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Doenças benignas da mama e descarga papilar
A mama que dói e a mama que escorre: o que obriga a excluir câncer, o que autoriza a tranquilizar hoje — e como dizer isso de um jeito que a paciente leve para casa
Brasil. Ministério da Saúde. Instituto Sírio-Libanês de Ensino e Pesquisa. Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres. Brasília: Ministério da Saúde, 2016. 230 p. ISBN 978-85-334-2360-2 — Parte 1, item 4 (Problemas na mama): 4.1 Mastalgia (Fluxograma 8, p. 44) e 4.2 Descarga papilar (Fluxograma 9, p. 45), com a Lista 13 de medicamentos e o quadro de causas de descarga
Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde. Nota Técnica nº 626/2025-CGCAN/DECAN/SAES/MS — acesso ao exame de mamografia no âmbito do Sistema Único de Saúde. Processo SEI 25000.164008/2025-91, documento 0050548355
Universidade Federal do Rio Grande do Sul. TelessaúdeRS-UFRGS. Protocolos de encaminhamento para Mastologia. Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS, elaborado em 3 de fevereiro de 2016, revisado em 5 de fevereiro de 2020 — Protocolo 1 (Neoplasia da mama e lesões suspeitas), Protocolo 2 (Alterações benignas da mama) e Quadro 1 (Sinais e sintomas mamários altamente sugestivos de câncer de mama)
Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Faculdade de Medicina. TelessaúdeRS-UFRGS. TeleCondutas nº 38 — Nódulo mamário: versão digital 2023. Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS, 15 de maio de 2023 — seções de avaliação clínica e de exames complementares e o Apêndice de principais causas de nódulo mamário
Instituto Nacional de Câncer. Parâmetros técnicos para detecção precoce do câncer de mama. Rio de Janeiro: INCA, 2022. 48 p. ISBN 978-65-88517-07-9 (versão eletrônica) — seção 2 (construção dos parâmetros), Tabela 1 e Apêndices A e B (memórias de cálculo)
Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva. Diretrizes para a detecção precoce do câncer de mama no Brasil. Rio de Janeiro: INCA, 2015. 168 p. ISBN 978-85-7318-274-3 (versão eletrônica) — seção 4.2 (sinais e sintomas na atenção primária) e Tabela D7 do apêndice
Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 252 p. ISBN 978-65-5993-710-3 — Apêndice A (elenco por componente, ATC e classificação AWaRe) e Apêndice B, Anexo III (Componente Especializado, grupo de financiamento e documento norteador)
Ministério da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 17, de 25 de novembro de 2024 — aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Câncer de Mama
Ministério da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 19, de 23 de novembro de 2020 — aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hiperprolactinemia
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Mulher de 31 anos relata saída de secreção leitosa pelas duas mamas, por vários orifícios, há quatro meses, com ciclos que se espaçaram no último semestre. Usa risperidona há dez meses, prescrita pelo serviço de saúde mental, e anticoncepcional oral combinado há três anos. Nega cefaleia e alteração visual; campos visuais normais; exame das mamas sem nódulo. Teste rápido de gravidez negativo. Qual é a conduta nesta consulta?
O paciente que você vai ver
Silmara Canedo tem 41 anos, é recepcionista de uma clínica odontológica e chegou à unidade básica com um envelope de raio-X debaixo do braço. Dentro há uma mamografia de três meses atrás, laudo categoria 1, e é por causa dela que Silmara veio: quer outra. A dor nas duas mamas voltou, como volta todo mês, e desta vez ficou mais forte do que ela lembra. A tia materna morreu de câncer de mama aos 71 anos. A frase que abre a consulta sai antes de qualquer pergunta sua: "a médica de lá disse que estava tudo bem, mas se estivesse tudo bem não doía".
A dor tem calendário. Começa uns dez dias antes de menstruar, pega as duas mamas por inteiro, pesa mais na parte de fora e de cima, incomoda ao abraçar os filhos e ao dormir de bruços, e some no segundo ou terceiro dia do sangramento. Foi assim nos últimos oito meses; antes disso ela não prestava atenção. Não teve trauma, não amamenta há sete anos, não usa hormônio nenhum, toma um anti-inflamatório da farmácia quando aperta. Já apertou os mamilos em casa, várias vezes, procurando o que a mamografia não achou, e viu sair "uma gotinha esverdeada" dos dois lados.
Ao exame, com Silmara sentada e depois deitada, as mamas são densas, nodulares nos quadrantes superiores externos, sem nenhum nódulo dominante, sem retração, sem alteração de pele ou de mamilo, sem linfonodo palpável. A palpação do gradil costal, com o dedo apoiado nas junções costocondrais logo abaixo da mama, não reproduz a dor. À expressão suave da aréola, sai uma secreção verde-escura, espessa, por três ou quatro orifícios de cada lado. Silmara olha para a gota e diz: "viu?".
Essa é a consulta deste capítulo, e ela é diferente da consulta em que uma mulher chega dizendo que achou um caroço. Aquela tem capítulo próprio, e nele a pergunta é por onde começar a procurar e com que urgência. Aqui o achado está na frente de vocês dois, e a pergunta é outra: o que nesta queixa obriga a excluir câncer, e o que autoriza a tranquilizar hoje? As duas respostas precisam sair da mesma consulta, e cada uma com a sua justificativa — porque "está tudo bem" já foi dito uma vez, com uma mamografia normal na mão, e não convenceu.
O interno erra essa consulta nos dois sentidos, e a cena traz os dois. Erra pedindo: a segunda mamografia em três meses, o ultrassom das duas mamas, a dosagem de prolactina para uma secreção que não é leite, o encaminhamento para a mastologia porque a paciente pediu. Nenhum desses exames responde à pergunta que Silmara trouxe, e cada um deles produz um achado, uma espera e uma consulta a mais. E erra tranquilizando: a secreção verde, bilateral, de vários ductos, só à expressão, tem uma régua brasileira que a chama de provavelmente benigna e outra régua brasileira que a chamaria de altamente sugestiva de câncer se fosse espontânea e de um lado só — e quem não conhece as duas não sabe qual pergunta ainda falta fazer.
Guarde a tese, porque o capítulo inteiro é ela: na mama que dói e na mama que escorre, a decisão sai da entrevista e do exame — e a conduta que funciona na maioria das vezes é uma explicação que a paciente consiga repetir em casa, mais uma data de retorno. Explicar não é a parte fácil da consulta. É a conduta, e exige saber exatamente o que se está afirmando, com que número e com base em qual documento.
Quem adoece disso
A dor é a queixa mamária mais comum da atenção primária, e a que menos se associa a câncer. As diretrizes brasileiras de detecção precoce registram que a mastalgia pode ocorrer em até dois terços das mulheres ao longo da vida reprodutiva e que, em geral, acompanha alterações fisiológicas ou doenças benignas. Numa série de quase duas décadas em consultórios de medicina de família na Holanda, citada por esse mesmo documento, quase metade das queixas mamárias era dor, e menos de um terço era nódulo — a dor chegou à unidade cerca de cinco vezes para cada três nódulos. A proporção importa porque define o tamanho da conversa que este capítulo ensina: para cada mulher que precisa de agulha, várias precisam de explicação.
O que a dor isolada rende em câncer se descreve com dois números da mesma revisão. Numa clínica de diagnóstico mamário de demanda espontânea em Gana, entre as mulheres em que a dor era o único sintoma, 1,24% receberam depois o diagnóstico de câncer; entre as que tinham dor acompanhada de outro sinal suspeito, quase sempre um nódulo, a proporção foi de 16%. Uma diferença de treze vezes, produzida não pela dor, mas pelo que a acompanhava. O material de apoio à regulação da atenção primária resume o intervalo de várias séries em zero a 3% para a dor isolada com exame físico normal, e descreve o perfil da dor que, quando se liga a câncer, tende a aparecer: unilateral, focal, intensa, progressiva e sem relação com o ciclo. É o retrato invertido da dor de Silmara.
A descarga papilar é queixa bem menos frequente do que a dor, e o único denominador nacional explícito para ela está nos parâmetros técnicos do Instituto Nacional de Câncer, construídos sobre a base de mamografias diagnósticas de 2018 e 2019. Entre as mulheres sintomáticas de 30 anos ou mais, o sinal principal registrado foi descarga ou lesão papilar em 2,50% dos casos; entre as de menos de 30 anos, 3,44%. Nódulo respondeu por 88,3% das indicações no grupo mais velho, e os outros quatro sinais somados, por 11,7%. Ou seja: para cada quarenta mulheres que chegam à mamografia diagnóstica do Sistema Único de Saúde, uma chega por secreção no mamilo. O número é pequeno e, por construção, subestimado — quando havia mais de um sinal registrado, o sistema contou só um, numa ordem em que nódulo, linfonodo e espessamento vêm antes da descarga.
Dentro da descarga, quem a causa depende de qual descarga. O protocolo federal da atenção básica separa duas listas que não podem ser somadas. A da descarga leitosa ou aquosa bilateral, que é fisiológica ou não mamária, atribui 40% a 50% a causa idiopática, 20% a 30% a galactorreia, 10% a 45% a medicação e 1% a 2% cada a síndromes anovulatórias e a lesões de sela túrcica. A das causas mamárias põe o papiloma intraductal em 44%, a ectasia ductal em 15% a 20% e o câncer em 10% a 15%. As duas listas partem de populações diferentes — a primeira, das secreções de árvore ductal inteira; a segunda, das secreções que vêm de um ducto doente — e é por isso que a primeira pergunta do exame é qual das duas mulheres está na sua frente. Entre as mulheres cuja queixa principal foi descarga, numa série irlandesa citada pelas diretrizes de 2015, 5% tinham câncer; os preditores independentes foram idade de 50 anos ou mais, secreção com sangue, nódulo palpável junto e origem em um ducto só.
A citologia da secreção tem um número nacional que a dimensiona. Na base do Sistema de Informação do Câncer, entre os exames citopatológicos colhidos de descarga papilar, 2,3% vieram positivos, suspeitos ou indeterminados para malignidade. O denominador é o exame: de cada cem lâminas de secreção, mais de noventa e sete voltam sem informação que mude o caminho. Isso não torna a citologia inútil; torna a citologia negativa incapaz de encerrar uma descarga suspeita, e essa é a única leitura do número que serve à paciente.
As entidades benignas que produzem nódulo entram aqui pelo que são, não pela investigação que merecem — esta é do capítulo vizinho. O fibroadenoma é a causa mais comum de massa mamária em adolescentes e mulheres jovens, com pico na terceira década, e ainda responde por 12% de todas as massas na menopausa; costuma medir 1 a 2 cm e, acima de 5 cm, ganha o nome de gigante. O cisto simples é muito frequente na menacme e também depois da menopausa, com maior incidência entre 35 e 50 anos. O papiloma intraductal solitário, causa mais comum da descarga que assusta, mede tipicamente 2 a 4 mm e aparece com mais frequência entre 30 e 50 anos pelo material de apoio de 2023 — e entre 45 e 50 anos pelo quadro federal de 2016, uma diferença de faixa que o capítulo registra adiante. O tumor filoide, que a palpação não distingue de um fibroadenoma, corresponde a 0,3% a 0,5% de todos os tumores da mama, e só 5% dos filoides têm comportamento de sarcoma.
Por fim, a mama que inflama fora do puerpério. A mastite não lactacional responde por 1% a 2% de todas as condições mamárias sintomáticas — rara, portanto, mas com duas consequências desproporcionais ao tamanho. A primeira é a recidiva: o abscesso subareolar crônico recidivante, complicação da mastite periductal, volta em quase metade das mulheres mesmo depois de cirurgia com técnica adequada, e o tabagismo pesa nessa conta. A segunda é a lista federal de referência urgente, que a Nota Técnica nº 626/2025 ampliou com um item que a lista das diretrizes de 2015 não tinha: a mastite ou inflamação que não melhora depois de um curso adequado de antibiótico — porque a mama vermelha e inchada que não responde ao remédio pode não ser infecção. Nesse ponto, e só nesse, a doença benigna deste capítulo entrega a paciente ao capítulo do nódulo.
Por que acontece o que acontece
A dor cíclica não é doença: é a mama respondendo ao ciclo. Na segunda fase, sob progesterona e estrogênio, o lóbulo mamário prolifera e o estroma ao redor retém água; a glândula ganha volume, tensão e sensibilidade, e o que a mulher sente é o tecido ocupando um espaço que não tem para onde crescer. Com a queda hormonal da menstruação, o edema regride e a dor vai embora. Por isso a mastalgia cíclica é bilateral, difusa, predomina nos quadrantes superiores externos, onde há mais parênquima, e obedece ao calendário — e por isso a mesma mulher, examinada dez dias antes da menstruação e dez dias depois, parece ter duas mamas diferentes. A nodularidade que o examinador sente na fase lútea é o retrato desse edema lobular, não de uma lesão.
A dor não cíclica tem outra origem e costuma ter outro endereço. Quando é mamária, vem de uma estrutura localizada — um cisto que se encheu, uma ectasia com inflamação ao redor do ducto, uma necrose gordurosa depois de trauma, uma cicatriz — e por isso é focal, persistente e pode ser unilateral. Quando não é mamária, a paciente aponta a mama e a origem está atrás dela: nas junções costocondrais, na parede torácica, na musculatura, e a dor se reproduz com a pressão sobre o gradil costal ou com o movimento do braço. O exame físico do protocolo federal manda procurar dor na mama ou no gradil costal como primeiro gesto exatamente por isso — separar a mama do que está debaixo dela é o teste mais barato da consulta, e o mais esquecido.
O fibroadenoma é um tumor de duas partes. Nasce da unidade ducto-lobular terminal com epitélio e estroma proliferando juntos, o que o faz responder a hormônio como o lóbulo normal responde: cresce na adolescência e na gestação, pode doer na fase lútea e involui depois da menopausa, quando com frequência calcifica. A cápsula fibrosa que o delimita explica a semiologia — firme, liso, móvel, de contorno nítido, escorregando sob os dedos — e explica também o limite da semiologia, porque o tumor filoide tem a mesma arquitetura fibroepitelial, a mesma superfície e a mesma mobilidade, e a diferença está no estroma hipercelular que só o tecido mostra. O que a mão nota no filoide, quando nota, é o tamanho e a velocidade de crescimento.
O cisto é o lóbulo que involuiu e ficou cheio. Com o passar das décadas, o epitélio lobular se atrofia, os ductos terminais se dilatam e a secreção que continua sendo produzida se acumula numa cavidade que não drena; parte desses cistos tem metaplasia apócrina, que produz um líquido mais espesso e escuro. É um processo de involução, não de proliferação, e é por isso que o cisto simples, com parede fina e conteúdo líquido homogêneo, não carrega risco — e por isso a mama de 35 a 50 anos, que está no meio dessa involução, é a que mais os apresenta, muitas vezes vários e nas duas mamas. O que muda de categoria é a parede: septo espesso, componente sólido dentro do líquido ou vegetação mural tiram o cisto do simples e exigem que alguém olhe para dentro.
A árvore ductal explica a descarga. Cada mama tem em torno de quinze a vinte sistemas ductais, cada um com o seu orifício na papila. Uma causa sistêmica — a prolactina, a gestação, um fármaco que bloqueia a dopamina — age sobre todos os lóbulos ao mesmo tempo, e a secreção aparece por vários orifícios das duas mamas. Uma lesão dentro de um único ducto — um papiloma, uma proliferação epitelial, um carcinoma — só pode drenar por aquele orifício, de um lado só. É esse arranjo anatômico que sustenta as perguntas do exame: o número de orifícios e o número de mamas dizem se o processo é da árvore inteira ou de um galho, e nenhuma cor de secreção substitui essa informação.
A ectasia ductal é a involução dos ductos grandes, atrás da aréola. Os ductos coletores se dilatam, a secreção estagna, engrossa e muda de cor conforme o tempo e o conteúdo — esbranquiçada, amarelada, esverdeada, acastanhada, quase preta — e a parede do ducto reage com inflamação periductal e fibrose. Daí três consequências clínicas: a secreção espontânea, multiductal, bilateral e colorida da mulher madura; a dor retroareolar e o eventual espessamento subareolar; e a retração ou o desvio da papila, que a fibrose periductal produz e que o interno precisa saber reconhecer como benigna quando vem com esse contexto, para não confundir com a retração recente e unilateral que é sinal de alerta. O tabagismo intensifica o processo inflamatório periductal, e é nele que a ectasia se encontra com a mastite periductal e o abscesso subareolar.
O papiloma intraductal é uma proliferação epitelial que cresce sobre um eixo fibrovascular, dentro do ducto, como um pólipo numa haste. O eixo é frágil e sangra com facilidade; o epitélio secreta. Por isso a lesão se anuncia por um líquido claro ou sanguinolento que sai por um único orifício, muitas vezes antes de qualquer massa palpável, e por isso a citologia da secreção erra tanto: o que se recolhe na lâmina são células descamadas de uma lesão que fica centímetros de ducto adiante. O papiloma solitário central raramente vira câncer; os papilomas múltiplos e periféricos, e sobretudo os que abrigam atipia, mudam a categoria de risco da mulher — e é essa a razão de a lesão exigir tecido, e não só imagem.
