Clínica Médica › Gastroenterologia
Achar é mais difícil que curar
Hepatite C: rastreamento, diagnóstico e tratamento
A hepatite C é a infecção crônica que o SUS cura com doze semanas de comprimido, na atenção primária, e a que mais se perde entre um teste rápido reagente e a carga viral que ninguém pediu. Este capítulo segue o caminho inteiro pela régua de 2026: quem testar, o que confirma a infecção, o escore que escolhe o esquema, o que muda antes do primeiro comprimido e quem continua em vigilância depois da cura.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde. Portaria SCTIE/MS nº 39, de 20 de julho de 2026. Torna pública a decisão de atualizar, no âmbito do SUS, o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hepatite C e Coinfecções. Anexo: Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas Hepatite C e Coinfecções. Brasília: Ministério da Saúde, 2026.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento de HIV/Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis. Coordenação-Geral de Vigilância das Hepatites Virais. Nota Técnica nº 5/2025-CGHV/DATHI/SVSA/MS: revoga e substitui as orientações da Nota Técnica nº 280/2023 e atualiza os esquemas terapêuticos disponíveis para tratamento e retratamento da hepatite C no âmbito do SUS. Brasília, 10 de março de 2025.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento de HIV/Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis. Coordenação-Geral de Vigilância das Hepatites Virais. Nota Técnica nº 6/2026-CGHV/DATHI/SVSA/MS: orientação para retomada dos esquemas terapêuticos para hepatite C em caso de interrupção inadvertida do tratamento. Brasília, 2 de fevereiro de 2026.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Complexo da Saúde; Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Profilaxia Pós-Exposição (PEP) de Risco à Infecção pelo HIV, ISTs e Hepatites Virais. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 81 p. ISBN 978-65-5993-621-2.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Guia de Vigilância em Saúde. 6. ed. rev. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. v. 2. Capítulo Hepatites virais.
Brasil. Ministério da Saúde. Gabinete do Ministro. Portaria GM/MS nº 11.211, de 13 de maio de 2026. Altera o Anexo 1 do Anexo V da Portaria de Consolidação GM/MS nº 4, de 28 de setembro de 2017 (Lista Nacional de Notificação Compulsória). Diário Oficial da União, 14 maio 2026, seção 1.
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. ISBN 978-65-5993-710-3.
Responda antes de ler
Homem de 55 anos, sem queixas, procura a unidade de saúde da família com um teste rápido para hepatite C reagente feito numa campanha de testagem. Não tem outros exames. Refere transfusão de sangue em 1990 e nega uso de drogas. Qual é a conduta adequada nesta consulta?
O paciente que você vai ver
Quinta-feira, dez e quarenta da manhã, consultório 3 de uma unidade de saúde da família numa cidade média do interior. Dorival Murad tem 58 anos, foi cobrador de ônibus por trinta e um e veio para a consulta de hipertensão e diabetes que a agente comunitária remarcou duas vezes. A pressão está em 138 por 84, a hemoglobina glicada de dois meses atrás está em 7,1%, e ele traz os comprimidos numa sacola de supermercado para mostrar que está tomando. Você é o interno da unidade, e a preceptora pediu que você lesse o prontuário inteiro antes de chamá-lo, não só a última folha.
Na terceira tela do prontuário eletrônico, entre uma dose de vacina contra influenza e um atendimento por lombalgia, há um registro de julho de 2024: teste rápido para hepatite C reagente, feito numa ação de testagem na praça da rodoviária. A anotação da técnica de enfermagem termina com a frase “orientado a procurar a unidade para seguimento”. Não há pedido de carga viral, não há retorno agendado e não há ficha de notificação anexada. Passaram-se dois anos e dois meses.
Quando você pergunta, ele se lembra do teste. “Me falaram que deu positivo, mas que podia ser coisa antiga, que eu já tinha tido e sarado. Eu me sinto bem, doutor. Nunca fiquei amarelo.” A história vem sem que você precise puxar: um acidente de moto em 1987, uma cirurgia no fêmur e duas bolsas de sangue; uma tatuagem feita no quartel; nenhuma droga injetável; casado há vinte e seis anos com a mesma mulher, e os dois dividem o aparelho de barbear que fica no banheiro.
A frase “coisa antiga, já tinha tido e sarado” não está errada por inteiro, e é por isso que ela é perigosa. O teste rápido pesquisa anticorpo, e o anticorpo contra o vírus da hepatite C fica no sangue pela vida toda — tanto em quem eliminou o vírus quanto em quem continua com ele. O resultado de julho de 2024 disse uma coisa só: que em algum momento o vírus passou por ali. A pergunta que ninguém fez ainda é se ele continua lá, e ela tem um exame próprio, a carga viral.
A preceptora entra enquanto você lê e olha a tela por cima do seu ombro. “Quantos desses você acha que tem na nossa área?” Você não sabe. Ela também não, e é esse o ponto. O protocolo federal de julho de 2026 registra que, com tratamento oral de curta duração e chance de cura acima de 90%, o maior desafio do SUS deixou de ser tratar: passou a ser encontrar as pessoas que não sabem que têm o vírus.
E Dorival é um caso já encontrado e depois perdido, o que é pior. Ele tem hoje, na sua frente, três perguntas em aberto que cabem numa manhã: se o vírus está ativo, quanto do fígado já cicatrizou, e se existe alguma coisa — outro vírus, um remédio de uso contínuo, uma interação — que mude o tratamento antes de começar. A quarta pergunta é da mulher dele, que divide o barbeador e nunca foi testada.
Este capítulo é a trajetória de Dorival e das pessoas como ele: quem testar, como ler os dois exames que fazem o diagnóstico, o que pedir antes do primeiro comprimido, qual esquema o SUS entrega e por quanto tempo, como saber que curou e quem continua em vigilância depois da cura. A cirrose e suas complicações, o carcinoma hepatocelular e a hepatite B têm capítulos próprios, e o que eles decidem sobre a pessoa com hepatite C vai remetido pelo nome. Hepatite B escreve que a hepatite C tem capítulo próprio e sai remetida de lá: é este. Daqui, a hepatite B sai remetida para lá, inclusive o marco de reativação antes do antiviral, e só as duas regras que o protocolo de hepatite C fixa para quem vai tomar o antiviral ficam escritas aqui também. O que não tem dono em nenhum outro lugar do nível — a gestante com o vírus, a criança que nasce dela e a pessoa exposta a sangue de alguém com hepatite C — fica aqui.
Quem adoece disso
A Organização Mundial da Saúde estimava cerca de 50 milhões de pessoas com infecção crônica pelo vírus da hepatite C em 2022, perto de um milhão de infecções novas por ano e 242 mil mortes naquele ano, quase todas por cirrose e carcinoma hepatocelular. Até 2022, 12,5 milhões de pessoas tinham sido tratadas no mundo, abaixo da meta global. A estratégia da organização para as hepatites virais pede que 80% das pessoas vivendo com hepatite C estejam curadas em 2030, e o Brasil é signatário do projeto de eliminação. A consequência prática dessa meta aparece no desenho do protocolo brasileiro: um remédio que cura não elimina doença nenhuma se a pessoa infectada não for encontrada.
No Brasil, a prevalência estimada é de 0,3%, e esse número tem uso direto: é a razão pela qual o protocolo de 2026 manda testar toda pessoa a partir de 18 anos pelo menos uma vez na vida. A régua importada do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, de 2020, recomenda o rastreio universal de adultos exceto onde a prevalência é menor que 0,1% — e o país está três vezes acima desse limiar. Entre 2000 e 2024 o Sistema de Informação de Agravos de Notificação registrou 342.328 casos confirmados, e em 2024 a taxa de detecção foi de 9,1 casos por 100 mil habitantes.
A curva de detecção tem um degrau que não é epidemiológico. A partir de 2015 a notificação passou a aceitar como caso tanto o anticorpo reagente quanto o material genético viral detectado, e a taxa subiu de forma significativa por causa da regra, não por causa do vírus. Vale lembrar esse degrau ao ler qualquer série histórica: taxa de detecção mede o vírus que foi procurado. A mesma cautela vale para a distribuição regional. O Sul tem a maior taxa de detecção e o Nordeste a menor; em 2024 o Sudeste respondeu por 50,0% dos casos, o Sul por 28,4%, o Nordeste por 9,8%, e o Centro-Oeste e o Norte por 5,5% cada.
Predominam homens acima de 40 anos, mas 42,8% das notificações são de mulheres — e é justamente a mulher em idade fértil que o protocolo quer testar antes da gravidez, porque os antivirais não são usados na gestação. A idade concentrada acima dos 40 anos tem outra leitura: é o efeito cumulativo de décadas de exposição, e é por isso que o protocolo de 2026 pede intensificação da testagem oportuna e da busca ativa nessa faixa, sem abrir mão do teste universal a partir dos 18 anos.
A ficha de notificação sabe pouco sobre como as pessoas se infectaram: em 2024, a fonte ou o mecanismo da infecção ficou como ignorado em 70,3% dos casos. Entre os 135.975 casos com fonte conhecida de 2000 a 2024, o uso de drogas respondeu por 26,1%, a relação sexual por 23,7% e a transfusão por 21,1%. O perfil mudou no fim da série: no ano de 2024, a via sexual respondeu por duas vezes mais casos que o uso de drogas e por quatro vezes mais que a transfusão, e chegou a 41,5% das fontes declaradas. O campo que o interno deixa em branco na ficha é exatamente o dado que falta para desenhar a testagem do território.
O vírus é silencioso por muito tempo, e os números da história natural explicam a pressa em achar. Cerca de 80% das infecções agudas não dão sintoma. Entre 15% e 45% das pessoas eliminam o vírus espontaneamente nos primeiros seis meses; as outras 55% a 85% ficam com infecção crônica. Entre 14% e 19% das pessoas com infecção crônica chegam à cirrose em até 20 anos; entre os cirróticos, o risco de descompensação é de cerca de 7% ao ano, e a incidência anual de carcinoma hepatocelular pode chegar a 4%. Dorival recebeu sangue em 1987: se o vírus veio dali, são 39 anos de infecção.
A transmissão vertical ocorre em cerca de 3% a 5% das gestações de mães com hepatite C e sobe para 19% quando a mãe também vive com HIV. O parto cesáreo não reduz esse risco, e não há evidência de transmissão pelo leite materno. Por isso o protocolo recomenda testar a gestante em cada gestação — a sorologia para hepatite C tornou-se obrigatória no pré-natal do SUS — e recomenda que a mulher com o vírus seja, idealmente, tratada antes de engravidar.
O outro lado da conta é o tratamento. Os medicamentos disponíveis no SUS dão resposta virológica sustentada em mais de 95% das pessoas tratadas, com poucos ou nenhum efeito adverso e esquemas de doze semanas na maioria dos casos. Com esse desempenho, cada teste rápido reagente que não chega à carga viral deixa de ser um exame pendente e passa a ser uma cura perdida. Para acompanhar essa cascata no território, o protocolo pede que a vigilância analise os registros do sistema de notificação pelo menos uma vez ao ano, com indicadores como a taxa de detecção de hepatite C e o percentual de coinfecção com HIV.
Por que acontece o que acontece
O vírus da hepatite C é um vírus de RNA da família Flaviviridae, classificado hoje na espécie Hepacivirus hominis. É hepatotrópico: circula no sangue, entra no hepatócito e ali se multiplica. O ciclo que o protocolo descreve tem seis tempos — internalização da partícula, liberação do RNA no citoplasma, tradução e processamento de uma poliproteína, replicação do RNA, montagem de novas partículas e liberação — e acontece todo no citoplasma. O protocolo afirma que não há evidência de reativação viral depois da cura documentada, e é esse o contraste com a hepatite B, em que o material genético persiste no núcleo do hepatócito e explica a reativação discutida no capítulo Hepatite B.
A resposta imune inata tenta, e na maioria das pessoas falha. Por isso a infecção aguda se torna crônica em mais da metade dos casos, e fatores do vírus e do hospedeiro — sexo, coinfecção com HIV ou com hepatite B, icterícia na fase aguda, polimorfismos genéticos da resposta imune, genótipo e pico de carga viral — modulam quem elimina o vírus. O anticorpo que o organismo produz, o anti-HCV, não protege: o Guia de Vigilância em Saúde registra que ele não confere imunidade, e todos os indivíduos são suscetíveis à infecção e à reinfecção. O anticorpo é memória do encontro, não escudo e nem sinal de atividade.
