Ginecologia e Obstetrícia › Ginecologia
Contracepção de longa duração
Os métodos mais eficazes são os menos oferecidos, e o que os impede quase nunca é uma contraindicação de verdade
World Health Organization. Medical eligibility criteria for contraceptive use. 6th ed. Geneva: WHO, 2025. 218 p. ISBN 978-92-4-011558-3 (versão eletrônica); ISBN 978-92-4-011559-0 (impressa)
World Health Organization. Selected practice recommendations for contraceptive use. 4th ed. Geneva: WHO, 2025. 108 p. ISBN 978-92-4-011560-6 (versão eletrônica); ISBN 978-92-4-011561-3 (impressa)
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Nota Técnica Conjunta nº 419/2025-DGCI/DESCO/SAPS/MS — disponibilização do implante subdérmico contraceptivo liberador de etonogestrel 68 mg e atuação de médicos e enfermeiros na inserção e retirada de LARCs. Processo SEI 25000.194434/2025-59, documento 0051682338
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Nota Técnica nº 31/2023-COSMU/CGACI/DGCI/SAPS/MS — oferta, inserção e retirada do Dispositivo Intrauterino (DIU)
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Manual Técnico para Profissionais de Saúde: DIU com Cobre TCu 380A. Brasília: Ministério da Saúde, 2018. 32 p.
Brasil. Ministério da Saúde. Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres. Brasília: Ministério da Saúde; Instituto Sírio-Libanês de Ensino e Pesquisa, 2016. 230 p. ISBN 978-85-334-2360-2
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 252 p. ISBN 978-65-5993-710-3
Organon Farmacêutica Ltda. Implanon NXT (etonogestrel), implante de 68 mg — bula profissional. Registro MS 1.0029.0211. Bula aprovada pela Anvisa em 23 de maio de 2025
Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). Anticoncepção após o parto. Femina. 2026;54(5):405-11. Protocolo Febrasgo de Ginecologia nº 106, elaborado pela Comissão Nacional Especializada em Anticoncepção
Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). Anticoncepção de emergência. Femina. 2026;54(2):127-30. Protocolo Febrasgo de Ginecologia nº 82
Finotti M, organizadora. Manual de Anticoncepção. São Paulo: Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), 2015. ISBN 978-85-64319-24-0
São Paulo (Município). Secretaria Municipal da Saúde. Área Técnica de Saúde da Mulher. Nota Técnica nº 02/2025 — atualização da bula do sistema intrauterino liberador de levonorgestrel de 52 mg: ampliação do tempo de uso para contracepção de cinco para oito anos. São Paulo, 30 de julho de 2025
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Linha de Cuidados para Doença Trofoblástica Gestacional. Brasília: Ministério da Saúde, 2021 (versão preliminar)
Conselho Federal de Enfermagem. Resolução COFEN nº 690, de 11 de fevereiro de 2022 — normatiza a atuação do enfermeiro no planejamento familiar e reprodutivo
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Mulher de 23 anos, nuligesta, tabagista de 10 cigarros por dia, comparece à unidade básica pedindo dispositivo intrauterino de cobre. Está no 19.º dia de um ciclo regular. Relata cefaleia pulsátil duas vezes por mês precedida, por cerca de vinte minutos, de riscos brilhantes em ziguezague que apagam parte do campo visual. Teve relação sexual sem preservativo há oito dias. Traz citologia oncótica e hemograma normais, solicitados em consulta anterior. Não tem queixa ginecológica; ao exame especular o colo está limpo e ao toque o útero é de volume normal e indolor. Qual é a conduta?
O paciente que você vai ver
Josimara tem 24 anos, é auxiliar de farmácia e entra na sala com a decisão já tomada. Leu sobre o dispositivo intrauterino, conversou com uma colega que usa, e veio pedir. A conversa dura menos de dois minutos e termina com três frases que ela vai repetir por anos, porque foram as únicas que levou: que dispositivo é para quem já teve filho; que precisa vir menstruada; e que primeiro tem de fazer o preventivo e os exames de sangue. Ela sai com um pedido de exame na mão e sem método. Volta a usar camisinha quando o parceiro aceita.
Nenhuma das três frases é verdade. A primeira é a mais antiga e a mais cara: não ter filhos é categoria 2 para os dois tipos de dispositivo — método que pode ser usado, com acompanhamento mais atento —, e a própria régua registra que as diferenças por paridade podem não ter significado clínico e que não há atraso maior no retorno da fertilidade em quem nunca engravidou. A segunda inverte a regra: qualquer dia do mês serve para colocar um dispositivo de cobre, e o que a data decide é apenas se será preciso afastar gravidez antes. A terceira confunde duas coisas que não têm relação: o rastreamento do câncer do colo do útero tem calendário próprio e não é condição para receber método nenhum.
