Clínica Médica › Geriatria
O tapete não explica
Síndromes geriátricas: quedas e imobilidade
Queda e imobilidade na pessoa idosa fora do hospital: por que ela caiu, quem precisa de avaliação multifatorial, o que se mede na sala de casa e como se quebra o ciclo queda, medo, imobilidade e nova queda
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Departamento de Gestão do Cuidado Integral. Caderneta da Pessoa Idosa. 6. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2025.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde. Departamento de Atenção Especializada e Temática. Guia de atenção à reabilitação da pessoa idosa. Brasília: Ministério da Saúde, 2021. 144 p. ISBN 978-65-5993-112-5.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Envelhecimento e saúde da pessoa idosa. Brasília: Ministério da Saúde, 2006. 192 p. (Cadernos de Atenção Básica, n. 19; Série A. Normas e Manuais Técnicos). ISBN 85-334-1273-8.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. ISBN 978-65-5993-710-3.
Montero-Odasso M, van der Velde N, Martin FC, Petrovic M, Tan MP, Ryg J, et al. World guidelines for falls prevention and management for older adults: a global initiative. Age Ageing. 2022;51(9):afac205. DOI 10.1093/ageing/afac205.
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Responda antes de ler
Mulher de 77 anos caiu uma única vez no último ano, ao levantar de madrugada. Não se machucou e não perdeu a consciência, mas não conseguiu levantar sozinha e ficou cerca de 80 minutos no chão até a vizinha chegar. Hoje percorre quatro metros em 4,4 segundos. Qual afirmação sobre a estratificação de risco está correta?
O paciente que você vai ver
Quinta-feira, oito e dez da manhã, reunião de equipe numa unidade de saúde da família que cobre quatro mil e poucas pessoas num bairro de casas térreas. A agente comunitária lê a lista de visitas da semana e para num nome: Dona Teófila Ibiapina, 81 anos, caiu de novo. É a terceira vez desde março. O filho, Rogério, avisou por mensagem na terça e já mandou o diagnóstico junto: foi o tapete do corredor. Ele tirou o tapete e, para ela não cair mais, instalou a mãe na poltrona do quarto. Faz três semanas que ela sai dali só para o banheiro, com ele segurando pelo braço.
A preceptora ouve, anota e divide a manhã. A enfermeira vai à casa às dez, e você vai junto. Antes de sair, ela te entrega três coisas que cabem na mochila — o esfigmomanômetro, uma fita métrica e uma trena de pedreiro — e faz uma única recomendação: não volte dizendo onde ela caiu; volte dizendo por quê.
A casa tem um corredor comprido e sem janela entre o quarto e o banheiro. A lâmpada do corredor só acende no interruptor da sala, do outro lado. No quarto, a cama é baixa, a poltrona é funda e sem braços firmes, e ao lado dela há um chinelo de dedo gasto. No lugar do tapete, uma faixa mais clara no piso de cerâmica. Dona Teófila está sentada, de camisola, com os óculos bifocais pendurados no pescoço, e a primeira coisa que diz é que não precisava de médico, que foi bobeira dela.
A história sai em pedaços. A queda de março foi no degrau da cozinha, de dia, carregando uma panela. A de junho foi ao levantar da poltrona para atender o portão: as pernas pesaram e ela sentou no chão. A de três semanas atrás foi às três da manhã. A vontade de urinar veio de repente, como vem quase toda noite, ela levantou rápido, deu uns passos no escuro, sentiu a vista escurecer no meio do corredor e, quando deu por si, estava no chão. Não sabe dizer se apagou. Tentou levantar e não conseguiu. Ficou ali, com frio, até Rogério acordar para trabalhar — ele calcula que foi uma hora e meia. Ficou um roxo grande no quadril direito e o punho doeu por uma semana. Ninguém a levou a lugar nenhum.
A sacola de remédios vem da cozinha. Losartana 50 mg, um comprimido de manhã e outro à noite. Hidroclorotiazida 25 mg pela manhã, que entrou há nove meses porque a pressão da unidade estava alta. Amitriptilina 25 mg à noite, receitada há cinco anos por causa de uma dor nas pernas e mantida porque ajudava a dormir. Clonazepam em gotas, na hora de deitar, há doze anos — o remédio do sono, que ela chama pelo nome da cor do frasco. Omeprazol em jejum. Ela conta ainda que o oftalmologista falou em catarata há dois anos e mandou esperar, que o joelho direito dói na escada e que as roupas estão folgadas.
O resto você ouve sem perguntar. Ela parou de ir à missa depois de junho e à feira depois da última queda. Dentro de casa, anda de móvel em móvel, com a mão sempre apoiada em alguma coisa. Tem medo. Diz que prefere ficar quieta a dar trabalho, e Rogério confirma do batente da porta: a mãe está melhor assim, sentada, onde não tem perigo. Pergunta se não seria o caso de ela ficar de repouso até se firmar.
A resposta tentadora está pronta: repouso por uns dias, tapete fora e retorno se cair de novo. Ela parece prudente, é barata e agrada a todos na sala. E erra nas três partes: o repouso piora o que derruba, o tapete era o menor dos problemas e esperar a próxima queda é deixar as causas trabalharem. Uma mulher de 81 anos que cai três vezes em seis meses não sofreu três acidentes: tem uma síndrome, e as causas mais prováveis dela estão todas nesta sala — na sacola, na pressão que ninguém mediu em pé, nas pernas que não a tiram da poltrona sem ajuda das mãos, nos óculos, na urgência de urinar, no corredor escuro. E a solução do filho, a poltrona, já virou a próxima causa.
A Caderneta da Pessoa Idosa dela está numa gaveta da cômoda, com a página do Índice de Vulnerabilidade Clínico-Funcional em branco e o espaço da pressão deitada, sentada e em pé nunca preenchido. Você tem na mochila tudo o que é preciso para preenchê-los hoje: um aparelho de pressão, um cronômetro no celular, uma fita métrica para a panturrilha, uma trena para marcar quatro metros no chão da sala e uma cadeira de cozinha sem braços.
Este capítulo acompanha Dona Teófila da poltrona até um ano depois, e é dono do que acontece com a pessoa idosa que cai fora do hospital e da que deixa de se mover: a queda entendida como síndrome, a estratificação de risco na atenção primária, a avaliação multifatorial, o medo de cair, o ciclo que liga queda, imobilidade e nova queda, a síndrome da imobilidade no domicílio, a sarcopenia como parte desse ciclo e a prevenção. Ele cede, com endereço, o que tem dono: a queda dentro da enfermaria é de Queda do paciente internado: conduta e prevenção e o imobilismo do internado é de Constipação, imobilismo e suas consequências, ambos na apostila de Síndromes do Paciente Internado; o estadiamento e o curativo da lesão por pressão são de Lesão por pressão: estadiamento, prevenção e curativo, na mesma apostila; a fratura de quadril é de Fratura de quadril no idoso: colo do fêmur e transtrocantérica, na apostila de Ortopedia; a osteoporose é de Osteoporose pós-menopausa: rastreamento e prevenção, na apostila de Ginecologia; o hematoma subdural crônico é de Hematomas intracranianos: epidural, subdural agudo e subdural crônico, na apostila de Neurocirurgia; a queda com perda de consciência é investigada em Síncope: estratificação de risco e quem interna, na apostila de Síndromes do Paciente na Emergência; e a técnica de retirar um medicamento é de Polifarmácia e prescrição segura no idoso (critérios de Beers), nesta apostila. Do capítulo de polifarmácia, que declarou ceder a investigação da queda em si, a prevenção ambiental e o que fazer depois da queda, e de Transição demográfica e epidemiológica no Brasil, na apostila de Medicina Preventiva e Saúde Coletiva, que deixou para a Geriatria o que fazer depois da queda e como prevenir a próxima, este capítulo recebe esses assuntos e os assume. Com Avaliação geriátrica ampla e fragilidade, nesta apostila, a divisão é esta: este capítulo usa a fragilidade conhecida como marcador de alto risco, os itens do índice de vulnerabilidade que medem marcha, músculo e quedas, e o exercício e a proteína no ciclo da queda; aquele fica com a pontuação total do índice, o que cada faixa manda fazer e o estadiamento da fragilidade. Com Incontinência urinária e úlceras por pressão no idoso, nesta apostila, a divisão é esta: este capítulo fica com a urgência noturna como causa de queda — luz, cadeira higiênica, porta sem tranca —, e aquele, com o tratamento da incontinência.
Quem adoece disso
Quantas pessoas idosas caem por ano depende de quem conta, mas as três contas federais que o aluno vai encontrar ficam na mesma ordem de grandeza. O Caderno de Atenção Básica nº 19, de 2006, fala em cerca de 30% ao ano, 40% acima dos 80 anos e 50% entre quem mora em instituição de longa permanência. O Guia de atenção à reabilitação da pessoa idosa, de 2021, cita um estudo brasileiro com 25,1% de pessoas idosas com pelo menos uma queda no ano, subindo para 36,3% entre as mulheres com 75 anos ou mais, e uma faixa de 32,5% a 60% nas instituições. A Caderneta da Pessoa Idosa de 2025 usa a estimativa da Organização Mundial da Saúde: cerca de 28% caem ao menos uma vez por ano. Leia os três como uma frase só: entre uma em cada quatro e uma em cada três pessoas idosas caiu no último ano, e o grupo de Dona Teófila — mulher, acima dos 75 — está no alto dessa faixa.
O sexo e a idade pesam, mas não do jeito que se costuma repetir. O Caderno de 2006 registra que as mulheres caem mais que os homens até os 75 anos e que, a partir daí, as frequências se igualam. Idade acima de 80 anos, sexo feminino, imobilidade, quedas anteriores, equilíbrio diminuído, marcha lenta de passos curtos, fraqueza de membros, alteração cognitiva, doença de Parkinson, polifarmácia e uso de sedativos, hipnóticos e ansiolíticos formam a lista de fatores intrínsecos do mesmo documento. Dona Teófila acumula ao menos seis deles, e nenhum é o tapete.
A queda anterior é o dado que mais pesa na previsão da próxima, e isso tem uma consequência prática que a World Falls Guidelines, de 2022, põe em números. A pergunta única — a senhora caiu nos últimos doze meses? — é muito específica para prever nova queda, mas deixa passar muita gente: a sensibilidade dela vai de 43% entre 65 e 74 anos a 67% acima dos 85. Por isso a diretriz aceita um trio de perguntas — se houve queda no último ano, se há instabilidade de pé ou andando e se há preocupação em cair —, que alcança mais gente, e explica por que a janela é de um ano: a lembrança da data de uma queda é pouco confiável, e doze meses são o meio-termo entre memória e evolução dos fatores de risco.
A queda da pessoa idosa que vive em casa acontece, na maior parte das vezes, em casa, e durante o que ela faz todo dia: andar, mudar de posição, ir ao banheiro. O Guia de 2021 atribui às causas extrínsecas até metade das quedas e aponta a própria moradia como o lugar onde elas mais acontecem. O Caderno de 2006 acrescenta que cerca de 10% ocorrem em escada, e que descer é mais arriscado que subir. Nenhum desses números autoriza a conclusão do filho de Dona Teófila. Um corredor escuro derruba quem já não tem margem para ele; a mesma cerâmica atravessada por uma mulher de sessenta anos com pernas fortes e sem remédio para dormir não derrubaria ninguém.
A gravidade é desigual, e a queda que não machuca é justamente a que deixa de ser contada. O Caderno de 2006 dá o outro extremo com um número que vale guardar: dos que caem, cerca de 2,5% precisam de hospitalização, e desses apenas metade estará viva um ano depois. O mesmo documento lista as complicações — lesão de partes moles, restrição prolongada ao leito, hospitalização, institucionalização, doenças iatrogênicas, fratura, hematoma subdural, incapacidade e morte — e lembra que o impacto direto sobre quadril e punho é o que mais fratura, enquanto uma superfície intermediária ou a mão que segura em algo reduz a energia da queda.
Há uma consequência que não aparece em estatística de internação e que decide o que vem depois. O Guia de 2021 descreve o medo de cair, também chamado ptofobia, como consequência negativa e frequente das quedas: quem cai passa a sair menos de casa e a se mover menos dentro dela, e essa imobilidade piora a instabilidade, isola e alimenta o sentimento de inutilidade. O ciclo se completa quando a família, depois da segunda queda, restringe ainda mais. Dona Teófila está no meio dele: parou a missa, parou a feira, anda de móvel em móvel e agora tem uma poltrona como perímetro.
O custo da imobilidade é medido em semanas. Segundo o Guia de 2021, cada semana no leito leva cerca de 5% da massa muscular. A imobilidade aparece também na lista de fatores intrínsecos de queda do Caderno de 2006, o que fecha o círculo pelo outro lado: ficar parado para não cair aumenta a chance de cair na primeira vez que for preciso levantar depressa. A Caderneta de 2025 trata o acamado e o domiciliado como sentinelas de vulnerabilidade, a serem registradas ano a ano — são as duas palavras que descrevem o que a poltrona pode fazer com Dona Teófila em um mês.
A perda muscular do envelhecimento tem nome, sarcopenia, e tem prevalência que cresce com a idade. O Guia de 2021, citando o consenso europeu de 2010, fala em 6% a 12% acima dos 60 anos e em 50% acima dos 85. A Diretriz BRASPEN de terapia nutricional no envelhecimento, de 2019, liga a sarcopenia a quedas, fraturas, incapacidade física e mortalidade e adota a revisão mais recente do consenso europeu, a EWGSOP2, que pôs a força, e não a massa, no centro do diagnóstico. A diferença entre as duas referências é de régua, e volta no bloco de critérios.
