabem numa consulta de unidade básica, sem jargão.

Explicando o diagnóstico a Nazário sem culpar o tratamento anterior

"O senhor tem uma ferida no começo do intestino, logo depois do estômago, e a causa dela é uma bactéria que vive dentro do estômago e que a biópsia mostrou. Se é a mesma de três anos atrás ou se voltou, não dá para saber — o que importa é que ela está aí agora, e enquanto estiver, a ferida volta. Hoje a gente vai tratar de outro jeito, porque aquele esquema tinha um antibiótico que essa bactéria aprendeu a enfrentar."

Não diga: Dizer que o tratamento anterior estava errado ou que o outro médico errou — aquele esquema era a régua brasileira da época. E evitar a palavra úlcera sem explicar o que ela é.

Montando a receita com os horários, cápsula por cápsula

"São dois remédios, três vezes ao dia, por 14 dias. O omeprazol são duas cápsulas meia hora antes do café, duas antes do almoço e duas antes do jantar. A amoxicilina são duas cápsulas logo depois dessas mesmas refeições. Vou escrever os horários aqui, com o dia de começar e o dia de terminar, e a quantidade que o senhor vai pegar na farmácia. O senhor almoça na obra? Então as cápsulas do almoço vão na marmita."

Não diga: Escrever "de 8 em 8 horas" sem perguntar a rotina de quem trabalha em obra, ou entregar a receita sem a quantidade total de cápsulas.

Antecipando o dia em que a dor melhora e os efeitos que podem aparecer

"Lá pelo terceiro ou quarto dia a dor deve melhorar bastante. Isso é o omeprazol fazendo efeito, não é a bactéria morrendo — ela só morre se o senhor tomar até a última cápsula do 14º dia. Pode dar um pouco de diarreia, enjoo ou gosto estranho na boca, e isso não é motivo para parar; se incomodar, me liga. Agora, se aparecer mancha vermelha na pele, inchaço no rosto, falta de ar, ou diarreia com sangue ou com febre, pare e venha aqui no mesmo dia."

Não diga: Dizer "tome até melhorar", ou listar todos os efeitos da bula — e, no outro extremo, não dizer nada e deixar que o primeiro desconforto encerre o tratamento.

Falando do cigarro sem transformar a consulta em cobrança

"Tem uma coisa que atrapalha esse tratamento de verdade, e é o cigarro: quem fuma tem quase o dobro de chance de o remédio não matar a bactéria. Se o senhor conseguir parar nesses 14 dias, ótimo; se conseguir diminuir, já ajuda. E se quiser aproveitar para parar de vez, a gente vê junto o que a unidade oferece."

Não diga: Condicionar a receita a parar de fumar, ou repetir o sermão que ele já ouviu de todo médico.

Marcando a prova de cura

"Quando terminar o remédio, o senhor ainda não está de alta. No dia que eu marquei aqui, quatro semanas depois da última cápsula, o senhor faz o exame de fezes que diz se a bactéria foi embora. Até lá, não tome omeprazol nem antibiótico sem me avisar, porque eles escondem a bactéria e o exame dá negativo de mentira. Se a queimação aparecer, use o comprimido de hidróxido de alumínio da farmácia daqui, que não atrapalha."

Não diga: Dizer "se melhorar, não precisa voltar". A alta é o resultado do exame.

Respondendo à pergunta sobre a família

"Essa bactéria costuma pegar na infância, dentro de casa, então é comum outras pessoas da família terem também. Mas a recomendação de fazer exame em quem não tem sintoma é para a família de quem teve câncer de estômago, e não é o seu caso. Se a sua esposa ou os seus filhos tiverem queixa parecida, eles passam em consulta e contam que o senhor tratou."

Não diga: Pedir exame para a família inteira sem indicação, ou sugerir que alguém da casa "passou" a bactéria para ele.

Pedindo a Firmiano que pare o omeprazol que está funcionando

"Eu sei que esse omeprazol da sua mãe está ajudando, e é justamente por isso que eu vou pedir para você parar hoje. Ele deixa a bactéria quietinha, e o exame não encontra bactéria quieta: se a gente testar agora, pode dar negativo com ela aí dentro. São duas semanas sem ele. Nesses dias, se queimar, use este comprimido, que não atrapalha o exame, e me procure antes se aparecer qualquer uma das coisas que eu perguntei hoje — vômito, fezes pretas, perda de peso."

