Ginecologia e Obstetrícia › Ginecologia
A pelve não é uma especialidade
Dor pélvica crônica: diagnóstico diferencial
Bexiga, intestino, músculo e nervo dividem o andar com o útero. A mulher operada sem achado é o desfecho de quem investigou um andar só — e a dor que sobra depois de a lesão sumir tem mecanismo, nome e tratamento.
Brasil. Ministério da Saúde; Instituto Sírio-Libanês de Ensino e Pesquisa. Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres. Brasília: Ministério da Saúde, 2016. 230 p. ISBN 978-85-334-2360-2. Capítulo 5, Dor pélvica: Fluxograma 10 e Quadros 8, 9 e 10
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Ribeiro PA, Abdalla-Ribeiro HS, Eras A. Dor pélvica crônica. Femina. 2020;48(5):262-76. Protocolo Febrasgo–Ginecologia nº 7, Comissão Nacional Especializada em Endoscopia Ginecológica
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Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. Dismenorreia e endometriose na adolescência. Femina. 2025;53(12):1398-402. Protocolo Febrasgo nº 76, Comissão Nacional Especializada em Ginecologia da Infância e Adolescência
Brasil. Ministério da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SAPS/SCTIE nº 54, de 2 de junho de 2026. Aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Endometriose
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Nogueira AA, Reis FJC, Poli Neto OB. Abordagem da dor pélvica crônica em mulheres. Rev Bras Ginecol Obstet. 2006;28(12):733-40
Lessa LMM, Chein MBC, Silva DSM, Poli Neto OB, Nogueira AA, Coelho LSC, Brito LMO. Irritable bowel syndrome in women with chronic pelvic pain in a Northeast Brazilian city. Rev Bras Ginecol Obstet. 2013;35(2):84-9
Cloridrato de tramadol 50 mg/mL, solução injetável, medicamento genérico. Bula para o profissional de saúde. União Química Farmacêutica Nacional. Registro MS 1.0497.1313; texto aprovado pela Anvisa em 18 de março de 2016
Nimesulida 100 mg, comprimido. Bula para o profissional de saúde. Vitamedic Indústria Farmacêutica, texto de abril de 2016
Paracetamol 500 mg, comprimido. Bula para o profissional de saúde. Laboratório Farmacêutico da Marinha
Piroxicam 20 mg, cápsula dura, medicamento genérico. Bula para o profissional de saúde. Brainfarma Indústria Química e Farmacêutica
Gabapentina 300 mg, cápsula dura, medicamento genérico. Bula para o paciente. Aché Laboratórios Farmacêuticos; texto aprovado pela Anvisa em 17 de fevereiro de 2023
Responda antes de ler
Mulher de 31 anos tem dor pélvica diária há sete meses, que piora quando fica sentada e alivia ao urinar. A ultrassonografia transvaginal mostra cisto anecoico, unilocular, de parede fina, com 2,8 cm, no ovário esquerdo, sem líquido livre. Ela pergunta se o cisto é a causa da dor. Qual é a leitura correta?
O paciente que você vai ver
Terça-feira, oito e meia da manhã, ambulatório de ginecologia num hospital-escola. A residente deixa uma pasta na sua mesa antes de sair para a sala ao lado, e a pasta é grossa: são seis anos. Adriana Salgado tem 37 anos, é auxiliar administrativa numa transportadora, e entra sem esperar ser chamada duas vezes, porque conhece o caminho. Senta, põe a pasta no colo e diz a primeira frase antes da sua pergunta: "eu já sei que não é nada, mas eu não aguento mais".
A pasta conta a história dela por pedaços. Dois ultrassons transvaginais normais e um terceiro com um cisto simples de 2,8 centímetros que sumiu no controle. Três culturas de urina negativas, uma delas colhida durante uma crise. Uma laparoscopia diagnóstica há três anos, cujo laudo diz pelve sem alterações e lise de aderências finas. Oito meses de contraceptivo combinado contínuo prescritos depois disso, com a hipótese de endometriose escrita entre parênteses, e a anotação de retorno: "sem melhora". Uma colonoscopia pedida há um ano e ainda não marcada. Quatro receitas de antiespasmódico, três de anti-inflamatório, uma de amitriptilina de 25 miligramas que ela tomou por cinco dias e parou porque leu a bula e era remédio de depressão. Nenhum registro de exame do assoalho pélvico. Nenhum registro de que alguém tenha perguntado se a dor muda quando ela urina, quando evacua, quando senta ou quando tem relação.
Você pergunta essas coisas, uma de cada vez, e a história ganha endereço. A dor é diária, no baixo-ventre, dos dois lados mas mais à esquerda. Piora no fim do dia e depois de ficar sentada muito tempo — ela trabalha sentada. Piora quando a bexiga está cheia e alivia um pouco quando urina, e por isso ela urina antes de sentir vontade, dez ou doze vezes por dia. Evacua a cada três dias, com esforço, e a dor melhora um pouco depois. Na relação, dói na entrada e dói no fundo, e ela e o companheiro praticamente pararam há dois anos. A menstruação piora tudo um pouco, mas a dor não some em nenhuma semana do mês. Ela dorme mal, acorda cansada, e tem dor lombar baixa desde que se lembra.
Você pergunta o que ela acha que tem. Ela responde que uma médica disse que podia ser "da cabeça", e que desde então ela parou de contar tudo, porque contar tudo parecia confirmar isso.
No exame, o abdome é flácido. Há um ponto doloroso de dois centímetros na fossa ilíaca esquerda, sobre a cicatriz de um dos portais da laparoscopia, e quando você pede que ela levante a cabeça e os ombros com a sua mão pressionando o ponto, a dor piora em vez de sumir. No exame vaginal, você começa com um dedo só, sem espéculo ainda, e vai devagar pela parede lateral esquerda. A dois centímetros da entrada, sobre o levantador do ânus, o músculo está em banda tensa, e a pressão suave reproduz a dor — ela diz, antes de você perguntar, "é essa, é essa mesmo". Do lado direito o músculo é macio. A base da bexiga, palpada pela parede anterior, é dolorosa. O útero é móvel e indolor à mobilização, os anexos não são palpáveis, o fundo de saco posterior é livre. O especular é normal.
Foram cerca de noventa segundos de exame, e neles apareceram três fontes de dor que seis anos de pasta não contêm: uma parede abdominal com ponto-gatilho sobre cicatriz, um assoalho pélvico hipertônico à esquerda, e uma bexiga que dói ao encher. Nenhuma das três é do útero, nenhuma das três aparece em ultrassom, e nenhuma das três teria sido encontrada na laparoscopia — que olhou a superfície do peritônio e encontrou, com honestidade, nada.
O que aconteceu com Adriana não foi negligência de ninguém em particular. Cada médico investigou o órgão que sabia investigar, e o órgão estava normal. O erro é de desenho: a pelve foi tratada como território de uma especialidade, e a dor que sobrou foi devolvida à paciente com um adjetivo. Este capítulo é sobre o desenho — sobre perguntar por sistema, examinar por camada, entender por que a dor persiste quando a lesão não está mais lá, e sobre o que se faz por ela enquanto o nome não vem.
Quem adoece disso
O primeiro número deste capítulo é o que faz dele um capítulo de atenção primária, e não de ambulatório especializado. A prevalência de dor pélvica crônica varia de 2% a 27% no mundo conforme a definição e o desenho, fica perto de 4% nos países de renda alta, e no Brasil os dois inquéritos de base populacional que a régua de sociedade cita encontraram 11,5% em Ribeirão Preto e 19% em São Luís, entre mulheres com mais de 14 anos. Numa agenda de vinte mulheres, entre duas e quatro têm a queixa — a maioria delas sem tê-la contado, porque a pergunta não foi feita.
O segundo número descreve o que acontece com elas. A revisão brasileira que serviu de base ao protocolo nacional de atenção básica registra que cerca de 60% das mulheres com a condição nunca receberam um diagnóstico específico, e 20% nunca fizeram investigação nenhuma. Nas unidades de atenção primária, 39% das mulheres se queixam de dor pélvica quando perguntadas. A queixa responde por 10% a 20% das consultas ginecológicas, por 40% das laparoscopias ginecológicas e por uma fração das histerectomias que os documentos brasileiros escrevem de dois jeitos — 12% na revisão de 2006 e 20% no protocolo de sociedade de 2020. Qualquer dos dois valores diz o mesmo: uma parcela relevante das cirurgias que retiram o útero é feita por uma dor que, na maioria das vezes, não vem dele.
O terceiro número é o que organiza o diagnóstico diferencial, e ele é contraintuitivo para quem aprendeu dor pélvica dentro da ginecologia. A fração de causas não ginecológicas entre as mulheres com dor pélvica crônica é estimada entre 20% e 60%. O estudo britânico de atenção primária que os autores brasileiros citam como referência atribuiu a causa ao sistema gastrintestinal em 37%, ao urinário em 31%, ao genital em 20% e ao miofascial em 12% — o intestino e a bexiga, somados, respondem por mais que o triplo do que o útero e os anexos. O que essa partição esconde está conferido no bloco de critério: ela soma exatamente 100%, o que só é possível se cada mulher tiver recebido uma causa única, e a mesma literatura diz que causas ginecológicas e não ginecológicas coexistem em até 60% das pacientes.
O quarto número é brasileiro e é o que dá tamanho à causa intestinal. No inquérito domiciliar de São Luís, com 1.470 mulheres entrevistadas, 19,5% das que tinham dor pélvica crônica preenchiam os critérios de Roma III para síndrome do intestino irritável — uma em cada cinco —, e sintomas sugestivos da síndrome estão presentes em 35% das mulheres com a queixa. As associações encontradas no mesmo inquérito desenham a paciente da cena: maior tempo de dor, dor lombar e história de abuso físico ou sexual foram mais frequentes no grupo com as duas condições. A síndrome do intestino irritável não é o diferencial exótico deste capítulo; é o mais frequente, e não tem capítulo próprio neste nível.
O quinto número é o da bexiga, e ele é subestimado por definição. A síndrome dolorosa vesical tem prevalência de 2,7% a 6,5% em inquérito comunitário norte-americano, e a régua brasileira diz com todas as letras que o número real é maior do que o registrado, porque a condição é diagnosticada tarde e pouco. Entre as mulheres com dor pélvica crônica a fração é maior: é a segunda causa por sistema na partição britânica, e no exame físico dessas pacientes a sensibilidade da base da bexiga e da uretra é quase universal.
O sexto número é o mais importante para o desfecho, e é o que este capítulo tenta mudar: em até um terço das mulheres investigadas, nenhuma causa é identificada; a laparoscopia detecta alguma anormalidade em 30% a 80% delas, mas a associação causal entre o achado e a dor nem sempre é evidente; e depois de diagnóstico e tratamento corretos a recorrência dos sintomas ultrapassa um terço. Lidos juntos, esses três números dizem que a pelve normal na cirurgia é um desfecho frequente e previsível, e não um fracasso da paciente — e que a dor que continua depois da lesão tratada é a regra numa fração grande, o que exige que o mecanismo dela seja ensinado, e não apenas lamentado.
O último número é o que dá contexto à parte do sistema nervoso central. Até 47% das mulheres com dor pélvica crônica referem história de abuso físico ou sexual, na cifra que o protocolo de sociedade reproduz; pacientes tratadas com opioide para dor crônica têm risco de 3% a 7% de transtorno por uso; e depressão, insônia e lombalgia são companheiras habituais. Nenhum desses dados autoriza dizer a uma mulher que a dor é psicológica. Todos eles obrigam a perguntar — do jeito descrito na conversa deste capítulo, e não com a pergunta seca.
Por que acontece o que acontece
A pelve tem uma característica anatômica que explica o capítulo inteiro: os órgãos que ela contém compartilham a inervação. A bexiga, o reto, o útero, o colo, a vagina e a musculatura do assoalho recebem fibras aferentes que entram na medula pelos mesmos segmentos — toracolombar pelos plexos hipogástricos, sacral pelos nervos esplâncnicos pélvicos e pelo pudendo. As fibras viscerais são predominantemente do tipo C, lentas e amielínicas, e convergem no corno posterior sobre os mesmos neurônios de segunda ordem que recebem a pele e o músculo do dermátomo. É por isso que a dor de víscera é imprecisa, mal localizada, referida ao baixo-ventre e à região lombossacra, e frequentemente acompanhada de resposta autonômica — náusea, sudorese, mal-estar. E é por isso que, do ponto de vista do neurônio que a recebe, a dor de bexiga, de intestino e de útero é quase a mesma dor.
Essa convergência tem uma consequência que a clínica vê todos os dias e raramente nomeia: um órgão inflamado sensibiliza o neurônio que ele compartilha com o vizinho. Uma bexiga que dói aumenta a resposta do reto ao enchimento; um intestino irritável aumenta a dor da menstruação; uma endometriose tratada deixa um assoalho pélvico que aprendeu a contrair. Os documentos brasileiros de sociedade descrevem isso ao dizer que a síndrome do intestino irritável e a síndrome dolorosa vesical podem ser expressões clínicas de um mesmo evento, e ao lembrar que a coexistência de causas ginecológicas e não ginecológicas chega a 60%. Não é coincidência estatística: é fiação.
A segunda camada é somática, e é a que quase ninguém examina. O reflexo víscero-somático faz o músculo que divide o segmento com a víscera dolorida contrair de forma sustentada — a parede abdominal baixa, o levantador do ânus, o obturador interno, o piriforme. Com o tempo a contração vira banda tensa e ponto-gatilho, e o músculo passa a doer por conta própria, com uma característica que o distingue da víscera: a dor é precisa, reprodutível pela palpação de uma área de dois a três centímetros, e não vem acompanhada de resposta autonômica. O protocolo de sociedade de 2020 descreve o mecanismo de perpetuação: a mulher adota postura antálgica, a postura altera a coluna lombossacra e o assoalho, e a alteração persiste mesmo depois de a doença de base ser tratada. É uma das razões de a dor continuar depois de a lesão sumir — e a mais tratável delas.
A terceira camada é o nervo em si. Os nervos ílio-hipogástrico, ilioinguinal e genitofemoral atravessam a parede abdominal baixa exatamente onde se fazem as incisões transversas — cesariana, cirurgias ginecológicas por via aberta, portais de laparoscopia —, e o pudendo atravessa o canal de Alcock entre o ligamento sacroespinhal e o sacrotuberal, onde pode ser comprimido por parto, por postura sentada prolongada e por hipertonia do assoalho. A dor neuropática tem assinatura própria: queimação, choque, formigamento, alodinia ao toque leve, e uma alteração de sensibilidade no dermátomo — hipoestesia, hiperestesia ou disestesia — que o exame com um cotonete encontra em um minuto. Anti-inflamatório não trata isso, e o protocolo de sociedade de 2021 é explícito ao dizê-lo.
A quarta camada é a que muda o nome da doença. Sob estímulo doloroso contínuo, o sistema nervoso central se reorganiza: a eficiência sináptica no corno posterior aumenta, o limiar dos neurônios de segunda ordem cai, os mecanismos descendentes de inibição enfraquecem, e o resultado é hiperalgesia — a dor é maior que o estímulo — e alodinia — o que não deveria doer dói. O protocolo de sociedade de 2020 descreve a sequência com precisão: hiperalgesia primária no local, hiperalgesia secundária que expande a zona dolorosa, e uma queixa que parece desproporcional aos achados de exame e de imagem. Parece desproporcional porque a lesão que se procura não está mais no órgão: está no processamento.
Essa dor tem nome oficial no Brasil desde 2024, e o nome importa porque dá a ela um lugar no protocolo nacional. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dor Crônica adota a divisão da Associação Internacional para o Estudo da Dor em três mecanismos — nociceptivo, neuropático e nociplástico —, e trata o terceiro como a dor que surge de nocicepção alterada sem evidência de lesão tecidual ativa nem de lesão do sistema somatossensitivo. A dor pélvica que persiste depois de a endometriose ser suprimida, depois de a laparoscopia voltar normal, depois de a cultura de urina ser negativa pela terceira vez, é a paciente típica desse mecanismo. O protocolo nacional, porém, nunca a nomeia: a paciente existe na fisiopatologia dele, mas não na lista de condições.
É aqui que entra a palavra que Adriana ouviu, e é aqui que ela precisa ser desmontada com mecanismo, e não com boa vontade. Depressão, ansiedade, insônia e trauma prévio modulam o processamento da dor — reduzem a inibição descendente, aumentam a atenção ao estímulo, mudam a resposta do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal — e são também consequência dela. Isso torna a saúde mental parte obrigatória da avaliação. Não torna a dor imaginária: a sensibilização central é fenômeno neurofisiológico mensurável, e o protocolo de sociedade de 2021 registra que dizer à paciente que o exame é normal e a doença é provavelmente psicológica tem efeito nocebo, é danoso a ela e ao profissional, e leva à desesperança. A frase certa está na conversa deste capítulo.
O que essas quatro camadas exigem do exame é o método do capítulo. A víscera se investiga com cinco perguntas — a relação da dor com o ciclo, com a micção, com a evacuação, com o esforço e com a relação sexual — porque cada uma delas aponta para um sistema. O músculo e o nervo se investigam com as mãos: a parede abdominal com o teste de Carnett, o assoalho pélvico com o toque unidigital, o dermátomo com o cotonete. A sensibilização central se reconhece pelos sinais que a acompanham — dor em mais de um sistema, alodinia, sono ruim, fadiga, outras dores difusas — e não por exame nenhum. Uma paciente pode ter as quatro camadas ao mesmo tempo, e quase sempre tem mais de uma. Investigar uma só e declarar a pelve normal é o erro que este capítulo existe para impedir.
Como se apresenta de verdade
Na dor pélvica crônica, o objetivo é construir uma explicação que conecte órgãos, musculatura e processamento da dor. Você deve identificar componentes tratáveis e metas de função, sem invalidar a queixa quando um exame é normal. Uma doença conhecida pode coexistir com outras fontes de dor.
As seis apresentações abaixo não são seis doenças que se excluem: são seis endereços que costumam coexistir na mesma paciente, e a habilidade deste bloco é reconhecer mais de um na mesma história. Antes de qualquer endereço, porém, as bandeiras vermelhas de neoplasia, que o protocolo de sociedade de 2021 lista e que mudam a investigação inteira: sintomas de surgimento e progressão rápida, em torno de seis meses; início depois dos 50 anos, principalmente em tabagista; perda de peso em torno de 10% do peso corporal sem explicação; massa abdominal ou pélvica; hematoquezia; hematúria; história familiar significativa de câncer ou de doença inflamatória intestinal; exposição prévia a quimioterapia ou radioterapia; e ideação suicida. Qualquer uma delas tira a paciente deste capítulo e a leva ao capítulo da massa anexial, ao de câncer colorretal ou à avaliação de urgência — e a última leva ao capítulo de risco de suicídio antes de qualquer outra coisa.
