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Ginecologia e ObstetríciaGinecologia

Ciclo menstrual e eixo hipotálamo-hipófise-ovário

Não existe "dosagem hormonal": existe hormônio dosado num dia do ciclo. E a régua brasileira em uso põe o ciclo normal entre 24 e 38 dias, faixa cuja variação inteira cabe na fase folicular — porque a fase lútea é a parte fixa.

Fontes deste capítulo

Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). Sangramento uterino anormal. Femina. 2026;54(3):227-35. Protocolo Febrasgo de Ginecologia n. 80

Simões RS, Baracat MCP, Maciel GAR, Soares Júnior JM, Baracat EC. Amenorreia secundária: algoritmo diagnóstico. Femina. 2025;53(2):138-43

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Departamento de Gestão do Cuidado Integral. Coordenação-Geral de Saúde das Mulheres. Manual de Atenção às Mulheres na Transição Menopausal e Menopausa. 1. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2026. 482 p. Versão preliminar

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hiperprolactinemia. Portaria Conjunta SAES/SCTIE n. 19, de 23 de novembro de 2020

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Síndrome de Ovários Policísticos. 1. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2020. ISBN 978-85-334-2821-8. Conteúdo da Portaria Conjunta SAES/SCTIE n. 6, de 2 de julho de 2019

01

Responda antes de ler

Uma mulher de 26 anos, com ciclos menstruais de 35 dias e sem uso de método hormonal, quer saber se ovula. O médico solicita progesterona sérica "no dia 21 do ciclo", como aprendeu na graduação. O resultado volta baixo. Sabendo que o corpo lúteo tem vida programada de cerca de quatorze dias, como esse resultado deve ser lido?

02

O paciente que você vai ver

Terça-feira, oito e quarenta da manhã, unidade básica de um bairro de periferia. A agenda tem quinze nomes e o quarto é o de Tarsila Cavalcanti, 24 anos, atendente de farmácia. Ela entra com um envelope pardo na mão, senta e coloca o envelope em cima da mesa antes de dizer bom-dia. Dentro há sete exames de sangue e um laudo de ultrassom, todos pagos do próprio bolso numa clínica popular do centro, e a frase que vem junto é: "eu queria saber se eu tenho problema de hormônio".

Os sete exames são hormônio folículo-estimulante, hormônio luteinizante, estradiol, progesterona, prolactina, hormônio tireoestimulante e testosterona total. Todos foram colhidos no mesmo dia, um sábado de manhã, porque sábado é o dia em que a farmácia abre mais tarde e ela consegue ir. Na coluna dos valores de referência, cada linha do laboratório traz três ou quatro faixas empilhadas, com rótulos que ela leu e não entendeu: fase folicular, meio do ciclo, fase lútea, pós-menopausa. O laboratório não perguntou em que dia do ciclo ela estava, e ela não anotou.

O laudo do ultrassom transvaginal é de três semanas atrás e diz duas coisas: ovários com múltiplos folículos pequenos dispostos na periferia, e endométrio de 9 mm. Não há, em lugar nenhum do laudo, a data da última menstruação nem o dia do ciclo em que o exame foi feito. Também esse dado ninguém pediu e ninguém anotou.

A história que ela conta quando você fecha o envelope e começa do começo é mais útil que tudo o que está dentro dele. Menstruou pela primeira vez aos 12 anos. Desde então nunca soube quando a menstruação vem: às vezes o intervalo é de pouco mais de três semanas, às vezes passa de um mês e meio. Ela abre o aplicativo do celular, onde marca o primeiro dia de cada sangramento porque cansou de ser pega desprevenida no trabalho, e os últimos seis intervalos são 24, 31, 45, 28, 39 e 33 dias. O sangramento dura de três a cinco dias, e ela o descreve como normal, nem pouco nem muito.

Não tem cólica que a faça faltar ao trabalho. Não sente as mamas doerem antes de menstruar, e diz isso rindo, porque uma prima jura que sabe pelo peito quando a menstruação vai chegar e ela nunca soube de nada. Não usa método contraceptivo nenhum: o namorado usa preservativo às vezes. Não quer engravidar agora. Quer, um dia. Não usa medicamento de uso contínuo, não fez cirurgia, não teve gestação. O peso está estável há dois anos.

Você tem, portanto, duas coisas em cima da mesa. Uma é um conjunto de números que custou o salário de meio dia dela e que, do jeito como foi colhido, não responde a pergunta nenhuma — nem para dizer que está tudo bem, nem para dizer que não está. A outra é uma sequência de seis números que ela anotou sozinha no celular, de graça, e que já diz mais sobre o eixo hormonal dela do que os sete exames juntos.

Este capítulo é sobre o motivo dessa inversão. O ciclo menstrual é uma conversa em três andares que se repete todo mês, e quase toda decisão clínica que dele depende — que exame pedir, em que dia, o que significa uma espessura de endométrio, por que uma mulher sangra em bloco e outra sangra em pedaços, quando um sangramento que falta é fisiológico e quando é doença — depende de saber em que ponto dessa conversa a mulher estava quando o exame foi colhido. Sem o dia, o número não é um dado: é um ruído com unidade.

03

Quem adoece disso

A fisiologia do ciclo não é assunto de doença rara. É a régua com que se lê a queixa mais comum do consultório ginecológico, e a distribuição das causas quando o ciclo para é, ela própria, um mapa do eixo. Entre as mulheres que deixam de menstruar sem que a causa seja gravidez, amamentação ou menopausa — situação cuja prevalência é de cerca de 3% a 4% —, aproximadamente 35% das causas são hipotalâmicas, 17% são hipofisárias, cerca de 40% são ovarianas, 7% estão no trato genital de saída e 1% vem de doença sistêmica. As cinco fatias somam exatamente cem, e cada uma corresponde a um andar da mesma cadeia. A consequência prática é imediata: os três primeiros exames que se pede não são um rastreio genérico, são a pergunta sobre em qual desses andares o problema está.

No outro extremo da mesma escala está a condição que mais interrompe a conversa hormonal em plena idade reprodutiva. A síndrome dos ovários policísticos tem prevalência estimada em torno de 10% das mulheres nesse período, com estudos variando de 4% a 20%, e é a causa mais comum de irregularidade menstrual. Isso muda a probabilidade a priori de tudo o que se pensa diante de uma mulher de 24 anos com ciclos de 24 a 45 dias: o improvável ali não é a anovulação, é a doença rara. O diagnóstico e o manejo dessa síndrome pertencem ao capítulo Síndrome dos ovários policísticos; o que este capítulo faz é ensinar a ler o eixo que ela desarranja.

Na adolescência, a estatística mais útil não é de prevalência, é de cronologia. A dismenorreia primária começa de 6 a 12 meses depois da menarca e se associa aos ciclos ovulatórios. Isso significa que a cólica, que a menina e a mãe trazem como problema, é sinal de que o eixo completou a volta — e que o primeiro ano sem cólica e com intervalos irregulares é o que se espera de um eixo ainda amadurecendo, não uma doença a investigar. Inverter essa leitura produz dois erros simétricos: tratar como doença a adolescente de 13 anos com ciclos imprevisíveis no primeiro ano, e tranquilizar a de 17 que continua imprevisível quatro anos depois da menarca.

Depois do parto, o mesmo eixo tem um calendário próprio, e ele é mais rápido do que a consulta de revisão. Na mulher que não amamenta, a função do eixo costuma se normalizar entre a quarta e a sexta semana e a ovulação acontece em média por volta do quadragésimo ao quadragésimo quinto dia de puerpério — mas há puérperas que ovulam já por volta do vigésimo quinto dia. Como a revisão puerperal tradicional é marcada para a sexta semana, existe uma janela em que a mulher já ovulou e ainda não foi vista. A contracepção no pós-parto pertence ao capítulo de aleitamento e puerpério; o dado fisiológico que fica aqui é que o eixo religa antes de alguém perguntar se ele religou.

04

Por que acontece o que acontece

A função menstrual normal depende de quatro componentes anatômica e funcionalmente distintos: o hipotálamo, a hipófise anterior, os ovários e o trato genital de saída — útero e endométrio, colo e vagina. Se qualquer um deles não funcionar, o sangramento menstrual pode não acontecer. Guarde essa lista de quatro, porque ela é literalmente o índice de tudo o que vem depois: cada exame que este capítulo manda pedir existe para dizer em qual desses quatro andares o problema está, e cada erro de interpretação que ele ensina a evitar nasce de atribuir a um andar o que é de outro. Repare também no que a lista implica: o sangramento que a mulher vê é o produto final de uma cadeia de quatro elos, e a ausência dele não diz, sozinha, qual elo falhou. Uma mulher pode parar de menstruar com hipotálamo, hipófise e ovários perfeitos, se a saída estiver obstruída; e pode parar de menstruar com útero perfeito, se ninguém estiver mandando o ovário trabalhar. O trabalho clínico inteiro é reduzir essas possibilidades, e a ordem em que se reduz é ditada pela fisiologia, não pelo hábito do laboratório.

O andar de cima fala por pulsos. O hipotálamo libera o hormônio liberador de gonadotrofinas em pulsos, e as células gonadotróficas da hipófise anterior traduzem esses pulsos em hormônio folículo-estimulante e hormônio luteinizante, que caem na corrente sanguínea e agem sobre as células da granulosa e da teca do ovário. O ovário responde produzindo os esteroides sexuais que modificam o endométrio entre as menstruações. No modelo clássico, que é didático e não uma medida de consultório, o que a hipófise lê não é a quantidade de hormônio liberador, e sim a frequência dos pulsos: pulsos lentos favorecem o hormônio folículo-estimulante, pulsos rápidos favorecem o luteinizante. Três consequências clínicas saem daí sem nenhuma conta. A primeira: uma infusão contínua desse hormônio, em vez de pulsátil, desliga a hipófise em vez de ligá-la — é assim que funcionam os análogos usados para encolher mioma antes de cirurgia, e é por isso que uma droga que "estimula" o eixo, administrada errado, produz o efeito oposto do que o nome sugere. A segunda: qualquer coisa que perturbe o gerador de pulsos desliga o eixo do alto, sem que o ovário tenha defeito algum — jejum, perda importante de peso, exercício extenuante, estresse prolongado, doença crônica. A terceira: como o gerador é sensível a sinais de disponibilidade energética, o eixo reprodutivo é, em termos práticos, o primeiro sistema que o organismo desliga quando falta energia, e o último que ele religa quando ela volta. Isso explica a demora de meses para o ciclo voltar depois que o peso é recuperado, e evita que se prometa à paciente um retorno em semanas.

A primeira metade do ciclo é uma competição, e ela é decidida por escassez. No começo do ciclo, o hormônio folículo-estimulante sobe e recruta uma coorte de folículos, que passam a crescer juntos. Dentro de cada folículo há duas células e duas gonadotrofinas trabalhando em série: a teca responde ao hormônio luteinizante produzindo androgênios, e a granulosa responde ao folículo-estimulante convertendo esses androgênios em estradiol pela enzima aromatase. Sem androgênio da teca não há substrato; sem aromatase da granulosa não há produto. Essa arquitetura de duas células explica coisas que, sem ela, precisariam ser decoradas uma a uma. Explica por que o excesso de androgênio e a falta de aromatização mudam o ciclo inteiro pela mesma porta, ainda que venham de causas diferentes. Explica por que um inibidor de aromatase, que na intuição deveria reduzir a fertilidade, é usado justamente para induzir ovulação: ao derrubar a conversão de androgênio em estradiol, ele reduz o estradiol circulante, o freio sobre a hipófise afrouxa e o folículo-estimulante sobe. E explica por que o tecido adiposo, que também aromatiza androgênios, participa da regulação do eixo de fora do ovário — motivo pelo qual variações grandes de peso, para mais e para menos, alteram o ciclo por vias distintas.

A seleção do folículo dominante não acontece porque alguém o escolhe: acontece porque o estradiol que a coorte produz derruba o hormônio folículo-estimulante, e o único folículo que continua crescendo com menos estímulo é o que se tornou mais sensível a ele. A retroalimentação negativa, nesse ponto, não é um detalhe de termostato: é o mecanismo da seleção. O estradiol e as inibinas produzidas pelo próprio ovário reduzem a gonadotrofina que os alimenta, e quem não aguentou a queda entra em atresia. Vale insistir na inversão que isso representa em relação à intuição: o que mata a maior parte da coorte não é falta de matéria-prima nem competição direta entre folículos, é a retirada do estímulo — retirada provocada pelo sucesso do grupo inteiro. Daí saem dois fenômenos opostos que aparecem no consultório. Quando o freio falha e o folículo-estimulante permanece alto, porque o ovário não devolve estradiol e inibina em quantidade suficiente, mais de um folículo escapa da atresia e a gestação múltipla fica mais provável — o que se observa naturalmente na transição menopausal e artificialmente no estímulo mal calibrado. E quando o estímulo é insuficiente desde o começo, a coorte inteira estaciona sem que nenhum folículo se destaque, o estradiol não sobe, e o ciclo não avança nem para a seleção nem para o disparo.

Então vem o único momento em que essa mesma alça troca de sinal. Durante quase todo o ciclo o estradiol suprime as gonadotrofinas. Por algumas horas, na virada da primeira para a segunda metade, o estradiol passa a estimulá-las: é a retroalimentação positiva, e ela é o mecanismo do pico ovulatório do hormônio luteinizante. A troca de sinal não é gratuita, e exige duas condições ao mesmo tempo — uma concentração de estradiol acima de um limiar e uma duração mínima acima desse limiar. É um mecanismo de segurança elegante: só um folículo que já esteja maduro o bastante para sustentar uma concentração alta por dias consecutivos consegue satisfazer as duas exigências, de modo que o disparo não acontece sobre um folículo imaturo. Quem entende isso não precisa decorar mais nada sobre anovulação. Qualquer coisa que impeça o estradiol de subir alto o bastante, ou de permanecer alto tempo suficiente, abole o pico sem abolir o estrogênio. A mulher continua produzindo estrogênio, o endométrio continua proliferando, e o que falta é o disparo. É exatamente esse o estado da anovulação crônica, e é por isso que ela não se parece com falta de hormônio: se parece com hormônio sem comando. Guarde essa frase, porque ela desfaz o engano mais comum do interno diante de uma mulher que não menstrua — supor que falta estrogênio quando, na maioria das vezes, o que falta é o pico. E note a assimetria de tempo que o mecanismo impõe: a preparação leva dias, o disparo leva horas, e é por isso que nenhum exame colhido em um dia qualquer tem chance razoável de pegá-lo.

