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A úlcera que o exame não nomeia
Úlceras genitais: sífilis, herpes, cancro mole e linfogranuloma
O estudo brasileiro que validou a abordagem sindrômica mediu o quanto a impressão clínica acerta: 30,9% nas sífilis e 32,7% nos cancros moles. É por isso que o protocolo manda tratar as duas juntas antes de qualquer exame — e é por isso que examinar direito continua sendo obrigatório.
Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST). Anexo da Portaria SCTIE/MS nº 12, de 19 de abril de 2021, que revogou a Portaria SCTIE/MS nº 42/2018; versão do portal do Ministério da Saúde com registro de alteração do anexo em 4 de julho de 2024. Capítulo 9 (infecções que causam úlcera genital), Figura 14, Quadros 38, 39 e 40; capítulo 5 (sífilis adquirida), seções 5.3 a 5.10, Quadros 11, 12, 14 e 15; capítulo 18 (vigilância), Quadro 53
Brasil. Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST). Brasília: Ministério da Saúde, 2022. 211 p. ISBN 978-65-5993-276-4
Brasil. Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, Departamento de HIV/Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis. Nota Técnica nº 14/2023-DATHI/SVSA/MS: atualização da recomendação do intervalo entre doses de benzilpenicilina benzatina no tratamento de sífilis em gestantes. Processo SEI nº 25000.089181/2023-31, documento SEI nº 0034352557
Brasil. Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, Departamento de HIV, Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis. Boletim Epidemiológico de Sífilis 2025. Número Especial, outubro de 2025. ISSN 2358-9450
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais – Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 254 p.
Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Prevenção da Transmissão Vertical do HIV, Sífilis e Hepatites Virais. Anexo da Portaria SCTIE/MS nº 55, de 11 de novembro de 2020, que revogou a Portaria SCTIE/MS nº 50/2017
Organização Mundial da Saúde. WHO guidelines for the treatment of Treponema pallidum (syphilis). Genebra: OMS, 2016; e Updated recommendations for the treatment of Neisseria gonorrhoeae, Chlamydia trachomatis and Treponema pallidum (syphilis), and new recommendations on syphilis testing and partner services. Genebra: OMS, 2024
Centers for Disease Control and Prevention. Sexually Transmitted Infections Treatment Guidelines, 2021 — seção de sífilis, na página de sífilis do sítio do CDC
Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis. Brasília, 2015 — edição anterior, consultada para comparação
Responda antes de ler
Mulher de 22 anos foi tratada há seis meses de sífilis primária com benzilpenicilina benzatina 2,4 milhões UI em dose única. O teste não treponêmico colhido no primeiro dia de tratamento mostrava título 1:64. Ela permanece assintomática, nega novas parcerias e nega relações desprotegidas desde o tratamento. O teste não treponêmico de hoje, pelo mesmo método, mostra título 1:32. Como se classifica essa resposta e qual é a conduta?
O paciente que você vai ver
Sexta-feira, 15h20, unidade básica de saúde de um bairro que fica a vinte minutos de ônibus do centro. A agenda da tarde tinha catorze nomes e o décimo primeiro é o de Silene Delfino, 24 anos, auxiliar de uma farmácia de rede. O motivo escrito na ficha é renovação de receita de anticoncepcional, e é isso que ela diz quando senta: que a cartela acaba domingo e a farmácia não entrega mais sem papel. A consulta poderia durar quatro minutos.
Ela pega a bolsa como quem vai embora e então diz o resto, olhando para a mesa e não para você: apareceu uma ferida. Faz uns doze dias. Ela viu depilando, achou que fosse do próprio aparelho, esperou sarar, e não sarou — mas também não incomoda. Foi essa a palavra: não incomoda. Não arde, não coça, não dói para sentar nem para lavar. Ela conta isso como quem justifica não ter vindo antes, e a justificativa é honesta: a ferida realmente não pede nada dela.
É por não pedir nada que ela é a mais importante das quatro úlceras deste capítulo. A que dói traz a paciente em três dias; a que não dói espera doze, ou não vem nunca, cicatriza sozinha em algumas semanas e deixa a pessoa convencida de que sarou. Nesse intervalo ela continua transmitindo, e a infecção segue para dentro sem sintoma nenhum. O desaparecimento espontâneo da lesão é parte da história natural da doença, não sinal de cura — e a paciente não tem como saber disso.
Ao exame, com luz e com luva: uma úlcera única no lábio maior direito, perto da fúrcula, de cerca de um centímetro, com borda regular e bem delimitada, fundo limpo e liso, sem secreção, sem odor. Ao apalpar entre o polegar e o indicador, a base tem consistência de cartilagem — não é uma escoriação mole. Não há dor à palpação, nem quando você aperta um pouco mais do que precisaria. Na virilha direita, dois linfonodos de cerca de um centímetro, móveis, endurecidos, indolores.
Silene não tem febre, não tem lesão em outro lugar, não tem corrimento e não tem dor. Namora Wendel Alarcão há três meses; antes dele, um parceiro que terminou em janeiro. Preservativo no começo, depois não. Wendel não reclamou de nada. Última menstruação há onze dias, anticoncepcional em uso regular, nega alergia a medicamento — e, quando você pergunta especificamente sobre penicilina, ela diz que nunca tomou injeção nenhuma na vida.
O que este capítulo faz com essa consulta tem duas partes, e as duas precisam ser feitas hoje. A primeira é o exame que você acabou de ler, porque descrever a lesão em seis eixos — dor, número, borda, base, fundo, íngua — é o que separa as quatro doenças, mesmo sabendo que separa mal. A segunda é a decisão terapêutica, que não espera exame nenhum: no fluxograma nacional, a úlcera genital sem vesícula ativa e com menos de quatro semanas é tratada para sífilis e para cancro mole na mesma consulta, antes de qualquer resultado. Silene sai daqui com duas injeções aplicadas e dois comprimidos engolidos na sua frente, ou a consulta falhou.
Quem adoece disso
Das quatro doenças deste capítulo, o Brasil tem número nacional de uma só. A notificação compulsória de sífilis adquirida foi instituída pela Portaria nº 2.472, de 31 de agosto de 2010 — quarta e última das IST a entrar na lista, vinte e quatro anos depois da aids e da sífilis congênita, que entraram juntas em 1986. O próprio protocolo resolve o caso das demais delegando: cada estado, o Distrito Federal e cada município podem acrescentá-las à sua lista local de notificação, se julgarem conveniente. Herpes genital, cancro mole e linfogranuloma venéreo não são de notificação nacional, e por isso não existe, para eles, número brasileiro de casos. Saber disso muda a leitura de tudo o que vem a seguir: a sífilis não é a mais comum porque é a mais comum, é a única que se conta.
O que se conta é muito. Em 2024 o país registrou 256.830 casos de sífilis adquirida, uma taxa de detecção de 120,8 casos por 100 mil habitantes. A série do boletim mostra a escalada inteira, em casos por 100 mil habitantes: 25,4 em 2014, 34,6, 45,1, 60,1, 78,0 em 2018, 79,4 em 2019, uma queda a 61,0 em 2020, e então 82,8, 104,1, 117,1 e 120,8 em 2024. Entre 2014 e 2018 o crescimento médio anual foi de 32,4% — e a conta fecha: 78,0 dividido por 25,4 dá 3,07, e a raiz quarta de 3,07 é 1,324, isto é, 32,4% ao ano por quatro anos seguidos.
A queda de 2020 é a única interrupção da curva, e o próprio boletim a atribui à redução da capacidade diagnóstica e do acesso aos serviços durante a pandemia, e não a menos doença. O tamanho da queda também fecha: de 79,4 para 61,0 são 18,4 pontos, ou 23,2% da taxa de 2019 — exatamente o número que o texto declara. E a retomada de 2021 devolveu mais do que se havia perdido: de 61,0 para 82,8 são 35,7% de aumento em um ano, e a taxa de 2021 já era superior à de qualquer ano anterior à pandemia. A leitura correta dessa curva não é que a sífilis explodiu em 2021; é que ela nunca parou e ficou dois anos parcialmente invisível.
A distribuição não é homogênea. Dos 256.830 casos de 2024, 126.951 estavam no Sudeste, 49.981 no Sul, 41.445 no Nordeste, 20.942 no Centro-Oeste e 17.511 no Norte — 49,4%, 19,5%, 16,1%, 8,2% e 6,8%, e as cinco parcelas somam exatamente o total nacional. Vale um cuidado de leitura, porque o mesmo boletim traz duas distribuições regionais próximas e diferentes: a de 2024, acima, e a do acumulado de 2010 a 30 de junho de 2025, com 1.902.301 casos e Sudeste em 50,0%, Sul em 21,3%, Nordeste em 14,9%, Centro-Oeste em 7,5% e Norte em 6,4%. Não são números discordantes: são denominadores diferentes, um ano contra quinze anos e meio.
Para as outras três doenças, o que existe são frases, não taxas. O protocolo descreve o cancro mole como mais frequente nas regiões tropicais e mais frequente em homens, e atribui a uma única relação sexual com pessoa infectada um risco de infecção de 80%. Descreve a donovanose — a quinta causa, que este capítulo apenas cita — como pouco frequente, de climas tropicais e subtropicais, e de transmissibilidade baixa. Sobre o herpes, informa que a proporção de infecções sintomáticas é estimada entre 13% e 37%, o que significa que a maioria das pessoas infectadas nunca terá lesão para mostrar a ninguém, e que a prevalência real não tem relação com o número de consultas. Nenhuma dessas frases vem acompanhada de um número brasileiro de casos, porque ele não existe.
O dado que mais muda a conduta, porém, não é de frequência: é de acurácia. O protocolo cita o estudo de validação da abordagem sindrômica no Brasil e diz que o diagnóstico baseado na impressão clínica apresentou valores preditivos positivos baixos — 30,9% para sífilis e 32,7% para cancro mole. Traduzido: de cada dez úlceras que o examinador chamou de cancro duro, sete não eram; de cada dez que chamou de cancro mole, sete não eram. E o próprio documento avisa que isso vale inclusive nos casos considerados clássicos. É esse número, e não a prevalência, que justifica a arquitetura do capítulo inteiro.
Há ainda um motivo de saúde pública que não é sobre nenhum dos quatro agentes. O protocolo associa a lesão ulcerada a um risco alto tanto de passar quanto de contrair o vírus da imunodeficiência humana, e vai além: descreve essa lesão como o principal caminho de disseminação do vírus nas populações mais vulneráveis — de modo que diagnosticar e tratar a lesão imediatamente é, nas palavras do documento, medida de prevenção e controle da epidemia de HIV. Uma úlcera genital tratada hoje não é apenas uma úlcera a menos: é uma porta fechada.
Por que acontece o que acontece
Quatro agentes produzem uma lesão do mesmo formato geral por quatro caminhos diferentes, e é a diferença de caminho que sobra na aparência da lesão. Vale dizer de saída o que é citação e o que é leitura: as descrições morfológicas e a história natural que este bloco usa estão no protocolo brasileiro; a ligação entre o tipo de inflamação e o aspecto que a lesão ganha é raciocínio meu a partir dessas descrições, e o leitor deve tratá-la como um modo de organizar o que vai ver, não como afirmação de documento.
Na sífilis, o Treponema pallidum entra por uma solução de continuidade da mucosa ou da pele, multiplica-se no local de entrada e provoca uma reação de tecido, não de pus. O que o protocolo descreve é uma úlcera única, indolor, de borda bem definida e regular, base endurecida e fundo limpo, rica em treponemas. Os três adjetivos formam um conjunto coerente: sem neutrófilo em massa não há tensão purulenta nem destruição do fundo, e por isso o fundo é limpo; a base endurecida corresponde ao infiltrado denso da parede da lesão, que se apalpa como cartilagem entre dois dedos; e a ausência de dor decorre da mesma ausência de inflamação aguda supurativa. O período de incubação é de dez a 90 dias, com média de três semanas, e a linfadenopatia regional que acompanha a lesão tem a mesma qualidade dela — firme e indolor.
O ponto mais perigoso da sífilis primária não é a lesão, é o que acontece com ela. O protocolo registra que o desaparecimento do cancro duro independe de tratamento, e que ele some sozinho. Registra também que a lesão pode não ser notada nem valorizada pela pessoa, e que, embora menos frequente, pode ser múltipla. A infecção, entretanto, não some com a úlcera: em média entre seis semanas e seis meses depois da cicatrização vem o secundarismo, com roséola, sifílides papulosas, acometimento palmoplantar com colarinho de escamação, condiloma plano nas dobras, alopecia em clareira e micropoliadenopatia com gânglios epitrocleares. E o secundarismo também desaparece sozinho, trazendo, nas palavras do documento, a falsa impressão de cura.
No herpes genital, o mecanismo é de destruição direta de células epiteliais, e por isso a lesão nasce vesícula antes de virar úlcera. O protocolo descreve pápulas avermelhadas de um a três milímetros que em pouco tempo viram bolhas de líquido amarelo-claro sobre pele inflamada, e insiste na dor — e observa que, nas mucosas, é incomum ver a vesícula, porque o teto se rompe com facilidade. Quem chega ao consultório com três dias de evolução costuma ter, portanto, um agrupado de erosões pequenas, arredondadas ou policíclicas, e não a vesícula do livro. A chave diagnóstica não é o formato de cada lesão: é o agrupamento e a multiplicidade sobre uma base avermelhada.
O que faz do herpes uma doença crônica é anatômico. Depois da infecção genital o vírus ascende pelos nervos periféricos sensitivos, penetra no núcleo das células dos gânglios sensitivos e entra em latência — e o protocolo é explícito quanto ao limite terapêutico que isso impõe: nenhuma medida terapêutica reduz a ocorrência de infecção do gânglio sensitivo. Nenhum antiviral cura; todos encurtam episódios. A reativação segue gatilhos conhecidos — quadros infecciosos, radiação ultravioleta, traumatismo local, menstruação, estresse físico ou emocional, antibioticoterapia prolongada, imunodeficiência — e a recorrência aparece na mesma localização da primeira lesão, em zonas inervadas pelos nervos sacrais. É por isso que a paciente aponta sempre o mesmo lugar.
A diferença de recorrência entre os dois tipos virais tem tamanho e é a informação mais útil da consulta de herpes: após a infecção genital primária, 90% dos pacientes com HSV-2 e 60% dos com HSV-1 desenvolvem novos episódios nos primeiros 12 meses. Somam-se a isso duas informações de prognóstico que o protocolo dá e que a paciente precisa ouvir: as lesões de recorrência regridem espontaneamente em sete a dez dias, com ou sem cicatriz, e a tendência natural dos surtos é tornarem-se menos intensos e menos frequentes com o passar do tempo. A primoinfecção é o pior episódio da vida da pessoa com aquela doença, e dizer isso na primeira consulta muda o que ela imagina pela frente.
O cancro mole é o oposto morfológico da sífilis, e o mecanismo explica cada oposto. O Haemophilus ducreyi produz uma lesão que dói, quase sempre em número maior que um porque ela mesma semeia as vizinhas, com o contorno recortado e a pele em volta vermelha e inchada; o assoalho é irregular e vem sob uma crosta necrótica amarelada de cheiro forte que, retirada, descobre granulação sangrante. Necrose e pus explicam a dor, o fundo sujo e o cheiro; a autoinoculação explica o número. O comprometimento ganglionar acontece em 30% a 50% dos casos, é unilateral em dois terços deles, evolui para liquefação e fistulização em metade dos que ocorrem, e — detalhe que separa do linfogranuloma — tipicamente por orifício único.
No linfogranuloma venéreo o alvo não é a pele: são os sorotipos L1, L2 e L3 da Chlamydia trachomatis, que o protocolo descreve como altamente invasivos aos tecidos linfáticos. A consequência é que a lesão de entrada — pápula, pústula ou exulceração indolor — desaparece sem sequela e frequentemente não é notada pela pessoa nem observada pelo profissional, enquanto a doença segue no linfonodo. No homem a linfadenopatia inguinal surge entre uma e seis semanas depois da lesão inicial, é unilateral em 70% dos casos e constitui o principal motivo da consulta; na mulher, a localização depende de onde foi a inoculação. Na fase de sequelas a massa supura e se abre por vários pontos ao mesmo tempo — ela é um bloco de gânglios apenas parcialmente fundidos, e cada um encontra a sua saída — e o quadro pode chegar a inflamação do reto e do cólon com sangramento, fístulas retais, vaginais e vesicais, estenose retal e elefantíase genital — na mulher, o estiomene.
Como se apresenta de verdade
Uma úlcera genital exige raciocínio etiológico e reconhecimento dos limites da aparência. Você deve avaliar exposição, dor, lesões associadas e testes, iniciando tratamento quando a suspeita e o contexto o exigirem. Cicatrização não prova cura da sífilis, e uma lesão persistente pede investigação além das IST usuais.