Não diga: Testar hoje "para não perder a viagem", ou mandar suspender sem oferecer nada para os 14 dias.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

A idade que manda direto para a endoscopia na dispepsia sem sinal de alarme

Endoscopia a partir de 40 anos, testar e tratar até 45 — V Consenso Brasileiro, 2026

O consenso de 2026 indica endoscopia com biópsias gástricas para quem tem sintomas dispépticos a partir de 40 anos, com recomendação fraca e evidência moderada, e justifica a idade abaixo da das diretrizes globais — que falam em 45 ou 55 anos — com a tendência de câncer gástrico de início precoce, antes dos 40, em alguns países da América Latina. Na mesma edição, recomenda testar e tratar até 45 anos, inclusive, na dispepsia não investigada sem alarme, com recomendação forte e evidência alta. Substituiu a régua de 2018, que era testar e tratar abaixo de 40 anos e endoscopia a partir daí.

Vth Brazilian Consensus Conference on Helicobacter pylori infection, Arq Gastroenterol 2026;63:e26043 — declarações 6 e 18 e Tabela 1

Endoscopia por idade só a partir de 50 anos e com dispepsia recente — TelessaúdeRS, 2025

O protocolo de regulação ambulatorial de gastroenterologia do Rio Grande do Sul, revisado em janeiro de 2025, indica endoscopia ou encaminhamento por idade apenas para a pessoa com 50 anos ou mais e dispepsia de início recente. Abaixo disso, a endoscopia entra por sinal de alarme, por dispepsia sem controle depois de 8 semanas de inibidor de bomba e da erradicação, ou para quem vai iniciar antiagregante ou anticoagulante. O protocolo é anterior ao consenso de 2026 e cita o de 2018.

TelessaúdeRS-UFRGS e SES-RS, Protocolos de Regulação Ambulatorial: Gastroenterologia adulto, 3ª edição, revisão de 27/01/2025 — Protocolos 7 e 9

Como decidir

Os dois documentos falam do mesmo paciente — o adulto com dispepsia não investigada e sem alarme na atenção primária —, então o escopo empata e decide a data: o consenso de 2026 é posterior ao protocolo de 2025, que ainda se apoia na régua de 2018. Esta apostila adota o consenso. Dentro dele, a faixa de 40 a 45 anos cabe nas duas condutas, e a decisão segue o peso que o próprio documento dá às recomendações: testar e tratar é a regra até 45 anos, e a endoscopia nessa faixa fica para quem traz motivo individual ou para a rede sem teste não invasivo. A partir de 46 anos, endoscopia com biópsias, esteja a dispepsia começando agora ou não. Onde a regulação local seguir o protocolo de 2025, o pedido para um paciente de 46 a 49 anos sem alarme precisa citar a declaração 18 do consenso na justificativa; se for recusado, testar e tratar é a alternativa enquanto isso, com a endoscopia reapresentada se o sintoma persistir.

A prova de cura da úlcera duodenal: teste não invasivo ou endoscopia

Teste respiratório ou antígeno fecal monoclonal — V Consenso Brasileiro, 2026

O consenso de 2026 põe o teste respiratório com ureia marcada com carbono 13 como padrão-ouro para confirmar a erradicação, com recomendação forte e evidência alta, e o antígeno fecal por anticorpo monoclonal como alternativa válida. A histologia é o padrão-ouro invasivo e o exame de quando a mucosa precisa ser vista; o teste rápido da urease isolado não é recomendado para confirmar a erradicação, e a sorologia não tem papel nisso.

Vth Brazilian Consensus Conference on Helicobacter pylori infection, Arq Gastroenterol 2026;63:e26043 — declarações 17 e 19

Endoscopia para confirmar a erradicação em toda úlcera péptica — TelessaúdeRS, 2025

O protocolo de regulação lista a confirmação da erradicação do H. pylori no paciente com úlcera péptica entre as condições que indicam endoscopia digestiva alta, sem separar úlcera gástrica de duodenal, com prazo de 8 a 12 semanas — contado depois do tratamento da infecção e do inibidor de bomba no Protocolo 7, e depois do tratamento da infecção no Protocolo 8.

