132 min de leitura

Ginecologia e ObstetríciaGinecologia

Amenorreia: em que andar parou

Amenorreia primária e secundária: investigação

A menstruação depende de quatro andares em série, e a ausência dela é uma falha em algum deles — a investigação é localizá-la, não decorar causas. Os documentos brasileiros correntes definem a mesma ausência de seis maneiras, e o protocolo do ministério que a atenção básica usa, lido como está impresso, manda a menina de 15 anos sem nenhum desenvolvimento puberal esperar.

Fontes deste capítulo

Simões RS, Baracat MCP, Maciel GAR, Soares Júnior JM, Baracat EC. Amenorreia secundária: algoritmo diagnóstico. Femina. 2025;53(2):138-43

Brasil. Ministério da Saúde. Instituto Sírio-Libanês de Ensino e Pesquisa. Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres. Brasília: Ministério da Saúde, 2016. 230 p. ISBN 978-85-334-2360-2. Aprovado pela Portaria GM/MS n. 679, de 2 de junho de 2016

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Síndrome de Turner. Portaria Conjunta SAES/SECTICS n. 15, de 31 de julho de 2025

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hiperprolactinemia. Portaria Conjunta SAES/SCTIE n. 19, de 23 de novembro de 2020

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Manual de Atenção às Mulheres na Transição Menopausal e Menopausa. 1. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2026. 482 p. Versão preliminar

01

Responda antes de ler

Dois documentos brasileiros correntes definem amenorreia secundária de maneiras diferentes: um usa três meses consecutivos sem menstruação; outro usa no mínimo três ciclos em quem menstruava regularmente. Para uma mulher com ciclos de 38 dias, qual é a consequência prática dessa divergência?

02

O paciente que você vai ver

Quarta-feira, dez e vinte da manhã, unidade básica de um bairro de casas geminadas. A agenda tem dezesseis nomes e o sétimo é o de Débora Saraiva, 27 anos, professora de educação física numa escola municipal. Ela entra ainda de tênis, com a mochila do trabalho, e a primeira frase é uma explicação de por que não precisaria estar ali: "minha irmã que marcou, eu falei que não é urgente". Faz cinco meses que não menstrua. Não sente nada. Não quer engravidar agora — o namoro terminou em março — e portanto, na conta dela, uma menstruação que não vem é um problema a menos.

A história que sai nos minutos seguintes é a de uma pessoa que fez tudo certo. Menstruou pela primeira vez aos 12 anos e sempre teve ciclos que ela chamava de relógio, de 28 a 30 dias. Tomou pílula combinada dos 19 aos 25 anos; parou há dois anos e os ciclos voltaram em dois meses, regulares. Em outubro do ano passado se inscreveu numa meia-maratona, passou a correr seis vezes por semana, e no mesmo mês tirou o pão e o arroz do prato porque um vídeo dizia que carboidrato atrapalha o rendimento. Emagreceu 9 quilos em oito meses. Está com 51 quilos para 1,64 metro. A última menstruação foi em fevereiro; março veio mais fraca; depois, nada.

Ela nega sair de leite pelas mamas, nega dor de cabeça, nega mudança na visão. Não toma medicamento nenhum. Não fez curetagem, nunca engravidou, não teve infecção ginecológica. Não sente calor de repente, não tem secura vaginal. Dorme mal, mas atribui ao treino de manhã cedo. Quando você pergunta se alguém na família parou de menstruar cedo, ela ri: a mãe menstruou até os 52 e reclamava disso.

No exame, pressão de 100 por 60, frequência de 54 batimentos por minuto, índice de massa corporal de 19,0. Não há pelos em distribuição masculina, não há acne, não há acantose. As mamas não expelem secreção à expressão. A tireoide é de tamanho normal. O exame ginecológico é normal. O teste rápido de gravidez, feito na unidade antes de qualquer pergunta sobre o namoro — porque essa é a ordem —, é negativo.

Você tem, portanto, uma mulher saudável, sem queixa, com um eixo que parou de funcionar há cinco meses, convencida de que a única consequência disso seria uma gravidez que ela não quer. E tem uma decisão a tomar antes de escrever qualquer pedido: em qual dos quatro andares dessa cadeia o problema está — no comando central, na hipófise, no ovário ou na saída — e o que muda, para ela, se nada for feito. Este capítulo existe para as duas perguntas. A segunda é a que Débora não sabe que deveria fazer, e é a conversa que o interno raramente sabe ter.

03

Quem adoece disso

Fora das três causas fisiológicas — gravidez, amamentação e menopausa —, cerca de 3% a 4% das mulheres em idade reprodutiva passam por amenorreia secundária, e as três etiologias mais frequentes são a síndrome dos ovários policísticos, a amenorreia hipotalâmica funcional e a insuficiência ovariana prematura. A distribuição por andar, na régua brasileira de 2025, é um mapa de onde procurar: pouco mais de um terço das causas não fisiológicas está no hipotálamo, e nesse terço a maioria é funcional; cerca de um sexto está na hipófise, com o prolactinoma à frente; quatro em cada dez estão no ovário; sete em cada cem estão no trato de saída, sobretudo aderências intrauterinas e estenose do canal cervical; e um em cada cem vem de doença sistêmica. Repare no que esse mapa diz sobre a paciente da abertura: com peso caindo e treino subindo, ela está na fatia mais provável — e a fatia mais provável é justamente a que só se afirma depois de afastar as outras.

A amenorreia primária tem outra estatística de fundo, e ela é de cronologia. A menarca acontece de dois a três anos depois do início dos caracteres sexuais secundários, e em cerca de 80% das meninas o primeiro sinal é o broto mamário, seguido dos pelos pubianos. Isso significa que a menina que desenvolveu as mamas aos 11 anos e ainda não menstruou aos 13 está dentro do esperado, e a que as desenvolveu aos 10 e não menstruou aos 14 e meio passou do prazo que a própria fisiologia dá. A síndrome de Turner, causa clássica de amenorreia primária sem desenvolvimento, é também a causa mais comum de baixa estatura em meninas saudáveis depois da baixa estatura familiar e do atraso constitucional; quase metade das pacientes tem monossomia completa do X, e a puberdade espontânea acontece em apenas cerca de 14% delas, e em um terço das que têm mosaicismo. É por isso que o protocolo brasileiro de 2025 manda excluir a síndrome em qualquer adolescente com amenorreia primária ou secundária, especialmente se ela for baixa para a idade.

A hiperprolactinemia tem prevalência de cerca de 0,1% na população geral, com incidência cinco vezes maior nas mulheres, e é uma das alterações hormonais mais frequentes da prática clínica. O que essa frequência esconde é a proporção que vem de medicamento: antipsicóticos, antidepressivos, anticonvulsivantes, opiáceos e a metoclopramida elevam a prolactina, alguns deles a valores que se confundem com os de tumor. Numa unidade básica em que boa parte das mulheres jovens em acompanhamento de saúde mental usa risperidona, a causa medicamentosa não é uma curiosidade da lista: é a primeira coisa a conferir.

Por fim, a amenorreia mais comum de todas é a que ninguém investiga porque é esperada. Entre as usuárias do injetável trimestral de medroxiprogesterona, 50% a 70% deixam de menstruar no primeiro ano de uso e 80% aos cinco anos; depois da suspensão, o retorno da menstruação pode levar até um ano. Quem atende mulheres precisa saber desses números antes de pedir um hormônio folículo-estimulante numa usuária de injetável, porque o resultado vai medir o método, não a mulher — e porque a ausência esperada de sangramento é a que mais gera consulta desnecessária e a que menos precisa de exame.

04

Por que acontece o que acontece

Menstruar exige quatro andares funcionando em série: o hipotálamo liberando o hormônio liberador de gonadotrofinas em pulsos; a hipófise anterior traduzindo esses pulsos em hormônio folículo-estimulante e luteinizante; o ovário respondendo com estradiol e, depois da ovulação, progesterona; e um trato de saída — endométrio, canal cervical e vagina — capaz de responder ao hormônio e de deixar o sangue passar. A fisiologia de cada andar é do capítulo Ciclo menstrual e eixo hipotálamo-hipófise-ovário. O que este capítulo precisa do mecanismo é outra coisa: entender por que a falha em cada andar deixa uma assinatura diferente nos dois exames que localizam o problema, e por que algumas assinaturas se leem no corpo antes de qualquer exame.

Metáfora dos níveis de investigação da amenorreia: hipotálamo, hipófise, ovários e via de saída
Metáfora dos níveis de investigação da amenorreia: hipotálamo, hipófise, ovários e via de saída. A investigação integra os níveis conforme a história.

A assinatura está no par gonadotrofina e estradiol, e ela funciona como a de qualquer circuito com retroalimentação. Se o ovário falha, o estradiol cai, o freio sobre a hipófise some e o hormônio folículo-estimulante sobe: é o hipogonadismo hipergonadotrófico, e a hipófise gritando é a prova de que ela e o hipotálamo estão intactos. Se o comando falha — o gerador de pulsos silencia ou a hipófise não responde —, o estradiol cai e a gonadotrofina não sobe, porque não há quem a produza: é o hipogonadismo hipogonadotrófico. Se os dois hormônios estão normais e mesmo assim não há sangramento, o ovário está produzindo e a hipófise está lendo, e o problema é de comando fino, como na anovulação crônica, ou de saída. Nenhum dos dois hormônios sozinho faz essa leitura; a combinação faz.

Há uma assinatura que precede o laboratório e que, na amenorreia primária, ordena toda a investigação: as mamas. O broto mamário não nasce sem estrogênio, e estrogênio não circula em quantidade sem folículo ovariano recrutado por gonadotrofina. Uma adolescente com mamas desenvolvidas carrega no corpo a prova de que, em algum momento, hipotálamo, hipófise e ovário trabalharam em série — e portanto o que a impede de menstruar está adiante, no útero ou no canal, ou é um comando que funcionou e parou. Uma adolescente sem nenhum desenvolvimento mamário aos 13 anos carrega a prova oposta: nunca houve estrogênio, e o problema está atrás, no ovário que não tem folículos ou no comando que nunca ligou. É uma pergunta de exame físico que separa o problema em dois mundos antes de qualquer dosagem, e é por isso que o algoritmo brasileiro da amenorreia primária começa por ela, e não pelo laboratório.

O comando central é desligado por sinais de energia. O gerador de pulsos hipotalâmico é sensível à disponibilidade energética, e a restrição de comida, o emagrecimento pronunciado, o treino além da conta, o estresse que dura e a doença crônica reduzem a frequência dos pulsos até a hipófise parar de estimular o ovário — que fica intacto e ocioso. É a amenorreia hipotalâmica funcional. Duas consequências saem do mecanismo. A primeira é laboratorial: a assinatura é gonadotrofina baixa ou normal com estradiol baixo, indistinguível, pelo exame, da de uma lesão hipotalâmica ou hipofisária — o que faz dela um diagnóstico de exclusão, não de primeira impressão. A segunda é o custo: enquanto o comando está desligado, não há estrogênio, e a mulher que não sente falta da menstruação está, sem sentir, sem o hormônio que mantém a massa óssea, o endotélio e a mucosa vaginal. Quando falta energia, o eixo reprodutivo é o que o organismo desliga primeiro, e é dos últimos a religar quando ela volta.

Dois hormônios de fora do eixo o interrompem pelo alto. A prolactina freia o gerador de pulsos sem intermediário — e por isso tudo o que a faz subir para o ciclo: o prolactinoma, a haste hipofisária comprimida por outra lesão, o hipotireoidismo primário, o rim ou o fígado que falham e, com frequência muito maior do que a lista sugere, o medicamento. A galactorreia pode existir ou não, e a sua ausência não afasta nada. Os hormônios tireoidianos agem sobre a mesma região por via própria, e o hipotireoidismo primário ainda eleva a prolactina, somando as duas vias. Essa vizinhança é o motivo de prolactina e hormônio tireoestimulante entrarem no primeiro painel de toda mulher que parou de menstruar, e de um poder ser a causa do outro.

O ovário para cedo por dois caminhos que o exame não distingue no primeiro dia. Na forma afolicular, o estoque de folículos se esgotou — é o que acontece na disgenesia gonadal e nas aberrações cromossômicas, e o que a quimioterapia e a radioterapia pélvica produzem quando o dano é completo. Na forma folicular, há folículos preservados que deixaram de responder, e cerca de metade das mulheres com insuficiência ovariana prematura tem função ovariana intermitente, com gestação espontânea em até 10%. A assinatura é a mesma nas duas — gonadotrofina alta com estradiol baixo —, e é justamente porque a função pode oscilar que uma única dosagem não fecha o diagnóstico e a régua exige duas, separadas por semanas. A autoimunidade explica cerca de um quinto dos casos, com a tireoide à frente; o que se faz com isso depois do diagnóstico pertence ao capítulo Climatério e menopausa.

A saída falha de duas maneiras que a anamnese separa. A saída pode nunca ter existido — agenesia do útero e do canal, septo vaginal transverso, hímen imperfurado —, e então a amenorreia é primária, as mamas estão presentes e, quando o útero existe e o canal não, o sangue se acumula e dói todo mês sem sair. Ou a saída existiu e foi destruída: as aderências intrauterinas depois de curetagem, cirurgia ou infecção, e a estenose do canal cervical depois de procedimento no colo. Nesse caso a amenorreia é secundária, o eixo está perfeito, os hormônios voltam normais, e o endométrio ou não existe mais ou não consegue sair. É o único andar em que a investigação não é hormonal: é de imagem e de endoscopia.

Falta o mecanismo do teste que a prática brasileira mais usou e que os documentos passaram a desaconselhar: a prova de privação com progestagênio. O raciocínio é simples, e é exatamente por ser simples que engana. Dar progestagênio a uma mulher que não menstrua e ver sangue depois de suspendê-lo prova três coisas de uma vez — havia estrogênio preparando o endométrio, o endométrio responde, e o canal está aberto. Não ver sangue, porém, não prova nenhuma delas: pode faltar estrogênio, pode faltar endométrio capaz de responder, ou pode faltar saída. A resposta negativa tem três leituras, e é essa ambiguidade, somada aos falsos-positivos e falsos-negativos, que fez o teste sair do centro do fluxograma para a margem. Onde ele ainda cabe, e como se lê, é uma das divergências deste capítulo.

05

Como se apresenta de verdade

Amenorreia é um sinal cuja investigação começa por gravidez, desenvolvimento puberal e anatomia. Você deve distinguir ausência de menstruação por obstrução, falta de estímulo hormonal ou falência do órgão-alvo. A ordem das perguntas e do exame pode evitar um painel de dosagens que não responde ao problema.

Percurso clínico: Localizar com clínica e hormônios

Exclua gestação e organize história, anatomia quando pertinente e painel inicial. Sintomas de hipoestrogenismo não localizam sozinhos o defeito. FSH e estradiol, interpretados com contexto e medicamentos, ajudam a separar origem ovariana e central. Evite converter ausência de um sintoma em exclusão absoluta.

A que diz que não é urgente

É a apresentação mais comum e a mais traiçoeira, porque não há queixa. A mulher jovem parou de menstruar há meses, não sente nada, não quer engravidar, e por isso chega tarde e chega justificando a consulta. O interno precisa saber, antes de abrir a boca, o que está em jogo nesse silêncio: um eixo parado é um corpo sem estrogênio, e estrogênio ausente por meses a fio custa massa óssea numa idade em que o pico ósseo ainda está sendo construído, além de mucosa vaginal, endotélio e humor. A régua brasileira de 2026 lista a amenorreia primária ou secundária entre os fatores de risco para osteoporose, ao lado da menopausa precoce, e é essa a frase que precisa chegar à paciente que não vê problema em não menstruar.

Há um segundo motivo para não aceitar o "não é urgente": a causa pode ser tratável e progressiva. Um prolactinoma cresce enquanto ninguém dosa prolactina; um hipotireoidismo se agrava; uma insuficiência ovariana que ainda oscila deixa de oscilar. E há o motivo que precede todos: a mulher que não quer engravidar pode estar grávida, e a amenorreia que ela descartou como consequência é, na estatística, a causa mais provável.

Na anamnese dessa paciente, a ordem importa. Primeiro, o que precede o raciocínio: vida sexual e sintomas de gravidez. Depois, o que localiza o andar de cima: peso atual e peso há um ano, restrição alimentar, carga de exercício, estressores, doença crônica. Depois, o que localiza a hipófise: galactorreia, cefaleia, alteração de campo visual, e a lista completa de medicamentos, inclusive os de saúde mental e os antieméticos. Depois, o ovário: fogachos, secura vaginal, sono ruim, história familiar de menopausa antes dos 40, quimioterapia ou radioterapia. Depois, a saída: curetagem, cirurgia no colo, infecção uterina, dor pélvica cíclica. E, sempre, o método contraceptivo em uso e a data da última dose ou aplicação.