Depois do pico, o folículo rompido não desaparece: ele se transforma. As células que restam se luteinizam e formam o corpo lúteo, cuja função é produzir progesterona — o hormônio que interrompe a proliferação, organiza o endométrio e, se houver gestação, a sustenta. E aqui está o fato mais útil de toda esta página. O corpo lúteo tem tempo de vida programado, de cerca de quatorze dias, e só sobrevive além disso se a gonadotrofina coriônica de uma gestação implantada o resgatar; sem resgate, ele regride, a progesterona cai, e a queda é o que produz a menstruação. Como a segunda metade do ciclo dura o que o corpo lúteo dura, ela é a parte fixa; toda a variação de duração de um ciclo normal está na primeira metade. Faça a conta com a faixa que a régua brasileira em uso adota, de 24 a 38 dias: são quatorze dias de diferença entre o ciclo normal mais curto e o normal mais longo, e esses quatorze dias inteiros são de fase folicular, que vai de dez a vinte e quatro dias. Três decisões clínicas saem dessa única frase. O dia em que se colhe uma progesterona, que se conta para trás a partir da menstruação esperada e não para frente a partir do dia 1. O dia em que se agenda um ultrassom, que se conta para frente a partir do dia 1, porque a fase folicular precoce é o único ponto do ciclo cuja posição não depende da duração total. E a estimativa do dia fértil, que só é possível para quem tem duração previsível, porque prever a ovulação é prever quando começará a contagem regressiva de quatorze dias.

Enquanto o ovário faz isso, o endométrio faz o correspondente, e é dele que vem o que se enxerga na imagem. Sob estrogênio da primeira metade, o endométrio prolifera: multiplica células, alonga glândulas, cresce em espessura — é fino logo depois da menstruação e vai engrossando enquanto o folículo cresce. Sob progesterona da segunda metade, ele para de crescer e se diferencia: as glândulas passam a secretar, o estroma se transforma, os vasos se organizam. É trabalho que não aparece como aumento de espessura, porque a progesterona interrompe justamente a proliferação. Daí sai uma regra de leitura que vale para todo laudo: espessura endometrial sem dia do ciclo não é medida, é número. Um endométrio de 9 mm no oitavo dia é uma coisa; o mesmo 9 mm no vigésimo segundo dia é outra completamente diferente; e um endométrio de 3 mm no vigésimo segundo dia é um achado que exige explicação, enquanto no terceiro dia é o esperado. A mesma lógica explica por que se exige endométrio abaixo de 6 mm nos primeiros cinco dias de sangramento antes de iniciar um estímulo ovariano: o que se está conferindo não é a espessura em si, é a prova de que a paciente está mesmo onde se supõe que ela esteja no ciclo. O que acontece quando esse tecido descama, como a hemostasia local o fecha e como isso vira sangramento normal ou anormal, é do capítulo Sangramento uterino anormal.

Falta dizer o que mais o ovário devolve, porque isso decide um detalhe prático de agenda e uma conversa difícil de consultório. Além dos esteroides, o ovário devolve inibinas e o hormônio antimülleriano. As inibinas variam com a fase e participam do freio sobre o folículo-estimulante, o que fecha a alça descrita acima. O antimülleriano é produzido pelos folículos pequenos, reflete o tamanho desse estoque e varia pouco ao longo do ciclo — e é exatamente por isso que ele é o único hormônio desta lista que não pede dia marcado, enquanto o folículo-estimulante pede. Essa comodidade, porém, não é indicação: o que ele estima é quantidade de folículos, não capacidade de engravidar, e a régua brasileira que o menciona ressalva que ainda falta um ponto de corte bem estabelecido para ele. Por fim, dois hormônios de fora do eixo agem sobre o andar de cima e o interrompem: a prolactina, que inibe o gerador de pulsos, e os hormônios tireoidianos, cuja falta desregula a mesma região e ainda eleva a prolactina, somando as duas vias. É essa vizinhança anatômica e funcional, e não uma tradição de laboratório, que põe prolactina e hormônio tireoestimulante no primeiro painel de qualquer mulher cujo ciclo parou — e que faz das duas as causas mais frequentes de eixo parado com desfecho tratável.

05

Como se apresenta de verdade

O eixo hormonal fica útil quando explica o calendário e o momento certo de investigar. Você deve relacionar recrutamento folicular, ovulação e fase lútea aos sintomas e exames. Um valor hormonal isolado sem dia do ciclo, uso de medicamentos e pergunta clínica pode produzir um diagnóstico falso.

Percurso clínico: Relacionar eixo, ovário e endométrio

Acompanhe a sequência hormonal e seus efeitos sobre folículo, ovulação e endométrio. Use a fase do ciclo para interpretar sintomas e exames. Essa base organiza depois amenorreia, SOP e contracepção; um hormônio isolado sem momento da coleta pode responder uma pergunta diferente da pretendida.

O que a mulher já sabe e ninguém pergunta

A informação mais valiosa da consulta costuma estar no celular da paciente e não no envelope de exames. Aplicativos de menstruação são de uso corrente, e mesmo quem não usa aplicativo costuma marcar no calendário de parede ou lembrar dos últimos meses. O que se pede é simples: os primeiros dias dos últimos seis sangramentos. Deles saem, de graça, os quatro parâmetros que descrevem um ciclo — com que frequência ele volta, quanto varia de um mês para o outro, quantos dias dura o fluxo e como ela avalia o volume.

Sobre a frequência, a régua brasileira em uso é explícita, e é a mesma nos dois documentos nacionais que a traduzem: o intervalo normal entre o início de um sangramento e o início do seguinte vai de 24 a 38 dias. Abaixo de 24 é frequente demais, acima de 38 é infrequente, e mais de 90 dias sem sangramento é amenorreia. A faixa de 21 a 35 dias, que ainda circula em material de estudo, pertence à nomenclatura anterior à revisão internacional de 2018 e não é a que os documentos brasileiros correntes empregam. A classificação das causas quando o sangramento sai desses limites, e a conduta correspondente, são do capítulo Sangramento uterino anormal; aqui interessa apenas o que a frequência diz sobre o eixo.

E o que ela diz é isto: como a segunda metade do ciclo tem duração fixa, quem tem intervalos previsíveis dentro dessa faixa quase certamente ovula, e quem tem intervalos que pulam de três semanas para seis quase certamente não ovula em todos os meses. Não é uma inferência frágil. É a leitura direta do fato de que a única parte elástica do ciclo é a primeira, aquela que termina no disparo — e um disparo que não acontece não tem prazo para acontecer.

Vale um cuidado de anamnese que muda o dado. Perguntar "sua menstruação é regular?" devolve uma opinião; perguntar "qual foi o dia da última e da anterior?" devolve um número. Muita mulher chama de regular um ciclo que varia doze dias, e muita chama de irregular uma variação de dois. O objetivo da pergunta não é a palavra dela, é a série.

O ciclo que ovula: os sinais que o disparo deixa

Um ciclo ovulatório deixa marcas, e elas aparecem na mesma ordem todo mês. A primeira é o muco cervical. Depois do fluxo vem um período seco, sem secreção perceptível. Em seguida o muco aparece escasso, opaco e viscoso, e vai ficando mais abundante, mais claro e mais elástico até um dia em que atinge o máximo dessas características — o dia ápice, que corresponde à máxima fertilidade e coincide com o pico de estrogênio. Depois da ovulação, sob progesterona, o muco perde a elasticidade e diminui bruscamente de quantidade. É esse ciclo de secreção que a mulher descreve, quando perguntada, como "uns dias de corrimento transparente que estica".

Modelo com gel sintético demonstrando maior e menor filância
Modelo com gel sintético demonstrando maior e menor filância. A aparência do muco deve ser interpretada com o momento do ciclo e o contexto clínico.

A segunda marca é térmica, e chega depois do fato. A progesterona liberada pelo corpo lúteo eleva a temperatura corporal basal em 0,2 a 0,5 grau, e essa elevação se mantém pelo resto da segunda metade. Isso torna a temperatura um marcador retrospectivo — ela confirma que a ovulação ocorreu, e não avisa que vai ocorrer. Para quem quer engravidar, essa distinção é a diferença entre um método que serve e um que chega tarde; para quem quer entender a fisiologia, é a prova de que a progesterona é o hormônio da segunda metade e não da primeira.

A terceira marca é o conjunto de sintomas pré-menstruais que a segunda metade produz: mastalgia, sensação de inchaço, alteração de humor, aumento de apetite. São inespecíficos isoladamente, mas a presença deles de forma cíclica e previsível é sinal de que houve progesterona — e portanto de que houve corpo lúteo, e portanto de que houve ovulação. A ausência completa deles em uma mulher com ciclos irregulares reforça a hipótese de anovulação.

A quarta marca é a cólica. A dismenorreia primária começa de 6 a 12 meses depois da menarca e se associa aos ciclos ovulatórios: a dor vem das prostaglandinas produzidas no endométrio que descama depois de ter sido preparado por progesterona. A leitura que se ganha com isso é contraintuitiva e é uma das mais úteis do capítulo — a cólica menstrual típica, que a paciente traz como sintoma, é evidência a favor de que o eixo está completando a volta. O manejo da dismenorreia e a investigação da dor progressiva pertencem ao capítulo Endometriose.

O ciclo que não ovula: o que falta, e não o que sobra

O ciclo anovulatório se apresenta por ausências. Não há período de muco elástico com dia ápice; não há elevação sustentada de temperatura; não há sintoma pré-menstrual previsível; e a cólica típica costuma faltar. O intervalo entre sangramentos deixa de ter uma parte fixa e passa a ser inteiramente imprevisível, porque nada nele está sendo cronometrado por um corpo lúteo.

A confusão frequente do interno é achar que anovulação significa hipoestrogenismo. É o contrário do que costuma acontecer: o padrão mais comum é o de estrogênio presente e comando ausente, com o folículo produzindo estradiol sem nunca alcançar o limiar e a duração que disparam o pico. A mulher tem estrogênio, tem endométrio proliferado e não tem progesterona nenhuma — e é justamente essa combinação que produz o padrão de sangramento imprevisível. O que esse estado faz com o endométrio ao longo dos anos, e como se trata, é do capítulo Sangramento uterino anormal.

O sistema de classificação que a federação brasileira adota organiza as disfunções ovulatórias exatamente pelos andares do eixo: tipo I hipotalâmico, tipo II hipofisário, tipo III ovariano e tipo IV para a síndrome dos ovários policísticos, que ganhou categoria própria por ser a mais prevalente. Cada uma das três primeiras categorias recebe ainda uma subclassificação por natureza do problema. Repare no que isso significa para a prática: a pergunta clínica diante de uma mulher que não ovula não é "o que ela tem", é "em que andar" — e a resposta a essa pergunta é dada pelos três exames que abrem o mapa, não pelo painel de sete.

Os dois extremos da vida reprodutiva, e por que se parecem

Nos primeiros anos depois da menarca e nos últimos antes da menopausa, o padrão de apresentação é o mesmo: intervalos que variam muito, sangramentos que ora escapam ora demoram, ausência de sinais de ovulação em alguns meses e presença em outros. A causa, nas duas pontas, é a mesma em natureza — o eixo não completa a volta todo mês —, mas por motivos opostos: no começo, porque a retroalimentação positiva ainda não amadureceu; no fim, porque o estoque de folículos capazes de responder está acabando.

A consequência clínica é que o mesmo relato tem prognósticos diferentes conforme a idade de quem o traz, e por isso a idade não é um detalhe demográfico da ficha, é parte do dado. Aos 14 anos, um ano após a menarca, ciclos entre 25 e 50 dias sem cólica são o esperado. Aos 47, o alongamento progressivo do intervalo pede uma leitura de transição. Aos 30, o mesmo padrão não é nem uma coisa nem outra e exige investigação.

A transição menopausal e a menopausa têm capítulo próprio — Climatério e menopausa — e é lá que estão o critério dos doze meses, as faixas etárias e a régua de quando a dosagem hormonal muda conduta. O que fica aqui é o mecanismo compartilhado: o encurtamento do intervalo que aparece primeiro na transição vem do encurtamento da primeira metade do ciclo, o que é coerente com tudo o que este capítulo afirma sobre onde mora a variação.

Quando o eixo é desligado por fora

Há um grupo de causas que não está em nenhum dos quatro andares e desliga o eixo pelo alto, atuando sobre o gerador de pulsos. A mais frequente é funcional: restrição alimentar, perda importante de peso, exercício extenuante, estresse prolongado, doença crônica. Nessas situações o hipotálamo reduz a frequência dos pulsos e a hipófise deixa de estimular o ovário, que fica intacto e ocioso. O quadro laboratorial correspondente é gonadotrofina baixa ou normal com estradiol baixo, e ele é o oposto do que se vê quando o ovário é que falhou.

A segunda causa desse grupo é a prolactina. Ela inibe diretamente o gerador de pulsos, e por isso qualquer coisa que a eleve interrompe o ciclo: prolactinoma, compressão da haste hipofisária por outra lesão, hipotireoidismo primário, insuficiência renal ou hepática — e, muito frequentemente, medicamento. Antipsicóticos, antidepressivos, anticonvulsivantes, opiáceos e a metoclopramida estão entre os que sobem a prolactina, e alguns deles a sobem a valores que se confundem com os de tumor. A galactorreia pode existir ou não, e sua ausência não afasta nada.

A terceira é a tireoide. Tanto o hipotireoidismo quanto o hipertireoidismo alteram o ciclo, e o hipotireoidismo primário faz isso por duas vias somadas — a ação direta sobre o eixo e a elevação da prolactina. Daí a regra prática que aparece em toda a investigação deste capítulo: prolactina e hormônio tireoestimulante andam juntos no primeiro painel, porque um pode ser a causa do outro.