A cronologia dos marcadores decide qual exame pedir. O material genético do vírus, o HCV-RNA, aparece no soro de uma a duas semanas depois da exposição, com uma fase inicial de viremia baixa ou indetectável, uma subida exponencial e um platô. O anti-HCV surge em média entre um e três meses — o protocolo de profilaxia pós-exposição dá uma janela de 33 a 129 dias — e persiste pela vida, com ou sem cura. Dessa diferença saem três regras: na suspeita de infecção aguda, pede-se o teste molecular; no rastreio de quem nunca foi testado, o anticorpo; e em quem já teve o vírus, só o RNA responde se há infecção agora.
A agressão ao fígado é lenta. A replicação sustenta inflamação e necrose de hepatócitos, a cicatrização deposita fibrose, e ao longo de décadas a fibrose distorce a arquitetura até a cirrose, terreno do carcinoma hepatocelular. Nada disso precisa doer: a infecção crônica é oligossintomática, com cansaço e desconforto vago quando muito, e a alanina aminotransferase pode estar normal em quem já tem fibrose avançada — o capítulo Provas hepáticas trata essa armadilha. Álcool, coinfecção com HIV, obesidade e diabetes aceleram a fibrose. O vírus também é linfotrópico, e daí vêm as manifestações fora do fígado: crioglobulinemia, glomerulopatias, linfoma de células B, porfiria cutânea tarda e líquen plano.
Como sintoma e aminotransferase não contam quanto do fígado já cicatrizou, o tratamento precisa de estadiamento. O protocolo brasileiro escolheu começar pelo APRI, um escore modelado para hepatite C que combina a aspartato aminotransferase, relativa ao limite superior da normalidade, com a contagem de plaquetas. A lógica é a de dois sinais indiretos que andam juntos quando a fibrose avança: a aminotransferase que se mantém elevada e as plaquetas que caem à medida que a pressão no sistema porta sobe e o baço as retém. O FIB-4 acrescenta a idade e a alanina aminotransferase à mesma conta. Nenhum dos dois vê o fígado; os dois estimam probabilidade, e por isso têm zona cinzenta.
Os antivirais de ação direta atacam três peças da maquinaria viral. O sofosbuvir é um análogo de nucleotídeo que inibe a polimerase NS5B; velpatasvir, daclatasvir e pibrentasvir inibem a proteína NS5A; glecaprevir e voxilaprevir inibem a protease NS3/4A. São sempre usados em combinação — duas classes no primeiro tratamento, três no retratamento — para aumentar a eficácia e impedir a seleção de cepas resistentes. Como os esquemas disponíveis são pangenotípicos, a genotipagem deixou de ser necessária tanto para o primeiro tratamento quanto para o retratamento.
É na farmacologia que o tratamento simples pode dar errado. Os indutores enzimáticos — rifampicina, rifabutina, rifapentina, carbamazepina, oxcarbazepina, fenitoína e fenobarbital — não podem ser usados com nenhum dos antivirais disponíveis, e os antirretrovirais da classe dos não análogos de nucleosídeo, como efavirenz, nevirapina e etravirina, reduzem significativamente a concentração dos antivirais. A amiodarona tem interação potencialmente grave com todos eles, com risco de arritmia. Os dois inibidores de protease, glecaprevir e voxilaprevir, acrescentam restrições próprias: estatinas, etinilestradiol e os antirretrovirais atazanavir e darunavir, e ficam fora da cirrose descompensada. O velpatasvir potencializa a toxicidade renal do tenofovir desoproxila. E o tratamento da hepatite C pode reativar uma hepatite B silenciosa — o motivo pelo qual os marcadores do vírus B são pedidos antes do primeiro comprimido.

Cura, neste capítulo, tem definição operacional: resposta virológica sustentada, o HCV-RNA indetectável a partir de doze semanas depois do fim do tratamento. O protocolo a associa à normalização das enzimas, à melhora ou regressão da inflamação e da fibrose, à melhora das manifestações extra-hepáticas e à redução da mortalidade por todas as causas. Duas coisas não vão embora. O anti-HCV continua reagente por tempo indeterminado. E o risco de carcinoma hepatocelular de quem já tinha fibrose avançada ou cirrose cai, mas não zera, porque a cicatriz não depende mais do vírus — é por isso que a vigilância dessas pessoas continua, e os detalhes dela estão no capítulo de tumores hepáticos.
Como se apresenta de verdade
A hepatite C quase nunca chega como queixa. Chega por seis portas diferentes — um resultado de exame, uma exposição com data, uma complicação do fígado, uma doença de outro órgão, uma gestação e uma exposição que nunca terminou — e cada porta muda a primeira pergunta que o interno faz.
O resultado reagente em quem não sente nada
É a porta mais comum e a que mais perde gente. A pessoa não tem sintoma nenhum e traz um teste rápido reagente de uma ação de testagem, uma carta do banco de sangue depois da doação, um exame do pré-operatório, do pré-natal, da hemodiálise, do seguimento de profilaxia pré-exposição ou das sorologias pedidas antes de um imunobiológico — como A diarreia que não é infecciosa manda colher antes do anti-TNF. A aminotransferase pode ser normal, o exame físico é normal e a pessoa se sente bem, como Dorival.
O risco dessa porta são duas leituras erradas e opostas. Uma trata o anticorpo como doença ativa e fala em tratamento antes de saber se o vírus está lá. A outra trata o anticorpo como “cicatriz” e arquiva o resultado. As duas pulam o mesmo passo: o anticorpo reagente só diz que houve contato com o vírus, e quem responde se há infecção agora é o HCV-RNA, ou, onde houver, a pesquisa do antígeno do core do vírus.
Duas coisas não se fazem nessa porta. Não se repete o anticorpo em laboratório para “confirmar” o teste rápido: o protocolo de 2026 considera os dois equivalentes e dispensa confirmação adicional com outro ensaio de anticorpo. E não se espera o paciente voltar sozinho: o registro de julho de 2024 de Dorival tinha a frase certa, “orientado a procurar a unidade”, e ela não funcionou por dois anos. O pedido da carga viral sai na mesma consulta em que o resultado é lido.
A infecção aguda, quando existe uma data
A hepatite C aguda é a infecção adquirida há menos de seis meses. Cerca de 80% dessas pessoas não têm sintoma. Nas outras, as manifestações começam de duas a doze semanas depois da exposição: febre, cansaço, náusea, vômito, diarreia, dor abdominal, urina escura e icterícia, com elevação da alanina aminotransferase. Diante de uma hepatite aguda, a investigação etiológica pede os marcadores virais e a exclusão das causas não virais — hepatite autoimune, doença hepática alcoólica, lesão por medicamento e obstrução biliar. A leitura do padrão de lesão é de Provas hepáticas, e o painel que dá nome ao vírus na hepatite aguda ainda sem causa é de A icterícia que ainda não tem nome, de onde a hepatite C encontrada vem para cá.
Quase sempre há uma data por trás: o acidente com agulha, a relação sexual com sangramento ou com úlcera genital, a prática sexual traumática, o compartilhamento de seringa, cachimbo ou canudo. O protocolo de 2026 fecha o diagnóstico de hepatite C aguda por dois critérios. O imunológico exige um anti-HCV não reagente documentado há menos de seis meses e depois um anti-HCV reagente — no início dos sintomas, no momento da exposição ou num segundo teste feito 90 dias depois —, com o diagnóstico concluído pelo teste molecular. O virológico é o HCV-RNA detectável em quem tinha anti-HCV não reagente documentado, e o rótulo de aguda só se conclui quando o anticorpo converte.
O rótulo espera; a indicação de tratar, não. A indicação de tratamento vale igualmente para a infecção aguda e para a crônica, e o protocolo diz, com essas palavras, que o tratamento não deve ser adiado até a infecção se tornar crônica: trata-se assim que a infecção ativa for confirmada. O protocolo de profilaxia pós-exposição acrescenta o motivo para não esperar a eliminação espontânea: um único RNA indetectável não basta para dizer que o vírus foi embora, porque a viremia oscila na fase aguda.
A doença que chega pela complicação
Uma parte das pessoas descobre a hepatite C pelo fim da história: ascite, sangramento de varizes, encefalopatia, um nódulo numa ultrassonografia, uma plaquetopenia com baço grande num hemograma de rotina. Nessa porta, o manejo da complicação tem dono. A descompensação da cirrose — ascite, peritonite bacteriana espontânea e encefalopatia — é de Quatro perguntas, todo dia; o nódulo e o carcinoma hepatocelular, com a classificação de Child-Pugh, são de A agulha que não precisa entrar; as varizes e o rastreio endoscópico são de Antes de sangrar, é só um exame.
O que fica neste capítulo são duas decisões que nenhum desses capítulos toma. A primeira é etiológica: toda pessoa com hepatopatia crônica, qualquer que seja a causa aparente, está na lista de testagem do protocolo, e uma cirrose atribuída ao álcool pode ter vírus C junto. A segunda é antiviral: a pessoa com cirrose descompensada também tem indicação de tratar, com esquema e duração próprios, sem inibidor de protease e em serviço especializado.
Duas situações extremas têm regra escrita. A pessoa com expectativa de vida menor que doze meses, por comorbidade ou pela própria doença do fígado, mas com benefício evidente do tratamento, é tratada em centro de referência para doenças hepáticas. E quem está na lista de transplante hepático pode ser tratado conforme o tempo estimado de espera ou ter o tratamento adiado para depois do transplante — decisão do serviço de transplante, não da unidade básica.
A doença de outro órgão que era do vírus
Como o vírus é também linfotrópico, a hepatite C crônica aumenta o risco de doenças fora do fígado: crioglobulinemia, linfoma de células B, porfiria cutânea tarda, líquen plano, neuropatias e glomerulopatias. O protocolo acrescenta úlcera de córnea de Mooren, tireoidopatias, fibrose pulmonar, síndrome de Sjögren, doença renal crônica, diabetes tipo 2, vasculites sistêmicas como poliarterite nodosa e poliangeíte microscópica, artralgias, mialgias, poliartrite inflamatória, trombocitopenia autoimune e disfunção neurocognitiva.
A regra que sai dessa lista é simples: diante de qualquer uma dessas condições, pede-se o teste para hepatite C, porque a cura da infecção pode curar ou melhorar a manifestação. A glomerulopatia da crioglobulinemia é o exemplo clássico; a investigação da glomerulopatia, a biópsia e a imunossupressão ficam com O filtro que vaza e o filtro que inflama, e o antiviral fica aqui.
A manifestação extra-hepática grave muda o lugar do tratamento. Vasculite sistêmica e glomerulopatia estão na lista de condições que o protocolo manda encaminhar à atenção especializada, mesmo com APRI menor que 1. A atenção primária pede os exames complementares, encaminha e continua acompanhando — a pessoa não sai da unidade, só o antiviral passa a ser prescrito por outro serviço.
A gestante e a criança que nasce dela
O teste da gestante tem calendário próprio, e o calendário é de Os exames do pré-natal: testar em cada gestação e, se não foi feito no pré-natal, na admissão para o parto. O que acontece depois do teste reagente não tem dono em outro capítulo do nível, e este capítulo assume. Confirma-se a infecção ativa com HCV-RNA. Os antivirais de ação direta são contraindicados na gestação, porque não há estudo de grande escala confirmando segurança, e o protocolo de 2026 mantém a proibição mesmo registrando estudos iniciais com sofosbuvir sem eventos adversos importantes. A gestante com hepatite C é notificada e encaminhada ao pré-natal de risco, com acompanhamento conjunto da atenção primária.
O parto cesáreo não reduz a transmissão e não é indicado pelo vírus. O aleitamento é liberado, porque não há evidência de transmissão pelo leite, exceto quando há lesão no mamilo ou coinfecção com HIV — e a conduta da coinfecção na gestação é de HIV na gestação: a profilaxia que só funciona inteira. O antiviral também não é recomendado durante a amamentação: sempre que possível, espera-se o fim do aleitamento para tratar. Na puérpera com doença grave, a decisão é individual e, se o tratamento começar, a amamentação fica formalmente contraindicada durante todo o uso.
