Clínica Médica › Gastroenterologia
Não ter nada não é diagnóstico
Síndrome do intestino irritável e diarreia crônica
A síndrome do intestino irritável é um diagnóstico positivo, feito na atenção primária com exames baratos e uma lista de alarme conferida — não o que sobra depois de três parasitológicos, dois antibióticos e uma colonoscopia normal. E a diarreia crônica que não tem esse padrão pede uma investigação em degraus que começa por onde o protocolo de regulação não começa: a doença celíaca.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 8, de 23 de junho de 2025 — aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença Celíaca.
TelessaúdeRS-UFRGS; Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul. Protocolos de Regulação Ambulatorial: Gastroenterologia adulto. 3ª ed. Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS; 2025 (revisão de 27 de janeiro de 2025).
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Homem de 27 anos, morador de área com saneamento precário, tem diarreia sem dor há sete semanas, com piora depois de laticínios. Os exames iniciais da unidade — incluindo antitransglutaminase IgA com IgA total — vieram normais, e o parasitológico em três amostras foi negativo. Seguindo o protocolo de regulação do TelessaúdeRS de 2025 para a diarreia crônica na atenção primária, qual é o próximo passo?
O paciente que você vai ver
Sexta-feira, uma e cinquenta da tarde, sala 4 de uma unidade de saúde da família numa cidade de porte médio. A enfermeira deixa na sua mesa, antes do primeiro paciente do turno, uma folha impressa com um carimbo vermelho no canto: encaminhamento devolvido pela regulação. O pedido, escrito há dois meses por um colega que já saiu da unidade, tinha uma linha só — "SII? Solicito colonoscopia" — e a devolução tem três: faltam a descrição dos sintomas, os exames laboratoriais e a pesquisa de sinais de alarme. A paciente está na sala de espera. Veio saber da colonoscopia.
Florentina Leal tem 31 anos e é professora de educação infantil. Pesa 58 quilos na balança do corredor, a mesma cifra anotada no prontuário há dois anos. Senta, põe a bolsa no colo e começa pelo fim: "Eu só quero saber se não é nada grave". Há dois anos ela tem uma dor em cólica na parte baixa da barriga que alivia quando consegue ir ao banheiro. Tem semanas de fezes pastosas, três ou quatro vezes por dia, e semanas de fezes duras, em bolinhas, com esforço. À tarde a barriga incha a ponto de ela trocar de calça. Piora nas semanas de reunião de pais e melhora nas férias de julho.
O prontuário conta o resto em cinco atendimentos. Três parasitológicos de fezes, todos negativos. Dois ciclos de metronidazol e um de ciprofloxacino, cada um prescrito numa volta da diarreia, cada um com melhora de alguns dias que ela atribuiu ao remédio. Uma caixa de butilescopolamina que ela compra na farmácia e toma quando a cólica aperta. Nenhuma anotação de peso depois da primeira consulta, nenhuma pergunta registrada sobre sangue nas fezes, sobre acordar à noite para evacuar ou sobre câncer na família. Nenhum hemograma. Nenhuma sorologia para doença celíaca. E nenhuma frase que diga a ela o que ela tem.
Você pergunta pela família e ela responde rápido, porque é o que a assusta: uma tia morreu de câncer de intestino aos 72 anos. Tia é parente de segundo grau, e isso vai importar daqui a pouco, mas agora importa mais que ela tenha pensado nisso em cada uma das cinco consultas sem que ninguém tenha perguntado. Ela dorme mal há meses. Leu na internet que pode ser glúten e tirou o pão por uma semana, sem diferença que tenha notado, e voltou a comer. Não viu sangue nas fezes. Não acorda à noite para evacuar. A menstruação é regular e a dor não acompanha o ciclo.
O que está na sua mesa é a forma mais comum de um problema que atravessa a atenção primária: uma queixa intestinal crônica tratada como uma sucessão de episódios agudos. Cada atendimento resolveu a semana — um antimicrobiano, um antiespasmódico, um retorno se não melhorar — e nenhum olhou para os dois anos. O rótulo de intestino irritável apareceu no último pedido com um ponto de interrogação, e o ponto de interrogação diz tudo: o colega pensou no diagnóstico e não teve coragem de dá-lo sem uma colonoscopia normal na mão.
É justamente essa coragem que a síndrome do intestino irritável exige, e ela não vem de exame de imagem. Vem de três perguntas feitas em ordem. O padrão dos sintomas é o da síndrome? Existe algum sinal que a síndrome não explica? Os exames simples que excluem as doenças capazes de imitá-la estão normais? Se as três respostas forem sim, não e sim, o diagnóstico é positivo, dado em voz alta, no consultório — e a colonoscopia, numa mulher de 31 anos sem alarme, deixa de ser pedido e passa a ser erro.
A regulação devolveu o encaminhamento pelos motivos certos, embora não tenha dito o principal. Florentina não precisa de uma fila de meses para um exame que não vai mudar a conduta. Precisa de uma consulta que recomece do zero, de uma lista de exames baratos que ninguém pediu, de um diário das fezes por três semanas e de alguém que, no retorno, diga o nome do que ela tem e o que se faz com isso. Este capítulo é essa consulta — e é também a outra, a do paciente cuja diarreia crônica não tem o padrão da síndrome e que precisa exatamente do contrário: ser investigado em vez de tranquilizado.
Quem adoece disso
O tamanho da síndrome do intestino irritável depende da régua usada para medi-la, e essa é a primeira coisa que o interno precisa saber sobre os números. A revisão sistemática de 2012 citada pela diretriz britânica reuniu 260.960 pessoas de 81 países e chegou a uma prevalência global de 11%, qualquer que fosse a definição — com estudos isolados indo de 1,1%, no Irã, a 45%, no Paquistão, conforme o critério aplicado. A revisão da Rome Foundation de 2017 achou a mesma dispersão, de 1,1% na França e no Irã a 35,5% no México, com média de 8,8%.
A prova de que o critério faz a doença veio quando a Rome Foundation mediu tudo ao mesmo tempo. Num inquérito com 73 mil adultos de 33 países, a prevalência foi de 10,1% pelos critérios de Roma III e de 4,1% pelos de Roma IV — a mesma população, o mesmo questionário, e a síndrome encolheu para menos da metade só porque a régua passou a exigir dor, sem aceitar desconforto, ao menos uma vez por semana. A atualização da revisão sistemática confirmou a proporção: 9,2% com Roma III, em 53 estudos e 400 mil participantes, contra 3,8% com Roma IV, em seis estudos e mais de 80 mil pessoas. As duas razões dão 2,4 vezes.
Em 2026 a régua mudou de novo, e para o outro lado. Roma V voltou a aceitar desconforto ao lado da dor e baixou o limiar de frequência para três dias por mês, e a própria Rome Foundation apresenta a mudança como ampliação do alcance diagnóstico no ponto de atendimento. Os números de prevalência que o aluno encontra nas diretrizes em uso foram medidos com Roma III ou Roma IV; lidos à luz de Roma V, são um piso, não um teto. O que não muda com a régua é o perfil de quem tem a síndrome.
Ela é mais comum em mulheres — razão de chances de 1,46 na revisão com Roma III e de 1,8 no inquérito global com Roma IV — e fica menos frequente com a idade: no inquérito da Rome Foundation, a prevalência foi maior entre 18 e 39 anos e caiu nas faixas seguintes, pelos dois critérios. A síndrome típica é de adulto jovem, e isso tem consequência prática que este capítulo vai usar: sintoma intestinal que começa depois dos 50 anos é, pela epidemiologia, um candidato menos provável a intestino irritável — e mais provável a outra coisa. Florentina, com 31 anos e dois anos de queixa, está no centro da curva.
O peso da síndrome não está na mortalidade, que a diretriz britânica chama de desprezível, e sim no trabalho e no consumo de cuidado. Um em cada quatro pacientes relata faltas por causa dos sintomas e até 80% relatam trabalhar com rendimento reduzido; os custos diretos e indiretos chegam a 8 bilhões de euros por ano na Europa e passam de 10 bilhões de dólares nos Estados Unidos. A síndrome responde por pelo menos 10% das consultas ambulatoriais de gastroenterologia. E muita gente convive com os sintomas por anos antes de procurar atendimento — e o medo de uma doença grave está entre os motivos que, um dia, levam à consulta.
Os dois documentos brasileiros que governam este capítulo — o protocolo de regulação do Rio Grande do Sul e o PCDT da doença celíaca — não trazem número de prevalência da síndrome do intestino irritável. Trazem, em compensação, o número que mais muda a conduta na diarreia crônica do adulto brasileiro. O PCDT de 2025 registra soroprevalência global da doença celíaca de 1,4% e prevalência confirmada por biópsia de 0,7%; na América do Sul, 1,3% e 0,3%. A distância entre as duas cifras é o dobro no mundo e mais de quatro vezes na América do Sul, e o que separa uma da outra é a biópsia que precisa ser feita.
Os estudos brasileiros reunidos no protocolo dão a medida local: em São Paulo, entre 1 a cada 214 e 1 a cada 286 pessoas; em Ribeirão Preto, 1 a cada 273; no Sul, 1 a cada 417; em Brasília, 1 a cada 681; e em Recife, 9 casos em 1.074 pessoas, o que equivale a 1 a cada 119. Convertido para a lista de uma equipe, é algo entre uma e oito pessoas celíacas por mil. O protocolo acrescenta duas coisas: a prevalência em crianças (0,9%) é maior que em adultos (0,5%), diferença que ele atribui em parte à dificuldade de diagnosticar o adulto, e a doença é considerada subdiagnosticada no país. O diagnóstico precoce, segundo o mesmo texto, reduz em 29% os custos de tratamento do ano seguinte e em 39% o custo médico total.
A soma dos dois lados explica o recorte deste capítulo. A síndrome do intestino irritável é frequente, jovem, feminina, benigna e cara quando mal conduzida; a doença celíaca é bem mais rara, igualmente capaz de produzir cólica, distensão e diarreia, e pode passar despercebida justamente no adulto que recebe o rótulo de intestino irritável sem ter feito a sorologia. O PCDT põe a síndrome do intestino irritável na lista de indicações de rastreamento sorológico. Nos cinco atendimentos de Florentina, esse exame nunca foi pedido.
Por que acontece o que acontece
A síndrome do intestino irritável deixou de ser chamada de distúrbio funcional. A diretriz britânica de 2021 já a tratava como distúrbio da interação intestino-cérebro, e o artigo de Roma V sobre os distúrbios intestinais abre dizendo que eles eram "anteriormente chamados" de funcionais — a Rome Foundation declara ter reduzido o termo em favor de linguagem fisiologicamente precisa. A troca de nome não é cosmética. "Funcional" soava como "não há nada", e é dessa frase que sai a colonoscopia pedida para provar que há. O modelo atual é biopsicossocial: predisposição genética e epigenética, infecção intestinal prévia e adversidade precoce aumentam o risco; estresse crônico, crenças negativas sobre os sintomas e formas pouco adaptativas de lidar com eles aumentam a frequência e a intensidade das crises; e, em parte dos pacientes, o sofrimento psicológico é consequência dos sintomas, e não causa.
Um dos mecanismos centrais é a hipersensibilidade visceral. Entre 20% e 60% dos pacientes percebem com mais intensidade estímulos que o intestino de qualquer pessoa recebe — distensão, contração, gás —, e a sensibilidade acompanha a gravidade dos sintomas mesmo depois de descontada a tendência a relatar queixas e a comorbidade psicológica, em coortes da Suécia, da Bélgica e dos Estados Unidos. O presidente da Rome Foundation descreve o experimento que torna isso visível: dados os mesmos carboidratos fermentáveis a voluntários saudáveis e a pacientes, a ressonância mostra a mesma distensão do delgado, a mesma fermentação e o mesmo acúmulo de gás nos dois grupos — só os pacientes têm sintomas. O estímulo é igual; o que muda é a via que o percebe. Cerca de 20% dos pacientes estão no extremo oposto, pouco sensíveis à distensão, mais frequentemente os de predomínio de constipação.
A percepção passa pelo cérebro e é modulada por ele. Os sintomas nascem de sinais do intestino e da memória desses sinais, e são amplificados por emoção (ansiedade, depressão), por cognição (atenção, crença, expectativa) e por motivação. Nos estudos de ativação cerebral, regiões de processamento cognitivo, emocional e autonômico respondem de modo alterado a estímulos viscerais, compatível com hipervigilância e ansiedade específica em relação ao sintoma; parte dos pacientes tem a inibição central desses estímulos comprometida. O sistema nervoso autônomo fecha o circuito: há redução da atividade parassimpática e aumento da simpática, e o tônus vagal reduzido pelo estresse altera motilidade e sensibilidade. É por isso que modular a atividade das regiões cerebrais ligadas à dor visceral melhora os sintomas — e é por isso que a explicação dada no consultório, o tricíclico em dose baixa e a terapia cognitivo-comportamental agem sobre o mesmo alvo.
A motilidade explica menos do que parece. O trânsito colônico está alterado em só 10% a 20% dos pacientes com predomínio de constipação ou padrão misto, e em 25% a 45% dos que têm predomínio de diarreia. Quando está alterado, a direção é a esperada — contrações propagadas de alta amplitude reduzidas e trânsito lento na constipação, aumentadas e trânsito rápido na diarreia, com serotonina alta na forma diarreica e baixa na constipante. Mas o trânsito se correlaciona com a forma das fezes, e em menor grau com a frequência; dor, sensação de inchaço e flatulência quase não se correlacionam com ele. Daí duas consequências clínicas. A escala de Bristol mede o que o trânsito faz, e é ela que define o subtipo. E a loperamida, que aumenta a reabsorção de água e alonga o trânsito, melhorou a frequência e a consistência das fezes sem efeito demonstrado sobre o conjunto dos sintomas nos dois ensaios que a diretriz reuniu, com 42 pacientes.