Uma quarta situação merece nome próprio porque muda a leitura de todos os exames: doenças sistêmicas com repercussão no eixo. Diabetes tipo 1, doença celíaca, doença inflamatória intestinal e doença renal crônica aparecem entre as causas, ainda que respondam por uma fatia pequena. A pista de que se está diante de uma delas costuma estar fora da história ginecológica — no peso, no hábito intestinal, no cansaço, no exame de rotina alterado que ninguém relacionou.

O eixo desligado de propósito, e o sangramento que não é ciclo

A situação mais comum de todas em que o eixo não está funcionando é aquela em que alguém o desligou de propósito. Contraceptivo hormonal combinado, pílula só de progestagênio, injetável, implante e sistema intrauterino com levonorgestrel agem, em maior ou menor grau, suprimindo o pico ovulatório ou o recrutamento folicular. O mecanismo detalhado de cada método e a régua de elegibilidade pertencem ao capítulo Contracepção hormonal combinada. O que precisa estar claro aqui é a consequência para a leitura do eixo.

Primeira consequência: o sangramento que a mulher tem na pausa da cartela não é uma menstruação e o intervalo entre eles não é um ciclo. É um sangramento de privação, provocado pela retirada programada do hormônio, e a regularidade dele não informa nada sobre a capacidade do eixo dela de completar uma volta. Uma mulher pode passar dez anos com sangramentos perfeitamente pontuais e descobrir, ao parar o método, que o ciclo próprio dela nunca foi previsível.

Segunda consequência: qualquer hormônio dosado sob uso de método hormonal mede o método, não a mulher. Hormônio folículo-estimulante, hormônio luteinizante e estradiol colhidos sob contraceptivo combinado voltam suprimidos por definição, e interpretá-los como reserva ovariana ou como estado do eixo é um erro que produz diagnóstico falso nos dois sentidos. Por isso a primeira pergunta antes de qualquer pedido é o que ela usa, há quanto tempo, e — se parou — quando foi a última dose.

Terceira consequência, que é a que aparece no consultório como queixa: a amenorreia sob método é esperada em vários deles e não indica que "o sangue está acumulando". Explicar isso é parte do trabalho, e as palavras estão no bloco de conversa deste capítulo.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação do eixo tem uma particularidade que nenhuma outra investigação deste nível tem: metade das decisões é sobre o dia, não sobre o exame. Pedir o exame certo no dia errado produz um número que parece um resultado, entra no prontuário como se fosse, e vira rótulo. As seis seções abaixo estão na ordem em que a decisão é tomada.

Uma advertência antes de começar, porque ela economiza a maior parte dos pedidos: a anamnese descrita no bloco anterior já responde à maioria das perguntas. Exame de eixo se pede quando a resposta muda alguma coisa — e é bom saber, antes de escrever o pedido, qual conduta muda com cada resultado possível.

Primeiro exame, sempre: o teste de gravidez

Diante de qualquer alteração do ciclo em mulher com útero e em idade reprodutiva, o primeiro exame é o teste de gravidez, e a justificativa é fisiológica antes de ser prudencial. O corpo lúteo morre em cerca de quatorze dias por programa; a única coisa que o resgata é a gonadotrofina coriônica produzida pelo trofoblasto. Uma gestação implantada é, literalmente, a causa mais comum de um eixo que parou — e ela para o eixo funcionando, não falhando.

A consequência é que o raciocínio inteiro deste capítulo só começa depois de um resultado negativo. Prescrever progestagênio, pedir dosagem hormonal ou agendar imagem antes disso é construir sobre uma hipótese que o próprio exame de dez minutos afastaria. A dosagem de gonadotrofina coriônica beta consta da lista de exames da rede pública com código próprio, e o teste rápido está disponível na atenção primária.

Vale registrar a assimetria: um resultado positivo tira a paciente deste capítulo e a manda para outro — o de diagnóstico de gravidez e idade gestacional, ou o de sangramento na primeira metade da gestação, conforme a queixa. Um resultado negativo não tira ninguém de lugar nenhum: apenas libera a investigação para continuar.

A bifurcação que decide tudo: existe um dia 1 para contar?

Antes de escolher exames, escolha o ramo. Se a mulher ainda sangra, existe um dia 1, e a partir dele todo exame deste capítulo tem dia marcado. Se ela não sangra há meses, não existe dia 1, e a mesma lista de exames muda de significado: nenhum deles pode ser "do terceiro dia", porque não há terceiro dia. Essa é a bifurcação que organiza o resto, e ela também explica por que dois documentos brasileiros parecem discordar sobre quando dosar hormônio folículo-estimulante quando na verdade falam de mulheres diferentes.

Convém fixar a convenção, porque erro de contagem aqui produz erro de tudo o mais. O dia 1 é o primeiro dia de sangramento menstrual, não o dia em que ele fica intenso e não o dia seguinte. O ciclo começa no dia 1 e termina no último dia antes do sangramento seguinte. Escarranchar de vez essa definição com a paciente, em voz alta, é parte do exame: metade dos diários de ciclo que chegam ao consultório está contando o intervalo entre os fins dos sangramentos, ou entre os dias de fluxo máximo.

Quando não há dia 1 há mais de três meses, entra a definição de amenorreia secundária — e ela própria é objeto de auditoria neste capítulo, porque não é escrita da mesma maneira em todos os lugares. A investigação completa e o tratamento da amenorreia não são deste capítulo: pertencem a um capítulo de amenorreia que o nível ainda não tem e que virá. O que este capítulo assume é apenas a leitura fisiológica dos três exames que localizam o andar do eixo, porque essa leitura é a própria fisiologia em ato.

Os três exames que abrem o mapa — e o dia de um deles

O painel inicial de investigação de um ciclo que parou é curto e sempre o mesmo: teste de gravidez, hormônio folículo-estimulante, prolactina e hormônio tireoestimulante. Quatro exames, e cada um responde a uma pergunta distinta sobre um andar diferente. O tireoestimulante alterado aponta disfunção tireoidiana; a prolactina elevada aponta hiperprolactinemia; e o folículo-estimulante separa o problema em dois grandes ramos.

É esse último que carrega a fisiologia. Folículo-estimulante elevado significa que a hipófise está gritando e o ovário não responde — hipogonadismo hipergonadotrófico, isto é, falha ovariana. Folículo-estimulante baixo ou normal com estradiol baixo significa o oposto: o ovário está intacto e ninguém o está chamando — hipogonadismo hipogonadotrófico, cuja causa mais comum é a amenorreia hipotalâmica funcional. A leitura combinada dos dois hormônios é o que separa os ramos; nenhum deles isoladamente faz isso, e é por isso que um folículo-estimulante "normal" sozinho não é uma resposta.

Quando existe dia 1, o folículo-estimulante tem dia marcado, e a régua brasileira é explícita: na atenção primária a dosagem se faz entre o segundo e o quinto dia do ciclo, e apenas em situações nomeadas — investigação de sangramento uterino anormal antes dos 40 a 45 anos, desejo de engravidar, ou diagnóstico diferencial de sintomas vasomotores. A razão de ser esse dia é direta: é a janela em que o freio ovariano está no mínimo e o valor reflete o esforço basal da hipófise. Fora dela, o mesmo hormônio está sendo suprimido pelo estradiol de um folículo em crescimento, e o número volta baixo em quem tem e em quem não tem problema.

Quando o folículo-estimulante vem elevado, ele não fecha nada sozinho: pede repetição. A régua ministerial prevê duas dosagens com intervalo de quatro a seis semanas, e a régua da sociedade, no contexto de suspeita de insuficiência ovariana, pede repetir pelo menos uma vez depois de quatro semanas antes de atribuir o diagnóstico — com cariótipo obrigatório abaixo dos 30 anos. As duas dizem a mesma coisa com números vizinhos: um valor isolado não fecha o diagnóstico que muda a vida reprodutiva de alguém.

A prolactina tem regras próprias e elas são pouco conhecidas. O limite superior da normalidade costuma não passar de 25 ng/mL, variando com o método do laboratório. A coleta pode ser em qualquer período do dia, desde que se evite estresse excessivo na punção venosa, e uma única determinação costuma bastar. Antes de pedir imagem, é preciso afastar causa fisiológica, medicamentosa, hipotireoidismo primário e insuficiência renal ou hepática — nessa ordem, porque a mais comum é a lista de medicamentos que ninguém leu. Duas armadilhas laboratoriais completam o quadro: a macroprolactinemia, investigada por precipitação com polietilenoglicol, e o efeito gancho, que faz um tumor grande devolver prolactina falsamente pouco elevada e se corrige dosando a amostra diluída.

A progesterona: o único exame que responde "ela ovulou" — e ele não é no dia 21

Nenhum dos exames anteriores diz se houve ovulação. Quem diz é a progesterona, e ela diz porque só existe corpo lúteo depois de um folículo ter rompido. A dosagem precisa cair no meio da segunda metade do ciclo, quando o corpo lúteo está no auge da produção; colhida antes, pega a subida; colhida depois, pega a queda; colhida na primeira metade, não pega nada, porque não há o que pegar.

A tradição de consultório chama esse exame de "progesterona do dia 21", e o apelido é a origem de um erro que se repete todos os dias. O dia 21 é o meio da segunda metade apenas em quem tem ciclo de 28 dias. Faça a conta com a duração fixa de quatorze dias do corpo lúteo: em um ciclo de 28 dias, a ovulação cai por volta do dia 14 e o meio da fase lútea cai no dia 21 — o apelido acerta. Em um ciclo de 35 dias, a ovulação cai por volta do dia 21, e colher progesterona no dia 21 é colher no dia da ovulação, quando ela ainda está baixa por definição. O erro é de 7 dias, e o resultado que volta é um número baixo em uma mulher que ovula normalmente.

A regra que substitui o apelido é uma só e serve para qualquer duração: colha sete dias antes da data em que a menstruação é esperada. Em ciclo de 24 dias, dia 17. Em ciclo de 28 dias, dia 21. Em ciclo de 30 dias, dia 23. Em ciclo de 35 dias, dia 28. Em ciclo de 38 dias, dia 31. Quem tem ciclo variável não tem data esperada confiável, e é justamente nela que a progesterona isolada menos serve — o que já é, em si, uma informação, porque a variabilidade grande é o achado.

Registre-se com honestidade um limite deste capítulo: os documentos brasileiros consultados não fixam um valor de corte de progesterona sérica para declarar que houve ovulação. O que a régua nacional oferece é a lógica e o momento, não o número. Por isso a decisão que este capítulo escreve é sobre o dia da coleta e sobre a leitura qualitativa — progesterona claramente baixa em amostra colhida no dia certo, em ciclo cuja duração se conhece, é evidência de que não houve corpo lúteo naquele ciclo; a mesma dosagem no dia errado não é evidência de nada. O corte numérico, quando o laboratório o oferece, vem do método dele e deve ser lido contra o intervalo de referência que ele próprio imprime.

O ultrassom também tem dia

O ultrassom transvaginal responde a perguntas diferentes conforme o dia em que é feito, e um laudo sem dia do ciclo é um laudo pela metade. Na fase folicular precoce, nos primeiros dias após o fluxo, o endométrio está fino e os ovários estão em repouso relativo: é a janela em que se conta folículo antral, em que se avalia morfologia ovariana e em que se enxerga qualquer alteração endometrial sem o ruído do próprio ciclo. Na segunda metade, o endométrio está espesso por trabalho normal e os ovários podem exibir um corpo lúteo que o laudo às vezes descreve como cisto.

Duas regras de agendamento vêm da régua brasileira e valem para qualquer mulher, não só para quem investiga uma síndrome específica. Quando o exame encontra um cisto de aspecto funcional, repete-se no ciclo seguinte, na fase folicular precoce. Quando a mulher está em amenorreia e não há fase folicular para agendar, aguardam-se de 30 a 60 dias para repetir. A mesma lógica sustenta a condição de endométrio fino, abaixo de 6 mm, exigida nos primeiros cinco dias de sangramento antes de se iniciar estímulo ovariano.

O erro que este parágrafo existe para evitar é o do laudo de Tarsila, da abertura do capítulo: um endométrio de 9 mm sem dia do ciclo. Se o exame foi feito no oitavo dia, 9 mm é bastante para a fase; se foi no vigésimo segundo, é o esperado. O número é o mesmo e as duas leituras não se parecem. O mesmo vale para a descrição de múltiplos folículos periféricos: o dia do ciclo e a data do exame são parte do achado, e um laudo que não os traz precisa ser refeito ou pelo menos datado antes de ser interpretado.

Os limiares de espessura endometrial que disparam biópsia — na pós-menopausa com sangramento, e na mulher com fatores de risco — não são deste capítulo. Eles estão em Sangramento depois da menopausa e em Sangramento uterino anormal, que são os donos da decisão de biopsiar.

O que não pedir, quanto custa, e o que a rede pública oferece

O pedido mais comum e menos útil é o painel hormonal amplo sem data: folículo-estimulante, luteinizante, estradiol, progesterona, prolactina, tireoestimulante e testosterona colhidos de uma vez, no dia em que a paciente conseguiu ir. O custo não é apenas o dinheiro. É que cada um desses números vai ser comparado com uma faixa de referência que pressupõe uma fase do ciclo que ninguém registrou, e qualquer um deles pode voltar "alterado" e gerar uma segunda rodada de exames, um encaminhamento e um rótulo.

A relação entre hormônio luteinizante e folículo-estimulante merece menção justamente para ser desaconselhada como pedido de rotina: ela varia ao longo do ciclo por desenho, é normal que se inverta em torno do pico, e a régua diagnóstica brasileira das disfunções ovulatórias não a utiliza. Na prática, a dosagem cujo pedido raramente se justifica é a do próprio hormônio luteinizante fora de um contexto de monitorização.

Sobre o estradiol, a orientação é mais fina: ele não se pede sozinho, pede-se junto com o folículo-estimulante e para o mesmo fim, que é separar hipogonadismo hipergonadotrófico de hipogonadotrófico. Um estradiol isolado, num dia qualquer, é o exemplo perfeito do número com unidade e sem significado.

