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Ginecologia e ObstetríciaGinecologia

Antes do tempo, e fora do roteiro

Puberdade precoce e distúrbios do desenvolvimento sexual

Duas famílias que chegam assustadas: a da criança que desenvolveu cedo demais e a do recém-nascido cuja genitália não decide sozinha. As duas exigem a mesma coisa do interno — saber o que é variação normal e o que precisa de encaminhamento hoje. A régua brasileira da primeira é uma portaria de 2022 cuja busca de evidência parou em 2009; a da segunda mudou em 2026 e revogou a norma que os livros ainda citam.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SCTIE/MS nº 13, de 27 de julho de 2022 — aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Puberdade Precoce Central

Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.455, de 26 de fevereiro de 2026 — normas técnicas para avaliação, tratamento e seguimento de pacientes com distúrbios do desenvolvimento sexual

Brasil. Ministério da Saúde. Portaria SAS/MS nº 16, de 15 de janeiro de 2010 — aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hiperplasia Adrenal Congênita

Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento Científico de Endocrinologia. Puberdade Precoce. Documento Científico nº 92, 21 de agosto de 2023

Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento Científico de Endocrinologia. Adrenarca Precoce e Telarca Precoce: orientações para o pediatra. Documento Científico nº 75, 7 de junho de 2023

01

Responda antes de ler

Menino de 7 anos com pelo pubiano há dois meses e volume testicular de 6 mL, bilateral. O hormônio luteinizante basal veio em nível puberal. Qual conduta o PCDT brasileiro de 2022 torna obrigatória?

02

O paciente que você vai ver

Terça-feira, oito e vinte da manhã, unidade básica num bairro do qual o hospital de referência fica a quarenta minutos de ônibus. A agenda da manhã tem catorze nomes e duas vagas de demanda espontânea que já foram ocupadas antes das sete. Você é o interno da sala 2, a médica da equipe está na sala ao lado e a técnica de enfermagem avisa, ao entregar as fichas, que duas delas são de criança e que as duas mães pediram para ser atendidas hoje, não na semana que vem.

A primeira ficha é de Ayla Milhomem, 6 anos e 4 meses. A mãe, Suely, entra segurando a filha pela mão e diz a frase antes de sentar: descobriu no banho, há uns dois meses, que a menina está com um caroço embaixo do bico do peito, do lado esquerdo, e que dói quando encosta. Passou pomada, não melhorou. Não veio marcar consulta: veio saber se é câncer. Ayla está de uniforme escolar, entra na sala falando do recreio, senta na maca sozinha e não parece incomodada com nada. O cartão de vacina está em dia e a caderneta tem peso e altura anotados até os 5 anos.

A segunda ficha é de Ícaro Zaluar, 7 anos. A mãe, Adenilza, conta que faz uns quatro meses que o menino tem cheiro de suor de adulto, que precisou comprar desodorante, e que há umas seis semanas apareceram pelos no púbis. Ela mesma diz que achou que era coisa de menino que come muito. O que a fez marcar consulta não foi o pelo: foi que ele passou a acordar com dor de cabeça três ou quatro vezes por semana e vomitou duas vezes de manhã, sem febre e sem diarreia. Ela conta isso no fim, como quem já sabe que está falando de outra coisa.

Duas crianças, dois motivos parecidos, duas conversas que vão terminar em lugares opostos. A maior parte do que chega ao consultório com essa queixa é variação da normalidade e se resolve com consulta marcada e régua na parede. Uma parte pequena não é, e nela o tempo cobra caro. Este capítulo é sobre separar as duas com o que existe numa unidade básica, e sobre não estragar nenhuma das duas conversas — porque a família chega assustada, e conversa mal feita causa dano antes de qualquer exame.

No fim da manhã, o telefone da unidade toca. É a maternidade do hospital de referência, e não é sobre nenhuma das duas crianças. A enfermeira quer saber quem acompanha, na área, um recém-nascido que nasceu de madrugada e que ainda não tem sexo registrado no cartório, porque a equipe não conseguiu dizer à família, na sala de parto, se era menino ou menina. Essa é a segunda metade do capítulo, e o que a liga à primeira é a mesma coisa: o tempo. Numa, o desenvolvimento chega cedo demais. Na outra, a atribuição de sexo e a puberdade não seguem o caminho esperado — e há uma causa que, se não for lembrada nos primeiros dias, mata.

03

Quem adoece disso

Puberdade precoce é doença rara e queixa comum. As duas coisas ao mesmo tempo — e é essa distância entre a frequência da queixa e a frequência da doença que define o trabalho do interno na unidade básica. O protocolo federal registra que a maioria dos casos com suspeita de puberdade precoce são variedades precoces ou transitórias do desenvolvimento puberal e não requerem tratamento. O que chega ao consultório, na esmagadora maioria das vezes, é telarca isolada, pubarca isolada ou tecido adiposo confundido com mama.

A doença é de dez a vinte e três vezes mais frequente em meninas do que em meninos, segundo o protocolo, que cita um estudo populacional dinamarquês com vinte a vinte e três casos por dez mil meninas e menos de cinco por dez mil meninos. Os dois números, como estão escritos, não sustentam a razão declarada — a conta está nas notas de auditoria. O que importa aqui é a direção: menina com puberdade precoce é o esperado; menino com puberdade precoce é o incomum, e o incomum, nesta doença, costuma ter causa.

A diferença de causa por sexo é o dado epidemiológico que muda conduta na primeira consulta. Nas meninas, cerca de noventa e cinco por cento dos casos são idiopáticos, e a puberdade precoce central idiopática costuma começar entre 6 e 7 anos. Nos meninos, sessenta a setenta por cento têm causa orgânica; o protocolo federal escreve que dois terços estão associados a anormalidades neurológicas e que metade destes se relaciona a tumor, o que significa que cerca de um terço dos meninos com puberdade precoce central tem lesão de sistema nervoso central. É por isso que a ressonância é obrigatória em todo menino e opcional em menina acima de 6 anos.

Quanto mais nova a criança, maior a chance de causa orgânica em qualquer dos sexos, e a idade também organiza o risco dentro do grupo das meninas: em menina entre 6 e 8 anos com puberdade precoce central, encontra-se lesão anatômica em cerca de três por cento. A telarca precoce isolada, por sua vez, tem distribuição em dois picos — antes dos 2 anos, restos da ativação fisiológica do eixo no lactente, e depois dos 6 anos, quando a puberdade que se aproxima produz sinais que ainda não são doença. A faixa entre 3 e 5 anos é a de maior risco de causa patológica, e é onde a espera vigiada custa mais caro.

Do outro lado do capítulo, a hiperplasia adrenal congênita na forma perdedora de sal tem incidência estimada no Brasil de um caso a cada sete mil e quinhentos a dez mil nascidos vivos, segundo o protocolo nacional da doença. Sessenta por cento das formas clássicas são perdedoras de sal, e e a enzima em falta é, em cerca de noventa e cinco de cada cem casos, a 21-hidroxilase. Não é doença de livro: numa maternidade que faz mil partos por ano, é um caso a cada sete a dez anos — raro o bastante para ninguém ter treinado, frequente o bastante para acontecer no seu plantão.

Vale registrar de onde essas réguas vêm, porque isso muda como o interno as usa. A régua da puberdade precoce é ministerial e pediátrica: uma portaria conjunta de 2022 e, ao lado dela, dois documentos científicos que a pediatria publicou em 2023. A Febrasgo tem protocolo sobre a puberdade que atrasa e nenhum sobre a que adianta. Numa apostila de Ginecologia, isso significa que a sociedade da especialidade não escreveu a régua deste capítulo — o Ministério e a pediatria escreveram.

04

Por que acontece o que acontece

Puberdade é a reativação de um eixo que já funcionou antes. O hipotálamo secreta o hormônio liberador de gonadotrofinas em pulsos; a hipófise responde com hormônio luteinizante e hormônio folículo-estimulante; a gônada responde com esteroides sexuais. Esse eixo está ativo no feto e no recém-nascido — a chamada minipuberdade do lactente —, é inibido durante a infância e volta a funcionar anos depois. A fisiologia detalhada do eixo e do ciclo é do capítulo Ciclo menstrual e eixo hipotálamo-hipófise-ovário; aqui interessa apenas uma coisa: quem liga o eixo cedo demais, e quem produz esteroide sem ligar o eixo.

A ativação central precoce é o eixo funcionando na ordem certa, na idade errada. Por isso a puberdade precoce central imita a puberdade fisiológica: a sequência dos sinais é a esperada, e a diferença é o calendário e a velocidade. Em quase toda menina não se acha causa; nos meninos, e nas crianças muito novas de qualquer sexo, o que ligou o eixo costuma ser uma lesão — hamartoma hipotalâmico, tumor de sistema nervoso central, sequela de infecção, trauma, radiação, hidrocefalia — ou uma mutação genética já mapeada, com destaque para as inativadoras do MKRN3 e do DLK1 e as ativadoras do KISS1 e do KISS1R.

A precocidade periférica é outra coisa: esteroide sexual produzido fora do controle da hipófise, por cisto ovariano funcionante, tumor gonadal ou adrenal, hiperplasia adrenal congênita, síndrome de McCune-Albright, ou por esteroide que veio de fora — creme de testosterona do pai, anticoncepcional da avó, pomada de estrogênio prescrita para sinequia de pequenos lábios. Aqui a sequência dos sinais não obedece ao roteiro, e o eixo está desligado: o hormônio luteinizante é pré-puberal, porque o esteroide de fora suprime a hipófise em vez de estimulá-la.

Há uma exceção que confunde e vale guardar. O hipotireoidismo primário grave e de longa duração pode produzir precocidade sexual porque o hormônio tireoestimulante, muito elevado, age sobre o receptor do folículo-estimulante. É a única forma de precocidade que corre sem aceleração do crescimento e sem avanço da maturação óssea — a criança desenvolve e não cresce. Chama-se puberdade precoce paradoxal, e pode vir com galactorreia por hiperprolactinemia associada; a hiperprolactinemia como entidade é do capítulo vizinho, e aqui ela é apenas mais um motivo para dosar hormônio tireoestimulante antes de concluir qualquer coisa.

A adrenarca é um terceiro eixo, e é a causa de metade das confusões. A zona reticular da adrenal amadurece de um a três anos antes da gônada e passa a secretar androgênios — di-hidroepiandrosterona, seu sulfato, 11-cetotestosterona. É ela que produz pelo pubiano e axilar, odor axilar, acne e oleosidade. Gonadarca e adrenarca são processos independentes: pelo pubiano sem mama e sem aumento testicular não é puberdade, é adrenal. Por isso o menino com pelo pubiano e testículo abaixo de 4 mL não tem puberdade precoce central — e por isso o volume testicular, e não o pelo, é o achado que decide no menino.

O motivo de tratar não é estético, e o interno precisa saber dizê-lo. O esteroide sexual acelera o crescimento e acelera mais ainda a maturação da cartilagem de crescimento: a criança fica alta entre os colegas e fecha as epífises antes deles. O ganho de agora é pago com a estatura de adulto. É esse o desfecho que o tratamento protege, e é por isso que a idade óssea é o exame que mais informa — ela mede quanto de osso ainda resta para crescer, o que nenhuma dosagem hormonal mede. O segundo motivo é o descompasso entre um corpo que amadureceu e uma criança que não amadureceu junto, com o que isso traz de sofrimento e de exposição.

Nem toda puberdade precoce compromete a estatura, e essa é a frase que evita tratamento desnecessário. Parte das crianças tem evolução lenta ou estacionária e alcança altura final normal sem medicamento nenhum. O que separa as duas é a velocidade, e velocidade só se mede com duas medidas separadas no tempo: por isso a conduta que o protocolo pede em quadro inicial, sobretudo em menina entre 6 e 8 anos, é acompanhar de 3 a 6 meses antes de decidir. Tratar é a exceção; documentar a progressão é a regra.

A segunda metade do capítulo tem outro mecanismo. Sexo cromossômico, sexo gonadal e sexo fenotípico são construídos em etapas: o cariótipo determina a gônada, a gônada produz os hormônios, os hormônios modelam a genitália. Quando uma dessas etapas diverge das outras, tem-se o que a norma brasileira de 2026 chama de distúrbio do desenvolvimento sexual. A causa mais frequente e a única que é emergência metabólica é a hiperplasia adrenal congênita por deficiência de 21-hidroxilase: o bloqueio enzimático impede cortisol e aldosterona, desvia precursores para a via androgênica e produz, ao mesmo tempo, virilização da genitália na criança 46,XX e, dias depois, perda de sal — desidratação, hiponatremia, hipercalemia, choque. A genitália é o que se vê no primeiro minuto; o sal é o que mata na primeira semana.

05

Como se apresenta de verdade

Na alteração puberal, idade, sequência dos sinais e velocidade de crescimento precisam ser lidas juntas. Você deve distinguir variante isolada de progressão puberal e reconhecer sinais neurológicos ou virilização que mudam a urgência. Medidas seriadas bem registradas podem ser mais informativas do que um exame hormonal isolado.

As seis seções abaixo são a ordem em que o corpo se apresenta: primeiro a régua da normalidade, depois o instrumento que mede, depois o que é variação benigna, depois o que separa central de periférica, depois por que o menino é outro caso, e por fim a apresentação que não é da criança que cresce, mas do recém-nascido que acaba de chegar.

Antes disso, as fronteiras, porque metade do trabalho aqui é saber o que não é deste capítulo. A fisiologia do eixo e o ciclo normal são do capítulo Ciclo menstrual e eixo hipotálamo-hipófise-ovário. A adolescente que não desenvolveu, a amenorreia primária e a síndrome de Turner são do capítulo Amenorreia: em que andar parou — ele cuida de quem não desenvolveu, este cuida de quem desenvolveu cedo. A menina baixa ainda pré-púbere, com a suspeita de Turner que pede cariótipo, é de Baixa estatura e puberdade tardia: familiar, constitucional, deficiência de hormônio do crescimento e hipogonadismo, na apostila de Endocrinologia Pediátrica. A hiperprolactinemia como entidade tem capítulo próprio nesta apostila, e aqui ela aparece só como companheira do hipotireoidismo grave. O hiperandrogenismo da adolescente e da adulta é do capítulo Síndrome dos ovários policísticos, e a massa anexial da adulta é do capítulo A massa que o ultrassom achou. Desenvolvimento precoce como sinal de alerta de violência é do capítulo Quatro relógios, e nenhum marca a mesma hora, com o capítulo Violência e maus-tratos infantis ao lado. A mecânica da triagem neonatal é do capítulo As cinco triagens neonatais, e a sala de parto é do capítulo Reanimação neonatal em sala de parto.

E o que este capítulo assume, porque não tem dono no nível e sem isso ele fica oco: a genitália atípica do recém-nascido, que nenhum capítulo de Neonatologia nem de Endocrinologia Pediátrica trata; a curva de crescimento e a velocidade em centímetros por ano, no uso estrito que esta decisão exige — a leitura da curva em si é de Acompanhamento do crescimento: curvas da OMS, peso, estatura e perímetro cefálico, na apostila de Puericultura e Desenvolvimento; e a previsão de estatura final como argumento, com a ressalva de que ela superestima. Um assunto vizinho tem dono e o capítulo não o toma: a puberdade que atrasa, tomada como entidade, e o atraso constitucional do desenvolvimento, que são de Baixa estatura e puberdade tardia: familiar, constitucional, deficiência de hormônio do crescimento e hipogonadismo, na apostila de Endocrinologia Pediátrica, com o protocolo da Febrasgo sobre puberdade tardia; a adolescente com amenorreia primária continua indo ao capítulo Amenorreia: em que andar parou.

Percurso clínico: Organizar a avaliação por idade e motivo

Diferencie atraso ou antecipação puberal, amenorreia e achado genital que motivou avaliação. Priorize condições urgentes e comunicação respeitosa, explicando limites dos dados iniciais. História, crescimento, exame consentido e investigação dirigida antecedem conclusões sobre desenvolvimento sexual.

