Clínica Médica › Gastroenterologia
Soro primeiro, antibiótico quase nunca
Diarreia aguda infecciosa e reidratação
Quatro adultos com diarreia aguda numa segunda-feira e as decisões que cabem ao interno: por onde reidratar, quando pedir exame, quando o antibiótico ajuda e quando faz dano, o que fazer com o Clostridioides difficile e o que se notifica no mesmo dia
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Manejo do paciente com diarreia [cartaz]. Brasília: Ministério da Saúde; 2023
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Guia de vigilância em saúde. 6. ed. rev. Brasília: Ministério da Saúde; 2024. v. 1. ISBN 978-65-5993-506-2
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Ceftriaxona sódica 1 g, pó para solução injetável IM/IV — bula para o paciente. Eurofarma Laboratórios S.A.; registro 1.0043.0706; texto conforme bula padrão aprovada pela Anvisa em 25/03/2026
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Mulher de 36 anos procura o pronto-socorro com cinco evacuações líquidas desde a madrugada, um episódio de vômito e cólica. Não tem febre nem sangue nas fezes, não usou antibiótico e não tem doença crônica. Está alerta, bebe normalmente, tem boca úmida, prega abdominal que desaparece imediatamente e pulso cheio. Pede um antibiótico e um exame de fezes para voltar a trabalhar no dia seguinte. Qual é a conduta adequada?
O paciente que você vai ver
Segunda-feira, sete e quarenta da manhã, pronto-socorro de um hospital regional com cento e vinte leitos, numa cidade de médio porte. O quadro da triagem tem três nomes e a mesma palavra ao lado de todos: diarreia. Dois deles almoçaram ontem, ao meio-dia e meia, no mesmo salão paroquial, nas bodas de ouro de dona Adelaide Bezerril — sessenta convidados, salpicão com maionese feita em casa —, e o filho que empurra a cadeira dela conta que o pai e duas tias passaram a noite no banheiro. O terceiro nome veio sozinho. Às oito e quinze o telefone da enfermaria de clínica vai tocar com mais uma diarreia, e você é o interno que responde pelos dois lugares até a visita das onze.
Conceição Olinto tem 36 anos, é professora da rede municipal e sobrinha da aniversariante. Acordou às duas da manhã com cólica e desde então evacuou cinco vezes, fezes líquidas, sem sangue; vomitou uma vez. Não tem febre. Está sentada, conversa, bebe sem pressa o copo de água que a técnica ofereceu, tem a boca úmida, a pele do abdome volta na hora quando pinçada e o pulso é cheio, a 88. Ela chega com um pedido pronto: um antibiótico “forte”, porque amanhã tem aula, e um exame de fezes “para saber o que é”. O marido voltou da farmácia com duas garrafas de isotônico de academia e quer saber se ela pode tomar o remédio de prender o intestino que ficou em casa desde uma viagem.
Dona Adelaide Bezerril tem 81 anos e 58 quilos. A diarreia começou às onze da noite e ela perdeu a conta das vezes; vomitou quatro. É hipertensa e tomou às sete, como todo dia, a hidroclorotiazida e o enalapril. Está irritada, pede água e esvazia o copo de uma vez; os olhos estão fundos, a boca seca, a pele do abdome demora a voltar, o pulso é fino e rápido, a 116, e a pressão é de 94 por 58. O filho repete que ontem ela dançou a valsa. A técnica escreveu desidratação na ficha, e a pergunta seguinte — soro pela boca na sala de observação ou soro na veia — tem duas respostas diferentes conforme a tabela que você tiver no bolso.
Ermelino Bezerra tem 29 anos e entrega comida de moto por aplicativo. Não foi às bodas. Está no terceiro dia de diarreia, e desde ontem as fezes vêm com sangue e muco, pouca quantidade de cada vez, com uma vontade de evacuar que não passa depois que termina. A temperatura na triagem foi 38,8 °C. Bebe bem, está corado e sem sinal de desidratação, e conta, meio sem graça, que ontem tomou duas cápsulas de um remédio para prender o intestino que um colega de entrega lhe deu. Quer uma injeção e voltar para a rua à tarde.
Às oito e quinze a enfermeira liga do leito 14. Dona Iolanda Trigueiro, 67 anos, está no sexto dia de ceftriaxona e azitromicina por pneumonia, teve sete evacuações líquidas desde as oito da noite e marcou 37,9 °C. Os exames da manhã chegaram: leucócitos de 17.200, que eram 9.800 no terceiro dia, e creatinina de 1,5, que era 0,8 na admissão. Na folha, omeprazol 40 mg desde o primeiro dia, sem indicação escrita. A enfermeira pede “alguma coisa para segurar”, porque a paciente tem vergonha de se sujar na frente da filha.
São quatro adultos e seis decisões que se repetem em todos: se a pessoa bebe ou vai para a veia; se precisa de exame e de qual; se o antibiótico ajuda ou faz dano; se alguém recebe remédio para prender o intestino; o que fazer quando a diarreia nasce do próprio antibiótico; e o que precisa ser comunicado à vigilância ainda hoje. O erro custa nas duas direções. O Guia de Vigilância em Saúde descreve a morte por diarreia aguda como morte por choque hipovolêmico ou por falta de potássio quando a desidratação não é tratada cedo — é o erro de quem manda dona Adelaide para casa com um isotônico. E o antibiótico dado a quem não precisava cobra depois, com resistência e com a colite que está acontecendo no leito 14.
Este capítulo é dono dessas seis decisões no adulto e no idoso, e assume também o que nenhum outro capítulo do nível ensina: diagnosticar e tratar a infecção por Clostridioides difficile, e notificar a suspeita de cólera e de surto de doença transmitida por alimento no dia em que ela aparece. A criança não está aqui: a classificação da desidratação e os planos A, B e C da infância são do capítulo Diarreia e desidratação na criança, da apostila de Gastroenterologia Pediátrica. A diarreia que passa de seis semanas e a colite que não é infecção são de A diarreia que não é infecciosa, nesta apostila. O cálculo da hidratação venosa de manutenção na enfermaria é de Hidratação venosa: manutenção e reposição; a correção do potássio, de Potássio na enfermaria; a creatinina que sobe, de Injúria renal aguda; o destino do antibiótico que causou a diarreia, de O antibiótico que ninguém para; as precauções de contato e a higiene das mãos no Clostridioides difficile, de As mãos que circulam entre os leitos; e a investigação do surto, depois que você notifica, de O terceiro caso e de Quem pode abrir a porta, na apostila de Medicina Preventiva e Saúde Coletiva.
Quem adoece disso
Doença diarreica aguda, para o Ministério da Saúde, é uma definição operacional antes de ser um diagnóstico: três ou mais evacuações líquidas ou semilíquidas em 24 horas, com duração de até 14 dias. Um novo episódio só conta como caso novo depois de 48 horas de intestino normal. É com essa régua que o Guia de Vigilância em Saúde, na 6ª edição revisada de 2024, organiza a vigilância — e ela tem uma consequência prática que surpreende o interno: o caso isolado de diarreia não é notificado individualmente. O país acompanha a doença pela monitorização das doenças diarreicas agudas, a MDDA, feita em unidades sentinelas escolhidas pela vigilância municipal, que registram idade, procedência, data de início dos sintomas e plano de tratamento de cada atendimento e enviam os dados por semana epidemiológica. O número nacional é, por desenho, uma amostra; o que a monitorização procura é a mudança do padrão local, que é como um surto aparece.
Todas as idades são suscetíveis, e a gastroenterite clínica é mais frequente abaixo dos 5 anos. O que interessa a este capítulo é outra frase do Guia: crianças, idosos e imunodeprimidos são mais vulneráveis e mais propensos a desidratar. O adulto jovem e saudável costuma atravessar o episódio bebendo; o idoso que toma diurético, o cardiopata, o renal crônico e a pessoa com aids não têm a mesma margem. O Guia manda perguntar, já na anamnese, por hipertensão, diabetes, doença cardíaca, hepática, pulmonar crônica, insuficiência renal, intolerância alimentar e HIV — não por formalidade, e sim porque cada uma dessas condições muda o volume que se pode dar, o remédio que se deve suspender ou o limiar para pedir exame.
O que mata, na maior parte das vezes, não é o microrganismo. O Guia descreve as complicações da diarreia aguda como consequência da desidratação e do desequilíbrio de eletrólitos, com óbito por choque hipovolêmico ou por hipopotassemia quando o tratamento não é adequado e precoce. Há exceções ligadas ao agente, e uma delas o interno precisa ter sempre na cabeça: a síndrome hemolítico-urêmica, que o mesmo documento associa às Escherichia coli produtoras de toxina Shiga, à Shigella dysenteriae tipo 1, ao Campylobacter, à Aeromonas e a enterovírus. É por ela que o paciente com diarreia com sangue que começa a urinar pouco e a empalidecer não volta para casa.
Os quadros de agentes do Guia servem ao pronto-socorro de um jeito que raramente se ensina: pelo relógio da exposição. As toxinas pré-formadas de Staphylococcus aureus e de Bacillus cereus começam de 1 a 6 horas depois da refeição, com vômito dominando, e duram cerca de 24 horas. O norovírus leva de 18 horas a 2 dias, faz vomitar muito, raramente dá febre e passa em até 2 dias. A Salmonella não tifoide leva de 8 horas a 2 dias, costuma dar febre e dura de 5 a 7 dias. Shigella e Campylobacter levam até uma semana e podem ser disentéricos. A Escherichia coli entero-hemorrágica leva de 3 a 5 dias e tem assinatura própria: começa aquosa, o sangue vem depois, e a febre é rara. Nas bodas de dona Adelaide o almoço foi ao meio-dia e meia, e as primeiras diarreias vieram entre onze da noite e duas da manhã — de dez a catorze horas depois. A janela exclui as toxinas pré-formadas e cabe em poucos agentes do quadro, entre eles a Salmonella não tifoide. Isso não muda o soro de ninguém, mas diz o que esperar nas próximas horas e já é o primeiro dado que a vigilância vai perguntar.
A cólera é rara no Brasil de hoje e, por isso mesmo, esquecida na porta. O Guia lembra que cerca de 75% dos infectados não têm sintoma e que, entre os que adoecem, só 10% a 20% fazem a forma grave; o vibrião vive também no ambiente aquático, e a transmissão se dá pela água, pelo alimento — inclusive peixe, marisco e crustáceo crus ou malcozidos — e de pessoa a pessoa. O ponto que o interno precisa guardar é a definição de caso suspeito de cólera numa área sem surto declarado, que é sensível de propósito: além de quem vem de área com casos confirmados e adoece em até dez dias, é suspeito todo indivíduo com mais de 5 anos que apresente diarreia súbita, líquida e abundante, e a desidratação grave, a acidose e o colapso circulatório só reforçam a suspeita. A consequência é que o adulto com diarreia aquosa volumosa de início abrupto já é caso de notificação imediata, sem viagem nenhuma na história.
O Clostridioides difficile é a diarreia que o hospital fabrica. A atualização de 2026 da American Gastroenterological Association descreve a infecção como causa comum de diarreia clinicamente importante, que costuma recorrer e pode matar quando grave ou fulminante, e amarra a prevenção a hábitos que o interno controla: barreira e desinfecção contra o esporo, nenhum antibiótico desnecessário — sobretudo para quem já teve a infecção — e reavaliação do inibidor de bomba de prótons que ninguém lembra por que foi prescrito. No plano federal brasileiro, nenhum protocolo trata da infecção: o único documento do Ministério da Saúde que traz dose para ela é a tabela do Caderno de Atenção Básica nº 28, de 2013, e essa dose está errada, como mostram as notas do critério. A régua de tratamento deste capítulo é, portanto, internacional, e a disponibilidade dos fármacos é a da padronização do hospital: a Rename 2024 não tem vancomicina nem fidaxomicina.
Por que acontece o que acontece
O intestino perde água por dois caminhos, e a diferença decide quase tudo o que vem depois. No primeiro, a mucosa continua inteira: uma toxina liga a secreção de cloro e de água pelas células do intestino delgado, e o resultado é diarreia aquosa, volumosa, geralmente sem febre e sem sangue — o modelo é a cólera, e a Escherichia coli enterotoxigênica faz o mesmo em escala menor. No segundo, o agente invade a mucosa do cólon, e o que sai é pouco volume com muco, pus e sangue, com febre, cólica e tenesmo, a vontade de evacuar que não passa depois que termina. O Caderno de Atenção Básica nº 28 descreve assim as duas síndromes, aquosa e disentérica, e a separação serve ao pronto-socorro porque as perguntas mudam: na aquosa, a pergunta é quanto líquido está saindo; na disentérica, é qual germe e se o antibiótico ajuda.