O hormônio antimülleriano é o caso oposto e por isso confunde: ele é o único que não precisa de dia, porque reflete o estoque de folículos pequenos e varia pouco ao longo do ciclo. Isso o torna cômodo, não indicado. A régua brasileira que o menciona registra que o valor de corte ainda não está bem estabelecido, e a lista de exames da rede pública não o contempla.

É aqui que a realidade do serviço entra na decisão. A lista de procedimentos que a régua pública associa a essa investigação inclui, com código próprio, a gonadotrofina coriônica beta, o folículo-estimulante, a prolactina, o tireoestimulante, a testosterona, a 17-alfa-hidroxiprogesterona, o sulfato de deidroepiandrosterona e as ultrassonografias pélvica e transvaginal. Não inclui o hormônio luteinizante, não inclui o estradiol e não inclui o antimülleriano. Quem atende na rede pública precisa saber disso antes de escrever o pedido, porque a estratégia de investigação que depende de estradiol pareado com folículo-estimulante não é executável em todo lugar — e a alternativa, nesses serviços, é a leitura clínica do estado estrogênico, que é o assunto de uma das divergências deste capítulo.

07

O mapa do dia, e o que os documentos brasileiros dizem

Este bloco reúne o que decide na prática: em que dia se colhe cada exame e por quê, onde os dois espelhos brasileiros da mesma tabela internacional não coincidem, a aritmética do calendário conferida linha a linha, e o que a rede pública efetivamente oferece para ler e para agir sobre o eixo. As notas ao fim trazem as conferências feitas sobre os documentos oficiais, as que fecharam e as que não fecharam, com a conta.

  1. 11. Mulher com útero, em idade reprodutiva, com queixa de ciclo. Primeira pergunta em voz alta: existe chance de gravidez? Teste de gravidez antes de qualquer outra coisa. Positivo sai deste fluxo.
  2. 22. Segunda pergunta: o que ela usa? Contraceptivo hormonal em uso torna sem sentido dosar hormônio folículo-estimulante, luteinizante ou estradiol. Se usa, o fluxo para aqui e a conversa é outra.
  3. 33. Terceira pergunta: existe um dia 1? Peça os primeiros dias dos últimos seis sangramentos, do celular ou do calendário. Sem essa série, nenhum exame do fluxo tem dia para ser marcado.
  4. 44. Com a série na mão, calcule frequência (intervalo entre inícios), variação (maior intervalo menos menor) e duração do fluxo. Compare com a faixa de 24 a 38 dias.
  5. 55. Procure ativamente os sinais do disparo: muco elástico com dia ápice, sintoma pré-menstrual cíclico, dismenorreia típica. Presentes e previsíveis, com intervalo dentro da faixa, tornam a anovulação improvável — e frequentemente encerram a investigação.
  6. 66. Se o padrão é imprevisível, ou não há sangramento há três meses ou mais: painel inicial de quatro — teste de gravidez, hormônio folículo-estimulante, prolactina e hormônio tireoestimulante.
  7. 77. Se ainda há dia 1: agende a coleta do folículo-estimulante entre o segundo e o quinto dia do próximo ciclo. Se não há dia 1: colha quando ela puder, porque não existe dia a respeitar.
  8. 88. Tireoestimulante alterado: trate ou investigue a tireoide e reavalie o ciclo depois, porque a tireoide sozinha explica o quadro em parte dos casos.
  9. 99. Prolactina elevada: revise a lista de medicamentos, afaste hipotireoidismo primário e insuficiências renal e hepática antes de pedir imagem; considere macroprolactinemia e efeito gancho conforme o valor e o quadro.
  10. 1010. Folículo-estimulante elevado: repita com intervalo de quatro a seis semanas antes de nomear qualquer diagnóstico; abaixo dos 30 anos, cariótipo entra na conta. Encaminhamento a partir daqui.
  11. 1111. Folículo-estimulante baixo ou normal, sem hiperandrogenismo evidente: pense no andar de cima e procure a causa funcional — peso, restrição alimentar, exercício, doença crônica, medicamento.
  12. 1212. Se a pergunta for especificamente "ela ovulou neste ciclo": progesterona sérica sete dias antes da data esperada da próxima menstruação, calculada a partir do ciclo dela, e não no dia 21 por hábito.
  13. 1313. Se houver indicação de imagem: agende o ultrassom transvaginal para a fase folicular precoce e exija que o laudo registre o dia do ciclo. Em amenorreia, aguarde de 30 a 60 dias para repetir.
  14. 1414. Reavalie com a série de ciclos em três meses. O diário é o exame de seguimento deste capítulo, e é de graça.
ExameA pergunta que ele respondeDia da coletaPor que esse diaO que significa fora do dia
Gonadotrofina coriônica betaExiste gestação?Qualquer dia, sempre primeiroNão depende de fase: o que se mede é produto do trofoblasto, não do eixoNada muda; é o único exame do capítulo sem dia marcado por natureza
Hormônio folículo-estimulanteO problema está acima ou abaixo da hipófise?Do 2º ao 5º dia, quando existe dia 1; sem dia 1, quando for possívelÉ a janela em que o freio ovariano está no mínimo e o valor reflete o esforço basal da hipófiseSuprimido pelo estradiol do folículo em crescimento; volta baixo em quem tem e em quem não tem problema
EstradiolO ovário está produzindo?Do 2º ao 5º dia, sempre pareado com o folículo-estimulanteSó a leitura conjunta separa hipogonadismo hipergonadotrófico de hipogonadotróficoIsolado e sem data, não distingue fase alguma; é o exemplo do número sem significado
ProgesteronaHouve ovulação neste ciclo?Sete dias antes da menstruação esperada, calculada pelo ciclo delaÉ o auge do corpo lúteo, cuja vida é de cerca de quatorze diasEm ciclo de 35 dias, o dia 21 é o dia da ovulação: o resultado baixo é do dia, não da paciente
ProlactinaExiste freio de fora sobre o gerador de pulsos?Qualquer período do dia, evitando estresse na punçãoNão tem variação de fase relevante; a variação que importa é a do estresse da coletaUma única determinação costuma bastar; repetir por hábito só adiciona custo
Hormônio tireoestimulanteA tireoide é a causa?Qualquer diaNão depende de fase do cicloSem alteração de leitura por dia
Hormônio luteinizantePraticamente nenhuma, fora de monitorização de ovulaçãoNão se pede de rotinaVaria por desenho ao longo do ciclo, e a relação com o folículo-estimulante não é régua diagnóstica brasileiraQualquer valor é compatível com normalidade em algum dia do ciclo
Hormônio antimüllerianoQual o tamanho do estoque de folículos pequenos?Não depende do diaÉ produzido pelos folículos pequenos e varia pouco ao longo do cicloComodidade não é indicação: o valor de corte não está bem estabelecido e a rede pública não o oferece
Ultrassonografia transvaginalComo estão ovários e endométrio?Fase folicular precoce; em amenorreia, aguardar 30 a 60 dias para repetirEndométrio fino e ovários em repouso relativo é a janela que mostra morfologia sem o ruído do cicloEspessura endometrial sem dia do ciclo é número, não medida; corpo lúteo pode ser descrito como cisto

Os mesmos parâmetros internacionais em dois espelhos brasileiros — e onde eles não coincidem

ParâmetroFebrasgo, 2026TelessaúdeRS-UFRGS, 2024Onde as duas leituras divergem
Frequência (intervalo entre inícios)Normal de 24 a 38 dias; infrequente acima de 38; frequente abaixo de 24; ausente é amenorreiaNormal entre 24 e 38 dias; infrequente acima de 38; frequente abaixo de 24; amenorreia sem sangramento por mais de 90 diasCoincidem. Só a TelessaúdeRS quantifica a amenorreia em 90 dias
Duração do fluxoNormal até 8 dias; prolongada acima de 8Normal igual ou menor que 8 dias; prolongada maior que 8Coincidem
Regularidade (maior ciclo menos menor, em 12 meses)Normal: variação de até 7 a 9 dias. Irregular: variação de 8 a 10 dias ou maisRegular: entre 7 e 9 dias. Irregular: igual ou maior que 10 diasNão coincidem, e de duas formas: na primeira, variação de 8 e de 9 dias cabe nas duas classes; na segunda, variação de 0 a 6 dias não cabe em nenhuma
VolumeReferido pela mulher: leve, normal ou intensoDeterminado pela paciente: leve, normal ou aumentado; volume normal até 80 mL por cicloCoincidem no princípio; a TelessaúdeRS acrescenta o valor de referência e os indicadores indiretos
Sangramento intermenstrualConsta entre os parâmetros avaliadosAusente, randômico ou cíclico, com a definição de cada umA TelessaúdeRS detalha; a classificação das causas é do capítulo Sangramento uterino anormal

A aritmética do calendário — a conta refeita em Python sobre a regra do manual de 2015

Ciclo mais curtoCiclo mais longoVariação1º dia fértil (curto menos 18)Último dia fértil (longo menos 11)Dias de abstinência
28 dias28 dias0 diaDia 10Dia 178 dias
24 dias30 dias6 diasDia 6Dia 1914 dias
26 dias32 dias6 diasDia 8Dia 2114 dias
26 dias34 dias8 diasDia 8Dia 2316 dias
25 dias35 dias10 diasDia 7Dia 2418 dias
24 dias38 dias14 diasDia 6Dia 2722 dias

O que a rede pública oferece para ler e para agir sobre o eixo

ItemConsta?Onde, e com que códigoO que isso muda na conduta
Gonadotrofina coriônica betaSimLista de procedimentos do protocolo público, código 02.02.06.021-7O primeiro exame do capítulo é executável em qualquer lugar
Hormônio folículo-estimulanteSimCódigo 02.02.06.023-3A separação entre falha ovariana e falha central é possível na rede
ProlactinaSimCódigo 02.02.06.030-6A causa mais tratável de eixo parado é rastreável na atenção primária
Hormônio tireoestimulanteSimCódigo 02.02.06.025-0Completa o painel de quatro sem depender de serviço especializado
Ultrassonografia transvaginalSimCódigo 02.05.02.018-6; pélvica ginecológica, 02.05.02.016-0A imagem existe; o que falta no laudo costuma ser o dia do ciclo
Hormônio luteinizanteNão consta dessa listaAusente da relação de exames do protocolo público consultadoA relação entre luteinizante e folículo-estimulante não é executável nem é régua diagnóstica: uma ausência que não faz falta
EstradiolNão consta dessa listaAusente da relação de exames do protocolo público consultadoOnde não há estradiol, a leitura do estado estrogênico volta a ser clínica — e a divergência sobre o teste da progesterona deixa de ser acadêmica
Hormônio antimüllerianoNão consta dessa listaAusente da relação de exames do protocolo público consultadoSome da conversa de rotina na rede pública, o que é coerente com o corte ainda não estabelecido
Acetato de medroxiprogesterona 10 mg comprimidoSimRename 2024, Componente Básico, código internacional G03DA02Existe progestagênio oral na unidade básica; o protocolo público prevê 1 comprimido ao dia por 10 a 12 dias do ciclo
Noretisterona 0,35 mg comprimidoSimRename 2024, Componente Básico, código internacional G03AC01Progestagênio isolado disponível; o uso contraceptivo é do capítulo de contracepção
Bromocriptina 2,5 mg e cabergolina 0,5 mgSimRename 2024, Componente Especializado, códigos G02CB01 e G02CB03; documento norteador é o protocolo de hiperprolactinemiaAchar prolactina alta tem desfecho terapêutico na rede — o exame não é acadêmico
Clomifeno, letrozol e gonadotrofinasNão constamBusca exata sobre o texto normalizado da Rename 2024 não retorna ocorrência de nenhum dos trêsIndução de ovulação não está no elenco essencial: a conversa sobre desejo de engravidar em ciclo anovulatório precisa dizer isso à paciente

A linha da regularidade do quadro de parâmetros do protocolo brasileiro de 2026 põe o normal em variação de até 7 a 9 dias entre o ciclo mais curto e o mais longo, e o irregular em variação de 8 a 10 dias ou mais. A conta é direta: os valores 8 e 9 satisfazem as duas definições ao mesmo tempo. A origem do problema é conhecida e não é erro de digitação — a tabela internacional de 2018 faz o limite variar com a idade, e a tradução, ao achatar a variação por faixa etária em um único par de números, produziu a sobreposição. A consequência prática é que, na faixa de 8 a 9 dias de variação, o rótulo não decide nada e a decisão volta para a clínica.

O outro espelho brasileiro da mesma tabela, de 2024, produz o defeito oposto: chama de regular a variação entre 7 e 9 dias e de irregular a variação igual ou maior que 10. Some a mulher cuja variação é de 0 a 6 dias, que é justamente a mais regular que existe — ela não pertence a classe alguma da tabela. Postas lado a lado, as duas traduções deixam quatro faixas com destinos diferentes: de 0 a 6 dias, normal em um documento e sem classe no outro; 7 dias, normal nos dois; 8 e 9 dias, ambíguo em um e regular no outro; 10 ou mais, irregular nos dois.

O protocolo público de hiperprolactinemia de 2020 organiza a etiologia por faixas de valor e deixa um vão. Diz que valores até 100 ng/mL associam-se, na maioria das vezes, a medicamento, causa idiopática, desconexão de haste ou microprolactinoma, e que níveis superiores a 250 ng/mL geralmente indicam prolactinoma. A subtração é de 150 ng/mL: todo o intervalo de 100 a 250 ng/mL fica sem classe atribuída. Não é uma faixa rara — é onde caem boa parte das hiperprolactinemias medicamentosas, e o próprio documento observa que risperidona e metoclopramida se associam a valores acima de 200 ng/mL, isto é, dentro do vão.

No mesmo documento, uma conferência que fechou, e vale citá-la porque mostra que o problema anterior não é da redação inteira: a pesquisa de macroprolactinemia por precipitação com polietilenoglicol é definida em três faixas que cobrem toda a escala sem sobra nem falta — recuperação abaixo de 30% estabelece o diagnóstico, acima de 65% o afasta, e o intervalo de 30% a 65% é declarado indeterminado, com a conduta correspondente. É assim que se escreve uma classificação por faixas.