Josimara não foi recusada por uma contraindicação. Foi recusada por três frases que ninguém conferiu contra a régua, ditas com a segurança de quem repete o que ouviu na graduação. É a diferença entre a contraindicação real, que existe, é curta e está escrita, e a contraindicação inventada, que é longa, circula de boca em boca e responde pela maior parte das recusas.
Duas salas adiante está Gilmara, 31 anos, com o implante no braço há cinco meses. Ela veio tirar. Sangra pouco, mas sangra quase todo dia, e já não sabe quando é menstruação e quando não é. Na consulta de inserção ninguém lhe disse que isso ia acontecer; disseram que ela ia parar de menstruar. Ela conclui a única coisa que dá para concluir sem informação: que o implante não funcionou, ou que está fazendo mal. Vai tirar e não vai começar outro método hoje, porque não é dia de inserção de dispositivo e ela não pretende voltar.
O sangramento de Gilmara não é efeito colateral no sentido em que se usa a palavra. É o padrão esperado do método, é a principal causa de retirada precoce e é inteiramente previsível: entre as usuárias de implante, cerca de quatro em cada cinco passam a sangrar uma vez por mês ou menos ao longo do primeiro ano, e cerca de uma em cada cinco sangra com mais frequência ou por mais tempo. Gilmara caiu no segundo grupo, que não é raro nem imprevisto. O que faltou não foi um remédio: foi uma frase dita antes.
Repare no que as duas consultas têm em comum. Nenhuma das duas mulheres tinha doença. Nenhuma das duas precisava de exame. As duas saíram sem método, e sair sem método é o desfecho de maior risco de qualquer consulta de contracepção. E as duas perderam o mesmo método: aquele que, entre todos os reversíveis, é o que menos depende de qualquer coisa que a usuária faça — e por isso o único cuja eficácia real se parece com a eficácia de bula.
Essa é a peculiaridade deste capítulo, e é o que o torna diferente de todos os outros da apostila. Aqui não existe um diagnóstico a fazer nem um tratamento a acertar. Existe um método que funciona melhor do que quase tudo o que a medicina oferece, existe uma lista pública e curta de quem não pode usá-lo, e existe uma distância enorme entre as duas coisas. A distância não é feita de contraindicação: é feita de frase.
Do lado do serviço, a conta é conhecida. Menos de cinco em cada cem brasileiras em idade reprodutiva sexualmente ativas usam dispositivo intrauterino, num país onde ele é distribuído de graça pelo governo federal há décadas. O implante entrou na rede pública em 2025. Nos dois casos, o insumo não é o que falta primeiro. O que falta primeiro é a consulta em que alguém oferece, e a consulta em que alguém, diante do pedido, confere a régua antes de dizer não.
Quem adoece disso
O número que abre este capítulo é de uso, não de doença. Na Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, entre as mulheres de 15 a 49 anos que menstruavam e haviam sido sexualmente ativas nos doze meses anteriores, 4,4% usavam dispositivo intrauterino. É o método que, no mundo, alcança cerca de 169 milhões de pessoas, e que o governo federal compra e distribui aos municípios. A distância entre esses dois fatos é o problema de saúde pública deste capítulo, e ela não se explica por falta de dispositivo na caixa.
O segundo número é o que essa ausência custa. As gestações não planejadas são a maioria no Brasil: o inquérito nacional que acompanhou o nascimento de 24 mil crianças encontrou 55%, e a proporção sobe nos grupos que mais frequentam a unidade básica. Entre as pessoas que declararam ter interrompido uma gravidez na Pesquisa Nacional do Aborto, cerca de metade fez isso pela primeira vez aos 19 anos ou menos. Contracepção que não chega vira gestação não planejada, e parte dela vira aborto inseguro — essa é a cadeia que os documentos federais usam para justificar a ampliação dos métodos de longa duração.
O terceiro número é o que separa esses métodos de todos os outros, e ele não é uma diferença de grau. Pelos dados da régua internacional, o comprimido combinado falha em 0,3 por 100 mulheres no primeiro ano de uso perfeito e em 7 por 100 do jeito que as pessoas de fato usam: uma distância de vinte e três vezes entre o método e a usuária. O injetável trimestral vai de 0,2 a 4, uma distância de vinte vezes. O implante vai de 0,1 a 0,1, e o dispositivo de cobre de 0,6 a 0,8. Não é que eles sejam pouco mais eficazes: é que neles a coluna do uso perfeito e a do uso real são praticamente a mesma coluna, porque não há nada a esquecer.