Uma parte dos casos tem data de início: a síndrome pós-infecciosa, que começa depois de uma gastroenterite por bactéria, vírus ou parasita. Nela, e na forma diarreica em geral, há inflamação de baixo grau, barreira epitelial mais permeável e aumento de mastócitos na mucosa do cólon descendente, do retossigmoide e do delgado — o achado histológico mais consistente da síndrome. A permeabilidade aumentada acompanha a sensibilidade visceral e a gravidade. A microbiota participa: infecção desencadeia a síndrome, e o uso de antibiótico já foi associado tanto ao aparecimento quanto à melhora dos sintomas. Mas não há evidência conclusiva de um perfil de microbiota próprio da síndrome. A melhora de alguns dias que Florentina teve depois de cada metronidazol não prova infecção e não autoriza o próximo ciclo.
A doença celíaca produz sintomas parecidos por um mecanismo inteiramente diferente, e por isso a sorologia não é opcional. O PCDT de 2025 descreve a sequência: em pessoas com genes que codificam HLA-DQ2 ou HLA-DQ8, peptídeos do glúten — a fração proteica do trigo, do centeio e da cevada — são reconhecidos por linfócitos T CD4+, que liberam citocinas inflamatórias e lesam a mucosa do delgado; em seguida, linfócitos B passam a produzir o anticorpo antitransglutaminase tecidual IgA (tTG-IgA), ao lado dos antiendomísio e antigliadina deaminada. Duas propriedades desse anticorpo decidem a investigação inteira. Ele depende da ingestão de glúten — quem retira o glúten por meses vê o título cair —, e ele é da classe IgA, de modo que a deficiência de IgA produz resultado falso-negativo. A lesão da mucosa, por sua vez, explica o que a síndrome do intestino irritável nunca explica: anemia ferropriva, perda de peso, osteoporose.
As outras causas de diarreia crônica que a atenção primária resolve têm mecanismos simples. Na intolerância à lactose, o açúcar do leite que não é absorvido no delgado chega ao cólon, retém água por efeito osmótico e é fermentado, com dor, flatulência e diarreia depois dos laticínios — por isso o protocolo gaúcho usa como teste diagnóstico a melhora com três semanas de exclusão e o retorno dos sintomas na reintrodução. Na giardíase, a infecção do delgado produz náusea e sensação de estufamento. No hipertireoidismo, o trânsito acelera. E na síndrome do intestino irritável com hipersensibilidade, a carga de carboidratos fermentáveis que um intestino comum tolera é percebida como dor: é a lógica da dieta pobre em FODMAP, que a diretriz britânica reserva para a segunda linha, conduzida por nutricionista e com reintrodução dos alimentos conforme a tolerância.
O tratamento segue os mecanismos, e isso ajuda a explicar ao paciente por que ele recebe o que recebe. A fibra solúvel — o psyllium, que na Rename se chama plantago — forma gel, regula a consistência nos dois sentidos e melhora dor e sintomas globais; a fibra insolúvel do farelo de trigo pode piorá-los, e num intestino que sente mais qualquer acréscimo de volume e gás pesa mais. O óleo de hortelã-pimenta relaxa a musculatura lisa. O tricíclico em dose baixa, que não é a dose de tratar depressão, age sobre as vias da dor visceral, e o seu efeito anticolinérgico lentifica o trânsito — o que ajuda quem tem diarreia e atrapalha quem tem constipação. A terapia psicológica atua na hipervigilância e na ansiedade ligada ao sintoma. E a explicação clara do diagnóstico, que a diretriz britânica recomenda com força, não é cortesia: é a primeira intervenção sobre um circuito em que expectativa e medo aumentam o sinal.

Como se apresenta de verdade
Quem chega com queixa intestinal crônica chega com duas perguntas, e o interno precisa responder a elas nesta ordem: há quanto tempo, somando tudo, e com que padrão. A duração decide se o problema é deste capítulo; o padrão decide se o caminho é o do diagnóstico positivo da síndrome do intestino irritável ou o da investigação de uma diarreia crônica que a síndrome não explica. As seis seções abaixo são os recortes que separam um caminho do outro, e todas cabem numa primeira consulta bem feita.
Quatro semanas: quando a diarreia passa a ser crônica
O protocolo de regulação gaúcho de 2025 define diarreia crônica como a que dura mais de quatro semanas, e é com esse corte que ele manda encaminhar à gastroenterologia a diarreia que a atenção primária não consegue diagnosticar ou tratar. É a régua deste capítulo. O Caderno de Atenção Básica nº 28, do Ministério da Saúde, divide a diarreia em aguda (menos de 14 dias), persistente (14 dias ou mais) e crônica (mais de 30 dias); as réguas de 30 dias e de quatro semanas marcam a mesma fronteira, com dois dias de diferença, e nenhuma decisão muda entre elas. A diarreia aguda é do capítulo Diarreia aguda infecciosa e reidratação, desta apostila, que cede a investigação da diarreia persistente e da crônica; este capítulo assume as duas. Na persistente, entre duas e quatro semanas, cabem desde já a lista de alarme, a hidratação e o parasitológico, e o painel completo da seção de investigação entra quando a diarreia passa de quatro semanas — leitura desta apostila para uma faixa em que o protocolo gaúcho não fixa exames.
Existe outro corte circulando no mesmo nível, e o aluno vai encontrá-lo: seis semanas. É o do PCDT da doença de Crohn, que o capítulo de doenças inflamatórias intestinais usa para separar a hipótese inflamatória da diarreia aguda infecciosa. As duas réguas não brigam, porque respondem a perguntas diferentes. Quatro semanas diz que a diarreia deixou de ser um episódio e passou a pedir investigação; seis semanas é um dos elementos que, somados a sangue, perda de peso e despertar noturno, fazem pensar em doença inflamatória intestinal.
O dado difícil é a própria duração. Pouca gente chega dizendo "quatro semanas": chega dizendo "de novo". Florentina contava a queixa pelos episódios que a trouxeram à unidade, e cada atendimento contou o tempo a partir do último. Pergunte quando foi a última vez que o intestino funcionou como antes, por um mês inteiro, e some. E pergunte pela forma das fezes, não pelo número de evacuações: para a síndrome do intestino irritável, o que define diarreia e constipação é a consistência nos dias em que as fezes estão alteradas, registrada na escala de Bristol — três evacuações formadas por dia não são diarreia, e uma evacuação líquida por dia pode ser.
O padrão da síndrome: dor ou desconforto que acompanha o hábito intestinal
O centro da síndrome do intestino irritável é um sintoma abdominal recorrente que conversa com o intestino. Pela descrição da Rome Foundation para Roma V, publicada em 2026, esse sintoma pode ser dor ou desconforto — o desconforto, retirado em Roma IV, voltou —, sempre relacionado ao hábito intestinal. A diretriz britânica descreve a relação do jeito que se pergunta no consultório: o paciente percebe o elo entre a dor e a alteração do intestino; a dor alivia ou piora com a evacuação, ou acompanha no tempo as mudanças do hábito, e é pior quando ele está mais constipado ou quando a diarreia piora.
Roma V trouxe duas cláusulas novas, e as duas servem para não chamar de intestino irritável o que não é. A dor não pode ser contínua, do tipo que está lá dia após dia sem relação com o intestino: dor abdominal contínua aponta para a síndrome de dor abdominal centralmente mediada, que é outra entidade. E a dor não pode ser exclusiva ou predominantemente menstrual — a cláusula existe, segundo o presidente da Rome Foundation, para não perder endometriose. A dor que acompanha o ciclo é do capítulo de endometriose e do de dor pélvica crônica, da apostila de Ginecologia. O diagnóstico e o tratamento da síndrome do intestino irritável são deste capítulo; o diagnóstico diferencial ginecológico da dor pélvica crônica é do capítulo Dor pélvica crônica, da apostila de Ginecologia.
A frequência mudou de sentido. Roma IV pedia dor, em média, pelo menos uma vez por semana durante os três meses anteriores, e sintomas começados seis meses antes, no mínimo. Roma V baixou o limiar do critério de pesquisa para três dias por mês e separou formalmente o critério de pesquisa do critério clínico: no consultório, segundo o presidente da Rome Foundation, o critério clínico dispensa limiar de frequência e de duração e aceita que basta o sintoma incomodar, desde que o padrão esteja presente e não haja doença orgânica deixada para trás. Florentina, com dois anos de cólica que alivia com a evacuação e fezes que alternam de forma, preenche qualquer uma das duas réguas.
A distensão abdominal não é exigida por critério nenhum, mas, quando está presente, a diretriz britânica a considera altamente sugestiva da síndrome, e costuma vir com aumento visível da circunferência abdominal — a calça que Florentina troca à tarde. Outros sintomas digestivos, quando presentes, merecem atenção própria na mesma consulta, sem que um exclua o outro.
Subtipo: a escala de Bristol nos dias alterados
O subtipo é definido pela forma predominante das fezes nos dias em que elas estão alteradas, e a régua que a diretriz britânica reproduz de Roma IV é quantitativa. Tem predomínio de constipação quem tem ao menos 25% das evacuações nos tipos 1 ou 2 de Bristol e menos de 25% nos tipos 6 ou 7. Tem predomínio de diarreia quem tem ao menos 25% nos tipos 6 ou 7 e menos de 25% nos tipos 1 ou 2. Tem padrão misto quem passa de 25% nos dois extremos. E fica não classificado quem preenche a síndrome sem caber em nenhum dos três.
Na prática, o subtipo não se decide por lembrança. Decide-se com um diário de três semanas, em que o paciente anota, a cada evacuação, a forma pela escala e a presença de dor, sangue ou urgência. O diário faz três trabalhos de uma vez: classifica o subtipo, mostra os dias de sintoma do mês — o que Roma V passou a contar — e cria a linha de base contra a qual cada tratamento vai ser medido. O subtipo não é permanente; é o do período observado, e é revisto nos retornos, porque o tratamento da diarreia pode produzir constipação e vice-versa.
O subtipo separa a síndrome de duas categorias vizinhas que Roma V mantém próprias. Quando a constipação vem sem dor ou desconforto relacionado ao hábito, é constipação crônica; quando a diarreia vem sem dor, é diarreia funcional, e esta só se diagnostica depois de investigada como diarreia crônica (seção 5). A constipação do paciente internado é do capítulo Constipação, imobilismo e suas consequências; a constipação crônica do adulto ambulatorial segue sem dono no nível, e o degrau da atenção primária fica com este capítulo — dieta, fibra, laxante osmótico e encaminhamento sem melhora em doze semanas, como manda o protocolo gaúcho.
O que a síndrome não explica: os sinais de alarme
O diagnóstico positivo depende de uma lista conferida, não de uma impressão. A régua brasileira é o rodapé do protocolo gaúcho sobre suspeita de neoplasia maligna: sangramento intestinal crônico que não vem de doença orificial, anemia por deficiência de ferro sem causa definida depois de investigada na atenção primária, massa abdominal em topografia de cólon ou reto, alteração persistente do hábito intestinal, dor abdominal ou retal, tenesmo, febre persistente, emagrecimento e história familiar de neoplasia colorretal. Nove itens, ao todo.
Lida ao pé da letra, a lista tem um defeito que muda conduta, detalhado nas notas do bloco de critérios: dois dos nove itens — alteração do hábito e dor abdominal — são justamente os dois componentes com que o mesmo protocolo descreve a síndrome do intestino irritável, e o rodapé não fixa idade nem número mínimo de itens. Esta apostila adota uma leitura explícita. Conta como alarme qualquer item que a síndrome não produz — sangue não orificial, anemia ferropriva, massa, tenesmo, febre, emagrecimento medido, pai, mãe, irmão ou filho com câncer colorretal — e conta como alarme a alteração do hábito intestinal que é nova, ou que mudou de padrão, depois dos 50 anos. Dor e hábito alterado há anos, num adulto jovem, são a própria síndrome.
A idade de 50 anos não está no rodapé; é leitura desta apostila, e se apoia em três pontos abertos por este capítulo. A síndrome é mais frequente entre 18 e 39 anos e fica menos frequente depois. O mesmo protocolo gaúcho usa 50 anos como corte de alarme para a dispepsia de início recente. E a diretriz britânica lista a idade de 50 anos ou mais entre os fatores que mandam fazer colonoscopia no paciente com quadro de predomínio de diarreia, pela chance de colite microscópica. O rastreamento e o tratamento do câncer colorretal são do capítulo Câncer colorretal, da apostila de Coloproctologia; este capítulo fica com o sinal de alarme que indica a colonoscopia.
A diretriz britânica acrescenta à lista brasileira os traços atípicos que não são câncer, mas também não são intestino irritável. Diarreia que acorda o paciente à noite, ou que acontece em quem já fez colecistectomia, faz pensar em diarreia por ácidos biliares. E um conjunto de fatores aumenta a chance de colite microscópica: sexo feminino, idade de 50 anos ou mais, doença autoimune associada, diarreia noturna ou aquosa e intensa, diarreia com menos de 12 meses de duração, perda de peso e uso de medicamentos que a precipitam, como anti-inflamatórios não esteroides e inibidores da bomba de prótons.
