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A massa que o ultrassom achou
Câncer de ovário e massa anexial: avaliação de risco de malignidade e encaminhamento
Quem faz a primeira cirurgia decide o resto
Silva Filho AL, Moretti-Marques R, Carvalho JP. Massa anexial: diagnóstico e manejo. Femina. 2020;48(7):391-7. Febrasgo Position Statement número 1, julho de 2020, referendado pela Comissão Nacional Especializada em Ginecologia Oncológica da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia
Brasil. Ministério da Saúde. Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS. Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas de Neoplasia maligna epitelial de ovário. Relatório número 401, janeiro de 2019. Aprovadas pela Portaria Conjunta SCTIE/SAES/MS número 1, de 7 de janeiro de 2019
Brasil. Ministério da Saúde. Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS. Neoplasia maligna epitelial de ovário: versão resumida das Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas. Portaria Conjunta SCTIE/SAES/MS número 1, de 7 de janeiro de 2019
Brasil. Ministério da Saúde. Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas: Neoplasia Maligna Epitelial de Ovário. Brasília, agosto de 2026. Relatório de recomendação, versão preliminar submetida à Consulta Pública número 84 de 2026
Instituto Nacional de Câncer (Brasil). Estimativa 2026: incidência de câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA, 2026. 168 p. ISBN 978-65-88517-52-9 (versão eletrônica)
Brasil. Lei número 12.732, de 22 de novembro de 2012, que dispõe sobre o primeiro tratamento de paciente com neoplasia maligna comprovada e estabelece prazo para seu início, com o parágrafo 3º do artigo 2º acrescido pela Lei número 13.896, de 30 de outubro de 2019
Geomini P, Kruitwagen R, Bremer GL, Cnossen J, Mol BW. Comparison of four malignancy risk indices in the detection of malignant ovarian masses. J Minim Invasive Gynecol. Artigo de acesso aberto que reproduz as definições originais dos índices de risco de malignidade
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 252 p. ISBN 978-65-5993-710-3
Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica. Diretrizes de tratamentos oncológicos, capítulo "Ovário: tumores epiteliais". Data de publicação 1º de maio de 2024
RCOG. Green-top Guideline 34 — Ovarian cysts in postmenopausal women; atualização menor de dezembro de 2025.
Responda antes de ler
Considere o índice de risco de malignidade RMI = U × M × CA-125. U vale 0 sem achados ultrassonográficos de risco, 1 com um achado e 3 com mais de um; M vale 1 na pré-menopausa e 3 na pós-menopausa. Usando corte de 200 e referência laboratorial de CA-125 até 35 U/mL, qual afirmação está correta?
O paciente que você vai ver
Quinta-feira, oito e quarenta da manhã, unidade básica de saúde de um bairro que cresceu depressa e ficou sem asfalto em três ruas. A agenda tem quinze nomes. Antes da primeira ficha, a enfermeira deixa duas pastas na mesa, uma sobre a outra, e diz o que já explica por que elas vieram juntas: "as duas são resultado de ultrassom, e as duas estão escritas quase igual."
A de cima é de Josiane Vasques, 36 anos, auxiliar de lavanderia de hospital. Ela pediu o exame no mês passado: uma dor no baixo-ventre que aparece e some há mais ou menos um ano. O laudo termina numa linha de conclusão: massa anexial à direita. Acima da conclusão, na descrição, está o que interessa e o que quase ninguém lê — imagem cística de 4,2 centímetros, unilocular, de conteúdo anecoico homogêneo, parede fina e regular, sem septo, sem projeção papilar, sem componente sólido, sem líquido livre na pelve.
A de baixo é de Hortência Cordeiro, 63 anos, aposentada da cozinha de uma escola municipal. Ela não pediu exame nenhum: fez a ultrassonografia porque o médico do posto quis olhar os rins depois de uma infecção urinária. O laudo termina exatamente com a mesma linha de conclusão: massa anexial à direita. E a descrição, acima, diz outra coisa — imagem mista de 9,4 centímetros, multilocular, com septos espessos, área sólida de 2,8 centímetros com vascularização ao Doppler, e moderada quantidade de líquido livre no fundo de saco.
Duas mulheres, uma frase de conclusão idêntica, e duas doenças diferentes. Uma delas provavelmente não tem doença nenhuma e vai passar o dia inteiro achando que tem. A outra tem alta probabilidade de câncer de ovário, chegou até aqui por acaso, e o que vai acontecer com ela nas próximas seis semanas depende quase inteiramente de uma decisão que você vai tomar hoje de manhã, com essas duas folhas de papel na mão.
A decisão não é o diagnóstico. Nenhum exame que você possa pedir nesta sala vai dizer se é câncer — isso quem diz é o patologista, depois de uma cirurgia. A decisão é outra, e ela tem três saídas: esta massa precisa de cirurgião oncológico, precisa de ginecologista geral, ou precisa apenas de outro ultrassom daqui a alguns meses? O capítulo inteiro serve para você acertar essa escolha, porque acertá-la na primeira consulta é a coisa mais determinante que alguém vai fazer por Hortência.
Antes de qualquer uma das três, há uma pergunta que vem primeiro e que não é sobre câncer. Josiane tem 36 anos, ciclos, vida sexual ativa e nenhum método contraceptivo confiável. Massa anexial em mulher que pode estar grávida é gravidez ectópica até que um teste diga o contrário, e esse teste é a primeira coisa que se pede — não porque seja provável, mas porque é o único diagnóstico da lista que mata em horas. O que fazer com um teste positivo é assunto do capítulo de Gravidez ectópica, na apostila de Obstetrícia. O que fazer com o negativo é assunto daqui.
Quem adoece disso
São 8.020 os casos novos de câncer de ovário estimados para o Brasil em cada ano do triênio de 2026 a 2028, com risco de 7,33 casos a cada 100 mil mulheres. Isso põe a doença em oitavo lugar entre os cânceres femininos e em décimo nono no conjunto da população, fora os tumores de pele não melanoma. Guardadas as duas posições, o número parece pequeno: é 3,1% dos casos de câncer em mulheres no país.
A epidemiologia deste capítulo, porém, não está na incidência. Está na razão entre óbitos e casos, e ela se calcula com dois números da mesma publicação do Instituto Nacional de Câncer. Em 2023 morreram 4.444 mulheres de câncer de ovário no Brasil. Para 8.020 casos novos por ano, isso dá 55 óbitos para cada 100 casos. O mesmo cálculo, com os números da mesma tabela, dá 26 para o câncer de mama, 37 para o câncer do colo do útero e 27 para o câncer do corpo do útero. As duas séries são de anos diferentes — incidência estimada para 2026, mortalidade observada em 2023 —, de modo que a razão é uma aproximação e não uma letalidade medida. Ainda assim, a ordem de grandeza responde à pergunta de por que este capítulo existe: entre os cânceres ginecológicos, o de ovário é o que mais mata em proporção ao que diagnostica.
A razão dessa desproporção cabe numa frase, e ela está no relatório preliminar do novo protocolo nacional: mais de 70% dos casos são diagnosticados em estágio avançado. Não é falha de acesso apenas. É que a doença cresce numa cavidade que não tem paredes rígidas, não sangra pela vagina, não obstrui nada enquanto é pequena, e produz sintomas que qualquer plantonista atribui a intestino. A idade média ao diagnóstico é de 63 anos, e a apresentação típica não é um sintoma: é uma massa anexial encontrada no exame pélvico ou de imagem.
Do lado das massas, a estatística se inverte e é preciso segurá-la com a mesma firmeza. A maior parte das massas anexiais é benigna, assintomática e descoberta por acaso. Isso vale inclusive depois da menopausa: apesar do risco maior de malignidade nessa faixa, a maioria das massas anexiais em mulheres na pós-menopausa continua sendo neoplasia benigna, sobretudo cistoadenoma, e cisto simples é comum e sem repercussão clínica. Cisto simples e cisto hemorrágico em idade reprodutiva são quase sempre fisiológicos. Um capítulo que produza medo em vez de método vai gerar cirurgia desnecessária, que é o dano mais frequente deste tema.
Entre os que são malignos, cerca de 90% a 95% são epiteliais. O restante se divide entre tumores de células germinativas, que aparecem em mulheres jovens e mudam a lista de marcadores que se pede, e tumores de cordões sexuais e estroma, que produzem hormônio. Os diagnósticos de malignidade se concentram nos dois extremos da vida — pré-adolescência e pós-menopausa —, enquanto as massas em geral são mais comuns na menacme, que é justamente onde as benignas se acumulam.
Mutação germinativa nos genes BRCA1 e BRCA2 está presente em cerca de 10% a 15% dos casos, segundo o Instituto Nacional de Câncer; a régua da massa anexial fala em 10% a 18% com padrão hereditário atribuído a esses genes. As duas faixas se sobrepõem e vêm de bases diferentes, e o que fica de útil é o piso comum: uma em cada dez mulheres com câncer de ovário carrega uma mutação que tem consequência para as irmãs e as filhas dela. Ao longo da vida, o risco é de 39% a 46% com mutação em BRCA1 e de 11% a 27% com mutação em BRCA2; a síndrome de Lynch dá risco estimado de 5% a 10% até os 70 anos.
Por que acontece o que acontece
O nome do capítulo mente por conveniência. A massa é anexial, e anexo quer dizer ovário, tuba uterina e o que está em volta dos dois — mas o carcinoma seroso de alto grau, que é o subtipo mais frequente e o que produz a mortalidade da doença, se origina no epitélio tubário. O que se chama de câncer de ovário começa, na maioria das vezes, na fímbria da trompa, e o ovário é onde ele se instala. Essa não é uma curiosidade de patologia: é a razão de a salpingectomia oportunística ser recomendada como profilaxia — retirar as tubas quando já se está operando por outro motivo, na ligadura tubária ou na histerectomia, é cirurgia de baixo risco e eficaz para prevenir o câncer que nasceria ali.
O ovário está solto na cavidade peritoneal e não tem cápsula que o prenda a nada. Um tumor que cresce nele não distende um órgão oco, não comprime um ureter enquanto é pequeno, não desce pelo canal cervical e não sangra pela vagina. Ele cresce para dentro de um espaço que aceita crescimento sem produzir sintoma. Quando o sintoma finalmente aparece, ele vem de duas coisas que só acontecem tarde: o volume, que empurra bexiga e intestino, e a disseminação peritoneal, que produz ascite. É por isso que a doença é silenciosa — não porque não emita sinal, mas porque o compartimento em que ela mora não converte volume em sintoma.
A disseminação também é peculiar e explica o resto da conduta. As células descamam da superfície do tumor e circulam com o líquido peritoneal, implantando-se onde ele para: goteiras parietocólicas, superfície diafragmática, epíplon, alças de delgado. Não é uma metástase por via sanguínea que se resolve com droga sistêmica; é um semeio de superfície, e superfície se trata retirando implante por implante. Essa é a razão mecânica de a cirurgia mandar tanto neste câncer, e de a qualidade dela ser um determinante de sobrevida, e não um detalhe técnico.
Daí vem a frase mais importante do capítulo, e ela é sobre logística e não sobre biologia. O câncer de ovário é uma doença estadiada cirurgicamente: o estádio não sai de um exame de imagem, sai do que o cirurgião viu, biopsiou e ressecou. Se a primeira cirurgia foi feita por quem não sabe estadiar, o estádio nunca existiu, a quimioterapia seguinte é escolhida no escuro, e o que se perdeu não se recupera com uma segunda operação. Por isso o encaminhamento certo na primeira consulta muda desfecho: ele determina quem vai operar, e quem opera determina o que se sabe da doença.
O extravasamento do conteúdo cístico entra na mesma lógica. Um tumor confinado ao ovário que se rompe dentro do abdome durante a retirada deixa de estar confinado. A ruptura pode alterar o estadiamento em casos iniciais e pode, sozinha, indicar quimioterapia adjuvante que não seria necessária. É por isso que a régua brasileira manda evitar o extravasamento sempre, no pré e no intraoperatório, e retirar a peça dentro de bolsa, sem derramamento na cavidade. Não é preciosismo cirúrgico: é evitar transformar um estádio I num estádio que exige tratamento.
O CA-125 precisa ser entendido pelo que ele é, porque só assim os seus defeitos deixam de ser surpresa. É uma glicoproteína de membrana expressa por tecidos derivados do epitélio celômico e mulleriano — o mesmo tecido embrionário que forma peritônio, pleura, pericárdio, endométrio, tuba e superfície do ovário. Ele não é um produto do câncer: é um produto daquele epitélio, que aumenta quando aquele epitélio está irritado, proliferando ou inflamado. Por isso sobe na endometriose, na doença inflamatória pélvica, na gravidez, na menstruação, na cirrose com ascite e em qualquer processo que mexa com peritônio. Um marcador que mede irritação de serosa não pode ter especificidade para câncer, e não tem.
O mesmo mecanismo explica o outro defeito, mais perigoso porque produz falsa segurança. O CA-125 está elevado em cerca de 80% dos carcinomas ovarianos, mas principalmente nos avançados — menos da metade das portadoras de carcinoma ovariano em fase inicial tem o marcador acima do normal. A quantidade de epitélio doente ainda é pequena, e o que se dosa é quantidade. Ou seja: o marcador falha exatamente na situação em que ele seria útil, que é a doença precoce, e acerta na situação em que a imagem e o exame físico já contaram tudo.
Um último mecanismo, este de laboratório e não de doença. A proteína 4 do epidídimo humano, o HE4, existe na prática clínica por uma razão específica: as suas concentrações não variam com o ciclo menstrual, com contraceptivos nem com a endometriose, embora variem com a idade, o tabagismo e a doença renal crônica. Isso a torna útil precisamente onde o CA-125 mais atrapalha — na mulher jovem com endometrioma e CA-125 elevado, em que a pergunta é se aquela elevação é da endometriose conhecida ou de outra coisa.