A sequência normal, e as idades que a delimitam

Sem a sequência normal não se diz o que é precoce. Na menina, o primeiro sinal é a telarca — o botão mamário, que pode ser unilateral por meses e doer ao toque. Depois vem a pubarca, os pelos axilares, a acne e o odor axilar, e por último a menarca. Na maioria, o processo inteiro leva de três a quatro anos, e o estirão acontece cedo, entre os estágios 2 e 3 do estadiamento de Tanner. No menino, o primeiro sinal é o aumento do volume testicular, definido como igual ou maior que 4 mL; depois vêm o crescimento peniano, o pelo pubiano, a mudança de voz, e o estirão só chega tarde, entre os estágios 4 e 5.

A régua brasileira corrente diz que a puberdade é fisiológica na menina quando começa entre 8 e 13 anos e no menino entre 9 e 14. Precoce é o aparecimento de caracteres sexuais secundários antes dos 8 anos na menina e antes dos 9 no menino — e o protocolo federal escreve isso de maneira operacional: presença de mamas, com ou sem pelos, antes dos 8 anos; volume testicular igual ou maior que 4 mL, com ou sem pelos, antes dos 9. Não é o pelo que abre a definição em nenhum dos dois sexos.

Esses cortes não são universais e não são novos. A proposta de baixá-los para 7 anos em meninas brancas e 6 em meninas negras é de 1999, norte-americana, e nunca foi adotada por documento brasileiro corrente — o protocolo de 2022 e o documento científico nº 92 da Sociedade Brasileira de Pediatria mantêm 8 anos para toda menina. Há, porém, uma frase brasileira que na prática funciona como corte por cor da pele, e está registrada nas notas de auditoria. O capítulo usa 8 e 9 anos, para toda criança, e diz de onde isso vem.

Um alerta de leitura, porque ele decide encaminhamento: menarca antes dos 8 anos, sangramento vaginal em criança pequena ou desenvolvimento acelerado com mudança de comportamento não são apenas sinais endocrinológicos. Desenvolvimento precoce está listado entre os sinais de alerta para violência sexual, e essa conversa tem protocolo próprio — é do capítulo Quatro relógios, e nenhum marca a mesma hora. Aqui o capítulo cede: a suspeita se levanta e se remete, não se desenvolve.

O estadiamento de Tanner é instrumento, não decoração

O estadiamento é a única forma de transformar a queixa em dado comparável entre duas consultas. São cinco estágios para mama e cinco para pelo pubiano na menina, e cinco para genitália e cinco para pelo no menino, com o volume testicular medido à parte. Estágio 1 é pré-puberal em todos. Na mama, o estágio 2 é o botão sob a aréola, que é o achado que traz a família ao consultório; nos pelos, o estágio 2 é pelo esparso, liso, sobre os grandes lábios ou a base do pênis.

Duas armadilhas de exame físico. A primeira é a mama e o pelo serem estagiados juntos, como se fossem um número só: não são, e a dissociação entre eles é informação — mama sem pelo aponta estrogênio; pelo sem mama aponta adrenal. Registre os dois separadamente, sempre. A segunda é a lipomastia: em menina com sobrepeso, o tecido adiposo acumula na região mamária e simula telarca. A distinção é de palpação, com a criança deitada e os braços elevados atrás da cabeça — o tecido glandular é um disco de consistência fibroelástica, mais denso, sob a aréola; a gordura tem a mesma consistência do acúmulo do abdome. Persistindo a dúvida, a ultrassonografia de mamas resolve.

No menino, o instrumento é o orquidômetro, e a falta dele numa unidade básica não é desculpa para não medir: registre o maior diâmetro do testículo em centímetros e a impressão comparativa, porque o que interessa é a mudança entre consultas. O corte de 4 mL é o divisor de águas do capítulo inteiro — abaixo dele, pelo pubiano é adrenarca; a partir dele, o eixo está ligado.

O que faz o estadiamento valer é anotar o número na consulta de hoje. Mama 2 e pelo 1 em 05/09, escrito no prontuário e na caderneta, é o que vai permitir dizer, em janeiro, se houve mudança de estágio ou não. Descrição em prosa — desenvolvimento mamário inicial — não permite comparação nenhuma três meses depois, e é o erro mais barato de corrigir deste capítulo.

As variantes benignas, que são a maior parte do que chega

A telarca precoce isolada é o botão mamário que surge, de um lado ou dos dois, antes dos 8 anos e desacompanhado de qualquer outro sinal puberal. É variante da normalidade: não vem com aceleração de crescimento, não avança nos estágios, não adianta a menarca e não compromete a estatura final. Tem dois picos de idade — antes dos 2 anos, como persistência da ativação fisiológica do eixo no lactente, e depois dos 6 anos. O tecido glandular pode regredir ou permanecer por toda a infância em dez a trinta por cento das crianças. Não se trata, e não existe medicação segura para reduzir o volume da mama nesses casos.

A pubarca precoce isolada, expressão da adrenarca precoce, é o aparecimento de pelo pubiano, genital ou axilar antes dos 8 anos na menina e dos 9 no menino, isolado, muitas vezes com odor axilar, acne e oleosidade. Na maioria é idiopática e benigna, mais comum em meninas, em crianças negras e nas nascidas pequenas para a idade gestacional. Também não se trata: acompanha-se, e o excesso de pelo e a acne se manejam com cuidados de pele e depilação, não com bloqueio hormonal.

O que transforma variante benigna em investigação é uma lista curta de sinais de alerta, e vale sabê-la de cor: início antes dos 6 anos; virilização — clitoromegalia, escurecimento e aspecto rugoso da vulva na menina, crescimento peniano no menino; idade óssea avançada dois ou mais desvios-padrão; aceleração de crescimento com mudança de meio desvio-padrão ou dez pontos de percentil em menos de seis meses; timbre de voz mais grave; alteração de humor, agressividade ou início de libido; dor ou massa abdominal palpável; assimetria testicular ou nódulo em bolsa escrotal. Qualquer um deles muda a consulta de acompanhamento para investigação.

O discriminador prático não é exame: é o tempo. Na telarca isolada, a mama estabiliza ou regride, e o seguimento é trimestral. Se em seis meses a mama cresceu, a velocidade de crescimento acelerou e apareceu pubarca, o quadro deixou de ser variante — encaminha-se. E há uma faixa que merece cuidado maior: entre 3 e 5 anos o risco de causa patológica é o mais alto, e ali a espera é mais curta e mais vigiada.

Central ou periférica, pelo que o corpo mostra

A distinção muda tudo — o exame que se pede, o especialista que recebe e o tratamento que existe. A central é o eixo ligado, e por isso imita a puberdade normal: sequência esperada, progressão ordenada, na menina mama antes de pelo, no menino testículo antes de tudo. A periférica é esteroide sem eixo: a sequência sai do roteiro, e o achado que mais denuncia é o descompasso.

No menino, o sinal mais eloquente é o testículo. Puberdade precoce central aumenta os dois testículos; hiperplasia adrenal congênita e tumor adrenal virilizam sem aumentar testículo — pênis grande com testículo pequeno é praticamente diagnóstico de origem periférica. Testículo aumentado de um lado só é massa até prova em contrário.

Na menina, o sinal mais eloquente é o sangramento fora de sequência. Sangramento vaginal sem telarca, ou muito antes do que a sequência permitiria, aponta cisto ovariano funcionante — a causa periférica mais comum na menina, muitas vezes autolimitada, com resolução em dias ou semanas — ou, mais raramente, tumor produtor de estrogênio. A associação de sangramento com manchas café com leite e lesão óssea desenha a síndrome de McCune-Albright.

Duas causas periféricas exigem pergunta ativa na anamnese porque não aparecem no exame físico. A primeira é a exposição exógena: creme de testosterona em uso pelo pai ou pela mãe, anticoncepcional ao alcance da criança, pomada de estrogênio para sinequia de pequenos lábios, suplementos. A segunda é a hiperplasia adrenal congênita em sua forma não clássica, cuja primeira manifestação pode ser exatamente a pubarca precoce que se ia chamar de benigna. E há uma passagem em mão única que o protocolo registra: precocidade periférica mal controlada, com estímulo androgênico persistente, pode acabar ligando o eixo e produzir puberdade precoce central por cima — de modo que a criança termina com as duas.

O menino é outro caso

A frase que resume a conduta pediátrica neste tema é curta: menina com puberdade precoce é investigada, menino com puberdade precoce é investigado com urgência. A razão é epidemiológica e já foi dada — sessenta a setenta por cento têm causa orgânica, e cerca de um terço tem tumor de sistema nervoso central. Não existe, no menino, a categoria confortável de idiopático provável que existe na menina.

Isso se traduz em três diferenças práticas. A ressonância de sistema nervoso central é obrigatória em todo menino com diagnóstico confirmado, não opcional. O exame neurológico e a avaliação de acuidade visual e campo visual entram na primeira consulta, não na segunda. E a anamnese pergunta ativamente por cefaleia — sobretudo a que acorda ou que é matinal —, vômito sem causa digestiva, convulsão, alteração de comportamento e queda de rendimento escolar.

É exatamente o caso do Ícaro da cena de abertura. O pelo pubiano isolado, aos 7 anos, num menino, poderia ser adrenarca precoce e provavelmente é. Mas o que ele traz junto — cefaleia matinal e vômito sem febre e sem diarreia, há semanas — não é achado endocrinológico: é sinal de hipertensão intracraniana até prova em contrário, e transforma o encaminhamento de rotina em encaminhamento de hoje, com contato telefônico e não com papel na mão da mãe.

Vale ainda a medida objetiva que separa as duas hipóteses no consultório: testículo abaixo de 4 mL, com pelo pubiano, afasta puberdade precoce central e aponta adrenal. Se, além do pelo, os testículos estiverem aumentados, o eixo está ligado, e o menino precisa de imagem de sistema nervoso central independentemente de qualquer outro achado.

A genitália atípica do recém-nascido

A outra metade do capítulo tem uma cena só, e ela dura minutos. Um recém-nascido cuja genitália não permite a atribuição imediata de sexo é, ao mesmo tempo, urgência médica e urgência social. Médica porque a causa mais comum pode matar em dias. Social porque a frase dita na sala de parto vai acompanhar aquela família por anos — e porque, no Brasil, o registro civil espera enquanto a investigação corre.

A norma brasileira de 2026 define distúrbio do desenvolvimento sexual como a condição clínica em que há divergência entre o sexo cromossômico, gonadal ou fenotípico, e unifica sob esse nome termos que os livros mais antigos ainda trazem — intersexo, hermafroditismo, disgenesia gonadal, sexo reverso, mulheres 46,XY, homens 46,XX, anomalias da diferenciação sexual. Use a terminologia atual; ela é a que está na norma e é a que não constrange a família.

O que faz uma genitália ser atípica está descrito, com números, no anexo da mesma norma. Em genitália de aspecto masculino: gônadas impalpáveis; micropênis, definido como menor que 2,5 cm no recém-nascido a termo ou abaixo de 2,5 desvios-padrão da média para a idade; gônadas pequenas; massa inguinal sugestiva de derivado mülleriano; hipospádia proximal; ou hipospádia associada a uma gônada não palpável. Em genitália de aspecto feminino: qualquer grau de clitoromegalia — clitóris visível em posição anatômica com as pernas fixas —, massa inguinal ou labial sugestiva de gônada, e fusão posterior dos grandes lábios.

A causa que também é emergência metabólica é a hiperplasia adrenal congênita clássica. Na criança 46,XX ela vira genitália virilizada visível ao nascer; no 46,XY, e na 46,XX cuja virilização passou despercebida, ela se apresenta nos primeiros dias como crise adrenal — depleção de volume, desidratação, hipotensão, hiponatremia e hipercalemia. Por isso a norma manda dosar sódio e potássio com monitorização a cada 24 a 48 horas até que a forma clássica perdedora de sal esteja excluída. Um recém-nascido com genitália atípica que recebe alta sem eletrólitos e sem retorno marcado é um recém-nascido em risco.

E há um achado que não pode ser lido como tranquilizador: a genitália masculina perfeitamente formada não exclui hiperplasia adrenal congênita. O menino 46,XY com a doença nasce com genitália típica e chega em choque na segunda semana, sem que ninguém tenha olhado para ele com essa suspeita. A porta de entrada dele não é a genitália: é a triagem neonatal — cuja mecânica, prazos e repescagem são do capítulo As cinco triagens neonatais — e a suspeita clínica de quem atende um lactente desidratado com hiponatremia e hipercalemia.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação deste capítulo tem uma ordem que raramente é a que o interno imagina. O primeiro exame não é hormônio: é a segunda medida de altura, três a seis meses depois da primeira, porque a velocidade de crescimento é o dado que separa quem precisa de exame de quem precisa de retorno. O segundo é a radiografia de mãos e punhos. Só então entram as dosagens.

As seções abaixo percorrem essa ordem e terminam na investigação do recém-nascido, que é outra lista e outro relógio. Uma ressalva vale para todas: o protocolo federal atribui à atenção primária papel essencial na identificação e no encaminhamento ágil, e o encaminhamento que funciona é o que chega ao especialista com a curva de crescimento preenchida, o estadiamento anotado em duas datas e a radiografia já feita.

O que se pede, e em que ordem

Na primeira consulta, o que se coleta é história e medida. História: idade exata de início de cada sinal, velocidade percebida pela família, cefaleia e alteração visual, convulsão, trauma ou infecção de sistema nervoso central, radioterapia ou quimioterapia prévias, exposição a esteroide tópico ou oral em casa, história familiar de puberdade precoce, adoção, e peso ao nascer com idade gestacional. Medida: peso, altura, estadiamento de mama e de pelo registrados separadamente, volume testicular no menino, inspeção da genitália, pele — manchas café com leite —, tireoide e exame neurológico com fundo de olho quando disponível.

O que se pede de exame na primeira consulta depende de um único julgamento: há sinal de alerta? Se não há — mama isolada em menina acima de 6 anos, ou pelo isolado sem virilização —, não se pede nada, e se marca retorno em três meses com a mesma régua e a mesma balança. Se há, ou se a criança tem menos de 6 anos, começa a investigação.

A investigação básica cabe na atenção primária e é curta: radiografia de mãos e punhos para idade óssea, hormônio luteinizante e folículo-estimulante basais, estradiol na menina e testosterona total no menino, hormônio tireoestimulante e tiroxina livre. Diante de virilização ou pubarca em criança abaixo de 6 anos, acrescentam-se sulfato de di-hidroepiandrosterona, 17-alfa-hidroxiprogesterona e androstenediona. A gonadotrofina coriônica entra quando se suspeita de tumor produtor.

O que pertence ao especialista, e não à unidade básica, é o teste de estímulo — com hormônio liberador de gonadotrofinas nativo ou com análogo — e a decisão de tratar. Encaminhar sem os exames básicos atrasa a criança em meses; pedir teste de estímulo na unidade básica atrasa também, porque ele não é feito lá.

A idade óssea, que é o exame que mais informa

A radiografia simples de mão e punho esquerdos, lida pelo método de Greulich-Pyle, responde à pergunta que nenhuma dosagem responde: quanto de crescimento ainda resta. O protocolo federal considera compatível com puberdade precoce o avanço de pelo menos um ano, ou de dois desvios-padrão, acima da idade cronológica. São dois limiares ligados por uma conjunção alternativa, e o menor deles é o que na prática governa — a nota de auditoria registra o problema.

A idade óssea faz três trabalhos diferentes ao longo do caso. Primeiro, distingue: numa telarca isolada, a idade óssea atrasada ou compatível com a cronológica, e que não avança, fala a favor de variante benigna. Segundo, exclui: idade óssea acima de 12 anos na menina e de 13 no menino é critério de exclusão do protocolo — passou dessa marca, o bloqueio não recupera mais estatura. Terceiro, monitora: durante o tratamento, repete-se a cada 12 meses, ou a cada seis quando o controle é duvidoso, e o resultado esperado é a idade óssea parar de correr.

Prancha radiográfica sintética produzida no Gemini: progressão conceitual de maturação esquelética
Prancha radiográfica sintética produzida no Gemini: progressão conceitual de maturação esquelética. Não é atlas validado para atribuir idade óssea exata.

Duas cautelas de leitura. A previsão de estatura final derivada da idade óssea costuma superestimar a altura e tem baixa precisão — use-a como argumento de tendência, nunca como número prometido à família. E a idade óssea não é um exame de urgência: pedir e não conseguir marcar em quatro meses é pior do que pedir na consulta em que a segunda medida de altura já existe.