Seis eixos bastam, e é útil pedi-los sempre na mesma ordem, porque é a ordem que impede o esquecimento: dói ou não dói; é uma ou são várias; como é a borda; como é a base ao toque; como é o fundo; e o que há na virilha. Um sétimo dado, que não é da lesão, entra junto: há quanto tempo. Quatro semanas é um marco do fluxograma nacional, e a paciente raramente diz isso espontaneamente.

Percurso clínico: Preservar incerteza sem atrasar cuidado
A aparência da úlcera orienta hipóteses, mas não confirma etiologia. Integre história, exame, testes e possibilidade de janela diagnóstica. Planeje tratamento quando indicado, avaliação de parceria e retorno; lesão persistente ou atípica requer revisão e, conforme contexto, investigação adicional.
A que não dói — cancro duro
Uma úlcera só, quase sempre, que não dói, com o contorno nítido e regular, o assoalho liso e sem secreção, e o anel de tecido sob ela endurecido. Nasce onde a bactéria entrou, e isso quer dizer qualquer superfície que tenha recebido contato: vulva e vagina, colo do útero, região anal, cavidade oral, pênis, ou pele fora da genitália. Junto vêm os linfonodos que drenam aquele ponto, com a mesma assinatura da lesão — duros ao toque e mudos à palpação. A base endurecida é o achado que mais se perde por não se procurar: só aparece se você pinçar a lesão entre o polegar e o indicador e comparar com a pele vizinha.
Dois números do protocolo importam mais do que a descrição. O primeiro é a incubação: de dez a 90 dias, média de três semanas — o que significa que a exposição responsável pode ter sido três meses atrás, e perguntar apenas pelo parceiro atual perde parcerias. O segundo é a duração, e aqui o próprio documento se contradiz: no capítulo de sífilis diz que a duração costuma variar muito, em geral de três a oito semanas; no capítulo de úlcera genital diz que o estágio pode durar entre duas e seis semanas. Nos dois casos a lesão some sozinha, independentemente de tratamento — e é isso que o capítulo precisa que fique.
A lesão pode não ser notada nem valorizada pela pessoa. E, embora menos frequente, pode ser múltipla — o que derruba a regra de bolso de que sífilis é sempre uma só. Em pessoa vivendo com HIV, o protocolo descreve cancros múltiplos e profundos ou atípicos, de resolução mais lenta, e maior frequência de sobreposição de estágios, com lesão primária e secundária ao mesmo tempo.
Se a úlcera já sumiu e a pessoa vem por outro motivo, a sífilis não sumiu com ela. Toda erupção cutânea sem causa determinada deve ser investigada com testes para sífilis, diz o protocolo, com esse grau de generalidade — e o secundarismo, com roséola, sifílides palmoplantares e condiloma plano, é o que aparece semanas ou meses depois da úlcera que ninguém tratou.
As que doem e nasceram vesícula — herpes genital
A primoinfecção tem incubação média de seis dias e é o episódio mais grave da doença. Começa por pápulas avermelhadas de um a três milímetros que em poucas horas se transformam em bolhas de líquido amarelo-claro assentadas sobre pele vermelha, doloridas ao extremo, em qualquer ponto da região genital. O quadro local costuma ser bastante sintomático e vem acompanhado de manifestações gerais: febre, mal-estar, mialgia e disúria, com ou sem retenção urinária. Nas mulheres, o protocolo avisa que pode simular infecção urinária baixa — e essa é a confusão que mais atrasa o diagnóstico. A linfadenomegalia inguinal dolorosa bilateral está presente em metade dos casos, e a bilateralidade é um dado discriminante, porque as duas outras íngoas deste capítulo tendem à unilateralidade.
Quando o vírus acomete o colo do útero, é comum corrimento vaginal, que pode ser abundante. O quadro pode durar de duas a três semanas — mais que o dobro de uma recorrência —, e é por isso que se trata o primeiro episódio por sete a dez dias e a recorrência por cinco.
A recorrência é outra doença clinicamente. É menos intensa, pode ser precedida de pródromo característico — prurido leve ou queimação, mialgia e fisgadas nas pernas, quadris e região anogenital —, tende a ocorrer na mesma localização da lesão inicial e se apresenta como vesículas agrupadas sobre base eritematosa que viram pequenas úlceras arredondadas ou policíclicas. Regride sozinha em sete a dez dias. Raramente vem com sintomas gerais.
Duas informações da primeira consulta valem mais do que a receita. A primeira é que a maioria das pessoas infectadas nunca terá manifestação: a proporção de infecções sintomáticas é estimada entre 13% e 37% — e é isso que explica a parceria sem sintoma, que não mentiu. A segunda é o prognóstico de recorrência, que tem número: 90% das pessoas com HSV-2 e 60% das com HSV-1 terão novo episódio nos primeiros 12 meses. Em pessoas vivendo com HIV as manifestações tendem a ser dolorosas, atípicas e de maior duração; em imunodepressão pode haver lesões ulceradas ou hipertróficas de grandes dimensões, persistentes mesmo sem tratamento local ou sistêmico.
A que dói e tem fundo sujo — cancro mole
Incubação de três a cinco dias, podendo estender-se até duas semanas — a mais curta das três que produzem úlcera visível, e por isso a que chega mais cedo ao serviço. Doem, costumam ser mais de uma porque a própria lesão semeia as vizinhas, e o contorno é recortado, com a pele em volta vermelha e inchada. O assoalho não é uniforme: vem coberto por uma camada necrótica amarelada que cheira mal, e, quando essa camada é retirada, o que aparece embaixo é tecido de granulação que sangra ao menor toque. No homem as localizações mais frequentes são frênulo e sulco bálano-prepucial; na mulher, a fúrcula e a face interna dos pequenos e grandes lábios.
A íngua do cancro mole tem regras próprias, e elas decidem conduta. O comprometimento inguino-crural — o bubão — ocorre em 30% a 50% dos casos, é unilateral em dois terços deles, e e aparece quase só em homens, por como a linfa daquela região drena. Nasce como um endurecimento doloroso, e em metade dos casos amolece e se abre — em geral por um furo só. A cicatrização pode ser desfigurante.
O que se faz com esse bubão está escrito com todas as letras, e é uma das poucas proibições explícitas do capítulo: o linfonodo que estiver tenso e já flutuante deve ser esvaziado por punção com agulha larga, para aliviar a pressão, e estão vedadas as duas condutas cirúrgicas que o reflexo pede — abrir para drenar, e retirar o gânglio. Quem incisa transforma um bubão que ia fechar em uma fístula que não fecha.
Um número deste agente aparece em nenhum outro: o risco de infecção em uma única relação sexual é de 80%. Isso muda a conversa sobre a parceria — que deve ser tratada mesmo assintomática — e muda a expectativa de quem espera que a parceria negue exposição de boa-fé.
Quando a íngua é a doença — linfogranuloma venéreo
O linfogranuloma tem três fases, e só a segunda costuma ser vista. A fase de inoculação é uma pápula, pústula ou exulceração indolor que desaparece sem sequela, muitas vezes não notada pela pessoa e raramente observada pelo profissional. A fase de disseminação linfática regional é a consulta: no homem a linfadenopatia inguinal surge entre uma e seis semanas depois da lesão inicial, é unilateral em 70% dos casos e é o principal motivo da procura; na mulher, a localização da adenopatia depende de onde foi a inoculação, e a apresentação anorretal é frequente o bastante para que o protocolo mande pesquisar Chlamydia trachomatis em praticantes de sexo anal com úlceras anorretais, e para que registre a proctocolite como manifestação inicial em mulheres com coito anal e em homens que fazem sexo com homens receptivos.
A fase de sequelas é o que se quer evitar e é o que justifica 21 dias de antibiótico. A massa passa a supurar e a se abrir por vários pontos ao mesmo tempo, porque o que se palpa é um bloco de gânglios apenas parcialmente fundidos, cada um encontrando a sua própria saída; proctite e proctocolite hemorrágica quando a lesão é anal; glossite ulcerativa difusa quando o contato foi orogenital; e, na obstrução linfática crônica, elefantíase genital — o estiomene, na mulher. Fístulas para o reto, para a vagina e para a bexiga, e o reto estreitado, completam a lista das sequelas locais. E o quadro pode ser sistêmico: perda de peso e de apetite, febre, dor articular, indisposição, suor noturno e sinais de irritação meníngea.
A frase operacional do protocolo é uma só e é ampla: sempre que houver gânglio inguinal inflamado, sempre que houver genitália elefantiásica, e sempre que houver estreitamento de uretra ou de reto, o linfogranuloma entra na lista. Note o que ela não exige — não exige úlcera. E note o problema que isso cria, porque ele é real e este capítulo o assume: o fluxograma nacional de manejo começa na caixa queixa de úlcera genital. A paciente cuja lesão de entrada já sumiu e que chega com a íngua não entra por essa porta, ainda que o mesmo documento diga que a linfadenopatia inguinal é a manifestação clínica mais comum do linfogranuloma. Quem depende só do fluxograma perde justamente a apresentação típica desta doença.
O bubão do linfogranuloma segue a mesma regra do outro: quando ganha flutuação, esvazia-se por punção com agulha larga, e em nenhuma hipótese se abre com bisturi. E o protocolo é honesto quanto ao que o antibiótico faz e não faz — o antibiótico costuma apagar depressa os sintomas agudos, mas quase não encurta o tempo que a íngua leva para sumir — e não desfaz o que já virou sequela, como um reto estreitado ou uma genitália elefantiásica.
A quinta, e as que não são infecção sexualmente transmissível
A quinta causa infecciosa da síndrome é a donovanose, por Klebsiella granulomatis: ulceração de contorno nítido, com a borda plana ou espessada, cujo assoalho é granuloso e de um vermelho intenso que sangra ao menor contato; cresce devagar e sem parar, e pode ganhar aspecto vegetante. As lesões costumam ser múltiplas, com a configuração em espelho característica nas bordas cutâneas e mucosas, e há predileção por dobras e região perianal. O dado que a separa das outras é negativo: não ocorre adenite, embora possam formar-se pseudobubões — granulações subcutâneas — quase sempre unilaterais. Este capítulo a cita e não a desenvolve, porque o título nomeia as quatro que dominam a consulta; o que não se pode é esquecê-la diante de uma úlcera crônica de fundo vermelho-vivo sem íngua nenhuma.
E há a advertência que abre o capítulo do protocolo: a queixa de úlcera genital não é exclusividade das IST. A lista de diferenciais que o documento oferece é ampla e vale decorar, porque cada item já apareceu como sífilis tratada em vão. São seis famílias: a úlcera de origem traumática; a afta genital; a forma erosiva do líquen plano; a lesão que reaparece sempre no mesmo ponto a cada uso de um medicamento, chamada erupção fixa por drogas; o grupo das dermatoses bolhosas e inflamatórias, em que entram o pênfigo, o eritema multiforme e a dermatite de contato; e a lesão neoplásica, cujo representante mais frequente na vulva é o carcinoma de células escamosas. Fungos, vírus e bactérias inespecíficas completam a lista.
Duas dessas entram com mais frequência do que se supõe na consulta ginecológica. A erupção fixa por drogas reaparece exatamente no mesmo sítio a cada uso do medicamento, e a pergunta que a revela é sobre remédio tomado nos dias anteriores, não sobre parceria. A úlcera maligna cresce, não cicatriza e frequentemente já tem semanas ou meses de evolução quando chega — que é o motivo de o fluxograma nacional mandar realizar biópsia nas lesões com mais de quatro semanas.
O protocolo resolve a tensão entre tratar e investigar com uma regra de precedência que vale a pena citar como está: considerando a importância para a saúde pública, em caso de dúvida sobre a hipótese diagnóstica e na ausência de laboratório, o tratamento da úlcera genital como IST deve ser privilegiado. Isto é: a dúvida não adia o antibiótico. Ela obriga o retorno.
O que a lesão não diz
Três limites precisam estar claros antes do bloco de investigação. O primeiro é a acurácia: valores preditivos positivos de 30,9% para sífilis e 32,7% para cancro mole significam que a impressão clínica erra mais do que acerta, e que ela erra inclusive nos quadros clássicos — que é a frase do documento, não uma ressalva minha.
O segundo é a coinfecção. O protocolo registra que os agentes podem ser encontrados isoladamente ou em associação em uma mesma lesão, e dá o exemplo justamente do par mais comum: úlcera por Treponema pallidum e por HSV-2 ao mesmo tempo. Achar um agente não encerra a busca pelo outro, e é por isso que o tratamento sindrômico cobre dois de uma vez em vez de escolher.
O terceiro é a imunossupressão, que desmancha os padrões. Em pessoa vivendo com HIV, o herpes é mais doloroso, mais atípico e mais duradouro; a sífilis faz cancros múltiplos, profundos ou atípicos, de resolução mais lenta, com maior frequência de sobreposição de estágios e de lesões oftálmicas e neurológicas; e o cancro mole e o linfogranuloma podem exigir mais tempo de tratamento, com cura retardada e possibilidade de falha terapêutica com qualquer dos esquemas recomendados. Diante de uma úlcera genital que não se comporta como nada deste capítulo, a pergunta seguinte é sobre o estado sorológico para o HIV — e ela se responde com um teste rápido na mesma consulta.
Como fechar o diagnóstico
A ordem deste bloco é a ordem da consulta, e ela é deliberada: o exame primeiro, os testes que existem depois, e por último o que não existe. A razão é que, neste capítulo, a lista do que não existe é longa e determina mais condutas do que a lista do que existe.
Vale fixar de saída a frase que organiza tudo: o protocolo afirma que, no sistema público, o exame de microscopia é o único recurso laboratorial disponível para apontar o agente de uma úlcera genital, e que ele alcança apenas dois deles — Haemophilus ducreyi e Treponema pallidum. Para os demais, o diagnóstico se dará por exclusão desses dois, associada ao histórico de exposição, sinais e sintomas clínicos. É essa frase, e não a lista de exames de um livro estrangeiro, que descreve o serviço em que você trabalha.
O exame que decide o galho do fluxograma
Examine com luz, com luva e com tempo, e afaste as dobras: a lesão pode estar na fúrcula, na face interna dos pequenos lábios, no vestíbulo, no períneo, na região perianal e no colo — e o colo exige espéculo, que na úlcera genital não é opcional quando há queixa alta ou sangramento. A lesão de colo é indolor por definição de inervação e some do relato da paciente.
Descreva os seis eixos. Dor: teste apertando, e registre a ausência de dor com a mesma clareza com que registraria a presença. Número: uma, poucas agrupadas, várias espalhadas. Borda: regular e bem definida, ou irregular e recortada. Base: pince entre dois dedos e compare com a pele ao lado — endurecida como cartilagem, ou mole. Fundo: limpo e liso, ou coberto por exsudato amarelado e fétido, ou granuloso e sangrante. E a virilha: presença, lado, tamanho, consistência, dor, flutuação e — se já drenou — quantos orifícios.
Três dados de anamnese têm peso equivalente ao exame. Há quanto tempo a lesão existe, porque quatro semanas separa dois galhos do fluxograma. Se houve vesícula antes, porque a paciente pode não ter mais vesícula agora e ainda assim ter tido — e a pergunta precisa ser feita nesses termos: apareceu bolinha com água antes de virar ferida? E as parcerias dos últimos 90 dias, porque a incubação da sífilis chega a esse prazo e é ele, não o parceiro atual, que define quem se convoca.
Registre a lesão no prontuário com essas palavras, e não com o nome de uma doença. Úlcera única, um centímetro, lábio maior direito, borda regular, base endurecida, fundo limpo, indolor, com dois linfonodos inguinais direitos firmes e indolores é uma descrição que outro profissional consegue reconhecer em três semanas. Cancro duro não é.
Os dois exames diretos que o SUS tem
A microscopia de campo escuro é o método de pesquisa direta de Treponema pallidum mais usado no SUS, ao lado da imunofluorescência direta e da técnica com material corado. Colhe-se, sempre que houver disponibilidade, o exsudato seroso da lesão a fresco, livre de eritrócitos, de outros organismos e de restos de tecido, e leva-se ao microscópio com condensador de campo escuro imediatamente após a coleta — é exame de leitura imediata, não de envio. Serve tanto para lesões primárias quanto para lesões secundárias, em adultos e em crianças. Não é recomendada para material de cavidade oral, pela colonização por outras espiroquetas.
O positivo é a visualização de treponemas com morfologia e mobilidade características. O negativo não exclui sífilis, e o protocolo dá três explicações possíveis para ele: a lesão já estava perto de cicatrizar sozinha; a pessoa já havia recebido tratamento, por boca, por injeção ou em pomada; ou simplesmente não havia treponema bastante naquela amostra para ser visto. Este terceiro item merece atenção prática, porque a paciente que passou pomada por conta própria antes de vir zerou o exame — e ela não sabe que fez isso.
