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Duas coisas com o mesmo nome
Infecção pelo HPV e verrugas genitais (condiloma acuminado)
Quase toda pessoa sexualmente ativa adquire o vírus, e a maioria o elimina em um a dois anos. A verruga vem de tipos que não causam câncer. Quem não separa as duas coisas trata errado, vacina errado e responde errado às duas perguntas que a paciente faz.
Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST). Anexo da Portaria SCTIE/MS nº 12, de 19 de abril de 2021, que revogou a Portaria SCTIE/MS nº 42/2018. Versão de 112 páginas servida na página oficial do protocolo, com registro de alteração do anexo em 4 de julho de 2024. Capítulo 11 (Infecção pelo HPV), itens 11.1 a 11.10, Quadro 45 e Figura 16
Brasil. Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST). Brasília: Ministério da Saúde, 2022. 211 p. ISBN 978-65-5993-276-4. Capítulo 11, páginas 147 a 157
Brasil. Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis. Brasília: Ministério da Saúde, 2015. 120 p. 2ª edição revisada. Item 5.5.6, Figura 10 e nota de rodapé 9
Brasil. Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, Departamento do Programa Nacional de Imunizações. Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação — 2026. Item 19, vacina papilomavírus humano 6, 11, 16 e 18 (recombinante), HPV4, e a seção de grupos prioritários em estratégia nacional
Brasil. Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 41/2024-CGICI/DPNI/SVSA/MS — Atualização das recomendações da vacinação contra HPV no Brasil. Processo nº 25000.042929/2024-12, SEI nº 0039775181, assinada em 28 de março e 1º de abril de 2024
Brasil. Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 16/2025-DPNI/SVSA/MS — nova metodologia de avaliação dos indicadores de vacinação contra o HPV por coorte de ano de nascimento. Processo nº 25000.126136/2024-55, SEI nº 0045605478. Item 2.1.4
Brasil. Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 32/2026-CGICI/DPNI/SVSA/MS — inclusão de mulheres com neoplasia intraepitelial cervical de alto grau (NIC 2+ e adenocarcinoma in situ) submetidas a procedimento excisional como grupo prioritário para vacinação contra HPV. Processo nº 25000.039496/2026-80, SEI nº 0054090829, assinada em 24 e 26 de março de 2026, publicada em 26 de março de 2026
Brasil. Ministério da Saúde. Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero: Parte I — rastreamento organizado utilizando testes moleculares para detecção de DNA-HPV oncogênico. Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 13, de 29 de julho de 2025, com Registro de Deliberação nº 974/2025 e Relatório de Recomendação nº 977/2025 da Conitec
Brasil. Ministério da Saúde, Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024. Brasília, 2024. 252 p. ISBN 978-65-5993-710-3. Elenco do Componente Básico, grupo dermatológico, e elenco do Componente Estratégico, vacinas
Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. Infecção pelo papilomavírus humano na gravidez. Protocolo Febrasgo de Obstetrícia nº 28. Femina. 2025;53(3):206-12. Comissão Nacional Especializada em Patologia do Trato Genital Inferior e Colposcopia
Instituto Nacional de Câncer. Estimativa 2026: incidência de câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA, 2026. 168 p. ISBN 978-65-88517-52-9 (versão eletrônica). Capítulo do câncer do colo do útero e Tabela 1
Espírito Santo (Estado). Secretaria de Estado da Saúde, Programa Estadual de Imunizações. Nota Técnica nº 019/2026-SESA/SSVS/GEVS/NEVE/PEI — atualização das indicações da vacinação contra o HPV4 no âmbito do SUS. Vitória, 30 de março de 2026
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Mulher de 28 anos, não gestante, apresenta três lesões condilomatosas na vulva e duas na parede vaginal, identificadas ao exame especular. Trabalha em turnos e informa que dificilmente conseguirá comparecer a sessões semanais na unidade. Sobre a escolha do tratamento, qual afirmativa está correta?
O paciente que você vai ver
Dez e vinte de uma quinta-feira, no consultório 3 de uma unidade básica cujo bairro cresceu em volta de uma antiga olaria. Catorze nomes na agenda da manhã, e o oitavo é o dela. Solimar Varjão tem 26 anos, é auxiliar de cozinha numa creche municipal, e entra fechando a porta com as duas mãos, como quem confere se ela fecha mesmo. Senta na ponta da cadeira. Não tira a bolsa do ombro.
A queixa demora. Ela pergunta primeiro se você é o médico da equipe, depois se o que se fala ali fica ali, e só então diz: apareceram umas verruguinhas. Faz três semanas que notou a primeira, tomando banho. Achou que fosse espinha. Depois apareceram outras, e ontem, no espelho, contou seis. Não doem. Não coçam. Não sangram. E enquanto ela fala isso, olhando para o chão, a frase que ela veio dizer sai inteira, sem preparo: "doutor, eu tenho câncer?"
Guarde a pergunta, porque ela organiza o capítulo. A resposta é não, e a resposta é fácil — mas ela só é fácil se você souber, com segurança, a diferença entre duas coisas que a paciente ouviu chamar pelo mesmo nome. Ela ouviu que HPV dá câncer de colo do útero. Ela tem HPV. Logo, no raciocínio dela, ela tem uma lesão pré-cancerosa aparecendo na virilha. E não há nada no vocabulário dela que separe o vírus que causa a verruga do vírus que causa o câncer, porque nós lhe demos um nome só para os dois.
Ao exame, com a luz do foco e a paciente em posição ginecológica, você vê o que ela contou e um pouco mais do que ela contou: quatro lesões na face interna do pequeno lábio direito e três no introito, papilomatosas, de dois a cinco milímetros, cor de pele, de superfície fosca, nenhuma ulcerada, nenhuma endurecida, nenhuma pigmentada. A região perianal está limpa. O exame especular mostra colo de aspecto normal, sem lesão, sem secreção anormal, sem sangramento ao toque do cotonete. Sete lesões, todas externas, todas pequenas.
É a apresentação mais comum de uma das infecções mais comuns que existem, e é também a consulta em que mais se erra por excesso. Erra-se pedindo tipagem viral, que não muda nada e custa caro. Erra-se antecipando o exame preventivo, que tem calendário próprio e não se mexe por causa de uma verruga. Erra-se prescrevendo em casa uma substância que só se aplica no consultório. E erra-se, sobretudo, na conversa: dizendo que ela pegou de alguém, ou deixando no ar que talvez sim, ou prometendo que o tratamento vai eliminar o vírus.
Enquanto você examina, ela conta o resto sem que você pergunte. Está com o mesmo companheiro há um ano e três meses, Valdinei, 29 anos. Antes dele, dois parceiros, o último há uns três anos. Ele não tem nada, ela olhou. Ela nunca tomou vacina de HPV — tinha dezesseis anos quando a vacina entrou no calendário e a campanha, naquele ano, era para meninas mais novas. Fez preventivo há oito meses, veio normal, tem o papel guardado. Não está grávida, usa injeção trimestral. E então vem a segunda pergunta, que é a que realmente a trouxe: "quem que me passou isso?"
As duas perguntas dela — tenho câncer, quem me passou — têm resposta técnica e curta, e as duas dependem de uma única distinção que é o eixo deste capítulo: a infecção pelo papilomavírus humano é uma coisa, e a verruga é outra. A infecção quase todo mundo pega e quase todo mundo elimina sozinho, em um a dois anos, sem nunca saber que teve. A verruga é uma lesão visível, causada quase sempre por tipos virais que não causam câncer, e o que ela sinaliza não é risco oncológico: é que houve contato, em algum momento que não dá para datar.
O que este capítulo faz com essas duas coisas é o seguinte. Assume a infecção — a história natural, o que significa persistir, por que a pergunta do tempo não tem resposta — e assume a lesão verrucosa externa: como ela é, como se trata no consultório e em casa, o que muda na gestante, e por que a recidiva é regra e não fracasso. Assume também a vacina inteira, que não tem dono em nenhum outro capítulo deste nível. E cede, por inteiro, o que é do colo: a citologia, o teste de DNA-HPV, a colposcopia e a classificação das lesões intraepiteliais estão em Rastreamento do câncer do colo do útero e em Lesões precursoras do colo e câncer invasor, e aqui não se repetem.
Quem adoece disso
O primeiro número deste capítulo é o que desarma o resto: o risco estimado de exposição ao papilomavírus humano é de 15% a 25% a cada nova parceria sexual, e o protocolo nacional escreve, com essas palavras, que a quase totalidade das pessoas sexualmente ativas adquirirá a infecção em algum momento da vida. Não é uma infecção de grupo de risco. É uma infecção de pessoa que tem vida sexual, e a distinção clínica útil não é quem pegou — é quem não eliminou.
O estudo epidemiológico de base populacional feito em 26 capitais brasileiras e no Distrito Federal, com homens e mulheres de 16 a 25 anos, encontrou prevalência de qualquer tipo de HPV entre 52,3% e 63,5%, e de tipos de alto risco oncogênico entre 39,8% e 53,1%. Metade a dois terços de uma população jovem, num exame pontual. É esse pano de fundo que faz a pergunta "quem me passou" ser sem resposta, e não é evasiva do médico: é aritmética de prevalência.
Do outro lado da conta, a lesão que se enxerga é comparativamente rara. Para a régua nacional, verrugas anogenitais aparecem em algo entre 1% e 2% da população, e alterações do exame preventivo atribuíveis ao vírus, em 2% a 5% das mulheres. A Febrasgo mede o mesmo fenômeno com outro denominador e chega a 1% de infecção clínica e 4% de infecção subclínica entre quem tem vida sexual. Em ordem de grandeza as duas leituras concordam: infecção é da maioria, verruga é de poucos.
A distribuição por tipo viral fecha o argumento, e ela é quase uma partição. Cerca de 90% das verrugas genitais saem de dois tipos — o 6 e o 11 — que não têm potencial oncogênico. Do outro lado, o 16 e o 18 sozinhos respondem por aproximadamente 71% dos cânceres do colo do útero e por mais da metade dos demais tumores ligados ao vírus. Os dois conjuntos praticamente não se tocam, e o protocolo nacional resume isso numa frase que vale decorar: quem faz verruga quase nunca é quem faz câncer.
A doença que a vacina existe para evitar tem tamanho conhecido no Brasil. O Instituto Nacional de Câncer estima 19.310 casos novos de câncer do colo do útero por ano para cada ano do triênio de 2026 a 2028, com risco de 17,59 casos por 100 mil mulheres, e registrou 7.209 óbitos em 2023, a 6,65 mortes por 100 mil mulheres. É o terceiro câncer mais incidente entre as mulheres brasileiras, atrás de mama e de cólon e reto, e o segundo mais incidente nas regiões Norte e Nordeste. As notas técnicas do programa de imunizações ainda repetem cerca de 17 mil casos, número de uma estimativa anterior — a diferença está nas notas de auditoria.
A vacina entrou no Calendário Nacional de Vacinação em 2014, quadrivalente, e a estratégia começou em março daquele ano tendo como população-alvo meninas de 11 a 13 anos. A faixa foi ampliada aos poucos, para outras idades, para a população masculina e para grupos prioritários. O que motivou a mudança de 2024 foi a cobertura: no momento da decisão, meninas tinham 76% de cobertura com a primeira dose e menos de 60% com a segunda; meninos, 42% na primeira dose e 27% na segunda. Perdia-se quase metade das meninas e mais de um terço dos meninos entre uma dose e outra.
O quadro internacional que sustentou a decisão brasileira tem números próprios: a cobertura global da vacina contra HPV atingia apenas 12% das meninas de 9 a 14 anos, e 53 países da Ásia, da África e três do continente americano ainda não tinham iniciado a vacinação. A Organização Mundial da Saúde tomou posição favorável ao esquema de dose única em 2022, e a Organização Pan-Americana da Saúde em 2023. Países que adotaram a dose única vinham aumentando a cobertura e conseguindo estender o benefício a outros grupos.
Há um dado de impacto que vale guardar porque é o argumento mais forte da conversa com a família adolescente: nos países que alcançaram alta cobertura vacinal, o risco de câncer do colo do útero caiu mais de 80% e as verrugas genitais foram quase eliminadas. As duas coisas juntas, no mesmo movimento — porque a vacina brasileira é quadrivalente e cobre os dois pares de tipos, o que causa a lesão que se vê e o que causa a doença que mata.
Por fim, um número que não existe, e a ausência é conteúdo. Nenhum dos documentos brasileiros consultados atribui percentual à eliminação espontânea da infecção nem à recidiva do condiloma. As diretrizes de rastreamento de 2025 dizem que a maioria das infecções é aparentemente eliminada dentro de um a dois anos em mulheres jovens, e classificam a certeza dessa evidência como baixa. O protocolo de IST diz que recidivas são frequentes em período bastante variável. "A maioria" e "frequentes" são o que a régua nacional oferece, e o capítulo não inventa um número para preencher a lacuna.
Por que acontece o que acontece
O papilomavírus humano é um vírus de DNA de cadeia dupla, não encapsulado, da família Papillomaviridae. Infecta epitélios escamosos. Já foram identificados mais de duzentos tipos, dos quais aproximadamente quarenta acometem o trato anogenital, divididos por potencial oncogênico. De baixo risco: 6, 11, 40, 42, 43, 44, 54, 61, 70, 72 e 81. De alto risco: 16, 18, 31, 33, 35, 39, 45, 51, 52, 56, 58, 59, 68, 73 e 82. Os tipos 26, 53 e 66 são provavelmente de alto risco, e 34, 57 e 83 têm risco indeterminado. A infecção por um tipo não impede a infecção por outro, e a infecção múltipla acontece. Guarde a lista pela estrutura, não pelos números: 6 e 11 fazem verruga, 16 e 18 fazem câncer, e a vacina brasileira cobre exatamente esses quatro. Transmite-se em qualquer prática sexual, e o parto é a via excepcional; contágio por objetos é raro. O detalhe que decide a conduta é que a infecção costuma ser silenciosa, com latência que vai de meses a anos.
A exceção do parto merece o parágrafo que quase nunca recebe, porque é dela que sai um dos grupos prioritários da vacina. Quando o vírus alcança o recém-nascido na passagem pelo canal, as lesões que ele produz podem não ficar na pele: podem se instalar na laringe, em geral no terço anterior das cordas vocais, e produzir a papilomatose respiratória recorrente. É uma neoplasia benigna, e o adjetivo engana — a doença evolui com recorrências frequentes, exige intervenções cirúrgicas repetidas, é mais agressiva na população pediátrica e tem tratamento descrito como extremamente custoso e ineficaz em muitos casos. Os tipos envolvidos são o 6 e o 11, os mesmos da verruga genital, e é por isso que a complicação mais temida do binômio HPV e gestação vem justamente dos tipos que não causam câncer. O aparecimento antes dos 3 anos de idade associa-se a pior prognóstico, e a doença também acomete adultos — na metanálise que embasou a decisão brasileira de incluir esses pacientes como grupo prioritário da vacina, a maioria dos casos analisados era de adultos.