A adolescente que nunca menstruou: a pergunta das mamas

A amenorreia primária tem uma apresentação que a secundária quase nunca tem: carrega questão anatômica e de desenvolvimento. Por isso a primeira coisa a fazer não é pedir exame, é olhar. Houve desenvolvimento das mamas? Se sim, houve estrogênio, e portanto houve ovário respondendo a gonadotrofina em algum momento — o problema está adiante, no útero, no canal ou na vagina, ou é um eixo que funcionou e parou. Se não, nunca houve estrogênio, e o problema está atrás, no ovário sem folículos ou no comando que nunca ligou. Essa única pergunta divide a investigação em dois mundos, e é o algoritmo brasileiro da amenorreia primária: caracteres presentes, ausentes ou discordantes.

Com as mamas presentes, o exame que decide é o do trato de saída e a imagem do útero. Hímen imperfurado e septo vaginal transverso se apresentam com dor pélvica cíclica em adolescente que nunca sangrou, às vezes com massa palpável — é a criptomenorreia, o sangue que existe e não sai, e a inspeção da vulva a resolve. Útero ausente ao ultrassom, com mamas desenvolvidas, abre uma bifurcação que o cariótipo fecha: agenesia dos ductos de Müller, com pelos pubianos normais, ou insensibilidade aos androgênios, com pelos escassos ou ausentes. O interno vai até aqui — reconhecer o padrão, pedir a imagem, pedir o cariótipo e encaminhar. O que se faz com o resultado, e como se conversa com uma adolescente sobre um cariótipo que não é o esperado, pertence a Puberdade precoce e distúrbios do desenvolvimento sexual, nesta apostila, e a conversa não se improvisa numa unidade básica.

Sem as mamas, a pergunta seguinte é a estatura. Uma menina baixa para a idade, sem nenhum desenvolvimento aos 13 anos, com hormônio folículo-estimulante elevado, é síndrome de Turner até prova em contrário, e o protocolo brasileiro de 2025 é explícito: o diagnóstico deve ser excluído em qualquer adolescente com amenorreia primária ou secundária, especialmente com baixa estatura — e a exclusão se faz com cariótipo. Sem mamas e com gonadotrofina baixa, o problema é central, e entra a anosmia da síndrome de Kallmann, a doença crônica, o déficit energético da atleta de 14 anos, e a lesão que precisa de imagem. Discordância entre os caracteres — mamas ausentes com pelos presentes, virilização — aponta para androgênio de origem ovariana ou adrenal, e a investigação do hiperandrogenismo é de um capítulo futuro.

Fica a pergunta de quando essa menina passa a ser paciente. Os documentos brasileiros não concordam, e a discordância é uma das auditorias deste capítulo. A régua mais nova põe o limite em 13 anos sem desenvolvimento e 15 anos com desenvolvimento adequado, ou três anos depois do broto mamário quando ele veio antes dos 10; a régua da atenção básica e o material de ensino federal usam 14 e 16. A decisão para a menina à sua frente está na divergência correspondente, mas uma coisa não depende de régua: menina sem nenhum broto mamário aos 13 anos não espera. Menina com mamas, sem dor e sem massa, com dois anos e meio de telarca, pode esperar seis meses com data marcada.

O comando desligado por fora: a que emagreceu, a que treina, a que não dorme

A amenorreia hipotalâmica funcional se apresenta pela história e por ausências. A história é de disponibilidade energética que caiu: perda de peso, mesmo sem atingir baixo peso; restrição alimentar, muitas vezes racionalizada como escolha saudável; exercício extenuante; estresse prolongado; doença crônica. As ausências são as de tudo o mais — sem galactorreia ou hirsutismo, podendo haver sintomas de hipoestrogenismo, sem medicamento, sem procedimento uterino. O exame mostra frequência cardíaca baixa, pressão baixa, índice de massa corporal normal ou reduzido, e nada mais.

Duas advertências definem como esse quadro entra no raciocínio. A primeira: ele é diagnóstico de exclusão. A assinatura laboratorial — gonadotrofina baixa ou normal com estradiol baixo — é a mesma de uma lesão hipotalâmica ou hipofisária, de uma doença sistêmica e de um hipopituitarismo depois de hemorragia pós-parto. Nomear a causa funcional na primeira consulta, porque a paciente corre e emagreceu, é o erro de ancoragem mais comum deste tema. A segunda: ela é a mais frequente das causas hipotalâmicas, e a régua brasileira de 2025 a coloca como causa mais comum do hipogonadismo hipogonadotrófico. As duas frases são verdadeiras ao mesmo tempo: a hipótese mais provável é a que se afirma por último.

O que faz o interno olhar para a hipófise nessa paciente são sinais de alarme que a régua nomeia: cefaleia, déficit neurológico focal, alteração de campo visual, trauma craniano, história de hemorragia pós-parto com falha de lactação, e prolactina elevada. Sem nenhum deles, e com peso e treino que explicam, o comando desligado por fora é a hipótese de trabalho — e a conversa passa a ser sobre disponibilidade energética, apoio psicossocial e, nos casos graves ou com transtorno alimentar, equipe multidisciplinar. Quando a mesma paciente tem 14 anos e nunca menstruou, o mesmo mecanismo produz amenorreia primária, e a estatura preservada com mamas incipientes é o que a separa da disgenesia gonadal.

A prolactina e a lista de medicamentos

A hiperprolactinemia se apresenta como amenorreia ou oligomenorreia, com ou sem galactorreia, com ou sem queda de libido, e frequentemente sem nada além da menstruação que parou. A galactorreia, quando existe, é procurada por expressão das mamas no exame, não esperada como queixa. E a pista mais valiosa não está no corpo: está na receita. Antipsicóticos, antidepressivos, anticonvulsivantes, opiáceos e metoclopramida elevam a prolactina, e sob risperidona e metoclopramida a prolactina pode passar de 200 ng/mL — faixa em que quem não sabe pensa em tumor.

A régua brasileira em uso é o protocolo público de hiperprolactinemia de 2020, e ele dita a ordem: antes de qualquer imagem, afastar causa fisiológica, medicamentosa, hipotireoidismo primário e insuficiência renal e hepática. Ele também dita o corte, e aqui há um problema que o interno precisa conhecer: o protocolo de 2020 diz que o limite superior de normalidade costuma não passar de 25 ng/mL, conforme o método; o protocolo da atenção básica de 2016, ainda em uso, manda considerar aumentada a prolactina acima de 40 ng/mL. Uma mulher com 32 ng/mL tem prolactina alta para um documento do ministério e normal para o outro. A conta está nas notas deste capítulo.

O interno vai até o ponto de localizar: prolactina elevada, medicamento identificado ou não, hipotireoidismo afastado ou não, sinal de alarme presente ou não. Se há medicamento, a conversa é com quem o prescreveu — não se suspende antipsicótico por causa de uma prolactina. Se não há, ou se há sinal de compressão, entra a imagem da sela. Macroprolactinemia, efeito gancho e o tratamento com agonista dopaminérgico são de um capítulo de hiperprolactinemia e galactorreia que virá.

O ovário que parou cedo

A insuficiência ovariana prematura se apresenta como a menopausa se apresentaria, décadas antes da hora: menstruação que rareia e para, fogachos, suores noturnos, secura vaginal, dispareunia, sono ruim, humor instável. Mas ela é diferente da menopausa em três coisas, e o interno precisa das três. A função pode oscilar — cerca de metade das mulheres tem atividade ovariana intermitente, e a gestação espontânea acontece em até 10% —, o que muda a conversa sobre fertilidade e sobre contracepção. A causa precisa ser procurada — cariótipo abaixo dos 30 anos, autoimunidade em cerca de um quinto dos casos com a tireoide à frente, quimioterapia e radioterapia, tabagismo, infecções. E a reposição hormonal não é alívio de sintoma, é substituição do que faltou cedo demais, mantida até a idade esperada da menopausa, ao redor dos 50 anos.

O que a apresenta ao interno, no entanto, é quase sempre o painel: hormônio folículo-estimulante elevado numa mulher de 30 anos que veio por amenorreia. E aqui a régua brasileira é unânime num ponto e divergente noutro. Unânime: uma dosagem não fecha, repete-se com intervalo de semanas — quatro a seis na régua ministerial de 2026, pelo menos um mês no artigo brasileiro de 2024, pelo menos quatro semanas no artigo de 2025 — e o estradiol baixo confirma o andar. Divergente: o número. Vinte, sem unidade, no material de ensino federal; 25 mUI/mL no artigo de 2024; 25 a 30 mUI/mL no manual de 2026; nenhum número nos dois documentos que apenas dizem elevado. A insuficiência ovariana prematura tem, além disso, um critério de duração próprio, de pelo menos quatro meses de disfunção menstrual, que não coincide com nenhuma das definições de amenorreia.

Este capítulo assume o diagnóstico da insuficiência ovariana prematura dentro da investigação da amenorreia — a leitura do painel, a repetição, o cariótipo, o que a rede oferece e a conversa sobre o custo de não tratar — e cede o seguimento: a pesquisa de autoimunidade associada, a escolha do regime de reposição e o acompanhamento ao longo dos anos pertencem ao capítulo Climatério e menopausa e ao capítulo Terapia hormonal da menopausa. A fronteira fica no diagnóstico confirmado e na primeira consulta depois dele.

A saída fechada, e a saída suprimida de propósito

A causa uterina adquirida se apresenta pela história, e a história tem sempre um procedimento: curetagem depois de abortamento ou de parto, cirurgia de alta frequência ou conização no colo, histeroscopia cirúrgica, infecção uterina. A mulher menstruava, passou pelo procedimento, e depois dele o sangramento rareou ou parou — às vezes com dor cíclica, se o sangue se forma e não sai. Os hormônios voltam todos normais, porque o eixo está intacto. O que confirma é a imagem e a endoscopia: ultrassonografia transvaginal, histerossonografia, histerossalpingografia e histeroscopia, conforme a régua de 2025. É a única causa deste capítulo em que o laboratório normal é o próprio achado.

A saída suprimida de propósito é a amenorreia sob método contraceptivo, e ela é a mais frequente de todas. Sob injetável trimestral, é o esperado: 50% a 70% no primeiro ano, 80% em cinco anos, e o retorno da menstruação depois da suspensão pode levar até um ano. Sob sistema intrauterino de levonorgestrel, é o esperado em boa parte das usuárias. Sob pílula combinada, o sangramento da pausa não é menstruação, e a sua ausência não é amenorreia — é endométrio fino demais para descamar. O protocolo da atenção básica de 2016 acrescenta os prazos depois de suspender a pílula: a menstruação em geral volta em dois meses, mas pode levar até seis.

O interno assume aqui apenas o reconhecimento: saber que a ausência é esperada, saber quanto tempo esperar depois da suspensão, e saber que dosar hormônio do eixo sob método mede o método. O mecanismo de cada método, a elegibilidade e o aconselhamento pertencem aos capítulos Contracepção hormonal combinada e Contracepção de longa duração. E a regra que os três capítulos compartilham: mulher em amenorreia sob método, com queixa nova ou com dúvida sobre adesão, faz teste de gravidez antes de qualquer outra coisa.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação da amenorreia tem uma ordem, e a ordem não é a do laboratório: é a da probabilidade e do custo de errar. Primeiro o que mata ou muda tudo se passar despercebido; depois o que localiza o andar com quatro exames; depois o que cada resultado pede em seguida. As seis seções seguem a ordem das decisões, e três delas terminam numa fronteira que este capítulo declara pelo nome.

Uma advertência que vale para todas: nenhuma dosagem deste capítulo se interpreta sob método hormonal, e nenhuma se repete sem que a primeira tenha sido colhida na condição certa. Em quem ainda sangra, os exames do eixo têm dia — entre o primeiro e o quinto do ciclo, pela régua da federação; entre o segundo e o quinto, pela régua ministerial. Em quem está em amenorreia, não há dia a respeitar: colhe-se quando for possível, e é essa a única facilidade que a amenorreia oferece.

Primeiro, sempre: está grávida?

Antes de qualquer raciocínio sobre andares, o teste de gravidez — e antes de qualquer pergunta sobre vida sexual, porque a resposta a essa pergunta não muda a indicação. A justificativa é dupla. Fisiológica: a gestação é o eixo funcionando, não falhando, e é a causa mais comum de menstruação que não vem em mulher com útero. Prudencial: tudo o que este capítulo manda fazer depois — dosar, prescrever progestagênio, agendar imagem — é construído sobre um resultado negativo, e o custo de construir sobre um positivo é uma gestante recebendo hormônio e radiação.

A régua da atenção básica é operacional e vale ser conhecida: teste rápido de gravidez, que pode ser feito dentro ou fora da unidade e entregue à mulher adulta, à adolescente ou à parceria sexual; se a última menstruação passou de doze semanas, procurar batimentos cardíacos fetais com o sonar antes de qualquer outra coisa; se o atraso é curto e o teste é negativo, aguardar completar sete dias ou antecipar a dosagem sérica. O teste sérico tem código próprio na tabela de procedimentos do SUS. Nada disso exige especialista, e nada disso admite ser pulado porque a paciente tem 15 anos, porque disse que não tem relações, ou porque o namoro acabou.

Um resultado positivo tira a paciente deste capítulo. Um negativo não tira ninguém de lugar nenhum: libera a investigação, e precisa ser repetido a cada atraso novo, em cada consulta em que se vá prescrever ou pedir imagem — um negativo de dois meses atrás não vale para hoje.

Segunda pergunta: ela já menstruou alguma vez?

É a bifurcação entre primária e secundária, e ela importa porque a primária carrega questão anatômica e de desenvolvimento que a secundária quase nunca tem. Na secundária, o útero e o canal existiram e funcionaram: o problema anatômico, quando existe, é adquirido e vem com um procedimento na história. Na primária, o útero pode nunca ter existido, o canal pode estar fechado, o ovário pode não ter folículos desde o nascimento, e a resposta a essas hipóteses não é hormonal — é o exame físico, o ultrassom e o cariótipo.

Por isso a investigação da amenorreia primária começa pelo corpo: estatura e velocidade de crescimento, estádio das mamas e dos pelos, estigmas — pescoço alado, implantação baixa das orelhas, cúbito valgo —, inspeção da vulva e do hímen, e, quando possível, a avaliação do canal vaginal. Com mamas presentes, segue-se ao ultrassom pélvico para saber se há útero. Útero presente com saída aberta e sem dor: a investigação passa a ser a mesma da secundária. Útero ausente: cariótipo. Sem mamas: hormônio folículo-estimulante, e o resultado divide entre ovário e comando — alto, cariótipo; baixo ou normal, imagem do sistema nervoso central e procura da causa central. É o algoritmo do material de ensino federal de 2021, e é também o que a régua de 2025 desenha quando separa a primária por desenvolvimento puberal normal ou alterado.

Vale dizer o que a régua não diz. Nenhum dos documentos brasileiros consultados fixa em que ponto da investigação da amenorreia primária o interno para e o especialista assume. Este capítulo fixa: o interno reconhece o padrão, faz o exame físico completo, afasta a gravidez, pede o ultrassom e o painel, pede o cariótipo quando o padrão o exige — útero ausente com mamas, ou gonadotrofina alta sem mamas — e encaminha com tudo isso em mãos. A conversa sobre o resultado do cariótipo não é dele, e a puberdade tardia como entidade, com o atraso constitucional à frente, pertence a Baixa estatura e puberdade tardia: familiar, constitucional, deficiência de hormônio do crescimento e hipogonadismo, na apostila de Endocrinologia Pediátrica.

O painel mínimo, e o que cada resultado localiza

Afastada a gravidez, o painel inicial da amenorreia secundária é curto e é o mesmo em todas as réguas brasileiras correntes: hormônio folículo-estimulante, prolactina e hormônio tireoestimulante. O estradiol entra pareado ao folículo-estimulante, porque é a leitura conjunta que separa o andar alto do baixo — e ele fica fora da lista de exames do protocolo público de ovários policísticos, embora tenha código na tabela do SUS — o que faz diferença em muitos serviços. O hormônio luteinizante e a relação entre os dois não constam da lista nem da régua, e não fazem falta. O antimülleriano não tem lugar aqui.