Na história familiar, pergunte o grau e a idade. A tia de Florentina, com câncer de intestino aos 72 anos, é parente de segundo grau, e o quadro de rastreamento do protocolo gaúcho trata de parentes de primeiro grau. Isso não torna a pergunta inútil — muda o que se faz com a resposta. Pai, mãe, irmão ou filho com câncer colorretal ou com doença celíaca mudam a investigação; a tia, não, e dizer isso a Florentina com a razão é parte do tratamento.
A diarreia que não dói
A diarreia crônica sem dor relacionada ao hábito não é síndrome do intestino irritável por definição, e é o recorte em que a atenção primária mais erra para o lado da tranquilização. Ela tem causas que se resolvem na unidade e causas que precisam de endoscopia, e o protocolo gaúcho descreve as mais frequentes pelo que cada uma costuma mostrar. As parasitoses dão sintomas inespecíficos, em morador de área endêmica, às vezes com eosinofilia; a giardíase, náusea e estufamento. A intolerância à lactose dá dor, flatulência, náusea e diarreia depois de alimento com lactose. A doença inflamatória intestinal dá emagrecimento, febre, pus ou sangue nas fezes, tenesmo, artrite, anemia e provas inflamatórias alteradas. A síndrome de má absorção dá emagrecimento, desnutrição, hipoalbuminemia, edema e deficiências de ferro, vitamina D e vitamina B12.
A essa lista, três exames baratos do mesmo protocolo acrescentam causas sistêmicas: o TSH procura o hipertireoidismo, a glicemia procura o diabetes e o teste de HIV procura a infecção que muda a investigação inteira. O hipertireoidismo é do capítulo Bócio, hipertireoidismo e indicações de tireoidectomia; o diagnóstico e o seguimento do HIV são do capítulo Infecção pelo HIV/AIDS e infecções oportunistas, da apostila de Infectologia. A diarreia persistente ou crônica da pessoa vivendo com HIV tem investigação própria, voltada a agentes oportunistas, e segue sem dono neste nível; o que fica aqui é só a porta — o teste de HIV no painel de toda diarreia crônica e o encaminhamento ao serviço de referência com a diarreia descrita — e registra a lacuna. A lista de medicamentos em uso entra na mesma consulta, com atenção especial aos anti-inflamatórios e aos inibidores da bomba de prótons, que a diretriz britânica cita entre os precipitantes de colite microscópica.
Duas causas não aparecem no protocolo gaúcho e pesam na diarreia sem dor. A colite microscópica, como o nome diz, é diagnóstico de microscópio: o paciente com o perfil descrito na seção anterior precisa de colonoscopia com biópsias, mesmo que a mucosa pareça normal ao olho. E a diarreia por ácidos biliares, suspeitada na diarreia noturna ou pós-colecistectomia, depende de exame de atenção secundária. Nenhuma das duas se resolve na unidade, e ambas justificam o encaminhamento quando o perfil está presente.
A terceira causa que o protocolo gaúcho não cita é a mais importante para o adulto brasileiro, e tem seção própria: a doença celíaca. O PCDT de 2025 põe a diarreia crônica não sanguinolenta entre as situações em que a endoscopia com biópsia do duodeno está indicada mesmo quando a sorologia vem negativa. A diarreia que não dói, portanto, não termina com parasitológico negativo e teste de lactose: termina com o duodeno examinado, ou com uma causa encontrada antes disso.
Doença celíaca no adulto: a apresentação que engana
O PCDT da doença celíaca descreve três formas de apresentação, que não se excluem. A forma intestinal, dita clássica, tem dor abdominal sem causa aparente, flatulência, vômitos, constipação ou diarreia crônica, em geral com distensão e perda de apetite e de peso. A forma extraintestinal, não clássica, é mono ou oligossintomática, com sintomas digestivos ausentes ou em segundo plano: dermatite herpetiforme, osteoporose, anemia ferropriva, artrite, cefaleia, fadiga, alteração de enzimas hepáticas, mialgia, eventos adversos na gravidez, ciclo menstrual irregular, infertilidade e defeitos no esmalte dentário. E há a forma assintomática.
Duas coisas nessa descrição mudam a prática. A primeira é que a constipação está na forma intestinal: a doença celíaca não é só uma causa de diarreia, e a sorologia vale também para quem tem síndrome do intestino irritável com predomínio de constipação — o PCDT lista a síndrome, sem distinguir subtipo, entre as indicações de rastreamento sorológico. A segunda é que o adulto com anemia ferropriva, osteoporose ou aftas de repetição pode ter a doença sem queixa intestinal nenhuma — e o próprio PCDT aponta a forma não clássica entre as razões por que o diagnóstico escapa mais no adulto do que na criança.
O protocolo também define grupos de risco, em quem a pergunta vale mesmo sem sintoma: parentes de primeiro grau de celíacos, pessoas com doenças autoimunes — diabetes tipo 1, tireoidite autoimune, deficiência seletiva de IgA, hepatite autoimune, entre outras — e pessoas com síndromes de Down, Turner ou Williams. A doença celíaca no diabetes tipo 1 é do capítulo Diabetes mellitus tipo 1 e insulinoterapia, da apostila de Endocrinologia, que assume a indicação nesse paciente.
A doença celíaca como causa de diarreia crônica e de sintoma intestinal no adulto — a sorologia, a indicação de biópsia duodenal, a dieta isenta de glúten e o primeiro seguimento — não tinha dono neste nível, e este capítulo a assume. O que ele não assume é o manejo da doença complicada, refratária à dieta ou com suspeita de linfoma, que é da gastroenterologia e começa pelo encaminhamento.
Como fechar o diagnóstico
A investigação da queixa intestinal crônica na atenção primária tem um formato que se repete: uma consulta longa de história e exame, uma lista curta de exames escolhida pelo padrão, um diário e um retorno marcado. O que muda de um paciente para outro é a lista — e a lista de quem tem o padrão da síndrome sem alarme é bem menor que a de quem tem diarreia que não dói. As seis seções seguem a ordem em que as decisões aparecem.
A primeira consulta: o que se pergunta e o que se examina
A história tem três partes, e a primeira é o padrão. Duração somada; relação da dor ou do desconforto com a evacuação e com a mudança do hábito; dor contínua ou não; dor que acompanha ou não o ciclo menstrual; forma das fezes nos dias ruins; distensão. A segunda parte é a lista de alarme, perguntada item por item e escrita no prontuário, inclusive quando a resposta é não: sangue nas fezes, evacuação que acorda à noite, emagrecimento — conferido na balança e comparado ao peso anotado em consultas antigas, não perguntado —, febre, tenesmo, e a história familiar com grau de parentesco e idade.
A terceira parte é o contexto que muda o exame. Medicamentos em uso, com atenção a anti-inflamatórios e inibidores da bomba de prótons, e os antibióticos já recebidos pela mesma queixa. Relação dos sintomas com leite e derivados. Moradia ou viagem em área endêmica para parasitoses. Doença autoimune pessoal, deficiência de IgA conhecida, parente de primeiro grau celíaco. Colecistectomia prévia. Se o glúten foi retirado da dieta por conta própria — porque isso invalida a sorologia que vai ser pedida. E, por último, o que a diretriz britânica põe entre as habilidades essenciais do médico de família: esclarecer qual é a preocupação principal do paciente. No caso de Florentina, a tia com câncer era o motivo das cinco consultas.
O exame físico é curto e não é dispensável. Peso, sinais de anemia, mucosa oral (aftas de repetição estão entre as indicações de sorologia do PCDT), pele (a dermatite herpetiforme é manifestação da doença celíaca). O abdome é palpado à procura de massa e de dor localizada. E o toque retal entra, porque a diretriz britânica o reconhece como útil para afastar outros diagnósticos: ele confirma a consistência das fezes, identifica fecaloma, sugere contração paradoxal do assoalho ao esforço evacuatório e alcança lesões baixas do reto. Explique antes, peça consentimento, ofereça acompanhante.
Os exames da primeira consulta, pelo padrão
Para o adulto com diarreia crônica ou com o padrão da síndrome com diarreia, esta apostila adota o painel inicial do protocolo gaúcho somado a dois itens: hemograma, glicemia, TSH, teste de HIV, parasitológico de fezes em três amostras, coprocultura, pesquisa de leucócitos fecais e pesquisa de sangue oculto, como está no protocolo; mais a antitransglutaminase IgA com IgA total, que o PCDT da doença celíaca fixa como teste inicial, e a proteína C reativa, que a diretriz britânica pede e que o próprio protocolo gaúcho usa para reconhecer a doença inflamatória. O porquê dessa composição, e o que ficou de fora, está no bloco de divergências.
Para quem tem o padrão da síndrome com predomínio de constipação, sem diarreia, o painel de diarreia não se aplica. Pedem-se hemograma, proteína C reativa e a sorologia celíaca, e a lista de causas secundárias de constipação do protocolo gaúcho guia o resto: TSH e glicemia, porque hipotireoidismo e diabetes estão nela, e cálcio sérico, porque a hipercalcemia também está. A revisão dos medicamentos entra no mesmo movimento — anticolinérgicos, antidepressivos, anti-histamínicos, anticonvulsivantes, bloqueadores dos canais de cálcio, clonidina, diuréticos, ferro, anti-inflamatórios e opioides constipam.
Cada resultado tem uma leitura prática. Anemia ferropriva sem outra causa é alarme — leva à colonoscopia pelo protocolo gaúcho e à endoscopia com biópsia duodenal pelo PCDT —, e eosinofilia reforça parasitose. Proteína C reativa elevada, sangue oculto positivo ou leucócitos fecais presentes tiram o paciente do caminho da síndrome: o sangue manda para a colonoscopia, e a inflamação abre a hipótese de doença inflamatória intestinal, que é do capítulo de doenças inflamatórias intestinais desta apostila — a doença inflamatória intestinal, com diagnóstico, gravidade e tratamento, é daquele capítulo, e este fica com o sinal que manda para lá. TSH suprimido, glicemia de diabetes ou teste de HIV reagente mudam de capítulo e de conduta no mesmo dia.
A calprotectina fecal não está no painel do protocolo gaúcho nem no do PCDT. A diretriz britânica a pede na primeira consulta de quem tem menos de 45 anos e diarreia, para afastar doença inflamatória intestinal, e dá a leitura: abaixo de 100 µg/g é normal; entre 100 e 249 µg/g é limítrofe e deve ser repetida sem anti-inflamatório e sem inibidor da bomba de prótons, com encaminhamento se continuar alterada; a partir de 250 µg/g, encaminhamento com urgência. O exame não é específico — sobe com a idade a partir dos 45 anos, na obesidade, em infecção, em neoplasia e com esses mesmos medicamentos. Onde ele estiver disponível para o paciente, entra; o recorte da incorporação da calprotectina ao SUS é tratado no capítulo de doenças inflamatórias intestinais.
Florentina já tem três parasitológicos negativos no período dos sintomas, e repetir o exame não acrescenta o que a sorologia acrescenta. Esta apostila não pede quarta amostra a quem tem três recentes e negativas sem mudança de exposição — é leitura desta apostila, e não do protocolo, que não trata de repetição. O restante do painel é pedido hoje, junto com o diário.
A sorologia celíaca: como pedir, como ler e o que vem depois
O pedido tem duas linhas obrigatórias: tTG-IgA e IgA total, dosadas juntas, porque a deficiência de IgA torna a antitransglutaminase IgA falsamente negativa. E tem uma instrução ao paciente, fácil de esquecer: o PCDT pede que o rastreamento e o diagnóstico sejam feitos em vigência de dieta com glúten. Quem já tirou o glúten da alimentação precisa voltar a comê-lo antes do exame; o protocolo não fixa por quanto tempo, e esse prazo é conversado com o gastroenterologista quando o paciente já está há meses sem glúten. Florentina tirou o pão por uma semana e voltou a comê-lo, e, como o PCDT descreve a queda do título ao longo de meses de dieta, isso não compromete o exame de hoje; ainda assim, a orientação é escrita: coma normalmente até o resultado e até a biópsia, se ela vier.
Antitransglutaminase positiva leva à endoscopia digestiva alta com biópsia duodenal, que é o que confirma o diagnóstico — o PCDT diz que ele deve ser sempre confirmado por histologia. A biópsia tem requisitos, e o pedido deve lembrá-los: ao menos seis fragmentos, dois do bulbo e quatro da segunda porção do duodeno, em frascos separados e identificados. A ausência de alterações visíveis na endoscopia não dispensa a biópsia. A exceção descrita em diretrizes internacionais, que dispensa biópsia em parentes sintomáticos com título muito alto e antiendomísio positivo, é mencionada pelo PCDT, mas a regra do protocolo brasileiro continua sendo a confirmação histológica.
Antitransglutaminase negativa com IgA total normal torna a doença pouco provável. Acima de dois anos de idade não se pede antigliadina deaminada IgG — esse teste foi incorporado ao SUS só para crianças menores de dois anos. O adulto fica em vigilância; se os sintomas sugestivos persistirem e as outras doenças tiverem sido afastadas, o PCDT indica a endoscopia com biópsia para investigar doença celíaca soronegativa. E há um grupo em que a biópsia está indicada mesmo com sorologia negativa, desde o início: diarreia crônica não sanguinolenta, diarreia com má absorção ou perda de peso, anemia ferropriva sem outra causa, sintomas digestivos com parente celíaco, e sintomas digestivos em quem tem doença autoimune ou deficiência de IgA.
IgA total baixa invalida a antitransglutaminase IgA como exclusão, e o PCDT não oferece ao adulto um teste sorológico substituto: para quem tem sintoma digestivo e deficiência de IgA, a indicação é a biópsia duodenal. Duas coisas o protocolo manda não fazer. A genotipagem de HLA-DQ2 e HLA-DQ8 não foi incorporada ao SUS e não é recomendada para o diagnóstico. E a retirada do glúten é recomendação só para quem tem o diagnóstico — o protocolo registra que não há comprovação de que o glúten faça mal a quem não tem a doença.