Percurso clínico: Construir um plano longitudinal de dor
Na primeira consulta, identifique alarmes, padrão e impacto funcional e examine componentes viscerais e musculares com consentimento. Organize hipóteses e intervenções graduais com metas concretas, sem reduzir dor a lesão única ou explicação psicológica. Aprofundamento técnico vem depois de um plano de cuidado compreensível.
As cinco perguntas, e para onde cada resposta aponta
Cinco perguntas separam mais que qualquer exame, porque cada uma delas interroga um sistema pela fisiologia dele. A primeira é a relação com o ciclo: dor que piora nos dias perimenstruais e melhora no resto do mês aponta doença hormônio-responsiva — endometriose e adenomiose, que são do capítulo de Endometriose e para lá vão. Dor que não conhece calendário aponta para os outros quatro sistemas, e a paciente que diz que a menstruação piora tudo um pouco mas a dor nunca some está descrevendo uma dor que não é cíclica e que tem um componente cíclico somado — o que é diferente, e muda o que se trata primeiro.
A segunda é a relação com a micção. Dor suprapúbica que cresce com o enchimento da bexiga e alivia ao esvaziar, com aumento da frequência diurna e noturna e culturas negativas, aponta síndrome dolorosa vesical. Disúria com cultura positiva aponta infecção, que é outro capítulo. A pergunta que a régua de sociedade ensina a fazer é simples e separa da bexiga hiperativa em uma frase: a senhora urina para não perder urina ou urina para aliviar a dor?
A terceira é a relação com a evacuação. Dor que alivia depois de evacuar, que vem junto com mudança na frequência ou na forma das fezes, e que oscila entre constipação e diarreia aponta síndrome do intestino irritável. Constipação isolada, com esforço e sensação de evacuação incompleta, pode ser intestinal ou pode ser de assoalho pélvico que não relaxa — e as duas coexistem. Dor ao evacuar que é cíclica é do capítulo de Endometriose.
A quarta é a relação com o esforço, a postura e o movimento. Dor que piora sentada, ao levantar peso, ao caminhar muito, ao subir escada, e que melhora deitada, aponta músculo e articulação — parede abdominal, assoalho pélvico, sacroilíaca, piriforme. Dor que piora sentada e alivia em pé ou sentada no vaso sanitário aponta o nervo pudendo. Dor que piora com a bexiga cheia é outra pergunta, a segunda, e a paciente às vezes responde a uma com a outra. E sensação de peso ou de bola na vagina, pior de pé e ao fim do dia, não é dor: é prolapso, que fica fora deste capítulo.
A quinta é a relação com a relação sexual, perguntada com naturalidade e com uma distinção que decide o exame: dói na entrada ou dói no fundo? Dor de entrada aponta vestíbulo, hipertonia do assoalho e atrofia; dor profunda aponta fundo de saco, ligamentos uterossacros, sequela de doença inflamatória pélvica e assoalho posterior. A resposta de Adriana — na entrada e no fundo — aponta dois endereços, e o exame precisa procurar os dois.
A dor que vem da bexiga
A síndrome dolorosa vesical é definida pela régua brasileira de 2025 como uma sensação desagradável — dor, pressão ou desconforto — que a mulher percebe na bexiga, acompanhada de sintomas urinários (frequência aumentada, urgência, noctúria), presente há mais de seis semanas, sem infecção nem outra causa que a explique. Repare no corte: seis semanas, e não seis meses nem três — é a terceira duração diferente que uma mulher com a mesma dor encontra em documentos brasileiros vigentes, e a conta está no bloco de critério.
A apresentação típica é a mulher na terceira ou quarta década que urina dez, quinze, vinte vezes por dia, levanta duas ou três vezes à noite, já tratou cinco infecções urinárias com cultura negativa ou nunca colhida, e descreve a dor como pressão que cresce à medida que a bexiga enche. Ela evita café, cítricos, pimenta, refrigerante e álcool sem que ninguém tenha mandado, porque descobriu sozinha que pioram. Dispareunia está presente em até 60%. A régua descreve dois fenótipos: o com lesão de Hunner, inflamatório, com sintomas mais intensos e tratamento próprio por cistoscopia; e o sem lesão, mais frequente, não inflamatório, com sintomas além da bexiga e associação com síndrome do intestino irritável, fadiga crônica e fibromialgia — o fenótipo que este capítulo descreve como sensibilização central.
O que o interno precisa saber para não errar o primeiro passo: urina tipo I e urocultura são sempre indicados, porque a infecção precisa ser excluída antes do rótulo; piúria com cultura negativa pede pesquisa de clamídia, ureaplasma e tuberculose urinária; hematúria persistente pede investigação do trato urinário; e a cistoscopia não é necessária para o diagnóstico. A fronteira com o capítulo de Incontinência urinária é a queixa que ele trata — a perda de urina — e a bexiga hiperativa que ele diferencia; a bexiga que dói é deste capítulo, e a distinção entre as duas é a pergunta da seção anterior.
A dor que vem do intestino
A síndrome do intestino irritável é o diferencial mais frequente da dor pélvica crônica, e o diagnóstico e o tratamento dela são do capítulo Síndrome do intestino irritável e diarreia crônica, na apostila de Gastroenterologia, que adota os critérios de Roma V, de 2026; este capítulo fica com o reconhecimento de que a dor pélvica é do intestino. O critério internacional em uso de 2016 a 2026 foi o de Roma IV: dor abdominal recorrente, presente em média ao menos um dia por semana ao longo dos últimos três meses, associada a dois ou mais de três aspectos — relação com a evacuação, associação com mudança na frequência das fezes, associação com mudança na forma das fezes —, com início dos sintomas há pelo menos seis meses. Os dois documentos brasileiros que reproduzem um critério para a síndrome reproduzem gerações anteriores dele, e a comparação está no bloco de critério.
Na prática do ambulatório, a paciente com intestino irritável e dor pélvica conta que a dor melhora depois de evacuar, que as fezes mudam de consistência ao longo da semana, que tem distensão que piora ao longo do dia, e que o quadro piora em períodos de estresse e com determinados alimentos. A sobreposição com a endometriose intestinal é grande e o que separa é o calendário: o intestino irritável não conhece o ciclo menstrual. A sobreposição com a síndrome dolorosa vesical e com a fibromialgia é a assinatura da sensibilização central, e encontrar uma delas obriga a procurar as outras.
O que tira a paciente deste capítulo são os sinais de alarme intestinais: sangue nas fezes, perda de peso, anemia, início depois dos 50 anos, história familiar de câncer colorretal ou de doença inflamatória intestinal, sintomas noturnos que acordam a paciente, e massa palpável. Qualquer um deles pede colonoscopia, e o capítulo de Câncer colorretal é o dono do que vem depois. Sem alarme, o diagnóstico é clínico e positivo, e a colonoscopia pendente há um ano na pasta de Adriana responde a uma pergunta que ninguém fez.
A dor que vem do músculo e da parede
A dor miofascial é a causa que mais se encontra quando se procura e a que menos se procura, e ela tem dois endereços. O primeiro é a parede abdominal baixa, e a assinatura dele é uma área de dor de dois a três centímetros, muito bem delimitada, que a paciente aponta com um dedo, que reproduz a dor habitual à palpação e que piora, em vez de melhorar, quando o músculo é contraído — o teste de Carnett, que o protocolo de sociedade de 2021 chama de o achado mais preciso, mais frequente e de maior impacto na decisão de tratamento precoce. A dor visceral faz o oposto: a contração da parede a protege da palpação. Cicatriz prévia — cesariana, laparotomia transversa, portal de laparoscopia, episiotomia — está na história na maior parte das vezes.
O segundo endereço é o assoalho pélvico, e a apresentação é a que a maioria dos exames não alcança: dor que piora sentada e ao fim do dia, dispareunia de entrada, sensação de evacuação incompleta com esforço, urgência miccional sem infecção, dor lombossacra e às vezes dor no cóccix. A mulher costuma ter história de parto, de cirurgia pélvica, de dor visceral prévia que ensinou o músculo a contrair, ou de nada disso — o assoalho pélvico contrai também por postura, por ansiedade e por hábito. A régua de 2020 descreve o levantador do ânus sujeito a hipertonia, mialgia e fadiga, e a régua de 2025 da síndrome dolorosa vesical registra que a sensibilidade e a rigidez do assoalho são achados quase universais nessa condição.
As articulações completam o endereço: a sacroilíaca, a sínfise púbica e o piriforme produzem dor que piora ao caminhar, ao subir escada e ao ficar em pé sobre uma perna, e o teste de Patrick — flexão, abdução e rotação externa do quadril — classificou corretamente 85% das pacientes com dor de origem neuromuscular na série que o protocolo de sociedade cita. A lombalgia crônica é fronteira com o capítulo de Lombalgia e hérnia de disco, que é o dono dela; o que este capítulo assume é o músculo pélvico que a lombalgia não explica.
A dor que vem do nervo
A dor neuropática pélvica tem assinatura própria e um erro típico: ser tratada com anti-inflamatório, que não a alcança. A assinatura é queimação, choque, formigamento, alodinia — o roçar da roupa dói —, e uma alteração de sensibilidade no território do nervo que o exame encontra com um cotonete: hipoestesia, hiperestesia ou disestesia num dermátomo, e não numa víscera. O questionário de dor neuropática em quatro perguntas, traduzido e validado para o português, é o rastreio que o protocolo de sociedade de 2021 recomenda, e o protocolo nacional de dor crônica lembra que ele suspeita, não diagnostica.
Os três nervos que mais aparecem têm geografia. O ílio-hipogástrico e o ilioinguinal atravessam a parede abdominal baixa onde a incisão transversa é feita, e a neuralgia deles produz dor em queimação na região inguinal, no púbis e nos grandes lábios, com um ponto de máxima dor medial e inferior à espinha ilíaca ântero-superior, meses ou anos depois de uma cesariana ou de uma cirurgia ginecológica. O pudendo produz dor perineal — vulva, períneo, ânus — que piora sentada, alivia em pé ou sentada no vaso sanitário, e não acorda a paciente à noite; ele é comprimido no canal entre os ligamentos sacroespinhal e sacrotuberal por parto, por ciclismo, por postura sentada prolongada e por hipertonia do próprio assoalho, o que faz das duas condições, muitas vezes, uma só.
A confirmação, quando há dúvida, é o bloqueio anestésico: dois a três mililitros de anestésico local sem vasoconstritor no ponto de dor, com alívio imediato. O protocolo de sociedade registra que o bloqueio confirma a suspeita, e este capítulo o retoma na conduta, porque ele é diagnóstico e tratamento ao mesmo tempo.
A dor que mudou de andar: as pacientes que a sensibilização central desenha
Três pacientes chegam com a mesma história de fundo e três pastas diferentes. A primeira tem endometriose diagnosticada e tratada — supressão hormonal correta, adesão conferida, imagem sem doença profunda — e continua com dor. Ela é fronteira declarada dos dois lados: o capítulo de Endometriose registra que a dor que não responde exige reavaliar outras causas em vez de escalonar hormônio por reflexo, e este capítulo recebe a paciente exatamente nesse ponto, porque o que resta nela costuma ser assoalho pélvico, intestino, bexiga ou processamento central — e não mais a lesão.
A segunda teve uma laparoscopia normal, ou uma com aderências finas e lise, e a dor voltou. A terceira fez histerectomia, com ou sem anexectomia, por dor, e a dor continua — e o protocolo de sociedade registra que cerca de 40% das mulheres operadas por dor associada a mioma ou adenomiose se mantêm insatisfeitas, com piora três a cinco vezes maior quando há depressão associada. As três têm em comum o que a régua de 2021 descreve como evento comum à maioria: a sensibilização central, com limiar de dor rebaixado e percepção aumentada. E as três receberam, em algum momento, o adjetivo.
O que as identifica não é um exame, porque não há instrumento objetivo — é o conjunto de sinais que a régua reproduz de um consenso de especialistas: dor associada à micção, à defecação e à relação sexual ao mesmo tempo; outras dores difusas — fibromialgia, cefaleia crônica, lombalgia; alodinia ao exame; sono ruim, fadiga, sintomas cognitivos; e uma curva de dor que se expandiu no espaço e no tempo enquanto os exames ficavam normais. Reconhecer isso não encerra a investigação por sistema — a paciente sensibilizada também tem assoalho, bexiga e intestino, e quase sempre tem mais de um deles ativo. Reconhecer isso muda a explicação que ela vai ouvir e o tratamento que vai receber, e é por isso que essa apresentação tem seção própria.
Como fechar o diagnóstico
A investigação deste capítulo tem uma régua invertida em relação à maior parte da medicina: o exame que mais responde é o físico, feito por camadas, e o exame que mais custa — a laparoscopia — é o que menos responde. O protocolo de sociedade de 2021 diz com todas as letras que exames laboratoriais e de imagem pouco auxiliam na confirmação da causa, que servem para excluir doença associada e programar tratamento, e que a solicitação indiscriminada prolonga a investigação, desvia o foco e atrasa o tratamento. A ordem abaixo é a ordem em que as respostas chegam.
Antes de qualquer pedido, a régua a fixar: nesta condição, um exame explica a dor quando o padrão da dor corresponde à fisiologia do órgão que o exame mostra — e não quando o exame mostra alguma coisa. Um cisto simples não explica dor que piora ao sentar; uma aderência não explica dor que alivia ao urinar; um útero em retroversão não explica nada. Cada achado incidental que vira causa presumida é uma cirurgia sem benefício a caminho, e a seção da imagem existe para desarmar isso.
Antes de qualquer exame: o calendário, a escala e o rastreio
O primeiro instrumento é um calendário. A paciente marca, por dois ciclos, os dias em que doeu e a intensidade de zero a dez, e anota ao lado se doeu ao urinar, ao evacuar, na relação, sentada. Esse papel responde à primeira pergunta — cíclica ou não — com mais precisão que a memória, e é a linha de base contra a qual todo tratamento será medido. A régua de sociedade insiste no ponto: a mesma escala, sempre a mesma, em todas as consultas, porque o que importa é a curva, e não o número isolado.
O segundo instrumento é a quantificação da incapacidade, que é o diagnóstico funcional: dias de falta ao trabalho nos últimos três meses, atividades abandonadas, relação sexual interrompida, noites mal dormidas por semana. Quem chega com seis anos de dor sem esse número nunca teve o tratamento avaliado.
O terceiro é o rastreio de dois componentes que mudam a conduta. Para o humor, o questionário de saúde do paciente em duas ou nove perguntas, validado em mulheres brasileiras na atenção primária, que o protocolo de sociedade recomenda por ser curto e ter boas propriedades — e que serve para indicar avaliação, não para rotular. Para o componente neuropático, o questionário de quatro perguntas da seção anterior. Nenhum dos dois substitui a conversa; os dois evitam que a conversa esqueça.
O quarto é a história que ninguém pergunta e que muda o exame: cirurgias abdominais e pélvicas com a via de cada uma — cesariana e histerectomia por incisão transversa são as que mais deixam neuralgia —, partos e episiotomias, infecções pélvicas prévias, tratamentos já tentados com dose e tempo, e a história de violência, perguntada do modo descrito na conversa deste capítulo. O capítulo de violência sexual, Quatro relógios, e nenhum marca a mesma hora, é o dono do que se faz quando a resposta é sim, e este capítulo a ele remete sem desenvolver.
O exame físico por camadas, em cinco minutos
O exame começa de pé e de costas: postura, curvatura lombar, assimetria de cintura pélvica, e a palpação da região lombar baixa, das articulações sacroilíacas e da sínfise púbica, que o protocolo de sociedade de 2021 lista entre as observações que o exame ginecológico habitual não inclui. Depois, deitada: a parede abdominal baixa palpada em busca de área de dor bem delimitada, e, sobre cada uma, o teste de Carnett — a paciente eleva a cabeça e os ombros sem apoio das mãos enquanto a pressão se mantém; dor que persiste ou piora é parede, dor que some é víscera. Cicatrizes são examinadas uma a uma, com atenção a ponto doloroso e a alteração de sensibilidade ao redor.
A camada seguinte é a sensibilidade, com um cotonete: percorre-se a pele da região inguinal, do púbis, dos grandes lábios e do períneo, comparando os lados, procurando área de hipoestesia, hiperestesia ou alodinia que desenhe um território de nervo. No vestíbulo, o cotonete toca com suavidade os pontos ao redor do introito, procurando dor localizada que explique a dispareunia de entrada.

A camada central do capítulo é o toque unidigital do assoalho pélvico, feito antes do espéculo e antes do toque bimanual, porque os dois provocam dor que confunde a leitura. Com um dedo só, lubrificado, a pressão suave percorre o levantador do ânus de cada lado — puborretal e pubococcígeo, palpáveis pela parede lateral da vagina a poucos centímetros do introito —, o obturador interno mais lateral e mais profundo, e o corpo perineal. Registram-se três coisas: o tônus basal, a presença de banda tensa ou de ponto-gatilho, e a frase da paciente — o achado que vale é o que reproduz a dor dela, e ela dirá. Na mesma passagem, a base da bexiga e a uretra são palpadas pela parede anterior, e a sensibilidade ali é quase universal na síndrome dolorosa vesical. A régua de 2025 da bexiga dolorosa e a de 2021 da dor pélvica descrevem esse exame como obrigatório; a pasta de Adriana não tem um registro dele em seis anos.
Só então o espéculo, descrito com detalhe, e o toque bimanual, descrito com a rigidez que o protocolo de sociedade exige: dor à palpação das paredes vaginais com a estrutura de projeção nomeada — bexiga, reto, assoalho, recesso retouterino —, nodulação ou espessamento no septo retovaginal, nos ligamentos uterossacros e na região retrocervical, limitação ou dor à mobilização do útero e dos anexos, massa palpável com tamanho e consistência. O que se encontra aqui é fronteira: nódulo e útero fixo vão ao capítulo de Endometriose, massa vai ao da massa anexial, dor à mobilização do colo com corrimento vai ao de Doença inflamatória pélvica. Por fim, o teste de Patrick em cada quadril, para as articulações. Cinco minutos, cinco camadas, e a maior parte do diagnóstico diferencial já está feita.
Os exames que respondem a uma pergunta, e a pergunta de cada um
Teste de gravidez, para qualquer mulher em idade reprodutiva que chegue com dor pélvica, antes de qualquer outro pedido — regra que o capítulo de Dor abdominal no pronto-socorro fixa sem exceção e que vale igualmente para a dor crônica que hoje está diferente.
Urina tipo I e urocultura: sempre que há sintoma urinário — disúria, polaciúria, dor ao encher ou ao urinar. Respondem se há infecção; não respondem à síndrome dolorosa vesical, que é diagnóstico de exclusão. Piúria com cultura negativa abre a pesquisa de clamídia, ureaplasma e tuberculose urinária; hematúria persistente pede ultrassonografia de vias urinárias e, conforme a idade e o tabagismo, citologia urinária e cistoscopia.