Cada resultado responde a uma pergunta distinta. Tireoestimulante alterado: a tireoide é a causa, ou parte dela — trate ou investigue, e reavalie o ciclo depois; o hipotireoidismo como entidade é de um capítulo de endocrinologia que virá. Prolactina elevada: reveja a lista de medicamentos, afaste hipotireoidismo primário e insuficiência renal e hepática, e só então pense em imagem. Folículo-estimulante elevado com estradiol baixo: o ovário falhou — repita e siga para a seção seguinte. Folículo-estimulante baixo ou normal com estradiol baixo: o comando falhou — procure a causa funcional e os sinais de alarme. Os dois normais: o ovário produz e a hipófise lê, e a pergunta passa a ser hiperandrogenismo e saída.

Um detalhe de agenda separa quem sabe do que está fazendo de quem repete um pedido: em quem está em amenorreia não há dia do ciclo, e todos esses exames se colhem quando a paciente puder — a régua da federação diz isso com todas as letras. A prolactina tem condição própria: qualquer hora do dia, sem estresse excessivo na punção, e uma única determinação costuma bastar. E há uma régua de exclusão que serve de espelho: o protocolo público da síndrome dos ovários policísticos manda afastar hiperprolactinemia, tireopatias, síndrome de Cushing e hiperplasia adrenal congênita antes de nomear a síndrome — a mesma lista, vista de outro capítulo.

Folículo-estimulante alto: repetir, contar a idade, pedir cariótipo

Gonadotrofina elevada com estradiol baixo diz que o ovário parou de responder, e essa é a única leitura em que o interno precisa resistir a fechar o diagnóstico na primeira consulta. A régua brasileira exige repetição: quatro a seis semanas de intervalo no manual ministerial de 2026, pelo menos um mês no artigo de 2024, pelo menos quatro semanas no artigo de 2025. A razão não é burocrática: a função ovariana na insuficiência prematura oscila, cerca de metade das mulheres tem atividade intermitente, e um valor isolado pode ser o pico de uma oscilação.

Confirmado o valor elevado em duas amostras, a idade decide o passo seguinte. Abaixo dos 30 anos, o cariótipo é obrigatório pela régua de 2025, porque a disgenesia gonadal e as aberrações cromossômicas explicam parte desses casos e têm implicação para a paciente e para a família. Abaixo dos 40, o diagnóstico é insuficiência ovariana prematura, e ele tem critério próprio de duração — pelo menos quatro meses de disfunção menstrual — e corte próprio de gonadotrofina, que os documentos escrevem de maneiras diferentes e que este capítulo audita nas notas. Acima dos 40 e abaixo dos 45, é menopausa precoce; acima dos 45, é a transição esperada, e as duas pertencem ao capítulo Climatério e menopausa.

O que muda para a paciente com o diagnóstico confirmado é o assunto da conduta, mas o essencial cabe aqui: a reposição hormonal, mantida até a idade esperada da menopausa, ao redor dos 50 anos; a pesquisa de causa, com a autoimunidade tireoidiana à frente; e a informação de que a gestação espontânea é possível em até 10% dos casos, o que faz da contracepção uma conversa e não uma dispensa. O que a rede pública oferece para a reposição está na tabela deste capítulo — e o que ela não oferece, que é o estradiol isolado, muda a prescrição.

Folículo-estimulante baixo ou normal: procurar a causa funcional sem esquecer a hipófise

Gonadotrofina baixa ou normal com estradiol baixo diz que o comando falhou, e a causa mais comum é a funcional — peso, restrição, exercício, estresse, doença crônica. Mas é diagnóstico de exclusão, e o que se exclui está numa lista curta que a régua de 2025 nomeia como indicação de imagem da sela túrcica e do crânio: cefaleia, déficit neurológico focal, trauma craniano, história de hemorragia pós-parto, prolactina elevada. A esses o interno acrescenta o que a anamnese trouxe: anosmia, que aponta para a síndrome de Kallmann quando a amenorreia é primária, e sinais de doença sistêmica — diabetes tipo 1, doença celíaca, doença inflamatória intestinal, doença renal crônica —, que a mesma régua lista entre as causas e que pedem função renal e hepática e o que a história indicar.

Aqui mora uma divergência que o interno precisa conhecer antes de decidir. O protocolo da atenção básica de 2016 manda descartar doença neoplásica do sistema nervoso central por exame de imagem antes de fazer o diagnóstico de amenorreia hipotalâmica quando não há sangramento após o teste da progesterona — isto é, imagem para toda hipogonadotrófica com endométrio sem estrogênio. A régua de 2025 não tem esse passo: a imagem entra por sinal de alarme ou prolactina alta. A decisão para a paciente à frente está no bloco de divergências; o que fica aqui é que os dois documentos concordam em uma coisa — sem sinal de alarme, sem prolactina alta e com história funcional clara, a hipótese de trabalho é a funcional, e ela se confirma pelo retorno do ciclo quando a energia volta.

Uma armadilha específica: a paciente que perdeu peso e usa antidepressivo. As duas causas coexistem, e a prolactina moderadamente elevada por medicamento não exclui a funcional nem a explica sozinha. Nesse caso a sequência é a do protocolo público: revisar o medicamento com quem prescreve, repetir a prolactina se houver dúvida sobre estresse na coleta, e só então decidir sobre imagem. Suspender o antidepressivo por conta própria para ver se a menstruação volta é a única conduta errada em todos os cenários.

Os dois normais: hiperandrogenismo e saída — e onde o teste de privação ainda cabe

Folículo-estimulante e estradiol normais, prolactina e tireoestimulante normais, e mesmo assim não há sangramento: o eixo está inteiro e o problema é de comando fino ou de saída. A régua de 2025 manda, nesse ponto, procurar hiperandrogenismo — clínico, com hirsutismo, acne e alopecia, e laboratorial, com testosterona total, 17-hidroxiprogesterona e sulfato de deidroepiandrosterona —, e, encontrado, considerar a síndrome dos ovários policísticos, além das causas menos comuns, a hiperplasia adrenal de início tardio e o tumor produtor de androgênio. Os critérios e o manejo da síndrome são do capítulo Síndrome dos ovários policísticos; a investigação do hirsutismo é de um capítulo futuro. O interno vai até identificar o sinal e pedir os três exames, todos com código na lista de procedimentos pública.

Sem hiperandrogenismo, sobra a saída, e a pergunta é histórica antes de ser de imagem: curetagem, procedimento no colo, histeroscopia cirúrgica, infecção uterina. Com história, a régua manda ultrassonografia transvaginal se possível, histerossonografia, histerossalpingografia e histeroscopia. Sem história e sem hiperandrogenismo, o quadro é o da anovulação sem causa evidente, e volta-se à seção anterior com mais paciência.

É neste ponto, e só neste, que o teste de privação com progestagênio ainda tem alguma utilidade: como leitura grosseira de que há estrogênio circulando e saída aberta, em serviço que não dosa estradiol, ou como triagem antes de insistir num encaminhamento. A régua de 2025 registra que muitas entidades não o recomendam mais; a régua de 2016 ainda o põe no centro; o material de ensino de 2021 o mantém como segundo passo. O que o interno precisa saber para não errar com ele: sangramento depois da suspensão prova estrogênio, endométrio responsivo e canal aberto de uma vez; ausência de sangramento não prova nada sozinha, e o ultrassom com endométrio fino já prevê a resposta negativa e a torna inútil. Onde ele cabe e como se lê está no bloco de divergências, e o esquema — acetato de medroxiprogesterona 10 mg, comprimido do componente básico — está na tabela do que a rede oferece.

07

Localizar o andar: o painel, as definições em disputa e o que a rede oferece

Este bloco reúne o que decide na prática: a ordem em que se pergunta e se pede, o que cada resultado do painel localiza e o que ele pede em seguida, as definições de amenorreia que os documentos brasileiros correntes usam — e onde elas divergem entre si e dentro do mesmo documento —, o que a rede pública oferece com código e componente, e a conversão dos esquemas em comprimidos, refeita em Python sobre as apresentações reais. As notas do fim registram cada conferência feita nos documentos oficiais, com a conta — as que fecharam e as que não fecharam.

  1. 11. Mulher ou adolescente sem menstruação. Antes de qualquer pergunta sobre vida sexual: teste de gravidez. Positivo sai deste fluxo e vai para o pré-natal. Negativo libera o que vem abaixo e precisa ser repetido a cada atraso novo, em cada consulta em que se vá prescrever ou pedir imagem.
  2. 22. Ela já menstruou alguma vez? Se nunca, é amenorreia primária: o fluxo passa a ser o do corpo — estatura, estádio das mamas e dos pelos, estigmas, inspeção da vulva e do hímen — antes de qualquer dosagem. Se já menstruou, é secundária e o fluxo segue pelo laboratório.
  3. 33. Na primária, a pergunta que ordena tudo: houve desenvolvimento das mamas? Com mamas, ultrassom pélvico para saber se há útero e se a saída está aberta; dor pélvica cíclica com hímen abaulado é criptomenorreia e se resolve no exame. Sem mamas, hormônio folículo-estimulante: alto, cariótipo; baixo ou normal, imagem do sistema nervoso central e procura da causa central. Útero ausente com mamas: cariótipo. Menina sem nenhum broto mamário aos 13 anos não espera.
  4. 44. Em qualquer idade, adolescente com baixa estatura e amenorreia, primária ou secundária, tem síndrome de Turner até prova em contrário, e a prova é o cariótipo com pelo menos 30 células. É obrigação do protocolo público de 2025, não opção.
  5. 55. Ela usa método hormonal, ou parou há menos de seis meses de pílula, ou há menos de um ano de injetável trimestral? Se sim, a ausência é esperada e nenhuma dosagem do eixo mede a mulher: mede o método. Teste de gravidez, orientação sobre os prazos, e o fluxo para aqui.
  6. 66. Anamnese que localiza antes do exame: peso atual e há um ano, restrição alimentar, carga de treino, estressores, doença crônica; galactorreia, cefaleia, campo visual, lista completa de medicamentos; fogachos, secura vaginal, história familiar de menopausa antes dos 40, quimioterapia ou radioterapia; curetagem, procedimento no colo, infecção uterina, dor cíclica.
  7. 77. Painel inicial da secundária, colhido em qualquer dia, porque não há dia a respeitar: hormônio folículo-estimulante pareado com estradiol, prolactina e hormônio tireoestimulante. Sem hormônio luteinizante, sem relação entre os dois, sem antimülleriano. A prolactina se colhe sem estresse na punção e uma determinação basta.
  8. 88. Tireoestimulante alterado: a tireoide é causa ou parte dela. Trate ou investigue, e reavalie o ciclo depois — o hipotireoidismo como entidade é de Hipotireoidismo e rastreamento tireoidiano, na apostila de Endocrinologia.
  9. 99. Prolactina elevada: releia a receita antes de pensar em tumor — antipsicótico, antidepressivo, anticonvulsivante, opioide, metoclopramida. Afaste hipotireoidismo primário e insuficiência renal e hepática. Imagem da sela só depois disso, ou desde já se houver cefaleia, campo visual alterado ou déficit focal. Não se suspende psicotrópico por causa de uma prolactina: a conversa é com quem prescreveu.
  10. 1010. Folículo-estimulante elevado com estradiol baixo: o ovário falhou. Repita a dosagem depois de quatro a seis semanas; antes disso, nenhum nome no prontuário. Confirmado: abaixo dos 30 anos, cariótipo obrigatório; abaixo dos 40, insuficiência ovariana prematura, com a conversa sobre reposição, fertilidade e contracepção; de 40 a 44, menopausa precoce; a partir dos 45, a transição esperada — as duas últimas são do capítulo Climatério e menopausa.
  11. 1111. Folículo-estimulante baixo ou normal com estradiol baixo: o comando falhou. A causa funcional — peso, restrição, exercício, estresse, doença crônica — é a mais comum e é diagnóstico de exclusão. O que se exclui antes de nomeá-la: cefaleia, déficit focal, alteração visual, trauma craniano, hemorragia pós-parto com falha de lactação, prolactina elevada, anosmia. Qualquer um deles pede imagem da sela e do crânio.
  12. 1212. Os dois normais: o ovário produz e a hipófise lê. Procure hiperandrogenismo — hirsutismo, acne, alopecia; testosterona total, 17-hidroxiprogesterona, sulfato de deidroepiandrosterona. Presente, o assunto passa ao capítulo Síndrome dos ovários policísticos, depois de afastar a hiperplasia adrenal tardia e o tumor. Ausente, com história de procedimento uterino, a saída: ultrassonografia transvaginal, histerossonografia, histerossalpingografia, histeroscopia.
  13. 1313. Só aqui, e só onde o estradiol não chega em prazo razoável, cabe a prova de privação com progestagênio: acetato de medroxiprogesterona 10 mg, comprimido do componente básico, por dez dias. Sangrou: havia estrogênio, endométrio responsivo e canal aberto. Não sangrou: não prova nada sozinho — a leitura é tripla. Ultrassom com endométrio fino já prevê a resposta negativa e torna o teste inútil.
  14. 1414. Em toda mulher em que o andar foi localizado, antes de encaminhar: a conversa sobre o que a ausência de estrogênio custa em osso, endotélio e mucosa, e a contracepção — porque o eixo que parou pode religar sem avisar, e a insuficiência ovariana prematura ainda engravida em até uma em cada dez.
ExameA pergunta que ele respondeResultadoAndar localizadoPróximo passo
Teste de gravidez (rápido urinário ou beta sérico)Está grávida?PositivoNenhum andar falhou: o eixo está em atividadeSai deste capítulo; pré-natal. Se a última menstruação passou de 12 semanas, sonar antes de tudo
Teste de gravidezEstá grávida?NegativoLibera a investigaçãoRepetir a cada atraso novo e antes de prescrever hormônio ou pedir imagem; atraso curto, repetir em sete dias ou antecipar o sérico
Hormônio tireoestimulanteA tireoide é a causa?AlteradoFora do eixo, agindo sobre o comandoTratar ou investigar a tireoide e reavaliar o ciclo depois; em hipotireoidismo primário, a prolactina sobe junto
ProlactinaHá freio de fora sobre o gerador de pulsos?ElevadaHipófise, ou fora dela: medicamento, hipotireoidismo, rim, fígadoRever a receita; afastar hipotireoidismo, insuficiência renal e hepática; imagem da sela só depois, ou desde já com sinal de compressão
Folículo-estimulante pareado com estradiolO problema está acima ou abaixo da hipófise?Folículo-estimulante alto, estradiol baixoOvárioRepetir em quatro a seis semanas; confirmado, cariótipo abaixo dos 30 anos e insuficiência ovariana prematura abaixo dos 40
Folículo-estimulante pareado com estradiolO problema está acima ou abaixo da hipófise?Folículo-estimulante baixo ou normal, estradiol baixoComando: hipotálamo ou hipófiseCausa funcional por exclusão; qualquer sinal de alarme ou prolactina alta pede imagem da sela e do crânio
Folículo-estimulante pareado com estradiolO problema está acima ou abaixo da hipófise?Os dois normaisComando fino (anovulação) ou saídaProcurar hiperandrogenismo; com história de procedimento uterino, imagem da cavidade
Testosterona total, 17-hidroxiprogesterona, sulfato de deidroepiandrosteronaHá androgênio em excesso, e de onde?ElevadosOvário ou adrenalSíndrome dos ovários policísticos (capítulo próprio); hiperplasia adrenal tardia; tumor se início súbito com virilização
Ultrassonografia transvaginal, histerossonografia, histerossalpingografia, histeroscopiaA saída existe e está aberta?Cavidade ausente, aderida ou canal fechadoTrato de saídaEncaminhar; o teste de estrogênio com progestagênio só onde a imagem não alcança
Cariótipo em sangue periférico, pelo menos 30 célulasHá disgenesia gonadal ou cromossomo Y?45,X, mosaico ou 46,XYGônadaSíndrome de Turner: protocolo público de 2025; cromossomo Y presente: risco de gonadoblastoma, especialista

As definições em disputa nos documentos brasileiros correntes — o mesmo quadro, lido em oito réguas

