Clínica Médica › Geriatria
A dose que já foi certa
Polifarmácia e prescrição segura no idoso (critérios de Beers)
Desprescrever no idoso: qual régua o Brasil usa, o que muda na farmacologia e como se escreve uma retirada
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 254 p.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Departamento de Gestão do Cuidado Integral. Guia de cuidados para a pessoa idosa. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. 164 p.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Envelhecimento e saúde da pessoa idosa. Brasília: Ministério da Saúde, 2006. 192 p. (Cadernos de Atenção Básica, n. 19; Série A. Normas e Manuais Técnicos). ISBN 85-334-1273-8.
Oliveira MG, Amorim WW, Borja-Oliveira CR, Coqueiro HL, Gusmão LC, Passos LC. Consenso brasileiro de medicamentos potencialmente inapropriados para idosos. Geriatr Gerontol Aging. 2016;10(4):168-181. DOI 10.5327/Z2447-211520161600054.
By the 2023 American Geriatrics Society Beers Criteria® Update Expert Panel. American Geriatrics Society 2023 updated AGS Beers Criteria® for potentially inappropriate medication use in older adults. J Am Geriatr Soc. 2023;71(7):2052-2081. DOI 10.1111/jgs.18372.
O'Mahony D, Cherubini A, Guiteras AR, Denkinger M, Beuscart JB, Onder G, et al. STOPP/START criteria for potentially inappropriate prescribing in older people: version 3. Eur Geriatr Med. 2023;14(4):625-632. DOI 10.1007/s41999-023-00777-y. Correção publicada em Eur Geriatr Med. 2023;14(4):633.
Andrade RC, Santos MM, Ribeiro EE, Santos Júnior JDO, Campos HLM, Leon EB. Polifarmácia, medicamentos potencialmente inapropriados e a vulnerabilidade de pessoas idosas. Rev Bras Geriatr Gerontol. 2024;27:e230191. DOI 10.1590/1981-22562024027.230191.pt.
Clonazepam solução oral 2,5 mg/mL — bula do profissional de saúde. EMS S/A e Germed Farmacêutica Ltda. Versão da Germed atualizada conforme bula padrão aprovada pela Anvisa em 30 de setembro de 2020.
American Geriatrics Society Beers Criteria® Alternatives Panel; Steinman MA. Alternative treatments to selected medications in the 2023 American Geriatrics Society Beers Criteria®. J Am Geriatr Soc. 2025;73(9):2657-2677. DOI 10.1111/jgs.19500.
Gallagher P, O'Mahony D. STOPP (Screening Tool of Older Persons' potentially inappropriate Prescriptions): application to acutely ill elderly patients and comparison with Beers' criteria. Age Ageing. 2008;37(6):673-679.
American Diabetes Association. Older Adults: Standards of Care in Diabetes—2026. https://diabetesjournals.org/care/article/49/Supplement_1/S277/163921/13-Older-Adults-Standards-of-Care-in-Diabetes-2026
Joint Clinical Practice Guideline on Benzodiazepine Tapering, 2025. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12463801/
Responda antes de ler
Na revisão da lista de uma paciente de 82 anos, você já anotou os oito itens que constam das receitas. A filha, ao longo da conversa, menciona que a mãe 'toma um comprimidinho para dormir'. Qual conduta tem maior chance de revelar os medicamentos que não estão em receita nenhuma?
O paciente que você vai ver
Quarta-feira, oito e quarenta da manhã, ambulatório de geriatria de um hospital de ensino. A agenda da manhã tem nove nomes e a preceptora dividiu o trabalho na porta: você fica com as duas primeiras consultas, que são encaminhamentos novos, e ela entra na sua sala quando você chamar. O primeiro nome é o de Onélia Pentagna, 82 anos, 51 quilos, 1,52 m, aposentada, viúva há onze anos.
Ela entra devagar, apoiada no braço da filha, e senta com cuidado, primeiro a mão no braço da cadeira, depois o corpo. Vanda encosta na parede porque não há segunda cadeira. Traz duas coisas: uma sacola de tecido com as caixas e uma folha de encaminhamento da unidade básica, escrita à mão, com letra firme e sem rasura.
A folha diz o essencial em quatro linhas. Paciente de 82 anos, hipertensa, diabética, com fibrilação atrial, em acompanhamento na unidade desde 2014. Duas quedas em quatro meses, a segunda com corte no supercílio. Encaminho para avaliação geriátrica. Medicações em uso conforme lista anexa, todas já ajustadas. Assina Nestor, médico da unidade há doze anos.
A lista anexa tem onze linhas. E antes que você pergunte qualquer coisa, Vanda já explica, com a voz de quem repete algo que ensaiou no ônibus: que o doutor Nestor cuida da mãe desde sempre, que a mãe gosta muito dele, que ninguém está aqui para reclamar de ninguém, e que ela só queria saber se não tem alguma coisa que possa estar deixando a mãe assim.
Assim é a palavra que ela usa. Você pergunta o que é assim, e ela leva um tempo para responder, porque a resposta não é um sintoma. É que a mãe demora para levantar da cadeira. É que a mãe fica com a boca tão seca que precisa de água para engolir pão. É que a mãe não vai mais à igreja no domingo. É que a mãe, que ensinava as netas a costurar, parou de enfiar linha na agulha e disse que a vista piorou.
Dona Onélia escuta tudo isso olhando para a própria mão. Quando você se dirige a ela, ela responde curto e certo: dorme mal, sim; tem prisão de ventre, tem; sente tontura quando levanta, sente; caiu duas vezes, caiu, mas foi porque o chão da cozinha estava molhado nas duas. Ela não veio aqui pedir nada. Veio porque a filha marcou.
Você abre a sacola sobre a mesa e conta onze caixas. A conta das tomadas leva mais tempo, porque duas são de doze em doze horas e uma é de oito em oito: dá dezoito comprimidos por dia. Você diz esse número em voz alta e as duas se olham. Vanda diz que nunca ninguém tinha contado.
Este capítulo é sobre o que você faz com essas onze caixas. Não é sobre montar a lista, que é conciliação e tem capítulo próprio em Prescrição e Cuidado do Paciente Internado, no capítulo A sacola e a receita. Não é sobre decidir o que não investigar, que é prevenção quaternária e mora em Medicina de Família e Comunidade. É sobre a única conduta que a graduação quase não ensina, porque toda a formação é sobre a outra: tirar.
E é sobre o desconforto que vem junto. Toda linha dessa lista foi escrita por alguém com nome, carimbo e boa intenção. Dez das onze começaram certas. O que este capítulo tenta ensinar é que uma dose pode ter sido a dose certa e deixar de ser, que um remédio pode ter tido indicação e não ter mais, e que reconhecer isso não acusa ninguém — nem o colega que prescreveu, nem a paciente que tomou.
Quem adoece disso
Comece pelo tamanho do problema no Brasil, com um número que descreve exatamente a situação de dona Onélia: o idoso que chega pela primeira vez a um serviço especializado. Num estudo transversal com 496 prontuários de primeira consulta numa policlínica gerontológica em Manaus, 69 pessoas (13,9%) usavam cinco ou mais medicamentos simultaneamente. Entre essas 69, 40 (58,0%) tinham pelo menos um medicamento potencialmente inapropriado registrado no prontuário — quase três em cada cinco.
Dois detalhes desse estudo importam mais que a prevalência. O primeiro é quais foram os fármacos mais encontrados: glibenclamida e omeprazol, nessa ordem. Os dois estão no elenco básico do SUS, os dois são baratos, os dois são renovados sem atrito na farmácia da unidade, e os dois estão na lista de dona Onélia. O medicamento inapropriado típico do Brasil não é uma droga exótica: é o que a unidade tem em estoque.
O segundo é a companhia que a polifarmácia mantém. As pessoas classificadas como vulneráveis pelo Índice de Vulnerabilidade Clínico-Funcional tiveram risco 3,59 vezes maior de estar em polifarmácia (IC95% 2,11 a 6,09). A leitura honesta desse número é de associação, não de causa: quem tem mais doença toma mais remédio, e quem toma mais remédio adoece mais. O que a associação garante é onde procurar. A lista mais longa está na pessoa que menos suporta um erro nela.
Agora a parte que muda a conduta do interno, e que não é epidemiologia de doença: é epidemiologia de régua. Para decidir se um medicamento é inapropriado para um idoso, existem listas explícitas, e o Brasil tem exatamente uma. É o Consenso Brasileiro de Medicamentos Potencialmente Inapropriados para Idosos, publicado em 2016 na revista da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, construído por técnica Delphi modificada com um painel de dez especialistas de quatro regiões do país. Resultaram 118 critérios, dos quais 43 são independentes de condição e 75 dependentes de condição clínica ou doença.
A régua existe, portanto, e é boa. O que precisa ser dito com todas as letras é de que ano ela é por dentro. O consenso brasileiro validou o conteúdo dos critérios de Beers de 2012 e do STOPP na sua primeira versão. Beers está hoje na edição de 2023, a sétima da série, publicada no periódico da Sociedade Americana de Geriatria; foram três edições depois daquela que serviu de base — 2015, 2019 e 2023. O STOPP/START está na versão 3, também publicada em 2023, e chegou a 190 critérios — eram 114 na versão 2, de 2015, um crescimento de dois terços. A régua brasileira teve uma edição só, e nasceu apoiada em documentos que as próprias sociedades de origem já substituíram.
Falta responder quem adota isso oficialmente no Brasil, e aqui está o achado que governa este capítulo. Nos três documentos federais abertos para escrevê-lo, não há régua de inadequação. A Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024 lista 254 páginas de fármacos por componente de financiamento e não usa as palavras idoso ou idosa em nenhuma delas. O Guia de cuidados para a pessoa idosa, de 2023 e o mais recente do Ministério da Saúde sobre o tema, é escrito para a própria pessoa idosa, define polifarmácia como o uso de cinco ou mais remédios atribuindo a definição a alguns manuais que não nomeia, e não cita Beers, STOPP nem desprescrição. O único documento federal com conteúdo clínico sobre o assunto é o Caderno de Atenção Básica nº 19, de 2006.
Vale dizer o que esse caderno de 2006 faz bem, porque é mais do que se espera de um documento de vinte anos. Ele nomeia a cascata iatrogênica com essa expressão, descreve o mecanismo — prescrever para corrigir o efeito colateral de outra prescrição — e separa iatrogenia de ação de iatrogenia de omissão, que é a distinção que impede o capítulo de virar campanha contra remédio. Ele também manda pedir que a pessoa traga todas as caixas na consulta seguinte. O que ele não tem, porque em 2006 não existia em português, é a lista do que evitar.
Some as duas coisas e você tem o mapa em que o interno brasileiro trabalha. O conceito está num caderno federal de 2006. A lista está num consenso de sociedade de 2016 que traduz instrumentos de 2012 e 2008. O elenco de medicamentos é de 2024 e não menciona a idade em lugar nenhum. E a pessoa que vai receber a decisão tem 82 anos e onze caixas na mesa. Não há como esperar a régua chegar: ela é a que existe, e usá-la exige saber de quando ela é.
Por que acontece o que acontece
A pergunta que abre a farmacologia geriátrica não é qual remédio, é por que a mesma dose faz coisa diferente. Ela se responde em duas camadas. A primeira é farmacocinética: o que o corpo faz com a droga. A segunda é farmacodinâmica: o que a droga faz com o corpo. As duas mudam com a idade, e mudam em direções que se somam em vez de se anular.
Comece pela composição corporal, porque ela é a mais fácil de ver na balança e a mais esquecida na prescrição. Ao longo das décadas a massa magra cai e a proporção de gordura sobe, e a água corporal total diminui junto. Isso muda o volume de distribuição em sentidos opostos conforme a droga. O fármaco hidrossolúbil se dilui em menos água e alcança concentração maior com a mesma dose. O fármaco lipossolúbil se acumula num compartimento maior e demora mais para sair, o que prolonga o efeito depois da última tomada — é a razão pela qual um sedativo pode continuar agindo no dia seguinte, e por que a queda acontece de madrugada, e não na hora em que o comprimido foi tomado.
A eliminação renal é a próxima, e é onde mora a armadilha mais cara do capítulo. A filtração glomerular cai com a idade, mas a creatinina sérica depende da massa muscular, que também cai. Os dois movimentos se cancelam no exame: a creatinina fica bonita enquanto o rim já não filtra. Dona Onélia tem creatinina de 1,1 mg/dL, um valor que passa em qualquer folha de laboratório sem ser marcado. Pela fórmula de Cockcroft-Gault, com 82 anos e 51 quilos, o clearance estimado dela é de 32 mL/min. A mesma creatinina, numa mulher de 45 anos com 70 quilos, corresponde a 71 mL/min: mais que o dobro. A creatinina não é função renal, e no idoso ela é a informação que mais engana.