O último dado epidemiológico é o que explica a cena. O Guia de 2021 chama a queda de evento sentinela e diz com todas as letras que ela é negligenciada pela pessoa idosa, pela família e pelos próprios profissionais de saúde, porque é tida como parte natural do envelhecimento. Por isso a queda precisa ser perguntada, e não esperada: Dona Teófila chamou a dela de bobeira, o filho a atribuiu ao tapete, e a unidade só soube porque uma agente comunitária leu uma mensagem em voz alta. Numa lista qualquer de visitas domiciliares, uma em cada quatro pessoas idosas caiu no último ano, e a queda que ninguém perguntou dificilmente chega ao prontuário.
Por que acontece o que acontece
Toda queda é o encontro de uma exigência com uma capacidade. A exigência é o degrau, o escuro, a pressa para chegar ao banheiro, a mudança de posição; a capacidade é a reserva dos sistemas que mantêm um corpo em pé enquanto ele se move. O Caderno de Atenção Básica nº 19 descreve esse encontro sem usar a palavra limiar: quanto mais frágil a pessoa, mais suscetível, e manobras posturais e obstáculos que não são problema para uma pessoa idosa saudável viram ameaça séria para quem tem alteração de equilíbrio e marcha. A pergunta por que ela caiu, portanto, se traduz em outra, mais útil: qual capacidade ficou abaixo da exigência, e por quê. Retirar o tapete diminui a exigência num ponto da casa. Não devolve capacidade nenhuma.
Ficar em pé andando é uma tarefa de três andares. No primeiro, a informação: visão, labirinto e a sensibilidade que vem da sola dos pés e das articulações. No segundo, a integração, que junta essas informações, escolhe a estratégia de correção e depende de atenção — por isso quem conversa enquanto anda, ou anda preocupado, cai mais. No terceiro, a resposta: força e velocidade dos músculos do quadril e do tornozelo, que precisam agir em frações de segundo quando o pé tropeça. Tudo isso roda sobre uma condição prévia, que é o cérebro perfundido na posição ereta. O envelhecimento tira um pouco de cada andar — a marcha senescente, descrita no Caderno de 2006 e no Guia de reabilitação de 2021, tem passos mais curtos e lentos, base alargada, braços mais próximos do corpo e centro de gravidade adiantado. A doença e os medicamentos tiram muito mais, e costumam tirar de vários andares ao mesmo tempo.
O relato da queda aponta o andar comprometido, e o Caderno de 2006 organiza essa leitura num quadro que vale memorizar pela lógica, e não pela lista. Pernas que falsearam sugerem problema musculoesquelético, como fraqueza e instabilidade articular. Perda de equilíbrio para trás sugere processamento central e sistema vestibular. Perda para o lado sugere falha na escolha da estratégia motora e fraqueza dos estabilizadores do quadril. Perceber que vai cair e não conseguir corrigir a tempo sugere doença de Parkinson ou sequela de AVC. Perder o equilíbrio na transferência — ao levantar, ao sentar, ao virar na cama — sugere hipotensão postural. Perder durante a marcha sugere falha dos mecanismos antecipatórios, e aí entram demência, incontinência, diabetes, osteoartrite e medicação. As três quedas de Dona Teófila apontam para linhas diferentes desse quadro: a de março, durante a marcha e carregando peso; a de junho, na transferência, com as pernas que pesaram; a das três da manhã, nos primeiros passos depois de levantar da cama, com a vista escura — o desenho da hipotensão postural.
A queda das três da manhã tem mecanismo próprio. Ao ficar de pé, cerca de meio litro de sangue desce para as pernas e o retorno venoso cai; o reflexo barorreceptor responde em segundos com vasoconstrição e aumento da frequência cardíaca, e a pressão se mantém. Na pessoa idosa esse reflexo é mais lento e mais fraco, as artérias são mais rígidas e o enchimento do coração depende mais do volume. Some a isso o que Dona Teófila toma: um tiazídico que reduz o volume, um antidepressivo tricíclico que bloqueia receptores alfa e freia a vasoconstrição, horas deitada antes de levantar e uma bexiga que exige pressa. A vista que escurece no meio do corredor é o cérebro com perfusão insuficiente. Se ela chegou a perder a consciência, a queda passa a ser uma síncope até prova em contrário — e a investigação da síncope tem capítulo próprio.
Os medicamentos derrubam por mais de um caminho. O benzodiazepínico reduz a vigilância e alonga o tempo de reação, e o de meia-vida longa tomado à noite ainda age de madrugada, justamente na hora da ida ao banheiro. O tricíclico soma sedação, efeito anticolinérgico e queda de pressão ao levantar. O diurético mexe no volume e no sódio. A Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial de 2025 registra ainda um detalhe de tempo que muda a vigilância: o risco de queda pode subir nas primeiras semanas depois de iniciar um diurético e já no primeiro dia com as demais classes de anti-hipertensivo. A World Falls Guidelines chama esse grupo de medicamentos que aumentam o risco de queda e manda revisá-los de forma estruturada. Quais critérios usar para decidir o que sai, e em que ordem, é assunto do capítulo de polifarmácia desta apostila; aqui interessa o efeito somado sobre o equilíbrio.
O músculo é o andar que mais se perde em silêncio. A sarcopenia do envelhecimento, descrita no Guia de 2021, vem principalmente da perda e da atrofia das fibras do tipo II, as de contração rápida, e é mais intensa nos membros inferiores. São essas fibras que produzem o passo de resgate depois de um tropeço e que tiram o corpo da poltrona sem ajuda das mãos. Quando elas faltam, a queda de junho acontece: as pernas pesaram. A diretriz brasileira de nutrição no envelhecimento acrescenta a resistência anabólica do envelhecimento, que faz o músculo idoso responder menos ao mesmo estímulo de proteína e de exercício, e a perda de apetite que acompanha a idade. Roupa folgada, panturrilha fina e dificuldade para levantar sem apoio são a mesma informação vista de três lados.
O medo fecha o ciclo. Quem cai passa a vigiar cada passo, anda devagar e rígido, segura nos móveis e deixa de fazer o que exigia equilíbrio — a missa, a feira, o ônibus. Sem desafio, o equilíbrio perde treino; sem uso, o músculo perde massa; com menos massa e menos treino, a velocidade de marcha cai e a próxima queda fica mais provável. A família, depois da segunda queda, restringe mais, e a restrição instala a síndrome da imobilidade, que o Guia de 2021 define como um conjunto de sinais e sintomas decorrente da perda de movimentos articulares e da instabilidade postural. Ela atinge o organismo inteiro: atrofia, contratura e perda óssea; perda de força respiratória e estase de secreção; hipotensão ortostática, trombose venosa e embolia; estase urinária e incontinência; constipação e fecaloma; lesão por pressão. Um detalhe desse inventário explica por que a poltrona é perigosa: depois de semanas sentado ou deitado, o próprio reflexo postural se desadapta, e o Guia manda vigiar a hipotensão postural justamente no primeiro treino de marcha de quem ficou muito tempo acamado.
O tempo no chão é o último mecanismo, e o mais subestimado. Quem cai e não consegue levantar fica exposto a compressão muscular prolongada, com risco de rabdomiólise, e a frio, desidratação, lesão de pele e aspiração, e sai da experiência com o medo mais forte que uma queda pode deixar. Por isso a incapacidade de levantar é marcador de gravidade nas duas réguas que o aluno vai encontrar, com uma diferença de relógio: a World Falls Guidelines de 2022 classifica como queda grave e de alto risco ficar ao menos uma hora no chão sem conseguir levantar, e o Guia de 2021 chama de sinal de pior prognóstico ficar mais de duas horas. A hora e meia de Dona Teófila está exatamente entre as duas, e o bloco de critérios diz qual régua esta apostila usa e por quê.

Como se apresenta de verdade
A queda raramente chega à unidade como queixa principal. Chega como bobeira, como roxo que aparece no exame, como mensagem do filho, como pergunta que ninguém fez. E, quando chega, chega com uma de seis caras, que pedem decisões diferentes no mesmo dia: a queda escondida, a que machucou, a que não foi tropeço, a que anuncia outra doença, a que deixou medo e a que já virou imobilidade. Dona Teófila tem quatro delas ao mesmo tempo.
Percurso de aprendizagem
Reconstrua cada queda, inclusive perda de consciência e tempo no chão, antes de medir marcha, força, visão, pressão e ambiente.
Acompanhe reabilitação, revisão da prescrição e saúde óssea; use função, quase quedas e atividades retomadas para avaliar resposta.
A queda que chega como bobeira
A primeira apresentação é a ausência de apresentação. A pessoa idosa não conta porque acha que cair é da idade, porque tem vergonha, porque teme perder a autonomia ou ser levada para a casa de um filho. A família não conta porque resolveu do seu jeito. O Guia de atenção à reabilitação da pessoa idosa, de 2021, é categórico: a investigação de quedas deve ser rotina na avaliação da pessoa idosa, e é preciso perguntar e avaliar a mobilidade de todas, especialmente das que já caíram. O mesmo Guia pede que, a partir dos 75 anos, se pergunte sobre dificuldade de equilíbrio e marcha e se observe a pessoa levantar da cadeira e sentar de novo.
A Caderneta da Pessoa Idosa de 2025 põe essa pergunta nas mãos da própria pessoa, num check-up de doze afirmações adaptado de um instrumento do centro de controle de doenças norte-americano: sofri quedas no ano passado; fui aconselhado a usar bengala ou andador; às vezes me sinto instável ao andar; seguro nos móveis quando ando pela casa; estou preocupado com as quedas; preciso apoiar as mãos para me levantar da cadeira; tenho dificuldade para subir no meio-fio; muitas vezes tenho que sair depressa para o banheiro; perdi um pouco de sensibilidade nos pés; tomo remédios que às vezes me deixam tonto ou cansado; tomo remédios para dormir ou para melhorar o humor; muitas vezes me sinto triste ou deprimido. A instrução da Caderneta é procurar a equipe se houver sim em qualquer item. Dona Teófila marcaria sim em nove.
A World Falls Guidelines, de 2022, oferece a versão curta para a consulta de quem não trouxe a Caderneta: três perguntas — caiu no último ano, sente-se instável em pé ou andando, tem preocupação com quedas. Qualquer resposta positiva abre a estratificação descrita no bloco de critérios. A pergunta se faz com verbo concreto, e não com o substantivo: a senhora foi parar no chão alguma vez neste ano, mesmo sem se machucar? Pela definição que a World Falls Guidelines e o Guia de 2021 usam, escorregar da cadeira e terminar sentado no chão também é queda, e a pessoa nem sempre chama isso de queda.
A queda que machucou
A segunda cara é a lesão, e a decisão dela é de lugar: o que pode ser visto na unidade e o que precisa de pronto-socorro hoje. Hematoma e escoriação ficam. Dor no punho depois de cair com a mão estendida, com deformidade, edema ou dor à palpação do rádio distal ou da tabaqueira anatômica, vai para radiografia e é conduzida em Fraturas do membro superior (supracondiliana, Colles, escafoide), na apostila de Ortopedia. Dor na virilha ou na coxa com incapacidade de apoiar o peso, membro encurtado e rodado para fora, é fratura de quadril até prova em contrário e segue para Fratura de quadril no idoso: colo do fêmur e transtrocantérica, na mesma apostila — o capítulo cujo título lembra que o relógio começa na queda.
Batida de cabeça em quem usa anticoagulante ou antiagregante, ou qualquer batida seguida de vômito, confusão, sonolência ou déficit, vai ao pronto-socorro no mesmo dia, e a decisão sobre tomografia é de Trauma cranioencefálico (Glasgow, hipertensão intracraniana), na apostila de Trauma. E há a lesão que aparece semanas depois: cefaleia nova, lentificação, piora da marcha ou confusão flutuante numa pessoa idosa que caiu há um mês e nem lembra mais. Esse quadro é o hematoma subdural crônico, conduzido em Hematomas intracranianos: epidural, subdural agudo e subdural crônico, na apostila de Neurocirurgia. A pergunta sobre queda recente precisa ser feita também a quem chega com esses sintomas sem falar em queda.
Dona Teófila teve hematoma de quadril e dor no punho por uma semana. Na visita, três semanas depois, ela apoia o peso nas duas pernas, não tem dor à rotação do quadril e o punho tem mobilidade completa, sem dor à palpação. Não usa anticoagulante e não bateu a cabeça. A lesão, nela, não decide o lugar — decide a pergunta seguinte: se ela não conseguiu levantar sozinha e ficou uma hora e meia no chão, essa queda foi grave, mesmo sem fratura.
A queda que não foi tropeço
A terceira cara é a queda sem explicação mecânica, e ela é a mais perigosa de ser chamada de acidente. Perda de consciência, não lembrar de ter caído, acordar no chão, palpitação ou dor no peito antes, queda durante esforço, queda sentada ou deitada, mordedura de língua, perda de urina — qualquer um desses dados transforma a pergunta. A World Falls Guidelines recomenda que a queda inexplicada recorrente seja investigada como síncope, além da avaliação multifatorial, e inclui na avaliação cardiovascular inicial de quem cai a história cardíaca, a ausculta, a pressão deitado e em pé e o eletrocardiograma. A estratificação da síncope e a decisão de internar pertencem a Síncope: estratificação de risco e quem interna, na apostila de Síndromes do Paciente na Emergência.
A queda de três semanas atrás de Dona Teófila tem um dado que não pode ficar sem resposta: a vista escureceu e ela não sabe se apagou. O pródromo visual ao levantar à noite, depois de horas deitada, sob diurético e tricíclico, fala a favor de hipotensão ortostática; a dúvida sobre perda de consciência obriga a pedir o eletrocardiograma e a medir a pressão deitada e em pé com rigor. Se a medida explicar a queda, a investigação para ali. Se não explicar — pressão ortostática normal, eletrocardiograma alterado, queda sem pródromo —, a paciente sai do caminho da queda e entra no da síncope.