Ainda no protocolo de hiperprolactinemia, uma discordância interna de âncora que convém conhecer antes de aplicar: a faixa etiológica usa 250 ng/mL como o valor acima do qual se pensa em prolactinoma, e a regra do efeito gancho usa 200 ng/mL como o valor abaixo do qual se suspeita de leitura falsamente baixa em macroadenoma de 3 cm ou mais. Os dois números convivem porque respondem a perguntas diferentes, mas quem lê rápido soma um ao outro e sai com um corte que o documento não tem.

O artigo brasileiro de 2025 sobre amenorreia secundária define a mesma condição três vezes, de três maneiras. No resumo: ausência de menstruação por três meses ou mais em mulher com ciclos previamente regulares, ou seis meses ou mais em qualquer mulher que já tenha menstruado. Na introdução: ausência por três meses consecutivos, sem a distinção. No quadro de classificação: ausência por no mínimo três ciclos em quem menstruava de forma regular, ou seis meses em quem relata ciclo irregular. Três meses e três ciclos não são a mesma coisa, e a conta mostra o tamanho da diferença: em ciclos de 24 dias, três ciclos são 72 dias, isto é, 2,4 meses; em ciclos de 38 dias, são 114 dias, ou 3,7 meses. Entre os dois extremos da faixa normal, a definição por ciclos varia 42 dias.

No mesmo artigo, uma imprecisão de palavra com consequência de leitura: as causas ovarianas são apresentadas como a maioria dos casos, e logo em seguida quantificadas em cerca de 40%. Quarenta por cento é a maior fatia, não a maioria. A conferência que fechou está ao lado: as cinco fatias declaradas — 35% hipotalâmicas, 17% hipofisárias, cerca de 40% ovarianas, 7% do trato de saída e 1% sistêmicas — somam exatamente 100%.

A regra do método rítmico do calendário, no manual de 2015, tem uma nota que não fecha com a própria regra de elegibilidade. A aritmética do método é subtrair 18 do ciclo mais curto para achar o primeiro dia fértil e 11 do ciclo mais longo para achar o último. A duração da abstinência é, portanto, (longo menos 11) menos (curto menos 18) mais 1, o que se simplifica para a variação mais 8. O mesmo parágrafo diz que mulheres com variação de mais de seis dias não devem usar o método, e adverte que o período de abstinência pode ser de 16 dias ou mais. Com variação de 6 dias, a abstinência é de 14 dias; para chegar a 16 seria preciso variação de 8 dias, que é exatamente a mulher que a frase anterior acabou de excluir. A advertência descreve, portanto, uma situação que a própria regra não admite.

Ainda no manual de 2015, o método dos dias fixos declara-se indicado para ciclos de 26 a 32 dias e explica a faixa dizendo que serve a quem a menstruação não adianta mais de quatro dias nem atrasa mais de dois. A conta só fecha com um ciclo de referência de 30 dias: 30 menos 4 é 26, e 30 mais 2 é 32. Com o ciclo de 28 dias que serve de padrão mental para quase todo mundo, a mesma tolerância daria uma faixa de 24 a 30 dias. A largura está certa — sete valores nos dois casos —, o centro é que não é o que o leitor supõe. Ao lado, uma conferência que fechou: a descrição do colar de contas soma 1 conta vermelha, 6 marrons, 12 brancas e 13 marrons, o que dá exatamente as 32 contas ovais que o texto declara, e os 12 dias férteis correspondem aos dias 8 a 19 do ciclo.

O manual ministerial de 2026 escreve o mesmo corte de hormônio folículo-estimulante em duas unidades diferentes: acima de 25 UI/L em um trecho, e igual ou acima de 25 a 30 mUI/mL em dois outros. A conferência fecha e vale ser feita em voz alta, porque a diferença de aparência assusta o interno: 25 UI/L equivalem a 25.000 mUI/L, que são 25 mUI/mL. Os números coincidem; a divergência é de notação, não de escala. O que não coincide é o destino do valor 25 dentro do documento — ele marca ao mesmo tempo a fase tardia da transição menopausal e o limite inferior da confirmação de pós-menopausa, o que faz um resultado de 27 mUI/mL ser compatível com as duas classes. É mais uma razão para o diagnóstico de menopausa ser retrospectivo e clínico, como sustenta o capítulo Climatério e menopausa.

Na lista de procedimentos do protocolo público da síndrome dos ovários policísticos, a linha rotulada como espermograma aponta o código 02.02.09.021-3, cuja descrição oficial impressa ao lado é pesquisa de anticorpos antiespermatozoides por ensaio imunoenzimático. São exames diferentes: um conta e avalia espermatozoides, o outro procura anticorpos contra eles. Um pedido feito por esse código não devolve um espermograma. O achado importa a este capítulo porque a mesma lista é a que diz o que existe para investigar o eixo — e porque mostra que a lista precisa ser lida pelo código, e não pelo rótulo.

Sobre a mesma lista, uma conferência de ausência, feita item a item e não por impressão de leitura: constam gonadotrofina coriônica beta, folículo-estimulante, prolactina, tireoestimulante, testosterona, 17-alfa-hidroxiprogesterona, sulfato de deidroepiandrosterona, glicemia, curva glicêmica, colesterol, triglicerídeos e as duas ultrassonografias. Não constam o hormônio luteinizante nem o estradiol. A consequência para quem atende na rede é concreta: a leitura do folículo-estimulante pareado com estradiol, que é o que separa hipogonadismo hipergonadotrófico de hipogonadotrófico, não é executável apenas com o que essa lista prevê.

Na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024, a conferência foi feita por busca exata sobre o texto com espaço e hífen normalizados, e não por leitura de página. Constam: acetato de medroxiprogesterona em comprimido de 10 mg e em suspensão injetável de 50 e 150 mg/mL, noretisterona 0,35 mg, etinilestradiol com levonorgestrel 0,03 mais 0,15 mg, estrogênios conjugados em comprimido e creme vaginal, estriol creme vaginal, mesilato de bromocriptina 2,5 mg e cabergolina 0,5 mg. Não constam clomifeno, letrozol nem gonadotrofinas — nenhuma ocorrência dos três em todo o documento. A conferência de códigos internacionais também fechou: medroxiprogesterona aparece com dois códigos distintos conforme a finalidade, contraceptiva e progestagênica, o que é previsto na própria classificação, e cabergolina aparece com dois códigos por ter duas indicações registradas.

Registre-se, por fim, uma marca do documento ministerial mais recente citado neste capítulo, porque ela muda o peso que se dá ao que ele diz: o arquivo publicado pelo ministério em 2026 traz a expressão versão preliminar impressa em todas as suas 482 páginas, ao lado de uma folha de créditos que o declara primeira edição de 2026 em versão eletrônica. É dele que vem a única regra brasileira explícita sobre o dia de coleta do folículo-estimulante que este capítulo pôde citar, e o leitor tem o direito de saber em que documento ela está escrita.

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A conduta, hora a hora

Começar pelo calendário, padrão de sangramento, medicamentos e objetivo da consulta. Se houver indicação de investigar ovulação, programar a coleta em relação ao ciclo individual e interpretar com suas limitações; não aplicar dia fixo a todas as mulheres. Regularidade e histórico orientam a necessidade de exames, e não um painel pedido por rotina.

A linha abaixo acompanha Tarsila, a paciente da abertura, do momento em que ela abre o envelope até a reavaliação de três ciclos. Em cada etapa vêm três coisas: a ação, a razão de ela caber ali e não em outro ponto da linha, e a frase que precisa sair impressa no pedido. As etapas não são todas obrigatórias em toda paciente: os quatro primeiros valem sempre; os seguintes entram conforme a pergunta clínica.

Quase nada aqui é prescrição de medicamento, e isso é próprio do tema: o que se prescreve num capítulo de fisiologia é agenda. Onde há fármaco, a dose vem com o documento que a sustenta, e onde o documento brasileiro não fixa um número, o capítulo diz que não fixa em vez de inventar um.

  1. Minuto 0 — o envelope em cima da mesa

    A primeira decisão é não repetir nada ainda. Abra o envelope junto com ela e faça uma coisa só: procure, em cada folha, a data da coleta e a data da última menstruação. A data da coleta está lá; a da última menstruação, quase nunca. Diga em voz alta o que isso significa, porque é a explicação que evita que ela gaste de novo: os valores de referência impressos ao lado de cada resultado mudam conforme a fase do ciclo — as próprias folhas trazem faixas empilhadas rotuladas como folicular, meio do ciclo e lútea —, e sem saber a fase não é possível dizer se o número está dentro ou fora. Não é que os exames estejam errados; é que eles estão sem endereço. Há um ganho concreto nesse minuto além da explicação: se alguma das folhas trouxer a data da coleta e ela conseguir lembrar da menstruação daquele mês, alguns dos resultados podem ser datados retrospectivamente e aproveitados, o que poupa uma coleta.

    Prescrição
    • Nenhuma prescrição neste marco. O que se registra no prontuário é a data de coleta de cada exame trazido e a impossibilidade — ou a possibilidade — de datá-los no ciclo.
  2. Minuto 5 — a anamnese que substitui metade do painel

    Peça o celular. Anote os primeiros dias dos últimos seis sangramentos e calcule ali, na frente dela, o intervalo entre eles: é um cálculo de dez segundos que muda o rumo da consulta e que a paciente entende enquanto é feito. Some às três perguntas que localizam o disparo — existe um período de secreção transparente e elástica todo mês, e por quantos dias; existe sintoma pré-menstrual previsível, como dor nas mamas ou inchaço; existe cólica menstrual típica, e quando ela começou em relação à primeira menstruação da vida. Complete com a lista de medicamentos de uso contínuo, incluindo psicotrópicos e antieméticos, com peso atual e variação recente de peso, com carga de exercício e restrição alimentar, e com a pergunta sobre saída de leite fora da amamentação. Em cinco minutos você tem mais informação sobre o eixo dela do que os sete exames do envelope — e, o que importa mais, sabe quais exames pedir e em que dia.

    Prescrição
    • Registre a série de intervalos em números, não em adjetivos: no caso de Tarsila, 24, 31, 45, 28, 39 e 33 dias — variação de 21 dias entre o mais curto e o mais longo, com dois valores fora da faixa de 24 a 38.
  3. Minuto 15 — o exame que sai hoje

    Um só: teste de gravidez. Ele não depende de dia do ciclo, é o único que responde à hipótese que precede todas as outras, e é o que impede que a conduta dos próximos três meses seja construída sobre uma gestação em curso. A justificativa é fisiológica antes de ser prudencial: o corpo lúteo morre por programa em cerca de quatorze dias, e a única coisa que o resgata é a gonadotrofina coriônica de uma gestação implantada — de modo que a causa mais comum de um eixo que parou é um eixo funcionando. Faça o teste rápido na unidade se houver, ou solicite a dosagem sérica. Enquanto ele não volta, nenhum progestagênio é prescrito e nenhuma imagem é agendada. Um resultado negativo de dois meses atrás não vale para hoje.

    Prescrição
    • Gonadotrofina coriônica beta, sérica ou teste rápido, hoje. A dosagem consta da lista de procedimentos da rede pública com código próprio, 02.02.06.021-7.
  4. Dia 1 do próximo ciclo — a paciente é quem dispara a agenda

    Este é o marco que quase sempre falta, e é ele que transforma o pedido em exame. Ensine, com estas palavras, o que é o dia 1: o primeiro dia em que o sangramento aparece, mesmo que fraco, e não o dia em que ele fica intenso, e não o dia seguinte. Vale conferir como ela vinha contando, porque diários que registram o fim do fluxo ou o dia de fluxo máximo produzem séries falsamente irregulares — e uma paciente pode chegar rotulada de irregular por um erro de contagem. Combine que, no dia 1, ela liga para a unidade ou vai direto ao laboratório. O pedido já sai da consulta de hoje, impresso, com a instrução escrita no próprio papel, porque a instrução dita e não escrita se perde no mês que separa a consulta da coleta. Se o serviço agenda coleta com antecedência, oriente-a a marcar para uma janela e remarcar conforme o dia 1 chegar — é mais fácil desmarcar do que conseguir vaga em 48 horas.

    Prescrição
    • No corpo do pedido, escrito à mão se preciso: "colher entre o 2º e o 5º dia do ciclo — contar como dia 1 o primeiro dia de sangramento, ainda que discreto".
  5. Dias 2 a 5 — a coleta que responde em que andar está o problema

    Aqui se colhe o painel: hormônio folículo-estimulante, prolactina e hormônio tireoestimulante — e estradiol, se o serviço oferecer, pareado com o folículo-estimulante e nunca sozinho. É a janela em que o freio ovariano está no mínimo, e por isso é a única em que o valor do folículo-estimulante reflete o esforço basal da hipófise; é exatamente esse o dia que a régua brasileira da atenção primária fixa. A prolactina não tem dia, mas tem condição de coleta: evitar estresse excessivo na punção venosa, e uma única determinação costuma bastar. Se houver indicação de imagem, o mesmo telefonema agenda o ultrassom transvaginal para esta faixa, e o pedido precisa dizer que o laudo deve registrar o dia do ciclo — sem essa frase, o laudo volta como voltou o de Tarsila, e o exame terá de ser refeito.

    Prescrição
    • Hormônio folículo-estimulante, prolactina e hormônio tireoestimulante, colhidos do 2º ao 5º dia do ciclo. Os três constam da rede pública com código próprio: 02.02.06.023-3, 02.02.06.030-6 e 02.02.06.025-0.
    • Estradiol no mesmo tubo, quando o serviço dispuser — ele não consta da lista de exames do protocolo público consultado, e essa ausência é parte da decisão, não um detalhe administrativo.
    • Ultrassonografia transvaginal, código 02.05.02.018-6, quando indicada, com a instrução de registrar o dia do ciclo no laudo.
  6. Sete dias antes da próxima menstruação esperada — a pergunta sobre a ovulação

    Só entra aqui quem tem uma pergunta que exige resposta objetiva sobre ovulação, e só depois de a série de ciclos permitir estimar a data esperada. A conta se faz com a duração do ciclo dela, não com o número 21: em ciclo de 24 dias, dia 17; em ciclo de 28, dia 21; em ciclo de 30, dia 23; em ciclo de 35, dia 28; em ciclo de 38, dia 31. Escreva o dia calculado no pedido, e escreva também que ela deve anotar a data em que a menstruação vier depois da coleta — é a distância entre as duas datas que valida a amostra a posteriori, e sem ela um valor baixo fica ambíguo entre ausência de corpo lúteo e coleta fora da janela. Para quem tem variação grande, como Tarsila, este marco costuma ser adiado: a variação em si já é o achado, e uma progesterona isolada em ciclo imprevisível responde sobre um mês, não sobre ela.

