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Cervicite por gonococo e clamídia
Trata-se hoje, sem saber o agente, quem talvez não precisasse — para não perder a que não volta. A sequela se instala sem sintoma, e o parceiro é metade da receita.
Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST). Anexo da Portaria SCTIE/MS nº 12, de 19 de abril de 2021, que revogou a Portaria SCTIE/MS nº 42/2018; versão disponível no portal do Ministério da Saúde, com registro de alteração do anexo em 4 de julho de 2024. Seção 7.2 (cervicite), Figuras 11 e 12, Quadros 31 e 32, Quadro 5 (rastreamento), capítulo 3 (parcerias sexuais) e capítulo 18 (vigilância)
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Projeto SenGono — Vigilância da resistência de Neisseria gonorrhoeae aos antimicrobianos. Universidade Federal de Santa Catarina, Laboratório de Biologia Molecular, Microbiologia e Sorologia. Postagem "Brasil avança na busca por novas tecnologias para o manejo da gonorreia", 1º de abril de 2026, e postagem de 10 de dezembro de 2024 sobre a conscientização para a resistência
Bula aprovada de ceftriaxona sódica, pó para solução injetável para administração intramuscular, 500 mg e 1 g, com diluente de lidocaína a 1% (medicamento genérico, Eurofarma)
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Mulher de 28 anos, não gestante, tratada há duas semanas para cervicite com ceftriaxona e azitromicina, retorna assintomática, com colo normal ao espéculo; a biologia molecular colhida antes do tratamento foi positiva para Chlamydia trachomatis, e a parceria foi tratada. Qual é o seguimento recomendado?
O paciente que você vai ver
Terça-feira, 10h40, unidade básica de saúde de bairro. A ficha diz "infecção urinária". Tainá Queiroz tem 21 anos, é atendente numa loja de celulares do centro e entra já pedindo desculpa pela pressa: o intervalo do almoço é de uma hora e ela precisa voltar. Arde para urinar há dez dias. Não teve febre, não teve dor nas costas, não teve vontade de urinar toda hora — "só arde, mais no fim". Uma colega de trabalho teve a mesma coisa e tomou "o remédio de infecção urinária", e é isso que ela veio buscar.
Ela trouxe um exame de urina feito num laboratório particular, na esperança de encurtar a consulta: leucócitos 30 por campo, nitrito negativo, bactérias raras, hemácias 5 por campo. Está tudo pronto para uma receita de cinco minutos, e o próximo paciente já está sentado na cadeira do corredor.
O que ela não veio contar sai em duas perguntas. Corrimento? "O normal, eu sempre tive." Sangramento fora de data? Uma pausa. Manchou a calcinha de sangue depois da relação, duas vezes nas últimas três semanas — pouco, marrom, "achei que era a pílula". Usa anticoncepcional oral há dois anos, sem esquecimento. O parceiro é novo, há três meses; preservativo "no começo". Ele não tem sintoma nenhum, ela garante. A última menstruação foi há dezesseis dias, normal.
Sinais vitais na faixa. Abdome sem dor, sem defesa, sem dor lombar à punho-percussão. Nada nela parece doente, e é isso que torna o caso perigoso: a queixa cabe inteira num diagnóstico de cistite, o exame de urina parece confirmar, e a paciente já decidiu o que tem. Sair daqui com uma receita de nitrofurantoína seria a conduta mais fácil da manhã e uma das mais caras do ano.
Falta o exame que decide, e ele custa quatro minutos. Um espéculo mostraria o colo — se há muco-pus amarelado saindo pelo orifício externo, se o colo sangra ao simples toque de um cotonete. Um toque bimanual responderia se a infecção já subiu. Nenhum exame de urina responde isso, e a leucocitúria com nitrito negativo e cultura que vai vir negativa é exatamente a assinatura de uma uretrite por clamídia se apresentando como cistite.
A conta deste exame que não se faz não vence hoje. Tainá vai melhorar um pouco com a nitrofurantoína, ou não, e vai atribuir a persistência a "bactéria resistente". O parceiro vai seguir infectando e sendo reinfectado. Em algum momento a infecção sobe, com sintoma ou sem sintoma, e o que fica é uma trompa cicatrizada que ninguém vai saber datar quando ela procurar um serviço de reprodução assistida aos trinta e um anos.
Este é o capítulo em que se trata sem saber o agente. O exame vai mostrar sinais de cervicite; o teste que diz se é gonococo, clamídia ou os dois leva dias e pode nem estar disponível; e a decisão de saúde pública, tomada por protocolo, é tratar hoje, para os dois agentes, quem tem o sinal — aceitando tratar quem talvez não precisasse para não perder quem não vai voltar. O que o interno precisa entender não é a receita, que cabe numa linha. É por que essa linha existe, o que ela deixa de fora, e por que a metade dela é o parceiro.
Quem adoece disso
Clamídia e gonorreia são as duas infecções bacterianas sexualmente transmissíveis mais frequentes do mundo. A Organização Mundial da Saúde estimou, para 2020, cerca de 129 milhões de novas infecções por Chlamydia trachomatis e 82 milhões por Neisseria gonorrhoeae entre pessoas de 15 a 49 anos — mais de um milhão de infecções curáveis adquiridas por dia, a maioria sem sintoma. O número que interessa ao consultório não é o global: é a fração assintomática. Ela é o motivo de o rastreamento existir e de a abordagem sindrômica ser, por definição, incompleta.
No Brasil não existe número nacional. Infecção por clamídia e gonorreia não é agravo de notificação compulsória em âmbito federal — a lista obrigatória é sífilis adquirida, sífilis em gestante, sífilis congênita, hepatites B e C, aids, infecção pelo HIV e HIV em gestante e criança exposta —, e estados e municípios só notificam quando julgam conveniente. O que se sabe vem de estudos e de estimativas: para 2016, a incidência estimada de gonorreia foi de 1,0% entre gestantes brasileiras e de 1,5% entre não gestantes; a de clamídia, de 9,8% a 16,7% entre gestantes e de 5,5% a 13,0% entre não gestantes. O Manual de Gestação de Alto Risco fala em prevalência de clamídia que pode se aproximar de 10% em alguns grupos de gestantes e de 1,0% para gonococo. Leia esses números como o interno precisa lê-los: em uma sala de pré-natal com dez gestantes jovens, é provável que uma tenha clamídia sem saber.
A assimetria entre os dois agentes é a primeira coisa a memorizar. Clamídia é cerca de dez vezes mais prevalente que gonococo nas séries brasileiras, e é a que menos dá sintoma. Isso decide duas coisas na prática: a azitromicina do esquema sindrômico não é um adorno, é a metade que trata a infecção mais provável; e o rastreamento da mulher jovem sem queixa rende mais clamídia do que gonococo.
A proporção de assintomáticas é o dado central do capítulo, e o protocolo nacional a registra duas vezes com números diferentes que precisam ser conciliados: as cervicites são assintomáticas "em torno de 70% a 80%" e, mais adiante na mesma seção, o agravo é assintomático "em uma frequência que pode atingir até 93,3%" — o primeiro número descreve a regra, o segundo o teto encontrado em populações rastreadas. Dos dois lados, a conclusão é a mesma: a mulher que chega com sintoma é a minoria, e o fluxograma feito para ela não alcança a maioria. É por isso que o próprio protocolo escreve que o diagnóstico sindrômico de cervicite "não se presta para aplicação em massa".
Os fatores que aumentam a probabilidade de cervicite são cinco, e são os mesmos que o protocolo usa para decidir a quem oferecer teste: mulher sexualmente ativa com menos de 25 anos, parceria nova ou múltiplas parcerias, parceria com infecção sexualmente transmissível, história prévia ou presença de outra dessas infecções, e uso irregular de preservativo. A adolescente soma um fator biológico: a ectopia cervical expõe mais epitélio colunar, que é justamente o epitélio que os dois agentes infectam, com menor produção de muco protetor.
A sequela é o motivo de o capítulo existir, e ela se instala sem sintoma. As principais complicações da cervicite por clamídia e gonorreia não tratadas são dor pélvica crônica, doença inflamatória pélvica, gravidez ectópica e infertilidade, e o risco de sequela cresce com o número de episódios de doença inflamatória pélvica. A trompa não avisa quando cicatriza. A mulher tratada hoje por um sinal de colo que ela nem sentia é a mulher que não vai aparecer daqui a dez anos com uma histerossalpingografia obstruída dos dois lados — e essa é toda a justificativa de tratar por sinal, sem esperar o nome do agente.
Há um dado de vigilância que muda a receita e que o interno precisa conhecer pelo nome. O Brasil participa do programa mundial de vigilância da suscetibilidade do gonococo através do Projeto SenGono, coordenado pelo Ministério da Saúde com o laboratório de referência da Universidade Federal de Santa Catarina, que cultiva isolados de corrimento uretral masculino em sítios sentinela. A primeira rodada, 2015–2016, testou 550 isolados de sete cidades: 55,6% resistentes ao ciprofloxacino, 6,9% à azitromicina, 37,1% à penicilina, 61,6% à tetraciclina, e todos sensíveis a ceftriaxona e cefixima. A segunda rodada, de agosto de 2018 a dezembro de 2020, testou 633 isolados de doze cidades: ciprofloxacino 67,3% resistente, azitromicina 10,6%, ceftriaxona 0%, cefixima 0,3%. Foi a primeira rodada que tirou o ciprofloxacino do esquema brasileiro; é a segunda, com a azitromicina subindo, que mantém o assunto vivo.
A vigilância brasileira mede o gonococo do homem com corrimento — e o protocolo diz por quê: são os mesmos patógenos da cervicite. O corolário clínico é incômodo e verdadeiro: a mulher com cervicite raramente é notificada, raramente é cultivada, e o que se sabe sobre a resistência do agente que a infecta vem do parceiro que teve sintoma. Tratar a parceria, portanto, não é cortesia: é a única parte da cadeia que a vigilância enxerga.
Um último número organiza a suspeita na porta: estima-se um caso de doença inflamatória pélvica para cada oito a dez casos de cervicite. Se a cervicite é comum na unidade básica — e é —, a doença que ela precede também é. A mulher jovem que sai da sala com o colo tratado é uma paciente a menos naquela conta.
Por que acontece o que acontece
Toda a decisão deste capítulo depende de uma distinção anatômica: a vagina e a ectocérvice são revestidas por epitélio escamoso estratificado, resistente e ácido; o canal endocervical é revestido por epitélio colunar simples, uma camada única de células que produz muco e não tem a proteção mecânica do escamoso. Gonococo e clamídia infectam epitélio colunar. Vaginose, candidíase e tricomoníase habitam o compartimento escamoso. Essa é a razão de a cervicite ser outra doença, com outros agentes e outra receita, e não uma variante do corrimento vaginal — e é a razão de o diagnóstico exigir olhar o orifício do colo, não a parede da vagina.
A ectopia explica quem adoece. Na adolescente e na usuária de anticoncepcional combinado, a junção escamocolunar fica evertida para fora do orifício, e o epitélio colunar passa a ocupar parte da ectocérvice: mais superfície-alvo exposta, com menos muco. Por isso a idade abaixo de 25 anos é o fator de risco mais consistente, e por isso o colo da jovem pode estar avermelhado ao redor do orifício sem estar doente — ectopia é fisiologia, não é cervicite. O que separa as duas é o que sai do orifício e o que acontece quando um cotonete toca a mucosa.
Os dois agentes produzem inflamação por mecanismos diferentes, e a diferença explica o sintoma. O gonococo adere ao epitélio colunar por pili, é fagocitado, sobrevive e recruta neutrófilos em massa: a resposta é rápida, purulenta, e o período de incubação costuma ser de dois a cinco dias — é o agente do corrimento franco e do muco-pus. A clamídia é uma bactéria intracelular obrigatória, com ciclo de desenvolvimento de dois a três dias dentro da célula e uma resposta inflamatória lenta, de predomínio mononuclear: na mulher, a infecção passa despercebida por semanas ou meses. O que lesa a trompa na clamídia não é a bactéria, é a inflamação crônica que ela sustenta — e uma inflamação crônica sem sintoma é, por definição, invisível até a sequela.
O colo é a fronteira entre um compartimento colonizado e um compartimento estéril. O muco endocervical é bacteriostático e barra a ascensão; ele perde esse efeito durante a menstruação, e o fluxo retrógrado carrega os agentes para o endométrio e para as tubas. Manipulação do colo — inserção de dispositivo intrauterino, curetagem, biópsia de endométrio — atravessa a barreira por fora. É por isso que uma cervicite ativa é contraindicação para inserir o dispositivo, e é por isso que o tratamento da cervicite é, ao mesmo tempo, a prevenção primária da doença inflamatória pélvica: matar o agente na porta antes que a próxima menstruação o leve para cima.
A disúria da mulher com clamídia tem mecanismo próprio e engana o exame de urina. A uretra feminina também é revestida por epitélio que os dois agentes infectam; a uretrite produz leucócitos na urina sem bacteriúria por germe habitual — a leucocitúria com nitrito negativo e urocultura negativa que a cena descreve. Tratar isso como cistite com nitrofurantoína não toca nenhum dos dois agentes: a nitrofurantoína só se concentra na urina e não age sobre bactéria intracelular do epitélio.