A biologia que separa a verruga da lesão precursora é a mesma que separa os epitélios. Os tipos de baixo risco produzem proliferação do epitélio escamoso sem desarranjo da maturação: o resultado é uma lesão exofítica, papilomatosa, que cresce para fora e não invade. Os tipos de alto risco integram seu material genético ao da célula do hospedeiro e desregulam o ciclo celular; o resultado é uma lesão que substitui a espessura do epitélio de dentro para fora, sem relevo, invisível a olho nu, e que precisa de citologia, colposcopia ou histologia para aparecer. Uma se vê e não vira câncer; a outra não se vê e pode virar. Essa é a razão biológica de a lesão que aparece na vulva não dizer nada sobre o que está acontecendo no colo, e de o exame do colo não dizer nada sobre a verruga da vulva: são processos diferentes, produzidos por tipos diferentes, em epitélios que respondem de modo diferente ao mesmo vírus. Duas coisas com o mesmo nome, medidas por réguas distintas.
A palavra que organiza o risco não é infecção: é persistência. A infecção transitória é a regra, e a evolução benigna predomina. O que se associa a câncer é a infecção que não foi eliminada, que segue detectável ao longo do tempo e mantém o epitélio sob pressão contínua. As diretrizes nacionais de rastreamento fixam um corte operacional para isso: DNA-HPV oncogênico ainda detectável 24 meses depois passa a ser tratado como infecção persistente. É o mesmo prazo que o protocolo de IST dá para a resolução espontânea — o que não é coincidência, é a mesma linha vista dos dois lados. E, quando a persistência de fato leva ao pior desfecho, ela leva devagar: o tempo médio entre a infecção por HPV de alto risco e o desenvolvimento do câncer cervical é de aproximadamente 20 anos, variando com o tipo viral, a carga, a capacidade de persistência e o estado imunológico. Vinte anos é uma informação clínica, não uma curiosidade. É o que torna o rastreamento possível, porque dá tempo de encontrar e tratar a lesão precursora antes do câncer; é o que explica por que uma mulher de 26 anos com verruga não está diante de um problema oncológico iminente; e é o que sustenta, com base numérica, a frase que se diz a ela em voz alta na primeira consulta.
Por que não se consegue datar a infecção. Três propriedades se somam: o período de incubação é potencialmente longo e variável; a infecção inicial pode ter ocorrido numa parceria que nunca apresentou manifestação alguma; e não há marcador que diga quando o vírus chegou. As diretrizes nacionais de rastreamento escrevem isso na norma — não é possível definir o momento exato em que houve a aquisição da infecção. O protocolo de IST diz o correspondente para a lesão: na maioria das vezes não há como estabelecer em qual parceria sexual a infecção começou. Quando a paciente pergunta há quanto tempo ela tem, a resposta honesta não é um número; é a explicação de por que não existe número.
O que a imunidade faz, e o que ela deixa de fazer. A eliminação do HPV é trabalho da imunidade celular, e é por isso que tabagismo, desnutrição, infecção pelo HIV, cânceres e drogas imunossupressoras são fatores predisponentes à persistência. Nas pessoas vivendo com HIV, a frequência de neoplasias anogenitais e de lesões intraepiteliais é maior. Isso tem consequência prática dupla: essas pessoas respondem pior ao tratamento da verruga e recidivam mais, e são justamente elas que a norma coloca em esquema vacinal de três doses.
O mecanismo do tratamento, por fim, é o que mais gera mal-entendido, e ele é simples quando dito com todas as letras: nenhum tratamento disponível erradica o vírus. Os métodos destroem a lesão — por coagulação química no caso do ácido tricloroacético, por bloqueio antimitótico no caso da podofilina e da podofilotoxina, por citólise térmica no caso da crioterapia e do eletrocautério, por remoção física no caso da exérese. O imiquimode é o único que age pela imunidade, induzindo interferona alfa e outras citocinas, e mesmo ele, nas palavras do protocolo, não destrói o vírus: auxilia na eliminação da verruga. O objetivo declarado do tratamento é a destruição das lesões identificáveis, e não há evidência de que qualquer um deles modifique a história natural da infecção.
A vacina age por um mecanismo oposto ao de tudo o que foi descrito acima, e entender isso resolve a pergunta mais frequente do bloco. Ela não age sobre a célula infectada nem sobre a lesão: induz anticorpos circulantes contra a cápsula de quatro tipos virais, impedindo que eles se instalem no epitélio. A resposta é tipo-específica — protege contra os tipos contidos no imunizante, e só contra eles —, e é robusta: a vacinação antes do primeiro contato sexual induz anticorpos em quantidade dez vezes maior que a encontrada na infecção naturalmente adquirida, num prazo de dois anos. Daí decorrem as duas metades da resposta que a paciente já infectada precisa ouvir. A primeira: a vacina não trata o que já existe, porque anticorpo circulante não alcança o vírus que já está dentro da célula. A segunda: ela continua útil, porque é improvável que uma pessoa tenha adquirido os quatro tipos, e contra os que faltam a proteção é a mesma de quem nunca teve nada.
Como se apresenta de verdade
Este capítulo separa tratamento da verruga, prevenção de novas doenças relacionadas ao HPV e rastreamento do colo. Você deve reconhecer lesão típica, identificar indicação de biópsia e explicar recorrência sem atribuir culpa. Nenhum exame permite datar com precisão quem transmitiu uma infecção antiga.
As seções abaixo descrevem o que se vê, onde se vê, o que se parece e não é, e as três situações em que a lesão verrucosa deixa de ser um problema dermatológico simples e vira outra conversa.

Percurso clínico: Separar verruga, infecção e risco oncológico
Explique que verrugas e rastreamento cervical são percursos diferentes e que a manifestação não permite datar transmissão. Tratamento depende de localização, extensão, gestação, sintomas e preferência. Discuta prevenção e vacinação conforme calendário vigente, sem prometer eliminação viral pelo tratamento da lesão.
A lesão: como o protocolo descreve, e o que isso quer dizer no foco de luz
Polimórficas: é assim que o protocolo qualifica essas lesões, e a palavra foi escolhida a dedo. As pontiagudas ganham nome próprio, condiloma acuminado. O tamanho vai de um milímetro a alguns centímetros. Podem vir sozinhas ou aos montes, rasas ou em pápula — mas papilomatosas elas são sempre, e é justamente esse traço que sela o diagnóstico. Do relevo papilomatoso decorre o aspecto: superfície fosca, aveludada, ou parecida com uma couve-flor.
A cor não ajuda a diferenciar e não deve ser usada para isso: as lesões aparecem da cor da pele, eritematosas ou hiperpigmentadas, e as três variantes são igualmente comuns. O que ajuda é a textura da superfície ao foco de luz. Epitélio liso e brilhante não é condiloma; superfície fosca, com relevo granuloso que quebra o reflexo da luz, é.
Em geral são assintomáticas. Podem, porém, ser pruriginosas, dolorosas, friáveis ou sangrantes, e vale perguntar por cada uma dessas quatro coisas em vez de esperar que a paciente relate. Lesão que sangra ao mínimo contato, lesão que dói, e lesão que cresce depressa mudam a urgência da consulta ainda que não mudem o diagnóstico.
A frase que fecha a seção é a que responde à primeira pergunta da paciente, e ela está escrita no protocolo com essas palavras: as verrugas anogenitais resultam quase exclusivamente de tipos não oncogênicos de HPV. A lesão que ela está vendo no espelho vem, em nove de cada dez casos, dos tipos 6 e 11 — que não causam câncer de colo do útero.
Onde a lesão aparece, e o que a topografia obriga a fazer
Nelas, os sítios habituais são vulva, vagina e colo. Neles, a maior parte aparece no folheto interno do prepúcio, no sulco bálano-prepucial e na glande, com extensão possível para a pele do pênis e para o escroto. Virilha e região perianal recebem lesões nos dois sexos.
A região perianal merece parágrafo próprio, e por uma razão de exame. O texto oficial diz que lesão ali é mais comum em quem tem prática sexual anal receptiva, e acrescenta que não é exclusiva desse grupo — é essa segunda metade que decide o comportamento na sala. Achar lesão perianal não autoriza deduzir prática nenhuma, e a pergunta, se for necessária, se faz sem pressuposto embutido. O que o achado autoriza é uma conduta: encaminhamento para avaliação proctológica, idealmente com anuscopia e toque retal.
Fora da região anogenital as lesões são raras, mas existem: laringe, boca, mucosa nasal e conjuntiva já foram descritas como sítios. É pouco comum e mesmo assim justifica olhar a boca de quem tem condiloma extenso — e é o elo com a papilomatose respiratória recorrente, que reaparece no bloco da vacina.
A topografia também comanda a escolha do tratamento, e essa é a informação prática que o interno leva do bloco. Lesão externa e pequena admite tratamento domiciliar. Lesão em uretra, vagina, colo do útero ou parte interna do ânus não admite imiquimode, que é de uso exclusivamente externo. Lesão volumosa e pedunculada pede método físico. A decisão terapêutica começa no exame, não na prescrição.
O que parece condiloma e não é — três armadilhas que pertencem a outros capítulos
A primeira é a sífilis secundária. O condiloma plano das dobras é manifestação do secundarismo, aparece semanas a meses depois de uma úlcera que muitas vezes ninguém notou, e vem acompanhado de roséola, sifílides papulosas e acometimento palmoplantar com colarinho de escamação. O nome engana porque partilha a palavra condiloma, mas a lesão é outra: base larga, superfície lisa ou erosada, úmida, sem o relevo papilomatoso. Esse diagnóstico é de Úlceras genitais, e a conduta — inclusive a penicilina — está lá.
A segunda é a donovanose. A ulceração cresce devagar, tem assoalho granuloso e vermelho intenso que sangra ao menor contato, e pode ganhar aspecto vegetante, com predileção por dobras e região perianal. Vegetante e papilomatoso se confundem à distância; o que separa é que a donovanose ulcera e sangra ao toque, e o condiloma acuminado, salvo exceção, não. Também é de Úlceras genitais.
A terceira armadilha é a inversa e mais perigosa: a lesão suspeita de neoplasia que se apresenta como verruga. Lesão pigmentada, endurecida, fixa aos planos profundos, ulcerada, ou que cresce sob tratamento, sai do território deste capítulo e vai para a biópsia. A regra prática é que a idade e a imunossupressão baixam o limiar: numa pessoa com imunodeficiência, o protocolo manda considerar a biópsia com mais frequência e mais precocemente.
Fora essas três, entram no diferencial as variações anatômicas normais que a paciente descobre no espelho e interpreta como doença: papilas vestibulares, glândulas sebáceas ectópicas, pápulas perláceas no homem. Nenhuma delas se trata, e a única conduta correta é nomear a estrutura e dizer que é normal — depois de examinar de verdade, e não por cima.
A apresentação subclínica: o que é, e por que este capítulo não a conduz
As alterações subclínicas são detectadas pelo exame preventivo do câncer do colo do útero, por meio de lupas, corantes e colposcopia, com ou sem biópsia. Os tipos de baixo risco associam-se em geral a lesões escamosas de baixo grau, que correspondem à displasia leve ou à neoplasia intraepitelial cervical grau 1. Os tipos de alto potencial oncogênico associam-se às lesões de alto grau, que correspondem à displasia moderada e grave e ao carcinoma in situ — neoplasia intraepitelial cervical graus 2 e 3.
Outros epitélios sofrem a mesma ação, originando neoplasias intraepiteliais vaginais, vulvares, perineais, penianas e anais. A nomenclatura é longa e vale reconhecer, não decorar.
Este capítulo para aqui. Citologia, teste de DNA-HPV, colposcopia, classificação das atipias e conduta por resultado pertencem a Rastreamento do câncer do colo do útero. O que fazer com a lesão já classificada — a excisão, o seguimento longo — pertence a Lesões precursoras do colo e câncer invasor. Fica aqui uma única costura, e ela basta: quem tem verruga externa precisa de exame ginecológico completo, com o preventivo do colo dentro dele e colposcopia quando a citologia pedir.
Note a direção da regra, porque ela é contraintuitiva. A verruga não antecipa o preventivo nem muda o intervalo dele. O que ela faz é obrigar a que o preventivo esteja em dia, dentro do calendário que já valia. A diferença entre "antecipar por causa da verruga" e "aproveitar a consulta para regularizar o que já estava atrasado" é a diferença entre errar e acertar.
Criança e adolescente: a suspeita que sempre se levanta e nunca se conclui sozinha
Verruga anogenital em criança levanta, sempre, a hipótese de violência sexual — e o protocolo é igualmente claro ao dizer que o achado pode existir sem que tenha havido violência. As duas metades pesam o mesmo, e o documento cobra do profissional que conduza a apuração sem cair em nenhum dos dois erros simétricos: nem deixar passar uma violência real, nem produzir uma acusação sem fundamento.
Duas crenças correntes são desmentidas pelo próprio texto oficial, e derrubá-las evita engano grave nas duas direções. Encontrar verrugas num familiar não prova nada contra ele. E não encontrar verruga nenhuma num suspeito não inocenta ninguém. Enquanto essas crenças circulam sem correção, elas produzem exigências equivocadas vindas de equipes de saúde, de conselhos tutelares e do próprio Judiciário.
O manejo dessas situações deve ser individualizado e judicioso, e não se resolve numa consulta de ambulatório de ginecologia. A condução do caso de violência sexual — o acolhimento, as profilaxias, os prazos de cada uma delas, a notificação compulsória imediata e o que se escreve no prontuário — é de Violência sexual: acolhimento, profilaxias e notificação, e é para lá que se vai.
O que este capítulo assume dessa fronteira é apenas a parte vacinal, porque ela é da vacina e não da violência: pessoas vítimas de abuso sexual, de 9 a 45 anos, têm esquema próprio de vacina contra HPV, com duas doses até 14 anos, 11 meses e 29 dias e três doses de 15 a 45 anos. O restante da conduta está no capítulo vizinho.
Duas situações em que a lesão significa mais do que parece
A primeira é a imunossupressão. As situações de imunodeficiência não modificam as recomendações terapêuticas — o mesmo arsenal, os mesmos esquemas —, mas os pacientes nessas condições tendem a apresentar pior resposta ao tratamento e requerem maior atenção pela possibilidade de complicações. Em pessoas vivendo com HIV, a frequência de neoplasias anogenitais e de lesões intraepiteliais decorrentes da infecção pelo HPV é maior, e o limiar de biópsia é mais baixo.
A segunda situação é a prática sexual anal receptiva. Nesse grupo, e sobretudo entre quem vive com o vírus da imunodeficiência humana, a incidência de lesão perianal é reconhecidamente maior, assim como a de complicações que podem malignizar. O protocolo pede duas coisas do serviço: incorporar o exame periódico daquela região à rotina de acompanhamento, e informar a pessoa o bastante para que ela própria reconheça queixa proctológica quando surgir.
O estudo citológico de material colhido do canal anal ainda é objeto de debate, e o protocolo registra o debate em vez de resolver: pode ter importância em populações específicas, como homens que fazem sexo com homens e pessoas com prática sexual anal receptiva, em razão do aumento da incidência de câncer anorretal. Não há, no Brasil, programa organizado de rastreamento anal, e o capítulo não inventa um.