Os dois testes terapêuticos do protocolo gaúcho, e o limite deles
O protocolo de regulação lista dois tratamentos empíricos para a diarreia crônica na atenção primária. O primeiro é o teste de restrição de lactose: a intolerância pode ser diagnosticada clinicamente pela melhora depois de três semanas sem leite e derivados, com retorno dos sintomas na reintrodução; o teste de absorção de lactose, onde houver, pode corroborar. O segundo é o tratamento de parasitoses com albendazol 400 mg ao dia por cinco dias — cinco comprimidos de 400 mg, apresentação que a Rename tem no Componente Básico. O tratamento específico de cada parasitose intestinal é do capítulo Esquistossomose e geo-helmintíases, da apostila de Infectologia; este capítulo fica com o parasitológico da investigação e com o albendazol empírico do protocolo gaúcho.
Os dois testes são ferramentas de uma vez, e só ensinam alguma coisa se forem feitos um de cada vez, com o diário das fezes aberto. Restrição de lactose iniciada na mesma semana do albendazol produz uma melhora que não se sabe a quem atribuir. E nenhum dos dois autoriza ciclos: o protocolo não lista antibiótico entre os tratamentos empíricos da diarreia crônica, e o metronidazol e o ciprofloxacino que Florentina recebeu três vezes não estão em nenhum dos documentos que governam este capítulo como tratamento da diarreia crônica sem diagnóstico. Na síndrome do intestino irritável, o único antibiótico que a diretriz britânica recomenda é a rifaximina, de segunda linha, na atenção secundária — e ela não consta da Rename.
O que não pedir
A diretriz britânica é explícita e dá a força das recomendações. Não há papel para a colonoscopia na síndrome do intestino irritável, a não ser diante de sinal de alarme ou do quadro de predomínio de diarreia com traços atípicos e risco de colite microscópica — recomendação forte, com evidência moderada. Numa mulher de 31 anos sem alarme, a colonoscopia não aumenta a segurança do diagnóstico: ocupa uma vaga que a regulação precisa para quem sangra ou emagrece, expõe a paciente a um procedimento invasivo e reforça a ideia de que o diagnóstico só vale depois de um exame normal.
Também não se pedem, no quadro típico, testes respiratórios para supercrescimento bacteriano ou intolerância a carboidratos, nem dosagem de elastase para insuficiência pancreática exócrina — recomendação forte; a diretriz explica que os testes respiratórios podem dar falso positivo na síndrome por causa do trânsito rápido. Dietas de exclusão guiadas por dosagem de anticorpos IgG contra alimentos não são recomendadas, também com força. A genotipagem de HLA não entra, pelo PCDT. E a radiografia de abdome só se considera quando a constipação predomina, para afastar retenção de fezes.
O que não se pede também inclui o que já foi pedido. Parasitológico repetido a cada volta da diarreia, coprocultura de rotina em quem tem constipação e sangue oculto no quadro sem diarreia não respondem pergunta nenhuma do paciente à frente. O painel é escolhido pelo padrão, uma vez, e o retorno é para ler o resultado, não para pedir o próximo.
Quando a endoscopia e a colonoscopia entram, e o encaminhamento que a regulação aceita
A colonoscopia entra por quatro portas: sinal de alarme, conforme a leitura adotada na apresentação; quadro de predomínio de diarreia com o perfil de risco de colite microscópica, com pedido explícito de biópsias; calprotectina de 250 µg/g ou mais, ou limítrofe que persiste na repetição; e suspeita de doença inflamatória intestinal. Quando a unidade não tem acesso direto ao exame, o protocolo gaúcho manda encaminhar a alteração de hábito com suspeita de neoplasia à gastroenterologia ou à proctologia. A endoscopia digestiva alta com biópsia duodenal entra pelas indicações do PCDT descritas acima.
O que fica na atenção secundária é o que a unidade não faz: a pesquisa de diarreia por ácidos biliares (cintilografia com SeHCAT ou dosagem sérica de 7α-hidroxi-4-colesten-3-ona), recomendada pela diretriz britânica no quadro de predomínio de diarreia com diarreia noturna ou colecistectomia prévia; os testes de fisiologia anorretal, quando há suspeita de distúrbio evacuatório ou incontinência e existe a opção de biofeedback; e a segunda linha de fármacos da síndrome. O protocolo gaúcho encaminha a diarreia crônica que não se consegue diagnosticar ou tratar na atenção primária, e a constipação sem melhora depois de doze semanas de tratamento otimizado.
O encaminhamento que a regulação aceita é o que responde, por escrito, ao que ela pergunta. O protocolo lista o conteúdo mínimo, e ele cabe em seis frases: a descrição dos sintomas, com número de evacuações, presença de muco, pus ou sangue, se são contínuos ou intermitentes e se há sintomas constitucionais, anemia ou emagrecimento; os tratamentos já feitos e os atuais; os resultados do painel de diarreia crônica, com data; o laudo de exame de imagem, se houver; a história familiar de câncer colorretal, com grau de parentesco e idade ao diagnóstico; e o laudo de endoscopia ou colonoscopia prévias. A folha de Florentina voltou porque tinha uma linha. Se um dia ela precisar ser encaminhada, a folha terá as seis.
As réguas deste capítulo: quem decide o diagnóstico, os exames, a biópsia e a prescrição — e onde os documentos se contradizem
Um diagnóstico positivo exige padrão de sintomas, avaliação proporcional e seguimento. A ausência de alterações em exames não significa ausência de doença nem prova, isoladamente, síndrome do intestino irritável. Procure sinais de alarme e hipóteses tratáveis, incluindo doença celíaca, e explique ao paciente por que o plano escolhido faz sentido. Quatro decisões deste capítulo têm dono diferente, e vale saber qual antes de ler as tabelas. Os exames da diarreia crônica na atenção primária e o encaminhamento têm régua brasileira escrita para a unidade: o protocolo de regulação gaúcho de 2025, documento estadual. A sorologia, a biópsia duodenal e a dieta da doença celíaca têm régua nacional: o PCDT de junho de 2025, que revogou o de 2015. O que o SUS fornece está na Rename 2024. O critério diagnóstico da síndrome do intestino irritável não aparece em nenhum dos documentos brasileiros que governam este capítulo — o protocolo gaúcho descreve a síndrome sem citar critério de Roma, e o PCDT só a nomeia —, e o tratamento farmacológico da síndrome também não está neles: para o critério, a régua é Roma V, de 2026; para o tratamento, a diretriz britânica de 2021, com as doses convertidas às apresentações da Rename. O fluxo abaixo junta as quatro réguas na ordem da consulta. As notas registram dois defeitos do protocolo gaúcho que mudam o que se faz: uma omissão e uma lista circular.
- 1Some a duração. Menos de 14 dias é diarreia aguda, do capítulo Diarreia aguda infecciosa e reidratação; de 14 dias a quatro semanas é persistente, e acima de quatro semanas é crônica — as duas são deste capítulo, e o painel completo entra a partir de quatro semanas.
- 2Classifique o padrão. Dor ou desconforto recorrente relacionado ao hábito intestinal, não contínuo e não exclusivamente menstrual, é o caminho da síndrome do intestino irritável; diarreia sem dor é o caminho da diarreia crônica; constipação sem dor é constipação crônica, com o degrau da atenção primária assumido aqui.
- 3Confira a lista de alarme item por item, pela leitura adotada: sangue não orificial, anemia ferropriva, massa, tenesmo, febre, emagrecimento medido, parente de primeiro grau com câncer colorretal, alteração de hábito nova depois dos 50 anos. Qualquer item: não rotule a síndrome, peça colonoscopia — ou encaminhe, se a unidade não tiver o exame — com o conteúdo mínimo que a regulação exige.
- 4Peça o painel pelo padrão. Diarreia: o painel do protocolo gaúcho mais tTG-IgA com IgA total e proteína C reativa; calprotectina onde houver, abaixo dos 45 anos. Constipação: hemograma, proteína C reativa, tTG-IgA com IgA total, TSH, glicemia e cálcio. Entregue o diário de Bristol por três semanas e oriente manter o glúten.
- 5tTG-IgA positiva, ou IgA total baixa com sintoma digestivo: endoscopia com biópsia duodenal, ao menos seis fragmentos (dois do bulbo, quatro da segunda porção), sem retirar o glúten antes do laudo.
- 6Padrão da síndrome, lista de alarme negativa e exames normais: dê o diagnóstico positivo em voz alta, defina o subtipo pelo diário e comece a primeira linha — explicação, exercício, dieta tradicional, plantago em dose baixa crescente, e, pelo subtipo, óleo de hortelã, loperamida ou laxante osmótico.
- 7Diarreia sem dor com exames normais: um teste terapêutico por vez (restrição de lactose por três semanas; albendazol 400 mg por cinco dias). Persistindo sem causa, endoscopia com biópsia duodenal, que o PCDT indica mesmo com sorologia negativa, e colonoscopia com biópsias se houver perfil de colite microscópica.
- 8Síndrome sem resposta suficiente à primeira linha: tricíclico em dose baixa na própria unidade, com titulação lenta. Dúvida diagnóstica, sintomas graves ou refratários, ou pedido do paciente: encaminhe. Sem melhora depois de 12 meses de fármaco: terapia psicológica. Constipação sem melhora em 12 semanas de tratamento otimizado: gastroenterologia.
Roma IV e Roma V lado a lado: o que mudou no critério da síndrome do intestino irritável
| Eixo | Roma IV (2016) | Roma V (2026) |
|---|---|---|
| Sintoma central | Dor abdominal recorrente | Dor ou desconforto abdominal recorrente |
| Frequência | Em média ao menos 1 dia por semana nos últimos 3 meses | 3 dias por mês no critério de pesquisa; sem limiar no critério clínico |
| Duração | Critério preenchido nos últimos 3 meses, com início há pelo menos 6 meses | Sem limiar no critério clínico; o critério de pesquisa mantém limiares |
| Relação com o intestino | Dois ou mais: relação com a evacuação, mudança de frequência, mudança da forma das fezes | Relação com o hábito intestinal mantida; redação literal no artigo de Roma V |
| Dor contínua | Sem cláusula própria | Excluída: dor contínua aponta para dor abdominal centralmente mediada |
| Dor ligada à menstruação | Sem cláusula própria | A dor não pode ser exclusiva nem predominantemente menstrual |
| Onde o aluno encontra | Tabela da diretriz britânica de 2021; artigos e questões anteriores a 2026 | Rome Foundation e artigo do comitê na Gastroenterology, 2026 |
Os exames da primeira consulta: o que cada documento pede e o que esta apostila adota
| Exame | Protocolo gaúcho, 2025 | PCDT da doença celíaca, 2025 | Diretriz britânica, 2021 | Esta apostila |
|---|---|---|---|---|
| Hemograma | Sim | — | Sim | Sim, em todos |
| Proteína C reativa ou VHS | Citada como marcador de doença inflamatória, fora do painel | — | Sim | Proteína C reativa em todos |
| tTG-IgA com IgA total | Não cita | Sim, simultâneas, em vigência de dieta com glúten | Sorologia celíaca em todos | Sim, em todos |
| TSH e glicemia | Sim | — | Não lista | Sim; na constipação, com cálcio |
| Teste de HIV | Sim | — | Não lista | Sim, na diarreia |
| Parasitológico em 3 amostras | Sim | — | Não lista | Sim, na diarreia; sem quarta amostra após três negativas recentes |
| Coprocultura e leucócitos fecais | Sim | — | Não lista | Sim, na diarreia |
| Sangue oculto nas fezes | Sim | — | Não usado de rotina na suspeita da síndrome | Sim, na diarreia |
| Calprotectina fecal | Não cita | — | Abaixo de 45 anos com diarreia | Onde houver, abaixo de 45 anos com diarreia |
| Colonoscopia | Suspeita de neoplasia sem acesso na unidade: encaminhar | — | Só com alarme ou perfil de colite microscópica | Pela lista de alarme adotada e pelo perfil de colite microscópica |
| Endoscopia com biópsia duodenal | Não cita | Sorologia positiva, ou grupo com biópsia mesmo sem sorologia positiva | — | Como no PCDT |
Doença celíaca na unidade: o que o PCDT de 2025 manda em cada situação
| Situação à frente | Conduta pelo PCDT | O que muda na prática da unidade |
|---|---|---|
| Síndrome do intestino irritável, qualquer subtipo, sem outro achado | Sorologia; biópsia só se positiva | Pedir tTG-IgA com IgA total antes de dar o diagnóstico |
| Diarreia crônica não sanguinolenta | Endoscopia com biópsia duodenal indicada mesmo com sorologia negativa | Painel e testes terapêuticos da unidade antes; persistindo sem causa, a sorologia negativa não encerra a investigação |
| Diarreia com perda de peso ou sinais de má absorção | Endoscopia com biópsia duodenal indicada mesmo com sorologia negativa | É também alarme: encaminhar sem esperar os testes terapêuticos |