Traduzida em consulta, essa diferença tem tamanho. Em uso típico, o comprimido falha setenta vezes mais que o implante e quase nove vezes mais que o dispositivo de cobre. Trocar o comprimido pelo implante em cem mulheres evita 6,9 gestações por ano — uma gestação evitada a cada quinze mulheres, aproximadamente, por ano de uso. Poucas intervenções da medicina ambulatorial têm um número desses, e quase nenhuma o tem numa pessoa saudável, com procedimento único e sem uso diário.
O quarto número é o da adolescência, e é onde os dois anteriores se somam. Cerca de dois terços das gestações na adolescência no país foram declaradas indesejadas nos dados que o Ministério da Saúde usa, e é justamente nessa faixa que a continuidade dos métodos de longa duração é maior. Foi essa combinação que produziu a mudança de política: o implante de etonogestrel entrou no sistema público em julho de 2025, por duas portarias assinadas no mesmo dia — uma alcança adolescentes de 14 a 17 anos, a outra vai dos 18 aos 49 —, com prioridade de oferta na atenção primária e um programa nacional para habilitar médicos e enfermeiros a inserir e a retirar.
O quinto número explica por que a formação entrou na política junto com o insumo. Há no país cerca de 46 enfermeiros para cada 10 mil habitantes, contra uma média internacional em torno de 16 — e é essa capilaridade, e não a rede de ginecologistas, que decide se o método chega ao município pequeno. A literatura que o Ministério da Saúde invoca não mostra diferença de desempenho entre enfermeiros e médicos nas inserções habituais, inclusive as feitas depois do parto e do abortamento. Onde a inserção depende de encaminhamento a um serviço especializado, o encaminhamento costuma ser o ponto em que a mulher se perde.
O último número é o do abandono, e ele muda o que se diz na consulta. Entre as usuárias de implante, cerca de quatro em cada cinco chegam aos doze meses sangrando menos vezes do que antes — uma vez por mês ou menos, e algumas nenhuma —, enquanto uma em cada cinco sangra com mais frequência ou por mais dias seguidos. No dispositivo de cobre, o sangramento aumenta e as cólicas pioram sobretudo nos três primeiros meses. Nenhum desses padrões é falha do método, e todos são causa de retirada precoce quando aparecem sem aviso. O aconselhamento sobre sangramento não é gentileza: é a intervenção que sustenta a continuidade.
Por que acontece o que acontece
Os três métodos deste capítulo compartilham uma propriedade e só uma: a eficácia não passa por uma decisão diária da usuária. Tudo o mais neles é diferente — o que fazem, onde fazem, o que provocam no sangramento e por quanto tempo duram. Guardar essa diferença é o que permite escolher entre eles, e é o que impede o erro mais comum da conversa, que é tratar dispositivo de cobre, dispositivo hormonal e implante como se fossem variações do mesmo objeto.
O dispositivo de cobre não tem hormônio e não age no eixo. Os íons de cobre liberados na cavidade provocam mudanças bioquímicas e morfológicas no endométrio e uma reação inflamatória local, com aumento de prostaglandinas e de citocinas citotóxicas, que é espermicida; o muco cervical fica mais espesso; a motilidade e a capacidade de penetração do espermatozoide caem. O efeito é sobre gametas, e o principal mecanismo é impedir a fecundação. A ovulação continua acontecendo, e é por isso que a mulher que usa o dispositivo de cobre continua menstruando com o mesmo ritmo de antes — e por isso, também, que o sangramento tende a ficar mais volumoso e as cólicas mais fortes, porque a mesma inflamação local que impede a fecundação atua sobre um endométrio que segue o ciclo.
O sistema intrauterino com levonorgestrel faz o contrário no endométrio. O progestagênio liberado dentro do útero atrofia o endométrio, espessa o muco cervical e altera o ambiente tubário; a supressão da ovulação existe em parte das usuárias, mas não é o mecanismo principal, e é por isso que muitas continuam ovulando e mantendo função ovariana. O endométrio fino é o que explica o padrão de sangramento, que é o oposto do dispositivo de cobre: manchas irregulares nos primeiros meses e, depois, fluxo escasso ou ausente. A mesma atrofia é o que faz o dispositivo hormonal ser usado, fora da contracepção, para tratar sangramento uterino aumentado — assunto que pertence ao capítulo de sangramento uterino anormal.