O fígado contribui de dois modos. O fluxo sanguíneo hepático diminui, e com ele cai o efeito de primeira passagem, de forma que uma fração maior da dose oral chega à circulação em drogas que sofrem extração hepática alta. E o metabolismo de fase I, o das oxidações, perde eficiência mais que o de fase II, o das conjugações. A consequência prática é conhecida: entre dois fármacos da mesma classe, o que é conjugado costuma se comportar melhor no idoso que o que precisa ser oxidado.
A quarta peça é a ligação a proteínas. A albumina cai na doença crônica, na desnutrição e na inflamação, e a fração livre — a fração que age — sobe para drogas muito ligadas. O detalhe que importa é que a dosagem sérica total não enxerga isso: o valor pode estar dentro da faixa terapêutica enquanto a fração ativa está acima dela.
Até aqui, tudo é sobre quanto da droga chega. A farmacodinâmica é sobre o que ela faz quando chega, e é a camada que a prescrição costuma ignorar porque não aparece em nenhum exame. A bula do clonazepam disponível no Brasil diz isso com uma frase que vale por um parágrafo de fisiologia: os efeitos dos benzodiazepínicos parecem ser maiores no paciente idoso do que no mais jovem mesmo em concentrações plasmáticas semelhantes. Mesma concentração, efeito maior. Não é acúmulo — é sensibilidade.
A sensibilidade aumentada anda junto com a reserva homeostática diminuída, que é a explicação de por que o efeito adverso no idoso vira evento e não incômodo. O barorreflexo responde mais devagar, e o que num adulto jovem seria uma tontura de dois segundos ao levantar vira, aos 82, uma queda com corte no supercílio. A resposta contrarregulatória à hipoglicemia é mais pobre e mais tardia, e o tremor e a sudorese que avisariam podem simplesmente não vir. O sistema colinérgico central tem menos folga, e uma carga anticolinérgica que um jovem não percebe produz boca seca, retenção, constipação e confusão. O mesmo estímulo, num sistema sem margem, produz um desfecho de outra categoria.
Falta o mecanismo que não é do corpo, e sim do sistema, porque é ele que faz a lista crescer. Cada sintoma novo tem duas explicações possíveis: doença nova ou droga velha. A doença nova tem CID, tem conduta, tem consulta marcada; a droga velha não tem nada disso, e ainda por cima precisa que alguém se lembre do dia em que ela entrou. Quando o sintoma é atribuído à doença nova, entra um medicamento; o novo medicamento produz outro sintoma; e a segunda atribuição é ainda mais fácil que a primeira, porque agora o paciente tem mais diagnósticos. É esse encadeamento que o caderno federal de 2006 chama de cascata iatrogênica. Ele não exige má prescrição em nenhum passo: exige apenas que ninguém, em nenhum dos passos, tenha olhado a data de entrada da droga anterior.

Como se apresenta de verdade
O dano medicamentoso no idoso quase nunca se apresenta como dano medicamentoso. Ele se apresenta como envelhecimento, como doença nova ou como piora da doença antiga — e as três leituras têm em comum o fato de não pedirem nenhuma retirada. As seis apresentações abaixo são as que mais aparecem no internato, e todas foram escritas de trás para frente: começando pelo que a família diz, não pelo que o livro chama.
Percurso de aprendizagem
Relacione idade, composição corporal, função renal e sensibilidade a efeitos adversos; organize uma linha do tempo de medicamentos e sintomas.
Acompanhe o plano de retirada, substituição e monitorização. Risco imediato pode exigir várias medidas hoje; tratamentos com dependência exigem desmame individual.
O sintoma com data de entrada
A apresentação mais comum é também a mais banal: um sintoma novo, inespecífico, que não fecha síndrome nenhuma. Cansaço, tontura, queda, confusão, boca seca, prisão de ventre, perda de apetite, sonolência de dia. São queixas que num adulto de quarenta anos disparariam investigação e que num idoso costumam ser arquivadas como idade.
A regra que evita esse arquivamento é uma só, e o próprio Guia de cuidados para a pessoa idosa a escreve para o leigo, o que diz muito sobre quem deveria saber dela: qualquer sintoma novo pode decorrer de algum medicamento, mesmo de um que a pessoa usa há muito tempo. A frase carrega duas informações. A primeira é que a droga entra no diagnóstico diferencial de sintoma novo. A segunda é a que quase todo mundo perde: o tempo de uso não absolve o fármaco. Uma droga tomada há oito anos pode começar a fazer mal hoje, porque o rim de hoje não é o de oito anos atrás.
Na prática isso vira uma pergunta que se faz para cada sintoma, antes de qualquer exame: quando isso começou, e o que mudou na lista nos três meses anteriores a isso? Se a resposta for nada mudou, a droga continua no diferencial — mas então o que mudou foi o paciente, e é a função renal, o peso ou a albumina que devem ser conferidos.
A síndrome anticolinérgica que ninguém chama pelo nome
É a apresentação mais frequente e a que mais se dispersa entre especialidades, porque cada sintoma dela tem um dono diferente. Boca seca vai para o dentista. Constipação vira laxante. Visão embaçada vira consulta de oftalmologia. Jato urinário fraco no homem vira urologia. Esquecimento vira demência. Cada porta recebe um pedaço e nenhuma recebe o conjunto — e o conjunto é o diagnóstico.
O que reúne os pedaços é a palavra anticolinérgico, que não é uma classe de medicamento e sim uma propriedade que muitas classes têm. Os critérios de Beers de 2023 mantêm uma tabela só para isso, listando os fármacos com forte ação anticolinérgica em oito grupos: antidepressivos, antieméticos, anti-histamínicos de primeira geração, antimuscarínicos para incontinência urinária, antiparkinsonianos, antipsicóticos, antiespasmódicos e relaxantes musculoesqueléticos. Ninguém prescreve um anticolinérgico; prescreve-se um remédio para dormir, um para enjoo, um para tremor, um para bexiga — e a soma é anticolinérgica.
A soma é a palavra-chave, e é o que torna essa apresentação tão traiçoeira. A carga não vem de um fármaco potente: vem de três fármacos fracos somados num sistema colinérgico sem folga. Dona Onélia toma biperideno duas vezes ao dia e prometazina à noite — dois anticolinérgicos francos, nenhum dos dois prescrito como tal.
O elo com a cognição está medido e é o que dá peso à retirada. Os próprios critérios de 2023, ao justificar por que evitar anti-histamínicos de primeira geração, registram que a exposição cumulativa a fármacos anticolinérgicos se associa a aumento do risco de quedas, delirium e demência, e recomendam considerar a carga anticolinérgica total nas revisões periódicas de medicamentos. Considerar a carga total, e não cada droga isolada, é o que a palavra soma quer dizer aqui. O reconhecimento do delirium instalado é do capítulo Delirium no paciente internado, em Síndromes do Paciente Internado; o que este capítulo cobre é o degrau anterior, o da carga que ainda não virou delirium.
O parkinsonismo que veio da farmácia
Lentidão, rigidez, marcha de passos curtos, cara pouco expressiva, dificuldade para levantar da cadeira. É a apresentação que a família descreve como estar devagar e que o serviço registra como suspeita de Parkinson, o que abre uma porta de consequências longas: encaminhamento, levodopa, rótulo.
Três coisas separam o parkinsonismo medicamentoso da doença de Parkinson, e nenhuma delas exige exame. A primeira é a simetria: a doença começa de um lado e permanece assimétrica por anos, enquanto o quadro induzido por droga costuma ser simétrico desde o início. A segunda é o tremor: o tremor de repouso assimétrico é a marca da doença, e pode faltar por completo no quadro medicamentoso, em que a rigidez e a bradicinesia dominam. A terceira é a data, que é a que decide: existe uma droga que entrou antes, com intervalo compatível.
Os fármacos que fazem isso estão todos no elenco do SUS e todos são de uso corriqueiro. A metoclopramida bloqueia receptor dopaminérgico e o consenso brasileiro lhe dedica o critério 30 do primeiro quadro, com a justificativa de que pode causar efeitos extrapiramidais, incluindo discinesia tardia, e com a exceção escrita da gastroparesia. Os antipsicóticos de primeira e de segunda geração fazem o mesmo. A cinarizina e a flunarizina, vendidas para tontura, também.
E aqui a cascata fecha o círculo de um jeito quase perfeito. Reconhecido o parkinsonismo, a resposta natural é tratá-lo — e o antiparkinsoniano mais barato e mais disponível é o biperideno, que é anticolinérgico. O critério 1 do primeiro quadro do consenso brasileiro, o primeiro critério da lista inteira, existe exatamente para isso: antiparkinsonianos com forte ação anticolinérgica, biperideno e triexifenidil, para tratar os efeitos extrapiramidais de medicamentos neurolépticos, com o racional de risco de toxicidade anticolinérgica. Os critérios de 2023 dizem o mesmo com outras palavras, acrescentando que existem agentes mais eficazes para tratar a doença de Parkinson de verdade. Ou seja: o primeiro item da régua brasileira descreve o segundo degrau de uma cascata.
A tontura que só existe em pé
A queixa chega como tontura, fraqueza, escurecimento da vista ou como a própria queda, e quase sempre com um contexto que a explica de mentira: levantou rápido, estava calor, não tinha comido. A hipotensão ortostática é a apresentação em que o exame físico decide sozinho, desde que ele seja feito — e ele quase nunca é, porque exige tempo, uma maca e alguém para apoiar a paciente.
A medida é simples: pressão deitada, depois em pé, com aferição em torno de um e de três minutos, e o pulso anotado junto. Em dona Onélia, deitada, 148 por 82 com 58 batimentos irregulares; em pé, ao terceiro minuto, 118 por 64. São 30 mmHg de queda sistólica, e ela relata escurecimento visual ao levantar.
O que transforma esse achado em conduta é a lista. Vários dos fármacos dela empurram a pressão para baixo na mudança de postura, e por mecanismos diferentes que se somam: o diurético tiazídico reduz volume, o bloqueador do receptor de angiotensina reduz o tônus vascular, os anticolinérgicos e sedativos embotam a resposta reflexa. A queda de madrugada, a caminho do banheiro, acontece na hora em que os três efeitos coincidem com a posição de pé e com o barorreflexo mais lento do sono. O que fazer depois da queda, a investigação da queda em si e a prevenção ambiental são do capítulo Síndromes geriátricas: quedas e imobilidade, nesta apostila; o que fica aqui é só o pedaço farmacológico.
A hipoglicemia que não avisa
No adulto jovem a hipoglicemia se anuncia: tremor, suor frio, fome, taquicardia. No idoso, a resposta adrenérgica é mais pobre e mais tardia, e o primeiro sinal pode já ser o neuroglicopênico — confusão, fala arrastada, comportamento estranho, queda. Isso desloca o diagnóstico inteiro, porque o quadro que chega parece acidente vascular cerebral, delirium ou demência, e não erro de dose.
A pergunta que abre esse diagnóstico não é sobre glicemia: é sobre horário. Sintoma que aparece sempre no fim da manhã ou no meio da tarde, sempre algumas horas depois de uma tomada, e que melhora quando a pessoa come, é hipoglicemia até prova em contrário. Vanda conta que a mãe às vezes acorda molhada de suor e que, no meio da manhã, fica calada de um jeito diferente.
A droga a procurar é a sulfonilureia, e a que está no elenco básico do SUS é a glibenclamida. O consenso brasileiro lhe dá critério próprio, o de número 26 do primeiro quadro, com o racional de maior risco de hipoglicemia prolongada grave em idosos. E o estudo brasileiro de Manaus mostrou justamente a glibenclamida como o medicamento potencialmente inapropriado mais encontrado nos prontuários. É o fármaco certo para procurar primeiro, e é o que a farmácia da esquina entrega sem perguntar nada.
O manejo da hiperglicemia do internado e o esquema de correção com insulina são do capítulo Hiperglicemia no paciente internado, em Prescrição e Cuidado do Paciente Internado. O que este capítulo assume é a decisão ambulatorial anterior: se essa sulfonilureia deveria continuar existindo nesta pessoa, nesta idade, com este clearance.
As caixas que não estão na receita
A última apresentação não é um sintoma: é uma ausência. É o medicamento que não aparece em lista nenhuma porque ninguém o prescreveu — o comprado no balcão, o que a vizinha indicou, o que sobrou de uma receita antiga, o chá, o suplemento, o colírio que a paciente não considera remédio.
Ele tem preferência por classes específicas, e as classes são exatamente as que causam dano no idoso: anti-inflamatório para dor, anti-histamínico para dormir, laxante, antiácido. Na sacola de dona Onélia, a caixa de prometazina não veio de receita: a filha comprou porque a mãe não dormia, e desde então a mãe toma um comprimido toda noite há dois anos.
A prometazina é o exemplo perfeito do fármaco que engana pelo balcão. Ela é um anti-histamínico de primeira geração, e como tal aparece nominalmente no critério 2 do primeiro quadro do consenso brasileiro e na tabela de fármacos com forte ação anticolinérgica dos critérios de 2023, com o racional de sedação, efeitos anticolinérgicos e desenvolvimento de tolerância quando usada como hipnótico. Ela ainda tem um critério próprio quando há parkinsonismo, o de número 62 do segundo quadro, por risco de exacerbação. E está no elenco básico do SUS, em comprimido de 25 mg.