A galactorreia é fisiologia deslocada. A prolactina é o único hormônio hipofisário sob inibição tônica: a dopamina do hipotálamo a mantém baixa, e tudo o que retira o freio a eleva — o antipsicótico que bloqueia o receptor dopaminérgico, a metoclopramida e a domperidona que fazem o mesmo, a metildopa que esgota o neurotransmissor, o hipotireoidismo primário em que o hormônio liberador de tireotrofina sobe e estimula a prolactina junto, o adenoma que a produz, a haste comprimida que deixa de conduzir a dopamina. A sucção e a manipulação repetida do mamilo fazem o mesmo por via reflexa, e o estrogênio aumenta a sensibilidade da mama a esse estímulo sem elevar a prolactina de modo significativo. Uma mama que produz leite sem gestação está, quase sempre, contando a história de um freio solto — e a história se lê na lista de medicamentos antes de se ler no exame de imagem.
Como se apresenta de verdade
Dor mamária e descarga papilar precisam ser descritas antes de serem tranquilizadas. Você deve reconhecer padrões provavelmente benignos, sinais que exigem investigação e infecção com coleção que precisa de drenagem. Em doença recorrente, resolver o episódio agudo não encerra a avaliação da causa.
Percurso clínico: Interpretar descarga junto aos demais achados
Descreva espontaneidade, lateralidade, ductos, aspecto e presença de massa ou alteração cutânea. Evite expressão repetida como forma de vigilância. Descarga provocada tende a menor risco em contexto benigno, mas esse dado não neutraliza sangue, massa ou evolução suspeita. Defina investigação e retorno.
A dor: cíclica, não cíclica e a que não é da mama
A entrevista da dor tem seis perguntas, e o fluxograma federal as lista na ordem: um lado ou os dois; relação com a menstruação; há quanto tempo e se está piorando; se houve mudança no aspecto da mama, nódulo ou gânglio na axila ou acima da clavícula; idade, amamentação atual ou passada, medicação, trauma e febre; e a história ginecológica. Com essas respostas, a dor já está classificada antes de a paciente tirar a blusa. A dor cíclica é bilateral, difusa, predomina nos quadrantes superiores externos, começa na segunda metade do ciclo e some com a menstruação; a mulher costuma descrever peso, sensibilidade ao toque e à roupa, e não uma pontada. A dor não cíclica não obedece ao calendário, tende a ser unilateral e localizada, e a paciente aponta com um dedo em vez de com a mão aberta.
A terceira categoria é a que mais se erra por omissão: a dor que a paciente sente na mama e que não vem dela. A costocondrite, a dor muscular da parede torácica, a dor referida da coluna e a dor do gradil costal se apresentam como mastalgia, e o único modo de reconhecê-las é procurá-las — apoiar os dedos nas junções costocondrais abaixo e medialmente à mama, pressionar, e perguntar se é aquela dor. Quando a pressão reproduz a queixa, o problema mudou de órgão. O protocolo federal põe a pesquisa de dor no gradil costal no exame físico geral, antes do exame das mamas, e a caixa de sinais de alerta do seu fluxograma de mastalgia não tem um único sinal mamário: é inteira de dor torácica aguda — aperto, irradiação, dispneia, sudorese, diferença de pulso entre os braços. A mensagem do documento é a que o interno mais precisa ouvir: a mulher que diz que a mama dói pode estar descrevendo o tórax.
O que assusta na dor, e com razão, é o conjunto que o material de apoio de 2023 descreve: unilateral, focal, intensa, progressiva e sem padrão cíclico — e quase sempre acompanhada de outro achado. Dor com nódulo não é queixa de dor; é queixa de nódulo, e sai deste capítulo. Dor com a mama inteira aumentada, quente e vermelha fora do puerpério não é mastalgia; é inflamação, tratada na sexta seção. E dor focal persistente sem nada palpável, sem trauma, é a única dor que o fluxograma manda investigar por imagem — o que a próxima parte do capítulo discute com as duas réguas que divergem sobre isso.
O que tranquiliza é o par que Silmara trouxe: dor bilateral, cíclica, com exame físico normal. Nessa combinação, a probabilidade de câncer é a mais baixa de toda a clínica mamária, o protocolo federal diz que os exames de imagem são desnecessários e a conduta tem cinco itens que cabem num único parágrafo de conversa. O erro característico aqui não é deixar de pedir mamografia — é pedir. E o segundo erro é tranquilizar sem examinar: a segurança do primeiro acompanhamento na atenção primária, escrita nas diretrizes de 2015, depende de o exame ter sido feito e de não ter encontrado outro sinal.
O nódulo com cara de benigno: fibroadenoma e cisto como entidades
A investigação do nódulo palpável — a escolha do exame pela idade, a leitura do laudo, a decisão de biopsiar e a régua de concordância — é do capítulo de nódulo mamário, e este não a repete. O que este capítulo assume é o que vem depois que a investigação devolve um nome benigno: o que é um fibroadenoma, o que é um cisto, como se comportam, o que se diz à mulher e o que justifica mexer neles.
O fibroadenoma é a massa mais comum da mulher jovem: sólido, firme, liso, bem delimitado, móvel, quase sempre indolor, com 1 a 2 cm, e com frequência múltiplo. Confirmado por imagem ou por tecido, ele não é doença que precise sair. Cresce na gestação, pode doer no pré-menstrual, tende a involuir e a calcificar depois da menopausa. O que muda o rumo é o comportamento: crescimento rápido, tamanho acima de 5 cm, assimetria visível ou dor persistente pedem avaliação especializada, porque o tumor filoide se apresenta com a mesma semiologia e cresce mais depressa, e porque o fibroadenoma gigante da adolescente deforma a mama e pede cirurgia. Fora disso, a decisão de retirar um fibroadenoma confirmado é da mulher — e o protocolo de regulação escreve isso com todas as letras ao listar, entre os motivos de encaminhamento, a lesão benigna sintomática em que, mesmo com confirmação, haja desejo de exérese.
O cisto simples é a outra face da mesma mama: cavidade de parede fina e conteúdo líquido, que aparece e some, muitas vezes de um mês para o outro, e que dói quando se enche depressa. A ultrassonografia o define — anecoico, homogêneo, com reforço acústico posterior e sem componente sólido —, e nessa condição ele não exige nada além de explicação. Só se aspira o cisto que incomoda: a punção esvazia, alivia e, se o líquido é claro ou amarelado e a cavidade some, encerra o assunto. O que devolve o cisto à investigação é o que a imagem chama de complicado ou complexo — conteúdo com ecos, septo espesso, vegetação na parede — e o que o encaminha é a recidiva depois de esvaziado, que o protocolo de regulação lista como motivo próprio de consulta especializada.
As demais entidades sólidas benignas entram pela mesma porta e saem por ela. O lipoma é superficial, amolecido e móvel, e só se retira se confunde ou cresce. A necrose gordurosa aparece depois de trauma ou cirurgia, pode imitar câncer na imagem e por isso às vezes exige biópsia, mas, diagnosticada, não pede mais nada. A galactocele é o cisto de retenção de leite da lactante ou da mulher que parou de amamentar há pouco, e a punção que devolve leite é ao mesmo tempo diagnóstico e tratamento. A mastopatia diabética e a hiperplasia estromal pseudoangiomatosa são raras, se apresentam como massa e só se resolvem com tecido. O denominador comum dessas entidades é o mesmo: nenhuma aumenta o risco de câncer, nenhuma exige seguimento indefinido depois de diagnosticada, e a única razão para operá-las é sintoma, dúvida ou vontade da paciente.
A alteração funcional benigna: um rótulo que vira seguimento sem fim
Há uma mama que não tem nódulo e não tem doença, e que gera mais consultas do que as duas coisas juntas: a mama nodular, densa, sensível, com áreas de espessamento que mudam com o ciclo e com cistos pequenos que aparecem e somem. A palpação a descreve como alteração fibrocística; a ultrassonografia pedida sem indicação descreve cistos simples e áreas de textura heterogênea; o laudo, quando alguém biopsia, descreve adenose, fibrose, cistos e metaplasia apócrina. Nada disso é lesão. É a mama no meio da vida reprodutiva, com a sua variação normal de tecido e de resposta hormonal, e o nome que se dá a isso — alteração funcional benigna, alteração fibrocística — é um rótulo descritivo, não um diagnóstico.
O problema do rótulo é o que ele dispara. A mulher que sai da consulta com "alteração fibrocística" escrito no papel volta em seis meses para controlar o que não é doença, faz uma ultrassonografia por ano para acompanhar cistos que não precisam de acompanhamento e passa a acreditar que tem uma condição da mama — e essa crença pesa nas consultas seguintes, quando uma dor cíclica passa a ser lida como piora da doença. O material de apoio de 2023 é claro ao separar as lesões proliferativas sem atipia, que podem se associar a risco futuro, das alterações não proliferativas, que não se associam a nada; a alteração funcional está no segundo grupo.
O que se faz com essa mama, portanto, é examiná-la bem, descrever o que se encontrou em termos que não a transformem em doença, orientar a mulher sobre a variação normal ao longo do ciclo, dizer o que mudaria a conduta — um nódulo novo que persiste depois da menstruação, uma secreção espontânea de um lado, uma alteração de pele — e devolvê-la à rotina de rastreamento que a idade dela indica. O único seguimento que essa mama precisa é o que toda mama precisa.
Uma ressalva pertence a esta seção porque é onde o erro acontece. A nodularidade cíclica, quando assimétrica e persistente, deixa de ser rótulo e passa a ser achado: uma área espessada de um lado só, que continua lá depois da menstruação, entra na régua do nódulo e vai para o capítulo vizinho. O critério que separa as duas coisas é o tempo e a simetria, e por isso a orientação de reexaminar na primeira semana depois da menstruação é o instrumento diagnóstico desta seção, e não uma forma de adiar.
A descarga: cinco perguntas antes de qualquer exame
A descarga papilar se classifica com perguntas, e o protocolo federal as põe na entrevista e no exame: a secreção sai sozinha ou só quando se aperta; sai por um orifício ou por vários; de uma mama ou das duas; que aparência tem; e há alguma outra alteração na mama ou na axila. As cinco respostas cabem num minuto e decidem por qual de três caminhos a paciente vai — investigação de câncer de mama, investigação de prolactina, ou acompanhamento sem exame nenhum. O que se ensina aqui é a sequência, porque a ordem das perguntas é o que impede o erro.
A secreção é espontânea? Espontânea é a que mancha a roupa sem manipulação; provocada é a que só aparece quando a mulher ou o examinador espreme. A distinção vem antes de qualquer outra porque a provocada não se investiga: a manipulação repetida mantém o ducto drenando e perpetua a queixa, e a conduta escrita é orientar a não estimular e reavaliar em dois a três meses. Silmara apertou os mamilos em casa procurando o que a mamografia não achou, e a gota verde que ela mostrou é, em parte, produto dessa procura.
Por quantos orifícios, e de quantas mamas? Um ducto e uma mama apontam para uma lesão dentro daquele ducto; vários ductos e as duas mamas apontam para a árvore inteira — hormônio ou involução. Esta é a pergunta que carrega a anatomia, e é a que o protocolo de regulação transforma em critério isolado: para ele, qualquer descarga uniductal ou unilateral espontânea é altamente sugestiva de câncer, independentemente da cor. Ao examinar, pressione a aréola ponto a ponto, como se percorresse um relógio, e observe de qual orifício sai e em que posição da aréola a pressão a provoca — essa posição é o endereço do ducto, e é o que o radiologista vai procurar.
Que aparência tem? A cor é o nó de decisão do fluxograma federal depois da espontaneidade, e ramifica em três: a serosa, transparente como água de rocha, a sanguinolenta e a serossanguinolenta vão para investigação de câncer, e o documento acrescenta a esse ramo a mulher com mais de 60 anos, qualquer que seja a cor; o leite ou colostro vai para a rota da prolactina; e a amarelada, esverdeada, amarronzada ou acinzentada volta ao ramo da descarga provocada — provavelmente benigna, não estimular, reavaliar em dois a três meses. A cor escura engana nos dois sentidos: não é sangue velho, como a paciente teme, e é o retrato típico da ectasia ductal; mas a cor é a resposta a uma pergunta, não a todas — e a próxima seção do capítulo mostra onde ela contradiz o padrão ductal.
Há mais alguma coisa na mama? Descarga com nódulo, com retração, com alteração de pele ou com linfonodo não é queixa de descarga; sai do fluxograma e vai para a avaliação do nódulo. E a própria papila precisa ser olhada: eritema, crosta, descamação e aspecto de eczema no complexo areolopapilar levantam a doença de Paget e vão direto à mastologia, sem passar por nenhuma outra caixa. O interno que examina só o líquido e esquece a pele em volta perde a lesão que estava a um centímetro da gota.
A quinta pergunta é a que resolve a maior parte das descargas sem nenhum exame, e a que menos se faz: o que a mulher fez com essa mama nas últimas semanas. Expressão diária para conferir, estimulação sexual do mamilo, roupa que atrita, um trauma. Uma parcela grande das descargas provocadas, coloridas e bilaterais é mantida pela própria pesquisa da paciente, e a conduta que a resolve é uma frase — pare de apertar — dita com explicação suficiente para que ela obedeça.

A descarga láctea fora da lactação: a rota muda inteira
Leite ou colostro, pelas duas mamas, por vários orifícios, numa mulher que não está grávida nem amamentando, é galactorreia — e a partir desse nome a paciente saiu da clínica da mama. O que se investiga não é o ducto, é o eixo que o comanda, e o fluxograma federal ordena três degraus que não se pulam: gestação, medicamento, prolactina. A ordem tem lógica de custo e de frequência: a gestação é a causa mais comum e a mais barata de confirmar, com teste rápido na dúvida; o medicamento é a segunda causa mais comum e a única que se resolve sem exame nenhum; a prolactina vem por último porque o seu valor só tem leitura depois de afastados os dois primeiros.
A entrevista da descarga láctea inclui perguntas que a da descarga comum não faz, e o protocolo as lista: irregularidade menstrual ou amenorreia, redução da libido, alteração do apetite ou da tolerância à temperatura, cefaleia e sintomas visuais. Elas existem para separar a galactorreia que é só galactorreia da que vem com hipogonadismo, com hipotireoidismo ou com massa de sela — e o exame físico geral ganha um item que nenhuma outra queixa mamária tem: o exame dos campos visuais por confrontação.
A lista federal de fármacos que elevam a prolactina é longa e o interno não precisa decorá-la; precisa reconhecê-la na prescrição da paciente: antipsicóticos típicos e atípicos, antidepressivos tricíclicos e inibidores seletivos da recaptação de serotonina, buspirona e alprazolam, metoclopramida e domperidona, metildopa, reserpina e verapamil, opioides, cimetidina e ranitidina. A observação ao pé da lista é a que mais poupa erro: o anticoncepcional oral não eleva a prolactina de modo significativo — o estrogênio só aumenta a sensibilidade da mama ao estímulo de sucção. Suspender a pílula de uma mulher com galactorreia é usar o mecanismo errado e perder a contracepção.
Até onde este capítulo vai: até dizer que se pede o teste de gravidez, que se revisa a lista com quem prescreveu, que se dosa TSH e prolactina, e por quê. O que vem depois — os cortes do valor de prolactina, a macroprolactinemia, o efeito gancho, a imagem de sela, os agonistas dopaminérgicos e a diferença entre cabergolina e bromocriptina — pertence à investigação da hiperprolactinemia, que tem capítulo próprio previsto nesta apostila e ainda não escrito. O protocolo clínico federal da hiperprolactinemia, de 2020, exclui do seu alcance a elevação por medicamento, por gestação e amamentação e por hipotireoidismo primário: os três degraus que a unidade básica sobe antes de encaminhar são, portanto, a triagem que decide se a paciente é ou não é caso daquele protocolo.
A mama vermelha fora do puerpério: mastite periductal, abscesso subareolar e mastite granulomatosa
A mastite da lactante tem capítulo próprio — Aleitamento materno exclusivo até 6 meses, na apostila de nutrologia pediátrica —, e este capítulo a cede pelo nome; a infecção puerperal com a mastite lactacional tem ainda um capítulo previsto na apostila de obstetrícia, não escrito. O que assume é a inflamação da mama de quem não amamenta: 1% a 2% das queixas mamárias, com três entidades e um denominador de risco em comum — excesso de peso, mamas volumosas, tabagismo, diabetes e cirurgia ou irradiação prévia.