TelessaúdeRS-UFRGS e SES-RS, Protocolos de Regulação Ambulatorial: Gastroenterologia adulto, 3ª edição, revisão de 27/01/2025 — Protocolos 7, 8 e 9

Como decidir

Separe as duas úlceras antes de desempatar, porque para a gástrica não há conflito: ela precisa de endoscopia de controle para ver a cicatrização e biopsiar, e a pesquisa da bactéria vai na mesma passagem. Para a úlcera duodenal sem complicação, o escopo decide antes da data: o consenso responde qual exame prova a cura, e o protocolo responde que pedido de endoscopia a regulação aceita — e, para escolher o exame, vale o consenso, que também é o mais novo. Esta apostila adota o teste não invasivo, que poupa um exame invasivo e a vaga de endoscopia que outro paciente, com alarme, está esperando. A endoscopia com biópsias continua sendo a prova de cura dessa úlcera em duas situações: quando a rede não oferece teste respiratório nem antígeno fecal monoclonal, e quando o sintoma persiste com o teste negativo.

A primeira linha sem bismuto na farmácia: tríplice com claritromicina ou dupla em dose alta

Tríplice com inibidor de bomba, amoxicilina e claritromicina por 14 dias — IV Consenso Brasileiro, 2018, e o hábito que ficou

O consenso de 2018 recomendou a tríplice com inibidor de bomba, amoxicilina e claritromicina por 14 dias como primeira linha, com o quádruplo com bismuto e o concomitante como alternativas, e manteve a claritromicina recomendada apesar da resistência crescente no Brasil. É o esquema que a farmácia do SUS entrega completo, e é o que ainda domina a prática: no registro brasileiro citado pelo consenso de 2026, foi usado em 95% de 1.557 tratamentos de primeira linha, com erradicação de 78%.

IVth Brazilian Consensus Conference on Helicobacter pylori infection, Arq Gastroenterol 2018;55(2):97-121 — declarações 24 e 27; dados do registro brasileiro citados no V Consenso, Arq Gastroenterol 2026;63:e26043, justificativa da declaração 28

Sem bismuto, dupla com amoxicilina em dose alta; tríplice guiada por sensibilidade — V Consenso Brasileiro, 2026

O consenso de 2026 põe o quádruplo com bismuto em primeiro lugar, admite a tríplice com claritromicina otimizada com bismuto ou vonoprazana e, quando falta bismuto, indica a dupla com amoxicilina de 3 a 4 g por dia e inibidor de bomba em dose alta três ou quatro vezes ao dia, ou vonoprazana, por 14 dias. Registra que a tríplice com inibidor de bomba foi desaconselhada fora dos lugares com resistência à claritromicina abaixo de 15% ou sem sensibilidade confirmada, e recomenda que ela seja usada idealmente depois de teste de sensibilidade. Relata erradicação de 86% a 87% por intenção de tratar com a dupla em metanálises, e de 89% a 96% em estudos da Colômbia, do Chile e de Portugal.

Vth Brazilian Consensus Conference on Helicobacter pylori infection, Arq Gastroenterol 2026;63:e26043 — declarações 28 e 31 e Tabela 3

Como decidir

Os dois textos são da mesma série e falam do mesmo paciente; decide a data, e a edição de 2026 substituiu a de 2018. Esta apostila adota: quem consegue comprar o bismuto manipulado faz o quádruplo por 14 dias; quem não consegue faz a dupla com amoxicilina 1 g e omeprazol 40 mg, três vezes ao dia, por 14 dias — os dois na farmácia da unidade. A tríplice com claritromicina fica para quem tem sensibilidade documentada e nunca foi tratado com claritromicina. A resistência nacional de 16,9% à claritromicina que o consenso de 2018 registrava já passava do limite de 15% que o de 2026 usa para desaconselhar a tríplice empírica. Quando o paciente chega de outro serviço no meio de uma tríplice, não a interrompa: complete os 14 dias e faça a prova de cura no prazo — a falha, se vier, se trata como falha.