A pergunta que descobre essas caixas precisa ser feita de um jeito que permita a resposta. Perguntar o que a senhora toma devolve a lista da receita. Perguntar o que a senhora toma que nenhum médico receitou, ou o que a senhora toma quando não está se sentindo bem, devolve a sacola inteira. O tom importa mais que a formulação: quem pergunta com cara de fiscal recebe a lista oficial.
Como fechar o diagnóstico
Investigar aqui não é pedir exame. É montar uma informação que não está em lugar nenhum do sistema e que só se obtém na conversa: a lista com datas, a ordem em que as coisas entraram e quem escreveu cada linha. Feito isso, o exame que resta é curto — e a maior parte do que se pediria antes deixa de ser necessária.
A lista que serve é a que tem data
Uma lista de medicamentos com nome, dose e frequência é um inventário. Serve para não errar a prescrição do dia e não serve para mais nada. A lista que permite desprescrever tem uma quarta coluna, e é ela que faz o trabalho: desde quando.
A data de entrada é o que transforma a lista em raciocínio, porque ela é o que permite alinhar fármaco e sintoma no tempo. Sem data, onze medicamentos são onze suspeitos igualmente prováveis, o que na prática significa nenhum suspeito. Com data, três deles entram na janela do sintoma e oito saem dela.
A data raramente está no prontuário e quase sempre está na casa. As fontes são conhecidas: as receitas antigas guardadas, o carimbo da farmácia na caixa, o cartão ou a caderneta de saúde da pessoa idosa, e principalmente a memória de quem separa os comprimidos — que costuma ser uma filha, e que costuma lembrar por acontecimento e não por mês. Foi depois do Natal. Foi quando ela internou. Foi quando o pai morreu. Aceite a âncora que a pessoa oferecer e converta depois; uma data aproximada com margem de dois meses resolve o problema, e uma coluna vazia não resolve nenhum.
Registre também a fonte de cada data, porque nem todas têm o mesmo peso. Data lida na receita é uma coisa; data lembrada pela filha é outra; data deduzida por você é uma terceira, e essa precisa ficar marcada como dedução para que o próximo médico não a tome por fato.
A linha do tempo, lida de trás para frente
Com as datas na mão, desenhe duas fileiras numa folha: em cima, os medicamentos, cada um no mês em que entrou; embaixo, os sintomas e os eventos, cada um no mês em que apareceu. Não é um instrumento validado; é uma folha de papel. O que ela faz é impedir o erro de leitura mais comum, que é procurar a causa do sintoma entre as drogas presentes em vez de entre as drogas recém-chegadas.
A leitura correta é de trás para frente: escolha o sintoma que mais incomoda, ache o mês em que ele começou e olhe o que entrou na fileira de cima nos três a doze meses anteriores. A janela é larga de propósito, porque a cascata não é imediata — o efeito adverso que ninguém atribui à droga é justamente o que demora.
Na folha de dona Onélia, três coisas aparecem alinhadas. A metoclopramida de oito em oito horas entrou há três anos, por queixa de má digestão, e nunca foi reavaliada. A lentidão e a rigidez começaram há cerca de dezoito meses. O biperideno entrou há catorze meses, prescrito para o tremor. E a boca seca, a prisão de ventre e as duas quedas são todas posteriores ao biperideno.
Uma segunda linha corre em paralelo e é mais lenta. A hidroclorotiazida está lá há nove anos; há um ano e meio dona Onélia teve dor e inchaço no dedão do pé, tratados como crise de gota; desde então usa ibuprofeno 600 mg de doze em doze horas, sem parar, porque a dor do joelho também melhorava. O tiazídico tem critério próprio no segundo quadro do consenso brasileiro, o de número 39, por poder exacerbar a gota. O uso prolongado de anti-inflamatório não seletivo é o critério 34 do primeiro quadro.
Duas cascatas, portanto, e nenhuma delas exigiu que alguém prescrevesse errado. Cada passo isolado foi defensável. O que faltou, nos dois casos, foi alguém com a folha inteira à frente.
O mapa de prescritores
A terceira coluna que falta na lista é quem. Anote, ao lado de cada item, quem o prescreveu e onde: médico da unidade básica, cardiologista do ambulatório, plantonista de pronto-socorro, alta de internação, ninguém.
Esse mapa não é burocracia; ele responde a três perguntas de conduta. A primeira é com quem falar antes de mexer, que é o assunto do bloco de conversa. A segunda é onde está o risco de reintrodução: o item prescrito por alguém que a paciente continuará vendo, e que não souber da retirada, volta na próxima receita. A terceira é qual item não tem dono — e o item sem dono é o mais fácil de retirar e o mais provável de ter sobrevivido por inércia, porque não há ninguém para renová-lo por convicção.
Na lista de dona Onélia, oito itens têm o mesmo dono, o doutor Nestor. Um é do cardiologista que ela viu duas vezes, há sete anos, quando descobriu a fibrilação atrial. Um é da alta de uma internação por infecção urinária, em 2019, e é o omeprazol. E um não tem dono nenhum: a prometazina.
Repare no que o mapa já entrega antes de qualquer decisão. O omeprazol entrou numa internação de seis anos atrás e desde então foi renovado por um médico que não o iniciou, para uma indicação que ninguém escreveu. O critério 32 do primeiro quadro do consenso brasileiro trata dos inibidores da bomba de prótons em dose plena por mais de oito semanas para úlcera péptica, com o racional de risco de osteoporose e fratura, demência e insuficiência renal com uso prolongado, e prevê a descontinuação ou a redução de dose.
Passar a lista pela régua — e saber de quando é a régua
Só agora a lista encontra o instrumento. Passe item por item pelo consenso brasileiro, que é a régua nacional, e depois pelos critérios de 2023 e pelo STOPP/START versão 3, que são mais novos e mais detalhados. A ordem tem razão prática e não patriótica: o consenso brasileiro foi construído verificando, no site da Anvisa, quais dos fármacos das listas estrangeiras existem no mercado daqui, e por isso ele fala dos remédios que estão na sacola.
Na lista de dona Onélia, seis itens caem em critérios nominais do consenso brasileiro: biperideno (critério 1 do primeiro quadro), prometazina (critério 2 do primeiro quadro e 62 do segundo), digoxina acima de 0,125 mg/dia (critério 16), glibenclamida (critério 26), omeprazol em dose plena por mais de oito semanas (critério 32) e uso prolongado de anti-inflamatório não seletivo (critério 34). A metoclopramida cai no critério 30, com a exceção escrita da gastroparesia — que precisa ser conferida, não presumida.
Um instrumento é ponto de partida, não sentença, e o próprio consenso brasileiro escreve isso: classificar um fármaco como potencialmente inapropriado não é contraindicação absoluta, e vários critérios trazem exceção redigida. A palavra potencialmente está no nome do instrumento e não é decorativa.
E há a informação que o aluno precisa carregar junto com o instrumento: de quando ele é. Dizer que um remédio está nos critérios de Beers, sem dizer qual edição, é uma frase que hoje pode significar coisas diferentes — a edição de 2023 acrescentou, modificou e removeu critérios em relação à de 2019, e o consenso brasileiro traduziu a de 2012. Escreva sempre a edição no prontuário e na conversa com o colega. É a diferença entre citar uma régua e citar uma lembrança de uma régua.
O exame físico que decide, e o exame que não muda nada
O exame desta consulta é curto e específico, e cada manobra existe para confirmar ou derrubar uma hipótese farmacológica. Pressão deitada e em pé, com o pulso anotado, para a hipotensão ortostática. Boca e língua, para a secura anticolinérgica, que se vê e não só se pergunta. Roda denteada nos punhos e cotovelos e observação da marcha e do levantar da cadeira, procurando simetria e ausência de tremor de repouso assimétrico. Palpação abdominal e pergunta sobre o hábito intestinal, para a constipação. Bexiga palpável ou percutível, se houver queixa urinária.
Os exames laboratoriais que mudam decisão aqui também são poucos: creatinina com o clearance estimado e escrito, sódio e potássio, glicemia, e a avaliação da anticoagulação que a fibrilação atrial exige. Em dona Onélia, a creatinina de 1,1 mg/dL vira 32 mL/min pela fórmula de Cockcroft-Gault, e o potássio veio 3,2 mEq/L.
O que não se pede é tão importante quanto. Não há indicação de imagem de crânio para uma lentidão simétrica com droga bloqueadora dopaminérgica há três anos na lista; não há indicação de pesquisa de causa de queda antes de retirar o que derruba a pressão em pé; não há indicação de pacote de exames de rotina para um sintoma que tem uma explicação testável por subtração. A decisão de não investigar tem régua própria no capítulo Prevenção quaternária e multimorbidade, em Medicina de Família e Comunidade, e é para lá que este capítulo manda quem quiser a fundamentação. O que fica aqui é a consequência prática: quando a hipótese é medicamentosa, o teste diagnóstico é a retirada, e ele precisa de tempo, não de aparelho.
A dosagem sérica de digoxina merece uma frase à parte, porque é o exame que o aluno vai querer pedir. Ela ajuda quando disponível e quando colhida no horário certo, mas não é ela que resolve o problema desta paciente: a dose prescrita já está acima do teto que as duas réguas escrevem, e um valor dentro da faixa não autoriza manter uma dose que o critério recusa por si.
A outra metade: o que falta na lista
Uma revisão que só subtrai está pela metade, e o instrumento europeu foi construído com as duas metades desde a origem: os 133 critérios STOPP dizem o que retirar e os 57 critérios START dizem o que deveria ter sido iniciado e não foi. O consenso brasileiro reproduz essa ideia já na definição que adota: prescrição inapropriada inclui a subutilização de medicamentos benéficos, clinicamente indicados, que deixam de ser prescritos por discriminação da idade ou por razões ilógicas.
Vale insistir na expressão discriminação da idade, porque ela nomeia um viés que opera na mesma consulta em que se desprescreve. O idoso que recebe remédio demais para sintomas costuma receber de menos para o que muda desfecho, e as duas coisas convivem na mesma folha.
Na lista de dona Onélia isso salta aos olhos. Ela tem fibrilação atrial documentada há sete anos e usa ácido acetilsalicílico 100 mg — que não é anticoagulação. A decisão de anticoagular, o escore que a sustenta e a escolha do agente são do capítulo Fibrilação atrial, em Cardiologia, e este capítulo não a toma. O que ele registra é a regra de método: ao terminar de marcar o que sai, percorra a lista uma segunda vez perguntando o que deveria estar aí e não está.
Duas outras perguntas dessa segunda passagem cabem em qualquer consulta e não dependem de escore: as vacinas estão em dia, e existe indicação de suplementação em quem já tem osteoporose tratada? O rastreamento e o tratamento da osteoporose são do capítulo Osteoporose pós-menopausa, em Ginecologia; a pergunta aqui é apenas se alguém a fez.
Reconciliar e simplificar medicamentos conforme risco e benefício
Aprenda a reconstruir o uso real, reconhecer cascatas de prescrição e priorizar mudanças que reduzam dano sem perder tratamentos úteis. Critérios de inadequação são alertas para revisão, não proibições automáticas nem substitutos da avaliação clínica. Este bloco tem três partes porque a decisão tem três partes. A primeira é qual régua se usa para dizer que um medicamento é inapropriado neste país, e de quando ela é. A segunda é o que o Sistema Único de Saúde tem para colocar no lugar do que sai, porque retirada sem alternativa disponível não é conduta, é recado. A terceira é a ordem: com onze itens marcados, sai qual primeiro. Nas notas ficam as conferências que foram feitas nos documentos citados aqui: tanto as que fecharam quanto as que não fecharam.
- 11 · Monte a lista com quatro colunas: fármaco e dose, frequência, desde quando, e quem prescreveu. Sem a terceira coluna não há como desprescrever; sem a quarta não há como avisar.
- 22 · Desenhe a linha do tempo com fármacos em cima e sintomas embaixo, e leia de trás para frente a partir do sintoma que mais incomoda, olhando os três a doze meses anteriores.
- 33 · Passe cada item pelo Consenso Brasileiro de 2016, depois pelos critérios de 2023 e pelo STOPP versão 3. Anote o número do critério, e não só a impressão de que o item é ruim.
- 44 · Confira as exceções escritas no próprio critério antes de marcar o item — várias delas descrevem exatamente o seu paciente.
- 55 · Estime o clearance de creatinina e escreva o número no prontuário. Creatinina isolada, no idoso, não informa função renal.
- 66 · Ordene o que sai: primeiro o que causa dano agora e não tem indicação atual; depois a droga que iniciou a cascata; só então a droga que foi acrescentada por causa dela.