A criança exposta faz um teste molecular entre 3 e 6 meses de idade. Se o RNA vier detectável, o caso é notificado e a criança segue acompanhada como exposta, repetindo anti-HCV e HCV-RNA aos 18 meses. Se vier indetectável, ela segue como exposta e faz anti-HCV aos 18 meses: não reagente descarta a infecção; reagente pede novo RNA, e a infecção confirmada é notificada. Existe tratamento a partir dos 3 anos — sofosbuvir e velpatasvir em grânulos entre 3 e 11 anos com 17 a 29,99 kg, e os comprimidos do adulto a partir de 12 anos ou de 30 kg —, mas toda pessoa com menos de 18 anos é tratada na atenção especializada.
Quem continua exposto e quem se reinfecta
Algumas pessoas não saem da exposição, e o protocolo pede para elas teste pelo menos anual, ou em intervalo menor quando indicado: pessoas vivendo com HIV, pessoas prestes a iniciar ou em uso de profilaxia pré-exposição — que seguem o intervalo do protocolo de PrEP, com anti-HCV a cada quatro meses —, pessoas trans, pessoas em situação de rua, trabalhadoras e trabalhadores do sexo e pessoas que usam álcool e outras drogas, injetáveis, fumadas ou inaladas. A virada epidemiológica para a via sexual explica boa parte dessa lista.
Nessas pessoas, quando já houve infecção, o anticorpo não serve mais. Quem eliminou o vírus sozinho ou foi curado vai ter anti-HCV reagente para sempre; a vigilância de quem mantém vulnerabilidade é feita com HCV-RNA, semestral ou anual. A leitura do resultado depende do momento. RNA detectável entre 12 e 24 semanas depois do fim do tratamento é falha terapêutica, e o caminho é o retratamento. RNA detectável depois de uma resposta virológica sustentada documentada é reinfecção, e o caminho é tratar de novo com o esquema do primeiro tratamento, como se a pessoa nunca tivesse sido tratada.
A reinfecção não é castigo nem motivo para negar tratamento: a regra escrita é tratar outra vez. O que muda é a conversa sobre prevenção — não compartilhar agulha, seringa, cachimbo, canudo, lâmina, alicate de unha nem escova de dentes, usar preservativo, e manter a testagem regular para HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis, com profilaxia pré e pós-exposição quando indicadas. A pessoa vivendo com HIV que tem hepatite C é atendida em serviço especializado, e o manejo do HIV é de HIV: quem se testa, e o que começa no mesmo dia.
Como fechar o diagnóstico
A investigação da hepatite C tem uma ordem que não se inverte: decidir quem testa, ler o anticorpo, confirmar a infecção ativa, montar o painel que prepara o tratamento e estimar a fibrose. A exposição a sangue tem um fluxo à parte. Em todo o caminho, a régua brasileira é o protocolo de julho de 2026, com a nota técnica de 2025 dizendo o que o SUS dispensa.
Quem testar: a régua de julho de 2026
O protocolo de 2026 recomenda que toda pessoa a partir de 18 anos seja testada para hepatite C pelo menos uma vez na vida, com intensificação da testagem oportuna e da busca ativa a partir dos 40 anos. Quem tem qualquer fator de risco, ou simplesmente pede o teste, faz o exame em qualquer idade. A gestante é testada em cada gestação, e o profissional de saúde ou qualquer trabalhador, em toda situação de acidente ou exposição a material com risco biológico. Na prática da unidade, a regra universal significa que a pergunta deixou de ser “ele tem risco?” e passou a ser “ele já foi testado alguma vez?”.
Além da idade, o protocolo lista situações de vulnerabilidade aumentada em que a testagem deve ser estimulada e ofertada no momento em que a pessoa aparece: uso de drogas injetáveis, fumadas ou inaladas; homens que fazem sexo com homens; sexo químico; hemodiálise; filhos de mãe com hepatite C; privação de liberdade; transfusão de sangue ou hemoderivados antes de 1992; piercing, tatuagem e outros procedimentos estéticos; qualquer outra hepatopatia crônica; diabetes e outras condições crônicas; e manifestações extra-hepáticas possíveis. O roteiro de investigação epidemiológica do mesmo protocolo escreve transfusão anterior a 1993; a diferença de um ano não muda nada no adulto, que já tem indicação pela idade.
Um segundo grupo tem indicação de teste pelo menos anual, ou em intervalo menor quando clinicamente indicado: pessoas vivendo com HIV, pessoas em uso ou prestes a iniciar profilaxia pré-exposição — que seguem o protocolo de PrEP, com anti-HCV a cada quatro meses —, pessoas trans, pessoas em situação de rua, trabalhadoras e trabalhadores do sexo e pessoas que usam álcool e outras drogas. Para quem mantém vulnerabilidade, o teste anual é o anti-HCV enquanto ele for não reagente; para quem já eliminou o vírus ou foi curado, é o HCV-RNA.
Quem convive com a pessoa diagnosticada também entra: o protocolo manda ofertar testagem para hepatite C, hepatite B e HIV a quem mora no mesmo domicílio, a quem pode ter exposição a sangue pelo uso comum de lâmina, alicate ou escova de dentes e às parcerias sexuais estáveis, com atualização vacinal dos contactantes. O teste rápido pode ser feito por médico, enfermeiro ou farmacêutico capacitado, na própria unidade e na mesma consulta.
O primeiro exame: o anticorpo e o que ele diz
A investigação inicial é o anti-HCV, por teste rápido ou por imunoensaio laboratorial. O protocolo considera os dois equivalentes, e o teste rápido tem a vantagem de dar o resultado antes de a pessoa sair da sala. Teste rápido reagente não precisa de confirmação com outro ensaio de anticorpo: o próximo exame é o que procura o vírus.
O anti-HCV não reagente significa que não há evidência de infecção atual ou passada no momento do teste, com duas ressalvas. A primeira é a janela: se a suspeita persistir, colhe-se nova amostra 30 dias depois da primeira e o teste é repetido; e depois de uma exposição de risco segue-se o calendário próprio da exposição, descrito adiante. A segunda é a imunodeficiência grave, em que o anticorpo pode não se formar e o teste molecular pode ser usado mesmo com sorologia negativa. Teste rápido inválido se repete, de preferência com lote diferente; persistindo inválido, a amostra venosa vai para o laboratório.
O anti-HCV reagente tem duas consequências no mesmo dia. A clínica é pedir o HCV-RNA. A de vigilância é notificar: pelo Guia de Vigilância em Saúde de 2024, o caso confirmado de hepatite C, para fins de notificação, é o de quem tem um ou mais marcadores reagentes — anti-HCV, inclusive por teste rápido, ou HCV-RNA detectável —, além do óbito com menção da doença. O protocolo de 2026 completa com a cronologia: a vigilância conta o caso a partir do marcador, e a conclusão diagnóstica exige o RNA, cujo resultado deve ser registrado na ficha. Notificar não espera a carga viral, e a carga viral não espera a notificação. A notificação é compulsória regular, em até sete dias, na Ficha de Notificação/Investigação das Hepatites Virais. Na lista nacional atualizada em maio de 2026, as hepatites virais ocupam uma linha única e, ao contrário da hepatite B, não há linha própria para a gestante com hepatite C nem para a criança exposta ao vírus C: as duas se notificam pela linha geral, como o protocolo manda.
O segundo exame: a carga viral que confirma
O HCV-RNA quantitativo, a carga viral, é o marcador de infecção em atividade, e em princípio toda pessoa com HCV-RNA detectável tem indicação de tratamento. A pesquisa do antígeno do core do vírus, feita em laboratório, também confirma infecção ativa e serve para complementar o anti-HCV reagente onde estiver disponível. O valor da carga viral não escolhe esquema nem duração; para decidir o tratamento, o que importa é detectável ou não detectável. O número tem outro uso: o Guia de Vigilância em Saúde registra estudos em que a carga viral é proporcional ao risco de transmissão.
A leitura cruzada dos dois exames resolve quase tudo. Anti-HCV reagente com HCV-RNA detectável é infecção ativa, e ela é crônica quando os dois marcadores persistem por mais de seis meses. Anti-HCV reagente com HCV-RNA não detectável é infecção passada — eliminação espontânea ou cura por tratamento — e não se trata. Anti-HCV não reagente com HCV-RNA detectável é infecção recente, ainda na janela do anticorpo, ou imunossupressão que não forma anticorpo, e se trata. A infecção passada tem uma conduta que costuma ser esquecida: a pessoa precisa ouvir que o anticorpo continuará reagente e que qualquer teste futuro, se houver nova exposição, é a carga viral.
Duas armadilhas de tempo cercam a carga viral. Na fase aguda, um único HCV-RNA indetectável não prova eliminação espontânea, porque a viremia oscila. E durante o tratamento a carga viral não é pedida: o protocolo dispensa o exame no curso do tratamento, e a única carga viral que decide é a colhida de 12 a 24 semanas depois do último comprimido. A genotipagem saiu da rotina: os esquemas são pangenotípicos e o protocolo diz que ela não é necessária para tratar nem para retratar.
Antes do primeiro comprimido: o painel e as quatro perguntas
Confirmada a infecção, o painel de pré-tratamento responde quatro perguntas. A primeira, se o fígado aguenta e quanto já cicatrizou: hemograma com plaquetas, tempo de protrombina com RNI, alanina e aspartato aminotransferases, gama-glutamil transferase, fosfatase alcalina, bilirrubinas e proteínas totais e frações. Ultrassonografia e elastografia não são necessárias para prescrever na maioria dos casos, mas entram quando há sinal clínico de hepatopatia avançada, comorbidade relevante e no seguimento depois da cura. Alfafetoproteína é pedida só na pessoa com cirrose; tomografia e ressonância, para lesão suspeita, ficam com o serviço especializado.
A segunda pergunta é se há outro vírus. Toda pessoa com hepatite C é testada para HIV, sífilis e hepatite A, e para hepatite B com os dois marcadores, antígeno de superfície e anticorpo contra o core total. O quadro de exames do protocolo escreve só “testes rápidos para HBV”, que na unidade básica é o HBsAg; o anti-HBc total é pedido ao laboratório, porque é ele que identifica a pessoa com hepatite B passada que pode reativar durante o antiviral. O raciocínio dos dois marcadores e a interpretação do painel da hepatite B estão em Hepatite B. O anti-HAV IgG não reagente indica a vacina contra hepatite A em duas doses, com seis meses de intervalo, disponível na rede de imunobiológicos especiais, inclusive nas salas de vacina da unidade, mediante prescrição. Quem é suscetível à hepatite B — HBsAg, anti-HBc e anti-HBs não reagentes — recebe a vacina, com dose dobrada na doença hepática avançada, pelo esquema de Hepatite B.
A terceira pergunta é o que a pessoa toma. O protocolo manda avaliar interações de todos os medicamentos, prescritos e não prescritos, contínuos ou não, antes e durante o tratamento, e indica a base de interações da Universidade de Liverpool, a hep-druginteractions.org, para a consulta. O que impede o tratamento ou muda o lugar dele está escrito: indutores como rifampicina, rifabutina, rifapentina, carbamazepina, oxcarbazepina, fenitoína e fenobarbital; amiodarona; e, com os inibidores de protease, estatinas e etinilestradiol. Anticonvulsivante de primeira geração e amiodarona estão na lista de encaminhamento à atenção especializada.
A quarta pergunta é sobre a vida da pessoa. A mulher em idade fértil faz beta-HCG e discute contracepção antes de começar, porque a gestação durante o antiviral é contraindicada; combinações com estrogênio são evitadas na cirrose avançada. A creatinina estima a função renal — todos os esquemas são seguros na doença renal crônica, inclusive em hemodiálise, sem ajuste, mas depuração de creatinina abaixo de 30 mL/min leva ao serviço especializado. Glicemia, TSH e perfil lipídico são individualizados. E o plano inclui álcool, transporte, apoio familiar e o registro no prontuário, porque tratamento de doze semanas interrompido por falta de ônibus é falha evitável.