As drogas fecham o raciocínio. A ceftriaxona é uma cefalosporina de terceira geração que inibe a síntese da parede bacteriana; o gonococo tem parede, morre, e a eficácia depende de manter concentração acima da concentração inibitória mínima do isolado por cerca de 24 horas — o documento norte-americano de 2021 registra que 250 mg curam mais de 99% das infecções anogenitais por isolados com concentração inibitória mínima de 0,03 microgramas por mililitro, mas que doses maiores são necessárias para isolados com valores elevados, e que 500 mg sustentam concentração acima dessa faixa por aproximadamente 50 horas. A dose sobe porque o alvo sobe. A clamídia não tem a parede que a cefalosporina ataca: betalactâmico não a trata. Ela exige droga que entre na célula — azitromicina, que se acumula em tecido e em macrófago por dias a partir de uma dose, ou doxiciclina, que precisa de sete dias de tomada. O esquema duplo existe por isso: a ceftriaxona mata o gonococo, a azitromicina trata a clamídia que a abordagem sindrômica não consegue excluir.
A resistência do gonococo é um processo com endereço. Alterações na proteína ligadora de penicilina codificada por penA reduzem a afinidade das cefalosporinas; bombas de efluxo e mutações em alvos ribossômicos reduzem a ação da azitromicina; mutações na girase tornaram o ciprofloxacino inútil — no Brasil, mais da metade dos isolados já em 2015–2016. A bactéria consta da lista de patógenos prioritários da OMS por isso. Um agente que troca material genético com facilidade, infecta sem sintoma e é tratado em massa por esquema empírico é a receita para selecionar resistência; a terapia dupla foi defendida, entre outros motivos, como forma de retardar essa seleção, e a subida da resistência à azitromicina é o que hoje põe a segunda droga em questão.
Há ainda um mecanismo que não é do agente e sim da consulta: a cervicite aumenta a eliminação genital do HIV em quem vive com o vírus e facilita a aquisição em quem não vive, porque um epitélio inflamado, cheio de células-alvo ativadas e com a barreira rompida, é uma porta. Tratar a cervicite reduz a eliminação cervical do HIV. Essa é a razão biológica de a oferta de testes para HIV, sífilis e hepatites B e C fazer parte do tratamento, e não de um outro atendimento.
Como se apresenta de verdade
Cervicite pode aparecer como disúria ou sangramento após a relação, com pouco corrimento percebido. Você deve examinar o colo, avaliar sinais de DIP e relacionar testes à suspeita clínica. O tratamento só se completa com resultado revisado, parcerias abordadas e prevenção de reinfecção.
Uma regra de compartimento organiza tudo o que segue. O capítulo de corrimento vaginal desta apostila cuida do que acontece na vagina: vaginose bacteriana, candidíase e tricomoníase, fita de pH, teste das aminas, microscopia. Este capítulo começa onde o espéculo mostra o orifício do colo. E termina onde o toque bimanual dói: dor à mobilização do colo com dor anexial ou hipogástrica é doença inflamatória pélvica, com critérios, esquema de catorze dias e critérios de internação próprios, que o capítulo de doença inflamatória pélvica detalha. Cervicite é o andar do meio.

Percurso clínico: Diferenciar inflamação cervical de vaginal
Avalie colo, sintomas, risco de exposição e sinais de ascensão, com testes conforme disponibilidade. Escolha um esquema principal conforme protocolo e declare condições das alternativas. Inclua parceria, prevenção de reinfecção e retorno; sinais de DIP mudam o percurso e podem exigir tratamento sem esperar etiologia.
A que não se queixa
A forma mais comum é a mulher que veio por outro motivo: renovar a pílula, colher o preventivo, fazer o pré-natal, acompanhar o parceiro que teve corrimento uretral. Ela não tem nada a relatar e o colo pode estar normal ao exame — mesmo nos casos com colo e muco de aspecto normal, clamídia e Mycoplasma genitalium podem estar presentes, e o protocolo manda usar a biologia molecular, quando disponível, para afastar essa possibilidade, sobretudo em mulheres jovens. Para essa mulher, o capítulo inteiro se resume a uma decisão: colher ou não colher o teste. O protocolo nacional responde por subgrupo: gestantes com até 30 anos na primeira consulta de pré-natal, pessoas com outra infecção sexualmente transmissível, pessoas vivendo com HIV no diagnóstico, pessoas em situação de violência sexual e usuárias de profilaxia pré ou pós-exposição ao HIV.
A assintomática mais importante é a parceria de um homem com uretrite. O protocolo estima que dois terços das parceiras estáveis de homens com uretrite não gonocócica hospedam clamídia na endocérvice, sem sintoma, e podem reinfectar a parceria e desenvolver doença inflamatória pélvica se ficarem sem tratamento. Quando ele chega com corrimento uretral e ela não chega, ela é a paciente que falta.
A que se queixa de outra coisa
Quando há sintoma, ele raramente diz "colo". As queixas principais do protocolo são corrimento vaginal, sangramento intermenstrual ou pós-coito, dispareunia, disúria, polaciúria e dor pélvica crônica. Três delas merecem tradução. A disúria sem polaciúria intensa, sem febre, com exame de urina que mostra leucócitos e nitrito negativo, é uretrite até prova em contrário — e a prova em contrário é uma urocultura que vai vir negativa dias depois, quando a paciente já tomou o antibiótico errado. O sangramento após a relação, a sinusiorragia, é sinal de colo doente: friável, ele sangra ao contato. E o escape fora de data em usuária de pílula é banal na maior parte das vezes — mas em uma mulher jovem com parceria nova ele deixa de ser banal, porque a ectopia que a pílula favorece é o mesmo terreno da cervicite.
O corrimento, quando existe, não tem característica própria: as infecções por clamídia e gonococo frequentemente não produzem corrimento vaginal, e quando produzem ele se confunde com o de qualquer vaginite. A mulher descreve "corrimento"; o que decide é o que sai do orifício do colo, não o que está na parede da vagina.
O que o colo mostra
Dois sinais definem a cervicite ao espéculo, e qualquer um deles basta. O primeiro é a secreção purulenta ou mucopurulenta visível no canal endocervical ou na ponta de um cotonete introduzido no orifício — o teste do cotonete: um swab branco que sai amarelo ou esverdeado. O segundo é o sangramento endocervical sustentado, provocado com facilidade pela passagem delicada do cotonete pelo orifício — a friabilidade. O protocolo acrescenta o edema cervical e a dor à mobilização do colo, e registra que, nos casos sintomáticos, dor à manipulação do colo, muco turvo ou amarelado e friabilidade estão presentes em 60% a 80% das vezes.
Três coisas não são cervicite e são confundidas com ela. A ectopia — a área avermelhada e lisa ao redor do orifício da jovem e da usuária de pílula — é epitélio colunar exposto, não inflamação; pode sangrar um pouco ao toque mais firme, mas não produz muco-pus. O colo em morango da tricomoníase, com pontilhado hemorrágico e aspecto tigroide ao Schiller, é uma cérvico-colpite: extensão da vaginite sobre a ectocérvice, e não infecção do canal — a régua dela está no capítulo de corrimento vaginal. E o colo com lesão vegetante, endurecida ou ulcerada, que sangra espontaneamente, não é infecção: sai deste capítulo e vai para a investigação de neoplasia, sem esperar preventivo.
Quem muda o limiar
A mulher com menos de 25 anos, com parceria nova ou múltipla, com parceria que tem infecção sexualmente transmissível, com outra dessas infecções agora ou no passado, ou que usa preservativo de forma irregular: são os cinco fatores do protocolo, e eles não confirmam nada — abaixam o limiar para examinar e para testar. A adolescente carrega os cinco com mais frequência, soma a ectopia biológica e tem menos acesso ao serviço; os critérios de diagnóstico e tratamento são os mesmos da adulta, e o que muda é a insistência em garantir o retorno.
A mulher vivendo com HIV tem a mesma apresentação e o mesmo tratamento; o que muda é o peso: clamídia e gonorreia podem ter evolução mais severa e mais complicações nela, e a cervicite aumenta a eliminação do vírus pelo colo. A prevalência de clamídia nesse grupo, nas séries brasileiras, varia de 2,1% a 17,6% conforme o local e o método. O rastreamento no momento do diagnóstico de HIV é regra do protocolo.
A usuária de dispositivo intrauterino com cervicite não retira o dispositivo para tratar: o documento norte-americano de 2021 recomenda deixá-lo no lugar durante o tratamento. O que não se faz é o contrário — inserir um dispositivo com cervicite ativa; os critérios de elegibilidade colocam a cervicite purulenta, a clamídia e a gonorreia atuais na categoria 4 para inserção de dispositivo de cobre, e o capítulo de contracepção de longa duração desta apostila é o dono dessa régua.
A gestante
Na gravidez a cervicite se esconde melhor: o edema e o aumento fisiológico da secreção cervical imitam sinal de doença, e a maior vascularização faz o colo sangrar ao toque sem estar infectado — o Manual de Gestação de Alto Risco registra exatamente essa armadilha. Por isso a gestante não é diagnosticada pelo espéculo: é rastreada. O protocolo nacional manda pesquisar gonococo e clamídia por biologia molecular na primeira consulta de pré-natal das gestantes com até 30 anos, e o Manual estende o desejo a todas — "idealmente, todas as gestantes deveriam ser testadas".
O que está em jogo é obstétrico e neonatal. Gonococo e clamídia na gestação se associam a parto pré-termo, ruptura prematura de membranas, perdas fetais, restrição de crescimento e endometrite puerperal; no recém-nascido, a conjuntivite é a principal manifestação, com pneumonia intersticial na clamídia e, na gonorreia, a oftalmia neonatal que pode cegar. Os documentos federais divergem sobre o tamanho do risco vertical — o protocolo fala em 30% a 50% no parto vaginal para os dois agentes; o Manual, em 60% a 70% para clamídia, com 20% a 50% de conjuntivite e 10% a 20% de pneumonia entre os expostos —, e a divergência está conferida no bloco de critérios. Nenhum deles altera a via de parto: cervicite tratada ou não tratada não é indicação de cesárea, e a profilaxia da oftalmia na primeira hora de vida é obrigação da sala de parto, não do pré-natal.
Quando não é gonococo nem clamídia
Uma parte das cervicites não tem esses dois agentes. Mycoplasma genitalium causa cervicite, doença inflamatória pélvica e desfechos obstétricos adversos, não tem parede celular — betalactâmico não o toca — e vem acumulando resistência aos macrolídeos; a moxifloxacina, que ainda o trata, não está disponível no SUS para essa indicação. Herpes genital, sobretudo na primoinfecção, faz cervicite com lesões que a inspeção reconhece. Tricomoníase faz cérvico-colpite. E em muitos casos, especialmente na mulher acima de 30 anos, nenhum agente é isolado: inflamação da zona de ectopia, irritação química por ducha, espermicida ou látex, corpo estranho.
Isso importa para a cervicite que persiste depois do tratamento. Antes de trocar antibiótico, três perguntas: houve reexposição à parceria não tratada; o esquema foi tomado; existe vaginose associada. Excluídas as três, o documento norte-americano de 2021 admite que o manejo da cervicite persistente é indefinido, que repetir ou prolongar antibiótico tem utilidade desconhecida, e que M. genitalium pode ser considerado quando a cervicite persiste após azitromicina ou doxiciclina sem reexposição plausível. A régua do capítulo, portanto, é para o primeiro episódio; o segundo episódio sem reexposição é uma pergunta, não uma segunda receita.
Como fechar o diagnóstico
A tese deste bloco é curta: na mulher com sinal de cervicite ao espéculo, o tratamento começa na mesma consulta, e nenhum exame que demore é condição para prescrever. O laboratório serve para três coisas que o exame físico não faz — dar nome ao agente, achar a assintomática e orientar a parceria e o reteste —, e essas três valem a coleta. O erro clássico é o inverso do que parece: não é pedir exame demais, é esperar por ele.
A ordem importa e não é a ordem em que os resultados chegam. Primeiro o exame especular com o teste do cotonete, que fecha a decisão de tratar. Depois o toque bimanual, que decide se o capítulo ainda é este. Depois a coleta — endocérvice ou primeiro jato de urina para biologia molecular — e o teste de gravidez, que muda uma droga. Depois os testes que vêm junto com qualquer infecção sexualmente transmissível. E, no meio disso, a primeira dose.
O espéculo e o cotonete: o exame que autoriza tratar
Introduza o espéculo sem lubrificante além de água morna, porque gel altera a amostra que vai ser colhida. Olhe primeiro o conteúdo vaginal e as paredes — são do capítulo vizinho, mas o mesmo espéculo os mostra —, depois centralize o colo e olhe o orifício externo com luz: há secreção amarelada ou esverdeada saindo do canal? Introduza um cotonete seco no orifício, gire com delicadeza e retire: a ponta que sai amarela é o teste do cotonete positivo; o sangramento que se instala e persiste depois desse toque leve é a friabilidade. Registre os dois separadamente, porque qualquer um deles autoriza a decisão.
A ectopia pede uma frase no prontuário para não virar diagnóstico errado: descreva "área de ectopia ao redor do orifício, sem muco-pus, sem sangramento ao toque" quando for o caso. É a descrição que impede a próxima consulta de tratar um colo normal.