Como se apresenta de verdade
Uma massa anexial exige separar emergência, provável benignidade e suspeita de malignidade. Você deve ler morfologia, contexto menopausal e sintomas em conjunto, sem se apoiar apenas no tamanho ou no CA-125. O encaminhamento precisa chegar ao serviço adequado antes de um procedimento que comprometa o planejamento.
Percurso clínico: Distinguir massa incidental de urgência
Interprete morfologia, idade, estado menopausal, sintomas e evolução, sem usar marcador tumoral como diagnóstico isolado. Dor aguda ou sinais de instabilidade abrem o percurso próprio de emergência, incluindo torção. Massa estável requer plano explícito de observação ou referência conforme risco.
A primeira pergunta é se ela pode estar grávida
Toda mulher em idade reprodutiva com massa anexial faz teste de gravidez. A régua brasileira da massa anexial é explícita nisso: o teste de gravidez em mulheres em idade reprodutiva é obrigatório. Não é para descartar uma possibilidade remota — é porque a gravidez ectópica é o único item da lista de diagnósticos diferenciais que pode matar dentro do mesmo dia, e porque o quadro clínico dela é indistinguível do de meia dúzia de causas benignas.
Um teste positivo tira a paciente deste capítulo na mesma frase. A partir dali a régua é a do capítulo de Gravidez ectópica, na apostila de Obstetrícia, que trata a leitura conjunta do beta-hCG quantitativo com a ultrassonografia, o valor discriminatório, a distinção entre corpo lúteo intraovariano e massa extraovariana, e a escolha entre conduta expectante, metotrexato e cirurgia. Nada disso se refaz aqui, e tentar fazê-lo produziria duas réguas para a mesma decisão.
Um teste negativo devolve a paciente para cá, e devolve com uma informação: a massa não é gestacional. Isso não é pouco, porque a massa anexial extraovariana com anel tubário é o achado que fecha o diagnóstico de ectópica em qualquer valor de beta-hCG, e afastá-lo permite ler o resto do laudo com outra cabeça.
Há uma armadilha de ordem prática. O teste que interessa é o do dia, e não o da última consulta; e a paciente que diz que fez laqueadura não está isenta, porque a falha de laqueadura tem taxa alta de implantação tubária. A pergunta se faz para todas, e a resposta se registra.
Idade e estado menopausal: a variável que o interno subestima
Antes de qualquer imagem e de qualquer marcador, o dado que mais desloca a probabilidade de malignidade é a idade, e depois dela o estado menopausal. A régua brasileira chama a idade de fator de risco independente e significativo, com aumento expressivo da incidência depois da menopausa, e registra que o câncer de ovário é relativamente raro antes dos 50 anos. A idade média ao diagnóstico, no protocolo nacional, é de 63 anos.
O erro do interno é tratar isso como um item da lista, e não como o que é: a variável que reordena tudo o que vem depois. As mesmas palavras num laudo — cisto de 5 centímetros, septado — significam coisas diferentes aos 28 e aos 68 anos, e é por isso que a conduta pelo laudo isolado não existe. Quem lê a descrição sem saber a idade não está lendo o exame; está lendo metade dele.
Estado menopausal não é idade, e a diferença aparece nos dois extremos. Uma mulher de 46 anos que não menstrua há dois anos é pós-menopausa; uma de 54 que ainda menstrua não é. A confusão entre os dois conceitos é frequente e tem consequência, porque o fator menopausal entra multiplicando dentro do índice de risco de malignidade, como se verá na seção de investigação — e triplicar o índice de quem não deveria ser triplicada muda a conduta.
Há uma faixa que o interno esquece porque quase nunca a vê: a pré-púbere. A proporção de neoplasias malignas entre massas anexiais é maior na mulher pré-púbere do que na menacme, e por isso, nessa idade, qualquer massa anexial com componente sólido deve ser investigada com exame anatomopatológico. É o único lugar deste capítulo em que a régua pende para operar antes de observar.
Os sintomas que existem, e por que ninguém os ouve
A frase de que o câncer de ovário é assintomático é falsa e prejudicial. Ele tem sintomas; eles simplesmente não parecem ginecológicos. Nos 12 meses anteriores ao diagnóstico, a mulher costuma ter tido queixas inespecíficas que imitam a síndrome do intestino irritável: empachamento, distensão, dispepsia, dor abdominal ou lombar vaga, alteração do hábito intestinal, sensação de bexiga cheia, fadiga e perda de peso não explicada.
O que diferencia essas queixas das de um intestino irritável verdadeiro não é a natureza delas, é o perfil temporal e a companhia. A régua da massa anexial descreve o aparecimento como súbito, recente e persistente, em contraste com o padrão antigo e intermitente do intestino funcional. E descreve a soma: sintomas múltiplos e persistentes, e não um sintoma isolado. Uma mulher de 58 anos que nunca teve intestino ruim e há três meses vive empachada não tem síndrome do intestino irritável de início tardio; tem alguma coisa nova no abdome.
A diretriz nacional guarda uma instrução que quase ninguém aplica e que vale escrever inteira: em mulher com sintomas de síndrome do intestino irritável, principalmente acima dos 50 anos, mede-se o CA-125, e se os sintomas persistirem com o marcador normal, faz-se ultrassonografia pélvica ou outro exame de imagem. Note a ordem e note o desfecho: marcador normal com sintoma persistente não encerra nada; manda pedir imagem.
Esses sintomas não fazem diagnóstico e não devem virar rastreamento. O que eles fazem é abrir a porta do exame de imagem numa mulher que, sem eles, sairia da consulta com um antiespasmódico. É a diferença entre um diagnóstico em estádio III e um em estádio IV, e frequentemente é tudo o que a atenção primária pode oferecer nesta doença.
O que o exame físico ainda entrega
A régua brasileira é honesta ao dizer que o exame clínico tem baixa sensibilidade para detectar massas anexiais. Ele não serve para achar. Serve para caracterizar quem já se sabe que tem — e essa é uma função diferente, que muda o encaminhamento.
O que se procura no abdome: ascite, massa abdominopélvica palpável, a mobilidade dessa massa e a relação dela com útero, bexiga e retossigmoide ao toque vaginal. O que se procura fora do abdome: perda de peso, linfonodo superficial palpável, edema de membros inferiores por compressão ou obstrução linfática, e o desempenho funcional da paciente, que decide o que ela suporta de cirurgia.
Três achados são de escrita obrigatória no encaminhamento quando existirem, porque cada um deles, sozinho, já basta para mandar a paciente ao ginecologista oncológico: ascite, massa pélvica nodular ou fixa, e evidência de metástase abdominal ou a distância. O implante em cicatriz umbilical, chamado sinal de Sister Mary Joseph, e as nodulações palpáveis na reflexão retouterina pertencem a esse mesmo grupo — são doença peritoneal ao alcance da mão.
O que o exame físico não faz, e é preciso dizer para não gerar falsa segurança: massa não palpável não é massa ausente, e toque normal em mulher com laudo alterado não desfaz o laudo. O ovário normal da mulher na pós-menopausa costuma não ser palpável, e um tumor de 9 centímetros na pelve profunda pode escapar de um toque feito com pressa.
A massa que é emergência, e não espera exame
Duas apresentações tiram a massa anexial do ambulatório e a levam para o centro cirúrgico, e as duas se reconhecem pela história e pelo exame, sem depender de marcador nenhum.
A primeira é a torção anexial. Dor pélvica de início súbito, intensa, frequentemente unilateral, com náusea e vômitos, tipicamente numa mulher com massa anexial conhecida ou recém-descoberta, e com dor à mobilização do anexo. A dor pode ser intermitente, porque a torção pode destorcer e retorcer, e essa intermitência é a razão de tantos diagnósticos tardios: a paciente melhora na sala de espera e vai para casa. O tempo aqui é de isquemia gonadal, e a decisão é cirúrgica.
A segunda é a rotura, com o quadro de abdome agudo. Dor súbita com irritação peritoneal, com ou sem instabilidade hemodinâmica se houver hemoperitônio. A rotura de cisto hemorrágico de corpo lúteo é a causa mais comum e frequentemente se resolve sem cirurgia, mas quem decide isso é a estabilidade e a quantidade de sangue, não a suposição sobre a natureza do cisto.
Vale uma delimitação, porque a fronteira é fina e o dono é outro. O abscesso tubo-ovariano também é massa anexial, também dói, e também pode romper com peritonite e instabilidade — mas ele é matéria do capítulo de Doença inflamatória pélvica, que traz os critérios de internação, o esquema antibiótico, a régua de drenagem e o que fazer com a febre que persiste depois de 72 horas. Aqui ele entra só como diferencial: massa anexial com febre, corrimento, dor à mobilização do colo e história de infecção sexualmente transmissível é infecção até prova em contrário, e a régua é a de lá.
Nenhuma dessas três situações espera CA-125. Pedir marcador tumoral para uma mulher com abdome agudo é confundir a pergunta do plantão com a pergunta do ambulatório.
A massa que não é do ovário, e o ovário que não é massa
Metade dos erros deste tema é de endereço. Antes de tratar a imagem como massa anexial, é preciso perguntar de onde ela sai, e o ultrassonografista responde isso melhor do que o marcador.
Mioma subseroso pediculado é a confusão mais frequente: uma massa sólida junto ao útero, que ao Doppler recebe vaso vindo do miométrio e que se move junto com o útero à manobra. Miomatose uterina tem capítulo próprio nesta apostila, com a classificação, a conduta e a decisão cirúrgica, e é para lá que vai a mulher cuja massa é uterina. O que este capítulo pede é apenas que a pergunta seja feita, porque um mioma degenerado tratado como tumor de ovário produz um encaminhamento oncológico desnecessário, e um tumor de ovário tratado como mioma produz o contrário.
O ovário policístico não é massa e não pertence a este capítulo. Doze ou mais folículos pequenos dispostos na periferia de um ovário de volume aumentado é morfologia, não lesão: não há parede, não há septo, não há componente sólido, e não existe conduta de massa a tomar. A síndrome dos ovários policísticos tem capítulo próprio, com os critérios diagnósticos e o manejo. A confusão é comum porque as duas coisas aparecem no mesmo exame e na mesma frase de laudo, e desfazê-la é obrigação de quem lê.
O endometrioma é o caso de fronteira mais delicado, e a divisão precisa ser dita com todas as letras. A doença endometriose — o diagnóstico, o tratamento, a decisão sobre operar o endometrioma, a conversa sobre reserva ovariana — é do capítulo de Endometriose, e é ele quem instrui a não dosar CA-125 para diagnosticar endometriose. Este capítulo assume outra coisa: a suspeita de malignidade sobre um endometrioma. Endometrioma que muda de tamanho depois da menopausa, que ganha componente sólido vascularizado, ou que aparece pela primeira vez numa mulher já menopausada não é mais uma pergunta sobre endometriose. As duas instruções não se contradizem, porque respondem a perguntas diferentes: para diagnosticar endometriose, o marcador não serve; para avaliar risco de malignidade numa massa que mudou, ele entra na conta.
Fecham a lista os diferenciais não ginecológicos, que a régua brasileira manda considerar explicitamente: alça intestinal, rim pélvico, abscesso apendicular, linfocele, tumor de retroperitônio e massa de origem gastrointestinal. Uma massa pélvica em mulher não é obrigatoriamente ginecológica, e é o ultrassom que separa — outra razão para exigir descrição, e não só conclusão.
Como fechar o diagnóstico
Há uma peculiaridade na investigação da massa anexial que a distingue de quase toda outra deste nível: nenhum exame que você pedir vai fechar o diagnóstico. O diagnóstico é histológico e vem depois de uma cirurgia. O que os exames fazem é estimar risco, e risco só serve para uma coisa — escolher a porta de saída. Ler a investigação com essa cabeça evita os dois erros mais caros do tema, que são pedir exame para ter certeza e adiar a conduta esperando a certeza chegar.
Há uma segunda característica. A régua brasileira é explícita ao dizer que nenhum dos instrumentos disponíveis serve para rastreamento, e que eles existem apenas para orientar encaminhamento a centros de referência. Isso significa que a pergunta que os exames respondem não é "esta mulher tem câncer?", e sim "esta massa deve ser operada por um ginecologista oncológico?". São perguntas diferentes, e a segunda tem resposta.
A ultrassonografia transvaginal, e por que a descrição vale mais que a conclusão
A ultrassonografia transvaginal é a propedêutica mais eficaz para avaliar uma massa anexial, e isso está escrito nessas palavras tanto na régua brasileira da massa anexial quanto na diretriz nacional do câncer de ovário. Ela é o primeiro exame e, na maioria dos casos, o único de imagem que a decisão precisa.
O que ela avalia, e que precisa constar do laudo: tamanho; composição, se cística, sólida ou mista; bilateralidade; presença ou ausência de septos, de nódulos murais, de excrescências papilares; e líquido livre na pelve. O Doppler colorido acrescenta a informação vascular, e a avaliação morfológica do risco melhora quando associada a ele. Massas grandes, ovarianas ou não, pedem abordagem combinada com a via transabdominal, porque a transvaginal não alcança o polo superior de um tumor que já saiu da pelve.
Os aspectos morfológicos que a régua brasileira lista como sugestivos de malignidade são quatro: paredes e septos irregulares e espessos; projeções papilares; lesões sólidas; e ecogenicidade moderada. Do outro lado, a lesão unilocular, anecoica, homogênea, de parede fina, sem septo e sem excrescência papilar é a descrição do que quase nunca é câncer.