A mastite periductal é a infecção que nasce da ectasia. Os ductos subareolares dilatados, com secreção estagnada e parede inflamada, infectam-se por flora da pele — o estafilococo dourado é o agente mais comum, e os anaeróbios entram sobretudo na fumante e na mulher que já fistulizou. O quadro é de dor, calor e vermelhidão subareolar ou na metade inferior da mama, com ou sem massa, com ou sem febre, e com frequência com retração da papila, que a fibrose periductal já vinha produzindo. Quando a coleção se organiza, é o abscesso subareolar, e quando ele rompe para a pele na borda da aréola e volta, é o abscesso subareolar crônico recidivante, com a sua fístula que liga o ducto à pele.
A mastite granulomatosa idiopática é rara, imita as duas coisas que mais assustam — o abscesso e o câncer — e só o tecido a define: granulomas epitelioides limitados aos lóbulos, com microabscessos, sem agente. A apresentação mais comum é massa palpável dolorosa, às vezes com secreção, retração da papila, linfonodo axilar, edema e eritema. É autolimitada, resolve devagar, em cinco a vinte meses, e em geral não pede cirurgia; o que pede é diagnóstico histológico e microbiológico, porque a mama vermelha com massa numa mulher que não amamenta é, até prova em contrário, a apresentação em que o carcinoma inflamatório precisa ser afastado.
E é aqui que a doença benigna deste capítulo faz a única entrega obrigatória ao capítulo do nódulo. A lista federal de referência urgente da Nota Técnica nº 626/2025 inclui, no item 2.15, a mastite ou inflamação que não melhora depois de um curso adequado de antibiótico — item novo, que a lista das diretrizes de 2015 não continha. O abscesso que não responde, a coleção que se refaz, a vermelhidão que persiste com a febre já resolvida, o espessamento que fica quando a infecção passou — nenhum desses é motivo para o segundo antibiótico. São motivo para imagem, para cultura e para biópsia da parede da coleção, e para o encaminhamento com prioridade que a nota técnica manda dar às mulheres com sinal de alerta.
Como fechar o diagnóstico
Este bloco responde na ordem em que as decisões aparecem: o que o exame precisa produzir para a queixa ficar classificada; quando a dor recebe imagem e quando não recebe; o que se pede na descarga suspeita, e o que a citologia não faz; os três exames da descarga láctea e a ordem deles; o que confirma um fibroadenoma e um cisto, e o que os devolve à investigação; e o que se pede na mama inflamada. A técnica do exame clínico das mamas em cinco etapas está no capítulo de nódulo mamário; aqui entra só o que a dor e a descarga acrescentam a ela.
Uma advertência de fronteira vale para o bloco inteiro: sempre que a investigação encontrar um nódulo, uma imagem suspeita ou uma discordância entre o que a mão sente e o que o exame mostra, a paciente mudou de capítulo. O que se decide aqui é o que fazer quando a investigação não encontra nada disso — que é a maior parte das vezes.
O exame que classifica: o que as mãos produzem além do nódulo
Na dor, o exame tem um gesto a mais e um momento certo. O gesto é a palpação do gradil costal e da parede torácica antes da mama, com a paciente sentada e depois deitada, procurando reproduzir a dor: a dor que se reproduz na junção costocondral não é da mama, e a consulta muda de assunto. O momento certo é a primeira semana após a menstruação, com o edema lobular da fase lútea já desfeito; uma mama examinada no pré-menstrual é nodular por fisiologia, e o achado que some dez dias depois não era achado. Se a paciente veio na fase errada e nada de alarme foi encontrado, marcar o retorno na fase certa é conduta, não adiamento.
Na descarga, a técnica muda de pinça para relógio. A pinça na aréola, comprimindo suave e firmemente, é a manobra de pesquisa; mas o que classifica é a pressão radial, ponto a ponto na margem da aréola, observando de qual orifício sai a secreção e em que posição do relógio a pressão a provoca. Isso localiza o sistema ductal, e é o dado que o ultrassonografista vai usar para procurar o ducto dilatado e o que há dentro dele. Registre a cor com o adjetivo que o protocolo usa — serosa, sanguinolenta, serossanguinolenta, leitosa, amarelada, esverdeada, amarronzada, acinzentada —, o número de orifícios, a lateralidade e se saiu espontaneamente ou só à expressão. Se a paciente diz que mancha o sutiã, peça para ver o sutiã: a mancha seca conta a cor e a frequência melhor do que a memória.
O que se escreve decide o que acontece depois, e nas duas queixas o registro tem campos próprios. Na dor: lateralidade, relação com o ciclo, tempo, progressão, reprodução à palpação da parede torácica, e a frase de que o exame das mamas e das axilas é normal, com data e fase do ciclo. Na descarga: os quatro adjetivos e a cor, a posição do relógio, o estado da papila e da pele periareolar, e a ausência ou presença de nódulo associado. O protocolo de regulação exige, para a descarga leitosa, a relação dos medicamentos em uso e os valores datados de prolactina e TSH — sem isso, o encaminhamento volta. Um encaminhamento que diz "secreção mamária" não diz nada; um que diz "secreção serosa, espontânea, por um único orifício às 2 horas da mama direita, sem nódulo, em mulher de 47 anos" já classificou a paciente para quem vai recebê-la.
Dor: quando a imagem entra, quando não entra, e o que a rede oferece
O fluxograma federal é explícito para a dor cíclica bilateral com exame normal: os exames de imagem são desnecessários. A frase está escrita, é a régua federal em uso e vale contra a mamografia que a paciente pede, contra a ultrassonografia que o interno pede para se tranquilizar e contra a ressonância que ninguém deveria pedir. A mamografia de rastreamento que a idade indica continua valendo, na periodicidade que o capítulo de rastreamento ensina — e é preciso dizer à mulher que ela não está deixando de fazer exame: está fazendo o exame certo, no intervalo certo, por outro motivo.
A dor não cíclica bilateral com exame normal também não recebe imagem; recebe uma revisão de causas hormonais e de medicamentos antes de entrar no mesmo bloco de tranquilização — gestação, tumor ovariano, terapia hormonal da menopausa, anticoncepcional combinado. A mastalgia da terapia hormonal tem dona: é efeito esperado no início do esquema e conduta do capítulo de terapia hormonal da menopausa, que manda reduzir a dose de estrogênio na reavaliação; aqui o interno só precisa reconhecê-la e não pedir exame para ela. No anticoncepcional, o fluxograma manda reduzir a dose de estrogênio ou avaliar outro método.
A dor que recebe imagem é a focal — de localização específica e pontual, sem trauma — e o exame segue a régua da idade: ultrassonografia antes dos 30 anos e, a partir dos 30, mamografia, com ultrassonografia quando o achado pedir. Se houve trauma, o fluxograma dá uma semana de observação com suporte, calor local e analgesia antes de pedir imagem. Sobre a dor focal existe uma divergência real entre os documentos brasileiros — imagem para todas, ou só quando o exame muda ou a dor progride —, tratada no bloco de divergências; o que não diverge é que a dor focal persistente que não melhora em semanas precisa ter o seu ponto examinado por imagem, e que a imagem normal nessa situação encerra a hipótese de lesão local e devolve a paciente à conduta da dor.
O que a rede oferece para a dor é o que faz a conversa ser a conduta. As duas medidas farmacológicas que o fluxograma federal nomeia como primeira linha são analgesia simples e anti-inflamatório tópico. A Rename 2024 dispensa dipirona, paracetamol e ibuprofeno pelo Componente Básico — e não contém nenhum anti-inflamatório de uso tópico: o grupo dos produtos tópicos para dor articular e muscular, o M02 da classificação anatômico-terapêutica que a própria Rename imprime ao lado de cada item, não tem uma única entrada, e diclofenaco, cetoprofeno, piroxicam e nimesulida não aparecem em nenhuma forma. O naproxeno existe, mas no Componente Especializado, atrelado a protocolos de artrite e de dor crônica. Os três fármacos que o fluxograma reserva à mastologia — tamoxifeno, danazol, bromocriptina — não são dispensáveis para dor mamária: o primeiro não consta da Rename; os outros dois estão no Especializado com protocolos norteadores que não incluem mastalgia. A consequência é concreta: na unidade básica, o que existe na prateleira para a mastalgia é analgésico simples — mais sutiã adequado e explicação, e é por isso que a explicação precisa ser boa.
Descarga suspeita: a imagem depois da classificação, e o que a citologia não faz
Classificada a descarga como suspeita — espontânea, de um ducto, de um lado, ou com sangue, ou com a cor e a idade que o fluxograma federal manda investigar —, o que se pede segue a régua da idade que os parâmetros técnicos do Instituto Nacional de Câncer aplicam a todo sinal mamário: ultrassonografia como exame inicial abaixo de 30 anos; mamografia, com ultrassonografia conforme o achado, aos 30 anos ou mais. A ultrassonografia é o exame que vê o ducto: mostra a dilatação retroareolar, a secreção dentro dele e, quando existe, a lesão intraductal que a produz; a mamografia procura a calcificação e a lesão que o ducto esconde, sobretudo na mama madura. Pedir os dois na mulher de 47 anos com descarga uniductal não é excesso; é o desenho do fluxo.
A ordem importa: a imagem entra depois da classificação, nunca no lugar dela. Uma ultrassonografia pedida para uma descarga que ninguém caracterizou volta normal e não responde a nada — porque a maioria das descargas suspeitas tem imagem normal. É esse o dado central desta seção, e ele está nos parâmetros nacionais: entre as mulheres com descarga papilar, a fração sem alteração nos exames de imagem foi estimada em 2,39% do total de mulheres sintomáticas, contra 2,50% com o sinal, ou seja, quase todas. Imagem normal não encerra uma descarga espontânea, uniductal e unilateral. O que os parâmetros preveem para elas é seguimento clínico e por imagem ao longo de até dois anos, com mamografia e ultrassonografia repetidas, e investigação histopatológica quando há suspeita clínica — líquido sanguíneo, citologia positiva ou suspeita.
A citologia da secreção tem um lugar pequeno e um número que o define: 2,3% de resultados positivos, suspeitos ou indeterminados entre os exames colhidos de descarga papilar na base nacional. Ela serve para achar sangue oculto e células atípicas quando existem; não serve para liberar ninguém. O teste do guaiaco, que o fluxograma federal indica quando há dúvida se a secreção tem sangue, responde a uma pergunta binária e barata e pode mudar o ramo da decisão; a citologia negativa não muda ramo nenhum. E a ressonância magnética não é exame inicial de descarga: o material de apoio de 2023 a reserva a indicação especializada, pela baixa especificidade e pelos falso-positivos que gera em mama inflamada ou densa.
O que decide, no fim, é o tecido — e quem o obtém é a mastologia, por biópsia guiada da lesão intraductal quando a imagem a mostra ou por exérese do ducto quando não mostra. O papel da atenção primária termina em três entregas: a classificação escrita, a imagem inicial pela idade e o encaminhamento com os descritores que fazem a regulação enxergar a prioridade. Pela nota técnica de 2025, só a descarga sanguinolenta unilateral está na lista de referência urgente; a serosa espontânea uniductal continua exigindo investigação, mas entra numa fila que a norma federal não prioriza, e o interno precisa saber disso para escrever o encaminhamento de modo que ele não seja lido como rotina.
Descarga leitosa: três exames, uma ordem, e onde este capítulo para
Confirmado que é leite ou colostro, bilateral e multiductal, o primeiro exame é o teste de gravidez, e o fluxograma o pede na dúvida sem esperar atraso menstrual. A gestação recém-descoberta muda o motivo da consulta e leva a mulher para o pré-natal — e a galactorreia, nesse caso, é fisiológica e não se investiga.
O segundo passo não é exame: é a lista de medicamentos, lida contra a Lista 13 do protocolo federal, e a conversa com quem prescreveu. A risperidona e a metoclopramida são as duas que mais aparecem na prática, e a conduta escrita é avaliar a possibilidade de suspender ou substituir o fármaco — em conjunto com o médico assistente, como o próprio protocolo clínico da hiperprolactinemia determina para os casos induzidos por medicamento. Trocar um antipsicótico por causa de uma secreção mamária é decisão do serviço que o prescreveu, e o papel da unidade básica é levar o achado a ele com a data e a descrição.
O terceiro passo são duas dosagens: prolactina e TSH. O hipotireoidismo primário eleva a prolactina e se trata por si; a prolactina alta com TSH normal, sem medicamento e sem gestação, é o ponto em que a paciente deixa este capítulo. O fluxograma federal ainda estratifica pelo valor — acima de 100 ng/mL, ou com cefaleia persistente, sintoma visual ou redução de campo, pede imagem da sela túrcica, além de TSH e creatinina; de 20 a 100 ng/mL, suspeita de medicamento e de hipotireoidismo e pede TSH; elevação sustentada sem causa vai à endocrinologia — enquanto o protocolo clínico de 2020 manda imagem em toda hiperprolactinemia confirmada depois de afastadas as causas secundárias, sem valor mínimo. Essa divergência é do capítulo futuro de hiperprolactinemia, e aqui fica registrada apenas para que o interno não encaminhe uma paciente à endocrinologia sem os três degraus subidos e sem os resultados datados que o protocolo de regulação exige.
O destino administrativo está escrito e é em duas vias. Descarga bilateral leitosa com hiperprolactinemia que não vem de medicamento vai à endocrinologia. Descarga bilateral leitosa sem hiperprolactinemia, descartadas as causas secundárias, só vai para a mastologia se a paciente desejar tratamento — porque, sem prolactina alta e sem fármaco, o que resta é uma galactorreia idiopática, que é a maior fatia da lista federal de causas não mamárias e que se trata com o que a paciente aceita: nada, ou o cuidado de não estimular.
Fibroadenoma e cisto: o que confirma, o que devolve à investigação
O que confirma um cisto simples é a ultrassonografia, e ela o confirma sozinha: lesão anecoica, de parede fina e lisa, sem septo espesso, sem componente sólido, com reforço acústico posterior. Com esse laudo, o cisto não precisa de punção, de mamografia extra nem de retorno programado — precisa de explicação. A punção aspirativa por agulha fina entra em duas situações que o material de apoio de 2023 nomeia: o cisto sintomático, que dói ou incomoda, e a dúvida entre sólido e cístico quando a ultrassonografia não conclui. O líquido aspirado não vai para citologia quando é claro, amarelado ou esverdeado e a cavidade some; vai quando é sanguinolento, quando a cavidade não se esvazia ou quando se refaz — e, nesses casos, a paciente saiu da entidade benigna e voltou à investigação.
O que confirma um fibroadenoma é a combinação de clínica e imagem numa mulher jovem — nódulo sólido, oval, de contorno circunscrito, orientação paralela à pele, homogêneo — e, quando a idade ou o laudo pedem, o tecido. O capítulo de nódulo mamário decide quando o tecido é obrigatório; este capítulo lembra o que se faz depois de o laudo dizer fibroadenoma: nada, salvo sintoma, crescimento ou desejo. A punção por agulha fina não é o método para lesão sólida, porque traz células e não arquitetura, e a arquitetura é exatamente o que separa o fibroadenoma do filoide; quando é preciso tecido, é a agulha grossa, e quando a suspeita clínica de filoide existe — massa grande, crescimento rápido, pele estirada —, a biópsia excisional com margem é o método, porque o filoide incompletamente retirado recidiva.
O que devolve as duas entidades à investigação é o mesmo par: mudança e discordância. O cisto que se enche depois de esvaziado, o que tem parede espessa ou vegetação, o fibroadenoma que cresce ou que na imagem ganhou contorno irregular ou orientação vertical, o nódulo que a mão sente maior do que a imagem descreve. Em qualquer dessas situações, a lesão perde o nome benigno provisório e entra na régua do capítulo vizinho. E o protocolo de regulação lista os motivos que fazem essas lesões, mesmo confirmadas, chegarem à mastologia: cisto recidivante, cisto sintomático, lesão benigna sintomática com desejo de exérese — o que significa que a paciente com fibroadenoma confirmado e assintomática, que não quer operar, não tem motivo de encaminhamento, e o interno precisa saber dizer isso a ela como boa notícia.
A mama inflamada: cultura, ultrassonografia e a biópsia do abscesso que não melhora
Na mastite não puerperal, o exame de imagem é a ultrassonografia, e ela responde a uma pergunta só: há coleção? A mastite sem coleção é celulite do tecido mamário e se trata com antibiótico; a coleção é abscesso e se drena — por punção guiada ou por incisão, conforme o tamanho, a loculação e o serviço. A ultrassonografia também mostra o que a inflamação esconde: o ducto dilatado por trás do abscesso subareolar, o trajeto fistuloso e, eventualmente, a massa que não é coleção.
A cultura é obrigatória sempre que houver material: secreção pela papila, pela fístula ou pela punção. Ela orienta o antibiótico e, na mulher que já fez um curso empírico sem resposta, é o que separa o agente resistente da doença que não é infecção. O material de apoio de 2023 manda pesquisar Gram e cultura antes do antibiótico sempre que possível, suspeitar de anaeróbio na fumante e na fistulizada, e de estafilococo resistente à meticilina em quem tem fator de risco. Na mastite granulomatosa, o diagnóstico é o inverso: a cultura que não cresce nada e o tecido que mostra granuloma sem agente.