O bimanual fecha o exame e decide a fronteira. Dois dedos na vagina, a outra mão no hipogástrio: mobilize o colo para um lado e para o outro observando o rosto da paciente, palpe cada anexo, aprecie o fundo de saco posterior. Dor à mobilização do colo, dor anexial e dor no hipogástrio são os três critérios maiores da doença inflamatória pélvica; com um critério menor — e a secreção endocervical anormal que você acabou de ver é um deles —, o diagnóstico está fechado e a régua deixa de ser esta. A cervicite se trata com uma injeção e dois comprimidos; a doença inflamatória pélvica, com catorze dias de três drogas. Pular o toque é o jeito mais comum de subtratar uma DIP com receita de cervicite.
Biologia molecular: o exame que dá nome ao agente
A detecção do material genético de C. trachomatis e N. gonorrhoeae por biologia molecular é o método de escolha para todos os casos, sintomáticos e assintomáticos — é a frase do protocolo. Os testes de amplificação de ácidos nucleicos aceitam swab de endocérvice, swab vaginal inclusive autocoletado e primeiro jato de urina, com resultados semelhantes, e são mais sensíveis que a cultura em todos os sítios. A autocoleta vaginal e a urina resolvem um problema real: a mulher que não aceita o espéculo, a unidade sem mesa ginecológica livre, a adolescente que veio sozinha. O exame está previsto no SUS como procedimento de média complexidade, sob o código 02.02.03.099-7, e sua disponibilidade é desigual entre regiões.
O que ele muda. Na mulher com sinal de cervicite, o resultado não muda a receita de hoje — os dois agentes já foram tratados —, mas muda três coisas de amanhã: define para a parceria qual infecção ela tem, autoriza dizer à paciente o nome do que foi tratado, e é o único jeito de a assintomática entrar na estatística. Na mulher sem sinal e com risco, ele é a decisão inteira: colhe-se, e trata-se o que vier. E na gestante ele é rastreamento de rotina, não investigação de queixa.
A cultura em meio seletivo de Thayer-Martin modificado, a partir de amostra endocervical, tem uma indicação que a biologia molecular não substitui: o antibiograma. Falha terapêutica em gonorreia — sintomas que persistem de três a cinco dias após o tratamento sem contato sexual, ou teste de cura positivo — pede cultura com teste de sensibilidade antes de qualquer nova receita, porque é assim que a resistência de um isolado real vira dado de vigilância.
Sorologia para clamídia não diagnostica cervicite: serve para infecção sistêmica passada, linfogranuloma, pneumonia do lactente, investigação de infertilidade — e é inapropriada para infecção urogenital. Pedi-la aqui produz um número sem uso.
O que se testa junto
Toda cervicite é uma infecção sexualmente transmissível até prova em contrário, e o protocolo lista o que acompanha qualquer uma delas: oferta de testagem para HIV, sífilis e hepatites B e C, com teste rápido quando disponível; oferta de vacinação para hepatites A e B e para HPV quando indicada; oferta de testagem molecular para clamídia e gonococo; informação sobre prevenção combinada. Isso se faz na mesma consulta, porque a consulta de hoje é a única garantida. O manejo de um teste reagente para sífilis na gestante pertence ao capítulo de sífilis na gestação, e o de HIV na gestação ao capítulo próprio, ambos na apostila de Obstetrícia; fora da gestação, o encaminhamento do resultado reagente segue a rede local de referência — este nível de ensino não tem capítulo próprio para o manejo da sífilis e do HIV no adulto não gestante, e este capítulo assume apenas a oferta do teste e a garantia de que o resultado seja lido.
Teste de gravidez em toda mulher em idade fértil antes da receita. Não porque a cervicite sugira gestação, mas porque a gravidez proíbe a doxiciclina, muda o seguimento e transforma um achado de cervicite em risco obstétrico. O teste rápido de urina responde em minutos e custa menos que o erro.
E o outro compartimento: pH vaginal, teste das aminas e microscopia a fresco, quando houver, no mesmo exame — vaginose bacteriana e tricomoníase coexistem com cervicite e são tratadas se detectadas, com as réguas do capítulo de corrimento vaginal. A microscopia tem uma leitura adicional aqui: a leucorreia, definida como mais de dez leucócitos por campo de grande aumento no conteúdo vaginal, tem alto valor preditivo negativo para cervicite — sem leucorreia, cervicite é improvável. Serve para duvidar, não para confirmar.
O que não pedir, e o que custa pedir
Não peça citologia oncótica para diagnosticar cervicite. O exame preventivo não é exame diagnóstico de infecção, tem baixa sensibilidade para clamídia, e a coleta com o colo inflamado e sangrando produz um esfregaço de má qualidade — o capítulo de rastreamento do câncer do colo desta apostila é explícito em tratar a colpite antes de nova coleta. Diante de muco-pus, a ordem é tratar hoje e coletar o preventivo depois, se estiver em atraso. E o campo de microbiologia de um laudo antigo dizendo "sugestivo de Chlamydia" não é diagnóstico nem receita automática: é motivo para examinar a mulher e colher biologia molecular, que é o método de escolha.
Não peça bacterioscopia de secreção endocervical pelo Gram esperando decidir por ela: na mulher, a sensibilidade para o diplococo intracelular é de cerca de 50%, e a contagem de leucócitos no esfregaço endocervical não é padronizada, tem baixo valor preditivo positivo e não existe na maior parte dos serviços. Não peça cultura de secreção vaginal inespecífica, que devolve comensais. Não peça hemograma, proteína C reativa ou ultrassonografia para cervicite sem sinal de trato superior: nenhum deles responde à pergunta. Se o bimanual doeu, a régua de imagem passa a ser a do capítulo de doença inflamatória pélvica.
E não espere o resultado da biologia molecular para tratar quem tem sinal. O protocolo é literal ao dizer que, quando os resultados não estão disponíveis imediatamente, a conduta terapêutica não deve ser postergada até a entrega deles. A mulher com cervicite que sai com pedido de exame e sem receita é a que não volta.
O diferencial mora no exame
A lista de diferenciais é curta e cada um tem um gesto que o separa. Cistite e uretrite: exame de urina com leucócitos e nitrito negativo, sem polaciúria e sem febre, em mulher jovem com parceria nova, empurra para uretrite — e o espéculo decide. Vaginose, candidíase e tricomoníase: paredes e conteúdo vaginal, pH e aminas, sem muco-pus no orifício — o capítulo de corrimento. Doença inflamatória pélvica: o bimanual. Neoplasia de colo: lesão visível, sangramento espontâneo e persistente, colo endurecido — encaminhamento com hipótese escrita. Herpes: vesículas e úlceras, que o capítulo futuro de úlceras genitais vai cobrir. Sangramento uterino anormal de outra causa: o capítulo de sangramento uterino anormal, quando o colo está normal e o sangramento não é de contato.
Um diferencial que não é doença precisa de nome: o sangramento de escape da usuária de anticoncepcional de baixa dosagem. Ele é comum e quase sempre banal — mas o exame que o declara banal é o mesmo espéculo, e a frase "escape da pílula" não pode ser escrita sem que alguém tenha olhado o colo.
O que existe no SUS, e o que fazer quando não existe
Espéculo, foco de luz, cotonete, luva e teste rápido de gravidez existem em qualquer unidade que atenda mulheres, e com eles a decisão de tratar se toma. Testes rápidos para HIV e sífilis e sorologias de hepatites estão na rede básica. A ceftriaxona em frascos de 250 mg, 500 mg e 1 g e a azitromicina em comprimido de 500 mg estão no componente básico da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024 — a farmácia da unidade as tem ou deveria ter. A doxiciclina de 100 mg está no componente estratégico: não fica na prateleira comum, e a alternativa quando ela falta é buscar o componente estratégico, não trocar de droga por conveniência.
A biologia molecular para clamídia e gonococo está incorporada e tem acesso desigual. Onde não há, o fluxograma foi desenhado para funcionar sem ela: sinal de cervicite trata, sem exame. O que se perde é a assintomática — e ela só se recupera com duas coisas que não dependem de laboratório: perguntar pela parceria com sintoma e tratar toda parceria de caso tratado. Onde há, a assintomática entra na conta, e o serviço passa a enxergar a doença que trata.
O que não existe no elenco importa tanto quanto o que existe: cefixima, espectinomicina e gentamicina injetável — as alternativas à ceftriaxona nos documentos internacionais — não constam da Relação de 2024. Na rede pública, a alternativa à ceftriaxona é a cefotaxima de 500 mg, também no componente básico. E existe uma presença que engana: o ciprofloxacino de 500 mg continua no componente básico, para outras indicações. A caixa está na farmácia, o documento de 2016 que o recomendava para gonorreia ainda circula na internet, e a resistência que o tirou do protocolo era de 55,6% em 2015 e de 67,3% em 2020. A prateleira não sabe disso; quem prescreve precisa saber.
Do sinal ao esquema, na mesma consulta
A cervicite é uma das decisões mais rápidas da ginecologia e uma das mais mal executadas, porque a parte rápida — a receita — é a menor parte. O fluxo abaixo é a ordem em que a consulta acontece quando ela acontece inteira: o exame que autoriza, a fronteira que muda de capítulo, a coleta que dá nome ao agente, a dose aplicada na sua frente, a parceria, os testes que vêm junto e as datas escritas. As tabelas comparam as três réguas que o interno vai encontrar na literatura — a brasileira, a da Organização Mundial da Saúde e a norte-americana —, separam os três andares do mesmo sintoma, resumem o que muda na gestante e convertem cada dose em frasco, mililitro e comprimido. As notas registram o que foi conferido nos documentos oficiais e o que não fechou.
- 1Ouça a queixa com a tradução pronta: disúria sem polaciúria e sem febre, sangramento após a relação, escape fora de data em mulher jovem com parceria nova — cada uma dessas frases é motivo de espéculo, não de receita.
- 2Introduza o espéculo sem gel. Olhe o orifício externo com luz e faça o teste do cotonete: secreção mucopurulenta no canal ou na ponta do swab, ou sangramento fácil e sustentado ao toque delicado, e a decisão de tratar está tomada. Descreva a ectopia como ectopia quando for só isso.
- 3Faça o toque bimanual antes de tirar a luva. Dor à mobilização do colo com dor anexial ou hipogástrica muda o capítulo: é doença inflamatória pélvica, com esquema de catorze dias e critérios de internação próprios. Sem dor, a paciente fica aqui.
- 4Colha antes de tratar, sem esperar para tratar: swab de endocérvice ou vaginal, ou primeiro jato de urina, para biologia molecular de clamídia e gonococo; pH e teste das aminas para o outro compartimento; teste rápido de gravidez em toda mulher em idade fértil.
- 5Aplique a ceftriaxona 500 mg por via intramuscular ali, e veja a paciente engolir os dois comprimidos de azitromicina. Receita para aplicar depois é dose que não acontece.
- 6Com gestação confirmada, mantenha o mesmo esquema e risque a doxiciclina de qualquer alternativa. Com dor ao bimanual, esqueça este esquema: ele não trata doença inflamatória pélvica.
- 7Trate a parceria pelo caso-índice, não pelo sintoma dela: toda parceria dos últimos 60 dias recebe o mesmo esquema, preferencialmente de forma presencial, com o cartão de comunicação do protocolo e sem coerção.
- 8Ofereça, na mesma consulta, testagem para HIV, sífilis e hepatites B e C, vacinação para hepatite B e HPV quando indicada, e a conversa de prevenção combinada. É o momento garantido.
- 9Escreva na receita a abstinência por sete dias após o tratamento dos dois e até a resolução dos sintomas, a data do retorno em uma a duas semanas e o reteste em três meses.
- 10Registre no prontuário o que foi visto e o que foi tratado, com estas palavras: cervicite, tratada para gonococo e clamídia. É esse registro que, daqui a dez anos, vai explicar um achado de trompa — ou vai provar que ele não veio daqui.