Para o cancro mole existe a bacterioscopia pelo Gram, e o que se procura tem nome de figura: bacilos Gram-negativos pequenos agrupados em correntes dos tipos cardume de peixes, vias férreas ou impressões digitais, em material das úlceras. Coleta-se, de novo, o exsudato seroso da base da lesão, livre de eritrócitos, de outros organismos e de restos de tecido. E, de novo, um resultado negativo não fecha nada: as formas características nem sempre aparecem ao microscópio.
A consequência dos dois parágrafos anteriores é a espinha do capítulo: os dois exames que existem servem para confirmar, nunca para descartar. Um negativo não muda a conduta que o fluxograma já mandou tomar. Se você espera o resultado para tratar, está usando um exame para uma coisa que ele não faz.
A sorologia, e a lesão em que ela ainda está negativa
Os testes imunológicos de sífilis se dividem em treponêmicos e não treponêmicos, e o diagnóstico se faz com um de cada — a ordem depende do que o serviço tem. O protocolo permite começar por qualquer um: teste treponêmico reagente com teste não treponêmico reagente fecha diagnóstico de sífilis, e o mesmo vale na ordem inversa. Quando o primeiro volta reagente e o complementar não, entra um terceiro exame — treponêmico de novo, mas por técnica diferente da que se usou no começo — e o desempate é dele: sífilis, marca de infecção já tratada, ou resultado falsamente positivo no primeiro.
Para a úlcera aguda, porém, o que importa é a última linha do quadro de interpretação, e ela é a informação mais decisiva deste bloco. Diante de primeiro teste não reagente, a interpretação é ausência de infecção ou período de incubação — janela imunológica — de sífilis recente. A conduta é solicitar nova coleta em 30 dias em caso de suspeita clínica ou epidemiológica; e o protocolo acrescenta, textualmente, que isso não deve retardar a instituição do tratamento caso o diagnóstico de sífilis seja o mais provável, dando como exemplo justamente a visualização de úlcera anogenital, ou caso o retorno da pessoa ao serviço não possa ser garantido.
Traduzido para a consulta de Silene: teste rápido não reagente diante de uma úlcera indolor de base endurecida não afasta sífilis primária, não muda o tratamento e não adia nada. O documento também instrui a não realizar teste complementar quando o primeiro for não reagente — a menos que haja suspeita clínica de sífilis primária, e é exatamente esse o caso. A sorologia aqui não é para decidir se trata: é para ter a titulação de base do seguimento.
Há cinco situações em que o protocolo autoriza aplicar a penicilina de imediato com um único teste reagente, tenha a pessoa sintoma ou não. Duas são de vulnerabilidade: a gestação e a situação de violência sexual. Uma é logística e vale mais do que parece: a pessoa que provavelmente não vai voltar ao serviço. E duas são clínicas: quem exibe lesão de primeira ou de segunda fase, e quem nunca teve diagnóstico de sífilis antes. A úlcera genital cai na quarta e, quase sempre, também na quinta. Tratar com um teste, entretanto, não dispensa o segundo teste, o monitoramento laboratorial e o tratamento das parcerias — o documento é explícito quanto a isso, e o atalho vale para a droga, não para o resto.
Colha o teste não treponêmico, sempre que possível, no primeiro dia de tratamento. O motivo é aritmético e o protocolo o explicita: os títulos podem subir de modo significativo se o tratamento começar alguns dias depois do diagnóstico, e é a titulação do início do tratamento que serve de base para o seguimento. Um VDRL colhido duas semanas depois da injeção não é linha de base de nada.
Título, diluição e a conta que quase todo mundo erra
Um resultado 1:32 não é trinta e duas vezes mais doença que 1:1. A amostra é diluída em fator 2 a cada passo, e o título é a última diluição que ainda reage — 1:16 corresponde ao título 16. Como cada diluição vale um fator 2, duas diluições valem quatro vezes: cair de 1:64 para 1:16 é cair duas diluições, isto é, quatro vezes. No Brasil, avisa o protocolo, a maioria dos laboratórios libera o resultado na forma de diluição.
Confira os exemplos do próprio documento e a conta fecha em todos: 1:32 para 1:8 são quatro vezes, duas diluições; 1:128 para 1:32, o mesmo; 1:16 para 1:64 são duas diluições de aumento; 1:4 para 1:16, idem. E a variação de uma diluição — 1:2 para 1:4, 1:16 para 1:8 — é o dobro ou a metade, e o protocolo manda analisá-la com cautela, porque o teste não é automatizado e há diferença entre leituras feitas em momentos diferentes ou por observadores diferentes.
Daí a regra operacional que fecha o bloco: o monitoramento deve ser feito com teste não treponêmico e, sempre que possível, com o mesmo método. Diagnóstico por VDRL, seguimento por VDRL; diagnóstico por RPR, seguimento por RPR. Trocar de método no meio do seguimento produz uma variação de uma diluição que ninguém consegue interpretar depois.
Os testes que saem junto — e de quem é cada um
O rodapé do fluxograma nacional lista o que acompanha qualquer infecção sexualmente transmissível, e nada disso é encaminhamento para outra consulta. São seis obrigações desta: sorologias e testes rápidos para o vírus da imunodeficiência humana, para sífilis e para as hepatites B e C; pesquisa molecular de clamídia e de gonococo; imunização contra hepatite A, hepatite B e papilomavírus, quando indicada pelo calendário; a conversa sobre prevenção combinada, incluindo a profilaxia pré-exposição onde houver indicação; o cuidado estendido às parcerias, que se tratam e se acompanham junto; e a notificação, nos agravos em que ela é devida.
A operação dessa lista — como se comunica a parceria, o cartão de comunicação, a testagem molecular, a triagem conjunta e a conversa de resultado — está escrita em Cervicite por gonococo e clamídia, e este capítulo não a repete. Duas diferenças, porém, são deste capítulo e precisam ser ditas aqui, porque um mesmo protocolo usa janelas diferentes conforme o agente: a parceria de cervicite se convoca pelos últimos 60 dias, e a de sífilis, pelos últimos 90 dias. Quem aplica a janela do capítulo vizinho perde um mês inteiro de parcerias.
A notificação também difere. Sífilis adquirida é agravo de notificação compulsória nacional desde 2010, e notificá-la não é burocracia: o próprio protocolo registra que os casos notificados de sífilis adquirida, sífilis em gestantes e sífilis congênita entram na base de cálculo da compra e da distribuição centralizadas de benzilpenicilina pelo Ministério da Saúde, ao lado da série histórica de consumo e do movimento de estoque. A ficha que não se preenche hoje é a penicilina que falta na unidade no ano que vem. Herpes, cancro mole e linfogranuloma não são de notificação nacional; se o estado ou o município os incluiu na lista local, notifique.
O que não existe, e o que se faz no lugar
Não há, no rol que o protocolo descreve para o SUS, teste para HSV-1 ou HSV-2 no manejo da úlcera genital, nem sorotipagem de Chlamydia trachomatis que distinga L1, L2 e L3 dos demais sorovares, nem exame para Klebsiella granulomatis. Para esses três agentes o diagnóstico é de exclusão: afasta-se sífilis e cancro mole pelos dois exames diretos, e decide-se pelo histórico de exposição ao risco e pelos sinais e sintomas clínicos. Não é uma lacuna deste texto — é o que está escrito no documento.
Isso tem três consequências práticas. A primeira é que o diagnóstico de herpes genital é clínico, e o achado que o sustenta é a lesão vesiculosa ativa ou o agrupamento de erosões pequenas sobre base eritematosa: o fluxograma nacional decide o galho do herpes pela pergunta há evidência de lesões vesiculosas ativas, não por sorologia. A segunda é que o diagnóstico de linfogranuloma é presuntivo, sustentado pela adenite inguinal com ou sem lesão anterior e pela prática sexual — e é por isso que o protocolo manda considerá-lo em todos os casos de adenite inguinal. A terceira é que a resposta ao tratamento vira dado diagnóstico: quem não melhora em duas semanas muda de hipótese, e é isso que a caixa final do fluxograma faz.
Para a lesão que já tem mais de quatro semanas, o fluxograma acrescenta a biópsia à lista, ao lado de tratar sífilis e cancro mole e investigar linfogranuloma e donovanose. Não é biópsia em vez de antibiótico: é biópsia junto com o antibiótico, porque nesse prazo entram no diferencial o carcinoma espinocelular e as dermatoses crônicas — e porque a sífilis primária, pelas duas durações que o próprio documento declara, já deveria ter cicatrizado sozinha.
Fica registrado o que este capítulo não afirma por não ter lido no original: as recomendações de teste molecular para HSV e para sorovares de linfogranuloma que circulam em documentos internacionais não são citadas aqui como conduta, porque a régua que se aplica ao serviço brasileiro é a lista de exames que o SUS oferece, e ela é a do parágrafo anterior.
As quatro úlceras eixo a eixo, os esquemas por extenso e o que não fecha nos documentos oficiais
Três réguas operam neste capítulo e é preciso não confundi-las. A primeira é descritiva e diz o que a lesão parece — e o próprio protocolo mede o quanto ela vale: valor preditivo positivo de 30,9% na sífilis e de 32,7% no cancro mole. A segunda é o fluxograma, que decide o tratamento sem esperar a primeira: sem laboratório e sem vesícula ativa, trata-se sífilis e cancro mole; com vesícula ativa, trata-se herpes; com mais de quatro semanas, acrescenta-se biópsia e investigação de linfogranuloma e donovanose. A terceira é a régua do estadiamento da sífilis, que não olha a úlcera e sim o tempo de infecção, e que decide entre uma dose e três. O que segue são as três escritas por extenso, com as doses, os frascos e os prazos — e, ao final, as contas que fiz nos documentos oficiais, as que fecharam e as que não.
- 1Examine antes de prescrever. Descreva dor, número, borda, base, fundo e íngua, e pergunte há quanto tempo e se houve bolha antes. Sem essa descrição, nenhum dos galhos seguintes se decide.
- 2Pergunte se é infecção sexualmente transmissível a causa provável, e responda pelos cinco fatores que o fluxograma nacional elenca: ter menos de 30 anos; ter trocado de parceria ou ter mais de uma; ter parceria com infecção sexualmente transmissível; ter tido ou ter agora outra infecção do grupo; e não usar preservativo de forma regular. Se a resposta for negativa, investigue outras causas — a úlcera genital não é exclusividade destas infecções.
- 3Há lesão vesiculosa ativa, ou agrupado de erosões pequenas sobre base eritematosa? Trate herpes genital. Este galho não exclui os outros: agentes podem coexistir na mesma lesão.
- 4A lesão tem mais de quatro semanas? Trate sífilis e cancro mole, investigue linfogranuloma e donovanose e realize biópsia. A biópsia é somada ao antibiótico, não trocada por ele.
- 5Menos de quatro semanas, sem vesícula: trate sífilis e cancro mole na mesma consulta. Não espere exame para isso — os dois exames que o SUS oferece confirmam, mas não descartam.
- 6Se houver microscopia disponível, colha antes de tratar: campo escuro para Treponema pallidum e Gram para Haemophilus ducreyi. Positivo dirige o tratamento; negativo não o desfaz.
- 7Colha o teste não treponêmico no primeiro dia de tratamento, para ter a titulação de base. Teste rápido não reagente diante de úlcera anogenital não afasta sífilis primária e não adia a injeção.
- 8Estadeie a sífilis pelo tempo de infecção, não pela lesão: até um ano é recente e recebe dose única; mais de um ano, ou duração ignorada, é tardia e recebe três doses semanais. Na dúvida, é tardia.
- 9Íngua tensa e flutuante: aspire com agulha de grosso calibre. Não incise, não drene por incisão, não excise — a proibição está escrita no protocolo para o cancro mole e para o linfogranuloma.
- 10Adenite inguinal, com ou sem úlcera visível: considere linfogranuloma. Esta é a apresentação que o fluxograma não alcança, porque ele entra pela queixa de úlcera.
- 11Ofereça e colha, sem deixar para outra consulta: sorologia e teste rápido para o vírus da imunodeficiência humana, teste para sífilis, sorologia das hepatites B e C, e pesquisa molecular de clamídia e de gonococo. Confira o calendário vacinal quanto a hepatite A, hepatite B e papilomavírus.
- 12Convoque e trate as parcerias sexuais dos últimos 90 dias com dose única de benzilpenicilina benzatina, independentemente de sinais, sintomas e resultado — e trate as parcerias de cancro mole e de linfogranuloma mesmo assintomáticas.
- 13Notifique a sífilis adquirida. É agravo compulsório desde 2010 e alimenta a base de cálculo da compra centralizada de penicilina.
- 14Marque o retorno com data escrita. Se os sinais e sintomas persistirem após 14 dias, referencie; se resolveram, dê alta do episódio e mantenha o seguimento sorológico da sífilis.
- 15Siga a sífilis com teste não treponêmico trimestral aos 3, 6, 9 e 12 meses, sempre pelo mesmo método, e retrate se não houver queda de duas diluições no prazo do estágio ou se houver aumento de duas diluições.