A reidratação oral funciona por uma razão de membrana. A célula do intestino delgado tem um transportador que leva sódio para dentro acoplado à glicose, e esse transportador continua funcionando na diarreia secretora, porque a toxina liga a saída de água sem desligar essa entrada. Quando o soro chega com sódio e glicose na proporção certa, os dois entram juntos e a água acompanha o sal. Água pura não carrega sódio e é absorvida pouco; açúcar sem sódio suficiente não aproveita o transporte e ainda fica na luz puxando água para fora. É por isso que um paciente com cólera, perdendo litros, pode ser reidratado pela boca enquanto consegue beber — e é por isso que a composição do soro não é detalhe.
Daí vem a resposta à pergunta do marido de Conceição. Bebida de academia foi desenhada para repor suor em quem não tem diarreia: tem mais açúcar e menos sódio do que o intestino doente precisa, e não substitui o soro de reidratação oral de quem está desidratado. Refrigerante é pior, e o cartaz Manejo do Paciente com Diarreia, de 2023, manda não usar, assim como manda não adoçar chá e suco. Mas não é preciso transformar o adulto sem desidratação num problema: para ele, o plano A do mesmo cartaz aceita líquidos caseiros — água, chá, suco, água de coco, sopa —, em pequenas quantidades e com frequência, depois de cada evacuação e de cada vômito, ou o próprio soro. O isotônico não derruba ninguém no plano A; ele falha no plano B, quando alguém o usa no lugar do soro que o paciente precisava beber sob observação. A discussão sobre qual fórmula de soro o país distribui está em Diarreia e desidratação na criança.
O adulto jovem compensa a perda com sede, com um rim que concentra a urina e com vasos que se contraem. O idoso perde as três defesas ao mesmo tempo: sente menos sede, concentra menos a urina e com frequência toma justamente os remédios que desligam a compensação — o diurético, que continua tirando sódio e água, e o enalapril e os outros inibidores da enzima conversora, ou os bloqueadores do receptor de angiotensina, que tiram do rim a capacidade de manter a filtração quando a pressão cai. Dona Adelaide tomou os dois às sete da manhã, depois de uma noite de diarreia. O exame também engana nessa idade: a pele perde elasticidade com os anos e a prega demora a voltar mesmo em quem está hidratado, e a boca seca de quem dorme de boca aberta não é desidratação. No idoso, pesa o conjunto — e, acima de tudo, o pulso, a pressão, a urina e o sensório.
As fezes líquidas não levam só água. Levam potássio e bicarbonato, e a diarreia volumosa produz hipocalemia e acidose metabólica com ânion-gap normal. O potássio baixo é a segunda causa de morte que o Guia de Vigilância associa à diarreia mal tratada, e ele não aparece no exame físico até virar fraqueza, íleo ou arritmia. O soro de reidratação oral tem potássio na composição, e o plano C do cartaz acrescenta potássio à manutenção venosa; o idoso em uso de tiazídico, que já perde potássio pela urina, é quem chega mais baixo. A correção da hipocalemia medida, com dose, via e velocidade, é de Potássio na enfermaria.
O antibiótico quase nunca encurta a diarreia aquosa, porque a maior parte é viral ou mediada por toxina e termina sozinha em dias. O cartaz de 2023 é direto: fora da disenteria com comprometimento do estado geral e da cólera grave, os antibióticos são ineficazes, causam resistência e não devem ser prescritos. O dano tem um mecanismo que o interno vê de perto: a microbiota do cólon ocupa o espaço e consome os nutrientes de que o esporo do Clostridioides difficile precisaria para germinar, e o antibiótico de amplo espectro desfaz essa barreira. Há ainda um dano específico, registrado pela diretriz de 2017 da Infectious Diseases Society of America: na infecção por Escherichia coli produtora de toxina Shiga, o antibiótico deve ser evitado. E há o outro lado. Na disenteria invasiva ele ajuda, e na cólera grave o Guia registra que encurta a diarreia em cerca de um dia e meio, reduz o volume de fezes em até metade e o tempo de eliminação do vibrião para um a dois dias — sempre como complemento do soro, nunca no lugar dele.
Remédio que prende o intestino faz exatamente o que promete, e é esse o problema. Na diarreia invasiva, reduzir o trânsito mantém o microrganismo e a toxina mais tempo em contato com a mucosa. O Consenso Brasileiro de Medicamentos Potencialmente Inapropriados para Idosos, de 2016, pede que se evite loperamida na diarreia de causa desconhecida e na gastroenterite infecciosa grave, pelo risco de atrasar o diagnóstico, precipitar megacólon tóxico e prolongar a infecção. A diretriz americana de 2017 aceita a loperamida no adulto imunocompetente com diarreia aquosa, mas manda evitá-la em qualquer idade quando houver risco de megacólon — na diarreia inflamatória e na diarreia com febre. O cartaz brasileiro não faz distinção nenhuma: antidiarreicos não devem ser usados. Ermelino tomou duas cápsulas com febre e sangue nas fezes, que é a combinação em que as três fontes concordam.
A colite por Clostridioides difficile começa com um esporo que resiste ao álcool e ao ambiente e germina no cólon quando falta a microbiota. A bactéria produz toxinas que inflamam a mucosa, e a gravidade se mede fora do intestino: a atualização de 2026 da American Gastroenterological Association chama de grave a infecção com leucócitos acima de 15.000 por microlitro ou creatinina acima de 1,5 vez a basal, e de fulminante a que chega a choque, íleo ou megacólon. A creatinina de dona Iolanda foi de 0,8 para 1,5 e os leucócitos, de 9.800 para 17.200: é infecção grave, mesmo com febre baixa. O tratamento é pela boca de propósito: a vancomicina oral quase não é absorvida e age onde a doença está, na luz do cólon, e a mesma atualização a indica por boca ou por sonda e, quando há íleo, também por via retal. O metronidazol ficou restrito à doença fulminante, e a fidaxomicina, de espectro mais estreito, é preferida porque a infecção recorre menos depois dela.

Como se apresenta de verdade
Diarreia é palavra do paciente, e ele a usa para coisas diferentes: fezes amolecidas uma vez por dia depois de um remédio novo, incontinência de um idoso acamado, cinco evacuações de água numa madrugada. Antes de qualquer plano, três perguntas definem o que está na sua frente: há quanto tempo começou; como são as fezes, com ou sem sangue; e quanto a pessoa está perdendo e consegue beber. A primeira separa o agudo do persistente, a segunda separa a diarreia aquosa da disenteria, e a terceira leva direto à avaliação da hidratação, que é a decisão que não espera exame nenhum.
Competência ao final deste capítulo. Classificar a hidratação do adulto e do idoso pela régua de 2023, escolher e executar o plano de reidratação, decidir quem precisa de exame e de antibiótico, reconhecer e tratar a infecção por Clostridioides difficile, recusar o antidiarreico com argumento e notificar no mesmo dia a suspeita de cólera e de surto.
Diarreia de verdade, aguda ou persistente
A definição que o Guia de Vigilância em Saúde usa é também a melhor régua clínica: três ou mais evacuações líquidas ou semilíquidas em 24 horas. Evacuações frequentes de fezes formadas não são diarreia, e a incontinência de fezes líquidas no idoso constipado pode ser escape em volta de um fecaloma — assunto de O repouso que ninguém prescreveu, na apostila de Síndromes do Paciente Internado. Antes de chamar a diarreia de infecciosa, o Guia manda excluir as causas que não são: medicamento recente — laxante, antiácido, antibiótico —, álcool e excesso de leite e derivados. No internado, a primeira pergunta é pela própria folha de prescrição, porque a lactulose do dia anterior explica muita diarreia e não se pesquisa Clostridioides difficile em quem está evacuando por laxante.
O tempo decide o capítulo. O Caderno de Atenção Básica nº 28 chama de aguda a diarreia com menos de 14 dias, de persistente a que dura 14 dias ou mais e de crônica a que passa de 30. O cartaz de 2023 traduz o corte em conduta: com mais de 14 dias de evolução, o paciente com sinais de desidratação é reidratado primeiro e encaminhado ao hospital, e o que está hidratado vai para consulta médica de investigação. A investigação da diarreia persistente e crônica é do capítulo Síndrome do intestino irritável e diarreia crônica, nesta apostila; a diarreia de mais de seis semanas com suspeita de doença inflamatória é de A diarreia que não é infecciosa.
Aquosa ou com sangue
A diarreia aquosa é o grosso do pronto-socorro: viral ou por toxina, sem sangue, com ou sem vômito, e termina sozinha. Nela o que mata é o volume, e a conduta é soro. A disenteria é outra doença: pouco volume, sangue e muco, febre, cólica e tenesmo, a sensação de evacuação incompleta que Ermelino descreveu sem saber o nome. O cartaz de 2023 manda verificar sangue nas fezes em todo paciente e dá a regra do antibiótico a partir daí: sangue nas fezes com comprometimento do estado geral — o da tabela de hidratação —, ou com febre alta persistente, dor abdominal, tenesmo ou comprometimento sistêmico.
Há um desenho de disenteria que pede cuidado a mais. A Escherichia coli entero-hemorrágica, pelo quadro de agentes do Guia, começa aquosa, o sangue aparece depois e a febre é rara — e é a produtora de toxina Shiga que o mesmo documento associa à síndrome hemolítico-urêmica. Diarreia com sangue sem febre, com muita dor e início aquoso, é o paciente em que a coprocultura precisa sair antes da primeira dose de antibiótico e em que palidez, manchas roxas na pele ou urina escassa nos dias seguintes mandam ao hospital no mesmo dia. A posição desta apostila sobre dar ou não antibiótico a esse paciente está no bloco de divergências.
Temperatura de 39 °C ou mais tem instrução própria no cartaz: além do quadro diarreico, investigar e tratar outras causas de febre, como pneumonia, infecção urinária e amigdalite. Diarreia acompanha muita infecção que não é intestinal, e o idoso com pneumonia pode chegar dizendo só que está com o intestino solto.
O relógio da refeição e as outras pessoas doentes
Duas perguntas de anamnese são de clínica e de vigilância ao mesmo tempo: quando e o que a pessoa comeu, e quem mais está doente. O Caderno de Atenção Básica nº 28 manda perguntar se parentes ou conhecidos têm os mesmos sintomas, e o Guia define surto de doença diarreica como dois ou mais casos relacionados entre si, com exposição à mesma fonte, ou como mudança no padrão local — aumento de casos, casos graves, mudança de faixa etária ou de sexo. Conceição e dona Adelaide, com o pai e as tias doentes em casa, já são um surto pela definição, antes de qualquer exame.
O intervalo entre a refeição e o primeiro sintoma aponta o tipo de agente. Vômito dominando em 1 a 6 horas é toxina pré-formada; de 8 horas a 2 dias, com febre, cabe na Salmonella não tifoide; até uma semana, com sangue e febre, em Shigella e Campylobacter; de 3 a 5 dias, com sangue e sem febre, na entero-hemorrágica. A viagem internacional recente também entra na anamnese, porque o viajante com febre de 38,5 °C ou mais, ou com sinais de sepse, é uma das exceções em que a diretriz de 2017 da Infectious Diseases Society of America aceita antibiótico empírico antes do resultado.
Uma armadilha dessa conta está no próprio Guia. O quadro de agentes do capítulo de doenças diarreicas agudas dá para o Vibrio cholerae incubação de 5 a 7 dias; o capítulo de cólera, no mesmo volume, dá de 12 horas a 5 dias, geralmente 2 a 3. Quem usa o quadro descarta a cólera justamente no intervalo mais comum. Para estimar o agente pelo tempo vale o capítulo de cólera; para notificar vale a definição de caso suspeito, que não depende de incubação nenhuma.