Três réguas para o mesmo colo — o que cada documento manda
| Decisão | Brasil — PCDT de IST (2021/2022) | OMS — recomendações de 2024 | CDC — diretriz de 2021 |
|---|---|---|---|
| Gonococo não complicado (colo, uretra, reto, faringe) | Ceftriaxona 500 mg IM dose única MAIS azitromicina 500 mg, 2 comprimidos VO, dose única | Ceftriaxona 1 g IM dose única, isolada (recomendação condicional, certeza baixa) | Ceftriaxona 500 mg IM dose única, isolada; 1 g se peso igual ou maior que 150 kg |
| Clamídia fora da gestação | Azitromicina 1 g VO dose única OU doxiciclina 100 mg VO 12/12 h por 7 dias | Doxiciclina 100 mg VO 12/12 h por 7 dias em primeiro lugar; azitromicina 1 g como alternativa | Doxiciclina 100 mg VO 12/12 h por 7 dias; azitromicina 1 g como alternativa |
| Clamídia na gestação | Azitromicina 1 g VO dose única; doxiciclina contraindicada | Azitromicina 1 g VO dose única (recomendação forte); amoxicilina 500 mg 8/8 h por 7 dias como alternativa | Azitromicina 1 g VO dose única; amoxicilina 500 mg 8/8 h por 7 dias como alternativa; eritromicina não é mais recomendada |
| Cervicite com sinal e sem resultado de teste | Tratar gonorreia e clamídia na mesma consulta | Tratar gonorreia e clamídia se o especular mostra cervicite; sem especular, tratar todas com corrimento e alto risco | Doxiciclina por 7 dias; acrescentar tratamento de gonococo se houver risco ou prevalência alta local |
| Sem ceftriaxona disponível | O quadro nacional não traz alternativa para a infecção não complicada | Cefixima 800 mg VO; espectinomicina 2 g IM ou gentamicina 240 mg IM, cada uma com azitromicina 2 g VO | Gentamicina 240 mg IM com azitromicina 2 g VO; ou cefixima 800 mg VO |
| Parceria | Mesmo esquema do caso-índice, sintomática ou não, preferencialmente presencial; janela de 2 meses no capítulo de DIP | Notificação e tratamento das parcerias como parte do cuidado | Todas as parcerias dos 60 dias anteriores; terapia expedita entregue ao caso-índice quando a lei permite |
| Abstinência | Suspender relações durante o tratamento | Sete dias após o tratamento | Sete dias após dose única ou ao fim do esquema de 7 dias, e até resolução dos sintomas dos dois |
| Reteste | Não fixa prazo para a cervicite; controle pós-tratamento após 30 dias na gestante | Não é objeto das recomendações de tratamento | Reteste em 3 meses após o tratamento, tratada ou não a parceria |
| Base de vigilância citada | SenGono: ceftriaxona e cefixima 100% sensíveis; ciprofloxacino abandonado | Vigilância global com resistência crescente a cefalosporinas e azitromicina | Vigilância nacional norte-americana com queda da suscetibilidade à azitromicina |
O mesmo sintoma em três andares — o que separa vagina, colo e trato superior
| Vagina — corrimento vaginal | Colo — cervicite | Útero e anexos — doença inflamatória pélvica | |
|---|---|---|---|
| Agentes principais | Vaginose bacteriana, Candida, Trichomonas | Chlamydia trachomatis e Neisseria gonorrhoeae | Os mesmos dois, mais anaeróbios e flora vaginal que subiram |
| Epitélio acometido | Escamoso estratificado | Colunar simples do canal endocervical | Endométrio, tuba, peritônio pélvico |
| Sinal que decide | Aspecto do conteúdo, paredes, pH e teste das aminas | Muco-pus no orifício e sangramento fácil ao cotonete | Dor à mobilização do colo, dor anexial, dor hipogástrica |
| Exame que separa | Espéculo, fita de pH e hidróxido de potássio | Espéculo e cotonete no orifício | Toque bimanual |
| Duração do esquema | Um a sete dias, conforme a causa | Dose única de duas drogas | Catorze dias de três drogas, ambulatorial ou internada |
| Parceria | Só na tricomoníase | Sempre, sintomática ou não | Sempre, parcerias dos dois meses anteriores |
| Sequela se não tratar | Recorrência e desconforto | Doença inflamatória pélvica, infertilidade, ectópica, dor crônica | Infertilidade em 9% a 20%, ectópica, dor pélvica crônica |
| Capítulo desta apostila | Corrimento vaginal | Este | Doença inflamatória pélvica |
A gestante — o que muda e o que não muda
| Situação | Conduta | Fonte e observação |
|---|---|---|
| Rastreamento | Biologia molecular para clamídia e gonococo na primeira consulta de pré-natal, nas gestantes com até 30 anos; o Manual diz que, idealmente, todas seriam testadas | PCDT de IST, Quadro 5; Manual de Gestação de Alto Risco, seção 32.5.1 |
| Diagnóstico pelo exame | Menos confiável: edema e vascularização gestacionais produzem sangramento ao toque sem infecção | Manual de Gestação de Alto Risco, seção 32.5.1 |
| Gonococo | Ceftriaxona 500 mg IM dose única MAIS azitromicina 1 g VO dose única — o mesmo esquema de fora da gestação | PCDT de IST, Quadro 31; Manual, seção 32.5.2 |
| Clamídia | Azitromicina 1 g VO dose única; doxiciclina contraindicada; amoxicilina 500 mg 8/8 h por 7 dias é alternativa nos documentos internacionais | PCDT de IST; OMS 2024; CDC 2021 |
| Parceria | Tratamento simultâneo com o mesmo esquema da gestante; a parceria de gestante é prioridade de busca ativa | Manual, seção 32.5.2; PCDT de IST, seção 3.1 |
| Controle de cura | Exame de controle após um período mínimo de 30 dias; novo teste em três meses nas gestantes com fatores de risco | Manual, seção 32.5.2 |
| Via de parto e recém-nascido | A cervicite não altera a via de parto; profilaxia da oftalmia neonatal na primeira hora de vida | Manual, seção 32.5.2; PCDT de IST, Quadro 32 |
| Sinais de trato superior | Toda gestante com suspeita de DIP é internada e recebe antibiótico intravenoso de amplo espectro | PCDT de IST, seção 10.7 |
Da receita à farmácia — mg, mL, frasco e comprimido (doses fixas; o peso só entra no corte de 150 kg do CDC)
| Prescrição | Apresentação real | Conta | Onde está |
|---|---|---|---|
| Ceftriaxona 500 mg IM | Frasco-ampola de 500 mg com ampola de lidocaína 1% de 2 mL | 500 mg em 2 mL = 250 mg/mL; aplicar os 2 mL, injeção profunda no glúteo | Rename 2024, componente básico |
| Ceftriaxona 500 mg com frasco de 1 g | Frasco-ampola de 1 g com ampola de lidocaína 1% de 3,5 mL | Volume para 500 mg = 500 ÷ concentração final (mg/mL). Em frasco de 1 g corretamente reconstituído, corresponde à metade do volume final; conferir a bula, pois 3,5 mL de diluente não significam 3,5 mL finais. | Rename 2024, componente básico |
| Ceftriaxona 1 g IM (OMS 2024) | Frasco-ampola de 1 g em 3,5 mL de lidocaína 1% | Para a dose de 1 g deste esquema, administrar o conteúdo total reconstituído conforme a bula IM; o volume final é o informado pelo fabricante, não necessariamente 3,5 mL. | Rename 2024, componente básico |
| Azitromicina 1 g VO | Comprimido de 500 mg | 2 comprimidos, de uma vez | Rename 2024, componentes básico e estratégico |
| Azitromicina 2 g VO (alternativas internacionais) | Comprimido de 500 mg | 4 comprimidos, de uma vez | Rename 2024; a dose dobrada é a anti-gonocócica |
| Doxiciclina 100 mg 12/12 h por 7 dias | Comprimido de 100 mg | 14 comprimidos; 1,4 g no curso | Rename 2024, componente estratégico — não está na prateleira comum |
| Amoxicilina 500 mg 8/8 h por 7 dias (gestante, alternativa internacional) | Cápsula ou comprimido de 500 mg | 21 unidades; 10,5 g no curso | Rename 2024, componente básico |
| Cefixima 800 mg, espectinomicina 2 g, gentamicina 240 mg IM | Não constam | Sem conta possível na rede pública | Ausentes da Rename 2024 |
| Ciprofloxacino 500 mg VO | Comprimido de 500 mg | Não prescrever para gonorreia: 55,6% de resistência em 2015–2016 e 67,3% em 2018–2020 | Rename 2024, componente básico — está na farmácia para outras indicações |
A dose da ceftriaxona foi conferida nas três réguas e não coincide: 500 mg no protocolo brasileiro e no documento norte-americano de 2021, 1 g nas recomendações da OMS de 2024 — fator 2 entre elas, e fator 2 de novo entre os 250 mg que o CDC usava até 2020 e os 500 mg atuais. O documento norte-americano explica a própria escalada: 250 mg curam mais de 99% das infecções anogenitais por isolados com concentração inibitória mínima de 0,03 microgramas por mililitro, mas o efeito exige concentração acima da mínima do isolado por cerca de 24 horas, e 500 mg a sustentam por aproximadamente 50 horas. O Brasil chegou a 500 mg por outro caminho: o consenso que apresenta o protocolo registra que a dose foi definida pela Conitec em 2015 com base em avaliação de custo e impacto financeiro em relação aos 250 mg, e não pela resistência — que, para as cefalosporinas, era e continua sendo zero nas duas rodadas de vigilância.
A azitromicina aparece com duas doses para indicações diferentes, e a diferença precisa ser lida como tal. O 1 g do esquema brasileiro é a dose que trata clamídia; os 2 g das alternativas internacionais — com cefixima, espectinomicina ou gentamicina — são a dose com ação anti-gonocócica que compensa a droga mais fraca. Conta: 1 g são 2 comprimidos de 500 mg; 2 g são 4. Prescrever 2 g dentro do esquema brasileiro dobra a intolerância gástrica sem cobrir nada que a ceftriaxona já não cubra; prescrever 1 g numa alternativa sem ceftriaxona deixa o gonococo subtratado.
Vigilância brasileira, conferida nos dois artigos originais: ciprofloxacino resistente em 55,6% de 550 isolados de sete cidades em 2015–2016 e em 67,3% de 633 isolados de doze cidades em 2018–2020 — 11,7 pontos a mais em quatro anos. Azitromicina: 6,9% e 10,6% — o texto do artigo de 2022 fala em 10,9% na comparação com a rodada anterior e a tabela em 10,6%, diferença de 0,3 ponto que o próprio documento não explica e que fica registrada sem resolução; de qualquer modo, uma alta de mais da metade em termos relativos. Ceftriaxona: 0% nas duas rodadas; cefixima, 0% e 0,3%. Gentamicina e espectinomicina: 0% em 2018–2020. A terceira rodada estava anunciada para 2025 e, em abril de 2026, o laboratório de referência divulgava que a diretriz nacional "está em fase de atualização e poderá alinhar-se às recomendações internacionais" para terapia só com ceftriaxona — o esquema deste capítulo é o vigente hoje, e o leitor precisa conferir se ele mudou.
O corte de idade que define risco não é um só dentro do mesmo protocolo. O fluxograma de cervicite e o texto da seção 7.2 usam idade inferior a 25 anos; o fluxograma de corrimento vaginal e o de manejo das síndromes usam idade abaixo de 30 anos; e o Quadro 5 do rastreamento rastreia gestantes com até 30 anos, enquanto o consenso dos autores do protocolo escreve "menos de 30 anos". A gestante de exatamente 30 anos pertence a duas classes conforme o documento aberto. Este capítulo usa 25 anos como fator de risco clínico e 30 anos, inclusive, como corte de rastreamento na gestante — e registra que a escolha entre "até 30" e "menos de 30" é do leitor do quadro, não do protocolo.
A janela para convocar parcerias tem três prazos em documentos brasileiros para a mesma obrigação: 60 dias no protocolo de atenção básica de 2016, dois meses no capítulo de doença inflamatória pélvica do protocolo nacional, e "idealmente seis meses" no consenso de 2021 que apresenta o capítulo de cervicite do mesmo protocolo — fator 3 entre a menor e a maior. A seção de cervicite do protocolo não fixa prazo nenhum. O documento norte-americano usa 60 dias. Este capítulo adota 60 dias como piso obrigatório e trata os seis meses como o que o consenso chama: o ideal, quando a paciente consegue nomear e o serviço consegue alcançar.
Os prazos de retorno e reteste divergem entre os documentos federais e, uma vez, dentro do mesmo documento. Falha terapêutica: "três a cinco dias após o tratamento" no consenso e "cinco dias após o término" no Manual de Gestação de Alto Risco. Controle de cura: quatro semanas após concluir a terapia, por teste molecular, no consenso, e "período mínimo de 30 dias" no Manual — 28 contra 30 dias, praticamente o mesmo prazo. Reinfecção: três meses no Manual para gestantes com fatores de risco e no documento norte-americano para todas; três a seis meses no consenso para menores de 25 anos. O protocolo, na uretrite, manda voltar entre sete e dez dias após o término do tratamento. Este capítulo escreve na receita: retorno em uma a duas semanas, controle de cura só na gestante ou na falha, reteste em três meses para todas.
A transmissão vertical da clamídia tem duas faixas federais que não se tocam: o protocolo nacional escreve que, no parto vaginal, o risco fica entre 30% e 50% tanto para gonococo quanto para clamídia; o Manual de Gestação de Alto Risco escreve que a possibilidade de transmissão vertical da clamídia é de 60% a 70%, com 20% a 50% dos expostos desenvolvendo conjuntivite e 10% a 20%, pneumonia. Conta: o teto de um (50%) fica abaixo do piso do outro (60%). Para a decisão de rastrear e tratar, as duas faixas apontam para o mesmo lado; para a conversa com a gestante, este capítulo diz "uma parte grande dos bebês expostos" e não escolhe número.
As duas frequências de assintomáticas do protocolo foram lidas na mesma seção 7.2: "em torno de 70% a 80%" e "até 93,3%". Não é contradição, é regra e teto: o primeiro número descreve a proporção habitual; o segundo, o máximo encontrado nos estudos de rastreamento que o protocolo cita para justificar a frase seguinte, a de que o diagnóstico sindrômico não serve para aplicação em massa. Já os "60% a 80%" de dor à manipulação, muco turvo e friabilidade têm outro denominador — os casos sintomáticos — e não podem ser somados aos anteriores.
O Quadro 32 do protocolo, sobre oftalmia neonatal, traz na mesma linha "25–50 mg/kg/dia, IM, no máximo 125 mg em dose única" — por dia e dose única na mesma prescrição, o que exige ler como dose única calculada por peso. E o teto declarado é atingido dentro da própria faixa: a 50 mg/kg, 125 mg correspondem a 2,5 kg; a 25 mg/kg, a 5 kg. Todo recém-nascido a termo de 3 a 4 kg prescrito no topo da faixa bate no teto. É assunto do berçário, não deste capítulo, mas o interno que aplica a profilaxia na sala de parto precisa saber que a linha pede conta antes de ser copiada.