    Prescrição
    • Progesterona sérica, sete dias antes da data esperada da próxima menstruação, com o dia calculado escrito no pedido e a instrução de anotar a data da menstruação seguinte.
  7. Retorno com os resultados — a consulta em que os números ganham endereço

    Leia os resultados na ordem que a fisiologia impõe, e não na ordem em que o laboratório os imprimiu. Primeiro o tireoestimulante: se alterado, ele pode ser a causa, e a reavaliação do ciclo se faz depois de tratado e estável, o que leva de dois a três meses. Depois a prolactina: se elevada, revise a lista de medicamentos antes de qualquer imagem, e lembre que o hipotireoidismo primário sobe a prolactina, o que reencontra o exame anterior; considere macroprolactinemia diante de elevação discreta em paciente sem sintoma. Por último o folículo-estimulante com o estradiol: elevado aponta para o ovário, baixo ou normal com estradiol baixo aponta para o andar de cima, e é a leitura conjunta que separa os dois — nenhum dos dois isolado faz isso. Escreva no prontuário qual dos andares o resultado indicou, e não apenas os números: é essa frase que a próxima pessoa a ver a paciente vai ler.

    Prescrição
    • Se prolactina elevada com medicamento suspeito na lista: discutir com o prescritor a possibilidade de troca antes de pedir imagem, conforme a ordem do protocolo público — afastar causa fisiológica, medicamentosa, hipotireoidismo primário e insuficiências renal e hepática precede a ressonância.
    • Se prolactina confirmadamente elevada sem causa reversível, o tratamento existe na rede: bromocriptina 2,5 mg ou cabergolina 0,5 mg, ambas no Componente Especializado da Rename 2024, tendo como documento norteador o protocolo público de hiperprolactinemia.
  8. Três ciclos depois — a reavaliação que o diário faz de graça

    O exame de seguimento deste capítulo é a série de datas. Três ciclos depois, ela responde ao que nenhuma dosagem isolada respondeu: o padrão se manteve, melhorou ou piorou, e a variação diminuiu ou não. Se o folículo-estimulante veio elevado, este é o momento de já ter a segunda dosagem em mãos, com o intervalo de quatro a seis semanas que a régua pede, porque um valor isolado não fecha um diagnóstico que muda a vida reprodutiva de alguém — e abaixo dos 30 anos o cariótipo entra na conta, o que tira a paciente da atenção primária. Se tudo veio normal e a série mostrou variação persistente, a conversa muda de assunto: deixa de ser sobre exames e passa a ser sobre o que ela quer decidir com essa informação. Contracepção tem capítulo próprio; a conversa sobre gestação futura, com a observação do muco como sinal utilizável, está no bloco de conversa deste; e a investigação de infertilidade, se a hora chegar, é de um capítulo que este nível ainda não tem.

    Prescrição
    • Nenhuma prescrição obrigatória. Onde houver indicação de progestagênio oral, o protocolo público prevê acetato de medroxiprogesterona 10 mg, 1 comprimido ao dia por 10 a 12 dias do ciclo — apresentação disponível no Componente Básico da Rename 2024, código internacional G03DA02.
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Como saber se está funcionando

Reavaliar o eixo é diferente de reavaliar uma infecção: não há febre que ceda em 48 horas. O que se acompanha aqui tem período próprio — um ciclo, quatro semanas, três meses — e o erro mais comum é repetir cedo demais, o que produz um segundo número tão pouco interpretável quanto o primeiro.

Uma regra transversal a tudo o que vem abaixo: antes de repetir qualquer dosagem, confira se a primeira foi colhida no dia certo. Repetir no dia errado uma dosagem feita no dia errado é o modo mais eficiente de gastar duas vezes e continuar sem resposta. E uma segunda regra, que economiza consultas: marque o retorno pelo período do exame, e não pelo calendário da agenda. Um retorno em quinze dias para discutir um folículo-estimulante que precisa de quatro a seis semanas de intervalo é uma consulta que já nasce sem conteúdo.

A série de intervalos entre sangramentos (o diário de ciclos)A cada consulta, com pelo menos três ciclos novos entre uma e outra

Esperado: Uma série que se possa ler: seis datas de início consecutivas, das quais saem frequência, variação e duração. Melhora é a variação diminuir e o intervalo entrar na faixa de 24 a 38 dias.

Se não melhora: Antes de concluir que o padrão persiste, confira como ela está contando: o dia 1 é o primeiro dia de sangramento, e diários que registram o fim do fluxo ou o dia de fluxo máximo produzem séries falsamente irregulares. Confira também se o aplicativo que ela usa está exibindo a data prevista pelo algoritmo em vez da data registrada por ela — vários deles mostram as duas coisas na mesma tela, e a série que interessa é a das datas reais. Corrigida a contagem, uma variação que persiste acima de 10 dias por três ciclos é achado, e não ruído; e uma variação que caiu de 21 para 6 dias em três ciclos é melhora objetiva, ainda que a paciente continue dizendo que é desregulada.

Teste de gravidezSempre que houver atraso novo em relação ao padrão dela, e antes de qualquer prescrição hormonal ou imagem, independentemente do resultado anterior

Esperado: Negativo permite seguir a investigação; positivo encerra este fluxo e abre outro

Se não melhora: Não se trata de melhorar: trata-se de não pular. Um resultado negativo há dois meses não vale para hoje, e o custo de repetir é irrisório perto do custo de prescrever progestagênio a uma gestante.

Hormônio folículo-estimulante elevadoSegunda dosagem com intervalo de quatro a seis semanas; quando ainda há ciclos, entre o 2º e o 5º dia

Esperado: Confirmação do valor elevado em duas amostras, com a leitura pareada ao estradiol quando disponível

Se não melhora: Um valor elevado que não se confirma na segunda amostra não é para ser somado ao primeiro nem descartado: é para ser reavaliado com a clínica ao lado. Abaixo dos 30 anos, a suspeita de insuficiência ovariana confirmada em duas dosagens obriga cariótipo, e a partir daí a paciente sai da atenção primária.

Prolactina elevadaUma única determinação costuma bastar; repita apenas se houver dúvida sobre estresse na punção ou se o valor não fizer sentido com o quadro

Esperado: Normalização quando a causa era medicamentosa e o medicamento foi trocado, ou quando o hipotireoidismo primário foi tratado

Se não melhora: Antes de subir para a imagem, revise as duas armadilhas laboratoriais: valores discretamente elevados em paciente sem sintoma pedem pesquisa de macroprolactinemia, e valores pouco elevados diante de macroadenoma de 3 cm ou mais pedem dosagem em soro diluído para afastar efeito gancho. As duas evitam desfechos opostos e igualmente ruins: tratar quem não precisa e deixar de tratar quem precisa.

Hormônio tireoestimulante alteradoReavaliação do ciclo somente depois de a tireoide estar tratada e estável, o que costuma levar de dois a três meses

Esperado: Retorno do padrão menstrual anterior à disfunção, em parte dos casos sem nenhuma outra intervenção

Se não melhora: Se o ciclo não voltar ao padrão depois da tireoide compensada, a tireoide era um achado concomitante e não a causa — e a investigação recomeça do painel, sem descontar o tempo gasto, que não foi perdido: excluiu uma causa tratável.

Progesterona de meio de fase lúteaUm ciclo por vez, sempre sete dias antes da data esperada, e não em dois ciclos seguidos por hábito

Esperado: Um valor compatível com corpo lúteo ativo, lido contra o intervalo de referência do próprio laboratório para fase lútea

Se não melhora: Valor baixo em amostra bem datada significa que aquele ciclo não teve corpo lúteo — um ciclo, não a paciente. Mulheres que ovulam têm ciclos anovulatórios ocasionais. Repita em outro ciclo antes de nomear anovulação crônica, e confira a data da menstruação que veio depois da coleta: se ela veio muito antes ou muito depois do previsto, a amostra não estava no meio da fase lútea.

Ultrassonografia transvaginalRepetição na fase folicular precoce do ciclo seguinte quando houver cisto de aspecto funcional; em amenorreia, aguardar de 30 a 60 dias

Esperado: Desaparecimento do cisto funcional e endométrio compatível com a fase em que o exame foi feito

Se não melhora: Persistência da imagem depois do intervalo correto muda a natureza do achado e tira o caso deste capítulo. E antes de repetir, verifique o óbvio que quase sempre falta: se o laudo anterior não registrou o dia do ciclo, o exame não está sendo repetido — está sendo feito pela primeira vez.

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Onde o erro machuca

Pedir painel hormonal amplo sem data e sem pergunta

O dano: Cada resultado é comparado com faixas de referência que pressupõem uma fase do ciclo que ninguém registrou. Basta um dos sete voltar fora da faixa arbitrada para gerar uma segunda rodada de exames, um encaminhamento e, com frequência, um rótulo que acompanha a paciente por anos. O dano não é o gasto: é o diagnóstico fabricado por um número sem endereço.

Como pegar a tempo: Antes de escrever o pedido, responda a duas perguntas: qual conduta muda com cada resultado possível, e em que dia esse exame precisa ser colhido. Se a primeira não tem resposta, o exame não é necessário. Se a segunda não tem resposta, o exame ainda não pode ser pedido — falta a série de datas. Há um teste rápido para aplicar em si mesmo antes de imprimir o pedido: escreva, ao lado de cada exame, a frase "se vier alto eu faço X, se vier baixo eu faço Y". Os exames em que as duas frases forem iguais saem da lista. No caso típico da mulher com ciclo irregular e sem sinal de hiperandrogenismo, o painel sobrevivente tem três linhas, não sete.

Colher progesterona no dia 21 de quem tem ciclo de 35 dias

O dano: Quando o ciclo tem 35 dias, o disparo cai por volta do vigésimo primeiro, porque a segunda metade tem duração fixa de cerca de quatorze dias. A amostra é colhida no dia do disparo, quando a progesterona ainda está baixa por definição, e volta baixa. O laudo é interpretado como anovulação em uma mulher que ovula, e a partir daí pode nascer uma indicação de tratamento inteira em cima de um erro de sete dias.

Como pegar a tempo: Substitua o apelido pela regra: sete dias antes da data esperada da próxima menstruação, calculada com a duração do ciclo dela. Escreva o dia no pedido em vez de escrever "dia 21". Peça também que ela anote a data da menstruação que vier depois da coleta: se a distância entre as duas datas for de cerca de sete dias, a amostra estava onde deveria; se for de quinze, o exame precisa ser refeito, e você sabe disso sem depender de memória. Se ela não tem data esperada confiável, a progesterona isolada não é o exame — a variação é o achado.

Ler espessura endometrial sem o dia do ciclo

O dano: O mesmo número tem significados incompatíveis conforme a fase: o endométrio é fino logo após o fluxo e espesso na segunda metade por trabalho normal. Um valor descrito como aumentado, sem data, gera indicação de investigação em quem estava apenas na fase secretora — e, na direção oposta, um endométrio realmente fino em quem deveria estar proliferando passa despercebido.

Como pegar a tempo: Exija do pedido e do laudo o dia do ciclo. Se o laudo não o traz, date-o pela última menstruação antes de interpretar; se nem isso for possível, o exame precisa ser refeito na fase folicular precoce. Interpretar um laudo sem data é aceitar como medida um número que não é medida.

Dosar hormônios do eixo em quem está usando método hormonal

O dano: Contraceptivo combinado suprime folículo-estimulante, luteinizante e estradiol por mecanismo — é o que se espera dele. Os valores suprimidos são então lidos como falência ou como reserva baixa, o que produz conversas devastadoras sobre fertilidade com base num efeito farmacológico. O engano ocorre também na direção inversa: sangramentos pontuais na pausa da cartela são lidos como prova de que o ciclo próprio é regular.

Como pegar a tempo: Antes de qualquer pedido, pergunte o que ela usa, há quanto tempo e, se parou, quando foi a última dose ou a última aplicação. Método em uso interrompe o pedido, não o adia: a conversa vira outra, e o mecanismo de cada método está no capítulo Contracepção hormonal combinada.

Repetir prolactina alta sem antes revisar a lista de medicamentos, e pular as duas armadilhas do ensaio

O dano: A causa medicamentosa é frequente e alguns fármacos elevam a prolactina a valores que se confundem com os de tumor. Repetir sem revisar a lista transforma um efeito adverso conhecido em investigação de hipófise. Do outro lado, deixar de pesquisar macroprolactinemia leva a tratar quem não precisa, e ignorar o efeito gancho faz um macroadenoma grande passar como valor pouco elevado.

Como pegar a tempo: Siga a ordem do protocolo público: afastar causa fisiológica, medicamentosa, hipotireoidismo primário e insuficiências renal e hepática antes da imagem. Em elevação discreta sem sintoma, pesquise macroprolactina por precipitação. Diante de macroadenoma de 3 cm ou mais com prolactina até 200 ng/mL, peça a dosagem em soro diluído.

Confundir a fisiologia das pontas da vida reprodutiva com o meio dela — nos dois sentidos

O dano: Investigar como doença a adolescente de 13 anos, no primeiro ano depois da menarca, com ciclos entre 25 e 50 dias e sem cólica, expõe a exames e rótulos uma menina cujo eixo está apenas amadurecendo. E tranquilizar como fisiológica a mulher de 30 anos que passou quatro meses sem menstruar adia uma investigação em que 3% a 4% das mulheres têm causa não fisiológica, distribuída por todos os andares do eixo.