Duas causas de queda sem tropeço merecem pergunta direta porque mudam o dia. A hipoglicemia, em quem usa insulina ou sulfonilureia, e a crise convulsiva não presenciada, que deixa confusão depois. As duas se escondem atrás de uma queda noturna em pessoa idosa que mora sozinha.
A queda que anuncia outra doença
A quarta cara é a queda como sintoma de doença aguda. Na pessoa idosa, pneumonia, infecção urinária, desidratação, sangramento digestivo, distúrbio de sódio ou um AVC com déficit discreto podem se apresentar primeiro como uma queda, sem febre ou dor que chamem atenção. A regra de bolso é comparar com o próprio basal: a pessoa que caiu e está diferente de como era — mais confusa, mais sonolenta, prostrada, sem comer, com dispneia, com a fala ou a força mudadas — não é caso de estratificação de risco de queda, e sim de avaliação clínica no mesmo dia, quase sempre fora da unidade.
Quando a mudança é de atenção e consciência, de instalação aguda e flutuante, o nome é delirium, e ele pede a busca da causa antes de qualquer outra coisa. O reconhecimento e o manejo do delirium estão em Delirium no idoso internado: reconhecer, prevenir e manejar, na apostila de Síndromes do Paciente Internado. Um remédio novo nos últimos dias também entra nessa lista: a Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial de 2025 lembra que o risco de queda pode subir já no primeiro dia de um anti-hipertensivo e nas primeiras semanas de um diurético.
Dona Teófila está como sempre foi, segundo o filho: lúcida, conversando, comendo pouco, sem febre. A queda dela não anuncia doença aguda — e essa constatação precisa ser escrita no prontuário, porque é ela que autoriza conduzir o caso em casa.
O medo que encolhe a vida
A quinta cara não se vê no corpo. É o medo de cair, que o Guia de 2021 descreve como consequência frequente das quedas e como motor da restrição de atividade. Ele aparece em frases — prefiro ficar quieta, não quero dar trabalho, depois dessa eu não vou mais —, em comportamentos — andar segurando nos móveis, recusar sair de casa, pedir para alguém acompanhar até o banheiro — e na marcha, que fica lenta, rígida e de passos curtos, mais cautelosa do que a força permitiria.
A Caderneta pergunta pela preocupação com quedas, e o registro de quedas que o Guia de 2021 reproduz da própria Caderneta pergunta se a pessoa parou de realizar alguma atividade por medo de cair novamente. A World Falls Guidelines recomenda avaliar a preocupação com quedas como parte da avaliação multifatorial e medi-la com a escala internacional de eficácia em quedas, a FES-I, ou com a versão curta. O medo não precisa de queda anterior para existir, e não é sempre patológico: prudência que troca o chinelo pelo sapato fechado ajuda. O que decide é se ele está tirando da pessoa atividades que ela ainda consegue fazer com segurança.
Em Dona Teófila, o medo já tirou a missa e a feira e está tirando o corredor. É o dado que mais pesa para o futuro dela, porque é o único que, sozinho, empurra para a imobilidade.
A imobilidade que se instala em casa
A sexta cara é a pessoa que parou. O Guia de 2021 descreve as duas formas de instalação da síndrome da imobilidade: súbita, depois de queda com fratura de fêmur, AVC ou cirurgia, e progressiva, por fraqueza, rigidez de parkinsonismo, desequilíbrio, dor, medo de cair, depressão e até sem motivo aparente. Entre os fatores extrínsecos, o mesmo documento lista problemas familiares — inclusive negligência —, ambiente, hospitalização prolongada e institucionalização. Na atenção primária, a forma mais comum é a mais silenciosa: alguém decidiu, por cuidado, que a pessoa idosa ficaria sentada ou deitada até melhorar.
Os sinais se somam em semanas. A pessoa passa a precisar de ajuda para as transferências, perde a capacidade de levantar da cadeira sem as mãos e depois com as mãos, emagrece, perde a panturrilha, desenvolve contratura em flexão de joelhos e quadris, fica constipada, passa a perder urina porque não chega a tempo, e a pele sobre o sacro e os calcanhares começa a avermelhar. Vermelhidão que não clareia à pressão é lesão por pressão, e o estadiamento e o curativo dela estão em Lesão por pressão: estadiamento, prevenção e curativo, na apostila de Síndromes do Paciente Internado. O que pertence a este capítulo é reconhecer que a lesão é consequência do imobilismo e tratar a causa.
A Caderneta de 2025 registra o acamado e o domiciliado como sentinelas de vulnerabilidade, e esse registro precisa mudar de não para sim no dia em que a situação muda — é ele que aciona visita domiciliar, reabilitação e suporte ao cuidador. Quando a restrição tem cara de abandono ou de maus-tratos, a obrigação de notificar está em Notificação de violência (criança, mulher, idoso) e responsabilidade médica, na apostila de Medicina Legal e Bioética.
Dona Teófila está na terceira semana. Levanta da poltrona só com as duas mãos e com o filho puxando, a panturrilha mede 30 centímetros, a pele do sacro está íntegra e ela não evacua há quatro dias. A imobilidade ainda não é síndrome instalada, mas já começou.
Como fechar o diagnóstico
A avaliação de quem cai não é um exame, é uma sequência de medidas simples que cabem numa sala de estar: uma história bem perguntada, a sacola de remédios esvaziada na mesa, a pressão deitada e em pé, quatro metros cronometrados, uma cadeira sem braços, uma fita métrica e uma volta pela casa. Nenhum exame de sangue diagnostica queda; os que se pedem respondem a uma suspeita levantada por essa sequência. A ordem abaixo é a de uma visita domiciliar, e cada seção termina com o que ela mostrou em Dona Teófila.
A história da queda, perguntada queda por queda
Cada queda dos últimos doze meses tem a sua história, e o Guia de atenção à reabilitação da pessoa idosa, de 2021, lista o que ela precisa conter: circunstância, horário, local, frequência, lesões, consequências físicas, psíquicas e sociais, se a pessoa conseguiu levantar sozinha e quanto tempo levou. O registro da Caderneta, que o Guia reproduz, acrescenta a pergunta que liga a queda ao futuro: a pessoa parou de fazer alguma atividade por medo de cair de novo? O Caderno de Atenção Básica nº 19 completa com o contexto e o mecanismo, as doenças crônicas e agudas presentes e a medicação, prescrita ou por conta própria.
Na prática, cinco perguntas contam o mecanismo. O que a senhora estava fazendo — andando, levantando, virando, carregando, subindo? Sentiu alguma coisa antes — tontura, vista escura, palpitação, fraqueza, dor? Caiu para frente, para trás ou de lado? Lembra da queda inteira ou acordou no chão? Alguém viu? As respostas se leem pelo quadro do Caderno de 2006 descrito no bloco de mecanismo: pernas que falsearam, perda de equilíbrio para trás, para o lado, na transferência ou durante a marcha apontam sistemas diferentes. Uma queda sem nenhuma dessas respostas é inexplicada, e queda inexplicada recorrente segue também o caminho da síncope.
Duas perguntas contam a gravidade: quanto tempo ficou no chão, e se conseguiu levantar sozinha. Pergunte o tempo em horas e minutos, ancorado num fato — antes ou depois de o dia clarear, quando alguém chegou —, porque é ele que decide a estratificação.
Dona Teófila tem três quedas em seis meses. A primeira, carregando peso num degrau, com perda de equilíbrio durante a marcha. A segunda, na transferência da poltrona para a posição em pé, com as pernas pesando. A terceira, andando logo depois de sair da cama, com escurecimento visual, sem testemunha, sem certeza sobre perda de consciência, e uma hora e meia no chão sem conseguir levantar. São três mecanismos, e nenhum é o tapete.
A sacola: o que ela toma, desde quando e para quê
Peça todas as caixas e frascos, inclusive o que não foi receitado, os chás e o que ficou de tratamentos antigos. Para cada item, anote o nome e a dose, o horário, desde quando e quem receitou, e depois cruze a data de entrada de cada remédio com a data das quedas: medicamento que entrou pouco antes da primeira queda é suspeito até prova em contrário. A Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial de 2025 dá a janela curta que vale vigiar: o risco de queda pode subir já no primeiro dia de um anti-hipertensivo e nas primeiras semanas de um diurético.
Os grupos que aumentam o risco de queda estão espalhados pelos documentos. O Caderno de 2006 cita polifarmácia e sedativos, hipnóticos e ansiolíticos; a Caderneta de 2025 pergunta por remédio que dá tontura ou cansaço e por remédio para dormir ou para o humor, e chama de polifarmácia o uso de cinco ou mais medicamentos; o Guia de 2021 manda revisar psicoativos e fármacos que podem induzir parkinsonismo; a World Falls Guidelines fala em revisar psicotrópicos, cardiovasculares e outros medicamentos que aumentam o risco de queda com uma ferramenta estruturada. Quais critérios aplicar e em que ordem retirar é assunto de Polifarmácia e prescrição segura no idoso (critérios de Beers), nesta apostila. Aqui a tarefa é marcar os suspeitos e ligá-los ao mecanismo da queda.
Na sacola de Dona Teófila há cinco medicamentos de uso contínuo e três suspeitos, cada um agindo num andar diferente do equilíbrio. O clonazepam, há doze anos, na vigilância e no tempo de reação de madrugada. A amitriptilina, há cinco anos, na sedação e na pressão ao levantar. A hidroclorotiazida, há nove meses, no volume — e a primeira queda veio três meses depois de ela entrar.
A pressão deitada e em pé, com o relógio na mão
A medida sentada não mostra hipotensão ortostática, e é por isso que ela passa despercebida por anos. A técnica tem quatro regras. Primeira: a pessoa fica deitada por pelo menos cinco minutos antes da medida de base, como pede a World Falls Guidelines. Segunda: depois de ficar de pé, a pressão é medida no primeiro e no terceiro minuto, que é a régua da Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial de 2025; a diretriz internacional pede a primeira medida o quanto antes, entre 40 e 60 segundos, e medidas a cada minuto até o terceiro, estendendo até o quinto se os sintomas sugerirem resposta tardia. Terceira: o braço fica apoiado pelo examinador na altura do coração, como manda a diretriz brasileira. Quarta: anote o sintoma junto com o número, e fique ao lado da pessoa para ampará-la.
A definição usada no Brasil é a da diretriz de 2025: queda de 20 mmHg ou mais na pressão sistólica e/ou de 10 mmHg ou mais na diastólica em relação à posição supina. Hipotensão ortostática com sintoma — tontura, vista escura, fraqueza — no mesmo momento da medida responde à pergunta sobre a queda com uma precisão que nenhum exame complementar alcança. Anote também o pulso nas duas posições: pulso que quase não sobe apesar de a pressão cair aponta para disfunção autonômica ou para betabloqueador, e muda a busca da causa.
A Caderneta de 2025 tem, em cada linha do histórico de consultas, espaço para a pressão deitado, sentado e em pé. Preencher os três campos uma vez por ano em toda pessoa idosa, e sempre depois de uma queda, é a forma mais barata de não perder o diagnóstico.
A World Falls Guidelines inclui na avaliação cardiovascular inicial de quem cai a história cardíaca, a ausculta, a pressão deitado e em pé e o eletrocardiograma; sem alteração nesses quatro, não é preciso ir além, a não ser que haja suspeita de síncope. Em Dona Teófila, deitada há cinco minutos na cama, a pressão é 146/84 mmHg. Com um minuto de pé, 124/76 mmHg, e ela diz que a vista está escurecendo como naquela noite. Com três minutos, 118/72 mmHg. A queda é de 22 mmHg no primeiro minuto e de 28 mmHg no terceiro na sistólica: hipotensão ortostática sintomática. O eletrocardiograma, feito na unidade no dia seguinte, está em ritmo sinusal, sem distúrbio de condução.
Marcha, equilíbrio e força, medidos no chão da sala
A medida central é a velocidade de marcha. Marque quatro metros no chão com a trena, peça que a pessoa ande no passo de costume, com o calçado e o apoio de costume, e cronometre o trajeto. A Caderneta de 2025, no Índice de Vulnerabilidade Clínico-Funcional, pontua quem leva mais de 5 segundos para percorrer os quatro metros; a World Falls Guidelines recomenda a velocidade de marcha como teste de estratificação, com corte abaixo de 0,8 m/s. As duas réguas são a mesma: 4 metros divididos por 5 segundos dão 0,8 m/s. Anote o tempo com décimo de segundo, porque 5,0 segundos exatos não pontuam em nenhuma das duas, e 5,2 segundos pontuam nas duas.
O Guia de 2021 lê a mesma medida com outra finalidade, a de prognóstico funcional: abaixo de 0,6 m/s estão as pessoas idosas mais frágeis, com alto risco de declínio, institucionalização e morte; entre 0,6 e 1 m/s, as de risco moderado de limitação funcional, dependência e hospitalização; acima de 1 m/s, a marcha normal. Em tempo sobre quatro metros, 4 segundos correspondem a 1 m/s e cerca de 6,7 segundos correspondem a 0,6 m/s.
A alternativa aceita pela World Falls Guidelines é o teste de levantar e andar cronometrado, com corte acima de 15 segundos, com a ressalva de que a evidência dele para prever quedas é menos consistente. O Caderno de 2006 traz uma versão sem cronômetro na Avaliação Multidimensional Rápida — levantar da cadeira, caminhar 3,5 metros, voltar e sentar —, e manda aplicar a escala de Tinetti, conhecida no Brasil como POMA-Brasil, quando a pessoa não consegue fazer o teste. O equilíbrio estático se rastreia ficando de pé com um pé à frente do outro e depois apoiado numa perna só, com a mão do examinador por perto.