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O raciocínio, em voz alta

Segunda-feira, 10h15, a mesma unidade básica. Quintiliano Andion, 43 anos, porteiro noturno de condomínio, conta cinco meses de dor em queimação no epigástrio, que aparece de madrugada, durante o turno, e melhora quando ele come alguma coisa. Não perdeu peso, não tem dificuldade para engolir, não vomita, não teve fezes escuras; a hemoglobina de um exame admissional de dois meses atrás era 14,6 g/dL. Pesa 74 kg e mede 1,76 m. Não usa anti-inflamatório nem ácido acetilsalicílico, não fuma e nunca tomou omeprazol. Ninguém na família teve câncer de estômago. Tomou azitromicina há dois anos, para uma sinusite, e não tem alergias. O laboratório conveniado da prefeitura oferece antígeno fecal para H. pylori; o teste respiratório só existe no hospital universitário, com fila. Ele quer "fazer logo a endoscopia", porque um tio fez e "viu tudo".

  1. o que a queixa já decide

    Classifico antes de pedir. É dispepsia não investigada: queimação epigástrica com o ritmo da fome, sem nenhum dos sinais de alarme que perguntei um a um — emagrecimento, disfagia, odinofagia, vômitos, sangramento, anemia, massa, câncer gástrico ou esofágico em parente de primeiro grau. Também não há fármaco lesivo na história. Sem alarme e sem fármaco, quem decide o exame é a idade.

  2. a idade que cabe em duas regras

    Quintiliano tem 43 anos, e o consenso de 2026 põe essa idade em duas condutas: a declaração 6 manda testar e tratar até 45 anos, com recomendação forte, e a 18 indica endoscopia a partir de 40, com recomendação fraca. Esta apostila adota testar e tratar como regra nessa faixa e reserva a endoscopia a quem traz motivo individual ou a quem está numa rede sem teste não invasivo. Não há motivo individual: sintoma de ritmo típico, exame físico normal, hemoglobina normal há dois meses, nenhuma história familiar. E a rede tem o teste. Testar e tratar.

  3. a vontade de fazer a endoscopia

    O pedido dele entra na conversa, não na indicação. Explico que, na idade dele e sem alarme, o exame de fezes responde à pergunta que importa — tem ou não tem a bactéria — sem sedação e sem fila, e que a endoscopia passa a ser indicada se o tratamento não resolver ou se aparecer qualquer um dos sinais que perguntei. Registro a explicação e a escolha. Ele aceita começar pelo teste.

  4. o que o laboratório realmente faz

    Antes de pedir, confiro o método do antígeno fecal com o laboratório. O consenso aceita o ELISA com anticorpo monoclonal para diagnosticar e para confirmar a cura; o teste rápido por imunocromatografia serve, no máximo, para diagnóstico. O laboratório informa ELISA monoclonal. Como ele não usa inibidor de bomba e não tomou antibiótico no último mês, não há o que suspender. Peço o exame e oriento a coleta e o armazenamento como o laboratório determina, porque amostra mal guardada derruba a acurácia.

  5. o resultado e a receita

    O antígeno volta positivo. Sem alergia, o esquema se escolhe pelo acesso ao bismuto: pergunto se ele consegue comprar o subcitrato manipulado, e ele diz que o dinheiro do mês não cobre. A tríplice com claritromicina está fora — desaconselhada sem teste de sensibilidade, num paciente que já recebeu um macrolídeo. O índice de massa corporal dele é de 23,9 kg/m², então não há obesidade a considerar. Prescrevo a dupla em dose alta com o que a farmácia da unidade tem: amoxicilina 1 g e omeprazol 40 mg, três vezes ao dia, por 14 dias — 84 cápsulas de cada. Como ele trabalha de noite, os horários acompanham as três refeições dele, e não as do dia comercial.