Ultrassonografia transvaginal: o protocolo de sociedade de 2021 a recomenda para todos os casos, com o argumento de que a dor limita o exame físico da pelve. O que ela responde: massa anexial, mioma, endometrioma, hidrossalpinge, útero aumentado. O que ela não responde: nenhuma das causas não ginecológicas, nenhuma das causas miofasciais, nenhuma das neuropáticas, e a sensibilização central. Pedida com essa consciência, ela exclui; pedida como se fosse decidir, ela produz o achado incidental da seção seguinte.
Ultrassonografia de parede abdominal: quando há suspeita de massa de parede — endometrioma de cicatriz, hérnia — e quando a dor de parede não melhora com o tratamento inicial de neuropatia ou de síndrome miofascial. Sangue oculto nas fezes e colonoscopia: sinal de alarme intestinal, mais de 50 anos com queixa intestinal, história familiar, e ausência de melhora com a primeira linha — nunca como exame de rotina para dor pélvica. Cistoscopia: síndrome dolorosa vesical que não respondeu à primeira linha, hematúria, suspeita de neoplasia, ou busca da lesão de Hunner, que tem tratamento próprio; não é necessária para o diagnóstico. Urodinâmica: não é rotina, pode desencadear ou piorar os sintomas, e se reserva à dúvida com incontinência mista ou disfunção miccional. Ressonância da pelve: não acrescenta à ultrassonografia na maioria das vezes, e se prioriza para o mapeamento pré-operatório de endometriose profunda — que é do capítulo vizinho.
O que não pedir: exames em bateria sem pergunta — tomografia de abdome, marcadores tumorais sem massa, sorologias de rotina, laparoscopia para ver o que o ultrassom não viu. O protocolo de sociedade de 2020 é direto ao chamar de erro grosseiro a definição diagnóstica sem a avaliação completa, e ao dizer que a investigação sem pergunta produz falso-negativo, prolonga a jornada e desvia o foco.
Quando a imagem ajuda e quando ela atrapalha
A imagem atrapalha quando o achado dela vira o nome da doença sem que a fisiologia do achado corresponda ao padrão da dor. Quatro achados fazem isso com frequência. O cisto ovariano simples, funcional, que o protocolo nacional de atenção básica manda tranquilizar e não medicar, e que some em até doze semanas: ele não produz dor diária que piora sentada. As aderências, cuja presença e cujas características os sintomas não predizem, segundo a régua de 2021 — e cuja lise, segundo a régua nacional de 2016, não modifica o prognóstico da dor. As varizes pélvicas, encontradas também em mulheres assintomáticas, sobre as quais a metanálise que a régua de 2020 cita concluiu que os dados são insuficientes para afirmar causa; a régua de 2021 vai além e diz que a congestão pélvica não tem evidência suficiente de relação causal. E o mioma pequeno, intramural, que explica sangramento e não explica dor que alivia ao urinar.
A imagem ajuda quando responde a uma pergunta que a história fez: o nódulo retrocervical que o toque encontrou, a massa que a palpação sugeriu, a hidrossalpinge na mulher com doença inflamatória prévia, a hérnia na cicatriz dolorosa, a hematúria que precisa de vias urinárias. Nesses casos ela decide — e o que ela decide costuma ser de outro capítulo: a massa é do capítulo da massa anexial, que registra que quem faz a primeira cirurgia decide o resto; a endometriose profunda é do capítulo dela.
A regra prática para o interno cabe numa frase, e ela será cobrada na reavaliação: um achado de imagem explica a dor quando tratá-lo faz a dor sumir, e quando o padrão da dor era o padrão daquele órgão. Se nenhuma das duas condições vale, o achado é incidental, e a paciente continua com a mesma dor e uma cirurgia a menos — ou a mais.
A laparoscopia: o que ela vê, o que não vê, e a conta dos terços
A laparoscopia vê a superfície do peritônio. Não vê o interior do músculo, o interior do nervo, a parede da bexiga por dentro, a motilidade do intestino, nem o corno posterior da medula. É por isso que o protocolo de sociedade de 2021 registra que ela foi reconhecida no passado como padrão-ouro, que hoje tem papel limitado, e que é realizada em apenas 10% a 50% das mulheres com a queixa, conforme o serviço; a de 2020 a coloca em papel secundário, restrita a situações em que os outros métodos deixam controvérsia; e a régua da adolescência a chama de último recurso, depois de esgotadas as opções de tratamento.
O que ela encontra está escrito de três jeitos nos documentos brasileiros, e os três estão conferidos no bloco de critério. A régua nacional de atenção básica reproduz uma casuística em que um terço das laparoscopias por dor pélvica crônica mostra pelve normal, um terço endometriose e um terço aderências. A régua de sociedade diz que a laparoscopia detecta alguma anormalidade em 30% a 80% das pacientes, mas que a associação causal nem sempre é evidente. E a de 2020 diz que um terço das operadas tem endometriose, chegando a 70% em centro especializado. O que os três dizem juntos: a pelve normal na cirurgia não é exceção, e o achado anormal não é, por si, a causa.
As indicações que sobram são objetivas: diagnóstico diferencial com massa anexial que a imagem não resolveu, suspeita de endometriose com indicação cirúrgica — que é decisão do capítulo de Endometriose e não deste —, e dor presumidamente visceral que não melhorou com tratamento clínico completo, o que pressupõe que o tratamento clínico das outras camadas foi feito. A mulher que vai à laparoscopia sem que ninguém tenha examinado o assoalho pélvico dela não está indo confirmar um diagnóstico: está indo produzir a segunda paciente da seção anterior.
O que existe na rede, e o que se manda junto no encaminhamento
A rede que trata esta condição não é uma especialidade, e o encaminhamento certo depende da camada. Fisioterapia do assoalho pélvico, para banda tensa e hipertonia, é a intervenção com maior rendimento e a que menos se pede — onde há núcleo de apoio à atenção básica ou serviço de reabilitação, é para lá. Uroginecologia para síndrome dolorosa vesical refratária à primeira linha e para a cistoscopia com pergunta. Gastroenterologia para sinal de alarme e para intestino irritável que não respondeu. Serviço de dor para componente neuropático que precisa de bloqueio seriado e para a sensibilização central que precisa de equipe. Saúde mental para o que o rastreio indicou. Ginecologia especializada para a endometriose e a massa, que são dos capítulos vizinhos.
O que a farmácia do Sistema Único de Saúde tem, conferido na Rename 2024 por busca exata: amitriptilina e nortriptilina, fluoxetina, carbamazepina, dipirona, paracetamol e ibuprofeno no Componente Básico, sem protocolo; gabapentina, codeína e morfina no Componente Especializado, com acesso condicionado ao protocolo nacional de dor crônica. O que ela não tem: pregabalina, duloxetina, tramadol, piroxicam, nimesulida, diclofenaco, escopolamina, hidroxizina, cimetidina e fenazopiridina — metade do que os documentos brasileiros de sociedade e de atenção básica prescrevem para esta condição. A conduta deste capítulo é escrita com o que existe.
O acesso à gabapentina merece um parágrafo, porque é onde a lacuna da régua nacional vira fila. O protocolo nacional de dor crônica lista como códigos da classificação internacional apenas a dor crônica intratável e outra dor crônica, e não nomeia a dor pélvica em nenhuma de suas páginas. A paciente com componente neuropático ou nociplástico é elegível pelo critério de inclusão — dor com três ou mais meses —, mas o laudo de solicitação precisa ser escrito com o código genérico de dor crônica e com a descrição do mecanismo, porque o código ginecológico da dor pélvica não consta do protocolo. Quem escreve o laudo com o diagnóstico ginecológico e nada mais recebe a negativa.
O encaminhamento que funciona leva o que este capítulo produziu: as respostas às cinco perguntas, o exame por camadas com o achado que reproduz a dor, o calendário de dois ciclos, o número de incapacidade, o rastreio de humor e de dor neuropática, a relação do que já foi tentado, com dose e tempo de uso, e a hipótese por sistema — e não o pedido de avaliação de dor pélvica crônica, que devolve a paciente ao começo da fila com a mesma pasta.
Por sistema, não por especialidade
O fluxo deste capítulo tem doze passos e uma regra: nenhum sistema é investigado antes de os cinco terem sido perguntados, e nenhuma camada é declarada normal antes de ter sido tocada. A primeira tabela converte as cinco perguntas em sistema provável e no achado que confirma cada resposta. A segunda põe a mesma mulher diante dos cinco documentos brasileiros vigentes que fixam quantos meses fazem uma dor crônica — e mostra que ela cai numa classe diferente em cada um. A terceira diz a que pergunta cada exame responde, e a que pergunta ele não responde. A quarta é a tabela de conversão do que a farmácia do Sistema Único de Saúde entrega, recalculada contra a apresentação real. As notas do fim do bloco registram as conferências dos documentos oficiais, com a conta de cada uma — inclusive as que fecharam.
- 11. Bandeiras vermelhas antes de qualquer sistema: progressão rápida em torno de seis meses, início depois dos 50 anos, perda de cerca de 10% do peso, massa, hematoquezia, hematúria, história familiar de câncer ou de doença inflamatória intestinal, quimioterapia ou radioterapia prévias, ideação suicida. Qualquer uma tira a paciente deste capítulo: massa vai ao capítulo da massa anexial, sangue nas fezes ao de Câncer colorretal, ideação suicida ao de risco de suicídio antes de tudo.
- 22. Teste de gravidez em toda mulher em idade reprodutiva. Dor nova, súbita ou com sinal de irritação peritoneal não é deste capítulo: é do de Dor abdominal no pronto-socorro.
- 33. Duração e calendário. Três ou mais meses é o corte que dá acesso ao protocolo nacional de dor crônica; adote-o. A paciente marca por dois ciclos os dias em que doeu e a intensidade de zero a dez. Dor que respeita o ciclo é do capítulo de Endometriose; dor que não conhece calendário, ou que tem um componente cíclico somado a uma dor diária, continua aqui.
- 44. As cinco perguntas, uma de cada vez, com a resposta escrita: relação com o ciclo, com a micção, com a evacuação, com a postura e o esforço, e com a relação sexual — na entrada ou no fundo. Conte quantos sistemas responderam. Uma mulher costuma ter mais de um.
- 55. Quantifique antes de examinar: dias de incapacidade nos últimos três meses, o questionário de saúde do paciente em duas perguntas para o humor, o questionário de dor neuropática em quatro perguntas para o nervo. Registre os três números: são a linha de base.
- 66. Exame por camadas, nesta ordem e não em outra: de pé, postura e sacroilíacas; deitada, parede abdominal com o teste de Carnett sobre cada ponto e sobre cada cicatriz; cotonete na pele inguinal, no púbis, nos grandes lábios, no períneo e no vestíbulo; toque unidigital do levantador do ânus, do obturador interno e da base da bexiga, antes do espéculo; só então espéculo e toque bimanual; por fim o teste de Patrick.
- 77. O que o bimanual encontra é fronteira: nódulo retrocervical ou útero fixo vão ao capítulo de Endometriose; massa vai ao da massa anexial; dor à mobilização do colo com corrimento vai ao de Doença inflamatória pélvica; perda de urina é do capítulo de Incontinência urinária. O que sobra é deste capítulo.
- 88. Exames com pergunta, e só com pergunta: urina tipo I e urocultura se há sintoma urinário; ultrassonografia transvaginal, que a régua de sociedade de 2021 recomenda para todas, pedida sabendo que ela exclui massa e não decide causa; ultrassonografia de parede se há massa de parede ou se a parede não melhorou; colonoscopia só com sinal de alarme, queixa intestinal depois dos 50 anos, história familiar ou falha da primeira linha.
- 99. Dê nome a cada camada encontrada, uma por sistema, e escreva todas: ponto-gatilho de parede sobre cicatriz, hipertonia do assoalho pélvico, síndrome dolorosa vesical, síndrome do intestino irritável, neuralgia de um nervo nomeado. Dois ou mais sistemas com alodinia, sono ruim, fadiga e outras dores difusas recebem um nome a mais — sensibilização central, que o protocolo nacional chama de dor nociplástica —, e esse nome não dispensa nenhum dos outros.
- 1010. Comece o tratamento de cada camada no mesmo dia, pela camada que a paciente apontou: bloqueio anestésico do ponto-gatilho de parede na sala; encaminhamento à fisioterapia do assoalho pélvico; medidas vesicais e diário miccional com um tricíclico à noite; hábito intestinal e critérios de Roma para o intestino; tricíclico e, se persistir, gabapentina pelo protocolo nacional para o nervo. Anti-inflamatório só na crise; opioide, não.
- 1111. Reavalie em quatro semanas e em três meses com o mesmo calendário e o mesmo número de incapacidade. Sem melhora, reexamine por camadas antes de escalar: a camada que não melhorou costuma ser a que não foi tratada, não a que foi.
- 1212. Encaminhe por camada, com o que este capítulo produziu no papel, e não com o pedido de avaliação de dor pélvica crônica. Laparoscopia só por indicação objetiva e depois de tratadas as outras camadas; histerectomia por dor pertence aos capítulos de Miomatose e de Endometriose, e a régua de sociedade registra que cerca de 40% das operadas por dor seguem insatisfeitas.