| Anemia ferropriva sem outra causa | Endoscopia com biópsia duodenal indicada mesmo com sorologia negativa | Soma-se à colonoscopia do protocolo gaúcho |
| Sintoma digestivo com doença autoimune ou deficiência de IgA | Endoscopia com biópsia duodenal indicada mesmo com sorologia negativa | IgA total baixa invalida a tTG-IgA; o adulto não tem sorologia substituta no protocolo |
| Sintoma digestivo com história familiar de doença celíaca | Endoscopia com biópsia duodenal indicada mesmo com sorologia negativa | Perguntar por celíacos na família em toda primeira consulta |
| Paciente que já retirou o glúten | Rastreamento e diagnóstico em vigência de dieta com glúten | Reintroduzir antes do exame; o prazo não é fixado pelo protocolo |
| tTG-IgA positiva | Endoscopia com ao menos 6 fragmentos, 2 do bulbo e 4 da segunda porção, em frascos separados | Manter o glúten até a biópsia; não iniciar dieta antes do laudo |
Doses do capítulo convertidas às apresentações da Rename 2024, com o que fica fora dela
| Fármaco e origem da dose | Dose na fonte | Apresentação na Rename 2024 | Em unidades |
|---|---|---|---|
| Plantago (psyllium), diretriz britânica | Começar com 3 a 4 g/dia e subir aos poucos | Plantago ovata, 3 a 30 g/dia, pó para dispersão, granulado ou pó efervescente (Básico) | 3 g/dia é o piso da faixa da Rename; a quantidade por colher ou sachê depende do produto dispensado |
| Óleo de hortelã-pimenta, diretriz britânica | Sem dose fixada na diretriz | Mentha x piperita, cápsula, 60 a 440 mg de mentol por dia (Básico) | Posologia do produto dispensado, dentro da faixa diária da Rename |
| Amitriptilina, diretriz britânica | 10 mg à noite; subir de 10 em 10 mg até 30 a 50 mg | 25 e 75 mg, comprimido (Básico) | 10 mg = 0,4 comprimido de 25, inviável; 12,5 mg = meio; 25 mg = 1; 37,5 mg = 1 e meio; 50 mg = 2 |
| Nortriptilina, mesma classe na diretriz britânica | A diretriz dá a dose pelo exemplo da amitriptilina | 10, 25, 50 e 75 mg, cápsula (Básico) | 10 mg = 1 cápsula de 10; 20 mg = 2; 30 mg = 3 |
| Lactulose, protocolo gaúcho (constipação) | 15 a 30 mL/dia | 667 mg/mL, xarope (Básico) | 15 mL = 10,0 g; 30 mL = 20,0 g |
| Albendazol, protocolo gaúcho (diarreia crônica) | 400 mg/dia por 5 dias | 400 mg comprimido mastigável; 40 mg/mL suspensão (Básico) | 1 comprimido por dia, 5 comprimidos, 2.000 mg no total; ou 10 mL por dia da suspensão |
| Ondansetrona, diretriz britânica (atenção secundária) | 4 mg uma vez ao dia, até 8 mg três vezes ao dia | 4 e 8 mg, comprimido (Básico) | Início com 1 comprimido de 4 mg; teto de 1 comprimido de 8 mg três vezes ao dia, 24 mg/dia |
| Loperamida, butilescopolamina, mebeverina, pinavério e macrogol | Loperamida com titulação cuidadosa; macrogol de 14 ou 17 g, 1 a 2 sachês/dia no protocolo gaúcho | Não constam | Compra pelo paciente; macrogol de 14 a 34 g/dia |
O quadro de avaliação da diarreia crônica do protocolo de regulação gaúcho (revisão de 27 de janeiro de 2025) lista oito exames iniciais — hemograma, glicemia, TSH, teste de HIV, parasitológico em três amostras, coprocultura, leucócitos fecais e sangue oculto — e nenhum dos dois que o PCDT da doença celíaca, publicado 147 dias depois (Portaria Conjunta de 23 de junho de 2025), fixa como testes iniciais: 0 de 2 (tTG-IgA e IgA total). O mesmo PCDT inclui a diarreia crônica não sanguinolenta entre as indicações de endoscopia com biópsia duodenal mesmo com sorologia negativa, e a síndrome do intestino irritável entre as indicações de rastreamento sorológico. O protocolo gaúcho não cita a doença celíaca em nenhum dos seus protocolos de gastroenterologia do adulto. Seguido ao pé da letra, o quadro conduz à restrição de lactose, ao albendazol empírico e ao rótulo de intestino irritável com exames normais sem que a doença celíaca tenha sido testada. Esta apostila soma ao painel gaúcho a sorologia do PCDT, que é norma nacional e mais recente.
O rodapé de suspeita de neoplasia maligna do mesmo protocolo tem nove itens, nenhum corte de idade e nenhum número mínimo de itens. Dois deles — alteração persistente do hábito intestinal e dor abdominal ou retal — são exatamente os dois elementos com que o próprio documento descreve a síndrome do intestino irritável no quadro de avaliação da diarreia crônica: dor recorrente associada às evacuações e mudança na frequência ou na consistência das fezes. Pela letra, 2 de 2 elementos da definição estão na lista de suspeita, e todo paciente com a síndrome preencheria o critério de encaminhamento por suspeita de neoplasia — o que contradiz a frase do mesmo quadro de que, na síndrome, a investigação ampla geralmente é desnecessária. A consequência é binária: colonoscopia para todos ou para ninguém. Esta apostila lê como alarme os sete itens que não pertencem à definição da síndrome, com a história familiar lida como parente de primeiro grau, como no quadro de rastreamento do mesmo protocolo, e a alteração de hábito nova ou que muda de padrão depois dos 50 anos; a razão da idade está na apresentação.
A conduta, hora a hora
O que segue é uma paciente e um ano. Florentina Leal, 31 anos, 58 quilos, dois anos de cólica que alivia com a evacuação e fezes que alternam de forma, cinco atendimentos anteriores, três ciclos de antimicrobiano e um encaminhamento devolvido. Na síndrome do intestino irritável, o relógio não é de horas: é de retornos, e cada retorno tem uma pergunta própria, respondida com o diário das fezes aberto sobre a mesa.
Os marcos mostram a ordem dos degraus da diretriz britânica, adaptada ao que a Rename fornece, e mostram também o que não se faz em cada um. As doses de tricíclico estão convertidas à apresentação de 25 mg da Rename, e a razão está na tabela de conversão do bloco de critérios.
Dia 0, sexta-feira, 14h10 — a consulta que recomeça do zero
A história é refeita desde o começo, e o prontuário ganha o que não tinha. Duração somada: dois anos. Padrão: cólica em baixo ventre, não contínua, que alivia com a evacuação; semanas de fezes pastosas e semanas de fezes em bolinhas; distensão à tarde; a dor não acompanha o ciclo menstrual. Lista de alarme conferida item por item e escrita, com as respostas: sem sangue, sem evacuação noturna, sem febre, sem tenesmo, peso de 58 quilos igual ao de dois anos atrás, tia de segundo grau com câncer de intestino aos 72 anos e nenhum parente de primeiro grau com câncer colorretal ou doença celíaca. O exame mostra abdome levemente distendido, sem massa, e o toque retal, feito com consentimento e com a técnica de enfermagem presente, encontra fezes pastosas, sem sangue e sem lesão palpável. A hipótese é dita já nesta consulta: o padrão é o da síndrome do intestino irritável, e os exames servem para confirmar que não é outra coisa. O pedido de colonoscopia não é reenviado, e nenhum antimicrobiano é prescrito.
Prescrição- Hemograma, proteína C reativa, glicemia de jejum e TSH
- Antitransglutaminase IgA (tTG-IgA) e IgA total, no mesmo pedido; manter a alimentação habitual, com glúten
- Teste rápido para HIV, com aconselhamento
- Coprocultura, pesquisa de leucócitos fecais e pesquisa de sangue oculto nas fezes (três parasitológicos negativos recentes: sem nova amostra)
- Diário de evacuações por 21 dias: forma pela escala de Bristol, dor ou desconforto, sangue, urgência e despertar noturno
- Butilescopolamina comprada na farmácia só nos dias de cólica forte, anotada no diário
- Retorno em 21 dias
Dia 21 — os resultados, o diário e o diagnóstico dado em voz alta
Todos os exames vieram normais: hemograma, proteína C reativa, glicemia, TSH, coprocultura, leucócitos fecais e sangue oculto; tTG-IgA não reagente com IgA total normal; teste de HIV não reagente. O diário tem 40 evacuações em 21 dias: 12 nos tipos 6 ou 7 de Bristol (30%) e 11 nos tipos 1 ou 2 (27,5%) — dois extremos acima de 25%, padrão misto. Houve dor ou desconforto em 9 dos 21 dias, sempre com alívio depois de evacuar. O diagnóstico é dado com o nome inteiro: síndrome do intestino irritável com padrão misto. A explicação usa o modelo da interação entre intestino e cérebro, diz o que a síndrome não faz — não sangra e não emagrece — e responde à pergunta da tia com a razão: parente de segundo grau não muda a investigação. O primeiro degrau é o da diretriz britânica: exercício regular, dieta tradicional e fibra solúvel em dose baixa e crescente, com óleo de hortelã-pimenta para as semanas de dor.
Prescrição- Plantago ovata (psyllium), pó do Componente Básico: 3 g por dia, dissolvidos em um copo de água, aumentando aos poucos conforme a distensão permitir
- Hortelã-pimenta (Mentha x piperita), cápsula do Componente Básico, na posologia do produto dispensado, nas semanas de dor
- Atividade física regular, combinada com a rotina de trabalho
- Refeições em horários regulares; limitar álcool e cafeína; reduzir gordura e pimenta; não usar farelo de trigo
- Manter o diário de Bristol
- Retorno em 6 semanas, ou antes se aparecer sangue, febre, emagrecimento ou evacuação que acorde à noite
Semana 9 — o que o primeiro degrau fez, e o subtipo que mudou
A distensão piorou na primeira semana de plantago e melhorou quando a dose subiu mais devagar; hoje ela toma 6 g por dia. O diário das últimas três semanas tem 36 evacuações, 9 nos tipos 6 ou 7 (25%) e 7 nos tipos 1 ou 2 (19,4%): o padrão agora é de predomínio de diarreia, e o subtipo é reescrito no prontuário. A dor caiu pouco — ainda aparece em 8 a 10 dias por mês. Florentina conta que as piores manhãs vêm depois do café com leite. Faz sentido, então, usar agora o primeiro teste terapêutico do protocolo gaúcho, sozinho, com o diário aberto: três semanas sem leite e derivados, e reintrodução no fim. Para as manhãs de reunião na escola, em que a urgência é previsível, entra a loperamida, que melhora a frequência e a consistência das fezes, com a ressalva da diretriz britânica: dor, distensão e constipação são comuns, e a dose precisa ser titulada com cuidado.
Prescrição- Plantago mantido em 6 g por dia
- Teste de restrição de lactose por 3 semanas, com reintrodução no último dia e anotação dos sintomas no diário
- Loperamida (não consta da Rename; compra na farmácia): menor dose da apresentação, só antes de situação previsível de urgência; não repetir se as fezes endurecerem
- Retorno em 4 semanas
Semana 13 — o teste de lactose negativo e a dor que ficou
As três semanas sem laticínios não mudaram o diário, e a reintrodução não piorou nada: não é intolerância à lactose, e o café com leite volta. A loperamida foi usada em quatro manhãs e funcionou para o que se propõe. Mas a dor ou o desconforto seguem em 8 dias por mês, incomodam, e o sono continua ruim. É o ponto em que a diretriz britânica indica o segundo degrau, que pode começar na atenção primária: o tricíclico como neuromodulador da interação intestino-cérebro, em dose baixa, com recomendação forte e evidência moderada. A diretriz dá o exemplo de 10 mg de amitriptilina à noite, com aumentos de 10 mg até o máximo de 30 a 50 mg. A Rename tem amitriptilina em comprimido de 25 mg, e 10 mg seriam 0,4 comprimido; esta apostila adota como degrau inicial meio comprimido, 12,5 mg, e a nortriptilina de 10 mg, que a Rename tem, quando o comprimido dispensado não puder ser partido — escolha desta apostila para caber a titulação lenta da diretriz na apresentação do SUS. A conversa sobre "remédio de depressão" acontece aqui, e o humor é perguntado: tristeza persistente e perda de interesse mudariam a pergunta, que passaria a ser do capítulo Transtorno depressivo maior, da apostila de Psiquiatria.
Prescrição- Amitriptilina 25 mg: meio comprimido (12,5 mg) à noite
- Se o comprimido dispensado não puder ser partido: nortriptilina 10 mg, 1 cápsula à noite
- Plantago mantido; loperamida só se necessária e anotada, porque o tricíclico também lentifica o intestino
- Orientação escrita: sonolência nos primeiros dias, boca seca e intestino preso são esperados; efeito sobre a dor leva semanas
- Retorno em 3 semanas
Semana 16 — a primeira titulação
A sonolência da primeira semana passou, como a diretriz britânica descreve que costuma passar depois das primeiras uma ou duas semanas, e sobrou boca seca leve. A dor apareceu em 6 dias nas últimas três semanas. O diário mostra o efeito do tricíclico sobre o trânsito: 34 evacuações, 5 nos tipos 6 ou 7 (14,7%) e 8 nos tipos 1 ou 2 (23,5%) — os dias de fezes duras subiram e estão perto do corte de 25%. A loperamida sai; ela não é mais necessária e somaria constipação à que o tricíclico já produz. A dose sobe 12,5 mg, o degrau possível com a apresentação da Rename, e o plantago segue, com água ao longo do dia, justamente para segurar o lado constipante.