Daí a instrução prática que dá nome a esta seção. A conclusão de um laudo de ultrassonografia é uma frase curta escrita por quem não conhece a paciente; a descrição é o dado. Duas mulheres podem receber a mesma conclusão — massa anexial à direita — com descrições que apontam para lados opostos. Ler a conclusão e parar ali é o modo mais comum de encaminhar errado nos dois sentidos: mandar ao oncologista quem tem cisto funcional, e devolver para casa quem tem carcinoma.
Quando o laudo vier só com a conclusão, sem descrição, o exame não está pronto. Peça o laudo completo ou repita o exame; não construa conduta sobre uma frase. E quando a descrição vier, transcreva-a para o prontuário: ela é a linha de base contra a qual o exame de controle vai ser comparado, e um controle sem linha de base não controla nada.
Os marcadores tumorais: quem pede, quando, e o que sobe fora do câncer
O CA-125 é o marcador mais usado para diferenciar massa benigna de maligna, e a régua brasileira o descreve com uma franqueza que convém repetir: os níveis não devem ser usados isoladamente para determinar a malignidade de uma massa anexial. Um valor muito alto ajuda; um valor médio não exclui câncer de ovário, dada a natureza inespecífica do teste.
Há uma regra de indicação que o interno costuma ignorar e que evita dano: a dosagem de CA-125 é dispensável quando a paciente ainda não entrou na menopausa e o ultrassom mostrou um cisto simples. Dosar por reflexo nessa paciente produz um número que, elevado por endometriose, menstruação ou qualquer irritação peritoneal, vai gerar ansiedade, repetição de exames e, com frequência, uma cirurgia que não precisava existir.
Do outro lado, existe um limiar que a régua brasileira registra para a mulher na pré-menopausa: CA-125 acima de 200 unidades por mililitro recomenda avaliação conjunta com a ginecologia oncológica. Guarde esse número, porque ele volta na seção seguinte por um caminho inesperado.
O HE4 entra por indicação, não por rotina, e a indicação é a que o mecanismo já explicou: diferenciar massas anexiais com CA-125 elevado e aspecto sugestivo de endometriose, porque o HE4 não se altera muito nessa condição. É a ferramenta da fronteira com o capítulo de Endometriose.
Desidrogenase láctica, alfafetoproteína e gonadotrofina coriônica humana têm indicação estreita e precisa: mulheres com menos de 40 anos e massa ovariana complexa, pela possibilidade de tumor de células germinativas. Fora dessa faixa, pedir os três é gasto sem consequência; dentro dela, deixar de pedi-los é perder o diagnóstico que mais muda a conduta em mulher jovem, porque o tumor germinativo, mesmo maligno, admite tratamento conservador com preservação de ovário.
Painéis de biomarcadores combinados não são recomendados na avaliação inicial de uma massa anexial. Eles podem ajudar a decidir quem se beneficia de encaminhamento especializado, mas não há evidência forte o bastante para recomendar um teste específico — e essa é a posição do documento brasileiro, não uma leitura deste capítulo.
Os índices de risco: o que eles somam, e o que a régua brasileira erra ao descrevê-los
Existem duas famílias de instrumentos, e vale entender a lógica de cada uma antes dos números. A primeira é aritmética e usa o marcador: o índice de risco de malignidade, que a régua brasileira abrevia como IRM, multiplica três coisas — um fator de imagem, um fator de estado menopausal e o valor absoluto do CA-125. A segunda é morfológica e dispensa o marcador: os sistemas do grupo International Ovarian Tumor Analysis, com as regras simples, que classificam a massa em benigna, maligna ou inconclusiva, e o modelo ADNEX, que devolve uma probabilidade e usa ponto de corte de 10%.
A fórmula do índice, tal como o documento brasileiro a escreve, é o produto do fator de imagem pelo fator menopausal e pelo CA-125, atribuindo-se 1 ao fator de imagem quando há um achado anormal e 3 quando há mais de um, e 1 ao estado pré-menopausal e 3 ao pós-menopausal. Com essa definição, três consequências aritméticas decidem como o índice se comporta na prática, e nenhuma delas está escrita no documento.
A primeira: numa mulher na pré-menopausa com um único achado anormal, os dois fatores valem 1, e o índice só ultrapassa 200 se o CA-125 ultrapassar 200 unidades por mililitro. É exatamente o limiar da seção anterior, chegando por outro caminho. A segunda: numa mulher na pós-menopausa com mais de um achado anormal, os dois fatores valem 3, o produto vale 9, e o índice cruza 200 com CA-125 de 22,3 unidades por mililitro — um valor dentro da faixa normal. A terceira decorre das duas: o índice é dominado pela imagem e pelo estado menopausal, não pelo marcador. O CA-125 entra como amplificador, não como decisor.
É aqui que o documento brasileiro precisa ser lido com cuidado, e a seção de critério traz as contas. Em resumo: o índice original define três valores possíveis para o fator de imagem, e não dois — há um valor zero, para a massa sem nenhum achado anormal, que o texto brasileiro não menciona; e o documento não lista quais achados compõem o escore, de modo que quem tentar calcular o índice usando a lista de achados do quadro de estratificação do mesmo documento não estará calculando o índice validado.
Sobre os sistemas morfológicos, a régua brasileira relata sensibilidade de 92% e de 96,5% e especificidade de 96% e de 71,3%. Os pares se referem aos dois sistemas, na ordem em que o texto os apresenta — regras simples e ADNEX —, embora a frase os atribua a "massas benignas e malignas", o que não é o que sensibilidade e especificidade medem. A leitura útil é a comparação: as regras simples são mais específicas e deixam uma faixa inconclusiva; o ADNEX é mais sensível e paga isso com especificidade, o que é coerente com um ponto de corte baixo, feito para não perder caso.
A frase que fecha esta seção está no próprio documento brasileiro e é a que mais importa: nenhum desses instrumentos deve ser usado para rastreamento de câncer ovariano, mas somente para encaminhamento a centros de referência.
Por que não existe rastreamento, e a conta que mostra isso
Não existe rastreamento populacional de câncer de ovário no Brasil nem em nenhum outro país, e isso não é lacuna de política pública: é consequência da aritmética. O relatório preliminar do novo protocolo nacional diz que inexiste evidência científica de que o rastreamento traga mais benefício do que risco, que vários métodos foram estudados — CA-125, ultrassonografia transvaginal e exame bimanual — e que nenhum deles demonstrou eficácia suficiente para ser implementado como medida de saúde pública. A régua da massa anexial diz o mesmo em outras palavras: a literatura não embasa o rastreamento de rotina, e nenhuma sociedade médica o recomenda.
A conta que sustenta essas frases pode ser feita com dois documentos oficiais brasileiros e uma linha de aritmética. A diretriz nacional do câncer de ovário atribui ao CA-125 sensibilidade entre 50% e 60% e especificidade de 90% em estágios precoces. A incidência estimada pelo Instituto Nacional de Câncer é de 7,33 casos por 100 mil mulheres por ano. Aplicando esses números a uma população de mulheres sem sintomas, o valor preditivo positivo de um CA-125 alterado fica em torno de 0,04% — cerca de um câncer para cada 2.300 exames positivos.
Traduzido em pessoas: se um programa testasse dez milhões de mulheres, a especificidade de 90% produziria aproximadamente um milhão de resultados alterados, e entre eles haveria cerca de 440 cânceres. Os outros novecentos e noventa e tantos mil resultados seriam falsos positivos, e cada um deles não é um número: é uma mulher que vai fazer mais exames, esperar semanas com medo, e em alguma proporção ser operada. O cálculo é robusto: mesmo supondo que a prevalência de doença detectável seja dez vezes a incidência anual, o valor preditivo positivo continuaria abaixo de 0,5%.
Isso não é um argumento contra pedir CA-125. É um argumento contra pedi-lo em quem não tem massa. O mesmo exame que é inútil em mulher assintomática tem utilidade quando existe uma lesão para caracterizar, porque a probabilidade antes do teste deixou de ser sete em cem mil e passou a ser uma fração significativa. O que muda não é o exame; é a paciente em quem ele é feito.
Há uma exceção declarada, e ela é estreita. A diretriz nacional registra que os métodos multimodais podem ser usados para rastreamento em portadoras de mutação BRCA, em casos individualizados, não elegíveis para salpingo-ooforectomia redutora de risco, e ainda assim com benefício incerto. Nada disso é decisão de interno, e nada disso se estende à população geral.
Quando entram tomografia, ressonância e tomografia por emissão de pósitrons
A régua brasileira da massa anexial é direta: tomografia computadorizada, ressonância magnética e tomografia por emissão de pósitrons não são recomendadas na avaliação inicial de massas anexiais. Pedir tomografia de abdome para caracterizar um cisto ovariano é o exame errado, atrasa a decisão e expõe a paciente à radiação sem ganho.
Cada um tem lugar, e o lugar é depois. A ressonância é a segunda linha quando a ultrassonografia é inconclusiva para caracterizar a lesão, e tem boa acurácia na avaliação peritoneal e na identificação de metástase a distância. A tomografia é a melhor abordagem para suspeitar ou afastar doença extraovariana e para mapear a extensão antes da cirurgia. A tomografia por emissão de pósitrons tem potencial para informar operabilidade, mas os dados são limitados para uso rotineiro e o seu uso não foi recomendado pela comissão nacional de incorporação de tecnologias.
Há uma inversão de ordem que a diretriz nacional torna explícita e que o interno inverte com frequência: os exames de imagem de corte entram depois do diagnóstico, para estimar extensão e locais de acometimento. Eles servem ao estadiamento, não à decisão de encaminhar. Quem espera a tomografia para encaminhar já perdeu duas semanas.
Uma consequência prática vale a pena para quem trabalha na rede pública: numa massa com descrição francamente suspeita, esperar por uma ressonância regulada — que pode demorar meses — para então encaminhar é pior do que encaminhar com o ultrassom que já existe. O centro de referência tem acesso aos exames de corte e sabe qual pedir. O que ele não consegue recuperar é o tempo.
A laparoscopia diagnóstica merece menção, porque a diretriz nacional a valoriza, mas o seu papel não é o que o nome sugere. Ela é indicada para avaliar a distribuição do tumor e prever se a citorredução será completa — isto é, para evitar laparotomia fútil em doença avançada. Não é o exame que decide se a massa da mulher do ambulatório é benigna, e não é procedimento a se propor fora de serviço habilitado.
O que o laudo do patologista faz durante a cirurgia
A biópsia por congelação intraoperatória é recomendada pela régua brasileira para o diagnóstico de uma massa anexial suspeita, quando houver disponibilidade e preferência da paciente. Ela existe para resolver, dentro da sala, a pergunta que decide a extensão da operação.
Os números vêm de uma metanálise de 38 estudos com 11.181 participantes: sensibilidade geral de 90,0%, com intervalo de confiança de 95% entre 87,6% e 92,0%, e especificidade média de 99,5%, com intervalo entre 99,2% e 99,7%. Quando a congelação diz neoplasia benigna, o diagnóstico final se mantém em média em 94% dos casos; quando diz câncer invasivo, em 99%.
Um número dessa série merece destaque porque é o que produz decisão errada em sala: quando a congelação diz tumor borderline, em média 21% dos diagnósticos finais são câncer invasivo. Um em cada cinco. É por isso que a régua brasileira recomenda, na dúvida e para preservação do ovário, retirar apenas a massa sem ruptura e sem extravasamento, aguardar o exame definitivo de parafina para definir a natureza da doença, e fazer a cirurgia definitiva depois, se necessário.
Duas coisas que a congelação não faz. Ela não substitui o estadiamento: um resultado benigno numa massa que era suspeita não dispensa a inspeção da cavidade. E ela não existe em todo lugar — a régua condiciona a recomendação à disponibilidade, e essa condicional é justamente uma das razões pelas quais a massa suspeita deve ser operada onde há patologista de plantão, e não onde há apenas sala cirúrgica livre.
Do laudo à decisão
Quatro tabelas e um fluxo, montados em torno da única pergunta que este capítulo responde: para onde vai esta mulher. A primeira tabela converte a descrição do ultrassom em risco; a segunda cruza esse risco com idade e estado menopausal para produzir a porta de saída; a terceira recalcula a aritmética do índice de risco de malignidade, que é a conversão que este tema tem no lugar da tabela de doses; e a quarta organiza os marcadores por indicação. As notas ao final trazem as conferências feitas sobre os documentos oficiais, com as contas, incluindo as que fecharam.
- 11. Ela pode estar grávida? Se sim, teste de gravidez agora. Positivo encerra este capítulo e abre o de Gravidez ectópica.
- 22. Há dor súbita intensa, abdome agudo ou instabilidade? Se sim, a decisão é cirúrgica e não espera marcador — torção e rotura se resolvem no centro cirúrgico.
- 33. Há febre, corrimento e dor à mobilização do colo? Se sim, a régua é a do capítulo de Doença inflamatória pélvica, e o achado de imagem procurado é abscesso tubo-ovariano.
- 44. A massa é do anexo mesmo? Pergunte de onde ela sai: mioma pediculado, alça, rim pélvico e abscesso apendicular saem daqui pela porta do endereço errado.
- 55. Qual é o estado menopausal? Não a idade sozinha — menstruação nos últimos doze meses é o dado.
- 66. Leia a DESCRIÇÃO do ultrassom, não a conclusão, e classifique pela tabela 1: aspecto benigno, aspecto suspeito, ou indeterminado.
- 77. Aspecto suspeito em qualquer idade, ou ascite, ou massa fixa e nodular, ou sinal de doença a distância: encaminhamento à ginecologia oncológica, com CA-125 colhido mas sem esperar o resultado para encaminhar.