E o exame que fecha o bloco é o que o interno mais reluta em pedir: a biópsia da parede do abscesso ou da área inflamada que não respondeu. A lista federal de referência urgente inclui a mastite que não melhora depois de um curso adequado de antibiótico exatamente porque o carcinoma inflamatório se apresenta assim — mama aumentada, quente, com edema de pele — e porque a resposta reflexa ao primeiro insucesso é o segundo antibiótico. A régua é de tempo e de resposta: um curso adequado, com o agente coberto e a coleção drenada, que não produziu melhora, encerra a hipótese infecciosa até que o tecido a confirme. A partir daí a paciente é do capítulo de nódulo mamário, com prioridade de marcação, e o que este capítulo lhe deve é não ter perdido semanas.
Fluxos e tabelas
O fluxo abaixo organiza a consulta desde a porta, nas três queixas. A tabela principal é a das cinco perguntas da descarga, arrumada pelo que cada resposta dispara — é para usar com a paciente na frente, antes de qualquer pedido. As duas tabelas seguintes servem a decisões que os documentos brasileiros resolvem de modos diferentes: qual régua chama qual secreção de suspeita, e o que a farmácia da rede entrega para a mama inflamada, com a receita já convertida em comprimidos. O card fecha com as entregas obrigatórias a outros capítulos. As notas conferem as contas das fontes — as que fecharam e as que não fecharam.
- 1Mulher menciona a mama — dói, escorre, ou as duas coisas. Antes de qualquer pergunta sobre a dor ou sobre a secreção, uma só bifurcação: há nódulo, retração recente, alteração de pele, linfonodo axilar, mama inteira aumentada e vermelha? Se há, a queixa não é dor nem descarga: é sinal mamário, e a consulta é a do capítulo de Nódulo mamário, com a lista federal de referência urgente. Se não há, a consulta é esta.
- 2Entrevista da dor em seis perguntas (lado, relação com a menstruação, tempo e progressão, mudança na mama ou na axila, amamentação, medicação, trauma e febre, história ginecológica) e da descarga em cinco (sai sozinha ou só ao apertar, quantos orifícios, quantas mamas, aparência, mais alguma coisa na mama). Exame na primeira semana depois da menstruação sempre que possível; se a paciente veio na fase errada e nada de alarme apareceu, o retorno na fase certa é conduta.
- 3Exame físico geral antes do exame das mamas: palpar as junções costocondrais e a parede torácica com o dedo apoiado abaixo e medialmente à mama, e perguntar se é aquela dor. Dor reproduzida na parede não é mamária, e a consulta muda de assunto. Dor torácica em aperto, irradiada, com dispneia, sudorese ou diferença de pulso entre os braços é a caixa de sinais de alerta do fluxograma federal da mastalgia — e é urgência, não ginecologia.
- 4Dor bilateral, cíclica, com exame das mamas e axilas normal: sem exame de imagem. A conduta é a explicação, o analgésico simples que a rede dispensa, o sutiã com sustentação e o retorno em um mês com o calendário da dor anotado. A mamografia de rastreamento que a idade indica continua no intervalo que o capítulo de Rastreamento do câncer de mama ensina — e por outro motivo.
- 5Dor bilateral não cíclica com exame normal: revisar gestação, terapia hormonal, anticoncepcional combinado e tumor ovariano antes de entrar no mesmo bloco de tranquilização. A mastalgia da terapia hormonal é do capítulo de Terapia hormonal da menopausa; no anticoncepcional, o fluxograma federal manda reduzir a dose de estrogênio ou avaliar outro método.
- 6Dor focal, de localização pontual, sem trauma: imagem pela idade — ultrassonografia com menos de 30 anos, mamografia com ultrassonografia a partir dos 30 —, com o ponto marcado na requisição. Com trauma: uma semana de suporte, calor local e analgesia; sem melhora, a mesma imagem. Imagem normal encerra a hipótese de lesão local e devolve a paciente ao bloco da dor. Os documentos brasileiros divergem sobre imagem para toda dor focal ou só para a que progride — bloco de divergências.
- 7Descarga: sai sozinha? Se só aparece à expressão, não se investiga — orientar a não estimular, reavaliar em dois a três meses, mastologia apenas se o incômodo for grande. Se sai sozinha, seguem o padrão ductal e a cor, nesta ordem: quantos orifícios e quantas mamas antes da aparência.
- 8Leite ou colostro, pelas duas mamas, por vários orifícios, sem gestação nem lactação: galactorreia. Três degraus que não se pulam — teste de gravidez, Lista 13 de medicamentos revisada com quem prescreveu, prolactina com TSH — e campos visuais no exame. Hiperprolactinemia sem fármaco vai à endocrinologia; galactorreia sem hiperprolactinemia só vai à mastologia se a paciente quiser tratamento. O que vem depois é do capítulo de hiperprolactinemia, previsto e não escrito.
- 9Serosa como água de rocha, sanguinolenta ou serossanguinolenta; ou espontânea por um único orifício, de um lado só, de qualquer cor; ou qualquer descarga na mulher acima de 50 anos: investigação — mamografia diagnóstica com ultrassonografia a partir dos 30, ultrassonografia abaixo — e encaminhamento escrito com os descritores. Teste do guaiaco na dúvida sobre sangue. Só a sanguinolenta unilateral está na lista federal de referência urgente. Imagem normal não encerra; citologia negativa não libera; acompanhamento por até dois anos enquanto a mastologia decide sobre o tecido.
- 10Amarelada, esverdeada, amarronzada ou acinzentada, por vários orifícios, nas duas mamas: ectasia ductal até prova em contrário — não estimular, reavaliar em dois a três meses, rastreamento em dia. Se for de um orifício só, de um lado, ou vier com achado, volta ao passo anterior. Mama vermelha, quente e dolorida em quem não amamenta: cultura antes da primeira dose, ultrassonografia para coleção, antibiótico com a apresentação da Rename, drenagem do que coleciona, reavaliação em 48 a 72 horas — e, ao fim de um curso adequado sem melhora, referência urgente com biópsia, que é do capítulo de Nódulo mamário.
As entregas obrigatórias: o que muda de capítulo, e quando
Nódulo, espessamento persistente, retração recente, pele alterada, linfonodo axilar sem causa e mama inteira inchada saem daqui para o capítulo de Nódulo mamário, com a lista federal de referência urgente — e a mastite que não melhorou depois de um curso adequado de antibiótico vai pelo mesmo caminho, com prioridade. A mulher sem queixa que pergunta se deve fazer mamografia é do capítulo de Rastreamento do câncer de mama. A mastalgia de quem iniciou terapia hormonal é do capítulo de Terapia hormonal da menopausa, e a decisão de reduzir o estrogênio é de lá. A lactante com mama dolorida, vermelha ou com coleção é do capítulo Aleitamento materno exclusivo até 6 meses, na apostila de nutrologia pediátrica. A prolactina alta sem fármaco, sem gestação e sem hipotireoidismo é da endocrinologia hoje e do capítulo de hiperprolactinemia quando ele existir; a leitura da prolactina no ciclo que parou é do capítulo de Ciclo menstrual e eixo hipotálamo-hipófise-ovário. O que fica aqui é tudo o que essas portas não levam — e é a maior parte das consultas.
As cinco perguntas da descarga papilar, e o que cada resposta dispara
| Pergunta, na ordem | Resposta que autoriza a tranquilizar | Resposta que obriga a investigar | O que fazer nesta consulta |
|---|---|---|---|
| A secreção sai sozinha? | Só à expressão — a própria paciente a provoca ao conferir | Mancha o sutiã sem manipulação | Provocada: orientar a não estimular e reavaliar em dois a três meses. Espontânea: seguir para o padrão ductal |
| Por quantos orifícios, e de quantas mamas? | Vários orifícios, nas duas mamas — a árvore ductal inteira responde a hormônio ou involui | Um orifício, de um lado — uma lesão dentro daquele ducto | Pressão ponto a ponto na margem da aréola; anotar a hora do relógio em que a gota sai. Padrão único e unilateral investiga em qualquer cor |
| Que aparência tem? | Amarelada, esverdeada, amarronzada ou acinzentada, espessa — o retrato da ectasia; leite ou colostro muda de rota, não de gravidade | Água de rocha, sanguinolenta ou serossanguinolenta | Registrar com o adjetivo do protocolo; guaiaco se a dúvida for sangue; pedir para ver a mancha seca no sutiã |
| Há mais alguma coisa na mama ou na papila? | Exame das mamas, das axilas e da pele periareolar normal | Nódulo, espessamento, retração recente, linfonodo, ou eritema, crosta e descamação do complexo areolopapilar | Com nódulo ou pele, a queixa deixou de ser descarga: capítulo de Nódulo mamário. Eczema que não cede: mastologia, por doença de Paget |
| O que a paciente fez com essa mama nas últimas semanas? | Expressão diária, estímulo sexual do mamilo, roupa que atrita — a pesquisa mantém o ducto drenando | Nada que explique; ou medicamento da Lista 13 na receita, com leite bilateral | Uma frase que ela consiga repetir: pare de apertar. Com leite, revisar a receita antes de qualquer dosagem |
Quatro documentos brasileiros e o que cada um chama de descarga suspeita
| Critério | Fluxograma 9 — Protocolos da Atenção Básica (MS, 2016) | Protocolo de encaminhamento para Mastologia (TelessaúdeRS, 2020) | TeleCondutas nº 38 (TelessaúdeRS, 2023) | Nota Técnica nº 626/2025 (MS) |
|---|---|---|---|---|
| Serosa, como água de rocha | Investigar câncer, se espontânea | Suspeita | Suspeita, se unilateral e espontânea | Não consta |
| Sanguinolenta ou serossanguinolenta | Investigar câncer, se espontânea | Suspeita | Suspeita, se unilateral e espontânea | Referência urgente, se unilateral |
| Um orifício ou um lado só, espontânea, de qualquer cor | Não é nó de decisão — o padrão é colhido no exame, mas a caixa seguinte é a cor | Suspeita por si, qualquer cor | Não consta como critério isolado | Não consta |
| Idade | Mulher com mais de 60 anos investiga, qualquer cor | Qualquer descarga acima de 50 anos é suspeita | Sem critério de idade | Sem critério de idade |
| Amarelada, esverdeada, amarronzada, acinzentada | Provavelmente benigna: não estimular, reavaliar em 2 a 3 meses | Suspeita se uniductal ou unilateral espontânea, ou acima de 50 anos | Não consta | Não consta |
| O que o documento governa | A propedêutica na unidade básica | A regulação da fila especializada | O apoio ao raciocínio na atenção primária | A prioridade de marcação e o acesso à mamografia; torna sem efeito orientações anteriores divergentes |
Mama inflamada fora do puerpério: o esquema do material de apoio convertido na apresentação que a Rename 2024 fornece (adulta de 70 kg, curso de 7 dias)
| Esquema (TeleCondutas nº 38, 2023) | Apresentação na Rename 2024 e componente | Por tomada | Total no curso de 7 dias | O que muda na prática |
|---|---|---|---|---|
| Amoxicilina com clavulanato 500 + 125 mg de 8 em 8 h, ou 875 + 125 mg de 12 em 12 h | Comprimido de 500 mg + 125 mg — Básico; suspensão 50 + 12,5 mg/mL — Básico | 1 comprimido | 21 comprimidos | A apresentação de 875 mg não consta: prescrever o esquema de 8 em 8 horas. Cobre anaeróbios, o que dispensa o metronidazol |
| Cefalexina 500 mg de 6 em 6 h | Cápsula ou comprimido de 500 mg — Básico | 1 cápsula | 28 cápsulas | Alternativa sem cobertura anaeróbia: na fumante ou na fistulizada, associar metronidazol |
| Metronidazol 500 mg de 8 em 8 h, se suspeita de anaeróbio | Comprimidos de 250 mg e de 400 mg — Básico | 2 comprimidos de 250 mg | 42 comprimidos de 250 mg | Não existe comprimido de 500 mg no elenco; com o de 400 mg a dose não fecha (1,25 comprimido). Prescrever 2 × 250 mg |
| Sulfametoxazol com trimetoprima 800 + 160 mg de 12 em 12 h, se risco de estafilococo resistente à meticilina | Comprimido de 400 mg + 80 mg — Básico | 2 comprimidos | 28 comprimidos | A dose do esquema é o dobro do comprimido nacional: escrever 2 comprimidos por tomada |
| Doxiciclina 100 mg de 12 em 12 h, alternativa para o mesmo risco | Comprimido de 100 mg — apenas no Componente Estratégico | 1 comprimido | 14 comprimidos | Não é item da farmácia básica: não conte com ela para mastite; use o sulfametoxazol com trimetoprima |
| Clindamicina 300 a 450 mg de 8 em 8 h, se alergia a betalactâmico | Cápsulas de 150 mg e de 300 mg — Básico | 1 cápsula de 300 mg (450 mg = 1 de 300 + 1 de 150) | 21 cápsulas de 300 mg (ou 21 + 21) | Cobre anaeróbios e estafilococo; a exclusão registrada na Rename é do elenco da malária, não do Básico |
| Dipirona 500 mg até de 6 em 6 h, para a dor | Comprimido de 500 mg — Básico | 1 comprimido | Até 28 comprimidos | Paracetamol 500 mg e ibuprofeno 200, 300 e 600 mg também constam; anti-inflamatório tópico, nomeado pelo fluxograma da mastalgia, não consta em nenhuma forma |
Os cortes de idade do fluxograma federal da mastalgia deixam uma mulher sem classe. O Fluxograma 8 manda investigar a dor focal sem trauma com ultrassonografia se menor de 30 anos e com mamografia e ultrassonografia se maior de 30: quem tem exatamente 30 anos não é menor nem maior de 30, e o documento não diz o que fazer com ela. Os parâmetros técnicos do INCA de 2022 e o TeleCondutas de 2023 escrevem menos de 30 e 30 anos ou mais, e o capítulo adota essa redação: aos 30 anos, mamografia com ultrassonografia.
Dentro do mesmo documento federal de 2016, o líquido transparente é suspeito numa caixa e fisiológico na seguinte. O Fluxograma 9 manda investigar câncer diante da secreção serosa, água de rocha; o quadro de causas, ao pé da mesma página, chama de fisiológica ou não mamária a descarga leitosa ou aquosa bilateral. A aparência é a mesma — água. O que separa as duas caixas é o padrão ductal, que o fluxograma manda colher no exame e depois não usa como nó de decisão. O capítulo resolve pelo padrão: transparente, um orifício, um lado, é lesão intraductal até prova em contrário; transparente, vários orifícios, duas mamas, é árvore ductal inteira.
A idade que torna suspeita qualquer descarga tem três valores em três documentos brasileiros. O Fluxograma 9 escreve mulher com mais de 60 anos; o protocolo de encaminhamento de 2020 escreve idade superior a 50 anos; a série irlandesa que ambos citam por intermédio das diretrizes de 2015 identificou 50 anos ou mais como preditor independente. A mulher de exatos 50 anos é suspeita pelo estudo-fonte e não pelo protocolo adaptado dele; a de 55 é suspeita por 2020 e não por 2016. E o TeleCondutas de 2023, do mesmo serviço que escreveu o protocolo de 2020, retirou o critério de idade da sua lista. O capítulo não usa a idade como critério isolado: usa-a como peso de probabilidade — e lembra que, de 50 a 74 anos, a mamografia já é devida pelo rastreamento.
As duas listas de causas do quadro federal não são uma partição, e a conta prova. Na lista das descargas leitosas ou aquosas bilaterais, os pisos somam 40 + 20 + 10 + 1 + 1 = 72% e os tetos 50 + 30 + 45 + 2 + 2 = 129%: os máximos não podem coexistir, logo são faixas colhidas em séries diferentes. Na lista mamária, 44 + 15 + 10 = 69% e 44 + 20 + 15 = 79%, o que deixa de 21 a 31 pontos sem nome. E a entrada galactorreia, 20% a 30%, como causa da descarga leitosa é circular: galactorreia é o nome da descarga leitosa, não a causa dela. O capítulo usa do quadro apenas a hierarquia — papiloma, ectasia, câncer — e os dois denominadores.
O papiloma intraductal tem uma faixa etária em cada documento, e a menor cabe na maior. O quadro federal de 2016 escreve 45 a 50 anos; o TeleCondutas de 2023, 30 a 50 anos. Não há contradição, há recorte: a faixa de 2016 está contida na de 2023, e o capítulo cita a mais larga. O mesmo quadro de 2016 informa que 95% dos papilomas são uniductais e unilaterais e que 20% a 50% produzem derrame serossanguinolento — o complemento, 1 menos 0,20 a 0,50, dá de 50% a 80% de papilomas que não sangram. É o número que mede o que a lista federal de referência urgente de 2025, restrita à descarga sanguinolenta, deixa fora da fila prioritária: entre metade e quatro quintos da lesão mais comum. Investigar continua obrigatório; o que a nota decide é a prioridade.