Tabela 1 — As cinco perguntas, dois sinais, e o que confirma cada resposta
| Pergunta | Resposta que aponta | Sistema provável | O que confirma, no exame ou no papel |
|---|---|---|---|
| A dor muda com o ciclo? | Piora nos dias perimenstruais e alivia no resto do mês | Ginecológico hormônio-responsivo: endometriose, adenomiose | Calendário de dois ciclos; nódulo retrocervical ou útero fixo ao toque — capítulo de Endometriose |
| A dor muda com a micção? | Cresce ao encher a bexiga e alivia ao esvaziar; ela urina para aliviar a dor, não para evitar perda | Urinário: síndrome dolorosa vesical | Urina tipo I e urocultura negativas; base da bexiga e uretra dolorosas pela parede anterior; diário miccional com dez ou mais micções |
| A dor muda com a evacuação? | Alivia depois de evacuar; as fezes mudam de frequência e de forma ao longo da semana | Intestinal: síndrome do intestino irritável | Critérios de Roma preenchidos sem sinal de alarme; forma das fezes anotada no diário |
| A dor muda com a postura e o esforço? | Piora sentada, ao fim do dia, ao levantar peso, ao subir escada; melhora deitada | Musculoesquelético: parede abdominal, assoalho pélvico, sacroilíaca, piriforme | Teste de Carnett positivo sobre área de 2 a 3 cm; banda tensa no levantador do ânus ou no obturador interno ao toque unidigital; teste de Patrick |
| A dor muda com a relação — e dói na entrada ou no fundo? | Na entrada: vestíbulo e assoalho hipertônico. No fundo: fundo de saco, uterossacros, assoalho posterior | Assoalho pélvico, ou ginecológico profundo | Cotonete no vestíbulo reproduz a dor de entrada; toque unidigital reproduz a dor que ela reconhece; bimanual com nódulo ou dor de fundo de saco manda ao capítulo vizinho |
| Queima, dá choque, formiga, a roupa incomoda? | Dor em território de um nervo: sobre a cicatriz transversa, na virilha e nos grandes lábios; ou no períneo, pior sentada e melhor sentada no vaso | Neuropático: ilioinguinal, ílio-hipogástrico, genitofemoral, pudendo | Hipoestesia, hiperestesia ou alodinia num dermátomo ao cotonete; questionário de dor neuropática com quatro ou mais pontos; bloqueio anestésico que alivia |
| Dói em mais de um sistema, com sono ruim, fadiga e outras dores difusas? | Sim, com exames normais e uma dor que se expandiu no tempo e no espaço | Sensibilização central — a dor nociplástica do protocolo nacional | Não há exame: o conjunto de sinais fecha o nome, e o nome não dispensa procurar as outras camadas, que quase sempre estão ativas |
Tabela 2 — A mesma mulher, cinco documentos: quantos meses fazem uma dor crônica
| Documento | Corte de duração | Onde cai a mulher com quatro meses de dor | Consequência prática |
|---|---|---|---|
| Protocolo nacional de atenção básica, 2016 — Fluxograma 10 | Menos de três meses é dor aguda; mais de seis meses é dor crônica | Em nenhuma das duas caixas: entre três e seis meses o fluxograma não tem caminho | O único fluxo oficial da unidade básica não diz o que fazer com ela — nem com quem tem exatamente três ou exatamente seis meses |
| Protocolo nacional de dor crônica, 2024 | Três ou mais meses no critério de inclusão; superior a três meses na definição | É crônica, e elegível ao protocolo | Abre o acesso à gabapentina, à codeína e à morfina do Componente Especializado — desde que o laudo use o código de dor crônica, e não o ginecológico |
| Protocolos de sociedade de 2020 e 2021, com a definição norte-americana | Tipicamente maior que seis meses | Ainda não é crônica pela definição de sociedade | A régua brasileira de ginecologia é importada, e nela a paciente espera mais dois meses pelo nome |
| Protocolo nacional da endometriose, 2026 | Dispareunia ou dismenorreia progressivas por mais de seis meses, pela primeira via; dor pélvica crônica com exame compatível ou com as outras causas excluídas, pela segunda | Só entra pela segunda via — e excluir as outras causas é exatamente o trabalho deste capítulo | Quem exclui as outras causas sem examinar o assoalho pélvico entrega ao hormônio uma dor que não é dele |
| Régua de sociedade de 2025 da síndrome dolorosa vesical | Mais de seis semanas | Já é crônica há cerca de dez semanas | A bexiga é crônica antes de qualquer outro sistema; a paciente com quatro meses de dor vesical já passou do prazo em que o tratamento é dito precoce |
| Critérios de Roma IV para o intestino irritável, 2016 | Dor em média ao menos um dia por semana ao longo dos últimos três meses, começada há seis meses ou mais | Preenche o tempo de sintoma e não o de início — e nenhum documento brasileiro em uso reproduz este critério | Ver a nota sobre as três gerações do critério nos documentos brasileiros |
Tabela 3 — A pergunta que cada exame responde, e a que ele não responde
| Exame | Responde | Não responde | Quando pedir |
|---|---|---|---|
| Calendário de dor por dois ciclos, com a mesma escala | Se a dor é cíclica; a linha de base contra a qual todo tratamento será medido | A causa | Sempre, na primeira consulta, antes de qualquer pedido |
| Toque unidigital do assoalho pélvico e da base da bexiga | Banda tensa, hipertonia, ponto-gatilho, sensibilidade vesical — a camada que nenhuma imagem vê | A víscera profunda e o peritônio | Sempre, antes do espéculo e do toque bimanual, porque os dois provocam dor que confunde a leitura |
| Urina tipo I e urocultura | Infecção, hematúria, piúria com cultura negativa | A síndrome dolorosa vesical, que é diagnóstico de exclusão e não de cultura | Sempre que há disúria, polaciúria ou dor ao encher ou ao urinar; uma vez, não em série |
| Ultrassonografia transvaginal | Massa anexial, mioma, endometrioma, hidrossalpinge, útero aumentado | Nenhuma causa não ginecológica, miofascial, neuropática ou central | A régua de 2021 pede para todas; peça sabendo que ela exclui, não decide — o achado sem correspondência com o padrão da dor é incidental |
| Ultrassonografia de parede abdominal | Endometrioma de cicatriz, hérnia | O ponto-gatilho, que é diagnóstico de palpação | Suspeita de massa de parede, ou parede que não melhorou com o tratamento inicial de neuropatia ou de síndrome miofascial |
| Sangue oculto nas fezes e colonoscopia | Neoplasia e doença inflamatória intestinal | A síndrome do intestino irritável, cujo diagnóstico é clínico e positivo | Sinal de alarme, queixa intestinal depois dos 50 anos, história familiar de polipose ou de câncer, falha da primeira linha — nunca como rotina de dor pélvica |
| Cistoscopia | Lesão de Hunner, que tem tratamento próprio; neoplasia; hematúria | A síndrome dolorosa vesical, para cujo diagnóstico ela não é necessária | Refratária à primeira linha, hematúria, suspeita de neoplasia — e a régua de 2021 acrescenta a busca da lesão de Hunner |
| Ressonância de pelve e urodinâmica | Mapeamento pré-operatório de endometriose profunda; dúvida entre bexiga dolorosa e incontinência mista | Não acrescentam à ultrassonografia na maioria das vezes; a urodinâmica de rotina é controversa e pode piorar os sintomas | Pré-operatório de endometriose, que é do capítulo dela; incontinência associada, a critério do serviço de uroginecologia |
| Laparoscopia | A superfície do peritônio: endometriose, aderência, massa | Músculo, nervo, bexiga por dentro, motilidade intestinal e processamento central — quatro das cinco camadas | Massa não resolvida pela imagem; endometriose com indicação cirúrgica, decisão do capítulo de Endometriose; dor visceral que não melhorou depois do tratamento clínico completo das outras camadas |
Tabela 4 — Conversão: o que a farmácia do Sistema Único de Saúde entrega, numa mulher de 65 kg
| Droga e apresentação na Rename 2024 | Esquema das réguas brasileiras | Conta por unidade | Componente e observação |
|---|---|---|---|
| Nortriptilina, cápsulas de 10, 25 e 50 mg | 25 mg à noite, podendo chegar a 100 mg — a régua de 2021 a escreve entre parênteses, como alternativa à amitriptilina | 25 mg é uma cápsula de 25; 75 mg é uma de 50 mais uma de 25 | Componente Básico. É o tricíclico da paciente constipada — ver a conduta |
| Amitriptilina, comprimidos de 25 e 75 mg | 25 a 50 mg à noite, na atenção básica; 25 a 75 mg no jantar, na bexiga dolorosa; até 100 mg, na régua de 2021; teto de 150 mg, no protocolo de dor crônica | 25 mg é um comprimido; 75 mg são três de 25 ou um de 75 | Componente Básico. O protocolo de atenção básica manda evitar em sobrepeso e em constipação crônica relevante |
| Gabapentina, cápsulas de 300 e 400 mg | 300 mg três vezes ao dia no início, pela bula; faixa eficaz de 900 a 3.600 mg ao dia | 900 mg ao dia são três cápsulas de 300; 3.600 mg são doze | Componente Especializado, condicionado ao protocolo de dor crônica: laudo com o código de dor crônica e a descrição do mecanismo |
| Carbamazepina, comprimidos de 200 e 400 mg | 200 mg duas vezes ao dia, pela atenção básica, para dor neuropática | 400 mg ao dia são dois comprimidos de 200 ou um de 400 | Componente Básico. É a opção do protocolo nacional de atenção básica quando a gabapentina não chega |
| Lidocaína a 1% e a 2%, injetável, sem vasoconstritor | 2 a 3 mL no ponto-gatilho ou no trajeto do nervo, uma a duas vezes por semana, quatro a oito aplicações — régua de 2021 | A 1% há 10 mg em cada mL: 3 mL são 30 mg. A 2% há 20 mg por mL: 3 mL são 60 mg | Componente Básico. Diagnóstico e tratamento na mesma agulha; mais de oito aplicações pedem que se reveja o diagnóstico |
| Bupivacaína a 0,5% mais dexametasona 4 mg | Receita do protocolo de atenção básica para o ponto-gatilho: 5 mL de bupivacaína a 0,5% mais dexametasona 4 mg, completados a 10 mL com água destilada | 5 mL a 5 mg/mL são 25 mg de bupivacaína; em 10 mL, a solução final fica a 0,25%, ou 2,5 mg/mL — a mesma concentração da apresentação que a Rename já traz pronta | Componente Básico, as duas. Opção com corticoide; a régua de sociedade usa anestésico só |
| Ibuprofeno, comprimidos de 200, 300 e 600 mg | 600 mg de 8 em 8 horas por até 5 a 7 dias na crise, pela atenção básica; 200 a 600 mg três a quatro vezes ao dia, pelo protocolo de dor crônica | 1.800 mg ao dia são três comprimidos de 600; o teto do protocolo nacional, 2.400 mg, são quatro | Componente Básico. Crise, não manutenção: não alcança nervo nem víscera sensibilizada |
| Paracetamol 500 mg e dipirona 500 mg, comprimidos | 500 mg até de 6 em 6 horas, pela atenção básica, na bexiga dolorosa e na dor miofascial | 2.000 mg ao dia são quatro comprimidos; o teto de bula do paracetamol, 4.000 mg, são oito | Componente Básico. O protocolo da adolescência escreve até 1.000 mg de 4 em 4 horas — 6.000 mg ao dia, conta feita no capítulo de Endometriose |
| Codeína, comprimidos de 30 mg; morfina 10 mg | Codeína 15 a 30 mg por dose de 4 em 4 a 6 em 6 horas, em uso eventual, pela atenção básica; 30 a 60 mg três a quatro vezes ao dia, teto de 360 mg, pelo protocolo de dor crônica | 30 mg de 4 em 4 horas são 180 mg ao dia, ou seis comprimidos; o teto de 360 mg são doze | Componente Especializado. A régua de 2020 não recomenda opioide nesta condição — ver as divergências |
| Tramadol — fora da Rename | 50 mg de 4 em 4 a 6 em 6 horas, ou 100 mg de 8 em 8 a 12 em 12 horas, pela atenção básica; 50 a 500 mg ao dia, pela régua de 2021 | Teto de bula de 400 mg ao dia ou 8 mg/kg, o que for menor: em 65 kg, 8 mg/kg dariam 520 mg, e vence o 400; abaixo de 50 kg vence o peso | Não fornecido pelo Sistema Único de Saúde. O teto de 500 mg do protocolo de 2021 passa a bula em 100 mg, ou 25% |
Nota 1 — o fluxograma nacional tem um buraco de três meses. O Fluxograma 10 do protocolo de atenção básica de 2016 separa a dor pélvica em duas caixas por duração: menos de três meses, aguda; mais de seis meses, crônica. Conta: uma mulher com dor há 90 a 180 dias não entra em nenhuma das duas, e as que têm exatamente três ou exatamente seis meses tampouco — o fluxo usa os sinais de menor e de maior, sem igualdade em nenhum lado. É a única régua do Ministério da Saúde com capítulo dedicado ao tema, e a mulher que ela não classifica é justamente a que está no momento em que a sensibilização começa. Conferência que fechou pela metade no protocolo nacional de dor crônica: o critério de inclusão diz três ou mais meses, e a definição do mesmo documento diz superior a três meses — quem tem exatamente três meses é incluída pelo critério e não é crônica pela definição, vão de um dia dentro do mesmo texto.
Nota 2 — o Quadro 3 que o capítulo não tem. No Quadro 9 do mesmo protocolo de atenção básica, a linha da síndrome da bexiga dolorosa remete ao Quadro 3, considerações gerais sobre dor pélvica crônica. As considerações gerais são o Quadro 10 — é para ele que as linhas da endometriose, das aderências e do intestino irritável remetem, na mesma página. O livro tem dezesseis ocorrências de Quadro 3, nenhuma no capítulo de dor pélvica; o Quadro 3 mais próximo é o do sangramento uterino intermenstrual, na página 24. Quem segue a remissão ao pé da letra sai da bexiga dolorosa e chega ao sangramento pós-coito. É a única linha do quadro em que a remissão está errada, e é a linha do sistema que este capítulo diz ser o segundo mais frequente.
Nota 3 — a conta dos terços. O Quadro 10 do protocolo de atenção básica reproduz uma casuística de laparoscopia por dor pélvica crônica em que um terço mostra pelve normal, um terço endometriose e um terço aderências. Soma: 100%, sem lugar para bexiga, intestino, músculo ou nervo — o que é esperado, porque a laparoscopia vê a superfície do peritônio, mas o quadro não diz isso. O mesmo quadro acrescenta que a endometriose do segundo terço não se trata só com cirurgia, e que a lise das aderências do terceiro terço não modifica o prognóstico. Lidos em sequência, os três itens dizem que, pela aritmética do próprio documento, nenhum dos três terços tem a dor resolvida pela laparoscopia — leitura deste capítulo, não frase do protocolo. Conferência que fechou: o um terço de endometriose coincide com a régua de sociedade de 2020, que fala em um terço nas laparoscopias por dor e em até 70% em centro especializado. Os 18% de indicação, porém, não conversam com os 40% das réguas de sociedade: os 18% são a fração das mulheres com dor pélvica crônica que chega à laparoscopia, e os 40% são a fração das laparoscopias ginecológicas feitas por essa dor — numeradores e denominadores diferentes, e nenhum dos dois é brasileiro.
Nota 4 — a partição que soma exatamente 100%. O estudo britânico de atenção primária que o inquérito de São Luís cita atribui a causa da dor ao sistema gastrintestinal em 37%, ao urinário em 31%, ao genital em 20% e ao miofascial em 12%. Conta: 37 mais 31 mais 20 mais 12 é 100 — só possível se cada mulher tiver recebido uma causa única. A régua de sociedade de 2021 diz, com fonte própria, que causas ginecológicas e não ginecológicas se sobrepõem em até 60% das mulheres. Os dois números não podem descrever a mesma população. A revisão brasileira de 2006 reproduz a mesma partição no Quadro 1 com um til antes de cada valor — cerca de 37%, cerca de 31%, cerca de 20% — e deixa o quarto sistema, o musculoesquelético, sem número: os três que ela escreve somam 88%, e os 12% que fechariam a conta só aparecem no inquérito de 2013. Segunda conta: a régua de sociedade de 2020 estima as causas não ginecológicas em 20% a 60% das mulheres; a partição britânica, que a mesma literatura brasileira cita, dá às causas não genitais 37 mais 31 mais 12, ou 80% — fora da faixa que o documento declara.
Nota 5 — dois números para a mesma histerectomia. A revisão brasileira de 2006, que é referência nomeada do protocolo de atenção básica, escreve que a dor pélvica crônica responde por aproximadamente 12% das histerectomias, 10% das consultas ginecológicas e 40% a 50% das laparoscopias. As réguas de sociedade de 2020 e de 2021 escrevem 20% das histerectomias, 10% a 20% das consultas e 40% das laparoscopias, citando uma série norte-americana de 1996. As laparoscopias fecham; as consultas se tocam num extremo; as histerectomias diferem por 8 pontos, ou dois terços a mais na cifra mais nova. Nenhum dos dois documentos cita série brasileira de histerectomia por dor — os dois números são importados, e o Brasil não tem o seu.
Nota 6 — três documentos, três gerações do mesmo critério, e nenhuma é a atual. O protocolo de atenção básica de 2016 define a síndrome do intestino irritável por desconforto ou dor durante pelo menos 12 semanas, não necessariamente consecutivas, nos últimos 12 meses, com dois de três aspectos — a redação dos critérios de Roma II, de 1999, publicada no ano em que os critérios de Roma IV foram lançados. A régua de sociedade de 2021 diz que o diagnóstico se baseia nos critérios de Roma III, e em seguida transcreve apenas o que ela mesma chama de classificação anterior: três meses de sintomas contínuos ou recorrentes aliviados pela evacuação — a redação da primeira geração. A redação de Roma III está, no Brasil, no inquérito de São Luís de 2013: dor em ao menos três dias por mês ao longo dos últimos três meses, com início há seis meses ou mais. Roma IV, que pede em média um dia por semana, não está em nenhum documento brasileiro em uso — e foi substituído em 2026 pelo Roma V, que o capítulo de síndrome do intestino irritável adota. Conta do que isso custa: doze semanas em doze meses cobrem 23% do ano; um dia por semana em três meses cobre 14% dos dias — os critérios não têm a mesma estrutura e as prevalências medidas por eles não se comparam. O próprio inquérito de São Luís mostra o tamanho do efeito ao citar um levantamento norte-americano em que a prevalência entre mulheres com dor pélvica foi de 26% com critérios amplos e de 7% quando restrita a Roma III.
Nota 7 — o protocolo nacional de dor crônica não nomeia a dor pélvica. Busca exata sobre o texto integral, normalizado por espaço e hífen, das 521 páginas do Relatório de Recomendação nº 794: a palavra pélvica ocorre uma única vez, na expressão cintura pélvica, dentro do exame musculoesquelético. Os códigos que o protocolo lista são dois — R52.1, dor crônica intratável, e R52.2, outra dor crônica. Consequência: a paciente com componente neuropático ou nociplástico é elegível pelo critério de três ou mais meses, mas o laudo de solicitação de gabapentina que trouxer só o diagnóstico ginecológico e o código de dor pélvica não corresponde a nenhuma linha do protocolo, e volta. Conferência que fechou: o Quadro 1 do mesmo protocolo lista a síndrome do intestino irritável entre os exemplos de dor nociplástica — a paciente deste capítulo existe na fisiopatologia do documento, ainda que não exista na lista de condições.
Nota 8 — a gabapentina que entra três vezes maior. O Quadro 2 do protocolo nacional de dor crônica escreve, para a gabapentina em adultos, 900 mg três vezes ao dia, podendo ser aumentada até a dose máxima de 3.600 mg ao dia. Conta: 900 vezes 3 é 2.700 mg ao dia como dose de entrada. A bula manda começar com 300 mg três vezes ao dia — 900 mg ao dia —, subindo ao longo dos primeiros dias; a régua de sociedade de 2021 escreve 300 mg três vezes ao dia, podendo atingir 3.600; o protocolo de atenção básica escreve 300 mg duas a três vezes ao dia. Três documentos concordam com a bula e um está três vezes acima dela na dose inicial, com o mesmo teto. A leitura mais provável é que o quadro quis dizer 900 mg ao dia em três tomadas; como está, quem seguir o quadro dá no primeiro dia o triplo do que a bula manda. Conferência que fechou: a amitriptilina é consistente nos quatro documentos — 25 a 50 mg à noite na atenção básica, 25 a 100 mg na régua de 2021, 25 a 75 mg na régua da bexiga dolorosa e 25 a 100 mg com teto de 150 no protocolo de dor crônica — e a Rename traz os comprimidos de 25 e de 75 mg que fazem qualquer dessas doses.
Nota 9 — três anti-inflamatórios e um opioide contra as bulas. Tramadol: a régua de sociedade de 2021 escreve 50 a 500 mg por via oral ao dia; a bula fixa 400 mg ao dia como dose total não excedida salvo circunstância clínica especial, ou 8 mg/kg, o que for menor. Conta: 500 menos 400 são 100 mg, 25% acima do teto; e 400 dividido por 8 dá 50 kg — para qualquer adulta acima de 50 kg vence o teto de 400, e abaixo vence o peso. O tramadol não consta da Rename, e a régua da mesma federação de 2020 diz que opioide não se recomenda nesta condição. Nimesulida: a régua de 2021 escreve 50 a 200 mg duas vezes ao dia; a bula escreve 50 a 100 mg duas vezes ao dia, com 200 mg duas vezes ao dia apenas em casos excepcionais e pelo menor tempo possível — o extremo superior do protocolo, 400 mg ao dia, é exatamente o teto excepcional da bula apresentado como faixa. Piroxicam: o protocolo de atenção básica o escreve de dois jeitos em duas páginas — 20 a 40 mg por dia na linha da endometriose e na da dor miofascial, e 20 mg de 12 em 12 horas na linha da dismenorreia, por até sete dias; a bula reserva os 40 mg aos dois primeiros dias de condição aguda, com 20 mg depois e teto de catorze dias. Conta da semana de dismenorreia: 40 mg por sete dias são 280 mg contra 40 mais 40 mais 20 vezes 5, ou 180 mg, pela bula — 56% a mais. A mesma bula diz que o piroxicam não deve ser usado como primeira linha na dismenorreia quando um anti-inflamatório é indicado; o protocolo de atenção básica o lista nessa posição, e o protocolo da adolescência escreve 10 a 20 mg a cada 24 horas. A linha da endometriose no Quadro 9 traz ainda uma frase truncada, que repete piroxicam e nimesulida com doses diferentes na mesma célula. Conferências que fecharam: paracetamol 500 mg de 6 em 6 horas na atenção básica dá 2.000 mg ao dia, metade do teto da bula; codeína 15 a 30 mg de 4 em 4 horas dá no máximo 180 mg ao dia, metade do teto de 360 do protocolo de dor crônica; ibuprofeno 600 mg de 8 em 8 horas dá 1.800 mg, abaixo dos 2.400 do protocolo nacional.
Nota 10 — a classe errada na régua da bexiga dolorosa. O protocolo de sociedade de 2025 da síndrome dolorosa vesical lista, entre os adjuvantes para dor, narcóticos, com o tramadol como exemplo, e neurolépticos, com a gabapentina como exemplo. Gabapentina é anticonvulsivante gabapentinoide; neuroléptico é antipsicótico. A prescrição não muda, mas quem decorar a classe pelo documento erra o mecanismo e a prova. No mesmo documento, a Tabela 1 dá à hidroxizina 10 a 50 mg ao jantar e o texto corrido, duas páginas depois, diz que a dose habitual é de 25 a 50 mg ao deitar — o limite inferior difere por fator 2,5 dentro do mesmo protocolo. Conferências que fecharam: cimetidina 300 mg duas vezes ao dia na tabela e 300 mg duas vezes ou 200 mg três vezes no texto, 600 mg ao dia nos dois; amitriptilina 25 a 75 mg, compatível com os comprimidos de 25 e 75 mg da Rename. E um dado que muda conduta, não erro: o polissulfato de pentosana, única droga oral desenhada para a camada de glicosaminoglicanos da bexiga, não está disponível no Brasil, o que faz do tricíclico a primeira escolha oral nacional por ausência, e não só por evidência.