- 88. Aspecto benigno na pré-menopausa: aplique os limiares de tamanho da tabela 2 e resolva no ambulatório, sem marcador em cisto simples.
- 99. Aspecto benigno na pós-menopausa: CA-125 e reavaliação com imagem em quatro a seis meses, pelos critérios da tabela 2.
- 1010. Mulher com menos de 40 anos e massa complexa: acrescente desidrogenase láctica, alfafetoproteína e gonadotrofina coriônica humana pela possibilidade de tumor germinativo.
- 1111. Indeterminado depois de tudo isso: trate como suspeito. O custo de encaminhar uma massa benigna é uma consulta; o de não encaminhar uma maligna é o estadiamento.
- 1212. Escreva no encaminhamento a hipótese com a palavra neoplasia, e não a palavra cisto — a nota 10 explica por quê.
Tabela 1 — A descrição do ultrassom, traduzida
| O que o laudo descreve | Como isso pesa | Consequência imediata |
|---|---|---|
| Unilocular, anecoico, homogêneo, parede fina e regular, sem septo, sem projeção papilar | Aspecto benigno | Conduta por tamanho e estado menopausal; não é caso de oncologia |
| Multilocular com septo fino, de até 2 a 3 milímetros, sem componente sólido | Aspecto benigno na maioria; vigie | Reavaliação com imagem; encaminhar se crescer ou mudar de aspecto |
| Septo espesso ou irregular, parede irregular | Aspecto suspeito | Encaminhamento à ginecologia oncológica |
| Componente sólido, área sólida vascularizada ao Doppler | Aspecto suspeito | Encaminhamento à ginecologia oncológica |
| Projeção ou excrescência papilar | Aspecto suspeito | Encaminhamento à ginecologia oncológica |
| Ecogenicidade aumentada ou mista | Aspecto suspeito | Encaminhamento à ginecologia oncológica |
| Tamanho de 10 centímetros ou mais | Aspecto suspeito pela régua brasileira | Encaminhamento; abaixo disso, o tamanho não decide sozinho |
| Líquido livre em quantidade moderada ou grande | Ascite: aspecto suspeito, independentemente do resto | Encaminhamento à ginecologia oncológica |
| Bilateralidade | Soma risco; entra no escore do índice de malignidade | Não decide sozinha; muda a leitura do conjunto |
| Laudo com conclusão e sem descrição | Exame incompleto | Peça o laudo descritivo ou repita o exame antes de decidir |
Tabela 2 — Cruzando estado menopausal, tamanho e aspecto: a porta de saída
| Situação | Conduta pela régua brasileira | Quem resolve |
|---|---|---|
| Pré-menopausa, corpo lúteo clássico ou cisto simples abaixo de 5 centímetros | Sem necessidade de acompanhamento por imagem; resolve-se em até três ciclos | A própria consulta; não pedir CA-125 |
| Pré-menopausa, cisto simples de 50 a 70 milímetros | Acompanhamento anual por ultrassonografia | Ginecologia geral ou atenção primária |
| Pré-menopausa, cisto simples acima de 70 milímetros | Considerar ressonância ou intervenção cirúrgica | Ginecologia geral |
| Pré-menopausa, cisto persistente ou que aumenta | Improvável que seja funcional; pode exigir cirurgia | Ginecologia geral |
| Pós-menopausa, cisto assintomático, simples, unilateral, unilocular, abaixo de 5 centímetros, com CA-125 normal | Conduta conservadora com nova avaliação em quatro a seis meses; alta do acompanhamento depois de um ano se inalterado ou menor e marcador normal | Ginecologia geral |
| Pós-menopausa e sintomática | Avaliação cirúrgica adicional | Ginecologia geral, com o cirurgião ciente do risco |
| Massa complexa suspeita ou persistente, em qualquer idade | Estimar risco de malignidade e avaliação cirúrgica | Ginecologista oncológico |
| Pré-púbere, qualquer massa com componente sólido | Investigação com exame anatomopatológico | Serviço com cirurgia pediátrica e oncologia |
| Qualquer idade, com ascite, massa fixa ou nodular, ou sinal de metástase | Encaminhamento imediato | Ginecologista oncológico |
Tabela 3 — A aritmética do índice de risco de malignidade, recalculada
| Fator de imagem | Fator menopausal | Produto dos dois | CA-125 mínimo para o índice passar de 200 |
|---|---|---|---|
| 1 (um achado anormal) | 1 (pré-menopausa) | 1 | acima de 200 unidades por mililitro |
| 1 (um achado anormal) | 3 (pós-menopausa) | 3 | acima de 66,7 unidades por mililitro |
| 3 (mais de um achado) | 1 (pré-menopausa) | 3 | acima de 66,7 unidades por mililitro |
| 3 (mais de um achado) | 3 (pós-menopausa) | 9 | acima de 22,3 unidades por mililitro, valor dentro da faixa normal |
| 0 (nenhum achado anormal) | 1 ou 3 | 0 | nenhum: o índice vale zero — nível que a régua brasileira não menciona |
Tabela 4 — Marcadores: indicação, e o que sobe fora do câncer
| Marcador | Quando pedir | O que eleva sem ser câncer de ovário |
|---|---|---|
| CA-125 | Massa com aspecto indeterminado ou suspeito; cisto em mulher na pós-menopausa; sintomas persistentes de tipo intestinal acima dos 50 anos | Endometriose, doença inflamatória pélvica, gravidez, menstruação, e qualquer irritação de peritônio, pleura ou pericárdio |
| CA-125 | Não pedir de rotina em cisto simples na pré-menopausa | Elevação nessa paciente gera exame, ansiedade e cirurgia sem indicação |
| HE4 | Massa com CA-125 elevado e aspecto sugestivo de endometriose | Idade, tabagismo e doença renal crônica; não varia com ciclo, contraceptivo ou endometriose |
| Desidrogenase láctica, alfafetoproteína e gonadotrofina coriônica humana | Somente em mulher com menos de 40 anos e massa ovariana complexa | Gravidez eleva a gonadotrofina; doença hepática eleva a alfafetoproteína |
| Painéis combinados de biomarcadores | Não recomendados na avaliação inicial | Sem evidência forte para recomendar um teste específico |
Nota 1 — faixa que não pertence a nenhuma classe. O quadro de estratificação de risco da régua brasileira da massa anexial põe, na linha da idade, "maior que 50 anos" em alto risco e "menor que 50 anos" em baixo risco. A mulher de exatamente 50 anos não cai em nenhuma das duas — e 50 é precisamente a idade que o mesmo documento aponta como o ponto de inflexão da incidência. Vale registrar a conferência que fechou na mesma tabela: a linha dos achados ultrassonográficos usa "10 centímetros ou mais" contra "menos de 10 centímetros", partição sem vão e sem sobreposição. Uma tabela, dois limiares, um certo e um aberto.
Nota 2 — o índice perdeu um dos seus três níveis. A régua brasileira descreve o fator de imagem do índice de risco de malignidade com dois valores: 1 para um achado anormal, 3 para mais de um. A definição original, publicada em 1990 e citada pelo próprio documento como sua referência para a fórmula, usa três valores: zero quando o escore ultrassonográfico é zero, 1 quando é 1, e 3 quando é 2 ou mais. Conta da consequência: uma mulher na pós-menopausa, com massa sem nenhum achado anormal e CA-125 de 70, teria índice de 1 × 3 × 70 = 210 se o leitor atribuir 1 por falta de nível zero — acima do corte de 200, portanto alto risco. Pela definição original, o fator vale 0 e o índice vale 0. O mesmo caso, dois destinos opostos.
Nota 3 — o índice não pode ser calculado com o que o documento fornece. A régua brasileira fala em "achado anormal" sem listar quais achados contam. O escore original soma um ponto para cada um de cinco itens: lesão cística multilocular, áreas sólidas, lesões bilaterais, ascite e metástase intra-abdominal. O quadro de estratificação do mesmo documento brasileiro lista seis achados diferentes — 10 centímetros ou mais, septo espesso, multiloculação, ecogenicidade aumentada ou mista, componente sólido e excrescência papilar. Quem calcular o índice pela lista do quadro não está calculando o índice validado, e a discrepância não é pequena: tamanho e excrescência papilar pontuam numa lista e não na outra.
Nota 4 — comparação aritmeticamente impossível. O documento afirma que pacientes com valores maiores que 200 têm risco 42 vezes maior de câncer do que pacientes "com um IRM de 0,15". Conta: pela fórmula do próprio documento, o índice é o produto do fator de imagem pelo fator menopausal pelo CA-125, e ambos os fatores valem no mínimo 1; para o índice valer 0,15 seria preciso um CA-125 de 0,15 unidade por mililitro. A comparação do índice original é contra valores abaixo de 200. Conferência associada, que fechou: com a sensibilidade de 85% e a especificidade de 97% que o mesmo documento declara, a razão de riscos de 42 é reproduzível — ela corresponde a uma prevalência de câncer de cerca de 11% entre as massas operadas. Numa série com 30% de malignidade, a mesma razão cairia para 15.
Nota 5 — sensibilidade e especificidade não pertencem às massas, e sim ao teste. O documento escreve que os sistemas do grupo International Ovarian Tumor Analysis têm "sensibilidade de 92% e 96,5% e especificidade de 96% e 71,3%, respectivamente, para massas benignas e malignas". Sensibilidade e especificidade são propriedades do teste diante da malignidade; não existe sensibilidade "para massas benignas". Os pares correspondem aos dois sistemas na ordem em que o parágrafo os introduz e na ordem das referências que ele cita. Conferência que fechou: o corte de 10% do modelo ADNEX é internamente coerente — com sensibilidade de 96,5% e especificidade de 71,3%, o valor preditivo positivo do grupo acima do corte só cai abaixo de 10% se a prevalência de câncer for menor que 3,2%, e numa série de encaminhamento ela é de 20% a 30%.
Nota 6 — sobrevida em cinco anos medida em meses. O mesmo documento afirma que pacientes tratadas em hospitais gerais têm "sobrevida geral em cinco anos de 11,4 meses versus 49,5 meses" nos centros de referência. Sobrevida em cinco anos é uma proporção de pessoas vivas, não uma duração; e 49,5 meses são 4,1 anos, menos que os cinco anos do próprio rótulo. Os números têm a forma de sobrevida global mediana. O sentido da diferença — quase quatro vezes — é o argumento central do capítulo e não depende do rótulo; o rótulo, como está, não se sustenta.
Nota 7 — a distinção que não distingue. Na lista de critérios de encaminhamento à ginecologia oncológica, os dois primeiros itens do documento brasileiro são idênticos palavra por palavra, exceto pela primeira palavra: um começa com "pós-menopausa" e o outro com "pré-menopausa", e ambos seguem com elevação do CA-125, ultrassonografia com características de malignidade, ascite, massa nodular ou fixa e evidência de metástase. Como estão escritos, o corte menopausal não faz trabalho nenhum. E o número que faria a diferença está três parágrafos acima, no mesmo documento: na pré-menopausa, o limiar citado para avaliação conjunta com a oncologia é CA-125 acima de 200 unidades por mililitro. Conferência que fechou, e que ninguém escreve: esse limiar de 200 é exatamente o CA-125 necessário para o índice de risco de malignidade cruzar 200 numa mulher pré-menopáusica com um achado anormal, porque os dois fatores valem 1. Dois documentos e duas rotas para o mesmo número.
Nota 8 — quatro faixas que não cabem numa população só. A régua brasileira relata, para o CA-125, sensibilidade de 61% a 90%, especificidade de 71% a 93%, valor preditivo positivo de 35% a 91% e valor preditivo negativo de 67% a 90%. Conta: o valor preditivo negativo de 67% só é alcançável, mesmo com o par que mais o rebaixa — sensibilidade de 61% e especificidade de 71% —, se a prevalência de câncer entre as massas for de 47,3%. Qualquer combinação melhor exige prevalência ainda maior. Uma prevalência de 47% contradiz a afirmação, do mesmo documento, de que a maior parte das massas anexiais é benigna. No outro extremo, o valor preditivo positivo de 35% corresponde a uma prevalência em torno de 20%. As quatro faixas vêm de séries diferentes, com prevalências diferentes, e não podem ser lidas como se descrevessem a mesma população — que é exatamente como um interno as lê.
Nota 9 — a frase que existe no relatório e sumiu do resumo. A diretriz nacional de 2019 escreve que a utilização do CA-125 atua na detecção precoce do câncer de ovário e acrescenta, na mesma página, que essa técnica ainda não está bem estabelecida na prática e que não existe consenso internacional do seu uso como exame de rastreamento. A versão resumida da mesma portaria, que se declara destinada à consulta rápida, mantém a primeira frase e não contém a segunda. A busca foi feita por texto normalizado, com espaços e hifenização uniformizados, nos dois documentos: a ressalva está no relatório completo e não está no resumo. O que sobra no documento de consulta rápida é a afirmação de que o marcador serve para detecção precoce, sem a ressalva que a desmente.
Nota 10 — a conta do rastreamento, com números oficiais brasileiros. A mesma diretriz de 2019 atribui ao CA-125 sensibilidade de 50% a 60% e especificidade de 90% em estágios precoces. Com a incidência de 7,33 por 100 mil mulheres da Estimativa 2026 do Instituto Nacional de Câncer, o valor preditivo positivo de um resultado alterado numa população assintomática é de 0,04%, ou um câncer para cada 2.275 exames positivos com sensibilidade de 60%. Em dez milhões de mulheres testadas: cerca de um milhão de resultados alterados para cerca de 440 cânceres. Ainda que a prevalência de doença detectável fosse dez vezes a incidência anual, o valor preditivo positivo ficaria em 0,44%. É esta conta, e não uma preferência de política, que explica por que nenhum país rastreia.