DocumentoAmenorreia secundáriaPrimária sem desenvolvimentoPrimária com desenvolvimentoCorte de folículo-estimulanteCorte de prolactina
Artigo de algoritmo diagnóstico, Femina, 2025Três redações: 3 meses ou mais se ciclos regulares e 6 meses ou mais em qualquer mulher (resumo); 3 meses consecutivos (introdução); 3 ciclos se regular ou 6 meses se irregular (quadro)Após os 13 anosApós os 15 anos; ou 3 anos depois do broto mamário, se ele veio antes dos 10Elevado, sem número; repetir após 4 semanasElevada, sem número
Protocolo Febrasgo de síndrome dos ovários policísticos, 2025Ausência por mais de 3 meses; ciclo alongado acima de 35 dias ou menos de 8 ciclos por anoNão trataNão trataNão fixaNão fixa
Protocolo Febrasgo de sangramento uterino anormal, 2026Ausente, sem número de dias; infrequente acima de 38 dias; faixa normal de 24 a 38Não trataNão trataNão trataNão trata
TeleCondutas de sangramento uterino anormal, TelessaúdeRS-UFRGS, 2024Sem sangramento por mais de 90 diasNão trataNão trataNão trataNão trata
Material de ensino do portal de boas práticas, Fiocruz, 20213 meses consecutivos ou menos de 9 menstruações no anoAos 14 anosAos 16 anosAcima de 20, sem unidadeNão fixa
Protocolos da Atenção Básica, Ministério da Saúde, 2016Não define; manda observar por 3 a 6 meses num fluxo e por 6 meses antes de iniciar o seguinteComo impresso: aguardar até a menarca se abaixo de 16 anos e sem traços sexuais secundáriosComo impresso: aguardar se abaixo de 14 anosAumentado, sem númeroAcima de 40 ng/mL no quadro; de 20 a 100 pode ser fisiológico no fluxo de descarga papilar
Manual de atenção às mulheres na transição menopausal, Ministério da Saúde, 2026 (versão preliminar)Não define; insuficiência ovariana prematura antes dos 40 anosNão trataNão trataIgual ou acima de 25 a 30 mUI/mL em duas dosagens com 4 a 6 semanas; acima de 25 UI/L noutro trechoNão fixa
Artigo sobre insuficiência ovariana prematura transitória, Femina, 2024Disfunção menstrual por pelo menos 4 meses, para a insuficiência ovarianaNão trataNão trataIgual ou acima de 25 mUI/mL em duas dosagens com pelo menos 1 mêsNão fixa

O que a rede pública oferece para localizar o andar e para agir depois — conferido por código e por componente

ItemConsta?Onde, com que código ou componenteO que isso muda na conduta
Teste rápido de gravidezSimInsumo da atenção básica; pode ser feito dentro ou fora da unidade e entregue à mulher, à adolescente ou à parceriaÉ o primeiro ato de toda consulta deste capítulo, sem depender de laboratório
Gonadotrofina coriônica beta séricaSimTabela de procedimentos, 02.02.06.021-7Atraso curto com teste rápido negativo: antecipa a resposta em vez de esperar sete dias
Hormônio folículo-estimulanteSimTabela de procedimentos, 02.02.06.023-3Com estradiol, é o exame que localiza o andar
EstradiolSim, mas fora da lista do protocolo público de ovários policísticosTabela de procedimentos, 02.02.06.016-0Serviço que não o entrega em prazo razoável é o único lugar em que a prova de privação ainda cabe
ProlactinaSimTabela de procedimentos, 02.02.06.030-6Uma determinação, em qualquer hora, sem estresse na punção
Hormônio tireoestimulanteSimTabela de procedimentos, 02.02.06.025-0Entra no painel inicial de toda mulher que parou de menstruar
Testosterona total, 17-hidroxiprogesterona, sulfato de deidroepiandrosteronaSimTabela de procedimentos, 02.02.06.034-9, 02.02.06.004-7 e 02.02.06.014-4A tríade do hiperandrogenismo se pede na unidade, sem especialista
Ultrassonografia transvaginal e histerossalpingografiaSimTabela de procedimentos, 02.05.02.018-6 e 02.04.05.006-5A investigação da saída começa antes do encaminhamento
Cariótipo em sangue periférico com técnica de bandasSim, fora da lista do protocolo de ovários policísticosTabela de procedimentos, 02.02.10.003-0Pode ser pedido com o encaminhamento, e não depois dele, quando o padrão o exige
Hormônio luteinizante e hormônio antimüllerianoO luteinizante existe na tabela; o antimülleriano não consta da lista do protocoloFora da lista do protocolo público consultadoNão fazem falta neste capítulo
Acetato de medroxiprogesterona 10 mg, comprimidoSimRename 2024, componente básicoÉ o progestagênio da prova de privação e o do esquema de reposição na rede
Etinilestradiol 0,03 mg com levonorgestrel 0,15 mgSimRename 2024, componente básicoÉ a cartela do teste de estrogênio com progestagênio do protocolo de 2016
Estrogênios conjugados 0,3 mg e 0,625 mg, comprimidoSimRename 2024, componente básico; norteados pelo protocolo da síndrome de TurnerÉ o único estrogênio sistêmico da rede: a reposição da insuficiência ovariana prematura se faz com ele
Estradiol isolado, oral ou transdérmico; progesterona micronizada; didrogesteronaNãoAusentes de todos os componentesO esquema da rede é estrogênio conjugado com medroxiprogesterona, e isso muda a prescrição do capítulo Terapia hormonal da menopausa
Bromocriptina 2,5 mg e cabergolina 0,5 mgSimRename 2024, componente especializado; norteadas pelo protocolo de hiperprolactinemiaO tratamento existe, mas depende de diagnóstico fechado e de abertura de processo: não é prescrição de unidade básica
LevotiroxinaSimRename 2024, componente básicoA causa tireoidiana se trata na unidade
Clomifeno, letrozol, gonadotrofinas injetáveis, sistema intrauterino de levonorgestrel, implanteNãoAusentes de todos os componentesIndução de ovulação não existe na rede; contracepção de longa duração hormonal também não

Conversão dos esquemas em comprimidos — refeita em Python sobre as apresentações da Rename 2024

Esquema e documentoDose escritaApresentação disponívelComprimidos por diaTotal por ciclo e por teste
Prova de privação com progestagênio — Protocolos da Atenção Básica, 20165 a 10 mg por dia, 5 a 10 diasMedroxiprogesterona 10 mgMeio a um25 a 100 mg; 2,5 a 10 comprimidos
Medroxiprogesterona cíclica — protocolo público de ovários policísticos, 2019/202010 mg por dia, 10 a 12 diasMedroxiprogesterona 10 mgUm100 a 120 mg; 10 a 12 comprimidos
Medroxiprogesterona da indução puberal — protocolo da síndrome de Turner, 20255 a 10 mg, dos dias 20 a 30 do cicloMedroxiprogesterona 10 mgMeio a um11 dias: 55 a 110 mg; 5,5 a 11 comprimidos
Teste de estrogênio com progestagênio — Protocolos da Atenção Básica, 2016Etinilestradiol 30 microgramas com levonorgestrel, 21 diasEtinilestradiol 0,03 mg com levonorgestrel 0,15 mgUm0,63 mg de etinilestradiol e 3,15 mg de levonorgestrel; 21 comprimidos, uma cartela
Indução puberal, primeiros meses — protocolo da síndrome de Turner, 20250,3 mg em dias alternadosEstrogênios conjugados 0,3 mgUm, dia sim, dia nãoMédia de 0,15 mg por dia; cerca de 15 comprimidos por mês
Indução puberal, 12 a 18 meses — protocolo da síndrome de Turner, 20250,6 mg por dia, escrito como dois comprimidosEstrogênios conjugados 0,3 mgDoisFecha só com o comprimido de 0,3 mg: dois de 0,625 dão 1,25 mg
Dose adulta — protocolo da síndrome de Turner, 20250,6 a 1,2 mg por dia, escrito como dois a quatro comprimidosEstrogênios conjugados 0,3 mg ou 0,625 mgDois a quatro do de 0,3Com o de 0,625, nem 0,6 nem 1,2 são atingíveis; um comprimido de 0,625 fica entre os degraus e o esquema não o nomeia
Somatropina — protocolo da síndrome de Turner, 20250,135 a 0,15 UI por quilo por dia1 mg equivale a 3 UI; frascos de 4 a 30 UINão se aplica45 a 50 microgramas por quilo por dia, como o protocolo declara; a dose de 0,2 UI por quilo dá 66,7 e o protocolo imprime 68

O artigo de algoritmo diagnóstico de 2025 traz três definições da amenorreia secundária, em três lugares do texto, e nenhuma coincide com as outras. No resumo: ausência por tempo igual ou superior a três meses em mulher com ciclos previamente regulares, ou igual ou superior a seis meses em qualquer mulher com pelo menos uma menstruação espontânea anterior. Na introdução: três meses consecutivos, sem distinguir ciclo regular de irregular. No quadro de classificação: no mínimo três ciclos em quem menstruava regularmente, ou seis meses em quem relata ciclo irregular. A conta mostra o tamanho da diferença entre a régua de ciclos e a de meses: três ciclos de 24 dias são 72 dias; três ciclos de 38 dias são 114 dias — 42 dias de diferença dentro da faixa que a própria federação chama de normal. Três meses civis são cerca de 91 dias; a mulher de ciclo de 24 dias fecha o critério de três ciclos 18 dias antes de fechar o de três meses, e a de 38 dias o fecha 24 dias depois. O leitor que use o quadro rotula antes ou depois de quem use a introdução, e a diferença chega a um mês e meio.

O material de ensino federal de 2021 usa, em português, a definição de um comitê americano de 2008: três meses consecutivos sem menstruar, ou menos de nove menstruações ao longo de um ano. Os dois braços não descrevem a mesma mulher. Nove menstruações no ano correspondem a um intervalo médio de 40,6 dias; uma mulher com ciclo fixo de 41 dias tem 8,9 menstruações por ano, satisfaz o segundo braço e recebe o rótulo de amenorreia sem nunca ter passado 41 dias sem sangrar — muito menos três meses. A mesma mulher, com ciclo fixo de 40 dias, tem 9,1 menstruações e escapa do rótulo, mas é infrequente pela régua da federação de 2026, que põe o normal em 24 a 38 dias. Os dois braços discordam para todo intervalo entre 41 e 89 dias — 49 valores inteiros. O que o interno faz com isso: a mulher de ciclos longos e regulares tem oligomenorreia, e o capítulo dela é o de anovulação e o de ovários policísticos, não este.

Dois protocolos da mesma federação, com um ano de diferença, fixam limites diferentes para o ciclo longo. O protocolo de síndrome dos ovários policísticos, de dezembro de 2025, chama de alongado o ciclo acima de 35 dias e de anovulação a mulher com menos de oito ciclos por ano. O protocolo de sangramento uterino anormal, de 2026, adota a classificação internacional, chama de infrequente o ciclo acima de 38 dias e de normal a faixa de 24 a 38. Ciclos de 36, 37 e 38 dias são alongados por um documento e normais pelo outro — três valores inteiros em disputa. E o corte de oito ciclos por ano, que corresponde a um intervalo médio de 45,6 dias, não é o corte de nove do material de 2021, que corresponde a 40,6: a mulher de ciclo fixo de 43 dias tem 8,5 ciclos por ano, oito completos, e não é anovulação para o protocolo de 2025 mas é amenorreia para o material de 2021. A régua deste capítulo é a de 2026, porque é a mais nova e porque o capítulo Sangramento uterino anormal a usa.

O fluxograma de atraso menstrual do protocolo da atenção básica de 2016 traz, na caixa que decide se a adolescente sem menarca deve esperar, o texto: menor de 16 anos e sem traços sexuais secundários, ou menor de 14 — aguardar até a menarca. Lido como está impresso, o critério manda esperar a menina de 15 anos que não desenvolveu nada — ela é menor de 16 e não tem traços — e rotula como amenorreia primária a menina de 15 anos com mamas desenvolvidas, que não satisfaz nenhuma das duas condições. É o inverso do que a fisiologia e todos os outros documentos dizem: quem não tem sinal nenhum de estrogênio é quem menos pode esperar. A leitura mais provável é que a caixa tenha trocado os pares — 14 anos para quem não tem traços, 16 para quem tem, que é a régua do material de ensino federal de 2021 —, mas isso é dedução deste capítulo, não texto do documento, e o documento é o que a unidade básica tem na mão. A diferença para a mesma menina sem desenvolvimento é de até três anos entre a régua mais nova, que a rotula depois dos 13, e a caixa como impressa, que a manda esperar até os 16.

A régua mais nova para a amenorreia primária, no artigo de 2025, tem três critérios, e eles não formam uma partição: ausência de menstruação depois dos 13 anos sem desenvolvimento de caracteres sexuais secundários; depois dos 15 anos com desenvolvimento adequado; ou até três anos após o início do desenvolvimento das mamas, se ele ocorreu antes dos 10 anos. A conta expõe o vão. Uma menina com telarca aos 11 anos e sem menarca aos 14 anos e meio não satisfaz o primeiro critério, porque tem desenvolvimento; não satisfaz o segundo, porque ainda não fez 15; e não satisfaz o terceiro, porque a telarca veio depois dos 10. Ela não tem classe até completar 15 anos, embora a fisiologia que o próprio material federal registra — menarca dois a três anos depois da telarca — diga que ela passou do prazo há um ano. E o terceiro critério só produz rótulo antes dos 13: telarca aos 9 anos e 11 meses rotula aos 12 anos e 11 meses, antes do corte que vale para quem nunca desenvolveu nada. O capítulo usa, para essa menina, a régua fisiológica: dois anos e meio depois da telarca, com exame físico normal e sem dor, seis meses de espera com data marcada.

O corte de hormônio folículo-estimulante que separa o ovário do comando é escrito de cinco maneiras nos documentos brasileiros consultados: acima de 20, sem unidade, no material de ensino de 2021; igual ou acima de 25 mUI/mL, no artigo de 2024; igual ou acima de 25 a 30 mUI/mL, no manual ministerial de 2026; e apenas elevado ou aumentado, sem número, no artigo de 2025 e no protocolo de 2016. Um resultado de 22 é alto para o material de 2021 e não fecha insuficiência ovariana prematura em nenhum dos outros — um vão de cinco unidades em que a mesma paciente recebe o rótulo ou não conforme a lâmina que o serviço usa. Uma conferência que fechou, e vale ser feita em voz alta: o manual de 2026 escreve o mesmo corte como acima de 25 UI/L num trecho e como igual ou acima de 25 a 30 mUI/mL nos dois trechos restantes; 25 UI/L são 25.000 mUI/L, que são 25 mUI/mL — a mesma grandeza em duas unidades, e a única diferença real é o teto de 30 num dos trechos.

O artigo de 2024 sobre insuficiência ovariana prematura cita uma coorte que divide as mulheres em quatro faixas de folículo-estimulante: reserva normal entre 5 e 10 UI/L, pré-insuficiência entre 10 e 25, insuficiência inicial entre 25 e 40, e falência acima de 40. Escritas assim, as três fronteiras pertencem a duas faixas cada — um resultado de exatamente 10, 25 ou 40 é ao mesmo tempo o teto de uma classe e o piso da seguinte. O detalhe importa porque o critério diagnóstico do mesmo artigo é igual ou acima de 25: o 25 fecha o diagnóstico pela régua e, na coorte que o artigo usa para explicar a forma transitória, é ao mesmo tempo pré-insuficiência e insuficiência inicial. O interno não decide nada com um valor de fronteira: repete.

A insuficiência ovariana prematura tem, no artigo de 2024, um critério de duração próprio — disfunção menstrual por pelo menos quatro meses — que não coincide com nenhuma das definições de amenorreia. A conta: uma mulher de 32 anos, 100 dias sem menstruar, com dois valores de folículo-estimulante de 31 e 33 mUI/mL com um mês de intervalo, é amenorreia secundária pela régua dos 90 dias e pela dos três meses, tem o corte hormonal fechado duas vezes, e ainda não satisfaz os quatro meses — cerca de 122 dias — do critério de insuficiência por 22 dias. Nada muda para ela na prática, porque a repetição já está feita e a conversa sobre reposição e contracepção não espera o calendário; mas o rótulo escrito no prontuário deve ser o que o critério permite naquele dia.

O corte de prolactina é diferente entre dois documentos do ministério e dentro de um deles. O protocolo público de hiperprolactinemia de 2020 diz que o limite superior de normalidade costuma não ultrapassar 25 ng/mL, conforme o método. O protocolo da atenção básica de 2016 manda, no quadro de causas de amenorreia, considerar a prolactina aumentada acima de 40 ng/mL — 15 ng/mL de diferença em que um resultado é alto para um documento e normal para o outro. O mesmo protocolo de 2016, no fluxograma de descarga papilar, escreve que a faixa de 20 a 100 ng/mL pode ser fisiológica, e que acima de 100 se pede ressonância de sela: a mulher com 60 ng/mL tem prolactina aumentada no quadro da página 31 e possivelmente fisiológica no fluxo de outra seção — 60 valores inteiros, de 41 a 100, em que o documento discorda de si mesmo. O capítulo adota o corte de 25 do protocolo de 2020, que é a régua dedicada, e trata os 40 como um piso de pragmatismo da atenção básica, não como definição.