O número que o Fluxograma 8 manda usar para tranquilizar tem o denominador invertido para a pergunta que a paciente faz. Apenas 2% dos casos de câncer de mama apresentaram-se como mastalgia mede a fração dos cânceres que doem, não a fração das dores que são câncer. A conferência com as diretrizes de 2015 fecha: se cerca de 90% dos cânceres se apresentam como nódulo e 2% como dor, sobram 8% para pele, mamilo, descarga e axila — plausível. Mas o que responde à mulher com dor é o outro denominador: 1,24% na dor isolada em Gana, zero a 3% no intervalo de várias séries, valor preditivo de 0% na série escocesa que a Tabela D7 das diretrizes registra. O capítulo usa os segundos e explica por que o primeiro não serve.
A Tabela D7 das diretrizes de 2015 grafa razões de verossimilhança com o sinal de porcentagem — 15,04% para o nódulo, 1,78% para a mastalgia, 0,88% para a ausência de nódulo — e o texto corrido da página 79 repete a grafia para o nódulo, 15,04%, enquanto escreve 1,78 e 0,88 sem o sinal. Razão de verossimilhança é um quociente sem unidade: 15,04 significa que o achado é quinze vezes mais frequente em quem tem câncer do que em quem não tem, e 15,04% não significa nada nessa escala. A mesma tabela arquiva sob a rubrica razão de verossimilhança positiva os valores preditivos positivos de Barton (10,7% e 3,0%), que são outra medida. O capítulo cita os números sem o sinal de porcentagem e com o nome certo.
Uma conta que não fechou, e que o capítulo declara como leitura própria. A revisão de 2015 resume o estudo holandês em três números: 3,2% de câncer entre todas as queixas, 8% entre as mulheres com nódulo, nódulo em 29% das queixas. Com esses três, os cânceres com nódulo são 0,08 × 29 = 2,32% das queixas e os sem nódulo, 3,2 menos 2,32 = 0,88% das queixas, ou 1,24% dos 71% sem nódulo — o que reproduz, por coincidência, o 1,24% de Gana. A razão de verossimilhança do nódulo que sai daí é (2,32 ÷ 3,2) ÷ (26,68 ÷ 96,8) = 0,725 ÷ 0,276 ≈ 2,6, e não 15,04. A diferença pode vir de denominadores que o resumo não explicita — consultas em vez de pacientes, câncer em qualquer momento de dezoito anos de seguimento — e o original não foi lido para este capítulo. Por isso a razão de 15 entra no texto como ordem de grandeza da diferença entre nódulo e dor, e não como número exato.
As contas dos parâmetros técnicos do INCA de 2022 para a descarga fecham, com uma ressalva de arredondamento e uma de denominador. Nódulo 88,3% mais os outros sinais 11,7% dão 100,0%. Biópsia do grupo dos outros sinais: 0,45 + 0,06 + 1,37 = 1,88%, e 18,42 + 1,88 = 20,30%, como publicado. Acompanhamento da descarga: 2,39 menos 0,06 = 2,33%, e 2 × 2,33 = 4,66%, como publicado. A ressalva de arredondamento: 2,3% × 2,39% = 0,0550%, que arredonda para 0,05% e não para o 0,06% impresso — o valor publicado só sai se o 2,3% for arredondamento de algo igual ou acima de 2,32%, o que é provável e não está dito. A de denominador: a frase 2,39% das mulheres com descarga papilar não apresentaram alteração de imagem é usada na conta como fração de todas as sintomáticas; lida assim, e dividida pelos 2,50% que têm o sinal, dá 95,6% das mulheres com descarga com imagem normal — que é o número que sustenta a regra de que imagem normal não encerra.
A Nota Técnica nº 626/2025 cita, na referência 2, os parâmetros técnicos do INCA com 159 páginas. A ficha catalográfica do documento citado registra 48 páginas, e o arquivo eletrônico tem 50. A diferença não muda nenhuma conduta e não é errata registrada; entra aqui porque é o tipo de descuido que faz o leitor duvidar do resto, e o resto conferiu.
A conferência que mudou uma frase do capítulo: a lista de referência urgente das diretrizes de 2015 tem dez sinais e sintomas, e nenhum deles é a mastite. O item 2.15 da Nota Técnica nº 626/2025 — mastite ou inflamação que não melhora depois de um curso adequado de antibiótico — é acréscimo de 2025, e o capítulo o data assim. A descarga papilar sanguinolenta unilateral, por sua vez, está nas duas listas e é o único critério de descarga em ambas.
A Lista 13 do protocolo federal de 2016 tem três problemas de forma e um de conteúdo. O fluxograma remete ao Quadro 1 na caixa de medicação, mas o que existe na página é a Lista 13. Os nomes saem grafados haloperdol, demipramina, aminosulpirida, clogilina e bomocriptina, e a fenfluramina, retirada do mercado, segue listada. O de conteúdo: a linha dos inibidores seletivos da recaptação de serotonina termina com i-MAO, pargilina e clogilina — o rótulo de outra classe e dois dos seus fármacos, a pargilina e a clorgilina, que são inibidores da monoaminoxidase, entraram como itens da classe errada, o que faz um antidepressivo de mecanismo diferente parecer do mesmo grupo. O protocolo clínico da hiperprolactinemia de 2020 nomeia os inibidores da monoaminoxidase como classe própria, e o capítulo segue essa leitura.
O mesmo documento federal de 2016 usa dois cortes para chamar uma prolactina de elevada. No fluxograma da descarga, entre 20 e 100 ng/mL pode ser fisiológico; no capítulo de amenorreia, a hiperprolactinemia se considera a partir de 40 ng/mL. O protocolo clínico de 2020 não usa valor: usa o limite superior da normalidade do método, e reserva os 100 ng/mL apenas como marca provável de compressão de haste. A consequência prática é a que o capítulo adota: a unidade básica não interpreta o valor — afasta gestação, fármaco e hipotireoidismo e encaminha com o resultado datado; quem lê o número é o capítulo de hiperprolactinemia.
O esquema antibiótico do TeleCondutas de 2023 foi conferido linha a linha contra a Rename 2024, por busca exata em três espelhos do documento com espaço e hífen removidos. Fecham: amoxicilina com clavulanato 500 + 125 mg e cefalexina 500 mg no Básico; clindamicina 150 e 300 mg no Básico, e a exclusão de 2021 registrada na Rename se refere ao elenco estratégico da malária, não ao Básico; sulfametoxazol com trimetoprima 400 + 80 mg no Básico, de modo que o esquema de 800 + 160 mg é de dois comprimidos por tomada. Não fecham: amoxicilina com clavulanato de 875 mg não consta em nenhuma forma; metronidazol 500 mg não consta — o elenco tem 250 e 400 mg, e a dose do esquema só se monta com dois comprimidos de 250 mg, porque 500 dividido por 400 dá 1,25; doxiciclina 100 mg consta apenas no Componente Estratégico. Diclofenaco, cetoprofeno, piroxicam e nimesulida não aparecem em nenhuma forma, e o grupo M02 dos produtos tópicos para dor articular e muscular não tem entrada: o anti-inflamatório tópico do Fluxograma 8 é compra, não dispensação.
A conduta, hora a hora
Caracterizar relação da dor com o ciclo, localização e exame; na descarga, registrar espontaneidade, lateralidade, ductos e aspecto. Sinais suspeitos seguem investigação diagnóstica. Infecção exige avaliar coleção e necessidade de drenagem, além de tratamento indicado. Planejar reexame depois da inflamação e investigar lesão persistente ou recorrente.
Os marcos seguem a ordem da consulta e depois se abrem por queixa: primeiro o que classifica, depois a dor nas suas duas versões, a descarga nas suas três, as entidades benignas com nome e, por fim, a mama que inflama fora do puerpério — a única situação deste capítulo em que a receita tem comprimido, dose e data para acabar.
Marco 1 — a consulta que classifica: entrevista, parede torácica, relógio da aréola e fase do ciclo
Tudo o que decide este capítulo sai daqui, e a maior parte dos erros nasce de pular esta etapa para chegar ao pedido de exame. A entrevista da dor tem seis perguntas e a da descarga tem cinco; o exame tem dois gestos que o exame do nódulo não tem — a palpação da parede torácica antes da mama e a pressão radial na margem da aréola — e um momento certo, a primeira semana depois da menstruação. O que se escreve ao fim é o que vai valer na requisição e no encaminhamento: um texto que já classificou a mulher para quem a receber.
Prescrição- Registrar, na dor: lateralidade, relação com o ciclo, tempo e progressão, mudança na mama ou na axila, amamentação atual ou passada, medicação, trauma, febre e história ginecológica. (Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, Ministério da Saúde, 2016, Fluxograma 8)
- Palpar as junções costocondrais e a parede torácica antes do exame das mamas e escrever se a pressão reproduz a queixa. (Protocolos da Atenção Básica, 2016, Fluxograma 8 — exame físico geral)
- Registrar, na descarga: espontânea ou provocada, número de orifícios, lateralidade, aparência com o adjetivo do protocolo e a posição do relógio em que a pressão a provoca; estado da papila e da pele periareolar; ausência ou presença de nódulo. (Protocolos da Atenção Básica, 2016, Fluxograma 9; TeleCondutas nº 38 — Nódulo mamário, TelessaúdeRS-UFRGS, 2023)
- Anotar a fase do ciclo em que a mama foi examinada e, se o exame foi nodular no pré-menstrual sem achado de alarme, agendar o reexame na primeira semana depois da menstruação com data. (TeleCondutas nº 38, 2023)
Marco 2 — dor bilateral, cíclica, exame normal: a explicação é a prescrição
É a consulta mais frequente do capítulo e a que mais se erra pedindo. A régua federal é explícita: exames de imagem são desnecessários. O que a paciente leva é uma frase sobre o mecanismo — a mama incha na segunda metade do ciclo e desincha com a menstruação —, um número com o denominador certo, um analgésico que a rede tem, um sutiã que sustente e uma data. O anti-inflamatório tópico que o fluxograma nomeia não existe no elenco nacional; se for prescrito, é compra, e a paciente precisa saber que não é obrigatório. A mamografia de rastreamento, se a idade indica, continua no seu intervalo — e é preciso dizer que ela não está deixando de fazer exame: está fazendo o exame certo, por outro motivo.
Prescrição- Escrever no prontuário: dor mamária bilateral, cíclica, exame das mamas e das axilas normal na data e fase do ciclo; imagem desnecessária. (Protocolos da Atenção Básica, 2016, Fluxograma 8)
- Dizer à paciente que a dor cíclica é a resposta da mama ao ciclo, que a maioria dos casos remite sozinha, e que a probabilidade de câncer na dor isolada com exame normal está entre zero e 3%. (Fluxograma 8; TeleCondutas nº 38, 2023; Diretrizes para a detecção precoce do câncer de mama no Brasil, INCA, 2015)
- Dipirona 500 mg, 1 comprimido por via oral até de 6 em 6 horas nos dias de dor; ou paracetamol 500 mg, 1 comprimido até 4 vezes ao dia; ou ibuprofeno 600 mg, 1 comprimido de 8 em 8 horas por poucos dias — os três no Componente Básico. (Fluxograma 8: analgesia simples; Rename 2024)
- Recomendar sutiã com sustentação, inclusive para dormir na fase de dor, e um calendário da dor para trazer no retorno. (Fluxograma 8)
- Reavaliar em um mês, ou antes se surgir nódulo, secreção espontânea, alteração de pele ou dor de um lado só que não passa. (Fluxograma 8)
- Manter a mamografia de rastreamento na periodicidade da idade — de 50 a 74 anos, bienal —, e não antecipá-la por causa da dor. (Nota Técnica nº 626/2025-CGCAN/DECAN/SAES/MS)
Marco 3 — dor não cíclica ou focal: revisar hormônio antes, imagem depois, e só onde a dor aponta
A dor que não obedece ao calendário exige uma revisão antes do bloco de tranquilização: gestação, terapia hormonal, anticoncepcional combinado, tumor ovariano. A mastalgia da terapia hormonal é efeito esperado do início do esquema e tem dona — o capítulo de Terapia hormonal da menopausa manda reduzir a dose de estrogênio na reavaliação, enquanto o fluxograma federal de 2016 escreve avaliar a suspensão; este capítulo cede a decisão ao capítulo próprio e só pede que o interno reconheça a causa e não peça exame para ela. A dor focal é outra coisa: é a única dor que recebe imagem, e a imagem vai ao ponto que a paciente aponta.
Prescrição- Teste rápido de gravidez na dúvida, antes de qualquer outra medida. (Fluxograma 8)
- Em uso de anticoncepcional combinado: reduzir a dose de estrogênio ou avaliar outro método. Em terapia hormonal da menopausa: conduzir pelo capítulo de Terapia hormonal da menopausa. (Fluxograma 8; fronteira editorial deste material)
- Dor focal sem trauma: ultrassonografia mamária com menos de 30 anos; mamografia diagnóstica com ultrassonografia a partir dos 30, com o ponto doloroso descrito por hora do relógio e distância ao mamilo na requisição. (Fluxograma 8; Parâmetros técnicos para detecção precoce do câncer de mama, INCA, 2022)
- Dor focal com trauma: suporte, calor local e analgesia por uma semana; sem melhora, a mesma imagem. (Fluxograma 8)
- Imagem normal na dor focal: registrar que a hipótese de lesão local foi afastada e devolver a paciente ao bloco da dor, com retorno marcado. (Fluxograma 8)
Marco 4 — descarga provocada ou colorida: parar de apertar é a conduta
A secreção que só aparece à expressão não se investiga, e a colorida — amarelada, esverdeada, amarronzada, acinzentada — que sai por vários orifícios das duas mamas é o retrato da ectasia ductal. Nas duas, a conduta escrita é a mesma: não estimular e reavaliar em dois a três meses. A frase não é conselho, é prescrição, e precisa vir com o mecanismo — a expressão repetida mantém o ducto drenando e perpetua o que ela quer ver desaparecer. O que devolve a paciente à investigação é a mudança de padrão: passou a sair sozinha, passou a sair de um orifício só, apareceu sangue, apareceu nódulo.
Prescrição- Orientar a não estimular a descarga — nem para conferir —, explicando que a manipulação é o que a mantém. (Protocolos da Atenção Básica, 2016, Fluxograma 9)
- Registrar cor, número de orifícios, lateralidade e se saiu só à expressão; reavaliar em dois a três meses. (Fluxograma 9)
- Encaminhar à mastologia apenas se o incômodo for grande, ou se houver fístula, abscesso subareolar recidivante ou fluxo muito volumoso. (Fluxograma 9; Protocolos de encaminhamento para Mastologia, TelessaúdeRS-UFRGS, 2020, Protocolo 2)
- Dizer o que muda a conduta antes do retorno: secreção espontânea, de um orifício só, com sangue, ou qualquer nódulo — e aí a consulta é a do Marco 5. (Fluxograma 9)
- Conferir se a mamografia de rastreamento da idade está em dia, sem convertê-la em diagnóstica por causa de uma descarga provocada. (Nota Técnica nº 626/2025)
Marco 5 — descarga suspeita: imagem pela idade, e o encaminhamento que faz a fila enxergar
Classificada como suspeita — espontânea, uniductal, unilateral; ou serosa, sanguinolenta, serossanguinolenta; ou na mulher acima de 50 anos —, a descarga recebe imagem pela idade e sai da unidade com um encaminhamento que descreve o que a torna suspeita. A imagem entra depois da classificação e não no lugar dela, porque a maioria dessas descargas tem imagem normal, e imagem normal não encerra. A citologia da secreção não libera ninguém. E há uma assimetria que o interno precisa conhecer para escrever bem: pela nota técnica de 2025, só a descarga sanguinolenta unilateral está na lista de referência urgente; a serosa espontânea uniductal continua exigindo investigação, mas entra numa fila que a norma federal não prioriza — e é o texto do encaminhamento que impede que ela seja lida como rotina.