Prescrição- Amitriptilina 25 mg: 1 comprimido à noite
- Loperamida suspensa
- Plantago mantido em 6 g por dia, com ingestão de água ao longo do dia
- Retorno em 8 semanas; antes se as fezes endurecerem por mais de uma semana
Semana 24 — a dose que funciona, e quanto tempo ela fica
Dor ou desconforto em 3 dias no último mês, leves. O diário tem 33 evacuações nas últimas três semanas, 3 em cada extremo da escala (9,1% cada): a maior parte das fezes voltou aos tipos 3 a 5. Florentina dorme melhor e diz que parou de pensar em câncer. A dose não sobe: o teto de 30 a 50 mg da diretriz é limite, não alvo, e a resposta com 25 mg é suficiente. Ela pergunta por quanto tempo vai tomar. A diretriz responde que, quando o tricíclico funciona, ele costuma ser mantido por no mínimo 6 a 12 meses, às vezes mais — e isso é dito agora, para que ela não suspenda por conta própria no primeiro mês bom.
Prescrição- Amitriptilina 25 mg à noite, mantida
- Plantago diário; hortelã-pimenta só nas semanas de dor
- Diário de Bristol só na semana anterior a cada retorno
- Retorno em 3 meses, ou antes diante de qualquer item da lista de alarme
Mês 9 — a dieta da internet e o exame que promete descobrir intolerâncias
A distensão da tarde é o que restou, e Florentina chega com duas ideias tiradas da internet: um exame de sangue que dosa anticorpos contra dezenas de alimentos e uma dieta sem glúten. As duas respostas estão escritas. A diretriz britânica não recomenda dieta de exclusão baseada em anticorpos IgG contra alimentos, com recomendação forte e evidência moderada, e não recomenda dieta sem glúten na síndrome do intestino irritável. O PCDT da doença celíaca acrescenta que a retirada do glúten é recomendação só para quem tem o diagnóstico — e a sorologia dela, feita em vigência de glúten e com IgA total normal, foi negativa. O que existe para a distensão é a dieta pobre em FODMAP, segunda linha da diretriz, que precisa ser conduzida por nutricionista e termina com a reintrodução dos alimentos conforme a tolerância.
Prescrição- Painel de anticorpos IgG contra alimentos: não solicitado
- Dieta sem glúten: não indicada
- Encaminhamento à nutricionista da rede para dieta pobre em FODMAP com fase de reintrodução, se ela quiser tratar a distensão
- Amitriptilina 25 mg à noite e plantago mantidos
Mês 12 — o plano de longo prazo, e o que teria mudado a rota
Um ano depois da folha devolvida, Florentina tem nove meses de tricíclico, dor rara, fezes quase sempre normais e uma distensão que melhorou com a nutricionista. Nenhuma colonoscopia foi feita, e nenhuma fez falta. O plano é conversado: completar o tempo de tricíclico que a diretriz descreve e, então, decidir junto com ela entre manter e retirar, com retirada lenta se for essa a escolha. A rota teria sido outra em três pontos, e eles ficam registrados. Se a dor tivesse continuado incomodando com o tricíclico em dose adequada, o caso seria encaminhado à gastroenterologia como síndrome refratária, com o conteúdo mínimo que a regulação pede. Se não houvesse melhora depois de 12 meses de tratamento farmacológico, a terapia psicológica — cognitivo-comportamental específica para a síndrome ou hipnoterapia dirigida ao intestino — seria indicada, e pode ser indicada antes se estiver disponível e ela preferir. E, a qualquer momento, um item da lista de alarme teria interrompido o diagnóstico e reaberto a investigação.
Prescrição- Amitriptilina 25 mg à noite até a reavaliação conjunta sobre manter ou retirar; se retirar, retirada lenta
- Lista de alarme escrita e entregue: sangue nas fezes, emagrecimento, febre, evacuação que acorda à noite, mudança do padrão habitual
- Consultas semestrais, ou antes diante de qualquer item da lista
Como saber se está funcionando
Sete parâmetros, e todos cabem num retorno de vinte minutos se o diário vier preenchido. Os dois primeiros medem se o tratamento funciona; os dois seguintes medem se o diagnóstico continua de pé; os três últimos medem o custo do tratamento e o que ele não alcança. A regra que vale para todos é a da diretriz britânica: sintoma grave ou refratário pede revisão do diagnóstico, com investigação dirigida se for o caso.
Esperado: Queda progressiva da proporção de evacuações nos extremos da escala, com o subtipo reescrito sempre que a proporção cruzar 25%. O subtipo muda com o tratamento, e a mudança tem leitura: dias de tipos 1 e 2 que sobem depois de loperamida ou de tricíclico são efeito de trânsito, pedem retirada da loperamida e reforço de fibra e água, e não são piora da síndrome. Dias de tipos 6 e 7 que voltam com a mesma dose, ou diarreia que passa a acordar o paciente, reabrem a lista de alarme.
Esperado: O critério clínico de Roma V mede a síndrome pelo incômodo, e o tratamento deve ser medido do mesmo jeito. Espera-se redução dos dias com dor e, sobretudo, do impacto. A troca de degrau se faz quando o incômodo persiste depois de tempo suficiente no degrau atual: semanas de fibra em dose adequada no primeiro degrau, e ajuste lento de tricíclico com retornos no segundo. Dor que muda de caráter, se torna contínua ou passa a acompanhar só a menstruação deixa de ser lida como síndrome.
Esperado: Estável. A síndrome do intestino irritável não emagrece; perda de peso documentada é item da lista de alarme do protocolo gaúcho, indica, quando acompanha diarreia, endoscopia com biópsia duodenal mesmo com sorologia negativa pelo PCDT da doença celíaca, e interrompe o diagnóstico até ser explicada. Peso perguntado não serve: foi o peso anotado há dois anos que permitiu dizer que Florentina não emagreceu.
Esperado: Ausentes. Sangue nas fezes que não vem de doença orificial, anemia ferropriva, febre, tenesmo, massa, emagrecimento, parente de primeiro grau que recebeu diagnóstico de câncer colorretal ou de doença celíaca desde a última consulta, e mudança de padrão depois dos 50 anos. Qualquer um deles faz o diagnóstico antigo perder a autoridade: o paciente é investigado como se fosse a primeira consulta. O rótulo de síndrome do intestino irritável não protege ninguém de uma doença nova.
Esperado: Fibra: a distensão das primeiras semanas se evita e se controla começando com 3 a 4 g por dia e subindo devagar. Óleo de hortelã-pimenta: refluxo é efeito adverso comum. Loperamida: dor, distensão, náusea e constipação limitam o uso e pedem titulação. Tricíclico: sonolência, que costuma melhorar depois das primeiras uma ou duas semanas, boca seca e constipação; o efeito sobre a dor demora mais que os efeitos adversos, e o paciente precisa ouvir isso antes de começar. Antiespasmódicos anticolinérgicos: boca seca, alteração visual e tontura.
Esperado: Resposta com a menor dose que controla o incômodo, sem perseguir o teto de 30 a 50 mg. Havendo benefício, a diretriz britânica descreve manutenção por no mínimo 6 a 12 meses, às vezes mais, e a decisão de retirar é tomada junto com o paciente. Sem resposta suficiente em dose adequada, o caso vai à gastroenterologia como síndrome refratária, e sem melhora depois de 12 meses de tratamento farmacológico entra a terapia psicológica — antes, se disponível e se o paciente preferir.
Esperado: A diretriz britânica descreve o sofrimento psicológico ora como amplificador dos sintomas, ora como consequência deles, e os dois sentidos pedem atenção. Espera-se melhora junto com a dos sintomas intestinais. Tristeza persistente com perda de interesse, ideação de morte ou ansiedade incapacitante não se tratam com a dose de tricíclico da síndrome: o transtorno depressivo e o antidepressivo em dose de tratamento são do capítulo Transtorno depressivo maior, da apostila de Psiquiatria; o tricíclico em dose baixa como neuromodulador intestinal é deste capítulo.
Onde o erro machuca
O dano: A diretriz britânica não deixa margem: não há papel para a colonoscopia na síndrome, fora do sinal de alarme e do quadro de predomínio de diarreia com perfil de colite microscópica — recomendação forte, com evidência moderada. O pedido tem três custos. O primeiro é da fila: a regulação trabalha com vagas contadas, e cada colonoscopia pedida para tranquilizar uma mulher de 31 anos é uma vaga a menos para o homem de 60 com anemia ferropriva. O segundo é do procedimento, que exige preparo, sedação e deslocamento, com riscos que não se justificam sem pergunta clínica. O terceiro é o mais duradouro: o pedido ensina ao paciente que o diagnóstico só vale depois de um exame normal. O exame vem normal, a dor continua, e o paciente conclui que não acharam nada — e volta, na próxima crise, pedindo o próximo exame. A folha devolvida de Florentina tinha exatamente essa lógica.
O dano: O protocolo gaúcho prevê, para a diarreia crônica na atenção primária, dois tratamentos empíricos e só dois: o teste de restrição de lactose e o albendazol por cinco dias. Antimicrobiano não está entre eles, e nenhum dos documentos que governam este capítulo indica metronidazol ou ciprofloxacino para a diarreia crônica sem diagnóstico. A melhora de alguns dias que costuma seguir cada ciclo não prova infecção — a síndrome oscila sozinha, e a diretriz britânica registra que o uso de antibiótico já foi associado tanto ao aparecimento quanto à melhora dos sintomas. O dano real é o tempo: cada ciclo fecha o episódio e adia a pergunta sobre os dois anos, e é assim que a doença celíaca e a doença inflamatória intestinal passam anos sem ser procuradas. O capítulo de doenças inflamatórias intestinais desta apostila descreve o mesmo percurso atrasando o diagnóstico de doença de Crohn.
O dano: O PCDT da doença celíaca de 2025 põe a síndrome do intestino irritável na lista de indicações de rastreamento sorológico, e a diretriz britânica pede sorologia celíaca na primeira consulta de todo paciente com sintomas da síndrome. O protocolo gaúcho, que é o documento que o interno da atenção primária tem na mão, não cita a doença celíaca em lugar nenhum — e seguir só ele leva a esse erro (ver as notas do bloco de critérios). Nos estudos brasileiros reunidos pelo PCDT, a doença aparece entre 1 a cada 119 e 1 a cada 681 pessoas. O rótulo de síndrome fecha a investigação num paciente que pode ter anemia, osteoporose e lesão de mucosa evitáveis com dieta; e, meses depois, quando ele retirar o glúten por conta própria, a sorologia que não foi pedida já não vai servir.
O dano: O teste terapêutico do glúten parece inofensivo e destrói o diagnóstico. O PCDT exige que rastreamento e diagnóstico sejam feitos em vigência de dieta com glúten; os anticorpos dependem do glúten e caem com meses de dieta, e a mucosa responde a ela. O paciente que melhorou sem glúten fica sem saber se é celíaco, com sorologia sem valor e a biópsia sem sentido, e só recupera a pergunta voltando a comer glúten antes de novos exames. Se não for celíaco, fica preso a uma dieta que o PCDT descreve como restritiva e cara — o alto custo está entre as razões de transgressão que o protocolo lista —, que a diretriz britânica não recomenda na síndrome do intestino irritável, e sobre a qual o próprio PCDT registra que não há comprovação de que o glúten faça mal a quem não tem a doença.
O dano: O diagnóstico positivo é feito com a lista de alarme negativa naquele momento, e não vale para sempre. A síndrome é mais frequente em adultos jovens; o paciente que a recebeu aos 30 anos tem, aos 60, o risco de qualquer pessoa de 60 anos. Diarreia que passa a acordar à noite, sangue, anemia ferropriva, emagrecimento medido, mudança de padrão depois dos 50 anos, ou o início de anti-inflamatório ou inibidor da bomba de prótons seguido de diarreia aquosa, não são a síndrome piorando — são motivo de nova investigação, e a diretriz britânica recomenda rever o diagnóstico sempre que os sintomas se tornam graves ou refratários. O caso resolvido deste capítulo mostra o preço: um rótulo de quatro meses e uma caixa de loperamida adiando a colonoscopia de um homem de 61 anos.
O dano: A diretriz britânica é específica sobre as duas coisas. A dose começa baixa, no exemplo dela 10 mg de amitriptilina à noite, e sobe devagar até o máximo de 30 a 50 mg; e a razão do uso precisa ser explicada com cuidado, com aconselhamento sobre os efeitos adversos. O erro mais fácil de cometer no SUS nasce da apresentação: a Rename tem comprimido de 25 mg, e prescrever o comprimido inteiro na primeira noite é mais do que o dobro da dose inicial da diretriz, com sonolência, boca seca e constipação concentradas na primeira semana — justamente quando o efeito sobre a dor ainda não chegou. O outro erro é o silêncio: o paciente lê "antidepressivo" na bula, pode entender que o médico acha a dor imaginária, e suspende. Meio comprimido, a palavra "neuromodulador" e dois minutos de explicação evitam os dois.
O que dizer ao paciente e à família
Sete falas, e quase todas dizem não a alguma coisa que o paciente veio buscar: um exame, um antibiótico, uma dieta, a certeza de que não é nada. Dizer não sem explicar é o jeito mais rápido de o paciente procurar outro médico que diga sim. As falas abaixo trocam o não por um plano, e em todas a razão vem antes da recusa.
Dar a Florentina, 31 anos, o diagnóstico de síndrome do intestino irritável no retorno com os exames normais
“"Florentina, eu queria começar pelo nome do que você tem, porque ninguém disse até hoje. Você tem síndrome do intestino irritável. Não é o que sobrou depois de não acharem nada: é um diagnóstico com critério, e você preenche. Seu intestino e as vias que levam as sensações dele até o cérebro estão mais sensíveis — o mesmo gás e o mesmo movimento que outra pessoa nem percebe, você sente como cólica. Os exames que pedimos procuravam as doenças que imitam isso: anemia, inflamação, doença celíaca, infecção, sangue escondido. Vieram todos normais, e o seu peso é o mesmo de dois anos atrás. Isso não sangra e não emagrece. E sobre a sua tia: tia é parente de segundo grau, e isso não muda a sua investigação. O que muda a sua vida é o tratamento, e é dele que eu quero falar agora."”