A força dos membros inferiores se vê levantando da cadeira. O Guia de 2021 pede que se observe a pessoa levantar-se da cadeira e sentar-se nela; a World Falls Guidelines lista o teste de sentar e levantar e a força de preensão manual como medidas de força. Quando há dinamômetro, a diretriz BRASPEN de 2019 sugere para a população brasileira os cortes de força de preensão abaixo de 30 kg nos homens e abaixo de 16 kg nas mulheres. Sem dinamômetro, levantar de uma cadeira sem braços com os braços cruzados no peito, e quantas vezes, já informa a decisão.
Dona Teófila leva 7,2 segundos para percorrer os quatro metros, apoiando a mão na parede duas vezes: 0,56 m/s. Pontua no índice da Caderneta, está abaixo do corte da diretriz internacional e cai na faixa mais grave do Guia. Não consegue levantar da cadeira de cozinha sem usar as mãos e não sustenta a posição com um pé à frente do outro.
Músculo, peso e o que se come
A panturrilha é a fita métrica da sarcopenia na atenção primária. A diretriz de nutrição no envelhecimento, de 2019, descreve a técnica: panturrilha direita exposta, pessoa em pé, pernas relaxadas e pés afastados 20 centímetros. Há dois cortes em uso no Brasil, e eles respondem a perguntas diferentes: o Índice de Vulnerabilidade Clínico-Funcional da Caderneta pontua panturrilha menor que 31 cm, para os dois sexos; a mesma diretriz, para rastrear sarcopenia na população brasileira, usa 33 cm ou menos nas mulheres e 34 cm ou menos nos homens. O bloco de divergências explica por que esta apostila usa os dois, cada um no seu instrumento.
O rastreio de sarcopenia sugerido por essa diretriz é o SARC-F ou o SARC-CalF. O SARC-F tem cinco perguntas, cada uma de 0 a 2: dificuldade para levantar e carregar 5 kg, para atravessar um cômodo, para levantar da cama ou da cadeira, para subir dez degraus, e quantas quedas no último ano. O SARC-CalF soma a elas 10 pontos quando a panturrilha está no corte brasileiro, num total de 0 a 20, e 11 pontos ou mais sugerem sarcopenia. Suspeita levantada, a confirmação passa pela força — preensão ou sentar e levantar — e a gravidade, pela velocidade de marcha, que é a lógica da revisão europeia adotada por ela.
O peso completa o quadro. O item de capacidade aeróbica e muscular do índice da Caderneta pontua perda de peso não intencional de 4,5 kg ou 5% no último ano, de 6 kg em seis meses ou de 3 kg no último mês, e índice de massa corporal abaixo de 22 kg/m². Pergunte o que ela come num dia, e quanto disso é proteína: a mesma diretriz recomenda de 1,0 a 1,2 g/kg/dia para a pessoa idosa saudável e de 1,2 a 1,5 g/kg/dia para a que tem doença aguda ou crônica.
Dona Teófila pesa 52 kg e tem 1,54 m, índice de massa corporal de 21,9 kg/m². Perdeu cerca de 4 kg desde o começo do ano, pela conta das roupas e da última pesagem na unidade. A panturrilha mede 30 cm. No SARC-CalF, soma 2 pontos para carregar peso, 2 para atravessar um cômodo, 2 para levantar da cadeira, 1 para a escada, 1 para as três quedas e 10 para a panturrilha: 18 pontos. O café da manhã é café com pão, o almoço é arroz, feijão e pouca carne, e à noite ela toma sopa.
Visão, pés, cabeça, bexiga — e a volta pela casa
A visão entra pela acuidade e pelos óculos. O Caderno de 2006 usa o cartão de Jaeger e encaminha quem não lê além de 20/40. A World Falls Guidelines cita a cirurgia de catarata do primeiro olho como intervenção que reduz quedas e aconselha evitar lentes multifocais fora de casa; o Guia de 2021 manda evitar bifocais ao subir e descer escada. Os pés entram pela sensibilidade, pela dor e pelo calçado: a Caderneta pede exame anual dos pés, e o Guia descreve o calçado seguro — bem ajustado, com apoio no calcanhar, fixação por laço ou velcro e sola antiderrapante —, desaconselhando chinelo com meia e pantufa.
Cognição e humor fazem parte da avaliação multifatorial, e a World Falls Guidelines recomenda avaliar a cognição de rotina nessa situação. Um rastreio breve de memória e uma pergunta sobre tristeza e perda de interesse bastam na visita; alteração cognitiva segue para Demências (Alzheimer, vascular) e comprometimento cognitivo, nesta apostila. A bexiga entra pela urgência e pela noctúria, que multiplicam as idas ao banheiro no escuro — é a oitava pergunta do check-up da Caderneta.
A casa se avalia andando pelo trajeto que a pessoa faz, e não olhando da porta. A Caderneta de 2025 traz a lista anual: áreas de circulação livres, barras de apoio, pisos uniformes e tapetes bem fixos, iluminação que clareie cada cômodo inclusive os degraus, interruptores na entrada dos cômodos, antiderrapante no chuveiro e box de abertura fácil. O Caderno de 2006 soma cadeira, cama e vaso sanitário muito baixos, cadeiras sem braço, objetos guardados no alto e animais soltos. A World Falls Guidelines recomenda que a avaliação ambiental seja feita por profissional treinado, e o Caderno de 2006 atribui ao agente comunitário de saúde a tarefa de observar os riscos de queda no domicílio.
Sobre exames, o que se pede responde a uma suspeita. O eletrocardiograma faz parte da avaliação cardiovascular de quem cai. Sódio e função renal entram em quem usa diurético; glicemia, em quem usa hipoglicemiante; hemograma, em quem tem palidez ou sangramento. A dosagem de vitamina D não decide a conduta de quem está restrito ao domicílio, que recebe suplementação sem dosar — ver o bloco de divergências.
Dona Teófila usa bifocal o dia inteiro, não enxerga as letras menores do cartão com nenhum dos olhos e tem catarata anotada há dois anos. Tem sensibilidade preservada nos pés, calosidade no hálux direito e só usa chinelo de dedo. Guarda três palavras depois de alguns minutos e responde que sim, anda triste desde que deixou a missa. Levanta duas a três vezes por noite para urinar, com urgência. No trajeto quarto–banheiro: cama de 40 centímetros, corredor sem interruptor na entrada, banheiro sem barra, piso liso, porta que ela tranca por hábito. O sódio e a creatinina, colhidos com o eletrocardiograma, estão normais.
Investigar quedas e recuperar mobilidade com segurança
O objetivo é reconhecer lesões e causas urgentes, avaliar múltiplos fatores e recuperar mobilidade e confiança. Tirar um tapete, prescrever vitamina ou impedir a pessoa de andar não substitui um plano individual de prevenção. Este bloco responde a três perguntas, na ordem em que elas aparecem na visita. A primeira é quem precisa de avaliação multifatorial completa, e para ela há duas réguas em uso — a federal, do Guia de 2021, e a internacional, de 2022 —, que não fazem a mesma coisa com a mesma pessoa. A segunda é qual número decide cada passo, e de onde ele vem. A terceira é o que o elenco do SUS permite prescrever. As notas no fim registram os erros das fontes que mudariam a conduta de quem as seguisse ao pé da letra.
- 1Pergunte a toda pessoa idosa, e registre na Caderneta: caiu no último ano, sente-se instável em pé ou andando, tem preocupação com quedas. Qualquer sim abre o passo seguinte.
- 2Se houve queda, descarte primeiro o que não pode esperar: lesão que impede apoiar o peso, batida de cabeça com anticoagulante, antiagregante ou sinal neurológico, queda que anuncia doença aguda. Esses casos vão ao pronto-socorro hoje.
- 3Houve perda de consciência, suspeita de perda de consciência ou queda sem explicação mecânica? A investigação de síncope corre junto com a de queda.
- 4Procure os marcadores de alto risco: lesão, duas ou mais quedas em doze meses, fragilidade conhecida, uma hora ou mais no chão sem conseguir levantar, perda transitória de consciência suspeita. Um marcador basta.
- 5Alto risco: avaliação multifatorial — medicamentos, pressão deitada e em pé com eletrocardiograma, marcha, equilíbrio e força, visão, pés, cognição e humor, bexiga, nutrição, preocupação com quedas e casa — e intervenção em todos os fatores encontrados.
- 6Sem marcador de alto risco: meça a velocidade de marcha em quatro metros. Mais de 5 segundos (abaixo de 0,8 m/s), ou teste de levantar e andar acima de 15 segundos, é risco intermediário: exercício de força e equilíbrio, com fisioterapia quando houver.
- 7Marcha normal e nenhuma queda grave: baixo risco. Educação, exercício e reavaliação em doze meses.
- 8Imobilidade instalada ou em instalação, em qualquer degrau: plano de remobilização com a família, revisão da pele e do intestino, e vitamina D para quem ficou restrito ao domicílio.
Queda que sai da sala de casa hoje
Cinco situações tiram a decisão da atenção primária no mesmo dia, e todas têm capítulo dono. Dor que impede apoiar o peso, ou membro encurtado e rodado para fora, é fratura de quadril até prova em contrário. Batida de cabeça em quem usa anticoagulante ou antiagregante, ou qualquer batida seguida de vômito, sonolência, confusão ou déficit, vai para avaliação de imagem, conforme o capítulo de trauma cranioencefálico. Perda de consciência com dor no peito, palpitação, falta de ar, queda durante esforço ou eletrocardiograma alterado segue a estratificação do capítulo de síncope. Pessoa idosa que caiu e está diferente do próprio basal — confusa, prostrada, febril, sem comer — tem uma doença aguda até prova em contrário. E quem ficou horas no chão e chega com dor muscular difusa, urina escura ou pele lesada precisa de avaliação clínica para rabdomiólise e desidratação. Fora dessas cinco situações, a queda é conduzida em casa e na unidade, e é aí que ela costuma ser mal conduzida.