Conferência do elenco, por busca exata sobre o texto normalizado da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024: ceftriaxona em pó para solução injetável de 250 mg, 500 mg e 1 g no componente básico; azitromicina 500 mg comprimido nos componentes básico e estratégico; cloridrato de doxiciclina 100 mg comprimido apenas no componente estratégico; amoxicilina 500 mg no básico; cefotaxima 500 mg no básico; ciprofloxacino 250 mg e 500 mg no básico. Não constam cefixima, espectinomicina nem gentamicina em apresentação injetável — só as formas oftálmicas de gentamicina —, de modo que nenhuma das alternativas internacionais à ceftriaxona é obtível na rede pública. A única eritromicina do elenco é o estolato, sal que os documentos internacionais não usam na gestante; o CDC deixou de recomendar eritromicina na gravidez em 2021 pela intolerância gástrica e por associação com desfechos adversos na criança.
O esquema abandonado ainda está impresso em documentos que circulam. O Protocolo Febrasgo de Ginecologia nº 2, de 2018, publicado na Femina em 2019, lista como tratamento da infecção gonocócica "ciprofloxacino 500 mg, VO, dose única, mais azitromicina" em primeiro lugar, com a ceftriaxona como alternativa, e restringe o ciprofloxacino apenas ao Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo — baseado no protocolo do Ministério de 2016, quando a nota informativa de 2017 já havia retirado a quinolona de todo o território e a resistência nacional medida era de 55,6%. O protocolo de atenção básica de 2016, ainda hospedado na biblioteca virtual do Ministério, traz "ciprofloxacina 500 mg, VO, dose única OU ceftriaxona 500 mg IM" e, como alternativa, cefotaxima 1.000 mg IM — o dobro dos 500 mg que o documento norte-americano cita para a cefotaxima. Nenhum dos dois foi formalmente revogado; os dois estão superados pela Portaria SCTIE/MS nº 12/2021.
Duas erratas foram encontradas e lidas. O consenso brasileiro de 2021 sobre cervicite publicou errata corrigindo a sua Figura 2: a versão original trazia, dentro da tabela de gonorreia e clamídia, uma linha de manutenção com fluconazol e miconazol que pertencia à tabela de candidíase — frase de outra tabela colada, sem alteração de dose dos esquemas de gonococo e clamídia. O documento norte-americano de 2021 teve errata em janeiro de 2023 que reformulou a caixa de esquemas alternativos da infecção gonocócica, corrigiu a seção de infecção disseminada e a frase sobre cervicite na gestação; a cópia usada neste capítulo é a versão corrigida, identificada como tal no cabeçalho. Erratas do protocolo nacional e do Manual de Gestação de Alto Risco não foram encontradas.
A conduta, hora a hora
Procurar secreção endocervical e friabilidade e avaliar dor pélvica, gravidez e sinais de infecção ascendente. Colher teste etiológico quando disponível e tratar conforme suspeita, risco e possibilidade de retorno, seguindo o esquema brasileiro detalhado abaixo. Programar avaliação de resposta e reteste quando indicado; sintomas persistentes exigem nova investigação.
Os esquemas abaixo são os do Quadro 31 do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com IST, anexo da Portaria SCTIE/MS nº 12/2021, na versão disponível no portal do Ministério da Saúde após a alteração de julho de 2024, idênticos aos da edição em livro de 2022. As apresentações e os volumes de reconstituição vêm da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024 e da bula aprovada da ceftriaxona intramuscular. As regras da gestante seguem o Manual de Gestação de Alto Risco de 2022 e o Quadro 5 do protocolo.
Uma regra atravessa todos os marcos: o tratamento da cervicite tem quatro partes — a injeção, os comprimidos, a parceria e os testes que vêm junto —, e uma receita que entrega só as duas primeiras é meio tratamento. A reinfecção pela parceria não tratada é a causa mais provável de a mesma mulher voltar com o mesmo colo.
E uma advertência sobre o que este esquema não faz: dose única de ceftriaxona com azitromicina não trata doença inflamatória pélvica. Se o bimanual doeu, o capítulo é outro e o esquema tem catorze dias.
Minuto 0 a 10 — antes de qualquer receita
Nada é prescrito antes de olhar o colo e de tocar os anexos. O que se faz nesses minutos é o exame especular com o teste do cotonete, o toque bimanual, as coletas e o teste de gravidez — e é aqui que se decide se a paciente é deste capítulo, do capítulo de corrimento vaginal ou do capítulo de doença inflamatória pélvica.
Prescrição- Exame especular sem lubrificante além de água: inspeção do orifício externo com luz e teste do cotonete; descrição separada de muco-pus e de sangramento ao toque
- Toque bimanual com mobilização do colo e palpação dos anexos, observando o rosto da paciente
- Coleta para biologia molecular de Chlamydia trachomatis e Neisseria gonorrhoeae: swab de endocérvice, swab vaginal (inclusive autocoletado) ou primeiro jato de urina
- pH vaginal com fita na parede lateral e teste das aminas com hidróxido de potássio a 10%; microscopia a fresco se houver
- Teste rápido de gravidez em toda mulher em idade fértil
- Testes rápidos para HIV e sífilis e sorologias de hepatites B e C, oferecidos e colhidos nesta consulta
Ainda na consulta — a receita por extenso, com a primeira dose aplicada na sua frente
Vale para a mulher com sinal de cervicite ao espéculo — muco-pus, teste do cotonete positivo ou friabilidade — e bimanual sem dor, gestante ou não. A ceftriaxona é aplicada na unidade, agora; a azitromicina é engolida diante de quem prescreveu. Os dois agentes são tratados juntos porque a abordagem sindrômica não separa um do outro, e porque coinfecção é comum.
Prescrição- Ceftriaxona 500 mg, via intramuscular, dose única, aplicada no serviço — frasco-ampola de 500 mg reconstituído nos 2 mL de lidocaína a 1% que acompanham a embalagem, injeção profunda no glúteo
- MAIS azitromicina 500 mg, 2 comprimidos por via oral, dose única (1 g), tomados na frente do prescritor
- Se só houver frasco de 1 g, reconstituir para uso IM conforme a bula da apresentação disponível. O volume de diluente não é o volume final: o pó desloca volume. Para administrar 500 mg, aspirar metade do volume final da solução homogênea, calculado pela concentração final informada pelo fabricante; conferir com a farmácia e desprezar o restante conforme protocolo. Não presumir que 1,75 mL contenha 500 mg apenas porque foram adicionados 3,5 mL. Solução com lidocaína nunca deve ser administrada por via intravenosa.
- Alternativa à azitromicina, fora da gestação e da lactação: doxiciclina 100 mg, 1 comprimido por via oral de 12 em 12 horas, por 7 dias — 14 comprimidos. Está no componente estratégico, não na prateleira comum
- Não há, no quadro nacional, alternativa à ceftriaxona para a infecção não complicada. Alergia grave a betalactâmico é motivo de discussão com a referência em infecções sexualmente transmissíveis, não de troca por quinolona
- NÃO prescrever ciprofloxacino, ofloxacino ou qualquer quinolona para gonorreia, e não usar azitromicina isolada como tratamento de cervicite com sinal
Ainda na consulta — a parceria é a segunda metade da receita
A parceria sexual recebe o mesmo esquema do caso-índice, sintomática ou não, e deve ser considerada portadora da mesma infecção ao chegar ao serviço — é a frase do protocolo. O tratamento é preferencialmente presencial, com oferta de testes para as outras infecções, e a comunicação segue os princípios do capítulo 3 do protocolo: confidencial, voluntária, sem coerção e sem discriminação. O cartão de comunicação existe para isso.
Prescrição- Toda parceria dos últimos 60 dias, sintomática ou não: ceftriaxona 500 mg via intramuscular MAIS azitromicina 1 g via oral, ambas em dose única — idealmente parcerias dos últimos seis meses, quando a paciente consegue nomeá-las
- Cartão de comunicação a parcerias (Anexo A do protocolo): parte A retida na unidade, parte B entregue ao caso-índice, um cartão por parceria; comunicação por correspondência ou telefone se a parceria não comparecer em 15 dias; busca ativa como último recurso
- Parceria que chega com o cartão: tratar como portadora da mesma infecção, sem exigir exame para prescrever, e oferecer testagem para HIV, sífilis e hepatites B e C
- Abstinência sexual até sete dias após o tratamento dos dois e até a resolução dos sintomas — e não apenas uso de preservativo nesse período
- Preservativo depois disso, e a frase de que a infecção pode ficar meses sem sintoma, para que o tratamento do parceiro não vire acusação
Ainda na consulta — o que sai junto com a receita
Toda infecção sexualmente transmissível é porta de entrada para o resto, e o protocolo lista as orientações gerais que acompanham qualquer uma delas. Nada disso é encaminhamento para outra consulta: é conduta desta.
Prescrição- Testagem para HIV, sífilis e hepatites B e C, com teste rápido quando disponível, e leitura do resultado com a paciente
- Vacinação para hepatite B e para HPV conforme o calendário vigente, e para hepatite A quando indicada
- Prevenção combinada: preservativo, informação sobre profilaxia pré-exposição ao HIV quando houver indicação, e o encaminhamento que o serviço tiver
- Notificação: clamídia e gonorreia não são de notificação compulsória nacional; sífilis e HIV são. Se o estado ou o município notifica, notificar
- Registro no prontuário com estas palavras: cervicite — muco-pus e friabilidade ao espéculo, bimanual sem dor, tratada para gonococo e clamídia; parceria comunicada
- Data e hora do retorno escritas na receita: uma a duas semanas
A gestante — mesmo esquema, uma proibição e dois prazos a mais
Na gestante o diagnóstico vem quase sempre do rastreamento, não do sintoma. O esquema é o mesmo; a doxiciclina sai de todas as alternativas; o controle de cura e o reteste entram. O que está em jogo é o parto pré-termo, a ruptura de membranas e o recém-nascido.
Prescrição- Gonococo na gestante: ceftriaxona 500 mg via intramuscular dose única MAIS azitromicina 1 g via oral dose única
- Clamídia na gestante: azitromicina 1 g via oral dose única; amoxicilina 500 mg de 8 em 8 horas por 7 dias (21 unidades) é a alternativa dos documentos internacionais
- NÃO prescrever doxiciclina nem quinolona na gestação e na lactação
- Parceria tratada simultaneamente com o mesmo esquema; a parceria de gestante tem prioridade de busca ativa
- Exame de controle de cura após um período mínimo de 30 dias; novo teste três meses depois nas gestantes com fatores de risco
- Sem mudança na via de parto; profilaxia da oftalmia neonatal na primeira hora de vida é obrigação da sala de parto e deve constar na caderneta
- Qualquer dor à mobilização do colo ou dor anexial na gestante é suspeita de doença inflamatória pélvica: internação e antibiótico intravenoso, pelo capítulo próprio
Ainda na consulta — quando o colo está normal e o risco não está
A mulher jovem com parceria nova, ou a parceria de um homem com uretrite, pode ter o colo normal ao espéculo e clamídia na endocérvice. Aqui o exame físico não autoriza nem proíbe: quem decide é o teste. Onde ele não existe e a paciente não vai voltar, a decisão é a do bloco de divergências, e precisa ser tomada com esse nome.
Prescrição- Colo normal, com risco ou indicação de rastreamento: colher biologia molecular (endocérvice, vaginal ou urina) e tratar conforme o resultado; garantir o contato para a devolutiva
- Parceria de pessoa com diagnóstico confirmado de gonorreia ou clamídia: tratar com o mesmo esquema, sem esperar teste
- Sem biologia molecular disponível, colo normal, risco alto e retorno improvável: registrar a decisão de tratar ou de não tratar com o motivo — é a zona em que os documentos divergem
Semana 1 a 2 — o retorno que fecha o caso ou o reabre
Sintoma de cervicite pode levar até sete dias após o fim do tratamento para resolver. O retorno serve para conferir a resolução, ler a biologia molecular, confirmar que a parceria tomou a medicação e agir sobre os testes que vieram junto. A cervicite que persiste sem reexposição é uma pergunta, não uma segunda receita.
Prescrição- Reexaminar o colo: muco-pus e friabilidade devem ter desaparecido; refazer o bimanual
- Ler o resultado da biologia molecular e comunicá-lo com o nome do agente; se positivo para gonococo, confirmar que a parceria foi tratada com ceftriaxona
- Ler e agir sobre HIV, sífilis e hepatites
- Sintomas persistentes de três a cinco dias após o tratamento, sem contato sexual: cultura de endocérvice em Thayer-Martin com antibiograma antes de qualquer novo antibiótico, e pesquisa de vaginose e tricomoníase
- Persistência sem reexposição, com parceria tratada e vaginose excluída: considerar Mycoplasma genitalium; a moxifloxacina não está disponível no SUS para essa indicação, e o caso vai para a referência
Mês 3 — o reteste que procura reinfecção
A reinfecção é frequente e independe de a parceria ter sido tratada: por isso o documento norte-americano manda retestar toda mulher tratada por clamídia ou gonorreia três meses depois, e o Manual de Gestação de Alto Risco manda o mesmo para a gestante com fatores de risco. Não é teste de cura — é a busca da segunda infecção, que é a que mais lesa a trompa.