Explicar a Florentina por que o remédio proposto tem 'antidepressivo' na bula
“"Você vai ler na bula que esse remédio é antidepressivo, e eu prefiro que você ouça de mim antes. Ele é da família dos tricíclicos, e em dose alta trata depressão. Em você, a dose é outra — meio comprimido, uma fração do que se usa para depressão — e o alvo é outro: ele diminui o volume das vias que levam a dor do intestino até o cérebro, e deixa o intestino um pouco mais lento, o que ajuda nos seus dias de diarreia. Eu não estou dizendo que a sua dor é emocional; estou dizendo que ela passa por nervos, e esse remédio age neles. Nos primeiros dias pode dar sono e boca seca, que costumam melhorar em uma ou duas semanas. O efeito na dor demora mais. Se você parar na primeira semana, não vai saber se funcionava."”
Recusar a colonoscopia a Quirino Gallo, 29 anos, com síndrome de predomínio de diarreia, que pede o exame 'para ter certeza'
“"Quirino, eu entendo querer certeza, e vou te dizer de onde ela vem no seu caso. Ela vem de três coisas que já temos: o jeito dos seus sintomas, que é o da síndrome; a lista de sinais de alarme, que eu conferi item por item com você e está negativa; e os exames, que procuraram anemia, inflamação e doença celíaca e vieram normais. A colonoscopia, na sua idade e sem nenhum desses sinais, não acrescenta segurança — as diretrizes dizem para não pedir. Ela tem preparo, sedação e fila, e a vaga que ela ocuparia é de alguém que está sangrando. E tem uma coisa que eu assumo com você: se aparecer sangue, se você emagrecer, se a diarreia começar a te acordar de noite, a conversa muda no mesmo dia, e aí o exame vem."”
Negar o quarto ciclo de antibiótico a Xisto Neri, 42 anos, com diarreia crônica há cinco meses, que pede 'aquele remédio que resolveu da outra vez'
“"Seu Xisto, eu olhei as outras três vezes. Em todas o senhor melhorou uns dias e a diarreia voltou, e isso é o que eu não posso ignorar: se fosse uma infecção que o antibiótico cura, ela não voltaria sempre. Diarreia que dura cinco meses tem outra causa, e antibiótico de novo só empurra a descoberta para mais longe. Então hoje, em vez do remédio, eu vou pedir os exames que ninguém pediu ainda — sangue, tireoide, glicose, o exame da doença celíaca, o de HIV e os de fezes — e vou te dar um diário para anotar como estão as fezes. Se a causa for de tratar com remédio, a gente trata com o remédio certo. E, enquanto isso, sem cortar o pão por conta própria, porque isso atrapalha o exame da doença celíaca."”
Pedir a Eufrosina Tucunduva, 38 anos, que volte a comer pão antes da endoscopia com biópsia
“"Eufrosina, eu sei que você cortou o pão porque se sentiu melhor, e é por isso mesmo que eu vou te pedir para voltar a comer até a endoscopia. O exame que decide se você tem doença celíaca é a biópsia do intestino, e ela só enxerga a doença enquanto o glúten está chegando lá. Sem glúten, o intestino começa a se recuperar e a biópsia pode vir normal numa pessoa que é celíaca — e aí você fica sem resposta, presa a uma dieta cara e difícil sem saber se precisa dela para sempre. O seu exame de sangue não serve para isso, porque você tem pouco de um anticorpo chamado IgA, e o teste depende dele. Então: pão, macarrão, o que você comia antes, até o dia do exame. Depois do resultado, se for celíaca, a dieta vira tratamento de verdade, com nutricionista."”
Dizer a Valdemar Sobral, 67 anos, com 'intestino irritável desde moço', que a mudança dos últimos três meses precisa de colonoscopia
“"Seu Valdemar, o senhor tem razão quando diz que o seu intestino sempre foi assim, e eu não estou duvidando do diagnóstico que deram quando o senhor era moço. Mas o que o senhor me contou hoje não é o intestino de sempre: faz três meses que as fezes mudaram de jeito, o senhor está indo ao banheiro de madrugada, e a balança marcou quatro quilos a menos do que em março. Isso não é a síndrome piorando. Na sua idade, mudança nova do intestino com perda de peso precisa de colonoscopia, e eu vou pedir hoje, junto com exames de sangue. Pode ser que não seja nada grave — mas o diagnóstico antigo não protege o senhor de uma doença nova, e eu não vou deixar ele explicar o que ele não explica."”
Explicar a Isidora Mourão, 46 anos, com síndrome de predomínio de constipação, por que o farelo de trigo piorou a distensão
“"Dona Isidora, a sua vizinha não estava errada sobre fibra: fibra ajuda. O problema é o tipo. O farelo de trigo é uma fibra que não se dissolve, e no intestino de quem tem a síndrome ela pode aumentar o inchaço e a cólica — as diretrizes pedem para evitar justamente nesse caso. A fibra que ajuda é a que vira gel na água, e o posto tem: chama plantago, que é o nome oficial do psyllium. A gente começa com pouco, 3 gramas por dia num copo de água, e vai subindo devagar, porque subir rápido também incha. Água ao longo do dia, e o diário das fezes aberto. Se em doze semanas de tratamento bem feito o intestino não tiver respondido, aí eu te encaminho ao gastroenterologista."”
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Roma IV (2016): dor ao menos um dia por semana nos últimos três meses, com início há seis meses ou mais
É o critério que a diretriz britânica de 2021 reproduz em tabela e que a maior parte das questões de prova, dos artigos e dos capítulos escritos antes de 2026 usa: dor abdominal recorrente, em média pelo menos uma vez por semana durante os três meses anteriores, ligada a pelo menos dois destes três elementos — evacuação, mudança da frequência, mudança da forma das fezes —, com sintomas começados seis meses antes, no mínimo, e subtipos pela escala de Bristol com corte de 25%. A própria diretriz britânica, em 2021, já o considerava provavelmente restritivo demais para uso clínico, e recomendava na atenção primária uma definição pragmática — dor ou desconforto com alteração do hábito por pelo menos seis meses, sem alarme. Medida com Roma IV, a prevalência global da síndrome caiu para menos da metade da medida com Roma III.
Rome Foundation, critérios de Roma IV (2016), conforme a tabela de Vasant DH et al., British Society of Gastroenterology guidelines on the management of irritable bowel syndrome, Gut 2021
Roma V (2026): dor ou desconforto, três dias por mês no critério de pesquisa e sem limiar no critério clínico
O comitê de Roma V publicou os distúrbios intestinais na Gastroenterology em fevereiro de 2026, e a Rome Foundation distribui o novo texto desde junho. Para a síndrome, as mudanças declaradas pela fundação e pelo seu presidente são quatro: o desconforto volta a valer ao lado da dor; o limiar de frequência do critério de pesquisa cai para três dias por mês; a dor não pode ser contínua nem exclusiva ou predominantemente menstrual; e o critério clínico, separado formalmente do de pesquisa, dispensa limiares de frequência e duração — basta que o sintoma incomode, com o padrão presente e sem doença orgânica deixada para trás.
Corsetti M et al., Bowel Disorders, Gastroenterology 2026 (Roma V); Rome Foundation, Rome V: A Global Framework for Disorders of Gut-Brain Interaction, 2026; Tack J, Gastroenterol Hepatol (N Y) 2026
Os dois critérios foram escritos para o mesmo paciente — o adulto com suspeita de síndrome do intestino irritável —, e nenhum documento brasileiro que governa este capítulo adota um ou outro: o primeiro degrau da régua empata. O segundo desempata: Roma V é dez anos mais novo e substitui Roma IV. Esta apostila adota Roma V e, no consultório, o seu critério clínico: dor ou desconforto recorrente relacionado ao hábito intestinal, não contínuo, não exclusivamente menstrual, que incomoda, com a lista de alarme negativa e os exames simples normais. A mudança não é só de data: ela também resolve o que a diretriz britânica apontava como defeito de Roma IV na atenção primária. Roma IV fica no texto porque o aluno vai encontrá-lo em questão de prova, em artigo e em prontuário, e precisa reconhecer que um paciente com dor três dias por mês que não fecha Roma IV fecha Roma V. O que Roma V não muda é a lista de alarme nem a sorologia celíaca: um critério mais largo pede, se alguma coisa, mais cuidado com o que a síndrome não explica.
Aveia, farelo de trigo e linhaça entre as fibras da atenção primária para a constipação do adulto — protocolo de regulação gaúcho, 2025
O quadro de tratamento da constipação intestinal em adultos na atenção primária do protocolo gaúcho recomenda dieta rica em fibras com ingestão hídrica adequada e, como suplementação, lista aveia, farelo de trigo ou farinha de linhaça, de 2 a 4 colheres de sopa dissolvidas em água, suco ou iogurte, ao lado dos formadores de bolo fecal, psyllium e metilcelulose, de 1 a 2 colheres de sopa ao dia; seguem os laxantes osmóticos — leite de magnésia, lactulose e macrogol — e a exclusão de causas secundárias. O quadro trata a constipação do adulto sem distinguir a que vem com dor.
TelessaúdeRS-UFRGS; Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul. Protocolos de Regulação Ambulatorial: Gastroenterologia adulto, 3ª ed., 2025 (revisão de janeiro de 2025)
Fibra solúvel sim, fibra insolúvel não, na síndrome do intestino irritável — diretriz britânica, 2021
A diretriz britânica recomenda com força a fibra solúvel, como o ispaghula (psyllium), como tratamento eficaz dos sintomas globais e da dor na síndrome do intestino irritável, começando com 3 a 4 g por dia e subindo aos poucos para evitar distensão; e diz que a fibra insolúvel, como o farelo de trigo, deve ser evitada, porque pode piorar os sintomas. Para a constipação dentro da síndrome, cita o macrogol como possivelmente eficaz, com recomendação fraca.
Vasant DH et al., British Society of Gastroenterology guidelines on the management of irritable bowel syndrome, Gut 2021
Aqui o primeiro degrau decide sozinho. Os dois documentos não governam o mesmo paciente: o quadro gaúcho foi escrito para a constipação do adulto em geral, e a diretriz britânica, para a síndrome do intestino irritável. Para a paciente com constipação e dor ou desconforto relacionado ao hábito — a síndrome com predomínio de constipação —, vence o documento escrito para ela, e esta apostila adota: fibra solúvel em dose baixa e crescente, sem farelo de trigo. Para quem tem constipação crônica sem dor, o quadro gaúcho segue valendo inteiro, farelo incluído. O que torna a decisão aplicável no SUS é a Rename: o psyllium está no Componente Básico com a denominação plantago, e procurá-lo por "psyllium" dá a impressão falsa de que o SUS não fornece fibra solúvel. Dos laxantes osmóticos do quadro gaúcho, só a lactulose consta da Rename; o macrogol não.
Hemograma, glicemia, TSH, HIV, parasitológico em três amostras, coprocultura, leucócitos fecais e sangue oculto, sem sorologia celíaca — protocolo gaúcho, janeiro de 2025
O quadro de avaliação da diarreia crônica do protocolo de regulação gaúcho lista esses oito exames como avaliação inicial, acrescenta dois tratamentos empíricos — restrição de lactose e albendazol — e descreve as causas principais pelo que costumam mostrar. Os resultados desse quadro fazem parte do conteúdo mínimo que a regulação exige no encaminhamento. O protocolo não cita a doença celíaca, a calprotectina fecal nem a proteína C reativa como exame inicial.
TelessaúdeRS-UFRGS; Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul. Protocolos de Regulação Ambulatorial: Gastroenterologia adulto, 3ª ed., 2025
Antitransglutaminase IgA com IgA total para sintoma gastrointestinal crônico e para a síndrome do intestino irritável; biópsia duodenal na diarreia crônica mesmo com sorologia negativa — PCDT da doença celíaca, junho de 2025
O PCDT fixa como testes iniciais a dosagem simultânea de tTG-IgA e IgA total, em vigência de dieta com glúten, lista a síndrome do intestino irritável e os sintomas gastrointestinais crônicos entre as indicações de rastreamento sorológico, e põe a diarreia crônica não sanguinolenta entre as indicações de endoscopia com biópsia duodenal mesmo quando a sorologia é negativa.
Brasil. Ministério da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 8, de 23 de junho de 2025 — PCDT da Doença Celíaca
Hemograma, proteína C reativa ou VHS, sorologia celíaca e calprotectina abaixo de 45 anos com diarreia; sangue oculto fora da rotina — diretriz britânica, 2021
A diretriz britânica pede, na primeira consulta de todo paciente com sintomas da síndrome na atenção primária, hemograma, proteína C reativa ou velocidade de hemossedimentação e sorologia celíaca, e, abaixo de 45 anos com diarreia, calprotectina fecal — recomendação forte, com evidência moderada. Registra que sangue oculto e teste imunoquímico fecal não são usados de rotina na avaliação da possível síndrome, e não inclui parasitológico, coprocultura, TSH nem teste de HIV no painel.