- 77 · Escolha um item por vez, defina o degrau, a data da próxima avaliação e o que deve ser monitorado. Duas retiradas simultâneas tornam impossível saber qual delas explicou o que aconteceu.
- 88 · Avise quem prescreveu, entregue o esquema por escrito ao paciente e registre no prontuário o que saiu, por quê, até quando e o que fazer se piorar. Retirada não registrada é retirada que o próximo médico desfaz.
A retirada se escreve como prescrição, com seis campos
Suspender não é apagar uma linha: é prescrever um ato com começo, meio e critério de parada. Toda retirada precisa de seis campos escritos, e o que falta é sempre o mesmo. Um: qual fármaco sai, com dose atual. Dois: como sai — de uma vez ou por degraus, e com que intervalo entre eles. Três: por quê, numa frase que o próximo médico entenda sem precisar da consulta. Quatro: o que se espera que melhore, e em quanto tempo. Cinco: o que se espera que possa piorar, e o que fazer se piorar — inclusive quando contatar a equipe e, em desmame específico previamente combinado, se há indicação de voltar a um degrau anterior. Essa orientação não autoriza reinício autônomo de medicamento retirado por toxicidade. Seis: quando reavaliar, com data. O sexto campo é o que separa desprescrição de abandono: sem data marcada, quem para o desmame sozinha numa noite ruim não conta a ninguém, e a próxima consulta descobre que nada aconteceu.
As três réguas de inadequação, e de que ano cada uma é por dentro
| Régua | Quem publica, e a edição corrente | Sobre o que foi construída | Tamanho | O que ela sabe do Brasil |
|---|---|---|---|---|
| Consenso Brasileiro de Medicamentos Potencialmente Inapropriados para Idosos | Painel de dez especialistas de quatro regiões, por Delphi modificada em duas etapas; publicado em 2016 na revista da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia. Edição única até hoje | Validação de conteúdo dos critérios de Beers de 2012 e do STOPP, cuja referência registrada na própria lista bibliográfica do consenso é de 2008 | 118 critérios: 43 independentes de condição clínica e 75 dependentes de doença | Muito: cada fármaco teve a disponibilidade no mercado brasileiro verificada no site da Anvisa antes de entrar no questionário |
| AGS Beers Criteria | Sociedade Americana de Geriatria; edição de 2023, a sétima da série, no periódico da sociedade. Uma lista de alternativas foi publicada em 2025 referindo-se a esta edição | Revisão sistemática da evidência publicada entre 2017 e 2022, por painel interprofissional de doze especialistas e três representantes ex officio | Cinco categorias em tabelas separadas, incluindo interações e ajuste por função renal | Pouco, e o documento avisa: foi desenhado para uso nos Estados Unidos e pode exigir considerações adicionais em outros países |
| STOPP/START | Grupo europeu; versão 3 publicada em 2023 em periódico europeu de geriatria, com correção no mês seguinte que repõe um arquivo suplementar ausente | Delphi em quatro rodadas com onze médicos com perfil acadêmico em farmacoterapia geriátrica, de oito países europeus | 190 critérios, sendo 133 STOPP e 57 START, contra 114 na versão 2 de 2015 | Pouco quanto ao elenco; muito quanto ao método, por trazer a metade START, que é a do que falta |
As classes que mais machucam, o critério que as nomeia e o que o elenco do SUS tem
| Classe e o dano que ela produz | Onde está escrito | O que a Rename 2024 tem da classe | O que a Rename 2024 tem como saída |
|---|---|---|---|
| Anti-histamínicos de primeira geração — sedação, boca seca, constipação, retenção, confusão; desenvolvem tolerância quando usados para dormir | Critério 2 do primeiro quadro do consenso brasileiro; tabela de fármacos com forte ação anticolinérgica dos critérios de 2023 | Prometazina 25 mg comprimido e 25 mg/mL injetável; maleato de dexclorfeniramina 2 mg comprimido e 0,4 mg/mL em solução oral e xarope | Nenhum hipnótico com perfil melhor: não há melatonina, zolpidem, lorazepam nem trazodona no elenco. A saída disponível é não farmacológica |
| Antiparkinsonianos anticolinérgicos para efeito extrapiramidal de bloqueador dopaminérgico — soma carga anticolinérgica sobre um quadro que a suspensão do causador resolve | Critério 1 do primeiro quadro do consenso brasileiro, o primeiro da lista; mesma recomendação nos critérios de 2023 | Biperideno 2 mg comprimido, 4 mg comprimido de liberação prolongada e 5 mg/mL injetável | A saída não é outro fármaco: é retirar o bloqueador dopaminérgico que criou o quadro e esperar |
| Bloqueadores dopaminérgicos usados como procinético — parkinsonismo medicamentoso e discinesia tardia, com risco maior no idoso frágil | Critério 30 do primeiro quadro, com exceção escrita para gastroparesia; critério 61 do segundo quadro na doença de Parkinson | Metoclopramida 10 mg comprimido e 5 mg/mL solução | Domperidona não consta do elenco. A saída passa por medida dietética e por rever se a indicação original ainda existe |
| Sulfonilureias — hipoglicemia prolongada, e no idoso sem os sintomas de aviso | Critério 26 do primeiro quadro do consenso brasileiro nomeia a glibenclamida; os critérios de 2023 estenderam o critério a todas as sulfonilureias | Glibenclamida 5 mg comprimido | Gliclazida de liberação prolongada 30 mg e 60 mg, e metformina 500 e 850 mg — mas veja a divergência registrada adiante sobre até onde essa troca resolve |
| Anti-inflamatórios não seletivos em uso prolongado — hemorragia digestiva, úlcera, retenção de líquido, piora de pressão e de função renal | Critério 34 do primeiro quadro; critérios 12, 42 e 53 do segundo quadro para doença renal crônica avançada, insuficiência cardíaca e úlcera prévia | Ibuprofeno 200, 300 e 600 mg no componente básico; naproxeno 250 e 500 mg no componente especializado. Diclofenaco não consta do elenco | Paracetamol 500 mg e 200 mg/mL solução, e dipirona 500 mg, no componente básico, para a dor que sobra |
| Inibidores da bomba de prótons mantidos em dose plena sem indicação atual — osteoporose e fratura, e associação com outros desfechos no uso prolongado | Critério 32 do primeiro quadro, que prevê descontinuação ou redução de dose depois de oito semanas | Omeprazol 10, 20 e 40 mg | O próprio critério oferece a saída dentro da mesma droga: reduzir para dose de manutenção em vez de suspender de uma vez |
| Digoxina acima do teto — clearance renal reduzido no idoso aumenta o risco de intoxicação, e dose maior não traz benefício adicional | Critério 16 do primeiro quadro do consenso brasileiro; mesmo teto nos critérios de 2023, que ainda desaconselham a digoxina como primeira linha na fibrilação atrial | Digoxina 0,25 mg comprimido e 0,05 mg/mL elixir, ambos no componente básico | O elixir de 0,05 mg/mL é a apresentação que permite chegar ao teto exato sem partir comprimido |
A conta de cada troca, refeita para uma mulher de 82 anos e 51 kg
| Decisão | O que existe na Rename 2024 | A conta | O que se escreve |
|---|---|---|---|
| Trazer a digoxina para o teto de 0,125 mg/dia | Comprimido de 0,25 mg; elixir de 0,05 mg/mL | O comprimido de 0,25 mg é exatamente o dobro do teto. Meio comprimido dá 0,125 mg. Com o elixir, 0,125 mg correspondem a 2,5 mL. Manter 0,25 mg em dias alternados dá média diária de 0,125 mg, mas expõe a paciente ao pico do dia sim | Digoxina 0,05 mg/mL, 2,5 mL por via oral pela manhã — ou meio comprimido de 0,25 mg, se o elixir faltar |
| Estimar a função renal antes de qualquer ajuste | Nenhum insumo: é conta | Cockcroft-Gault com 82 anos, 51 kg e creatinina de 1,1 mg/dL, com o fator 0,85 para mulher, dá 32 mL/min. A mesma creatinina numa mulher de 45 anos com 70 kg daria 71 mL/min — 2,25 vezes mais | No prontuário, a frase completa: creatinina 1,1 mg/dL, clearance estimado de 32 mL/min pela fórmula de Cockcroft-Gault |
| Trocar a glibenclamida por gliclazida de liberação prolongada | Glibenclamida 5 mg; gliclazida LP 30 mg e 60 mg | Gliclazida de liberação prolongada permite tomada única, mas não é substituição automática pela glibenclamida. Avaliar se é possível retirar a sulfonilureia; quando indicada, iniciar na menor dose apropriada e monitorar hipoglicemia | Diante de provável hipoglicemia, suspender glibenclamida e avaliar hoje; definir meta, necessidade e escolha de outro agente após monitorização. Não trocar automaticamente por gliclazida LP 60 mg. |
| Retirar o anti-inflamatório e cobrir a dor com o que sobra | Ibuprofeno 200, 300 e 600 mg; paracetamol 500 mg e 200 mg/mL; dipirona 500 mg | Ibuprofeno 600 mg de doze em doze horas são 1.200 mg por dia, em 2 comprimidos. Na apresentação de 200 mg a mesma dose exigiria 6 comprimidos por dia, e 2.400 mg exigiriam 12 — a contagem de comprimidos é parte da adesão e some quando só se escreve a dose | Suspender o ibuprofeno; paracetamol 500 mg até de seis em seis horas se dor, com teto diário escrito na receita |
| Desmontar um benzodiazepínico, quando houver um | Clonazepam 2,5 mg/mL solução oral, componente básico. Não há apresentação em comprimido no elenco | Conferir concentração de 2,5 mg/mL e equivalência de dose por gota na bula do produto e no gotejador fornecido. “Cerca de 26 gotas/mL” é uma medida aproximada: não demonstra que cada dose de 20 gotas forneça exatamente 1,92 mg nem prova erro de 4%. Preferir mensuração padronizada compatível com a formulação e o plano de desmame. | Planejar redução individual do benzodiazepínico. Após uso prolongado, uma referência inicial é 5–10% da dose a cada 2–4 semanas, com pausas e ritmo mais lento se houver abstinência; conferir concentração e gotejador. Não suspender abruptamente nem impor prazo fixo para concluir |
| Repor cálcio e vitamina D em quem já trata osteoporose | Carbonato de cálcio 500 mg de cálcio elementar com 200 UI de colecalciferol; fosfato de cálcio tribásico com 600 mg de cálcio e 400 UI | Para chegar a 800 UI de vitamina D na primeira apresentação seriam necessários 4 comprimidos, que somam 2.000 mg de cálcio elementar. Na segunda, 2 comprimidos bastam e somam 1.200 mg. Escolher a apresentação errada dobra o cálcio para alcançar a mesma vitamina D | Escolher a apresentação pelo componente que se quer atingir, e conferir o cálcio total que vem junto |
Onde mora a régua brasileira, e de quando ela é. Os critérios de Beers e o STOPP são estrangeiros. Quem os traduz para o Brasil é o Consenso Brasileiro de Medicamentos Potencialmente Inapropriados para Idosos, de 2016, publicado por sociedade científica e não pelo governo federal. Nos três documentos federais abertos para este capítulo — Rename 2024, Guia de cuidados para a pessoa idosa de 2023 e Caderno de Atenção Básica nº 19 de 2006 —, nenhum adota uma lista de medicamentos inapropriados para o idoso, e a busca exata sobre o texto normalizado dos três não devolve a palavra Beers uma única vez.
A Rename 2024 não fala de idade. Busca exata sobre as 254 páginas, com acentos removidos e espaços preservados, não encontra idoso, idosa, idosos, idosas nem geriatria em nenhuma ocorrência; 60 anos aparece uma única vez, em contexto alheio ao tema. O elenco nacional de medicamentos essenciais organiza-se por componente de financiamento e por código anatômico-terapêutico, e não traz nenhuma ressalva etária. Isso não é erro do documento, que não se propõe a isso — mas define onde o interno não vai encontrar a resposta.
Duas definições federais de polifarmácia, e um número sem dono. O Caderno de Atenção Básica nº 19, de 2006, define polifarmácia como a situação em que vários medicamentos são prescritos simultaneamente, sem número de corte. O Guia de cuidados para a pessoa idosa, de 2023, diz que alguns manuais definem polifarmácia como o uso de cinco ou mais remédios, sem nomear quais manuais. São os dois documentos federais que tocam no assunto, e eles não usam a mesma definição; o corte de cinco, que a literatura brasileira adota, entra no material federal como citação anônima.
O documento federal com conteúdo clínico é de 2006 e cita preceitos que ele próprio data de quase cinquenta anos antes. O capítulo sobre medicamentos do Caderno nº 19 fecha com uma lista de preceitos gerais atribuída ao Professor Jairo Ramos e à primeira edição de um livro de terapêutica, que o próprio caderno situa há quase cinquenta anos. Somando as duas distâncias, a orientação federal mais recente com conteúdo clínico sobre prescrever ao idoso tem vinte anos e se apoia em preceitos de cerca de setenta. Os preceitos são bons — saber abandonar o que não surtiu efeito é desprescrição escrita antes de a palavra existir. A observação é sobre a data, não sobre a qualidade.