O hormônio luteinizante basal e o teste de estímulo

O laboratório confirma a suspeita clínica; não a substitui. O exame que decide entre central e periférica é o hormônio luteinizante, dosado por método sensível e com limite de detecção de pelo menos 0,1 UI/L. Valores basais acima de 0,3 UI/L por ensaio imunoquimioluminométrico e acima de 0,6 UI/L por imunofluorométrico confirmam ativação do eixo em ambos os sexos.

O problema é a direção do erro: valor basal na faixa pré-puberal não exclui nada, porque a secreção é pulsátil e a coleta pode cair entre dois pulsos. Sobreposição entre pré-puberal e puberal inicial é frequente nas meninas. Por isso, com suspeita clínica e basal baixo, indica-se o teste de estímulo com 100 mcg de hormônio liberador de gonadotrofinas por via endovenosa, com coletas aos 0, 30 e 60 minutos: pico acima de 5 UI/L confirma o diagnóstico nos dois sexos, e o teste vale a partir dos 3 anos de idade.

Quando o hormônio nativo não está disponível, o protocolo aceita o teste com análogo: dosa-se o hormônio luteinizante 2 a 3 horas depois de 3,75 mg de leuprorrelina, e considera-se resposta puberal acima de 10,0 UI/L por imunofluorométrico ou acima de 8,0 UI/L por quimioluminescência e eletroquimioluminescência. A razão entre hormônio luteinizante e folículo-estimulante acima de 1 aparece mais em quem já entrou na puberdade, e o protocolo a usa como auxílio para distinguir o quadro que progride daquele que não progride.

Abaixo dos 2 anos de idade, cautela extra: as gonadotrofinas podem estar fisiologicamente elevadas, resíduo da minipuberdade, e a leitura desses valores fora do contexto produz diagnóstico onde não há doença. Nessa faixa, o dado ultrassonográfico pesa mais que o hormonal. E um lembrete de unidade que já custou erro de mil vezes: 1 UI/L é igual a 1 mUI/mL — a mesma escala, escrita de dois jeitos pelo mesmo protocolo.

A ultrassonografia pélvica

Na menina, a ultrassonografia pélvica avalia o efeito do estrogênio sobre o órgão-alvo. O protocolo federal considera sugestivos de estímulo estrogênico persistente o útero com comprimento maior que 35 mm, volume maior que 2 mL, aspecto piriforme e espessura endometrial aumentada; e considera que ovários com volume maior que 1 cm³ sugerem fortemente estimulação gonadotrófica persistente. Um documento brasileiro de sociedade escreve essa mesma frase com o sinal invertido — a nota de auditoria mostra a frase e a conta, e é caso para ler o exame pelo protocolo.

Onde a ultrassonografia mais rende é onde o hormônio menos rende: na menina abaixo de 3 anos, faixa em que tanto a dosagem basal quanto o próprio teste de estímulo perdem confiabilidade. Fora dessa faixa, o protocolo a classifica como exame adicional, não obrigatório, útil na dúvida diagnóstica. Ela também é o exame que encontra o cisto ovariano funcionante — cisto maior que 10 mm em um dos ovários pode ser a fonte hormonal de uma precocidade periférica.

Duas ressalvas que evitam laudo inútil. Cerca de quarenta em cada cem meninas pré-púberes têm microcistos e folículos ao exame, e isso é normal: encontrar folículo não é encontrar doença. E o exame depende de quem o faz — a via é transabdominal, com bexiga cheia, em criança que não colabora, e a Sociedade Brasileira de Pediatria pede atenção especial a que seja realizado por profissional experiente com crianças.

Na suspeita de origem periférica, a investigação por imagem se estende: ultrassonografia de abdome para tumor adrenal, com tomografia ou ressonância quando a ultrassonografia não resolve. Massa abdominal palpável em criança com virilização é encaminhamento hospitalar, não pedido de exame ambulatorial.

A ressonância de sistema nervoso central

A regra do protocolo federal é direta e vale decorar: ressonância de sistema nervoso central em todos os meninos e em todas as meninas menores de 6 anos com diagnóstico clínico e laboratorial de puberdade precoce central. Entre 6 e 8 anos, na menina, ela também deve ser realizada quando houver suspeita clínica de alteração do sistema nervoso central.

O número que sustenta essa fronteira: lesão anatômica aparece em cerca de três por cento das meninas de 6 a 8 anos com puberdade precoce central. É baixo o bastante para não obrigar o exame em todas, e alto o bastante para que qualquer cefaleia, alteração visual, convulsão ou déficit focal o torne obrigatório naquela criança.

O que a ressonância procura tem nome: hamartoma hipotalâmico, glioma óptico ou hipotalâmico, craniofaringioma, astrocitoma, ependimoma, germinoma, adenoma, além de hidrocefalia, sequela inflamatória ou infecciosa e malformação. Encontrar lesão não encerra o caso endocrinológico — a criança segue precisando de bloqueio enquanto o tratamento da lesão corre —, mas muda quem coordena.

Um caminho alternativo que o documento da Sociedade Brasileira de Pediatria abre e que vale conhecer: quando há caso semelhante na família, o estudo molecular pode vir antes da imagem, e a mutação encontrada abre aconselhamento genético para a criança e para os parentes. Isso não vale para o menino, em quem a imagem é obrigatória de qualquer modo.

A investigação do recém-nascido com genitália atípica

Aqui a lista é normativa e está no anexo da resolução de 2026, o que tem uma vantagem prática: o interno pode conferir se o serviço a cumpre. Exames hormonais de função adrenal: a 17-hidroxiprogesterona neonatal da triagem, ajustada para data de coleta e peso ao nascer, e a dosagem sérica basal de 17-hidroxiprogesterona, de preferência por espectrometria de massa; em casos selecionados, hormônio adrenocorticotrófico, cortisol, progesterona, di-hidroepiandrosterona, 17-hidroxipregnenolona e 11-desoxicortisol.

Função gonadal: hormônio luteinizante, folículo-estimulante, testosterona total, androstenediona e di-hidrotestosterona, em condições basais ou após estímulo com gonadotrofina coriônica; hormônio antimülleriano e inibina B, quando disponíveis, como marcadores de função testicular. Avaliação hidroeletrolítica: sódio e potássio, com monitorização a cada 24 a 48 horas até excluir crise adrenal por hiperplasia adrenal congênita clássica. É essa última linha que separa a investigação de um diagnóstico da vigilância de uma emergência.

Exames genéticos: o cariótipo é obrigatório — a norma usa essa palavra. Quando disponíveis, acrescentam-se hibridização in situ fluorescente, pesquisa de sequências do cromossomo Y e sequenciamento de nova geração. Imagem: ultrassonografia pélvica e das regiões inguinais, para identificar derivados müllerianos e localizar as gônadas, e ultrassonografia de abdome total. Em casos selecionados, uretrocistografia, genitografia, ressonância ou tomografia, e, mais adiante, cistoscopia, laparoscopia e biópsia gonadal.

A avaliação anatomopatológica tem indicação nomeada: caracterizar o tecido gonadal quando se suspeita de disgenesia gonadal ou de ovotéstis, investigar tumor de células germinativas em quem foi submetido a gonadectomia por risco aumentado, e rastrear alteração maligna ou pré-maligna nas síndromes que predispõem a neoplasia. Risco oncológico gonadal é parte da investigação desde o começo, não uma preocupação de adulto.

Duas coisas que o interno faz e que não estão na lista de exames. A primeira é descrever a genitália com precisão e sem eufemismo no prontuário: tamanho do falo, palpação das gônadas com tamanho e localização, posição dos meatos uretral e vaginal ou do seio urogenital, grau de fusão, rugosidade e pigmentação das pregas labioescrotais. A segunda é não escrever, em lugar nenhum, um sexo que ainda não foi definido — nem no prontuário, nem na pulseira, nem na conversa de corredor.

07

As idades que decidem, os esquemas que existem, e o que não fecha nos documentos

Este bloco reúne quatro coisas: os cortes de idade e o que cada um decide; o que separa variante benigna de doença; os esquemas de tratamento com o que o SUS de fato entrega e por qual componente; e o que a norma exige nas primeiras horas do recém-nascido com genitália atípica. Depois vêm as notas de conferência — as contas refeitas sobre os documentos brasileiros correntes, as que não fecharam e as que fecharam. Elas não são curiosidade editorial: três delas mudam a leitura de um exame, uma muda a prescrição e uma muda qual texto de norma está em vigor.

  1. 11. A criança tem sinal puberal antes de 8 anos, se menina, ou antes de 9, se menino? Se não, não é este capítulo — pelo isolado depois dessas idades é adrenarca no tempo, e mama depois dos 8 é puberdade.
  2. 22. Que sinal é? Mama isolada na menina, ou pelo isolado em qualquer dos dois, sem outro sinal, é candidato a variante benigna. Mama com pelo, ou volume testicular igual ou maior que 4 mL, é puberdade instalada.
  3. 33. Há sinal de alerta? Início antes dos 6 anos, virilização, cefaleia ou vômito matinal, alteração visual, convulsão, massa abdominal, assimetria testicular, timbre de voz grave, mudança abrupta de percentil de altura. Se há, a consulta deixa de ser de acompanhamento.
  4. 44. É menino? Então a barra desce: sessenta a setenta por cento têm causa orgânica, um terço tem tumor de sistema nervoso central, e a imagem de crânio é obrigatória depois da confirmação. Menino com puberdade instalada não fica em observação na unidade básica.
  5. 55. Sem sinal de alerta e sem menino: registre estadiamento de mama e de pelo separadamente, peso e altura na curva, e marque retorno em três meses. A velocidade é o exame, e ela precisa de duas datas.
  6. 66. Com sinal de alerta, ou abaixo de 6 anos: peça idade óssea por radiografia de mãos e punhos, hormônio luteinizante e folículo-estimulante basais, estradiol na menina ou testosterona total no menino, hormônio tireoestimulante e tiroxina livre. Com virilização, acrescente sulfato de di-hidroepiandrosterona, 17-alfa-hidroxiprogesterona e androstenediona.
  7. 77. Interprete a dupla: eixo ligado, com hormônio luteinizante em nível puberal, aponta central; esteroide alto com hormônio luteinizante suprimido aponta periférica. Basal baixo com clínica convincente não exclui nada e pede teste de estímulo, que é do especialista.
  8. 88. Encaminhe com o pacote pronto — duas medidas de altura datadas, dois estadiamentos datados, idade óssea e os básicos —, e diga à família o que ainda não se sabe. Encaminhamento sem exames atrasa a criança em meses.
  9. 99. Tratar é decisão do especialista, e nem toda puberdade precoce se trata: a que evolui devagar e não compromete a estatura final não tem indicação. O tratamento é análogo do hormônio liberador de gonadotrofinas, e existe no Componente Especializado.
  10. 1010. Se o quadro é periférico, o alvo é a causa: cisto, tumor, hipotireoidismo, esteroide exógeno, hiperplasia adrenal congênita. Análogo não trata puberdade periférica — a não ser depois, se ela tiver ligado o eixo por cima.
  11. 1111. Recém-nascido com genitália atípica: não atribua sexo, não registre sexo, não improvise nome. Acione a equipe multiprofissional mínima que a norma nomeia e mantenha a família informada em linguagem clara e contínua.
  12. 1212. No mesmo movimento, trate a genitália atípica como possível emergência metabólica: sódio e potássio a cada 24 a 48 horas até excluir a forma clássica perdedora de sal, cariótipo, 17-hidroxiprogesterona, e vigilância clínica de desidratação e choque.
  13. 1313. Recém-nascido de genitália típica não está fora de risco: o 46,XY com hiperplasia adrenal congênita clássica nasce sem nada aparente e descompensa na segunda semana. A porta dele é a triagem neonatal e a suspeita diante de hiponatremia com hipercalemia.
  14. 1414. Cirurgia de caráter irreversível, fora de urgência médica, só depois de análise fundamentada da equipe, com participação informada dos representantes legais e assentimento do paciente menor esclarecido. O acompanhamento é longitudinal e registrado.
PerguntaMeninaMeninoOnde está escritoO que essa idade decide
A partir de que idade a puberdade é fisiológica?8 anos9 anosPCDT 2022; SBP nº 92, 2023Abaixo dela, o sinal puberal vira motivo de avaliação
Até que idade ela é fisiológica?13 anos (SBP) ou 12 anos (Febrasgo)14 anosSBP nº 92, 2023; Febrasgo nº 37, 2025Acima dela é puberdade tardia, que é do capítulo Amenorreia
Que sinal abre a definição de precoce?Mama, com ou sem peloVolume testicular igual ou maior que 4 mL, com ou sem peloPCDT 2022, item 3.1Pelo isolado não abre a definição em nenhum dos dois
Quando a imagem de crânio é obrigatória?Abaixo de 6 anos; de 6 a 8 se houver suspeita neurológicaSempre, em todosPCDT 2022, item 3.3É a diferença de conduta mais dura entre os sexos
Qual idade óssea exclui o tratamento?Acima de 12 anosAcima de 13 anosPCDT 2022, item 5Passou disso, o bloqueio não recupera estatura
Com que idade óssea se avalia parar?Perto de 12,5 anosPerto de 13,5 anosPCDT 2022, item 7.4Meio ano acima do corte de exclusão, e são decisões diferentes
Qual velocidade caracteriza progressão rápida?Mudança de estágio de Tanner em menos de 3 mesesMudança de estágio de Tanner em menos de 3 mesesPCDT 2022, item 3.1É o critério que decide tratar entre 6 e 8 anos
Qual velocidade de crescimento é aceleração?Acima de 6 cm por anoAcima de 6 cm por anoPCDT 2022, item 4Só se mede com duas alturas datadas
Que idade concentra o risco de causa orgânica?Abaixo de 6 anos; risco maior entre 3 e 5Qualquer idadePCDT 2022; SBP nº 75, 2023Muda a espera vigiada para investigação
Qual a chance de o caso ser idiopático?Cerca de 95%Cerca de 30% a 40%SBP nº 92, 2023É por isso que menino e menina não seguem o mesmo caminho
A partir de que idade vale o teste de estímulo?3 anos3 anosPCDT 2022, item 3.2Abaixo disso, o peso recai sobre a ultrassonografia pélvica

Variante benigna, central e periférica: o que separa as três à beira do consultório

AchadoTelarca ou pubarca isoladaPuberdade precoce centralPuberdade precoce periférica
Sequência dos sinaisUm sinal só, sem os outrosA esperada: mama antes de pelo; testículo antes de tudoFora do roteiro; sangramento sem telarca, pelo sem testículo
Velocidade de crescimentoNormalAcelerada, acima de 6 cm por anoAcelerada
Idade ósseaCompatível ou atrasada, e não avançaAvançada e progredindoAvançada e progredindo
Hormônio luteinizante basalPré-puberalPuberal, ou pico acima de 5 UI/L no estímuloSuprimido, apesar do esteroide alto
Volume testicular no meninoAbaixo de 4 mLIgual ou acima de 4 mL, bilateralAbaixo de 4 mL, ou aumento de um lado só
Ultrassonografia pélvica na meninaÚtero e ovários pré-puberaisÚtero acima de 35 mm e ovário acima de 1 cm cúbicoPode mostrar cisto acima de 10 mm ou massa
Evolução em 6 mesesEstabiliza ou regrideProgride de estágioProgride, às vezes em surtos
CondutaAcompanhar de 1 a 3 meses; não tratarEncaminhar; tratar se houver prejuízo de estaturaTratar a causa; análogo não resolve
Quem decide o tratamentoNinguém: não há o que tratarEndocrinologia pediátricaDepende da causa: endocrinologia, cirurgia, oncologia