Estadiar sem biópsia: APRI, FIB-4 e o que vem depois
O estadiamento começa pelo APRI, que é a razão entre a aspartato aminotransferase e seu limite superior da normalidade, dividida pela contagem de plaquetas em 10⁹/L e multiplicada por 100. O detalhe que derruba a conta é a unidade: o laudo traz plaquetas por mm³, e o número entra dividido por mil — 196.000/mm³ entram como 196. O FIB-4 multiplica a idade pela aspartato aminotransferase e divide pelo produto das plaquetas, na mesma unidade, pela raiz quadrada da alanina aminotransferase. Com os exames de Dorival — 58 anos, aspartato 46 U/L com limite de 40, alanina 58 U/L e plaquetas de 196.000/mm³ —, o APRI é (46 ÷ 40) ÷ 196 × 100 = 0,59 e o FIB-4 é (58 × 46) ÷ (196 × √58) = 1,79.
O protocolo fixou o corte que decide: APRI menor que 1 exclui doença hepática avançada para fins de tratamento. APRI a partir de 1 pede avaliação não invasiva adicional — ultrassonografia de abdome e, onde houver, elastografia — e leva ao serviço especializado. No FIB-4, abaixo de 1,45 a probabilidade de fibrose significativa é baixa, de 1,45 a 3,24 o escore não classifica e a partir de 3,25 a probabilidade de fibrose avançada ou cirrose é alta. Fibrose avançada, pelo protocolo, é a rigidez hepática a partir de 10 kPa na elastografia transitória, a partir de 9 kPa na elastografia por ultrassom, pSWE ou 2D-SWE, e a partir de 4 kPa na elastografia por ressonância magnética. A biópsia hepática saiu da indicação de tratamento e fica para o diagnóstico diferencial pedido pelo especialista.
O APRI escolhe o esquema e o lugar do tratamento; o FIB-4 pesa depois. Dorival tem APRI de 0,59 e FIB-4 de 1,79, na zona cinzenta — combinação comum depois dos 50 anos, porque a idade entra na conta. Para tratar, vale o APRI, e ele pode ser tratado na unidade. Para decidir a alta depois da cura, o corte que este capítulo usa — o do primeiro parágrafo da seção de seguimento do protocolo — pede os dois escores baixos, e é por isso que o FIB-4 intermediário, somado ao diabetes, justifica a elastografia, que o protocolo deixa a critério do médico quando os escores não classificam a pessoa como F3 ou F4.
O APRI menor que 1 não vence o exame físico. A nota técnica de 2025 descreve a pessoa elegível para tratar na unidade com APRI menor que 1, plaquetas acima de 150.000 e ultrassonografia sem nódulo e sem esplenomegalia, e o protocolo de 2026 exige, além do APRI, que a pessoa não tenha cirrose. Aranhas vasculares, eritema palmar, baço palpável, plaquetas baixas, albumina baixa ou RNI alargado são sinais de hepatopatia avançada, e com eles a pessoa segue para ultrassonografia e avaliação especializada mesmo com APRI baixo. É leitura desta apostila, e a divergência entre os dois documentos está no bloco próprio.
Se houver cirrose, a pergunta seguinte é se ela está compensada. O protocolo chama de compensada a cirrose sem evento de descompensação atual ou prévio, e os eventos são ascite — ou derrame pleural com gradiente de albumina soro-ascite de 1,1 g/dL ou mais —, encefalopatia de grau II ou maior na escala de West Haven e sangramento por varizes. Pontuação de Child-Pugh de 7 ou mais também define descompensação. O cálculo e a leitura da classificação de Child-Pugh estão em A agulha que não precisa entrar; aqui importa o que ela muda no antiviral.
A exposição a sangue de alguém com hepatite C
Não existe profilaxia medicamentosa para hepatite C depois de uma exposição. O que existe é testar e acompanhar para tratar cedo, e é um fluxo sem dono em outro capítulo do nível, que este assume. A profilaxia do HIV é de HIV: quem se testa, e o que começa no mesmo dia; a da hepatite B, com vacina e imunoglobulina, é de Hepatite B; a notificação do acidente de trabalho com material biológico é de A lesão que só vira acidente se alguém escrever; e a violência sexual tem o próprio capítulo, Quatro relógios, e nenhum marca a mesma hora.
O protocolo de profilaxia pós-exposição de 2024 manda testar a pessoa-fonte e a pessoa exposta nas primeiras 48 horas. Na fonte, anti-HCV, com HCV-RNA se o anticorpo for reagente; em imunossupressão grave, pode-se pedir o RNA mesmo com sorologia negativa. Na pessoa exposta, anti-HCV, com RNA se reagente, e alanina aminotransferase. Anti-HCV reagente na pessoa exposta já no primeiro atendimento significa infecção anterior à exposição que motivou a consulta: ela é encaminhada para confirmar o diagnóstico e tratar, e o acidente não é a causa.
Se a fonte for não reagente, não há risco de soroconversão e não é necessário seguimento sorológico da pessoa exposta para hepatite C, embora a testagem basal seja aconselhável. Se a fonte for desconhecida ou tiver resultado indeterminado, a decisão é caso a caso, pela gravidade da exposição e pela probabilidade clínica e epidemiológica, lembrando que a janela do anticorpo vai de 33 a 129 dias; havendo história epidemiológica, repete-se o teste da fonte ao fim da janela e acompanha-se a exposta.
Se a fonte for reagente, a pessoa exposta repete anti-HCV e HCV-RNA entre 4 e 6 semanas, considerando a alanina aminotransferase, e de novo anti-HCV, HCV-RNA e alanina aminotransferase entre 4 e 6 meses. O teste molecular não é usado isoladamente, porque a viremia oscila na infecção aguda. Soroconversão do anticorpo ou RNA detectável no seguimento é hepatite C aguda, e a pessoa vai para tratamento — sem esperar a eliminação espontânea.
As réguas da hepatite C: quem testa, o que confirma, o que o SUS dispensa e quem fica em vigilância
A trajetória começa antes do antiviral: encontrar a infecção, confirmar viremia, avaliar fígado e interações e garantir vínculo com o cuidado. Depois do tratamento, comprovar resposta virológica e definir quem mantém vigilância. Esquemas e regras de dispensação são material de consulta datado; a sequência clínica deve permanecer compreensível mesmo quando o protocolo muda. Cinco documentos brasileiros governam este capítulo, e cada um manda num pedaço. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas de julho de 2026 é a régua do rastreio, do diagnóstico, do estadiamento, dos esquemas e do seguimento depois da cura, e revogou o de 2018. A Nota Técnica nº 5/2025 diz o que a rede dispensa e tirou a ribavirina do tratamento; a Nota Técnica nº 6/2026 trouxe a regra da interrupção, que o protocolo absorveu com uma correção. O protocolo de profilaxia pós-exposição de 2024 governa a exposição a sangue, e o Guia de Vigilância em Saúde de 2024, com a lista de notificação de maio de 2026, a notificação. O protocolo de 2026 tem defeitos que mudam conduta; estão nas notas, com a conta, e o texto do capítulo já segue a leitura coerente.
- 1Pergunte se a pessoa já foi testada alguma vez. A partir de 18 anos, todo mundo uma vez na vida; pelo menos uma vez por ano quem vive com HIV, usa PrEP, é pessoa trans, trabalha com sexo, está em situação de rua ou usa álcool e outras drogas; a gestante em cada gestação; o trabalhador em todo acidente com material biológico.
- 2Faça o anti-HCV por teste rápido. Não reagente encerra, salvo janela — repita em 30 dias se a suspeita persistir — ou exposição, que tem calendário próprio. Reagente não se confirma com outro anticorpo: notifique e peça o HCV-RNA na mesma consulta.
- 3Leia a carga viral. Detectável é infecção ativa e indicação de tratar. Não detectável é infecção passada ou curada: não trate, explique que o anticorpo fica e que o próximo teste, se houver exposição, é o RNA.
- 4Monte o painel: hemograma com plaquetas, TP/RNI, aminotransferases, GGT, fosfatase alcalina, bilirrubinas, proteínas e creatinina; testes rápidos de HIV, sífilis e HBsAg, com anti-HBc total no laboratório; anti-HAV IgG; beta-HCG na mulher em idade fértil; e a lista inteira de medicamentos conferida na base de interações.
- 5Calcule o APRI dividindo as plaquetas por mil. APRI menor que 1, sem sinal clínico de cirrose e sem nenhuma condição da lista de encaminhamento: trate na atenção primária com sofosbuvir e daclatasvir por 12 semanas.
- 6APRI a partir de 1, ou cirrose: ultrassonografia, elastografia onde houver e serviço especializado. Cirrose compensada sem descompensação prévia: sofosbuvir/velpatasvir por 12 semanas. Child-Pugh de 7 ou mais, ou qualquer descompensação atual ou prévia: sofosbuvir/velpatasvir por 24 semanas, sem inibidor de protease.
- 7Olhe o HBsAg e o anti-HBc. HBsAg reagente com indicação própria de tratar a hepatite B: tratar pelo protocolo de hepatite B, junto com o antiviral. HBsAg reagente sem essa indicação: profilaxia com análogo nucleos(t)ídeo durante todo o antiviral e até a coleta da carga viral de 12 semanas após o fim. HBsAg não reagente com anti-HBc reagente: alanina aminotransferase mensal durante o antiviral.
- 8Dispense o tratamento inteiro de uma vez, não peça carga viral durante o uso e aplique a regra dos dias se houver interrupção: até 7 dias, retomar e completar; mais de 7 dias antes do primeiro mês, retomar e pedir RNA já; 8 a 20 dias depois do primeiro mês, retomar e pedir RNA no reinício; 21 dias ou mais depois do primeiro mês, não retomar e pedir RNA 12 semanas após a suspensão.
- 9Peça o HCV-RNA de 12 a 24 semanas depois do último comprimido. Indetectável é cura. Detectável é falha e vai a retratamento com sofosbuvir/velpatasvir/voxilaprevir por 12 semanas no serviço especializado, ou sofosbuvir/velpatasvir por 24 semanas se a cirrose for descompensada.
- 10Decida o depois. F3 ou F4 não recebem alta: ultrassonografia com alfafetoproteína a cada seis meses, por tempo indeterminado, no serviço especializado. Sem fibrose avançada, sem cofator e sem exposição mantida: alta. Exposição mantida: HCV-RNA semestral ou anual, e a reinfecção é tratada com o esquema do primeiro tratamento.