| Eixo | Sífilis primária | Herpes genital | Cancro mole | Linfogranuloma venéreo |
|---|---|---|---|---|
| Incubação | 10 a 90 dias, média de três semanas | Primoinfecção: média de seis dias | 3 a 5 dias, podendo chegar a duas semanas | Íngua entre uma e seis semanas após a lesão de entrada |
| Dor na lesão | Ausente, e a ausência é o achado | Muito dolorosa, com queimação e pródromo nas recorrências | Dolorosa | Indolor — e frequentemente já não existe |
| Número | Geralmente única; pode ser múltipla, sobretudo em pessoa vivendo com HIV | Múltiplas e agrupadas em cacho | Geralmente múltiplas, por autoinoculação | Uma, fugaz e quase sempre não notada |
| Borda | Bem definida e regular | Erosões arredondadas ou policíclicas, sem borda infiltrada | Irregular, com contornos eritemato-edematosos | Não se aplica na consulta habitual |
| Base ao toque | Endurecida, consistência de cartilagem | Mole, sobre base eritematosa | Mole | Não se aplica |
| Fundo | Limpo e liso, rico em treponemas | Erosão rasa, conteúdo citrino quando ainda há vesícula | Exsudato necrótico amarelado e fétido; removido, granulação que sangra fácil | Não se aplica |
| Íngua | Regional, firme, indolor, do lado da lesão | Inguinal dolorosa e bilateral em metade das primoinfecções | Bubão em 30% a 50%; unilateral em 2/3; fistuliza em metade, por orifício único | Domina o quadro; unilateral em 70% no homem; fistuliza por orifícios múltiplos |
| Sem tratamento | Cicatriza sozinha e a infecção segue para o secundarismo em seis semanas a seis meses | Recorrência em 12 meses: 90% no HSV-2, 60% no HSV-1; surtos regridem em 7 a 10 dias | Cicatrização pode ser desfigurante | Estenose retal, fístulas e elefantíase genital — o estiomene, na mulher |
| O que o SUS testa | Microscopia de campo escuro do exsudato da lesão, mais sorologia treponêmica e não treponêmica | Nada — diagnóstico clínico, pela vesícula ou pelo agrupado | Bacterioscopia pelo Gram, procurando cardume de peixes, vias férreas ou impressões digitais | Nada específico — diagnóstico por exclusão e pela prática sexual |
| Notificação nacional | Compulsória desde 2010, pela Portaria nº 2.472/2010 | Não é compulsória nacionalmente | Não é compulsória nacionalmente | Não é compulsória nacionalmente |
O que se prescreve na consulta da úlcera, fora da gestação, com a conta dos frascos e comprimidos
| Situação no fluxograma | Esquema | Traduzido em frascos e comprimidos | O que não se faz |
|---|---|---|---|
| Úlcera sem vesícula ativa, menos de quatro semanas — o caso mais comum | Benzilpenicilina benzatina 2,4 milhões UI por via intramuscular em dose única mais azitromicina 500 mg, 2 comprimidos por via oral em dose única | Dois frascos de 1.200.000 UI, um em cada lado; ou quatro frascos de 600.000 UI, dois de cada lado. Dois comprimidos de azitromicina, engolidos na sua frente | Não esperar campo escuro nem sorologia para aplicar; não trocar a penicilina por comprimido sem alergia comprovada |
| Lesão vesiculosa ativa, ou agrupado de erosões pequenas sobre base eritematosa | Acrescentar aciclovir 200 mg, 2 comprimidos por via oral três vezes ao dia, por 7 a 10 dias | 42 a 60 comprimidos de 200 mg. A alternativa do protocolo é 1 comprimido cinco vezes ao dia nos mesmos 7 a 10 dias, isto é, 35 a 50 comprimidos | Não usar o achado de vesícula para deixar de tratar sífilis e cancro mole: os agentes coexistem na mesma lesão |
| Lesão com mais de quatro semanas | O mesmo esquema de sífilis e cancro mole, mais biópsia e investigação de linfogranuloma e donovanose | Os mesmos dois frascos e dois comprimidos, mais o encaminhamento para a biópsia com data marcada | Não substituir o antibiótico pela biópsia, nem adiar a biópsia até ver se o antibiótico funciona |
| Adenite inguinal com suspeita de linfogranuloma | Doxiciclina 100 mg, 1 comprimido por via oral de 12 em 12 horas, por 21 dias. Alternativa, e preferencial na gestante: azitromicina 500 mg, 2 comprimidos por via oral uma vez por semana por 21 dias | 42 comprimidos de doxiciclina de 100 mg; ou 6 comprimidos de azitromicina de 500 mg, em três tomadas — dias 1, 8 e 15 | Não incisar nem excisar o bubão. Aspirar com agulha calibrosa só se tenso e flutuante |
| Parceria sexual dos últimos 90 dias de pessoa com sífilis recente | Benzilpenicilina benzatina 2,4 milhões UI por via intramuscular em dose única, independentemente do estágio clínico e de sinais e sintomas | Dois frascos de 1.200.000 UI por parceria | Não condicionar o tratamento presuntivo ao resultado do teste da parceria |
| Parceria de cancro mole ou de linfogranuloma | Cancro mole: o mesmo esquema do caso-índice, mesmo assintomática. Linfogranuloma assintomática: azitromicina 1 g em dose única OU doxiciclina 100 mg de 12 em 12 horas por 7 dias | 2 comprimidos de azitromicina de 500 mg; ou 14 comprimidos de doxiciclina de 100 mg | Não deixar a parceria para depois do resultado — e, na donovanose, não tratar a parceria, porque a infectividade é baixa e o protocolo dispensa |
Sífilis adquirida fora da gestação, por estágio — o que a gestante tem de diferente está no capítulo dela
| Estágio | Esquema de escolha | Frascos | Alternativa, exceto para gestantes | Seguimento |
|---|---|---|---|---|
| Sífilis recente: primária, secundária e latente recente, até um ano de evolução | Benzilpenicilina benzatina 2,4 milhões UI, via intramuscular, dose única — 1,2 milhão UI em cada glúteo, preferencialmente na região ventroglútea | 2 frascos de 1.200.000 UI | Doxiciclina 100 mg de 12 em 12 horas por via oral, por 15 dias — 30 comprimidos | Teste não treponêmico trimestral, aos 3, 6, 9 e 12 meses |
| Sífilis tardia: latente tardia, latente de duração ignorada e terciária | Benzilpenicilina benzatina 2,4 milhões UI, via intramuscular, uma vez por semana por três semanas. Dose total de 7,2 milhões UI | 6 frascos de 1.200.000 UI, dois por semana | Doxiciclina 100 mg de 12 em 12 horas por via oral, por 30 dias — 60 comprimidos | Teste não treponêmico trimestral, aos 3, 6, 9 e 12 meses |
| Neurossífilis | Benzilpenicilina potássica, também chamada cristalina, 18 a 24 milhões UI por dia por via intravenosa, em doses de 3 a 4 milhões UI a cada 4 horas ou em infusão contínua, por 14 dias | Seis tomadas por dia; com um frasco de 5.000.000 UI por tomada, 6 frascos ao dia e 84 no tratamento | Ceftriaxona 2 g por via intravenosa uma vez ao dia, por 10 a 14 dias — 20 a 28 frascos de 1 g | Exame de líquido cefalorraquidiano a cada 6 meses até a normalização |
| Intervalo entre as doses, na sífilis tardia | Uma semana entre as doses é o intervalo preconizado | — | Em pessoa não gestante, reiniciar o esquema se transcorrerem mais de 14 dias entre doses | Em gestante a regra é outra e mudou depois do protocolo: ver a nota de auditoria e o capítulo de sífilis na gestação |
Herpes genital: os três cenários, a dose diária de cada opção e a conta dos comprimidos de 200 mg
| Cenário | Esquema do protocolo | Dose diária | Comprimidos de 200 mg | Observação |
|---|---|---|---|---|
| Primeiro episódio | Aciclovir 200 mg, 2 comprimidos, três vezes ao dia, por 7 a 10 dias | 1.200 mg ao dia | 42 a 60 | Iniciar o mais precocemente possível; pode ser prolongado se a cicatrização estiver incompleta após 10 dias |
| Primeiro episódio — a outra opção do mesmo quadro | Aciclovir 200 mg, 1 comprimido, cinco vezes ao dia, nos horários de 7h, 11h, 15h, 19h e 23h, por 7 a 10 dias | 1.000 mg ao dia | 35 a 50 | As duas opções aparecem como equivalentes e não são: diferem em 200 mg por dia, um sexto da dose |
| Recidiva | Aciclovir 200 mg, 2 comprimidos, três vezes ao dia, por 5 dias | 1.200 mg ao dia | 30 | Iniciar preferencialmente no pródromo — sensibilidade local, ardor, dor, prurido e hiperemia |
| Recidiva — a outra opção do mesmo quadro | Aciclovir 200 mg, 4 comprimidos, duas vezes ao dia, por 5 dias | 1.600 mg ao dia | 40 | Esta alternativa de recidiva é mais alta que a dose do primeiro episódio, que é o quadro mais grave |
| Supressão | Aciclovir 200 mg, 2 comprimidos, duas vezes ao dia, por até 6 meses, prorrogável por até 2 anos | 800 mg ao dia | 720 em 6 meses; 2.920 em 2 anos | Avaliação periódica de função renal e hepática. O critério de elegibilidade aparece escrito de duas formas no mesmo quadro |
| Imunossupressão com lesões extensas | Aciclovir 5 a 10 mg por quilo, via intravenosa, de 8 em 8 horas, por 5 a 7 dias ou até resolução clínica | 1.050 a 2.100 mg ao dia num adulto de 70 kg | Não se aplica — frasco de 250 mg para solução injetável | Vale para uso crônico de corticoide, imunomoduladores, transplante de órgão sólido e pessoa vivendo com HIV |
Duas durações para a mesma coisa, no mesmo documento. O capítulo de sífilis diz que a duração do cancro duro costuma variar muito, em geral de três a oito semanas; o capítulo de úlcera genital, sobre a mesma lesão, diz que o estágio pode durar entre duas e seis semanas. Conferi as duas frases nas duas versões do protocolo — no anexo da portaria e na edição em livro — e ambas trazem as duas, com essas palavras. Isso não é detalhe de estilo: o fluxograma nacional usa quatro semanas como corte para acrescentar biópsia, e quatro semanas cai dentro das duas faixas. Pela primeira, uma úlcera de cinco semanas ainda é sífilis primária plausível; pela segunda, já passou do teto e o diferencial oncológico sobe. O texto não escolhe, e o clínico precisa escolher. Adote a faixa mais larga para não descartar sífilis cedo demais, e a biópsia das quatro semanas para não descartar câncer tarde demais — as duas coisas ao mesmo tempo, que é o que o fluxograma manda.
Uma nota técnica mudou a regra e o protocolo não a incorporou. O PCDT de IST diz, em nota de rodapé do quadro de tratamento, que em não gestantes o intervalo entre doses não deve ultrapassar 14 dias e que em gestantes não deve ultrapassar sete, reiniciando-se o esquema nos dois casos. A Nota Técnica nº 14/2023-DATHI/SVSA/MS, assinada em 26 de junho de 2023, atualizou a regra da gestante para sete a nove dias, reiniciando apenas se ultrapassar nove — e justificou pela inviabilidade da regra rígida na Atenção Primária. A nota altera expressamente o protocolo de transmissão vertical, não o de IST. A conta do calendário é o achado: o anexo do PCDT de IST registra alteração em 4 de julho de 2024, isto é, 374 dias depois da nota técnica, e continua dizendo sete dias. Duas normas em vigor divergem sobre a mesma obrigação. Para este capítulo isso não muda nada — a nota é silente sobre não gestantes, e o limite de 14 dias segue de pé; para a gestante, a régua é a nota técnica e o capítulo dela.
O mesmo esquema aparece duas vezes no protocolo, e a segunda vez perde as notas de rodapé. O tratamento da sífilis adquirida está no Quadro 15, dentro do capítulo de sífilis, e é repetido no Quadro 40, dentro do capítulo de úlcera genital. Comparei os dois campo a campo: as drogas, as doses e o seguimento coincidem. O que não coincide é o que sobra embaixo. O Quadro 15 traz três notas de rodapé — a que diz que a benzilpenicilina é a única opção segura e eficaz na gestação, a da dose adicional na sífilis recente em gestante, e a do intervalo entre doses com os limites de 7 e 14 dias. O Quadro 40 não traz nenhuma. Quem vai ao capítulo de úlcera genital, que é o capítulo natural de quem tem uma úlcera na frente, encontra o esquema sem a regra de reinício. Duas cópias da mesma tabela num mesmo documento, com informação de segurança em apenas uma.
As contas da penicilina fecham, e vale dizer que fecham. A dose total declarada para a sífilis tardia — 7,2 milhões UI — é exatamente 2,4 milhões multiplicados pelas três semanas. A faixa da neurossífilis também fecha: 24 horas divididas por 4 é igual a 6 tomadas ao dia; 6 vezes 3 milhões dá 18 milhões e 6 vezes 4 milhões dá 24 milhões, que são precisamente os extremos declarados. E a tradução em frasco fecha com a Rename 2024, que traz benzilpenicilina benzatina em 600.000 UI e em 1.200.000 UI: os 2,4 milhões da dose única são dois frascos de 1.200.000, um por glúteo, ou quatro de 600.000, dois de cada lado. O que não fecha bem é o desperdício da neurossífilis: o único frasco de benzilpenicilina potássica da Rename é de 5.000.000 UI, e uma tomada de 4 milhões deixa 1 milhão no frasco — 6 milhões de unidades descartadas por dia se cada tomada abrir o seu.
As duas opções do primeiro episódio de herpes são apresentadas como equivalentes e não são. Aciclovir 200 mg, 2 comprimidos três vezes ao dia, dá 1.200 mg por dia; 200 mg, 1 comprimido cinco vezes ao dia, dá 1.000 mg — 200 mg de diferença, ou um sexto a menos, escolhidos por um OU no meio da mesma célula. Na recidiva a discrepância se inverte e cresce: 2 comprimidos três vezes ao dia dão 1.200 mg por dia e 4 comprimidos duas vezes ao dia dão 1.600 mg, uma diferença de um terço. E o resultado é o que se deve olhar duas vezes: a alternativa da recidiva, que é o quadro mais leve, entrega 1.600 mg por dia, mais que os 1.200 mg do primeiro episódio, que é o quadro mais grave. Nenhuma das quatro doses é perigosa. O que a conta revela é que as posologias não foram harmonizadas entre si, e que ler o quadro como se as opções fossem intercambiáveis é ler mais coerência do que existe ali.
Um valor exato pertence a duas classes na mesma linha do quadro. O rótulo da linha de supressão do herpes diz 6 ou mais episódios por ano; o comentário da mesma linha, três centímetros à direita, diz que se consideram elegíveis pacientes com episódios repetidos de herpes genital, mais de 6 ao ano. Conferi a frase nas duas versões do protocolo, com busca exata sobre texto normalizado: as duas formulações estão nas duas. A paciente com exatamente seis episódios por ano é elegível pelo rótulo e inelegível pelo comentário. É o gênero de erro que não muda uma dose e muda um acesso: numa auditoria de dispensação, um farmacêutico que leia o comentário nega o aciclovir que o rótulo autoriza. Trate quem tem seis, registre o número de episódios no prontuário e cite o rótulo do quadro na justificativa.
A gentamicina da donovanose está escrita com uma contradição de fator 3. O comentário do quadro recomenda, na ausência de resposta ao ciprofloxacino, acrescentar um aminoglicosídeo, como a gentamicina, 1 mg por quilo por dia, por via intravenosa, três vezes ao dia. A leitura literal é impossível de executar sem virar outra coisa: 1 mg por quilo por dia repartido em três tomadas dá 0,33 mg por quilo por tomada, ou 23 mg por tomada num adulto de 70 kg. A leitura que o resto da frase sugere — 1 mg por quilo por tomada, três vezes ao dia — dá 70 mg por tomada e 210 mg por dia, isto é, 3 mg por quilo por dia. Fator 3 entre as duas leituras da mesma linha, e a expressão por dia colada a três vezes ao dia é o que produz o erro. A donovanose está fora do título deste capítulo e a nota fica registrada porque o quadro é o mesmo do cancro mole e do linfogranuloma, e porque a gentamicina injetável, conferida na Rename 2024, não consta do elenco — o que ali existe é gentamicina 5 mg/g em pomada oftálmica.
O fluxograma nacional não alcança a apresentação mais comum de uma das quatro doenças. A Figura 14 do protocolo entra pela caixa queixa de úlcera genital, e todos os seus galhos partem de uma lesão que existe. O mesmo documento, três páginas antes, afirma que a manifestação clínica mais comum do linfogranuloma venéreo é a linfadenopatia inguinal ou femoral, e descreve a lesão de entrada como algo que desaparece sem sequela e que muitas vezes não é notado pela pessoa nem observado pelo profissional. A pessoa com bubão e sem úlcera, portanto, é aquela que o texto descreve como típica e que o fluxograma, por construção, não recebe. A frase que salva está na mesma seção e é ampla: gânglio inguinal inflamado, genitália elefantiásica e estreitamento de uretra ou de reto colocam o linfogranuloma na lista, sem exceção. Este capítulo assume essa porta de entrada explicitamente, porque nenhum outro capítulo do nível a assume: adenite inguinal sem outra causa é indicação de tratar linfogranuloma por 21 dias.
Todas as contas de diluição do documento fecham, e são sete. O protocolo ensina que a amostra é diluída em fator 2 e que, portanto, duas diluições valem quatro vezes, dando como exemplo a queda de 1:64 para 1:16. Refiz cada exemplo do documento em logaritmo de base 2: 1:64 para 1:16 são duas diluições; 1:32 para 1:8, duas; 1:128 para 1:32, duas; 1:16 para 1:64, duas de aumento; 1:4 para 1:16, duas de aumento; e os dois exemplos de variação de uma diluição, 1:2 para 1:4 e 1:16 para 1:8, são de fato uma. Sete de sete corretos. Registro a conferência que fechou porque é ela que autoriza usar a régua de duas diluições sem hesitar diante de um resultado de laboratório — e porque, num capítulo em que várias contas não fecharam, é importante saber quais fecharam.
A janela da parceria não é arbitrária, e a conta prova. O protocolo manda oferecer tratamento presuntivo às parcerias com exposição nos 90 dias anteriores, com dose única de 2,4 milhões UI. Noventa dias é exatamente o limite superior do período de incubação da sífilis primária, que a seção de classificação declara como de dez a 90 dias. A janela cobre, portanto, toda parceria que ainda possa estar incubando sem lesão. O mesmo documento informa que um terço das parcerias de pessoas com sífilis recente desenvolverá a infecção em 30 dias da exposição — o que não contradiz a janela, apenas mede outra coisa: o prazo em que a maioria adoece, não o prazo em que ainda se pode adoecer. Compare com o capítulo de cervicite, que convoca as parcerias dos últimos 60 dias por outra doença: o mesmo protocolo usa janelas diferentes por agente, e trocá-las perde parcerias em um caso e convoca desnecessariamente no outro.
Os números do boletim epidemiológico fecham nos quatro testes que apliquei. Primeiro, a soma: os casos das cinco regiões em 2024 — 126.951, 49.981, 41.445, 20.942 e 17.511 — somam 256.830, exatamente o total nacional declarado, sem sobra nem falta. Segundo, o crescimento médio anual de 32,4% entre 2014 e 2018: a taxa foi de 25,4 para 78,0 por 100 mil habitantes, e a raiz quarta de 78,0 dividido por 25,4 é 1,324, ou 32,4% ao ano. Terceiro, a queda de 2020: de 79,4 para 61,0 são 23,2% de redução, o número que o texto declara. Quarto, a coerência entre taxa e população: 256.830 casos a 120,8 por 100 mil implicam uma população de 212,6 milhões, compatível com a estimativa do IBGE para o ano. Registro ainda uma falsa discordância que quase virou erro: o boletim traz Sudeste com 49,4% num parágrafo e com 50,0% no seguinte — são denominadores diferentes, o ano de 2024 num caso e o acumulado de 2010 a junho de 2025 no outro, e as duas séries estão certas.