Prescrição- Solicitar mamografia com finalidade diagnóstica e ultrassonografia mamária a partir dos 30 anos; ultrassonografia com menos de 30 — com a hora do relógio do ducto na requisição. (Parâmetros técnicos, INCA, 2022; Fluxograma 9)
- Teste do guaiaco na secreção quando houver dúvida se há sangue. (Fluxograma 9)
- Descarga sanguinolenta unilateral: escrever referência urgente e sinalizar prioridade de marcação. (Nota Técnica nº 626/2025, itens 2.9 e 2.16)
- Encaminhar à mastologia com sinais e sintomas por extenso — espontânea, orifício único, lateralidade, cor, idade, tempo, ausência de nódulo — e o laudo das imagens com data. (Protocolos de encaminhamento para Mastologia, 2020, conteúdo descritivo mínimo)
- Não usar citologia da secreção como critério de alta: entre os exames colhidos de descarga na base nacional, 2,3% vieram positivos, suspeitos ou indeterminados. (Parâmetros técnicos, INCA, 2022)
- Imagem sem lesão com descarga persistente: acompanhamento clínico e por imagem por até dois anos, enquanto a mastologia decide sobre biópsia da lesão intraductal ou exérese do ducto; sangue ou citologia alterada mandam investigação histopatológica. (Parâmetros técnicos, INCA, 2022)
Marco 6 — descarga láctea: três degraus, uma porta de saída, e onde este capítulo para
Leite ou colostro pelas duas mamas, por vários orifícios, sem gestação nem lactação, tira a paciente da clínica da mama. Os três degraus não se pulam nem se invertem: gestação, porque é a causa mais comum e a mais barata de confirmar; medicamento, porque é a segunda mais comum e a única que se resolve sem exame; prolactina com TSH, porque o valor só tem leitura depois dos dois primeiros. Mexer na receita de outro serviço não é conduta da unidade básica — é conversa com quem prescreveu, como o protocolo clínico da hiperprolactinemia determina. E este capítulo termina no encaminhamento: o valor da prolactina, a macroprolactina, o efeito gancho, a imagem de sela e os agonistas dopaminérgicos pertencem ao capítulo de hiperprolactinemia, previsto nesta apostila e ainda não escrito.
Prescrição- Teste rápido de gravidez, sem esperar atraso menstrual. (Protocolos da Atenção Básica, 2016, Fluxograma 9)
- Revisar a receita contra a Lista 13 — antipsicóticos, tricíclicos, inibidores seletivos da recaptação de serotonina, inibidores da monoaminoxidase, metoclopramida e domperidona, metildopa, verapamil, opioides, antagonistas H2 — e escrever ao médico assistente propondo suspender ou substituir, sem alterar por conta própria. (Fluxograma 9, Lista 13; Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hiperprolactinemia, Portaria Conjunta nº 19/2020, item 6.1)
- Não suspender o anticoncepcional oral por causa da galactorreia: ele não eleva a prolactina de modo significativo. (Fluxograma 9, observação da Lista 13)
- Dosar prolactina e TSH; examinar campos visuais por confrontação; perguntar por cefaleia, sintoma visual, amenorreia e libido. (Fluxograma 9)
- Encaminhar à endocrinologia a descarga bilateral leitosa com hiperprolactinemia não induzida por medicação, com medicamentos em uso e resultados de prolactina e TSH datados. (Protocolos de encaminhamento para Mastologia, 2020, Protocolo 2)
- Descarga leitosa sem hiperprolactinemia, descartadas as causas secundárias: mastologia só se a paciente desejar tratamento; caso contrário, orientar a não estimular. (Protocolo 2, 2020)
Marco 7 — fibroadenoma e cisto com nome: o que se diz, e quem vai à mastologia
A investigação que devolve um nome benigno é do capítulo de Nódulo mamário; o que se faz depois é daqui. O fibroadenoma confirmado por imagem ou tecido não é doença que precise sair, e o cisto simples definido pela ultrassonografia não precisa de punção, de mamografia extra nem de retorno programado. O erro característico é transformar o nome em seguimento sem fim — a ultrassonografia anual para acompanhar o que não muda de categoria — e a régua de regulação escreve com todas as letras quem tem motivo de consulta especializada: cisto recidivante, cisto sintomático, lesão benigna sintomática em que haja desejo de exérese. A mulher com fibroadenoma confirmado, assintomática, que não quer operar, não tem motivo de encaminhamento, e isso se diz a ela como boa notícia.
Prescrição- Registrar o laudo que nomeou a lesão e escrever que não há seguimento específico além do rastreamento da idade. (TeleCondutas nº 38, 2023, apêndice; Nota Técnica nº 626/2025)
- Punção aspirativa por agulha fina apenas no cisto sintomático ou na dúvida entre sólido e cístico que a ultrassonografia não resolveu; líquido claro, amarelado ou esverdeado com cavidade que some não vai para citologia. (TeleCondutas nº 38, 2023)
- Líquido sanguinolento, cavidade que não esvazia ou que se refaz: o cisto voltou à investigação — registrar e encaminhar. (TeleCondutas nº 38, 2023; Protocolo 2, 2020: cisto recidivante)
- Encaminhar à mastologia o cisto recidivante, o cisto sintomático e a lesão benigna sintomática — dor, desconforto, assimetria — em que, mesmo confirmada, haja desejo de exérese. (Protocolos de encaminhamento para Mastologia, 2020, Protocolo 2)
- Fibroadenoma com crescimento rápido, acima de 5 cm ou com pele estirada: mastologia, pela hipótese de tumor filoide, que a palpação não distingue. (TeleCondutas nº 38, 2023, apêndice)
- Dizer o que traz a paciente de volta antes do rastreamento: nódulo novo que persiste depois da menstruação, secreção espontânea de um lado, alteração de pele. (Fluxograma 9; Nota Técnica nº 626/2025)
Marco 8 — a mama inflamada fora do puerpério: cultura antes, antibiótico da Rename, drenagem, e a data em que o antibiótico acaba
É o único marco com receita de comprimido, e a receita começa com um frasco de cultura. A mastite periductal e o abscesso subareolar se tratam como infecção — estafilococo dourado, anaeróbios na fumante e na fistulizada —, com drenagem do que coleciona e um curso cuja data de término é definida no primeiro dia. O que este marco não faz é o segundo antibiótico empírico: a mastite ou inflamação que não melhora depois de um curso adequado está na lista federal de referência urgente de 2025, porque o carcinoma inflamatório e a mastite granulomatosa se apresentam assim. Ao fim de um curso adequado sem melhora, a paciente é do capítulo de Nódulo mamário, com prioridade e com biópsia — e o que este capítulo lhe deve é não ter perdido semanas.
Prescrição- Colher Gram e cultura da secreção — pela papila, pela fístula ou por punção — antes da primeira dose. (TeleCondutas nº 38 — Nódulo mamário, TelessaúdeRS-UFRGS, 2023)
- Ultrassonografia mamária para responder a uma pergunta: há coleção? Coleção se drena, por punção guiada ou incisão. (TeleCondutas nº 38, 2023)
- Amoxicilina com clavulanato 500 mg + 125 mg, 1 comprimido por via oral de 8 em 8 horas, por 7 dias — 21 comprimidos. A apresentação de 875 mg não consta da Rename. (TeleCondutas nº 38, 2023; Rename 2024, Componente Básico)
- Alternativa: cefalexina 500 mg, 1 cápsula de 6 em 6 horas, por 7 dias — 28 cápsulas —, associada a metronidazol 250 mg, 2 comprimidos de 8 em 8 horas, por 7 dias — 42 comprimidos — na fumante ou na fistulizada. Não existe comprimido de 500 mg no elenco. (TeleCondutas nº 38, 2023; Rename 2024)
- Alergia a betalactâmico: clindamicina 300 mg, 1 cápsula de 8 em 8 horas, por 7 dias — 21 cápsulas. Risco de estafilococo resistente à meticilina: sulfametoxazol com trimetoprima 400 mg + 80 mg, 2 comprimidos de 12 em 12 horas, por 7 dias — 28 comprimidos. A doxiciclina do esquema só existe no Componente Estratégico. (TeleCondutas nº 38, 2023; Rename 2024)
- Reavaliar em 48 a 72 horas; com resposta rápida e completa, 5 a 7 dias bastam; resposta parcial permite estender a 10 a 14 dias — nunca um segundo curso empírico. (TeleCondutas nº 38, 2023)
- Orientar cessação do tabagismo, pele limpa e seca, sutiã de algodão; abscesso subareolar que recidiva ou fistuliza vai à mastologia para exérese dos ductos e do trajeto. (TeleCondutas nº 38, 2023; Protocolo 2, 2020)
- Sem melhora ao fim do curso adequado: referência urgente, imagem diagnóstica com prioridade e biópsia da parede da coleção ou da área inflamada — capítulo de Nódulo mamário. (Nota Técnica nº 626/2025, item 2.15)
Como saber se está funcionando
Quase nada neste capítulo se reavalia em 48 horas, e é justamente por isso que a reavaliação precisa ser agendada em vez de esperada. A dor cíclica se lê num calendário de um mês; a descarga provocada, num intervalo de dois a três meses sem estímulo; a descarga suspeita com imagem normal, num acompanhamento que pode durar dois anos; e a única situação com relógio de horas é a mama inflamada sob antibiótico. Cada parâmetro abaixo diz o que se espera ver e o que fazer quando não se vê — e, em três deles, o que não se vê é o gatilho que muda de capítulo.
Esperado: O calendário confirma a ciclicidade, a dor foi entendida e tolerada com a explicação e o analgésico simples, e o exame das mamas e das axilas continua normal — agora na fase certa do ciclo.
Se não melhora: Rever hormônio e medicação — gestação, terapia hormonal, anticoncepcional — e reexaminar procurando o que mudou: a dor que virou focal recebe imagem pela idade; a que continua difusa e cíclica, mas insuportável, pode ir à mastologia, sabendo que os fármacos que o fluxograma reserva ao especialista não são dispensáveis na rede para essa indicação. Retorno sem nova data é abandono com aparência de alta.
Esperado: A dor cedeu ou se tornou tolerável, o ponto doloroso não tem correspondente ao exame, e a hipótese de lesão local está encerrada e escrita.
Se não melhora: Reexaminar a parede torácica — a dor focal persistente que não é da mama costuma ser costocondral — e, se a dor progride ou algo ficou palpável, a discordância entre a mão e a imagem manda encaminhar, e não repetir a mesma imagem em três meses. Nunca converter a dor persistente em pedido de ressonância.
Esperado: A secreção cessou ou diminuiu, porque parou de ser procurada; o padrão continua multiductal e bilateral, e a papila e a pele estão íntegras.
Se não melhora: Se o incômodo é grande, mastologia. Se o padrão mudou — passou a espontânea, a um orifício só, a um lado só, ou apareceu sangue ou nódulo —, a reavaliação acabou e começa a investigação do Marco 5, com imagem pela idade e encaminhamento escrito.
Esperado: Sem lesão intraductal nova, sem sangue, sem nódulo; a mastologia decidiu — biópsia guiada, exérese do ducto ou acompanhamento — e a decisão está escrita no prontuário da unidade, não só no serviço.
Se não melhora: Sangue na secreção, citologia positiva ou suspeita, ou lesão nova na imagem mandam investigação histopatológica, e a paciente muda de fila: a descarga sanguinolenta unilateral é referência urgente. Falta ao controle dispara busca ativa: a decisão de não operar foi tomada em troca do compromisso de olhar de novo.
Esperado: Com o fármaco suspenso ou substituído, a secreção láctea cessa e os ciclos voltam; prolactina e TSH datados estão no prontuário, e a gestação foi afastada.
Se não melhora: Prolactina persistentemente elevada sem fármaco, sem gestação e com TSH normal: encaminhar à endocrinologia com os resultados datados e a lista de medicamentos — é o critério de inclusão do protocolo clínico, e é onde este capítulo termina. Cefaleia persistente, sintoma visual ou perda de campo antecipam o encaminhamento, em qualquer valor.
Esperado: A cavidade do cisto não se refez; o fibroadenoma está do mesmo tamanho, liso e móvel; a mulher entendeu que não tem uma doença da mama a controlar.
Se não melhora: Cisto que se enche de novo é cisto recidivante e vai à mastologia; líquido sanguinolento ou cavidade que não esvazia devolvem a lesão à investigação. Fibroadenoma que cresce depressa, passa de 5 cm ou estira a pele muda de hipótese — tumor filoide — e vai à mastologia para biópsia excisional com margem.
Esperado: Dor, calor e eritema regredindo, coleção drenada e sem se refazer, febre ausente; a cultura orientou ou confirmou o esquema; o curso termina na data escrita no primeiro dia — 5 a 7 dias, ou 10 a 14 se a resposta foi parcial.
Se não melhora: Sem resposta em 72 horas: revisar a cultura, repetir a ultrassonografia procurando coleção não drenada e drenar. Ao fim de um curso adequado sem melhora — eritema persistente, coleção que se refaz, espessamento que fica quando a febre passou —, a hipótese infecciosa está encerrada até que o tecido a confirme: referência urgente, imagem com prioridade e biópsia, pelo capítulo de Nódulo mamário. O segundo antibiótico empírico é a forma mais comum de perder semanas nessa apresentação.
Onde o erro machuca
O dano: É o erro mais frequente do capítulo e o que mais produz consulta: a mamografia pedida para tranquilizar volta com um achado provavelmente benigno que exige controle em seis meses, a ultrassonografia descreve cistos que ninguém precisava conhecer, e a mulher que tinha uma dor passa a ter uma condição da mama com data de retorno. A régua federal diz que a imagem é desnecessária, e o exame pedido contra ela ocupa a vaga da mulher com nódulo que está na fila diagnóstica — e ainda ensina à paciente que a dor precisa de aparelho para ser levada a sério.
Como pegar a tempo: Examinar antes de decidir, e escrever a frase inteira no prontuário: dor bilateral, cíclica, exame das mamas e axilas normal, imagem desnecessária. Dizer à paciente por que não vai pedir, com o mecanismo e com o número do denominador certo, e manter a mamografia de rastreamento no intervalo da idade. A imagem entra na dor focal, na dor que mudou de caráter e no exame que mudou — e só nesses.
O dano: A segurança do primeiro acompanhamento na atenção primária, escrita nas diretrizes de 2015, depende de o exame ter sido feito e de não ter encontrado outro sinal; dita de porta, a frase de que dor não é câncer é uma promessa sem lastro. E a dor que a mulher chama de mamária pode ser costocondral, muscular ou torácica: a caixa de sinais de alerta do fluxograma federal da mastalgia é inteira de dor torácica aguda, e o interno que só apalpa a mama deixa passar o gradil costal e, mais raramente, o infarto.
Como pegar a tempo: Palpar a parede torácica e as junções costocondrais antes da mama, com a paciente sentada e deitada, e perguntar se é aquela dor; examinar as duas mamas, as axilas e as fossas supraclaviculares; e só então dizer o que se encontrou. Marcar o reexame na primeira semana depois da menstruação quando a mama estava nodular no pré-menstrual. Frase que tranquiliza vem depois do exame, nunca antes.
O dano: O rótulo dispara a cascata: ultrassonografia anual para acompanhar cistos que não precisam de acompanhamento, retorno semestral para controlar o que não é doença, e uma mulher que passa a se apresentar como portadora de uma condição da mama — e que, na próxima dor cíclica, ouve que a doença piorou. As alterações não proliferativas não se associam a risco futuro; o material de apoio de 2023 separa isso das lesões proliferativas com clareza, e o rótulo apaga a distinção.
Como pegar a tempo: Descrever o que se encontrou em termos que não a transformem em doença — mamas densas, nodulares, sensíveis, sem nódulo dominante —, explicar a variação normal com o ciclo, dizer o que muda a conduta e devolver a mulher ao rastreamento da idade. O único seguimento que essa mama precisa é o que toda mama precisa. Nodularidade assimétrica e persistente depois da menstruação não é rótulo, é achado, e vai ao capítulo de Nódulo mamário.
O dano: É onde a descarga suspeita se perde. A maioria dessas descargas tem imagem normal — pelos parâmetros nacionais, quase todas —, e a citologia da secreção só se altera em 2,3% dos exames colhidos. O papiloma que sangra fica centímetros de ducto adiante do que a lâmina recolhe, e o carcinoma intraductal que se anuncia por uma gota clara não aparece em mamografia de rastreamento. A mulher sai com dois exames bons e volta um ano depois com o mesmo sinal, maior.
Como pegar a tempo: Classificar antes de pedir, e pedir a imagem pela idade com o relógio do ducto na requisição. Escrever, com todas as letras, que descarga espontânea, uniductal e unilateral persiste sem lesão correspondente e que a investigação continua; encaminhar à mastologia com os descritores; usar o guaiaco para a pergunta binária do sangue; e nunca a citologia como porta de saída. Se for sanguinolenta unilateral, é referência urgente, e a prioridade vai escrita.
O dano: O anticoncepcional oral não eleva a prolactina de modo significativo; suspendê-lo perde a contracepção e não muda a secreção. Trocar o antipsicótico sem o serviço de saúde mental descompensa uma doença para tratar um sintoma. E o encaminhamento à endocrinologia sem teste de gravidez, sem revisão da receita e sem prolactina e TSH datados volta pela regulação ou, pior, entra na fila como caso do protocolo clínico da hiperprolactinemia — que exclui exatamente a gestação, o medicamento e o hipotireoidismo.
Como pegar a tempo: Subir os três degraus na ordem — gestação, Lista 13, prolactina com TSH — e escrever ao médico assistente propondo suspender ou substituir o fármaco, em vez de fazê-lo. Guardar o anticoncepcional fora da lista de suspeitos. Encaminhar à endocrinologia só a hiperprolactinemia não medicamentosa, com os resultados datados que o protocolo de regulação exige; o resto deste caminho é do capítulo de hiperprolactinemia.