Vasant DH et al., British Society of Gastroenterology guidelines on the management of irritable bowel syndrome, Gut 2021
Pelo primeiro degrau, os dois documentos brasileiros foram escritos para o paciente à frente — o adulto com diarreia crônica atendido na atenção primária brasileira, em área onde parasitose é causa a considerar —, e a diretriz britânica, para a atenção primária do Reino Unido: os brasileiros vencem onde divergem dela, e o sangue oculto, a coprocultura, os leucócitos fecais e o parasitológico ficam, como pede o protocolo gaúcho, cujos resultados a regulação exige no encaminhamento. Entre os dois brasileiros não há choque sobre o mesmo exame, e sim uma lacuna: o protocolo gaúcho não trata da doença celíaca, e o PCDT, que é norma nacional e 147 dias mais novo, trata — não há choque a desempatar, e a sorologia do PCDT entra. Esta apostila adota, para a primeira consulta da diarreia crônica sem alarme, o painel gaúcho inteiro somado à tTG-IgA com IgA total; acrescenta a proteína C reativa da diretriz britânica, que nenhum documento brasileiro contraria e que o próprio protocolo gaúcho usa para reconhecer doença inflamatória; e usa a calprotectina, abaixo dos 45 anos, onde o exame estiver disponível. A omissão do protocolo gaúcho está registrada nas notas do bloco de critérios.
O raciocínio, em voz alta
Terça-feira, 10h20, a mesma unidade de saúde da família. Nicanor Vertentes, 61 anos, motorista de ônibus aposentado, pesa 73 quilos na balança do corredor; o prontuário registra 78 quilos em fevereiro, sete meses atrás. Há quatro meses tem diarreia aquosa, quatro a cinco vezes por dia, que o acorda duas vezes por noite, com cólica leve antes de evacuar e sem sangue que ele tenha visto. Há um ano toma naproxeno para a dor no joelho, comprado sem receita, e omeprazol 20 mg "para proteger o estômago". Há dois meses, num atendimento de demanda espontânea, saiu com o diagnóstico escrito de intestino irritável e uma receita de loperamida, que segura a diarreia por algumas horas. Voltou porque a filha achou que ele emagreceu. Traz um hemograma de três semanas atrás, pedido na renovação da carteira de motorista, com hemoglobina abaixo do valor de referência do laboratório e sem ferritina. Nega câncer colorretal ou doença celíaca em pais e irmãos.
o que eu vejo antes de pensar em diagnóstico
Um diagnóstico de dois meses para um sintoma de quatro, feito sem nenhum exame e sem a lista de alarme escrita. E um paciente que não tem o perfil da síndrome do intestino irritável: ela é mais frequente entre 18 e 39 anos e fica menos frequente com a idade, e os sintomas de Nicanor começaram aos 61. A cólica antes de evacuar não basta para o diagnóstico positivo, porque o diagnóstico positivo exige que nada na história esteja fora do que a síndrome explica — e aqui quase tudo está. O rótulo antigo não é ponto de partida; é a primeira coisa a ser posta de lado.
o que a lista de alarme diz
Três itens positivos, e cada um sozinho já bastaria. Emagrecimento medido: 5 quilos em sete meses, 6,4% do peso. Alteração do hábito intestinal nova depois dos 50 anos, pela leitura desta apostila. Anemia, ainda sem prova de ferropenia, que precisa ser caracterizada hoje. A diretriz britânica acrescenta um segundo eixo: o perfil de risco de colite microscópica, que manda fazer colonoscopia no quadro de predomínio de diarreia — idade de 50 anos ou mais, diarreia noturna e aquosa, duração menor que 12 meses, perda de peso e uso de anti-inflamatório não esteroide e de inibidor da bomba de prótons. Nicanor tem cinco dos fatores listados, com dois fármacos precipitantes. Não existe leitura da lista em que ele fique na atenção primária sem colonoscopia.
o que eu peço hoje
O painel da diarreia crônica adotado por este capítulo, porque ele também é o que a regulação exige no encaminhamento: hemograma completo com VCM, glicemia, TSH, teste de HIV, parasitológico em três amostras, coprocultura, leucócitos fecais e sangue oculto; tTG-IgA com IgA total, com orientação de manter a alimentação habitual; proteína C reativa. E, pela anemia, ferritina e índice de saturação de transferrina, que o protocolo gaúcho pede descritos no encaminhamento de quem tem anemia. Função renal e potássio entram pela diarreia aquosa de quatro meses num homem de 61 anos em uso de anti-inflamatório. Nenhum desses resultados vai decidir se ele faz colonoscopia — isso já está decidido —, mas eles decidem o que mais precisa ser pedido junto.
o que eu suspendo e o que eu não prescrevo
O naproxeno é suspenso hoje: anti-inflamatório é precipitante de colite microscópica na lista da diretriz britânica, e num paciente anêmico não há razão para mantê-lo; a dor do joelho recebe outro plano. O omeprazol também está na lista de precipitantes, e a pergunta sobre por que ele o toma e se deve continuar é feita hoje — a indicação do inibidor da bomba de prótons na doença do refluxo é do capítulo de doença do refluxo gastroesofágico desta apostila. A loperamida não é renovada como tratamento: ela alivia a frequência e esconde a evolução que o médico precisa ver. Nenhum antimicrobiano. E nenhuma nova tentativa com o rótulo de intestino irritável até que a colonoscopia volte.
o encaminhamento
Colonoscopia com biópsias, com o pedido explícito de biópsias seriadas mesmo que a mucosa pareça normal, porque a colite microscópica é diagnóstico de microscópio. Se a ferritina confirmar ferropenia sem outra causa, a endoscopia digestiva alta com biópsia duodenal entra no mesmo pedido: anemia ferropriva sem outra causa é indicação de biópsia pelo PCDT da doença celíaca mesmo com sorologia negativa, e o protocolo gaúcho a põe na lista de suspeita de neoplasia. A guia leva o conteúdo mínimo do protocolo: sintomas com número de evacuações, diarreia noturna, ausência de sangue visível, curso contínuo e perda de 5 quilos documentada; os tratamentos em uso e os já feitos; os resultados com data; e a história familiar negativa, perguntada por grau de parentesco. Na unidade sem acesso direto à colonoscopia, o destino é a gastroenterologia ou a proctologia, como suspeita de neoplasia.
o que eu digo a ele
"Seu Nicanor, o que o senhor tem não se parece com intestino irritável, e eu vou tratar como outra coisa até provar o contrário. O senhor emagreceu cinco quilos, a diarreia acorda o senhor de noite e o exame de sangue mostrou anemia. Isso pede um exame por dentro do intestino, com retirada de pedacinhos para o microscópio, porque algumas inflamações só aparecem assim — e pede também afastar doenças mais sérias, que eu não vou fingir que não existem. O remédio do joelho pode ser parte da história, por isso ele para hoje. Vou pedir os exames de sangue e de fezes agora e escrever o encaminhamento com tudo o que o especialista precisa ler. Volte quando o resultado chegar, ou antes, se aparecer sangue ou febre."
Faça você
Quinta-feira, 15h40, retorno marcado. Eufrosina Tucunduva, 38 anos, professora de dança, tem tireoidite de Hashimoto em uso de levotiroxina, com TSH dentro da referência. Há cinco meses tem três a quatro evacuações pastosas por dia, sem sangue, com distensão depois das refeições e sem dor que alivie com a evacuação. Pesava 61 quilos no ano passado e hoje pesa 59. O painel pedido na primeira consulta voltou: hemoglobina abaixo da referência, com VCM baixo e ferritina baixa; proteína C reativa, glicemia, coprocultura, leucócitos fecais e sangue oculto normais; teste de HIV não reagente; três parasitológicos negativos; tTG-IgA não reagente e IgA total abaixo do limite inferior do laboratório. As menstruações são regulares e não abundantes. Há duas semanas, por conselho de uma amiga, ela cortou o pão e o macarrão e acha que a barriga incha menos. Pergunta se pode "ficar sem glúten de vez" e se o exame negativo quer dizer que não é doença celíaca.
o que eu já sei
Diarreia crônica não sanguinolenta, sem o padrão de dor da síndrome do intestino irritável, numa mulher com doença autoimune, anemia com ferropenia sem sangramento menstrual que a explique, e perda de 2 quilos. O painel da unidade afastou infecção, parasitose, diabetes, HIV e inflamação grosseira. A sorologia celíaca veio negativa — mas com IgA total baixa.
o que o resultado da sorologia significa
A tTG-IgA é da classe IgA, e a deficiência de IgA produz resultado falso-negativo: o PCDT pede a IgA total junto justamente para reconhecer esse caso. O teste negativo, aqui, não exclui nada. E o protocolo não oferece ao adulto uma sorologia substituta — a antigliadina deaminada IgG foi incorporada ao SUS só para menores de dois anos.
o que falta decidir
Qual exame decide o diagnóstico, se ela pode seguir sem glúten, e se a anemia muda o plano.
Ver como fecharíamos
O exame que decide é a endoscopia digestiva alta com biópsia duodenal, e Eufrosina tem indicação por quatro portas independentes do PCDT da doença celíaca, todas válidas mesmo com sorologia negativa: diarreia crônica não sanguinolenta; diarreia associada a perda de peso; anemia por deficiência de ferro sem outra causa; e sintomas digestivos em quem tem doença autoimune ou deficiência de IgA. O pedido diz o que a biópsia precisa: ao menos seis fragmentos, dois do bulbo e quatro da segunda porção do duodeno, em frascos separados e identificados — e que a biópsia deve ser feita mesmo que o duodeno pareça normal à endoscopia. Ela não pode seguir sem glúten agora. O PCDT exige que o diagnóstico seja feito em vigência de dieta com glúten, e a exclusão, mantida, pode tornar a biópsia menos confiável. A orientação é voltar ao pão e ao macarrão hoje e manter até o exame. A melhora da distensão com a retirada não confirma a doença — a dieta também reduz carboidratos fermentáveis — e a retirada do glúten, pelo mesmo protocolo, é recomendação só para quem tem o diagnóstico. Se a biópsia confirmar, a dieta isenta de glúten passa a ser o tratamento, para a vida toda, com nutricionista, leitura dos rótulos "contém glúten" e "não contém glúten", que no Brasil são obrigatórios nos produtos industrializados, e cuidado com o contato cruzado. A anemia não muda a indicação da biópsia; ela a reforça. A investigação da anemia ferropriva é do capítulo Anemia ferropriva e investigação de anemias microcíticas, da apostila de Hematologia e Hemoterapia, e a endoscopia pedida aqui atende às duas perguntas. Se a doença celíaca for confirmada, o PCDT manda repor o ferro sempre na vigência da dieta e pedir, ao diagnóstico, glicemia, hemograma, ferritina, vitamina B12, TSH, T4, transaminases, cálcio, fósforo e densitometria óssea. Duas armadilhas de seguimento ficam anotadas desde já. A primeira: numa paciente com deficiência de IgA, a tTG-IgA não vai servir para acompanhar a adesão à dieta, e o PCDT descreve a biópsia de controle como necessária justamente na doença celíaca soronegativa, por ser a única maneira de confirmar a resposta. A segunda: se a biópsia vier normal, a paciente não volta para o rótulo de síndrome do intestino irritável, porque não tem o padrão de dor que a define — ela segue como diarreia crônica sem causa, e a colonoscopia com biópsias entra pelo perfil de colite microscópica, com doença autoimune, sexo feminino e diarreia de menos de 12 meses. Não se pede genotipagem de HLA, que não foi incorporada ao SUS e não é recomendada pelo PCDT. A resposta às duas perguntas dela, então, é: não, o exame negativo não quer dizer que não é doença celíaca; e não, não fique sem glúten até o resultado da biópsia.
O protocolo de regulação gaúcho define diarreia crônica como a que dura mais de quatro semanas e lista dois tratamentos empíricos para a atenção primária: o teste de restrição de lactose — melhora com três semanas de exclusão e retorno dos sintomas na reintrodução, com o teste de absorção como apoio — e albendazol 400 mg ao dia por cinco dias. Feitos um de cada vez, com diário das fezes, os testes permitem atribuir a resposta. Antimicrobiano não está entre os tratamentos empíricos, e o encaminhamento à gastroenterologia é para a diarreia que a atenção primária não consegue diagnosticar ou tratar.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Apresente uma pessoa com diarreia crônica: duração, padrão das fezes, dor, relação com alimentação, medicamentos, sintomas noturnos, peso e sinais de alarme. Explique quais exames iniciais respondem às hipóteses levantadas e quando investigar doença celíaca, lembrando que retirar glúten antes da avaliação pode alterar os resultados. Consulte os critérios apresentados e confira se há elementos positivos para o diagnóstico, em vez de apenas uma lista de exames normais.
Em 30 dias
Treine a conversa com alguém que ouviu que não tem nada. Dê nome ao problema quando os critérios estiverem presentes, explique a relação entre sintomas e funcionamento intestinal e negocie uma intervenção com prazo para avaliar resposta. Depois acrescente sangramento, anemia, perda de peso ou mudança importante do padrão: explique por que esses achados exigem reabrir a investigação. Seu plano deve incluir melhora funcional e qualidade de vida, e não apenas contar evacuações.
Agora atenda
Uma mulher de pouco mais de 30 anos chega à unidade com dor em cólica que alivia quando evacua e fezes que alternam entre duras e pastosas há dois anos. Já recebeu três ciclos de antimicrobiano pela mesma queixa e traz um pedido de colonoscopia devolvido pela regulação. Atenda: some a duração real, reconheça o padrão pelo critério clínico de Roma V, pergunte e registre a lista de alarme item por item — com peso medido e história familiar por grau de parentesco —, peça os exames certos, incluindo a sorologia da doença celíaca com IgA total, e não peça os errados, explique o diagnóstico sem dizer que "não é nada", e comece o primeiro degrau de tratamento com o que a Rename oferece — sem antimicrobiano e sem colonoscopia.