Nota 11 — duas posições no mesmo país. A diretriz nacional de 2019 chama o câncer epitelial de ovário de "quinta causa mais comum de câncer em mulheres", frase que se repete na versão resumida. A Estimativa 2026 do Instituto Nacional de Câncer o coloca em oitavo entre os cânceres femininos no Brasil, com 8.020 casos e 3,1% do total feminino, atrás de mama, cólon e reto, colo do útero, pulmão, tireoide, corpo do útero e estômago; e em oitavo também no mundo, com 3,4% dos casos. Conferência que fechou na mesma tabela: 8.020 dividido por 261.990 dá 3,06%, compatível com os 3,1% impressos.
Nota 12 — conferência que não fechou, e que provavelmente é arredondamento. Ainda na Estimativa 2026: 8.020 casos de câncer de ovário para uma taxa de 7,33 por 100 mil implicam uma população feminina entre 109,3 e 109,6 milhões; os 261.990 casos de todas as neoplasias exceto pele não melanoma, para a taxa de 238,60, implicam entre 109,80 e 109,81 milhões. As duas faixas não se sobrepõem, e a diferença equivale a cerca de 29 casos. A própria publicação declara que os números de casos são arredondados para múltiplos de 10, o que explica parte da folga, mas não toda; e ela não publica o denominador populacional usado, de modo que não é possível decidir, com o documento em mãos, se a diferença é artefato de arredondamento ou inconsistência. Registra-se como diferença de 0,36%, sem consequência clínica.
A conduta, hora a hora
Dor aguda ou instabilidade exige avaliar torção, rotura, hemorragia e gestação ectópica. Fora da emergência, caracterizar a massa por ultrassonografia e integrar sintomas, menopausa e risco familiar. Marcadores complementam situações selecionadas; não confirmam nem excluem câncer sozinhos. Observação requer critérios de baixo risco e plano explícito; suspeita oncológica exige referência apropriada.
Os marcos abaixo seguem Hortência Cordeiro, 63 anos, aposentada, a segunda pasta da cena de abertura: ultrassonografia com massa mista de 9,4 centímetros, multilocular, septos espessos, área sólida vascularizada e líquido livre no fundo de saco. Ela chegou por acaso, atrás de um problema de rim, e está sentada do lado de fora.
Duas advertências antes de começar. A primeira: nada do que vem abaixo é tratamento do câncer — quimioterapia, estadiamento cirúrgico e decisão entre citorredução primária e quimioterapia prévia pertencem ao centro de referência, e este nível de ensino não tem capítulo de Oncologia, de modo que a doença é assumida aqui até a porta daquele centro, e não além dela. A segunda: a maior parte do trabalho é escrever. Nesta doença, o prontuário e o encaminhamento são o tratamento que o interno consegue entregar.
Marco 1 — a consulta em que o laudo chega às suas mãos
A tarefa desta consulta não é diagnosticar; é classificar e decidir a porta. Comece pela descrição, não pela conclusão, e classifique pela tabela 1. No caso de Hortência há quatro achados de aspecto suspeito somados — septo espesso, componente sólido vascularizado, tamanho acima de 10 centímetros por pouco, e líquido livre. Qualquer um deles sozinho já bastaria. Confirme o estado menopausal perguntando pela última menstruação, e não deduzindo pela idade. Refaça a anamnese com as perguntas que ninguém fez: empachamento, distensão, mudança do hábito intestinal, perda de peso, saciedade precoce nos últimos doze meses; história pessoal e familiar de câncer de mama, ovário ou intestino. Examine o abdome procurando ascite e massa palpável, e faça o toque procurando nodulação em fundo de saco e mobilidade. O que existir aqui vai para o papel do encaminhamento.
Prescrição- Registrar no prontuário a descrição integral do ultrassom, e não a conclusão — ela é a linha de base de qualquer comparação futura
- Perguntar e registrar a data da última menstruação, para definir estado menopausal em vez de presumi-lo pela idade
- Perguntar por sintomas dos últimos doze meses: empachamento, distensão, saciedade precoce, mudança do hábito intestinal, perda de peso
- Registrar história familiar de câncer de mama, ovário e intestino em parentes de primeiro grau
- Exame abdominal procurando ascite e massa palpável; toque vaginal avaliando mobilidade e nodulação em fundo de saco
- Em mulher em idade reprodutiva, teste de gravidez no mesmo dia, antes de qualquer outra decisão
Marco 2 — ainda na mesma consulta: quais exames saem, e quais não saem
Peça CA-125. Mas peça sabendo o que ele vai fazer: numa massa com esta descrição, o resultado não vai mudar a decisão de encaminhar, e sim ajudar quem receber a paciente. É por isso que o pedido do marcador e o do encaminhamento saem juntos, e o encaminhamento não espera o resultado. Se ela tivesse menos de 40 anos e massa complexa, acrescentariam-se desidrogenase láctica, alfafetoproteína e gonadotrofina coriônica humana. Não peça tomografia, ressonância nem tomografia por emissão de pósitrons para caracterizar a lesão: eles não são primeira linha, e esperar por eles na fila da regulação é o modo mais eficiente de perder um mês. Peça hemograma, função renal e hepática apenas porque serão necessários adiante, e não porque respondam à pergunta.
Prescrição- CA-125 sérico, com a orientação de que o resultado não atrasa o encaminhamento
- Em mulher abaixo de 40 anos com massa complexa: desidrogenase láctica, alfafetoproteína e gonadotrofina coriônica humana
- Hemograma, creatinina, transaminases e albumina — exames de preparo, não de decisão
- Não solicitar tomografia, ressonância nem tomografia por emissão de pósitrons como primeira linha
- Não solicitar painel combinado de biomarcadores
- Não puncionar, não aspirar e não drenar a massa em nenhuma circunstância eletiva
Marco 3 — o encaminhamento, que é o tratamento desta consulta
Este é o marco que muda sobrevida, e ele é feito de escrita. O encaminhamento precisa dizer três coisas para atravessar a regulação: a hipótese, os achados que a sustentam, e o prazo legal aplicável. Escreva a hipótese com a palavra que ela é — suspeita de neoplasia maligna de ovário —, e não "cisto de ovário para avaliação", porque a segunda formulação classifica o caso como eletivo e o joga numa fila de meses. Transcreva a descrição do ultrassom no corpo do encaminhamento, e não apenas anexe o exame, porque anexo se perde. Anote a idade, o estado menopausal e os achados do exame físico. E registre a justificativa fundamentada, porque o prazo de 30 dias para os exames de elucidação, previsto na lei do câncer, depende de solicitação fundamentada do médico responsável — a fundamentação não é formalidade, é o que dispara o prazo.
Prescrição- Encaminhamento à ginecologia oncológica com a hipótese escrita como suspeita de neoplasia maligna de ovário
- Transcrever no corpo do documento a descrição ultrassonográfica completa, além de anexar o exame
- Registrar idade, estado menopausal, sintomas dos últimos doze meses e achados de exame físico
- Escrever a justificativa fundamentada da hipótese, exigida pela lei para o prazo de 30 dias
- Entregar cópia à paciente e registrar no prontuário a data em que o encaminhamento foi emitido
- Anotar telefone de contato atualizado e um plano de busca ativa caso ela não retorne
Marco 4 — o que se diz a ela antes de ela sair da sala
Hortência vai sair desta consulta sabendo que algo sério está sendo investigado, e é responsabilidade sua que ela saia sabendo disso de forma utilizável. Diga que o exame mostrou uma alteração no ovário que precisa ser vista por um serviço especializado; que ainda não se sabe se é câncer e que isso só se decide com o exame do tecido; que a ida ao serviço especializado é a parte mais importante do tratamento e não pode ser adiada; e que ela deve voltar imediatamente se aparecer dor forte e súbita, aumento rápido do volume abdominal, vômitos ou febre. Não prometa prazo que você não controla e não minimize com a palavra cisto. O objetivo é que ela vá — e a mulher que sai achando que era só um cisto é a que não vai.
Prescrição- Explicar o achado sem a palavra cisto e sem a palavra tumor sozinha, separando o que já está definido do que ainda não está
- Dizer explicitamente que a consulta no serviço especializado é a parte que não pode falhar
- Entregar por escrito os sinais de retorno imediato: dor súbita intensa, distensão rápida, vômitos, febre
- Perguntar quem vai com ela e como ela vai chegar — barreira de transporte é causa de perda de seguimento
- Registrar no prontuário que a orientação foi dada e o que ela repetiu de volta
Marco 5 — os dias que passam, e o que fazer com eles
Entre o encaminhamento e a consulta especializada existe um intervalo em que a doença continua crescendo e ninguém está olhando. Este é o marco que a maioria dos internos não sabe que existe. A lei do câncer traz dois prazos, e eles não cobrem a mesma coisa: os exames necessários à elucidação, quando a principal hipótese diagnóstica é neoplasia maligna, devem ser feitos em até 30 dias mediante solicitação fundamentada; e o primeiro tratamento deve começar em até 60 dias contados do dia em que o diagnóstico for firmado em laudo patológico. Em câncer de ovário, o laudo patológico costuma vir da própria cirurgia de estadiamento — que a mesma lei conta como primeiro tratamento. A leitura deste capítulo, e ela é leitura e não citação, é que o prazo de 60 dias tende a nascer cumprido nesta doença, e que o intervalo que decide o desfecho é justamente o dos 30 dias. Vigie esse.
Prescrição- Anotar em agenda própria a data-limite de 30 dias contados do pedido fundamentado
- Contato ativo com a paciente dentro de duas semanas para saber se a consulta foi marcada
- Se não foi, acionar a regulação por escrito, citando o prazo legal e anexando o encaminhamento original
- Reavaliar clinicamente se houver qualquer sintoma novo enquanto ela espera
- Registrar cada tentativa de contato e cada resposta da regulação no prontuário
Marco 6 — quando o caminho não é o ambulatório
Três situações tiram a paciente desta linha do tempo e a levam para o pronto-socorro no mesmo dia. Dor pélvica de início súbito e intensa com náusea e vômitos, em mulher com massa anexial conhecida, é torção enquanto não se provar o contrário, e essa prova se obtém no centro cirúrgico. Dor súbita com irritação peritoneal, com ou sem instabilidade, é rotura, e a conduta depende da estabilidade e do volume de sangue, não da suposição sobre a natureza do cisto. Massa anexial acompanhada de febre, de corrimento e de dor quando se mobiliza o colo é infecção, e quem governa dali em diante é o capítulo de Doença inflamatória pélvica, com a busca ativa de abscesso tubo-ovariano. Nenhuma das três espera marcador tumoral, e nenhuma das três justifica puncionar a massa.
Prescrição- Encaminhamento imediato ao pronto-socorro com acesso a centro cirúrgico, e não à regulação ambulatorial
- Contato prévio com o serviço receptor sempre que possível, informando o achado de imagem já existente
- Enviar cópia do ultrassom com a paciente — o serviço receptor decide melhor com a descrição em mãos
- Não puncionar, não aspirar e não prescrever analgesia que mascare a evolução do abdome
- Registrar a hora do início da dor: em torção, é ela que informa o tempo de isquemia
Marco 7 — a cirurgia que já aconteceu no lugar errado
Acontece com frequência: a massa foi operada num hospital geral, como cistectomia ou ooforectomia por doença presumidamente benigna, e a malignidade apareceu na laparoscopia ou só no laudo de parafina. A régua brasileira é clara sobre o que fazer, e é o interno da enfermaria quem costuma executar. O encaminhamento à oncologia acontece assim que a malignidade for encontrada, durante ou depois. O caso é reavaliado com tudo o que existir: exames pré-operatórios, descrição cirúrgica, registro de imagem da cirurgia e laudo anatomopatológico. Quando a doença parece inicial, o que se discute é estadiar corretamente ou completar a cirurgia que ficou pela metade. Reunir esse material é a tarefa concreta, e ela não é burocrática: sem a descrição do que foi visto na cavidade, o centro de referência não consegue estadiar retroativamente, e a paciente perde a informação que escolheria o tratamento.
Prescrição- Solicitar cópia integral da descrição cirúrgica, com o registro do que foi inspecionado na cavidade
- Recuperar imagens intraoperatórias, quando existirem, e anexá-las ao encaminhamento
- Anexar o laudo anatomopatológico completo, com o tipo histológico e a menção a ruptura ou extravasamento
- Registrar se houve ruptura da cápsula: ela pode alterar o estádio e, sozinha, indicar quimioterapia
- Encaminhar ao centro de referência com relatório médico cirúrgico, sem esperar consulta de retorno
- Explicar à paciente, sem culpabilizar o serviço anterior, por que uma segunda avaliação é necessária
Marco 8 — o que a paciente encontra do outro lado da porta, e o que não vem pela farmácia
Vale saber para onde a paciente vai, para explicar-lhe e para não prometer o que não existe. O tratamento é decidido em serviço habilitado em Oncologia, e envolve cirurgia com estadiamento e quimioterapia, em ordem que depende do estádio e da ressecabilidade. O esquema de primeira linha registrado na diretriz nacional para doença avançada é de seis ciclos de carboplatina e paclitaxel. Um detalhe de organização do sistema muda o que se diz na consulta: nenhum desses medicamentos consta da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais, e isso não é falha do elenco. A própria diretriz nacional explica que o Ministério e as secretarias não padronizam nem fornecem antineoplásicos; quem os adquire e fornece é o hospital habilitado em Oncologia, que registra o procedimento pela tabela do sistema. Ou seja: não há receita a levar à farmácia, e a paciente que for procurar o remédio na unidade básica não vai encontrá-lo. O caminho é o serviço, não o medicamento.