O dano: A mastite periductal e o abscesso subareolar têm outra flora e outra história: estafilococo e anaeróbios na fumante, fístula que liga o ducto à pele, recidiva em quase metade mesmo depois de cirurgia. O antibiótico sem drenagem trata a celulite e deixa a coleção; o esquema sem anaeróbio falha na fumante; e o segundo curso empírico, dado para a mama que não melhorou, é semana perdida numa apresentação em que o carcinoma inflamatório e a mastite granulomatosa precisam ser afastados por tecido.
Como pegar a tempo: Cultura antes da primeira dose, ultrassonografia para a pergunta da coleção, drenagem do que coleciona, esquema com a apresentação da Rename e data de término escrita no primeiro dia, cessação do tabagismo como parte da receita. Reavaliar em 48 a 72 horas. Ao fim de um curso adequado sem melhora, a hipótese infecciosa acabou: referência urgente e biópsia, pelo capítulo de Nódulo mamário. A lactante é de outro capítulo, e o interno sabe qual.
O que dizer ao paciente e à família
As falas abaixo são a conduta do capítulo, e não a moldura dela. Na dor e na descarga benigna, o que se prescreve é uma explicação que a paciente consiga repetir em casa — e uma explicação só funciona quando responde à pergunta que ela realmente trouxe, que quase nunca é a que ela disse. Silmara não veio pedir mamografia; veio perguntar se a dor é câncer, e a mamografia é o único jeito que ela conhece de fazer essa pergunta.
Duas regras valem para todas as falas. A primeira é dizer o mecanismo antes do número, porque o número sem mecanismo soa como estatística de porta. A segunda: toda fala que tranquiliza termina com o que a traz de volta — sem isso, a mulher que entendeu que a dor não é câncer também entende que não precisa mais voltar por nada.
"Se estivesse tudo bem, não doía" — a frase que abre a consulta
“A senhora tem razão numa coisa: dor é um sinal de que alguma coisa está acontecendo. O que eu vou te mostrar é o que está acontecendo. A mama responde ao ciclo: na segunda metade do mês, os hormônios fazem o tecido crescer e reter água, a mama fica mais cheia, mais pesada, mais sensível — e quando a menstruação vem, isso desincha e a dor vai embora. É por isso que dói nas duas, mais na parte de fora, e passa nos primeiros dias da regra. Vou examinar agora as duas mamas e as axilas, e depois te digo o que encontrei. Se o exame estiver como eu espero, essa dor tem nome, tem causa e não é câncer — e eu vou te explicar por que eu tenho tanta certeza.”
Não diga: Responder a frase com a estatística antes de examinar. Dito de porta, o número vira aposta; dito depois do exame, com o mecanismo na frente, vira explicação.
Ela pede a mamografia, e você não vai pedir
“Eu entendo o pedido, e vou te dizer por que a resposta é não. A mamografia serve para procurar uma coisa que a gente não sente — um caroço pequeno demais para a mão. A senhora fez uma há três meses e ela não achou nada, e eu examinei agora e também não achei nada. A dor que a senhora tem não é o tipo de coisa que a mamografia enxerga, porque não é um caroço: é a mama inteira reagindo ao ciclo. Se eu pedir outra, o mais provável é que ela venha igual — e a segunda leitura pode achar uma sombra qualquer que vai virar controle daqui a seis meses, para uma coisa que nunca foi problema. O exame certo para a senhora existe: é a mamografia de rotina, na idade certa, no intervalo certo. Hoje, o exame que responde à sua pergunta é o que eu acabei de fazer com as mãos.”
Não diga: "Não precisa" sem o porquê. Ela vai procurar outro serviço e fazer o exame, e vai voltar com um achado provavelmente benigno na mão.
A gota verde que ela mostrou, e o pedido para parar de apertar
“Essa secreção verde-escura que sai quando a senhora aperta, dos dois lados, por vários pontinhos, é uma coisa comum na mama depois dos quarenta: os canais que ficam atrás do bico vão se alargando com a idade, e o líquido que fica parado dentro deles engrossa e escurece — amarelo, verde, marrom. Não é sangue velho e não é sinal de câncer. Agora eu vou te pedir uma coisa difícil: pare de apertar. Cada vez que a senhora espreme para conferir, o canal entende que tem que continuar drenando, e a secreção continua. Se ninguém apertar, na maioria das mulheres isso seca sozinho em uns dois ou três meses. O que eu quero que a senhora observe, sem provocar, é outra coisa: se manchar o sutiã sozinho, de um lado só, ou se vier com sangue — aí a história é outra e eu quero ver.”
Não diga: Dizer só "não é nada" e não dizer o que é. A paciente que não sabe o nome do que tem continua apertando para descobrir.
A descarga é suspeita, e você vai investigar sem assustar e sem prometer
“O que a senhora está descrevendo — sai sozinho, mancha a roupa, sempre pelo mesmo pontinho, de um lado só, e o líquido é claro como água — é um tipo de secreção que eu não deixo passar sem olhar por dentro. Na maioria das vezes a causa é uma lesão pequena e benigna dentro de um dos canais do bico, uma espécie de verruga interna, que sangra ou solta líquido; e numa parte menor pode ser algo que precisa de tratamento. Eu não sei qual das duas é a sua, e não vou adivinhar. Vou pedir os exames de imagem hoje, com o ponto marcado, e vou te encaminhar para o especialista da mama com tudo escrito. E já te aviso de uma coisa para a senhora não se assustar depois: é comum esses exames virem normais mesmo quando a lesão existe, porque ela é pequena. Exame normal aqui não é o fim — é o começo.”
Não diga: "Provavelmente não é nada, mas vamos pedir para garantir". A frase prepara a paciente para abandonar o seguimento no dia em que o exame vier normal.
Sai leite, e ela quer saber se é a pílula
“Não é a pílula. O anticoncepcional não faz a mama produzir leite — no máximo deixa a mama mais sensível ao estímulo, mas não é ele que liga a produção. O que liga é um hormônio chamado prolactina, e o que mais costuma aumentar esse hormônio em quem não está grávida é remédio: alguns para enjoo, alguns para o psiquiátrico, alguns para a pressão. A senhora usa o remédio da psiquiatria há alguns meses, e ele está na lista dos que fazem exatamente isso. Eu vou fazer três coisas hoje, nesta ordem: um teste de gravidez, porque é a causa mais frequente e a mais simples de afastar; uma carta para o seu psiquiatra, contando o que está acontecendo e perguntando se dá para trocar — não sou eu que mexo nesse remédio, e nem a senhora; e a dosagem da prolactina e do hormônio da tireoide. Mantenha a pílula.”
Não diga: Suspender ou trocar qualquer medicamento na consulta. A galactorreia é sintoma; a doença que o antipsicótico controla é doença.
O laudo diz fibroadenoma, e ela pergunta quando vai operar
“Talvez nunca, e isso é uma boa notícia. Fibroadenoma é um nódulo benigno, muito comum na sua idade, feito de tecido normal da mama que cresceu um pouco mais num ponto. Ele não vira câncer e não precisa sair para proteger a senhora de nada. O que faz a gente operar um fibroadenoma são três coisas: ele crescer rápido, ele incomodar de verdade — dor, deformar a mama —, ou a senhora querer tirar mesmo sabendo que não precisa. Se nenhuma das três acontecer, o que a senhora faz é o que toda mulher faz: a mamografia na idade certa, e voltar se ele mudar. Não vou te marcar um ultrassom por ano para olhar uma coisa que não muda de natureza — isso só serviria para a senhora se sentir doente.”
Não diga: Agendar seguimento por imagem "para acompanhar" sem dizer o que se acompanha. O seguimento sem pergunta é o que transforma um nome benigno numa doença.
Fechar a consulta da mama que dói: o que a traz de volta
“Antes de a senhora ir, quatro coisas para anotar. Primeira: a data — daqui a um mês, com o calendário da dor preenchido, eu quero ver se ela obedeceu ao ciclo como eu disse. Segunda: o remédio é só nos dias de dor, e o sutiã com sustentação ajuda mais do que parece, inclusive para dormir. Terceira: a senhora não precisa ficar apertando o bico para conferir, e nem apalpando todo dia procurando — a mama muda ao longo do mês, e o que aparece antes da regra some depois. Quarta, e é a mais importante: a senhora volta antes da data se aparecer um caroço que continua lá depois da menstruação, se sair líquido sozinho de um lado só, se a pele mudar, ou se a dor ficar num ponto só e não passar. Fora isso, a gente se vê na data.”
Não diga: "Qualquer coisa, procure". É vago demais para funcionar; a mulher que não sabe o que é qualquer coisa não volta, ou volta por tudo.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Posição 1 — imagem para toda dor de localização pontual sem trauma: Ministério da Saúde, Protocolos da Atenção Básica (2016)
O Fluxograma 8 abre um ramo próprio para a dor de localização específica ou pontual: sem história de trauma, investigar com ultrassonografia abaixo dos 30 anos e com mamografia, mais ultrassonografia se necessário, acima dos 30; com trauma, observar por uma semana com suporte, calor e analgesia, e então a mesma investigação. O critério é a topografia da dor, não a sua evolução: basta ser pontual e sem trauma para a imagem entrar. O argumento embutido é o do perfil da dor que se associa a câncer — unilateral, focal, persistente —, e o de que a ultrassonografia dirigida a um ponto é barata, sem radiação na mulher jovem, e encerra a hipótese de lesão local numa consulta.
Brasil. Ministério da Saúde. Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, 2016, item 4.1, Fluxograma 8
Posição 2 — dor sem outro sinal admite um primeiro acompanhamento clínico na atenção primária: INCA, Diretrizes para a detecção precoce (2015), com o TeleCondutas nº 38 (2023)
As diretrizes nacionais de 2015 escrevem que a associação da mastalgia com outros sinais e sintomas aumenta a probabilidade de câncer e que a ausência desses sinais garante segurança para um primeiro acompanhamento da evolução na atenção primária — apoiadas na série de Gana, em que a dor isolada teve 1,24% de câncer contra 16% da dor acompanhada. O material de apoio de 2023 põe a dor isolada com exame normal entre zero e 3% e descreve o perfil que merece atenção como unilateral, focal, intensa, progressiva e sem padrão cíclico — um conjunto, não um atributo. Nessa leitura, a dor focal recém-surgida, com exame normal, pode ser reexaminada na fase certa do ciclo antes de receber imagem, e a imagem fica para a dor que persiste, progride ou ganha um achado ao exame. O argumento é o da cascata: a imagem pedida por dor produz achados sem doença, e a fila diagnóstica pertence a quem tem sinal.
Instituto Nacional de Câncer. Diretrizes para a detecção precoce do câncer de mama no Brasil, 2015, seção 4.2.3; TelessaúdeRS-UFRGS. TeleCondutas nº 38 — Nódulo mamário, 2023, seção Sintomas
Para a mulher à sua frente, três perguntas decidem sem eleger vencedor. A primeira é de tempo e trajetória: dor pontual que apareceu há dias, sem trauma, em mulher em menacme examinada no pré-menstrual, pode esperar o reexame na primeira semana depois da menstruação — com data — antes de qualquer imagem; dor pontual que já dura semanas, ou que progride, recebe a imagem do fluxograma sem discussão. A segunda é de exame: qualquer coisa palpável no ponto, por menor que seja, tira a paciente das duas posições e a põe no capítulo de Nódulo mamário. A terceira é de custo do erro: a ultrassonografia dirigida a um ponto é o exame mais barato e menos danoso da clínica mamária, e a mamografia na mulher de 45 anos com dor focal persistente é, muitas vezes, a mamografia de rastreamento que ela já deveria ter — de modo que, na dúvida entre as duas réguas, pedir a imagem do fluxograma custa pouco e pedir a mais, para a dor difusa e cíclica, custa uma cascata. O que as duas posições têm em comum vale mais do que a diferença: a imagem normal, quando pedida, encerra a hipótese de lesão local e devolve a mulher à conduta da dor, e não ao pedido seguinte.
Posição 1 — a cor decide, e o corte de idade é 60 anos: Ministério da Saúde, Protocolos da Atenção Básica (2016)
No Fluxograma 9, confirmada a espontaneidade, o nó seguinte é a aparência: a secreção amarelada, esverdeada, amarronzada ou acinzentada vai para o mesmo destino da descarga provocada — provavelmente benigna, orientar a não estimular, reavaliar em dois a três meses, mastologia apenas se muito incômodo. A idade só entra no ramo suspeito acima dos 60 anos. Para a mulher de 55 anos com secreção verde, espontânea e multiductal, a régua federal de 2016 escreve tranquilizar. O argumento é o da prevalência: esse padrão é o retrato da ectasia ductal, que é a condição mais banal da mama madura, e investigar toda mulher assim é investigar uma fatia enorme da perimenopausa.
Brasil. Ministério da Saúde. Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, 2016, item 4.2, Fluxograma 9
Posição 2 — qualquer descarga acima de 50 anos é sinal altamente sugestivo de câncer: TelessaúdeRS-UFRGS, Protocolos de encaminhamento para Mastologia (2020)
O Quadro 1 do protocolo de regulação gaúcho, adaptado do caderno federal de 2013 e das diretrizes do INCA de 2015, define descarga suspeita por três critérios alternativos, e o terceiro é qualquer descarga papilar em mulher com idade superior a 50 anos — sem exceção de cor nem de padrão ductal. Quem tem achado do quadro vai a serviço de oncologia, e com preferência de agenda. A mesma mulher de 55 anos, pela régua de 2020, é caso de encaminhamento prioritário. O argumento é o da probabilidade pré-teste: a idade de 50 anos ou mais foi preditor independente de câncer na série irlandesa de descargas, e o custo de encaminhar uma ectasia é menor do que o de reter um carcinoma que se anuncia por secreção.
TelessaúdeRS-UFRGS. Protocolos de encaminhamento para Mastologia, revisado em 5 de fevereiro de 2020, Quadro 1
As duas réguas estão em vigor, e as duas leem a mesma mulher; o que resolve para ela é o que nenhuma das duas usa como nó de decisão. Primeiro, o padrão ductal e o exame: vários orifícios, duas mamas, secreção espessa e escura, papila e pele íntegras, sem nódulo — é a árvore ductal inteira involuindo, e a probabilidade de lesão intraductal é baixa por anatomia, não por cor. Um orifício só, ou um lado só, ou qualquer achado ao exame, muda tudo, e ela vai investigar em qualquer régua. Segundo, o rastreamento: aos 55 anos a mamografia bienal já é devida pela norma federal de 2025, e a decisão prática é conferir se está em dia e fazê-la como rastreamento, sem transformar uma ectasia em requisição urgente que ocupa a vaga de quem tem sangue ou nódulo. Terceiro, o registro: escrever que a descarga é espontânea, multiductal, bilateral e colorida, com exame normal, e que a orientação foi não estimular com reavaliação em dois a três meses — porque, se ela voltar com um padrão diferente, o prontuário precisa mostrar que a mudança é nova. E vale dizer o que a divergência ensina de método: o serviço que escreveu a régua de 2020 retirou o critério de idade do seu material de 2023, e a nota federal de 2025 também não o tem — a idade pesa na probabilidade, mas deixou de ser critério isolado nos documentos mais recentes.
Posição 1 — o tratamento primário é suspender ou substituir o medicamento, em conjunto com o médico assistente: Ministério da Saúde, Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hiperprolactinemia (2020), com o Fluxograma 9 (2016)
O protocolo clínico federal, no item de casos especiais, escreve que para a hiperprolactinemia induzida por medicamentos o tratamento primário consiste em suspender o fármaco ou substituí-lo por outro que não cause a alteração hormonal, e que isso deve ser realizado em conjunto com o médico assistente do paciente. O fluxograma da atenção básica de 2016 diz o mesmo em outras palavras: avaliar a possibilidade de suspender a medicação. A hiperprolactinemia por medicamento é, além disso, critério de exclusão do protocolo — não é caso de agonista dopaminérgico, e não é caso de endocrinologia enquanto o fármaco estiver em uso. O argumento é o de causa: retirada a causa, o sintoma some, e nenhum tratamento adicional é preciso.
Ministério da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 19, de 23 de novembro de 2020 — PCDT da Hiperprolactinemia, itens 5 e 6.1; Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, 2016, Fluxograma 9
Posição 2 — o fármaco que controla a doença psiquiátrica não se troca por causa de um sintoma mamário; os agonistas ficam para casos específicos sem alternativa: o mesmo PCDT (2020), lido pela ressalva
O mesmo item 6.1 do protocolo acrescenta que os agonistas dopaminérgicos devem ser utilizados apenas em casos bem específicos, sem alternativas, sempre com acompanhamento clínico — e reconhece, ao dizer sem alternativas, que existem pacientes em que o antipsicótico não pode ser suspenso nem trocado sem descompensar a doença que ele controla. A introdução do protocolo registra que a risperidona e a metoclopramida podem elevar a prolactina a valores acima de 200 ng/mL, o que significa que um número alto nessa paciente não prova tumor e não autoriza uma cadeia de exames. Nessa leitura, a galactorreia por antipsicótico numa mulher estável do ponto de vista psiquiátrico é um efeito adverso a ser explicado e acompanhado, e a decisão de trocar é do serviço que a trata, ponderando recaída contra sintoma. O argumento é o de dano: uma recaída psicótica custa mais do que uma secreção láctea.