A doença orificial benigna tem capítulo próprio no nível — O exame que ninguém quer fazer, na apostila de Coloproctologia — e a lesão anal suspeita de neoplasia é de Melhorou com a pomada, da mesma apostila. A lesão verrucosa perianal, porém, fica aqui, porque é a mesma doença do trato genital: mesma descrição, mesmo arsenal terapêutico, com a ressalva de que o imiquimode não se aplica dentro do canal anal e de que o eletrocautério mal usado ali produz estenose.
Como fechar o diagnóstico
Este é um bloco de investigação curto por natureza, e essa é a informação principal: o diagnóstico das verrugas anogenitais é tipicamente clínico. Não existe exame que confirme, não existe exame que descarte, e o exame que a paciente vai pedir pelo nome é justamente o que o protocolo diz para não fazer.
O que existe são três decisões: quando biopsiar, o que examinar além da lesão, e o que se oferece na mesma consulta porque é uma infecção sexualmente transmissível como qualquer outra.
O diagnóstico é clínico — e isso é uma afirmação, não uma resignação
O protocolo abre a seção diagnóstica com uma frase de seis palavras: o diagnóstico das verrugas anogenitais é tipicamente clínico. Isso significa que uma lesão papilomatosa, de superfície fosca ou aveludada, em topografia anogenital, numa pessoa sexualmente ativa, é condiloma acuminado até que algo específico sugira o contrário — e não que seja provável condiloma enquanto se aguarda confirmação.
A consequência operacional é que o exame precisa ser bem-feito, porque ele é o exame. Foco de luz adequado, posição que exponha o introito, os pequenos e grandes lábios, o períneo e a região perianal, afastamento das dobras, e inspeção do colo e das paredes vaginais ao especular. O que não se vê, não se descreve; o que se vê, se descreve por número, tamanho, superfície, cor e topografia — porque essas cinco coisas é que vão escolher o tratamento e servir de linha de base para dizer, daqui a três semanas, se melhorou.
Um contraponto útil vem do protocolo da Febrasgo, e ele evita um exame inútil e ansiogênico: não se recomenda realizar vulvoscopia com aplicação de ácido acético em busca de lesões subclínicas, pela elevada taxa de falso-positivos na região vulvar. O acetobranqueamento da vulva não tem o mesmo significado que tem no colo, e caçar lesão subclínica na vulva produz mais biópsia do que diagnóstico.
As três indicações de biópsia — e a quarta situação, que é de limiar
O protocolo lista três situações especiais em que há indicação de biópsia para estudo histopatológico, e vale sabê-las nessa ordem. Primeira: dúvida diagnóstica, suspeita de neoplasia ou de outras doenças. Segunda: lesões atípicas ou que não respondam adequadamente aos tratamentos. Terceira: lesões suspeitas em pessoas com imunodeficiências — incluindo a infecção pelo HIV, cânceres e uso de drogas imunossupressoras.
A terceira indicação vem com uma cláusula que muda o comportamento e costuma passar batida: nesse grupo, o procedimento deve ser considerado com mais frequência e mais precocemente. Não é o mesmo limiar aplicado a um paciente diferente; é um limiar mais baixo, por escrito, para o mesmo achado.
A segunda indicação é a que se ativa no seguimento, e liga este bloco ao de reavaliação: lesão que não responde adequadamente ao tratamento não é motivo para trocar de droga sem mais — é motivo para biopsiar antes de trocar. Uma lesão que resiste a três sessões de ácido pode ser um condiloma teimoso, e pode ser outra coisa que ninguém olhou no microscópio.
A exérese cirúrgica tangencial tem, nesse contexto, uma vantagem que os métodos destrutivos não têm e que raramente se explora: além da remoção completa das lesões, ela permite o estudo histopatológico dos fragmentos. Quando há dúvida e a lesão é volumosa ou pedunculada, um único procedimento resolve o tratamento e o diagnóstico.
O que a verruga obriga a examinar além da própria verruga
Mulheres com verrugas anogenitais requerem um exame ginecológico completo, incluindo o exame preventivo de câncer de colo do útero e, quando indicado pelas alterações citológicas, colposcopia acompanhada ou não de biópsia. A palavra que carrega a regra é completo: a consulta que só olha a lesão que a paciente apontou está incompleta por definição.
Pacientes com lesões anais devem, idealmente, realizar exame proctológico com anuscopia e toque retal. "Idealmente" é a palavra do protocolo e reconhece que nem toda unidade tem anuscópio; o que ela não autoriza é ignorar a região perianal ao exame de quem tem condiloma vulvar, porque a inspeção perianal não exige equipamento nenhum.
Vale um aviso sobre o encadeamento das duas frases, porque ele é a origem de um erro comum. O exame preventivo entra aqui como parte do exame ginecológico completo, obedecendo ao calendário e à idade que já valiam para aquela mulher — e não como exame de investigação da verruga. Se a mulher está em dia, está em dia. Se está atrasada, a consulta de hoje é a oportunidade de regularizar. A régua de quem rastrear, com que método e em que intervalo é de Rastreamento do câncer do colo do útero.
Nos homens, o exame equivalente não existe como programa: não há rastreamento de câncer de pênis nem de câncer anal organizado no Brasil. O que existe é o exame da genitália externa e da região perianal, e o encaminhamento proctológico quando há lesão anal.
O exame que não se pede — e é o que a paciente vai pedir pelo nome
O protocolo é explícito em dois momentos diferentes, e as duas frases valem por si. No diagnóstico: não são recomendados testes que identificam os diferentes tipos de HPV na rotina clínica ou mesmo no rastreamento de pessoas assintomáticas, com a finalidade de diagnóstico de infecção pelo HPV. No seguimento, a frase é ainda mais fechada: testes de detecção viral não são indicados em nenhuma situação, por não trazerem qualquer benefício às pessoas acometidas.
As razões são três e convém tê-las prontas, porque a paciente vai insistir. Primeira: a lesão já dá o diagnóstico, e saber o tipo não muda o tratamento — o arsenal é o mesmo para todos os tipos. Segunda: encontrar um tipo de alto risco numa verruga não significa que ele esteja causando aquela lesão, e não antecipa nem substitui o rastreamento do colo, que tem régua própria. Terceira: um resultado positivo produz dano mensurável — as diretrizes nacionais de rastreamento registram que mulheres com teste de DNA-HPV positivo manifestaram mais medo de câncer, mais ansiedade e sentimentos negativos contra o parceiro atual ou os anteriores, com impacto sobre a vida delas.
Há um uso legítimo do teste molecular, e ele não é este: os testes têm importância no rastreio de câncer genital, como o de colo uterino e o de pênis. Ou seja, o mesmo exame que é errado pedir para a verruga é o método primário do rastreamento organizado do colo, na régua nacional aprovada em 2025 — o que só reforça a separação. É um exame de rastreamento de câncer, não um exame de verruga.
Não se pede tipagem viral para decidir se a paciente pode engravidar, se pode amamentar, se pode ter relação, nem para dizer há quanto tempo ela tem o vírus. Nenhuma dessas perguntas é respondida pelo exame, e todas elas são respondidas pela conversa.
O que se oferece na mesma consulta, porque é uma infecção sexualmente transmissível
O rodapé do fluxograma nacional das verrugas anogenitais repete a lista comum a todo esse grupo de infecções, e nenhum item dela é tarefa de outra consulta. São sete obrigações desta: conversar sobre prevenção combinada, com profilaxia pré-exposição onde houver indicação; ofertar sorologia e teste rápido para o vírus da imunodeficiência humana; ofertar teste para sífilis; ofertar sorologia das hepatites B e C; pesquisar clamídia e gonococo por biologia molecular; conferir o calendário quanto às vacinas de hepatite A, de hepatite B e do papilomavírus; e cuidar das parcerias, tratando-as e acompanhando-as junto. A notificação entra nos agravos em que ela é devida — e este não é um deles.
A parte operacional dessa lista — a comunicação da parceria, o cartão, a triagem conjunta, a conversa de resultado — já está escrita em Cervicite por gonococo e clamídia, e aqui não se repete. Sobram, contudo, dois pontos que só existem no HPV e que ninguém mais dirá por este capítulo.
A primeira é que não existe janela de convocação de parceria para o HPV, e não existe porque não faria sentido: as janelas de 60 e de 90 dias que valem para cervicite e para sífilis derivam de períodos de incubação conhecidos, e a incubação do HPV varia de meses a anos. Não há prazo a partir do qual se possa dizer que uma parceria está fora do risco.
A segunda é que a parceria do HPV não se rastreia — se orienta e se examina. O protocolo escreve que é importante que as parcerias sexuais sejam orientadas e examinadas, e a diferença entre examinar e rastrear é o que separa a conduta correta do exame inútil: olha-se a genitália do parceiro em busca de lesão visível, e não se colhe teste molecular de quem não tem lesão. Não há tratamento para infecção sem lesão, e não há exame que mude a conduta de quem não tem nada.
Notificação: a infecção pelo HPV e as verrugas anogenitais não constam da lista nacional de notificação compulsória, ao contrário da sífilis adquirida. Estados e municípios podem acrescentar agravos às suas listas locais, e vale conferir a lista do serviço em vez de presumir.
O que a consulta precisa registrar para que a próxima sirva de alguma coisa
A recidiva é frequente e a resposta ao tratamento se mede por comparação, não por impressão. Sem registro estruturado da primeira consulta, a terceira consulta não consegue dizer se está melhorando. O que se anota, em uma linha: número de lesões, maior diâmetro, topografia por sítio, superfície e cor, e presença ou não de sangramento.
Anota-se também a área total tratada, e isso não é preciosismo administrativo: no caso da podofilina há um teto de área por sessão, e sem o registro da área da sessão anterior não há como respeitá-lo em quem tem lesões em vários sítios.
Registra-se a contagem de sessões, porque as duas regras de decisão do protocolo são contadas em sessões e não em semanas: três sessões sem melhora significativa mandam considerar a mudança de opção terapêutica, e seis sessões sem desaparecimento mandam a mesma coisa com mais força. Prontuário que não numera as sessões não permite aplicar nenhuma das duas.
Por fim, registra-se a situação vacinal com a data da dose, e não com um sim ou não. A regra de contagem mudou em 2024, e a diferença entre "tomou uma dose em 2019" e "tomou uma dose em 2025" pode ser a diferença entre esquema completo e esquema incompleto conforme o grupo. Anotar a data custa três segundos e evita uma dose desnecessária ou uma dose faltante.
O que decide: a droga, a faixa etária e o que não se faz
Três tabelas resolvem quase toda decisão deste capítulo, e a quarta resolve o que não fazer. A primeira cruza cada opção terapêutica com a concentração real, quem aplica, o esquema, a situação na gestação e o que o SUS fornece — porque a escolha entre destruir no consultório e destruir em casa depende dessas cinco colunas juntas, e não da preferência do prescritor. A segunda é o calendário vacinal completo do HPV, que não tem dono em nenhum outro capítulo deste nível e por isso é assumido aqui por inteiro. A terceira converte em miligramas, dias e centímetros os tetos que os protocolos escrevem em porcentagem e em ciclos, porque teto que não se sabe converter não se respeita. A quarta lista o que se ouve pedir e não se faz. Ao final vêm as notas de auditoria, com o resultado de cada conta refeita sobre os documentos oficiais — tanto as que bateram quanto as que não bateram.
- 1Olhe e nomeie. Lesão papilomatosa, superfície fosca ou aveludada, em topografia anogenital: é condiloma acuminado, e o diagnóstico é clínico. Descreva número, maior diâmetro, topografia, superfície e cor.
- 2Verifique se alguma lesão é pigmentada, endurecida, fixa, ulcerada ou sangrante ao mínimo contato. Se for, biopsie antes de tratar.
- 3Complete o exame: vulva, períneo, região perianal, especular com inspeção de paredes e colo. Havendo lesão anal, encaminhe para exame proctológico com anuscopia e toque retal.
- 4Não peça tipagem viral. Não antecipe nem altere o calendário do exame preventivo do colo por causa da verruga — confira apenas se ele está em dia.
- 5Na mesma consulta, ofereça e colha os cinco: clamídia e gonococo por biologia molecular; hepatite C e hepatite B por sorologia; sífilis e o vírus da imunodeficiência humana por teste rápido. Converse sobre prevenção combinada.
- 6Pergunte se há gestação em curso antes de escolher a droga. Gestação exclui podofilina, podofilotoxina e imiquimode.
- 7Escolha o tratamento por número, tamanho e local. Poucas lesões externas e pequenas: domiciliar ou ambulatorial. Lesões volumosas ou pedunculadas: método físico. Lesão em uretra, vagina, colo ou canal anal: nunca imiquimode.
- 8Se a opção for ambulatorial, marque a sessão semanal e numere as sessões no prontuário desde a primeira.
- 9Se a opção for domiciliar, escreva o modo de aplicar por extenso e diga que novas verrugas podem aparecer durante o tratamento sem que isso signifique falha.
- 10Reavalie em três sessões: sem melhora significativa, considere mudar de opção. Em seis sessões sem desaparecimento, mude — e considere biopsiar antes de mudar.
- 11Confira a situação vacinal com a data da dose, não com sim ou não, e encaminhe à sala de vacina quem estiver na faixa de rotina, na faixa de resgate ou em qualquer grupo prioritário.
- 12Oriente a parceria a ser examinada, e diga em voz alta que não se rastreia parceria sem lesão e que não é possível saber quem transmitiu.