Esquemas do protocolo federal e o que a Rename 2024 de fato entrega

FármacoApresentação no protocoloFrequência e viaConsta na Rename 2024?ComponenteTotal por ano de calendário
Leuprorrelina3,75 mg pó para suspensãoMensal, intramuscularSimEspecializado, grupo 1B45,0 mg
Leuprorrelina7,5 mg (só se controle insatisfatório)Mensal, intramuscularNão consta essa apresentaçãoNa prática, 2 frascos de 3,75 mg90,0 mg
Leuprorrelina11,25 mg pó para suspensãoTrimestral, intramuscularSimEspecializado, grupo 1B45,0 mg
Leuprorrelina45 mg pó para suspensãoSemestral, subcutâneaSimEspecializado, grupo 1B90,0 mg
Triptorrelina3,75 mg pó para suspensãoMensal, intramuscularSimEspecializado, grupo 1B45,0 mg
Triptorrelina11,25 mg pó para suspensãoTrimestral, intramuscularSimEspecializado, grupo 1B45,0 mg
Triptorrelina22,5 mg pó para suspensãoSemestral, intramuscularSimEspecializado, grupo 1B45,0 mg
Gosserrelina3,6 mg implanteMensal, subcutâneaSimEspecializado, grupo 1B43,2 mg
Gosserrelina10,8 mg implanteTrimestral, subcutâneaSimEspecializado, grupo 1B43,2 mg
Ciproterona50 mg comprimidoDiária, oral, 50 a 100 mg por metro quadradoSimEspecializado, grupo 1BDepende da superfície corporal
Medroxiprogesterona50 e 150 mg por mL, suspensão injetávelMensal, intramuscular, 50 a 150 mgSimBásico600 a 1.800 mg
Hidrocortisona oralNão prevista para uso crônicoNão se aplicaNão consta apresentação oralSó creme 1% e pó injetável, no BásicoNão se aplica
Fludrocortisona0,1 mg comprimidoDiária, oral, na forma perdedora de salSimEspecializado, grupo 2Depende da dose ajustada

Recém-nascido com genitália atípica: o que a Resolução CFM nº 2.455/2026 exige

FrenteO que a norma exigeQuandoOnde está
Atribuição de sexoInvestigação precoce com vistas a definição adequada de sexo e tratamento em tempo hábil; nada de sexo atribuído sem investigaçãoDesde o nascimentoArt. 2º
Equipe mínimaPediatria ou neonatologia ou clínica médica; endocrinologia pediátrica ou endocrinologia; genética médica; cirurgia pediátrica ou geral; ginecologia e obstetrícia ou urologia; psiquiatriaAntes de qualquer medida terapêuticaArt. 4º, incisos I a VI
FamíliaRepresentantes legais e paciente informados para participar da decisão sobre o sexo de criação; apoio e informação clara e contínua durante toda a investigaçãoDurante toda a faseArt. 4º, §§ 2º e 3º
Emergência metabólicaSódio e potássio com monitorização a cada 24 a 48 horas até excluir crise adrenal por hiperplasia adrenal congênita clássicaPrimeiras horas e diasAnexo I, I, c
GenéticaCariótipo obrigatório; e, quando disponíveis, hibridização in situ fluorescente, pesquisa de sequências do cromossomo Y e sequenciamento de nova geraçãoNa investigação inicialAnexo I, II
Cirurgia irreversívelFora de urgência médica, só depois de análise fundamentada da equipe, com participação informada dos representantes legais e assentimento do paciente menor esclarecidoNunca de imediatoArt. 6º
ConsentimentoTermo de consentimento livre e esclarecido dos representantes legais e assentimento do paciente menor esclarecido, obrigatóriosAntes do tratamentoArt. 5º
Suporte éticoServiço com comissão de ética clínica ou bioética para apoio a decisões complexasEstrutura do serviçoArt. 8º
SeguimentoAcompanhamento contínuo e longitudinal, com registro estruturado em prontuário, plano formal de cuidado e transição planejada para a vida adultaPor anosArt. 7º; Anexo II, III

As classes de idade dos critérios de inclusão do protocolo federal deixam um vão. Para meninas, o documento lista quatro faixas: menores de 3 anos, entre 3 e 5 anos, entre 6 e 8 anos e entre 8 e 10 anos. Conta: as faixas cobrem de 0 a 3, de 3 a 5, de 6 a 8 e de 8 a 10 — o intervalo entre 5 e 6 anos não pertence a classe nenhuma. Uma menina que abre puberdade aos 5 anos e 7 meses, com progressão rápida e idade óssea avançada, não satisfaz literalmente nenhum dos critérios de inclusão escritos, embora seja exatamente o perfil de maior risco de causa orgânica. Frases conferidas por busca exata sobre o texto normalizado, com espaço e hífen de quebra removidos. Na prática o especialista a inclui pela faixa de 3 a 5, por continuidade; mas quem lê o protocolo ao pé da letra para autorizar dispensação não tem essa liberdade, e é aí que a criança para.

No mesmo bloco de critérios, um valor exato pertence a duas classes. Oito anos fecha a faixa de 6 a 8 e abre a de 8 a 10, e as duas exigem coisas diferentes: a primeira pede comprometimento da estatura final entre outros itens, e a segunda pede início antes dos 8 anos ou em idade limítrofe, com menarca iminente. Nos meninos acontece o mesmo com 9 anos, que fecha a faixa de menores de 9 e abre a de 9 a 10, esta com exigência adicional de progressão rápida e prejuízo de altura final. Conta: a menina que tem exatamente 8 anos na consulta é elegível por um caminho mais fácil ou mais difícil conforme a faixa escolhida por quem preenche o processo — o documento não diz qual vale.

A janela do critério não cabe na periodicidade que o próprio protocolo recomenda. O documento pede que a progressão seja documentada a cada 3 a 6 meses e, na mesma página, define puberdade rapidamente progressiva como mudança do estádio puberal em período menor que 3 meses. Conta: se o intervalo entre duas avaliações é de no mínimo 3 meses, uma mudança observada entre duas consultas terá levado 3 meses ou mais por construção, e o critério de menos de 3 meses jamais se verifica no calendário que o próprio documento propõe. Ele só se torna observável em quem for visto mais de perto — e é a Sociedade Brasileira de Pediatria, no documento nº 75, que recomenda intervalos mensais a trimestrais no acompanhamento da telarca precoce. Quem seguir a periodicidade ministerial nunca poderá afirmar o critério ministerial.

Sinal invertido num documento de sociedade, e ele muda a leitura de um exame. O documento científico nº 92 da Sociedade Brasileira de Pediatria escreve, sobre a ultrassonografia pélvica, que o achado de volume ovariano menor que 2 mL e comprimento uterino inferior a 3,4 cm indicam estimulação hormonal. O protocolo federal escreve o oposto: útero maior que 35 mm de comprimento e volume maior que 2 mL sugerem estímulo estrogênico persistente, e ovário com volume maior que 1 cm cúbico sugere fortemente estimulação gonadotrófica persistente. A frase do documento de sociedade foi conferida por busca exata sobre o texto normalizado e está lá como transcrita. Lida ao pé da letra, ela manda considerar estimulada justamente a menina cujo útero e ovários estão pequenos. Use o protocolo. E note o segundo detalhe: 3,4 cm contra 35 mm são dois cortes diferentes, separados por 1 mm, para a mesma medida.

Erro de unidade por fator mil, num documento brasileiro corrente. O documento científico nº 75 da Sociedade Brasileira de Pediatria escreve que valores de hormônio luteinizante basal acima de 0,2 UI por mL, por ensaios sensíveis, refletem ativação do eixo. Conta: 1 UI por mL equivale a 1.000 UI por L, logo 0,2 UI por mL são 200 UI por L — valor que não existe em criança nenhuma, nem em adulto. O número pretendido é 0,2 UI por L. E, mesmo corrigido, ele diverge do corte de 0,3 UI por L que o protocolo federal e o documento nº 92 da mesma sociedade adotam para o mesmo ensaio. Frase conferida por busca exata sobre o texto normalizado.

Dois cortes incompatíveis de estradiol, em dois documentos da mesma sociedade publicados com dois meses de diferença. O documento nº 75 diz que valores elevados são os acima de 20 ng por dL; o documento nº 92 diz que concentrações muito elevadas, acima de 100 pg por mL, geralmente indicam cisto ou tumor ovariano. Conta: 1 ng por dL equivale a 10 pg por mL, logo 20 ng por dL são 200 pg por mL. Um estradiol de 150 pg por mL é, portanto, não elevado pelo primeiro documento e sugestivo de cisto ou tumor pelo segundo. A explicação provável está na autoria: o nº 75 é assinado pela gestão 2019-2021 do departamento e o nº 92 pela gestão 2022-2024.

A razão entre os sexos não se sustenta nos números citados ao lado dela. O protocolo federal afirma que a puberdade precoce é de 10 a 23 vezes mais frequente em meninas do que em meninos e, na frase seguinte, cita o estudo populacional dinamarquês com 20 a 23 casos por 10.000 meninas e menos de 5 casos por 10.000 meninos. Conta: com 20 por 10.000 nas meninas e o teto de 5 por 10.000 nos meninos, a razão mínima garantida é 20 dividido por 5, ou seja, 4 vezes; com 23, é 4,6 vezes. Para o piso declarado de 10 vezes, a incidência nos meninos teria de ser de no máximo 2,0 a 2,3 por 10.000 — número que o documento não escreve. Os dois números impressos garantem 4 vezes, não 10.

Conferência que fechou, e que reconcilia dois documentos que parecem discordar. O documento nº 75 da Sociedade Brasileira de Pediatria afirma que em 90% dos casos de puberdade precoce central não é possível identificar a etiologia; o documento nº 92 afirma 95% de idiopáticos nas meninas e 60% a 70% de causa orgânica nos meninos. Conta: aplicando a razão de sexos do protocolo federal, com 10 meninas para cada menino, o idiopático agregado é (10 vezes 0,95 mais 1 vez 0,35) dividido por 11, igual a 89,5%; com 23 meninas por menino, é 92,5%. Os 90% do primeiro documento são o agregado dos números do segundo, e não um terceiro número em conflito.

Conferência que fechou, sobre causa orgânica no menino. O protocolo federal escreve que dois terços dos casos em meninos estão associados a anormalidades neurológicas e que, destes, 50% se relacionam a tumores. Conta: dois terços de 100% são 66,7%, e metade disso são 33,3% dos meninos com puberdade precoce central portando tumor de sistema nervoso central. O documento nº 92 da Sociedade Brasileira de Pediatria diz 60% a 70% de causa orgânica nos meninos, faixa que contém os 66,7%. Duas fontes independentes chegam ao mesmo lugar por contas distintas, e é nesse par de números que se apoia a regra de imagem obrigatória.

O número que o interno vai repetir não está no protocolo. Os 95% de casos idiopáticos em meninas vêm do documento científico da Sociedade Brasileira de Pediatria. O protocolo federal escreve apenas que, em meninas, a maior parte dos casos é idiopática — sem percentual, e sem denominador. Quem citar 95% como régua ministerial estará atribuindo ao Ministério da Saúde um número que ele não publicou. Isso importa em laudo, em parecer e em processo de dispensação, onde a frase precisa ter dono.

Idade óssea: dois cortes no mesmo documento, para duas decisões diferentes, separados por meio ano. O critério de exclusão é idade óssea acima de 12 anos na menina e acima de 13 no menino; a orientação de interrupção sugere avaliar a suspensão com idade óssea próxima de 12,5 anos na menina e 13,5 no menino. Não é contradição: um corte é para entrar no tratamento, o outro para sair dele. Mas trocar os dois tem consequência assimétrica — usar 12,5 como critério de entrada inclui quem o protocolo exclui, e usar 12 como critério de saída interrompe meio ano antes do sugerido. Anote no prontuário para qual decisão a idade óssea foi lida.

O critério de avanço de idade óssea traz dois limiares ligados por uma conjunção alternativa, e o mais permissivo governa. O texto pede avanço de pelo menos 1 ano ou de 2 desvios-padrão acima da idade cronológica. Como a exigência é alternativa, basta o menor dos dois — e o documento não informa o valor do desvio-padrão nem a população de referência a que ele se aplica, de modo que o segundo limiar não é calculável a partir do próprio texto. Leitura do capítulo, registrada como tal: na prática o critério que vale é o avanço de 1 ano, e é ele que deve constar do encaminhamento.

As apresentações de leuprorrelina não escalam por miligrama; as de triptorrelina escalam. Conta sobre a Tabela 1 do protocolo: triptorrelina 3,75 mg mensal multiplicada por 3 dá exatamente os 11,25 mg trimestrais, e por 6 dá exatamente os 22,5 mg semestrais. Leuprorrelina 3,75 mg mensal por 3 também dá 11,25 mg trimestrais — mas por 6 daria 22,5 mg, e a apresentação semestral é de 45 mg, o dobro. Não é erro do documento: a de 45 mg é subcutânea e as outras intramusculares, são formulações distintas, e o protocolo afirma que não há superioridade terapêutica entre as três modalidades. É armadilha de raciocínio, e quem converter esquemas por miligrama vai achar que está dobrando a dose.

A dose de escalonamento prevista no protocolo não tem apresentação correspondente no elenco. O documento prevê que, em caso de controle clínico ou laboratorial insatisfatório, se aumente a dose de leuprorrelina ou de triptorrelina de 3,75 mg para 7,5 mg mensais. Busca exata sobre o texto normalizado da Rename 2024: leuprorrelina consta em 3,75 mg, 11,25 mg e 45 mg; triptorrelina, em 3,75 mg, 11,25 mg e 22,5 mg. A apresentação de 7,5 mg não consta em nenhuma das duas. Conta: 7,5 mg são dois frascos de 3,75 mg, o que dobra a quantidade dispensada e a quantidade prescrita — e isso precisa estar escrito na receita e no processo do Componente Especializado, sob pena de a farmácia entregar metade.

O que o SUS entrega, e por qual componente, conferido por busca exata sobre a Rename 2024 normalizada. Leuprorrelina 3,75, 11,25 e 45 mg; triptorrelina 3,75, 11,25 e 22,5 mg; gosserrelina 3,6 e 10,8 mg em implante; e ciproterona 50 mg em comprimido — todos no Componente Especializado, grupo 1B, tendo o protocolo da puberdade precoce central como documento norteador. A medroxiprogesterona, ao contrário, está no Componente Básico, nas apresentações de 50 e 150 mg por mL injetáveis e 10 mg em comprimido. Consequência prática: as duas alternativas de resgate para quem tem reação ao análogo estão em componentes diferentes, e só uma delas sai na farmácia da unidade básica; a outra exige processo aberto.

Fora do elenco, e muda conduta: não existe hidrocortisona oral na Rename 2024. A Resolução CFM nº 2.455/2026 nomeia hidrocortisona e fludrocortisona para o manejo da hiperplasia adrenal congênita. Busca exata sobre o texto normalizado da Rename: hidrocortisona aparece em três formas — acetato 10 mg por g em creme, no Básico dermatológico, e succinato sódico 100 mg e 500 mg em pó para solução injetável, no Básico. Nenhuma apresentação oral. O protocolo nacional da doença, de 2010, é coerente com isso: lista a hidrocortisona apenas como solução injetável de 100 e 500 mg, administrada por via intramuscular ou endovenosa, e oferece para uso oral crônico dexametasona, prednisona e prednisolona. A fludrocortisona 0,1 mg em comprimido consta, no grupo 2 do Componente Especializado. Ou seja: o glicocorticoide oral que a criança em crescimento vai tomar todo dia não é hidrocortisona no Brasil público — é prednisolona em solução oral ou dexametasona, e a escolha entre elas tem consequência sobre crescimento.

Dentro do protocolo de 2010, a dose prescrita de prednisona não fecha com a tabela de potência do mesmo documento. A tabela atribui à prednisona potência anti-inflamatória 3 vezes a do cortisol, e a dose inicial de hidrocortisona prescrita para crianças é de 12 a 18 mg por metro quadrado ao dia. Conta: dividindo por 3, o equivalente em prednisona seria de 4 a 6 mg por metro quadrado ao dia; o protocolo prescreve 2,5 a 4. Os dois intervalos só se tocam no valor 4. Para a menina de 21 kg e 116 cm da vinheta, com 0,82 metro quadrado de superfície, isso é a diferença entre 2,1 e 4,9 mg por dia — mais que o dobro no extremo.

Conferência do próprio protocolo de 2010 que vale explicar à família: a reposição prescrita é supra-fisiológica. O documento estima a produção diária de cortisol em 6 a 7 mg por metro quadrado em crianças e adolescentes, e prescreve hidrocortisona em 12 a 18 mg por metro quadrado ao dia. Conta: a razão entre reposição e produção vai de 12 dividido por 7, ou 1,7 vez, até 18 dividido por 6, ou 3,0 vezes. É essa margem que explica por que o excesso de glicocorticoide na hiperplasia adrenal congênita compromete estatura, e por que o próprio documento manda usar a menor dose que mantenha os androgênios controlados. Registre-se também que a mesma frase troca de unidade no meio: dá a produção em mg por metro quadrado para neonatos e crianças e em mg absolutos para adultos.