O elenco do SUS foi conferido fármaco a fármaco, com busca exata sobre o texto normalizado da Rename 2024, e há três achados que mudam conduta. Primeiro: a benzilpenicilina benzatina de 1.200.000 UI e a benzilpenicilina potássica de 5.000.000 UI estão no componente Básico e Estratégico, com classificação AWaRe de Acesso — a de 600.000 UI está só no Básico. Segundo: a doxiciclina 100 mg comprimido está no componente Estratégico, e não na prateleira comum da unidade, o que significa que a alternativa da alergia à penicilina e o esquema de 21 dias do linfogranuloma dependem de outro fluxo de abastecimento; a receita só vale se a unidade souber onde buscá-la. Terceiro: azitromicina, ceftriaxona e ciprofloxacino são classificados como Alerta na régua AWaRe, isto é, antimicrobianos de uso vigiado — de modo que a única droga de Acesso do capítulo é justamente a penicilina, que é também a de escolha. E a alternativa da neurossífilis tem custo material que convém saber antes de prescrever: 2 g ao dia de ceftriaxona por 10 a 14 dias são 20 a 28 frascos de 1 g, ou 80 a 112 frascos de 250 mg.
Uma posologia idêntica escrita de dois jeitos, e um rótulo usado para duas coisas, no mesmo quadro. A azitromicina do linfogranuloma está como 500 mg, 2 comprimidos, uma vez por semana, por 21 dias; a da donovanose, três linhas abaixo, como 500 mg, 2 comprimidos, uma vez por semana, por pelo menos três semanas. É a mesma posologia com dois rótulos de tempo, e a diferença não é inócua para quem dispensa: 21 dias com tomada semanal são três tomadas, nos dias 1, 8 e 15, e não quatro. No mesmo quadro, o ciprofloxacino da donovanose vem como 500 mg, 1 comprimido e meio, duas vezes ao dia, com a observação dose total: 750 mg — e a conta de 1,5 vezes 500 dá 750, que fecha, mas o rótulo dose total aqui significa o total de uma tomada, sendo 1.500 mg o total do dia. Duas linhas acima, no tratamento de uretrite, a mesma expressão dose total: 2 g significa o total do tratamento inteiro. Ler um pelo outro divide a dose diária do ciprofloxacino pela metade.
A conduta, hora a hora
Examinar a lesão e cadeias linfonodais, avaliar gravidez e ofertar testes pertinentes. Integrar resultados à fase clínica, lembrando a possibilidade de testes inicialmente negativos. Tratar conforme hipótese e protocolo, abordar parcerias e agendar seguimento. Se o padrão for atípico ou a resposta inadequada, rever diagnóstico e considerar avaliação especializada e biópsia quando indicada.
Os esquemas abaixo saem dos Quadros 38, 39 e 40 do protocolo nacional de infecções sexualmente transmissíveis, e o estadiamento da sífilis sai do Quadro 15 do mesmo documento. A versão usada é a que está anexa à portaria de 2021 e disponível no portal do Ministério com a alteração registrada em julho de 2024; conferi campo a campo que os três primeiros quadros coincidem com os da edição em livro publicada em 2022. As apresentações, os componentes de financiamento e a classificação AWaRe vêm da Rename 2024, conferidos com busca exata. Tudo o que segue vale para a pessoa não gestante; a gestante tem esquema, prazos e definição de caso próprios, e eles estão em Sífilis na gestação e sífilis congênita.
Uma regra atravessa todos os marcos: nesta consulta o tratamento vem antes do resultado. Não é descuido nem pressa — é o que o protocolo determina, com a justificativa escrita de que, em caso de dúvida sobre a hipótese diagnóstica e na ausência de laboratório, o tratamento da úlcera genital como IST deve ser privilegiado, considerando a importância para a saúde pública. Os dois exames que o SUS oferece confirmam e não descartam; a sorologia pode estar negativa na lesão primária; e a paciente que sai sem tratar volta, quando volta, com a úlcera cicatrizada e a infecção adiante.
E uma advertência sobre o alcance do esquema sindrômico: duas injeções e dois comprimidos tratam sífilis recente e cancro mole, e nada mais. Não tratam herpes, que exige o antiviral; não tratam linfogranuloma, que exige 21 dias; não tratam sífilis tardia, que exige três doses; e não tratam a parceria, que é metade da receita.
Minuto 0 a 10 — antes de qualquer receita
Nada se prescreve antes de olhar a lesão, apalpar a base e apalpar a virilha. O que se faz nesses minutos decide qual galho do fluxograma se segue e qual estágio de sífilis se trata — e as duas decisões mudam o número de injeções. É também a única janela para colher os exames diretos, que são exames de lesão ativa e desaparecem com o tratamento.
Prescrição- Exame com luz e luva, afastando as dobras; espéculo quando houver queixa alta, corrimento ou sangramento, porque a lesão de colo é indolor e não entra no relato
- Descrição nos seis eixos: dor, número, borda, base ao toque, fundo e íngua — com lado, tamanho, consistência, dor, flutuação e número de orifícios de drenagem
- Duas perguntas que a paciente não oferece: há quanto tempo existe a lesão, e se houve bolha com água antes de virar ferida
- Lista nominal das parcerias sexuais dos últimos 90 dias, e não apenas da parceria atual
- Se houver microscopia no serviço: campo escuro do exsudato seroso da lesão para Treponema pallidum e bacterioscopia pelo Gram para Haemophilus ducreyi, colhidos antes de tratar
- Teste rápido de gravidez em toda mulher em idade fértil — porque a gestante muda de capítulo e a doxiciclina sai de todas as alternativas
- Testes rápidos para HIV e sífilis e sorologias de hepatites B e C, oferecidos e colhidos nesta consulta
- Teste não treponêmico colhido no primeiro dia de tratamento, para a titulação de base do seguimento
Ainda na consulta — o esquema sindrômico, com a primeira dose aplicada na sua frente
Vale para a úlcera sem vesícula ativa e com menos de quatro semanas, que é a apresentação mais comum. Trata-se sífilis e cancro mole juntos, na mesma consulta, sem esperar exame — e a razão está medida: a impressão clínica tem valor preditivo positivo de 30,9% para sífilis e de 32,7% para cancro mole, de modo que escolher uma das duas erraria com mais frequência do que acertaria. A penicilina é aplicada na unidade, agora; a azitromicina é engolida diante de quem prescreveu.
Prescrição- Benzilpenicilina benzatina 2,4 milhões UI por via intramuscular em dose única — 1,2 milhão UI em cada glúteo, dois frascos de 1.200.000 UI, preferencialmente na região ventroglútea, que é livre de vasos e nervos importantes e tem tecido subcutâneo de menor espessura
- mais azitromicina 500 mg, 2 comprimidos por via oral em dose única, tomados na frente do prescritor
- Alternativas do protocolo ao cancro mole, se a azitromicina não for possível: ceftriaxona 250 mg por via intramuscular em dose única, OU ciprofloxacino 500 mg de 12 em 12 horas por 3 dias, que são 6 comprimidos — o ciprofloxacino é contraindicado em gestantes, lactantes e crianças
- Se houver prótese ou silicone líquido industrial nos locais de aplicação, a via intramuscular pode ficar impossibilitada: nesse caso, optar pela medicação alternativa do quadro
- Avise sobre a reação de Jarisch-Herxheimer antes de aplicar: exacerbação das lesões, mal-estar, febre, cefaleia e artralgia nas 24 horas seguintes à primeira dose, que regridem sozinhas em 12 a 24 horas e se controlam com analgésico simples, sem suspender o tratamento
- Não troque a penicilina por comprimido diante de alergia relatada e não qualificada: dor local, rash maculopapular, náusea, prurido, mal-estar, cefaleia, evento suspeito há mais de dez anos ou história familiar não configuram, isoladamente, alergia à penicilina
- Mantenha a caixa de emergência aberta e a adrenalina conferida — a probabilidade de reação anafilática à benzilpenicilina benzatina é de 0,002% segundo o relatório de recomendação citado pelo protocolo, e o receio dessa reação é a principal causa de perda do momento oportuno de tratamento
Ainda na consulta — quando se acrescenta o herpes
O galho do herpes se abre por um achado, não por um exame: lesão vesiculosa ativa, ou o agrupado de erosões pequenas e arredondadas sobre base eritematosa que é a vesícula já rompida. Acrescentar não substitui: os agentes coexistem na mesma lesão, e o exemplo que o próprio protocolo dá de coinfecção é justamente Treponema pallidum com HSV-2. O antiviral encurta o episódio e não erradica a infecção do gânglio sensitivo — dizer isso hoje evita a consulta de decepção daqui a três meses.
Prescrição- Primeiro episódio: aciclovir 200 mg, 2 comprimidos por via oral três vezes ao dia, por 7 a 10 dias — 42 a 60 comprimidos; iniciar o mais precocemente possível e prolongar se a cicatrização estiver incompleta após 10 dias
- Recidiva: aciclovir 200 mg, 2 comprimidos por via oral três vezes ao dia, por 5 dias — 30 comprimidos, iniciados de preferência já no pródromo
- Supressão, na pessoa com episódios repetidos: aciclovir 200 mg, 2 comprimidos por via oral duas vezes ao dia, por até 6 meses, prorrogável por até 2 anos, com avaliação periódica de função renal e hepática
- Lesões extensas em imunossupressão: aciclovir 5 a 10 mg por quilo por via intravenosa de 8 em 8 horas, por 5 a 7 dias ou até resolução clínica
- Tratamento local com compressas de solução fisiológica ou degermante em solução aquosa, para higienização das lesões, e analgésico oral se necessário
- Retorno em uma semana para reavaliação das lesões, escrito na receita
- A conversa que o protocolo lista como parte do tratamento: forma de transmissão, possibilidade de infecção assintomática, medo de rejeição pela parceria, preocupação com a capacidade de ter filhos — e a informação de que não há associação entre herpes simples genital e câncer
Ainda na consulta — estadiar a sífilis, que decide entre uma dose e três
O estadiamento não olha a úlcera: olha o tempo de infecção. Sífilis recente é a de até um ano de evolução e engloba primária, secundária e latente recente; sífilis tardia é a de mais de um ano ou de duração ignorada, e inclui a latente tardia e a terciária. A regra prática que evita o erro mais caro deste capítulo: título baixo sem história e sem sorologia anterior documentada é duração ignorada, e duração ignorada é tardia. Na dúvida, três doses.
Prescrição- Sífilis recente — primária, secundária ou latente recente, até um ano: benzilpenicilina benzatina 2,4 milhões UI por via intramuscular em dose única, dois frascos de 1.200.000 UI
- Sífilis tardia — latente tardia, latente de duração ignorada ou terciária: benzilpenicilina benzatina 2,4 milhões UI por via intramuscular uma vez por semana durante três semanas, dose total de 7,2 milhões UI, seis frascos de 1.200.000 UI ao todo
- Intervalo entre as doses: uma semana é o preconizado; em pessoa não gestante, reinicie o esquema do começo se transcorrerem mais de 14 dias entre duas doses
- Agende as doses seguintes com data escrita no papel, evitando fim de semana e feriado, e anote telefones para busca ativa
- Alternativa apenas para não gestantes, e somente com acompanhamento clínico e laboratorial rigoroso: doxiciclina 100 mg de 12 em 12 horas por via oral, por 15 dias na sífilis recente — 30 comprimidos — e por 30 dias na tardia — 60 comprimidos. A doxiciclina está no componente Estratégico da Rename, não na prateleira comum
- Suspeita de neurossífilis, com sinais neurológicos ou oftalmológicos: a punção lombar deixa de ser opcional e o tratamento é hospitalar, com benzilpenicilina potássica 18 a 24 milhões UI ao dia por via intravenosa em doses de 3 a 4 milhões UI a cada 4 horas, por 14 dias
- Registre no prontuário o estágio presumido e o que o sustenta, e não apenas a droga: é essa frase que permite a outro profissional saber, meses depois, se o esquema foi completo para a fase
Ainda na consulta — a íngua que se aspira e a que se opera
A conduta diante do linfonodo inguinal é a que mais se erra por reflexo cirúrgico, e o protocolo escreve a proibição com todas as letras nas duas doenças em que ela cabe. O bubão do cancro mole e o do linfogranuloma podem ser aspirados quando tensos e flutuantes, com agulha de grosso calibre, para alívio — e não devem ser incisados com drenagem nem excisados. Uma incisão transforma um linfonodo que fecharia numa fístula que não fecha, com cicatrização que o próprio documento chama de desfigurante.
Prescrição- Aspiração com agulha de grosso calibre, por pele sã e a partir de uma zona não inflamada, apenas se o linfonodo estiver tenso e com flutuação
- Contraindicadas: incisão com drenagem e excisão dos linfonodos acometidos
- Suspeita de linfogranuloma — adenite inguinal com ou sem úlcera visível, prática anal receptiva, proctite ou proctocolite: doxiciclina 100 mg de 12 em 12 horas por 21 dias, 42 comprimidos
- Alternativa, e preferencial na gestante: azitromicina 500 mg, 2 comprimidos por via oral uma vez por semana por 21 dias — três tomadas, nos dias 1, 8 e 15, seis comprimidos ao todo
- Diga à paciente o que o antibiótico não faz: não tem efeito expressivo sobre a duração da linfadenopatia, ainda que resolva rápido os sintomas agudos, e não reverte sequelas como estenose retal ou elefantíase genital
- Prolongue a terapia até a resolução da sintomatologia, se necessário — o protocolo autoriza expressamente
- Pessoa vivendo com HIV com cancro mole ou linfogranuloma exige monitoramento cuidadoso: pode precisar de mais tempo de tratamento, a cura pode ser retardada e há possibilidade de falha com qualquer dos esquemas recomendados
Ainda na consulta — a parceria é a outra metade da receita
A janela da sífilis é de 90 dias, e não de 60 como a da cervicite: o mesmo protocolo usa prazos diferentes por agente, e o de 90 dias corresponde ao limite superior do período de incubação. O tratamento presuntivo é oferecido independentemente do estágio clínico e de sinais e sintomas — isto é, independentemente do que a parceria diga e do que o teste dela mostre no dia. Um terço das parcerias de pessoas com sífilis recente desenvolverá a infecção dentro de 30 dias da exposição.
Prescrição- Toda parceria sexual dos últimos 90 dias de pessoa com sífilis: benzilpenicilina benzatina 2,4 milhões UI por via intramuscular em dose única — 1,2 milhão UI em cada glúteo
- Parceria de pessoa com cancro mole: mesmo esquema do caso-índice, mesmo quando assintomática
- Parceria de pessoa com linfogranuloma: se sintomática, o mesmo esquema do caso-índice; se assintomática, azitromicina 500 mg, 2 comprimidos em dose única, OU doxiciclina 100 mg de 12 em 12 horas por 7 dias
- Parceria de pessoa com donovanose: não é necessário tratar, pela baixa infectividade — é a única exceção do capítulo
- Abstinência sexual até que o tratamento de todos esteja completo: após o término do esquema de múltiplas doses, ou por 7 dias depois da terapia em dose única
- A comunicação segue o capítulo de parcerias do protocolo, com o cartão de comunicação e as regras de sigilo — a operação está descrita em Cervicite por gonococo e clamídia e este capítulo não a repete
- Ofereça à parceria a mesma testagem oferecida ao caso-índice, e trate-a sem exigir exame para prescrever
Semana 2 — o retorno que fecha o caso ou muda a hipótese
O fluxograma nacional termina numa pergunta com prazo: os sinais e sintomas persistem após 14 dias? Se sim, referencie; se não, alta do episódio — mantido o seguimento sorológico da sífilis, que é de um ano. Esse retorno não é formalidade: é o momento em que a resposta ao tratamento vira dado diagnóstico, porque para três dos cinco agentes não há exame que confirme e a evolução é o que resta.
Prescrição- Reexamine a lesão com a mesma descrição da primeira consulta, e compare eixo a eixo — não pergunte apenas se melhorou
- Leia e comunique os resultados que voltaram: teste não treponêmico com a titulação de base, testes de HIV e hepatites, e a biologia molecular de clamídia e gonococo se foi colhida
- Confirme que a parceria foi tratada, com nome e data — e não que foi avisada
- Persistência após 14 dias: referencie para serviço de referência em IST, e reveja o diferencial não infeccioso — pênfigo, eritema multiforme, dermatite de contato, líquen plano erosivo, afta, lesão traumática, erupção fixa por drogas e carcinoma espinocelular
- Lesão que já tinha mais de quatro semanas na primeira consulta: confirme que a biópsia foi feita, e cobre o laudo
- Bubão que apareceu ou cresceu depois da consulta inicial: reavalie flutuação e aspire se tenso; reveja a hipótese de linfogranuloma e a necessidade dos 21 dias
- Herpes: reavalie as lesões em uma semana, conforme o protocolo, e conte com a paciente quantos episódios ela teve no último ano — é esse número que abre a indicação de supressão
Meses 3, 6, 9 e 12 — o seguimento que só a sífilis tem
Das quatro doenças, só a sífilis tem controle de cura laboratorial, e ele dura um ano. Os testes não treponêmicos são feitos a cada três meses até o décimo segundo mês, sempre pelo mesmo método. A pessoa tratada com sucesso pode ser dispensada de novas coletas após um ano — mas o protocolo acrescenta uma advertência que costuma sair do resumo: adquirir uma IST é fator de risco para outras, e o rastreamento deve continuar conforme a história sexual, mesmo em quem se curou.