Tratamento do condiloma acuminado: droga, concentração, quem aplica, gestante e o que o SUS fornece
| Opção | Concentração e apresentação | Quem aplica | Esquema | Gestante | Rename 2024 |
|---|---|---|---|---|---|
| Ácido tricloroacético (ATA) | Solução a 80%–90%; a concentração é do protocolo, não há apresentação industrializada padronizada | Profissional, no consultório; proibido para uso domiciliar | Pequena quantidade com aplicador de algodão até branqueamento porcelânico; iniciar com aplicações semanais | Pode. É a opção de primeira escolha na gestação, com o restante do arsenal químico excluído | Não consta |
| Podofilina | Solução a 10%–25%, isto é, 100 mg/mL a 250 mg/mL; preparação do Formulário Nacional | Profissional, no consultório | Aplicar e aguardar secagem; iniciar semanal; teto de 0,5 mL e de 10 cm² de área por sessão | Contraindicada | Consta — Componente Básico, código ATC D11AF |
| Podofilotoxina | Creme a 1,5 mg/g, ou seja 0,15%; a concentração vem da Rename, não do protocolo | A própria paciente, em casa | Duas vezes ao dia, três dias seguidos, quatro dias sem aplicar; até 4 ciclos, isto é, 28 dias | Não deve ser usada | Consta — Componente Básico, código ATC D06BB04 |
| Imiquimode | Creme a 50 mg/g, em sachê de dose única | A própria paciente, em casa; uso exclusivamente externo | Três vezes por semana, em dias alternados, ao deitar; permanência de 6 a 10 horas; até 16 semanas por episódio | Não deve ser usado; a Febrasgo registra que não há dados suficientes | Consta — Componente Básico, código ATC D06BB10 |
| Crioterapia com nitrogênio líquido | Nitrogênio líquido, ponto de ebulição a −192 °C; sondas, aplicador de algodão ou spray | Profissional, no consultório | Iniciar com aplicações semanais; raramente exige anestesia; ideal para lesões isoladas e queratinizadas | Pode. É atóxica e usável na gestação | Não é medicamento — insumo e procedimento |
| Eletrocauterização | Equipamento específico, com anestesia local | Profissional, no consultório | Sessão única em geral; apropriada para lesões exofíticas, pedunculadas e volumosas | Pode, e é opção preferencial nas lesões volumosas da gestante | Não é medicamento — procedimento |
| Exérese cirúrgica tangencial | Tesoura delicada ou lâmina, com anestesia local | Profissional, no consultório ou centro cirúrgico | Sessão única; hemostasia em geral por compressão, sem sutura; permite estudo histopatológico | Pode, e é opção preferencial nas lesões volumosas da gestante | Não é medicamento — procedimento |
Vacina HPV4 no SUS: quem recebe, quantas doses e com que intervalo
| Grupo | Faixa etária | Doses e intervalo | Exige prescrição médica? |
|---|---|---|---|
| Rotina do calendário — meninas e meninos | 9 anos a 14 anos, 11 meses e 29 dias | Dose única | Não |
| Resgate de quem não tem nenhum registro de dose | 15 anos a 19 anos, 11 meses e 29 dias | Dose única, conforme a organização do estado | Não |
| Imunodeprimidos: HIV/aids, transplante de órgão sólido ou de medula, oncológicos, imunodeficiência primária ou erro inato da imunidade, uso de imunossupressores | 9 a 45 anos | 3 doses — 0, 2 e 6 meses | Sim |
| Papilomatose respiratória recorrente | A partir de 2 anos, sem teto de idade na norma federal | 3 doses — 0, 2 e 6 meses | Sim, com laudo; e consentimento dos responsáveis se menor de 18 anos |
| Usuários de profilaxia pré-exposição ao HIV | 15 a 45 anos | 3 doses — 0, 2 e 6 meses | Comprovação de que faz profilaxia pré-exposição |
| Mulheres tratadas por NIC 2, NIC 3 ou adenocarcinoma in situ com procedimento excisional | Qualquer idade | 3 doses — 0, 2 e 6 meses; no mesmo ano do procedimento, no perioperatório ou até 12 meses depois | Sim, com registro do CID correspondente |
| Vítimas de violência sexual | 9 anos a 14 anos, 11 meses e 29 dias | 2 doses — 0 e 6 meses | Sim |
| Vítimas de violência sexual | 15 a 45 anos | 3 doses — 0, 2 e 6 meses | Sim |
Conversão dos tetos: o que a porcentagem e o ciclo viram em miligrama, dia e centímetro
| O que o documento escreve | Conta | O que isso é na sessão |
|---|---|---|
| Podofilina a 10%, teto de 0,5 mL por sessão | 10% = 100 mg/mL; 100 mg/mL × 0,5 mL | 50 mg de podofilina por sessão |
| Podofilina a 25%, teto de 0,5 mL por sessão | 25% = 250 mg/mL; 250 mg/mL × 0,5 mL | 125 mg por sessão — 2,5 vezes o da solução a 10%, com o mesmo volume |
| Podofilina: teto de 10 cm² de área tratada por sessão | Raiz quadrada de 10; e diâmetro de círculo de área 10 cm² | Um quadrado de 3,2 cm de lado, ou um círculo de 3,6 cm de diâmetro — a área somada de todas as lesões, não de cada uma |
| Imiquimode: 3 vezes por semana, por até 16 semanas | 3 × 16 | 48 aplicações, ao longo de 3,7 meses |
| Podofilotoxina: 2 vezes ao dia por 3 dias, 4 dias sem, até 4 ciclos | 1 ciclo = 3 + 4 = 7 dias e 6 aplicações; 4 × 7 e 4 × 6 | 28 dias, ou 4 semanas, e 24 aplicações |
| "Quatro meses contra quatro semanas", como o protocolo compara os dois tópicos domiciliares | 16 semanas ÷ 4 semanas | Fator 4 — a comparação do protocolo fecha com o esquema que ele mesmo descreve |
| Mudar de opção se as verrugas não desaparecerem após 6 sessões, com aplicações semanais | 6 sessões × 1 semana | 6 semanas — é o horizonte máximo de um mesmo tópico ambulatorial antes de reavaliar a escolha |
O que se ouve pedir na consulta de condiloma e não se faz
| O pedido | Por que não | Onde está escrito |
|---|---|---|
| Tipagem viral para saber "que HPV é o meu" | Não muda o tratamento, não antecipa o rastreamento, e o resultado positivo produz medo e conflito de parceria mensurados na literatura | Protocolo de IST, itens de diagnóstico e de seguimento: não indicados em nenhuma situação |
| Antecipar o exame preventivo por causa da verruga | A verruga não muda idade nem intervalo do rastreamento; ela obriga apenas a que o preventivo esteja em dia | Régua de rastreamento em Rastreamento do câncer do colo do útero |
| Rastrear o parceiro assintomático com exame molecular | Não há tratamento para infecção sem lesão, e nenhum resultado mudaria a conduta dele | Protocolo de IST: as parcerias devem ser orientadas e examinadas |
| Cesárea por causa do condiloma | A presença das lesões não contraindica o parto vaginal; a indicação seria obstrução do canal ou sangramento, ocorrências excepcionais | Protocolo de IST, item da gestação, e Protocolo Febrasgo de Obstetrícia nº 28 |
| Levar o ácido tricloroacético para aplicar em casa | Cáustico com potencial de dano tecidual e complicações; o protocolo veda expressamente a prescrição para uso domiciliar | Protocolo de IST, item do tratamento ambulatorial |
| Vacinar agora para fazer a verruga sumir | A vacina é profilática e não trata lesão existente; o benefício é contra os tipos ainda não adquiridos | Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação 2026, indicação da HPV4 |
O protocolo de IST manda vacinar meninos a partir dos 11 anos; o calendário vacina a partir dos 9. O Quadro 45 do PCDT de IST, nas duas versões — o anexo normativo da portaria e a edição em livro de 2022 —, indica a vacina para meninas de 9 a 14 anos e para meninos de 11 a 14 anos. A Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação de 2026 indica a população a partir de 9 anos, sem distinção de sexo, e a Nota Técnica nº 41/2024 fala em pessoas do sexo feminino e masculino de 9 a 14 anos. São dois anos de diferença que atingem quem exatamente? Meninos de 9 e de 10 anos. E a mesma nota técnica de 2024 registra, no item que trata da adesão, que promover a vacinação nas escolas é fundamental sobretudo pela melhor adesão dos mais jovens, de 9 e 10 anos — a faixa que o protocolo de IST, se lido isoladamente, mandaria dispensar. Quem abre o PCDT de IST na consulta de condiloma e usa o Quadro 45 como referência vacinal está usando a régua errada.
Duas doses viraram uma, e o protocolo de IST não registrou a mudança. O Quadro 45, nas duas versões, prescreve 2 doses aos 0 e 6 meses para crianças e adolescentes. A Nota Técnica nº 41/2024-CGICI/DPNI/SVSA/MS, assinada em 28 de março e 1º de abril de 2024, adotou a dose única para 9 a 14 anos, e a Instrução Normativa de 2026 a reproduz. Há um efeito retroativo que a Nota Técnica nº 16/2025 explicita e que resolve muito cartão de vacina no consultório: crianças e adolescentes de 9 a 14 anos que apresentarem esquema com uma única dose passam a ser considerados vacinados. Ou seja, o adolescente que tomou a primeira dose em 2019 e nunca voltou para a segunda não está com esquema incompleto — está vacinado.
O limite superior de idade dos imunodeprimidos tem três respostas em documentos federais, e duas delas citam a mesma fonte. O Quadro 45 do anexo normativo servido hoje na página oficial do protocolo diz de 9 a 26 anos. O mesmo Quadro 45 da edição em livro de 2022 diz de 9 a 45 anos, com nota de rodapé remetendo aos Ofícios nº 203/2021 e nº 810/2022 da coordenação do programa de imunizações. A Instrução Normativa de 2026 diz de 9 a 45 anos. As duas versões do quadro trazem, abaixo da tabela, a mesma atribuição de fonte, a um documento de 2018 — que não pode ser a origem de nenhuma das duas faixas ampliadas. Prevalece a Instrução Normativa, que é a régua da sala de vacina; mas a versão mais restritiva é justamente a que está na página do protocolo.
O teto de 45 anos é escrito sem meses e sem dias, e os outros tetos não são. A Instrução Normativa de 2026 escreve a faixa de rotina como 9 anos a 14 anos, 11 meses e 29 dias, e a faixa de resgate como 15 anos a 19 anos, 11 meses e 29 dias — precisão de um dia. Nos grupos prioritários, escreve apenas 45 anos. A diferença entre "até completar 45" e "até 45 anos, 11 meses e 29 dias" é de até 364 dias de elegibilidade, e ela cai sobre pessoas concretas: a mulher de 45 anos e sete meses que vive com HIV, o usuário de profilaxia pré-exposição na mesma idade. Uma nota técnica estadual consultada resolve a ambiguidade no sentido mais amplo, orientando completar o esquema de quem o iniciou na idade recomendada e tratando a transição como acima de 45 anos, 11 meses e 29 dias. A norma federal não diz.
A idade mínima da papilomatose respiratória recorrente mudou entre a nota que decidiu e a nota que operacionalizou, e um teto apareceu onde a norma federal não tem. A Nota Técnica nº 41/2024 recomendou incorporar a vacinação dos pacientes com papilomatose respiratória recorrente independentemente da idade, com esquema próprio para a idade. A Nota Técnica nº 16/2025 e a Instrução Normativa de 2026 fixam a partir de 2 anos de idade, e nenhuma das duas escreve teto superior. Já a tabela de registro de uma nota técnica estadual consultada traz a linha desse grupo como de 2 a 45 anos. O detalhe importa porque a própria nota federal de 2024, ao resumir a metanálise que embasou a decisão, registra que a maioria dos pacientes analisados eram adultos — e a doença, embora mais agressiva na criança, acomete adultos.
A figura do protocolo de 2015 trocou uma droga por outra e errou a concentração por um fator de 20 a 50. A Figura 10 daquela edição, no galho das múltiplas sessões, escreve "ATA 70-90% ou Podofilina 0,5% ou Crioterapia". O texto corrido da mesma página, três parágrafos abaixo, escreve podofilina a 10%–25% e ácido tricloroacético a 80%–90%. A conta: 10% dividido por 0,5% dá 20, e 25% dividido por 0,5% dá 50. E 0,5% não é uma concentração arbitrária — é a da solução de podofilotoxina, droga diferente, de aplicação domiciliar, que a nota de rodapé 9 da mesma página lista entre as alternativas de tratamento domiciliar. A figura, portanto, colocou o nome de uma droga ambulatorial com a concentração de uma droga domiciliar, num galho que só descreve o que se faz na unidade de saúde. A edição de 2022 corrigiu as duas coisas: a Figura 16 traz ácido tricloroacético 80%-90% e podofilina 10%-25%.
O teto de semanas do ácido tricloroacético brigava com a regra das seis sessões dentro do mesmo documento, e sumiu na edição seguinte. O protocolo de 2015 escreve, para o ATA, usar uma vez por semana até oito a 10 semanas. O mesmo documento, uma página antes, manda mudar de opção terapêutica se as verrugas não desaparecerem após seis sessões. A conta: com aplicações semanais, oito a 10 semanas são oito a 10 sessões, isto é, duas a quatro sessões além do ponto em que a mesma norma manda trocar. A edição de 2022 removeu o teto de semanas e manteve a regra das seis sessões, dizendo apenas que a frequência e o número de sessões variam conforme a resposta e que é adequado iniciar com aplicações semanais. A contradição desapareceu por remoção, e não por correção declarada.
A podofilotoxina é prescrita pelo protocolo sem concentração, e quem a fornece é a Rename. As duas versões vigentes do PCDT de IST descrevem a podofilotoxina em detalhe — modo de aplicar, posologia, número de ciclos, reações adversas — e em nenhum ponto declaram a concentração. Uma busca exata sobre o texto normalizado dos dois arquivos não devolve 0,15%, nem 1,5 mg/g, nem 0,5% em referência a essa droga. Quem fecha a lacuna é a Rename 2024, que registra podofilotoxina 1,5 mg/g creme, no Componente Básico, código ATC D06BB04. A conta: 1,5 mg/g equivale a 0,15 g em 100 g, ou 0,15%. Sem esse cruzamento, a prescrição sai sem concentração — e o interno que copia o protocolo escreve uma receita incompleta.
O teto da podofilina por sessão é o único da tabela que exige duas contas, e as duas mudam a conduta. O protocolo limita, em cada sessão, o volume a 0,5 mL e a área tratada a 10 cm². Na solução a 10%, que é 100 mg/mL, meio mililitro carrega 50 mg de podofilina; na solução a 25%, que é 250 mg/mL, o mesmo meio mililitro carrega 125 mg — dois vezes e meia mais, com volume idêntico. Ou seja, respeitar o volume não é respeitar a dose, e a concentração usada precisa constar do prontuário. A segunda conta é de área: 10 cm² é um quadrado de 3,2 cm de lado, ou um círculo de 3,6 cm de diâmetro, somando todas as lesões tratadas — não cada uma. Numa paciente com sete lesões espalhadas por vulva e períneo, o teto é atingido antes do que a intuição sugere, e é por isso que o protocolo adverte que a absorção de grande quantidade pode acarretar cardio, neuro e nefrotoxicidade.
Uma conferência que fecha: a comparação que o protocolo faz entre os dois tópicos domiciliares está aritmeticamente correta. O texto afirma que o imiquimode apresenta menos efeitos locais que a podofilotoxina, mas implica maior tempo de tratamento — quatro meses contra quatro semanas. Conferindo contra os esquemas que o próprio documento descreve: o imiquimode tem teto de 16 semanas por episódio, o que dá 3,7 meses e 48 aplicações; a podofilotoxina tem teto de quatro ciclos de sete dias, o que dá 28 dias, exatamente quatro semanas, e 24 aplicações. A razão entre os dois tetos é 4. O número redondo do texto corrido corresponde ao esquema detalhado, e a diferença de aplicações — 48 contra 24 — é o que sustenta a afirmação sobre efeitos locais.