O protocolo de 2016 fixa três prazos de espera diferentes para a mesma mulher no espaço de duas páginas. O fluxograma de ausência de menstruação com gestação descartada manda observar por três a seis meses; a nota do fluxograma seguinte, de amenorreia secundária sem causa evidente, diz que geralmente se sugere observar por seis meses antes de iniciar aquele fluxograma; e, sob anticoncepcional oral, manda suspender e observar por pelo menos seis meses. A mulher observada por três meses pelo primeiro fluxo entra no segundo e encontra uma nota que a manda esperar mais três — cerca de 90 dias de diferença conforme a caixa que o profissional leu. A régua mais nova não tem prazo de observação nenhum: o painel entra quando a definição de amenorreia é satisfeita.

Três documentos do ministério prescrevem acetato de medroxiprogesterona por via oral em esquemas que não conversam entre si, e a conta em comprimidos de 10 mg — a única apresentação oral da Rename e do próprio protocolo de Turner — mostra a distância. A prova de privação do protocolo de 2016: 5 a 10 mg por dia durante 5 a 10 dias, ou seja, 25 a 100 mg por teste, de 2,5 a 10 comprimidos. O esquema cíclico do protocolo de ovários policísticos: 10 mg por dia por 10 a 12 dias, 100 a 120 mg por ciclo, 10 a 12 comprimidos. A indução puberal do protocolo de Turner: 5 a 10 mg dos dias 20 a 30 do ciclo mensal, 11 dias, 55 a 110 mg. O menor total do primeiro esquema é quatro vezes menor que o menor total do segundo, e a dose de 5 mg só existe partindo o comprimido ao meio, o que nenhum dos dois documentos diz. Os dias 20 a 30 também não existem em todo ciclo: num ciclo de 24 dias o dia 30 é o sexto dia do ciclo seguinte, e num de 38 a tomada termina oito dias antes da menstruação esperada.

O esquema de estrogênios conjugados do protocolo da síndrome de Turner de 2025 foi escrito para o comprimido de 0,3 mg e o documento de 2025 acrescentou o de 0,625 mg sem reescrever o esquema. Ele diz: 0,3 mg em dias alternados nos primeiros meses — média de 0,15 mg por dia —, depois 0,3 mg por dia, depois 0,6 mg escrito como dois comprimidos, e dose adulta de 0,6 a 1,2 mg escrita como dois a quatro comprimidos. A conta fecha só com o de 0,3: dois comprimidos de 0,625 são 1,25 mg, acima do teto adulto, e nem 0,6 nem 1,2 são atingíveis com esse comprimido. Um comprimido de 0,625 dá uma dose que fica entre os degraus e que o esquema não nomeia. O próprio quadro de atualizações do documento registra a inclusão do comprimido de 0,625 mg como a única mudança de 2025. Quem prescreve com a apresentação nova precisa refazer a conta, porque o texto não a fez.

Uma conferência que fechou no mesmo protocolo: a conversão de somatropina, 1 mg equivalente a 3 UI, aplicada à dose de 0,135 a 0,15 UI por quilo por dia, dá 45 a 50 microgramas por quilo por dia, exatamente o que o documento declara entre parênteses. A dose maior, de 0,2 UI por quilo, dá 66,7 microgramas por quilo, e o documento imprime 68 — um arredondamento para cima de 1,3 micrograma por quilo por dia, cerca de 2%, sem consequência clínica, mas registrado porque é o único número do esquema que não sai da conta. As apresentações de 4 a 30 UI correspondem a 1,33 a 10 mg, e o aviso do documento sobre volumes de diluente diferentes para a mesma dose é o que evita o erro de fator na reconstituição. Nada disso é prescrição do interno: é o que ele confere quando a paciente com síndrome de Turner chega com a receita do especialista.

O protocolo público de ovários policísticos rotula como espermograma, na sua lista de procedimentos, o código 02.02.09.021-3 — e a descrição impressa ao lado, no mesmo documento, é a de pesquisa de anticorpos antiespermatozoides por ensaio imunoenzimático — um exame de infertilidade imunológica, não a análise seminal. A conferência foi ampliada contra espelhos públicos da tabela unificada de procedimentos do SUS: o código 02.02.09.021-3 é de fato a pesquisa de anticorpos, e o espermograma propriamente dito tem código próprio, 02.02.09.026-4, que o protocolo não cita. Os demais códigos da lista fecham — folículo-estimulante 02.02.06.023-3, prolactina 02.02.06.030-6, tireoestimulante 02.02.06.025-0, testosterona 02.02.06.034-9, 17-hidroxiprogesterona 02.02.06.004-7, sulfato de deidroepiandrosterona 02.02.06.014-4, gonadotrofina coriônica 02.02.06.021-7, ultrassonografia transvaginal 02.05.02.018-6, histerossalpingografia 02.04.05.006-5. E a ampliação mostra o que a lista não tem e a tabela tem: dosagem de estradiol, 02.02.06.016-0, e cariótipo em sangue periférico com técnica de bandas, 02.02.10.003-0. Fora da lista do protocolo não é fora do SUS — e o estradiol pareado, que é o exame deste capítulo, pode ser pedido na rede.

A Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024 foi conferida item a item por busca exata no texto normalizado — espaço e hífen removidos —, e o resultado é este. Constam: medroxiprogesterona nas duas formas, o comprimido de 10 mg e a suspensão injetável de 150 mg/mL, componente básico; etinilestradiol 0,03 mg com levonorgestrel 0,15 mg, básico; estrogênios conjugados em comprimidos de 0,3 mg e 0,625 mg e em creme vaginal, básico; noretisterona 0,35 mg, básico; levotiroxina, básico; bromocriptina 2,5 mg e cabergolina 0,5 mg, especializado, com o protocolo de hiperprolactinemia como documento norteador; somatropina de 4 a 30 UI, especializado, norteada pelos protocolos de deficiência de hormônio de crescimento e de síndrome de Turner; dispositivo intrauterino de cobre, como insumo. Não constam, em nenhum componente: estradiol isolado por via oral ou transdérmica — o estradiol só existe combinado, nos injetáveis mensais —, progesterona micronizada, didrogesterona, clomifeno, letrozol, gonadotrofinas injetáveis, sistema intrauterino de levonorgestrel e implante. Duas dessas ausências mudam conduta neste capítulo: a reposição da insuficiência ovariana prematura na rede é estrogênio conjugado com medroxiprogesterona, e a mulher que precisa de indução de ovulação não a encontra no SUS.

Duas conferências no artigo de 2025, uma que não fechou e uma que fechou. A que não fechou é de palavra: o texto chama as causas ovarianas de maioria dos casos e, na mesma frase, dá a elas cerca de 40% — a maior das cinco fatias, mas menos de metade, e maioria é mais de metade. A que fechou é de soma: 35% hipotalâmicas, 17% hipofisárias, 40% ovarianas, 7% do trato genital e 1% sistêmicas somam exatamente 100 — o que não é comum em distribuições etiológicas publicadas, e que dá confiança ao mapa que o bloco de epidemiologia usa.

O protocolo público de hiperprolactinemia de 2020 é o único documento desta lista com retificação declarada no próprio arquivo: uma nota de reedição registra que o quadro de monitoramento do tratamento mencionava dose máxima de cabergolina de 7 mg por semana, enquanto a bula fixa 4,5 mg por semana, e que a correção foi apresentada à subcomissão de protocolos em março de 2022. O erro corrigido é de fator 1,56 numa dose semanal, e o interno não prescreve cabergolina — mas o precedente muda a leitura do resto do documento: quadro e texto corrido podem divergir, e quem usa o protocolo lê os dois. A âncora de prolactinoma do mesmo documento, 250 ng/mL num trecho e 200 no outro, está registrada no capítulo Ciclo menstrual e eixo hipotálamo-hipófise-ovário e não se repete aqui.

Conferências que fecharam no manual ministerial de 2026, feitas porque a nomenclatura da idade da menopausa é o que define a fronteira deste capítulo com o de Climatério e menopausa: prematura antes dos 40 anos; precoce de 40 a 44; oportuna de 45 a 55; tardia a partir de 56. As quatro faixas cobrem a escala sem sobra e sem vão — o 44 termina a precoce e o 45 começa a oportuna; o 55 termina a oportuna e o 56 começa a tardia. Num segundo trecho o mesmo manual escreve menopausa precoce como antes dos 45 anos, o que é a mesma faixa dita pelo teto. E a lista de fatores de risco para osteoporose do capítulo de prevenção de fratura inclui, entre os não modificáveis, a amenorreia primária ou secundária, ao lado da menopausa antes dos 40 — é a frase que sustenta a conversa com a paciente que não vê problema em não menstruar.

08

A conduta, hora a hora

Avaliar possibilidade de gravidez com privacidade e consentimento, história menstrual, desenvolvimento mamário, sintomas e anatomia quando indicado. Dor cíclica com amenorreia primária exige procurar obstrução. Nas demais apresentações, selecionar exames para localizar o eixo e excluir causas frequentes. Explicar a investigação à adolescente e combinar comunicação apropriada com responsáveis.

A linha abaixo acompanha Débora, a paciente da abertura, do teste de gravidez feito antes de qualquer pergunta até o sexto mês. Ela é o caso mais comum e o mais traiçoeiro — comando desligado por falta de energia, sem queixa, sem urgência aparente —, e por isso a linha passa por todas as decisões do capítulo: o que pedir e em que dia, como ler o par folículo-estimulante e estradiol, quando a imagem entra e quando não entra, e a conversa que ela não sabia que precisava ter. Cada marco traz a ação, o motivo de ela estar naquele ponto e não noutro, e o que sai escrito.

Quase nada aqui é prescrição de fármaco, e isso é próprio do tema. A amenorreia hipotalâmica funcional se trata devolvendo energia ao corpo, não repondo hormônio; a insuficiência ovariana prematura se trata com reposição, mas a escolha do regime pertence a outro capítulo; a prolactina por medicamento se trata conversando com quem prescreveu. Quando um fármaco aparece, vem acompanhado do documento que o sustenta; quando nenhum documento brasileiro fixa número, o texto registra a lacuna em vez de preenchê-la.

  1. Consulta 1, minuto 0 — antes de perguntar sobre o namoro

    O teste rápido de gravidez é feito na unidade antes da anamnese, e a ordem não é formalidade: é o que impede que tudo o que vem depois — dosagens, um eventual progestagênio, uma eventual imagem — seja construído sobre uma gestante. O protocolo da atenção básica libera o teste dentro ou fora da unidade e o entrega à própria mulher, à adolescente ou à parceria; se a última menstruação passou de doze semanas, o sonar procura batimentos antes de qualquer outra coisa. Com o negativo na mão, a anamnese é a de localização: peso atual e há um ano, restrição alimentar, carga de treino, sono, estressores; galactorreia, cefaleia, visão, medicamentos; fogachos, secura vaginal, história familiar; procedimentos uterinos; método contraceptivo e data da última dose. Débora emagreceu nove quilos em oito meses, corre seis vezes por semana, tirou carboidrato do prato, e nega tudo o mais. O exame confirma: frequência de 54, pressão de 100 por 60, índice de massa corporal de 19, sem hirsutismo, sem galactorreia à expressão, tireoide normal, exame ginecológico normal.

    Prescrição
    • Teste rápido de gravidez na unidade, antes da anamnese; registrar o resultado com a data.
    • Registro no prontuário, em uma linha: peso atual e peso há um ano, índice de massa corporal, frequência cardíaca, carga semanal de treino, sinais de alarme ausentes, método contraceptivo em uso: nenhum.
  2. Consulta 1, minuto 20 — o pedido, e por que ele não espera dia nenhum

    Débora está em amenorreia há cinco meses, e por isso o painel não tem dia do ciclo a respeitar: colhe-se quando ela puder, e a régua da federação diz isso com todas as letras. O pedido tem quatro linhas, e a quinta é a que a maioria dos serviços esquece: hormônio folículo-estimulante, estradiol, prolactina e hormônio tireoestimulante. O estradiol entra porque a leitura que localiza o andar é a do par, não a do folículo-estimulante sozinho — baixo ou normal com estradiol baixo diz comando; alto com estradiol baixo diz ovário; os dois normais dizem anovulação ou saída. Não entram hormônio luteinizante, relação entre gonadotrofinas nem antimülleriano. A prolactina se colhe em qualquer hora, sem estresse na punção, e uma determinação basta. O que se escreve no pedido é o que garante que ele sobreviva ao mês: a hipótese, a data da última menstruação e a observação de que a coleta pode ser em qualquer dia.

    Prescrição
    • Hormônio folículo-estimulante e estradiol, colhidos na mesma amostra, em qualquer dia; no pedido: amenorreia secundária há cinco meses, última menstruação em fevereiro, coleta sem dia do ciclo.
    • Prolactina, em qualquer período do dia, sem estresse excessivo na punção; determinação única.
    • Hormônio tireoestimulante.
    • Nenhuma medicação. Retorno com os resultados em duas a três semanas, com orientação explícita de que o retorno não é para repetir exame: é para ler o par.
  3. Consulta 1, minuto 30 — a conversa que ela veio dizer que não precisava

    Este marco não tem exame e é o mais importante da linha. Débora acha que a única consequência de não menstruar seria uma gravidez que ela não quer; o que precisa chegar a ela é que um eixo parado é um corpo sem estrogênio, e estrogênio ausente por meses custa massa óssea numa idade em que o pico ósseo ainda está sendo construído — a régua ministerial de 2026 lista a amenorreia primária ou secundária entre os fatores de risco para osteoporose, ao lado da menopausa antes dos 40. Diz-se isso sem a palavra osteoporose na primeira frase, porque ela assusta e não convence; diz-se pelo que ela entende, que é treino: o osso que ela está gastando agora é o que vai sustentar o treino dos 40. E acrescenta-se o segundo motivo, que ela também não sabe: o eixo que parou pode religar sem avisar, e a primeira ovulação vem antes da primeira menstruação. Sem namoro hoje, sem método hoje; mas a orientação de que método é assunto de antes, não de depois, fica dita e registrada.

    Prescrição
    • Nenhuma prescrição medicamentosa. Registro da orientação sobre o custo ósseo da amenorreia prolongada e sobre a possibilidade de ovulação antes do retorno da menstruação.
    • Orientação sobre contracepção quando houver vida sexual; o método e a elegibilidade pertencem aos capítulos Contracepção hormonal combinada e Contracepção de longa duração.
  4. Consulta 2, semana 3 — lendo o par: comando desligado, e o que ainda não se pode afirmar

    Os resultados: folículo-estimulante de 3,1 mUI/mL, estradiol de 21 pg/mL, prolactina de 14 ng/mL, tireoestimulante de 1,8. É a assinatura do hipogonadismo hipogonadotrófico: o ovário está intacto e ocioso porque o comando não o estimula. A hipótese de trabalho é a funcional, e ela é a mais provável — a régua de 2025 a coloca como a causa mais comum desse padrão —, mas é diagnóstico de exclusão, e o que este marco faz é percorrer a lista do que se exclui antes de escrever o nome: cefaleia, déficit focal, alteração de campo visual, trauma craniano, hemorragia pós-parto, prolactina elevada, anosmia, doença sistêmica. Débora não tem nenhum. Aqui a divergência entre o protocolo de 2016, que manda imagem antes de nomear a amenorreia hipotalâmica quando não há sangramento no teste da progesterona, e a régua de 2025, que reserva a imagem aos sinais de alarme, precisa ser decidida para ela: sem sinal de alarme, com prolactina normal e com uma história que explica o quadro por completo, a imagem não entra agora — e a decisão fica escrita, com a condição que a reverte.

    Prescrição
    • Registro no prontuário: hipogonadismo hipogonadotrófico; hipótese de amenorreia hipotalâmica funcional por déficit energético; sinais de alarme ausentes, listados um a um; imagem da sela não indicada neste momento, a ser pedida se surgir cefaleia, alteração visual ou se não houver retorno do ciclo após a recuperação energética.
    • Nenhuma dosagem repetida: folículo-estimulante baixo não se repete, porque o que muda o quadro não é o número, é a energia.
    • Nenhuma prescrição hormonal. Repor estrogênio nesta fase trataria o número e não a causa, e nenhum documento brasileiro consultado fixa indicação ou esquema para isso na unidade básica.
  5. Consulta 2, minuto 20 — devolver energia: o plano que é o tratamento

    O tratamento da causa funcional é devolver disponibilidade energética, e isso se prescreve como se prescreve um fármaco: com número, com prazo e com quem acompanha. Débora vai continuar treinando — a corrida não é o problema; o problema é correr seis vezes por semana comendo o que ela come —, e a conversa é sobre voltar o carboidrato ao prato, reduzir a frequência de treino intenso por algumas semanas e recuperar peso até uma faixa em que o eixo costuma religar. O protocolo de 2016 diz que o apoio psicossocial focado no estressor pode bastar nos casos leves e que os casos com transtorno alimentar são de equipe multidisciplinar; o que separa um do outro é a relação dela com a comida, e a pergunta se faz sem rodeio. Débora ri da pergunta, o que não é resposta; a resposta vem em três meses, no peso e no diário.