Duas datas para o mesmo instrumento dentro do mesmo artigo. O consenso brasileiro declara, no resumo em português e no resumo em inglês, que validou os critérios de Beers de 2012 e o STOPP de 2006, e repete STOPP 2006 na seção de métodos. Mas a introdução do mesmo artigo afirma que a primeira versão do STOPP foi desenvolvida na Europa em 2008, e a referência que ele associa ao STOPP em sua lista bibliográfica é de 2008, em periódico de geriatria. Nenhuma referência de 2006 para o STOPP aparece na lista. O ano de 2006, portanto, não corresponde a nenhum documento que o próprio consenso cite.
Dois tetos de aspirina no mesmo quadro. O critério 14 do primeiro quadro do consenso brasileiro recusa aspirina em dose acima de 150 mg/dia, com o racional de aumento de hemorragia digestiva sem ganho de eficácia. Dezenove linhas adiante, o critério 34 do mesmo quadro classifica como anti-inflamatório não seletivo a aspirina acima de 325 mg/dia. São dois limiares diferentes para o mesmo fármaco na mesma tabela, e a diferença tem explicação de origem: 150 mg é o corte do instrumento europeu e 325 mg é o corte do instrumento americano de 2012, e a fusão dos dois deixou a costura à vista. Para a prática brasileira o problema é pequeno, porque a apresentação do elenco é de 100 mg e fica abaixo dos dois; para quem cita o critério, importa saber qual dos dois está citando.
Três erros de classificação farmacológica dentro dos critérios brasileiros. Primeiro: o critério 9 do primeiro quadro chama de antidepressivos tricíclicos terciários um conjunto que inclui a nortriptilina, que é amina secundária, e a maprotilina, que é tetracíclica; o próprio critério, na coluna de exceção, volta a tratar a nortriptilina como caso à parte. Os critérios de 2023 fazem a separação certa: eles listam a nortriptilina entre os antidepressivos com forte ação anticolinérgica, mas quando definem tricíclicos terciários nomeiam apenas amitriptilina, clomipramina, doxepina e imipramina. Segundo: o critério 51 do segundo quadro chama de inibidores seletivos da recaptação de serotonina uma lista que termina com a venlafaxina, que é inibidora da recaptação de serotonina e noradrenalina. Terceiro: os critérios 42 e 53 do segundo quadro incluem glicosamina e condroitina entre os anti-inflamatórios não esteroides, e elas não são anti-inflamatórios não esteroides. Nenhum dos três muda o que sai da receita, porque o fármaco continua marcado; os três atrapalham quem usa a lista para aprender a classe.
A prometazina aparece em duas classes no mesmo consenso. Ela está corretamente entre os anti-histamínicos de primeira geração no critério 2 do primeiro quadro e no critério 5 do segundo, e aparece como antipsicótico na lista do critério 7 do segundo quadro, ao lado de clorpromazina, clozapina e olanzapina. Os critérios de 2023 a classificam como antiemético e como anti-histamínico de primeira geração, e não como antipsicótico. A observação é útil na prática pela razão oposta à que parece: seja qual for a gaveta, a prometazina fica marcada — e é justamente a droga que a família compra sem receita.
Uma conferência que fechou e uma que não fechou no artigo brasileiro de 2024. Fecharam: 69 de 496 dão 13,91%; 40 de 69 dão 57,97%; 25 de 40 dão 62,5%; e o intervalo de confiança da razão de prevalência de 3,59 é simétrico na escala logarítmica, com fatores de 1,70 para os dois lados. Não fecharam duas passagens. A primeira é a idade média, declarada como 69 ± 76,8 anos: numa amostra de pessoas com 60 anos ou mais, o desvio-padrão máximo teoricamente possível com média 69 é de 19,2 anos, mesmo na distribuição mais extrema imaginável, de modo que 76,8 é quatro vezes o máximo possível; os desvios por grupo, na terceira tabela do mesmo artigo, são 7,35, 5,62 e 5,65, e a leitura por deslocamento de vírgula, 7,68, cai exatamente nessa faixa. A segunda é a frase de que 46,5% das pessoas com vulnerabilidade faziam uso de polifarmácia: 32 sobre os 115 vulneráveis dão 27,8%, e 32 sobre os 69 em polifarmácia dão 46,4% — o denominador é o grupo da polifarmácia, e não o da vulnerabilidade.
As porcentagens de queda do mesmo artigo são coluna, não linha. O texto diz que a queda foi mais frequente no grupo em risco (41%; n=32) e no vulnerável (42,3%; n=33) que nos robustos (16,67%; n=13), o que se lê como prevalência dentro de cada grupo. As prevalências dentro dos grupos são 20,1%, 28,7% e 5,9%. Os números publicados são a fração de cada grupo dentro do total de 78 pessoas que caíram — 32, 33 e 13 somam exatamente 78, que é o total de quedas da primeira tabela. A ordem entre os grupos não muda com a leitura correta, e por isso nenhuma conduta muda; a frase, ainda assim, não diz o que os números dizem.
Aprofundamento sobre medidas — a bula pode informar número aproximado de gotas por mL e arredondamento de mg/gota. Uma diferença de cerca de 4% entre duas conversões aproximadas não demonstra, por si só, erro da formulação. Usar o gotejador e a equivalência da apresentação dispensada; para desmame, conferir mg, gotas e capacidade de medir cada redução, sem trocar de produto mantendo uma conversão não verificada.
Uma soma que não fechou por limitação da leitura, e não do documento. As seções do STOPP versão 3 que foram lidas somam 129 critérios, e o artigo declara 133; as do START somam 56, e o artigo declara 57. A diferença é compatível com uma seção não capturada na leitura — a versão 2 tinha uma seção inicial sobre indicação e duplicidade de classe que não apareceu no que se leu. O total declarado de 190 é o que o artigo afirma e é o que este capítulo usa; a decomposição por sistema não é afirmada aqui porque a conferência não fechou.
Uma coincidência que não é erro, e que vale registrar para quem for conferir. O estudo brasileiro citado neste capítulo tem 496 participantes, em Manaus, publicado em 2024. Existe outro estudo brasileiro sobre o mesmo tema, em Alfenas, também com 496 participantes, publicado em 2023 no mesmo periódico. São artigos distintos, com autores, cidades e identificadores digitais diferentes. Quem for verificar os números deste capítulo precisa saber qual dos dois está abrindo.
A conduta, hora a hora
A linha do tempo abaixo é a de dona Onélia Pentagna, 82 anos, 51 quilos, clearance estimado de 32 mL/min, com onze medicamentos e dezoito tomadas por dia. Ela cobre seis meses e cinco encontros, porque desprescrever é um procedimento longo e a pressa é o que o faz falhar.
A ordem das mudanças deve refletir risco, indicação, dependência e possibilidade de acompanhar a resposta. Em pacientes estáveis, etapas separadas ajudam a identificar efeitos. Quando há hipoglicemia, bradicardia/toxicidade, alteração eletrolítica ou quedas com sedação, várias intervenções podem ser necessárias no mesmo dia, com registro e monitorização. Nenhum critério de adequação substitui esse julgamento.
Consulta 1, dia 0 — as onze caixas e as quatro colunas
Antes de qualquer hipótese, esvazie a sacola sobre a mesa e monte a lista com quatro colunas: fármaco e dose, frequência, desde quando, quem prescreveu. As duas primeiras colunas saem da caixa; as duas últimas saem de Vanda, e é por isso que a consulta demora. Conte em voz alta os onze itens e as dezoito tomadas diárias. Pergunte, com essas palavras, o que ela toma que nenhum médico receitou — é aí que a prometazina aparece, comprada há dois anos porque a mãe não dormia. Desenhe a linha do tempo com fármacos em cima e sintomas embaixo e leia a partir da lentidão: metoclopramida há três anos, lentidão há dezoito meses, biperideno há catorze, boca seca e quedas depois disso. Só então examine, e examine o que decide.
Prescrição- Lista domiciliar em quatro colunas, com a data de entrada de cada item e a fonte de cada data
- Pressão arterial deitada e em pé, com o pulso anotado nas duas posições — deitada 148/82 com 58 irregular, em pé 118/64 ao terceiro minuto
- Inspeção de boca e língua, pesquisa de roda denteada, observação da marcha e do levantar da cadeira sem apoio de braço
- ECG, glicemia capilar, creatinina, sódio, potássio e magnésio; digoxinemia quando indicada, com horário da última dose. Pulso lento, hipocalemia e uso de digoxina exigem interpretação conjunta, mesmo sem valor laboratorial muito alterado
- Registrar no prontuário a hipótese em uma frase: parkinsonismo medicamentoso com carga anticolinérgica somada e hipotensão ortostática, em investigação por retirada
Consulta 1, dia 0 — a ordem do que sai, decidida na frente delas
A lista precisa ser ordenada pelo dano atual. Ibuprofeno crônico associado a losartana e tiazídico, com função renal reduzida, deve ser retirado e acompanhado de plano analgésico. Metoclopramida sem indicação sustentada é suspeita da síndrome extrapiramidal e também pode ser suspensa. Mas há riscos que não podem esperar a visita seguinte: pulso de 58 irregular em uso de digoxina, potássio de 3,2 mEq/L, hipotensão ortostática e possível hipoglicemia. Conferir ECG, sintomas, glicemia, magnésio e função renal, discutir reposição de potássio e reavaliar digoxina, tiazídico e glibenclamida no mesmo dia. Uma mudança por vez facilita interpretar sintomas quando há estabilidade; não é regra para manter vários medicamentos nocivos durante semanas. A retirada do biperideno e da prometazina é planejada segundo intensidade dos efeitos anticolinérgicos e risco de rebote, sem exigir que o parkinsonismo desapareça para começar.
Prescrição- Suspender ibuprofeno hoje, sem desmame; paracetamol 500 mg até de seis em seis horas se dor, com o teto diário escrito na receita
- Suspender metoclopramida hoje, depois de afastar gastroparesia pela história
- Reavaliar hoje digoxina, glibenclamida e hidroclorotiazida com o médico responsável, ECG e dados clínicos; não mantê-las automaticamente até as semanas 6–12. Conferir também indicação, dose e segurança dos demais medicamentos
- Escrever na lista, ao lado de cada item mantido, a data prevista para a decisão sobre ele
Consulta 1, dia 0 — o papel que sai da sala com elas
A revisão precisa resultar em um plano escrito, compreendido e comunicado. Para cada mudança, registrar medicamento e dose, motivo, ritmo, o que pode melhorar ou piorar, sinais para procurar atendimento, contato e data de revisão. Explicar que sintomas durante alguns desmames podem exigir pausa ou retorno a um degrau previamente combinado; isso depende do fármaco e não autoriza reiniciar medicamentos retirados por hipoglicemia, toxicidade ou lesão orgânica. Pedir que a paciente e a filha expliquem com suas palavras o esquema e organizar as caixas para evitar duplicação ou reintrodução acidental.
Prescrição- Folha de retirada com os seis campos: o que sai, como sai, por quê, o que melhora e quando, o que pode piorar e o que fazer, e a data de reavaliação
- Telefone da unidade e do ambulatório escritos na mesma folha
- Contato em 24–72 horas para os riscos imediatos e resultado das medidas, com prazo de recontrole de potássio/glicemia/ritmo definido no mesmo dia; retorno estruturado em duas semanas para os demais itens
- Guardar as caixas suspensas separadas das de uso atual, identificadas claramente como não usar, até conferência pela equipe; organizar descarte adequado depois. Não deixá-las junto da caixa de administração diária
Dia 0, fim da tarde — a ligação para quem prescreveu
Este é o marco que os capítulos costumam pular e que decide se a retirada sobrevive. O doutor Nestor acompanha dona Onélia há doze anos e vai continuar acompanhando; se ele não souber o que foi feito, a próxima receita da unidade recoloca o que saiu, e ninguém terá agido de má-fé. A ligação tem uma estrutura que funciona e uma que não funciona. A que não funciona começa pelo veredicto. A que funciona começa pela informação que só ele tem: por que cada item entrou. Pergunte primeiro, informe depois, proponha por último, e devolva o seguimento a ele. Se a conversa por telefone não for possível, o relatório escrito faz o mesmo trabalho, desde que diga o que foi retirado, com que raciocínio, o que se espera e o que ele deve fazer se o sintoma voltar.