Como pegar a tempo: Ponha a idade e o tempo desde a menarca dentro do dado, não ao lado dele: a primeira pergunta de toda anamnese menstrual é com que idade veio a primeira menstruação, e a segunda é quantos anos se passaram desde então. Nos primeiros dois anos após a menarca, ciclos imprevisíveis e indolores são o esperado, e a chegada da cólica típica de 6 a 12 meses depois da menarca é o sinal de que o eixo passou a completar a volta. Fora dessa janela e fora da transição menopausal, o mesmo padrão pede o painel de quatro exames — e o limite de tempo que dispara a investigação está discutido, com suas três redações concorrentes, nas notas deste capítulo.

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O que dizer ao paciente e à família

As conversas deste capítulo têm uma dificuldade específica: quase sempre é preciso dizer que um exame não vai ser repetido, ou que ele não respondeu nada, sem que a paciente entenda que o problema dela foi minimizado. A saída, em todas elas, é a mesma — explicar a razão pelo tempo, e não pela indicação.

Um princípio prático: sempre que possível, mostre a conta. A paciente que vê o próprio calendário sendo lido na frente dela entende por que o dia importa muito mais rápido do que quem só ouve dizer que importa.

Ela traz exames pagos do próprio bolso e pergunta se está tudo bem

"Eu li todos, um por um. O que eu preciso te explicar é que esses exames medem coisas que mudam muito de um dia para o outro do seu ciclo — o mesmo número pode ser normal numa semana e alterado na outra. Como não ficou registrado em que dia do seu ciclo eles foram colhidos, eu não consigo dizer nem que está bem, nem que não está. Não é que eles estejam errados. É que falta um dado para eu conseguir ler."

Não diga: Evite dizer que os exames "não servem" ou que "não precisava ter feito". Ela gastou o dinheiro dela para resolver um problema, e a frase que desqualifica o gasto costuma encerrar a conversa antes da parte que interessa, que é como fazer certo da próxima vez.

Ela pergunta por que precisa voltar justamente no primeiro dia da menstruação

"Porque nesses primeiros dias o ovário está em repouso, e é a única janela em que o exame mostra o esforço que a sua hipófise está fazendo. Se a gente colher no meio do mês, um folículo já está crescendo e ele abaixa esse hormônio — o resultado volta baixo em quem tem problema e em quem não tem, e a gente não aprende nada. Eu vou escrever isso no pedido, e o primeiro dia é o primeiro dia em que aparece sangue, mesmo que seja pouco."

Não diga: Evite a frase "é a rotina do laboratório". Ela transfere a exigência para uma burocracia, e a paciente que perde o dia 2 acha que perdeu uma formalidade. Explicada a razão, ela liga no dia certo.

Ela diz que o ultrassom "falou que tem ovário policístico"

"O ultrassom descreveu o que ele viu nos seus ovários naquele dia. Só que a imagem sozinha não é diagnóstico: existem critérios que combinam o que a gente vê, o que você sente e o que o exame de sangue mostra, e nenhum deles é a imagem isolada. Além disso, esse exame foi feito sem registrar em que dia do seu ciclo você estava, o que muda o que se enxerga. Então a resposta honesta é que ainda não sabemos, e eu vou te explicar como a gente descobre."

Não diga: Evite dizer "não é nada" para tranquilizar. O diagnóstico e o manejo dessa síndrome têm capítulo próprio e critérios próprios, e negar antes de investigar cria o problema oposto: a paciente que volta em dois anos e descobre que ninguém investigou.

Ela quer engravidar e pergunta qual é o dia fértil, com ciclos irregulares

"Nos seus ciclos, os seus últimos seis intervalos foram de 24 a 45 dias. A conta do calendário só funciona quando essa diferença é pequena, e a sua é grande — se eu aplicasse a regra, ia te dar quase o mês inteiro como período fértil, o que não ajuda ninguém. O que funciona melhor para você é aprender a reconhecer o próprio sinal: uns dias por mês em que aparece uma secreção transparente que estica entre os dedos. Esses são os dias, e eles vêm quando vêm, não em data marcada."

Não diga: Evite entregar "o dia 14" como resposta genérica. Em ciclo de 45 dias o disparo não acontece no dia 14, e o casal que tenta nessa data está tentando fora da janela — o que depois é vivido como infertilidade.

Ela tem 24 anos, está há quatro meses sem menstruar e pergunta se entrou na menopausa

"Menopausa aos 24 anos é raro, e é justamente por ser raro que eu não vou descartar sem investigar — nem afirmar sem investigar. O que eu vou fazer é pedir três exames que dizem em que ponto da cadeia isso parou: se é no comando lá em cima, se é uma outra glândula interferindo, ou se é o ovário. São três causas com condutas muito diferentes, e a primeira coisa que a gente afasta hoje é gravidez."

Não diga: Evite tanto o "isso é normal, acontece" quanto o "pode ser menopausa precoce". A primeira frase adia; a segunda instala um medo que dois exames talvez desfaçam em três semanas, e que muda o modo como ela vive esse mês.

Ela usa pílula e diz que "não menstrua direito", com medo de sangue acumulado

"O sangramento que aparece na pausa da cartela não é bem uma menstruação: é uma resposta à retirada do hormônio por alguns dias. Como a cartela deixa o revestimento de dentro do útero mais fino, muitas vezes sobra pouco para sair, e às vezes não sai nada. Isso não acumula nem entope: o que não se formou não está guardado em lugar nenhum. O que eu preciso saber é se você não esqueceu comprimidos, porque aí a conversa é outra."

Não diga: Evite responder só "é normal". A crença de que o sangue acumula é comum e não se desfaz com um adjetivo; ela se desfaz com a explicação de que não houve o que acumular.

Ela pede para repetir todos os exames "agora certinho", achando que resolve

"Eu vou pedir três, não sete. Dos que você trouxe, quatro não respondem a nenhuma pergunta que eu tenha sobre o seu caso, mesmo se forem colhidos no dia certo — eles existem para outras situações. Os três que eu vou pedir têm dia marcado, e eu vou escrever o dia no papel. Se algum deles vier alterado, aí sim a gente pede o próximo, e eu já te explico agora o que cada resultado vai mudar."

Não diga: Evite ceder ao pedido de repetir tudo para "deixar a paciente tranquila". O painel amplo repetido no dia certo continua produzindo resultados que não mudam conduta, e o encaminhamento que nasce de um deles é mais difícil de desfazer do que de evitar.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

O teste da progesterona, ou prova de privação, ainda tem lugar na avaliação de quem parou de menstruar?

Abandonar — Febrasgo, 2025

O artigo de algoritmo diagnóstico da amenorreia secundária registra que, apesar da importância histórica do teste, muitas entidades não recomendam mais a sua realização, porque a abordagem por dosagens e imagem chega a um diagnóstico mais rápido e preciso. Acrescenta que a interpretação de uma resposta falha é tripla — ambiente hipoestrogênico, endométrio incapaz de responder ou obstrução de saída — e que ocorrem tanto falsos-positivos quanto falsos-negativos.

Simões RS, Baracat MCP, Maciel GAR, Soares Júnior JM, Baracat EC. Amenorreia secundária: algoritmo diagnóstico. Femina. 2025;53(2):138-43

Manter como leitura de estado estrogênico onde o laboratório não alcança — o mesmo artigo, e a Rename 2024

O próprio artigo descreve o racional do teste e admite guiá-lo pela espessura endometrial ao ultrassom, sugerindo a combinação de estrogênio com progesterona quando o endométrio está atenuado. Do outro lado, o estradiol sérico não consta da lista de exames do protocolo público consultado, enquanto o acetato de medroxiprogesterona em comprimido de 10 mg está no Componente Básico da relação nacional de medicamentos — isto é, o teste está disponível na unidade básica em serviços onde a dosagem que o substituiria não está.

Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024 (acetato de medroxiprogesterona 10 mg, Componente Básico), e a lista de procedimentos do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Síndrome de Ovários Policísticos, 2019/2020

Como decidir

Decida pelo que você consegue obter dentro do mesmo mês, e não pelo que seria melhor num serviço ideal. Se o seu serviço entrega estradiol pareado com hormônio folículo-estimulante em prazo razoável, a discussão é acadêmica: peça os dois e pule o teste, que é mais lento e ambíguo. Se não entrega, a pergunta muda — você tem em mãos um progestagênio e um ultrassom, e a informação que quer é grosseira, do tipo há ou não há estrogênio circulando. Nesse caso registre no prontuário que está usando um teste de baixa resolução por indisponibilidade do exame de referência, e não trate o resultado como diagnóstico: trate-o como o que ele é, uma triagem que decide se vale a pena insistir no encaminhamento. Em qualquer dos dois caminhos, o teste de gravidez vem antes.

Onde termina o ciclo regular e começa o irregular?

Variação de até 7 a 9 dias é normal — Febrasgo, 2026

O quadro de parâmetros de normalidade do protocolo de sangramento uterino anormal define regularidade normal como variação de até 7 a 9 dias entre o mais curto e o mais longo dos ciclos, e irregular como variação de 8 a 10 dias ou mais. A redação preserva o par de números da tabela internacional de origem, na qual o limite depende da faixa etária, mas ao suprimir a faixa etária produz uma sobreposição: 8 e 9 dias satisfazem as duas definições.

Febrasgo. Sangramento uterino anormal. Femina. 2026;54(3):227-35, Quadro 1

Regular é variação entre 7 e 9 dias; irregular é 10 ou mais — TelessaúdeRS-UFRGS, 2024

O quadro de parâmetros menstruais normais da segunda edição do TeleCondutas traduz a mesma tabela internacional com um corte único e sem sobreposição, mas fecha a classe normal por baixo em 7 dias. O efeito é que toda variação de 0 a 6 dias — a mulher com ciclos mais previsíveis que existe — não recebe classificação alguma.

TelessaúdeRS-UFRGS. TeleCondutas: Sangramento Uterino Anormal. 2. ed. Porto Alegre: UFRGS, 2024, Quadro 4

Como decidir

Na faixa em que os dois documentos discordam, entre 8 e 9 dias de variação, o rótulo não decide nada, e insistir nele é escolher entre duas traduções da mesma tabela. Decida pela pergunta que o rótulo deveria responder, que é se existe fase lútea: procure os sinais do disparo na história — muco elástico com dia ápice, sintoma pré-menstrual previsível, cólica típica — e, se a decisão depender disso, documente com uma progesterona colhida sete dias antes da data esperada. Fora dessa faixa estreita os dois documentos concordam, e a discussão desaparece. Para a mulher de variação pequena que o segundo documento deixa sem classe, aplique o bom senso que ele evidentemente pretendia: essa é a definição de regular.

Diante de ciclo irregular sem desejo de gestação, pede-se o painel mínimo ou o painel amplo de exclusão?

Mínimo — Febrasgo, 2026

O protocolo de sangramento uterino anormal orienta que, na suspeita de distúrbio ovulatório manifestada por irregularidade menstrual, com ou sem outros sintomas associados, se realize a dosagem de prolactina e os exames de função tireoidiana, e afirma explicitamente que outras dosagens hormonais apenas se justificam em casos isolados.

Febrasgo. Sangramento uterino anormal. Femina. 2026;54(3):227-35, seção de exames complementares

Amplo — Ministério da Saúde, protocolo público de 2019/2020

O protocolo clínico público que trata da causa mais prevalente de anovulação sustenta um painel de exclusão bem mais largo, com testosterona total, 17-alfa-hidroxiprogesterona, prolactina sérica, hormônio tireoestimulante, hormônio folículo-estimulante, glicemia de jejum, curva glicêmica, colesterol e triglicerídeos, cada um com o respectivo código de procedimento — porque a lógica ali é excluir hiperandrogenismos de outra origem e rastrear risco metabólico, e não apenas nomear a anovulação.

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Síndrome de Ovários Policísticos, 2020 (conteúdo da Portaria Conjunta SAES/SCTIE n. 6, de 2 de julho de 2019), Quadro 1 e lista de procedimentos

Como decidir

Decida pelo que muda com o resultado, e o que muda depende de dois dados que você já tem na consulta: há sinal clínico de hiperandrogenismo, e há fator de risco metabólico? Sem hirsutismo, acne moderada a grave, alopecia ou acantose, e sem obesidade ou antecedente familiar relevante, o painel amplo devolve quase sempre números normais que não mudam nada, e o mínimo responde às duas causas tratáveis mais frequentes. Com esses sinais presentes, a investigação deixa de ser sobre o eixo e passa a ser sobre a síndrome — e aí o painel amplo é o caminho, com o capítulo Síndrome dos ovários policísticos assumindo os critérios e o manejo. Escreva no prontuário qual das duas perguntas você estava fazendo: é isso que torna o pedido defensável e o resultado interpretável.

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O raciocínio, em voz alta

Nilcéia Quintanilha tem 29 anos, é auxiliar de cozinha em uma escola municipal e marcou a consulta com uma pergunta escrita num papel: "eu ovulo?". Ela não está tentando engravidar agora — pretende tentar no ano que vem, e quer saber se vai ter problema. Menstrua desde os 13 anos. Os seis últimos intervalos, anotados no aplicativo, foram 26, 34, 29, 31, 27 e 33 dias. O sangramento dura quatro dias. Não usa método hormonal há três anos: o marido fez vasectomia, e ela desistiu de reverter a ideia de engravidar até agora. Não usa medicamento nenhum. Peso estável, sem queixa de pele ou de pelo.

  1. O que penso antes de perguntar qualquer coisa

    A pergunta dela é específica e boa, e a maior parte da resposta pode não precisar de exame. Tenho uma série de seis intervalos: o mais curto é 26, o mais longo é 34, a variação é de 8 dias e todos estão dentro da faixa de 24 a 38. Já sei também que a variação de 8 dias cai exatamente na faixa em que os dois documentos brasileiros discordam do rótulo — o que, para mim, significa que o rótulo não vai decidir e a clínica vai. Não uso método hormonal, o que é importante: qualquer dosagem que eu peça mede ela, e não uma cartela.

  2. O que pergunto, e por que essas perguntas e não outras

    Pergunto por sinais do disparo, na ordem: existe um período de secreção transparente e elástica, quantos dias dura, ela consegue dizer mais ou menos quando acontece no mês; existe sintoma pré-menstrual previsível; existe cólica menstrual e como ela é. Pergunto também sobre peso, exercício, alimentação restritiva, medicamentos e sobre secreção mamária espontânea. Cada uma dessas perguntas mira um andar do eixo, e nenhuma delas custa nada.