O ácido tricloroacético, que é a primeira escolha ambulatorial e a única opção química da gestante, não consta da Rename 2024; os três tópicos que constam estão todos no Componente Básico, e a vacina está no Estratégico. A conferência foi feita por busca exata sobre o texto do elenco normalizado sem acento, sem hífen e sem espaço, e não devolve ocorrência alguma de ácido tricloroacético nem de tricloroacético. Constam imiquimode 50 mg/g creme, código ATC D06BB10; podofilotoxina 1,5 mg/g creme, código D06BB04; e podofilina, marcada como preparação do Formulário Nacional, de 100 mg/mL a 250 mg/mL em solução para uso tópico, código D11AF — os três no Componente Básico. A vacina papilomavírus humano 6, 11, 16 e 18 recombinante, em suspensão injetável, consta no Componente Estratégico, código J07BM01. Isso muda conduta de três maneiras: o ácido depende de manipulação e de aquisição local, o que explica por que ele falta em unidade que tem imiquimode; a podofilina, que é a que a gestante não pode receber, é a mais disponível das três; e a vacina não se busca na farmácia, e sim na sala de vacina, porque o componente é outro.
A régua brasileira não quantifica nem o clareamento nem a recidiva, e vale dizer isso à paciente com essas palavras. O protocolo de IST de 2015 escreve que a maioria das infecções em mulheres tem resolução espontânea em período aproximado de 24 meses; a edição de 2022 escreve o mesmo, com um "até" acrescentado antes dos 24 meses; e as diretrizes de rastreamento de 2025 escrevem que a maioria das infecções é aparentemente eliminada dentro de um a dois anos em mulheres jovens, classificando a certeza dessa evidência como baixa. Nenhum dos três atribui percentual. Sobre a recidiva do condiloma, o protocolo diz apenas que recidivas são frequentes em período bastante variável, podendo ocorrer após meses ou anos. Há coerência interna que vale registrar: as diretrizes de 2025 tratam como persistente a infecção cujo DNA-HPV oncogênico continua detectável aos 24 meses, e 24 meses é o mesmo limite superior da janela de clareamento do protocolo de IST. As duas réguas descrevem a mesma linha, uma pelo lado de quem elimina e a outra pelo lado de quem não eliminou.
A prevalência da verruga tem denominadores diferentes em dois documentos oficiais, e a diferença não é de medida, é de população de referência. O protocolo de IST escreve que aproximadamente 1% a 2% da população apresentam verrugas anogenitais e que 2% a 5% das mulheres mostram alterações no exame preventivo. O Protocolo Febrasgo de Obstetrícia nº 28 escreve que a infecção clínica acomete 1% da população sexualmente ativa e a subclínica atinge 4% da população sexualmente ativa. O primeiro usa "a população" para a verruga e "as mulheres" para a citologia; o segundo usa "a população sexualmente ativa" para as duas. Como a população sexualmente ativa é subconjunto da população, 1% de um denominador menor é mais gente proporcionalmente do que 1% do denominador maior — os dois números não são comparáveis diretamente, e nenhum dos dois documentos declara isso ao lado do número.
A nota técnica de 2026 diz, no corpo, que a evidência não permite concluir sobre recorrência, e conclui, três páginas depois, apoiada em evidência de redução de recorrência. O item 3.3 da Nota Técnica nº 32/2026 registra que estudos clínicos randomizados em andamento apresentam resultados ainda conflitantes em relação aos achados de estudos observacionais, não permitindo, até o momento, conclusões definitivas acerca do benefício da vacinação na redução da recorrência de lesões. O item 4.1, que lista o que a recomendação considerou, inclui "as evidências científicas que indicam redução significativa da recorrência de NIC 2 e NIC 3 com a vacinação após tratamento cirúrgico". As duas frases estão no mesmo documento e sustentam avaliações opostas do mesmo corpo de evidência. O documento oferece, no próprio item 3.3, os benefícios que não dependem dessa controvérsia — prevenção de infecção por outros tipos contidos na vacina, redução do risco de reinfecção e da disseminação para sítios vizinhos —, e são esses que sustentam a indicação sem contradição. A leitura de que a recomendação se sustenta melhor por esses benefícios do que pela redução de recorrência é deste capítulo, não do documento.
As notas técnicas do programa de imunizações repetem uma estimativa de incidência que o próprio Ministério já atualizou, e a estimativa atual traz um percentual cujo denominador não está impresso ao lado dele. A Nota Técnica nº 41/2024 e a Nota Técnica nº 32/2026, assinada em março de 2026, escrevem ambas cerca de 17 mil casos novos e aproximadamente 7 mil óbitos anuais por câncer do colo do útero no Brasil. A Estimativa 2026 do Instituto Nacional de Câncer, cujas referências foram acessadas em novembro de 2025, estima 19.310 casos novos por ano para cada ano do triênio de 2026 a 2028, e registra 7.209 óbitos em 2023. A conta: a diferença de incidência é de 2.310 casos, e o número repetido fica 12,0% abaixo da estimativa vigente; do lado dos óbitos, a conferência fecha, porque 7.209 arredonda para os 7 mil citados. Sobre o denominador: a mesma Estimativa 2026 apresenta o câncer do colo do útero como 7,4% dos cânceres em mulheres, enquanto a linha de todas as neoplasias femininas impressa na mesma página traz 389.090 casos — e 19.310 dividido por 389.090 dá 4,96%, não 7,4%. O denominador correto é o total feminino excluídos os tumores de pele não melanoma, que o documento não imprime ao lado da tabela: partindo de que a mama corresponde a 30,0% com 78.610 casos, o denominador é 262.033, e 19.310 divididos por ele dão 7,37%, que arredonda para os 7,4% publicados. A verificação cruzada fecha: cólon e reto dão 10,51% contra os 10,5% publicados, pulmão 6,35% contra 6,4%, tireoide 5,08% contra 5,1%; e somando o denominador masculino obtido do mesmo modo, 255.475, chega-se a 517.508, que é a frase "aproximadamente 518 mil" do texto de abertura do documento.
Uma conferência de posição que fecha e vale para a conversa: o câncer do colo do útero é o terceiro mais incidente entre as mulheres brasileiras, como as notas técnicas afirmam. Ordenando a tabela da Estimativa 2026 pelo número de casos femininos: mama com 78.610, cólon e reto com 27.540, colo do útero com 19.310, pulmão com 16.650 e tireoide com 13.310. Terceiro lugar confirmado. Na ordenação geral, somando homens e mulheres e excluídos os tumores de pele não melanoma, a sequência é mama 78.610, próstata 77.920, cólon e reto 53.810, pulmão 35.380, estômago 22.530 e colo do útero 19.310 — sexta posição, exatamente como o documento afirma no texto corrido.
A conduta, hora a hora
Confirmar padrão clínico das lesões e avaliar características atípicas, gestação e imunossupressão. Escolher tratamento local segundo localização, extensão e preferência, com orientação sobre aplicação e retorno. Vacinação e rastreamento seguem elegibilidade própria; tratar a verruga não substitui essas medidas nem exige intensificar rastreamento sem outra indicação.
A linha do tempo abaixo é de uma consulta de ambulatório e das que a seguem, e ela começa antes de qualquer prescrição, no exame — porque é o exame que escolhe a droga. Os oito marcos supõem uma paciente não gestante; o marco da gestante está adiante, e é o que mais muda.
Duas regras de decisão atravessam todos os marcos e valem repetir aqui, porque são contadas em sessões e não em semanas: três sessões sem melhora significativa mandam considerar a mudança de opção terapêutica; seis sessões sem desaparecimento mandam mudar. É possível combinar tratamentos, com estrito controle dos efeitos inflamatórios sobre os tecidos normais.
Minuto 0 a 10 — antes de qualquer droga: nomear o que se vê, e o que não se vê
O diagnóstico é clínico e o exame é o exame. Descreva número, maior diâmetro, topografia por sítio, superfície e cor, e registre isso no prontuário como linha de base — sem ela, a consulta de dali a três semanas não consegue dizer se melhorou. Diga à paciente, ainda no exame, o que aquelas lesões são e o que elas não são: elas resultam quase exclusivamente de tipos que não causam câncer. Essa frase, dita antes da prescrição, é o que permite que o resto da consulta seja sobre tratamento e não sobre medo.
Prescrição- Exame com foco de luz, expondo introito, pequenos e grandes lábios, períneo e região perianal, com afastamento das dobras
- Exame especular com inspeção das paredes vaginais e do colo
- Registro estruturado: número de lesões, maior diâmetro, sítios acometidos, superfície, cor, presença de sangramento
- Perguntar por prurido, dor, friabilidade e sangramento — as quatro coisas que a paciente não relata espontaneamente
- Perguntar sobre gestação em curso antes de escolher qualquer droga
Minuto 10 a 20 — o exame que a verruga obriga, e o encaminhamento que ela às vezes obriga
A mulher com verruga anogenital requer exame ginecológico completo, incluindo o exame preventivo do colo do útero conforme o calendário que já valia para ela, e colposcopia quando as alterações citológicas a indicarem. Havendo lesão anal ou perianal, o exame proctológico com anuscopia e toque retal está indicado, e a inspeção perianal não depende de equipamento nenhum. O que não se faz aqui é antecipar o preventivo por causa da lesão nem alterar o intervalo dele: a verruga obriga a que o rastreamento esteja em dia, não a que ele mude de régua.
Prescrição- Exame ginecológico completo, com inspeção da região perianal em toda paciente com condiloma vulvar
- Verificar a data do último exame preventivo do colo e regularizar se estiver atrasado, sem antecipar se estiver em dia
- Encaminhamento para exame proctológico com anuscopia e toque retal quando houver lesão anal ou perianal
- Não solicitar tipagem viral, em nenhuma das duas situações
- Registrar por escrito que o rastreamento do colo segue calendário próprio, para que a próxima consulta não o antecipe
Minuto 20 a 25 — a decisão de biopsiar, que vem antes da decisão de tratar
Três situações mandam biopsiar: dúvida diagnóstica ou suspeita de neoplasia e de outras doenças; lesões atípicas ou que não respondam adequadamente aos tratamentos; e lesões suspeitas em pessoa com imunodeficiência, caso em que o protocolo manda considerar o procedimento com mais frequência e mais precocemente. Na prática do ambulatório, os gatilhos que se procuram ao exame são lesão pigmentada, endurecida, fixa aos planos profundos, ulcerada, ou que cresce sob tratamento. Quando a lesão é volumosa ou pedunculada e há dúvida, a exérese tangencial resolve as duas coisas de uma vez, porque remove e manda material para o histopatológico.
Prescrição- Biopsiar antes de tratar toda lesão pigmentada, endurecida, fixa, ulcerada ou de crescimento rápido
- Biopsiar a lesão que não respondeu adequadamente, antes de simplesmente trocar de droga
- Baixar o limiar de biópsia em pessoa vivendo com HIV, transplantada, oncológica ou em uso de imunossupressor
- Preferir a exérese tangencial quando houver dúvida e a lesão for volumosa ou pedunculada
- Encaminhar, e não observar, a lesão suspeita de neoplasia — o destino dela não é este capítulo
Minuto 25 a 30 — escolher por número, tamanho e local, e não por preferência
O tratamento deve ser individualizado, considerando as características das lesões, a disponibilidade de recursos, os efeitos adversos e a experiência do profissional; e, tratando-se de doença em geral autolimitada, devem-se evitar tratamentos que gerem cicatrizes desfigurantes. Traduzido para a decisão da consulta: poucas lesões externas e pequenas admitem tanto o consultório quanto a casa, e a escolha é da paciente; lesões volumosas e pedunculadas pedem método físico, que resolve numa sessão; lesões em uretra, vagina, colo do útero ou parte interna do ânus excluem o imiquimode, que é de uso exclusivamente externo; e lesões isoladas e queratinizadas respondem bem à crioterapia. A imunodeficiência não muda o arsenal — muda o prognóstico.
Prescrição- Poucas lesões externas pequenas: ácido tricloroacético semanal no consultório, ou tratamento domiciliar, conforme a preferência informada da paciente
- Lesões volumosas ou pedunculadas: eletrocauterização ou exérese tangencial, com anestesia local
- Lesões isoladas e queratinizadas: crioterapia com nitrogênio líquido
- Lesão em uretra, vagina, colo ou canal anal: nunca imiquimode; método aplicado por profissional
- Evitar métodos com potencial de cicatriz desfigurante quando houver alternativa de resultado equivalente
- Registrar a escolha e a razão dela, para que a próxima consulta não recomece a discussão
Sessão semanal — o que se aplica no consultório
O ácido tricloroacético a 80%–90% é agente cáustico que destrói o condiloma por coagulação química do conteúdo proteico. Aplica-se pequena quantidade com aplicador de algodão adequado ao tamanho da lesão, evitando o contato com a mucosa normal, e deixa-se secar até o branqueamento semelhante ao da porcelana. A frequência e o número de sessões variam conforme a resposta, e é adequado iniciar com aplicações semanais. A podofilina a 10%–25% tem ação antimitótica e traz dano ao tecido lesado e ao normal; aplica-se sobre as verrugas, aguarda-se a secagem, e em cada sessão limita-se o volume a 0,5 mL e a área tratada a 10 cm². Os tratamentos ambulatoriais em geral são dolorosos, e as normas de biossegurança incluem máscara nos procedimentos que geram aerossóis ou fumaça, porque essas partículas carregam vírus e podem ser inaladas.
Prescrição- Ácido tricloroacético 80%–90% em solução, aplicação semanal com aplicador de algodão até branqueamento porcelânico, no consultório
- Se houver dor intensa, neutralizar o ácido com sabão, bicarbonato de sódio ou talco
- Podofilina 10%–25% em solução, aplicação semanal, com teto de 0,5 mL e de 10 cm² de área somada por sessão
- Registrar a concentração usada e a área tratada em cada sessão, e numerar as sessões
- Crioterapia, eletrocauterização ou exérese conforme a escolha do marco anterior, respeitando anestesia local quando indicada
- Máscara e demais normas de biossegurança nos procedimentos que geram fumaça ou aerossol
Em casa — o que a paciente aplica, e o que ela precisa ouvir antes de sair da sala
Duas opções estão incorporadas ao SUS para autotratamento, e a diferença entre elas é de tempo e de efeito local: o imiquimode tem menos efeitos locais e dura quatro meses; a podofilotoxina tem mais efeitos locais e dura quatro semanas, sem diferença nas taxas de abandono. O imiquimode, creme a 50 mg/g, é modulador da resposta imunológica pela indução de interferona alfa; não destrói o vírus, e novas verrugas podem aparecer durante o tratamento. A inflamação que ele provoca é o mecanismo terapêutico, e não sinal de reação adversa — irritação e eritema no local são esperados. Ele é de uso exclusivamente externo. A podofilotoxina, creme a 1,5 mg/g pela Rename, é a forma purificada da podofilina, com absorção sistêmica muito baixa, e se aplica em ciclos.