    Prescrição
    • Plano escrito, entregue a ela: reintroduzir carboidrato nas três refeições principais; reduzir para três a quatro treinos por semana durante oito semanas; meta de recuperação de peso de dois a três quilos em três meses.
    • Encaminhamento para nutrição na rede, com a hipótese escrita. Se houver sinal de transtorno alimentar — restrição escondida, compensação, medo de ganhar peso —, encaminhamento conjunto para saúde mental.
    • Diário: data de qualquer sangramento, peso quinzenal, treinos por semana.
  6. Semana 8 — retorno sem exame: o que se mede é o corpo

    Não há dosagem neste marco, e essa é a lição: repetir folículo-estimulante em oito semanas não mede nada que a balança não meça melhor. O que se confere é a adesão ao plano — quantos treinos, o que voltou ao prato, quanto de peso —, o sono, o humor, e se apareceu qualquer coisa nova: cefaleia, alteração visual, galactorreia. Débora ganhou um quilo e meio, treina quatro vezes, dorme melhor. Não menstruou. Isso é esperado: o eixo é o primeiro sistema que o corpo desliga quando falta energia e um dos últimos que religa quando ela volta. O retorno se marca pelo período do processo, não pela agenda: o próximo, em três meses da consulta 2, é o que responde.

    Prescrição
    • Nenhum exame. Registro de peso, índice de massa corporal, frequência de treino, sinais de alarme ausentes.
    • Teste de gravidez repetido se houver vida sexual desde a última consulta, mesmo com o diário em branco.
  7. Mês 3 — a menstruação voltou, ou não voltou: as duas linhas

    Se voltou, o diagnóstico funcional está confirmado pela única prova que ele admite, que é a reversão, e o que resta é registrar três ciclos consecutivos e devolver a ela o capítulo Ciclo menstrual e eixo hipotálamo-hipófise-ovário, com a advertência de que os primeiros ciclos podem ser irregulares e de que método contraceptivo é assunto de agora. Se não voltou apesar do peso recuperado e do treino reduzido, a hipótese funcional perdeu a sua melhor prova, e a lista de exclusão volta com peso maior: é aqui, e não na consulta 2, que a imagem da sela e do crânio entra mesmo sem sinal de alarme, porque o que a dispensava era a história explicar tudo — e ela deixou de explicar. Débora menstruou na décima semana, um fluxo curto; e de novo 34 dias depois.

    Prescrição
    • Linha 1, ciclo voltou: nenhum exame; diário de mais três ciclos; contracepção conforme a vida sexual; alta para acompanhamento de rotina depois de três intervalos dentro da faixa de 24 a 38 dias.
    • Linha 2, ciclo não voltou com energia recuperada: ressonância de sela túrcica e crânio, ou tomografia onde não houver ressonância; prolactina repetida na mesma ocasião; encaminhamento a ginecologia ou endocrinologia com o painel, o diário e o plano em mãos.
  8. Mês 6 — a decisão longa: o osso, e o que não é deste capítulo

    Na mulher que religou, o custo ósseo dos meses parados não se mede de rotina: a densitometria em mulher jovem que menstrua de novo não tem indicação em documento brasileiro consultado, e pedir uma para tranquilizar produz um número sem régua para lê-lo. Na mulher que não religou, ou que religou e parou de novo, a pergunta muda: amenorreia funcional que dura mais de um ano é um osso sem estrogênio por um ano, e a decisão sobre densitometria e sobre reposição hormonal passa a ser do especialista — este capítulo registra que nenhum documento brasileiro consultado fixa quando repor nem com o quê na amenorreia funcional prolongada, e que essa é uma lacuna real, não uma omissão do texto. O que o interno leva do sexto mês é a conversa que fecha o ciclo: ela veio dizendo que não era urgente; sai sabendo que a menstruação era o sinal de que o corpo tinha energia para gastar com o futuro, e que foi isso que voltou.

    Prescrição
    • Ciclo regular há três meses: nenhum exame; registro do retorno; o cuidado com o osso é o que qualquer mulher jovem deve ter, e a régua de osteoporose da mulher jovem pertence a Osteoporose e metabolismo ósseo, na apostila de Endocrinologia.
    • Sem retorno do ciclo, ou recaída: encaminhamento com a pergunta escrita — densitometria e reposição na amenorreia funcional prolongada — e com a informação de que a rede oferece estrogênios conjugados e medroxiprogesterona, não estradiol isolado.
09

Como saber se está funcionando

O eixo não se reavalia como uma infecção, em que a febre cede ou não cede em 48 horas: cada parâmetro abaixo tem o seu período — um ciclo, quatro a seis semanas, três meses —, e o erro que mais se vê é a repetição precoce, que produz um segundo número tão pouco legível quanto o primeiro. A regra transversal: antes de repetir qualquer dosagem, pergunte o que muda com cada resultado possível; se a resposta é nada, a dosagem não se repete.

Uma segunda regra, que economiza consultas e evita um erro grave: o teste de gravidez não é parâmetro de uma vez só. Em toda consulta em que houver atraso novo, vida sexual desde a última visita, ou em que se vá prescrever hormônio ou pedir imagem, ele se repete — porque o eixo que estava parado religa sem avisar, e a disponibilidade energética que volta traz a ovulação antes de trazer a menstruação.

O retorno do sangramento espontâneo (o diário de datas)A cada consulta; a leitura que decide é a de três meses

Esperado: Na causa funcional com energia recuperada, um primeiro sangramento em semanas a poucos meses, seguido de intervalos que entram na faixa de 24 a 38 dias em dois ou três ciclos. Na causa tireoidiana tratada, retorno depois da normalização do tireoestimulante. Na causa medicamentosa da prolactina, retorno depois da troca do fármaco, quando ela for possível.

Se não melhora: Confira primeiro o que está sendo registrado: dia 1 é o primeiro dia de sangramento, e escape sob progestagênio ou sangramento de privação não conta como menstruação. Confirmado que não voltou apesar do peso, do treino e do sono recuperados, a hipótese funcional perdeu a sua melhor prova: imagem da sela e do crânio, prolactina repetida e encaminhamento, com a linha do tempo escrita.

Peso, índice de massa corporal, frequência cardíaca e carga de treinoA cada consulta, quinzenal no diário

Esperado: Recuperação de dois a três quilos em três meses quando o plano é seguido, frequência cardíaca de repouso subindo da bradicardia, treino intenso reduzido a três ou quatro sessões por semana. É o parâmetro que responde antes de qualquer hormônio.

Se não melhora: Peso que não sobe apesar do plano combinado é adesão ou transtorno alimentar, e a diferença se pergunta sem rodeio: restrição escondida, compensação, medo de ganhar peso. Presente, o caso passa a equipe multidisciplinar, como o protocolo de 2016 manda para os casos graves, e a amenorreia vira o sinal de uma doença que não é ginecológica.

Hormônio folículo-estimulante pareado com estradiol — só quando o primeiro veio elevadoQuatro a seis semanas depois do primeiro, nunca antes

Esperado: Segundo valor igualmente elevado, com estradiol baixo, confirma o andar ovariano e abre o diagnóstico de insuficiência ovariana prematura abaixo dos 40 anos, com o cariótipo obrigatório abaixo dos 30. Um segundo valor normal não desmente o primeiro: a função ovariana na insuficiência prematura oscila em cerca de metade das mulheres.

Se não melhora: Dois valores discordantes pedem um terceiro, com o mesmo intervalo, e a conversa sobre fertilidade e contracepção não espera o terceiro: a mulher com função ovariana intermitente engravida em até 10% dos casos. Folículo-estimulante baixo ou normal no primeiro exame não se repete de rotina — o que muda esse quadro é a energia, não o calendário.

Prolactina — só quando a primeira veio elevadaDepois de revisar a receita e de afastar hipotireoidismo, insuficiência renal e hepática; repetida se houve estresse na punção ou dúvida sobre o método

Esperado: Valor que cai depois da troca de um medicamento causador, quando quem o prescreveu concordou em trocar; valor que se normaliza junto com o tireoestimulante no hipotireoidismo tratado. Uma determinação basta para o diagnóstico; a repetição serve para confirmar a causa, não o número.

Se não melhora: Prolactina que persiste elevada sem medicamento, sem hipotireoidismo e sem doença renal ou hepática pede imagem da sela e Hiperprolactinemia e galactorreia: investigação e tratamento, nesta apostila. Prolactina que persiste porque o medicamento não pode ser trocado é uma decisão a três — paciente, psiquiatria e ginecologia —, e nunca uma suspensão por conta própria.

Hormônio tireoestimulante depois de iniciar ou ajustar tratamento tireoidianoSeis a oito semanas depois de cada mudança de dose; o intervalo é o de Hipotireoidismo e rastreamento tireoidiano, na apostila de Endocrinologia

Esperado: Tireoestimulante dentro da faixa e, nos ciclos seguintes, menstruação de volta. Na tireoide como causa única, o eixo religa sem nenhuma outra intervenção.

Se não melhora: Tireoestimulante normalizado e amenorreia persistente dizem que a tireoide não era a causa única, ou não era a causa: o painel volta — folículo-estimulante com estradiol e prolactina — e a investigação recomeça do andar que ainda não foi lido.

Sinais de alarme novos — cefaleia, alteração de campo visual, déficit focal, galactorreia, anosmiaPerguntados em toda consulta, mesmo na paciente cuja história explica tudo

Esperado: Ausentes. A ausência mantida ao longo do seguimento é o que sustenta a decisão de não pedir imagem na causa funcional.

Se não melhora: Qualquer um deles, em qualquer ponto da linha, reverte a decisão: ressonância de sela túrcica e crânio, ou tomografia onde não houver ressonância, e prolactina repetida na mesma ocasião. A decisão de não pedir imagem foi escrita com a condição que a reverte, e esta é a condição.

Teste de gravidezA cada atraso novo, a cada consulta com vida sexual desde a anterior, e sempre antes de prescrever hormônio ou pedir imagem

Esperado: Negativo — e um negativo de hoje só vale para hoje.

Se não melhora: Positivo tira a paciente deste capítulo em qualquer ponto da linha, inclusive na mulher com insuficiência ovariana prematura em reposição hormonal, que não é contracepção. Não há resultado prévio que dispense o teste de hoje.

10

Onde o erro machuca

Pular o teste de gravidez porque ela disse que não tem relações, tem 15 anos, ou está em reposição hormonal

O dano: Tudo o que o capítulo manda fazer depois — dosar, prescrever progestagênio, pedir imagem — é construído sobre um negativo, e o custo de construir sobre um positivo não declarado é uma gestante recebendo hormônio e radiação. A gestação é a causa mais comum de menstruação que não vem em mulher com útero, e a resposta à pergunta sobre vida sexual não muda a indicação: muda apenas a probabilidade, e a probabilidade não é zero em nenhuma das três situações.

Como pegar a tempo: Faça o teste antes da anamnese, como ato de rotina que não depende de resposta nenhuma, e diga isso em voz alta — a régua da atenção básica o libera dentro ou fora da unidade. Repita a cada atraso novo e antes de qualquer prescrição ou imagem. Um negativo de dois meses atrás não vale para hoje.

Dosar o eixo sob método hormonal, ou nas semanas seguintes à suspensão dele

O dano: O resultado mede o método, não a mulher: gonadotrofinas suprimidas, estradiol baixo, e um rótulo de hipogonadismo em quem tem um eixo perfeito. Sob injetável trimestral a amenorreia é esperada em 50% a 70% no primeiro ano, e o retorno da menstruação após a suspensão pode levar até um ano; sob pílula, o sangramento da pausa nunca foi menstruação, e a ausência dele não é amenorreia.

Como pegar a tempo: A segunda pergunta de toda consulta, depois da gravidez, é o que ela usa e quando parou. Sob método, ou dentro dos prazos de retorno — dois a seis meses depois da pílula, até um ano depois do injetável —, não se dosa nada do eixo; faz-se teste de gravidez, explica-se o prazo e marca-se a data em que a investigação começa se a menstruação não voltar.

Nomear amenorreia hipotalâmica funcional na primeira consulta porque ela corre e emagreceu

O dano: A assinatura laboratorial da causa funcional — gonadotrofina baixa ou normal com estradiol baixo — é a mesma de uma lesão hipotalâmica ou hipofisária, de uma doença sistêmica e de um hipopituitarismo depois de hemorragia pós-parto. O rótulo dado cedo fecha a lista de exclusão antes de ela ser percorrida, e o tumor que cresce enquanto ninguém pergunta por cefaleia é o dano que não se desfaz.

Como pegar a tempo: Trate a hipótese funcional como a mais provável e a que se afirma por último. Antes de escrever o nome, percorra a lista da régua de 2025 em voz alta e registre cada item como ausente: cefaleia, déficit focal, campo visual, trauma craniano, hemorragia pós-parto, prolactina elevada, anosmia, doença sistêmica. E escreva, ao lado da decisão de não pedir imagem, a condição que a reverte.

Fechar insuficiência ovariana prematura com uma única dosagem de folículo-estimulante

O dano: A função ovariana na insuficiência prematura oscila em cerca de metade das mulheres, e um valor isolado pode ser o pico de uma oscilação. O rótulo dado com uma dosagem produz uma mulher de 30 anos que se acredita menopausada, deixa a contracepção e engravida — ou que recebe uma reposição hormonal por décadas com base num número que não se repetiu.

Como pegar a tempo: Toda régua brasileira exige repetição: quatro a seis semanas no manual de 2026, pelo menos um mês no artigo de 2024, pelo menos quatro semanas no de 2025. Peça a segunda dosagem pareada com estradiol, marque o retorno pelo intervalo do exame e não pela agenda, e, enquanto espera, tenha a conversa sobre fertilidade e contracepção — porque a gestação espontânea acontece em até 10% dos casos e não espera a segunda amostra.

Diante de prolactina elevada, pedir ressonância antes de reler a receita, ou suspender o antipsicótico para ver se a menstruação volta

O dano: Antipsicóticos, antidepressivos, anticonvulsivantes, opioides e metoclopramida elevam a prolactina, e risperidona e metoclopramida chegam a valores acima de 200 ng/mL — faixa em que quem não sabe pensa em tumor. A ressonância pedida antes da receita encontra incidentalomas e produz encaminhamentos; o antipsicótico suspenso por conta própria produz uma recaída psiquiátrica para tratar uma amenorreia.

Como pegar a tempo: A ordem do protocolo público de 2020: afastar causa fisiológica, medicamentosa, hipotireoidismo primário e insuficiência renal e hepática antes de qualquer imagem. Medicamento identificado, a conversa é com quem o prescreveu; imagem entra desde já apenas com cefaleia, alteração visual ou déficit focal. E o corte é o do protocolo dedicado — 25 ng/mL —, não o de 40 do quadro de 2016.

Mandar a adolescente esperar por regra de idade — sem olhar as mamas, a estatura e a vulva

O dano: A menina de 13 anos sem nenhum broto mamário e baixa para a idade é síndrome de Turner até prova em contrário, e cada ano de espera é um ano sem estrogênio num esqueleto em crescimento e sem o cariótipo que o protocolo de 2025 manda pedir. A menina de 15 anos com mamas, dor pélvica cíclica e hímen abaulado tem sangue acumulado que uma inspeção resolveria — e o rótulo de aguardar, lido como está impresso no protocolo de 2016, manda esperar justamente a que menos pode.

Como pegar a tempo: Na amenorreia primária, a primeira pergunta não é a idade, é o corpo: houve desenvolvimento das mamas, qual a estatura, o que a inspeção da vulva mostra. Sem mamas aos 13 anos, investiga-se hoje, com folículo-estimulante e cariótipo; com mamas e dor cíclica, examina-se hoje; com mamas, sem dor e com menos de três anos de telarca, espera-se com data marcada. A idade decide só depois de o corpo ter sido lido.

11

O que dizer ao paciente e à família

As conversas deste capítulo têm uma dificuldade própria: quase sempre é preciso convencer alguém de que uma ausência é um problema — a mulher que não sente falta da menstruação, a mãe que acha que vai vir, a paciente que prefere não saber. A saída, em todas elas, é a mesma: explicar pelo mecanismo, não pela regra. Quem entende que a menstruação é o sinal de um eixo funcionando aceita investigar a falta dela; quem só ouve que é obrigatório investigar sai da sala e não volta.