  3. O que ela responde

    Diz que sim, tem uns dois ou três dias por mês de uma secreção transparente que "estica", geralmente perto do meio do mês, e que aprendeu a reconhecer porque coincidia com o período em que precisava usar protetor diário. Tem dor nas mamas nos quatro ou cinco dias antes da menstruação, todo mês, sem falta. Tem cólica no primeiro dia, forte o bastante para tomar um analgésico, nunca a ponto de faltar ao trabalho, e a cólica começou na adolescência mais ou menos um ano depois da primeira menstruação. Nega galactorreia, nega perda de peso, faz caminhada três vezes por semana.

  4. Como essa resposta muda o que eu penso

    Muda quase tudo. Ela acabou de descrever, sem saber, as quatro marcas de um ciclo ovulatório: muco com padrão elástico no meio do mês, sintoma pré-menstrual previsível, cólica típica e intervalo dentro da faixa com variação pequena. A cólica que começou cerca de um ano após a menarca é o detalhe que fecha, porque a dismenorreia primária se instala de 6 a 12 meses depois da menarca justamente quando os ciclos passam a ser ovulatórios. A probabilidade de anovulação, aqui, é baixa — e note que cheguei a isso sem nenhum exame.

  5. O que eu peço, então

    Nada de hormônio, por enquanto. Explico o raciocínio para ela em voz alta, porque a pergunta que ela trouxe merece uma resposta e não um pedido de exame. Se ela quiser, mesmo assim, uma confirmação objetiva antes de tentar engravidar no ano que vem — e é um desejo legítimo —, então existe um exame que responde exatamente à pergunta dela, e um único dia em que ele responde.

  6. Qual exame, e em que dia

    Progesterona sérica, sete dias antes da data esperada da próxima menstruação. Faço a conta com ela: os ciclos dela ficam em torno de 30 dias, então a data esperada é o dia 30 e a coleta é no dia 23. Se o próximo ciclo vier mais curto, de 27 dias, a coleta seria no dia 20. Escrevo o dia no pedido. Não peço no dia 21 por hábito: nos ciclos de 34 dias que ela também tem, o dia 21 seria perto demais da ovulação e o resultado voltaria baixo em uma mulher que ovula.

  7. Os quatro exames que deixo de fora, um a um

    Não peço hormônio folículo-estimulante: não há suspeita de falha ovariana, ela menstrua regularmente, e um valor normal não acrescentaria nada ao que a história já disse. Não peço hormônio luteinizante nem a relação dele com o folículo-estimulante, que não é régua diagnóstica brasileira e varia por desenho ao longo do ciclo. Não peço antimülleriano: o corte não está estabelecido, não está disponível na rede e o resultado não mudaria a conduta de uma mulher que pretende tentar engravidar no ano que vem. Não peço ultrassom: não há queixa nem achado que o justifique, e um laudo com múltiplos folículos pequenos numa mulher de 29 anos poderia criar um problema que ela não tem.

  8. O resultado volta

    A progesterona, colhida no dia 23 de um ciclo que terminou com a menstruação no dia 30 — isto é, exatamente sete dias depois da coleta —, veio compatível com fase lútea segundo o intervalo de referência do próprio laboratório. Registro no prontuário três coisas juntas, porque separadas elas valem menos: o valor, o dia da coleta e o dia em que a menstruação seguinte veio. É essa terceira informação que prova que a amostra caiu onde deveria.

  9. O que eu digo a ela

    Digo que a resposta à pergunta do papel é sim, que ela ovula, e digo em cima de que evidência: o padrão que ela mesma descreveu e um exame colhido no dia certo. Digo também o que isso não garante — ovular é uma das condições para engravidar, não a única — e que, se ela tentar por doze meses sem sucesso, existe uma investigação própria, que não é esta. E deixo com ela a única tarefa que continua útil: manter o diário de datas.

  10. O que teria acontecido no caminho errado

    Vale desenhar o contrafactual, porque ele é o caso que chega ao consultório todo dia. Se eu tivesse pedido o painel de sete exames no dia em que ela veio — que era o dia 12 do ciclo dela —, a progesterona poderia voltar baixa por a coleta ainda ser folicular; o dia 12 não corresponde à mesma fase em todas as mulheres. Esse resultado entraria no prontuário como anovulação. A partir dele nasceria um encaminhamento, provavelmente um ultrassom fora de fase, e possivelmente uma prescrição. Nada disso teria sido causado por má-fé nem por desconhecimento da doença: teria sido causado por um exame colhido no dia em que a paciente pôde ir.

  11. Variação do caso — resposta e reavaliação

    Variação da consulta de Nilcéia: ela apresenta um exame de progesterona baixa colhido sem orientação temporal. Reconstruir as datas antes de interpretar. Se ainda houver indicação clínica, planejar a avaliação na fase pertinente; não rotular anovulação a partir desse resultado solto.

  12. Variação do caso — quando mudar o plano

    Se o calendário passa a mostrar longos intervalos sem menstruar, a pergunta deixa de ser apenas explicar a fisiologia. Excluir gravidez quando possível e investigar amenorreia ou disfunção ovulatória conforme o contexto. A variabilidade anterior não justifica ignorar uma mudança sustentada.

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Faça você

Bernardete Alencastro tem 27 anos, é auxiliar de produção numa fábrica de calçados e veio à unidade com o marido. Estão tentando engravidar há cinco meses. Ela pergunta quais são os dias em que deve tentar. Menstrua desde os 12 anos e sempre foi "desregulada": os seis últimos intervalos anotados no aplicativo foram 24, 38, 27, 45, 31 e 29 dias. O fluxo dura de três a seis dias. Não usa método há oito meses — antes usava pílula combinada, por seis anos. Não tem cólica que a incomode, não sente as mamas antes de menstruar e não sabe dizer se tem secreção diferente em algum momento do mês. Teste de gravidez de hoje: negativo.

  1. Passo 1 — a leitura que já dá para fazer só com a ficha

    Cinco meses de tentativa não são infertilidade, e é importante dizer isso antes de qualquer outra coisa, para ela e para mim. O que tenho é uma pergunta legítima sobre janela fértil e uma série de intervalos que vai de 24 a 45 dias — variação de 21 dias. Dois dos seis intervalos estão fora da faixa de 24 a 38: o de 45 dias, que é infrequente. Reparo também no que falta na história: sem cólica, sem sintoma pré-menstrual, sem percepção de muco. As três ausências apontam na mesma direção.

  2. Passo 2 — o que a pílula usada por seis anos muda na leitura

    Muda uma coisa importante e apaga outra. Muda porque, durante os seis anos de uso, os sangramentos dela eram de privação e vinham pontualmente a cada 28 dias — de modo que a impressão de que "antes era regular" não é dado sobre o eixo dela, é dado sobre a cartela. E apaga, porque não há como saber qual era o padrão próprio dela antes dos 21 anos, quando começou o método. O que existe é o que veio nos oito meses desde que parou, e é isso que vale.

  3. Passo 3 — o que eu faço com a pergunta que ela trouxe

    A pergunta é sobre dias férteis, e existe uma regra de calendário para respondê-la. A regra manda subtrair 18 do ciclo mais curto para achar o primeiro dia fértil e 11 do ciclo mais longo para achar o último. Aplico aos números dela: 24 menos 18 dá 6, e 45 menos 11 dá 34. Isto é, do dia 6 ao dia 34 — vinte e nove dias de janela dentro de um ciclo que às vezes tem 24 dias no total. A regra, aplicada a ela, devolve praticamente o mês inteiro.

  4. Passo 4 — como você responde a ela, e o que faz em seguida

    Escreva, em voz alta e por escrito: (a) o que a conta acima significa e por que ela deu esse resultado; (b) qual é a informação que o padrão dela já está dando, e por que as três ausências da história — cólica, sintoma pré-menstrual e muco — importam tanto quanto os números; (c) qual seria o exame capaz de responder objetivamente se ela ovula, e por que ele é difícil de datar nesta paciente; (d) o que você pede hoje, o que agenda para o dia 2 a 5 do próximo ciclo, e o que combina de reavaliar em três ciclos; (e) o que você diz sobre os cinco meses de tentativa e sobre o prazo em que essa conversa mudaria de natureza.

Ver como fecharíamos

A conta da regra do calendário devolve do dia 6 ao dia 34 porque a fórmula embute a duração fixa da segunda metade do ciclo: subtrair 18 e 11 é o mesmo que dizer que a ovulação acontece cerca de quatorze dias antes da menstruação, com margem para a sobrevida dos espermatozoides de um lado e do óvulo do outro. Quando a variação entre o ciclo mais curto e o mais longo é grande, a janela cresce na mesma medida — a largura da abstinência ou da tentativa é a variação mais oito dias, e aqui a variação é de 21. O próprio manual que ensina a regra a desaconselha em quem varia mais de seis dias, e é exatamente por isso. A resposta honesta à pergunta dela não é um par de datas: é que o calendário não serve para o ciclo dela, e que o sinal utilizável é o muco — dois a três dias de secreção transparente e elástica —, que ela ainda não aprendeu a observar e pode aprender. As três ausências pesam. Sem cólica, sem sintoma pré-menstrual e sem percepção de muco, com dois intervalos fora da faixa e variação de 21 dias, o quadro é o de ciclos que nem sempre completam a volta. Isso não é diagnóstico, é hipótese — e ela tem consequência prática imediata: em ciclos anovulatórios não há janela fértil para acertar, e orientar o casal a "tentar no dia 14" seria pior do que não orientar. O exame que responde objetivamente é a progesterona de meio de fase lútea, sete dias antes da menstruação esperada. A dificuldade nesta paciente é que não existe data esperada confiável: com intervalos de 24 a 45 dias, qualquer dia escolhido tem chance alta de cair fora da janela, e um resultado baixo seria ambíguo entre não ter ovulado e ter sido colhido no dia errado. Uma saída prática é pedir com a instrução de colher no sétimo dia antes da data prevista pelo ciclo mais frequente dela, registrar o dia da coleta e registrar depois o dia em que a menstruação veio — só a distância entre os dois valida a amostra. O que se pede hoje já foi feito: o teste de gravidez, negativo. Para o próximo ciclo, entre o segundo e o quinto dia, o painel de hormônio folículo-estimulante, prolactina e hormônio tireoestimulante, com o dia escrito no pedido e a instrução de que o dia 1 é o primeiro dia de sangramento. Não se pede painel amplo: ela não tem hirsutismo, acne, alopecia nem acantose, e sem sinal de hiperandrogenismo o painel largo devolve números normais que não mudam conduta. A reavaliação é em três ciclos, com a série de datas. Sobre o tempo: cinco meses de tentativa em mulher de 27 anos não é infertilidade, e essa palavra não deve entrar na consulta hoje. A conversa mudaria de natureza depois de doze meses de tentativa sem gestação — e essa investigação, quando chegar a hora, é de um capítulo de infertilidade que este nível ainda não tem e que virá. O que este capítulo entrega é o que vale desde já: o diário, a observação do muco, e a leitura de um eixo que talvez não esteja completando a volta todo mês.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

A segunda metade do ciclo tem duração aproximadamente fixa, de cerca de quatorze dias, porque é a vida programada do corpo lúteo. Toda a variação de duração de um ciclo normal está na primeira metade. Num ciclo de 35 dias, portanto, a ovulação acontece por volta do dia 21 — e uma progesterona colhida nesse dia é colhida no momento do disparo, quando ela ainda está baixa por definição, e não no meio da fase lútea. A alternativa que fala em confirmar anovulação repete o erro do apelido "progesterona do dia 21", que só é verdadeiro para ciclos de 28 dias. A regra que substitui o apelido é colher sete dias antes da data esperada da próxima menstruação: em ciclo de 35 dias, o dia 28.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Sete dias depois, escreva de memória, sem consultar: (1) quais são os quatro componentes de que a função menstrual depende, e qual exame interroga cada um; (2) qual das duas metades do ciclo tem duração fixa, quanto tempo ela dura e o que isso implica para a faixa normal de 24 a 38 dias; (3) em que dia se colhe hormônio folículo-estimulante e por que justamente nesse dia; (4) como se calcula o dia da progesterona de meio de fase lútea em um ciclo de 35 dias, e por quanto o "dia 21" erra nesse caso; (5) o que significa hormônio folículo-estimulante elevado e o que significa baixo com estradiol baixo. Depois confira, e marque quais das cinco você errou — são elas que voltam no dia 30. Aplicação comentada: Progesterona baixa colhida antes da ovulação prova anovulação? Não. O momento da coleta precisa corresponder à pergunta clínica.

Em 30 dias

Trinta dias depois, volte ao caso de Tarsila e reescreva a história trocando um único elemento de cada vez, dizendo em voz alta qual decisão se altera em cada versão: ela usa pílula combinada há dois anos; ela tem 14 anos e menstruou pela primeira vez há dez meses; ela está há cinco meses sem menstruar; o ultrassom foi feito no oitavo dia do ciclo e mostrou endométrio de 9 mm; a prolactina veio em 160 ng/mL e ela usa risperidona. Para cada versão, diga qual exame você pede, em que dia, e o que faz com cada resultado possível. Em seguida, refaça a conta da abstinência do método do calendário para uma mulher com ciclos de 26 a 34 dias e diga por que o resultado contradiz a advertência do próprio manual.

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Agora atenda

Agora atenda: ambulatório, uma mulher de 31 anos que chega dizendo que, na semana antes de menstruar, vira outra pessoa — explode, chora por nada e já brigou com todos em casa. Antes de qualquer conclusão, monte com ela a série de datas: o dia 1 de cada ciclo, quando o que ela sente começa e quando cede, e diga em voz alta o que conta como dia 1. Explique por que um exame colhido num dia qualquer do ciclo não responde à pergunta dela, e combine um registro diário para os próximos dois ciclos, com as datas escritas no papel.

Ciclo menstrual e eixo hipotálamo-hipófise-ovário — Internato | OsceLabs