O implante subdérmico age longe do útero. O bastão libera etonogestrel de forma contínua na circulação, e o efeito contraceptivo principal é a inibição da ovulação, somada ao espessamento do muco cervical. A liberação não é constante: começa em torno de 60 a 70 microgramas por dia na quinta e sexta semanas e cai para cerca de 35 a 45 ao fim do primeiro ano, 30 a 40 ao fim do segundo e 25 a 30 ao fim do terceiro. Como a supressão do eixo é parcial e a atividade folicular persiste, o endométrio recebe estímulo hormonal irregular — e é essa irregularidade, e não uma falha, que produz o padrão de sangramento imprevisível que faz mulheres pedirem a retirada.
Guardar esses três mecanismos responde de imediato três perguntas de consultório. Por que o dispositivo de cobre pode aumentar a cólica e o hormonal costuma diminuir? Porque um inflama um endométrio que segue o ciclo e o outro atrofia o endométrio. Por que o dispositivo de cobre serve como anticoncepção de emergência e o hormonal não? Porque o efeito do cobre sobre os gametas é imediato e independe de tempo de exposição hormonal, e porque não há dado robusto de eficácia do dispositivo hormonal para essa finalidade. E por que só o implante costuma dar sangramento imprevisível em qualquer momento do uso, e não apenas no começo? Porque o estímulo endometrial dele vem de fora, de uma atividade ovariana que persiste de modo variável em cada mulher.
A duração de cada um tem explicação física, e ela vale a conta. O implante carrega 68 miligramas de etonogestrel; aplicando as taxas de liberação da própria bula ao longo dos três anos autorizados, chega-se a cerca de 44 miligramas liberados, ou seja, cerca de 35% da carga ainda no bastão no dia da retirada. Sobra hormônio, e é essa sobra que torna fisicamente plausível estender a duração — mas plausibilidade física não é eficácia demonstrada, e a extensão de prazo, quando acontece, vem de ensaio clínico e de decisão sanitária, não de aritmética de bula.
O mesmo raciocínio, aplicado ao dispositivo hormonal, mostra por que a conta sozinha não decide nada. A taxa nominal impressa é de cerca de 20 microgramas por dia; mantida constante, ela esgotaria os 52 miligramas em pouco mais de sete anos, o que é menos que os oito anos hoje autorizados para contracepção. A taxa nominal, portanto, não é constante: ela cai ao longo do uso, como a do implante. Quem tentar decidir tempo de troca dividindo carga por taxa vai errar nos dois dispositivos, e em direções opostas.
Falta o mecanismo do dano, que é curto e concentrado. Os riscos próprios dos dispositivos intrauterinos são de procedimento, não de hormônio: perfuração uterina, que ocorre no momento da colocação e em nenhum outro; expulsão, mais provável no primeiro ano; e infecção pélvica, cujo risco atribuível se concentra nos primeiros vinte dias e decorre de infecção sexualmente transmissível já presente na hora de inserir, não do dispositivo em si. O diagnóstico e o tratamento da doença inflamatória pélvica, inclusive a decisão sobre o dispositivo já colocado, pertencem ao capítulo de doença inflamatória pélvica; o que fica aqui é a decisão de inserir. Do implante, o risco de procedimento é outro e menor: inserção profunda demais, que transforma uma retirada de cinco minutos num procedimento de referência.

Como se apresenta de verdade
Contracepção de longa duração exige escolha informada, elegibilidade e um procedimento seguro. Você deve distinguir barreiras desnecessárias de situações que realmente impedem a inserção naquele dia. Explique padrão de sangramento, sinais de complicação e possibilidade de retirada, preservando a autonomia da paciente.
Antes de qualquer coisa, uma frase de norma que resolve metade dos impasses do bloco: devem ser oferecidos todos os métodos que o serviço tem, com informação sobre como cada um funciona, quanto tempo dura, como se usa, que eventos adversos pode dar, que sinais fazem procurar ajuda e que parar é direito dela a qualquer momento; e a escolha da mulher deve ser respeitada, desde que clinicamente adequada. Essa condição final é a única barreira que a norma admite, e quem a define é a régua de elegibilidade, linha por linha. Tudo o que estiver fora dessas linhas é veto sem base — e é aí que mora a maior parte das recusas deste capítulo.
Percurso clínico: Garantir acesso e reconhecer intercorrências
Discuta duração, eficácia, padrão de sangramento, dor e preferências, conferindo elegibilidade e possibilidade de gestação. Inserção exige técnica e supervisão adequadas. No seguimento, fios não visíveis pedem avaliação de gravidez e localização, não instrumentação às cegas. Explique quando retornar e como pedir retirada.