Nota 11 — três documentos na prateleira errada. A caixa de citação do protocolo de sociedade de 2021 sobre dor pélvica crônica manda citá-lo como Endometriose — é o nome da comissão que o assinou, e virou o nome da obra. O protocolo da mesma federação sobre dismenorreia e endometriose na adolescência, elaborado pela comissão de ginecologia da infância e adolescência, está catalogado como Protocolo Febrasgo de Obstetrícia, número 76. E o protocolo de 2020 da comissão de endoscopia ginecológica sobre o mesmo tema segue vigente ao lado do de 2021, de modo que a federação tem hoje dois protocolos de dor pélvica crônica em vigor, de comissões diferentes, que discordam sobre opioide e sobre o lugar da laparoscopia — a divergência está no bloco próprio. Quem procurar no catálogo pelo título encontra, na melhor hipótese, um dos três.
Nota 12 — qual régua o Brasil usa, declarada. Para o diagnóstico diferencial da dor pélvica crônica não há documento do Ministério da Saúde que o organize por sistema. O capítulo de 2016 do protocolo de atenção básica é o único dedicado ao tema: o fluxograma manda investigar constipação, vida sexual insatisfatória, conflitos, história de aborto, ansiedade e baixo nível sociocultural; o Quadro 10 abre pelos fatores psicossociais e sua primeira linha farmacológica é a amitriptilina quando se identifica componente emocional ou conflituoso, ou quando não há causa aparente; a lista de psicoterapias põe a constelação familiar ao lado da terapia cognitivo-comportamental; não há uma linha sobre o exame do assoalho pélvico, e a bexiga dolorosa recebe analgésico e encaminhamento. O protocolo de dor crônica de 2024 dá acesso ao remédio sem nomear a doença. A régua em uso é, portanto, a de sociedade — e a definição que ela adota é importada da iniciativa norte-americana de padronização de terminologia, com vigência apoiada em ausência de substituto. O leitor precisa saber que o capítulo que acabou de ler se apoia em documento de sociedade porque não há outro, e não por preferência.
Nota 13 — a exclusão que o protocolo da endometriose não define. A segunda via do critério de tratamento empírico do protocolo nacional da endometriose aceita a paciente com dor pélvica crônica cujo exame é compatível ou em que se tenham excluído outras doenças que possam acarretar a dor. O documento não lista quais doenças, nem quais exames as excluem. Na prática da unidade, excluir vira ultrassonografia normal e urina normal, e a mulher com hipertonia do assoalho pélvico entra no hormônio por exclusão sem que ninguém a tenha tocado. A exclusão que a segunda via exige é o exame por camadas deste capítulo — leitura deste capítulo, e não frase do protocolo.
Nota 14 — a história de violência escrita como causa. A régua de sociedade de 2020 reproduz que até 47% das mulheres com dor pélvica crônica referem história de abuso físico ou sexual, com fonte estrangeira. O dado primário brasileiro é o do inquérito de São Luís: 27,4% de história de abuso entre as mulheres com dor pélvica crônica e intestino irritável, fração significativamente maior que a das mulheres com dor sem intestino irritável. O Fluxograma 10 do protocolo de atenção básica lista, entre as causas não ginecológicas de dor pélvica crônica, o item história de violência. História não é causa: é fator que modula o processamento da dor e obriga a perguntar, e escrevê-la na coluna das causas autoriza presumir. O que se faz quando a resposta é sim pertence ao capítulo de violência sexual, Quatro relógios, e nenhum marca a mesma hora, e este capítulo remete sem desenvolver.
Nota 15 — as conferências que fecharam, porque dizem tanto quanto as outras. A definição por seis meses é idêntica nas réguas de 2020 e de 2021, as duas com a mesma fonte norte-americana. O teste de Carnett está descrito do mesmo modo nas duas — dor em área de 2 a 3 cm que piora ou não melhora com a contração — e a régua de 2020 acrescenta o teste de Patrick com 85% de classificação correta. O terço sem causa identificada aparece nos dois documentos com fontes diferentes. A recorrência é superior a um terço em 2021 e de 33% em 2020, compatíveis. As prevalências brasileiras de 11,5% e 19% cabem na faixa de 2,1% a 24% que a régua de 2020 atribui à revisão da Organização Mundial da Saúde. A prevalência de 2,7% a 6,5% da síndrome dolorosa vesical é de inquérito comunitário norte-americano, e o documento diz isso. A receita de bloqueio do protocolo de atenção básica fecha: 5 mL de bupivacaína a 0,5% contêm 25 mg, que em 10 mL dão 2,5 mg/mL, a concentração da apresentação a 0,25% que a Rename já lista. E a Rename traz, no Componente Básico, tudo o que a conduta deste capítulo prescreve sem processo — nortriptilina, amitriptilina, carbamazepina, lidocaína, bupivacaína, dexametasona, ibuprofeno, paracetamol e dipirona —, e no Especializado o que exige laudo: gabapentina, codeína e morfina.
A conduta, hora a hora
Mapear relação com ciclo, evacuação, micção, relação sexual, postura e atividade; avaliar sinais de alarme e exame dirigido. Formular hipóteses por componente e escolher intervenções coordenadas, com metas de sono, atividade e participação. Reavaliar benefício e efeitos adversos de cada medida antes de acumular medicamentos ou procedimentos.
Os marcos abaixo seguem Adriana Salgado, 37 anos, a paciente da cena de abertura: seis anos de dor, uma laparoscopia normal, oito meses de contraceptivo contínuo sem melhora, três culturas de urina negativas, e três fontes de dor encontradas em noventa segundos de exame — um ponto-gatilho sobre a cicatriz do portal, um levantador do ânus em banda tensa à esquerda, e uma bexiga que dói ao encher. Ela evacua a cada três dias com esforço, dorme mal, e parou a amitriptilina em cinco dias porque leu a bula.
Três avisos antes da primeira receita. O primeiro: nada do que segue trata endometriose, massa, doença inflamatória pélvica ou incontinência — cada uma tem capítulo, e a paciente que tem uma delas somada a esta dor recebe os dois tratamentos, não a soma das duas filas. O segundo: as doses abaixo foram conferidas contra a bula e contra a Rename, e a escolha entre os dois tricíclicos foi feita para esta paciente, com o motivo escrito — em outra paciente, a escolha pode ser outra. O terceiro: escada analgésica, troca de opioide e efeitos adversos deles são do capítulo de Analgesia no paciente internado, na apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado, e este capítulo não os repete — aqui o tratamento se escolhe pelo mecanismo de cada camada, e a escada só entra na exceção discutida na divergência sobre opioide.
Consulta 0 — dar nome ao que se encontrou, e explicar por que a dor continuou
Antes de qualquer receita vem a frase que Adriana não ouviu em seis anos, e ela precisa ser dita com as três fontes nomeadas: a senhora tem três lugares que doem, e nenhum deles é o útero. Um é um ponto no músculo da barriga, sobre a cicatriz da cirurgia. Outro é o músculo do assoalho da pelve, que está contraído do lado esquerdo e reproduziu a sua dor quando eu apertei. O terceiro é a bexiga, que dói quando enche, sem infecção. Diga em seguida por que a laparoscopia foi normal — ela olhou a superfície de dentro da barriga, e nenhum desses três lugares está lá — e por que a dor continuou depois de tudo: o sistema que sente a dor passou seis anos recebendo sinal, e hoje amplifica o que recebe; isso tem nome, mecanismo e tratamento, e não é o mesmo que ser da cabeça. Feche a consulta com a linha de base escrita no prontuário: o calendário de dois ciclos que ela vai preencher, os dias de falta ao trabalho e as noites mal dormidas por semana nos últimos três meses, o questionário de saúde do paciente em duas perguntas, o questionário de dor neuropática em quatro perguntas, e a resposta à pergunta sobre violência, feita do modo descrito na conversa deste capítulo — Adriana respondeu que não, e a resposta foi registrada como resposta, não como conclusão.
Prescrição- Registro em prontuário de cada camada encontrada, com o achado que a sustenta: ponto-gatilho de parede sobre cicatriz de portal com teste de Carnett positivo; banda tensa do levantador do ânus esquerdo que reproduz a dor; base da bexiga dolorosa com três uroculturas negativas
- Registro do mecanismo presumido: dor somática de parede e de assoalho, dor visceral vesical, e componente nociplástico provável pela duração, pela dor em mais de um sistema, pelo sono e pela expansão da área
- Linha de base: dias de incapacidade e noites mal dormidas por semana nos últimos 3 meses; questionário de saúde do paciente em 2 perguntas; questionário de dor neuropática em 4 perguntas
- Calendário de dor por dois ciclos, com a escala de zero a dez e as colunas de micção, evacuação, relação e posição sentada, entregue em papel
- Pergunta sobre violência feita e resposta registrada; se a resposta fosse sim, o capítulo de violência sexual, Quatro relógios, e nenhum marca a mesma hora, é o dono do que vem depois
Consulta 0 — a parede: o bloqueio que confirma e trata na mesma agulha
O ponto-gatilho sobre a cicatriz é a camada mais rápida de tratar e a que mais convence a paciente de que o raciocínio está certo, e por isso ele vem primeiro. A régua de sociedade de 2021 registra que a injeção local de pequena quantidade de anestésico sem vasoconstritor no ponto de dor confirma a suspeita quando há dúvida, e recomenda a mesma injeção como tratamento da síndrome miofascial e das neuralgias de parede — uma a duas vezes por semana, quatro a oito aplicações. O anestésico existe no Componente Básico, o procedimento cabe na sala de ambulatório, e o alívio imediato é o dado diagnóstico que nenhum exame de imagem daria. Marque o ponto com a paciente apontando, confirme o Carnett, infiltre 2 a 3 mL, e reexamine em dois minutos: a dor daquele ponto some ou cai muito, e a de outras camadas continua — o que ensina à paciente, na hora, que ela tem mais de uma dor. O protocolo de atenção básica oferece uma receita alternativa com corticoide, bupivacaína diluída mais dexametasona, também toda do Componente Básico. Se depois de quatro a oito aplicações a parede não melhorou, a régua manda rever o diagnóstico, e é aí que entra a ultrassonografia de parede para hérnia e endometrioma de cicatriz.
Prescrição- Lidocaína a 1% sem vasoconstritor, 2 a 3 mL — 20 a 30 mg — infiltrados no ponto-gatilho de parede, com a paciente apontando o ponto e o teste de Carnett refeito antes
- Reavaliação do ponto dois minutos depois; alívio imediato confirma a camada de parede e é registrado como tal
- Repetição uma a duas vezes por semana, até quatro a oito aplicações; mais do que isso, rever o diagnóstico
- Alternativa do protocolo de atenção básica: bupivacaína a 0,5%, 5 mL, mais dexametasona 4 mg, completados a 10 mL com água destilada, aplicados no ponto — 25 mg de bupivacaína a 0,25%
- Ultrassonografia de parede abdominal se a parede não responder à série, para hérnia e endometrioma de cicatriz
Consulta 0 — o assoalho e o intestino: a camada que só a fisioterapia alcança
O levantador do ânus em banda tensa não se trata com remédio, e a régua de 2025 da bexiga dolorosa diz com todas as letras o que não fazer: os exercícios de fortalecimento do assoalho pélvico devem ser evitados nessa paciente, porque o músculo já está contraído demais — o que ele precisa é aprender a relaxar. A fisioterapia pélvica, indicada por essa régua para quem tem pontos sensíveis ou pontos-gatilho no assoalho, é o tratamento com maior rendimento deste capítulo e o que menos se pede; o encaminhamento sai hoje, com o achado descrito, e enquanto a vaga não chega há o que ensinar na sala: pausas para levantar a cada hora de trabalho sentada, calor local, respiração diafragmática com o abdome solto, e a instrução de não segurar a urina nem forçar a evacuação. O intestino de Adriana entra pela mesma porta. Ela evacua a cada três dias, com esforço, e a dor melhora um pouco depois — um assoalho que não relaxa é uma das razões de a evacuação exigir esforço, e a fisioterapia trata as duas coisas. O diagnóstico e o tratamento da síndrome do intestino irritável são do capítulo Síndrome do intestino irritável e diarreia crônica, na apostila de Gastroenterologia, e daqui sai só o que cabe na consulta de hoje: os critérios de Roma conferidos e anotados, hábito com horário fixo, fibras e líquido, e nenhum antiespasmódico em série. Sinal de alarme não há; a colonoscopia pendente há um ano responde a uma pergunta que ninguém fez, e não se marca por inércia.
Prescrição- Encaminhamento à fisioterapia do assoalho pélvico com o achado descrito — banda tensa do levantador do ânus esquerdo que reproduz a dor — e a instrução de que a meta é relaxamento, não fortalecimento
- Orientações dadas na sala: pausa para levantar a cada hora de trabalho sentada, calor local, respiração diafragmática, não segurar urina, não forçar evacuação
- Constipação: horário fixo para evacuar, fibras e líquidos, conforme o protocolo de atenção básica; sem antiespasmódico, sem laxante estimulante
- Critérios de Roma conferidos e escritos no prontuário, com a forma das fezes anotada no calendário
- Colonoscopia não solicitada: sem sinal de alarme, sem história familiar, 37 anos — e a pendente há um ano é cancelada com a paciente sabendo por quê
Consulta 0 — a bexiga, o sono e o processamento: um tricíclico à noite, e qual
Três culturas negativas, uma delas colhida durante uma crise, já excluíram infecção; a régua de 2025 exige urina tipo I e urocultura antes do rótulo, e Adriana as tem. O que ela descreve — dor que cresce ao encher e alivia ao urinar, dez a doze micções por dia, urinar antes da vontade para evitar a dor — é a síndrome dolorosa vesical, e o tratamento começa por medidas que não custam nada: diário miccional de três dias, retirada dos irritantes que ela mesma já identificou, e a fisioterapia que já foi pedida, porque a régua registra que a sensibilidade do assoalho é quase universal nessa condição. A primeira escolha oral da régua de 2025 é a amitriptilina, e ela serviria a três camadas de uma vez — bexiga, sono e sensibilização central. Mas o protocolo de atenção básica manda evitá-la em pacientes com constipação crônica relevante, e Adriana evacua a cada três dias com esforço. A régua de sociedade de 2021 escreve a nortriptilina entre parênteses, como o outro tricíclico da mesma linha, e ela está no Componente Básico nas cápsulas de 10, 25 e 50 mg. A escolha deste capítulo para esta paciente é a nortriptilina, 25 mg à noite, pelo motivo da constipação — leitura das duas réguas, e não frase de nenhuma. A explicação que segura a adesão é a que ela não recebeu da primeira vez: é um remédio que existe para depressão em dose três ou quatro vezes maior; nesta dose, e neste horário, ele baixa o volume do alarme da bexiga e devolve o sono, e é por isso que está sendo receitado.
Prescrição- Nortriptilina 25 mg por via oral à noite, uma cápsula de 25 mg, escolhida em vez da amitriptilina pela constipação — motivo escrito no prontuário
- Se não houvesse constipação nem sobrepeso: amitriptilina 25 mg por via oral à noite, um comprimido de 25 mg, primeira escolha da régua de 2025
- Diário miccional de 3 dias: horário e volume aproximado de cada micção, noctúria, e o que bebeu
- Retirada dos irritantes vesicais que a paciente já identificou — café, cítricos, refrigerante, álcool, pimenta — e ingestão de líquidos distribuída ao longo do dia
- Explicação dada e registrada: dose e horário do tricíclico, o motivo da prescrição e o prazo de resposta de três a quatro semanas
- Suspensão dos antiespasmódicos e do anti-inflamatório de uso diário; ibuprofeno 600 mg por via oral de 8 em 8 horas apenas em crise, por até 5 a 7 dias, com alimento
Semanas 1 a 4 — a janela em que a paciente desiste
É nessa janela que a paciente some, e quase sempre pelo mesmo motivo: ela esperava uma coisa e aconteceu outra. O tricíclico dá boca seca e sonolência na primeira semana, e a dor ainda não mudou; a fisioterapia ainda não começou porque a vaga é para daqui a três semanas; o ponto da parede melhorou e os outros dois não, e ela conclui que o bloqueio foi sorte. Cada uma dessas coisas foi dita na consulta zero, e precisa ser dita de novo num contato de cinco minutos em duas semanas, por telefone ou por vaga de encaixe. A titulação do tricíclico acontece nesse contato: tolerou 25 mg, passa a 50 mg à noite; a régua de 2021 admite até 100 mg, e a de 2025, até 75 mg no jantar, e a dose que serve é a menor em que o sono voltou e a bexiga baixou o alarme. O segundo e o terceiro bloqueios da parede acontecem nas semanas dois e três. O que não acontece: nenhum opioide, nenhum antiespasmódico, nenhum exame novo — porque nenhuma pergunta nova foi feita.
Prescrição- Contato curto em duas semanas, agendado na saída, para ouvir os efeitos do tricíclico, conferir o calendário e a marcação da fisioterapia
- Nortriptilina 50 mg por via oral à noite a partir da segunda semana, se tolerada — duas cápsulas de 25 mg ou uma de 50 mg; teto de 75 a 100 mg conforme a régua
- Bloqueios de parede nas semanas 2 e 3, com o teste de Carnett refeito antes de cada um
- Aviso repetido: o sono melhora primeiro, a bexiga em três a quatro semanas, o assoalho em oito a doze semanas de fisioterapia
- Sem opioide, sem antiespasmódico, sem exame novo neste intervalo
Mês 1 — o retorno: reler o calendário, reexaminar por camadas, decidir o nervo
O retorno de um mês tem uma agenda fixa, e ela começa pelo papel: o calendário de dois ciclos mostra se a dor tem componente cíclico somado, qual a média semanal, e quantos dias ficaram acima de sete. Depois vem o exame por camadas, refeito na mesma ordem: o ponto de parede, que em Adriana já não reproduz a dor; o levantador do ânus, ainda em banda mas menos doloroso, porque a fisioterapia começou há uma semana; a base da bexiga, menos sensível, com o diário mostrando oito micções em vez de doze. É nesta consulta que se decide o nervo, em qualquer paciente: se o questionário de dor neuropática marca quatro ou mais pontos e o cotonete encontra alteração de sensibilidade num dermátomo, e o tricíclico sozinho não alcançou, a gabapentina entra pelo protocolo nacional de dor crônica — com o laudo escrito do jeito que a farmácia aceita, que é com o código de dor crônica e a descrição do mecanismo, e não com o diagnóstico ginecológico. A titulação é a da bula, e não a do Quadro 2 do protocolo, que entra três vezes maior. Adriana não tem componente neuropático — dois pontos no questionário, sensibilidade normal — e sai do mês 1 sem gabapentina, com a nortriptilina mantida em 50 mg e a fisioterapia em curso.