Prescrição- Explicar que o tratamento é feito integralmente no serviço habilitado, sem receita a retirar em farmácia
- Não prometer esquema, número de ciclos ou data de cirurgia — quem define é o serviço receptor
- Manter o vínculo com a atenção primária durante o tratamento: comorbidades, dor e suporte continuam sendo daqui
- Registrar no prontuário para onde a paciente foi encaminhada e por qual serviço foi acolhida
- Oferecer aconselhamento genético quando houver história pessoal ou familiar sugestiva, encaminhando a geneticista
Como saber se está funcionando
Reavaliar, neste capítulo, quase nunca é reavaliar resposta a tratamento — é reavaliar se o sistema andou. Os parâmetros abaixo se dividem em dois grupos: os da mulher que ficou em conduta expectante, que é a maioria, e os da mulher que foi encaminhada, em que o parâmetro é o caminho e não a doença.
Uma regra atravessa os dois grupos: comparação só existe contra linha de base escrita. Um controle que diz "cisto sem alterações" sem número ao lado do número anterior não controlou nada, e o exame precisa idealmente ser feito e laudado pelo mesmo serviço, pelas mesmas razões que valem para qualquer medida operador-dependente.
Esperado: Consulta agendada, com data, e a paciente sabendo onde e quando
Se não melhora: Se não houve agendamento, o problema é de regulação e se resolve com escrita, não com espera. Acione a regulação por escrito citando o prazo legal, anexe o encaminhamento original com a justificativa fundamentada, e registre a data de cada tentativa. Se a via administrativa não andar, escale ao gestor da unidade e à ouvidoria do município. Não substitua o encaminhamento por mais exames: pedir outra imagem enquanto a fila não anda troca ação por atividade.
Esperado: Cisto inalterado ou menor, mantendo o aspecto simples, unilocular e anecoico
Se não melhora: Crescimento, aparecimento de septo, de componente sólido ou de vascularização interna encerra a conduta expectante e transforma o caso em massa suspeita, com encaminhamento à ginecologia oncológica. Cisto que persiste ou aumenta dificilmente é funcional, e a régua brasileira admite que o tratamento cirúrgico pode ser necessário.
Esperado: Valor normal e estável
Se não melhora: Elevação nova num cisto que era simples pede reavaliação do conjunto, e não repetição do exame. Antes de encaminhar, cheque as causas benignas que a elevam: menstruação recente na mulher que ainda menstrua, endometriose, doença inflamatória pélvica, gravidez, ascite de outra causa. Elevação sem causa benigna identificável em cisto pós-menopausa é motivo suficiente para encaminhar.
Esperado: Cisto inalterado ou menor e CA-125 normal permitem dispensar o acompanhamento
Se não melhora: A régua brasileira condiciona a alta ao desejo da mulher e à condição física dela para uma cirurgia, o que quer dizer que a decisão é compartilhada. Se ela preferir seguir sendo acompanhada, siga; se preferir resolver cirurgicamente uma lesão que a angustia, isso é conversa com o cirurgião e não recusa a ser registrada como não adesão.
Esperado: Ausentes, ou estáveis e explicados
Se não melhora: Empachamento, distensão, saciedade precoce ou mudança do hábito intestinal de aparecimento recente e persistente, em mulher com massa em observação, mudam o caso de categoria mesmo com imagem estável. A diretriz nacional manda pedir imagem quando os sintomas persistem apesar de marcador normal — e é essa a situação.
Esperado: Estáveis
Se não melhora: Aumento do volume abdominal com perda de peso é a combinação que sugere ascite com consumo, e não ganho de peso. Meça, anote e compare com a medida anterior: numa mulher magra que engorda só na cintura, a diferença entre gordura e líquido se resolve com um exame de imagem, não com uma suposição.
Esperado: Ela sabe dizer, com as próprias palavras, o que a faz voltar antes da data marcada
Se não melhora: Se ela não sabe repetir, a orientação não foi dada — foi falada. Reescreva em letra legível, com um exemplo concreto de cada sinal, e confira se há transporte disponível. Perda de seguimento nesta doença não costuma ser desinteresse: é transporte, trabalho e cuidado de outra pessoa.
Onde o erro machuca
O dano: A conclusão de um laudo de ultrassonografia é uma frase curta, escrita por quem não conhece a paciente e não sabe a idade dela. Duas mulheres com descrições opostas recebem a mesma conclusão de massa anexial, e quem decide pela conclusão erra nos dois sentidos: encaminha ao oncologista uma mulher de 32 anos com cisto funcional, que sairá com um mês de angústia e talvez uma cirurgia, e devolve para casa com retorno em seis meses uma mulher de 63 anos com carcinoma. O segundo erro custa estádio.
Como pegar a tempo: Nunca decida sem a descrição. Leia parede, septo, componente sólido, vascularização, tamanho e líquido livre, nessa ordem, e transcreva-os para o prontuário. Se o laudo veio só com conclusão, o exame não está pronto: peça o descritivo ou repita. Fixe a pergunta que separa: o que está escrito acima da palavra conclusão?
O dano: A régua brasileira dispensa expressamente a dosagem de CA-125 quando a paciente ainda não entrou na menopausa e o cisto é simples. O marcador sobe com endometriose, menstruação, doença inflamatória pélvica, gravidez e qualquer irritação peritoneal — todas comuns nessa faixa. O resultado alterado num cisto que era simples cria uma sequência que se retroalimenta: repete exame, pede tomografia, encaminha, opera. A cirurgia desnecessária em mulher jovem custa reserva ovariana, e é o dano mais frequente deste tema.
Como pegar a tempo: Deixe o marcador fora do pedido quando o cisto é simples e a mulher está na pré-menopausa. Se ele já veio pedido por outro serviço e veio alterado, não trate o número como achado novo: pergunte pela data da última menstruação, procure endometriose e infecção, e reveja a descrição da imagem antes de escalar conduta.
O dano: É o erro simétrico do anterior e mata mais. O marcador está elevado em cerca de 80% dos carcinomas ovarianos, mas em menos da metade dos casos iniciais — falha exatamente onde seria útil. Uma mulher na pós-menopausa com massa de aspecto suspeito e CA-125 de 18 continua sendo uma mulher com massa de aspecto suspeito. Somando-se a isso a aritmética do índice de risco, em que a pós-menopausa com mais de um achado cruza o corte de 200 com marcador dentro da faixa normal, fica claro que o número normal não desfaz a imagem.
Como pegar a tempo: Trate o marcador como amplificador da imagem, nunca como veto a ela. Escreva a regra de bolso no prontuário quando encaminhar: a decisão de encaminhar foi tomada pela descrição do ultrassom e pela idade, e o CA-125 foi colhido para informar o serviço receptor, não para autorizar a espera.
O dano: Depois da menopausa, a régua brasileira desaconselha aspirar cisto ovariano por punção, seja ela transparietal ou transvaginal, e abre uma única exceção: aliviar sintoma em quem tem doença maligna avançada e já não é candidata a cirurgia. O motivo tem duas partes. A primeira é que a citologia do líquido tem desempenho ruim e um resultado negativo não exclui nada. A segunda é pior: o extravasamento de conteúdo cístico pode alterar o estadiamento em doença inicial e, sozinho, indicar quimioterapia adjuvante que não seria necessária. Uma punção transforma um estádio I num caso que precisa de tratamento.
Como pegar a tempo: Nenhuma punção eletiva de massa anexial, em nenhuma idade, com nenhuma finalidade diagnóstica. Se a ideia aparecer como forma de encurtar a espera, ela é o oposto: encurta o exame e alonga o tratamento. Quando a cirurgia acontecer, a peça sai dentro de bolsa e sem derramamento.
O dano: O câncer de ovário é estadiado cirurgicamente, e o estádio só existe se alguém souber inspecionar, biopsiar e ressecar. Uma massa suspeita retirada por quem não estadia produz uma paciente sem estádio, cuja quimioterapia será escolhida às cegas e cuja segunda cirurgia, se houver, não recupera o que não foi visto. A régua brasileira registra que pacientes tratadas em hospitais gerais que não seguem protocolos rígidos têm sobrevida muito inferior à das tratadas em centros de referência, e que a centralização aumentou a sobrevida global de forma considerável.
Como pegar a tempo: Antes de qualquer marcação cirúrgica, faça a pergunta em voz alta: se isto for maligno, este serviço estadia? Se a resposta for não, o caso não é de agendar cirurgia, é de encaminhar. A massa com aspecto benigno pode ser operada no hospital geral; a suspeita, não. E se a cirurgia já tiver acontecido no lugar errado, o marco 7 da conduta descreve o que reunir.
O dano: A palavra escolhida no encaminhamento determina a fila. "Cisto de ovário para avaliação" é lido pela regulação como consulta eletiva de ginecologia geral e entra numa fila de meses; "suspeita de neoplasia maligna de ovário", com os achados transcritos e a justificativa fundamentada, entra em outra. Além disso, o prazo de 30 dias previsto na lei do câncer depende de a hipótese principal ser de neoplasia maligna e de haver solicitação fundamentada do médico responsável. Escrever cisto não é apenas impreciso: desliga o prazo legal.
Como pegar a tempo: Escreva a hipótese que você realmente tem, com a palavra neoplasia, e sustente-a com a descrição do ultrassom transcrita no corpo do documento. Anote a data de emissão, entregue cópia à paciente e agende você mesmo o contato de acompanhamento. E diga à paciente a mesma palavra que escreveu — ela vai repeti-la na recepção, e isso também move fila.
O que dizer ao paciente e à família
A conversa deste capítulo tem uma dificuldade específica: você precisa mover alguém a atravessar a cidade por causa de uma coisa que não dói. O medo, sozinho, não faz isso — ele paralisa tanto quanto move. O que move é entender por que a pressa existe.
Há também duas mulheres muito diferentes recebendo notícias que parecem iguais. Josiane, 36 anos, precisa sair da sala tranquila e sem exames sobrando. Hortência, 63, precisa sair preocupada na medida certa e com um endereço na mão. A mesma frase serve mal para as duas.
O ultrassom achou uma coisa no meu ovário. É câncer?
“"Vou separar duas coisas para responder. A parte já definida é o que o exame descreveu, e essa descrição me diz que isso precisa ser visto por um serviço especializado. A parte ainda indefinida, que ninguém sabe hoje, é se é câncer — isso só se define examinando o tecido, e o tecido só se obtém numa cirurgia. Por isso o próximo passo não é outro exame de sangue: é a consulta com o especialista. Eu já vou deixar esse encaminhamento pronto agora, com tudo escrito."”
Não diga: Não diga "provavelmente não é nada" para ganhar tempo emocional. É a frase que faz a paciente não ir à consulta, e ela é a única coisa que precisa acontecer.
Não tem um exame de sangue que diga se é câncer?
“"Tem um exame de sangue que ajuda, o CA-125, e eu vou pedir. Mas ele não decide. Ele sobe em várias coisas que não são câncer, e em boa parte dos cânceres no começo ele está normal. Ou seja: se der alterado, não prova; se der normal, não exclui. Ele serve para ajudar o médico que vai te atender lá na frente. Por isso eu não vou esperar o resultado dele para te encaminhar — o encaminhamento sai hoje, e o exame vai junto quando ficar pronto."”
Não diga: Não prometa que o marcador vai esclarecer. A paciente que espera o resultado esperando resposta perde três semanas e volta com a mesma pergunta.
Meu CA-125 deu alterado. Isso quer dizer que é câncer?
“"Não quer dizer. Esse exame mede uma proteína que sobe quando a membrana que reveste a barriga fica irritada, por qualquer motivo. Menstruação, endometriose, infecção, gravidez, até inflamação intestinal fazem ele subir. Por isso, sozinho, ele não fecha nem afasta nada. O que eu faço com ele é somar com a descrição do ultrassom e com a sua idade. Se você quiser, eu te mostro no papel o que o ultrassom descreveu, porque é isso que está pesando na minha decisão."”
Não diga: Não entregue o número sem contexto e sem plano. Marcador alterado dito no corredor produz uma paciente que passa a semana pesquisando na internet.
Meu CA-125 deu normal. Então está tudo bem?
“"Fico contente que tenha dado normal, mas ele não muda o que eu vou fazer. Nesse exame, quando o problema é pequeno, ele costuma dar normal mesmo assim — ele erra justamente no começo, que é quando a gente mais quer saber. Quem está mandando na minha decisão é a descrição do ultrassom, e ela continua a mesma. Então o encaminhamento continua de pé, e eu prefiro que a senhora vá e o especialista diga que não era nada, do que a gente esperar e descobrir depois."”
Não diga: Não use o resultado normal para suavizar a conversa. É a forma mais educada de perder a paciente, e ela não volta porque acha que já foi liberada.
Por que eu tenho que ir para outro hospital? Não dá para operar aqui?
“"Dá para operar aqui, e é justamente por isso que eu preciso te explicar. Nessa doença, quando ela é maligna, a primeira cirurgia é a mais importante de todas — porque é nela que se descobre até onde a doença foi, e é isso que decide o tratamento seguinte. Quem faz esse tipo de cirurgia todo dia sabe onde olhar e o que retirar. Se a gente operar aqui e for maligno, essa informação se perde, e uma segunda cirurgia não recupera. Não é desconfiança do serviço: é que essa cirurgia tem um lugar certo."”
Não diga: Não desqualifique o serviço local nem o colega que se ofereceu para operar. A frase que funciona é sobre o que a cirurgia precisa produzir, não sobre quem é melhor.
Minha mãe teve câncer de ovário. Eu vou ter também?