Os dois exames lidos juntos
| Anti-HCV | HCV-RNA | O que significa | O que se faz |
|---|---|---|---|
| Não reagente | Não pedido | Sem evidência de infecção no momento do teste | Encerrar; repetir em 30 dias se a suspeita persistir; seguir o calendário da exposição quando houver exposição |
| Reagente | Detectável | Infecção ativa; crônica quando os dois persistem por mais de seis meses | Notificar, montar o painel, calcular o APRI e tratar |
| Reagente | Não detectável | Infecção passada: eliminação espontânea ou cura por tratamento | Não tratar; explicar que o anticorpo continua reagente; exposição mantida pede HCV-RNA anual |
| Não reagente | Detectável | Infecção recente, na janela do anticorpo, ou imunossupressão que não forma anticorpo | Tratar; o rótulo de hepatite aguda se fecha quando o anticorpo converter |
| Reagente, em quem teve cura documentada | Detectável | Reinfecção | Tratar de novo com o esquema do primeiro tratamento |
| Reagente, de 12 a 24 semanas após o fim do tratamento | Detectável | Falha terapêutica | Retratamento no serviço especializado |
A situação da pessoa, o esquema e o lugar do tratamento
| Quem é a pessoa | O que o SUS dispensa | Por dia e por quanto tempo | Onde se trata |
|---|---|---|---|
| Primeiro tratamento ou reinfecção, APRI menor que 1, sem cirrose e sem condição de encaminhamento | Sofosbuvir 400 mg e daclatasvir 60 mg | Um comprimido de cada, juntos, uma vez ao dia, por 12 semanas | Atenção primária |
| Primeiro tratamento ou reinfecção, APRI a partir de 1 ou cirrose compensada sem descompensação prévia | Sofosbuvir/velpatasvir 400/100 mg | Um comprimido uma vez ao dia, por 12 semanas | Serviço especializado |
| Primeiro tratamento ou reinfecção, Child-Pugh de 7 ou mais ou descompensação atual ou prévia | Sofosbuvir/velpatasvir 400/100 mg, sem inibidor de protease e sem ribavirina | Um comprimido uma vez ao dia, por 24 semanas | Serviço especializado |
| Falha a antiviral de ação direta, sem cirrose descompensada | Sofosbuvir/velpatasvir/voxilaprevir 400/100/100 mg | Um comprimido uma vez ao dia, por 12 semanas; até 24 semanas depois de múltiplas falhas | Serviço especializado |
| Falha a antiviral de ação direta, com cirrose descompensada | Sofosbuvir/velpatasvir 400/100 mg | Um comprimido uma vez ao dia, por 24 semanas | Serviço especializado |
| Coinfecção com HIV em uso de atazanavir ou darunavir, com indicação inicial de sofosbuvir e daclatasvir | Sofosbuvir/velpatasvir 400/100 mg | Um comprimido uma vez ao dia, por 12 semanas | Serviço especializado |
Comprimidos por esquema no adulto, pelas apresentações da Rename 2024 (Componente Estratégico; a dose não varia com o peso a partir de 30 kg)
| Apresentação | Dose diária | Comprimidos por dia | Total em 12 semanas (84 dias) | Total em 24 semanas (168 dias) |
|---|---|---|---|---|
| Sofosbuvir 400 mg + daclatasvir 60 mg, dois comprimidos separados | 400 mg + 60 mg | 2 (1 + 1) | 168 (84 + 84) | Não previsto |
| Sofosbuvir 400 mg + daclatasvir 30 mg | 400 mg + 60 mg | 3 (1 + 2) | 252 (84 + 168) | Não previsto |
| Sofosbuvir/velpatasvir 400/100 mg | 400 mg + 100 mg | 1 | 84 | 168 |
| Sofosbuvir/velpatasvir/voxilaprevir 400/100/100 mg | 400 mg + 100 mg + 100 mg | 1 | 84 | 168, só depois de múltiplas falhas |
| Glecaprevir/pibrentasvir 100/40 mg | 300 mg + 120 mg | 3 | Sem linha de adulto nos quadros de esquema do protocolo | Sem linha de adulto nos quadros de esquema do protocolo |
| Ribavirina 250 mg cápsula | Não se aplica | Não se aplica | Fornecimento para hepatite C encerrado pela Nota Técnica nº 5/2025 | Não se aplica |
Depois da cura: quem sai e quem fica
| Situação depois da resposta virológica sustentada | O que se mantém | Onde |
|---|---|---|
| Fibrose avançada ou cirrose (F3 ou F4, por escore ou elastografia) | Ultrassonografia com alfafetoproteína a cada seis meses, por tempo indeterminado, sem alta; endoscopia pela régua da hipertensão portal | Serviço especializado |
| Sem fibrose avançada — APRI menor que 1 e FIB-4 menor que 1,45, ou elastografia abaixo do corte —, sem cofator e sem exposição mantida | Alta do seguimento da hepatite C, com orientação sobre reinfecção e sobre o anticorpo que continua reagente | Atenção primária encerra o seguimento específico |
| Sem fibrose avançada, com cofator: álcool, obesidade, diabetes, dislipidemia importante, HIV ou hepatite B | Seguimento clínico individualizado da doença hepática | Atenção primária |
| Escores discordantes, com FIB-4 na zona cinzenta, sem elastografia | Elastografia a critério do médico antes de decidir a alta | Atenção primária, pela regulação |
| Qualquer estádio, com exposição mantida | HCV-RNA semestral ou anual; reinfecção tratada com o esquema do primeiro tratamento | Atenção primária |
O Quadro 8 do protocolo de 2026 divide o APRI para cirrose em três faixas: menor que 1,0 (baixa probabilidade), de 1,0 a 1,49 (zona cinzenta) e 2,0 ou mais (alta probabilidade). Um APRI de 1,50 a 1,99 não pertence a nenhuma. A conta com um homem de aspartato aminotransferase de 68 U/L, limite superior de 40 U/L, e 102.000 plaquetas/mm³: (68 ÷ 40) ÷ 102 × 100 = 1,67 — sem classe no quadro. A regra do texto da mesma seção resolve a conduta, porque manda avaliação não invasiva adicional para todo APRI a partir de 1. Este capítulo lê a zona indeterminada como 1,0 a 1,99.
Na seção 10.4.3, o texto indica sofosbuvir + daclatasvir “para pacientes com APRI < 1 ou sem cirrose” e sofosbuvir/velpatasvir “para pacientes com APRI ≥ 1 ou com cirrose compensada”. Uma pessoa com APRI de 1,3 e elastografia transitória de 7 kPa, portanto sem cirrose, cabe nas duas frases e recebe dois esquemas. O Quadro 13 do mesmo protocolo escreve “APRI < 1 E sem cirrose”, e o título da Figura 3 junta as duas condições (“APRI < 1, sem cirrose”), o que separa as situações sem sobra. Este capítulo segue o quadro: APRI a partir de 1 recebe sofosbuvir/velpatasvir mesmo sem cirrose demonstrada, e a Nota Técnica nº 5/2025 manda essa pessoa ao serviço especializado.
Os Quadros 13 e 14 rotulam a cirrose descompensada como “Child B ou C” e a compensada como “Child A”. O mesmo protocolo define cirrose compensada como ausência de evento de descompensação atual ou prévio, escolhe o esquema por “Child-Pugh ≥ 7 ou outro sinal de descompensação”, e a Nota Técnica nº 5/2025 manda 24 semanas também para o “histórico de descompensação hepática”. Um homem que sangrou de varizes há catorze meses e hoje tem bilirrubina 1,6 mg/dL, albumina 3,6 g/dL, RNI 1,3, sem ascite e sem encefalopatia soma 1 + 1 + 1 + 1 + 1 = 5 pontos, Child A5: pelo rótulo do quadro faz 12 semanas; pela definição, pelo critério de escolha e pela nota técnica, 24. Este capítulo adota 24 semanas (divergência 2).
A seção 15 dá dois cortes para a mesma decisão. Um parágrafo programa a alta de quem não tem fibrose significativa, “F0 a F2, ou seu equivalente em APRI < 1 e FIB-4 < 1,45”; outro trata como fibrose leve quem tem “Metavir < 2, APRI < 1 ou FIB-4 < 1,3”. Uma pessoa com APRI de 1,1 e FIB-4 de 1,2 não tem alta pelo primeiro, porque o APRI passa de 1, e é fibrose leve pelo segundo, porque o FIB-4 fica abaixo de 1,3 e a conjunção é “ou”; a pessoa em F2 cabe no primeiro e fica fora do segundo, que para em F1. Este capítulo usa o primeiro corte, que coincide com o limite de baixa probabilidade do FIB-4 no Quadro 8, e exige os dois escores baixos ou a elastografia abaixo do corte de fibrose avançada.
Ainda na seção 15, a endoscopia depois da cura do cirrótico é indicada “se houver queda da contagem de plaquetas abaixo de 150.000/mL”. Plaqueta se conta por mm³, que é o mesmo que µL, e 1 mL tem 1.000 µL: 150.000/mL são 150/mm³, mil vezes menos que o limite pretendido. Lido como está escrito, o gatilho só dispararia abaixo de 150 plaquetas por mm³ e nenhum cirrótico faria a endoscopia por esse critério. O número pretendido é 150.000/mm³, a unidade que a Nota Técnica nº 5/2025 usa ao ensinar a conversão do APRI. O restante do critério da endoscopia é de Antes de sangrar, é só um exame.
O protocolo e a Nota Técnica nº 5/2025 escrevem que o APRI a partir de 1 tem sensibilidade de 89% e especificidade de 75% para cirrose, que a prevalência de cirrose entre pessoas com hepatite C crônica no Brasil é de 23% e que o APRI menor que 1 exclui a cirrose corretamente em 91% das vezes. Os três primeiros números dão outro valor preditivo negativo: 0,75 × 0,77 ÷ (0,75 × 0,77 + 0,11 × 0,23) = 0,578 ÷ 0,603 = 95,8%. Os 91% correspondem a uma sensibilidade perto de 75%. A diferença é o dobro de cirróticos escondidos atrás de um APRI baixo — cerca de 9 em cada 100 em vez de 4 —, e é por isso que este capítulo não deixa o escore vencer o exame físico.
O Quadro 7, de exames de pré-tratamento, pede “testes rápidos para HIV, HBV e sífilis”, e o teste rápido de hepatite B pesquisa só o HBsAg. A seção 11.3 do mesmo protocolo manda testar toda pessoa com hepatite C para HBsAg e anti-HBc, e manda dosar alanina aminotransferase mensalmente durante o antiviral na pessoa com HBsAg não reagente e anti-HBc reagente, pelo risco de reativação. Quem montar o painel só pelo quadro deixa de ver exatamente esse grupo — a pessoa com hepatite B passada, que o teste rápido mostra como não reagente — e deixa de monitorá-la. O pedido de laboratório inclui o anti-HBc total.
A Nota Técnica nº 6/2026 cobre a interrupção antes de completar o primeiro mês só na faixa de 8 a 20 dias (item 3.2), e a interrupção de 21 dias ou mais só para quem já completou um mês (item 3.4). Quem tomou 10 dias, parou e ficou 30 dias sem remédio não tem regra na nota. O protocolo de julho de 2026 reescreveu o item como interrupção “por um período maior que 7 (sete) dias antes da conclusão do primeiro mês” — retomar o medicamento e pedir a carga viral imediatamente —, e é essa a regra que vale (divergência 3).
A conduta, hora a hora
O que segue é um paciente e oito meses. Dorival Murad, 58 anos, 82 quilos, hipertenso e diabético, com um teste rápido reagente para hepatite C de julho de 2024 que não teve nenhum passo seguinte. A unidade de saúde da família conduz o caso inteiro; o serviço especializado entraria se alguma resposta do caminho — APRI, sinal de cirrose, coinfecção, interação, falha — mudasse o lugar do tratamento.
Cada marco traz o que se decide, por que se decide assim e a prescrição por extenso. A régua é o protocolo de julho de 2026; o que a farmácia dispensa vem da Nota Técnica nº 5/2025; a interrupção segue a seção 13.3 do protocolo.
Dia 0, quinta-feira, 11h10 — a consulta que retoma o teste de 2024
A consulta começa pela explicação, não pelo pedido. Você diz a Dorival que o teste de 2024 mostrou que o vírus passou pelo corpo dele, que isso pode ser uma infecção que ele eliminou sozinho ou uma infecção ativa, e que o exame que separa as duas coisas é a carga viral — que ninguém pediu. Não se repete o anticorpo: o teste rápido reagente não precisa de confirmação com outro anticorpo, e um novo anti-HCV reagente não acrescentaria informação nenhuma. Os testes rápidos de HIV, sífilis e HBsAg são feitos na sala e saem não reagentes. A preceptora confere a lista de medicamentos com você: losartana, hidroclorotiazida, metformina e sinvastatina. Nenhum está entre os indutores que impedem o tratamento, não há amiodarona nem anticonvulsivante, e a restrição do protocolo para estatina é com glecaprevir e voxilaprevir; a consulta à base de interações que o protocolo indica fecha a checagem. Dorival bebe duas latas de cerveja no domingo, e a orientação é suspender. A ficha de notificação que faltou em 2024 é preenchida agora: para a vigilância, o anticorpo reagente já define o caso, e o campo da provável fonte recebe a transfusão de 1987. A esposa, que divide o aparelho de barbear, é convidada a fazer os testes.