Um princípio prático: nomeie o andar em voz alta. Comando, hipófise, ovário, saída são quatro palavras que a paciente entende, e dizer em qual deles o problema está — ou que ainda não se sabe em qual — é o que transforma um pedido de exame em um plano. E uma advertência que vale para todas as falas: sangramento de privação não é menstruação, e a mulher que menstrua sob pílula ou sob progestagênio precisa ouvir isso antes de tomar o comprimido, não depois.

Ela diz que não é urgente, porque não quer engravidar agora

"Eu entendo, e a gravidez a gente já afastou hoje. Mas a menstruação não é só sobre engravidar: ela é o sinal de que o seu corpo está produzindo um hormônio que serve para muito mais coisa — para o osso, principalmente. Quando ela para por meses, é esse hormônio que está faltando, e o osso que você constrói agora é o que vai sustentar o treino dos seus 40 anos. Não é para você parar de correr. É para a gente descobrir em qual ponto o comando desligou, e religar."

Não diga: Evite abrir com a palavra osteoporose, que ela associa à avó e descarta na hora, e evite a frase de que a amenorreia é grave — ela não sente nada, e a gravidade anunciada sem mecanismo soa como ameaça. Explique pelo hormônio e pelo osso, e ligue ao que ela valoriza.

Ela pergunta por que fazer teste de gravidez se não tem relações

"Porque eu faço em todo mundo que chega sem menstruar, antes de perguntar qualquer coisa — é a primeira peça do quebra-cabeça e a única que não posso pular. Não é desconfiança da sua resposta. É que tudo o que eu vou pedir depois, e qualquer remédio que eu vá dar, parte do resultado desse teste, e eu preciso dele escrito, não suposto."

Não diga: Evite justificar o teste pela dúvida sobre o que ela disse, e evite negociar: o teste não é uma pergunta com resposta opcional. Diga que é rotina, faça, e siga.

A mãe da adolescente diz que vai vir, que ela também menstruou tarde

"Pode ser que venha, e a história da senhora conta a favor. O que me faz não esperar sem olhar é uma coisa só: eu preciso saber se o corpo dela já começou a produzir o hormônio que vem antes da menstruação, e isso o exame físico me diz hoje — pelas mamas e pela altura. Se começou, a gente marca uma data e espera juntos. Se não começou, esperar é o que não posso fazer, porque aí não é atraso: é um comando que ainda não ligou, e isso se investiga agora."

Não diga: Evite dizer que a mãe está errada e evite a expressão exame íntimo antes de explicar o que vai ser examinado e por quê. A inspeção da vulva se explica pelo que procura — a saída aberta — e se faz com a adolescente decidindo quem fica na sala.

Ela usa risperidona e pergunta se foi o remédio, e se pode parar

"Pode ter sido, sim: esse remédio é um dos que mais elevam a prolactina, e a prolactina alta é uma das causas de a menstruação parar. Mas parar o remédio por conta própria é a única coisa que eu peço para não fazer. Ele está cuidando de algo que importa mais do que a menstruação agora, e a decisão de trocar ou não é de três pessoas: você, a psiquiatra e eu. O que eu faço hoje é confirmar que não há outra causa somada, e escrever para ela o que encontrei."

Não diga: Evite as palavras tumor e ressonância nesta conversa, a menos que haja cefaleia ou alteração visual — o número alto sob risperidona não pede imagem, e a palavra dita cedo não sai da cabeça dela. E evite prometer que a troca vai resolver: a decisão é de quem prescreve.

O folículo-estimulante veio alto duas vezes, e ela pergunta se está na menopausa aos 31 anos

"O exame diz que o seu ovário está respondendo pouco ao comando, e por isso o hormônio que manda nele subiu. É parecido com o que acontece na menopausa, mas não é a mesma coisa, por três motivos: pode oscilar — em metade das mulheres o ovário volta a funcionar por períodos —, ainda pode haver gravidez, e a reposição que eu vou propor não é remédio de menopausa: é devolver, até a idade em que a menopausa viria, o hormônio que parou cedo demais. E eu vou pedir um exame dos cromossomos, porque em quem tem menos de 30 anos ele é obrigatório, e em quem tem 31 eu prefiro ter."

Não diga: Evite a expressão menopausa precoce, que nos documentos brasileiros correntes designa outra faixa etária e fecha a conversa sobre fertilidade antes de ela acontecer; e evite dizer que ela não vai engravidar — a gestação espontânea acontece em até uma em cada dez, e essa frase decide contracepção e esperança ao mesmo tempo.

Ela pede a pílula para menstruar de novo

"A pílula faz sangrar, mas não faz menstruar — parece igual, e não é. O sangramento da pausa da cartela é o endométrio descamando porque o hormônio do comprimido parou, e ele acontece com o seu eixo desligado do mesmo jeito. Se eu der a pílula agora, você vai sangrar todo mês e eu vou perder o único sinal que me diz se o problema de fundo melhorou. Primeiro a gente localiza e trata a causa; a pílula entra depois, se for para contracepção, e aí com outro motivo."

Não diga: Evite dizer que a pílula mascara o problema sem explicar o mecanismo — a palavra mascara soa como acusação de que ela quer se enganar. E evite negar a contracepção: se há vida sexual, o método é necessário, e o que se discute é o motivo dele, não a sua existência.

Ela pergunta se precisa de ressonância, porque uma amiga com o mesmo problema fez

"Depende do andar em que o problema está, e no seu caso os exames apontam para o comando, que pode desligar por dois motivos: por falta de energia, que é a sua história — o peso que caiu, o treino que subiu —, ou por alguma coisa ocupando espaço ali, que dá sinais próprios: dor de cabeça diferente, a visão mudando, leite saindo do peito. Você não tem nenhum desses sinais e tem uma história que explica tudo. Por isso hoje eu não peço a imagem — e eu escrevo no seu prontuário exatamente o que me faria pedir amanhã."

Não diga: Evite desqualificar a amiga ou o médico dela — os documentos brasileiros divergem justamente nesse ponto, e o protocolo que a unidade básica usa manda imagem em situação em que a régua mais nova não manda. Diga que há duas réguas, qual você segue e por quê, e registre a condição que reverte a decisão.

12

Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Quanto tempo sem menstruar é amenorreia secundária — três meses, três ciclos, seis meses, ou um período de observação antes de qualquer exame?

Três meses, ou mais de 90 dias — Febrasgo, 2025 e 2026; TelessaúdeRS-UFRGS, 2024; Fiocruz, 2021

O protocolo de síndrome dos ovários policísticos da federação define amenorreia como ausência de menstruação por mais de três meses; a introdução do artigo de algoritmo diagnóstico da mesma federação usa três meses consecutivos; o TeleCondutas de sangramento uterino anormal quantifica em dias, mais de 90; e o material de ensino federal usa três meses consecutivos como primeiro braço. É a régua mais repetida, e a que a maioria dos serviços aplica sem saber que existe outra.

Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. Síndrome dos ovários policísticos. Femina. 2025;53(12):1390-7; Simões RS et al. Amenorreia secundária: algoritmo diagnóstico. Femina. 2025;53(2):138-43, introdução; TelessaúdeRS-UFRGS. TeleCondutas: Sangramento Uterino Anormal. 2. ed. 2024; Fiocruz/IFF. Amenorreias. 2021

Três ciclos se o ciclo era regular, seis meses se era irregular — o quadro do mesmo artigo da Febrasgo, 2025, e o resumo dele

O quadro de classificação do artigo de 2025 adota a régua de ciclos para a mulher que menstruava regularmente — no mínimo três ciclos — e a de seis meses para a que relata ciclo irregular; o resumo do mesmo artigo escreve três meses ou mais se os ciclos eram regulares e seis meses ou mais em qualquer mulher com uma menstruação espontânea anterior. É a régua da classificação internacional de distúrbios ovulatórios de 2022, que o protocolo de sangramento uterino de 2026 da federação também adota. Três ciclos de 24 dias são 72 dias e três de 38 são 114: a régua de ciclos rotula até 18 dias antes e até 24 dias depois da régua de meses.

Simões RS, Baracat MCP, Maciel GAR, Soares Júnior JM, Baracat EC. Amenorreia secundária: algoritmo diagnóstico. Femina. 2025;53(2):138-43, quadro 1 e resumo

Observar por três a seis meses antes de investigar — Ministério da Saúde, Protocolos da Atenção Básica, 2016

O protocolo que a unidade básica tem na mão não define amenorreia por número: manda, na mulher com gestação descartada e sem hipótese forte, observar por três a seis meses; a nota do fluxograma seguinte diz que geralmente se sugere observar por seis meses antes de iniciá-lo, com antecipação se houver história prévia de amenorreia ou de sangramento irregular; e, sob anticoncepcional oral, suspender e observar por pelo menos seis meses. É a régua mais antiga da lista e a única que institui uma espera depois de satisfeita a definição.

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres. Brasília, 2016, fluxogramas 3 e 4 e quadro 6

Como decidir

Decida pelo custo de esperar para a mulher à sua frente, e não pela régua que o serviço adotou. O teste de gravidez não espera régua nenhuma: é de hoje. Para a adolescente sem nenhum desenvolvimento mamário, para a mulher com fogachos e história familiar de menopausa antes dos 40, para a que fez curetagem e parou de sangrar, e para a que perdeu peso e treina — o painel entra quando a definição de três meses ou três ciclos é satisfeita, e o intervalo de espera adicional do protocolo de 2016 não se aplica, porque em cada uma dessas a causa provável tem custo que corre com o tempo: osso, tumor que cresce, sinéquia que se consolida. A espera de seis meses cabe numa mulher só: a que parou a pílula há pouco, sem nenhum dos sinais acima, cujo eixo precisa de tempo para religar — e nela a espera é o diagnóstico, não a omissão dele. Registre qual régua usou e por quê; num serviço que exige seis meses de espera para autorizar o painel, a saída é escrever a hipótese e o sinal que a torna urgente no pedido.

Com que idade a adolescente sem menarca passa a ser paciente: 13 e 15 anos, ou 14 e 16?

Depois dos 13 anos sem desenvolvimento e dos 15 com desenvolvimento, ou três anos depois de uma telarca anterior aos 10 — Febrasgo, 2025

O quadro de classificação do artigo de algoritmo diagnóstico usa 13 anos como corte para quem não tem caracteres sexuais secundários e 15 para quem os tem, e acrescenta um terceiro critério cronológico: até três anos depois do início do desenvolvimento das mamas, quando ele ocorreu antes dos 10 anos. É a régua mais nova, e a que rotula mais cedo a menina que mais precisa — a que não desenvolveu nada.

Simões RS, Baracat MCP, Maciel GAR, Soares Júnior JM, Baracat EC. Amenorreia secundária: algoritmo diagnóstico. Femina. 2025;53(2):138-43, quadro 1

Aos 14 anos sem caracteres e aos 16 com caracteres — Fiocruz, 2021; e a caixa do protocolo da atenção básica de 2016, como impressa

O material de ensino do portal federal usa 14 anos sem desenvolvimento e 16 com desenvolvimento, que é a régua clássica dos tratados. O fluxograma do protocolo da atenção básica de 2016 imprime os mesmos números invertidos — menor de 16 anos e sem traços sexuais secundários, ou menor de 14: aguardar até a menarca —, o que, lido ao pé da letra, manda esperar a menina de 15 anos sem nenhum desenvolvimento e rotula a de 15 anos com mamas. A leitura de que a caixa trocou os pares é dedução, não texto; o texto é o que a unidade tem impresso.

Fundação Oswaldo Cruz/IFF. Portal de Boas Práticas. Amenorreias: o que está por trás da ausência de menstruação? 2021; Brasil. Ministério da Saúde. Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres. 2016, fluxograma 2

Como decidir

A idade decide depois de o corpo ter sido lido, nunca antes. Menina sem nenhum broto mamário aos 13 anos completos investiga hoje, por qualquer das duas réguas que se leia com a fisiologia na mão: não há estrogênio, e o que falta pode ser um ovário sem folículos — e a baixa estatura torna o cariótipo obrigatório pelo protocolo de Turner de 2025, que não pergunta a idade. Menina com mamas, dor pélvica cíclica ou massa examina hoje, porque o rótulo de aguardar não tem nada a dizer sobre uma saída fechada. Menina com mamas, sem dor, com menos de três anos de telarca e exame normal espera com data marcada, e a data é a fisiologia — dois a três anos depois da telarca —, não o aniversário de 15 ou de 16. O vão entre os critérios de 2025, para a menina com telarca aos 11 e sem menarca aos 14 anos e meio, fecha-se pela mesma régua fisiológica: ela passou do prazo, e a espera dela é de seis meses com exame físico e ultrassom, não de seis meses sem olhar.

Na amenorreia com gonadotrofina baixa ou normal, a imagem do sistema nervoso central entra antes de nomear a causa funcional, ou só com sinal de alarme?

Imagem antes do diagnóstico de amenorreia hipotalâmica quando não há sangramento no teste da progesterona — Ministério da Saúde, 2016

O quadro de causas do protocolo da atenção básica é explícito: quando não há sangramento após o teste da progesterona, é preciso descartar doença neoplásica do sistema nervoso central por exame de imagem antes de fazer o diagnóstico de amenorreia hipotalâmica. No fluxograma correspondente, a dosagem de folículo-estimulante só acontece depois de dois testes farmacológicos, e o resultado normal ou diminuído leva diretamente à tomografia ou ressonância. Na lógica desse documento, a causa funcional só recebe o nome depois de a imagem vir normal.

Brasil. Ministério da Saúde. Instituto Sírio-Libanês de Ensino e Pesquisa. Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres. Brasília, 2016, fluxograma 4 e quadro 6

Imagem por sinal de alarme ou prolactina elevada; a causa funcional se afirma pela história e pela exclusão clínica — Febrasgo, 2025

O artigo de algoritmo diagnóstico dosa folículo-estimulante e estradiol no primeiro painel, identifica o hipogonadismo hipogonadotrófico pelo par, nomeia a amenorreia hipotalâmica funcional como a causa mais comum desse padrão, e reserva a tomografia ou, preferencialmente, a ressonância de sela túrcica e crânio a uma lista: cefaleia, déficits neurológicos focais, trauma do sistema nervoso central, história de hemorragia pós-parto e prolactina elevada. A anosmia, na anamnese, aponta hipotálamo ou hipófise. Sem esses achados, o documento não pede imagem.

Simões RS, Baracat MCP, Maciel GAR, Soares Júnior JM, Baracat EC. Amenorreia secundária: algoritmo diagnóstico. Femina. 2025;53(2):138-43, quadro 3 e fluxograma 2

Como decidir

Decida pela força da história e pela reversibilidade que ela promete. Na paciente cuja história explica o quadro por completo — perda de peso, restrição, treino, estressor identificável —, com prolactina normal e sem nenhum item da lista de alarme, a imagem não entra na primeira consulta: entra se aparecer um sinal, ou se o ciclo não voltar depois que a energia foi devolvida, porque nesse momento a história deixou de explicar. Registre a decisão com a condição que a reverte, e pergunte pelos sinais em toda consulta. Na paciente sem história que explique, ou com prolactina alta, ou com qualquer sinal, a imagem é de agora, e a régua de 2016 e a de 2025 coincidem. O que este capítulo não faz é o que o fluxo de 2016 propõe como caminho — dois testes farmacológicos e semanas de espera antes de dosar o folículo-estimulante —, porque o par com estradiol responde no primeiro painel o que os testes respondem no segundo mês, com menos ambiguidade e sem hormônio numa mulher cuja gravidez foi afastada há uma consulta.

13

O raciocínio, em voz alta

Isadora Dallagnol tem 15 anos e dois meses, cursa o primeiro ano do ensino médio e veio à unidade básica com a mãe, Marlise, que marcou a consulta porque a filha nunca menstruou e as colegas todas já. Isadora não queria vir. Nos últimos quatro meses tem tido dor no baixo-ventre que aparece por três ou quatro dias, some por semanas e volta; da última vez faltou à escola. A mãe menstruou aos 13. Isadora tem 1,62 m — mais alta que a mãe —, mamas desenvolvidas desde os 11 anos e pelos pubianos desde os 12. Nega dor de cabeça, alteração visual, saída de leite. Não usa medicamento. Não tem vida sexual, diz, com a mãe na sala. O teste rápido de gravidez, feito antes da anamnese, é negativo.

  1. O que penso antes de perguntar qualquer coisa

    Duas informações já ordenam a investigação inteira, e nenhuma é hormonal. Isadora tem mamas desde os 11 anos: houve estrogênio, e portanto hipotálamo, hipófise e ovário trabalharam em série em algum momento. O que a impede de menstruar está adiante — na saída — ou é um eixo que funcionou e parou. E ela tem dor cíclica há quatro meses: dor que vem e vai com o ritmo de um ciclo, numa menina que nunca sangrou, é sangue que existe e não sai até prova em contrário. A estatura acima da mãe afasta o que a baixa estatura faria pensar. Antes de qualquer exame, a hipótese mais provável é uma saída fechada com estrogênio normal — a criptomenorreia —, e a segunda é uma saída que não existe.