“"História na família aumenta o risco, e é importante que você tenha contado. A maior parte dos casos não é hereditária, mas cerca de um em cada dez tem uma alteração genética que passa de mãe para filha. Isso não é uma sentença: é uma informação que serve para decidir o acompanhamento e, em alguns casos, para oferecer uma cirurgia que previne. Quem avalia isso é um serviço de genética, e eu vou te encaminhar. Enquanto isso, o que eu não vou fazer é começar a pedir exame de rotina, porque não existe exame que descubra esse câncer cedo em quem não tem sintoma."”
Não diga: Não ofereça ultrassom anual e CA-125 anual como se fossem prevenção. Não são, e o dano do falso positivo é real.
Então a gente vai só acompanhar? E se crescer?
“"Vamos acompanhar, e eu quero que você entenda por que isso é uma decisão e não uma espera. Pelo que o exame descreveu e pela sua idade, a chance de isso ser alguma coisa ruim é baixa, e operar teria mais risco do que benefício. O acompanhamento é com ultrassom daqui a quatro a seis meses, e eu já vou deixar marcado. Se crescer ou mudar de aspecto, muda a conduta e eu te aviso. E tem três coisas que te trazem de volta antes da data: dor forte e de repente, barriga aumentando rápido, ou vômitos. Vou escrever isso num papel para você levar."”
Não diga: Não termine com "qualquer coisa você volta". Sem os três sinais escritos e sem a data marcada, o acompanhamento vira alta disfarçada.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
O índice de risco de malignidade — a posição que a régua brasileira endossa por revisão sistemática
A régua brasileira da massa anexial registra que uma revisão sistemática de estudos diagnósticos concluiu ser o índice de risco de malignidade o mais eficaz para estimar risco de câncer ovariano entre mulheres com massas anexiais. Ele combina imagem, estado menopausal e CA-125 num número único, com corte de 200, e não exige ultrassonografista treinado em morfologia sofisticada — o que o torna aplicável na rede em que a maioria destes exames é feita.
Silva Filho AL, Moretti-Marques R, Carvalho JP. Massa anexial: diagnóstico e manejo. Femina. 2020;48(7):391-7, Febrasgo Position Statement número 1, julho de 2020
Os modelos do grupo International Ovarian Tumor Analysis — o mesmo documento, endossando outra coisa
O mesmo documento brasileiro apresenta as regras simples e o modelo ADNEX com sensibilidade de 92% e 96,5%, e os inclui na lista de testes formais cujo resultado de risco aumentado justifica encaminhamento à oncologia ginecológica, tanto na pré quanto na pós-menopausa. São modelos morfológicos: dispensam o marcador, o que os torna utilizáveis na mesma consulta em que o exame é feito, sem esperar laboratório.
Silva Filho AL, Moretti-Marques R, Carvalho JP. Massa anexial: diagnóstico e manejo. Femina. 2020;48(7):391-7, seções de imagem e de critérios de encaminhamento
Nenhum índice — descrição do ultrassom mais estado menopausal
A diretriz nacional do câncer de ovário do Ministério da Saúde não adota índice nenhum: ela descreve a ultrassonografia transvaginal como valiosa nos achados iniciais para sugerir se as lesões são benignas ou malignas, e trata o CA-125 pela sensibilidade e especificidade, sem fórmula. Nessa leitura, o que decide o encaminhamento são os achados descritos e o estado menopausal, e o índice é uma formalização que não acrescenta decisão nos casos francos.
Brasil. Ministério da Saúde. Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas de Neoplasia maligna epitelial de ovário, relatório número 401, janeiro de 2019, aprovadas pela Portaria Conjunta SCTIE/SAES/MS número 1, de 7 de janeiro de 2019
Decida pelo que a paciente à sua frente muda, e não pela elegância do instrumento. Primeiro: nos casos francos, os três caminhos dão a mesma resposta, e calcular índice é perder tempo. Uma massa de 9 centímetros com septo espesso, componente sólido vascularizado e ascite numa mulher de 63 anos é encaminhamento por qualquer régua; aplicar fórmula ali só adiciona uma variável para errar. Segundo: o índice tem utilidade real na faixa cinzenta e na pré-menopausa, porque ali a aritmética expõe uma coisa que a intuição esconde — que o marcador só desloca a decisão quando é muito alto, e que a imagem e a menopausa fazem o trabalho pesado. Terceiro: se você for usar o índice, use-o com a definição completa, incluindo o nível zero do fator de imagem que a régua brasileira omite, e com a lista de cinco achados do escore original, e não com a lista do quadro de estratificação; caso contrário você está calculando outra coisa com o mesmo nome. Quarto, e é o critério prático: use o instrumento que o seu serviço consegue executar hoje. Um modelo morfológico exige um laudo descritivo padronizado que nem todo serviço produz; o índice exige um CA-125 que nem toda unidade colhe na semana. Se nenhum dos dois estiver disponível, a decisão continua possível com a descrição do ultrassom e o estado menopausal — e nenhuma das três posições autoriza adiar o encaminhamento até que o instrumento fique disponível.
1 centímetro — o limiar de dispensar imagem de seguimento
No parágrafo em que trata de quando não acompanhar, a régua brasileira instrui a usar 1 centímetro como limiar para cistos simples em mulheres na pós-menopausa, remetendo à recomendação de não indicar imagem de seguimento para cistos anexiais clinicamente inconsequentes. Nessa leitura, o cisto simples abaixo de 1 centímetro na pós-menopausa não é achado, e pedir controle é gerar exame sem benefício.
Silva Filho AL, Moretti-Marques R, Carvalho JP. Massa anexial: diagnóstico e manejo. Femina. 2020;48(7):391-7, seção sobre conduta expectante, com remissão à recomendação do Colégio Americano de Radiologia
5 centímetros — o limiar de conduta conservadora com seguimento
No parágrafo imediatamente seguinte, o mesmo documento afirma que cistos ovarianos assintomáticos, simples, unilaterais e uniloculares com menos de 5 centímetros em mulheres na pós-menopausa apresentam baixo risco de malignidade e, quando o CA-125 vem normal, admitem conduta conservadora, com reavaliação entre quatro e seis meses e alta do acompanhamento depois de um ano se permanecerem inalterados ou menores.
Silva Filho AL, Moretti-Marques R, Carvalho JP. Massa anexial: diagnóstico e manejo. Femina. 2020;48(7):391-7, mesma seção, parágrafo seguinte
Os dois números estão no mesmo documento, em parágrafos vizinhos, e o documento não diz que respondem a perguntas diferentes — por isso a divergência é real para quem lê. A reconciliação possível, e ela é leitura e não citação, é que 1 centímetro é o limiar abaixo do qual não se faz nem o primeiro controle, enquanto 5 centímetros é o teto abaixo do qual se admite conduta conservadora com controle. Para a paciente à sua frente, três perguntas resolvem sem depender de qual leitura você adote. A primeira: o cisto é mesmo simples? Unilocular, anecoico, homogêneo, parede fina, sem septo, sem projeção e sem componente sólido — se qualquer um desses itens falhar, nenhum dos dois limiares se aplica e a conduta é outra. A segunda: o CA-125 está normal? Sem isso, a conduta conservadora do documento não está autorizada. A terceira: ela é sintomática? Se for, a régua manda avaliação cirúrgica adicional, independentemente do tamanho. Na faixa entre 1 e 5 centímetros, com cisto verdadeiramente simples e marcador normal, o controle em quatro a seis meses é a conduta que nenhuma das duas leituras contradiz, e é a que se registra. Fora dela, escolha explicando à paciente que existe divergência de limiar entre recomendações, e registre a escolha e o motivo.
Não dosar — a posição da régua da endometriose
O protocolo nacional da endometriose instrui a não utilizar CA-125 para o diagnóstico da doença, e o capítulo de Endometriose desta apostila segue essa instrução. A razão é boa: o marcador está elevado em grande parte das mulheres com endometriose, de modo que um valor alto na portadora conhecida não informa nada além do que já se sabe, e um valor alto tomado como novidade produz investigação e cirurgia desnecessárias numa mulher jovem, com custo de reserva ovariana.
Protocolo nacional da endometriose, conforme aplicado no capítulo de Endometriose desta apostila, posição 9
Dosar, junto de HE4 — a posição da régua da massa anexial
A régua da massa anexial trata a situação como um problema diferente e oferece a ferramenta correspondente: o HE4 é útil na diferenciação de massas anexiais com CA-125 elevado e sugestivo de endometriose, porque não sofre grandes alterações nessa condição, ao contrário do CA-125. A existência dessa recomendação implica que, na massa que se quer caracterizar, os dois marcadores entram juntos — e o segundo existe justamente para ler o primeiro.
Silva Filho AL, Moretti-Marques R, Carvalho JP. Massa anexial: diagnóstico e manejo. Femina. 2020;48(7):391-7, seção de marcadores tumorais séricos
A divergência desaparece quando se separa a pergunta, e é isso que se explica à paciente. Para diagnosticar endometriose, o marcador não serve, e a régua da endometriose está certa. Para estimar risco de malignidade numa massa que mudou, ele entra na conta, e a régua da massa anexial está certa. O que decide qual pergunta você está fazendo é a imagem, não o histórico: um endometrioma com aspecto típico e estável numa mulher de 29 anos com dor cíclica é endometriose, e não se dosa nada. Um endometrioma que ganhou componente sólido vascularizado, que cresceu depressa, ou que apareceu pela primeira vez depois da menopausa deixou de ser uma pergunta sobre endometriose. Três regras práticas para a paciente à frente. Primeira: se você for dosar CA-125 nessa situação, peça HE4 junto, porque um CA-125 isolado nessa mulher é quase ininterpretável. Segunda: um CA-125 alto com HE4 normal, num endometrioma de aspecto típico, é consistente com a doença conhecida e não autoriza escalar sozinho. Terceira, e ela sobrepõe as duas: o que decide o encaminhamento é a descrição da imagem, e componente sólido vascularizado encaminha independentemente do que os marcadores mostrarem.
O raciocínio, em voz alta
Judite Barroso tem 67 anos, é aposentada, viúva, hipertensa, com índice de massa corporal de 24. Menstruou pela última vez aos 50 anos, teve dois filhos, nunca usou terapia hormonal e nunca operou nada. Veio ao ambulatório de clínica com uma queixa que ela mesma chama de bobagem: há uns quatro meses está "empanturrada", come pouco e fica cheia, a calça apertou na cintura embora ela tenha perdido três quilos, e o intestino, que sempre foi regular, virou irregular. Trouxe um ultrassom de abdome total pedido pelo médico da unidade: relata massa anexial esquerda, mista, de 7,6 centímetros, com septos espessos e áreas sólidas, e moderada quantidade de líquido livre em pelve e goteiras. Não trouxe exame de sangue nenhum.
O que penso antes de perguntar qualquer coisa
Sessenta e sete anos, dezessete anos de pós-menopausa, e uma descrição de imagem com quatro itens de aspecto suspeito: composição mista, septo espesso, área sólida e líquido livre. A idade já é o fator de risco independente mais forte, e a descrição fecha. Isso não é uma paciente para estratificar com fórmula: é uma paciente cuja decisão já está tomada pelo laudo descritivo. O que resta da consulta é confirmar o que aumenta a urgência, escrever o encaminhamento certo e garantir que ela vá.
A queixa que ela chamou de bobagem
Empachamento, saciedade precoce, distensão que aperta a roupa, mudança recente do hábito intestinal e perda de peso, tudo com quatro meses de evolução numa mulher de 67 anos que nunca teve intestino ruim. Essa combinação é literalmente a descrita nas fontes nacionais como o quadro dos doze meses anteriores ao diagnóstico, o que imita síndrome do intestino irritável. Numa mulher dessa idade, síndrome do intestino irritável de início novo praticamente não existe. A queixa não é bobagem: é o sintoma da doença, e ela já o tinha antes do exame.
O que procuro no exame físico, e por quê
Procuro ascite, porque líquido livre no laudo com abdome distendido e macicez móvel muda a categoria do encaminhamento. Procuro massa palpável e a mobilidade dela. Faço o toque procurando nodulação na reflexão retouterina, que é doença peritoneal ao alcance da mão. Palpo região supraclavicular e inguinal, olho as pernas procurando edema, e avalio o quanto ela anda e faz sozinha, porque isso vai importar na decisão cirúrgica. Cada achado que existir vai escrito no encaminhamento, porque cada um deles, sozinho, é critério de ginecologia oncológica.
O que encontro
Abdome globoso, com macicez móvel de decúbito, sem dor à palpação. Massa palpável em hipogástrio à esquerda, de contorno irregular, pouco móvel. Ao toque, nodulação endurecida em fundo de saco posterior. Sem linfonodo periférico palpável, sem edema de membros. Ela anda, cozinha e cuida da casa sem ajuda. Três dos critérios de encaminhamento estão presentes ao mesmo tempo: ascite, massa fixa e nodular, e sinal de doença peritoneal.
O que peço, e o que deliberadamente não peço
Peço CA-125, sabendo que ele não vai mudar minha decisão e que serve ao serviço receptor. Peço hemograma, creatinina, transaminases e albumina, que serão necessários adiante. Não peço tomografia, nem ressonância, nem tomografia por emissão de pósitrons: não são primeira linha e a fila deles custaria semanas. Não peço painel de biomarcadores. E não proponho punção do líquido ascítico como atalho diagnóstico neste momento — o extravasamento e a manipulação da massa são exatamente o que a régua manda evitar, e a paracentese diagnóstica, se for necessária, é decisão do serviço que vai tratá-la.