Prescrição- Imiquimode 50 mg/g creme: aplicar em camada fina três vezes por semana, em dias alternados, antes de deitar, deixando agir de 6 a 10 horas e lavando depois
- Imiquimode: sachê novo a cada aplicação, descartar a sobra, lavar as mãos antes e depois, evitar exposição solar e bronzeamento durante o tratamento
- Imiquimode: manter até o desaparecimento das verrugas ou por no máximo 16 semanas por episódio; não usar em uretra, vagina, colo do útero ou parte interna do ânus
- Homem não circuncidado tratando lesão sob o prepúcio: retrair e limpar a região diariamente
- Podofilotoxina 1,5 mg/g creme: aplicar duas vezes ao dia, manhã e noite, por três dias consecutivos, seguidos de quatro dias sem aplicação — um ciclo
- Podofilotoxina: repetir o ciclo se restarem verrugas após sete dias, no máximo quatro ciclos; lavar e secar antes de aplicar e retirar o creme que atingir a pele sadia
- Dizer, com essas palavras, que aparecer verruga nova durante o tratamento não significa que o tratamento falhou
Se houver gestação — o marco que muda a droga e o momento
Na gestação as lesões podem apresentar crescimento rápido, atingir grande volume e tornar-se friáveis e sangrantes, e o tratamento com frequência tem pior resultado. A podofilina e o imiquimode não devem ser usados; o protocolo da Febrasgo acrescenta a podofilotoxina e o 5-fluorouracil à lista de proibições e registra que, quanto ao imiquimode, não há dados suficientes para indicá-lo. Sobram o ácido tricloroacético e o nitrogênio líquido como boas opções químicas e físicas, e, nas lesões volumosas, a eletrocoagulação ou a exérese tangencial. O protocolo da Febrasgo dá o limite temporal que o protocolo de IST não dá: o ácido é seguro em qualquer fase, mas o tratamento é recomendado até a 34ª a 36ª semana, para evitar áreas cruentas na vulva no período periparto. E há uma decisão obstétrica que este capítulo precisa fechar: não há indicação de parto cesáreo pela presença das lesões, e a indicação seria a obstrução do canal de parto ou o sangramento, ocorrências excepcionais.
Prescrição- Ácido tricloroacético 80%–90% semanal, tratando preferencialmente até a 34ª a 36ª semana
- Crioterapia com nitrogênio líquido como alternativa física, atóxica e usável na gestação
- Lesões volumosas: eletrocoagulação ou exérese tangencial
- Não prescrever podofilina, podofilotoxina, imiquimode nem 5-fluorouracil
- Métodos físicos na vulva: respeitar intervalo mínimo de duas semanas entre sessões, para cicatrização
- Lesões queratinizadas e de grande volume: evitar o ácido, fracionar a área de aplicação ou aguardar o término da gestação
- Não indicar cesárea pela presença das lesões; o calendário vacinal da gestante e as demais vacinas do pré-natal são do capítulo de vacinação na gestação
Antes de a paciente sair — a vacina, que é a única prevenção primária e não tem outro dono neste nível
A vacinação é opção segura e eficaz na prevenção da infecção e de suas complicações, com evidência de benefício individual e populacional. É potencialmente mais eficaz em adolescentes vacinados antes do primeiro contato sexual, induzindo anticorpos em quantidade dez vezes maior que a da infecção naturalmente adquirida. Ela não trata a lesão que já existe, e isso precisa ser dito — mas ela protege contra os tipos ainda não adquiridos, e é por isso que vacinar quem já tem HPV continua fazendo sentido. A própria norma brasileira tomou esse partido em 2026, ao criar um grupo prioritário definido justamente por já ter tido doença por HPV: mulheres tratadas por lesão intraepitelial cervical de alto grau ou adenocarcinoma in situ com procedimento excisional, em qualquer idade. O calendário completo do HPV está aqui porque não há, neste nível, capítulo de calendário vacinal que o abrigue.
Prescrição- Rotina: dose única de HPV4 para meninas e meninos de 9 anos a 14 anos, 11 meses e 29 dias — vacinar o mais precocemente possível dentro da faixa
- Resgate: dose única de 15 anos a 19 anos, 11 meses e 29 dias, para quem não tem nenhum registro de dose
- Quem tem uma dose na faixa de 9 a 14 anos é considerado vacinado, mesmo que o esquema da época previsse duas
- Três doses aos 0, 2 e 6 meses, com prescrição médica, para imunodeprimidos de 9 a 45 anos, papilomatose respiratória recorrente a partir de 2 anos, usuários de profilaxia pré-exposição de 15 a 45 anos, vítimas de violência sexual de 15 a 45 anos, e mulheres tratadas por NIC 2, NIC 3 ou adenocarcinoma in situ em qualquer idade
- Duas doses aos 0 e 6 meses para vítimas de violência sexual de 9 anos a 14 anos, 11 meses e 29 dias
- Dose de 0,5 mL por via intramuscular, no deltoide ou na região anterolateral superior da coxa; pode ser aplicada junto com qualquer outra vacina do calendário, sem intervalo
- Contraindicada na gestação; se aplicada inadvertidamente ou se a gravidez ocorrer depois, nenhuma intervenção adicional é necessária além do pré-natal; gestante de grupo prioritário suspende a dose seguinte e completa o esquema no pós-parto
- Mulheres que amamentam podem ser vacinadas
Como saber se está funcionando
A reavaliação deste capítulo tem uma particularidade que muda o que se mede: não existe controle de cura, porque não existe cura da infecção. O que se acompanha é a lesão, e o critério é visual. Não há sorologia, não há título que caia, e testes de detecção viral não são indicados em nenhuma situação de seguimento.
Os prazos, portanto, são contados em sessões e em consultas, e os dois números que governam tudo são três e seis. Um terceiro relógio, mais longo, corre em paralelo e não pertence a este capítulo: o do rastreamento do colo, que segue o calendário próprio da paciente independentemente de a verruga ter sumido ou voltado.
A regra que evita o erro mais comum do seguimento é uma frase: recidiva não é falha. O paciente e as parcerias devem retornar ao serviço caso identifiquem novas lesões, e isso é conduta esperada, não fracasso da anterior.
Esperado: Redução visível do número ou do tamanho das lesões em relação à descrição da primeira consulta
Se não melhora: Não havendo melhora significativa após três sessões, o protocolo manda considerar a mudança de opção terapêutica. Antes de trocar, reveja três coisas: se a técnica está sendo aplicada corretamente, se a paciente conseguiu de fato aplicar em casa o que foi prescrito, e se a lesão tem algum sinal que a tire deste capítulo. Combinação de tratamentos é possível, com estrito controle dos efeitos inflamatórios sobre os tecidos normais.
Esperado: Ausência de lesões visíveis, com epitélio íntegro nos sítios tratados
Se não melhora: Verrugas que não desapareceram após seis sessões são gatilho de mudança, e não de mais uma tentativa igual. Este é também o ponto em que a segunda indicação de biópsia se ativa: lesão que não responde adequadamente aos tratamentos entra na lista de biopsiar. Trocar de droga sem olhar o material no microscópio é o caminho pelo qual uma lesão que não era condiloma passa meses sendo tratada como se fosse.
Esperado: Pode acontecer e é frequente; a paciente deve saber disso antes de sair da primeira consulta
Se não melhora: Recidivas são frequentes em período bastante variável, porque o tratamento destrói a lesão e não erradica o vírus. A conduta é reexaminar, reaplicar a mesma opção se ela vinha funcionando, e reiniciar a contagem de sessões. O que não se faz é interpretar a recidiva como indicação de tipagem viral, de antecipação do preventivo ou de escalada para método mais agressivo sem critério. No imiquimode, especificamente, o surgimento de verrugas novas durante o tratamento é explicitamente previsto pelo protocolo.
Esperado: Imiquimode: vermelhidão, descamação, erosão, escoriação e inchaço no local. Podofilotoxina: irritação local associada ao início da necrose da verruga, em geral leve
Se não melhora: A inflamação provocada pelo imiquimode é o mecanismo de ação, e a paciente que não foi avisada suspende o tratamento no terceiro dia achando que teve alergia. Com a podofilotoxina, foram relatadas sensibilização cutânea, prurido, ardor, eritema, úlcera epitelial superficial e balanopostite, com irritação que diminui gradativamente após o tratamento. Dor desproporcional, ulceração extensa ou sinais de infecção secundária mudam a conduta e exigem reavaliação presencial.
Esperado: Cicatrização em curso, sem bolha extensa, sem úlcera profunda, sem sinal de infecção
Se não melhora: Todos os tratamentos podem produzir bolhas, úlceras e cicatrizes, e é obrigação alertar a paciente sobre a possibilidade de infecção secundária e seus sinais de alerta. Na vulva, métodos físicos exigem intervalo mínimo de duas semanas entre sessões para cicatrização. O eletrocautério mal empregado pode gerar cicatriz desfigurante e, excepcionalmente, estenose ou fístula em estruturas tubulares como uretra, canal anal e vaginal — e é por isso que a escolha do método considera o local, e não só o tamanho.
Esperado: Paciente na faixa de rotina ou de resgate encaminhada à sala de vacina; paciente de grupo prioritário com prescrição escrita e esquema iniciado
Se não melhora: Cartão de vacina ausente ou sem data não é o mesmo que ausência de vacina, e a diferença é resolvida na sala de vacina, não no consultório. Registre a data, e não um sim ou não: quem tem uma dose entre 9 e 14 anos está vacinado; quem está em grupo prioritário com esquema incompleto completa as doses faltantes, sem recomeçar. Fora da faixa e fora de qualquer grupo prioritário, a vacina não é oferecida pelo SUS — dizer isso é parte da orientação, e omitir gera a expectativa de uma dose que não virá.
Esperado: Parceria orientada e examinada quanto a lesão visível; exame preventivo do colo dentro do calendário da paciente
Se não melhora: Parceria que não compareceu não vira nova orientação verbal e sim busca ativa, com a mesma operação descrita em Cervicite por gonococo e clamídia. O que não muda em nenhuma hipótese é o calendário do preventivo: ele não se antecipa porque a lesão apareceu, nem se posterga porque a lesão sumiu. Se o rastreamento estava atrasado, a consulta de hoje é a chance de regularizar; se estava em dia, o próximo exame é na data que já estava marcada, com a régua de Rastreamento do câncer do colo do útero.
Onde o erro machuca
O dano: Custa caro, atrasa o tratamento enquanto se aguarda o resultado, e produz dano mensurável: as diretrizes nacionais de rastreamento registram que mulheres com teste positivo manifestaram mais medo de câncer, mais ansiedade e sentimentos negativos contra parceiros atuais e anteriores. E não muda nada — o arsenal terapêutico é idêntico para todos os tipos, e um tipo de alto risco encontrado na verruga não antecipa nem substitui o rastreamento do colo.
Como pegar a tempo: Saiba de cor que o protocolo diz duas coisas, em dois pontos diferentes: não são recomendados testes que identificam os diferentes tipos de HPV na rotina clínica; e, no seguimento, testes de detecção viral não são indicados em nenhuma situação. Diga à paciente por que não se pede, em vez de dizer apenas que não se pede: o exame existe, tem uso legítimo no rastreamento organizado do colo, e não responde a nenhuma das perguntas que ela trouxe.
O dano: É o erro clássico deste capítulo e ele tem duas caras. Antecipar produz exame fora de indicação, mais achado de baixo grau que iria embora sozinho, mais colposcopia e mais sobretratamento — com risco de parto prematuro depois de procedimento excisional em mulher em idade fértil. E, na direção oposta, tratar a verruga como se ela dispensasse o rastreamento deixa a mulher sem o exame que realmente previne o câncer.
Como pegar a tempo: Separe as duas coisas na sua cabeça e na frase que você diz: a verruga obriga a que o preventivo esteja em dia, não a que ele mude de régua. Confira a data do último exame. Se estava atrasado, regularize hoje. Se estava em dia, mantenha a data que já havia. A régua de quem rastrear, com que método e em que intervalo é de Rastreamento do câncer do colo do útero, e ela não tem cláusula de exceção para quem tem condiloma.
O dano: Não há base técnica para nenhuma das duas afirmações, e as duas causam dano concreto. O protocolo registra que a presença de lesões, como a de outras infecções sexualmente transmissíveis, pode trazer insegurança às relações, inclusive com risco de estabelecimento de violência. Uma frase mal colocada do médico é o gatilho de uma acusação, e às vezes de uma agressão.
Como pegar a tempo: Tenha a explicação pronta e diga-a antes que a paciente pergunte. A infecção é assintomática, o período de incubação é potencialmente longo, a infecção inicial pode ter vindo de uma parceria que nunca teve manifestação nenhuma, e a norma nacional escreve que não é possível definir o momento exato em que houve a aquisição. Não é evasiva: é a informação técnica correta, e é a mesma para todo mundo.
O dano: As três drogas estão excluídas na gestação, e a cesárea indicada pela lesão expõe a mulher a uma cirurgia de grande porte por uma razão que não se sustenta: a via de parto não protege o recém-nascido da contaminação nem altera o risco de papilomatose de laringe. O oposto também é dano: deixar de tratar a gestante com o que é permitido, deixando lesões volumosas e sangrantes chegarem ao periparto.
Como pegar a tempo: Pergunte por gestação antes de escolher a droga, sempre — e não depois de escrever a receita. Na gestante, sobram ácido tricloroacético e nitrogênio líquido, e, nas lesões volumosas, eletrocoagulação ou exérese tangencial. Trate preferencialmente até a 34ª a 36ª semana. A cesárea se indica por obstrução do canal de parto ou sangramento, que são ocorrências excepcionais, ou por critérios obstétricos que nada têm a ver com a lesão.
O dano: O ácido a 80%–90% é cáustico e produz queimadura química no tecido em que encosta. Sem controle visual do branqueamento e sem a possibilidade de neutralizar imediatamente, o resultado são úlceras, cicatriz e dor intensa em área que a paciente não consegue ver bem. O protocolo veda expressamente a prescrição para uso domiciliar, frente ao potencial dano aos tecidos e às suas complicações.
Como pegar a tempo: Guarde a divisão pelo lado de quem aplica, não pelo lado da droga: são domiciliares o imiquimode e a podofilotoxina, e apenas eles; são ambulatoriais o ácido tricloroacético, a podofilina, a crioterapia, o eletrocautério e a exérese. Se a paciente não consegue voltar toda semana, a solução é oferecer a opção domiciliar — não entregar a ambulatorial na mão dela.
O dano: Os dois erros derrubam a mesma coisa: a confiança. A paciente que volta com lesão nova e ouve que o tratamento falhou abandona o seguimento, e a que toma a vacina esperando que a verruga suma passa a acreditar que a vacina não funciona — e essa descrença costuma se estender aos filhos dela. Uma frase mal dita no consultório derruba adesão vacinal na família inteira.
Como pegar a tempo: Diga as duas coisas antes que aconteçam. Recidiva é regra e não falha, porque o tratamento destrói a lesão e não erradica o vírus, e a paciente deve retornar se aparecerem lesões novas. E a vacina é profilática: não trata o que existe, e protege contra os tipos ainda não adquiridos — que é o motivo pelo qual vacinar quem já teve HPV continua fazendo sentido, e o motivo pelo qual o próprio Ministério criou, em 2026, um grupo prioritário formado por mulheres que comprovadamente tiveram doença por HPV.
O que dizer ao paciente e à família
Este é um capítulo em que a conversa vale mais que a prescrição, e não é força de expressão. O protocolo dedica um parágrafo inteiro ao assunto e nomeia as quatro preocupações das pessoas com HPV: a evolução das lesões, que em muitos casos são de longa duração e com muitas recidivas; o potencial de transmissão a outros parceiros; a origem da infecção numa determinada parceria; e, em especial, a possibilidade de transformação maligna.