Prescrição- Biologia molecular para clamídia e gonococo três meses após o tratamento, em toda mulher tratada
- Resultado positivo: tratar de novo com o mesmo esquema, reabrir a conversa da parceria — a nova infecção tem uma fonte — e ofertar de novo os testes de HIV e sífilis
- Na gestante, o reteste cai no terceiro trimestre e é lido junto com as sorologias da 28ª semana
- Registrar no prontuário o segundo episódio com essas palavras, porque dois episódios mudam o risco de sequela
Como saber se está funcionando
A reavaliação da cervicite tem um problema que a da doença inflamatória pélvica não tem: a maioria das pacientes não sentia nada antes e não vai sentir nada depois, de modo que "melhorou?" é uma pergunta que não mede. O que mede é o colo reexaminado, a parceria tratada, o resultado do teste lido e o reteste feito. Retorno sem espéculo é a primeira consulta repetida sem o exame que a justificou.
Os prazos são curtos e precisam ser ditos: o sintoma, quando existe, pode levar até sete dias após o fim do tratamento para desaparecer — o próprio quadro de uretrites do protocolo registra isso —, e a persistência três a cinco dias depois do tratamento, sem contato sexual, é a definição de falha. Entre a alta e o reteste de três meses há uma consulta, e ela é a que descobre a parceria que não tomou o comprimido.
Cura é clínica na maioria dos casos: o protocolo não recomenda teste de cura de rotina para infecção não complicada tratada com esquema de primeira linha. As exceções são a gestante, a falha e a infecção complicada — e nelas o teste tem prazo, porque o material genético do agente morto persiste por semanas e um teste molecular colhido cedo demais devolve um positivo que não é infecção.
Esperado: Orifício sem secreção, cotonete limpo, sem sangramento ao toque; sintoma, quando havia, resolvido em até sete dias após o tratamento
Se não melhora: Antes de qualquer antibiótico, três perguntas na ordem: houve relação sexual com a parceria antes de ela ser tratada; os dois comprimidos foram tomados e a injeção foi aplicada; há vaginose bacteriana ou tricomoníase que não foi tratada. Reexposição é a causa mais comum e se trata repetindo o esquema nos dois. Falha verdadeira — sintoma persistente sem contato sexual — pede cultura de endocérvice com antibiograma antes de nova droga, e a resistência que ela mostrar é dado de vigilância.
Esperado: Ausente. É o que mantém a paciente neste capítulo
Se não melhora: Dor à mobilização do colo com dor anexial ou hipogástrica é doença inflamatória pélvica, mesmo em quem acabou de receber o esquema de cervicite: a dose única não tratou o que subiu. Muda a régua no mesmo dia — três critérios maiores mais um menor, catorze dias de três drogas, critérios de internação — e a gestante é internada. A paciente que recebeu ceftriaxona e azitromicina ontem e hoje tem o colo doloroso à mobilização não está "em tratamento": está subtratada.
Esperado: Toda parceria dos últimos 60 dias recebeu ceftriaxona e azitromicina, presencialmente ou pelo cartão, e o casal manteve abstinência por sete dias após o tratamento dos dois
Se não melhora: Parceria não tratada é reinfecção agendada. Se a paciente não conseguiu entregar o cartão, o serviço faz a comunicação por correspondência ou telefone, com o consentimento dela; se ela não quer que a parceria seja comunicada, a decisão é dela e ela continua tendo acesso ao serviço — o protocolo só admite a comunicação contra a vontade do caso-índice em último caso, esgotadas todas as possibilidades, quando o risco a terceiros for tão elevado que deixar de comunicar seria antiético. Enquanto a parceria não for tratada, a orientação é preservativo em toda relação e a certeza de que o reteste de três meses vai vir positivo.
Esperado: Lido, registrado e comunicado com o nome do agente; se veio positivo para gonococo, confirmado que a parceria recebeu ceftriaxona e não só azitromicina
Se não melhora: Resultado negativo para os dois agentes com sinais de cervicite que já resolveram não desfaz a decisão de ter tratado: a abordagem sindrômica aceita esse custo, e o registro deve dizer "tratada sindromicamente, biologia molecular negativa". Resultado negativo com sinais persistentes reabre a lista de outros agentes e a hipótese de causa não infecciosa. Resultado que ninguém leu é o desfecho mais comum e o mais evitável: o serviço precisa de um fluxo para o exame que chega depois da consulta.
Esperado: Todos oferecidos, colhidos e lidos; vacinação de hepatite B e HPV verificada
Se não melhora: Teste rápido reagente para sífilis na gestante e teste reagente para HIV mudam de capítulo — sífilis na gestação e HIV na gestação, na apostila de Obstetrícia. Fora da gestação, o resultado reagente segue a rede local de referência, e a obrigação deste capítulo é que a paciente saia com o encaminhamento marcado e não com um papel. Teste não oferecido é a falha de reavaliação mais silenciosa: ninguém volta para reclamar do teste que não fez.
Esperado: Biologia molecular negativa para clamídia e gonococo
Se não melhora: Positivo em três meses é reinfecção até prova em contrário, e reinfecção tem fonte: a parceria não tratada, a parceria nova, ou a parceria tratada que se reinfectou em outra rede. Trata-se de novo com o mesmo esquema, refaz-se a comunicação de parcerias e oferecem-se de novo os testes de HIV e sífilis. Dois episódios em um ano mudam a conversa sobre prevenção e valem registro explícito, porque a probabilidade de sequela sobe a cada episódio de infecção que subiu.
Esperado: Teste molecular negativo para o agente tratado
Se não melhora: Positivo com 30 dias ou mais é falha ou reinfecção, e as duas se separam pela história sexual. Na gestante, retratar com o mesmo esquema e repetir o controle; falha de gonococo com parceria tratada e sem contato pede cultura com antibiograma e discussão com a referência. Não colher o controle antes das quatro semanas: o teste molecular detecta material genético de bactéria morta, e um positivo precoce gera retratamento sem infecção.
Onde o erro machuca
O dano: Leucocitúria com nitrito negativo e cultura negativa é a assinatura da uretrite por clamídia, e a nitrofurantoína não toca nenhum dos dois agentes. A paciente melhora pouco, atribui a persistência a "bactéria resistente", troca de antibiótico por telefone, e a infecção segue no colo e no parceiro. A trompa cobra a conta anos depois, sem ligar o episódio à cistite que não era.
Como pegar a tempo: Trate disúria sem polaciúria, sem febre e sem dor lombar em mulher jovem com parceria nova como queixa de espéculo. O exame de urina serve para o diferencial; quem decide é o cotonete no orifício do colo. Se o serviço não tiver mesa ginecológica naquele momento, a coleta de primeiro jato de urina para biologia molecular resolve metade do problema — e a outra metade é marcar o exame, não a receita.
O dano: É a inversão exata da abordagem sindrômica. O exame leva dias, a paciente com sinal não volta na proporção que o protocolo assume, e a janela em que a infecção ainda está no colo fecha. O custo de tratar hoje quem o teste diria que não precisava é um esquema de dose única; o custo de não tratar quem o teste confirmaria é uma sequela que não se desfaz.
Como pegar a tempo: Colha e trate na mesma consulta, nessa ordem, e escreva no prontuário que o tratamento foi sindrômico. O resultado serve para nomear o agente, orientar a parceria e entrar na estatística; ele quase nunca muda o que já foi feito. A frase do protocolo é literal: a conduta terapêutica não deve ser postergada até a entrega dos resultados.
O dano: A parceria não tratada é a fonte da reinfecção, e a reinfecção é o mecanismo pelo qual a cervicite vira doença inflamatória pélvica e a doença inflamatória pélvica repete. A frase solta transforma uma obrigação do serviço em tarefa da paciente, e a paciente jovem, envergonhada, com parceria nova, não a cumpre — ou a cumpre como acusação, e perde o parceiro e o tratamento ao mesmo tempo.
Como pegar a tempo: Escreva o esquema da parceria por extenso, preencha o cartão de comunicação com as duas partes, ofereça que o serviço faça o contato se ela preferir, e diga em voz alta que a infecção pode ficar meses sem sintoma nos dois. No retorno, a primeira pergunta é se ele foi tratado. A parceria que chega com o cartão é tratada sem exame, como portadora da mesma infecção.
O dano: A resistência do gonococo ao ciprofloxacino no Brasil era de 55,6% em 2015–2016 e de 67,3% em 2018–2020: mais de dois em cada três isolados não respondem. A paciente toma um comprimido que parece tratamento, o sintoma, se havia, melhora pelo curso natural ou pela azitromicina que veio junto, e o gonococo continua no colo e na parceria. Pior: a quinolona ainda circula em documento de 2016 do próprio Ministério e em protocolo de sociedade de 2018, e o comprimido continua no componente básico para outras indicações.
Como pegar a tempo: Gonorreia no Brasil se trata com ceftriaxona intramuscular desde a nota informativa de 2017 que tirou o ciprofloxacino de todo o território, confirmada pelas portarias de 2018 e de 2021. Quando um documento na sua frente diz outra coisa, olhe a data e o número da portaria que ele cita. E não substitua a ceftriaxona por comodidade: o quadro nacional não tem alternativa oral para a infecção gonocócica.
O dano: É a doença inflamatória pélvica subtratada com receita de cervicite, e é o erro mais caro do capítulo. A dose única de ceftriaxona com azitromicina não cobre anaeróbio e não sustenta concentração por catorze dias; a infecção que subiu continua subindo enquanto o prontuário diz "tratada". A sequela — infertilidade em 9% a 20% depois de um episódio, mais a cada novo — se instala com a paciente convencida de que foi tratada.
Como pegar a tempo: Faça o bimanual em toda mulher com sinal de cervicite antes de decidir o esquema. Dor à mobilização do colo com dor anexial ou hipogástrica fecha três critérios maiores; a secreção endocervical anormal que você viu é o critério menor. A régua passa a ser a do capítulo de doença inflamatória pélvica no mesmo minuto: catorze dias, três drogas, retorno em 72 horas, internação se houver critério. Na dúvida, o limiar é deliberadamente baixo naquele capítulo — e é para ser.
O dano: A cervicite aumenta a eliminação genital do HIV e facilita a sua aquisição; a mulher com uma infecção sexualmente transmissível tem probabilidade maior de ter outra, e esta consulta é a única garantida. Sem o teste, a sífilis que ela tem entra na próxima gestação sem tratamento. E a doxiciclina dada como alternativa a uma gestante de oito semanas que ninguém testou é um erro que não tem como ser desfeito depois.
Como pegar a tempo: Teste rápido de gravidez, HIV e sífilis e sorologias de hepatites B e C fazem parte da receita, não de outra consulta; a vacina de hepatite B e a de HPV são conferidas na hora. Diga que os testes são rotina de toda infecção transmitida pelo sexo — o que é verdade — e não suspeita de nada. O resultado reagente tem destino: os capítulos de sífilis na gestação e de HIV na gestação, ou a referência local fora da gestação.
O que dizer ao paciente e à família
Nesta consulta a conversa faz três coisas que a receita não faz: consegue o exame que autoriza tratar, consegue que o parceiro tome a medicação, e impede que o diagnóstico vire uma acusação. As três dependem de uma decisão de linguagem tomada antes de abrir a boca — a de não julgar e de não insinuar.
Duas armadilhas repetem-se. A primeira é a informação implícita: dizer "isso é uma infecção sexualmente transmissível" sem dizer, na mesma frase, que ela fica meses sem sintoma e não data a exposição entrega ao casal a conclusão de infidelidade recente sem que ninguém a tenha afirmado. A segunda é a honestidade pela metade: tratar sem explicar que se está tratando sem ter certeza deixa a paciente sem entender por que o exame pedido "deu negativo" e ela tomou remédio.
E há uma frase que precisa ser dita antes de a paciente sair, porque ela decide a segunda consulta: a de que o parceiro precisa ser tratado não porque fez algo, mas porque a infecção circula entre os dois e volta.
Pedir o exame especular à jovem que veio buscar remédio de infecção urinária
“Eu entendo a pressa, e vou ser direto para não gastar o seu horário: o que a senhora descreve — ardência sem vontade de urinar toda hora, sem febre, e esse sangramento depois da relação — pode ser infecção da bexiga, mas pode ser uma inflamação no colo do útero, que dá exatamente esses sintomas e que o exame de urina não mostra. O remédio é completamente diferente num caso e no outro. Para eu saber, preciso olhar o colo com o espéculo, e isso leva quatro minutos. A senhora pode me pedir para parar a qualquer momento, e a técnica de enfermagem fica na sala. Se eu passar o remédio da bexiga sem olhar e for a outra coisa, a senhora vai tomar antibiótico à toa e voltar aqui com o mesmo problema.”
Não diga: É só uma infecção urinária, toma isso aqui. Se não melhorar, volta. Exame ginecológico é com o ginecologista.