Percentuais que fecham cedo demais no protocolo de 2010. O texto diz que a deficiência de 21-hidroxilase responde por cerca de 95% dos casos e a de 11-beta-hidroxilase por aproximadamente 5%, e no parágrafo seguinte acrescenta casos muito raros por deficiência de outras cinco enzimas. Conta: 95 mais 5 são 100%, e as demais formas entram sem espaço no total. É erro de arredondamento no arredondamento, não de conceito, mas quem soma a tabela para um cálculo de rastreamento vai encontrar mais de cem por cento.

Os percentuais da telarca isolada não cobrem a escala. O protocolo federal escreve que entre 21% e 64% das meninas que desenvolvem broto mamário antes dos 8 anos apresentam telarca isolada e não evoluem para puberdade precoce central, e que em 18% a 20% dos casos o aparecimento de mamas ou pelos pode ser o primeiro sinal de puberdade precoce verdadeira. Conta: no melhor caso, 64 mais 20 são 84%, e sobram 16% sem destino; no pior, 21 mais 18 são 39%, e sobram 61%. As duas faixas vêm de populações e desenhos diferentes, e o documento não as reconcilia. A leitura útil é qualitativa: a maioria é benigna, e uma em cada cinco não é.

Erro de cópia no apêndice metodológico do protocolo de 2022. No Quadro 1, que traz a pergunta estruturada para a incorporação da leuprorrelina subcutânea 45 mg, a linha da intervenção repete literalmente a linha da população: pacientes diagnosticados com puberdade precoce central. A tecnologia avaliada, que o texto do apêndice nomeia corretamente duas linhas acima, é o acetato de leuprorrelina subcutânea 45 mg. Frase conferida por busca exata sobre o texto normalizado. Não altera conduta, e é citado porque quem usa o quadro como modelo de pergunta estruturada vai copiar o defeito.

Conferência de unidade que fechou, e que já custou erro de mil vezes em outros lugares. O protocolo diagnostica em UI por L — basal acima de 0,3 e pico acima de 5 — e monitora o tratamento em mUI por mL, pedindo valores abaixo de 4. Conta: 1 UI por L equivale a 1.000 mUI por L, que equivale a 1 mUI por mL. São a mesma escala escrita de duas maneiras, e o próprio apêndice do documento volta a escrever o desfecho primário como hormônio luteinizante abaixo de 4 UI por L. Quem ler mUI por mL como milésimo de UI por L erra por mil. Na mesma família: o protocolo mede útero em mL e ovário em cm cúbicos no mesmo parágrafo, e a Sociedade Brasileira de Pediatria mede volume testicular em mL num documento e em cm cúbicos no outro — 1 mL é exatamente 1 cm cúbico.

O intervalo declarado e o intervalo praticado não são o mesmo, e ninguém diz qual manda. O protocolo escreve mensal, trimestral e semestral. O documento nº 92 da Sociedade Brasileira de Pediatria escreve, para os mesmos fármacos, a cada 28 dias, a cada 84 dias e a cada 24 semanas. Conta: 365,25 dividido por 28 dá 13,0 aplicações por ano, contra 12 do mês de calendário; 84 dias contra os 91,3 de um trimestre; e 168 dias contra os 182,6 de um semestre, ou seja, 14,5 dias a menos por aplicação, o que acumula uma dose extra a cada quatro anos. Consequência administrativa concreta: o processo do Componente Especializado é renovado por período, e a diferença entre os dois relógios aparece como quantidade dispensada que não bate com a receita.

A régua importada que o Brasil não adotou, e a frase brasileira que funciona como se fosse ela. A proposta de baixar o corte para 7 anos em meninas brancas e 6 anos em meninas negras é de 1999, da Lawson Wilkins Pediatric Endocrine Society, a partir do levantamento norte-americano de 1997. Nenhum documento brasileiro corrente adota corte por cor da pele: o protocolo de 2022 e o documento nº 92 mantêm 8 anos para toda menina, e o documento nº 92 cita fatores étnicos apenas como elemento de individualização. O documento nº 75, porém, escreve que a telarca pode ocorrer, de forma fisiológica, entre 6 e 8 anos de idade em meninas negras, sem caracterizar puberdade precoce — frase conferida por busca exata e que, lida como regra, é um corte por cor da pele dentro de um documento brasileiro. O capítulo registra e não adota: uma menina negra de 7 anos com telarca recebe o mesmo acompanhamento que qualquer outra.

Divergência entre sociedades sobre a janela normal, e o vão que ela abre. O protocolo da Febrasgo sobre puberdade tardia, de 2025, escreve que a puberdade ocorre entre 8 e 12 anos, com média aos 10, e define puberdade tardia como ausência de caracteres sexuais secundários aos 13 anos. O documento nº 92 da Sociedade Brasileira de Pediatria escreve que a puberdade é fisiológica na menina entre 8 e 13 anos. Conta: pela Febrasgo, a menina que abre a puberdade aos 12 anos e meio está fora da janela declarada como normal e ainda não é tardia — a faixa de 12 a 13 anos não pertence a classe nenhuma dentro do mesmo documento. O piso, que é o que este capítulo usa, é idêntico nos dois: 8 anos.

Erro de unidade por fator mil no protocolo da Febrasgo sobre puberdade tardia, encontrado ao demarcar a fronteira com o capítulo Amenorreia: em que andar parou, e registrado porque é terreno vizinho que o leitor deste capítulo vai atravessar. O texto corrido escreve que os adesivos de 17-beta-estradiol apresentam 25 ou 50 mg, podendo ser cortados em quatro ou oito partes para se obter a dose de 6,25 mcg. Conta: 25 mg divididos por 4 são 6,25 mg, ou 6.250 mcg — mil vezes a dose escrita na mesma frase. A figura do próprio protocolo traz a versão correta, com adesivo de 25 mcg e um quarto de adesivo igual a 6,25 mcg. A legenda está certa e o texto corrido, não.

A norma de 2026 sobre distúrbios do desenvolvimento sexual chegou ao arquivo publicado com duas redações do mesmo parágrafo. O arquivo servido pelo sistema de normas do Conselho Federal de Medicina imprime, em sequência, dois textos do parágrafo único do artigo 6º, com a marca de retificação conforme o Diário Oficial de 18/05/2026 pendurada ao fim do primeiro. Na primeira redação, a vedação de intervenção cirúrgica que defina fenótipo em discordância com o cariótipo excetua os casos diagnosticados como síndrome de insensibilidade aos andrógenos e síndrome de De La Chapelle. Na segunda, excetua os casos de cariótipo 46,XX com tecido testicular e genitália extremamente virilizada, e os de 46,XY com grave diminuição da produção ou ação dos hormônios masculinos e genitália extremamente feminilizada. A segunda é mais larga: cobre diminuição de produção ou de ação, e não apenas a insensibilidade completa. Qual das duas está em vigor é leitura jurídica, não clínica — o capítulo registra as duas e não escolhe.

Datação do protocolo federal, que é a conferência mais importante deste bloco. A portaria é de 27 de julho de 2022 e revoga expressamente a de 2017. Mas o Apêndice 2 declara que, para a atualização do protocolo em 2017, as buscas nas bases foram feitas com data limite de 15 de outubro de 2009, com atualização em 4 de dezembro de 2014; e que, na revisão de 2022, o trabalho se concentrou nas informações referentes às tecnologias incorporadas — a leuprorrelina subcutânea de 45 mg, pela Portaria SCTIE/MS nº 69, de 28/10/2021, e a triptorrelina de 22,5 mg, pela Portaria SCTIE/MS nº 27, de 16/03/2022. Conta: os critérios diagnósticos que o interno usa hoje repousam sobre uma busca de literatura fechada há dezessete anos, publicada como norma de 2022. Isso não os torna errados; torna obrigatório dizer de onde vêm quando divergem de um livro-texto recente.

Datação do protocolo da hiperplasia adrenal congênita, e o teste mais fraco dito com todas as letras. O documento é a Portaria SAS/MS nº 16, de 15 de janeiro de 2010, que revogou a de 2002. Sua vigência aqui se sustenta apenas por ausência de substituto: nenhum documento mais novo o declara superado, nenhuma portaria posterior sobre a doença foi localizada, e a Rename 2024 continua a nomeá-lo como documento norteador da fludrocortisona. É o teste de vigência mais fraco que existe, e o leitor precisa saber disso: um protocolo de 2010 é o que governa, no SUS, o tratamento crônico da causa mais comum de genitália atípica no recém-nascido.

08

A conduta, hora a hora

Reconstruir início e progressão, medir altura e calcular velocidade com datas, avaliar estágios puberais e sinais associados. Encaminhar quando o conjunto sugerir puberdade precoce ou evolução atípica; sinais neurológicos exigem prioridade própria. Na observação de variante provável, marcar prazo e critérios objetivos de retorno antecipado.

Os marcos abaixo estão em ordem de tempo, não de importância. Os seis primeiros seguem a criança que desenvolveu cedo, da porta da unidade até a farmácia do Componente Especializado. Os dois últimos são o recém-nascido, cujo relógio é de horas.

Uma advertência que atravessa todos eles: a família chega assustada, e o que se diz na primeira consulta fica. Nenhum dos marcos abaixo está completo se a frase dita à mãe não estiver escrita junto — por isso o bloco de falas vem logo depois.

  1. Consulta de hoje, unidade básica, criança com sinal puberal antes da idade

    Faça três coisas nesta ordem. Primeiro, defina o sinal: mama isolada, pelo isolado, os dois, ou volume testicular aumentado — e registre o estadiamento de mama e o de pelo separadamente, com a data. Segundo, meça peso e altura e lance na curva, buscando a medida anterior na caderneta; se houver duas datas, calcule a velocidade em centímetros por ano. Terceiro, procure ativamente os sinais de alerta: início antes dos 6 anos, virilização, cefaleia matinal ou que acorda, vômito sem causa digestiva, alteração visual, convulsão, massa abdominal, assimetria testicular, timbre de voz grave, mudança abrupta de percentil. Pergunte por esteroide em casa, com essas palavras: creme, pomada, comprimido, adesivo, de quem for. Sem sinal de alerta, em menina acima de 6 anos com sinal isolado, não peça exame nenhum e marque retorno em três meses.

    Prescrição
    • Retorno em 3 meses, com data marcada e anotada na caderneta, para nova medida de altura e novo estadiamento
    • Orientação escrita à família: voltar antes se houver crescimento rápido da mama, aparecimento de pelo, sangramento vaginal, dor de cabeça ou vômito
  2. Ainda hoje, se houver sinal de alerta ou se a criança tiver menos de 6 anos

    A consulta deixa de ser de acompanhamento e vira investigação. Peça radiografia de mãos e punhos esquerdos para idade óssea, hormônio luteinizante e folículo-estimulante basais por método sensível, estradiol na menina ou testosterona total no menino, hormônio tireoestimulante e tiroxina livre. Diante de virilização ou pubarca abaixo de 6 anos, acrescente sulfato de di-hidroepiandrosterona, 17-alfa-hidroxiprogesterona e androstenediona; diante de suspeita de tumor produtor, gonadotrofina coriônica. Cefaleia matinal com vômito, alteração visual, convulsão ou déficit focal não esperam exame ambulatorial: são contato telefônico com a referência hoje. Menino com volume testicular igual ou maior que 4 mL entra por esse caminho independentemente de qualquer outro achado.

    Prescrição
    • Radiografia de mãos e punhos esquerdos para idade óssea pelo método de Greulich-Pyle
    • Hormônio luteinizante e folículo-estimulante basais; estradiol ou testosterona total; hormônio tireoestimulante e tiroxina livre
    • Se virilização ou idade abaixo de 6 anos: sulfato de di-hidroepiandrosterona, 17-alfa-hidroxiprogesterona e androstenediona
  3. Em 3 meses, no retorno marcado — a segunda medida é o exame

    Repita exatamente o que foi feito: mesma balança, mesma régua, estadiamento de mama e de pelo com a data nova. Três resultados possíveis. Se a mama estabilizou ou regrediu, sem pelo novo e sem aceleração, o quadro se comporta como variante benigna: mantenha seguimento trimestral e não peça nada. Se houve mudança de estágio, aparecimento de pelo, aceleração da velocidade acima de 6 cm por ano ou sangramento, o quadro progrediu: investigue e encaminhe. Se nada mudou mas a família está aflita, o retorno vale por si — a espera vigiada é conduta, e precisa ser dita como conduta, não como ausência dela.

    Prescrição
    • Altura, peso e estadiamento de mama e de pelo registrados com a data, ao lado dos da consulta anterior
    • Cálculo da velocidade de crescimento em centímetros por ano, escrito no prontuário
    • Se progrediu: pacote de exames básicos e encaminhamento; se não progrediu: retorno em 3 meses
  4. No encaminhamento — o que precisa estar na mão de quem vai receber

    O protocolo federal atribui à atenção primária papel essencial na identificação e no encaminhamento ágil, e encaminhamento ágil quer dizer completo. Devem constar: idade exata de início de cada sinal; duas medidas de altura com datas e a velocidade calculada; dois estadiamentos com datas; idade óssea, quando já realizada; os básicos hormonais; a lista dos sinais de alerta procurados, inclusive os ausentes, porque ausência procurada vale como informação; e a resposta explícita sobre esteroide em casa. Diga na guia qual é a pergunta — puberdade precoce central ou variante da normalidade — e não apenas o achado. Menino, e criança abaixo de 6 anos, seguem com prioridade declarada por escrito.

    Prescrição
    • Guia de referência para endocrinologia pediátrica com hipótese explicitada e o motivo da prioridade, quando houver
    • Cópia da curva de crescimento com as duas medidas datadas anexada à guia
    • Retorno na unidade básica mantido em paralelo, para não perder a criança entre as filas
  5. Com o especialista — quem trata e quem não trata

    A decisão de tratar não é da idade sozinha: é da idade com a velocidade e com a estatura. O protocolo exclui do tratamento a pubarca precoce isolada, a telarca precoce isolada, a precocidade periférica, a puberdade lentamente progressiva sem comprometimento da estatura final em meninas de 6 a 8 anos, e a idade óssea acima de 12 anos na menina ou 13 no menino. O ganho estatural também não é igual em toda parte: quando o bloqueio começa antes dos 6 anos na menina, o ganho descrito é de cerca de 9 a 10 cm; começando entre 6 e 8 anos, cai para 4 a 7 cm; e no menino o benefício não está claramente demonstrado. O tratamento é feito com análogo do hormônio liberador de gonadotrofinas, em esquema mensal, trimestral ou semestral, sem superioridade entre eles. Medroxiprogesterona e ciproterona ficam reservadas a reação alérgica local, abscesso estéril ou anafilaxia com o análogo — elas bloqueiam a progressão, mas não atuam na fisiopatologia e não têm impacto benéfico sobre a altura final.

    Prescrição
    • Análogo do hormônio liberador de gonadotrofinas em uma das apresentações do protocolo, escolhida por adesão e não por potência
    • Se controle insatisfatório: reduzir o intervalo ou aumentar para 7,5 mg mensais de leuprorrelina ou triptorrelina — na prática, dois frascos de 3,75 mg
    • Se ciproterona: aminotransferases e bilirrubinas antes de iniciar e a cada 3 a 6 meses, com reavaliação se a aspartato-aminotransferase subir acima de 3 vezes o valor normal
  6. Ao abrir o processo do Componente Especializado

    É aqui que muitas crianças param, e o interno pode evitar isso. O medicamento é do Componente Especializado da Assistência Farmacêutica, com o protocolo da puberdade precoce central como documento norteador, e a dispensação exige que os critérios de inclusão estejam demonstrados no processo. Isso significa juntar o que o protocolo pede por faixa etária: sinais clínicos, idade óssea avançada, velocidade de crescimento, hormônio luteinizante em nível puberal — basal ou no estímulo, conforme a idade —, ultrassonografia com útero e ovários aumentados nas meninas e, nas faixas mais velhas, a demonstração de comprometimento da estatura final. É obrigatória a cientificação do paciente ou do responsável legal sobre riscos e eventos adversos, formalizada no termo de esclarecimento e responsabilidade. Escreva a dose pela denominação comum brasileira e explicite o número de frascos quando a dose for 7,5 mg.