Estratificação: o que cada régua faz com a mesma pessoa
| Situação nos últimos 12 meses | World Falls Guidelines (2022) | Guia de reabilitação do Ministério da Saúde (2021) | O que esta apostila faz |
|---|---|---|---|
| Nenhuma queda, marcha e equilíbrio normais | Baixo risco: educação e exercício; reavaliar em 12 meses | Programa de condicionamento com equilíbrio e fortalecimento | Baixo risco; exercício e reavaliação anual |
| Nenhuma queda, marcha lenta ou equilíbrio alterado | Marcha avaliada quando há instabilidade ou preocupação; o texto chama de baixo risco quem não caiu, e o exercício vale para toda pessoa idosa | Sem destino no texto | Exercício de força e equilíbrio; investigar a causa da marcha lenta |
| Uma queda sem lesão, marcha e equilíbrio normais | Baixo risco | Programa de condicionamento | Baixo risco; revisar remédios e casa na mesma consulta |
| Uma queda sem lesão, marcha lenta ou equilíbrio alterado | Risco intermediário: exercício de força e equilíbrio ou fisioterapia | Sem destino no texto | Risco intermediário; exercício dirigido de força e equilíbrio, com fisioterapia quando houver |
| Duas ou mais quedas, marcha e equilíbrio normais | Alto risco: avaliação multifatorial | Sem destino no texto | Alto risco; avaliação multifatorial |
| Duas ou mais quedas, marcha ou equilíbrio comprometidos | Alto risco: avaliação multifatorial | Avaliação dos fatores de risco intrínsecos, extrínsecos e comportamentais | Alto risco; avaliação multifatorial |
| Uma queda com fratura ou outra lesão | Alto risco | Não aparece como gatilho | Alto risco, depois de resolvida a lesão pelo capítulo dono |
| Uma queda com 60 a 120 minutos no chão sem conseguir levantar | Alto risco (uma hora ou mais) | Não marcada; pior prognóstico só acima de duas horas | Alto risco |
| Uma queda com perda transitória de consciência suspeita | Alto risco; investigar como síncope se inexplicada | Não aparece como gatilho | Alto risco e investigação de síncope |
Que régua o Brasil usa para cada decisão deste capítulo, e desde quando
| Decisão | Documento brasileiro em uso | Desde | O que ele fixa | Lacuna, e o que esta apostila adota |
|---|---|---|---|---|
| Perguntar por queda e rastrear | Caderneta da Pessoa Idosa, 6ª edição (Ministério da Saúde) | 2025, lançada em janeiro de 2026 | Check-up de 12 afirmações, com procura da equipe diante de qualquer sim; o índice de vulnerabilidade pontua duas ou mais quedas no ano | Porta de entrada; o que fazer com o sim segue a World Falls Guidelines |
| Quem recebe avaliação multifatorial | Guia de atenção à reabilitação da pessoa idosa (Ministério da Saúde) | 2021 | Condicionamento para quem tem até uma queda sem distúrbio; avaliação para duas ou mais quedas com marcha comprometida | Três situações sem destino e dois gatilhos ausentes; adota a régua internacional de 2022 |
| Teste de marcha | Caderneta da Pessoa Idosa, índice de vulnerabilidade | 2025 | Quatro metros em mais de 5 segundos | Igual ao corte internacional de 0,8 m/s; o Guia de 2021 usa 0,6 e 1 m/s para prognóstico funcional |
| Hipotensão ortostática | Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial (sociedade) | 2025 | Supino e depois 1 e 3 minutos em pé; queda de 20 mmHg ou mais na sistólica e/ou 10 mmHg ou mais na diastólica | O Caderno de 2006 e o Guia de 2021 mandam pesquisar e a Caderneta de 2025 traz os campos deitado, sentado e em pé, sem técnica nem corte; adota a diretriz de 2025 com os cinco minutos de repouso da régua internacional |
| Dose de exercício para prevenir queda | Caderno de Atenção Básica nº 19; Caderneta da Pessoa Idosa | 2006; 2025 | Atividade física geral: 30 minutos ao menos três vezes por semana (2006); 150 minutos por semana (2025) | Nenhum dos dois fixa dose de treino de equilíbrio; adota 3 ou mais sessões semanais por 12 semanas ou mais, da régua internacional, com o resistido da BRASPEN |
| Rastreio e diagnóstico de sarcopenia | Diretriz BRASPEN de terapia nutricional no envelhecimento (sociedade) | 2019 | SARC-F e SARC-CalF, cortes brasileiros de panturrilha e de preensão, consenso europeu revisado | O Guia federal de 2021 cita o consenso de 2010 sem cortes; adota a BRASPEN |
| Vitamina D | Caderno de Atenção Básica nº 19; Diretriz BRASPEN | 2006; 2019 | 400 a 800 UI/dia, especialmente em grupos de risco (2006); indicada para toda pessoa idosa a partir de 65 anos (2019) | Divergem; adota a suplementação só para quem tem risco de deficiência (bloco de divergências) |
| Síndrome da imobilidade | Guia de atenção à reabilitação da pessoa idosa | 2021 | Definição descritiva, formas de instalação, fatores de risco e consequências por sistema | Sem critério operacional de diagnóstico; adota a definição e acompanha pelo que se mede: transferência, marcha, pele, panturrilha |
Conversões que decidem conduta neste capítulo
| Medida | Valor | Equivale a | Onde decide |
|---|---|---|---|
| Tempo em 4 metros | 4,0 s | 1,00 m/s | Limite superior da faixa moderada do Guia de 2021; marcha normal só acima disso |
| Tempo em 4 metros | 5,0 s | 0,80 m/s | Não pontua no índice da Caderneta nem no corte internacional; é o valor que a frase da BRASPEN põe em duas classes |
| Tempo em 4 metros | 5,2 s | 0,77 m/s | Pontua no índice da Caderneta e está abaixo do corte internacional |
| Tempo em 4 metros | 6,7 s | 0,60 m/s | Limite inferior da faixa moderada do Guia de 2021 |
| Tempo em 4 metros | 7,2 s | 0,56 m/s | Dona Teófila: faixa de maior risco funcional do Guia de 2021 |
| Vitamina D | 400 UI | 10 µg | Dose inferior da faixa do Caderno de 2006 |
| Vitamina D | 800 UI | 20 µg | Ingestão de referência da BRASPEN e dose inferior da faixa internacional para quem tem risco de deficiência |
| Vitamina D | 1.000 UI | 25 µg | Dose superior da faixa internacional |
| Vitamina D impressa no Caderno de 2006 | 400 mg | 16.000.000 UI | Erro de unidade: 40.000 vezes a dose que o mesmo documento escreve em UI |
| Carbonato de cálcio 1.250 mg + colecalciferol 400 UI (Rename) | 2 comprimidos por dia | 800 UI e 1.000 mg de cálcio elementar | Forma de chegar a 800 UI pelo elenco do SUS |
| Carbonato de cálcio 1.500 mg + colecalciferol 400 UI (Rename) | 2 comprimidos por dia | 800 UI e 1.200 mg de cálcio elementar | Alternativa quando só essa apresentação estiver disponível |
| Carbonato de cálcio 1.250 mg + colecalciferol 200 UI (Rename) | 4 comprimidos por dia | 800 UI e 2.000 mg de cálcio elementar | Não usar para chegar a 800 UI: o cálcio acompanha a dose |
| Proteína para 52 kg | 1,0 a 1,2 g/kg/dia | 52 a 62 g por dia | Pessoa idosa saudável, pela BRASPEN |
| Proteína para 52 kg | 1,2 a 1,5 g/kg/dia | 62 a 78 g por dia | Pessoa idosa com doença aguda ou crônica, pela BRASPEN |
Guia de atenção à reabilitação da pessoa idosa (Ministério da Saúde, 2021), p. 36, p. 69 e Quadro 7: a estratificação tem dois grupos — até uma queda no ano sem distúrbio de equilíbrio e marcha vai para programa de condicionamento; duas ou mais quedas com equilíbrio e marcha comprometidos vão para avaliação dos fatores de risco. A conta das combinações mostra o buraco: quedas no ano (nenhuma, uma, duas ou mais) vezes marcha e equilíbrio (normais, alterados) dão seis situações, e o texto dá destino a três. Ficam sem destino a pessoa sem queda com marcha alterada, a pessoa com uma queda e marcha alterada, e a pessoa com duas ou mais quedas e marcha normal. Queda com fratura e longa permanência no chão não aparecem como gatilho. Quem seguisse o Guia ao pé da letra não avaliaria a mulher que caiu três vezes e anda bem entre as quedas — retrato possível de quem cai por hipotensão ortostática e caminha normalmente enquanto a pressão se sustenta.
Diretriz BRASPEN de terapia nutricional no envelhecimento (2019), Tabela 1, questionário SARC-F: a tabela imprime quatro componentes — força, ajuda para caminhar, levantar da cadeira e subir escadas —, cada um de 0 a 2, com somatório declarado de 0 a 10 e corte de 4 ou mais. Quatro itens de até 2 pontos somam no máximo 8, e não 10: falta o quinto item, quedas no último ano (nenhuma, 0; de uma a três, 1; quatro ou mais, 2), que a Tabela 2 do mesmo documento traz no SARC-CalF. Uma pessoa com quatro quedas no ano e alguma dificuldade para levantar e para subir escada soma 4 no SARC-F de cinco itens, sugestivo de sarcopenia, e 2 na tabela impressa, sem sinais. A omissão tira até 2 pontos exatamente de quem cai. Este capítulo usa o SARC-F com os cinco itens.
Diretriz BRASPEN (2019), seção de gravidade da sarcopenia: o critério de baixo desempenho é descrito como a incapacidade de completar os quatro metros em menos de 5 segundos, ou seja, velocidade abaixo de 0,8 m/s. A frase contém duas regras que discordam num único valor. Com 5,0 segundos exatos, 4 divididos por 5 dão 0,80 m/s: a pessoa não completou em menos de 5 segundos, e pela primeira metade é positiva; mas 0,80 não é menor que 0,8, e pela segunda metade é negativa. O índice da Caderneta de 2025 (mais de 5 segundos) e a World Falls Guidelines de 2022 (abaixo de 0,8 m/s) concordam que 5,0 segundos não pontuam. Como cronômetro de celular arredonda e a marcha de quem está no limite oscila perto dele, este capítulo pede o tempo em décimos e adota a leitura das duas réguas concordantes.
Caderno de Atenção Básica nº 19 (Ministério da Saúde, 2006), capítulo de osteoporose, item sobre cálcio: para mulheres com osteoporose, o texto preconiza 1.500 mg de cálcio ao dia associados a 400 a 800 mg de vitamina D. A unidade está errada, e o próprio documento prova: o parágrafo seguinte dá 400 a 800 UI/dia, e o trecho sobre osteoporose induzida por glicocorticoide também escreve 400 a 800 UI. A conta mostra o tamanho do erro: 1 µg de colecalciferol corresponde a 40 UI, então 400 UI são 10 µg, ou 0,01 mg, e 400 mg seriam 16.000.000 UI — 40.000 vezes a dose correta. Nenhuma apresentação do SUS permite chegar a esse número, mas quem transcreve a frase para uma receita em miligramas de um produto manipulado pode.
Caderno de Atenção Básica nº 19 (2006), capítulo de osteoporose: o texto apresenta a Portaria SAS nº 470, de julho de 2002, como o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas de osteoporose de caráter nacional, a ser usado pelas secretarias na dispensação. Essa portaria não é mais a régua. O protocolo em vigor é o aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 22, de 22 de outubro de 2025, cujo artigo 4º revoga a Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 19, de 2023. Quem abrir o Caderno para decidir o tratamento da osteoporose de uma pessoa idosa que caiu vai encontrar a norma de 2002 descrita como vigente; o tratamento segue o protocolo de 2025, discutido em Osteoporose pós-menopausa: rastreamento e prevenção, na apostila de Ginecologia.
A conduta, hora a hora
A conduta de quem cai não é um remédio nem uma orientação: é uma soma de intervenções pequenas, cada uma presa a um fator que foi medido. A World Falls Guidelines chama isso de intervenção multidomínio e lista o que ela deve conter no mínimo — exercício de força e equilíbrio, revisão de medicamentos, manejo da hipotensão ortostática e das doenças cardiovasculares, das doenças agudas e crônicas, da visão e da audição, dos pés e do calçado, vitamina D, nutrição, continência, preocupação com quedas, educação e ambiente —, e avisa na mesma lista que a intervenção não é um pacote aplicado a todos, e sim o que a avaliação de cada pessoa indicar. É por isso que a vitamina D aparece na lista e não aparece na conduta de Dona Teófila.
As primeiras medidas reduzem risco imediato e preservam mobilidade. Retiradas graduais são planejadas quando há dependência ou risco de rebote; em situação estável, etapas separadas ajudam a avaliar resposta. Se houver dano ativo importante, pode ser necessário intervir em mais de um medicamento no mesmo dia, com supervisão e monitorização.
Visita, primeiros 15 minutos — o que não pode esperar
Antes de qualquer escala, confirme que a queda de três semanas atrás não deixou nada que precise de pronto-socorro. Examine o quadril com rotação passiva e peça que ela apoie o peso; palpe o punho e a tabaqueira anatômica; pergunte por batida de cabeça, anticoagulante, antiagregante, cefaleia nova, sonolência e confusão. Compare com o basal pelo filho: está lúcida, come como antes, sem febre. Nada disso muda o lugar do cuidado, e essa conclusão vai por escrito, porque é ela que autoriza seguir em casa. E a primeira decisão terapêutica sai aqui, antes de qualquer remédio: a restrição à poltrona termina hoje. O Guia de 2021 é explícito em evitar recomendação de restrição de mobilidade ou de repouso no leito, e a orientação não é parar de andar, e sim descobrir a causa da queda.
Prescrição- Registro: apoia o peso sem dor, punho com mobilidade completa e sem dor à palpação, sem trauma craniano, sem anticoagulante nem antiagregante, sem mudança do estado basal — conduzida no domicílio
- Suspensa a restrição à poltrona: deambula dentro de casa desde hoje, acompanhada nos trajetos até o banheiro nas primeiras duas semanas
- Caminho quarto–banheiro iluminado a partir desta noite, com a luz do banheiro acesa durante a noite
- Chinelo de dedo substituído por calçado fechado atrás, com sola antiderrapante
Visita, minutos 15 a 60 — a queda medida como síndrome
Com ela na sala, a avaliação multifatorial inteira: a história de cada queda, a sacola na mesa, a pressão deitada e em pé com o relógio, os quatro metros cronometrados, a cadeira de cozinha sem braços, a panturrilha, o SARC-CalF, a acuidade visual, os pés, uma triagem de memória e humor, a pergunta sobre urgência urinária e a volta pelo trajeto quarto–banheiro. A estratificação fecha antes de você sair: ela tem três marcadores de alto risco — duas ou mais quedas no ano, uma hora e meia no chão sem conseguir levantar e suspeita de perda de consciência —, e qualquer um bastaria. Os achados que explicam as quedas estão todos no mesmo registro: hipotensão ortostática sintomática, três medicamentos que aumentam o risco de queda, velocidade de marcha de 0,56 m/s, incapacidade de levantar sem as mãos, suspeita de sarcopenia, catarata com bifocal, urgência noturna, tristeza e um trajeto noturno escuro, com cama baixa e banheiro trancado.
Prescrição- Caderneta preenchida no domicílio: check-up de quedas, pressão deitada e em pé, itens de marcha, panturrilha e quedas do índice de vulnerabilidade, avaliação ambiental e sentinela de domiciliada marcada como sim
- ECG e avaliação cardiovascular em curto prazo pela suspeita de perda de consciência; sódio, potássio e creatinina conforme contexto. Síncope durante esforço ou em decúbito, dor torácica, dispneia, palpitações importantes ou ECG anormal exigem avaliação urgente, sem aguardar o retorno programado
- Estratificação registrada: alto risco de queda, com os três marcadores que a definem
- Discussão do caso com a preceptora no mesmo dia, com a lista dos fatores modificáveis encontrados
Dia 1 — o primeiro medicamento que sai
Com o eletrocardiograma sinusal e o sódio e a creatinina normais, a primeira retirada é a hidroclorotiazida. É o suspeito de maior efeito imediato sobre a queda das três da manhã, porque reduz o volume de quem já perde pressão ao levantar; entrou três meses antes da primeira queda; e sair não produz sintoma de abstinência. A losartana fica. A Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial de 2025 dá as duas razões: nos ensaios, controlar a pressão não aumentou hipotensão ortostática nem quedas com lesão, e o benefício foi o mesmo em quem já tinha hipotensão ortostática; e, para a pessoa idosa frágil, muito idosa ou com hipotensão ortostática sintomática, a diretriz indica monoterapia e redução da pressão até o menor valor tolerado. Tolerar, aqui, inclui ficar de pé às três da manhã sem a vista escurecer. A pressão deitada vai subir um pouco, e isso é esperado.