Prescrição- Teste não treponêmico aos 3, 6, 9 e 12 meses, sempre pelo mesmo método usado no diagnóstico — VDRL segue com VDRL, RPR segue com RPR
- Resposta imunológica adequada: teste não treponêmico não reagente, OU queda de duas diluições em até 6 meses na sífilis recente, OU queda de duas diluições em até 12 meses na sífilis tardia
- Critérios de retratamento, e cada um basta sozinho: ausência de queda de duas diluições no prazo do estágio; aumento de duas diluições ou mais; ou persistência ou recorrência de sinais e sintomas
- Cicatriz sorológica — resultado que permanece reagente após tratamento adequado, com queda prévia de pelo menos duas diluições e sem nova exposição de risco — não é falha terapêutica e não se retrata
- Retratamento na população geral sem reexposição sexual que justifique reinfecção: investigue neurossífilis com punção lombar antes de repetir a penicilina
- Pessoa vivendo com HIV em retratamento: a investigação de neurossífilis é recomendada em todos os casos, tenha havido nova exposição ou não
- Todo retratamento reabre a conversa da parceria: reinfecção tem uma fonte, e tratar só o caso-índice devolve a mesma pessoa ao consultório em seis meses
Como saber se está funcionando
A reavaliação deste capítulo é regida por dois cronômetros de velocidades muito diferentes, e trocar um pelo outro é o descuido de seguimento que mais aparece. O primeiro mede a lesão e é curto: catorze dias, que é o prazo do fluxograma nacional para decidir entre alta e referência. O relógio longo é o da sorologia da sífilis: doze meses, com coletas trimestrais, e ele continua correndo muito depois de a úlcera ter sumido — e a úlcera some sozinha mesmo sem tratamento, de modo que cicatrização não é resposta terapêutica.
Há ainda um terceiro relógio que não é do paciente: o da parceria. A reinfecção apaga o tratamento feito, e o aumento de duas diluições num seguimento que ia bem quase sempre significa que alguém não foi tratado. Por isso a primeira pergunta diante de uma titulação que subiu não é sobre a droga: é sobre quem esteve com essa pessoa depois da injeção.
Para três das quatro doenças não há controle de cura laboratorial nenhum. No herpes, o critério é clínico e a doença é crônica por definição, com o vírus em latência no gânglio; no cancro mole e no linfogranuloma, o critério é a resolução da lesão e da adenite. Só a sífilis tem número para acompanhar — e é por isso que o seguimento inteiro deste capítulo é, na prática, o seguimento dela.
Esperado: Redução de tamanho, limpeza do fundo e desaparecimento da dor quando havia. No cancro mole tratado, melhora rápida do exsudato e do odor; na sífilis primária, cicatrização — que teria vindo de qualquer modo, e por isso não prova nada sozinha
Se não melhora: Sinais e sintomas que persistem após 14 dias mandam referenciar, e é o que o fluxograma nacional determina. Antes de trocar antibiótico, refaça o diferencial não infeccioso — pênfigo, eritema multiforme, dermatite de contato, líquen plano erosivo, afta, lesão traumática, erupção fixa por drogas e carcinoma espinocelular — e verifique se a lesão já tinha mais de quatro semanas na primeira consulta, caso em que a biópsia era devida desde então
Esperado: Redução do volume e da dor. No linfogranuloma, o protocolo avisa que a antibioticoterapia não tem efeito expressivo sobre a duração da linfadenopatia, ainda que resolva rápido os sintomas agudos: a íngua que demora a sumir não é falha de tratamento
Se não melhora: Linfonodo que ficou tenso e flutuante: aspire com agulha de grosso calibre, por pele sã. Não incise e não excise. Linfonodo que fistulizou por orifícios múltiplos aponta linfogranuloma e obriga a completar 21 dias; por orifício único, aponta cancro mole. Prolongue a terapia até a resolução da sintomatologia, o que o protocolo autoriza expressamente
Esperado: Teste não reagente, ou queda de duas diluições em até 6 meses na sífilis recente e em até 12 meses na sífilis tardia. Duas diluições são quatro vezes: de 1:32 para 1:8, de 1:128 para 1:32
Se não melhora: Ausência de queda de duas diluições no prazo do estágio é critério de retratamento, e basta sozinha. Antes de repetir a penicilina, pergunte por reexposição sexual: sem exposição que justifique reinfecção, a punção lombar para investigar neurossífilis está indicada na população geral; em pessoa vivendo com HIV, ela é recomendada em todo retratamento, tenha havido exposição ou não
Esperado: Nenhum aumento. Variação de uma diluição — 1:16 para 1:8, 1:2 para 1:4 — deve ser analisada com cautela, porque o teste não é automatizado e há diferença entre leituras feitas em momentos distintos ou por observadores distintos
Se não melhora: Aumento de duas diluições ou mais é reativação ou reinfecção, e é critério de retratamento por si só. Retrate a pessoa e reabra a conversa da parceria no mesmo atendimento: uma reinfecção tem uma fonte, e tratar só o caso-índice devolve a mesma titulação em seis meses
Esperado: Título que permanece reagente e baixo, estável, após tratamento adequado documentado e queda prévia de pelo menos duas diluições, sem nova exposição de risco no período analisado. Isso é serofast e não é falha terapêutica
Se não melhora: Não retrate cicatriz sorológica e não repita penicilina por título baixo persistente. O que se faz é orientar e registrar a titulação estável no prontuário, com a data e o método — porque, sem esse registro, o próximo profissional que vir um teste reagente vai tratar de novo e a pessoa vai colecionar esquemas que não precisava
Esperado: Redução progressiva: a tendência natural dos surtos é tornarem-se menos intensos e menos frequentes com o tempo, e as lesões de recorrência regridem em 7 a 10 dias. Nos primeiros 12 meses após a primoinfecção, porém, 90% das pessoas com HSV-2 e 60% das com HSV-1 terão novo episódio — de modo que recorrência precoce é esperada, não é falha
Se não melhora: Episódios repetidos abrem a indicação de supressão com aciclovir 200 mg, 2 comprimidos duas vezes ao dia, por até 6 meses, prorrogável por até 2 anos, com avaliação periódica de função renal e hepática. Atenção ao critério: o quadro do protocolo escreve o número de duas formas — 6 ou mais episódios por ano no rótulo, mais de 6 ao ano no comentário. Registre o número de episódios no prontuário e cite o rótulo do quadro na justificativa
Esperado: Todos lidos, comunicados e agidos: HIV, hepatites B e C, e a biologia molecular de clamídia e gonococo se foi colhida. E a parceria tratada, com nome e data no prontuário — não avisada
Se não melhora: Sorologia reagente para o vírus da imunodeficiência humana muda o seguimento inteiro deste capítulo: quem vive com o vírus e recebe diagnóstico de sífilis precisa de avaliação neurológica detalhada, e qualquer queixa de visão ou do sistema nervoso obriga a puncionar o líquor e a acionar o especialista no mesmo dia. Parceria não tratada até o retorno vira busca ativa, e não nova orientação verbal
Onde o erro machuca
O dano: É a inversão exata do que o protocolo determina. Os dois exames que o SUS oferece — campo escuro e Gram — confirmam e não descartam, e o próprio documento lista três motivos de campo escuro negativo em pessoa com sífilis, incluindo pomada usada por conta própria antes da consulta. A sorologia pode estar não reagente na lesão primária, porque a úlcera aparece dentro da janela imunológica. Enquanto se espera, a lesão cicatriza sozinha, a pessoa se convence de que sarou, e a infecção segue para o secundarismo — e continua transmitindo, com a úlcera aberta multiplicando o risco de aquisição do HIV.
Como pegar a tempo: Colha o que houver e trate na mesma consulta, nessa ordem. Escreva no prontuário que o tratamento foi sindrômico e por qual galho do fluxograma. O resultado que vier depois serve para nomear o agente e para o seguimento, não para autorizar o que já era devido.
O dano: O quadro de interpretação do protocolo diz, nessa exata situação, que o resultado significa ausência de infecção OU período de incubação — janela imunológica — de sífilis recente, e manda nova coleta em 30 dias. Ler só a primeira metade da frase produz a alta mais cara do capítulo: a pessoa vai embora sem penicilina, com uma lesão que vai sumir sozinha e uma infecção que vai continuar. O mesmo documento é explícito ao dizer que isso não deve retardar o tratamento quando o diagnóstico de sífilis é o mais provável, e dá como exemplo justamente a visualização de úlcera anogenital.
Como pegar a tempo: Trate pelo fluxograma, não pelo teste. Use a sorologia para ter a titulação de base do seguimento e agende a nova coleta em 30 dias na mesma consulta, com data escrita. E anote no prontuário a frase que autoriza a conduta, para que o próximo profissional não desfaça o tratamento por causa do resultado não reagente.
O dano: É a única conduta que o protocolo proíbe explicitamente neste capítulo, e o faz nas duas doenças em que o bubão aparece: são contraindicadas a incisão com drenagem e a excisão dos linfonodos acometidos. O linfonodo que fistuliza sozinho fecha; o que é incisado tende à fístula crônica, e o documento descreve a cicatrização do cancro mole como podendo ser desfigurante. O reflexo cirúrgico diante de uma coleção flutuante é forte justamente porque em quase todo o resto do corpo ele está certo.
Como pegar a tempo: Aspire, se estiver tenso e com flutuação, com agulha de grosso calibre e por pele sã, para alívio — e só isso. Escreva no pedido de avaliação cirúrgica, quando ela for necessária por outro motivo, que se trata de bubão de infecção sexualmente transmissível e que a incisão está contraindicada pelo protocolo nacional. É uma frase que evita a drenagem feita por quem não leu o caso.
O dano: Uma dose em vez de três é subtratamento de doença latente, e o erro é fácil porque a paciente costuma ser assintomática e o título, baixo. A regra do protocolo é que sífilis recente é a de até um ano de evolução, e que a latente com duração ignorada entra na sífilis tardia, junto com a latente tardia e a terciária. Título baixo sem sintoma e sem sorologia anterior não reagente documentada não é sinal de infecção nova: é ausência de informação. E a consequência aparece meses depois, como ausência de queda de duas diluições e retratamento.
Como pegar a tempo: Só classifique como recente quem tem lesão atual compatível, secundarismo, ou sorologia anterior não reagente documentada dentro do último ano. Fora disso, é tardia — três doses semanais, dose total de 7,2 milhões UI. Escreva no prontuário o estágio presumido e o que o sustenta; sem essa frase, ninguém consegue auditar o esquema depois.
O dano: Metade da receita fica sem ser cumprida, e é a metade que decide se a pessoa volta. A janela da sífilis é de 90 dias e o tratamento presuntivo se oferece independentemente do estágio clínico e de sinais e sintomas — isto é, independentemente do que a parceria diga. Um terço das parcerias de pessoas com sífilis recente adoece em 30 dias da exposição, e no cancro mole o risco de infecção em uma única relação é de 80%. A reinfecção aparece no seguimento como aumento de duas diluições e é lida como falha terapêutica, levando a repetir penicilina numa pessoa cujo problema nunca foi a droga.
Como pegar a tempo: Peça a lista nominal das parcerias dos últimos 90 dias na primeira consulta, e não a parceria atual. Use a janela certa: 90 dias para sífilis, e não os 60 dias que o mesmo protocolo usa na cervicite. Trate a parceria sem exigir exame para prescrever, e registre nome e data — parceria avisada não é parceria tratada.
O dano: A benzilpenicilina benzatina é o medicamento de escolha, e o protocolo registra que nunca se documentou treponema resistente à penicilina, aqui ou em qualquer outro país; a chance de reação anafilática é de 0,002%. O protocolo registra que a quase totalidade dos casos suspeitos de alergia encaminhados para dessensibilização foi descartada apenas pela anamnese, e enumera oito achados que, sozinhos, não bastam para o rótulo: a dor no local da aplicação, a reação da própria pele em volta da agulha, uma erupção maculopapular, náusea, coceira, sensação de mal-estar, dor de cabeça, e — os dois mais citados pelo paciente — um episódio suspeito ocorrido há mais de uma década e o relato de que alguém da família é alérgico. Trocar sem qualificar entrega a alternativa oral, que o próprio documento condiciona a acompanhamento clínico e laboratorial rigoroso — e que, na Rename, está no componente Estratégico e pode não estar na unidade.
Como pegar a tempo: Faça a anamnese objetiva antes de trocar: detalhes da reação, há quantos anos, como foi tratada, qual o desfecho, por que recebeu penicilina, e se usou depois disso ampicilina, amoxicilina ou cefalosporina sem problema. Reserve a troca para dois cenários: anafilaxia documentada em episódio anterior, e reação cutânea grave do tipo Stevens-Johnson. E lembre que, na gestante, não há troca: a conduta é a dessensibilização em ambiente hospitalar, e o assunto é do capítulo de sífilis na gestação.
O que dizer ao paciente e à família
A conversa deste capítulo carrega três coisas que a paciente não pediu: um diagnóstico de infecção sexualmente transmissível, uma injeção que dói, e a obrigação de nomear parceiras ou parceiros. Qualquer uma das três, mal feita, encerra o tratamento antes da segunda dose. As falas abaixo são para serem ditas em voz alta, com essas palavras ou com as suas — e o que elas têm em comum é separar a informação do julgamento.
Duas regras atravessam todas. A primeira: nomeie a doença. Ferida, IST e problema não são diagnósticos, e a pessoa que não ouve o nome não consegue procurar informação, não consegue contar à parceria e não consegue voltar sabendo do que se trata. A segunda: nunca diga a uma parceria qual o resultado da outra pessoa — o resultado é individual e sigiloso, e a revelação precisa de autorização prévia.
Explicar por que se trata hoje, antes de qualquer resultado
“Vou te explicar por que já vou tratar hoje, sem esperar exame. A ferida que a senhora tem pode ser de quatro doenças diferentes, e todas quatro fazem ferida parecida — tanto que o exame do médico olhando acerta menos de um terço das vezes. Os exames que existem no posto servem para confirmar, mas não servem para descartar: se der negativo, isso não quer dizer que a senhora não tem. Então a regra do Ministério da Saúde é tratar as duas causas mais comuns na hora, aqui, e depois acompanhar. Se eu esperasse, a ferida ia sumir sozinha em algumas semanas — e o problema não some junto com ela.”
Não diga: Evite dizer que o exame vai dizer o que é, e evite prometer resultado. Também não diga que é só por precaução: não é precaução, é o tratamento indicado.
Dizer o nome da doença, e o que ela é
“O nome do que estou tratando é sífilis, e é uma infecção transmitida pelo sexo, causada por uma bactéria. Vou falar dela sem rodeio porque a senhora vai ouvir esse nome de novo, no resultado e na farmácia, e é melhor ouvir de mim primeiro. É uma doença que tem cura, com uma injeção de penicilina que existe há mais de setenta anos e que a bactéria nunca aprendeu a resistir. O que ela tem de traiçoeiro não é a gravidade do começo: é que a ferida some sozinha, a pessoa acha que sarou, e a doença continua por dentro. É por isso que a senhora vai voltar aqui para os exames de controle mesmo se estiver ótima.”
Não diga: Evite o eufemismo — uma coisinha, uma inflamaçãozinha. E evite a moral: como a senhora pegou isso, com quantos, por que não se cuidou. Nada disso muda a dose e tudo isso muda se ela volta.
Avisar sobre a reação de Jarisch-Herxheimer antes de aplicar
“Antes de aplicar, preciso te avisar de uma coisa para a senhora não se assustar em casa. Em algumas pessoas, nas primeiras vinte e quatro horas depois da injeção, aparece febre, dor no corpo, dor de cabeça e as feridas parecem piorar um pouco. Isso não é alergia e não é a doença piorando: é a reação do corpo à quantidade de bactéria morrendo de uma vez. Passa sozinha em doze a vinte e quatro horas e melhora com dipirona ou paracetamol. Alergia é outra coisa — é urticária, aquelas placas que coçam, e falta de ar, e começa em minutos. Se for isso, volte imediatamente.”