A hidratação do adulto e do idoso
A régua de hidratação em uso no Brasil é a do cartaz Manejo do Paciente com Diarreia, de 2023, que o Guia de Vigilância de 2024 manda seguir como vigente. Ela observa estado geral, olhos, sede, lágrimas e boca, explora a prega abdominal e o pulso e, no paciente internado que evolui com diarreia e vômito, a perda de peso. Sem sinais, plano A. Dois ou mais sinais, desidratação e plano B. Dois ou mais sinais com pelo menos um dos marcados como graves — comatoso, hipotônico, letárgico ou inconsciente; incapaz de beber; pulso fraco ou ausente —, desidratação grave e plano C. Na dúvida entre duas classificações, o cartaz manda tratar pelo pior cenário.
O pulso é o sinal que mais pesa no adulto, e é justamente o que as tabelas em circulação escrevem diferente. A edição de 2023 põe pulso cheio na coluna da desidratação e pulso fraco entre os sinais de gravidade. O cartaz anterior, que ainda é o arquivo servido no endereço antigo da Biblioteca Virtual em Saúde, e o quadro do capítulo de cólera do próprio Guia de 2024 põem pulso rápido e fraco na desidratação sem gravidade. Dona Adelaide, com olhos fundos, sede e pulso fino, é plano B por uma tabela e plano C pela outra. As notas do critério fazem a conta, e a divergência tem lado declarado: esta apostila adota a tabela de 2023.
No idoso a tabela pede três correções de leitura. A sede diminui com a idade, e o idoso desidratado pode não pedir água; a prega perde valor, porque a pele sem elasticidade demora a voltar em qualquer estado; e a boca seca de quem dorme de boca aberta engana. O que se soma ao cartaz é o que qualquer enfermaria mede: pressão arterial, débito urinário e o sensório comparado ao de ontem, que quem responde é a família. A perda de peso que o cartaz pede no internado exige o peso da admissão anotado — mais uma razão para pesar todo paciente que interna.
Quem não vai para casa
O cartaz de 2023 dá os sinais de alerta que trazem o paciente de volta: piora da diarreia, com mais evacuações ou mais volume; vômitos repetidos; sangue nas fezes; diminuição da urina; muita sede; recusa de alimentos; ou nenhuma melhora em dois dias. Os mesmos sinais, presentes na chegada, afastam o plano A. O Caderno de Atenção Básica nº 28 acrescenta o que impede a reidratação oral e manda para a veia: vômitos persistentes, recusa persistente do soro, distensão abdominal grave com íleo, alteração de consciência, evolução para choque e peso que não melhora nas primeiras horas de reidratação.
Três perfis de adulto pedem limiar mais baixo mesmo sem desidratação grave. O imunodeprimido — aids, quimioterapia, transplante, corticoide em dose alta — tem indicação de coprocultura e de hemocultura, e a diretriz de 2017 manda considerar antibiótico empírico quando ele está gravemente doente e com sangue nas fezes. O idoso com diurético, cardiopatia ou doença renal crônica desidrata mais depressa e tolera mal tanto a desidratação quanto o excesso de volume. E a gestante: o cartaz proíbe nela a ondansetrona do plano B, o que tira da unidade o recurso para o vômito que impede de beber, e o Caderno de Atenção Básica nº 28 contraindica a quinolona na gestação.
A diarreia persistente da pessoa com aids, em que o Guia lista Cryptosporidium e Cystoisospora entre os agentes do adulto, não tem capítulo no nível. Este capítulo fica com o episódio agudo e a decisão de urgência nessa pessoa; a porta de entrada da investigação da diarreia que não termina está no capítulo Síndrome do intestino irritável e diarreia crônica, nesta apostila, e a investigação dirigida à imunossupressão continua sem capítulo no nível.
Diarreia depois do antibiótico ou dentro do hospital
Diarreia em quem está tomando antibiótico ou tomou nas últimas semanas, e diarreia que começa depois de alguns dias de internação, são suspeita de Clostridioides difficile até que se prove outra coisa. A diretriz de 2017 põe essas duas situações como indicação de pesquisa do agente, e a atualização de 2026 da American Gastroenterological Association trata a infecção como diagnóstico clínico — diarreia aguda, tipicamente depois de antibiótico — sustentado por exame. Febre baixa, cólica e leucocitose acompanham muitas vezes, mas não são necessárias.
A gravidade se classifica no diagnóstico, com dois números que o interno já tem na folha: leucócitos acima de 15.000 por microlitro ou creatinina acima de 1,5 vez a basal fazem a infecção grave; choque, íleo ou megacólon fazem a fulminante. O íleo é a armadilha, porque o cólon que parou evacua menos, e barriga distendida com menos diarreia não é melhora.
Omeprazol na folha sem indicação é mais um dado. A mesma atualização manda reavaliar o inibidor de bomba de prótons durante o tratamento e na prevenção da recorrência, e só mantê-lo quando houver indicação legítima. Dona Iolanda recebe 40 mg por dia desde a admissão por uma pneumonia.
Como fechar o diagnóstico
Na diarreia aguda do adulto, o exame certo é quase sempre nenhum. A investigação existe para três situações: o paciente em que o resultado muda o tratamento dele — disenteria, febre, sepse, imunossupressão, suspeita de Clostridioides difficile —; o paciente em que o resultado muda a vida dos outros — surto e suspeita de cólera —; e o paciente grave, em que os exames de sangue orientam a reidratação e o destino.
Qual régua o Brasil usa? Para o caso individual fora de surto, nenhum documento brasileiro em uso fixa quando pedir coprocultura no adulto: o cartaz de 2023 não pede exame nenhum, e o Guia de Vigilância em Saúde trata o laboratório como ferramenta de vigilância e de surto. Por isso, para o paciente isolado, este capítulo usa a diretriz da Infectious Diseases Society of America de 2017; para surto e cólera, o Guia de 2024; para Clostridioides difficile, a atualização da American Gastroenterological Association de 2026.
1. Quem não precisa de exame nenhum
Conceição tem diarreia aquosa há seis horas, sem febre, sem sangue e sem desidratação. Coprocultura não muda o que ela vai fazer em casa, e o resultado chegaria quando a diarreia já tivesse acabado. A diretriz de 2017 reserva a pesquisa de bactérias nas fezes para a diarreia com febre, com sangue ou muco, com cólica ou dor abdominal intensa ou com sinais de sepse, e diz que leucócitos fecais e lactoferrina não devem ser usados para definir a causa da diarreia infecciosa aguda. O parasitológico de fezes também não entra na diarreia aquosa de horas: o cartaz e a diretriz só trazem os parasitas para a conversa quando a diarreia chega a 14 dias.
Mas Conceição vai colher fezes hoje — não por ela, pelo surto. O Guia recomenda, na ocorrência de surto de doença diarreica, coleta de amostras dos casos para pesquisa de bactérias, vírus e parasitos, antes da administração de antibiótico, e é a amostra de quem ainda não recebeu nada que tem valor. A indicação é epidemiológica, e o pedido precisa dizer isso por escrito, para que o laboratório e a vigilância saibam que as amostras de dona Adelaide e de Conceição pertencem ao mesmo evento.
2. Coprocultura: quando e como se colhe
Peça coprocultura no adulto com diarreia e febre, com sangue ou muco nas fezes, com dor abdominal intensa ou com sinais de sepse, que são as indicações da diretriz de 2017; no imunodeprimido com febre, sangue ou doença grave, em quem a diretriz também manda colher hemocultura; em todos os casos de surto que puderem ser colhidos; e na suspeita de cólera. O pedido deve nomear o que se procura — Salmonella, Shigella, Campylobacter e, se o laboratório oferecer, Escherichia coli produtora de toxina Shiga —, porque a cultura de rotina não procura tudo.
O Guia descreve a coleta que dá resultado. As fezes vão em frasco coletor limpo, sem formol; quando o transporte demora, usa-se o swab fecal, que é diferente do retal: a ponta do swab é introduzida nas fezes já dentro do frasco, em até duas horas depois da evacuação, e depois colocada em meio de Cary-Blair ou em água peptonada alcalina. Em Cary-Blair, a amostra segue para o laboratório em até 48 horas, ou fica refrigerada por até sete dias. Em surto, o Guia recomenda duas a três amostras por paciente quando houver material e capacidade laboratorial. O swab retal fica reservado ao óbito.
E há a regra que não admite exceção: fezes antes do antibiótico. Ermelino recebe o frasco antes do primeiro comprimido de ciprofloxacino, e isso não atrasa o tratamento em mais que o tempo de uma evacuação — que, com tenesmo, não demora.
3. Hemocultura e exames de sangue
A diretriz de 2017 indica hemocultura em quem tem sinais de septicemia, em quem tem manifestações sistêmicas da infecção, no imunodeprimido, quando há suspeita de febre entérica e no viajante que volta de área endêmica de febre tifoide com febre sem causa definida. O adulto com diarreia e febre que está bem, como Ermelino, não precisa; a pessoa transplantada com febre e sangue nas fezes precisa, e antes do antibiótico.
Exame de sangue entra pelo tamanho da perda e não pelo nome da doença. No plano C, no idoso em plano B e no paciente com disenteria e comprometimento do estado geral: sódio, potássio, ureia, creatinina e bicarbonato, porque a diarreia volumosa leva potássio e bicarbonato e porque a creatinina decide o destino. Hemograma entra na suspeita de Clostridioides difficile, em que a contagem de leucócitos classifica a gravidade, e na diarreia com sangue que evolui com palidez, manchas roxas ou urina escassa, em que a queda de hemoglobina e de plaquetas com creatinina subindo é o desenho da síndrome hemolítico-urêmica.
Dona Adelaide colhe sódio, potássio, ureia, creatinina, bicarbonato e hemograma na mesma punção do acesso venoso, antes da primeira bolsa, porque depois de três horas de soro o potássio e a creatinina já não contam de onde ela partiu.
4. Pesquisa de Clostridioides difficile
Pesquise Clostridioides difficile no adulto com diarreia depois de antibiótico e na diarreia que começou dentro do serviço de saúde, que são as indicações da diretriz de 2017. Uma única amostra de fezes diarreicas basta; a mesma diretriz diz que várias amostras não aumentam o rendimento. Fezes formadas não se testam, e quem está com laxante na prescrição não se testa antes de retirá-lo, porque o exame encontra colonização em quem não tem doença.
A atualização de 2026 da American Gastroenterological Association prefere o teste em várias etapas: uma etapa sensível, que detecta o antígeno comum da bactéria ou o gene da toxina, e uma etapa que detecta a toxina livre nas fezes. As duas positivas confirmam a infecção. Quando discordam — a primeira positiva e a toxina negativa — e a suspeita clínica é alta, a atualização manda tratar. Pedir de novo uma amostra negativa na mesma semana, na esperança de que vire positiva, não é método.
Depois do tratamento não existe exame de controle. A mesma atualização diz que não se faz teste de cura e que as fezes só voltam ao laboratório se a diarreia persistir ou piorar. Toxina positiva numa pessoa que melhorou não é falha de tratamento, e retratar por um laudo é voltar a expor o paciente a mais antibiótico.
5. Suspeita de cólera: o exame que é também notificação
Na suspeita de cólera, a amostra de fezes ou de vômito é colhida antes do antibiótico e segue em Cary-Blair ou em água peptonada alcalina. O Guia é explícito sobre quem fecha o caso: só o laudo emitido por laboratório de referência em saúde pública confirma ou descarta, e um resultado negativo só descarta se houver segurança de que coleta, acondicionamento e transporte foram adequados, com amostra colhida antes do antibiótico. Uma amostra tirada depois da doxiciclina não serve para nada disso.
A notificação não espera o laboratório. Todo caso suspeito ou confirmado é notificado de forma imediata, em até 24 horas, pelo profissional ou pelo serviço que atendeu, pelo meio mais rápido disponível, e registrado no Sinan em até sete dias na Ficha de Investigação da Cólera. Quem tem Vibrio cholerae nas fezes e nenhum sintoma é portador: o Guia manda informar a investigação, não registrar como caso e não dar antibiótico profilático.
6. Imagem, endoscopia e o que fica de fora
Radiografia e tomografia de abdome não fazem parte da diarreia aguda do adulto. Entram quando o exame físico mostra outra coisa: distensão com ruídos ausentes, dor à descompressão, sinais de íleo ou de megacólon no paciente com Clostridioides difficile — que é doença fulminante e chama a equipe de cirurgia no mesmo turno, como manda a atualização de 2026 —, ou um abdome que parece cirúrgico e está sendo lido como gastroenterite.