Sobre o que fazer com isso, o texto oficial é direto: o conhecimento desses aspectos e a completude, a clareza e a firmeza das informações oferecidas pelos profissionais de saúde são indispensáveis. Firmeza é a palavra que costuma faltar. Uma resposta hesitante sobre câncer deixa a paciente com a impressão de que existe algo que você não quis dizer.
O que segue são respostas prontas para as sete perguntas que aparecem nessa consulta. Use-as como estão ou traduza para o seu jeito de falar; o que não muda é o que elas se recusam a fazer, que é prometer o incumprível e insinuar o que ninguém sabe.
"Doutor, eu tenho câncer?" — a primeira pergunta, e a mais fácil de responder
“Não. E eu vou te explicar por quê, porque é importante que você entenda e não só que acredite em mim. Existem mais de duzentos tipos desse vírus, e uns quarenta aparecem na região genital. Uns poucos deles causam alteração no colo do útero que, com muitos anos, pode virar câncer. Outros causam essa verruga que você tem. São tipos diferentes, quase nunca são os mesmos. Nove em cada dez verrugas como as suas vêm de dois tipos que não causam câncer. Isso que você está vendo aí é uma lesão de pele, causada por um vírus, que a gente sabe tratar. Não é uma lesão pré-cancerosa, não vira câncer, e não é o começo de um. O que previne o câncer é outra coisa, é o exame preventivo, e o seu está em dia — a gente continua com ele na data certa, do jeito que já estava.”
Não diga: Responder "não, provavelmente não" ou "vamos investigar". A hesitação é lida como sim.
"Quem que me passou isso?" — a segunda pergunta, que precisa ser respondida antes de ser feita
“Eu não sei, e ninguém sabe — e isso não é uma resposta educada, é a resposta técnica. Esse vírus fica muito tempo sem dar sinal nenhum. Pode ser meses, pode ser anos. A pessoa que passou pode nunca ter tido nada para ver, nem ela nem quem passou para ela. Então não dá para dizer que foi essa relação, essa pessoa, esse ano. A maioria das pessoas que já teve relação sexual pega esse vírus em algum momento da vida e nem fica sabendo, porque o corpo resolve sozinho. O que eu posso te dizer com segurança é o contrário do que você está pensando: aparecer agora não quer dizer que aconteceu agora, e não quer dizer que alguém te traiu.”
Não diga: Dizer "deve ter sido de antes" ou "deve ser do atual". Qualquer das duas frases é um palpite, e um palpite aqui vira acusação.
"Então há quanto tempo eu tenho isso?"
“Também não tem como saber, e por um motivo específico: não existe exame que diga isso. Não é que o exame seja caro ou difícil de conseguir — é que ele não existe. O vírus não deixa marca de data. A recomendação nacional escreve exatamente isso: não é possível definir o momento exato em que a infecção foi adquirida. O que a gente sabe é o padrão: a maioria das pessoas elimina o vírus sozinha em um a dois anos, sem tratamento e sem nunca saber que teve. Quando aparece uma verruga, ela pode ter aparecido logo depois do contato ou muito tempo depois. Por isso a gente trata o que está aí, olha o que precisa ser olhado, e não fica caçando uma data que não existe.”
Não diga: Oferecer a tipagem viral como forma de "ver quando pegou". Ela não mede tempo, e o resultado só traz medo.
"Tem cura?"
“Tem duas respostas e eu preciso te dar as duas, porque elas são diferentes. A verruga tem tratamento e ela some — a gente destrói essa lesão que está aí, e na maioria das pessoas ela vai embora. Isso é o que o tratamento faz. O vírus em si a gente não elimina com remédio nenhum, e nenhum tratamento que existe hoje faz isso. Quem elimina o vírus é a sua própria defesa, e ela faz isso na maioria das pessoas, dentro de um a dois anos. Então: a lesão a gente resolve agora, e o vírus o seu corpo resolve com o tempo, na maior parte dos casos. Se você quiser guardar uma frase, guarde essa — o tratamento é da verruga, não do vírus.”
Não diga: Dizer que o tratamento "elimina o HPV", nem como simplificação. A paciente vai voltar em três meses com lesão nova, achando que foi enganada.
"Voltou. Então não funcionou?" — a consulta da recidiva
“Funcionou, sim, e o que aconteceu agora era esperado. Lembra que eu te falei que o tratamento tira a verruga e não tira o vírus? É por isso que pode aparecer de novo, às vezes em meses, às vezes depois de anos. Não quer dizer que você pegou de novo, não quer dizer que alguém te passou outra vez, e não quer dizer que o tratamento foi malfeito. Quer dizer que o vírus ainda está aí e o seu corpo ainda está resolvendo. A gente vai fazer o mesmo que fez antes, que estava funcionando, e conta as sessões de novo desde o começo. Você fez certo em voltar assim que viu — é exatamente o que eu te pedi para fazer.”
Não diga: Trocar de tratamento só porque voltou, e deixar transparecer que a recidiva foi surpresa para você.
"Eu já tenho HPV. Adianta tomar a vacina?"
“A vacina não vai fazer essa verruga sumir — isso quem faz é o tratamento. Mas ela continua fazendo sentido, e vou te dizer por quê. A vacina protege contra quatro tipos do vírus. É muito pouco provável que você tenha os quatro. Contra os que você ainda não pegou, ela protege igual. E ela protege contra os dois tipos que mais causam câncer de colo do útero, que provavelmente não são os que estão causando a sua verruga. Agora, a parte prática: pelo SUS, a vacina é dada até os 14 anos, e até os 19 para quem nunca tomou nenhuma dose. Fora dessa idade, só em algumas situações específicas com indicação médica. Como você tem 26 e não está numa dessas situações, a vacina existe mas é na rede privada. Eu prefiro te dizer isso com clareza do que te mandar na sala de vacina para você voltar de mãos vazias.”
Não diga: Prometer a vacina no posto para quem está fora da faixa e fora dos grupos prioritários. A frustração de uma viagem perdida custa a próxima consulta.
"Meu marido precisa fazer exame?"
“Ele precisa ser examinado, que é diferente de fazer exame. O que a gente faz é olhar: se ele tiver alguma verruga, a gente trata, do mesmo jeito. Se ele não tiver nada para ver, não existe exame de sangue nem de laboratório que a gente possa pedir, porque não existe tratamento para quem não tem lesão. Fazer um exame que não muda nada só serviria para ele ficar preocupado com um resultado que a gente não saberia o que fazer. Então: peça para ele vir, eu examino, e a gente aproveita para fazer os testes que a gente faz em todo mundo — HIV, sífilis, hepatites — que são rotina, não suspeita. E o mais importante: nada disso vai dizer quem passou para quem, porque isso não dá para saber.”
Não diga: Solicitar teste molecular de HPV para parceiro assintomático, ou deixar que a consulta dele vire uma investigação de quem trouxe a infecção.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
A Organização Mundial da Saúde, em posicionamento de 2022, e a Organização Pan-Americana da Saúde, em 2023, tomaram posição favorável ao esquema de dose única até os 20 anos de idade em pessoas sem imunossupressão, com duas doses com intervalo de seis meses a partir dos 21 anos e três doses para pessoas imunocomprometidas, deixando a critério de cada país a adoção. A base declarada é que uma dose forneceu nível de proteção semelhante ao do esquema de três doses contra infecção por HPV 16 e 18, mantido por pelo menos dez anos.
Posicionamento da Organização Mundial da Saúde de 2022 e do Grupo Consultivo Técnico da Organização Pan-Americana da Saúde de 2023, conforme sumariados nos itens 2.9 e 3.1 da Nota Técnica nº 41/2024-CGICI/DPNI/SVSA/MS
O Brasil adotou a dose única apenas para a faixa de 9 a 14 anos, mantendo as recomendações anteriores para os demais grupos. A Câmara Técnica Assessora do programa de imunizações recomendou por unanimidade seguir a orientação internacional, e a nota técnica que formaliza a decisão registra, no mesmo item, que a adoção seria somente para os adolescentes de 9 a 14 anos. A faixa de 15 a 19 anos, 11 meses e 29 dias entrou por outra porta — como estratégia de resgate, com dose única, restrita a quem não tem nenhum registro de dose anterior.
Item 3.3 da Nota Técnica nº 41/2024-CGICI/DPNI/SVSA/MS e item 19 da Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação de 2026
Para a pessoa à sua frente, a diferença entre as duas posições quase nunca é uma decisão sua, e por isso o que importa é saber qual das duas portas se aplica. Se ela tem entre 9 anos e 14 anos, 11 meses e 29 dias, é rotina de calendário: dose única, sem prescrição, e não pergunte se já teve relação sexual, porque isso não é critério. Se tem entre 15 anos e 19 anos, 11 meses e 29 dias, verifique o cartão: com zero dose registrada, entra no resgate e recebe dose única, conforme a organização do estado; com uma dose já registrada na faixa de 9 a 14 anos, ela está vacinada e não recebe nada. Se tem 20 anos ou mais, a única pergunta que decide é se ela pertence a algum dos seis grupos prioritários — imunodeprimida, papilomatose respiratória recorrente, usuária de profilaxia pré-exposição, tratada por lesão cervical de alto grau, vítima de violência sexual — e, se não pertencer, o SUS não oferece a vacina, e o mais útil que você faz é dizer isso com clareza em vez de encaminhar para uma negativa na sala de vacina. Onde a divergência realmente pesa é na conversa com a paciente de 22 anos que pergunta se vale a pena comprar: a posição internacional sustenta benefício até os 20 com dose única e recomenda duas doses a partir dos 21, e essa é a informação que ela precisa para decidir com o próprio dinheiro.
O Departamento do Programa Nacional de Imunizações recomendou, em março de 2026, incluir as mulheres tratadas por lesão intraepitelial cervical de alto grau ou adenocarcinoma in situ com procedimento excisional como grupo prioritário, em qualquer idade, com três doses no mesmo ano do procedimento. Entre os fundamentos listados está o risco de persistência ou recorrência estimado em até 17% e a demonstração, em estudo populacional sueco com mais de 130 mil mulheres tratadas por lesão de grau 3, de risco aumentado de câncer cervical invasivo persistente por mais de 25 anos após o tratamento.
Itens 2.7, 2.12, 4.1 e 5 da Nota Técnica nº 32/2026-CGICI/DPNI/SVSA/MS, e item 19 da Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação de 2026
O mesmo documento registra, no item que avalia a evidência, que os estudos clínicos randomizados em andamento apresentam resultados ainda conflitantes em relação aos achados dos estudos observacionais, não permitindo conclusões definitivas acerca do benefício da vacinação na redução da recorrência de lesões — e aponta como benefícios estabelecidos outros três: prevenção de infecção por novos tipos contidos na vacina, redução do risco de reinfecção e diminuição da disseminação do vírus para áreas adjacentes à lesão inicial e para outros sítios anatômicos.
Item 3.3 da Nota Técnica nº 32/2026-CGICI/DPNI/SVSA/MS
Os países que já adotaram a estratégia divergem entre si nos critérios de elegibilidade e no momento da aplicação. A Espanha recomenda e financia desde 2018 a vacinação de mulheres submetidas a conização, independentemente da idade, com esquema de três doses. A Irlanda recomenda vacinação de resgate para mulheres com histórico de tratamento de lesões cervicais a partir do grau 1, com menos de 45 anos e até 48 meses após o procedimento. O Chile incorporou a vacinação para lesão cervical de alto grau com primeira dose no dia da intervenção, segunda após um mês e terceira após três meses.
Itens 3.6, 3.7 e 3.8 da Nota Técnica nº 32/2026-CGICI/DPNI/SVSA/MS
A decisão operacional não depende de resolver a controvérsia, e é isso que desarma o problema no ambulatório: a mulher tratada por lesão de alto grau tem indicação escrita no calendário nacional, e a indicação se cumpre. O que muda conforme a leitura da evidência é o que você promete a ela. Se você apresentar a vacina como redutora de recorrência, estará afirmando o que os ensaios randomizados ainda não sustentam segundo o próprio documento que criou o grupo; se apresentar como proteção contra os tipos que ela ainda não tem, contra reinfecção e contra disseminação para outros sítios, estará no terreno que o mesmo documento considera estabelecido. Prefira a segunda formulação: ela é honesta, é suficiente para justificar as três doses, e não gera a expectativa de que a vacina substitui o seguimento. E o seguimento não muda em nada — a mulher tratada continua no acompanhamento de longo prazo do capítulo de Lesões precursoras do colo e câncer invasor, vacinada ou não. Na prática do prazo: vacine no mesmo ano do procedimento, no perioperatório ou até 12 meses depois, e, se ela já tiver uma ou duas doses da vida, apenas complete até três.
O protocolo nacional recomenda o tratamento, declarando como objetivo a destruição das lesões identificáveis, e no mesmo parágrafo registra que não há evidência de que os tratamentos disponíveis modifiquem a história natural da infecção, e que, independentemente do tratamento, as lesões podem desaparecer, permanecer inalteradas ou aumentar. Adiante, ao orientar a escolha do método, refere-se à condição como doença em geral autolimitada, e é por isso que manda evitar tratamentos que gerem cicatrizes desfigurantes.
Itens 11.5 e 11.5.2 do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com IST
O protocolo da Febrasgo, tratando especificamente da gestante, registra que a regressão espontânea dos condilomas acuminados ocorre em 30% a 60% dos casos e, ainda assim, recomenda o tratamento dessas lesões — com um fundamento diferente do da cura: a elevada transmissibilidade. No mesmo documento, para as lesões queratinizadas e de grande volume na gestação, a recomendação é evitar o ácido e aguardar o término da gestação, isto é, observar.
Seção de tratamento das lesões HPV-induzidas do Protocolo Febrasgo de Obstetrícia nº 28, Femina 2025;53(3):206-12
A pergunta prática não é "tratar ou não", e sim "qual o custo do tratamento nesta lesão, neste local, nesta pessoa". Trate quando a lesão incomoda, sangra, cresce, é numerosa, ou quando a paciente quer tratá-la — e ela quase sempre quer, o que é razão legítima. Prefira observar, com retorno marcado, quando o método disponível produziria dano desproporcional ao benefício: lesão pequena e única em área de cicatrização difícil, lesão queratinizada e volumosa em gestante perto do termo, lesão em criança pequena. Em qualquer dos dois caminhos, a informação que se dá é a mesma e é o que sustenta a adesão: destruir a lesão não erradica o vírus, entre três e seis em cada dez condilomas regridem sozinhos, e a recidiva é frequente com ou sem tratamento. Se você decidir observar, marque a data do retorno e escreva no prontuário que a conduta foi expectante e por quê — conduta expectante sem data registrada é indistinguível de abandono.