Não diga: Evite omitir o aviso para não assustar: quem tem a reação sem ter sido avisada conclui que é alérgica à penicilina, e carrega esse rótulo errado pela vida inteira.
Pedir a lista de parcerias dos últimos três meses
“Agora vem a parte mais difícil da consulta, e vou explicar por que estou pedindo. Essa bactéria pode ficar até três meses dentro da pessoa sem dar sinal nenhum. Então não basta tratar a senhora: quem esteve com a senhora nesses três meses precisa tomar a mesma injeção, mesmo estando ótimo, mesmo que o exame dele dê negativo — porque pode estar dentro desse período de incubação. Se isso não for feito, a senhora se trata agora e pega de novo daqui a dois meses. Não preciso de nomes completos nem de explicações. Preciso saber quantas pessoas, e como avisar cada uma.”
Não diga: Evite transformar a pergunta em interrogatório sobre fidelidade, e evite qualquer expressão de surpresa com o número. A pergunta é epidemiológica; o tom decide se a resposta é verdadeira.
Responder à pergunta de quem foi que passou
“Essa é a pergunta que todo mundo faz, e a resposta honesta é que eu não sei — e ninguém sabe. Essa infecção pode ficar meses sem dar nenhum sinal, então a pessoa que passou pode não ter tido sintoma nenhum e não estar mentindo. O tempo entre pegar e aparecer a ferida vai de dez dias a três meses, o que quer dizer que pode ter sido de uma relação de janeiro. Eu sei que essa resposta não resolve o que a senhora está sentindo. Mas transformar isso numa acusação costuma terminar com uma pessoa não tratada, e a pessoa não tratada é justamente a que vai devolver a infecção.”
Não diga: Evite dar uma resposta cronológica falsamente precisa — foi há tantos dias, então foi fulano. A incubação é longa demais para isso, e um palpite dito por um profissional vira certeza para quem ouve.
Primeira consulta de herpes genital, quando a paciente pergunta se tem cura
“Vou responder direto e depois explicar. Cura no sentido de tirar o vírus do corpo, não tem: depois da primeira vez, o vírus fica guardado num gânglio de nervo perto da coluna, e nenhum remédio do mundo tira ele de lá. Isso é a parte ruim, e eu não vou disfarçar. A parte boa é grande e a senhora precisa ouvir também: essa crise de agora é a pior que a senhora vai ter na vida com essa doença. As seguintes, quando vierem, duram uns sete a dez dias e doem muito menos, e com o tempo elas vão ficando mais raras e mais fracas. Tem remédio que encurta cada crise, e, se elas vierem muitas vezes por ano, tem um comprimido de uso contínuo que segura. E uma coisa que precisa ser dita: isso não tem nenhuma relação com câncer.”
Não diga: Evite responder só não tem cura e passar para a receita. E evite prometer que não vai mais acontecer: nos primeiros doze meses, a maioria tem novo episódio, e a promessa quebrada custa a confiança.
Explicar por que a íngua não vai ser cortada
“Eu sei que essa íngua está doendo e que parece que precisa ser aberta — e em quase qualquer outro lugar do corpo eu abriria. Aqui, não. Nesse tipo de infecção, o gânglio que é cortado costuma virar uma ferida que fica meses sem fechar, e pode deixar marca. O que se faz é diferente: se ele estiver bem tenso, eu espeto com uma agulha grossa por uma parte da pele que está sadia e tiro o líquido, só para aliviar a pressão. Não corto e não costuro. E o antibiótico continua, porque é ele que resolve a infecção — o gânglio pode levar semanas para diminuir mesmo com o tratamento certo, e isso não quer dizer que não está funcionando.”
Não diga: Evite prometer que a íngua vai sumir rápido com o antibiótico: o protocolo diz que a antibioticoterapia não tem efeito expressivo sobre a duração da linfadenopatia, e a promessa leva a paciente a procurar quem drene.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Um ano — Brasil
O protocolo brasileiro divide a sífilis em recente, que engloba primária, secundária e latente recente com até um ano de evolução, e tardia, que engloba latente tardia e terciária com mais de um ano. É esse corte que decide entre dose única e três doses semanais, e o documento acrescenta que a latente de duração ignorada entra na tardia. Na prática, portanto, o corte de um ano só beneficia quem tem sorologia anterior não reagente documentada dentro do último ano ou lesão atual — todo o resto cai automaticamente no esquema de três doses.
Ministério da Saúde, PCDT para Atenção Integral às Pessoas com IST, seção 5.3 e Quadro 15 (anexo da Portaria SCTIE/MS nº 12/2021, com alteração do anexo registrada em 4 de julho de 2024; edição em livro de 2022)
Dois anos — Organização Mundial da Saúde
As diretrizes da OMS para o tratamento de Treponema pallidum definem sífilis recente como a de até dois anos de duração e sífilis tardia como a de mais de dois anos, e é sobre esse corte que assentam as duas recomendações fortes: benzilpenicilina benzatina 2,4 milhões UI em dose única na recente, e a mesma dose uma vez por semana durante três semanas consecutivas na tardia — as duas com qualidade de evidência declarada como muito baixa. A atualização de 2024 declara que revisou apenas as recomendações de gestação e manteve as demais como estavam, de modo que, fora da gestação, o corte de dois anos continua sendo o da OMS.
Organização Mundial da Saúde, WHO guidelines for the treatment of Treponema pallidum (syphilis), 2016, seção de recomendações de tratamento; e Updated recommendations for the treatment of Neisseria gonorrhoeae, Chlamydia trachomatis and Treponema pallidum (syphilis), 2024
Um ano — Centers for Disease Control and Prevention
O documento norte-americano usa o mesmo corte do brasileiro e o escreve pela negativa: a sífilis latente adquirida no ano precedente é chamada de latente recente, e todos os demais casos de sífilis latente são classificados como latente tardia. O tratamento da latente tardia e da terciária requer, nas palavras do documento, duração mais longa de terapia. É a posição majoritária das três, e o Brasil está com ela.
Centers for Disease Control and Prevention, Sexually Transmitted Infections Treatment Guidelines, 2021, página de sífilis — seção de visão geral e classificação
Para a paciente à sua frente no Brasil, o corte é um ano, e ele é também o corte da maioria: duas das três réguas dizem um ano. Mas saiba exatamente onde a divergência morde, porque ela morde num caso concreto e nada raro: a pessoa com teste não treponêmico reagente hoje e uma sorologia não reagente documentada há dezoito meses. Pela régua brasileira e pela norte-americana, essa é sífilis tardia — três doses, seis frascos, três semanas de retorno. Pela régua da OMS, é sífilis recente — uma dose, dois frascos, uma consulta. A diferença material entre as duas condutas é de quatro frascos e duas idas à unidade; a diferença de risco é assimétrica e é ela que decide. Subtratar uma latente tardia com dose única é o erro que reaparece meses depois como ausência de queda de duas diluições e obriga a retratar, agora com punção lombar na conta, porque retratamento sem reexposição indica investigar neurossífilis. Sobretratar uma latente recente com três doses não produz dano conhecido além do custo, do incômodo das injeções e do risco de a pessoa abandonar o esquema no meio — que é real e é o argumento honesto do outro lado. Portanto: use um ano, trate como tardia toda duração ignorada, e reserve o esquema de dose única para quem tem lesão atual, secundarismo, ou papel na mão mostrando sorologia não reagente dentro do último ano. E, se a pessoa tem histórico plausível de infecção entre um e dois anos e você teme que ela não complete três semanas de retorno, a decisão não é encurtar o esquema: é encurtar a distância — aplicar a primeira dose hoje, agendar as outras duas com data escrita fora de fim de semana e feriado, e deixar telefone de busca ativa.
Tratar os dois, sempre, antes de qualquer resultado
É o galho principal do fluxograma nacional: sem laboratório disponível, sem lesão vesiculosa ativa e com lesão de menos de quatro semanas, trata-se sífilis e cancro mole na mesma consulta. A justificativa está medida no próprio documento — valor preditivo positivo de 30,9% para sífilis e de 32,7% para cancro mole, com a ressalva de que isso vale inclusive nos casos considerados clássicos — e é reforçada por uma regra de precedência explícita: considerando a importância para a saúde pública, em caso de dúvida sobre a hipótese diagnóstica e na ausência de laboratório, o tratamento da úlcera genital como IST deve ser privilegiado. Some-se a isso o fato, registrado no mesmo capítulo, de que os agentes podem estar associados numa mesma lesão.
Ministério da Saúde, PCDT para Atenção Integral às Pessoas com IST, seção 9.1, seção 9.3 e Figura 14 (anexo da Portaria SCTIE/MS nº 12/2021; edição em livro de 2022)
Tratar pelo achado, quando a microscopia existe e é lida no dia
O mesmo fluxograma tem um galho anterior que quase nunca é percorrido e que diz outra coisa: se há laboratório disponível, a decisão passa pela microscopia. Visualização de bacilos Gram-negativos agrupados em correntes leva a tratar cancro mole; identificação de treponemas móveis no campo escuro leva a tratar sífilis primária ou secundária. São dois exames de leitura imediata, feitos com o exsudato da própria lesão, e o campo escuro precisa ser analisado logo após a coleta. Onde eles existem e são lidos na hora, o documento nacional autoriza dirigir o tratamento em vez de cobrir os dois — e cada tratamento evitado é um antimicrobiano classificado como Alerta na régua AWaRe que não foi usado, já que a azitromicina do cancro mole é de uso vigiado enquanto a penicilina é de Acesso.
Ministério da Saúde, PCDT para Atenção Integral às Pessoas com IST, seções 9.2.1 e 9.2.2 e Figura 14; classificação AWaRe conferida na Rename 2024
Decida por duas perguntas, nesta ordem: o exame sai hoje, e a pessoa volta? Se a microscopia existe no serviço, é colhida agora e lida na mesma manhã, o galho dirigido é legítimo, é do próprio protocolo e poupa um antimicrobiano de uso vigiado. Se a microscopia existe mas o resultado sai em dias, ela deixou de ser exame de decisão e passou a ser exame de registro — colha, e trate os dois assim mesmo. E há um detalhe que decide mais casos do que a disponibilidade do microscópio: mesmo com resultado no dia, um campo escuro negativo não descarta sífilis, e uma bacterioscopia negativa não descarta cancro mole — o próprio documento enumera as razões. Isto é: o galho dirigido só é seguro quando o exame é positivo. Negativo devolve a paciente ao tratamento duplo. Na prática do serviço brasileiro médio, isso significa que a resposta é tratar os dois na esmagadora maioria das consultas — e que a exceção honesta é o serviço de referência com campo escuro na sala ao lado e um treponema móvel na tela. Em qualquer cenário, escreva no prontuário se o tratamento foi sindrômico ou dirigido, e por qual achado: é a única forma de outro profissional saber, no retorno de catorze dias, o que já foi coberto e o que não foi.
Doxiciclina, com acompanhamento rigoroso — Brasil
O protocolo brasileiro oferece uma alternativa única e a cerca de condições. Para não gestantes, doxiciclina 100 mg de 12 em 12 horas por via oral, por 15 dias na sífilis recente e por 30 dias na tardia — 30 e 60 comprimidos. E a frase que a acompanha é restritiva: outras opções, como a doxiciclina e a ceftriaxona, devem ser usadas somente em conjunto com acompanhamento clínico e laboratorial rigoroso, para garantir resposta clínica e cura sorológica. Conferida na Rename 2024, a doxiciclina 100 mg comprimido está no componente Estratégico — não na prateleira comum da unidade —, o que acrescenta um obstáculo logístico à alternativa.
Ministério da Saúde, PCDT para Atenção Integral às Pessoas com IST, seção 5.6 e Quadro 15 (anexo da Portaria SCTIE/MS nº 12/2021; edição em livro de 2022); Rename 2024
Doxiciclina, ceftriaxona ou azitromicina, só quando a penicilina não estiver disponível ou for contraindicada — Organização Mundial da Saúde
A OMS lista três alternativas e as condiciona expressamente à indisponibilidade ou contraindicação das penicilinas: doxiciclina 100 mg por via oral duas vezes ao dia por 14 dias na sífilis recente e por 30 dias na tardia; ceftriaxona 1 g por via intramuscular uma vez ao dia por 10 a 14 dias; e azitromicina 2 g por via oral em dose única, esta apenas em circunstâncias especiais. Todas são recomendações condicionais com qualidade de evidência declarada como muito baixa. Note a diferença exata com o Brasil na sífilis recente: 14 dias contra 15 — um dia, 28 comprimidos contra 30 — enquanto na tardia os dois documentos coincidem em 30 dias.
Organização Mundial da Saúde, WHO guidelines for the treatment of Treponema pallidum (syphilis), 2016, recomendações 2 e 6, mantidas fora da gestação pela atualização de 2024
Antes de substituir, qualificar a alergia — a segunda voz do próprio documento brasileiro
O mesmo protocolo que oferece a alternativa dedica uma seção inteira a evitá-la. Registra que a quase totalidade dos casos suspeitos de alergia à penicilina encaminhados para dessensibilização foi descartada apenas pela anamnese; que oito achados isolados não bastam para o rótulo — a dor no ponto da injeção, a reação da pele em volta dela, uma erupção maculopapular, náusea, coceira, indisposição, dor de cabeça, e o episódio antigo de mais de dez anos ou o simples fato de haver alérgico na família; e que a probabilidade de reação anafilática à benzilpenicilina benzatina é de 0,002%. Reserva o encaminhamento a dois cenários — anafilaxia documentada num episódio anterior e reação cutânea grave do tipo Stevens-Johnson — e oferece oito perguntas de anamnese para separar uma coisa da outra. A leitura é que a alternativa mais provável à penicilina, nesse documento, é a própria penicilina.
Ministério da Saúde, PCDT para Atenção Integral às Pessoas com IST, seções 5.6.4 e 5.6.5 (anexo da Portaria SCTIE/MS nº 12/2021; edição em livro de 2022)
Comece pela terceira posição, sempre, porque ela é gratuita e resolve a maioria dos casos: faça as perguntas antes de trocar a droga. Detalhes da reação, há quantos anos, como foi tratada, qual foi o desfecho, por que recebeu penicilina, e — a pergunta que mais decide — se depois daquele episódio usou ampicilina, amoxicilina ou alguma cefalosporina sem problema nenhum. Uma resposta afirmativa a essa última derruba quase todo relato de alergia, e devolve a paciente à injeção que funciona. Se a anamnese qualificar a alergia como real e grave — anafilaxia prévia, Stevens-Johnson —, aí a divergência vira decisão prática, e ela se decide pelo seguimento, não pela droga: as duas réguas oferecem a doxiciclina, e a diferença entre 14 e 15 dias na sífilis recente não muda desfecho conhecido; o que muda desfecho é o rigor do controle sorológico, que os dois documentos exigem e que o brasileiro escreve como condição de uso. Prescreva a doxiciclina apenas se você conseguir garantir as coletas trimestrais e o retorno — e, se não conseguir, o problema a resolver é o seguimento, não a receita. Duas advertências que não são negociáveis: a doxiciclina sai por um fluxo de abastecimento diferente, o componente Estratégico, e prescrevê-la sem saber onde ela é retirada equivale a não prescrever; e nada disto vale para a gestante, em que não existe alternativa e a conduta é a dessensibilização em ambiente hospitalar, no capítulo de sífilis na gestação.