Retossigmoidoscopia e colonoscopia não são exame de diarreia aguda infecciosa. A indicação delas na colite de mais longa duração, e a biópsia que separa a doença inflamatória da infecção por citomegalovírus, são de A diarreia que não é infecciosa.
Seis decisões, cada uma com a sua régua
O primeiro diagnóstico útil é o estado de hidratação e perfusão. A escolha de via e volume deve produzir uma resposta observável, com reavaliação desde o início. Antibiótico e exames microbiológicos entram quando o contexto os justifica; diarreia persistente, recorrente ou com perda de peso exige ampliar o percurso para os capítulos de diarreia crônica e doença inflamatória. Cada decisão deste capítulo tem uma régua diferente, e confundir as réguas é o erro mais comum. A hidratação segue o cartaz Manejo do Paciente com Diarreia, de 2023, que o Guia de Vigilância em Saúde de 2024 declara vigente. O antibiótico da disenteria e da cólera segue o cartaz e o Guia. O exame do caso isolado segue a diretriz da Infectious Diseases Society of America de 2017, porque nenhum documento brasileiro em uso fixa quando pedir coprocultura no adulto fora de surto. O Clostridioides difficile segue a atualização da American Gastroenterological Association de 2026, porque no plano federal só existe uma tabela de 2013 com dose errada. A notificação segue a Portaria GM/MS nº 11.211, de 2026, e o Guia. As doses do quadro de conversão são para um adulto de 70 kg e foram conferidas contra as apresentações da Rename 2024.
- 1Confirmar que é diarreia — três ou mais evacuações líquidas ou semilíquidas em 24 horas —, há quanto tempo e se há sangue; excluir laxante, antiácido, antibiótico recente, álcool e excesso de lácteos; perguntar quem mais está doente e o que comeu.
- 2Classificar a hidratação pela tabela de 2023: sem sinais, plano A; dois ou mais sinais, plano B; dois ou mais sinais com um de gravidade — sensório rebaixado, incapacidade de beber, pulso fraco ou ausente —, plano C. Na dúvida, o pior cenário.
- 3Plano A: soro de reidratação oral ou líquidos caseiros depois de cada evacuação e de cada vômito, sem refrigerante, alimentação mantida, retorno em dois dias ou antes com sinal de alerta.
- 4Plano B, na unidade: soro de reidratação oral 50 a 100 mL/kg em 4 a 6 horas, conforme a sede; vômito persistente, ondansetrona 8 mg em dose única no adulto que não é gestante; desidratação que persiste, sonda nasogástrica; sem melhora em 6 horas, internação.
- 5Plano C: soro fisiológico a 0,9% ou Ringer lactato 30 mL/kg em 30 minutos e 70 mL/kg em 2 horas e 30 minutos, reavaliando a cada fase; soro oral assim que conseguir beber; observação por pelo menos 6 horas.
- 6Adulto imunocompetente sem sangue e sem febre: nenhum exame, nenhum antibiótico, nenhum antidiarreico.
- 7Sangue nas fezes com comprometimento do estado geral, febre alta persistente, dor abdominal, tenesmo ou comprometimento sistêmico: coprocultura antes da primeira dose e ciprofloxacino 500 mg de 12/12 horas por 3 dias; reavaliar em 48 horas.
- 8Imunodeprimido, sepse ou suspeita de febre entérica: hemocultura e coprocultura antes do antibiótico; gravemente doente e com sangue, antibiótico empírico.
- 9Diarreia depois de antibiótico ou adquirida no hospital: uma amostra diarreica para Clostridioides difficile; classificar por leucócitos acima de 15.000 e creatinina acima de 1,5 vez a basal; tratar a doença não fulminante com fidaxomicina 200 mg de 12/12 horas ou vancomicina 125 mg de 6/6 horas por boca, por 10 dias.
- 10Clostridioides difficile com choque, íleo ou megacólon: vancomicina 500 mg de 6/6 horas por boca ou sonda, metronidazol 500 mg IV de 8/8 horas, vancomicina retal 500 mg de 6/6 horas se houver íleo, e equipe com cirurgia no mesmo turno.
- 11Mais de 5 anos com diarreia súbita, líquida e abundante, ou procedente de área com cólera há até dez dias: caso suspeito de cólera — fezes antes do antibiótico e notificação imediata, em até 24 horas.
- 12Dois ou mais casos ligados à mesma exposição: surto — comunicação à Secretaria Municipal de Saúde assim que se souber, e Ficha de Investigação de Surto de doença transmitida por alimento no Sinan.
- 13Antidiarreico: nenhum, em nenhum desses pacientes.
Os sinais do exame no adulto e no idoso: o que dizem e onde enganam
| Sinal | O que indica no adulto | Onde engana no idoso | Peso na decisão |
|---|---|---|---|
| Sensório e estado geral | Irritação e inquietação acompanham a desidratação; letargia, coma ou hipotonia são gravidade | Sonolência de base, demência e delirium confundem: compare com o sensório de ontem, pela família | Rebaixamento é sinal de gravidade: sozinho com mais um sinal, plano C |
| Sede e capacidade de beber | Beber rápido e com avidez indica desidratação; não conseguir beber é gravidade | A sede diminui com a idade: o idoso desidratado pode não pedir água | Incapacidade de beber é sinal de gravidade e também tira a via oral |
| Olhos, lágrimas e boca | Olhos fundos, lágrimas ausentes e boca seca somam para desidratação | Olhos fundos por perda de gordura e boca seca de quem dorme de boca aberta | Somam, mas não separam desidratação de desidratação grave |
| Prega abdominal | Volta devagar na desidratação; em mais de 2 segundos, na grave | A pele perde elasticidade e demora a voltar mesmo hidratada | Pouco confiável no idoso: não decide sozinha |
| Pulso | Cheio na desidratação sem gravidade; fraco ou ausente é gravidade pela régua de 2023 | Betabloqueador esconde a taquicardia; a pressão baixa soma | O sinal que mais pesa: pulso fraco com mais um sinal é plano C |
| Perda de peso | Até 10% na desidratação; acima de 10%, grave | Só serve com peso anterior anotado | Obrigatória no internado que evolui com diarreia e vômito |
| Diurese e pressão | Fora da tabela do cartaz, mas medidas em qualquer enfermaria | Diurético e anti-hipertensivo tomados de manhã mudam os dois | Confirmam a gravidade e acompanham a resposta ao soro |
Antimicrobiano no adulto: quem recebe, qual, e o que a Rename 2024 entrega
| Situação | Régua | Esquema no adulto | Rename 2024 |
|---|---|---|---|
| Diarreia aquosa, sem sangue, imunocompetente | Cartaz 2023; IDSA 2017 | Nenhum antibiótico | — |
| Sangue nas fezes com comprometimento, febre alta persistente, dor abdominal, tenesmo ou comprometimento sistêmico | Cartaz 2023 (lado declarado na divergência) | Ciprofloxacino 500 mg VO de 12/12 h por 3 dias | Comprimido de 500 mg, Componente Básico |
| Mesma disenteria em gestante ou sem via oral | Cartaz 2023 (alternativa); CAB 28 (quinolona contraindicada na gestação); bula da ceftriaxona | Ceftriaxona 1 a 2 g IM ou IV uma vez ao dia, por 3 a 5 dias — nunca os 50 a 100 mg/kg do cartaz no adulto | Frasco de 1 g, Componente Básico |
| Sangue persistente em 48 horas, condições gerais boas | Cartaz 2023 | Nenhum antibiótico novo; plano conforme a hidratação | — |
| Sangue persistente em 48 horas, condições gerais comprometidas | Cartaz 2023; bula da ceftriaxona | Ceftriaxona 1 a 2 g ao dia, ou internação | Frasco de 1 g, Componente Básico |
| Cólera com desidratação grave, uma ou mais evacuações por hora nas 4 primeiras horas do plano B, gestação ou comorbidade | Guia 2024, capítulo de cólera | Doxiciclina 300 mg dose única, inclusive na gestante; alternativas: azitromicina 1 g ou ciprofloxacino 1 g em dose única | Doxiciclina 100 mg, Estratégico; azitromicina 500 mg, Básico e Estratégico; ciprofloxacino 500 mg, Básico |
| Imunodeprimido gravemente doente com sangue nas fezes | IDSA 2017 | Ciprofloxacino ou azitromicina conforme a sensibilidade local, depois de colhidas coprocultura e hemocultura | Os dois constam |
| Amebíase: trofozoítos com hemácias nas fezes, ou disenteria que falhou ao tratamento para Shigella | Cartaz 2023 (indicação); CAB 28 (dose do adulto) | Metronidazol 500 mg VO de 8/8 h por 5 dias; forma grave, 750 mg de 8/8 h por 10 dias | Comprimidos de 250 e de 400 mg, Básico |
| Clostridioides difficile não fulminante, grave ou não | AGA 2026 | Fidaxomicina 200 mg VO de 12/12 h por 10 dias, preferida; ou vancomicina 125 mg VO de 6/6 h por 10 dias | Nenhum dos dois consta: padronização do hospital |
| Clostridioides difficile fulminante | AGA 2026 | Vancomicina 500 mg de 6/6 h por boca ou sonda + metronidazol 500 mg IV de 8/8 h; com íleo, vancomicina retal 500 mg de 6/6 h | Vancomicina não consta; metronidazol só em comprimido |
| Primeira recorrência de Clostridioides difficile em até 8 semanas | AGA 2026 | Vancomicina em doses decrescentes ou fidaxomicina | Nenhum dos dois consta |
Conversões para um adulto de 70 kg
| Prescrição | Conta | Na apresentação da Rename 2024 |
|---|---|---|
| Plano B: soro de reidratação oral 50 a 100 mL/kg em 4 a 6 horas | 3.500 a 7.000 mL; na média de 75 mL/kg, 5.250 mL — de 875 a 1.312 mL por hora | Sais para reidratação oral, pó para solução oral, Básico |
| Plano C, 1ª fase: 30 mL/kg em 30 minutos | 2.100 mL, o equivalente a 4.200 mL por hora | Cloreto de sódio 0,9% ou Ringer lactato, Básico |
| Plano C, 2ª fase: 70 mL/kg em 2 horas e 30 minutos | 4.900 mL, 1.960 mL por hora; 7.000 mL nas duas fases | Cloreto de sódio 0,9% ou Ringer lactato, Básico |
| Manutenção do plano C: 1.500 mL + 20 mL/kg acima de 20 kg, teto de 2.000 mL | 1.500 + 1.000 = 2.500 mL, limitado a 2.000 mL em 24 horas | Glicose 5% e cloreto de sódio 0,9%, Básico |
| Potássio da manutenção: 2 mL de KCl a 10% por 100 mL | 40 mL a 10% = 53,7 mEq em 2.000 mL; com a ampola de 19,1% (2,56 mEq/mL), os mesmos 53,7 mEq cabem em 21 mL | Só cloreto de potássio 19,1%; o de 10% não consta |
| Ciprofloxacino 500 mg de 12/12 h por 3 dias | 6 tomadas | 6 comprimidos de 500 mg |
| Doxiciclina 300 mg em dose única (cólera) | 1 tomada | 3 comprimidos de 100 mg |
| Azitromicina 1 g em dose única (cólera) | 1 tomada | 2 comprimidos de 500 mg |
| Ondansetrona 8 mg em dose única (plano B) | 1 tomada | 1 comprimido de 8 mg ou 2 de 4 mg |
| Ceftriaxona 1 a 2 g uma vez ao dia | Por via IM, no máximo 1 g por sítio, cada grama em 3,5 mL de lidocaína a 1% | 1 ou 2 frascos de 1 g |
| Metronidazol 500 mg de 8/8 h por 5 dias (amebíase) | 1.500 mg/dia; 30 comprimidos no curso | 2 comprimidos de 250 mg por tomada |
| Vancomicina 125 mg de 6/6 h por 10 dias | 500 mg/dia; 5 g no curso | Não consta |
| Vancomicina 500 mg de 6/6 h (fulminante) | 2.000 mg/dia | Não consta |
O que se comunica, a quem e em quanto tempo
| Situação | Obrigação | Prazo e caminho | Quem investiga depois |
|---|---|---|---|
| Caso isolado de diarreia aguda em unidade que não é sentinela | Nenhuma notificação individual | — | — |
| Caso atendido em unidade sentinela da monitorização | Registro nos impressos da MDDA | Por semana epidemiológica, consolidado pela Secretaria Municipal no Sivep-DDA | Vigilância municipal |
| Suspeita de surto: dois ou mais casos ligados à mesma exposição | Notificar o surto | Comunicação à Secretaria Municipal de Saúde assim que se souber; Ficha de Investigação de Surto de doença transmitida por alimento no Sinan | O terceiro caso; Quem pode abrir a porta |
| Surto que configure evento de saúde pública | Notificação imediata | Até 24 horas, ao Ministério, à Secretaria Estadual e à Municipal | Vigilância das três esferas |
| Caso suspeito de cólera, isolado ou dentro de surto | Notificação imediata, e ficha individual além da ficha de surto | Até 24 horas, pelo meio mais rápido; Ficha de Investigação da Cólera no Sinan em até 7 dias | Vigilância; laboratório de referência confirma ou descarta |
| Caso de surto que evolui para síndrome hemolítico-urêmica | Ficha individual no Sinan, além da ficha de surto | Junto com a notificação do surto | Vigilância municipal |
| Diarreia por Clostridioides difficile agrupada numa enfermaria | Comunicar o serviço de controle de infecção | No mesmo dia | Comissão de controle de infecção hospitalar; O terceiro caso |
O Guia de Vigilância em Saúde, 6ª edição revisada (2024), traz duas tabelas de hidratação no mesmo volume, e elas discordam no pulso. O Quadro 1 do capítulo de cólera, que diz reproduzir o Manejo do Paciente com Diarreia, põe pulso rápido e fraco na coluna da desidratação, reserva pulso muito fraco ou ausente para a gravidade e acrescenta enchimento capilar de 3 a 5 segundos como sinal de desidratação. O Quadro 7 do capítulo de doenças diarreicas agudas, com a fonte de 2023, põe pulso cheio na coluna da desidratação e pulso fraco ou ausente entre os sinais de gravidade. A conta, para dona Adelaide — olhos fundos, sede e pulso fino e rápido: pelo Quadro 1 são três sinais de desidratação e nenhum de gravidade, plano B pela boca na unidade; pelo Quadro 7, o pulso fraco é sinal de gravidade, e dois ou mais sinais com um de gravidade são plano C na veia. O próprio capítulo de cólera manda seguir o Manejo de 2023, cuja tabela é a do Quadro 7: o Quadro 1 contradiz a régua que o capítulo cita. O endereço antigo do cartaz na Biblioteca Virtual em Saúde continua servindo a edição anterior, com a coluna do Quadro 1 e com o antiemético proibido. Esta apostila adota o Quadro 7 e o cartaz de 2023.