Prescrição- Leitura do calendário: média semanal, dias acima de sete, componente cíclico; comparação com a linha de base escrita
- Exame por camadas refeito na mesma ordem, com o achado de cada camada registrado ao lado do anterior
- Nortriptilina mantida em 50 mg à noite; ajuste só pelo sono e pela bexiga, nunca pela dor total
- Se houver componente neuropático persistente — questionário de dor neuropática com 4 ou mais e dermátomo alterado —: gabapentina 300 mg por via oral três vezes ao dia a partir do primeiro dia, pela titulação da bula, até 900 a 3.600 mg ao dia; laudo com o código de dor crônica e a descrição do mecanismo, Componente Especializado
- Diário miccional relido com a paciente; meta escrita para o mês seguinte
Mês 3 — a medida que vale, e o que fazer quando ela não veio
Três meses é a primeira medida que vale, e ela se faz com os mesmos instrumentos da consulta zero: o calendário, os dias de incapacidade, as noites mal dormidas, o questionário de humor. Adriana chega com uma média semanal de três, contra sete na linha de base, sem faltas no último mês, dormindo, evacuando em dias alternados sem esforço, e com a relação retomada sem dor de entrada — a dor de fundo ainda aparece às vezes, e é o que a fisioterapia vai trabalhar nas semanas seguintes. Não se persegue dor zero: persegue-se a devolução do que a dor consumia, e isso ela já recuperou em parte. Quando a medida não veio, a sequência é fixa e a ordem importa. Primeiro, adesão real: o tricíclico foi tomado todas as noites, a fisioterapia aconteceu, o diário foi feito? Segundo, o exame por camadas de novo, porque a camada que não melhorou costuma ser a que não foi tratada — uma bexiga tratada e um assoalho que ninguém tocou desde a consulta zero. Terceiro, encaminhar por camada: uroginecologia para a bexiga que não respondeu à primeira linha, onde a cistoscopia procura a lesão de Hunner, que tem tratamento próprio; gastroenterologia para o intestino que não respondeu ou que ganhou sinal de alarme; serviço de dor para a sensibilização central que domina o quadro; saúde mental para o que o questionário indicou. O que não se faz aos três meses: escalar para opioide, pedir laparoscopia para ver, ou trocar o adjetivo.
Prescrição- Reavaliação formal aos 3 meses com o calendário, os dias de incapacidade, as noites mal dormidas e o questionário de humor, comparados por escrito com a linha de base
- Com resposta: manter a nortriptilina por 6 a 12 meses antes de discutir redução; fisioterapia até a alta do fisioterapeuta; bloqueios encerrados
- Sem resposta: conferir adesão, refazer o exame por camadas, e só então encaminhar a camada que não respondeu — uroginecologia, gastroenterologia, serviço de dor ou saúde mental
- Cistoscopia só pela uroginecologia, na bexiga refratária à primeira linha, na hematúria ou na suspeita de neoplasia
- Nunca opioide como resposta à falha; nunca laparoscopia para ver o que o ultrassom não viu
Mês 6 em diante — a conversa sobre cirurgia, e o encaminhamento que funciona
Em algum ponto a paciente pergunta se não seria melhor operar de novo, ou tirar o útero de vez, e a pergunta merece uma resposta com números. A régua de sociedade de 2021 recomenda adesiólise apenas quando as aderências são encontradas no intraoperatório, ponderando o risco de lesão, e registra que o benefício real é controverso; o protocolo de atenção básica diz que a lise de aderências não modifica o prognóstico da dor. Cirurgias ablativas — ablação de uterossacros, neurectomia pré-sacral — não são indicadas, por falta de evidência e por complicação. Histerectomia é recomendada pela régua de 2021 para a dor associada a leiomioma ou adenomiose que não respondeu ao progestágeno — decisão dos capítulos de Miomatose e de Endometriose, não deste —, e mesmo nessa indicação cerca de 40% das mulheres seguem insatisfeitas, com piora três a cinco vezes maior quando há depressão associada. Numa mulher cuja dor vem de parede, assoalho e bexiga, o útero sai e a dor fica. A laparoscopia tem lugar quando há indicação objetiva: massa que a imagem não resolveu, endometriose com indicação cirúrgica pelo capítulo dela, ou dor visceral que não melhorou depois de tratadas todas as outras camadas — o que pressupõe que foram tratadas. O encaminhamento que funciona, para qualquer serviço, leva o que este capítulo produziu: as cinco respostas, o exame por camadas com o achado que reproduz a dor, o calendário, os números de incapacidade, o que foi feito com dose e tempo, e a hipótese por sistema. O pedido de avaliação de dor pélvica crônica devolve a paciente ao começo da fila com a mesma pasta.
Prescrição- Sem laparoscopia sem indicação objetiva; sem histerectomia por dor que não vem do útero — a paciente ouve os números da régua antes de decidir
- Adesiólise, quando houver cirurgia por outra indicação, só se as aderências forem encontradas no intraoperatório, com o benefício controverso dito antes
- Encaminhamento por camada, com as cinco respostas, o exame por camadas, o calendário, os números de incapacidade e o que já foi tentado com dose e tempo
- Manutenção: nortriptilina por 6 a 12 meses com redução gradual depois; retorno a cada 3 meses com os mesmos instrumentos
- Retorno imediato se houver sinal de alarme novo: sangue nas fezes ou na urina, perda de peso, massa, dor de padrão diferente
Como saber se está funcionando
Nesta condição nenhum exame informa se o tratamento está dando certo: não há marcador para cair, nem imagem para mudar, e a cultura de urina já era negativa antes. O desfecho é o calendário, a função e a mão do examinador, e por isso a linha de base precisa ter sido escrita antes de a primeira receita sair. Um retorno sem o número anterior ao lado do número atual não reavaliou nada.
Uma regra governa todos os parâmetros abaixo: cada camada tem o seu relógio, e a resposta desigual entre elas é o esperado, não sinal de falha. A parede responde na sala, o sono em uma semana, a bexiga em quatro, o assoalho em oito a doze, e a sensibilização central só depois que as outras pararam de alimentá-la. E uma advertência que vem da régua de sociedade: sintoma que persiste obriga a reavaliar outras causas — a camada que não melhorou costuma ser a que ninguém tocou.
Esperado: Queda clara da média e dos dias acima de sete, com dias de falta ao trabalho e noites mal dormidas em queda contável. Não se persegue dor zero: persegue-se o que ela voltou a fazer
Se não melhora: Antes de qualquer troca, três conferências na ordem: o calendário foi preenchido — sem ele não há medida; a adesão é real — tricíclico todas as noites, fisioterapia frequentada, bloqueios feitos; e o exame por camadas foi refeito — porque uma média que não cai com a bexiga e a parede tratadas costuma ter um assoalho que ninguém tocou desde a consulta zero. Só depois se encaminha, e por camada.
Esperado: O ponto de parede deixa de reproduzir a dor depois de dois a quatro bloqueios; a banda do levantador do ânus fica menos tensa e menos dolorosa ao longo de oito a doze semanas de fisioterapia, e a paciente deixa de reconhecer nela a sua dor
Se não melhora: Parede que não responde a quatro a oito aplicações pede que se reveja o diagnóstico — ultrassonografia de parede para hérnia e endometrioma de cicatriz, e a pergunta sobre neuralgia de ilioinguinal ou ílio-hipogástrico, que se trata com o bloqueio do nervo e não do ponto. Assoalho que não responde pede a pergunta de sempre: a fisioterapia começou de fato, e o que se fez lá foi relaxamento ou fortalecimento? Fortalecer um músculo hipertônico piora — e é o erro mais frequente do encaminhamento sem o achado descrito.
Esperado: Menos micções por dia, menos episódios noturnos, e a paciente deixa de urinar antes da vontade para evitar a dor. Em Adriana, de doze para oito micções no primeiro mês
Se não melhora: Bexiga que não respondeu a quatro semanas de tricíclico em dose ajustada, mais medidas dietéticas e fisioterapia, é a paciente da uroginecologia: a cistoscopia procura a lesão de Hunner, que tem tratamento próprio, e a régua de 2025 reserva a ela e à hematúria a indicação do exame. Antes de encaminhar, uma cultura nova se houver sintoma novo — e a pergunta sobre a dose, porque 25 mg que nunca subiram é dose de teste, não de tratamento.
Esperado: Evacuação em dias alternados ou diária, sem esforço, com a dor que aliviava depois de evacuar perdendo tamanho conforme o assoalho relaxa
Se não melhora: Constipação que persiste com o assoalho tratado e a dieta feita, ou qualquer sinal de alarme que apareça — sangue, perda de peso, anemia, sintoma noturno, início depois dos 50 —, muda de capítulo: o de Câncer colorretal é o dono do que vem depois, e a colonoscopia deixa de ser exame sem pergunta. Sem alarme, o intestino irritável que não respondeu vai à gastroenterologia, com os critérios de Roma escritos no encaminhamento.
Esperado: O sono é a primeira coisa que o tricíclico devolve, em uma a duas semanas; a fadiga cai depois; o questionário de humor melhora junto com a função, e não antes
Se não melhora: Humor que não acompanha a melhora da dor, ou que piora, é motivo de encaminhamento à saúde mental por si — e não uma explicação para a dor. A pergunta sobre ideação suicida, que a régua de sociedade lista entre as bandeiras vermelhas, é feita nesta consulta e não deixada para a próxima. E o tricíclico em dose baixa não é o tratamento da depressão: quem preenche critério de depressão precisa do tratamento dela, com o capítulo de risco de suicídio à mão se houver ideação.
Esperado: Tricíclico tomado todas as noites, com boca seca e sonolência toleráveis e em queda; fisioterapia frequentada; a paciente sabe dizer por que toma o que toma
Se não melhora: A causa mais comum de abandono é a bula: a paciente lê que é antidepressivo e para. A explicação da consulta zero se repete, com a dose comparada à de depressão. Constipação que piora com o tricíclico numa paciente já constipada é o sinal de que a escolha foi a amitriptilina onde cabia a nortriptilina. Sonolência diurna pede que a dose volte ao patamar anterior, não que a droga saia. E vaga de fisioterapia que não chegou em quatro semanas é motivo de contato com a regulação, porque o assoalho é a camada com maior rendimento e a que mais espera.
Esperado: A mesma dor, menor. Nenhum sintoma novo
Se não melhora: Dor de padrão novo — súbita, unilateral, com febre, com sangramento, com massa, com perda de peso — não é falha do tratamento: é outra paciente, e volta ao passo um do fluxo, às bandeiras vermelhas e ao capítulo de Dor abdominal no pronto-socorro. Dor que passou a respeitar o ciclo depois de meses sem calendário pede a pergunta do capítulo de Endometriose. E a mulher cuja dor migrou para outro sistema enquanto o primeiro melhorava está mostrando a sensibilização central em ação, o que muda a explicação e o ritmo, não o método.
Onde o erro machuca
O dano: É o erro que produz a pasta de Adriana: dois ultrassons, três culturas, uma laparoscopia e oito meses de hormônio, todos normais ou sem resposta, e nenhum registro de que alguém tenha perguntado se a dor muda ao urinar, ao evacuar, ao sentar ou na relação, nem de que alguém tenha tocado o assoalho pélvico. Cada exame respondeu à pergunta de uma especialidade e a pergunta certa era de outra. O custo não é só o tempo: é a cirurgia sem achado, que confirma para a paciente que não há nada, e a sensibilização central, que cresce enquanto a lesão é procurada no órgão errado. A partição por sistema que a literatura brasileira cita dá ao intestino e à bexiga, somados, mais que o triplo do que dá ao útero e aos anexos.
Como pegar a tempo: Cinco perguntas antes de qualquer pedido, com a resposta escrita, e o exame por camadas na ordem do fluxo — de pé, parede com Carnett, cotonete, toque unidigital, e só então espéculo e bimanual. Escreva um diagnóstico por sistema, e não um diagnóstico por consulta. E antes de chamar uma pelve de normal, confira se as cinco camadas foram tocadas: a normalidade só vale para o que foi examinado.
O dano: Dizer à paciente que o exame é normal e que a doença é provavelmente psicológica é danoso a ela e ao profissional, leva à desesperança e tem efeito nocebo — não é opinião deste capítulo, é frase da régua de sociedade de 2021. O dano tem duas partes. A primeira é que a frase é falsa: a sensibilização central é fenômeno neurofisiológico, com hiperalgesia e alodinia mensuráveis, e a dor que ela produz é tão real quanto a da lesão que a iniciou. A segunda é o que a frase faz com a consulta seguinte: a paciente que ouviu isso para de contar tudo, como Adriana parou, porque contar parecia confirmar. Cada consulta depois disso recebe uma história editada.
Como pegar a tempo: Substitua o adjetivo pelo mecanismo, na frase da conversa deste capítulo: o sistema que sente a dor recebeu sinal por anos e hoje amplifica o que recebe; isso tem nome, tem tratamento e não é a mesma coisa que ser da cabeça. Avalie humor e sono porque modulam a dor e porque merecem tratamento próprio — e diga isso, para que o questionário não seja lido como acusação. E nunca use a normalidade de um exame como argumento sobre a origem da dor: um exame normal informa sobre o que ele vê.
O dano: Um cisto simples de 2,8 cm, uma aderência fina, varizes pélvicas ou um mioma pequeno intramural aparecem no ultrassom de uma mulher com dor diária que piora sentada e alivia ao urinar, e viram o nome da doença. O protocolo de atenção básica manda tranquilizar e não medicar o cisto funcional, que some em até doze semanas; a régua de sociedade de 2021 registra que a presença e as características das aderências não são preditas pelos sintomas e que a congestão pélvica não tem evidência suficiente de relação causal; o mesmo protocolo de atenção básica diz que a lise de aderências não modifica o prognóstico. A paciente operada por um desses achados acorda com a mesma dor, uma cicatriz nova sobre um nervo, e a convicção de que nada mais pode ser feito.
Como pegar a tempo: Aplique a regra de bolso antes de qualquer decisão: um achado explica a dor quando o padrão da dor é o padrão daquele órgão, e quando tratá-lo faz a dor sumir. Se nenhuma das duas condições vale, escreva incidental ao lado do achado, repita a imagem no prazo que o achado pede, e continue investigando por camadas. E quando a cirurgia estiver mesmo indicada — massa, endometriose com indicação pelo capítulo dela —, diga antes à paciente qual parte da dor a cirurgia alcança e qual não.
O dano: O espéculo e o toque bimanual provocam dor numa mulher com assoalho hipertônico e vestíbulo sensível, e depois deles qualquer pressão dói — o toque unidigital feito em seguida lê uma dor que o próprio exame produziu, e o examinador conclui que dói tudo. Pior é o exame que nunca acontece: a pasta de Adriana tem seis anos e nenhum registro do assoalho pélvico, e a régua de 2025 da bexiga dolorosa registra que a sensibilidade e a rigidez do assoalho são achados quase universais nessa condição — a camada mais frequente e mais tratável é a que não foi tocada. A consequência é a mulher encaminhada à fisioterapia sem achado descrito, que recebe exercícios de fortalecimento num músculo que precisava relaxar, e piora.
Como pegar a tempo: A ordem é fixa: parede e cotonete primeiro, toque unidigital antes do espéculo, bimanual por último. Um dedo, lubrificado, pressão suave, cada lado, e a pergunta que vale — é essa a sua dor? Registre tônus, banda e a frase da paciente. E escreva o achado no encaminhamento à fisioterapia com a palavra relaxamento, porque o fisioterapeuta que recebe dor pélvica crônica sem achado costuma fortalecer.
O dano: Quatro receitas de antiespasmódico e três de anti-inflamatório na pasta de Adriana tratavam uma dor que não era cólica visceral aguda, e a régua de sociedade de 2021 é explícita: dor neuropática não deveria ser controlada com anti-inflamatório, e antiespasmódicos podem piorar a sintomatologia de quem tem intestino irritável e bexiga dolorosa. O passo seguinte dessa escada é o opioide, e a régua de 2020 registra que ele não atua na causa, que o uso prolongado se associa a alto risco de efeitos colaterais e dependência, e que pacientes tratadas com opioide para dor crônica têm risco de 3% a 7% de transtorno por uso. O protocolo nacional de dor crônica acrescenta que opioides são menos efetivos na dor nociplástica. A paciente sobe a escada inteira sem que ninguém tenha mudado de mecanismo.
Como pegar a tempo: Trate pelo mecanismo, não pela intensidade: anestésico local para o ponto-gatilho, fisioterapia para o assoalho, tricíclico à noite para bexiga, sono e sensibilização, gabapentina pelo protocolo nacional para o nervo que o tricíclico não alcançou. Anti-inflamatório só na crise e por dias, com a dose e o teto da bula. E quando a tentação do opioide aparecer, releia a divergência deste capítulo antes de escrever: a dor que sobe a escada é a que não teve a camada certa tratada.
O dano: O pedido de avaliação de dor pélvica crônica, sem sistema, sem achado e sem o que já foi feito, entra na fila da ginecologia geral e devolve a paciente ao começo com a mesma pasta — e a ginecologia geral, que já a viu, pede o ultrassom de novo. O laudo de gabapentina escrito com o diagnóstico ginecológico e o código de dor pélvica não corresponde a nenhuma linha do protocolo nacional de dor crônica, que não nomeia a dor pélvica em 521 páginas e lista apenas os códigos genéricos de dor crônica, e volta da farmácia do Componente Especializado. Nos dois casos o remédio existe, a indicação existe, e a paciente não recebe nenhum dos dois por causa de uma palavra.
Como pegar a tempo: Encaminhe por camada, para o serviço da camada, com o achado que reproduz a dor, as cinco respostas, o calendário, os números de incapacidade e o que foi tentado com dose e tempo. Escreva a hipótese por sistema — hipertonia do assoalho pélvico, síndrome dolorosa vesical, neuralgia do ilioinguinal — e não o rótulo guarda-chuva. No laudo do Componente Especializado, use o código de dor crônica que o protocolo lista, descreva o mecanismo neuropático ou nociplástico e o tempo de dor, e cite o critério de inclusão de três ou mais meses. A paciente atravessa a regulação com a palavra que a regulação reconhece.
O que dizer ao paciente e à família
A conversa deste capítulo tem uma dificuldade que a maioria das outras não tem: a paciente à sua frente já ouviu, de colegas seus, que a dor dela é da cabeça, e chegou preparada para ouvir de novo. Ela edita a história antes de contar, como Adriana editou. Antes de explicar qualquer mecanismo é preciso desfazer o adjetivo — e isso não se faz negando-o com boa vontade, mas substituindo-o por um mecanismo que ela consiga repetir em casa.