O raciocínio, em voz alta
Volte à sala da unidade básica, quinta-feira, dez e vinte da manhã. Solimar Varjão, 26 anos, auxiliar de cozinha, sete lesões papilomatosas de dois a cinco milímetros no pequeno lábio direito e no introito, nenhuma ulcerada, nenhuma pigmentada, nenhuma endurecida. Região perianal limpa, colo de aspecto normal ao especular. Não está grávida, usa injeção trimestral. Preventivo há oito meses, normal, com o papel guardado. Nunca tomou vacina de HPV. Companheiro há um ano e três meses, sem lesão visível segundo ela. As duas perguntas dela já foram feitas: tenho câncer, e quem me passou.
Passo 1 — Nomeio antes de prescrever
Digo, ainda com ela na maca, o que aquilo é: verruga genital, causada pelo papilomavírus humano, e resultante quase sempre de tipos que não causam câncer. Respondo o "tenho câncer" com um não sem qualificação, e explico a diferença entre os tipos que fazem verruga e os que fazem alteração no colo. Só depois de a expressão dela mudar é que sigo. Descrevo no prontuário: sete lesões, maior com 5 mm, quatro no pequeno lábio direito e três no introito, superfície fosca, cor da pele, sem sangramento, perianal sem lesões, colo sem alteração.
Passo 2 — Decido se biopsio, antes de decidir se trato
Passo pelas três indicações. Não há dúvida diagnóstica: a morfologia é típica. Nenhuma lesão é pigmentada, endurecida, fixa ou ulcerada. Ela não tem imunodeficiência conhecida, não usa imunossupressor, não é transplantada nem oncológica. Nenhuma lesão foi tratada antes, então não existe lesão que não respondeu. Não biopsio, e escrevo no prontuário por que não — para que a próxima consulta saiba que a decisão foi tomada e não esquecida.
Passo 3 — Não peço o exame que ela vai pedir
Ela pergunta se dá para saber "qual HPV" é o dela. Explico que o exame existe, que ele é usado no rastreamento do colo em alguns serviços, e que aqui ele não muda nada: o tratamento é o mesmo para qualquer tipo, e o resultado não antecipa nem substitui o preventivo. Digo também, porque é verdade e ajuda, que um resultado positivo costuma trazer mais medo do que informação. Não peço tipagem. E confiro a data do preventivo: oito meses, normal — está em dia, e por isso não antecipo nada. Escrevo a próxima data conforme o calendário dela, para que ninguém a antecipe depois.
Passo 4 — Escolho o tratamento pelo número, pelo tamanho e pelo local
Sete lesões, todas externas, todas com menos de 5 mm, nenhuma pedunculada, nenhuma queratinizada. Não há lesão em uretra, vagina, colo ou canal anal, o que manteria o imiquimode disponível. Pergunto pela logística real: ela trabalha de segunda a sexta na creche e sai às 16h30, e a unidade atende até as 17h. Vir toda semana é possível, mas apertado. Ofereço as duas alternativas com o tempo de cada uma — quatro semanas com a podofilotoxina, até dezesseis semanas com o imiquimode, ou sessões semanais aqui com o ácido. Ela escolhe a podofilotoxina, pelo prazo mais curto.
Passo 5 — Escrevo a receita por extenso, e o que esperar dela
Podofilotoxina 1,5 mg/g creme: aplicar duas vezes ao dia, de manhã e à noite, nos dias 1, 2 e 3, e não aplicar nada nos dias 4, 5, 6 e 7. Isso é um ciclo. Se restar verruga depois de sete dias, começa outro ciclo. No máximo quatro ciclos, o que dá 28 dias. Lavar e secar bem antes de aplicar, aplicar só sobre a verruga com a ponta do dedo, ficar com as pernas afastadas até secar, tirar com água e sabão o que encostar na pele sadia, e lavar bem as mãos depois. Aviso que no segundo ou terceiro dia costuma arder e avermelhar, que isso é a verruga necrosando e não alergia, e que ela deve me procurar se doer muito, ulcerar ou infeccionar.
Passo 6 — Faço a bateria que acompanha qualquer infecção deste grupo
Ofereço e colho na mesma consulta, dizendo que é rotina de toda infecção transmitida pelo sexo e não suspeita de nada: teste rápido para HIV, teste rápido para sífilis, sorologias de hepatites B e C, e pesquisa molecular de clamídia e gonococo. Confiro o cartão de vacina quanto a hepatite A e hepatite B. Converso sobre prevenção combinada. Sobre a parceria, peço que Valdinei venha para ser examinado, e explico a ele, quando vier, que não vou pedir exame de HPV nele se não houver lesão, porque não há tratamento para quem não tem lesão.
Passo 7 — Resolvo a vacina, inclusive quando a resposta é que não tem
Ela tem 26 anos, não é imunodeprimida, não usa profilaxia pré-exposição, não tem papilomatose respiratória, não foi tratada por lesão cervical de alto grau, não é vítima de violência sexual. Fora da faixa de rotina, fora da faixa de resgate e fora dos seis grupos prioritários: o SUS não oferece a vacina para ela. Digo isso com todas as letras, em vez de mandá-la à sala de vacina. Explico que na rede privada ela existe, que continua fazendo sentido porque protege contra os tipos que ela ainda não tem, e que não vai fazer a verruga sumir. E pergunto se ela tem irmãos ou sobrinhos entre 9 e 19 anos — tem uma sobrinha de 11 e um irmão de 17, e os dois são exatamente as duas portas que existem: rotina com dose única para a menina, e resgate com dose única para o irmão, se ele não tiver nenhuma dose no cartão.
Passo 8 — Fecho a conversa das duas perguntas, e marco a data
Volto ao "quem me passou": digo que não há como saber e explico por quê — incubação longa, parceria que pode nunca ter tido lesão, e nenhum exame que date a aquisição. Digo que aparecer agora não significa que aconteceu agora. Aviso, antes que aconteça, que a verruga pode voltar depois de tratada, que isso não é falha do tratamento nem infecção nova, e que ela deve voltar assim que vir alguma. Marco retorno em quatro semanas, no fim do quarto ciclo, para reexaminar, ler os resultados e contar as lesões contra a descrição de hoje. E escrevo na receita, em letra grande, a frase que resume tudo: o tratamento é da verruga, o vírus o corpo resolve.
Variação do caso — resposta e reavaliação
Variação do retorno de Solimar: as lesões tratadas desapareceram, mas surge uma nova verruga típica depois. Explicar a possibilidade de recorrência e reavaliar as opções locais. O aparecimento não permite concluir infidelidade ou identificar a data da transmissão.
Variação do caso — quando mudar o plano
Se a nova lesão é ulcerada, endurecida, pigmentada de modo atípico ou não responde como esperado, reconsiderar o diagnóstico e avaliar biópsia. Não aplicar sucessivamente agente destrutivo sobre uma lesão que deixou de ter aspecto típico.
Faça você
Terça-feira, catorze e dez, ambulatório de pré-natal de risco habitual da mesma unidade. Railda Piaçava tem 31 anos, é diarista, está na segunda gestação, com 29 semanas e 4 dias. Vem para a consulta de rotina e, no fim, pede para mostrar uma coisa. Notou as primeiras lesões com uns cinco meses de gestação e elas cresceram depressa desde então. Ao exame: aglomerado de lesões papilomatosas confluentes ocupando a face interna do grande lábio esquerdo e o períneo, a maior com cerca de 2,5 cm, superfície lobulada em couve-flor, friáveis, com sangramento ao toque do abaixador. Há lesões menores no introito e três lesões perianais. Colo sem lesão visível ao especular. Ela nunca tomou vacina de HPV. Preventivo há dois anos, normal. Está apavorada com duas coisas que ouviu na sala de espera: que vai ter de fazer cesárea, e que o bebê pode nascer com o vírus na garganta.
Passo 1 — Diga o que exclui, antes de dizer o que indica
Liste as opções terapêuticas que a gestação retira da mesa e diga de qual documento vem cada exclusão. Aponte onde o protocolo nacional e o protocolo da Febrasgo dizem a mesma coisa e onde dizem coisas com fundamentos diferentes sobre a mesma droga.
Passo 2 — Escolha o método, considerando o volume e a idade gestacional
Com lesões confluentes de 2,5 cm, friáveis e sangrantes, e 29 semanas e 4 dias, decida entre o agente químico permitido, o método físico e a conduta expectante. Justifique com o que a Febrasgo diz sobre lesão queratinizada e de grande volume, e com o limite de semana gestacional para tratar.
Passo 3 — Responda à cesárea
Diga se as lesões indicam cesárea, qual seria a única situação em que a via de parto mudaria por causa delas, e o que a evidência diz sobre a via de parto proteger ou não o recém-nascido.
Passo 4 — Responda ao medo da papilomatose de laringe
Diga quais tipos virais estão envolvidos, o que o condiloma no trato genital inferior faz com o risco de transmissão vertical, e o que acontece com a maioria dos recém-nascidos que têm HPV detectado.
Passo 5 — Resolva a vacina desta paciente e do bebê
Diga se ela pode ser vacinada agora, se pode ser vacinada amamentando, e o que fazer com a criança quando chegar a idade. Diga também de quem é o calendário vacinal da gestante e o que deste caso não é assunto deste capítulo.
Ver como fecharíamos
Passo 1. A gestação exclui a podofilina e o imiquimode pelo protocolo nacional, que os proíbe com essas palavras; o protocolo da Febrasgo acrescenta a podofilotoxina e o 5-fluorouracil à proibição e, sobre o imiquimode, usa fundamento diferente — não há dados suficientes para indicá-lo no período gestacional. Na prática a conduta é a mesma nos dois documentos, e vale saber que o motivo é distinto: um afirma contraindicação, o outro afirma ausência de dados. Restam o ácido tricloroacético a 80%–90%, a crioterapia com nitrogênio líquido, a eletrocoagulação e a exérese tangencial. Passo 2. Lesões confluentes de 2,5 cm, friáveis e sangrantes, são exatamente o quadro em que a Febrasgo recomenda evitar o ácido, por serem de grande volume, e sugere aguardar o término da gestação ou fracionar a região de aplicação em pequenas áreas. Como ainda há margem — 29 semanas e 4 dias, contra o limite recomendado de tratar até a 34ª a 36ª semana, para não deixar áreas cruentas na vulva no periparto —, a opção com melhor relação entre benefício e dano é o método físico: eletrocoagulação ou exérese tangencial sob anestesia local, que resolve lesão volumosa e permite estudo histopatológico, com intervalo mínimo de duas semanas entre sessões na vulva para cicatrização. O ácido fracionado fica para as lesões menores do introito e perianais. Passo 3. As lesões não indicam cesárea. Nem o protocolo nacional nem o protocolo da Febrasgo aceitam a presença de condiloma como indicação de via de parto: a única situação em que a via mudaria por causa delas é a obstrução do canal de parto ou o sangramento, ocorrências descritas como excepcionais. E a cesárea não protege: comparada ao parto vaginal, não alterou o risco de papilomatose de laringe nem foi capaz de proteger os recém-nascidos da contaminação pelo HPV. Passo 4. Os tipos envolvidos na papilomatose de laringe são o 6 e o 11 — os mesmos que causam a verruga que ela tem, e que não causam câncer. A presença de condiloma no trato genital inferior durante a gestação é fator de risco para transmissão vertical, com aumento descrito de 230 vezes, e é justamente por isso que tratar as lesões antes do parto tem valor. Ao mesmo tempo, a transmissão vertical é qualificada como de baixa efetividade na disseminação do vírus, porque o percentual de crianças expostas que se contaminam é mínimo em relação ao número das que não se contaminam; e a positividade do HPV no recém-nascido parece ser transitória, com o vírus sendo eliminado em média entre 6 e 12 meses após o nascimento. Passo 5. Ela não pode ser vacinada agora: a vacina é contraindicada na gestação. Pode ser vacinada amamentando, porque a norma libera expressamente mulheres que amamentam — mas isso não a torna elegível: aos 31 anos, fora dos seis grupos prioritários, o SUS não oferece a vacina a ela nem no pós-parto. Como o vírus não circula no sangue e não passa para o leite, amamentar não transmite nada. A criança recebe a vacina quando completar 9 anos, em dose única, na rotina do calendário. E o restante do calendário vacinal desta gestante — o que ela deve receber no pré-natal e em que semana — é do capítulo de vacinação na gestação, não deste.
Imiquimode e podofilotoxina para autoaplicação destinam-se a lesões externas, não à parede vaginal. Condilomas vaginais requerem tratamento por profissional, como métodos ablativos, exérese ou ácido tricloroacético conforme o caso; este ácido não deve ser entregue para aplicação domiciliar. A cirurgia pode remover várias lesões em uma sessão e a dificuldade de retorno é relevante na decisão. Isso não a torna obrigatória nem dispensa avaliar tamanho, localização, anestesia, preferências e experiência da equipe. O plano pode combinar métodos para lesões externas e internas.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Sete dias depois, escreva de memória e confira. Primeiro, a tabela de tratamento em cinco linhas: para cada uma das cinco opções principais, a concentração, quem aplica, e se pode ou não na gestante. Segundo, os dois números que governam o seguimento — o de sessões que manda considerar mudar e o que manda mudar — e o que se faz antes de trocar de droga na segunda situação. Terceiro, as duas faixas etárias de dose única da vacina, com meses e dias, e a diferença de critério entre elas. Depois pegue o último paciente com condiloma que você atendeu e confira três coisas no prontuário: a descrição da primeira consulta permite comparar hoje com aquele dia; as sessões estão numeradas; e a situação vacinal está registrada com data e não com um sim ou não. Aplicação comentada: Retirar verruga significa eliminar HPV ou dispensar rastreamento indicado? Não. O tratamento da manifestação não substitui os demais cuidados.
Em 30 dias
Trinta dias depois, refaça três respostas inteiras, em voz alta, como se a paciente estivesse na frente. A primeira: por que essa verruga não é câncer, com a explicação dos tipos e sem hesitar. A segunda: por que não dá para saber quem transmitiu nem há quanto tempo, com os três motivos — incubação longa, parceria assintomática, ausência de exame que date. A terceira: por que vacinar quem já tem HPV faz sentido, e por que isso não faz a lesão sumir. Depois responda a uma pergunta de organização: no serviço em que você trabalha, existe ácido tricloroacético a 80%–90% disponível? Se não existir, você já sabe por quê — ele não consta da Rename —, e a consequência prática é que a gestante com condiloma do seu serviço depende de método físico ou de aquisição local. Descobrir isso antes de precisar vale mais do que descobrir com a paciente na maca.
Agora atenda
Agora atenda: mulher de 24 anos que chega à unidade básica dizendo que apareceram "umas bolinhas" na região genital há um mês e que já pesquisou na internet, chegando com duas certezas — que é HPV e que vai ter câncer. Traz impresso um pedido de exame de tipagem viral que uma amiga fez numa clínica particular e quer o mesmo. Fez preventivo há três anos e não voltou. Está com parceiro novo há quatro meses e já disse a ele, ao telefone, que ele a contaminou. Examine de verdade, decida se biopsia, escolha o tratamento pelo que você viu e pelo que ela consegue cumprir, recuse a tipagem explicando por quê, regularize o que estava atrasado sem antecipar o que não estava, resolva a situação vacinal dela e a da irmã de 15 anos que veio junto — e desfaça, com ela ainda na sala, a acusação que ela já fez.