O mesmo volume do Guia dá duas incubações para a cólera. O capítulo de cólera escreve geralmente de 2 a 3 dias, variando de 12 horas a 5 dias; o Quadro 4 do capítulo de doenças diarreicas agudas escreve, para o Vibrio cholerae, de 5 a 7 dias. As duas faixas só se tocam no quinto dia. A conta: o adulto com diarreia aquosa volumosa 30 horas depois de comer marisco cru está dentro da faixa do capítulo de cólera e fora da faixa do Quadro 4, e quem usa o quadro na anamnese descarta a hipótese exatamente no intervalo em que ela é mais provável. A definição de caso suspeito não depende de incubação e continua valendo; para estimar agente pelo tempo, esta apostila usa a faixa do capítulo de cólera.
O cartaz de 2023 prescreve ceftriaxona para crianças com mais de 30 kg, adolescentes e adultos na dose de 50 a 100 mg/kg por via intramuscular, uma vez ao dia, por 3 a 5 dias — como alternativa na disenteria e como conduta no adulto com sangue persistente e condições comprometidas —, sem teto. A conta para 70 kg: 3.500 a 7.000 mg por dia. A bula da ceftriaxona 1 g, atualizada pela bula padrão aprovada pela Anvisa em 25/03/2026, dá ao adulto 1 a 2 g por dia, até 4 g nos casos graves, e recomenda não injetar mais de 1 g por sítio intramuscular, cada grama em 3,5 mL de lidocaína a 1%. A 100 mg/kg a dose passa o teto a partir de 40 kg; aos 70 kg é 1,75 vez o máximo e exigiria sete injeções e 24,5 mL de lidocaína no mesmo dia, e mesmo a 50 mg/kg são quatro sítios. O cartaz anterior dava 2 g por dia. Esta apostila usa no adulto a dose da bula: 1 a 2 g uma vez ao dia.
Os antiparasitários do cartaz de 2023 não dizem idade nem teto: metronidazol 50 mg/kg/dia, três vezes ao dia, por 10 dias na amebíase, e 15 mg/kg/dia, três vezes ao dia, por 5 dias na giardíase. As linhas de antibiótico do mesmo cartaz separam a criança de até 30 kg do adulto; as de antiparasitário, não. A conta para 70 kg: 3.500 mg por dia na amebíase, contra 750 mg três vezes ao dia — 2.250 mg por dia — que o Caderno de Atenção Básica nº 28 dá ao adulto com a forma grave, 1,56 vez; e 1.050 mg por dia na giardíase, contra 250 mg duas vezes ao dia — 500 mg por dia — do mesmo Caderno, 2,1 vezes. Lida como miligramas por quilo por tomada, que a escrita mg/kg/dia 3x/dia também permite, a dose triplica. Esta apostila usa no adulto as doses do Caderno.
O plano C do cartaz de 2023 manda acrescentar 2 mL de cloreto de potássio a 10% para cada 100 mL da solução de manutenção. A Rename 2024 não tem cloreto de potássio a 10%: a única apresentação é a de 19,1%, com 2,56 mEq/mL. A conta: o KCl a 10% tem 1,34 mEq/mL, e 2 mL somam 2,68 mEq por 100 mL — 53,7 mEq nos 2.000 mL de manutenção que o cartaz fixa como teto do adulto. Com a ampola da Rename, os mesmos 2 mL por 100 mL somam 5,12 mEq, e os 2.000 mL levam 102,5 mEq, 1,91 vez o pretendido. Quem copia o volume do cartaz com o frasco do SUS quase dobra o potássio. O que se transcreve é a quantidade em mEq, e com a ampola de 19,1% ela cabe em 21 mL. A correção da hipocalemia medida é de Potássio na enfermaria.
A tabela de antimicrobianos do Caderno de Atenção Básica nº 28 (2013), o único documento do Ministério da Saúde que dá dose para Clostridioides difficile, prescreve vancomicina 40 mg/kg/dia, de 6/6 horas, por via oral, sem idade e sem teto. A conta para 70 kg: 2.800 mg por dia, 700 mg a cada 6 horas. A atualização de 2026 da American Gastroenterological Association dá 125 mg quatro vezes ao dia, 500 mg por dia, para a doença não fulminante — o Caderno dá 5,6 vezes isso — e 500 mg a cada 6 horas, 2.000 mg por dia, para a fulminante, que o Caderno ainda ultrapassa em 1,4 vez. Na mesma tabela, a Salmonella recebe cefalosporina de terceira geração 100 mg/kg/dia de 12/12 horas por 21 dias, também sem teto: 7 g por dia aos 70 kg, 1,75 vez o máximo da bula de ceftriaxona. E o texto do Caderno restringe o antibiótico no Clostridioides difficile às manifestações sistêmicas, quando a atualização de 2026 trata todo episódio. Esta apostila não usa essa tabela.
A conduta, hora a hora
A conduta desta segunda-feira vai das 7h45 às 11h e continua na quarta. Quatro pacientes correm em paralelo, e a ordem de atendimento não é a da ficha: é a de quem perde mais volume por hora. Dona Adelaide vem antes de Conceição, que chegou primeiro, e dona Iolanda, que está a dois andares, entra pelo telefone antes de você terminar a receita de Ermelino.
Cada marco traz o que se prescreve e o que se diz. Os volumes estão calculados para o peso de cada paciente, as doses conferidas contra as apresentações da Rename 2024, e o que é decisão de outro capítulo aparece com o nome dele, para que nada fique sem dono no caminho.
7h45 — Dona Adelaide: a classificação que decide a via
Ela está irritada, bebe com avidez, tem olhos fundos, boca seca e prega que volta devagar — sinais de desidratação —, e tem pulso fino e rápido, que pela tabela de 2023 é sinal de gravidade. São mais de dois sinais, um deles grave: plano C, na veia, agora. Não há insuficiência cardíaca nem doença renal conhecida, e ela recebe o plano C como o cartaz escreve, com o pulmão auscultado e o sensório conferido ao fim de cada bolsa. A hidroclorotiazida e o enalapril da manhã saem da prescrição hoje: continuar tirando sódio e bloqueando a defesa do rim de quem está sem volume é somar dano. Ela preenche também a definição de caso suspeito de cólera — mais de 5 anos, diarreia súbita, líquida e abundante, com desidratação grave —, e isso muda uma coisa só: a amostra de fezes sai antes de qualquer antibiótico e a notificação é imediata.
Prescrição- Acesso venoso periférico em duas veias de bom calibre; na mesma punção, colher sódio, potássio, ureia, creatinina, bicarbonato e hemograma
- Ringer lactato 1.740 mL EV em 30 minutos (30 mL/kg; 58 kg)
- A seguir, Ringer lactato 4.060 mL EV em 2 horas e 30 minutos (70 mL/kg), com reavaliação clínica ao fim de cada bolsa
- Suspender hidroclorotiazida e enalapril a partir de hoje; reintrodução decidida pela creatinina, conforme Injúria renal aguda
- Soro de reidratação oral em goles pequenos assim que conseguir beber, sem interromper o soro venoso
- Pressão, pulso, frequência respiratória, saturação e sensório a cada 30 minutos na primeira fase; diurese medida
- Coleta de fezes antes de qualquer antibiótico, em frasco sem formol e swab em Cary-Blair — indicação: surto e suspeita de cólera
7h55 — Conceição: plano A, e o surto que ela revela
Sem nenhum sinal de desidratação, sem sangue e sem febre, Conceição é plano A. Não recebe antibiótico, porque diarreia aquosa de horas não encurta com ele, e não recebe exame para o próprio tratamento. Recebe a explicação do isotônico e do refrigerante, os envelopes de soro da farmácia da unidade e uma lista curta de sinais de retorno. E recebe um frasco de coleta, porque é o segundo caso ligado ao mesmo almoço: a amostra dela, sem antibiótico nenhum, é a mais útil que a vigilância vai ter.
Prescrição- Soro de reidratação oral: um copo depois de cada evacuação e de cada vômito, a quantidade que aceitar, em goles e com frequência; pode alternar com água, chá sem açúcar, água de coco ou sopa
- Não usar refrigerante; manter a alimentação habitual
- Não tomar o remédio de prender o intestino que está em casa
- Coleta de fezes hoje, antes de qualquer antibiótico, para a investigação do surto
- Voltar se não melhorar em 2 dias, ou antes, com sangue nas fezes, vômitos repetidos, urina diminuindo, muita sede ou recusa alimentar
8h05 — Ermelino: disenteria com febre, e as cápsulas de ontem
Sangue e muco, febre de 38,8 °C, cólica e tenesmo: ele cumpre o critério do cartaz de 2023 para antibiótico, e a febre documentada com disenteria é também a exceção em que a diretriz de 2017 aceita o tratamento empírico. As fezes vão para cultura antes do primeiro comprimido. A loperamida sai, e a explicação precisa ser dada sem sermão, porque ele só contou do remédio porque a pergunta foi feita sem julgamento. A hidratação é o plano A, porque ele não tem sinal de desidratação. O retorno é marcado para 48 horas, e ele sai sabendo reconhecer os sinais da síndrome hemolítico-urêmica, que não esperam o retorno.