A segunda dificuldade é de quantidade. Ela vai sair da sala com três diagnósticos em vez de nenhum, três tratamentos com três relógios, e uma promessa que não é a de dor zero. Um capítulo que ensinasse a prometer alívio rápido produziria abandono na quarta semana. As falas abaixo tentam o contrário: dizer o que vai acontecer, com prazo, de um jeito que sustente o tratamento até a primeira medida que vale.
A frase que substitui o adjetivo — dita logo depois do exame, com o achado ainda fresco
“"Eu encontrei três lugares que doem, e quero te mostrar cada um. Esse ponto aqui na barriga, em cima da cicatriz, é um nó no músculo: quando eu aperto e a senhora levanta a cabeça, ele dói mais, e dor que vem de dentro faz o contrário. Aqui dentro, do lado esquerdo, o músculo do assoalho está contraído — foi ele que a senhora reconheceu como a sua dor. E a bexiga dói quando enche, sem infecção; a senhora urina para aliviar, não porque vai perder. Nenhum dos três aparece no ultrassom nem na cirurgia, e é por isso que os exames vieram normais. Tem ainda uma quarta coisa: seis anos de dor ensinam o sistema que sente a dor a aumentar o volume. Isso tem nome, tem tratamento, e não é a mesma coisa que ser da cabeça."”
Não diga: Evite começar por "os exames estão normais" — é a frase que ela ouviu seis vezes, e ela já sabe o que vem depois dela. E evite dizer "sensibilização central" sem o mecanismo por trás: sem a explicação, a palavra técnica é o mesmo adjetivo com nome científico.
Ela pergunta, desconfiada: "mas a laparoscopia não achou nada — então não tinha nada?"
“"Não achou porque não estava lá. A laparoscopia olha a superfície de dentro da barriga: ela enxerga endometriose, aderência, cisto. Ela não enxerga um músculo contraído, um nervo irritado nem a parede de dentro da bexiga — e a sua dor vem desses lugares. O laudo disse que a pelve estava normal, e estava, para o que a câmera olhou. O que faltou não foi a cirurgia ver melhor. Foi alguém perguntar o que muda a sua dor, e examinar o que a câmera não alcança."”
Não diga: Evite criticar quem indicou a laparoscopia, e evite tratá-la como inútil por azar — as duas versões fazem a paciente desconfiar da próxima indicação, que pode ser correta. A saída é dizer o que o exame vê e o que não vê.
Antes do toque unidigital — o pedido de licença que muda o rendimento do exame
“"Eu vou fazer um exame diferente do que a senhora conhece. Sem o espéculo, com um dedo só, devagar: vou apertar de leve os músculos que ficam dos dois lados, e a senhora vai me dizer se a dor que sentir é a sua dor de sempre ou uma dor nova, do exame. Se quiser que eu pare, é só dizer, e eu paro na hora. É esse exame que responde se o músculo do assoalho está participando da sua dor — e ele não aparece em nenhum outro."”
Não diga: Evite fazer o toque unidigital sem dizer que ele é diferente do bimanual, e evite fazê-lo depois do espéculo. E não pergunte "dói?" — numa pelve sensibilizada tudo dói. Pergunte "é essa a sua dor?", porque só a dor reconhecida vale como achado.
Ela leu a bula: "isso é remédio de depressão, e eu não sou depressiva"
“"A senhora está certa, e é bom que tenha lido. Esse remédio existe para depressão numa dose três ou quatro vezes maior do que a sua. Nessa dose, à noite, ele faz outra coisa: baixa o volume do alarme da bexiga e do sistema que amplifica a dor, e devolve o sono. É o remédio de primeira escolha para a bexiga que dói — está no protocolo —, e eu escolhi este, e não o outro da mesma família, porque a senhora tem o intestino preso e este prende menos. Se em três semanas o sono não tiver melhorado, a gente conversa de novo. Eu não estou tratando depressão. Estou tratando dor com um remédio que também serve para depressão."”
Não diga: Evite "é só para relaxar" e "é um remedinho" — as duas frases perdem a paciente no dia em que ela lê a bula, e ela vai ler. Diga o nome, a dose, o motivo e o prazo, e escreva os quatro no prontuário.
Ela pede: "eu quero tirar o útero, eu não aguento mais"
“"Eu entendo o cansaço, e por isso quero te dar os números antes de qualquer decisão. Tirar o útero resolve dor que vem do útero — mioma, adenomiose. A sua dor vem do músculo da barriga, do assoalho e da bexiga, e nenhum dos três sai na cirurgia. Mesmo nas mulheres em que o útero é a causa, quatro em cada dez continuam insatisfeitas depois, e quem está com o humor abalado piora mais. Eu não vou operar uma dor que não sai com a cirurgia. Vou tratar cada lugar que dói, um de cada vez e ao mesmo tempo, e daqui a três meses a gente mede com o seu calendário."”
Não diga: Evite o "não é indicado" seco — soa como recusa, e ela vai procurar quem indique. Evite também prometer que a fisioterapia e o remédio resolvem tudo: diga o que cada um alcança e em quanto tempo.
Perguntar sobre violência — para todas, sem presumir causa
“"Eu faço uma pergunta para todas as mulheres com uma dor como a sua, porque a resposta muda como eu cuido, e a senhora responde o que quiser. Alguém já te machucou, te forçou a alguma coisa ou te fez medo — agora ou no passado? Se sim, eu quero saber para te ajudar melhor. Se não, também é uma resposta. E os três lugares que eu encontrei doem de qualquer jeito: essa pergunta não muda o que eu vou tratar."”
Não diga: Evite fazer a pergunta como se ela explicasse a dor — a história de violência modula a dor, não a causa, e a paciente sente a diferença no tom. Evite pular a pergunta porque ela "não parece". E se a resposta for sim, o que se faz está no capítulo de violência sexual, Quatro relógios, e nenhum marca a mesma hora: não se improvisa.
Antes de ela sair — o que vai acontecer, com prazo
“"Três coisas para a senhora saber antes de sair. O ponto da barriga já doeu menos hoje e vai doer menos a cada aplicação — essa é a parte rápida. O remédio da noite dá boca seca e sono na primeira semana, e a bexiga só melhora em três ou quatro semanas; até lá a senhora vai achar que não está funcionando, e eu te ligo em duas semanas para a gente ajustar. A fisioterapia é a parte mais lenta e a mais importante: dois a três meses. Eu não prometo dor zero. Prometo que daqui a três meses a gente vai olhar o calendário juntas e ver o que mudou — e que o que a senhora conta aqui é levado a sério."”
Não diga: Evite "qualquer coisa a senhora volta" — sem o contato marcado e os prazos ditos, o abandono acontece nas primeiras quatro semanas. E não prometa a fisioterapia para uma data que a regulação não garante; prometa o que você controla, que é o contato de duas semanas.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Pode, sem uso rotineiro e com dose escrita — a régua de sociedade de 2021 e o protocolo de atenção básica
O protocolo de sociedade de 2021 chama os efeitos dos opioides de controversos, não recomenda o uso rotineiro e exige avaliação por profissional experiente antes da prescrição — mas afirma que não há contraindicação pelo risco de dependência, e lista as opções com dose: tramadol 50 a 500 mg ao dia, codeína combinada a paracetamol, morfina 20 a 200 mg ao dia em duas tomadas, buprenorfina transdérmica. O protocolo de atenção básica de 2016 vai na mesma direção: codeína 15 a 30 mg por dose e tramadol 50 mg de 4 em 4 a 6 em 6 horas, em uso eventual e com cautela, para dor reagudizada. Nas duas réguas o opioide é ferramenta de exceção, mas é ferramenta.
Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. Dor pélvica crônica. Protocolo Febrasgo–Ginecologia nº 2, 2021 — medidas farmacológicas; e Brasil. Ministério da Saúde. Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, 2016 — Quadro 10
Não pode, salvo doença maligna ativa e cuidado paliativo — a régua de sociedade de 2020, com a diretriz norte-americana de 2016
O protocolo da comissão de endoscopia ginecológica da mesma federação, publicado um ano antes e ainda vigente, adota a diretriz do centro de controle de doenças dos Estados Unidos: não se recomenda opioide no tratamento da dor pélvica crônica, reservando-o à doença maligna em atividade e aos cuidados paliativos. O argumento é de mecanismo e de dano: o opioide não atua na causa da dor, o uso prolongado se associa a alto risco de efeitos colaterais e à dependência, e pacientes tratadas com opioide para dor crônica têm risco de 3% a 7% de transtorno por uso. Quem já usa deve ser orientada à redução gradual até a retirada.
Ribeiro PA, Abdalla-Ribeiro HS, Eras A. Dor pélvica crônica. Femina. 2020;48(5):262-76 — Protocolo Febrasgo–Ginecologia nº 7, tratamento medicamentoso e dependência de opiáceos
Pode pelo protocolo nacional, na menor dose efetiva e com reavaliação — e é menos efetivo justamente na dor desta paciente
O protocolo nacional de dor crônica de 2024 mantém codeína e morfina no Componente Especializado para quem tem dor há três ou mais meses, e orienta que, se o opioide for necessário — exacerbação, dor intratável —, prescreva-se a menor dose efetiva com avaliação regular de riscos e benefícios. O mesmo documento, no item da dor nociplástica, registra que anti-inflamatórios, paracetamol e opioides têm menor efetividade nesse mecanismo, e que as classes com mais evidência são os tricíclicos, os inibidores duais e os gabapentinoides. O tramadol, que as duas réguas de sociedade citam, não consta da Rename.
Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dor Crônica, Portaria Conjunta SAES/SAPS/SECTICS nº 1, de 22 de agosto de 2024 — itens 7.2.3 e 7.3; e Relação Nacional de Medicamentos Essenciais 2024
Decida pelo mecanismo da dor da paciente à sua frente, e não pela intensidade que ela relata — porque as três posições concordam num ponto que costuma passar despercebido: nenhuma delas recomenda opioide para a dor que este capítulo descreve. A dor de parede se trata com anestésico no ponto; a do assoalho, com fisioterapia; a da bexiga e a sensibilização central, com tricíclico e medidas; a do nervo, com tricíclico e gabapentina. Em nenhuma dessas camadas o opioide atua na causa, e o protocolo nacional diz que ele é menos efetivo na dor nociplástica, que é a da mulher que chegou com seis anos de história. Sobra a exceção que as três posições admitem com palavras diferentes: uma reagudização com causa nociceptiva identificada — uma crise de dor visceral aguda sobreposta, um pós-operatório —, por dias, com a dose escrita e a data de término escrita. Se for esse o caso, use o que a Rename tem, codeína pelo protocolo nacional, com o teto de 360 mg ao dia, e não o tramadol, que a farmácia não entrega e cujo teto de 500 mg da régua de 2021 passa a bula. Registre o motivo, a dose, o prazo e a reavaliação — e pergunte, antes de escrever, o que a régua de 2020 pergunta: esta paciente já falhou às outras modalidades, ou elas ainda não foram tentadas? Na pasta de Adriana, nenhuma tinha sido.
Fazer, quando as aderências aparecem no intraoperatório — com o benefício declarado controverso
A régua de sociedade de 2021 recomenda que a adesiólise seja feita quando se identifica a presença de aderências no intraoperatório, ponderando sempre o princípio de não maleficência — o risco de lesão de estruturas nobres e as complicações do próprio procedimento —, e registra que o benefício real da adesiólise é controverso. A posição é, portanto, condicional: a cirurgia já está acontecendo por outro motivo, a aderência apareceu, e o cirurgião decide na hora, sabendo que a evidência de alívio é fraca.
Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. Dor pélvica crônica. Protocolo Febrasgo–Ginecologia nº 2, 2021 — medidas cirúrgicas
Não modifica o prognóstico da dor — e os sintomas não predizem as aderências
O protocolo de atenção básica de 2016 escreve, no Quadro 10, que a lise de aderências pélvicas — o terço das laparoscopias por dor pélvica crônica em que elas são o achado — não modifica o prognóstico em relação à dor. A régua de sociedade de 2020 acrescenta o dado que esvazia a indicação por sintoma: a presença e as características das aderências não são preditas pelo quadro clínico, e a melhor alternativa é prevenir seu surgimento. Nessa leitura, operar para desfazer aderências em busca de alívio é operar um achado, não uma causa.
Brasil. Ministério da Saúde. Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, 2016 — Quadro 10; e Ribeiro PA, Abdalla-Ribeiro HS, Eras A. Dor pélvica crônica. Femina. 2020;48(5):262-76 — aderências
As duas posições não brigam sobre o mesmo ato, e separá-las resolve a decisão para a paciente à frente. A primeira fala do que fazer com a aderência que aparece numa cirurgia indicada por outro motivo; a segunda fala de indicar cirurgia por causa da aderência. Para a paciente com dor pélvica crônica e laparoscopia prévia com lise, a segunda posição decide: não se reopera para desfazer aderências, porque o sintoma não as prediz e a lise não muda a dor — e a mulher que teve lise de aderências finas há três anos e voltou com a mesma dor é a prova de que a régua está certa. Para a paciente que vai ser operada por indicação objetiva — massa, endometriose com indicação cirúrgica pelo capítulo dela —, a primeira posição decide, com a ressalva escrita no consentimento: se houver aderência, ela será desfeita se o risco de lesão for baixo, e o alívio da dor não é o objetivo da cirurgia. O que nenhuma das duas autoriza é a laparoscopia diagnóstica com lise como resposta à dor que não melhorou, sem que as outras camadas tenham sido tratadas. Registre qual das duas situações é a da sua paciente, e o motivo.
Três ou mais meses — o protocolo nacional de dor crônica, e o critério que abre o acesso
O protocolo nacional opta explicitamente por definir como crônica a dor que dura mais de três meses, independentemente de recorrência, intensidade e implicação funcional, reconhecendo a controvérsia sobre o ponto de corte, e fixa como critério de inclusão a dor com três ou mais meses. É o corte que dá acesso aos medicamentos do Componente Especializado — gabapentina, codeína, morfina — e o que a paciente precisa preencher para que o laudo seja aceito. O documento não nomeia a dor pélvica, mas a inclui pelo tempo.
Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dor Crônica, Portaria Conjunta SAES/SAPS/SECTICS nº 1, de 22 de agosto de 2024 — definição e critérios de inclusão
Tipicamente mais de seis meses — as réguas de sociedade de 2020 e 2021, com a definição norte-americana
As duas réguas de sociedade adotam a definição da iniciativa norte-americana de padronização de terminologia: dor percebida como originária de órgãos ou estruturas pélvicas, tipicamente com duração maior que seis meses, associada a consequências cognitivas, comportamentais, sexuais e emocionais e a sintomas de disfunção de vários sistemas. A revisão brasileira de 2006, referência do protocolo de atenção básica, usava o mesmo corte com a definição anterior do mesmo colégio. É o corte da literatura e dos estudos de prevalência, e o que o fluxograma da atenção básica reproduz na caixa da dor crônica.
Febrasgo. Dor pélvica crônica. Protocolo nº 2, 2021 — definição; Ribeiro PA e cols. Femina. 2020;48(5):262-76 — definição; Nogueira AA e cols. Rev Bras Ginecol Obstet. 2006;28(12):733-40
Mais de seis semanas — a régua de 2025 da síndrome dolorosa vesical
Para a bexiga, a régua brasileira de 2025 define a síndrome dolorosa vesical por sensação desagradável percebida na bexiga, com sintomas urinários, presente há mais de seis semanas, sem infecção nem outra causa que a explique. O corte é um quarto do de sociedade e metade do nacional, e o documento justifica a pressa pela subestimação e pelo diagnóstico tardio da condição: quanto mais tempo a bexiga dói sem nome, mais o tratamento deixa de ser precoce.
Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. Síndrome dolorosa vesical. 3ª ed. Protocolo Febrasgo–Ginecologia nº 47. Femina. 2025;53(4):250-7 — definição e recomendações finais
Os três cortes servem a perguntas diferentes, e a paciente à sua frente só precisa que você saiba qual pergunta está fazendo. Para começar a investigar por sistema e a tratar por camada, não espere nenhum deles: a bexiga é crônica em seis semanas, o ponto-gatilho de parede se trata no dia em que é encontrado, e a régua de sociedade de 2021 registra que o teste de Carnett tem impacto justamente na decisão de tratamento precoce. Para escrever o laudo do Componente Especializado, use o corte nacional de três ou mais meses, porque é o que a farmácia confere. Para nomear a condição na literatura e comparar prevalências, o corte é o de seis meses, e é bom saber que é importado. O que decide contra a paciente é usar o corte mais longo como licença para esperar: a mulher com quatro meses de dor, que o fluxograma da atenção básica não classifica e que a definição de sociedade ainda não chama de crônica, é exatamente aquela em que a sensibilização está começando — e a única régua que a inclui é a nacional de dor crônica, que não sabe o nome da doença dela. Registre a duração em meses no prontuário, sem arredondar, e trate desde hoje.
O raciocínio, em voz alta
Vanessa Godoi tem 42 anos, é professora do ensino fundamental, e chega ao ambulatório encaminhada pela própria ginecologista, que escreveu no papel: endometriose refratária, avaliar análogo de GnRH. O diagnóstico tem seis anos, feito em laparoscopia com exérese de focos peritoneais. Há dois anos ela usa desogestrel contínuo, sem falhar cartela, e há um ano a dor voltou — diária, no baixo-ventre, pior ao fim do dia e quando corrige provas sentada, sem relação com o mês, que ela nem sabe mais quando é, porque não menstrua. Dói na entrada na relação, não no fundo. Tem urgência para urinar sem ardência, com duas culturas negativas nos últimos oito meses. Dorme mal, acorda cansada, e diz que o corpo inteiro dói. Traz ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal de quatro meses atrás: sem endometrioma, sem nódulo profundo, sem acometimento intestinal, útero de tamanho normal. Ao exame: abdome flácido, sem ponto-gatilho, teste de Carnett negativo; ao cotonete, dor localizada na porção posterior do vestíbulo; ao toque unidigital, levantador do ânus em banda tensa dos dois lados, pior à direita, e ela diz que é essa a dor; base da bexiga dolorosa; especular normal; ao bimanual, útero móvel e indolor, sem nódulo em fundo de saco, anexos livres.
O que penso antes de tocar no encaminhamento
A palavra refratária pressupõe que a dor de hoje é a mesma doença de seis anos atrás, e é exatamente isso que eu não posso pressupor. O capítulo de Endometriose é claro sobre o que fazer com a paciente já diagnosticada que volta com sintoma persistente: reavaliar outras causas de dor antes de escalonar o hormônio por reflexo, e a disfunção miofascial do assoalho pélvico é candidata frequente. Vanessa tem supressão hormonal adequada, com adesão, e uma imagem certa — com preparo intestinal — que não mostra doença profunda nem endometrioma. O que sobrou nela não parece ser a lesão. Parece ser o que a lesão deixou.