    Prescrição
    • Prescrição pela denominação comum brasileira, com apresentação, dose, via e intervalo escritos por extenso
    • Termo de esclarecimento e responsabilidade assinado pelo responsável legal, com registro no prontuário
    • Laudo com os critérios de inclusão da faixa etária correspondente, item a item
  7. Sala de parto e primeiros minutos — recém-nascido com genitália atípica

    Não atribua sexo. Não diga menino nem menina, não escreva sexo no prontuário, na pulseira ou no quadro do leito, e não permita que o nome seja anunciado no corredor antes da investigação. Diga à família, ali, uma frase verdadeira e completa: a genitália do bebê está em formação e não permite dizer agora se é menino ou menina; isso tem causas conhecidas, algumas exigem exame de sangue urgente, e a equipe vai investigar com eles a partir de hoje. Examine e descreva com precisão: tamanho do falo, palpação das gônadas com tamanho e localização, posição dos meatos uretral e vaginal ou do seio urogenital, grau de fusão, rugosidade e pigmentação das pregas labioescrotais. Registre a genitália como atípica diante de gônadas impalpáveis, micropênis abaixo de 2,5 cm no recém-nascido a termo, hipospádia proximal, hipospádia com gônada não palpável, qualquer grau de clitoromegalia, massa inguinal ou labial, ou fusão posterior dos grandes lábios. A reanimação em sala de parto, quando necessária, segue o fluxograma do capítulo Reanimação neonatal em sala de parto e não muda por causa disso.

    Prescrição
    • Descrição anatômica detalhada no prontuário, sem eufemismo e sem atribuição de sexo
    • Comunicação à família com linguagem atual e não patologizante, registrada em prontuário
    • Acionamento da equipe multiprofissional mínima: pediatria ou neonatologia, endocrinologia pediátrica, genética médica, cirurgia pediátrica, ginecologia e obstetrícia ou urologia, e psiquiatria
  8. Primeiras 48 horas e primeira semana — a emergência que se esconde atrás da genitália

    Trate como possível hiperplasia adrenal congênita clássica até prova em contrário. Colha sódio e potássio e repita a cada 24 a 48 horas até que a forma perdedora de sal esteja excluída; colha 17-hidroxiprogesterona sérica basal, de preferência por espectrometria de massa, e garanta que a 17-hidroxiprogesterona da triagem neonatal seja colhida e lida com o ajuste para data de coleta e peso ao nascer — a mecânica da triagem, seus prazos e a repescagem são do capítulo As cinco triagens neonatais. Cariótipo é obrigatório. Ultrassonografia pélvica e de regiões inguinais para derivados müllerianos e localização gonadal, e ultrassonografia de abdome total. Vigie clinicamente o que mata: perda de peso além do fisiológico, vômito, má aceitação da mama, letargia, desidratação, hipotensão. E lembre a regra que salva o outro grupo: o recém-nascido 46,XY com a doença tem genitália típica e nada a mostrar — ele chega em choque na segunda semana, e a suspeita nasce de hiponatremia com hipercalemia num lactente desidratado.

    Prescrição
    • Sódio e potássio a cada 24 a 48 horas até exclusão da forma clássica perdedora de sal
    • 17-hidroxiprogesterona sérica basal e cariótipo; hormônio antimülleriano e inibina B quando disponíveis
    • Alta somente com retorno agendado, contato do serviço de referência e orientação escrita de quando voltar ao pronto-socorro
09

Como saber se está funcionando

A reavaliação deste capítulo tem dois relógios muito diferentes. O da criança em bloqueio corre em meses: consultas de 3 a 6 meses, idade óssea anual, dosagem hormonal nos primeiros meses de tratamento. O do lactente com hiperplasia adrenal congênita corre em horas nos primeiros dias e depois em meses. Misturar os dois é o erro clássico.

Para todos os parâmetros abaixo vale a mesma exigência: o valor precisa ser comparável ao anterior. Mesma unidade, mesmo método de ensaio, mesma régua, e a data escrita ao lado. Um segundo número obtido por outro método não é reavaliação — é um número novo.

Nenhum destes parâmetros é reavaliado pelo interno sozinho. O que é dele: garantir que foram pedidos, que chegaram, e que alguém os leu antes da próxima dose.

Estadiamento de Tanner, mama e pelo registrados em separadoA cada 3 a 6 meses, no acompanhamento e durante o tratamento

Esperado: Sem tratamento, na variante benigna: estabilização ou regressão da mama, sem aparecimento de pelo. Em tratamento: regressão dos caracteres sexuais secundários, que é o primeiro benefício que o protocolo lista.

Se não melhora: Progressão de estágio em menos de 3 meses caracteriza puberdade rapidamente progressiva e muda a decisão de tratar. Em quem já está em bloqueio, progressão indica controle insatisfatório: reduzir o intervalo entre doses ou aumentar para 7,5 mg mensais, e conferir se a aplicação está de fato acontecendo na data.

Velocidade de crescimento, em centímetros por anoA cada consulta, sempre com a medida anterior à vista

Esperado: Sem tratamento, na variante benigna: velocidade normal para a idade. Em tratamento: diminuição da velocidade de crescimento — é o segundo benefício listado no protocolo, e é sinal de que o bloqueio funciona, não de que a criança parou de crescer.

Se não melhora: Velocidade acima de 6 cm por ano em criança pré-púbere é aceleração, e sustenta o diagnóstico. Se a velocidade não cai depois de instalado o bloqueio, procure primeiro falha de aplicação e abscesso estéril no local, depois causa periférica associada, depois hipótese diagnóstica errada.

Idade óssea por radiografia de mãos e punhosA cada 12 meses durante o tratamento; a cada 6 meses quando o controle é duvidoso

Esperado: Não progressão da idade óssea, que é o quarto benefício que o protocolo nomeia. Na telarca isolada sem tratamento, espera-se idade óssea compatível ou atrasada e que não corre.

Se não melhora: Idade óssea que continua avançando mais rápido que a idade cronológica em criança bloqueada indica controle insatisfatório ou fonte periférica não tratada. Idade óssea acima de 12 anos na menina e 13 no menino é critério de exclusão do tratamento — a partir daí a discussão passa a ser sobre estatura já perdida, e precisa ser dita à família.

Hormônio luteinizante após o análogoNos primeiros 3 a 6 meses de tratamento, antes da dose seguinte

Esperado: Valores em faixa pré-puberal, com o alvo explícito de manter o hormônio luteinizante abaixo de 4 mUI por mL por imunofluorométrico, imunoquimioluminométrico ou eletroquimioluminescência — a mesma coisa que abaixo de 4 UI por L.

Se não melhora: Valor acima do alvo com clínica progredindo indica bloqueio insuficiente: reduzir o intervalo entre as doses ou subir para 7,5 mg mensais de leuprorrelina ou triptorrelina. Para a gosserrelina, o protocolo não preconiza aumento de dose, por inexistirem estudos nas posologias vigentes — nesse caso a saída é trocar de fármaco, não improvisar dose.

Estradiol na menina, testosterona total no meninoJunto com o hormônio luteinizante, nos primeiros meses de bloqueio

Esperado: Valores basais em faixa pré-puberal, isto é, abaixo do limite de detecção do método usado.

Se não melhora: Esteroide alto com hormônio luteinizante suprimido não é falha do bloqueio: é fonte periférica — cisto ovariano, tumor gonadal ou adrenal, hiperplasia adrenal congênita, exposição exógena. A conduta muda de ajuste de dose para investigação de causa.

Tolerância local e eventos adversos do análogoA cada aplicação e em toda consulta

Esperado: Boa tolerância. Sangramento vaginal pode ocorrer na primeira administração e é esperado — precisa ser avisado antes, não explicado depois. Cefaleia e fogachos de curta duração são ocasionais.

Se não melhora: Reação local, abscesso estéril ou anafilaxia mudam o plano: são as situações em que medroxiprogesterona ou ciproterona entram como alternativa, com a ressalva de que nenhuma delas tem impacto benéfico sobre a altura final. Abscesso estéril também explica falha de absorção e bloqueio insuficiente, e precisa ser procurado antes de se culpar a dose.

Sódio e potássio no recém-nascido e no lactente com suspeita ou diagnóstico de hiperplasia adrenal congênitaA cada 24 a 48 horas até excluir a forma clássica perdedora de sal; depois, conforme a equipe que assume

Esperado: Sódio e potássio normais e estáveis, com ganho de peso adequado e boa aceitação alimentar.

Se não melhora: Hiponatremia com hipercalemia em lactente desidratado é crise adrenal até prova em contrário, e é emergência: reposição volêmica e glicocorticoide em dose de estresse, sem esperar confirmação laboratorial da doença. O protocolo nacional recomenda ainda que todo paciente com a forma clássica porte identificação — pulseira, corrente ou cartão — com a condição e as medidas a serem tomadas.

10

Onde o erro machuca

Escrever no prontuário desenvolvimento mamário inicial em vez do estágio de Tanner com a data

O dano: A conduta inteira deste capítulo depende de comparar duas consultas, e prosa não se compara. Três meses depois, ninguém sabe se a mama cresceu: a mãe diz que sim, o interno acha que está igual, e a decisão de tratar ou esperar fica sem base. Na prática isso produz dois desfechos ruins — encaminhamento apressado de variante benigna, que consome vaga de especialista e assusta a família, e espera indevida de quadro progressivo, que custa estatura.

Como pegar a tempo: Anote mama e pelo como dois números, com a data, no prontuário e na caderneta: mama 2 e pelo 1 em 05/09, por exemplo. Some altura, peso e o cálculo da velocidade. Leva quinze segundos e é o único registro que transforma a próxima consulta em decisão.

Tratar pelo pubiano isolado como se fosse puberdade, ou tranquilizar sem examinar o testículo

O dano: Pelo pubiano é adrenarca, e adrenarca é um eixo diferente da gonadarca. Chamar pubarca de puberdade precoce leva a pedir exame e encaminhar quem não precisa. O erro simétrico é pior: no menino, deixar de medir o volume testicular faz passar despercebido quem tem o eixo ligado e, com ele, um terço de chance de tumor de sistema nervoso central. Nos dois casos o achado que decide não foi procurado.

Como pegar a tempo: Volume testicular em todo menino com qualquer sinal puberal: abaixo de 4 mL, é adrenal; igual ou acima, o eixo está ligado. Na menina, mama e pelo são estagiados em separado, e mama é o sinal que abre a definição — pelo, sozinho, não abre.

Deixar de perguntar por esteroide dentro de casa

O dano: Creme de testosterona em uso pelo pai, pomada de estrogênio prescrita para sinequia de pequenos lábios, anticoncepcional ao alcance da criança e suplementos são causa reconhecida de precocidade periférica, e são a única causa que se resolve retirando a fonte. Sem a pergunta, a criança entra em investigação de tumor, faz ressonância, e o creme continua na pia do banheiro.

Como pegar a tempo: Pergunte com as palavras concretas — creme, pomada, comprimido, adesivo, gel, de quem for e para o que for —, e pergunte de novo no retorno. Vale também para o que foi prescrito pela própria unidade: a pomada de estrogênio para sinequia é receita comum e raramente é lembrada como exposição.

Tratar toda puberdade precoce, ou tratar para estabilizar o comportamento

O dano: Parte das crianças tem evolução lenta e alcança estatura final normal sem medicamento, e o protocolo exclui explicitamente do tratamento a puberdade lentamente progressiva sem comprometimento de estatura em meninas de 6 a 8 anos. Bloquear essas crianças expõe a eventos adversos, a aplicações dolorosas e ao custo do Componente Especializado sem benefício de altura. Tratar por causa de humor, de agressividade ou de constrangimento escolar é usar um bloqueio hormonal para resolver um problema que ele não resolve.

Como pegar a tempo: Amarre a indicação a dois dados objetivos: progressão documentada entre duas datas e prejuízo da estatura final. A repercussão psicossocial é motivo para encaminhar avaliação e acompanhamento psicológicos, e para conversar com a escola — não é, sozinha, motivo de bloqueio.

Atribuir sexo ao recém-nascido com genitália atípica antes da investigação, ou improvisar a frase

O dano: Uma palavra dita na sala de parto vira registro civil, vira nome, vira como a família vai apresentar aquela criança por anos. A atribuição precipitada pode precisar ser desfeita depois do cariótipo, com custo emocional e legal desproporcional; e o silêncio embaraçado, do outro lado, entrega a família à internet e ao vocabulário errado. A própria norma trata a informação clara e contínua como obrigação, não como cortesia.

Como pegar a tempo: Tenha a frase pronta antes de precisar dela, e diga o que é verdade: a genitália está em formação, isso tem causas conhecidas, alguns exames são urgentes, a equipe vai investigar junto com eles e ninguém vai decidir sem eles. Use a terminologia atual e não patologizante, registre a conversa no prontuário, e não escreva sexo em lugar nenhum enquanto ele não estiver definido.

Dar alta a recém-nascido com genitália atípica, ou a lactente com vômito e desidratação, sem eletrólitos

O dano: A causa mais comum de genitália atípica é também a única que mata em dias. A crise adrenal da forma perdedora de sal se instala nos primeiros dias de vida com depleção de volume, hipotensão, hiponatremia e hipercalemia, e a criança 46,XY com a mesma doença nasce com genitália perfeitamente típica — nada no exame físico avisa. Um lactente com vômito, má aceitação e perda de peso que recebe alta como cólica ou refluxo é o caso que volta em choque.

Como pegar a tempo: Sódio e potássio a cada 24 a 48 horas em todo recém-nascido com genitália atípica, até a forma clássica estar excluída, como manda a norma. E, no pronto-socorro, faça a associação ao contrário: hiponatremia com hipercalemia em lactente desidratado é crise adrenal até prova em contrário, e o tratamento começa antes da confirmação.

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O que dizer ao paciente e à família

Este é um capítulo em que a conversa faz parte do tratamento, e em duas frentes muito diferentes. Na primeira, a família vem com medo de câncer e sai com uma consulta marcada — e a consulta marcada só funciona se a espera for explicada como conduta. Na segunda, cada palavra dita na maternidade tem consequência de anos.

Duas regras atravessam as sete falas. A primeira: fale com a criança também, não apenas sobre ela, ajustando a linguagem à idade. A segunda: não prometa o que a idade óssea não entrega — a previsão de estatura final superestima a altura e tem baixa precisão, e uma promessa de centímetros é dívida que o médico não paga.

As falas abaixo são modelos, não roteiro. O que não é negociável nelas é o conteúdo: o que se sabe, o que não se sabe, o que vai ser feito e quando a família volta.

Mãe que trouxe a filha de 6 anos com botão mamário, com medo de câncer

A senhora fez certo em trazer hoje. Isso que a senhora sentiu não é caroço de câncer: é o tecido da mama começando a se formar, e nessa idade quase sempre é uma variação normal do desenvolvimento, que estabiliza sozinha. O que a gente não consegue saber numa consulta só é se vai parar ou se vai continuar — e é o continuar que a gente precisa vigiar. Por isso eu anotei aqui o tamanho de hoje, a altura de hoje, e marquei o retorno para daqui a três meses, no dia tal. Não é para esperar sem fazer nada: é que a única forma de medir isso é comparar duas datas. Se antes disso ela crescer muito rápido, aparecer pelo, sair sangramento ou ela começar com dor de cabeça e vômito, a senhora volta antes.

Não diga: Evite tanto o não é nada, pode ficar tranquila — que faz a família não voltar — quanto o vamos investigar puberdade precoce, que instala a palavra doença numa criança que provavelmente não tem nenhuma. E não peça exame só para acalmar: o exame que decide é a segunda medida.

Mãe do menino de 7 anos com pelo pubiano, cefaleia matinal e vômito

O pelo, sozinho, costuma ser uma coisa da glândula suprarrenal e nem sempre é grave. Mas a senhora me contou outra coisa junto, que é a dor de cabeça de manhã com vômito, e essa parte eu não posso deixar para depois. Em menino, quando o corpo desenvolve cedo, a chance de ter uma causa dentro da cabeça é bem maior do que em menina, e a dor de cabeça de manhã é justamente o sinal que a gente não espera para investigar. Não é para a senhora se desesperar: na maioria das vezes se acha uma coisa tratável. O que eu vou fazer agora é ligar para o hospital de referência e conseguir a avaliação dele, não mandar a senhora para a fila com um papel.