Prescrição- Coprocultura com pesquisa de Salmonella, Shigella, Campylobacter e, se o laboratório oferecer, Escherichia coli produtora de toxina Shiga — colher antes da primeira dose
- Ciprofloxacino 500 mg VO de 12/12 horas por 3 dias — 6 comprimidos de 500 mg
- Suspender a loperamida
- Plano A de hidratação, com soro de reidratação oral depois de cada evacuação
- Retorno na quarta-feira pela manhã; antes, se a urina diminuir, aparecer palidez, manchas roxas na pele, sonolência ou sangramento maior
8h15 — Dona Iolanda, pelo telefone: não segurar, colher, classificar
Diarreia no sexto dia de ceftriaxona é Clostridioides difficile até prova em contrário. A primeira ordem é negativa: nada para segurar o intestino. A segunda é colher uma amostra da próxima evacuação líquida. A terceira é classificar, e os números já estão na folha: leucócitos de 17.200, acima de 15.000, e creatinina de 1,5 sobre basal de 0,8, 1,9 vez — infecção grave pela atualização de 2026, sem choque, sem íleo e sem megacólon, portanto não fulminante. A precaução de contato começa na suspeita, e o modo de fazê-la é de As mãos que circulam entre os leitos. O omeprazol sem indicação sai hoje.
Prescrição- Para a enfermagem: “não vamos dar nada para segurar; preciso de uma amostra da próxima evacuação líquida para pesquisa de Clostridioides difficile, e ela entra em precaução de contato agora”
- Pesquisa de Clostridioides difficile em uma amostra de fezes diarreicas
- Registrar número e aspecto das evacuações em cada turno
- Suspender omeprazol — sem indicação registrada
- Sódio, potássio, ureia e creatinina amanhã às 6 horas; balanço hídrico
8h30 — Dona Iolanda: o tratamento que não espera o laudo
Colhida a amostra, a doença grave não espera o resultado: esta apostila adota iniciar o tratamento na infecção grave logo depois da coleta, quando a suspeita é alta — é leitura desta apostila, apoiada na regra da atualização de 2026 de tratar a suspeita clínica alta mesmo com teste discordante. A escolha é fidaxomicina, preferida pela recorrência menor, ou vancomicina oral, aceita; a Rename 2024 não tem nenhuma das duas, e a pergunta à farmácia é feita agora, não às 3 da manhã. Metronidazol não entra, porque a doença não é fulminante. A ceftriaxona e a azitromicina do sexto dia vão para a visita das 11 horas com uma pergunta — a pneumonia em melhora ainda precisa delas? —, e a resposta é de O antibiótico que ninguém para. A creatinina que subiu é acompanhada pela régua de Injúria renal aguda.
Prescrição- Vancomicina 125 mg VO de 6/6 horas por 10 dias; se a padronização tiver fidaxomicina, 200 mg VO de 12/12 horas por 10 dias
- Confirmar com a farmácia a forma disponível antes da primeira dose
- Não prescrever metronidazol: infecção grave, não fulminante
- Sinais que mudam a classificação e chamam o plantonista: pressão sistólica caindo, abdome distendido com menos evacuações, dor à descompressão, leucócitos subindo
8h40 — O telefonema para a vigilância
Dois casos atendidos e três doentes em casa depois do mesmo almoço são um surto pela definição do Guia, e a suspeita de cólera de dona Adelaide exige notificação imediata. Você não investiga a maionese: comunica, registra e garante as amostras. A comunicação à Secretaria Municipal de Saúde é feita assim que se sabe, pelo telefone do plantão da vigilância, e a Ficha de Investigação de Surto de doença transmitida por alimento, com a ficha individual de cólera, vai para o Sinan. O que você entrega à vigilância é o que só o pronto-socorro tem: data e hora da refeição, cardápio, número de convidados, hora de início de cada caso, e quem colheu fezes antes de antibiótico. A investigação da fonte, a busca de casos e as medidas de controle são de O terceiro caso e de Quem pode abrir a porta.
Prescrição- Fala ao telefone: “sou o interno do pronto-socorro do hospital geral; atendi dois casos de diarreia aguda de um mesmo almoço de ontem ao meio-dia e meia, com mais três doentes em casa, e um dos casos, uma senhora de 81 anos com desidratação grave, preenche a definição de caso suspeito de cólera”
- Informar: sessenta convidados, salpicão com maionese caseira, início dos sintomas entre 23 horas e 2 horas, fezes colhidas antes de antibiótico em dois casos
- Ficha de Investigação de Surto de doença transmitida por alimento e ficha individual de cólera no Sinan
- Anotar no prontuário o horário da comunicação e o nome de quem recebeu
10h50 — Dona Adelaide depois das duas fases
Acabou a segunda fase. Ela está acordada e conversa, o pulso é cheio, a 92, a pressão é de 118 por 72, urinou 300 mL, o pulmão está limpo e a saturação é a mesma da chegada. Bebe o soro oral em goles desde as 10 horas, duas horas depois do início do soro venoso, como o cartaz prevê. Os exames da chegada voltaram: sódio de 134, potássio de 2,9, creatinina de 1,7 e bicarbonato de 17. A desidratação saiu da gravidade, mas o potássio e a creatinina não deixam que ela vá para casa. O cartaz manda observar por pelo menos seis horas e só interromper a veia quando o soro oral bastar; ela interna na clínica.
Prescrição- Manter soro de reidratação oral à vontade, depois de cada evacuação
- Hipocalemia de 2,9 mEq/L: reposição conforme Potássio na enfermaria, prescrita em mEq e não em mL de ampola
- Soro venoso de manutenção, se ainda necessário, pela régua de Hidratação venosa: manutenção e reposição
- Internar na clínica médica: 81 anos, creatinina de 1,7 e potássio de 2,9
- Hidroclorotiazida e enalapril suspensos até a creatinina voltar à basal
Quarta-feira, 8h — Ermelino no retorno, e dona Iolanda no terceiro dia
Ermelino está sem febre desde ontem, com duas evacuações pastosas e sem sangue desde a noite de terça. Ele termina os três dias de ciprofloxacino e não recebe mais nada. Se o sangue persistisse depois de 48 horas, o cartaz separaria dois caminhos: com condições gerais boas, seguir o plano de hidratação sem antibioticoterapia; com condições comprometidas, ceftriaxona — na dose da bula — ou internação. Se a cultura mostrar Escherichia coli produtora de toxina Shiga, o antibiótico sai e ele passa a ser vigiado para síndrome hemolítico-urêmica — posição desta apostila no vão que o cartaz deixa. Dona Iolanda, no terceiro dia de vancomicina, tem três evacuações ao dia, leucócitos de 11.800 e creatinina de 1,1. O tratamento segue até o décimo dia, sem teste de controle; a conversa da alta já inclui a recorrência e o antibiótico que ela deve recusar sem necessidade.
Prescrição- Ermelino: completar o ciprofloxacino até o terceiro dia; nenhum antibiótico novo; manter plano A
- Ermelino: conferir o resultado da coprocultura antes da alta do retorno
- Dona Iolanda: vancomicina 125 mg VO de 6/6 horas até completar 10 dias
- Dona Iolanda: não repetir a pesquisa de Clostridioides difficile ao fim do tratamento
- Dona Iolanda: registrar na alta a infecção por Clostridioides difficile como antecedente, com orientação para avisar em toda nova prescrição de antibiótico
Como saber se está funcionando
Reavaliar, na diarreia aguda, é refazer a mesma tabela com hora marcada. O plano não é um rótulo que o paciente carrega até a alta: o cartaz de 2023 manda reavaliar durante o plano B e ao fim de cada fase do plano C, e passar ao plano A quando os sinais desaparecem ou voltar ao C quando pioram. O que muda de um paciente para outro é o que se acrescenta à tabela — o potássio e a creatinina do idoso, o sangue e a febre da disenteria, os leucócitos e a creatinina do Clostridioides difficile.
Cada parâmetro abaixo diz quando olhar, o resultado que tranquiliza e a conduta quando ele não aparece. Os prazos são das fontes que governam cada decisão; onde a fonte não dá prazo, o capítulo diz que o intervalo é escolha desta apostila.
Esperado: Sede diminuindo, olhos e boca melhores, pulso cheio, urina presente; ao desaparecerem os sinais, plano A e alta com orientação
Se não melhora: Vômito persistente que impede de beber: ondansetrona 8 mg em dose única no adulto que não é gestante. Desidratação que persiste bebendo: sonda nasogástrica para o soro, como manda o cartaz. Evolução para sinal de gravidade: plano C. Seis horas de plano B sem melhora: internação no hospital de referência.
Esperado: Sensório melhor, pulso cheio, pressão subindo, diurese presente e pulmão limpo; a diretriz de 2017 mantém a veia até pulso, perfusão e sensório normalizarem
Se não melhora: Sem melhora da desidratação, o cartaz manda aumentar a velocidade de infusão. Estertores novos, saturação caindo ou dispneia no idoso mandam parar a expansão e reavaliar antes da bolsa seguinte. Pressão que não sobe depois de todo o volume, com febre ou lactato alto, deixa de ser só desidratação: é choque, e a condução passa a ser a de Sepse: reconhecer e tratar na primeira hora.
Esperado: Aceita o soro oral em goles, sem vômito, com evacuações que não aumentam; observação de pelo menos 6 horas antes da decisão de destino
Se não melhora: Não interrompa a veia enquanto o soro oral não mantiver a hidratação sozinho, e não dê alta a quem ainda depende dela. Idoso que não mantém a hidratação oral, ou que tem potássio ou creatinina alterados, interna.
Esperado: Potássio acima de 3,5 mEq/L e creatinina caindo em direção à basal à medida que o volume é reposto
Se não melhora: Hipocalemia: reposição em mEq pela régua de Potássio na enfermaria, lembrando que a ampola da Rename é de 19,1%. Creatinina que não cai com o volume reposto: a investigação é de Injúria renal aguda. Queda de hemoglobina e de plaquetas com creatinina subindo, na diarreia com sangue, é síndrome hemolítico-urêmica até prova em contrário — a conduta está em Distúrbios plaquetários e púrpuras (PTI, PTT), na apostila de Hematologia e Hemoterapia.
Esperado: Febre ausente e sangue desaparecendo, com o estado geral preservado
Se não melhora: Sangue persistente com condições gerais boas: plano de hidratação, sem antibioticoterapia nova. Com condições comprometidas: ceftriaxona 1 a 2 g ao dia ou internação. Trofozoítos de Entamoeba histolytica com hemácias nas fezes, ou disenteria que não respondeu ao tratamento para Shigella: metronidazol na dose do adulto. Cultura com Escherichia coli produtora de toxina Shiga: suspender o antibiótico e vigiar urina, hemoglobina, plaquetas e creatinina.
Esperado: Menos evacuações e mais formadas em poucos dias, leucócitos e creatinina voltando ao valor anterior, abdome sem distensão
Se não melhora: Pressão caindo, abdome distendido com menos evacuações ou megacólon na imagem é doença fulminante: vancomicina 500 mg de 6/6 horas por boca ou sonda, metronidazol 500 mg IV de 8/8 horas, vancomicina retal se houver íleo e equipe com cirurgia no mesmo turno. Não repita o teste para decidir: a atualização de 2026 só manda voltar ao laboratório quando a diarreia persiste ou piora.
Esperado: Nenhuma diarreia nova; nenhum antibiótico sem indicação; inibidor de bomba só com indicação legítima
Se não melhora: Diarreia de novo em até 8 semanas é recorrência: novo teste só com diarreia verdadeira, e tratamento com vancomicina em doses decrescentes ou fidaxomicina, pela atualização de 2026. A partir da segunda recorrência, a mesma atualização indica terapia com microbiota fecal, que é decisão de serviço especializado.
Onde o erro machuca
O dano: Não encurta a doença, que é viral ou por toxina na maior parte das vezes; seleciona resistência; e desfaz a microbiota que protege contra o Clostridioides difficile. Na Escherichia coli produtora de toxina Shiga, a diretriz de 2017 manda evitar o antibiótico.
Como pegar a tempo: Pergunte sangue e febre pelo nome antes de qualquer receita. Sem os dois, no imunocompetente, a receita é soro, alimentação e sinais de retorno — o cartaz de 2023 diz que, fora da disenteria com comprometimento e da cólera grave, o antibiótico é ineficaz e não deve ser prescrito.
O dano: Na diarreia com febre, com sangue ou por Clostridioides difficile, reduzir o trânsito prolonga o contato do agente com a mucosa e pode precipitar megacólon tóxico; no idoso, o Consenso Brasileiro de 2016 lista ainda o atraso do diagnóstico e o prolongamento da infecção.
Como pegar a tempo: Não prescreva antidiarreico, que o cartaz de 2023 proíbe, e pergunte sem julgamento se a pessoa tomou algum por conta própria — Ermelino só contou porque a pergunta foi feita assim. Na enfermaria, recuse o “algo para segurar” e explique à equipe por quê.