Prescrição- Ligar antes de a paciente chegar à unidade com a receita nova, e não depois
- Perguntar a história de entrada dos itens sem data conhecida — especialmente o biperideno e o omeprazol
- Informar o que foi suspenso hoje e com que raciocínio, nomeando o critério e a edição da régua
- Combinar quem faz o próximo passo e em que consulta, e registrar no prontuário o nome de quem foi avisado e quando
Semana 2 — a primeira leitura da subtração
Duas semanas é o prazo certo para o anti-inflamatório, porque o efeito sobre pressão, volume e potássio aparece nesse intervalo, e é cedo demais para o parkinsonismo, que leva semanas a meses para ceder depois da retirada do bloqueador dopaminérgico. Diga isso à família antes, porque a expectativa errada faz a retirada parecer fracasso. Nesta consulta, a pressão deitada caiu para 132 por 78 e a queda ao levantar diminuiu para 14 mmHg; o potássio subiu para 3,7 após a revisão do diurético e a correção acompanhada pela equipe; a dor do joelho voltou em parte e o paracetamol tem dado conta. A lentidão está igual — e igual, aqui, é o resultado esperado. Com o quadro estável, começa o desmame do biperideno, e não a sua suspensão abrupta.
Prescrição- Repetir pressão deitada e em pé com o mesmo método e anotar os dois valores
- Repetir potássio e creatinina
- Iniciar desmame do biperideno: reduzir para 2 mg uma vez ao dia por duas semanas, depois reavaliar
- Manter suspensos ibuprofeno e metoclopramida; revisar o resultado das decisões já tomadas sobre potássio, diurético, digoxina e hipoglicemia. Ajustar o restante conforme risco e resposta, sem proibição de novas mudanças necessárias
- Retorno em quatro semanas
Semana 6 — a cascata cede, e a segunda droga sai
Seis semanas depois da retirada da metoclopramida, dona Onélia levanta da cadeira sem se apoiar nos braços, e Vanda diz a frase que interessa mais que qualquer escala: ela voltou a enfiar linha na agulha. A roda denteada diminuiu e continua simétrica. Este é o momento de completar a retirada do biperideno, e de fazê-lo devagar mesmo com o quadro melhor, porque a suspensão abrupta de anticolinérgico de uso prolongado pode produzir sintomas próprios. Com os dois anticolinérgicos mais fortes em queda, a boca seca melhora, e é hora de olhar a prometazina — que sai com um plano de sono, e não sozinha, porque a insônia que a motivou continua existindo.
Prescrição- Completar o desmame do biperideno: 1 mg ao dia por duas semanas e então suspender
- Iniciar plano de sono não farmacológico: horário fixo de deitar e levantar, exposição à luz pela manhã, restrição de líquido à noite, retirada do cochilo longo da tarde
- Reduzir a prometazina para dias alternados por duas semanas, com suspensão prevista na consulta seguinte
- Conferir a decisão sobre digoxina tomada na primeira avaliação. Se mantida, ajustar à indicação, pulso, ECG, função renal e resposta; 0,125 mg/dia é limite usual dos critérios de adequação, não uma dose obrigatória ou segura para toda pessoa idosa
- Retorno em seis semanas
Mês 3 — as trocas, e a conversa que a troca exige
Com a cascata desfeita, sobram as decisões que não são de retirada e sim de substituição, e cada uma exige uma conversa própria. A glibenclamida sai e entra gliclazida de liberação prolongada, o que reduz as tomadas de duas para uma e reduz — sem eliminar — o risco de hipoglicemia prolongada; essa troca tem uma divergência importante registrada adiante neste capítulo, e ela precisa ser dita à paciente, não escondida. O omeprazol, que entrou numa internação de 2019 e nunca teve indicação escrita, é reduzido em vez de suspenso, seguindo a alternativa que o próprio critério oferece. A hidroclorotiazida, que abriu a segunda cascata pela gota, é a próxima da fila e depende de uma conversa com quem cuida da pressão. E a fibrilação atrial em uso de ácido acetilsalicílico é encaminhada para a decisão de anticoagulação, que não é deste capítulo.
Prescrição- Conferir o plano iniciado para a glibenclamida: suspender diante de suspeita de hipoglicemia e monitorar, sem troca automática por gliclazida 60 mg. Definir alvo individual e necessidade real de outro agente; se sulfonilureia ainda for escolhida, usar a menor dose apropriada e acompanhamento próximo
- Reduzir omeprazol para dose de manutenção, com reavaliação em quatro e em doze semanas
- Suspender prometazina, mantendo o plano de sono
- Verificar conclusão da avaliação de anticoagulação na fibrilação atrial, solicitada desde a primeira consulta; não esperar o fim da desprescrição para enfrentar o risco tromboembólico
- Reaplicar a leitura do que falta: vacinas em dia, e reposição adequada em quem trata osteoporose
Mês 6 — a lista relida inteira, e o que se devolve
Seis meses depois, a lista tem sete itens e onze tomadas por dia, contra onze itens e dezoito. Isso não é a medida do sucesso, e dizer que é seria trocar um número por outro. A medida é a que Vanda dá sem ser perguntada: a mãe voltou à igreja, não caiu mais, e costura. O que se faz nesta consulta é reler a lista inteira do começo, porque uma revisão que valeu uma vez precisa valer de novo — e porque nem toda retirada termina bem, o que já estava contado desde o começo. Se um sintoma voltou igual ao que era antes, na velocidade da doença e não na da abstinência, a indicação era real: o item volta, na menor dose, e volta com registro. Por fim, devolva o seguimento a quem o tem: o relatório para o doutor Nestor com a lista final, o motivo de cada saída e o que ele deve vigiar.
Prescrição- Reler a lista item a item, com as mesmas quatro colunas, e escrever a data da próxima revisão
- Reintroduzir, na menor dose e com registro, o que a retirada mostrou ser necessário
- Relatório de contrarreferência com lista final, motivo de cada retirada, o que monitorar e em que prazo
- Registrar no prontuário a frase que o próximo médico precisa ler: quais itens saíram, por que saíram e o que fazer se o sintoma voltar
Como saber se está funcionando
Cada retirada é um teste diagnóstico, e teste sem prazo definido antes não é teste. Os sete parâmetros abaixo têm janelas diferentes de propósito: o erro mais comum da reavaliação não é medir a coisa errada, é medir a coisa certa cedo demais e concluir que não funcionou.
Esperado: Redução da queda sistólica ao levantar e desaparecimento do escurecimento visual referido; a pressão deitada pode subir um pouco, e subir um pouco não é motivo para reintroduzir o que saiu
Se não melhora: Hipotensão sintomática exige rever volemia, anemia, ritmo, disfunção autonômica e todos os medicamentos relacionados. Potássio baixo deve ser investigado e corrigido, especialmente com digoxina; não atribuir sua melhora à simples retirada do anti-inflamatório. Rever tiazídico e metas pressóricas com a equipe desde o início
Esperado: Melhora progressiva e lenta, que costuma levar semanas a meses; o intervalo precisa ser dito à família antes, porque a expectativa de melhora em dias transforma uma retirada correta em fracasso aparente
Se não melhora: Ausência completa de melhora em três meses, com a droga fora e sem outro bloqueador dopaminérgico na lista, muda a hipótese: pode haver doença de Parkinson por baixo, e aí o quadro tende a permanecer ou piorar, com assimetria e tremor de repouso ficando mais evidentes. Nesse ponto o encaminhamento é legítimo — e chega com uma lista já limpa, que é a diferença entre encaminhar e transferir o problema.
Esperado: Salivação que permite comer pão sem líquido, evacuação sem esforço e sem laxante de resgate, e ausência de sensação de esvaziamento incompleto
Se não melhora: Rever carga anticolinérgica e causas associadas; retirar ou substituir o que não traz benefício. Tratamento sintomático da constipação pode ser necessário enquanto a causa é corrigida — não é, por si só, uma cascata inadequada
Esperado: Desaparecimento da sudorese ao acordar e do episódio de meio da manhã; glicemias capilares combinadas, e não um pacote de medições que ninguém vai ler
Se não melhora: Se os episódios persistirem com a gliclazida, a pergunta seguinte não é de dose e sim de alvo: qual glicemia se persegue numa mulher de 82 anos com clearance de 32 mL/min. Alvo apertado no muito idoso compra hipoglicemia e não compra desfecho, e a hipoglicemia neste corpo se apresenta como queda ou confusão.
Esperado: Dor controlada com analgésico simples e manutenção do que a pessoa consegue fazer; o alvo é função, não zero na escala
Se não melhora: Dor incontrolável sem o anti-inflamatório é informação clínica, não derrota: significa que a indicação existia e que a retirada precisa vir acompanhada de plano próprio para a dor — exercício, reabilitação, analgesia escalonada. Retirar sem oferecer nada devolve o paciente ao balcão da farmácia, e lá ele compra o mesmo anti-inflamatório sem receita e sem gastroprotetor.
Esperado: Insônia transitória de alguns dias, que é esperada e precisa ter sido anunciada, seguida de retorno ao padrão anterior ou melhor
Se não melhora: Insônia persistente depois de quatro semanas pede investigação do que a sustenta — dor noturna, noctúria, apneia, depressão, cochilo longo à tarde — e não a reintrodução do anti-histamínico. A tolerância ao efeito hipnótico dos anti-histamínicos de primeira geração está escrita no próprio critério que os proíbe: a droga que a paciente toma para dormir há dois anos provavelmente já não a faz dormir.
Esperado: Que a lista escrita no prontuário de hoje seja igual à que está na casa da paciente; e que exista uma data marcada para a próxima revisão, mesmo quando nada mudou
Se não melhora: Divergência entre a lista do prontuário e a lista da casa é o achado mais comum e o mais silencioso, e ele costuma significar que alguém prescreveu no meio do caminho. Quando aparecer, refaça a coluna de quem prescreveu antes de refazer qualquer decisão: um item novo com dono novo exige aviso novo.
Onde o erro machuca
O dano: É o erro que transforma uma cascata identificada corretamente numa prova de que ela não existia. Retirado o biperideno com a metoclopramida ainda na lista, o parkinsonismo permanece — porque a causa continua sendo administrada — e a família, o paciente e o próximo médico concluem que o biperideno era necessário. O item volta, e volta com mais convicção do que tinha antes.
Como pegar a tempo: Antes de escolher o que sai, pergunte de cada item marcado se ele entrou por causa de outro. O que entrou por causa de outro sai depois, e só quando o tempo de recuperação do primeiro já tiver corrido. Na linha do tempo, qualquer fármaco cuja data de entrada seja posterior a um sintoma que outro fármaco explica é candidato a segundo elo — e não é o alvo da primeira retirada.
O dano: Destrói a informação que a retirada existia para produzir. Se dois itens saem juntos e a paciente melhora, não se sabe qual deles a estava prejudicando, e os dois ficam fora sem justificativa individual; se ela piora, não se sabe qual reintroduzir, e a solução mais fácil passa a ser reintroduzir os dois. Em qualquer dos casos, seis meses depois ninguém consegue escrever por que a lista está como está.
Como pegar a tempo: Um item por vez, com prazo próprio. A exceção honesta é quando dois itens saem por indicações independentes e com janelas de leitura muito diferentes — e mesmo aí, escreva antes qual sintoma pertence a qual retirada. Se você não consegue dizer, antes de assinar, qual sintoma vai responder a qual retirada e em quanto tempo, é porque está retirando demais de uma vez.
O dano: Uma linha apagada da receita não carrega raciocínio. O próximo médico vê um medicamento que a paciente já usou e não vê por que parou, e a leitura mais provável é falha de acesso ou de adesão — o que leva à reintrodução. Pior: sem prazo escrito, nem quem retirou sabe quando concluir que deu certo, e a retirada fica pendurada indefinidamente entre o sucesso e o abandono.
Como pegar a tempo: Escrever medicamento e dose, motivo, ritmo da retirada, benefício esperado, sintomas possíveis e sinais de alerta, com data de controle e contato. Eventual retorno a uma dose anterior deve ser combinado para um desmame específico, sem autorizar reinício autônomo de fármaco retirado por toxicidade ou lesão. Entregar o plano à família e à equipe que renova a receita.
O dano: É o erro que anula todo o trabalho sem que ninguém erre. A paciente continua indo à unidade básica, a receita de lá continua sendo emitida com a lista de lá, e o item retirado volta na renovação seguinte. E há um dano além do medicamento: a paciente confia no médico que a acompanha há doze anos, percebe a contradição entre os dois e escolhe — quase sempre pelo vínculo mais antigo, o que joga fora também as retiradas certas.
Como pegar a tempo: Avise antes de a receita nova circular. Peça a história de entrada dos itens em vez de anunciar o veredicto, devolva o seguimento a quem o tem e registre no prontuário quem foi avisado e quando. Se a sua conduta depende de que a próxima receita, escrita por outra pessoa, coincida com a sua, e você não falou com essa pessoa, a conduta ainda não está tomada.
O dano: É a armadilha que faz uma dose errada parecer certa. A creatinina depende da massa muscular, que cai com a idade, e por isso uma creatinina normal pode conviver com filtração muito reduzida. Em dona Onélia, 1,1 mg/dL correspondem a 32 mL/min — um valor que muda a conta de vários fármacos e que torna a associação de anti-inflamatório com bloqueador do receptor de angiotensina e diurético um risco de outra ordem.