  6. o que combino na saída

    Marco duas datas antes de ele sair: o último dia do esquema e a coleta da prova de cura, a partir do 42º dia contado do início, 4 semanas depois da última cápsula de amoxicilina. Explico que a dor vai melhorar antes do fim e que isso não é cura; que diarreia leve não suspende o tratamento e que lesão de pele suspende; e que, até o exame, ele não deve tomar omeprazol nem antibiótico sem avisar. Para a queimação desse intervalo, o hidróxido de alumínio da farmácia.

  7. o que o resultado encerra

    No 44º dia, o antígeno fecal monoclonal volta negativo e a dor sumiu. Registro a erradicação confirmada, com a data, e dou alta do tratamento. Se o exame viesse negativo com a dor persistindo, a hipótese passaria a ser dispepsia funcional, e o passo seguinte seria a endoscopia que o consenso indica depois de falha do testar e tratar. Se viesse positivo, a segunda linha não repetiria a dupla: quádruplo com bismuto e, sem bismuto, gastroenterologia.

Quintiliano não precisou de endoscopia, e a decisão de não pedir foi escrita com o critério: 43 anos, nenhum alarme, nenhum fármaco lesivo e teste não invasivo disponível na rede — a faixa de 40 a 45 anos resolvida pela regra desta apostila, que segue a recomendação forte do consenso. O antígeno fecal foi pedido depois de confirmado o método ELISA monoclonal e sem janela de suspensão, porque não havia o que suspender. Veio positivo, e o esquema foi escolhido pelo que ele conseguia obter: sem bismuto, a dupla com amoxicilina 1 g e omeprazol 40 mg, três vezes ao dia, por 14 dias, sem claritromicina por falta de teste de sensibilidade e por macrolídeo prévio. A alta veio no dia do resultado negativo da prova de cura, feita mais de 4 semanas depois do antibiótico e sem omeprazol. Três lições valem para o próximo paciente: a idade só decide depois de o alarme ser afastado pergunta por pergunta; o método do exame importa tanto quanto o nome do exame; e o tratamento termina com o teste negativo, não com a última cápsula.

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Faça você

Quinta-feira, 14h, ambulatório de clínica médica do hospital de ensino. Cândida Matoso, 59 anos, merendeira escolar, volta com o laudo da endoscopia pedida por dor epigástrica depois das refeições há dois meses e perda de 3 kg: úlcera de 14 mm na pequena curvatura do antro, de fundo limpo e bordas regulares; biópsias da borda sem displasia nem neoplasia; biópsias de antro e corpo com gastrite crônica ativa e H. pylori. Há dois meses usa naproxeno 500 mg duas vezes ao dia, prescrito para lombalgia, e ibuprofeno quando a dor aperta. É hipertensa, usa losartana, não fuma. Conta que há 20 anos teve coceira no corpo com um antibiótico cujo nome não lembra, sem manchas nem inchaço. Pesa 92 kg e mede 1,60 m. A filha trabalha numa farmácia de manipulação e diz que consegue o subcitrato de bismuto.

  1. o que já sei

    Sei que é uma úlcera gástrica com duas causas presentes ao mesmo tempo — a bactéria e o anti-inflamatório —, que as biópsias da borda não mostraram neoplasia, e que úlcera gástrica não se dá por resolvida sem endoscopia de controle. Sei também que a história de alergia dela — coceira sem lesão de pele, há mais de 10 anos, com antibiótico desconhecido — é das que o consenso classifica como de baixo risco, e que ela consegue o bismuto.

  2. o que decidir sobre os anti-inflamatórios

    Complete: o que fazer hoje com o naproxeno e com o ibuprofeno, o que oferecer para a lombalgia e o que registrar para que outro prescritor não reintroduza anti-inflamatório sem proteção.

  3. o esquema e o antissecretor depois dele

    Complete: qual esquema de 14 dias, com doses e quantidades, sabendo que o bismuto está disponível; se o peso dela muda alguma dose; e por quanto tempo o omeprazol continua depois do antibiótico nesta úlcera.

  4. as datas da volta

    Complete: quando marcar a endoscopia de controle, contando a partir de quê, com qual trava de suspensão, e o que ela precisa mostrar para que a úlcera e a bactéria sejam dadas como resolvidas.