O dano: Pela tabela de 2023, pulso fraco é sinal de gravidade: o paciente que precisava de 100 mL/kg na veia em três horas fica tentando beber na sala de observação, com diurético e anti-hipertensivo da manhã agindo, e evolui para choque, hipocalemia e lesão renal.
Como pegar a tempo: Use a tabela de 2023, e não o cartaz antigo nem o quadro do capítulo de cólera; no idoso, não confie na sede nem na prega, some pulso, pressão, urina e sensório, e na dúvida trate pelo pior cenário, como o próprio cartaz manda.
O dano: A cultura perde sensibilidade, o surto fica sem agente identificado, e na suspeita de cólera um resultado negativo em amostra tirada depois do antibiótico não descarta o caso — o Guia só aceita o descarte com coleta adequada antes do antibiótico.
Como pegar a tempo: Frasco antes do comprimido, sempre. No paciente com tenesmo a espera é de minutos; no paciente grave em que a coleta demora, use o swab fecal em Cary-Blair ou em água peptonada alcalina e registre o horário.
O dano: O metronidazol ficou restrito à doença fulminante na atualização de 2026, que prefere a fidaxomicina justamente porque a infecção recorre menos depois dela; o teste de controle encontra toxina em quem melhorou e leva a retratamento desnecessário.
Como pegar a tempo: Fidaxomicina 200 mg de 12/12 horas ou vancomicina 125 mg de 6/6 horas por boca, por 10 dias, confirmando no primeiro dia a padronização da farmácia, já que a Rename 2024 não tem nenhuma das duas. Controle é clínico: evacuações, leucócitos e creatinina.
O dano: O caso isolado de fato não é, mas o surto e o caso suspeito de cólera são — e o surto sem notificação continua servindo a mesma comida, e o caso suspeito de cólera sem notificação perde a amostra e a investigação dos contatos.
Como pegar a tempo: Pergunte sempre quem mais está doente e o que comeu. Dois ou mais casos ligados: comunicação à Secretaria Municipal de Saúde assim que souber. Mais de 5 anos com diarreia súbita, líquida e abundante: notificação imediata, em até 24 horas, com amostra colhida antes do antibiótico.
O que dizer ao paciente e à família
As conversas deste capítulo têm um padrão: o paciente quer um remédio que parece mais forte que o soro, e o interno precisa negar sem parecer que está negando cuidado. A negação que funciona dá o motivo em uma frase e troca o remédio recusado por uma tarefa concreta — beber, voltar, observar um sinal.
As falas abaixo são modelos para adaptar à pessoa, não roteiros para ler. Cada uma traz o que evitar, porque o erro de conversa, aqui, costuma ser o mesmo erro de conduta dito em voz alta.
Negando o antibiótico e o exame que Conceição pediu
““Conceição, o que você tem é uma diarreia que o corpo resolve em um ou dois dias. O antibiótico não encurta esse tempo e ainda mata as bactérias boas do intestino. O que protege você de piorar é o soro: um copo depois de cada evacuação, em goles. Se aparecer sangue, febre, se a urina diminuir ou se amanhã à noite você estiver pior, volte na hora — aí a conversa é outra. O frasco de fezes que eu vou pedir não é para você: é porque tem mais gente da festa doente, e a vigilância precisa saber o que foi.””
Não diga: Dizer que é só uma virose e encerrar, ou prescrever o antibiótico para acabar com a discussão.
Explicando ao marido de Conceição o isotônico e o remédio de prender
““O isotônico não faz mal, mas foi feito para quem sua no esporte, não para quem está perdendo água pelo intestino: tem açúcar demais e sal de menos para isso. Hoje, para ela, vale mais o soro dos envelopes, a água, o chá sem açúcar ou a água de coco. Refrigerante, não. E o remédio de prender o intestino fica na gaveta: se essa diarreia virar uma com sangue ou febre, ele piora.””
Não diga: Proibir tudo o que ele comprou sem explicar, ou deixar o isotônico no lugar do soro em alguém desidratado.
Com Ermelino, sobre as cápsulas que ele tomou
““Ermelino, obrigado por me contar das cápsulas, isso muda o que eu faço. Com sangue e febre, o remédio de prender segura dentro do intestino justamente a bactéria que está machucando ele. Não tome mais. O antibiótico que eu vou passar é para esse tipo de diarreia: são seis comprimidos, um de manhã e um à noite, até acabar, mesmo que o sangue pare antes. Antes do primeiro, preciso de uma amostra das fezes.””
Não diga: Repreender a automedicação — a próxima informação útil ele não conta.
Orientando Ermelino sobre trabalho e sinais de alarme
““Hoje você vai para casa, não para a moto: com febre e perdendo líquido, a tontura chega no meio do trânsito. Beba o soro. Quarta de manhã eu quero te ver. Se antes disso você urinar muito pouco, ficar muito pálido, aparecerem manchinhas roxas na pele ou você ficar sonolento, venha direto, a qualquer hora. É uma complicação rara, mas é por causa dela que eu marquei o retorno.””
Não diga: Assustar com a complicação sem dizer o que fazer, ou omitir os sinais porque são raros.
Com o filho de dona Adelaide: a veia, os remédios e a vigilância
““A sua mãe perdeu muito líquido durante a noite, e o pulso fraco me diz que o que falta já está afetando a circulação. Por isso o soro vai pela veia, e bastante, nas próximas três horas, e eu vou examinar o pulmão dela a cada bolsa. Os remédios da pressão ficam suspensos hoje, porque com a pressão baixa eles atrapalham o rim. E como tem mais gente da festa doente, eu vou avisar a vigilância da prefeitura agora. Não é para culpar ninguém: é para descobrir o que foi e para ninguém mais comer o que sobrou.””
Não diga: Anunciar cólera à família como diagnóstico, ou deixar a notificação soar como acusação a quem preparou a comida.
Com dona Iolanda: a diarreia do antibiótico, as luvas e o omeprazol
““Dona Iolanda, essa diarreia pode ser uma inflamação do intestino que aparece depois de antibiótico. Eu não vou dar remédio para segurar, porque ele prende junto a bactéria. Vou pedir um exame das fezes e já começar um remédio por boca que trata essa inflamação. A equipe vai entrar de avental e luva e lavar as mãos na pia, e isso é para proteger os outros pacientes, não é nojo da senhora. E o omeprazol eu tirei, porque a senhora não precisa dele.””
Não diga: Prometer que a diarreia para hoje, ou justificar as luvas de um jeito que soe como sujeira da paciente.
Com a enfermeira que pediu “algo para segurar”
““Eu entendo a vergonha dela e quero resolver isso também: fralda de proteção, cadeira higiênica perto do leito e ajuda rápida quando ela chamar. Mas remédio para segurar não entra: se for a infecção que eu estou pensando, ele piora o intestino. O que eu preciso de vocês é a amostra da próxima evacuação líquida, a contagem por turno e um aviso na hora se a barriga distender ou a pressão cair.””
Não diga: Deixar antidiarreico “se necessário” na prescrição para encerrar a ligação.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Pulso rápido e fraco na desidratação sem gravidade — Guia de Vigilância em Saúde 2024, capítulo de cólera, e cartaz anterior do Manejo
O Quadro 1 do capítulo de cólera classifica o pulso rápido e fraco como sinal de desidratação e reserva o pulso muito fraco ou ausente para a desidratação grave, com enchimento capilar de 3 a 5 segundos também na coluna intermediária. É o desenho do cartaz anterior, que continua sendo o arquivo servido no endereço antigo da Biblioteca Virtual em Saúde. Por essa leitura, o adulto com pulso fino, olhos fundos e sede recebe plano B, pela boca, na unidade.
Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde, 6ª ed. rev., 2024, v. 1, capítulo Cólera, Quadro 1; cartaz Manejo do Paciente com Diarreia, edição anterior a 2023
Pulso fraco entre os sinais de gravidade — cartaz Manejo do Paciente com Diarreia 2023 e Guia 2024, capítulo de doenças diarreicas agudas
A edição de 2023 põe pulso cheio na coluna da desidratação e pulso fraco ou ausente entre os sinais marcados como graves, e decide por dois ou mais sinais com pelo menos um grave. O capítulo de doenças diarreicas agudas do Guia de 2024 reproduz essa tabela no Quadro 7 e manda instituir os planos conforme o Manejo de 2023, vigente. Por essa leitura, o mesmo adulto recebe plano C, na veia.
Ministério da Saúde. Manejo do Paciente com Diarreia, cartaz, 2023; Guia de Vigilância em Saúde, 6ª ed. rev., 2024, v. 1, capítulo Doenças diarreicas agudas, Quadro 7
Os dois quadros falam do mesmo paciente e estão no mesmo volume, então escopo, data e natureza empatam. Decide a coerência interna: o capítulo de cólera manda seguir o Manejo do Paciente com Diarreia de 2023, e a tabela de 2023 é a do Quadro 7 — o Quadro 1 contradiz a régua que o próprio capítulo cita, e a conta está nas notas do critério. Esta apostila adota a tabela de 2023: pulso fraco, com mais um sinal, é plano C. A diferença cai sobretudo sobre o idoso, que chega com pulso fino e poucos outros sinais confiáveis, e o cartaz dá a regra de desempate na beira do leito: na dúvida, trate pelo pior cenário. Se o serviço onde você está usa o cartaz antigo na parede, a conduta continua a de 2023, e vale avisar quem cuida dos protocolos.
Antibiótico na disenteria com qualquer sinal de comprometimento — Manejo do Paciente com Diarreia, Ministério da Saúde, 2023
O cartaz manda iniciar antibiótico quando há sangue nas fezes e comprometimento do estado geral pela tabela de hidratação, ou febre alta persistente, dor abdominal, tenesmo ou comprometimento sistêmico: no adulto, ciprofloxacino 500 mg de 12/12 horas por 3 dias, com reavaliação em 48 horas. O cartaz não trata da Escherichia coli produtora de toxina Shiga e não pede exame antes da primeira dose.
Ministério da Saúde. Manejo do Paciente com Diarreia, cartaz, 2023 — item de identificação da disenteria
Sem antibiótico empírico no imunocompetente com sangue, salvo febre documentada com disenteria, viagem com febre ou sepse — IDSA, 2017
A diretriz de 2017 não recomenda antibiótico empírico para diarreia com sangue no imunocompetente enquanto se aguardam os exames, com três exceções: lactente com menos de 3 meses com suspeita bacteriana; doente com febre medida em serviço de saúde, dor abdominal e disenteria presumivelmente por Shigella; e viajante internacional recente com 38,5 °C ou mais ou sinais de sepse. Manda pedir cultura com pesquisa da produtora de toxina Shiga na diarreia com sangue e evitar o antibiótico quando ela for a causa.
Shane AL et al. 2017 IDSA Clinical Practice Guidelines for the Diagnosis and Management of Infectious Diarrhea. Clin Infect Dis. 2017;65(12):e45-e80 — recomendações 8, 30 e 35
Os dois documentos falam do adulto com diarreia com sangue, então o escopo empata. Decidem a data e a natureza: o cartaz é de 2023 e é a régua do Ministério da Saúde que o Guia de 2024 manda seguir; a diretriz é de 2017 e de sociedade estrangeira. Esta apostila adota o cartaz. Na maior parte dos pacientes os dois concordam — Ermelino, com febre medida, tenesmo e sangue, recebe antibiótico pelas duas réguas. A diferença fica no adulto com sangue, dor e sem febre, de início aquoso, que é o desenho da produtora de toxina Shiga no quadro de agentes do Guia: para ele o cartaz também dá antibiótico, e esta apostila segue o cartaz com duas condições tiradas do lado perdedor, que não contrariam a régua brasileira. A coprocultura, com pesquisa da toxina Shiga se o laboratório oferecer, sai antes da primeira dose; e o resultado positivo para essa bactéria suspende o antibiótico e põe o paciente em vigilância de síndrome hemolítico-urêmica, cuja conduta está em Distúrbios plaquetários e púrpuras (PTI, PTT), na apostila de Hematologia e Hemoterapia. As duas condições são leitura desta apostila, no vão que o cartaz deixa.