Ministério da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 19, de 23 de novembro de 2020 — PCDT da Hiperprolactinemia, item 6.1 (ressalva sobre agonistas) e introdução (fármacos e valores de prolactina)
A decisão não é da unidade básica, e reconhecer isso já decide a maior parte. O que cabe ao interno é subir os três degraus — gestação afastada, receita revisada contra a Lista 13, prolactina e TSH datados — e escrever ao serviço prescritor uma carta que descreva a galactorreia, o valor, a data e o tempo de uso, perguntando se há substituto e deixando claro que não se mexeu na prescrição. Para a paciente à frente, três coisas pesam na conversa que o psiquiatra vai ter: a gravidade da doença de base e o histórico de recaídas, a existência de um fármaco alternativo com menor efeito sobre a prolactina, e o incômodo real do sintoma — galactorreia isolada é uma coisa; amenorreia com hipoestrogenismo por anos é outra, com custo ósseo. Sintoma visual, cefaleia persistente ou perda de campo tiram o caso das duas posições e mandam imagem em qualquer régua. E o que não se faz em nenhuma das duas: suspender a pílula, suspender o antipsicótico na consulta, ou abrir fila de endocrinologia para uma hiperprolactinemia que o protocolo exclui enquanto o fármaco estiver em uso.
O raciocínio, em voz alta
Rosalva Turíbio tem 38 anos, é manicure, fuma vinte cigarros por dia desde os dezesseis e chegou à unidade com a mama esquerda dolorida há cinco dias. Não amamenta — o filho mais novo tem nove anos. Há oito meses teve "um caroço igual, no mesmo lugar", que "abriu sozinho e secou". Ao exame: eritema e calor na metade inferior da aréola esquerda, com abaulamento de uns 3 cm na borda inferior da aréola, flutuante e muito doloroso; a papila esquerda está retraída — "de uns anos para cá", diz ela —, e na junção da aréola com a pele há um orifício puntiforme por onde sai secreção purulenta à compressão. Sem febre, sem casca de laranja, sem massa fora da área inflamada; a mama direita é normal. Axila esquerda com linfonodo de 1 cm, doloroso e móvel. Índice de massa corporal de 33.
O que penso antes de tocar
Não é a mama da lactante, e por isso não é a mastite do capítulo de aleitamento. É a mama que inflama fora do puerpério, numa fumante com excesso de peso — os dois fatores de risco que o material de apoio de 2023 põe no topo —, com um episódio anterior no mesmo lugar que fistulizou e fechou. Esse conjunto tem nome: mastite periductal com abscesso subareolar, e o adjetivo que a segunda vez lhe dá é recidivante. A hipótese que eu não posso perder é a da inflamação que não é infecção — carcinoma inflamatório, mastite granulomatosa —, e o que a mantém em segundo lugar, por enquanto, é a apresentação: coleção localizada e flutuante junto à aréola, orifício fistuloso na borda, episódio prévio idêntico, eritema restrito, sem edema difuso de pele.
O exame, e o que dele muda a conduta
Descrevo o que a lista de referência urgente precisaria ler para me contradizer, e não encontro: a retração da papila é antiga, de anos, e é a que a fibrose periductal produz — não a retração recente e unilateral do sinal de alerta; o eritema ocupa a metade inferior da aréola e para ali, sem casca de laranja e sem aumento de volume da mama inteira; o linfonodo axilar é doloroso e móvel, reacional a uma coleção purulenta a dez centímetros dele, e não o linfonodo endurecido da lista. Palpo o resto da mama esquerda com cuidado, fora da área inflamada: nada. Registro tudo isso com essas palavras, inclusive a data em que a inflamação começou e a data do episódio anterior — porque a régua que vai me obrigar a mudar de capítulo é de tempo e de resposta, e ela precisa de um marco inicial escrito.
O que peço antes de qualquer comprimido
Gram e cultura da secreção que sai pela fístula, colhidos agora, antes da primeira dose — a fumante e a fistulizada são exatamente as pacientes em que o material de apoio manda suspeitar de anaeróbio, e a cultura é o que separa, se ela não melhorar, o germe resistente da doença que não é infecção. Ultrassonografia mamária para uma pergunta só: há coleção, de que tamanho, com que trajeto? Volta no mesmo dia, pelo serviço de imagem do município: coleção de 2,8 cm na porção inferior da região subareolar, com trajeto até a pele, ductos retroareolares dilatados, sem massa sólida associada. Não peço mamografia hoje: a mama inflamada de 38 anos vai ser mal lida, e a pergunta desta semana não é a que a mamografia responde. Se sobrar espessamento quando a inflamação passar, aí a imagem entra — com prioridade.
O que prescrevo, com a apresentação que a rede tem
Coleção flutuante de quase 3 cm se drena: na unidade, se há quem faça sob anestesia local, ou no pronto atendimento cirúrgico do dia — o antibiótico não substitui a drenagem, ele a acompanha. Amoxicilina com clavulanato 500 mg com 125 mg, um comprimido de 8 em 8 horas por 7 dias: 21 comprimidos, do Componente Básico, com cobertura de anaeróbio embutida. A apresentação de 875 mg que o esquema de 12 em 12 horas pede não existe no elenco, e eu não vou mandar Rosalva comprar o que a farmácia dela tem em outra dose. Dipirona 500 mg nos dias de dor. E a parte da receita que ela não espera: parar de fumar, dito como tratamento e não como sermão, porque é o tabagismo que faz esta doença voltar. Retorno em 72 horas, com a data do fim do antibiótico escrita no papel que ela leva.
Setenta e duas horas depois
A dor caiu, o eritema encolheu, a coleção drenada não se refez. A cultura chegou: estafilococo dourado sensível à oxacilina e Bacteroides na mesma amostra — o par que a fumante fistulizada costuma criar. O esquema cobre os dois; mantenho e completo os 7 dias. Escrevo que houve resposta em 72 horas, porque é esse registro que vai autorizar, ou não, o que acontece no dia 7. E confirmo com ela a data do retorno seguinte, ao fim do curso.
A conversa que decide o futuro dela
Rosalva quer ouvir que acabou, e eu tenho duas notícias que não cabem numa frase. A primeira: não é câncer — o exame, a coleção, a cultura e a resposta ao tratamento contam a história de uma infecção nos canais atrás do bico, que a fumaça mantém inflamados. A segunda: é uma doença que volta. O abscesso subareolar que fistuliza recidiva em quase metade das mulheres mesmo depois de cirurgia bem feita, e o cigarro pesa nessa conta mais do que qualquer outra coisa que eu possa prescrever. Como já é a segunda vez, ela tem motivo de encaminhamento com todas as letras — abscesso subareolar crônico recidivante — e vai à mastologia para que se discuta a retirada dos ductos doentes e do trajeto da fístula. E o que a traz de volta antes disso: vermelhidão que reaparece, coleção que se refaz, secreção que muda, caroço fora da aréola.
O que teria mudado tudo
Se no sétimo dia a mama continuasse vermelha, com a coleção se refazendo ou um espessamento que ficou depois de a dor passar, a resposta não seria o segundo antibiótico. A mastite ou inflamação que não melhora depois de um curso adequado está na lista federal de referência urgente desde a nota técnica de 2025, e o motivo é este: o carcinoma inflamatório e a mastite granulomatosa se apresentam como abscesso que não responde. Ali Rosalva deixaria de ser deste capítulo — imagem diagnóstica com prioridade, biópsia da parede da coleção, capítulo de Nódulo mamário — e o que eu lhe deveria era não ter gastado a segunda semana com o antibiótico seguinte. A outra bifurcação teria vindo antes: se a mama inteira estivesse aumentada, com edema difuso de pele e sem coleção, ela nunca teria entrado neste capítulo; e, se estivesse amamentando, teria entrado no de aleitamento.
O que escrevo no prontuário
Mulher de 38 anos, tabagista, não lactante. Segundo episódio de abscesso subareolar na mama esquerda, com fístula na borda inferior da aréola e retração antiga da papila; eritema restrito à metade inferior da aréola, sem edema difuso, sem massa fora da área inflamada; linfonodo axilar esquerdo reacional. Ultrassonografia com coleção de 2,8 cm e trajeto fistuloso, sem massa sólida. Gram e cultura colhidos antes do antibiótico; drenagem realizada. Amoxicilina com clavulanato 500 + 125 mg de 8 em 8 horas por 7 dias, término na data anotada; dipirona se dor; orientada a cessação do tabagismo. Resposta em 72 horas; cultura com estafilococo sensível e anaeróbio. Encaminhada à mastologia por abscesso subareolar crônico recidivante. Orientados os sinais de retorno e registrado que ausência de melhora ao fim do curso configura referência urgente.
Variação do caso — resposta e reavaliação
Variação do retorno de Rosalva: a dor cede após drenagem, mas a fístula permanece. Reconhecer resposta do episódio agudo e necessidade de seguimento da doença periductal recorrente, incluindo abordagem do tabagismo. Não repetir indefinidamente antibiótico sem discutir o foco.
Variação do caso — quando mudar o plano
Se eritema ou massa persistem apesar de tratamento adequado, reexaminar e solicitar avaliação especializada e investigação conforme os achados. A ausência de febre não comprova benignidade. Um diagnóstico inicial de mastite não deve atrasar esclarecimento de apresentação atípica.
Faça você
Ivanete Malaquias tem 58 anos, é merendeira aposentada e chega à unidade porque, há seis semanas, mancha o sutiã do lado direito. O líquido é claro, "parece água", sai sozinho — ela nunca apertou — e sempre pelo mesmo ponto do mamilo. Não dói. Fez mamografia de rastreamento há quatro meses, laudo categoria 1, e traz o papel. Não usa medicamento contínuo, menopausa aos 51, sem terapia hormonal, sem caso de câncer de mama na família. Ao exame, com Ivanete sentada e deitada: mamas sem nódulo, sem espessamento, sem retração, pele e papilas íntegras, axilas livres. À pressão ponto a ponto na margem da aréola direita, uma gota serosa e transparente sai por um único orifício, na posição de 10 horas; nada sai à esquerda. Campos visuais normais.
Passo 1 — classifico antes de pedir
Espontânea, uniductal, unilateral, serosa como água de rocha, em mulher de 58 anos, com exame das mamas normal exceto pela descarga. Cada régua brasileira a chama de suspeita por um critério diferente — a cor, o padrão ductal, a idade —, e só a lista federal de referência urgente de 2025 não a inclui, porque não há sangue. A hipótese mais provável tem nome e frequência: lesão intraductal, papiloma na maior parte das vezes; a menos provável é a que obriga a investigar. Nada aqui é rota da prolactina, e dosá-la seria o exame errado.
Passo 2 — o que a mamografia de quatro meses atrás não responde, e o que eu peço
O laudo categoria 1 foi de rastreamento: leu uma mama sem queixa, sem o relógio do ducto, sem ultrassonografia. Peço mamografia com finalidade diagnóstica e ultrassonografia mamária, com a requisição dizendo: descarga espontânea, serosa, uniductal, às 10 horas da mama direita, sem nódulo, há seis semanas. Três semanas depois, o resultado: mamografia sem alteração; ultrassonografia com ductos retroareolares direitos levemente dilatados, sem lesão intraductal visível, sem nódulo — categoria 2. Ivanete retorna aliviada, e a colega que a atendeu no dia do exame sugeriu "uma citologia do líquido para fechar".
Passo 3 — sua vez
Escreva a sua resposta antes de ler a do capítulo, e diga se Ivanete recebe alta com imagem categoria 2, se a citologia da secreção pode fechar o caso, o que você escreve no encaminhamento — palavra por palavra —, em qual fila ela entra pela norma federal de 2025 e o que você faz para que a regulação enxergue a prioridade que a norma não escreve, e quais são os gatilhos que a trazem de volta antes da consulta especializada.
Ver como fecharíamos
Ivanete não recebe alta. Imagem normal não encerra uma descarga espontânea, uniductal e unilateral: pelos parâmetros nacionais, quase todas as mulheres com descarga têm imagem sem alteração, e a lesão que a produz costuma ser milimétrica e ficar dentro do ducto que a ultrassonografia viu dilatado. A citologia não fecha nada: entre os exames colhidos de descarga na base nacional, 2,3% vieram positivos, suspeitos ou indeterminados — ela serve para achar células atípicas quando existem, e um resultado negativo não tem poder de alta; o que muda a rota, se a dúvida for sangue, é o teste do guaiaco. O encaminhamento à mastologia vai com o que faz a suspeita existir: mulher de 58 anos, descarga papilar espontânea, serosa, por um único orifício às 10 horas da mama direita, há seis semanas, sem nódulo ao exame, mamografia diagnóstica sem alteração e ultrassonografia com ectasia ductal retroareolar sem lesão visível; solicito avaliação para biópsia guiada ou exérese do ducto. Pela Nota Técnica nº 626/2025, ela não está na lista de referência urgente — o único item de secreção é a sanguinolenta unilateral —, e é por isso que o texto precisa dizer tudo: é a descrição, e não um carimbo, que impede o regulador de ler a solicitação como rotina. Se a mastologia optar por acompanhar, os parâmetros nacionais preveem mamografia e ultrassonografia repetidas por até dois anos, e o retorno na unidade fica agendado com data. E os gatilhos que antecipam tudo, ditos e escritos: sangue na secreção, mancha diária que aumenta, qualquer caroço, qualquer mudança na pele ou na papila — o primeiro deles a transforma em referência urgente.
A risperidona é uma causa importante de hiperprolactinemia, mas a hipótese precisa ser avaliada com dosagem de prolactina, TSH e revisão das demais causas. Não se deve suspender o antipsicótico sem coordenação com o profissional que acompanha a saúde mental. A possibilidade de troca ou ajuste depende da estabilidade psiquiátrica e das alternativas disponíveis. Endocrinologia pode ser necessária quando há persistência, dúvida diagnóstica, sintomas relevantes ou dificuldade de modificar o tratamento. Critérios administrativos de um PCDT não proíbem encaminhamento clínico. A indicação de ressonância depende do conjunto de achados, da intensidade/persistência da elevação e da relação temporal com o medicamento; não se resume a um corte único de prolactina.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Escreva de memória, sem consultar: (1) as seis perguntas da entrevista da dor e as cinco da descarga, na ordem; (2) os dois gestos que o exame da dor e da descarga têm e o exame do nódulo não tem; (3) o que torna uma descarga suspeita em cada um dos quatro documentos brasileiros — fluxograma federal de 2016, protocolo de encaminhamento de 2020, TeleCondutas de 2023, nota técnica de 2025 — e qual deles governa a fila; (4) os três degraus da descarga láctea, a ordem deles e as duas portas de saída; (5) o que confirma um cisto simples e um fibroadenoma, e os três motivos que os levam à mastologia; (6) o esquema antibiótico da mastite não puerperal convertido na apresentação da Rename, com o total de comprimidos de um curso de 7 dias; (7) o item da lista federal de 2025 que entrega a paciente deste capítulo ao capítulo de Nódulo mamário, e o que precisa estar escrito para que ele seja acionado. Aplicação comentada: Descarga só à expressão com nódulo associado pode ser descartada pela provocação? Não. O nódulo exige investigação própria e integração dos achados.
Em 30 dias
Volte à consulta de Silmara e mude um dado de cada vez, dizendo, a cada mudança, qual passo do fluxo se desloca, qual capítulo assume e o que você diz a ela: a secreção verde passa a sair sozinha, por um orifício só, do lado direito; a dor deixa de ser bilateral e passa a doer num ponto que ela aponta com o dedo; ela tem 58 anos em vez de 41; há um nódulo de 1,5 cm no quadrante superior externo; a secreção é leitosa e ela usa risperidona; a mama esquerda está vermelha, quente e com uma coleção junto à aréola; ela está amamentando. Depois, escreva de uma vez só o encaminhamento de Ivanete, palavra por palavra, e confira se ele contém tudo o que faz a regulação enxergar uma prioridade que a norma federal de 2025 não escreve.
Agora atenda
Agora atenda a mulher que chega dizendo que a mama dói todo mês e que, ao apertar, sai uma gota escura — e que traz uma mamografia normal na mão para pedir outra. Seu trabalho é separar a dor que é da mama da que vem do tórax, classificar a secreção pelas cinco perguntas antes de pensar em exame, decidir o que obriga a investigar e o que autoriza a tranquilizar hoje, e dizer isso a ela com o mecanismo, com o número do denominador certo e com uma data de retorno — sem pedir a imagem que a régua diz ser desnecessária, e sem deixar passar a secreção que seria de um ducto só.