Explicar que vai tratar hoje sem saber qual é a bactéria
“O exame mostrou que o colo do seu útero está inflamado — tem uma secreção saindo dele e ele sangra ao toque. As duas causas mais comuns disso são duas bactérias transmitidas pela relação sexual, e eu não consigo saber hoje qual das duas é, ou se são as duas. Existe um exame que diz, eu colhi e ele vai ficar pronto em alguns dias — mas eu não vou esperar por ele para tratar, e quero explicar por quê. Se eu esperar e for uma delas, essa inflamação pode subir para o útero e para as trompas nesse meio-tempo, e isso pode deixar uma cicatriz que dificulta engravidar depois. Então o que se faz, em todo lugar do mundo, é tratar as duas hoje: uma injeção e dois comprimidos, aqui, agora. Pode ser que o exame venha negativo e a senhora tenha tomado remédio sem precisar. Eu prefiro esse erro ao outro.”
Não diga: Vou passar um antibiótico por garantia. Provavelmente não é nada. Quando sair o exame a gente vê se precisa tratar.
A parceria, e a pergunta que vem junto: "então ele me passou isso?"
“Essa infecção circula entre os dois, e por isso ele precisa tomar a mesma medicação — mesmo sem sentir nada, porque na maioria das pessoas ela não dá sintoma nenhum, nem nele nem na senhora. E aqui tem uma coisa importante: como ela fica meses sem sintoma, não é possível saber quem passou para quem, nem quando. Esse resultado não serve para datar nada. O que eu sei é o seguinte: se ele não tratar, a senhora se reinfecta, e é a repetição que estraga as trompas. É uma injeção e dois comprimidos, em dose única, e ele não precisa fazer exame antes. Eu vou preencher um cartão para a senhora entregar a ele, ou, se preferir, o serviço entra em contato — quem decide é a senhora. E até os dois terminarem, sete dias sem relação, nem com camisinha.”
Não diga: Foi seu parceiro que te passou. Ele andou com outra. Fala pra ele vir aqui, senão não adianta te tratar.
Oferecer os testes de HIV, sífilis e hepatites sem que soe como suspeita
“Toda vez que a gente encontra uma infecção transmitida pela relação sexual, a rotina é testar as outras, porque elas andam juntas e a maioria delas não dá sintoma. Então eu vou oferecer os testes de HIV, sífilis e hepatites B e C — dois deles saem aqui, em uns vinte minutos. Isso é rotina para todo mundo nessa situação, não é suspeita de nada sobre a senhora. E se algum vier positivo, existe tratamento, e é muito melhor saber agora do que descobrir numa gravidez.”
Não diga: Vou pedir HIV e sífilis também, porque quem pega uma pega outra. Você já fez exame de HIV alguma vez?
A gestante que descobriu clamídia no exame de rotina e pergunta se o bebê vai nascer doente
“O exame de rotina do pré-natal encontrou uma bactéria no colo do útero. A senhora não sentiu nada porque ela quase nunca dá sintoma, e foi exatamente para achar isso que o exame existe. Ela é importante por dois motivos: pode aumentar o risco de a bolsa romper antes da hora e de o bebê nascer prematuro, e, no parto, uma parte dos bebês expostos pode ter conjuntivite ou uma pneumonia nos primeiros meses. A boa notícia é que o tratamento é simples e seguro na gravidez — dois comprimidos, em dose única, hoje —, e depois de tratada a senhora não transmite mais. O seu companheiro precisa tomar o mesmo remédio. Vamos repetir o exame daqui a um mês para confirmar que resolveu, e de novo no fim da gravidez. E isso não muda o tipo de parto.”
Não diga: Deu clamídia no seu exame. É uma DST, seu marido precisa se tratar. Vai ter que fazer cesárea? Não, mas o bebê pode nascer com problema.
A alta: abstinência, retorno e reteste, ditos de forma que sejam cumpridos
“Três coisas para a senhora levar, e eu vou escrever as três na receita. Primeira: sete dias sem relação sexual, contando de hoje, e o seu parceiro também, contando do dia em que ele tomar a medicação — nesse período nem com camisinha, porque é o tempo de o remédio limpar a infecção nos dois. Segunda: a senhora volta aqui em uma ou duas semanas, dia tal, para eu olhar o colo de novo e ler o resultado do exame — é assim que eu sei que funcionou, não é pelo sintoma, que a senhora quase não tinha. Terceira: daqui a três meses, um exame de novo, porque essa infecção volta com facilidade, e voltar não significa que a senhora fez algo errado. Pode me repetir as três?”
Não diga: Toma o remédio e evita relação uns dias. Qualquer coisa volta. O exame chega em duas semanas, passa aqui para pegar.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Ceftriaxona 500 mg com azitromicina 1 g, as duas em dose única
É o esquema nacional para toda infecção gonocócica não complicada, mantido na revisão de 2021 e na edição de 2022 do protocolo, e citado como vigente pelo laboratório de referência da vigilância em abril de 2026. A segunda droga tem duas funções declaradas: tratar a clamídia que a abordagem sindrômica não exclui, e — na formulação original da terapia dupla — retardar a seleção de resistência à cefalosporina. A vigilância que o sustenta mostra 0% de resistência à ceftriaxona nas duas rodadas e 10,6% à azitromicina na segunda.
Ministério da Saúde, PCDT para Atenção Integral às Pessoas com IST, Quadro 31 (anexo da Portaria SCTIE/MS nº 12/2021; edição 2022); Machado HDM et al., JAC Antimicrob Resist. 2022;4(4):dlac076; SenGono/UFSC, postagem de 1º de abril de 2026
Ceftriaxona 1 g isolada
As recomendações da Organização Mundial da Saúde de 2024 elevaram a ceftriaxona a 1 g por via intramuscular em dose única, sem azitromicina, como primeira opção para a infecção gonocócica genital e anorretal — recomendação condicional, com certeza baixa da evidência —, reservando as combinações com azitromicina 2 g para as alternativas sem ceftriaxona. A lógica é a da resistência: dose maior para isolados com concentração inibitória mínima crescente, e retirada de um macrolídeo cuja resistência sobe no mundo inteiro e cuja contribuição para proteger a cefalosporina nunca foi demonstrada.
Organização Mundial da Saúde, Updated recommendations for the treatment of Neisseria gonorrhoeae, Chlamydia trachomatis and Treponema pallidum (syphilis), and new recommendations on syphilis testing and partner services, 2024
Ceftriaxona 500 mg isolada, com doxiciclina por sete dias se a clamídia não foi excluída
O documento norte-americano de 2021 retirou a azitromicina do esquema do gonococo e passou a tratar a clamídia à parte, com doxiciclina por sete dias, apenas quando ela não foi excluída por teste — o que, na cervicite tratada sindromicamente, é sempre. A dose de ceftriaxona sobe a 1 g só acima de 150 kg. É a posição intermediária: mesma dose de cefalosporina do Brasil, mas com a clamídia coberta por sete dias de tetraciclina em vez de uma dose de macrolídeo.
Workowski KA et al., Sexually Transmitted Infections Treatment Guidelines, 2021. MMWR Recomm Rep. 2021;70(RR-4), com errata em MMWR Morb Mortal Wkly Rep. 2023;72(4):107-108
Para a paciente à sua frente no Brasil, prescreva o esquema nacional: ceftriaxona 500 mg intramuscular com azitromicina 1 g por via oral. Não porque ele seja o melhor dos três em abstrato, mas porque é o que a vigilância brasileira sustenta — cefalosporina sem resistência detectada —, porque a azitromicina está tratando uma clamídia que você não excluiu e que é dez vezes mais prevalente que o gonococo, e porque é a régua que a farmácia da unidade abastece e a parceria vai receber. Onde a divergência vira decisão é em dois cenários. O primeiro é a unidade que só tem frasco de 1 g: reconstituir conforme a bula e administrar o volume que contenha 500 mg, calculado pela concentração final, é o que cumpre a dose do protocolo brasileiro; aplicar o frasco inteiro é a dose da OMS e não é dose tóxica, mas é conduta fora do documento brasileiro e precisa ser escrita como tal na receita. O segundo é a paciente com intolerância grave ou alergia a macrolídeo: a doxiciclina por sete dias, fora da gestação, é a alternativa que os três documentos aceitam para a clamídia, e nesse caso a ceftriaxona isolada é exatamente o que o CDC prescreve. O que não se faz é o inverso: tirar a ceftriaxona e ficar com a azitromicina, porque um em cada dez isolados brasileiros já resiste a ela. E confira, antes de repetir esta página, se a atualização anunciada em 2026 pelo Ministério já saiu — este é o capítulo com mais chance de estar desatualizado no dia em que for lido.
Sem exame especular possível, tratar todas as mulheres com corrimento e alto risco para gonococo e clamídia
As diretrizes da OMS de 2021 para infecções sintomáticas recomendam tratar gonococo e clamídia na mesma consulta, e escalonam a decisão conforme o que existe: com teste molecular no dia, pelo resultado; com espéculo, se houver evidência de cervicite; e, quando o espéculo não é possível, tratar para gonococo e clamídia todas as pessoas com corrimento vaginal e alto risco — recomendação condicional, com certeza baixa. A OMS aceita o sobretratamento como preço de não perder a que não volta, e quantifica: um teste rápido com 80% de sensibilidade reduziria os casos perdidos em 70%.
Organização Mundial da Saúde, Guidelines for the management of symptomatic sexually transmitted infections, 2021, capítulo sobre a síndrome de corrimento vaginal
Tratamento presuntivo para a mulher de risco quando o teste não é possível ou o retorno não é garantido
O documento norte-americano de 2021 recomenda tratamento presuntivo de gonococo e clamídia na cervicite para mulheres com risco aumentado — menos de 25 anos, parceria nova, parceria com parcerias concorrentes ou com infecção — se o seguimento não puder ser assegurado ou se o teste molecular não for possível; para a mulher de baixo risco, adiar o tratamento até o resultado é uma opção. A decisão é individual e depende de duas perguntas: ela volta, e o teste existe.
Workowski KA et al., Sexually Transmitted Infections Treatment Guidelines, 2021. MMWR Recomm Rep. 2021;70(RR-4), seção de cervicite
Tratar pelo sinal de cervicite; sem sinal, testar — o sindrômico não serve para aplicação em massa
O protocolo brasileiro ancora o tratamento sindrômico da cervicite nos achados do espéculo — muco-pus, friabilidade, teste do cotonete — e afirma que o diagnóstico sindrômico de cervicite não se presta para aplicação em massa, porque a maioria das infectadas não tem sinal nem sintoma. Para a mulher sem sinal, o caminho é o rastreamento por biologia molecular nos subgrupos do Quadro 5 e a oferta de teste a quem tem risco. O fluxograma nacional de corrimento vaginal só manda tratar gonorreia e clamídia quando o exame mostra os sinais cervicais.
Ministério da Saúde, PCDT para Atenção Integral às Pessoas com IST, seção 7.2 e Figuras 11 e 12 (anexo da Portaria SCTIE/MS nº 12/2021; edição 2022)
Decida pelo retorno e pelo teste, nessa ordem. Se a mulher tem colo normal ao espéculo e o teste molecular existe, colha e trate pelo resultado: é a posição brasileira e é a única que não gasta antibiótico em quem não tem infecção. Se o teste não existe e ela tem colo normal, mas tem os fatores de risco e vai voltar, o protocolo não manda tratar — e não tratar é defensável, com o retorno marcado e a parceria perguntada. A divergência vira decisão na mulher com colo normal, fatores de risco, sem teste disponível e sem retorno plausível — a adolescente que veio sozinha e mentiu o endereço, a mulher em situação de rua, a parceria de um homem com uretrite que não vai mais aparecer. Nela, os dois documentos internacionais autorizam tratar, o brasileiro não proíbe, e o custo de tratar é uma injeção e dois comprimidos contra o custo de uma trompa. Trate, e escreva no prontuário por que tratou sem sinal — porque a mesma frase, sem esse contexto, vira o tratamento em massa que o protocolo condena. O que decide não é a prevalência da cidade: é a probabilidade de esta paciente estar diante de você outra vez.
Azitromicina 1 g em dose única em primeiro lugar
O quadro nacional traz a azitromicina 500 mg, dois comprimidos em dose única, como primeira opção para a infecção por clamídia, com a doxiciclina por sete dias como alternativa fora da gestação. A vantagem é inteiramente de adesão e de logística: uma tomada presenciada encerra o tratamento, a droga está no componente básico da farmácia da unidade, e é a mesma que já compõe o esquema do gonococo — o que faz da cervicite tratada sindromicamente um caso em que a clamídia sai coberta sem uma receita adicional. Na gestante, é a única opção nacional, e a OMS a recomenda com força.
Ministério da Saúde, PCDT para Atenção Integral às Pessoas com IST, Quadro 31 (anexo da Portaria SCTIE/MS nº 12/2021; edição 2022); Organização Mundial da Saúde, recomendações de 2024, seção sobre gestantes
Doxiciclina 100 mg de 12 em 12 horas por sete dias em primeiro lugar
A OMS em 2024 e o CDC em 2021 invertem a ordem fora da gestação: doxiciclina por sete dias como primeira opção e azitromicina como alternativa. O motivo é falha microbiológica: metanálises e uma revisão sistemática encontraram mais falha com azitromicina do que com doxiciclina na infecção urogenital, e um ensaio randomizado em infecção retal mostrou cura microbiológica de 100% com doxiciclina contra 74% com azitromicina — e a clamídia anorretal é detectada em 33% a 83% das mulheres com infecção urogenital, independentemente de relato de sexo anal. A OMS classifica a preferência como condicional, com certeza moderada.