  2. A idade dela nas três réguas, e por que nenhuma decide

    Pela régua mais nova, Isadora é amenorreia primária há dois meses: passou dos 15 com desenvolvimento adequado. Pela régua do material federal de 2021, só seria aos 16. Pela caixa do protocolo de 2016, como impressa, ela já não satisfaz nenhuma condição de espera e é amenorreia primária também. Nada disso importa para a decisão de hoje: a telarca foi aos 11 anos, a menarca vem dois a três anos depois, e ela está quatro anos depois — passou do prazo fisiológico há um ano, com ou sem rótulo. E a dor cíclica, sozinha, tiraria a espera de qualquer régua.

  3. O que pergunto, e a pergunta que faço sem a mãe

    Pergunto sobre a dor: onde, quanto dura, se vem em intervalos parecidos, se há sensação de peso ou de massa. Pergunto sobre o intestino e a urina nos dias de dor — o sangue acumulado comprime. Pergunto sobre olfato, para não esquecer a anosmia, e sobre peso, treino e comida, para não esquecer o comando. E peço à mãe que aguarde fora por alguns minutos, o que explico a ela como rotina de toda consulta de adolescente, e repito a pergunta sobre vida sexual e sobre qualquer coisa que Isadora queira dizer sem plateia. A resposta é a mesma. O teste de gravidez já estava feito antes de a pergunta existir, e é por isso que a resposta não muda nada.

  4. O exame, na ordem em que ele decide

    Estatura e peso: 1,62 m e 54 kg, índice de massa corporal de 20,6. Mamas em estádio 4, pelos em estádio 4. Sem pescoço alado, sem implantação baixa das orelhas, sem cúbito valgo. Abdome com discreto desconforto à palpação profunda do hipogástrio, sem massa evidente. A inspeção da vulva, com Isadora decidindo quem fica na sala e com a explicação do que procuro — saber se a saída está aberta —, mostra uma membrana himenal íntegra, sem orifício visível, abaulada e de tom azulado, que se abomba mais quando peço para ela fazer força. É o hímen imperfurado com o sangue acumulado atrás dele. Não faço toque, não passo espéculo, não insisto: o diagnóstico está feito à inspeção, e o que falta é imagem.

  5. O que peço, e o que não peço

    Peço ultrassonografia pélvica por via abdominal — a transvaginal não cabe nesta menina, e a via abdominal responde: útero presente, vagina distendida por conteúdo ecogênico, possível distensão do útero. Não peço hormônio nenhum: o corpo dela já me disse que o eixo funciona, e um painel hormonal agora seria dinheiro gasto para confirmar o que as mamas provaram. Não peço cariótipo: útero presente com mamas presentes não é a bifurcação que o cariótipo resolve. E não faço nenhum teste de privação — dar progestagênio a uma menina com a saída fechada é acrescentar sangue a uma vagina que não drena.

  6. O resultado, e a fronteira

    O ultrassom mostra útero de tamanho compatível com a idade, vagina distendida por conteúdo espesso de cerca de 7 cm — hematocolpo — e leve distensão da cavidade uterina, sem dilatação das trompas e sem líquido livre. O diagnóstico é criptomenorreia por hímen imperfurado. O tratamento é cirúrgico e simples, e não é meu: é a himenotomia, feita por ginecologia, com urgência relativa — não é emergência, mas cada ciclo acrescenta sangue e dor, e a distensão prolongada pode alcançar as trompas. Encaminho com o ultrassom, a descrição do exame e a data da próxima dor prevista. O interno vai até aqui: reconheceu o padrão, examinou, pediu a imagem certa, e não pediu o que não precisava.

  7. A conversa com a mãe, e a conversa com Isadora

    Para Marlise, a frase que importa é a de que a filha menstrua há quatro meses, só que o sangue não tem por onde sair — e que isso tem solução com um procedimento pequeno, e que ela fez bem em marcar. Para Isadora, a conversa é outra: o que vai acontecer, que não muda nada no corpo dela além de abrir uma passagem que deveria estar aberta, que a menstruação vai vir nos primeiros dias depois do procedimento e vai ser diferente da dor que ela conhecia, e que ela pode perguntar o que quiser agora ou depois, sem a mãe. Anoto que a pergunta sobre vida sexual foi feita a sós e a resposta registrada.

  8. O que teria acontecido se eu tivesse esperado

    Se eu tivesse aplicado a régua de idade sem ler o corpo — esperar até os 16, como diz o material de 2021, ou seguir a caixa de 2016 sem examinar —, Isadora teria mais quatro a cinco ciclos de sangue acumulado, com risco de a distensão alcançar as trompas e de a dor virar emergência num plantão que não a conhece. Se eu tivesse pedido o painel hormonal por reflexo, ela teria voltado com quatro números normais e a mesma dor. Se eu tivesse feito o teste de privação por rotina, teria piorado o que precisava resolver. A pergunta das mamas e a inspeção da vulva custaram cinco minutos e decidiram tudo.

  9. O que fica registrado, em uma linha por decisão

    Amenorreia primária com desenvolvimento puberal completo, telarca aos 11 anos, dor pélvica cíclica há quatro meses; teste de gravidez negativo, feito antes da anamnese; inspeção vulvar com hímen imperfurado abaulado; ultrassom com hematocolpo de 7 cm e útero presente; sem indicação de painel hormonal, cariótipo ou teste de privação; encaminhada para himenotomia com urgência relativa; vida sexual perguntada a sós e negada; mãe e paciente orientadas sobre o procedimento e o retorno da menstruação.

  10. O que este caso ensina que o texto não consegue

    A amenorreia primária começa pelo corpo, e o corpo desta menina dizia tudo: mamas há quatro anos, estatura preservada, dor cíclica. Quem parte da idade espera; quem parte da dosagem gasta; quem parte das mamas e da vulva resolve. E a lição que atravessa o capítulo: a conversa reservada permite avaliar possibilidade de gravidez e explicar a indicação do teste, com consentimento e sem julgamento. O resultado não substitui a história nem autoriza realizar exame sem esclarecimento.

  11. Variação do caso — resposta e reavaliação

    Variação após o cuidado de Isadora: a obstrução é resolvida e a dor melhora. Conferir recuperação, compreensão do que ocorreu e plano para acompanhar o primeiro fluxo e sintomas futuros. A resolução anatômica não substitui uma conversa reservada sobre dúvidas e saúde sexual.

  12. Variação do caso — quando mudar o plano

    Se, em outra apresentação, há amenorreia com cefaleia progressiva ou alteração visual, priorizar investigação da hipótese central. Se há restrição alimentar e perda de peso, avaliar repercussões sistêmicas. Não percorrer todas as dosagens na mesma ordem quando os sinais já definem a prioridade.

14

Faça você

Gisele Menegatti tem 33 anos, é técnica de enfermagem num hospital da cidade e marcou a consulta porque está há quatro meses sem menstruar. Menstruou pela primeira vez aos 12 anos e sempre teve ciclos de 27 a 30 dias, até o ano passado, quando começaram a espaçar — 40, 50 dias — e depois pararam. Nos últimos dois meses acorda suada de madrugada, sente calor de repente durante o plantão e notou secura nas relações. Dorme mal. Não usa método há três anos: o marido fez vasectomia. Não usa medicamento. Nunca fez curetagem nem cirurgia. Não perdeu peso, não mudou o treino, que é nenhum. A mãe menstruou até os 51; uma tia materna parou aos 36. Não tem cefaleia, alteração visual nem galactorreia. Ao exame: índice de massa corporal de 24, sem hirsutismo, sem acne, tireoide normal, mamas sem secreção à expressão, exame ginecológico com mucosa vaginal discretamente atrófica. Teste rápido de gravidez feito na unidade antes da anamnese: negativo. Ela pergunta se pode ser menopausa e diz, meio rindo, que se for está tudo bem, porque filho ela não quer mais.

  1. Passo 1 — o andar mais provável, só com a história e o exame

    Antes de qualquer pedido, diga em voz alta em qual dos quatro andares o problema provavelmente está, e liste as três informações da vinheta que sustentam a hipótese. Depois diga qual seria a segunda hipótese e o que na história a torna menos provável.

  2. Passo 2 — o pedido, com o detalhe que a maioria esquece

    Escreva o pedido de exames desta consulta, linha por linha, com a observação que precisa constar no papel para que ele sobreviva ao mês. Diga o que não entra no pedido e por quê.

  3. Passo 3 — os resultados, e a decisão que o interno mais erra

    Os exames voltam: hormônio folículo-estimulante de 41 mUI/mL, estradiol de 14 pg/mL, prolactina de 11 ng/mL, tireoestimulante de 2,3. Diga o que esses números localizam, o que você escreve no prontuário hoje, o que ainda não pode escrever, e o que pede em seguida — com o intervalo e a justificativa.

  4. Passo 4 — a conversa que ela não sabe que precisa ter, e a fronteira

    Gisele disse que, se for menopausa, está tudo bem. Escreva as três coisas que ela precisa ouvir hoje, na ordem, e diga em que ponto exato este capítulo entrega o caso a outro — e a qual.

Ver como fecharíamos

Passo 1. Fogachos, secura e atrofia sugerem hipoestrogenismo sem localizar a origem. História familiar favorece investigar insuficiência ovariana, mas causas centrais permanecem no diferencial. FSH elevado com estradiol baixo favorece origem ovariana; FSH baixo ou inadequadamente normal sugere origem central. Ausência de procedimento reduz suspeita de sinéquias sem excluir toda alteração anatômica. A gestação deve ser excluída independentemente da vasectomia da parceria. Passo 2. O pedido tem quatro linhas, colhidas em qualquer dia, porque em amenorreia não há dia do ciclo: hormônio folículo-estimulante e estradiol na mesma amostra; prolactina, em qualquer hora, sem estresse na punção; hormônio tireoestimulante. No papel: amenorreia secundária há quatro meses, última menstruação em data tal, coleta sem dia do ciclo, sintomas vasomotores presentes. Não entram hormônio luteinizante, relação entre gonadotrofinas nem antimülleriano, porque nenhuma régua brasileira os usa para localizar o andar e a rede não oferece o último. Não entra ultrassom neste momento, porque a saída está afastada pela história e o ovário não se investiga por imagem nesta fase. Não entra prova de privação: o estradiol está no pedido, e o teste só cabe onde ele não chega. Passo 3. Folículo-estimulante de 41 com estradiol de 14 é a assinatura do hipogonadismo hipergonadotrófico: o ovário parou de responder e a hipófise, intacta, subiu o tom. Prolactina e tireoestimulante normais tiram a tireoide e o freio de fora da conta. O que se escreve hoje: hipogonadismo hipergonadotrófico em mulher de 33 anos, com sintomas de hipoestrogenismo; hipótese de insuficiência ovariana prematura. O que ainda não se escreve: o diagnóstico. Toda régua brasileira exige uma segunda dosagem — quatro a seis semanas no manual de 2026, pelo menos um mês no artigo de 2024, pelo menos quatro semanas no de 2025 —, porque a função ovariana na insuficiência prematura oscila em cerca de metade das mulheres e um valor pode ser o pico de uma oscilação. O pedido seguinte é folículo-estimulante com estradiol, com intervalo de quatro a seis semanas, e o retorno se marca pelo intervalo do exame. O cariótipo é obrigatório abaixo dos 30 anos pela régua de 2025; aos 33 não é obrigação, e a decisão de pedi-lo mesmo assim — pela tia que parou aos 36 e pelo que um resultado muda para a família — pode ser tomada com o encaminhamento, e a rede o oferece. Registre também que o critério de duração da insuficiência ovariana, de pelo menos quatro meses de disfunção menstrual, está sendo cumprido agora, e que o rótulo escrito deve ser o que o critério permite no dia. Passo 4. A primeira coisa que Gisele precisa ouvir é que o que os exames mostram se parece com a menopausa, mas não é a mesma coisa, por três motivos: o ovário pode voltar a funcionar por períodos, a gravidez ainda é possível — em até uma em cada dez mulheres com esse diagnóstico —, e a reposição que vai ser proposta não é remédio de menopausa, é devolver até por volta dos 50 anos o hormônio que parou cedo demais, para proteger osso, vasos e mucosa. A segunda é que a vasectomia do marido cobre a contracepção, mas a frase de que filho ela não quer mais precisa ser dita de novo depois de ela saber que a fertilidade não acabou por completo — a decisão é dela, mas com a informação inteira. A terceira é o que a rede oferece: estrogênios conjugados em comprimido e medroxiprogesterona, no componente básico, porque estradiol isolado não consta da Rename — e isso muda a receita que ela vai receber. A fronteira é o diagnóstico confirmado pela segunda dosagem: até ele, o caso é deste capítulo — a leitura do painel, a repetição, a conversa sobre oscilação, fertilidade e osso, o registro do que a rede tem. A partir dele, a pesquisa de causa com a autoimunidade tireoidiana à frente, a escolha do regime de reposição e o seguimento ao longo dos anos pertencem ao capítulo Climatério e menopausa e ao capítulo Terapia hormonal da menopausa. O interno entrega o caso com o painel duplo, o diário, a conversa feita e a pergunta sobre o cariótipo escrita.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Três ciclos de 38 dias são 114 dias; três meses civis são cerca de 91. A mulher de ciclos longos dentro da faixa normal — 24 a 38 dias, pela régua da federação de 2026 — fecha o critério de três ciclos 24 dias depois de fechar o de três meses, e é rotulada mais tarde por quem usa o quadro do artigo de 2025 do que por quem usa a introdução do mesmo artigo. O sentido se inverte na mulher de ciclos de 24 dias, cujos três ciclos são 72 dias, 18 dias antes dos 90: por isso a afirmação de que três ciclos são sempre menores que 90 dias está errada, assim como a de que as duas réguas coincidem. A divisão por regularidade do ciclo existe no quadro, mas ela separa três ciclos de seis meses, e não isenta a mulher de ciclos regulares da régua de meses que o mesmo documento usa noutra página.

15

Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
16

Plano de revisão

Em 7 dias

Uma semana depois, de memória e sem abrir o capítulo, responda por escrito: (1) quais são os quatro andares de que a menstruação depende e qual assinatura no par folículo-estimulante e estradiol aponta para cada falha; (2) qual é a primeira coisa a fazer em toda mulher sem menstruação, antes de qualquer pergunta, e por que a resposta sobre vida sexual não muda a indicação; (3) na amenorreia primária, qual pergunta de exame físico divide a investigação em dois mundos, e o que se pede em cada um; (4) quantas semanas separam a primeira da segunda dosagem de folículo-estimulante elevado, e abaixo de que idade o cariótipo é obrigatório; (5) qual é a lista de sinais que faz a imagem da sela entrar na amenorreia com gonadotrofina baixa, e o que se faz quando nenhum deles existe. Confira em seguida e anote as que errou: são as que retornam no dia 30. Aplicação comentada: Fogachos com estradiol baixo e FSH inadequadamente normal não descartam causa central; a combinação hormonal deve orientar investigação.

Em 30 dias

Um mês depois, volte a Débora e mude um dado da história por vez, dizendo em voz alta o que cada versão altera na decisão: ela tem 14 anos e nunca menstruou, com mamas incipientes; ela usa injetável trimestral há dois anos e parou há quatro meses; a prolactina veio em 85 ng/mL e ela usa risperidona; o folículo-estimulante veio em 38 mUI/mL com estradiol de 12; ela fez curetagem depois de um abortamento no ano passado; ela tem cefaleia nova há três semanas. Para cada versão, diga qual exame pede, se pede imagem, o que escreve no prontuário e qual capítulo vizinho assume o caso a partir de que ponto. Em seguida, refaça a conta dos três ciclos contra os três meses para uma mulher de ciclos de 24 dias e para uma de 38, e diga com que diferença, em dias, as duas réguas rotulam a mesma ausência.

17

Agora atenda

Agora atenda. A paciente-IA chega sem menstruar há meses e convencida de que isso não é problema. Treine três coisas nesta estação: fazer o teste de gravidez antes de perguntar sobre a vida sexual e dizer por quê; ler o par folículo-estimulante e estradiol em voz alta, nomeando o andar em que o problema está e o que ainda não se pode afirmar; e ter a conversa sobre o que a ausência de estrogênio custa, sem a palavra osteoporose na primeira frase e sem prometer que a menstruação volta amanhã.

Amenorreia primária e secundária – Amenorreia: em que andar parou — Internato | OsceLabs