Antidiarreicos não devem ser usados — Manejo do Paciente com Diarreia, Ministério da Saúde, 2023; Caderno de Atenção Básica nº 28, 2013
O cartaz de 2023 escreve, sem distinção de idade nem de tipo de diarreia, que antidiarreicos não devem ser usados, e o Caderno de Atenção Básica nº 28 diz que os medicamentos usados para cortar a diarreia não devem ser administrados porque não ajudam e podem complicar o quadro. O Consenso Brasileiro de Medicamentos Potencialmente Inapropriados para Idosos, de 2016, pede que se evite a loperamida no idoso com diarreia de causa desconhecida ou gastroenterite infecciosa grave. A loperamida não consta da Rename 2024.
Ministério da Saúde. Manejo do Paciente com Diarreia, cartaz, 2023; Cadernos de Atenção Básica nº 28, v. II, 2013; Oliveira MG et al. Consenso brasileiro de medicamentos potencialmente inapropriados para idosos. Geriatr Gerontol Aging, 2016 — critério 29
Loperamida aceitável no adulto imunocompetente com diarreia aquosa — IDSA, 2017
A diretriz de 2017 diz, com recomendação fraca, que a loperamida pode ser dada ao adulto imunocompetente com diarreia aquosa aguda, e que deve ser evitada em qualquer idade quando houver suspeita ou confirmação de diarreia inflamatória ou com febre, pelo risco de megacólon tóxico; não deve ser dada a menores de 18 anos.
Shane AL et al. 2017 IDSA Clinical Practice Guidelines for the Diagnosis and Management of Infectious Diarrhea. Clin Infect Dis. 2017;65(12):e45-e80 — recomendação 47
Os dois lados falam do adulto com diarreia aguda aquosa, então o escopo empata. Decidem a data e a natureza: a régua do Ministério da Saúde é de 2023 e é a norma em uso; a diretriz estrangeira é de 2017. Esta apostila adota o cartaz: o adulto com diarreia aguda não recebe antidiarreico, e a Rename 2024 é coerente com isso ao não trazer a loperamida. O lado perdedor serve para duas coisas. Primeiro, para reconhecer que a situação em que a diretriz americana aceita a droga é estreita — adulto imunocompetente, diarreia aquosa, sem febre e sem sangue —, e que fora dela as três fontes concordam em proibir. Segundo, para o paciente que chega tendo tomado por conta própria: nele, febre, sangue, diarreia depois de antibiótico ou idade avançada mandam suspender e registrar a dose na anamnese.
O raciocínio, em voz alta
Sexta-feira, 22h40, unidade de pronto atendimento de um município do litoral. Ariovaldo Lamounier, 47 anos, 72 quilos, pescador, chega trazido pelo irmão. Às quatro da tarde começou de repente uma diarreia líquida, clara, que ele descreve como água de arroz, e desde então perdeu a conta das evacuações; vomitou seis vezes e tem cãibras nas pernas. Não tem febre. Na quinta, por volta das cinco da tarde, comeu ostras cruas numa barraca da praia com o irmão, que está bem. Não viajou, e no município não há surto declarado de cólera. Está sonolento, mas responde; não consegue segurar um gole de água; os olhos estão muito fundos, a prega do abdome volta em mais de dois segundos, o pulso radial mal se sente, a 128, e a pressão é de 78 por 50.
o que a tabela decide
Classifico antes de pensar em causa. Sonolência, incapacidade de beber e pulso quase ausente são três sinais de gravidade, com olhos muito fundos e prega lenta ao lado. É desidratação grave pela tabela de 2023, e o plano é o C, na veia, agora — a causa não muda nada nesta primeira hora.
o plano C em números
São 72 kg. Primeira fase: 30 mL/kg, 2.160 mL de Ringer lactato em 30 minutos, por duas veias de bom calibre, com a bolsa sob pressão se precisar. Segunda fase: 70 mL/kg, 5.040 mL em 2 horas e 30 minutos. Na punção colho sódio, potássio, ureia, creatinina e bicarbonato. Reavalio ao fim de cada fase; se a desidratação não melhorar, o cartaz manda aumentar a velocidade de infusão.
a pergunta que a tabela de agentes quase me fez errar
Ele comeu ostras cruas na quinta às cinco e adoeceu 23 horas depois. Pelo quadro de agentes do capítulo de doenças diarreicas agudas do Guia, a cólera leva de 5 a 7 dias e eu a descartaria. O capítulo de cólera do mesmo Guia dá de 12 horas a 5 dias. E a definição de caso suspeito nem depende disso: mais de 5 anos, diarreia súbita, líquida e abundante, com a desidratação grave reforçando a suspeita. Ariovaldo é caso suspeito de cólera, sem viagem nenhuma.
a amostra antes do comprimido
Antes de qualquer antibiótico, fezes: o líquido que sai já serve, num frasco sem formol, e o swab fecal vai para meio de Cary-Blair ou para água peptonada alcalina, com o horário anotado. O Guia só aceita descartar o caso com amostra colhida antes do antibiótico e transportada de forma adequada, e quem confirma ou descarta é o laboratório de referência.
a notificação que não espera o laudo
Ligo para o plantão da vigilância do município agora: a notificação da suspeita de cólera é imediata, em até 24 horas, pelo meio mais rápido, e a Ficha de Investigação da Cólera vai para o Sinan em até sete dias. Conto o que só a unidade sabe: ostras cruas, a barraca, o dia e a hora, o irmão que comeu junto e está bem. A investigação dos contatos e da origem é da vigilância.
o antibiótico, e para quem não
Com desidratação grave, o Guia indica antibiótico na cólera, como complemento do soro: doxiciclina 300 mg em dose única — três comprimidos de 100 mg, do Componente Estratégico —, assim que ele engolir sem vomitar e depois da amostra. Se não tolerar, azitromicina 1 g ou ciprofloxacino 1 g em dose única. O irmão, que comeu das mesmas ostras e não tem sintoma, não recebe antibiótico: contato sem sintoma é orientado e investigado, não tratado.
a reavaliação e o destino
Às 23h20 ele está menos sonolento e o pulso aparece; à 1h50, depois das duas fases, está acordado, com pulso cheio, pressão de 112 por 70, urinou e bebe o soro oral em goles desde 0h50, duas horas depois do início do soro venoso. O potássio da chegada veio 3,0 e o bicarbonato, 15. Ele fica: o cartaz manda observar pelo menos seis horas e só tirar a veia quando o soro oral mantiver a hidratação, e a cólera continua tirando líquido por horas. A reposição do potássio segue a régua de Potássio na enfermaria, e a manutenção venosa, se ainda for necessária, a de Hidratação venosa: manutenção e reposição.
Ariovaldo tinha desidratação grave e recebeu 7.200 mL de Ringer lactato em três horas pelo plano C, com soro oral assim que conseguiu beber. Era caso suspeito de cólera pela definição do Guia — adulto com diarreia súbita, líquida e abundante —, sem precisar de viagem, e a incubação de 23 horas cabe na faixa do capítulo de cólera, não na do quadro de agentes. As fezes foram colhidas antes da doxiciclina 300 mg em dose única, a notificação foi imediata, e o irmão sem sintomas não recebeu antibiótico. Ele ficou em observação, com o potássio em reposição, até manter a hidratação pela boca.
Faça você
Quinta-feira, duas da tarde, retorno no ambulatório de clínica do hospital universitário. Cleonice Vieirinha, 72 anos, 60 quilos, recebeu alta há três semanas depois de sete dias de amoxicilina com clavulanato por pneumonia, e desde a internação toma omeprazol 20 mg por dia “para proteger o estômago”, que ninguém suspendeu. Há cinco dias tem seis a oito evacuações líquidas por dia, sem sangue, com cólica leve e sem febre. Bebe bem, está corada, com pulso cheio a 84 e pressão de 128 por 76, sem sinal de desidratação. A pesquisa de Clostridioides difficile em duas etapas, pedida pelo colega ontem, veio com as duas etapas positivas; os leucócitos são 11.400 e a creatinina, 0,9, igual à da alta.
o que já sei
Sei que é infecção por Clostridioides difficile confirmada: diarreia verdadeira depois de antibiótico e as duas etapas do teste positivas. Sei que não é grave pela atualização de 2026 — leucócitos abaixo de 15.000 e creatinina na basal — e que não há choque, íleo nem megacólon. Sei que ela não precisa de soro na veia: a hidratação é plano A.
o que falta decidir
Falta escolher entre os dois fármacos que a atualização de 2026 aceita para a doença não fulminante, com dose, intervalo e duração, e resolver como ela vai ter acesso a ele, sabendo que nenhum dos dois está na Rename 2024. Falta decidir o destino do omeprazol.
o que não vou fazer
Não vou prescrever metronidazol, loperamida nem probiótico para evitar recorrência, e não vou marcar exame de controle ao fim do tratamento. Complete: qual é o fundamento de cada uma dessas recusas?
o que combino com ela
Complete a orientação: o prazo em que a recorrência é mais provável e o que ela faz se a diarreia voltar; o que dizer a todo médico que for prescrever antibiótico; e os sinais que a trazem de volta no mesmo dia.
Ver como fecharíamos
Fidaxomicina 200 mg VO de 12/12 horas por 10 dias, preferida pela recorrência menor, se ela tiver acesso; senão, vancomicina 125 mg VO de 6/6 horas por 10 dias, com a forma de acesso resolvida no mesmo dia, porque a Rename 2024 não traz nenhuma das duas. O omeprazol sai: foi prescrito sem indicação, e a atualização de 2026 manda mantê-lo só com indicação legítima. O metronidazol fica restrito à doença fulminante; a loperamida é antidiarreico, que o cartaz de 2023 proíbe e que prende o agente no cólon; probiótico não é recomendado para prevenir a infecção nem a recorrência; e não existe teste de cura. A orientação: diarreia de novo nas 8 semanas seguintes ao tratamento é possível recorrência e pede retorno, com tratamento por vancomicina em doses decrescentes ou fidaxomicina; ela deve contar a todo médico que teve Clostridioides difficile e perguntar se o antibiótico é mesmo necessário; e febre, sangue nas fezes, barriga distendida, tontura ao levantar ou urina diminuindo a trazem de volta no mesmo dia.
Sem nenhum sinal de desidratação, sem sangue e sem febre, a paciente é plano A pelo cartaz Manejo do Paciente com Diarreia de 2023: líquidos ou soro de reidratação oral depois de cada evacuação e de cada vômito, alimentação mantida e retorno se não melhorar em dois dias ou com sinal de alerta. O mesmo cartaz diz que, fora da disenteria com comprometimento do estado geral e da cólera grave, antibiótico é ineficaz, causa resistência e não deve ser prescrito, e que antidiarreicos não devem ser usados. A diretriz de 2017 da Infectious Diseases Society of America reserva a coprocultura para diarreia com febre, sangue, dor intensa ou sepse, e desaconselha leucócitos fecais para definir a causa. Coprocultura com quinolona, plano B com loperamida, leucócitos fecais e azitromicina com isotônico erram por excesso de tratamento, de exame ou de volume de observação.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Classifique a hidratação de um adulto com diarreia e diga quais achados sustentam sua escolha. Explique como seleciona reidratação oral ou venosa e quais parâmetros acompanha para ajustar o plano, consultando os volumes quando necessário. Depois compare diarreia aquosa sem gravidade, disenteria e diarreia após antibiótico. Confira se exame e antimicrobiano têm uma pergunta e uma indicação concretas em cada situação.
Em 30 dias
Simule reavaliação após reidratação: uma pessoa volta a tolerar líquidos; outra mantém hipotensão, oligúria ou vômitos. Diga o que permite alta e o que exige mudança de plano ou internação. Prepare orientações de alimentação, solução de reidratação, prevenção de transmissão e sinais de retorno. Acrescente duração além do esperado ou perda de peso e explique quando reconsiderar a hipótese inicial, em vez de prescrever novo ciclo empírico de antibiótico.
Agora atenda
Um adulto chega ao pronto-socorro com diarreia aguda e pede um remédio para cortar. Atenda: classifique a hidratação pela tabela de 2023 antes de qualquer outra coisa, execute o plano com volume e reavaliação, pergunte por sangue, febre, antibiótico recente, remédio tomado por conta própria e quem mais está doente, decida exame e antibiótico pelo critério e não pelo pedido — e saia do atendimento sabendo se há algo a notificar hoje.