Prescrição- HCV-RNA quantitativo (carga viral)
- Hemograma com plaquetas; tempo de protrombina com RNI; aspartato e alanina aminotransferases; gama-glutamil transferase; fosfatase alcalina; bilirrubinas total e frações; proteínas totais e frações; creatinina; perfil lipídico
- Anti-HBc total e anti-HBs no laboratório (HBsAg por teste rápido não reagente na consulta)
- Anti-HAV IgG
- Testes rápidos de HIV e sífilis feitos na consulta: não reagentes
- Ficha de Notificação/Investigação das Hepatites Virais preenchida hoje e encaminhada à vigilância epidemiológica do município
- Testes rápidos para hepatite C, hepatite B e HIV oferecidos à esposa, com agendamento pela agente comunitária
- Orientação por escrito: não dividir aparelho de barbear, alicate de unha nem escova de dentes; suspender o álcool
Dia 18 — os resultados e as duas contas
O HCV-RNA veio detectável, 1.240.000 UI/mL: infecção ativa, e crônica, porque o anticorpo é reagente desde julho de 2024. O número da carga viral não muda nada no esquema. Aspartato aminotransferase 46 U/L, com limite de 40; alanina aminotransferase 58 U/L; plaquetas 196.000/mm³; albumina 4,1 g/dL; bilirrubina total 0,8 mg/dL; RNI 1,0; creatinina 0,9 mg/dL. O exame físico não tem aranha vascular, eritema palmar, ascite nem baço palpável. As contas vão escritas no prontuário, com as plaquetas divididas por mil: APRI (46 ÷ 40) ÷ 196 × 100 = 0,59; FIB-4 (58 × 46) ÷ (196 × √58) = 1,79. O APRI menor que 1 e a ausência de qualquer condição da lista de encaminhamento põem o tratamento na unidade, com sofosbuvir e daclatasvir. O FIB-4 na zona cinzenta não muda o esquema, mas soma-se ao diabetes e justifica a ultrassonografia antes de começar — o protocolo de 2026 dispensa imagem na maioria dos casos e a admite quando há comorbidade, e a nota técnica de 2025 a pedia para todos. O painel da hepatite B mostra HBsAg não reagente, anti-HBc total reagente e anti-HBs de 38 mUI/mL: hepatite B passada, cuja leitura é de Hepatite B; para o antiviral da hepatite C, a regra do protocolo é dosar alanina aminotransferase todo mês durante o tratamento. O anti-HAV IgG não reagente indica a vacina. A esposa fez os testes: todos não reagentes.
Prescrição- Ultrassonografia de abdome superior, com descrição do contorno e da ecotextura do fígado, de nódulos e do diâmetro do baço
- Vacina contra hepatite A, 1ª dose hoje, com prescrição para a rede de imunobiológicos especiais, aplicada na sala de vacina da unidade; 2ª dose em seis meses
- Registro no prontuário: APRI 0,59; FIB-4 1,79; sem sinal clínico de cirrose
- Registro no prontuário: HBsAg não reagente e anti-HBc total reagente — alanina aminotransferase mensal durante todo o antiviral
- Complemento da ficha de notificação com o HCV-RNA detectável, no campo de observação
Dia 32 — a ultrassonografia e a prescrição
A ultrassonografia descreve fígado de dimensões normais, contornos regulares, esteatose leve, nenhum nódulo e baço de 10,5 cm. Não há sinal de cirrose, e o caminho da unidade está confirmado. A prescrição é sofosbuvir 400 mg com daclatasvir 60 mg por doze semanas, e o protocolo recomenda que a farmácia dispense o tratamento inteiro de uma vez, justamente para evitar interrupção por falta de estoque. A orientação cabe em quatro frases, e Dorival as repete de volta: os dois comprimidos são tomados juntos, no mesmo horário, todos os dias; dor de cabeça e cansaço leves podem acontecer e não são motivo para parar; qualquer remédio novo, receitado por qualquer médico, é mostrado à equipe antes de ser tomado; e não haverá carga viral durante o tratamento, só doze semanas depois do último comprimido. A alanina aminotransferase mensal fica agendada nas três datas.
Prescrição- Sofosbuvir 400 mg, 1 comprimido por via oral, uma vez ao dia, por 12 semanas (84 comprimidos)
- Daclatasvir 60 mg, 1 comprimido por via oral, uma vez ao dia, tomado junto com o sofosbuvir, por 12 semanas (84 comprimidos)
- Dispensação única dos 84 dias pela farmácia que opera o SICLOM-HV, com orientação farmacêutica
- Manter losartana, hidroclorotiazida, metformina e sinvastatina
- Alanina aminotransferase nas semanas 4, 8 e 12 de tratamento
- Retorno em 4 semanas
Semana 4 — o primeiro mês
Dorival teve dor de cabeça leve nos três primeiros dias, que passou sem remédio. A contagem na consulta encontra 56 comprimidos de cada frasco, compatível com 28 dias de uso, e ele trouxe a caixa organizadora que a filha comprou. A alanina aminotransferase caiu de 58 para 31 U/L, e é isso que se espera quando o vírus C para de se replicar. A mesma dosagem tem um segundo leitor: se ela subisse durante o tratamento, a hipótese seria reativação da hepatite B, com o painel do vírus B repetido no mesmo dia e o tratamento da hepatite B iniciado prontamente, como manda o protocolo, pelo esquema de Hepatite B. Não há medicamento novo na lista.
Prescrição- Alanina aminotransferase: 31 U/L — manter o controle mensal
- Conferência da lista de medicamentos: sem alteração
- Retorno na semana 8, com a segunda dosagem mensal
Semana 7 — doze dias sem remédio
A agente comunitária avisa que Dorival voltou de uma viagem para conhecer o neto, em outro estado, e que esqueceu os frascos em casa. Ele tomou 35 dias seguidos, mais de um mês, e ficou 12 dias sem o antiviral. A regra do protocolo para essa faixa — interrupção de 8 a 20 dias depois de completar pelo menos um mês — é retomar o tratamento hoje e colher a carga viral no reinício. Se vier indetectável, completa-se o tempo previsto; se vier detectável, ou se o exame não puder ser feito, o tratamento é suspenso e o caso passa a ser falha terapêutica, com retratamento. Não se recomeça a contagem do zero e não se acrescentam quatro semanas — o acréscimo é da interrupção antes do primeiro mês com carga viral detectável. Restam 49 dias de comprimido, e o último será tomado no dia 96 contado desde o início.
Prescrição- Retomar hoje sofosbuvir 400 mg e daclatasvir 60 mg, 1 comprimido de cada, juntos, uma vez ao dia, até completar os 49 dias restantes
- HCV-RNA quantitativo colhido hoje, no reinício
- Se indetectável: completar o tempo previsto; se detectável ou sem resultado: suspender e encaminhar ao serviço especializado como falha terapêutica
- Alarme diário no celular, combinado com a filha por telefone, e visita da agente comunitária na semana seguinte
Dia 96 — o último comprimido
A carga viral colhida no reinício veio indetectável, e o tratamento seguiu até o fim. As alanina aminotransferases das semanas 8 e 12 foram 24 e 22 U/L. Dorival tomou os 84 dias de comprimido em 96 dias de calendário. Agora começa a espera que decide tudo: a resposta virológica sustentada só pode ser verificada a partir de doze semanas depois do último comprimido, e o protocolo aceita a coleta até a 24ª semana. A data vai marcada no prontuário e na caderneta dele, junto com a segunda dose da vacina contra hepatite A.
Prescrição- HCV-RNA quantitativo agendado para 12 semanas após o último comprimido
- 2ª dose da vacina contra hepatite A na data prevista, seis meses após a primeira
- Manter a orientação de não compartilhar objetos cortantes e de não beber
Doze semanas depois do fim — a cura
HCV-RNA indetectável: resposta virológica sustentada, e Dorival está curado da infecção pelo vírus da hepatite C. A consulta tem três recados. O primeiro é que o anti-HCV vai continuar reagente para sempre, e que qualquer serviço que repetir o teste rápido vai encontrar o mesmo resultado de 2024 sem que isso signifique doença. O segundo é que a cura não dá imunidade: uma nova exposição pode reinfectar, e aí o exame é a carga viral. O terceiro é o seguimento, que ainda não está decidido. Com FIB-4 de 1,79 antes do tratamento, diabetes e esteatose, ele não preenche o corte de alta que este capítulo usa — os dois escores baixos —, e a elastografia é pedida pela regulação para separar a fibrose avançada da que não é.
Prescrição- Elastografia hepática pela regulação, no serviço de referência
- Hemograma com plaquetas e aminotransferases no mesmo pedido
- Registro no prontuário: resposta virológica sustentada documentada nesta consulta; anti-HCV permanecerá reagente; próximos testes, se houver exposição, por HCV-RNA
Dois meses depois — a elastografia e o plano de longo prazo
A elastografia transitória mediu 7,4 kPa, abaixo dos 10 kPa que definem fibrose avançada, e as plaquetas estão em 204.000/mm³. Dorival não tem fibrose avançada nem cirrose e, por isso, não entra na vigilância semestral de carcinoma hepatocelular. Ele também não recebe alta da atenção ao fígado: diabetes e esteatose são cofatores de progressão, e o protocolo e a nota técnica de 2025 mandam acompanhar essas pessoas de forma individualizada. O acompanhamento cabe na consulta de diabetes que ele já faz, com aminotransferases e plaquetas anuais, controle de peso, glicemia e álcool. Ele não tem exposição mantida, e não há indicação de carga viral periódica. A esposa não precisa repetir o teste, porque a fonte de exposição dentro de casa está curada.
Prescrição- Sem rastreamento semestral de carcinoma hepatocelular (elastografia de 7,4 kPa, sem fibrose avançada)
- Aminotransferases e plaquetas anuais, junto do seguimento do diabetes
- Metas de peso, glicemia e abstinência alcoólica registradas no plano de cuidado
- HCV-RNA apenas se houver nova exposição de risco
Como saber se está funcionando
Sete parâmetros, e nenhum deles é carga viral durante o tratamento: o protocolo dispensa esse exame no curso das doze semanas. O que se acompanha é a tomada, o fígado, a hepatite B que pode acordar, a lista de remédios e, depois, a única carga viral que decide — e, para quem precisa, a vigilância que não termina com a cura.
Esperado: Indetectável: resposta virológica sustentada, que o protocolo equipara à cura e que dispensa novos testes diagnósticos, salvo suspeita de reinfecção
Se não melhora: Detectável é falha terapêutica: encaminhar ao serviço especializado para retratamento com sofosbuvir/velpatasvir/voxilaprevir por 12 semanas, ou sofosbuvir/velpatasvir por 24 semanas se a cirrose for descompensada, sem genotipagem. Antes do rótulo, perguntar por adesão e por exposição nova: RNA detectável depois de uma resposta sustentada já documentada é reinfecção, tratada com o esquema do primeiro tratamento.
Esperado: Comprimidos restantes compatíveis com os dias de uso e nenhuma interrupção
Se não melhora: Aplicar a regra dos dias. Até 7 dias: retomar e completar. Pausa de mais de 7 dias sem o primeiro mês completo: retomar e colher RNA imediatamente; detectável ou sem exame, completar o restante e acrescentar 4 semanas. De 8 a 20 dias depois do primeiro mês: retomar e colher RNA no reinício; detectável ou sem exame, suspender e tratar como falha. 21 dias ou mais depois do primeiro mês: não retomar e colher RNA 12 semanas após a suspensão; indetectável é cura, detectável ou sem exame é falha.
Esperado: Queda e normalização, acompanhando a supressão do vírus C
Se não melhora: Elevação durante o tratamento é reativação da hepatite B até prova em contrário: repetir o painel do vírus B e iniciar prontamente o tratamento da hepatite B, pelo esquema de Hepatite B. Em quem tem HBsAg reagente, a profilaxia com análogo precisa estar em curso desde o primeiro comprimido e seguir até a coleta da carga viral de 12 semanas.
Esperado: Estabilidade clínica — o protocolo lembra que o risco de descompensação durante o tratamento existe na hepatopatia avançada
Se não melhora: Descompensação é avaliação no mesmo dia no serviço especializado ou na urgência, com o manejo de Quatro perguntas, todo dia. A continuidade do antiviral é decidida pelo serviço especializado, e inibidor de protease não é usado na cirrose descompensada.
Esperado: Nenhum indutor, amiodarona ou antirretroviral incompatível; com glecaprevir ou voxilaprevir, nenhuma estatina e nenhum etinilestradiol
Se não melhora: Interação impeditiva pede avaliação do especialista focal para substituir, suspender temporariamente ou interromper o medicamento que impede o antiviral — rifampicina, rifabutina, rifapentina, carbamazepina, oxcarbazepina, fenitoína ou fenobarbital. A amiodarona é trocada por outro antiarrítmico sempre que possível.
Esperado: Ultrassonografia sem nódulo novo, com alfafetoproteína
Se não melhora: Nódulo novo ou alfafetoproteína em ascensão seguem a investigação de A agulha que não precisa entrar. A melhora depois da cura não suspende a vigilância: na ausência de cofatores, plaquetas acima de 150.000/mm³ somadas a rigidez hepática menor que 12 kPa podem dispensar a repetição da endoscopia, nunca a ultrassonografia.