Prescrição- Suspender hidroclorotiazida 25 mg
- Manter losartana 50 mg, um comprimido de manhã e um à noite
- Levantar em três tempos: sentar na beira da cama, contar até trinta, ficar de pé segurando num apoio firme, e só então andar
- Rever sintomas e pressão em curto prazo após a mudança; repetir medida padronizada em até duas semanas se estável, antecipando se tontura persistente, nova queda ou alteração relevante da pressão
Primeira semana — a casa, decidida com ela
A agente comunitária e a enfermeira voltam à casa com Rogério para as mudanças do trajeto, uma a uma, com o consentimento de Dona Teófila — o Guia de 2021 lembra que mudar móveis sem a ciência da pessoa idosa desorienta e pede treino do novo caminho. A lista sai do Quadro 8 do Guia e da avaliação ambiental da Caderneta, e se limita ao que o trajeto medido mostrou. A catarata, anotada há dois anos, deixa de esperar: a World Falls Guidelines cita a cirurgia do primeiro olho como intervenção que reduz quedas, e o encaminhamento sai nesta semana. O filho aprende a mesma coisa que a mãe sobre o que fazer se ela cair de novo.
Prescrição- Abajur ou interruptor ao alcance da cama e luz do banheiro acesa durante a noite
- Cadeira higiênica ao lado da cama nas primeiras semanas, para reduzir as travessias noturnas do corredor
- Cama elevada para que ela sente com os pés no chão e os joelhos na altura do quadril; poltrona funda trocada por cadeira firme com braços
- Barra de apoio junto ao vaso e no chuveiro, piso antiderrapante no box, banho sentado enquanto o equilíbrio não melhorar e porta do banheiro sem tranca
- Orientação da oftalmologia sobre óculos para caminhada e escadas; evitar uso inadequado de lentes multifocais durante deslocamento. Não retirar toda correção visual e deixar a paciente andar sem enxergar; mudanças de lentes exigem adaptação
- Encaminhamento à oftalmologia para avaliação cirúrgica da catarata
- Telefone carregado ao alcance e combinação com o filho sobre o que fazer se ela cair: não levantar com pressa, pedir ajuda, manter-se aquecida e não esconder a queda
Semana 2 — primeiro retorno: a pressão, o exercício e o segundo medicamento
Deitada, a pressão está em 152/86 mmHg; com um minuto de pé, 144/82 mmHg; com três minutos, 142/80 mmHg, sem sintoma. A queda sistólica ao levantar, que era de 28 mmHg, agora é de 10 mmHg, e a pressão deitada mais alta não é motivo para reintroduzir o diurético numa mulher frágil de 81 anos. Sem nova queda, começa o exercício — o componente com a evidência mais forte da World Falls Guidelines: equilíbrio desafiador e exercícios funcionais, três ou mais vezes por semana, progressivos, por pelo menos doze semanas e mantidos depois. Como ela é de alto risco e não levanta sem as mãos, a primeira fase é supervisionada pela fisioterapia da equipe multiprofissional, com um roteiro para casa tirado dos quadros do Guia de 2021 e a parte de força do quadro de exercício da BRASPEN. Ao mesmo tempo, entra a proteína: pela BRASPEN, a pessoa idosa com doença crônica precisa de 1,2 a 1,5 g/kg/dia, o que para os 52 kg dela são de 62 a 78 g por dia, e o café com pão e a sopa não chegam lá. O segundo medicamento a sair é a amitriptilina, e a dor nas pernas que a justificou é reexaminada antes de qualquer substituição.
Prescrição- Fisioterapia da equipe multiprofissional: avaliação e sessões supervisionadas de equilíbrio e força, com meta de três ou mais sessões semanais somando casa e serviço
- Roteiro domiciliar escolhido e ensinado pela fisioterapia: transferências, sentar/levantar e tarefas de equilíbrio graduadas, com apoio firme e supervisão compatível com o risco. Apoio unipodal e marcha em linha só depois de demonstrar execução segura; parede próxima não substitui proteção contra queda
- Força de membros inferiores duas a três vezes por semana, uma a três séries de oito a doze repetições, começando com carga leve
- Ovo, leite, queijo ou feijão com carne distribuídos no café, no almoço e no jantar, para chegar a 62 a 78 g de proteína por dia; nutricionista da equipe se a perda de peso continuar
- Retirada da amitriptilina 25 mg em degraus, pelo esquema de retirada do capítulo de polifarmácia desta apostila, com reavaliação da dor em duas semanas
- Diário de quedas e de quase quedas na Caderneta, preenchido pelo filho
Semanas 4 a 6 — o clonazepam e o medo
Sem queda, dormindo razoavelmente sem a amitriptilina e sem tontura ao levantar, chega a vez do terceiro suspeito. Doze anos de clonazepam não se retiram de uma vez: a retirada é gradual, em semanas a meses, com a folha escrita e o critério de volta ao degrau anterior, e o esquema — inclusive a conta entre gota e miligrama da solução oral de 2,5 mg/mL, que é a apresentação do elenco do SUS — está no capítulo de polifarmácia desta apostila. Enquanto o degrau desce, o medo de cair vira alvo próprio. A World Falls Guidelines recomenda avaliar a preocupação com quedas com a FES-I ou a versão curta e tratá-la com exercício, terapia cognitivo-comportamental e terapia ocupacional; o Guia de 2021 acrescenta acompanhamento psicológico quando necessário. Na prática da unidade, isso vira exposição graduada a atividades que ela deixou: primeiro a missa, acompanhada, depois a feira. A tristeza que ela contou é rastreada formalmente e acompanhada.
Prescrição- Retirada gradual do clonazepam, com referência inicial de reduções de 5–10% a cada 2–4 semanas após uso prolongado, adaptadas à tolerância, apresentação e possibilidade de medir. Sintomas de abstinência exigem pausar ou reduzir o ritmo; não suspender abruptamente
- Rotina de sono sem cochilo longo à tarde, sem líquido nas duas horas antes de deitar e com a cadeira higiênica mantida
- FES-I aplicada e registrada, para comparação em doze semanas
- Meta combinada com ela e o filho: missa de domingo acompanhada a partir da sexta semana
- Rastreio de depressão com instrumento validado e acompanhamento na unidade conforme o resultado
Semana 12 — o fim do programa mínimo, não do exercício
Doze semanas depois da visita, nenhuma queda. Os quatro metros levam 5,6 segundos, 0,71 m/s: a velocidade subiu cerca de 30%, mas ainda pontua no índice da Caderneta. Levanta da cadeira com uma das mãos, a panturrilha mede 31 cm e o peso subiu 1,5 kg. Voltou à missa com o filho e já foi à feira uma vez. O clonazepam está na metade do caminho. A decisão é continuar: a diretriz internacional pede que o exercício seja mantido além das doze semanas, para efeito maior. A vitamina D continua fora da conduta: ela voltou a sair de casa, não tem osteoporose diagnosticada, e três semanas de restrição não a transformaram em domiciliada crônica — se em doze semanas ela não tivesse voltado a sair, a indicação mudaria. O rastreio de osteoporose de uma mulher de 81 anos que caiu três vezes, e o tratamento, se vier, seguem Osteoporose pós-menopausa: rastreamento e prevenção, na apostila de Ginecologia.
Prescrição- Exercício de equilíbrio e força mantido sem data para acabar, com migração da sessão supervisionada para o grupo de pessoas idosas da unidade ou da Academia da Saúde
- Clonazepam: seguir os degraus até a retirada completa, sem pressa de fechar
- Conferir avaliação de risco de fratura e investigação de osteoporose, iniciadas desde os primeiros atendimentos; não esperar terminar o programa de exercício para avaliar prevenção secundária e saúde óssea
- Pressão deitada e em pé, velocidade de marcha, panturrilha e FES-I repetidas e registradas na Caderneta
- Reavaliar risco de quedas pelo conjunto: quedas, lesão, permanência no chão, suspeita de síncope, fragilidade e marcha. Ausência recente de queda não apaga automaticamente os fatores persistentes
Mês 12 — a reavaliação anual e o que fica escrito
Um ano depois, Dona Teófila não caiu. O clonazepam terminou no sexto mês; a catarata do primeiro olho foi operada no oitavo. Os quatro metros levam 5,3 segundos, 0,75 m/s — ainda abaixo do corte de 0,8 m/s para velocidade, com tempo acima de 5 segundos, agora sem apoio na parede. Sem queda nos últimos doze meses, a estratificação é refeita do começo: é necessário verificar se persistem fragilidade, suspeita de síncope ou outros marcadores de alto risco. Só se eles estiverem ausentes a marcha lenta sustentará uma classificação intermediária; um ano sem quedas, sozinho, não resolve essa decisão. A reavaliação anual é a regra para quem está em baixo risco pela World Falls Guidelines e é o ritmo da avaliação ambiental na Caderneta; no caso dela, a Caderneta ganha a pressão deitada e em pé, o índice de vulnerabilidade refeito, a lista de medicamentos atualizada com as datas de retirada e uma linha que o próximo médico precisa ler: hidroclorotiazida, amitriptilina e clonazepam saíram por quedas, e não devem voltar sem essa história.
Prescrição- Registrar nova estratificação após avaliar fragilidade e demais marcadores; risco intermediário apenas se não houver critério de alto risco persistente
- Lista de medicamentos da Caderneta com os três retirados, as datas e o motivo
- Índice de vulnerabilidade, pressão deitada e em pé e avaliação ambiental refeitos
- Encaminhamento para o segundo olho conforme a oftalmologia
- Definir retorno conforme risco atual e plano em andamento; reavaliação mais precoce se alto risco, mudança de tratamento ou piora, sem usar automaticamente periodicidade anual para todos
Como saber se está funcionando
Queda não tem exame de controle; tem sete medidas que se repetem sempre do mesmo jeito, pela mesma pessoa quando possível, e que dizem se a intervenção está funcionando antes da próxima queda dizer. Todas cabem na Caderneta, e é nela que devem ficar, para que o médico do próximo ano leia a tendência e não só o último número.
Esperado: Nenhuma queda; quase quedas diminuindo à medida que a marcha melhora e os medicamentos saem
Se não melhora: Nova queda reabre a estratificação no degrau de alto risco e a pergunta muda para o que falhou: pressão ao levantar, degrau de retirada, adesão ao exercício, trajeto da casa. Queda sem explicação mecânica, ou com perda de consciência, segue também a investigação do capítulo de síncope
Esperado: Queda sistólica menor que 20 mmHg e diastólica menor que 10 mmHg no primeiro e no terceiro minuto, sem sintoma; a pressão deitada pode subir um pouco, e isso não justifica reintroduzir o que saiu
Se não melhora: Se persistir a hipotensão ortostática com os suspeitos já retirados, procurar o que resta: outro medicamento, desidratação, anemia, disfunção autonômica — pulso que não sobe, parkinsonismo, neuropatia —; parkinsonismo segue o capítulo de doença de Parkinson da apostila de Neurologia
Esperado: Tempo em queda de uma medida para a outra e marcha sem apoio na parede; com 5 segundos ou menos, a pessoa deixa de pontuar no índice da Caderneta e, sem outro marcador, sai do risco intermediário
Se não melhora: Marcha que não melhora em doze semanas de exercício pede revisão da adesão e da dose real de sessões, da dor, da visão e do calçado, e reexame neurológico em busca de parkinsonismo, neuropatia ou alteração cognitiva não reconhecida
Esperado: Da necessidade de ajuda para o apoio de uma mão, e depois para nenhuma, com o tronco inclinando à frente e sem impulso de balanço
Se não melhora: Fortalecimento de quadríceps e glúteos com carga progressiva supervisionada pela fisioterapia, como no quadro de sarcopenia do Guia de 2021, e revisão da ingestão de proteína com a nutricionista
Esperado: Peso estável ou em recuperação e panturrilha que não diminui; ingestão diária de proteína dentro da meta calculada pelo peso
Se não melhora: Perda de peso que continua, apesar de proteína e exercício, deixa de ser explicada pela sarcopenia e precisa de investigação clínica da perda de peso; nutricionista da equipe para plano alimentar e avaliação de suplemento
Esperado: Menor preocupação medida na escala e retomada de pelo menos uma atividade que tinha sido abandonada por medo
Se não melhora: Medo que persiste com marcha melhorando pede terapia ocupacional, abordagem cognitivo-comportamental ou acompanhamento psicológico, e rastreio de ansiedade e depressão
Esperado: Sono tolerável sem ansiedade de rebote, tremor ou confusão; pele íntegra, com vermelhidão que clareia à pressão
Se não melhora: Sintoma de retirada volta ao degrau anterior pelo esquema do capítulo de polifarmácia; vermelhidão que não clareia é lesão por pressão e segue o estadiamento e o curativo de Lesão por pressão: estadiamento, prevenção e curativo, com a remobilização mantida
Onde o erro machuca
O dano: O fator extrínseco é real e fácil de ver, e por isso fecha a pergunta cedo demais. A mulher que caiu por hipotensão ortostática, benzodiazepínico e sarcopenia sai da consulta sem tapete e com as três causas intactas, e cai de novo no mesmo corredor, agora sem desculpa ambiental. O Caderno de 2006 chama a atenção para isso: a influência do ambiente depende do estado funcional, e quanto mais frágil a pessoa, mais o ambiente derruba.
Como pegar a tempo: Trate o ambiente como gatilho, nunca como causa suficiente. Toda queda passa por sacola, pressão deitada e em pé e velocidade de marcha antes de ser chamada de acidente — e uma pessoa idosa com duas ou mais quedas no ano é alto risco, com ou sem tapete.
O dano: O Guia de 2021 dá o custo em número: cada semana no leito leva cerca de 5% da massa muscular. A restrição desfaz o treino de equilíbrio, alimenta o medo, instala hipotensão postural por desadaptação, constipa, abre a porta à lesão por pressão e prepara uma queda pior na primeira vez que for preciso levantar depressa. A família faz isso por cuidado, e o profissional que concorda transforma cuidado em síndrome da imobilidade.