Organização Mundial da Saúde, Updated recommendations for the treatment of Neisseria gonorrhoeae, Chlamydia trachomatis and Treponema pallidum (syphilis), 2024; Workowski KA et al., MMWR Recomm Rep. 2021;70(RR-4), seção de infecções por clamídia
Na cervicite tratada sindromicamente, a pergunta quase não existe: a azitromicina já está no esquema nacional do gonococo, e prescrever doxiciclina por cima seria tratar a clamídia duas vezes. A escolha aparece na clamídia confirmada por teste, sem gonococo, fora da gestação — e aí decida pela paciente, não pelo documento. A adolescente que tomou o comprimido na sua frente e não vai comprar nem buscar mais nada, a mulher sem endereço, a que tem história de não completar cursos: azitromicina, presenciada, e o reteste em três meses cobre a falha residual. A mulher que vai cumprir sete dias, sobretudo se houver prática anal receptiva ou se o teste foi colhido em sítio retal: doxiciclina, que é a droga com menos falha — mas ela está no componente estratégico, e a receita só vale se a unidade souber onde buscá-la. Na gestante e na lactante não há escolha: azitromicina, e a doxiciclina sai da receita por contraindicação. Em nenhum dos cenários a diferença entre as duas drogas é tão grande quanto a diferença entre tratar e não tratar a parceria.
O raciocínio, em voz alta
Volte a Tainá Queiroz, 21 anos, terça-feira, 10h40. Ardência ao urinar há dez dias, sem polaciúria, sem febre, sem dor lombar. Sangramento discreto após a relação, duas vezes em três semanas. "Corrimento normal." Parceiro novo há três meses, preservativo só no início; ele sem sintoma. Anticoncepcional oral regular; última menstruação há dezesseis dias. Exame de urina particular: leucócitos 30 por campo, nitrito negativo, bactérias raras. Sinais vitais na faixa, abdome livre. Ela quer o remédio da colega e precisa voltar ao trabalho em quarenta minutos.
o que penso antes de examinar
Três coisas na história não cabem numa cistite: disúria sem polaciúria e sem urgência, dez dias de evolução sem febre e sem piora, e sangramento após a relação — que é sinal de colo, não de bexiga. O exame de urina que ela trouxe, lido com atenção, aponta na mesma direção: leucócitos sem nitrito e com bactérias raras é a piúria da uretrite, não a bacteriúria da cistite. Some-se a parceria nova, a idade abaixo de 25 anos e o preservativo irregular, e a probabilidade pré-exame de cervicite por clamídia ou gonococo é alta o bastante para que o espéculo seja obrigatório, não opcional.
como consigo o exame
Digo a ela que o que descreve pode ser da bexiga ou do colo do útero, que o remédio é outro em cada caso, e que olhar leva quatro minutos. Chamo a técnica de enfermagem, peço que ela esvazie a bexiga — e aproveito para colher o primeiro jato de urina num frasco para a biologia molecular, antes que ela urine tudo. Faço o teste rápido de gravidez nessa urina: negativo.
o que o colo mostra
Espéculo sem gel. Conteúdo vaginal escasso e claro, paredes sem hiperemia — o compartimento de baixo está normal, e o pH de 4,2 com teste das aminas negativo confirma. O colo tem um anel de ectopia ao redor do orifício, esperado na idade e na pílula; mas do orifício sai uma secreção amarelada, e o cotonete que introduzo e giro sai amarelo na ponta e deixa um sangramento que não para em trinta segundos. Muco-pus e friabilidade: os dois sinais. Colho o swab de endocérvice para biologia molecular mesmo já tendo a urina, porque é o que a rotina da unidade processa.
o toque que decide o capítulo
Bimanual antes de tirar a luva, começando pelo lado que ela diz não incomodar: sem dor à mobilização do colo, sem dor anexial, sem massa, fundo de saco livre. Ela continua neste capítulo. Se doesse, a receita que vem a seguir estaria errada — seria uma doença inflamatória pélvica tratada com dose única.
a decisão, e por que ela não espera o exame
Cervicite com sinal em mulher com fatores de risco: tratamento sindrômico para gonococo e clamídia agora. Ceftriaxona 500 mg intramuscular, frasco de 500 mg reconstituído nos 2 mL de lidocaína a 1%, aplicada pela técnica de enfermagem enquanto eu escrevo; azitromicina 500 mg, dois comprimidos, engolidos na minha frente com o copo de água da sala. Não prescrevo nitrofurantoína: a urocultura que eu peço vai voltar negativa, e a leucocitúria vai desaparecer com o tratamento certo. Explico que colhi o exame que diz qual bactéria é, que ele sai em dias, e que tratar hoje as duas é o que se faz no mundo inteiro porque esperar custa trompa.
a parceria e os testes que vêm junto
Preencho o cartão de comunicação com as duas partes para o parceiro — Diego, 24 anos — e escrevo por extenso o esquema dele: ceftriaxona 500 mg intramuscular e azitromicina 1 g por via oral, em dose única, sem exame antes. Pergunto se houve outra parceria nos últimos dois meses: não. Digo a frase da infecção que fica meses sem sintoma e não data nada, antes que ela pergunte quem passou para quem. Ofereço e colho testes rápidos de HIV e sífilis e sorologias de hepatites B e C — "rotina de toda infecção transmitida pelo sexo" —, confiro que ela tem as três doses da vacina de hepatite B na caderneta e que não tomou a de HPV, e anoto para a enfermagem verificar a indicação pelo calendário. Sete dias sem relação, contando de hoje para ela e do dia da medicação para ele.
o que escrevo, e o que não peço
No prontuário: cervicite — muco-pus e friabilidade ao espéculo, bimanual sem dor, pH 4,2 e aminas negativo, tratada sindromicamente para gonococo e clamídia, biologia molecular colhida, parceria comunicada por cartão. Na receita: retorno em duas semanas, dia e hora, para reexaminar o colo e ler o resultado; reteste em três meses. Não peço preventivo hoje, com o colo sangrando — o dela está em dia, e se não estivesse a coleta ficaria para depois do tratamento. Não peço ultrassonografia, hemograma nem cultura de secreção vaginal. E não notifico, porque clamídia e gonorreia não são de notificação compulsória no país; o que eu faço é o que a vigilância não faz — trato a parceria.
Variação do caso — resposta e reavaliação
Variação do retorno de Tainá: a disúria cede, mas ela teve nova exposição à parceria ainda não tratada. A melhora inicial não afasta reinfecção. Reconstruir datas, conferir tratamento de ambos e organizar nova conduta e prevenção conforme a avaliação.
Variação do caso — quando mudar o plano
Se persiste sangramento após a relação apesar do tratamento e sem reexposição, reexaminar o colo e investigar causas infecciosas e não infecciosas. Não repetir o mesmo esquema indefinidamente. Se aparecer dor à mobilização ou quadro sistêmico, avaliar DIP e mudar o nível de cuidado.
Faça você
Quinta-feira, consulta de pré-natal na unidade básica. Yasmin Cardoso, 19 anos, primeira gestação, 16 semanas pela ultrassonografia, sem queixa nenhuma. Chegou o resultado da biologia molecular colhida na primeira consulta, aos 10 semanas, como rastreamento de rotina: Neisseria gonorrhoeae detectada, Chlamydia trachomatis detectada. Testes rápidos de HIV e sífilis e sorologias de hepatites B e C da primeira consulta: não reagentes. Ela nega corrimento, disúria, sangramento ou dor. Ao especular: colo com ectopia ampla, secreção clara, discreto sangramento ao toque do cotonete; sem muco-pus. Bimanual sem dor à mobilização do colo e sem dor anexial; útero compatível. Parceiro, Everton, 22 anos, assintomático, único nos últimos meses. Ela pergunta se o bebê vai nascer doente e se vai precisar de cesárea.
leitura do rastreamento
O exame foi colhido pelo motivo certo — gestante com até 30 anos, primeira consulta de pré-natal — e achou o que o rastreamento existe para achar: uma infecção dupla, assintomática, numa gestante que não tem sinal nenhum ao exame. A ausência de muco-pus não enfraquece o resultado: o teste molecular é o método de escolha e o exame físico da gestante é o menos confiável de todos, porque o colo gestacional sangra ao toque sem estar infectado.
leitura do que está em jogo
Gonococo e clamídia na gestação associam-se a parto pré-termo, ruptura prematura de membranas e endometrite puerperal; no parto, uma fração grande dos recém-nascidos expostos adquire a infecção, com conjuntivite como manifestação principal, pneumonia na clamídia e risco de cegueira na oftalmia gonocócica. E há o risco da própria gestante: doença inflamatória pélvica na gravidez é indicação de internação com antibiótico intravenoso, e o bimanual sem dor de hoje precisa ser refeito se aparecer qualquer dor pélvica.
as três armadilhas deste caso
A primeira: pensar que a ausência de sintoma permite esperar o pós-parto. A segunda: copiar a alternativa de doxiciclina de um quadro de não gestante. A terceira: tratar Yasmin e deixar Everton para depois, porque ele não sente nada — ele é a fonte da reinfecção que vai desfazer o tratamento antes do parto.
a conduta
— sua vez —
Ver como fecharíamos
Tratar hoje, na consulta, sem esperar mais nada. Ceftriaxona 500 mg por via intramuscular em dose única — frasco de 500 mg em 2 mL de lidocaína a 1%, aplicado na unidade — mais azitromicina 500 mg, dois comprimidos por via oral em dose única, tomados na frente da equipe: é o mesmo esquema de fora da gestação, e ele cobre os dois agentes que o teste encontrou. Doxiciclina e qualquer quinolona estão fora da receita por contraindicação na gestação. Everton é tratado simultaneamente com o mesmo esquema, com o cartão de comunicação preenchido hoje e prioridade de busca ativa se não comparecer, porque parceria de gestante é prioridade no protocolo; os dois ficam sete dias sem relação sexual após o tratamento de ambos. Os testes de HIV, sífilis e hepatites já foram feitos e são não reagentes; serão repetidos na rotina da 28ª semana e no parto. Exame de controle de cura por biologia molecular após um período mínimo de 30 dias, e novo teste três meses depois — no terceiro trimestre —, porque ela tem fatores de risco e a reinfecção é a regra quando a parceria falha. Na caderneta da gestante ficam registrados o diagnóstico, o tratamento e a data do controle, para que a maternidade saiba e faça a profilaxia da oftalmia neonatal na primeira hora de vida, que é obrigatória de qualquer modo. A via de parto não muda: cervicite tratada ou não tratada não é indicação de cesárea, e essa é a resposta à pergunta dela, dita com essas palavras. E a frase que impede a consulta de terminar em crise: a infecção fica meses sem sintoma nos dois, não é possível saber quem a tinha antes, e o que importa agora é que os dois tomem a medicação na mesma semana.
Fora da gestação, a infecção não complicada tratada com esquema de primeira linha não exige teste de cura de rotina — e um teste molecular colhido cedo detecta material genético de bactéria morta e devolve um positivo sem infecção. O que se recomenda é o reteste em três meses, porque a reinfecção é frequente e independe de a parceria ter sido tratada; o Manual de Gestação de Alto Risco pede o mesmo intervalo na gestante com fatores de risco. A cultura com antibiograma é reservada à falha terapêutica do gonococo, e a sorologia não tem papel na infecção urogenital.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Sem consultar o capítulo, escreva de memória: os dois sinais que definem cervicite ao espéculo e o que é o teste do cotonete; o esquema nacional completo para gonococo e clamídia, com droga, dose, via, número de comprimidos, volume de reconstituição da ceftriaxona e o que fazer quando só há frasco de 1 g; o esquema da parceria e a janela de convocação; a lista de testes que saem junto; e os três prazos escritos na receita — abstinência, retorno, reteste. Depois escreva, ao lado, o que muda na gestante e o que muda se o bimanual doer. Em seguida, pegue dois prontuários de mulher jovem atendida por disúria no seu último ambulatório e verifique uma coisa só: havia exame especular descrito, e havia toque bimanual? Aplicação comentada: Corrimento cervical acompanhado de dor pélvica não deve ficar restrito ao tratamento de cervicite; avalie infecção ascendente.
Em 30 dias
Refaça o caso de Tainá mudando um dado de cada vez e diga em voz alta o que muda na conduta: se o bimanual doesse à mobilização do colo com dor anexial; se o teste de gravidez viesse positivo; se ela tivesse 15 anos e viesse sozinha, sem endereço confiável; se a unidade não tivesse ceftriaxona de 500 mg, só de 1 g; se ela dissesse que não pode tomar azitromicina; se o colo estivesse normal, sem muco-pus, mas o parceiro tivesse tido corrimento uretral; se a biologia molecular voltasse negativa para os dois agentes. Depois faça o exercício inverso: liste o que teria acontecido se ela tivesse saído com nitrofurantoína — quantas consultas, quantos antibióticos, qual parceiro não tratado, e onde essa paciente reaparece dez anos depois.
Agora atenda
Agora atenda: mulher de 23 anos que chega à unidade básica pedindo "remédio para infecção urinária", com ardência ao urinar há uma semana, sem febre, e que só menciona um sangramento depois da relação quando perguntada. Parceiro novo há dois meses, sem sintoma. Ela tem pressa e não quer exame ginecológico. Consiga o exame, decida entre bexiga, colo e trato superior, trate o que o exame autorizar sem esperar resultado, resolva a parceria e explique a ela por que você não vai prescrever o que ela veio buscar.