O raciocínio, em voz alta
Volte a Silene Delfino, 24 anos, sexta-feira, 15h20, unidade básica. Veio renovar a receita do anticoncepcional e mencionou, já de saída, uma ferida que apareceu há doze dias e não incomoda. Ao exame: úlcera única de cerca de um centímetro no lábio maior direito, próxima à fúrcula, borda regular e bem delimitada, fundo limpo, sem secreção e sem odor; base endurecida à pinça entre dois dedos; indolor mesmo à palpação firme. Virilha direita com dois linfonodos de cerca de um centímetro, móveis, endurecidos e indolores. Sem febre, sem lesão em outro sítio, sem corrimento. Parceria atual há três meses, parceria anterior até janeiro, preservativo irregular. Última menstruação há onze dias, anticoncepcional regular, nunca tomou injeção na vida. O teste rápido treponêmico feito na unidade volta não reagente em quinze minutos. A unidade não tem microscopia de campo escuro.
o que penso antes de decidir
A descrição fecha um padrão e ela é o que tenho. Úlcera única, indolor, borda regular, base endurecida e fundo limpo é o cancro duro do livro, e a íngua acompanha o padrão: firme, indolor, do mesmo lado. Doze dias de evolução cabem folgadamente na incubação declarada de dez a 90 dias. Mas duas coisas me impedem de fechar diagnóstico: a impressão clínica acerta 30,9% das vezes na sífilis, inclusive nos casos clássicos, e agentes podem coexistir na mesma lesão. O que a descrição me dá, portanto, não é o nome da doença — é o galho do fluxograma. Não há vesícula ativa, não houve bolha antes, e a lesão tem menos de quatro semanas.
o que faço com o teste não reagente
Nada, no que diz respeito à decisão de tratar. O quadro de interpretação do protocolo diz que primeiro teste não reagente significa ausência de infecção OU período de incubação de sífilis recente, e o mesmo documento acrescenta que isso não deve retardar o tratamento quando o diagnóstico de sífilis é o mais provável, dando como exemplo a visualização de úlcera anogenital — que é exatamente o que estou vendo. Silene está dentro da janela imunológica: a lesão apareceu há doze dias e a sorologia ainda não virou. Ler o não reagente como exclusão seria mandá-la embora com uma lesão que vai sumir sozinha e uma infecção que vai continuar. O teste serve aqui para outra coisa: preciso do não treponêmico colhido hoje para ter a titulação de base do seguimento.
o que prescrevo, e por que dois agentes e não um
Benzilpenicilina benzatina 2,4 milhões UI por via intramuscular em dose única — dois frascos de 1.200.000 UI, 1,2 milhão em cada lado, preferencialmente na região ventroglútea —, aplicada aqui, agora, antes de ela sair da sala. Mais azitromicina 500 mg, dois comprimidos por via oral em dose única, engolidos na minha frente. A penicilina é para a sífilis; a azitromicina é para o cancro mole, que eu não estou vendo e não posso descartar, porque o exame direto que o descartaria não existe nesta unidade e porque, se existisse, o negativo não descartaria. É esse o galho do fluxograma para úlcera sem vesícula ativa com menos de quatro semanas. Não prescrevo aciclovir: não há vesícula, não houve bolha antes, e o galho do herpes não se abriu.
como estadeio, com a informação que tenho
Sífilis recente. Não é presunção: ela tem lesão primária atual, e lesão atual é o que autoriza classificar como recente sem sorologia anterior documentada. Dose única, portanto — não três doses. Se Silene tivesse chegado sem lesão, com um teste reagente encontrado por acaso e sem sorologia anterior na mão, a classificação seria duração ignorada, e duração ignorada é sífilis tardia: três doses semanais, dose total de 7,2 milhões UI. Escrevo no prontuário o estágio e o que o sustenta — sífilis primária, úlcera genital indolor de base endurecida em atividade —, porque em seis meses ninguém vai lembrar por que foi uma dose.
o que digo antes de aplicar
Três coisas, nesta ordem. O nome da doença, sem eufemismo, porque ela vai lê-lo no resultado e na farmácia. A advertência da reação de Jarisch-Herxheimer: febre, dor no corpo e piora aparente das lesões nas primeiras vinte e quatro horas, que passam sozinhas em doze a vinte e quatro horas e se controlam com analgésico simples — e que não são alergia, que é urticária e falta de ar em minutos. E a frase que mais muda o desfecho: a ferida ia sumir sozinha em algumas semanas, e sumir não é sarar. Mantenho a caixa de emergência aberta e a adrenalina conferida, porque a probabilidade de anafilaxia é de 0,002% e não de zero.
a segunda metade da receita
As parcerias dos últimos 90 dias. São duas: Wendel, dos últimos três meses, e a parceria que terminou em janeiro — e a segunda entra porque a incubação vai a 90 dias, não porque eu suspeite dela. As duas recebem benzilpenicilina benzatina 2,4 milhões UI em dose única, independentemente de sintomas e independentemente do resultado do teste delas, e sem que eu exija exame para prescrever. Explico a Silene por que, com a aritmética: a bactéria pode ficar até três meses sem dar sinal, então parceria sem sintoma e com teste negativo pode estar incubando; se não tratar, ela se cura agora e pega de novo em dois meses. Não digo a nenhuma das parcerias qual o resultado dela — resultado é individual e sigiloso.
o que sai junto, e o que fica marcado
Sai a bateria inteira que acompanha qualquer infecção deste grupo: teste rápido para o vírus da imunodeficiência humana, teste rápido para sífilis, sorologia das hepatites B e C, pesquisa molecular de clamídia e de gonococo, e a checagem do calendário vacinal quanto a hepatite A, hepatite B e papilomavírus. Notifico a sífilis adquirida — é compulsória desde 2010 e alimenta a base de cálculo da compra centralizada de penicilina. E marco duas datas na receita, com caneta: retorno em catorze dias para reexaminar a lesão, ler os resultados e confirmar que as parcerias foram tratadas com nome e data; e a primeira coleta do controle de cura em três meses, com teste não treponêmico pelo mesmo método de hoje. O seguimento vai até doze meses, aos 3, 6, 9 e 12.
o que eu esperaria ver, e quando ficaria preocupado
Em catorze dias, lesão cicatrizada ou quase — o que, sozinho, não prova nada, porque ela cicatrizaria de qualquer jeito. Em três meses, o primeiro não treponêmico do seguimento, comparado com o de hoje. Em seis meses, queda de duas diluições, que é quatro vezes: de 1:32 para 1:8 seria resposta adequada. Ficaria preocupado com duas coisas: ausência de queda de duas diluições em seis meses, que é critério de retratamento e, sem reexposição sexual, indicaria punção lombar para investigar neurossífilis; e aumento de duas diluições em qualquer coleta, que significa reinfecção ou reativação — e cuja primeira pergunta não é sobre a penicilina, é sobre quem esteve com Silene depois da injeção.
Variação do caso — resposta e reavaliação
Variação do retorno de Silene: a úlcera desapareceu e ela pergunta se pode dispensar as sorologias de controle. Explicar que a lesão poderia cicatrizar mesmo sem tratamento e que o seguimento mede outra dimensão da resposta. Conferir título de base, tratamento recebido e novas exposições.
Variação do caso — quando mudar o plano
Se a lesão permanece ou cresce após tratamento adequado, reexaminar e ampliar hipóteses, incluindo causas não infecciosas. Não somar antibióticos sucessivos apenas pela persistência. Se o teste inicial foi negativo em exposição recente, programar repetição conforme a suspeita e a janela.
Faça você
Terça-feira, 9h40, mesma unidade. Marisol Tavernard tem 31 anos, é auxiliar de cozinha de um restaurante e chega andando devagar, com a mão na virilha esquerda. Diz que apareceu uma íngua há três semanas, que primeiro era do tamanho de uma azeitona e agora ela não consegue mais fechar a perna direito para dormir. Tem tido febre baixa no fim da tarde e perdeu o apetite. Quando você pergunta se teve alguma ferida, ela diz que não — e então corrige: teve uma coisinha, uma bolha ou uma casquinha, faz mais de um mês, que sumiu sozinha em poucos dias e que ela nem lembrava. Nas últimas semanas passou a sentir vontade de evacuar sem conseguir, com dor e um pouco de secreção; achou que fosse hemorroida e comprou pomada. Relação anal receptiva com a parceria dos últimos oito meses, sem preservativo. Ao exame: nenhuma úlcera visível em vulva, períneo, região perianal ou colo ao espéculo. Na região inguinal esquerda, massa de cerca de cinco centímetros, dolorosa, aderida, com a pele acima avermelhada e adelgaçada em dois pontos distintos; um deles já drena secreção. Ao toque retal, dor e secreção mucopurulenta na luva. Teste de gravidez negativo; teste rápido para sífilis e para HIV não reagentes.
por que o fluxograma não a recebe
Marisol não tem úlcera genital, e a Figura 14 do protocolo entra pela caixa queixa de úlcera genital. Todos os galhos dela — vesícula ativa, mais de quatro semanas, microscopia disponível — pressupõem uma lesão que existe. Aplicar o fluxograma aqui produziria uma de duas coisas erradas: sair dele por não haver úlcera, ou tratar sífilis e cancro mole, que é o que o galho principal manda, e não tratar a doença que ela tem. O documento, porém, abre a porta em outro lugar, três páginas antes, e a abre larga: gânglio inguinal inflamado, genitália elefantiásica e estreitamento de uretra ou de reto obrigam a pensar em linfogranuloma, sem exceção — e Marisol tem o primeiro dos três.
o que na história e no exame aponta o agente
Quatro achados, e nenhum deles é a úlcera. Primeiro, a cronologia clássica das três fases: uma lesão de entrada fugaz e indolor — a coisinha que sumiu sozinha e que ela nem lembrava, que o protocolo descreve como frequentemente não notada pela pessoa nem observada pelo profissional —, seguida, entre uma e seis semanas depois, da adenopatia que virou o motivo da consulta. Segundo, os sintomas gerais que o documento lista para a fase de sequelas: febre, mal-estar, anorexia. Terceiro, e decisivo, os dois pontos de fistulização: o linfogranuloma supura por orifícios múltiplos, correspondentes a linfonodos individualizados parcialmente fundidos numa grande massa, enquanto o bubão do cancro mole fistuliza tipicamente por orifício único. Quarto, a proctite: prática anal receptiva com tenesmo, dor e secreção é a manifestação que o protocolo manda pesquisar como Chlamydia trachomatis, e que descreve como apresentação inicial em mulheres com coito anal.
o que os testes não reagentes significam
Menos do que parecem. O teste para sífilis não reagente não afasta sífilis primária dentro da janela imunológica — mas aqui não há úlcera atual, e a hipótese de sífilis não é a principal; ainda assim, ele é a titulação de base se algo mudar. O teste de HIV não reagente é a boa notícia e não encerra a conversa: a úlcera genital e a adenite são associadas a elevado risco de aquisição do vírus, e o resultado precisa ser repetido conforme a janela do teste usado. O que nenhum teste vai fazer é confirmar o linfogranuloma: não há, no rol que o protocolo descreve para o SUS, sorotipagem que distinga L1, L2 e L3 dos demais sorovares de Chlamydia trachomatis. O diagnóstico é de exclusão de sífilis e cancro mole somada ao histórico de exposição e ao quadro clínico. Isso não é um diagnóstico fraco: é o diagnóstico que o documento prevê.
a decisão que a massa exige
Não incisar. É a proibição escrita do protocolo, e vale tanto para o bubão do cancro mole quanto para o do linfogranuloma: gânglio que ganhou flutuação se esvazia por punção com agulha larga, e em nenhuma hipótese se abre com bisturi. A massa de Marisol é dolorosa e já drena espontaneamente por um dos dois pontos; se houver flutuação em coleção tensa, a aspiração por pele sã alivia. O que não se faz é abrir, drenar por incisão ou excisar — porque isso troca um linfonodo que fecharia por uma fístula que não fecha. E é preciso preparar a paciente para o tempo: o antibiótico não tem efeito expressivo sobre a duração da linfadenopatia, ainda que resolva rápido os sintomas agudos.
o que fica pendente depois da receita
Duas frentes. A parceria dos últimos oito meses precisa ser tratada — sintomática, com o mesmo esquema do caso-índice; assintomática, com azitromicina 1 g em dose única ou doxiciclina 100 mg de 12 em 12 horas por 7 dias. E a proctite pede o encaminhamento certo se não resolver: o protocolo avisa que os antibióticos não revertem sequelas como estenose retal, e a fase de sequelas inclui fístulas retais, vaginais e vesicais. Marque o retorno com data, ofereça a testagem completa que acompanha toda IST, e registre no prontuário a hipótese com essas palavras — adenite inguinal com fistulização por múltiplos orifícios e proctite, tratada como linfogranuloma venéreo —, porque quem ler daqui a três semanas precisa saber por que foram 21 dias e não uma dose.
Ver como fecharíamos
Trate como linfogranuloma venéreo, hoje, sem exame que confirme: doxiciclina 100 mg, 1 comprimido por via oral de 12 em 12 horas, por 21 dias — 42 comprimidos, e a doxiciclina está no componente Estratégico da Rename, de modo que a receita só se cumpre se a unidade souber onde buscá-la. Se a doxiciclina não estiver disponível, a alternativa do protocolo é azitromicina 500 mg, 2 comprimidos por via oral uma vez por semana por 21 dias, isto é, três tomadas nos dias 1, 8 e 15, seis comprimidos ao todo. Não incise nem excise a massa inguinal: aspire com agulha de grosso calibre, por pele sã, apenas se houver coleção tensa e flutuante. Trate a parceria dos últimos meses — mesmo esquema se sintomática, azitromicina 1 g em dose única ou doxiciclina por 7 dias se assintomática. Colha ainda nesta consulta a bateria que acompanha qualquer infecção do grupo — vírus da imunodeficiência humana, sífilis, hepatites B e C, e pesquisa molecular de clamídia e de gonococo — e confira o calendário vacinal. Prolongue a terapia até a resolução da sintomatologia, o que o protocolo autoriza, e avise a paciente de que a íngua pode levar semanas para diminuir mesmo com o tratamento certo. Marque retorno com data escrita e encaminhe à referência se os sintomas anorretais persistirem. O que não se faz aqui é aplicar o esquema sindrômico de úlcera genital — penicilina mais azitromicina em dose única — e dar alta: ele cobre sífilis recente e cancro mole, e nenhum dos dois é o que Marisol tem.
A conta das diluições é o que separa as alternativas. A amostra é diluída em fator 2 a cada passo, de modo que uma diluição corresponde ao dobro ou à metade e duas diluições correspondem a quatro vezes. Cair de 1:64 para 1:32 é cair uma única diluição — metade do título —, e o protocolo determina que a variação de uma diluição seja analisada com cautela, porque o teste não é automatizado e há diferença entre leituras feitas em momentos diferentes ou por observadores diferentes. A definição atual de resposta imunológica adequada exige teste não reagente ou queda de duas diluições em até seis meses na sífilis recente, e em até doze meses na sífilis tardia; queda de 1:64 para 1:16 seria adequada, queda para 1:32 não é. A ausência de redução de duas diluições no intervalo de seis meses é, por si só, critério de retratamento — e o documento acrescenta uma regra que se aplica exatamente ao caso descrito: quando nada na história sexual do período explica uma reinfecção, o líquor precisa ser puncionado antes de repetir a droga, para procurar acometimento do sistema nervoso central. Cicatriz sorológica não se aplica porque ela exige queda prévia de pelo menos duas diluições, que aqui não ocorreu. E reinfecção se caracteriza por aumento de duas diluições ou mais, e não por título que apenas não caiu o suficiente.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Sem consultar o capítulo, escreva de memória: os seis eixos da descrição da úlcera e o que cada um dos quatro agentes faz em cada eixo; o galho do fluxograma nacional para a úlcera sem vesícula e com menos de quatro semanas, com droga, dose, via e número de frascos e comprimidos; o corte que separa sífilis recente de tardia e o que se faz com a duração ignorada; o intervalo máximo entre doses fora da gestação e o que acontece se for ultrapassado; e a janela de convocação da parceria, com o número exato de dias. Depois escreva, ao lado, o que muda se houver vesícula ativa e o que muda se a única coisa que existe for a íngua. Em seguida, pegue dois prontuários de pessoa jovem atendida por lesão genital no seu serviço nos últimos meses e confira três coisas em cada um: se a lesão foi descrita nos seis eixos ou apenas nomeada; se a parceria foi tratada com nome e data ou apenas orientada; e se existe teste não treponêmico colhido no primeiro dia de tratamento, que é a titulação de base sem a qual o seguimento inteiro não se lê. Aplicação comentada: Teste inicial negativo em lesão recente exclui definitivamente infecção? Não. Considere janela, método e necessidade de repetição ou tratamento.
Em 30 dias
Trinta dias depois, refaça de memória apenas três respostas e confira: a definição de resposta imunológica adequada, com o número de diluições e o prazo de cada estágio; os três critérios de retratamento, sabendo que cada um basta sozinho; e o que se faz com um bubão tenso e flutuante. Depois, escolha um caso que você atendeu neste intervalo e siga a trilha inteira no prontuário: a titulação de base existe, a coleta de três meses foi feita, o método é o mesmo, a parceria consta com nome e data, e a notificação foi preenchida. Onde a trilha quebrar, corrija o processo e não só o caso — se a titulação de base falta em todos, o problema é a rotina de coleta da unidade; se a parceria falta em todos, o problema é a consulta e não a memória. E leia, ao lado deste capítulo, o de sífilis na gestação: metade das decisões que mudam ali são as mesmas que você acabou de escrever, com prazos diferentes.
Agora atenda
Agora atenda: mulher de 26 anos que chega à unidade básica por uma ferida genital que apareceu há duas semanas e que, segundo ela, não dói. Veio sozinha, tem pressa e diz que só quer saber se precisa de pomada. Menciona que teve uma bolha antes de virar ferida apenas se você perguntar, e só cita a parceria anterior se você perguntar pelos últimos três meses. Examine, decida o galho do fluxograma, prescreva o que couber com dose e número de frascos, trate a parceria e escreva as datas de retorno.