Como pegar a tempo: Diga com todas as letras, como o próprio Guia diz, que a orientação não é parar de andar: é descobrir a causa e andar com segurança. Troque a proibição por supervisão nos trajetos de risco, adaptação da casa e exercício, e marque data para retirar a supervisão.
O dano: A hipotensão ortostática não aparece na medida sentada, e é por isso que ela atravessa anos de consultas de hipertensão sem diagnóstico. O resultado é o oposto do necessário: a pressão sentada alta leva a mais anti-hipertensivo, e o anti-hipertensivo a mais, a mais queda ao levantar.
Como pegar a tempo: Depois de toda queda, e uma vez por ano em toda pessoa idosa, deitada por cinco minutos e depois de pé no primeiro e no terceiro minuto, com o braço apoiado na altura do coração e o sintoma anotado junto. Queda de 20 mmHg ou mais na sistólica e/ou de 10 mmHg ou mais na diastólica fecha o diagnóstico.
O dano: A retirada abrupta de um benzodiazepínico de uso prolongado pode produzir insônia de rebote, ansiedade, tremor, confusão e até convulsão — exatamente os estados em que uma pessoa idosa levanta à noite e cai. O remédio tirado para evitar a queda vira a causa da próxima, e a família conclui que ele era indispensável.
Como pegar a tempo: Retirada gradual, com degraus escritos, intervalo definido e critério para voltar ao degrau anterior, pelo esquema do capítulo de polifarmácia desta apostila. Uma mudança de medicamento por vez, com a pessoa e a família sabendo o que esperar.
O dano: Síncope cardíaca, bloqueio atrioventricular, arritmia e crise convulsiva podem se apresentar como queda numa pessoa idosa que mora sozinha e não lembra do momento. Tratada como queda mecânica, ela recebe exercício e barra de apoio e continua exposta à causa que pode matar.
Como pegar a tempo: Pergunte se lembra da queda inteira, se acordou no chão, se houve pródromo, palpitação ou dor no peito, e se alguém viu. Peça eletrocardiograma dentro da avaliação cardiovascular de quem cai, como recomenda a World Falls Guidelines, e investigue como síncope toda queda inexplicada recorrente, pelo capítulo de síncope.
O dano: Retirar a pressão arterial do tratamento inteiro troca um risco pelo outro sem necessidade. A Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial de 2025 registra que, nos ensaios, controlar a pressão reduziu eventos cardiovasculares sem aumentar hipotensão ortostática ou quedas com lesão, e com benefício semelhante em quem já tinha hipotensão ortostática. O paciente perde a proteção e, se a causa da queda era o diurético ou o tricíclico, não ganha nada em equilíbrio.
Como pegar a tempo: Retire o fármaco que produz a queda de pressão ao levantar, mantenha a proteção com o menor número de medicamentos e, na pessoa frágil, com 80 anos ou mais ou com hipotensão ortostática sintomática, siga a diretriz de 2025: monoterapia e redução até o menor valor tolerado, medindo sempre deitado e em pé.
O que dizer ao paciente e à família
A conversa sobre queda tem dois ouvintes com medos opostos. A pessoa idosa teme perder a autonomia — ser proibida de andar, ir para a casa de um filho, virar trabalho. A família teme a próxima queda e acha que proibir é proteger. As falas abaixo, na sala de Dona Teófila, são as que desfazem os dois medos sem mentir para nenhum deles.
Abrir a conversa quando ela diz que foi bobeira
“"Dona Teófila, três quedas em seis meses não são bobeira, e também não são culpa da senhora. Quando uma pessoa cai assim, quase sempre tem mais de um motivo, e alguns deles a gente consegue medir hoje, aqui na sala. Eu quero descobrir por que a senhora caiu — não para proibir nada, mas para a senhora voltar a andar sem medo."”
Não diga: "A senhora precisa tomar mais cuidado." "Foi falta de atenção." A pessoa idosa que ouve que caiu por descuido esconde a próxima queda, e a queda escondida é a que não se investiga.
Responder ao filho que quer a mãe de repouso até se firmar
“"Rogério, eu entendo, e a intenção é proteger. Mas ficar parada é justamente o que tira a firmeza: a cada semana sentada ela perde músculo, o equilíbrio desaprende e a pressão passa a cair mais quando ela levanta. Se ela ficar na poltrona, a próxima queda vai ser pior. O que protege é descobrir as causas, arrumar o caminho do quarto ao banheiro e fazer exercício — e, nas próximas duas semanas, ela anda acompanhada nesse caminho, em vez de não andar."”
Não diga: "Deixa ela quietinha que é melhor." Ou o oposto, desqualificar o filho: "o senhor está atrapalhando". Ele é quem vai estar lá às três da manhã; sai da conversa como aliado ou não sai.
Explicar a pressão que cai quando ela levanta
“"Quando a senhora ficou de pé agora, a pressão caiu bastante, e foi aí que a vista escureceu — do mesmo jeito que naquela noite. Parte disso é do remédio de urinar, que eu vou tirar a partir de amanhã. A outra parte a senhora mesma controla: antes de andar, sente na beira da cama, conte até trinta, fique de pé segurando em alguma coisa firme, e só depois ande. Se a vista escurecer, sente de novo onde estiver."”
Não diga: "A senhora tem hipotensão ortostática." Nome sem instrução não muda o que ela faz às três da manhã. E não diga que a pressão dela está alta demais para tirar remédio: deitada ela vai subir um pouco, e isso foi pensado.
Tocar no clonazepam de doze anos sem que ela ouça que vai perder o sono
“"Esse remédio de dormir a senhora usa há muitos anos, e eu sei que ele é importante para a senhora. Ninguém vai tirar de uma vez, nem agora. Ele deixa o corpo mais lento de madrugada, que é a hora em que a senhora levanta para ir ao banheiro. Daqui a algumas semanas, quando a pressão estiver acertada, a gente começa a diminuir aos poucos, com cada passo escrito, e se o sono piorar muito a gente volta um passo. A senhora vai participar de cada degrau."”
Não diga: "Esse remédio vicia e a senhora vai ter que parar." A palavra vício encerra a conversa, e a promessa implícita de retirada imediata faz a pessoa esconder o frasco ou comprar por fora.
Mexer na casa sem tirar dela o controle da casa
“"A casa é da senhora, e a senhora conhece cada canto dela. O que eu queria sugerir são poucas coisas no caminho da cama até o banheiro: uma luz que a senhora acenda deitada, uma barra para segurar perto do vaso, a cama um pouco mais alta e um sapato que não saia do pé. Nada muda de lugar sem a senhora concordar, e o que mudar a gente treina junto antes de a senhora usar sozinha à noite."”
Não diga: Chegar com a lista de proibições e rearrumar os móveis. O Guia de 2021 pede que a disposição dos móveis não mude sem a ciência e o consentimento da pessoa idosa, e que o novo trajeto seja treinado; a casa rearrumada por outros desorienta justamente à noite.
Combinar o que fazer se ela cair de novo
“"Se a senhora cair de novo, primeiro fique parada um instante e veja se machucou. Não tente levantar com pressa. Se sentir que consegue, vire de lado e chegue devagar até um móvel firme para se apoiar; se não conseguir, não force: chame o Rogério pelo telefone, que vai ficar carregado do lado da cama, e puxe um cobertor para não esfriar. E conte para nós, mesmo que não tenha machucado nada: queda contada é queda que a gente consegue evitar."”
Não diga: Encerrar a visita sem esse combinado. A hora e meia no chão da última queda foi o que a tornou grave, e é o tempo que esse plano encurta.
Fechar a visita com o plano e a data
“"Então ficou assim: hoje a senhora já volta a andar pela casa, com o Rogério junto no caminho do banheiro; amanhã faz o eletrocardiograma e os exames na unidade, e eu tiro o remédio de urinar; nesta semana a equipe volta para a luz, a barra e a cama; em duas semanas eu venho medir a pressão de novo e a fisioterapeuta começa os exercícios. Está tudo escrito na sua Caderneta. A meta é a senhora estar na missa de domingo daqui a um mês e meio."”
Não diga: Terminar com "qualquer coisa, volte". Plano sem data, para quem está com medo, vira poltrona.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Duas ou mais quedas no ano e equilíbrio e marcha comprometidos — Guia de atenção à reabilitação da pessoa idosa, Ministério da Saúde, 2021
O Guia divide as pessoas idosas em dois grupos, em três lugares do texto. Quem não caiu, ou caiu uma vez, e não tem distúrbio de equilíbrio e marcha deve ser estimulado a um programa de condicionamento com exercícios de equilíbrio e fortalecimento. Quem caiu duas ou mais vezes no último ano e tem equilíbrio e marcha comprometidos deve passar por avaliação dos fatores de risco intrínsecos, extrínsecos e comportamentais, com intervenção sobre os modificáveis. Sobre o tempo no chão, o Quadro 7 registra que ficar mais de duas horas é sinal de pior prognóstico. É o documento federal mais recente escrito para equipe profissional sobre quedas.
Brasil. Ministério da Saúde. Guia de atenção à reabilitação da pessoa idosa. Brasília, 2021, p. 36, p. 69 e Quadro 7
Uma queda com qualquer marcador de gravidade — World Falls Guidelines, 2022
A diretriz internacional classifica como alto risco quem caiu e tem ao menos um destes dados: lesão, duas ou mais quedas em doze meses, fragilidade já conhecida, uma hora ou mais no chão sem conseguir se levantar sem ajuda, ou suspeita de perda transitória de consciência. Alto risco recebe avaliação multifatorial e intervenção multidomínio. Uma queda sem gravidade, com alteração de marcha ou equilíbrio — velocidade abaixo de 0,8 m/s ou teste de levantar e andar acima de 15 segundos —, é risco intermediário e recebe exercício de força e equilíbrio; sem alteração, baixo risco, com educação, exercício e reavaliação anual.
Montero-Odasso M, van der Velde N, Martin FC, et al. World guidelines for falls prevention and management for older adults: a global initiative. Age Ageing. 2022;51(9):afac205, estratificação na comunidade
Esta apostila adota a régua de 2022, e a decisão sai já no primeiro degrau, o do escopo: a pergunta é quem precisa de avaliação multifatorial de quedas, e a World Falls Guidelines foi escrita para prevenir e manejar quedas em pessoas idosas, enquanto o Guia é um documento de reabilitação que trata de todas as síndromes geriátricas. A data confirma, porque a diretriz internacional é posterior ao Guia de novembro de 2021, e a natureza não inverte nada, porque o Guia é um guia técnico e não uma portaria ou um protocolo clínico. O quarto degrau fecha a questão por conta própria: a estratificação do Guia deixa sem destino três das seis combinações possíveis de número de quedas e estado da marcha, e não reconhece fratura nem tempo no chão como gatilho — a conta está no bloco de critérios. A escolha não tira ninguém que o Guia avaliaria, porque duas ou mais quedas com marcha comprometida são alto risco nas duas réguas; ela acrescenta quem caiu duas vezes e anda bem, quem fraturou numa única queda, quem perdeu a consciência e quem ficou entre uma e duas horas no chão. Para Dona Teófila, as duas réguas dão o mesmo resultado. Para a pessoa com uma queda, marcha lenta e nenhum marcador, só a régua adotada dá destino: exercício dirigido de força e equilíbrio, ou fisioterapia.
Indicada a partir dos 65 anos — Diretriz BRASPEN de terapia nutricional no envelhecimento, 2019
A diretriz afirma que a suplementação de vitamina D, associada ou não ao cálcio, está indicada para pessoas idosas com 65 anos ou mais, porque nessa faixa o risco de deficiência — 25-hidroxivitamina D abaixo de 20 ng/mL — é maior, com mais chance de quedas e fraturas. No mesmo parágrafo, pede avaliação e reposição individualizadas de cálcio, vitamina D e ferro, baseadas nas ingestões de referência, e a lista dessas ingestões para pessoas idosas traz 20 µg por dia de vitamina D.
Gonçalves TJM, Horie LM, et al. Diretriz BRASPEN de terapia nutricional no envelhecimento. BRASPEN J. 2019;34(Supl 3):2-58, seção de micronutrientes
Pode ser dada, especialmente a grupos de risco — Caderno de Atenção Básica nº 19, Ministério da Saúde, 2006
No capítulo de osteoporose, o Caderno diz que a vitamina D pode ser administrada na dose de 400 a 800 UI por dia, especialmente em mulheres acima de 65 anos, em pessoas idosas institucionalizadas ou com osteoporose estabelecida, e registra que permanecem incertezas sobre vitamina D isolada para prevenir fraturas. O capítulo de quedas do mesmo Caderno não inclui a vitamina D entre as medidas práticas para reduzir quedas.
Brasil. Ministério da Saúde. Envelhecimento e saúde da pessoa idosa. Cadernos de Atenção Básica nº 19. Brasília, 2006, capítulos 11 e 12
Reservada a quem tem risco de deficiência — World Falls Guidelines, 2022
A diretriz internacional diz que a suplementação de vitamina D para prevenir queda deve ser reservada a quem tem risco de deficiência. Pessoas institucionalizadas ou restritas ao domicílio recebem suplementação padrão, sem necessidade de dosagem; na comunidade, o estado de vitamina D é avaliado conforme a diretriz local; para quem tem risco aumentado de deficiência, 800 a 1.000 UI por dia é razoável. Em instituição de longa permanência, a vitamina D entra na intervenção multidomínio junto com alimentação rica em cálcio e proteína.