Por que ela não pode ser operada aqui, mesmo que dê para operar
Se isto for maligno — e a probabilidade é alta —, a cirurgia dela não é uma retirada de massa: é o procedimento que vai definir o estádio e determinar o tratamento seguinte, e possivelmente a citorredução. O estádio não sai de imagem; sai do que o cirurgião inspeciona, biopsia e ressecca. Operada num serviço que não estadia, ela ficaria sem estádio, e nenhuma segunda cirurgia recupera essa informação. É essa a razão de o encaminhamento à ginecologia oncológica ser, nesta consulta, a intervenção mais determinante disponível.
O encaminhamento que eu escrevo
Escrevo, como hipótese, suspeita de neoplasia maligna de ovário, com esta palavra. Transcrevo a descrição do ultrassom inteira no corpo do documento, e não apenas anexo o exame. Registro idade, dezessete anos de menopausa, os quatro meses de sintomas com perda de três quilos, e os três achados de exame físico. Escrevo a justificativa fundamentada da hipótese, porque é ela que aciona o prazo de 30 dias para os exames de elucidação previsto na lei do câncer. Entrego cópia a ela, registro a data de emissão no prontuário e anoto na minha agenda a data-limite dos 30 dias.
O que eu digo a ela
Digo que o exame mostrou uma alteração no ovário que precisa ser avaliada por um serviço especializado, que ainda não se sabe se é câncer e que isso só se define com o exame do tecido, e que a consulta com o especialista é a parte que não pode falhar. Digo que os sintomas que ela achou bobagem foram importantes e que ela fez certo em contar. Entrego por escrito os sinais que a trazem de volta antes: dor forte e súbita, aumento rápido da barriga, vômitos ou febre. Pergunto quem vai com ela e como ela chega.
O que faço nas duas semanas seguintes
Ligo em quatorze dias para saber se a consulta foi marcada. Não foi: a regulação classificou como consulta de ginecologia. Reenvio o encaminhamento por escrito citando o prazo legal e a hipótese, agora com o resultado do CA-125 anexado, e registro a data. Escalono ao gestor da unidade. O que eu não faço é pedir outro exame de imagem enquanto a fila não anda — isso trocaria ação por atividade e não moveria nada.
O que acontece, e o que eu retenho
Ela é atendida no serviço de ginecologia oncológica em dezenove dias, faz tomografia lá, é submetida a cirurgia de estadiamento com citorredução e recebe quimioterapia no mesmo serviço. Não é a minha parte, e este nível de ensino não tem capítulo que a cubra. O que eu retenho é o que era meu: ler a descrição em vez da conclusão, reconhecer que a queixa inespecífica de uma mulher de 67 anos era a doença, escrever a palavra certa no encaminhamento, e ligar em quatorze dias.
O que teria mudado se ela tivesse 34 anos
Praticamente tudo, exceto os três achados que encaminham em qualquer idade. Aos 34, a primeira coisa seria um teste de gravidez. A descrição continuaria suspeita e continuaria encaminhando — ascite e massa nodular fixa não perdoam idade —, mas se acrescentariam desidrogenase láctica, alfafetoproteína e gonadotrofina coriônica humana pela possibilidade de tumor de células germinativas, que muda o tratamento e admite preservação de ovário. E a probabilidade a priori seria muito menor, o que tornaria a conversa diferente sem tornar a conduta diferente.
O que teria mudado se o laudo dissesse outra coisa
Em uma variante realmente assintomática, com cisto simples, unilateral, unilocular de 3,2 cm e CA-125 normal, pode caber acompanhamento com ultrassonografia em quatro a seis meses e avaliação de alta do seguimento após um ano de estabilidade, conforme o protocolo. Essa variante muda também os sintomas: Judite tem saciedade precoce, perda de peso e distensão, que precisam ser esclarecidas mesmo se uma imagem parecer simples. Morfologia benigna não transforma uma mulher sintomática em achado incidental.
Variação do caso — resposta e reavaliação
Variação do percurso de Judite: o CA-125 retorna normal, mas permanecem saciedade precoce, perda de peso e imagem suspeita. Manter a investigação e o encaminhamento. Um marcador normal não neutraliza um conjunto clínico e morfológico preocupante.
Variação do caso — quando mudar o plano
Se uma massa inicialmente acompanhada passa a causar dor súbita intensa com náuseas, reclassificar como possível emergência anexial. Não aguardar o ultrassom de controle agendado. Se a imagem for simples, mas persistirem sintomas sistêmicos ou abdominais, investigar a causa deles antes de concluir seguimento de um achado incidental.
Faça você
Tatiane Mesquita tem 31 anos, é auxiliar de farmácia, e tem diagnóstico de endometriose feito há quatro anos, com endometrioma ovariano direito de 4 centímetros documentado desde então em ultrassons anuais. Usa progestagênio contínuo e está sem cólica há dois anos. Veio à consulta com o ultrassom deste ano, feito na mesma clínica de sempre. O laudo descreve: ovário direito com formação de 6,8 centímetros, de conteúdo com ecos internos homogêneos de baixo nível compatível com endometrioma, contendo em seu interior área sólida de 1,9 centímetro, com fluxo ao Doppler colorido. Ovário esquerdo sem alterações. Ausência de líquido livre. A conclusão do laudo diz: endometrioma ovariano direito, com aumento em relação ao exame anterior. Ela está sem sintomas, chegou de bom humor e diz que veio só "buscar o papel".
Passo 1 — o que penso antes de olhar o exame
Trinta e um anos, endometriose conhecida, endometrioma documentado, sem sintomas e em uso de progestagênio. A probabilidade a priori de malignidade nesta paciente é baixa, e o viés que me ameaça é o de ancoragem: ela tem um diagnóstico que explica tudo, e a tentação é ler o exame confirmando a explicação que já existe. Antes de abrir o laudo, registro para mim mesmo que a pergunta desta consulta não é se ela tem endometriose — isso já se sabe —, e sim se alguma coisa naquela lesão mudou de natureza.
Passo 2 — o que na descrição não é endometrioma
A conclusão diz endometrioma que cresceu. A descrição diz três coisas: cresceu de 4 para 6,8 centímetros, ganhou uma área sólida de 1,9 centímetro, e essa área tem fluxo ao Doppler. Componente sólido vascularizado dentro de uma lesão ovariana não é achado de endometrioma; é um dos quatro aspectos morfológicos que a régua brasileira lista como sugestivos de malignidade. A conclusão do laudo, portanto, não descreve a descrição — e este é o capítulo em que se lê a descrição.
Passo 3 — a fronteira, dita em voz alta
O capítulo de Endometriose instrui a não dosar CA-125 para diagnosticar endometriose, e essa instrução está certa. Mas a pergunta aqui não é de diagnóstico de endometriose: é de risco de malignidade sobre uma massa que mudou. São perguntas diferentes, e por isso as duas instruções convivem. Se eu dosar CA-125 nesta mulher, preciso dosar HE4 junto, porque o CA-125 sozinho numa portadora de endometriose é quase ininterpretável — e o HE4 existe exatamente para essa situação, já que não se altera de forma importante na endometriose.
Passo 4 — o que decide, e o que não decide
Antes de pedir qualquer marcador, decido o que eu farei com cada resultado possível. Se o CA-125 vier alto e o HE4 normal, isso é consistente com a endometriose conhecida — mas não desfaz a área sólida vascularizada. Se os dois vierem normais, também não desfaz. Se eu não vou mudar de conduta com nenhum resultado, o marcador não está decidindo: está informando quem vai receber a paciente. E se o marcador não decide, ele também não pode atrasar.
Ver como fecharíamos
A conduta é encaminhar Tatiane à ginecologia oncológica, hoje, e pedir CA-125 e HE4 na mesma consulta sem esperar o resultado para encaminhar. O que sustenta essa decisão é um único achado da descrição: área sólida de 1,9 centímetro com fluxo ao Doppler dentro da lesão ovariana. Lesão sólida e vascularizada é um dos aspectos morfológicos que a régua brasileira lista como sugestivos de malignidade, e a tabela de conversão deste capítulo o classifica como aspecto suspeito, com encaminhamento à ginecologia oncológica, independentemente da idade e independentemente do marcador. O crescimento de 4 para 6,8 centímetros reforça, mas não é o que decide: cisto que cresce é apenas improvável de ser funcional, e sozinho não classifica. A ausência de sintomas não é tranquilizadora, porque a doença é assintomática por construção anatômica; a ausência de líquido livre também não, porque ascite é achado tardio. O que este caso ensina, e que é a razão de ele estar aqui, é a diferença entre a conclusão e a descrição de um laudo escrito por alguém que sabia da endometriose e leu o exame confirmando o que já sabia. A conclusão diz endometrioma que cresceu; a descrição diz endometrioma com nódulo sólido vascularizado dentro. Existe uma entidade que faz exatamente isso — a transformação maligna de endometrioma, rara mas descrita, tipicamente com carcinoma de células claras ou endometrioide, e ela é justamente uma das razões pelas quais a endometriose figura entre os fatores que contribuem para maior risco de câncer ovariano na régua brasileira. Sobre os marcadores: pedir CA-125 e HE4 juntos é a conduta que reconcilia as duas réguas. Um CA-125 elevado com HE4 normal seria consistente com a endometriose conhecida e ajudaria o serviço receptor a calibrar a suspeita; o inverso aumentaria a preocupação. Mas nenhum dos quatro resultados possíveis desfaz o nódulo sólido vascularizado, e é por isso que o pedido do marcador e o do encaminhamento saem juntos, e o segundo não espera o primeiro. O que não fazer: não puncionar a lesão nem propor aspiração para citologia — o extravasamento pode alterar o estadiamento em doença inicial e, sozinho, indicar quimioterapia adjuvante. Não pedir tomografia ou ressonância para "esclarecer antes de encaminhar": não são primeira linha, e a fila delas custaria semanas que o encaminhamento não custa. Não agendar cistectomia no hospital geral porque ela é jovem e a lesão parece removível: se for maligno, a cirurgia dela precisa estadiar, e um serviço que não estadia produz uma paciente sem estádio. E não repetir o ultrassom em três meses para ver se muda — a mudança já aconteceu, e é ela que está no laudo. Por fim, a conversa. Tatiane veio buscar um papel e vai sair com um encaminhamento oncológico, o que é uma distância emocional grande para uma consulta de rotina. Diga que o exame mostrou uma alteração dentro do cisto que ela já tinha, que essa alteração precisa ser vista por um serviço especializado, que ainda não se sabe o que é, e que a maior parte dessas alterações não é câncer. Diga que ela é jovem e que a preservação do ovário é uma preocupação legítima que o serviço especializado sabe manejar melhor do que um serviço geral — o que é verdadeiro e é, aliás, mais um argumento a favor do encaminhamento, e não contra. E escreva os sinais de retorno imediato antes que ela saia.
O índice é U × M × CA-125. Com U=3 e M=3, ele vale 9 × CA-125 e supera 200 apenas se CA-125 for maior que 200/9, aproximadamente 22,22 U/mL. Assim, 25 U/mL produz 225, mas 10 U/mL produz 90; ambos podem estar na faixa laboratorial normal. Portanto, o índice pode ultrapassar o corte com marcador normal, mas isso não acontece sempre. Com U=0, o produto é zero; com U=1 e M=1, supera 200 somente quando CA-125 também supera 200. Nenhum fator tem domínio aritmético universal: o resultado depende dos valores multiplicados.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Escreva de memória, sem consultar: (1) a primeira pergunta a fazer diante de massa anexial em mulher em idade reprodutiva, e para qual capítulo o resultado positivo manda; (2) os quatro aspectos morfológicos que a régua brasileira lista como sugestivos de malignidade; (3) os três achados que, sozinhos, encaminham à ginecologia oncológica em qualquer idade; (4) por que o CA-125 sobe em doença benigna, em uma frase que mencione o tecido de origem; (5) por que ele está normal em boa parte dos cânceres iniciais; (6) os dois prazos da lei do câncer, com o marco a partir do qual cada um conta; e (7) a frase que explica por que a primeira cirurgia decide o resto. Confira contra o capítulo e marque o que faltou. Aplicação comentada: Doppler com fluxo em anexo doloroso exclui torção? Não. A suspeita clínica exige avaliação ginecológica urgente quando coerente.
Em 30 dias
Volte ao caso de Judite e altere um dado de cada vez, verbalizando o que se desloca e o que permanece. Troque a idade para 34 anos. Troque a descrição para unilocular, anecoica, de parede fina e 3,2 centímetros. Tire a ascite. Ponha um CA-125 de 12. Ponha um CA-125 de 480. Troque a paciente por uma mulher de 29 anos com endometrioma conhecido que ganhou nódulo sólido. Em cada troca, responda três coisas: a porta de saída mudou, o pedido de exame mudou, e a palavra escrita no encaminhamento mudou? Depois refaça a conta do rastreamento com lápis e papel — sensibilidade de 60%, especificidade de 90%, incidência de 7,33 por 100 mil — e confira se você chega ao mesmo valor preditivo positivo do capítulo. Se chegar, você entendeu por que nenhum país rastreia esta doença.
Agora atenda
Agora atenda a mulher que trouxe o laudo com a massa. O caso é o de uma paciente na pós-menopausa que chega ao ambulatório com uma ultrassonografia pedida por outro motivo e uma descrição que ela não sabe ler. O que se avalia aqui não é o seu diagnóstico, porque não há diagnóstico a fazer nesta sala: é se você pergunta pela última menstruação em vez de deduzir pela idade, se você lê a descrição antes da conclusão, se você recolhe os sintomas dos doze meses anteriores que ninguém recolheu, se você examina procurando ascite e nodulação em fundo de saco, se você pede o marcador sem deixar que ele atrase o encaminhamento, e se você escreve a palavra certa no papel que ela vai levar. Ao final, diga a ela o que precisa ser dito para que ela realmente vá — e escreva os três sinais que a trazem de volta antes da data.