Esperado: Indetectável
Se não melhora: RNA detectável depois de cura documentada é reinfecção: tratar de novo com o esquema do primeiro tratamento, escolhido pelo estadiamento atual, e retomar a conversa de prevenção sem julgamento. O anti-HCV não serve para esse seguimento.
Onde o erro machuca
O dano: É o erro do prontuário de Dorival: dois anos de infecção ativa sem diagnóstico depois de um teste reagente. O anticorpo não distingue infecção passada de ativa, e repeti-lo só produz outro reagente. Enquanto isso, a fibrose avança sem sintoma, a pessoa pode transmitir o vírus e sai da cascata de cuidado justamente no degrau mais simples. Com tratamento que cura mais de 95%, cada reagente parado é uma cura perdida.
Como pegar a tempo: Todo anti-HCV reagente sai da consulta com o HCV-RNA pedido, a notificação preenchida e o retorno marcado. Quem tem teste reagente antigo no prontuário é chamado ativamente — a frase “orientado a procurar a unidade” não é seguimento.
O dano: O laudo traz 120.000/mm³ e a fórmula pede 120. Com aspartato aminotransferase de 64 U/L e limite de 40, a conta certa dá (64 ÷ 40) ÷ 120 × 100 = 1,33 e leva a pessoa ao serviço especializado, com sofosbuvir/velpatasvir e investigação de fibrose avançada. Com as plaquetas sem conversão, o resultado é 0,0013: a pessoa com provável fibrose avançada é tratada na unidade como se não tivesse cirrose, e depois da cura fica sem a vigilância de carcinoma de que talvez precisasse.
Como pegar a tempo: Escrever a conta inteira no prontuário, com as plaquetas divididas por mil, e desconfiar de todo APRI com zeros depois da vírgula. Calculadora eletrônica também exige a unidade certa.
O dano: O tratamento da hepatite C pode reativar uma hepatite B silenciosa — na pessoa HBsAg reagente e também naquela que só tem o anti-HBc reagente —, e a reativação pode evoluir para hepatite grave — a hepatite fulminante que esse rastreio evita está descrita em Hepatite B. Sem os dois marcadores, a pessoa com HBsAg reagente fica sem profilaxia, e a pessoa com anti-HBc isolado fica sem a alanina aminotransferase mensal que pegaria a reativação a tempo. O teste rápido, que é o que o quadro de exames do protocolo cita, vê só o primeiro grupo.
Como pegar a tempo: Pedir anti-HBc total no laboratório junto com o HBsAg, antes da prescrição. HBsAg reagente: análogo durante todo o antiviral e até a carga viral de 12 semanas. Anti-HBc isolado: alanina aminotransferase mensal, com as datas escritas.
O dano: A amiodarona tem interação potencialmente grave com os antivirais disponíveis no SUS, com risco de arritmia. Carbamazepina, oxcarbazepina, fenitoína, fenobarbital, rifampicina, rifabutina e rifapentina não podem ser usadas com nenhum dos antivirais disponíveis, e o protocolo manda resolver a interação antes de tratar. Com glecaprevir e voxilaprevir, estatina e etinilestradiol entram na lista. O preço do descuido é o risco da interação e o de uma falha que obriga ao retratamento com três classes.
Como pegar a tempo: Reconciliar todos os medicamentos, inclusive os não prescritos, antes e durante o tratamento, na base de interações que o protocolo indica, e orientar a pessoa a mostrar qualquer receita nova. Anticonvulsivante de primeira geração ou amiodarona em uso levam o caso ao serviço especializado.
O dano: O anticorpo continua reagente depois da cura, por tempo indeterminado. Na pessoa em profilaxia pré-exposição, no usuário de drogas ou em qualquer curado que continua exposto, o anti-HCV reagente não informa nada: ou gera alarme e retratamento indevido, ou é descartado como esperado e deixa passar a reinfecção.
Como pegar a tempo: Escrever no prontuário, no dia da cura, que os próximos testes são por HCV-RNA. Reinfecção comprovada é tratada com o esquema inicial; RNA detectável de 12 a 24 semanas após o fim é falha, não reinfecção.
O dano: A cura reduz o risco de carcinoma hepatocelular de quem tem fibrose avançada ou cirrose, mas não o elimina. Sem ultrassonografia com alfafetoproteína a cada seis meses, o carcinoma cresce sem que ninguém o procure e costuma ser achado quando já não há tratamento curativo. A tentação é maior quando a elastografia e as plaquetas melhoram depois do tratamento — e essa melhora dispensa, no máximo, a repetição da endoscopia.
Como pegar a tempo: Registrar no plano do paciente o estádio de fibrose de antes do tratamento e escrever, com a periodicidade, que F3 e F4 mantêm vigilância por tempo indeterminado no serviço especializado. O detalhe da vigilância e do nódulo novo é de A agulha que não precisa entrar.
O que dizer ao paciente e à família
Sete falas. Quase todas desfazem uma ideia que a pessoa trouxe pronta — “é cicatriz”, “positivo é doença”, “vai ter que começar tudo de novo”, “grávida não pode amamentar” —, e por isso a primeira frase de cada uma é a que corrige o engano.
Explicar a Dorival o que o teste de 2024 significou e por que é preciso outro exame
““Seu Dorival, aquele teste de 2024 procurou um anticorpo, que é a marca que o corpo guarda quando encontra o vírus da hepatite C. Essa marca fica para sempre, tanto em quem se livrou do vírus quanto em quem ainda está com ele. Por isso ninguém podia dizer que era coisa antiga sem outro exame. O exame que responde é a carga viral, que procura o próprio vírus no sangue, e eu vou pedir hoje. Se o vírus não estiver lá, a gente fecha o assunto. Se estiver, a notícia boa é que existe tratamento de comprimido, feito aqui, que cura.””
Não diga: “Deu positivo, mas deve ser cicatriz” ou “o senhor tem hepatite C” antes da carga viral. As duas frases decidem sem o exame que decide.
Dar o resultado da carga viral detectável
““O exame mostrou que o vírus está ativo. Eu sei que a palavra hepatite assusta, então vou começar pelo que importa: essa infecção tem cura, com dois comprimidos por dia durante doze semanas, sem injeção e sem internação. Os exames do seu fígado não mostram sinal de cirrose, e a ultrassonografia vai conferir. O que eu preciso do senhor é tomar todos os dias, no mesmo horário, e me mostrar qualquer remédio novo antes de tomar.””
Não diga: Abrir a conversa por cirrose e câncer. O risco existe e é dito, mas a pessoa leva da consulta a frase que ouviu primeiro.
Com a autorização de Dorival, conversar com a esposa sobre testagem e sobre o aparelho de barbear
““Dona Erasmina, o vírus da hepatite C passa principalmente pelo sangue. Na casa de vocês, o caminho que mais preocupa é o aparelho de barbear que os dois usam. Pelo sexo a transmissão é possível, e fica mais provável quando há sangramento ou ferida. Por isso eu queria fazer hoje os testes da senhora, junto com hepatite B e HIV, que a gente oferece para todo mundo que convive com quem tem hepatite C. E, de hoje em diante, cada um com o seu aparelho, o seu alicate e a sua escova de dentes.””
Não diga: Perguntar quem “trouxe” o vírus para casa. A transfusão de 1987 é a fonte mais provável e, de todo modo, a pergunta não muda nenhuma conduta.
Explicar a regra da interrupção a Dorival, que voltou de viagem com 12 dias sem remédio
““O senhor fez bem em vir hoje. Doze dias sem o remédio, depois de mais de um mês tomando, têm uma regra: o senhor recomeça hoje mesmo, do ponto em que parou, e colhe a carga viral agora. Se o vírus continuar indetectável, a gente termina os comprimidos que faltam. Se ele tiver voltado, esse tratamento para e o senhor vai para outro esquema, no serviço especializado. Não é castigo: é a regra que o protocolo usa para saber se o remédio ainda está funcionando.””
Não diga: “Agora vai ter que começar tudo de novo.” Recomeçar do zero não é a regra e desanima quem já tomou 35 dias.
Dar a notícia da cura e explicar o anticorpo que continua reagente
““O exame de hoje confirma: o senhor está curado da hepatite C. Duas coisas para guardar. Se alguém fizer aquele teste rápido de novo, numa campanha ou em outro serviço, vai dar reagente, porque a marca do anticorpo fica. Isso não quer dizer que o vírus voltou. E a cura não protege de pegar de novo: se um dia houver risco, o exame certo é a carga viral. Eu vou deixar isso escrito na sua caderneta.””
Não diga: “Agora está tudo zerado.” O anticorpo não zera, e quem ouve isso se assusta com o próximo teste reagente.
Orientar sobre reinfecção uma pessoa curada que usa crack, sem sermão
““Você terminou o tratamento e está curado, e isso foi mérito seu. Eu não vou te pedir nada que você não consiga fazer. O vírus passa pelo sangue, e o cachimbo e o canudo compartilhados podem levar sangue de uma boca ou de um nariz para outro. Se der para ter o seu, só seu, já muda muito. Vamos combinar um exame de sangue a cada seis meses aqui. E, se um dia o vírus voltar, você trata de novo, do mesmo jeito.””
Não diga: Condicionar um novo tratamento à abstinência. A regra escrita é tratar a reinfecção com o esquema do primeiro tratamento.
Conversar com Maurícia, 27 anos, gestante de 14 semanas, com hepatite C ativa confirmada no pré-natal
““Maurícia, o exame confirmou o vírus da hepatite C ativo. O remédio que cura ainda não é usado na gravidez, porque não há estudo suficiente de segurança — então o tratamento fica para depois que você parar de amamentar. Você continua o pré-natal aqui e também no pré-natal de alto risco. O vírus não é motivo para cesárea: ela não diminui a chance de passar para o bebê, que é baixa, de três a cinco em cada cem. Você pode amamentar, a não ser que tenha ferida no bico do peito. E o bebê faz um exame entre três e seis meses e outro com um ano e meio.””
Não diga: Dizer que ela “não vai poder amamentar” ou que “vai precisar de cesárea”. Nenhuma das duas restrições existe para a hepatite C sem HIV.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Nota Técnica nº 5/2025 (10/03/2025): sim, as duas
A nota descreve a pessoa elegível para o tratamento inicial na atenção primária com quatro condições: APRI menor que 1, nenhum tratamento prévio com antiviral de ação direta, plaquetas acima de 150.000 e ultrassonografia sem nódulos hepáticos e sem sinais de esplenomegalia. A mesma nota indica exame de imagem, elastografia ou ultrassonografia, para todas as pessoas tratadas, mesmo com APRI menor que 1.
Brasil, Ministério da Saúde, Nota Técnica nº 5/2025-CGHV/DATHI/SVSA/MS, itens 2.2.1 e 2.8
PCDT Hepatite C e Coinfecções (Portaria SCTIE/MS nº 39, 20/07/2026): não para todos
O protocolo escolhe o esquema pelo APRI e pela ausência de cirrose e registra, no quadro de exames de pré-tratamento, que ultrassonografia e elastografia não são necessárias para prescrever na maioria dos casos: ficam para casos específicos, sobretudo com evidência clínica de hepatopatia avançada ou comorbidade, e para o seguimento depois da cura. O corte de plaquetas não aparece como critério separado.
Brasil, Ministério da Saúde, PCDT Hepatite C e Coinfecções, 2026, Quadro 7, seção 10.4 e Quadro 13
Os dois documentos foram escritos para a mesma pessoa — o adulto que vai começar sofosbuvir e daclatasvir na unidade —, então o escopo empata e decide a data: vale o protocolo de julho de 2026, dezesseis meses mais novo, e esta apostila não exige ultrassonografia de rotina. Mas o protocolo só trata na unidade quem não tem cirrose e admite a imagem quando há evidência de hepatopatia avançada, e plaquetas abaixo de 150.000/mm³, baço palpável, aranhas vasculares, albumina baixa ou RNI alargado são essa evidência. Esta apostila adota: APRI menor que 1 sem nenhum desses sinais trata sem imagem; com qualquer um deles, ou com comorbidade que acelere a fibrose, pede-se a ultrassonografia antes. A leitura de que a plaquetopenia é um dos sinais que o protocolo manda investigar é desta apostila. O serviço que ainda pede a ultrassonografia pelo fluxo da nota não está errado: a exigência apenas deixou de ser obrigatória.