Não diga: Não diga tumor na primeira frase, e não diga também é só coisa de menino que come muito. Não entregue uma guia de encaminhamento eletivo como se fosse conduta: o que muda o desfecho aqui é o telefonema, e a mãe precisa sair sabendo aonde ir e quando.

Família que quer tratamento porque a filha está mais alta que os colegas

Entendo, e é justamente ao contrário do que parece: ela está alta agora porque o corpo dela adiantou, e o mesmo hormônio que a fez crescer depressa também fecha o osso mais cedo. O que a gente trata, quando trata, não é a altura de hoje — é a altura de adulta. E não é todo caso que precisa: quando o desenvolvimento anda devagar e não come a estatura final, o remédio não acrescenta nada e traz efeito colateral. Por isso a gente mede a idade óssea, que mostra quanto ainda sobra para crescer, e acompanha a velocidade. Eu também preciso ser honesto: a previsão de altura final costuma errar para mais, então eu não vou prometer centímetros à senhora.

Não diga: Não prometa altura, não cite um número de centímetros como se fosse garantido, e não venda o bloqueio como tratamento estético. Também não desqualifique a preocupação: dizer que é só impressão sua fecha a conversa que ainda precisa acontecer.

Explicar à família por que o filho vai tomar injeção a cada três ou seis meses

O remédio desliga temporariamente o comando que ligou a puberdade cedo demais. Ele existe em injeção de um mês, de três e de seis, e nenhuma é melhor que a outra — a gente escolhe a que a senhora consegue cumprir sem falhar, porque a falha é o que estraga o tratamento. Na primeira aplicação pode acontecer um pequeno sangramento vaginal; isso é esperado e não quer dizer que piorou. Pode dar dor no local, dor de cabeça e calor. O remédio vem pela farmácia de alto custo, tem um processo para abrir, e eu vou deixar tudo o que ele pede escrito aqui. Quando chegar a hora de parar, a puberdade volta a andar em alguns meses, junto com a dos colegas dela.

Não diga: Não deixe a família descobrir o sangramento da primeira dose sozinha, em casa. Não diga que o tratamento é definitivo nem que impede a puberdade — ele adia. E não mande abrir o processo sem lista escrita do que é preciso: é aí que a criança some do sistema.

Recém-nascido com genitália atípica: a primeira frase à família, na maternidade

Eu preciso conversar uma coisa com vocês dois, e vou ser direto porque vocês merecem a informação certa. O bebê nasceu bem, está respirando bem, e a genitália dele está em formação de um jeito que não permite dizer agora se é menino ou menina. Isso tem causas conhecidas, tem exame que responde, e uma delas precisa ser checada com urgência porque mexe com o sal do sangue — por isso a gente vai colher sangue hoje e repetir amanhã. Enquanto isso, a equipe inteira vai entrar junto: pediatra, endocrinologista, geneticista, cirurgião. Ninguém vai decidir nada sem vocês, e eu prefiro esperar o exame a dizer para vocês uma coisa que talvez eu tenha que desdizer depois. Sobre o cartório: dá para aguardar, e eu explico como.

Não diga: Não use anomalia, defeito, hermafrodita, nem qualquer termo que os livros antigos trazem: a norma brasileira unificou tudo sob distúrbio do desenvolvimento sexual e é essa a linguagem a usar. Não arrisque um palpite de sexo para aliviar o momento, e não deixe a família sair da sala sem saber qual é o próximo passo e a que horas.

Pais que perguntam, na maternidade, quando o filho será operado

Cirurgia não é o primeiro passo, e a norma brasileira é clara sobre isso: procedimento irreversível, fora de urgência médica, só depois de uma avaliação fundamentada da equipe, com vocês informados e participando da decisão, e com o consentimento formalizado. O que é urgente agora não é operar: é descobrir a causa e afastar o risco de saúde. Existem posições diferentes entre médicos e entre órgãos públicos sobre o melhor momento para operar, inclusive a de adiar até a própria pessoa poder consentir, e eu prefiro que vocês saibam disso a que descubram depois. Vamos por partes: primeiro os exames, depois a equipe se reúne com vocês, e a cirurgia, se entrar, entra dessa conversa.

Não diga: Não apresente a cirurgia como resolvida nem como proibida, e não esconda que há divergência. Também não descarregue a decisão nos pais como se fosse escolha deles sozinhos: a norma exige análise fundamentada da equipe, e o médico responde por ela.

Falar com a criança de 7 ou 8 anos que está em investigação ou em tratamento

Sabe o corpo da gente? Ele tem uma hora certa para começar a mudar, e o seu começou um pouquinho antes. Isso não é doença sua, não é culpa de nada que você comeu, e não é castigo. A gente vai medir a sua altura de vez em quando e tirar uma foto do seu osso da mão, que não dói. Se a gente precisar de uma injeção, é para o seu corpo esperar um pouco e mudar junto com o dos seus amigos. Se alguém na escola falar alguma coisa que te incomodar, você pode contar para a sua mãe e para mim.

Não diga: Não converse por cima da criança como se ela não estivesse na sala, e não deixe que a conversa toda aconteça em terceira pessoa. Evite palavras que ela vai repetir errado — precoce, hormônio, bloqueio — sem antes explicá-las. E não use o corpo dela como exemplo diante de outras pessoas na sala.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

A partir de que idade o desenvolvimento em uma menina deve ser chamado de precoce — e se essa idade pode depender da cor da pele

Oito anos, para toda menina — a posição normativa brasileira

Precoce é o aparecimento de caracteres sexuais secundários antes dos 8 anos na menina e dos 9 no menino, sem qualquer distinção por cor da pele ou etnia. É o corte que define os critérios de inclusão do tratamento no SUS, e o mesmo que a sociedade de pediatria repete no documento científico mais recente sobre o tema, que menciona fatores étnicos apenas como elemento de individualização da decisão de tratar, nunca como corte diagnóstico.

Brasil. Ministério da Saúde. PCDT da Puberdade Precoce Central, Portaria Conjunta SAES/SCTIE/MS nº 13, de 27/07/2022, itens 1 e 3.1; Sociedade Brasileira de Pediatria, Documento Científico nº 92, 21/08/2023

Entre 6 e 8 anos pode ser fisiológico em meninas negras — posição de um documento brasileiro de 2023

O documento de sociedade sobre adrenarca e telarca precoces escreve que a telarca pode ocorrer, de forma fisiológica, entre 6 e 8 anos de idade em meninas negras, sem caracterizar puberdade precoce, com evolução puberal lenta apesar do início precoce e menarca em idade habitual. Lida como regra de conduta, essa frase é um corte diagnóstico diferente por cor da pele, dentro de um documento brasileiro corrente — e ela convive, no mesmo país e no mesmo ano, com o corte único de 8 anos.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Documento Científico nº 75, 07/06/2023, seção sobre a idade mais comum da telarca precoce; frase conferida por busca exata sobre o texto normalizado

Sete anos para meninas brancas e seis para meninas negras — a proposta norte-americana de 1999

A partir de um levantamento populacional de 1997 que encontrou desenvolvimento mamário e pubiano mais cedo do que os estudos anteriores, sobretudo em meninas negras, uma sociedade norte-americana propôs em 1999 rebaixar o corte de investigação para 7 anos em meninas brancas e 6 anos em meninas negras. A proposta é discutida até hoje na literatura internacional, e a crítica que a acompanha é de que ela normaliza uma antecipação cuja causa pode ser ambiental e desloca a régua justamente no grupo em que a doença poderia ser mais buscada.

Lawson Wilkins Pediatric Endocrine Society, Drug and Therapeutics and Executive Committees, 1999, a partir do levantamento de Herman-Giddens e colaboradores, 1997 — citada aqui pela literatura secundária, sem leitura do original

Como decidir

Para a menina à sua frente, use 8 anos, qualquer que seja a cor da pele, e diga que é o corte brasileiro corrente. O motivo é operacional antes de ser doutrinário: é o corte que abre a porta do sistema. Uma menina negra de 7 anos avaliada por uma régua de 6 anos deixa de existir para o critério de inclusão do Componente Especializado, e a diferença de tratamento cai exatamente sobre quem já tem mais dificuldade de chegar ao especialista. O que muda com a cor da pele, de fato, não é o corte: é a probabilidade de o quadro ser lentamente progressivo e não comprometer a estatura — e essa probabilidade se resolve com a segunda medida, não com uma classe diferente na porta de entrada. Na prática: registre o estadiamento e a altura hoje, marque o retorno em três meses, e deixe a velocidade decidir. Se alguém no serviço usar a régua por cor da pele, peça que a decisão seja escrita no prontuário com a fonte, porque ela precisa poder ser discutida.

Tratar ou não a menina que abre a puberdade entre 6 e 8 anos, quando a progressão é lenta

Não tratar sem prejuízo demonstrado da estatura final — a régua do protocolo federal

Para a faixa de 6 a 8 anos, o protocolo exige simultaneamente sinais de puberdade rapidamente progressiva, idade óssea avançada, aumento da velocidade de crescimento, hormônio luteinizante puberal no estímulo, ultrassonografia com útero e ovários aumentados e, explicitamente, comprometimento da estatura final — definido como previsão abaixo do percentil 2,5, previsão abaixo da estatura-alvo com margem de 8 cm, desvio-padrão da altura para a idade óssea abaixo de menos 2, ou perda de potencial de altura durante o seguimento. E lista a puberdade lentamente progressiva sem comprometimento da estatura nessa faixa entre os critérios de exclusão.

Brasil. Ministério da Saúde. PCDT da Puberdade Precoce Central, 2022, itens 4 e 5

Individualizar, incluindo o impacto psicossocial — a leitura da sociedade de pediatria

O documento de 2023 afirma que a indicação de tratamento não deve estar vinculada apenas à idade de apresentação, mas também à rapidez da progressão; que meninas de 6 a 8 anos com progressão lenta ou involução, sem repercussão sobre a menarca ou a estatura final, não necessitam terapêutica; e, ao mesmo tempo, lista entre os objetivos do tratamento prevenir distúrbios psicológicos secundários, atrasar o início da atividade sexual e reduzir o risco de abuso sexual — objetivos que não se medem em centímetros e que o critério de estatura não captura.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Documento Científico nº 92, 21/08/2023, seções sobre indicação e objetivos do tratamento

Como decidir

A divergência não é sobre quem tem doença: é sobre o que conta como benefício. Para a criança à sua frente, decida em duas etapas. Primeiro, resolva o que é objetivo: existe progressão documentada entre duas datas e existe prejuízo de estatura pelos critérios do protocolo? Se as duas respostas forem não, não há indicação de bloqueio, e o número que sustenta isso é o próprio ganho esperado — 9 a 10 cm quando o tratamento começa antes dos 6 anos, e apenas 4 a 7 cm quando começa entre 6 e 8. Segundo, não descarte o que sobrou: se a queixa central da família é sofrimento, exposição ou constrangimento, isso é motivo para avaliação e acompanhamento psicológicos, conversa com a escola e retorno mais curto — e é motivo para rastrear violência, que tem capítulo próprio. Escreva no prontuário qual das duas etapas sustentou a decisão. Se o especialista indicar bloqueio por motivo psicossocial sem prejuízo estatural, isso é decisão dele e precisa estar justificada por escrito, porque não é o que o critério de dispensação prevê.

Quando operar a criança com distúrbio do desenvolvimento sexual, fora de urgência médica

Decisão da equipe com os representantes legais, sem prazo de espera fixado — a norma médica de 2026

Procedimentos cirúrgicos de caráter irreversível, quando não configurarem urgência médica, podem ser indicados após análise fundamentada da equipe médica multidisciplinar, com participação informada dos representantes legais e assentimento do paciente menor esclarecido, mediante termo de consentimento livre e esclarecido, e considerando risco oncológico, função reprodutiva e qualidade de vida futura. A norma veda intervenção cirúrgica que defina fenótipo em discordância com o cariótipo, com exceções — e o arquivo publicado traz duas redações dessa exceção, registradas nas notas de auditoria. Não há, no texto, exigência de adiar até a maioridade nem até o consentimento do próprio paciente.

Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.455, de 26/02/2026, arts. 5º e 6º e Anexo II, publicada no DOU de 04/05/2026, com retificação em 18/05/2026

Adiar até que a própria pessoa possa consentir — a posição do Ministério Público Federal em 2023

A Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão propõe que nenhuma pessoa seja submetida a procedimento médico invasivo ou irreversível que modifique características sexuais sem consentimento livre, prévio e informado, salvo quando necessário para evitar dano sério, urgente e irreparável à saúde ou à vida; e que, no caso de crianças intersexo, as cirurgias sejam adiadas até que adquiram condições de consentir. Propõe ainda uma política nacional de atenção à saúde dessas pessoas sob perspectiva de despatologização. A nota analisa a norma de 2003, que veio a ser revogada em 2026, e é anterior à norma atual.

Ministério Público Federal, Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão, Nota Técnica PFDC nº 6/2023, de 15/12/2023, conclusão, itens a e b

Como decidir

Nenhuma das duas posições muda o que o interno faz nas primeiras 48 horas, e é isso que precisa ficar claro antes de tudo: as duas concordam integralmente que o urgente é diagnosticar, afastar a crise adrenal e apoiar a família — a divergência começa só depois, na cirurgia eletiva. Para a família à sua frente, portanto: não antecipe a discussão cirúrgica para o primeiro dia, e não deixe a família descobrir sozinha que ela existe. Diga que há posições diferentes sobre o melhor momento, inclusive a de adiar até a própria pessoa poder decidir, e que a equipe vai apresentar as opções com os riscos de cada uma. O que é do interno é garantir três coisas registráveis: que a investigação obrigatória foi feita, que a família recebeu informação clara e contínua, e que nenhuma decisão irreversível foi tomada fora da equipe multidisciplinar que a norma exige. Se o serviço não tiver essa equipe nem comissão de ética clínica, isso também é achado, e vale escrever: a norma condiciona o tratamento a um ambiente que a tenha.

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O raciocínio, em voz alta

Ayla Milhomem tem 6 anos e 4 meses e é a segunda ficha da manhã na unidade básica. A mãe, Suely, descobriu no banho, há uns dois meses, um caroço doloroso embaixo do mamilo esquerdo, passou pomada e não melhorou; veio saber se é câncer. Ayla está bem, come de tudo, brinca, nunca internou, e o cartão de vacina está em dia. A caderneta traz altura anotada aos 5 anos e 1 mês: 108 cm. Hoje ela mede 116 cm e pesa 21 kg. Ao exame, mama em estágio 2 à esquerda e estágio 1 à direita, sem pelo pubiano nem axilar, sem odor axilar, sem acne. Genitália externa de aspecto habitual, sem clitoromegalia e sem sinal de estrogenização vulvar. Sem manchas na pele. Sem cefaleia, sem vômito, sem alteração visual, sem convulsão. A mãe nega creme, pomada, comprimido ou adesivo em casa, seus ou de quem quer que seja, e diz que não há história de puberdade cedo na família. O que se faz hoje.

  1. 1. Nomear o sinal, e nomear o que ele não é

    O que existe é mama em estágio 2, unilateral, sem pelo e sem outro sinal puberal, em menina de 6 anos e 4 meses. Isso é telarca precoce isolada até prova em contrário, que é a variante da normalidade mais comum desta faixa — e a faixa acima de 6 anos é justamente um dos dois picos em que ela aparece. Unilateralidade e dor ao toque são achados esperados do botão mamário, não sinais de gravidade. Não é lipomastia: o disco fibroelástico foi palpado sob a aréola, com a criança deitada e os braços atrás da cabeça, e não há acúmulo adiposo equivalente.

  2. 2. Fazer a conta que a caderneta permite

    Entre 5 anos e 1 mês e 6 anos e 4 meses vão 15 meses, e a altura passou de 108 para 116 cm: 8 cm em 15 meses, ou 6,4 cm por ano. Está acima do corte de 6 cm por ano que o protocolo usa como aceleração — e essa é a informação que a consulta produziu, sem custo e sem exame. Ela não fecha diagnóstico sozinha, porque as duas medidas foram feitas por pessoas e réguas diferentes e a margem de erro é real; mas ela impede que este caso seja arquivado como tranquilizado hoje.