Ver como fecharíamos

Os anti-inflamatórios saem hoje, os dois, e a lombalgia passa a ser tratada com paracetamol ou dipirona; na lista de problemas e na de medicamentos fica registrada úlcera gástrica associada a anti-inflamatório, com a instrução de que qualquer reintrodução exige omeprazol. Como a filha consegue o bismuto, o esquema é o quádruplo por 14 dias: subcitrato de bismuto 240 mg duas vezes ao dia (28 cápsulas manipuladas), tetraciclina 500 mg quatro vezes ao dia (56 cápsulas), metronidazol 400 mg quatro vezes ao dia (56 comprimidos) e omeprazol 40 mg duas vezes ao dia (56 cápsulas de 20 mg) — 14 unidades por dia, com a tetraciclina longe de leite e de antiácido. O peso não muda nenhuma dose desse esquema: a instrução do consenso para a obesidade é da dupla, em que a amoxicilina sobe para 1 g quatro vezes ao dia, e ela fica registrada para o caso de falha. Depois do antibiótico, omeprazol 20 mg ao dia antes do café por 8 semanas, porque a úlcera passa de 10 mm — ponto que vem do consenso de 2018 e vale por ausência de substituto. A endoscopia de controle se marca entre 8 e 12 semanas depois do fim da erradicação, com pelo menos 14 dias sem omeprazol: com 14 dias de esquema e 8 semanas de omeprazol, entre os dias 84 e 98 contados do início. Ela precisa mostrar a úlcera cicatrizada, com biópsia da cicatriz se houver dúvida, e biópsias de antro e corpo sem a bactéria. Úlcera ainda aberta nesse controle é úlcera que não cicatrizou apesar de tratamento otimizado: conferir adesão, anti-inflamatório não declarado e biópsias, e encaminhar à gastroenterologia.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

A sorologia detecta anticorpos, não infecção ativa, e o consenso brasileiro de 2026 a reserva a estudos epidemiológicos e a situações específicas, sem papel na confirmação da cura. O resultado de check-up pede um teste que mostre infecção atual — respiratório com ureia marcada ou antígeno fecal monoclonal. Se positivo, o mesmo consenso recomenda erradicar em todos os casos de gastrite crônica associada à bactéria, com decisão compartilhada. Tratar pela sorologia pode expor a antibiótico quem já não tem a bactéria; dizer que a infecção assintomática não se trata contraria a recomendação de erradicar os infectados; a endoscopia não está indicada aos 30 anos sem alarme; e a variação do título de anticorpos não mostra infecção ativa.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Compare dispepsia sem alarme e suspeita de úlcera ou neoplasia: explique quando testar e tratar e quando investigar por endoscopia. Depois descreva como escolher o esquema considerando tratamentos anteriores, alergia e acesso. Consulte doses e horários para conferir uma prescrição simulada. Termine com o teste de erradicação e os intervalos necessários sem antibióticos, bismuto e supressão ácida, justificando por que sorologia não serve como prova de cura.

Em 30 dias

Simule um retorno em que a dor melhorou, mas a prova de cura não foi feita, e outro em que o teste continua positivo após tratamento. No primeiro, organize a confirmação adequada; no segundo, confira preparo do teste, adesão e antibióticos já usados antes de selecionar resgate com o supervisor. Não repita automaticamente um esquema que falhou. Explique ao paciente o tratamento, as barreiras previstas, a data de retorno e o que fazer diante de sangramento ou outro sinal de alarme.

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Agora atenda

Um adulto chega à unidade básica com dor em queimação no estômago há alguns meses e, na mão, um laudo de endoscopia ou a pergunta sobre a bactéria que um colega tratou. Atenda: percorra os sinais de alarme e os fármacos pelo nome antes de decidir qualquer exame, descubra que antibióticos ele já tomou e se consegue comprar o que o SUS não entrega, prescreva o esquema de 14 dias com dose, horário e quantidade — e saia da consulta com a data da prova de cura escrita, sem pedir exame que não mude o que você faria.

Doença ulcerosa péptica e Helicobacter pylori – Tratar e provar que tratou — Internato | OsceLabs