As cinco perguntas, com as respostas dela
Ciclo: não há mais ciclo, e a dor não tem calendário — não é a resposta de doença hormônio-responsiva ativa. Micção: urgência, alguma dor ao encher, culturas negativas — a bexiga respondeu. Evacuação: normal, sem alívio nem piora — o intestino não respondeu. Postura: pior sentada e ao fim do dia — o músculo respondeu. Relação: dor na entrada, não no fundo — vestíbulo e assoalho, não fundo de saco. Três sistemas responderam, e nenhum deles é o que o encaminhamento nomeia.
O exame por camadas, e o que cada camada devolveu
A parede está limpa: Carnett negativo, sem cicatriz dolorosa — os portais da laparoscopia não deixaram ponto. O cotonete encontra dor localizada no vestíbulo posterior, que explica a dispareunia de entrada. O toque unidigital é o exame que decide este caso: banda tensa do levantador do ânus dos dois lados, pior à direita, e a frase dela — é essa — antes de eu perguntar. A base da bexiga dói. O bimanual, feito por último, encontra um útero móvel, sem nódulo retrocervical, sem dor de fundo de saco: nada que mande de volta ao capítulo vizinho. A pelve que a ginecologista chamou de refratária tem um assoalho hipertônico, um vestíbulo sensível e uma bexiga dolorosa, e uma endometriose que, por tudo o que dá para saber, está controlada.
Os três números da linha de base
O questionário de dor neuropática dá um ponto: sem componente neuropático. O questionário de saúde do paciente em duas perguntas é positivo, e o de nove perguntas dá doze — humor deprimido em grau moderado, que ela atribui à dor e ao cansaço. Dias de falta nos últimos três meses: quatro; noites mal dormidas por semana: cinco. Escrevo os três no prontuário, ao lado da data, porque é contra eles que o tratamento vai ser medido — e porque o humor moderado precisa de tratamento próprio, e não de ser lido como explicação da dor.
O que dá nome, e o que se mantém
Escrevo cinco linhas de diagnóstico, uma por sistema: endometriose em supressão hormonal adequada, sem sinal de doença ativa na imagem; hipertonia do assoalho pélvico bilateral, pior à direita; vestibulodínia; síndrome dolorosa vesical provável, com duas culturas negativas; e sensibilização central provável — dor em três sistemas, sono ruim, fadiga, dor difusa, exames normais. Sexta linha: episódio depressivo moderado pelo questionário, a confirmar. O desogestrel fica exatamente como está: ele está fazendo o trabalho dele, e escalonar para o análogo trataria uma doença que não está ativa com um remédio que produz menopausa temporária. Não é decisão minha sozinha — é o que o capítulo de Endometriose manda fazer nessa paciente.
O que prescrevo, e por quê cada coisa
Fisioterapia do assoalho pélvico, com o achado escrito no encaminhamento e a palavra relaxamento, porque a régua da bexiga dolorosa proíbe fortalecer esse músculo. Amitriptilina 25 mg à noite — ela não é constipada nem tem sobrepeso, e a amitriptilina é a primeira escolha oral da régua de 2025 para a bexiga, servindo ao sono e à sensibilização na mesma dose; se em duas semanas tolerar, 50 mg. Diário miccional de três dias e retirada dos irritantes. Pausas para levantar a cada hora de correção de provas. Nenhum anti-inflamatório de rotina, nenhum antiespasmódico, nenhum opioide. Encaminhamento à saúde mental pelo questionário de nove perguntas, dito a ela como tratamento de uma condição que existe e que piora a dor, não como destino da dor. E a colonoscopia, o novo ultrassom e a laparoscopia de revisão, que ela veio preparada para pedir, não são pedidos — porque nenhuma pergunta nova foi feita a eles.
O que digo a ela
Digo que a endometriose está controlada e que o remédio que ela toma continua, e que a dor de hoje vem de três outros lugares — o músculo do assoalho, que aprendeu a ficar contraído nos anos em que a endometriose doía, a entrada da vagina e a bexiga —, e que nenhum deles melhora com hormônio nem com cirurgia. Digo que o corpo que dói inteiro e o sono ruim fazem parte disso, e têm nome e tratamento. Digo o prazo de cada coisa: o sono em uma semana, a bexiga em um mês, o músculo em dois a três meses. E digo que o encaminhamento que ela trouxe estava certo em não aceitar a dor, e errado no nome que deu a ela.
Mês 1
Ela dorme, com boca seca tolerável, em 50 mg. O diário mostra nove micções em vez de quatorze. A fisioterapia começou há duas semanas, e ao toque a banda direita ainda reproduz a dor, menos. A média semanal no calendário caiu de sete para cinco. O humor está em avaliação na saúde mental. Mantenho tudo, e não acrescento nada — a camada que falta responder é a mais lenta, e ela está sendo tratada.
Mês 3 — a medida que vale
Média semanal de três. Nenhuma falta no último mês. Duas noites ruins por semana, contra cinco. Relação retomada, com desconforto de entrada que ela descreve como suportável e que a fisioterapia vem trabalhando com dessensibilização do vestíbulo. Nove micções por dia, sem urgência. Ao toque unidigital, o levantador do ânus não reproduz mais a dor de sempre — ela diz que dói, mas que não é aquela. O questionário de nove perguntas caiu para seis, com o tratamento próprio em curso. Escrevo os números ao lado dos da consulta zero. Não é dor zero. É a professora corrigindo provas sem levantar a cada vinte minutos.
O que eu retenho
Que a palavra refratária estava no papel e não na paciente. Que a régua do capítulo vizinho — reavaliar outras causas antes de escalonar — e a régua deste — examinar por camadas antes de declarar a pelve normal — são a mesma instrução vista de dois lados. Que o exame que decidiu levou noventa segundos e não custou nada. E que a paciente que chega com endometriose tratada e dor persistente é, na maior parte das vezes, uma paciente deste capítulo, e não do outro.
O que teria mudado se o toque tivesse encontrado um nódulo retrocervical doloroso
Tudo o que é fronteira: o nódulo devolve a paciente ao capítulo de Endometriose, com a imagem para mapear a doença profunda e a discussão de segunda linha ou de cirurgia por indicação objetiva, feita lá. O que não mudaria é o resto: o assoalho hipertônico e a bexiga dolorosa continuariam existindo, e a mulher com as duas coisas recebe os dois tratamentos ao mesmo tempo — porque, como o capítulo vizinho adverte, tratar apenas a endometriose em quem tem duas fontes de dor é a falha aparente mais comum de lá.
O que teria mudado se ela ainda menstruasse, e a dor tivesse calendário
Dor que piora nos dias perimenstruais numa mulher em supressão hormonal levanta primeiro a pergunta sobre o regime — pausa, esquecimento, cartela emendada — e depois a hipótese de doença ativa, e as duas são do capítulo de Endometriose. Este capítulo receberia a parte que não conhece calendário, se houvesse, e ela costuma haver: a mulher com componente cíclico e componente diário tem as duas doenças, e a segunda não some quando a primeira é tratada.
Variação do caso — resposta e reavaliação
Variação do retorno de Vanessa: a dor relacionada ao ciclo está controlada, mas a dor ao fim do dia melhora com intervenção no assoalho pélvico. A resposta sustenta um componente musculoesquelético associado. Registrar qual atividade voltou a fazer e manter o cuidado integrado.
Variação do caso — quando mudar o plano
Se surge dor aguda diferente, febre, sangramento novo ou perda de peso, reabrir a investigação dirigida. O diagnóstico de dor crônica não protege contra doença aguda. Se não houver alarme, revisar as hipóteses e o plano por componentes, evitando escalada automática de supressão hormonal.
O diagnóstico foi feito na consulta, com as cinco perguntas e o exame por camadas, e o tratamento começou no mesmo dia sem que nenhum exame fosse pedido. O que decidiu não foi um achado de imagem — a imagem já estava feita e estava certa —, e sim um toque unidigital que ninguém tinha feito em seis anos de diagnóstico. Repare no que não foi feito: o análogo do hormônio liberador de gonadotrofina, que trataria uma doença controlada com seis meses de menopausa temporária e deixaria intactas as três camadas que doíam; a laparoscopia de revisão, que olharia a superfície de uma pelve cujo problema estava no músculo; e a frase de que a dor era psicológica, que teria transformado um episódio depressivo moderado em explicação em vez de em diagnóstico com tratamento próprio. E repare no que foi mantido: o desogestrel, porque a endometriose é uma das cinco linhas do prontuário dela, e não a única.
Faça você
Fabiana Benevides tem 36 anos, dois filhos nascidos de cesariana, a última há quatro anos, e trabalha como caixa de supermercado. Tem dor pélvica há dois anos e uma proposta na mão: a ginecologista sugeriu histerectomia com retirada do ovário direito, para acabar com isso. A investigação já feita cabe numa linha: laparoscopia diagnóstica há oito meses com laudo de pelve sem alterações, colonoscopia normal há um ano, e ultrassonografia transvaginal de três semanas atrás com cisto anecoico simples de 3,1 cm no ovário direito, útero normal. Quando você pergunta por sistema, a história ganha endereço. A dor tem duas partes. Uma é uma queimação na virilha esquerda que desce para o grande lábio esquerdo, pior quando a calça aperta e quando ela fica sentada, exatamente sobre a ponta esquerda da cicatriz da cesariana. A outra é uma dor mais baixa e mais difusa que alivia depois de evacuar, com semanas de intestino preso alternando com semanas de fezes amolecidas e distensão que piora ao longo do dia. A micção é normal. Na relação dói na entrada. Não há sangue nas fezes, perda de peso nem sintoma noturno. Ao exame: ponto doloroso de 2 cm, medial e inferior à espinha ilíaca ântero-superior esquerda, sobre a cicatriz, com teste de Carnett positivo; ao cotonete, faixa de hipoestesia no grande lábio esquerdo e na raiz medial da coxa; ao toque unidigital, banda tensa no obturador interno esquerdo, que reproduz a dor de entrada; base da bexiga indolor; bimanual com útero móvel e indolor, anexos livres e sem massa palpável.
Passo 1 — o que a proposta cirúrgica pressupõe, e o que a história diz
A histerectomia com anexectomia pressupõe que a dor vem do útero ou do ovário direito. A história diz outra coisa: uma dor com assinatura de nervo — queimação, piora com a roupa, território definido — no lado esquerdo, sobre a cicatriz de uma incisão transversa, e uma dor com assinatura de intestino — alívio ao evacuar, alternância do hábito, distensão — sem sinal de alarme. Nenhuma das duas assinaturas é a de um útero nem a de um ovário, e o único achado do lado direito é um cisto de 3,1 cm.
Passo 2 — o que o cisto responde
Um cisto anecoico simples de 3,1 cm em mulher de 36 anos é o achado que o protocolo de atenção básica manda tranquilizar e não medicar, com repetição da imagem em até doze semanas, quando se espera o desaparecimento. Ele está do lado direito; a dor de nervo está à esquerda, e a dor intestinal não tem lado. O padrão da dor não é o padrão de um cisto funcional, e o achado é incidental — o que precisa ser escrito no prontuário com essa palavra, porque é ele que está sustentando a proposta de retirar um ovário.
Passo 3 — o que a cicatriz responde
Ponto de 2 cm sobre a extremidade de uma incisão transversa, Carnett positivo, queimação no território do grande lábio e da raiz da coxa, hipoestesia numa faixa ao cotonete: é a geografia da neuralgia do ilioinguinal ou do ílio-hipogástrico, que a régua de sociedade de 2021 descreve como associada a cesárea, histerectomia, parto e episiotomia, com ponto-gatilho bem definido e alteração local da sensibilidade. A laparoscopia normal era o esperado, porque o nervo está na parede, e não na cavidade. O bloqueio anestésico no ponto confirma a suspeita e é o primeiro tratamento, na mesma agulha.
Passo 4 — daqui em diante, a decisão é sua
Fabiana quer uma resposta hoje: opera ou não opera? Ela tem uma neuralgia de parede provável, uma síndrome do intestino irritável provável, um assoalho com banda tensa à esquerda que explica a dispareunia de entrada, e um cisto simples do lado oposto. A laparoscopia foi normal, a colonoscopia foi normal, e a proposta é retirar útero e ovário. Qual é a conduta, o que você faz na sala hoje, e o que diz a ela?
Ver como fecharíamos
A conduta é não operar, e a resposta a Fabiana tem três partes que precisam ser ditas na ordem. A primeira é o que a cirurgia proposta faria: retiraria um útero que está móvel e indolor e um ovário com um cisto funcional que some sozinho em até doze semanas, e deixaria intactos o nervo da cicatriz, o intestino e o assoalho — ela acordaria com a mesma dor, uma incisão nova sobre a parede que já tem um nervo doente, e sem ovário. A régua de sociedade de 2021 reserva a histerectomia à dor associada a leiomioma ou adenomiose sem resposta ao progestágeno, e mesmo nessa indicação cerca de 40% das mulheres seguem insatisfeitas; Fabiana não tem nem uma coisa nem outra. A segunda parte é o que se faz na sala hoje, e ela é o argumento: o bloqueio do ponto de parede com 2 a 3 mL de lidocaína a 1% sem vasoconstritor, com o Carnett refeito antes e a reavaliação dois minutos depois. Se a queimação da virilha cair muito ou sumir, a neuralgia está confirmada e tratada ao mesmo tempo — e a paciente que estava a caminho de uma histerectomia acaba de ver a dor de dois anos ceder a uma agulha fina, o que muda a conversa mais do que qualquer explicação. A série segue uma a duas vezes por semana, até quatro a oito aplicações; se não responder, ultrassonografia de parede para hérnia e endometrioma de cicatriz, e o bloqueio dirigido ao nervo, e não ao ponto. A terceira parte é o resto, iniciado no mesmo dia: os critérios de Roma conferidos e escritos — dor há dois anos, alívio com a evacuação, mudança de frequência e de forma, sem alarme, colonoscopia normal —, com o diagnóstico clínico de síndrome do intestino irritável que este capítulo assume no mínimo, hábito com horário, fibras, líquidos, sem antiespasmódico em série; a fisioterapia do assoalho pélvico com o achado escrito e a palavra relaxamento, para a banda do obturador interno que reproduz a dor de entrada; o cisto anotado como incidental, com repetição da ultrassonografia em até doze semanas e a paciente sabendo que ele não é a causa e que provavelmente não estará lá; e a linha de base — calendário de dois ciclos, dias de incapacidade, os dois questionários — escrita para o retorno de um mês. O que se diz a ela: que a dor dela tem três lugares, que nenhum deles é o útero nem o ovário, que o primeiro acabou de responder na sala, e que a cirurgia proposta trataria os dois órgãos que não doem. E o que se escreve para a ginecologista que propôs a cirurgia, sem desqualificá-la: os três achados, o resultado do bloqueio, e a hipótese por sistema — porque a proposta nasceu de uma pelve que parecia normal e de um cisto que parecia a única coisa a operar, e a pelve estava normal onde a laparoscopia olhou.
Um cisto anecoico simples de 2,8 cm em mulher de 31 anos é o achado que o protocolo de atenção básica manda tranquilizar e não medicar, com repetição da ultrassonografia em até doze semanas, quando se espera o desaparecimento — e a régua da massa anexial dispensa o marcador no cisto simples da pré-menopausa, porque ele sobe com menstruação, endometriose e qualquer irritação peritoneal e produz investigação sem indicação. A regra deste capítulo separa o achado da causa: um achado explica a dor quando o padrão da dor é o padrão daquele órgão e quando tratá-lo faz a dor sumir. Dor diária que piora sentada e alivia ao urinar tem o padrão do músculo e da bexiga, e não o de um cisto funcional, que não produz dor postural nem dor que muda com a micção. A lateralidade não faz a correspondência. Retirar o cisto é a cirurgia sem benefício que a investigação de um andar só produz; puncionar é o que a régua da massa anexial desaconselha, pelo desempenho ruim da citologia e pelo risco de extravasamento; e o contraceptivo para reabsorver o cisto adia a pergunta que a consulta deveria fazer — as cinco perguntas e o exame por camadas, que é o que acha a hipertonia do assoalho e a bexiga dolorosa que esse padrão sugere.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Escreva de memória, sem consultar: (1) as cinco perguntas, e para qual sistema aponta cada resposta; (2) a ordem do exame por camadas, e por que o toque unidigital vem antes do espéculo; (3) o teste de Carnett — o que é positivo e o que ele separa; (4) a pergunta de uma frase que separa a bexiga dolorosa da bexiga hiperativa; (5) os três cortes de duração dos documentos brasileiros, e qual deles abre o acesso ao Componente Especializado; (6) o que a laparoscopia vê e as quatro camadas que ela não vê; (7) a regra de bolso do achado incidental; e (8) o que se escreve no laudo da gabapentina para ele não voltar. Depois confira, e marque só o que faltou. Aplicação comentada: Dor diminuiu pouco, mas a paciente voltou a trabalhar e dormir melhor. Registre ganhos funcionais e ajuste o plano, sem medir resultado apenas por uma escala numérica.
Em 30 dias
Volte ao caso de Vanessa e troque um único dado, dizendo alto o que ele desloca. Se o toque tivesse encontrado nódulo retrocervical, para onde ela vai e o que continua sendo seu? Se ela evacuasse a cada quatro dias com esforço, qual tricíclico e por quê? Se o questionário de dor neuropática desse seis e o cotonete achasse hipoestesia numa faixa, o que entra, por qual protocolo, e com qual código no laudo? Se a dor piorasse nos dias em que ela esquece o desogestrel, de quem é a pergunta? Depois refaça com Fabiana: se a queimação não cedesse ao bloqueio do ponto, o que muda no diagnóstico e no próximo bloqueio? Se ela tivesse 54 anos e sangue nas fezes, que capítulo assume? E se o cisto, em doze semanas, tivesse crescido e ganhado uma área sólida, para qual capítulo ela vai — e o que isso não muda nas outras três camadas? Por fim, refaça de cabeça a conta do fluxograma: onde cai a mulher com quatro meses de dor em cada um dos cinco documentos, e o que você faz com ela hoje.
Agora atenda
Agora atenda a mulher que entra com a pasta grossa e a frase pronta — eu já sei que não é nada. Ela traz exames normais, uma laparoscopia sem achado e um adjetivo que ouviu em algum consultório. O que se avalia nesta estação não é o seu diagnóstico ginecológico: é se você pergunta por sistema em vez de por órgão, se registra o que a dor faz com a micção, a evacuação, a postura e a relação, se examina por camadas na ordem certa — parede, cotonete, um dedo só antes do espéculo —, se dá nome a cada camada que encontrar em vez de um nome só, se começa o tratamento de cada uma no mesmo dia com o que a farmácia tem, e se sai da sala com a linha de base escrita e o prazo de cada coisa dito em voz alta. E se, em algum momento, você substitui o adjetivo por um mecanismo que ela consiga repetir em casa.