Como pegar a tempo: Estime o clearance sempre que a idade passar de 65 e escreva-o ao lado da creatinina no prontuário, para que o próximo leitor não repita a leitura ingênua. Toda vez que for prescrever ou manter um fármaco de eliminação renal num idoso magro com creatinina normal, faça a conta. O ajuste de dose propriamente dito é do capítulo Ajuste de dose na disfunção renal e hepática, em Prescrição e Cuidado do Paciente Internado.
O dano: Devolve a lista oficial e esconde exatamente a classe que mais machuca. O medicamento comprado no balcão concentra-se em anti-inflamatório, anti-histamínico usado como hipnótico, laxante e antiácido — e nenhum deles aparece em prontuário nenhum. Na lista de dona Onélia, o item de maior carga anticolinérgica depois do biperideno foi comprado pela filha, numa farmácia, sem receita, e estava sendo tomado todas as noites havia dois anos.
Como pegar a tempo: Pergunte pela coisa e não pela categoria: o que a senhora toma que nenhum médico receitou, o que a senhora toma quando não dorme, o que a senhora toma quando dói. E peça as caixas, porque a caixa responde o que a memória não responde. Se o número de caixas na sacola for maior que o número de itens da sua lista, a lista está errada — e a diferença costuma ser justamente o que interessa.
O que dizer ao paciente e à família
As falas abaixo resolvem os quatro atritos previsíveis desta consulta: o medo de perder o remédio, a suspeita de que alguém errou, a conversa com o colega e o desmame que assusta. Nenhuma delas acusa ninguém, e essa não é uma escolha de polidez: uma retirada que precisa de culpado não sobrevive à primeira renovação de receita.
Pedir a sacola sem que ela ouça que vai perder o remédio
“"Dona Onélia, a senhora trouxe as caixas? Vou abrir todas aqui em cima da mesa, com a senhora vendo. Não é para tirar nada agora — é porque eu preciso ver o que a senhora toma de verdade, e a caixa me conta coisa que a receita não conta. Se no fim eu achar que alguma coisa está sobrando, eu explico antes, e a senhora decide junto comigo."”
Não diga: "A senhora toma remédio demais." "Isso aqui tudo é veneno." O idoso em polifarmácia costuma chegar defendendo a lista, porque a lista é o que ele entende como cuidado recebido. Abrir pelo julgamento faz a sacola voltar para dentro da bolsa, e o que ficar de fora será exatamente a receita oficial — sem o que foi comprado sem prescrição, que é o que interessa.
Dizer que o sintoma pode ser o remédio, sem dizer que alguém errou
“"Vou contar como estou pensando. A senhora começou a ficar mais devagar mais ou menos um ano e meio depois de entrar um remédio de estômago que a senhora toma três vezes por dia. Esse remédio, em algumas pessoas, deixa o corpo mais duro e mais lento, e isso costuma demorar a aparecer. Não quer dizer que ele foi mal receitado — quando ele entrou, ele fazia sentido. Quer dizer que hoje eu quero testar tirar ele e ver se a senhora melhora."”
Não diga: "Isso nunca deveria ter sido receitado para a senhora." "Quem passou isso não devia ter passado." A frase que condena a decisão de ontem faz a paciente e a família ouvirem que perderam anos, e o custo recai sobre o vínculo com a unidade, que é justamente o que vai sustentar o seguimento depois que você sair do caso.
Ligar para o colega que prescreveu — a abertura que não fecha porta
“"Doutor Nestor, aqui é o interno do ambulatório de geriatria; atendi hoje a dona Onélia Pentagna, que o senhor encaminhou. Antes de eu propor qualquer coisa, preciso de uma informação que só o senhor tem: o biperideno entrou quando, e por causa de quê? É que na linha do tempo que eu montei ele aparece depois da lentidão, e a metoclopramida aparece antes."”
Não diga: "Estou ligando para avisar que suspendi quatro medicações da sua paciente." Abrir pelo veredicto coloca o colega na posição de auditado, e a resposta previsível é a defesa da lista inteira. Evite também a pergunta retórica — "o senhor sabia que biperideno é anticolinérgico?" —, que é acusação com formato de pergunta.
Quando o colega discorda da retirada
“"Entendi a sua preocupação, e ela é justa. Proponho o seguinte: eu tiro só um item agora, o anti-inflamatório, que é o que está mexendo com a pressão e com o potássio dela, e deixo todo o resto como está. Marco reavaliação em duas semanas e mando para o senhor o que aconteceu. Se piorar, a gente volta atrás — e quem decide o passo seguinte é o senhor, que a acompanha."”
Não diga: Insistir citando literatura, ou escalar para a preceptora na frente da família. Discordância não se resolve por autoridade, e o interno não tem nenhuma. Evite também combinar a retirada só com a filha, contornando o colega: a receita da unidade continua sendo emitida, e o item volta.
Explicar o desmame e autorizar a volta atrás
“"Esse aqui a gente não pode parar de uma vez, porque o corpo já se acostumou. Vamos descer devagar: nestas duas semanas a senhora toma um por dia em vez de dois, e depois conversamos de novo. Pode ser que a senhora durma pior alguns dias — se acontecer, é esperado e passa. Se ficar muito ruim, volte para a dose de antes e me ligue. Voltar não é errado; é informação."”
Não diga: "Se der algum problema a senhora me procura." O convite vago não é permissão: quem passa uma noite ruim decide sozinha entre aguentar calada e desistir escondida, e não conta em nenhuma das duas. A permissão precisa ser específica — qual dose voltar, para qual telefone ligar, até quando.
A filha que quer tirar tudo hoje
“"Vanda, eu entendo, e no fim a lista vai encolher mesmo. Mas se eu tirar quatro coisas hoje e sua mãe melhorar, eu não vou saber qual delas estava fazendo mal — e se ela piorar, eu não vou saber qual devolver. Vamos tirar um de cada vez, com data marcada. Vai levar uns seis meses. É mais lento e é o único jeito de a gente aprender alguma coisa com cada retirada."”
Não diga: Aproveitar o entusiasmo e suspender vários itens na mesma consulta porque a família apoia. O acompanhante costuma chegar mais radical que o médico, e ceder a isso destrói a informação que cada retirada existia para produzir.
A paciente que diz que toma aquilo há dez anos
“"Tem razão, a senhora toma há muito tempo, e é justamente isso que me faz querer olhar. O remédio não mudou, mas a senhora mudou: aos setenta e dois o seu corpo dava conta de eliminar essa dose, e hoje ele elimina menos. A dose continua a mesma e o efeito ficou maior. Não é que o remédio virou ruim. É que ele virou muito para o corpo de agora."”
Não diga: "Se a senhora toma há dez anos, então não é isso." Essa é a frase que fecha o diagnóstico pelo lado errado: o tempo de uso não absolve o fármaco, porque o rim, a massa magra e a albumina de hoje não são os de dez anos atrás.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
A troca resolve o essencial — leitura da régua brasileira somada ao elenco do SUS, 2016 e 2024
O consenso brasileiro dá critério próprio à glibenclamida, o de número 26 do primeiro quadro, com o racional de maior risco de hipoglicemia prolongada grave em idosos, e não traz critério algum contra a gliclazida. O elenco básico do SUS tem as duas, e a gliclazida está em apresentação de liberação prolongada de 30 e 60 mg, o que reduz as tomadas diárias de duas para uma e diminui — sem eliminar — o risco de hipoglicemia. Numa unidade básica, trocar é factível hoje, com receita e estoque; suspender a sulfonilureia sem substituto exige uma consulta que talvez não aconteça.
Oliveira MG et al. Consenso brasileiro de medicamentos potencialmente inapropriados para idosos. Geriatr Gerontol Aging. 2016;10(4):168-181, Quadro 1, critério 26; e Rename 2024, Componente Básico
A troca não resolve — critérios de Beers, edição de 2023, que ampliou o critério
A edição de 2023 registra explicitamente, entre as modificações desde 2019, que o critério das sulfonilureias foi ampliado das de ação longa para todas as sulfonilureias, e a gliclazida aparece nominalmente na lista de fármacos a evitar. A recomendação é evitar sulfonilureia como monoterapia de primeira ou segunda linha, ou como associação, a menos que existam barreiras substanciais ao uso de agentes mais seguros e mais eficazes; se uma sulfonilureia for usada, a orientação é preferir as de ação curta. Por essa leitura, trocar de sulfonilureia é mudar de lugar dentro do mesmo critério.
By the 2023 AGS Beers Criteria Update Expert Panel. J Am Geriatr Soc. 2023;71(7):2052-2081, Tabela 2 (sulfonilureias) e Tabela 10 (modificações desde 2019)
Decida pela pessoa e pelo que existe na farmácia dela. A pergunta anterior à escolha da sulfonilureia é qual alvo glicêmico se persegue nesta paciente: num clearance de 32 mL/min, aos 82 anos, com hipoglicemia que se apresenta como confusão e queda, a resposta costuma ser um alvo mais frouxo — e alvo mais frouxo às vezes dispensa a sulfonilureia inteira. Se ela for necessária e as barreiras de acesso a alternativas forem reais, a troca por gliclazida de liberação prolongada é ganho concreto e imediato: menos tomadas e menos risco que a glibenclamida. O que não se faz é apresentar a troca como se ela retirasse a paciente do critério. Escreva no prontuário que houve troca dentro de uma classe que a régua mais recente desaconselha por inteiro, e marque a data de reavaliar a necessidade da classe.
A régua nacional primeiro — consenso brasileiro, 2016
É o único instrumento construído sobre o mercado farmacêutico brasileiro: cada fármaco das listas estrangeiras teve a disponibilidade no Brasil verificada antes de entrar no questionário do painel, e a lista final foi ordenada por sistemas fisiológicos. O resultado é uma régua que menciona o que está de fato na sacola do paciente e não menciona dezenas de fármacos que aqui não existem. Uma régua que fala dos remédios errados é uma régua que não é usada.
Oliveira MG et al. Geriatr Gerontol Aging. 2016;10(4):168-181, seção de métodos e Quadros 1 e 2
As réguas atuais primeiro — critérios de Beers de 2023 e STOPP/START versão 3, de 2023
As duas são de 2023 e incorporam evidência posterior à que sustenta a régua nacional: a americana revisou a literatura publicada entre 2017 e 2022 e reorganizou cinco categorias, incluindo interações e ajuste por função renal; a europeia passou de 114 para 190 critérios em relação à versão de 2015. A régua nacional validou conteúdo dos critérios americanos de 2012 e da primeira versão do instrumento europeu, e não teve segunda edição. Onde as duas gerações discordam, a discordância costuma ser evidência nova, e não diferença de mercado.
By the 2023 AGS Beers Criteria Update Expert Panel. J Am Geriatr Soc. 2023;71(7):2052-2081; e O'Mahony D et al. Eur Geriatr Med. 2023;14(4):625-632, com correção em 14(4):633
Use as duas, em ordem, e diga qual você usou. Comece pela nacional porque ela é o filtro que fala dos fármacos que a paciente tem em casa, e passe depois pelas de 2023 para pegar o que a de 2016 não podia conter. Quando as duas concordarem, a decisão é fácil e a citação pode ser a nacional. Quando só a mais nova marcar o item, o peso é dela, e o prontuário precisa dizer isso, com a edição escrita — é a diferença entre uma conduta que o colega pode conferir e uma opinião. E quando só a nacional marcar, verifique se o motivo não é justamente de mercado: fármacos que aqui existem e lá não, como acontece com combinações e apresentações locais.
Corrigir a dose — critério nacional de 2016, que é sobre dose
O critério 16 do primeiro quadro do consenso brasileiro é explícito e é apenas sobre dose: digoxina acima de 0,125 mg por dia, com o racional de que a redução do clearance renal com o envelhecimento aumenta o risco de intoxicação digitálica e de que, na insuficiência cardíaca, doses mais altas elevam a toxicidade sem oferecer benefício adicional. O critério não manda suspender. E a correção é viável com o que o SUS tem: o elixir de 0,05 mg/mL permite prescrever exatamente 0,125 mg em 2,5 mL, sem partir comprimido.
Oliveira MG et al. Geriatr Gerontol Aging. 2016;10(4):168-181, Quadro 1, critério 16; e Rename 2024, Componente Básico
Rever a indicação, e não só a dose — critérios de 2023
A edição de 2023 mantém o mesmo teto de 0,125 mg por dia, mas coloca antes dele uma recomendação de outra natureza: evitar a digoxina como agente de primeira linha para controle de frequência na fibrilação atrial, porque existem alternativas mais seguras e mais eficazes, e evitá-la como primeira linha na insuficiência cardíaca. A mesma edição acrescentou, em 2023, uma advertência na direção contrária: cautela ao descontinuar digoxina em usuários de longa data com fração de ejeção reduzida, diante de evidência limitada de piores desfechos após a suspensão. Ou seja: para quem a usa como único controle de frequência, o problema é de indicação; para quem a usa há anos com fração reduzida, a suspensão tem risco próprio.