Quadros 13 e 14 do PCDT de 2026: 12 semanas, pelo rótulo “cirrose compensada (Child A)”
Os quadros de esquema dividem a cirrose pela classe de Child-Pugh: compensada é Child A e recebe 12 semanas; descompensada é Child B ou C e recebe 24. Lidos isoladamente, põem em 12 semanas quem pontua 5 ou 6 hoje, qualquer que seja a história.
Brasil, Ministério da Saúde, PCDT Hepatite C e Coinfecções, 2026, Quadros 13 e 14
Texto do PCDT de 2026 e Nota Técnica nº 5/2025: 24 semanas
O protocolo define cirrose compensada como a ausência de eventos de descompensação atuais ou prévios e escolhe o esquema por Child-Pugh de 7 ou mais ou outro sinal de descompensação. A nota técnica de 2025 escreve o caso por extenso: sofosbuvir/velpatasvir por 24 semanas, sem ribavirina, para cirrose descompensada ou histórico de descompensação hepática, e nenhum inibidor de protease.
Brasil, Ministério da Saúde, PCDT Hepatite C e Coinfecções, 2026, seções 10.3.2 e 10.4; Nota Técnica nº 5/2025-CGHV/DATHI/SVSA/MS, item 2.3.2
O escopo é o mesmo e a data favorece o protocolo, mas o protocolo discorda de si mesmo: o rótulo do quadro contradiz a definição de cirrose compensada escrita poucas páginas antes. Pela coerência interna, vence a leitura que concorda com a própria definição, com o critério de escolha do esquema e com a nota técnica que o protocolo lista entre suas bases. Esta apostila adota 24 semanas de sofosbuvir/velpatasvir, sem inibidor de protease, para quem já teve ascite, encefalopatia de grau II ou maior ou sangramento varicoso, mesmo que hoje pontue Child A. O tratamento é do serviço especializado; o que o interno garante é que o evento do passado esteja escrito no encaminhamento, porque é ele que muda a duração.
Nota Técnica nº 6/2026 (02/02/2026): sem regra para essa faixa
A nota trata a interrupção antes do primeiro mês só entre 8 e 20 dias — retomar, colher carga viral imediata e, se detectável ou sem exame, completar o restante com mais 4 semanas — e reserva a regra dos 21 dias ou mais para quem já completou um mês, com carga viral 12 semanas após a suspensão e sem retomar. Quem parou antes do primeiro mês e ficou três semanas ou mais sem remédio fica fora das duas regras.
Brasil, Ministério da Saúde, Nota Técnica nº 6/2026-CGHV/DATHI/SVSA/MS, itens 3.2 e 3.4
PCDT Hepatite C e Coinfecções de 2026 (seção 13.3): retomar e colher carga viral já
O protocolo reescreveu o item como interrupção por período maior que 7 dias antes da conclusão do primeiro mês, sem teto: retomar o medicamento e colher a carga viral imediatamente; indetectável, completar o tempo recomendado; detectável ou sem exame, completar o tempo restante acrescido de 4 semanas.
Brasil, Ministério da Saúde, PCDT Hepatite C e Coinfecções, 2026, seção 13.3
As duas regras são do Ministério da Saúde e valem para a mesma pessoa, e a do protocolo é cinco meses e meio mais nova — decide a data, e a coerência confirma, porque a nota deixa uma faixa sem conduta. Esta apostila adota o protocolo: quem parou antes de completar o primeiro mês, por mais de 7 dias, retoma e colhe a carga viral no mesmo dia, qualquer que seja a duração da pausa. As outras faixas são idênticas nos dois documentos. A dispensação do tratamento inteiro de uma vez, que os dois recomendam, é o que torna essa situação rara.
O raciocínio, em voz alta
Terça-feira, 14h30, a mesma unidade. Heráclito Penna, 63 anos, 70 quilos, pedreiro aposentado, veio trazer os exames pedidos na alta de uma internação de catorze meses atrás, quando vomitou sangue e fez ligadura de varizes do esôfago; usa propranolol desde então. O resumo de alta diz “cirrose a esclarecer; anti-HCV reagente — encaminhar”, e o encaminhamento nunca saiu. Hoje ele traz: HCV-RNA detectável, 380.000 UI/mL; aspartato aminotransferase 68 U/L, com limite de 40; alanina aminotransferase 52 U/L; plaquetas 102.000/mm³; bilirrubina total 1,6 mg/dL; albumina 3,6 g/dL; RNI 1,3; HBsAg, anti-HBc total e anti-HBs não reagentes; teste rápido de HIV não reagente. Ao exame, está sem ascite, sem icterícia e orientado, com o baço palpável a dois dedos do rebordo costal.
o que eu vejo antes de fazer conta
Um homem que já descompensou — sangrou de varizes —, com baço palpável e plaquetopenia. Antes de qualquer escore, ele tem cirrose clínica, e a hepatite C ativa é a causa que ninguém tratou. O resumo de alta escreveu a hipótese certa e parou no mesmo lugar em que parou o teste de Dorival: sem o passo seguinte.
o que o APRI diz — e o que o quadro não diz
APRI = (68 ÷ 40) ÷ 102 × 100 = 1,67. No Quadro 8 do protocolo, esse valor não cabe em classe nenhuma: a zona cinzenta vai até 1,49 e a alta probabilidade começa em 2,0. A regra do texto resolve, porque todo APRI a partir de 1 pede avaliação adicional e serviço especializado — e aqui o escore nem é o que decide, porque a cirrose já é clínica. O FIB-4, (63 × 68) ÷ (102 × √52) = 5,82, só confirma a direção.
compensada ou descompensada
Hoje ele soma bilirrubina menor que 2 mg/dL (1 ponto), albumina acima de 3,5 g/dL (1), RNI menor que 1,7 (1), ausência de ascite (1) e de encefalopatia (1): Child-Pugh A5. Mas sangrou de varizes há catorze meses, e o protocolo chama de compensada a cirrose sem evento de descompensação atual ou prévio. Para o antiviral, Heráclito é um paciente com histórico de descompensação.
onde ele é tratado e com quê
Com APRI acima de 1 e cirrose, o lugar é o serviço especializado. O esquema é sofosbuvir/velpatasvir, sem inibidor de protease e sem ribavirina, por 24 semanas — a leitura que esta apostila adota para quem já descompensou, porque o rótulo “Child A” dos quadros contradiz a definição do próprio protocolo e a nota técnica de 2025 escreve o histórico de descompensação por extenso. O encaminhamento leva, por escrito, a data do sangramento e a ligadura.
o que a unidade faz antes de ele sair
A notificação, que nunca foi feita, é preenchida agora. HBsAg, anti-HBc total e anti-HBs não reagentes dispensam o monitoramento da hepatite B durante o antiviral, mas mostram que ele é suscetível: entra a vacina contra hepatite B, que na doença hepática avançada o protocolo admite em dose dobrada, com o esquema de Hepatite B e de O cartão que ninguém pede. O anti-HAV IgG é pedido, e a lista de remédios vai conferida na base de interações. A ultrassonografia com alfafetoproteína, que o quadro de pré-tratamento pede para a pessoa com cirrose, sai no mesmo dia.
o que muda depois da cura
Se a carga viral de 12 semanas após o fim vier indetectável, Heráclito está curado e continua cirrótico. Não recebe alta: ultrassonografia com alfafetoproteína a cada seis meses, por tempo indeterminado, no serviço especializado, e a endoscopia segue a régua de Antes de sangrar, é só um exame. Se as plaquetas se recuperarem e a elastografia cair depois da cura, ele pode ser poupado de repetir a endoscopia; nunca da ultrassonografia.
o que eu levo deste caso
Três coisas. O APRI que cai no buraco do quadro não fica sem conduta: a partir de 1, a regra do texto manda investigar. A duração do sofosbuvir/velpatasvir se decide pela história de descompensação, não só pelo Child-Pugh do dia. E o cirrótico com hepatite C ativa é tratado e vigiado ao mesmo tempo.
Faça você
Sexta-feira, 8h50, retorno da profilaxia pré-exposição na mesma unidade. Ivanildo Cirino, 34 anos, analista de sistemas, usa PrEP há três anos. Em 2024 teve hepatite C, tratou com sofosbuvir e daclatasvir por doze semanas e teve carga viral indetectável doze semanas depois do fim, registrada no prontuário. O teste rápido de anti-HCV da rotina de hoje saiu reagente, e a técnica de enfermagem pergunta se ele precisa ser encaminhado de novo. Ele conta duas parcerias novas nos últimos seis meses, uma delas com sangramento durante a relação. Os testes rápidos de HIV e sífilis de hoje são não reagentes.
o que eu já sei
Ele teve cura documentada: carga viral indetectável doze semanas depois do fim do tratamento. O anti-HCV de quem foi curado continua reagente por tempo indeterminado, então o teste rápido de hoje não acrescenta informação — nem de reinfecção, nem de ausência dela.
o que eu não sei e preciso saber
Se o vírus voltou. Há exposição nova e com sangue, e a única pergunta útil é se há RNA do vírus no sangue agora.
o que o resultado vai decidir
Se o RNA vier detectável, não é falha do tratamento de 2024, porque a cura estava documentada: é reinfecção. Falta dizer qual exame pedir hoje, como tratar se vier detectável e o que muda no seguimento dele daqui para a frente.
Ver como fecharíamos
O exame é o HCV-RNA quantitativo, colhido hoje; o anti-HCV não serve para quem já foi curado. Se vier detectável, é reinfecção, e o tratamento é o do primeiro tratamento, escolhido pelo estadiamento atual — com APRI menor que 1, sem sinal de cirrose e sem condição de encaminhamento, sofosbuvir e daclatasvir por 12 semanas na unidade —, e não o retratamento com sofosbuvir/velpatasvir/voxilaprevir, que é para falha. Antes de começar, refaz-se o painel: hepatite B com HBsAg e anti-HBc total, função hepática, plaquetas para o APRI e a lista de medicamentos na base de interações. A conversa de prevenção volta sem julgamento — preservativo, testagem regular para HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis, profilaxia pós-exposição quando houver exposição de risco —, e o seguimento dele para hepatite C passa a ser pelo HCV-RNA, semestral ou anual, e não pelo anti-HCV. Se vier indetectável, ele segue curado, com a mesma troca de exame no seguimento.
O anti-HCV é marcador de contato com o vírus e continua reagente por toda a vida, com ou sem infecção ativa; quem separa infecção passada de ativa é o HCV-RNA, ou o antígeno do core, que o protocolo de 2026 manda pedir diante de todo anticorpo reagente. Teste rápido e imunoensaio laboratorial são equivalentes, e o teste rápido reagente dispensa confirmação com outro ensaio de anticorpo. Para a vigilância, o anticorpo reagente já define caso e é notificado. Tratar sem carga viral trata quem pode não ter vírus; tranquilizar sem carga viral perde quem tem.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Explique a diferença entre anti-HCV reagente e infecção ativa confirmada por HCV-RNA. Compare teste positivo sem viremia com viremia detectável e diga a próxima etapa em cada caso. Depois descreva por que avaliar cirrose, descompensação, hepatite B, função renal e interações antes de escolher o esquema. Consulte o PCDT de 2026 citado para conferir tratamento e seguimento, sem tentar reconstruir todas as regras de dispensação de memória.
Em 30 dias
Refaça o caso de Heráclito comparando doença compensada e antecedente de descompensação. Explique o que muda no local do cuidado, na escolha do antiviral e na vigilância após a cura. Planeje uma consulta que identifique barreiras para confirmar viremia e iniciar tratamento, sem atribuir falta de adesão antes de perguntar. Termine registrando a data da avaliação de resposta virológica e esclarecendo que anti-HCV pode permanecer reagente após a cura e que reinfecção continua possível.
Agora atenda
Um homem de quase 60 anos, hipertenso e diabético, chega à unidade para a consulta de rotina e tem no prontuário um teste rápido reagente para hepatite C de dois anos atrás, sem nenhum exame depois. Ele acha que é coisa antiga. Atenda: explique o que o anticorpo significa, peça o exame que confirma a infecção, monte o painel de antes do tratamento, calcule o escore que escolhe o esquema e decida onde e com o que ele será tratado.