  3. 3. Procurar o que mudaria a conduta hoje, inclusive o que está ausente

    Sinais de alerta procurados e ausentes: início antes dos 6 anos, não; virilização, clitoromegalia ou pelo, não; cefaleia, vômito matinal, alteração visual ou convulsão, não; massa abdominal, não; manchas café com leite, não; sangramento vaginal, não. Exposição a esteroide em casa, perguntada com as palavras concretas: negada. Isso vai escrito no prontuário exatamente assim — ausência procurada é informação, e é o que permitirá ao especialista, daqui a três meses, saber que não foi esquecimento.

  4. 4. Decidir se hoje pede exame

    Sem sinal de alerta, acima de 6 anos, com sinal isolado, a regra é não pedir. Mas a velocidade acima de 6 cm por ano, calculada no passo 2, é o que desempata: aqui cabe pedir a radiografia de mãos e punhos e os básicos hormonais já nesta consulta, em vez de esperar mais três meses para começar. O raciocínio a registrar é esse — não é que a menina tenha sinal de alerta, é que ela já tem duas medidas de altura e a segunda mostra aceleração, e a idade óssea é o exame que dirá se essa aceleração está comendo estatura.

  5. 5. Escrever o que vai permitir comparar

    No prontuário e na caderneta, com a data de hoje: mama 2 à esquerda e 1 à direita; pelo pubiano 1; altura 116 cm; peso 21 kg; velocidade de crescimento 6,4 cm por ano calculada sobre a medida de 5 anos e 1 mês. Sem esses cinco itens datados, a consulta de daqui a três meses recomeça do zero. Com eles, ela decide.

  6. 6. Marcar o retorno como conduta, não como ausência de conduta

    Retorno em três meses, com dia marcado e anotado na caderneta, para nova altura e novo estadiamento, e para ver os exames. Orientação escrita de voltar antes se a mama crescer rápido, aparecer pelo, houver sangramento vaginal, ou surgir dor de cabeça e vômito. A frase dita à mãe está no bloco de falas, e o conteúdo dela não é negociável: não é câncer; provavelmente é variação normal; o que não se sabe hoje é se vai parar; e é por isso que existe a data marcada.

  7. 7. O que os exames vão decidir, e o que não vão

    Se a idade óssea vier compatível com a cronológica ou atrasada, e o hormônio luteinizante basal vier pré-puberal, o quadro se comporta como telarca isolada e o seguimento segue trimestral, sem tratamento. Se a idade óssea vier avançada em um ano ou mais e o hormônio luteinizante vier em nível puberal, o caso é de encaminhamento com prioridade. E há o cenário do meio, o mais frequente: idade óssea levemente avançada com hormônio luteinizante indefinido — que não é resposta, e sim indicação de teste de estímulo, que é do especialista. Nesse caso o encaminhamento sai igual, com os exames anexados.

  8. 8. Se, três meses depois, nada tiver mudado

    Mama ainda em estágio 2, sem pelo, altura de 118 cm — 2 cm em 3 meses, ou 8 cm por ano — e idade óssea de 6 anos e 6 meses para 6 anos e 7 meses de idade cronológica. Esse é o desfecho mais provável, e ele significa uma coisa que precisa ser dita com todas as letras à família: não é doença, não precisa de remédio, e o acompanhamento continua trimestral por enquanto. Alta do acompanhamento só quando a mama regredir ou quando a criança alcançar a idade em que a puberdade é esperada — e mesmo então, com a caderneta atualizada.

  9. 9. O que este caso ensina sobre o outro da mesma manhã

    Ícaro, o menino de 7 anos com pelo pubiano, cefaleia matinal e vômito, entra por porta oposta. Nele, o pelo isolado com testículo abaixo de 4 mL seria adrenarca e não puberdade — mas a cefaleia matinal com vômito não é achado endocrinológico, e sim sinal de hipertensão intracraniana até prova em contrário. Ele não sai com retorno em três meses: sai com contato telefônico feito e avaliação garantida hoje. Duas crianças, a mesma queixa genérica, dois relógios diferentes.

  10. Variação do caso — resposta e reavaliação

    Variação do acompanhamento de Ayla: o desenvolvimento mamário progride e a curva mostra aceleração de crescimento. O novo conjunto fortalece a necessidade de avaliação especializada. Não manter o plano de observar apenas porque a primeira consulta parecia uma alteração isolada.

  11. Variação do caso — quando mudar o plano

    Se aparecem cefaleia progressiva, vômitos ou alteração visual, avaliar urgência neurológica e organizar referência imediata conforme o quadro. Se não há progressão nem aceleração, isso informa o seguimento, mas precisa estar documentado em medidas comparáveis, não apenas em parece igual.

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Faça você

São 4h50 e você é o interno de plantão na maternidade de um hospital geral de 90 leitos, referência para cinco municípios. Melina Cavalheiro, 27 anos, segunda gestação, 39 semanas e 1 dia, pré-natal com seis consultas na unidade básica, sorologias negativas, ultrassonografia do segundo trimestre descrita como sem alterações. Parto vaginal sem intercorrência, recém-nascido de 3.180 g, Apgar 9 e 10, chorou ao nascer, sem necessidade de reanimação. No exame da sala de parto, a enfermeira obstétrica chama você antes de completar a frase: a genitália não permite dizer o sexo. Ao exame, falo de 1,8 cm, pregas labioescrotais fundidas posteriormente, rugosas e hiperpigmentadas, com um único orifício perineal na base do falo, e nenhuma gônada palpável em bolsa nem em canal inguinal. Restante do exame físico sem alterações; abdome sem massas; sem dismorfismos evidentes. O pai, Sandoval, está na sala e pergunta o que escrever no grupo da família, que já está esperando. Não há endocrinologista pediátrico no hospital; o serviço de referência fica a 160 km e atende por regulação. Complete a conduta.

  1. 1. O que se diz agora, e o que não se escreve em lugar nenhum

    Qual é a frase para Melina e Sandoval nos próximos dois minutos, e quais são os quatro campos — prontuário, pulseira, quadro do leito e declaração de nascido vivo — em que a atribuição de sexo não pode aparecer enquanto a investigação corre?

  2. 2. Qual é a hipótese mais provável, e por que ela é urgência

    Qual diagnóstico explica, ao mesmo tempo, a genitália virilizada e um risco de morte nos próximos dias? Que dois eletrólitos você pede, com que periodicidade, e até quando?

  3. 3. Que exames a norma brasileira obriga, e quais dependem de disponibilidade

    Da lista do anexo da Resolução CFM nº 2.455/2026, qual exame é declarado obrigatório com essa palavra? Quais entram como essenciais na função adrenal, na função gonadal e na imagem, e quais são condicionados à disponibilidade do serviço?

  4. 4. Quem precisa estar na equipe, e o que fazer quando o hospital não a tem

    Quais são as seis áreas médicas da equipe multiprofissional mínima que a norma nomeia? O hospital não tem endocrinologista pediátrico nem geneticista: o que isso muda na conduta de hoje, e o que precisa ficar registrado?

  5. 5. Alta, registro civil e o que a família leva escrito

    Em que condições esse recém-nascido pode receber alta, o que vai na orientação escrita aos pais, e o que se responde quando eles perguntam sobre o cartório?

Ver como fecharíamos

1. A frase, e os quatro campos. Diga aos dois juntos, sentados, sem pressa e sem eufemismo: o bebê nasceu bem, respirando bem, com bom peso; a genitália está em formação de um jeito que não permite dizer agora se é menino ou menina; isso tem causas conhecidas e exame que responde; uma dessas causas mexe com o sal do sangue e precisa ser checada com urgência, e por isso o sangue vai ser colhido hoje e repetido amanhã; a equipe inteira vai entrar junto; e ninguém vai decidir nada sem eles. Sobre o grupo da família, responda a verdade útil: o bebê nasceu bem e a equipe está fazendo alguns exames antes de dar mais notícias — e ofereça-se para ajudá-los a formular isso. Os quatro campos em que o sexo não entra: prontuário, pulseira de identificação, quadro do leito e declaração de nascido vivo. O registro civil pode aguardar a investigação; o que não pode é ser feito e depois desfeito. Use a terminologia da norma, distúrbio do desenvolvimento sexual, e nunca anomalia, defeito ou hermafroditismo. 2. A hipótese e a urgência. Hiperplasia adrenal congênita clássica por deficiência de 21-hidroxilase em uma criança 46,XX é a explicação que reúne as duas coisas: o excesso de androgênio intraútero virilizou a genitália externa — aumento do clitóris, fusão labial, seio urogenital com orifício único —, e a deficiência de mineralocorticoide produz, nos primeiros dias de vida, a crise adrenal com depleção de volume, desidratação, hipotensão, hiponatremia e hipercalemia. É a causa mais comum de genitália atípica e a única que mata na primeira semana; no Brasil, a forma perdedora de sal tem incidência estimada de 1 para 7.500 a 1 para 10.000 nascidos vivos, e responde por 60% das formas clássicas. Peça sódio e potássio, com monitorização a cada 24 a 48 horas, até que a forma clássica perdedora de sal esteja excluída — é literalmente o que o anexo da norma exige. Vigie clinicamente perda de peso além do fisiológico, vômito, má aceitação da mama, letargia e hipotensão. Diante de hiponatremia com hipercalemia em recém-nascido desidratado, o tratamento da crise — volume e glicocorticoide em dose de estresse — começa antes da confirmação diagnóstica. 3. Os exames. O cariótipo é o único que a norma chama de obrigatório, com essa palavra. Na função adrenal, são essenciais a 17-hidroxiprogesterona neonatal da triagem, ajustada para data de coleta e peso ao nascer, e a dosagem sérica basal de 17-hidroxiprogesterona, de preferência por espectrometria de massa; em casos selecionados, hormônio adrenocorticotrófico, cortisol, progesterona, di-hidroepiandrosterona, 17-hidroxipregnenolona e 11-desoxicortisol. Na função gonadal, hormônio luteinizante, folículo-estimulante, testosterona total, androstenediona e di-hidrotestosterona, basais ou após estímulo com gonadotrofina coriônica; hormônio antimülleriano e inibina B entram com a ressalva quando disponível. Na avaliação hidroeletrolítica, sódio e potássio como acima. Na imagem, ultrassonografia pélvica e das regiões inguinais, para identificar derivados müllerianos e localizar gônadas, e ultrassonografia de abdome total; uretrocistografia, genitografia, ressonância e tomografia entram quando indicados, e cistoscopia, laparoscopia e biópsia gonadal só em casos selecionados. Entre os genéticos, hibridização in situ fluorescente, pesquisa de sequências do cromossomo Y e sequenciamento de nova geração são condicionados à disponibilidade. A mecânica da triagem neonatal — quando colher, prazo, repescagem — é do capítulo As cinco triagens neonatais; o que é seu aqui é garantir que ela foi colhida e que o resultado será buscado ativamente, e não esperar por ele para começar a investigar. 4. A equipe, e o hospital que não a tem. A norma nomeia seis áreas na equipe médica multidisciplinar mínima: pediatria ou neonatologia ou clínica médica; endocrinologia pediátrica ou endocrinologia e metabologia; genética médica; cirurgia pediátrica ou cirurgia geral; ginecologia e obstetrícia ou urologia; e psiquiatria. Psicologia, serviço social e enfermagem podem integrar conforme a demanda. Sem endocrinologista pediátrico e sem geneticista, a conduta de hoje não muda em nada no que é urgente: eletrólitos, 17-hidroxiprogesterona, cariótipo, ultrassonografia e vigilância clínica são feitos aqui. O que muda é que a criança precisa de vaga regulada para o serviço de referência, solicitada hoje e com o motivo escrito, e que a ausência da equipe mínima precisa constar do prontuário — a norma condiciona o tratamento a um ambiente que disponha da estrutura descrita, e registrar a falta é o que permite cobrá-la. Nenhuma decisão sobre sexo de criação e nenhum procedimento irreversível se toma neste hospital. 5. Alta, cartório e o papel na mão. Alta só com a forma clássica perdedora de sal excluída, ou com a criança já em acompanhamento e tratamento definidos pelo serviço de referência; com peso estabilizado e boa aceitação alimentar; com retorno agendado em data, não em breve; com o contato do serviço de referência escrito; e com orientação por escrito de voltar imediatamente ao pronto-socorro diante de vômito, recusa alimentar, prostração, perda de peso ou pele fria. Sobre o cartório: a declaração de nascido vivo pode ser emitida sem o campo de sexo preenchido de forma definitiva enquanto a investigação corre, e o registro civil pode aguardar — explique isso aos pais como conduta da equipe e não como problema deles, e registre a orientação. Uma última linha, que é a que fecha o capítulo: se o cariótipo vier 46,XY, ou se o recém-nascido da maternidade ao lado tiver genitália perfeitamente típica, nada disso exclui a doença — o menino 46,XY com hiperplasia adrenal congênita clássica nasce sem nada a mostrar e volta em choque na segunda semana.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Aumento testicular bilateral antes dos nove anos com LH puberal favorece puberdade precoce central. O PCDT brasileiro de 2022 recomenda ressonância de sistema nervoso central nos meninos com esse diagnóstico para pesquisar lesão orgânica. Encaminhar à endocrinologia pediátrica e completar avaliação sem aguardar três meses apenas para observar. Frequência de lesões varia com idade e população; não se deve afirmar que um terço de todo menino nessa situação tenha tumor. Ultrassom abdominal e 17-hidroxiprogesterona podem integrar investigação de causas periféricas quando houver indicação, mas não substituem a avaliação central deste caso.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Sete dias depois, feche estes seis pontos. Precoce é sinal puberal antes de 8 anos na menina e 9 no menino, e o sinal que abre a definição é mama na menina e volume testicular igual ou maior que 4 mL no menino — pelo isolado não abre em nenhum dos dois. Central imita a puberdade normal, com o eixo ligado; periférica sai do roteiro, com hormônio luteinizante suprimido. Menino com puberdade precoce é outro caso: 60% a 70% têm causa orgânica, um terço tem tumor de sistema nervoso central, e a ressonância é obrigatória em todos. Na menina, imagem de crânio é obrigatória abaixo de 6 anos e, entre 6 e 8, só com suspeita neurológica. A maior parte do que chega é telarca ou pubarca isolada, e não se trata. E o exame que mais informa é a idade óssea, porque mede o que resta para crescer — que é o desfecho que o tratamento protege. Aplicação comentada: Um achado genital isolado não autoriza concluir cariótipo, função gonadal ou identidade; organize avaliação especializada e comunicação cuidadosa.

Em 30 dias

Trinta dias depois, cheque o que costuma escapar. Que a decisão de tratar exige progressão documentada entre duas datas mais prejuízo da estatura final, e que o ganho esperado cai de 9 a 10 cm, quando se começa antes dos 6 anos, para 4 a 7 cm entre 6 e 8. Que idade óssea acima de 12 anos na menina e 13 no menino exclui do tratamento, e que a orientação de parar usa outro número, meio ano acima. Que os análogos estão no Componente Especializado e a dose de escalonamento de 7,5 mg não tem apresentação própria na Rename, sendo dois frascos de 3,75 mg. Que o corte de 8 anos vale para toda menina, qualquer que seja a cor da pele, e que a régua norte-americana de 1999 que propôs cortes por cor da pele nunca foi adotada aqui. E, do outro lado do capítulo: que genitália atípica no recém-nascido é urgência médica e social, que o cariótipo é obrigatório, que sódio e potássio se repetem a cada 24 a 48 horas até excluir a forma perdedora de sal, e que a norma que rege isso é de 2026 e revogou a de 2003 que os livros ainda citam.

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Agora atenda

Uma menina de 6 anos chega à unidade básica com a mãe, que descobriu um caroço doloroso embaixo do mamilo e quer saber se é câncer. Você tem quinze minutos, uma régua, uma balança e a caderneta da criança. Conduza a consulta: nomeie o sinal, procure os sinais de alerta que mudariam tudo, faça a conta que a caderneta permite, decida se hoje se pede exame ou se marca retorno, e diga à mãe uma frase que ela consiga repetir em casa.

Puberdade precoce e distúrbios do desenvolvimento sexual – Antes do tempo, e fora do roteiro — Internato | OsceLabs