By the 2023 AGS Beers Criteria Update Expert Panel. J Am Geriatr Soc. 2023;71(7):2052-2081, Tabela 2 (digoxina) e Tabela 10
Separe as duas perguntas antes de agir, porque elas têm respostas diferentes. A dose acima do teto é corrigível hoje, sem consultar ninguém, e a correção é ganho puro num clearance de 32 mL/min. A indicação é uma decisão cardiológica que este capítulo não toma e que o capítulo Fibrilação atrial, em Cardiologia, discute — e ela muda conforme haja ou não fração de ejeção reduzida, porque é aí que a advertência de 2023 sobre a suspensão se aplica. A conduta prudente do interno é ajustar a dose imediatamente, registrar por escrito que a indicação precisa ser revista, e encaminhar essa revisão com a lista atual em anexo. Corrigir dose e rever indicação não competem entre si: o erro é fazer só o primeiro e considerar o assunto encerrado.
O raciocínio, em voz alta
Mesmo ambulatório, outra quarta-feira. Seu Anacleto Bagatini tem 79 anos, 68 quilos, 1,70 m, foi torneiro mecânico e mora com a esposa. Vem encaminhado da unidade básica com a frase 'avaliar hiperplasia prostática — jato fraco, esforço miccional', e traz um pedido de ultrassonografia de vias urinárias e um encaminhamento para urologia já preenchido. Na semana passada precisou ir ao pronto-socorro à noite porque não conseguia urinar; foi sondado, esvaziou 620 mL, e voltou para casa com a orientação de procurar o especialista. Ele também conta, quando perguntado, que a boca vive seca, que evacua a cada três dias com esforço e que caiu uma vez no mês passado ao levantar da cama. A lista tem oito itens: amitriptilina 25 mg à noite, há três anos, para dor nas pernas; maleato de dexclorfeniramina 2 mg duas vezes ao dia, há quatro anos, para rinite; enalapril 20 mg a cada doze horas; sinvastatina 20 mg à noite; hidroclorotiazida 25 mg pela manhã; ácido acetilsalicílico 100 mg; omeprazol 20 mg em jejum; e paracetamol quando dói. Creatinina 1,3 mg/dL.
o que eu penso antes de assinar o pedido de ultrassonografia
A hipótese que vem no encaminhamento é plausível e provavelmente é verdadeira em parte: um homem de 79 anos tem próstata aumentada até prova em contrário. Mas ela não explica o conjunto, e é o conjunto que me interessa. Jato fraco, boca seca, constipação com esforço e queda ao levantar não são quatro problemas de quatro aparelhos: são uma síndrome, e a síndrome tem nome. Retenção urinária aguda que aparece de repente, num homem que urinava, pede que eu procure o que mudou — e o que muda mais rápido numa lista de oito itens é a soma anticolinérgica.
as datas e a soma
Monto a lista com a coluna do desde quando. A amitriptilina entrou há três anos e a dexclorfeniramina há quatro, as duas antes das queixas atuais — o que à primeira vista as inocenta. Não inocenta. O que mudou não foi a lista: foi ele. Com creatinina de 1,3 mg/dL, 79 anos e 68 quilos, o clearance estimado pela fórmula de Cockcroft-Gault é de 44 mL/min, e a próstata que em 2022 ainda deixava passar hoje já tem menos margem. Uma carga anticolinérgica constante encontra, ano a ano, um sistema com menos folga. Os dois fármacos estão na tabela de forte ação anticolinérgica dos critérios de 2023 e nos critérios 9 e 2 do primeiro quadro do consenso brasileiro; e há um critério específico para esta cena, o de número 59 do segundo quadro, que trata de anticolinérgicos em homens pela capacidade de diminuir o fluxo urinário e causar retenção.
a armadilha do passo seguinte
Aqui mora o erro mais elegante deste caso, e ele é a cascata pronta para nascer. A conduta reflexa depois de uma retenção é iniciar um bloqueador alfa-1 e mandar ao especialista. O bloqueador alfa-1 tem indicação legítima em hiperplasia prostática — mas ele reduz pressão em pé, e este senhor já caiu uma vez ao levantar, usa enalapril de doze em doze horas e um diurético tiazídico. Se eu acrescento o alfa-bloqueador sem antes retirar o anticolinérgico, corro dois riscos ao mesmo tempo: trato um sintoma cuja causa continua sendo administrada e acrescento um fármaco que empurra a pressão postural para baixo num homem que já cai. A ordem importa mais que a escolha.
o que eu retiro, e nesta ordem
Retiro primeiro a dexclorfeniramina, que sai sem desmame, tem a menor indicação demonstrada — rinite que ninguém reavaliou em quatro anos — e é anti-histamínico de primeira geração, com tolerância conhecida ao efeito. Marco duas semanas. A amitriptilina fica para o segundo passo e vai sair por degraus, porque está há três anos e porque a dor nas pernas que a sustentava precisa de plano próprio antes de a droga sair. Não mexo em mais nada nesta consulta. E deixo escrito que, se a dor exigir mesmo um tricíclico, a amina secundária é a de menor carga anticolinérgica — a nortriptilina está no elenco básico do SUS em cápsulas de 10, 25 e 50 mg —, o que é decisão a tomar com o médico que o acompanha, e não aqui.
o que eu peço, o que eu não peço e o que eu escrevo
Peço creatinina de controle e um exame de urina, porque houve sondagem. Peço a medida do resíduo pós-miccional depois de retirado o anticolinérgico, e não antes: medir agora responde a pergunta errada, porque mede o efeito da droga. Não cancelo o encaminhamento à urologia — cancelar seria arrogância, e a hiperplasia pode muito bem existir —, mas escrevo nele o que o urologista precisa saber: que dois anticolinérgicos estavam em uso, que o primeiro foi suspenso nesta data, e que o resíduo será medido em quatro semanas. Ligo para a unidade e conto o que fiz. E registro no prontuário a frase inteira: retenção urinária em homem de 79 anos com clearance estimado de 44 mL/min e carga anticolinérgica de dois fármacos; hipótese testada por retirada, com reavaliação marcada.
o que eu procuro na segunda passagem pela lista
Antes de encerrar, releio a lista perguntando o que falta, e não o que sobra. Ele tem 79 anos, caiu uma vez e usa três fármacos que baixam pressão: há indicação de avaliar risco de fratura e de conferir se as vacinas estão em dia. Usa ácido acetilsalicílico — e é preciso saber se é prevenção secundária, com evento documentado, ou primária, que é a situação em que a edição de 2023 dos critérios passou a recomendar evitar. E usa omeprazol há um tempo que ninguém sabe dizer, o que reabre a pergunta do critério 32. Uma revisão que só subtrai está pela metade.
Faça você
Quarta-feira seguinte, mesma sala. Dona Venância Assumpção tem 84 anos, 47 quilos, 1,49 m, mora com uma neta e chega trazida por ela depois de dois episódios que a neta descreve assim: 'ela fica meio boba no meio da manhã, fala enrolado, e depois passa'. O primeiro episódio foi há três semanas, o segundo há quatro dias, ambos por volta das dez da manhã, e nos dois ela melhorou depois de tomar café com leite e pão. Não houve déficit focal e ela não caiu. Toma nove medicamentos: glibenclamida 5 mg antes do almoço e do jantar, há sete anos; metformina 850 mg duas vezes ao dia; losartana 50 mg a cada doze horas; sinvastatina 20 mg à noite; hidroclorotiazida 25 mg pela manhã; ácido acetilsalicílico 100 mg; omeprazol 20 mg, iniciado numa internação em 2021; dipirona quando dói; e um comprimido que a neta chama de 'o do sono', comprado na farmácia, que a caixa identifica como maleato de dexclorfeniramina 2 mg. Creatinina de 0,9 mg/dL. A neta pergunta se não é um princípio de derrame.
o que o horário dos episódios já decide
Episódios matinais com melhora após alimento sugerem hipoglicemia, sobretudo com glibenclamida, mas não confirmam a causa nem excluem evento vascular. Medir glicemia durante sintomas quando possível, avaliar agora exposição, alimentação e função renal, e orientar urgência se os sintomas voltarem. Déficit focal ou alteração persistente exige avaliação de AVC em paralelo à correção da glicose.
a conta que muda a leitura da lista
Creatinina de 0,9 mg/dL numa mulher de 84 anos com 47 quilos corresponde, pela fórmula de Cockcroft-Gault, a um clearance estimado de 34 mL/min. O número da folha de exames parece bom; a função renal não é. Isso muda o peso de vários itens da lista, e muda especialmente o de uma sulfonilureia.
o que a régua nacional diz, e o que a de 2023 acrescenta
A glibenclamida tem critério próprio no consenso brasileiro, o de número 26 do primeiro quadro, por maior risco de hipoglicemia prolongada grave em idosos, e foi o medicamento potencialmente inapropriado mais encontrado no estudo brasileiro citado neste capítulo. A dexclorfeniramina é anti-histamínico de primeira geração e cai no critério 2 do mesmo quadro. E há o item de que ninguém fala: o omeprazol iniciado numa internação de 2021, sem indicação atual escrita, que é a situação do critério 32.
Ver como fecharíamos
A glibenclamida deve ser suspensa diante da suspeita de hipoglicemia e a paciente avaliada no mesmo dia, com glicemia, história das doses/refeições, exame neurológico e revisão dos exames renais. Explicar como reconhecer e tratar hipoglicemia conforme capacidade de deglutição e quando procurar urgência; recorrência por sulfonilureia pode ser prolongada e exigir observação. A melhora com alimento apoia a hipótese, mas não permite afirmar “não é derrame”: déficit focal, alteração persistente ou recorrente pede atendimento urgente, e a glicemia deve ser conferida sem atrasar a avaliação neurológica. A estimativa por Cockcroft-Gault é cerca de 34,5 mL/min; não equivale automaticamente à TFG indexada usada em todos os protocolos, portanto revisar cada dose pela métrica apropriada, inclusive a metformina. Não substituir de imediato por gliclazida 60 mg. Primeiro definir alvo de controle, glicemias após retirada e necessidade de outra droga; considerar opção com menor risco de hipoglicemia segundo comorbidades e acesso. A dexclorfeniramina também merece retirada ou plano de suspensão precoce com abordagem do sono: não precisa permanecer por uma regra rígida de um item por consulta. Rever a indicação do omeprazol e planejar redução/retirada quando apropriado. Entregar lista atualizada, sinais de alarme e contato de reavaliação em curto prazo; comunicar o plano ao médico que acompanha a paciente. À neta: “O medicamento do diabetes pode estar provocando quedas de açúcar. Vamos retirá-lo e acompanhar, mas, se a fala mudar novamente ou surgir fraqueza, ela precisa de atendimento imediato.”
A pergunta genérica devolve a lista oficial, e é isso que faz o item mais perigoso ficar de fora. O medicamento comprado no balcão concentra-se justamente nas classes que mais machucam o idoso: anti-inflamatório para dor, anti-histamínico usado como hipnótico, laxante e antiácido. Perguntar pela coisa, e não pela categoria, é o que abre a resposta — e pedir as caixas resolve o resto, porque a caixa traz o nome exato e a concentração, que a memória não traz. Nem o histórico da farmácia nem o prontuário registram o que foi comprado sem receita, de modo que tomá-los como lista definitiva é reproduzir a mesma falha. E orientar a suspensão antes de saber o que é fecha a porta: a paciente que ouve que está fazendo algo errado deixa de contar o que faz, e o item continua sendo tomado sem que ninguém saiba. Neste caso o comprimidinho era um anti-histamínico de primeira geração, que está nominalmente no critério 2 do primeiro quadro do consenso brasileiro e na tabela de fármacos com forte ação anticolinérgica dos critérios de 2023.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Faça uma reconciliação com as caixas e identifique indicação, benefício, dose, interação e possível dano de cada item. Diga quais decisões são urgentes e quais podem ser escalonadas.
Em 30 dias
Uma pessoa idosa apresenta lentidão, quedas e episódios de confusão ao usar vários fármacos. Construa hipóteses, verifique glicose, ritmo e eletrólitos quando indicado, proponha mudanças e escreva um plano que paciente, cuidador e equipe consigam seguir.
Agora atenda
Agora atenda: ambulatório de geriatria, primeira consulta. Mulher de 80 anos, 49 quilos, trazida pela filha por 'estar devagar' e por duas quedas em três meses, com encaminhamento da unidade básica dizendo que as medicações já estão ajustadas. Ela traz uma sacola com caixas e a filha traz uma lista escrita à mão. Levante a lista com as quatro colunas, incluindo desde quando e quem prescreveu; pergunte o que ela toma sem receita; estime e diga o clearance de creatinina; monte a linha do tempo e nomeie a cascata se ela existir; decida qual item sai primeiro e por que esse e não outro; escreva a retirada com os seis campos; e diga, em voz alta, como avisaria o médico que a acompanha há doze anos.