Montero-Odasso M, van der Velde N, Martin FC, et al. Age Ageing. 2022;51(9):afac205, mensagens-chave, avaliação nutricional e recomendações para instituições
Esta apostila adota a suplementação só para quem tem risco de deficiência, e decide no degrau do escopo. A pergunta aqui é prevenir queda, e os dois documentos escritos para queda — o capítulo de quedas do Caderno de 2006 e a diretriz internacional de 2022 — não recomendam vitamina D para toda pessoa idosa; a recomendação universal da BRASPEN é de uma diretriz de nutrição, justificada por fraturas e outros transtornos, e o próprio parágrafo dela pede reposição individualizada. Na prática: quem está restrito ao domicílio, acamado ou institucionalizado recebe 800 UI por dia sem dosar; quem tem osteoporose segue Osteoporose pós-menopausa: rastreamento e prevenção, na apostila de Ginecologia; quem sai de casa e não tem outra razão para deficiência não recebe vitamina D para prevenir queda. O elenco do SUS muda a prescrição: a Rename 2024 tem colecalciferol só associado ao cálcio, e 800 UI são 2 comprimidos de carbonato de cálcio 1.250 mg com 400 UI, que trazem junto 1.000 mg de cálcio elementar — conte o cálcio da dieta, vigie a constipação de quem está parado e não chegue aos 800 UI com quatro comprimidos de 200 UI, que somariam 2.000 mg de cálcio. Dona Teófila, que voltou a sair, fica sem vitamina D; Dona Dalvina, acamada, do caso para completar, recebe.
Menor que 31 cm, nos dois sexos — Caderneta da Pessoa Idosa, 6ª edição, Ministério da Saúde, 2025
No Índice de Vulnerabilidade Clínico-Funcional, o item de capacidade aeróbica e muscular dá 2 pontos a quem tem uma de quatro condições: perda de peso não intencional acima dos limites do item, índice de massa corporal abaixo de 22 kg/m², circunferência da panturrilha menor que 31 cm ou mais de 5 segundos para andar quatro metros. O corte de panturrilha é o mesmo para mulheres e homens e compõe um índice global de vulnerabilidade, usado como escore de risco inicial na Caderneta.
Brasil. Ministério da Saúde. Caderneta da Pessoa Idosa. 6. ed. Brasília, 2025, Índice de Vulnerabilidade Clínico-Funcional, item 14
33 cm ou menos na mulher e 34 cm ou menos no homem — Diretriz BRASPEN de terapia nutricional no envelhecimento, 2019
Para rastrear sarcopenia, a diretriz sugere o SARC-CalF, que soma 10 pontos quando a panturrilha direita, medida em pé com os pés afastados 20 cm, tem 33 cm ou menos na mulher ou 34 cm ou menos no homem; 11 pontos ou mais sugerem sarcopenia e levam à investigação completa. A diretriz apresenta esses cortes como os indicativos de redução de massa magra na população de idosos brasileiros.
Gonçalves TJM, Horie LM, et al. BRASPEN J. 2019;34(Supl 3):2-58, Tabelas 2 e 3
Esta apostila adota as duas, cada uma no instrumento em que foi validada, e a régua que decide é a do escopo. Para a pergunta esta pessoa tem sarcopenia?, vence o documento escrito para sarcopenia, e o corte é o da BRASPEN; para pontuar o Índice de Vulnerabilidade Clínico-Funcional, o número é o do próprio índice, porque trocar um corte dentro de um escore muda o escore inteiro. As duas não brigam pelo mesmo paciente depois de separadas: a mulher com panturrilha de 32 cm não pontua no item 14 do índice da Caderneta, soma 10 pontos no SARC-CalF e, com qualquer outro ponto, entra na investigação de força. Quem ler só o índice e concluir que a panturrilha está normal perde a sarcopenia que a outra régua encontraria; quem usar 33 cm dentro do índice infla uma vulnerabilidade que o índice não mediu.
O raciocínio, em voz alta
Terça-feira, consulta de hipertensão na unidade. Seu Evaristo Azambuja tem 74 anos, 78 quilos, é motorista de ônibus aposentado e mora com a mulher numa casa de dois cômodos sem escada. Veio buscar a receita do anlodipino 5 mg, que toma há quatro anos. Você faz as três perguntas antes da receita. Ele caiu uma vez, há dois meses: tropeçou num desnível da calçada, de dia, indo à padaria, apoiou as mãos, levantou sozinho na hora e não se machucou nem procurou atendimento. Não sentiu nada antes, lembra da queda inteira e a mulher estava ao lado. Diz que anda um pouco inseguro na rua desde então, mas que não tem medo. Não usa outro medicamento, não bebe e não tem diabetes. A pressão deitada é 140/84 mmHg; em pé, 136/82 mmHg no primeiro minuto e 134/80 mmHg no terceiro, sem sintoma. Os quatro metros levam 6,1 segundos. Levanta da cadeira sem as mãos, devagar, e oscila quando põe um pé à frente do outro. A panturrilha mede 35 cm. Enxerga bem de óculos, tem sensibilidade preservada nos pés e usa sandália sem apoio atrás.
o que eu descarto antes de medir qualquer coisa
A queda tem explicação mecânica — tropeço, de dia, com testemunha e memória completa —, não houve lesão, não houve batida de cabeça e ele está como sempre foi. Nada manda ao pronto-socorro e nada aponta para síncope. A pergunta que resta é a da estratificação, e ela só existe porque eu perguntei: ele veio buscar receita.
os marcadores de alto risco, um por um
Uma queda, não duas. Nenhuma lesão. Nenhuma fragilidade conhecida. Levantou na hora, sem tempo no chão. Nenhuma perda de consciência. Pela World Falls Guidelines, ele não é alto risco, e a avaliação multifatorial completa não é o passo seguinte. Isso não significa não olhar nada: a pressão deitada e em pé, feita em dois minutos, afasta hipotensão ortostática, e o único medicamento em uso não está entre os que mais derrubam.
a marcha decide o degrau
Quatro metros em 6,1 segundos são 0,66 m/s, velocidade menor que os 0,8 m/s que a diretriz internacional usa como linha; pelo índice da Caderneta, que marca mais de 5 segundos, também pontua. Uma queda sem gravidade com marcha lenta é risco intermediário. É aqui que a régua federal de 2021 deixa um buraco: o Guia de reabilitação dá destino a quem caiu uma vez sem distúrbio de marcha e a quem caiu duas vezes com distúrbio, e não diz o que fazer com Seu Evaristo. Pela régua que esta apostila adota, ele tem destino: exercício dirigido de força e equilíbrio.
o que eu prescrevo, e o que eu não prescrevo
Exercício de equilíbrio desafiador e funcional, três ou mais vezes por semana, progressivo, por pelo menos doze semanas, no grupo de pessoas idosas da unidade ou com a fisioterapia da equipe; força de membros inferiores duas a três vezes por semana. Caminhada, que ele pensa em começar sozinho, é boa para a saúde, mas não é treino de equilíbrio, e a própria diretriz internacional pondera o risco de queda de quem é inativo e começa a andar depressa. Troca da sandália por calçado com apoio no calcanhar. Não prescrevo vitamina D: ele sai de casa todo dia, não tem osteoporose conhecida e não tem outra razão para deficiência. Não peço exames: não há suspeita que eles respondam.
o que eu escrevo na Caderneta
Uma queda mecânica há dois meses, sem gravidade; pressão deitada e em pé sem hipotensão ortostática; velocidade de marcha de 0,66 m/s; risco intermediário; exercício de força e equilíbrio iniciado; reavaliação da marcha em doze semanas. E a frase que o próximo médico precisa ler: se houver nova queda, a estratificação recomeça do alto risco, porque ele terá duas no mesmo ano.
o que eu confiro na volta
Em doze semanas, os quatro metros devem levar menos tempo e ele deve sustentar um pé à frente do outro. Se levar 5 segundos ou menos e não tiver caído, ele passa a baixo risco, mantém o exercício e volta a ser reavaliado uma vez por ano. Se a marcha não melhorar com o exercício feito de verdade, a marcha lenta deixa de ser só descondicionamento e pede exame neurológico e investigação da causa.
Faça você
Visita domiciliar pedida pela filha. Dona Dalvina Quintela tem 88 anos, 46 quilos, é viúva e mora com a filha. Até dois meses atrás andava dentro de casa com bengala e ia até o portão. Ficou nove dias internada por pneumonia e voltou para casa fraca; desde a alta passa o dia entre a cama e uma cadeira de rodas emprestada. Caiu duas vezes nas primeiras semanas, as duas à noite, tentando ir sozinha ao banheiro, sem lesão e sem perda de consciência; nas duas a filha a encontrou em poucos minutos. Depois da segunda queda, a filha passou a usar fralda e a deixá-la deitada, com a grade da cama levantada. Está lúcida e conversa bem, sem febre e sem falta de ar. Levanta da cama só com duas pessoas, e os joelhos não estendem por completo. A pele do sacro está avermelhada, e a vermelhidão clareia à pressão do dedo. Evacua a cada quatro ou cinco dias e come metade do prato. A panturrilha mede 27 cm. Deitada, a pressão é 128/70 mmHg; sentada na beira da cama por três minutos, cai para 110/64 mmHg e ela diz que a cabeça fica leve. Usa sinvastatina e omeprazol e, desde a internação, risperidona 1 mg à noite, receitada por agitação no hospital e nunca revista.
o que já está decidido na porta
Ela não tem sinal de doença aguda nem de lesão, está no próprio basal recente e pode ser conduzida em casa. Tem duas quedas em poucas semanas e está restrita ao leito: é alto risco de queda e tem síndrome da imobilidade em instalação, com contratura começando, pele sob pressão, constipação, ingestão baixa e queda de pressão ao sentar. A grade levantada e a fralda sem necessidade de continência são parte do problema, não da solução.
o que o inventário da imobilidade pede nas próximas duas semanas
A pele que clareia à pressão ainda não é lesão por pressão, e a prevenção começa hoje, com mudança de decúbito e alívio do sacro; se ela deixar de clarear, o estadiamento e o curativo seguem Lesão por pressão: estadiamento, prevenção e curativo. A queda de pressão ao sentar é esperada depois de semanas deitada e é o motivo de começar a remobilização pelos degraus: sentar na beira da cama com os pés apoiados, depois ficar de pé com apoio, depois transferir para uma cadeira firme. A risperidona iniciada no hospital precisa de revisão, pelo capítulo de polifarmácia.
a pergunta que falta responder
Ela está restrita ao domicílio e ao leito. Decida se recebe vitamina D, com que dose e com que apresentação do elenco do SUS, e o que precisa ser vigiado por causa dessa apresentação.
Ver como fecharíamos
Dalvina tem alto risco de deficiência de vitamina D por restrição ao domicílio/leito e baixa ingestão. É razoável suplementar, por exemplo 800 UI/dia segundo a referência usada no capítulo, dentro de um plano de nutrição, saúde óssea e reabilitação. Não é necessário dosar vitamina D rotineiramente apenas para iniciar essa dose em quem tem indicação clínica, mas situações específicas podem exigir investigação. A formulação precisa ser escolhida depois de estimar o cálcio alimentar, função renal, risco de cálculo e constipação. Se houver indicação também de cálcio e for escolhida a associação de carbonato de cálcio 1.250 mg + colecalciferol 400 UI, dois comprimidos fornecem 800 UI de vitamina D e 1.000 mg de cálcio elementar por dia. Essa conta não torna obrigatório acrescentar 1 g de cálcio a toda pessoa que precisa de vitamina D; conferir opções isoladas disponíveis na rede local quando a associação não for adequada. Não usar quatro comprimidos de 200 UI se isso impuser carga excessiva de cálcio. Acompanhar intestino, ingestão, peso e segurança da mobilização. O centro do plano é remobilização supervisionada em etapas, fortalecimento, adequação alimentar, revisão da risperidona iniciada na internação, alívio de pressão e ajuda para usar o banheiro. A meta proteica de 1,2–1,5 g/kg/dia corresponde a aproximadamente 55–69 g/dia, ajustada pela avaliação nutricional e por condições que exijam outra meta. Registrar quem executa cada medida e retorno precoce; a vitamina não substitui essas intervenções.
A World Falls Guidelines de 2022 classifica como alto risco quem caiu e passou uma hora ou mais no chão sem conseguir se levantar, mesmo sem lesão e com marcha normal; 80 minutos preenchem o critério, e a velocidade de 0,91 m/s não o desfaz, porque a marcha só entra na estratificação de quem não tem marcador de gravidade. O Guia de atenção à reabilitação da pessoa idosa, de 2021, usa outro relógio: chama de sinal de pior prognóstico ficar mais de duas horas no chão, e não trata esse dado como gatilho de avaliação. Este capítulo adota a régua internacional, que decide pelo escopo, pela data e pela coerência. A creatinoquinase pode ser útil na avaliação clínica de quem ficou horas no chão, mas não é critério de estratificação de risco de queda.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Descreva a avaliação de quem caiu em casa, separando sinais de urgência e fatores modificáveis. Explique como medir pressão ortostática e planejar remobilização protegida.
Em 30 dias
Uma pessoa passa meses sem cair, mas permanece frágil e com marcha lenta. Reestratifique pelo conjunto, revise o plano de exercício e medicamentos e explique por que ausência de quedas não encerra o acompanhamento.
Agora atenda
Agora atenda: visita domiciliar pela equipe de saúde da família. Mulher de 83 anos, trazida ao seu conhecimento pela agente comunitária porque caiu duas vezes em quatro meses e, desde a última queda, a família a mantém sentada no quarto. Pergunte cada queda com o tempo no chão e se houve perda de consciência; descarte o que precisa de pronto-socorro; esvazie a sacola e ligue os medicamentos às datas das quedas; meça a pressão deitada e em pé com a técnica certa; cronometre os quatro metros e observe o levantar da cadeira; meça a panturrilha; percorra o trajeto noturno da casa. Diga o risco e a régua que usou, explique à família por que a restrição não protege, e escreva o plano com a primeira mudança de medicamento e a data do retorno.