O pedido, a oferta e a recusa: as três formas do encontro
A primeira forma é o pedido. A mulher chega sabendo o nome do método e querendo aquele. É a consulta mais fácil de resolver bem e a que mais termina em recusa, porque o pedido explícito é o que aciona a lista mental de contraindicações que o profissional aprendeu, e essa lista quase sempre é maior que a real. A tarefa aqui é uma só: conferir a régua antes de responder.
A segunda forma é a oferta, e é a que quase não acontece. A mulher chega para renovar uma receita, buscar o resultado de um exame, levar o filho na vacina ou fazer a consulta de puerpério, e sai sem ter ouvido que existem métodos que duram anos. Quem nunca ouviu falar não pode escolher, e a omissão tem o mesmo efeito prático da recusa, com a vantagem de não deixar rastro no prontuário. Apresentar os métodos de longa duração a quem não os pediu é obrigação de norma, não cortesia.
A terceira forma é a retirada. A mulher já usa e quer tirar, quase sempre por causa do sangramento. É a consulta com maior risco de terminar sem método nenhum, porque a retirada é rápida, resolve a queixa do dia e dispensa o resto. Tirar é direito dela e não se discute; o que não pode faltar é a pergunta sobre o que entra no lugar, na mesma consulta, e a informação de que o padrão que a incomoda tem nome, tem frequência conhecida e, em parte dos casos, cede com o tempo.
Há ainda dois momentos em que a janela é curta e o retorno é o que menos acontece: a internação do parto ou do abortamento, e a consulta em que uma adolescente aparece sozinha. Nos dois, adiar a conversa equivale a não tê-la. O momento pós-obstétrico tem regra própria e é tratado adiante; a adolescente tem norma própria, que manda atender mesmo desacompanhada, garantir sigilo salvo risco à vida ou à integridade, e registra que prescrever método conforme os critérios clínicos de elegibilidade não configura ato ilícito.
A lista curta: o que realmente fecha a porta
As contraindicações absolutas dos dispositivos intrauterinos cabem em poucas linhas, e quase todas têm a mesma lógica: ou o útero não comporta o dispositivo, ou há infecção em curso, ou há gravidez. Cavidade uterina distorcida por malformação ou por mioma submucoso que a deforme, gravidez confirmada, sepse puerperal, abortamento infectado recente, doença inflamatória pélvica atual, cervicite purulenta por clamídia ou gonococo, tuberculose pélvica e sangramento vaginal inexplicado ainda não avaliado: essas são as situações em que a colocação não deve acontecer. Câncer de colo e câncer de endométrio aguardando tratamento entram na mesma coluna, e por um motivo específico: o dispositivo provavelmente terá de sair no tratamento, e até lá a mulher segue exposta à gravidez.
A doença trofoblástica gestacional tem lugar próprio nessa lista e é fronteira declarada com o capítulo de doença trofoblástica gestacional, a quem pertencem o seguimento e a curva do hormônio. O que interessa aqui é que a régua internacional separa duas situações — hormônio caindo ou indetectável, e hormônio em platô, em ascensão ou doença maligna — enquanto a linha de cuidado nacional não indica o dispositivo durante o seguimento e só abre exceção, em casos selecionados, depois de três semanas de hormônio normalizado. Esta apostila adota a graduação da régua internacional, que é de 2025 e escrita, como a linha de cuidado, para essa mulher; a posição da linha de cuidado, versão preliminar de 2021, fica adiante no bloco de divergências, datada e rotulada.
O implante tem lista ainda menor, porque não é procedimento intrauterino: o que restringe é hormônio, não anatomia. Câncer de mama atual é a condição que o coloca na coluna do risco inaceitável; câncer de mama passado sem evidência de doença por cinco anos e doença hepática grave o colocam na coluna anterior, a que exige julgamento e alternativa. Sangramento vaginal inexplicado suspeito de condição séria pede avaliação antes de iniciar. Fora disso, a lista acaba.
Duas condições merecem nota porque separam os três dispositivos entre si na mesma mulher. A primeira é a enxaqueca com aura, que é risco inaceitável para os métodos com estrogênio — assunto do capítulo de contracepção hormonal combinada — e, para os métodos deste capítulo, é categoria 1 no dispositivo de cobre e categoria 2 para iniciar e 3 para continuar no dispositivo hormonal e no implante. A segunda é a trombose venosa profunda ou embolia pulmonar em atividade: o dispositivo de cobre permanece categoria 1, o hormonal e o implante ficam na coluna que exige julgamento. Em nenhum dos dois casos a frase correta é que a mulher não pode usar contracepção.
As sete recusas que não estão escritas em lugar nenhum
A primeira é a paridade. Não ter filhos é categoria 2 para os dois dispositivos intrauterinos, com a observação expressa de que gravidez, infecção, perfuração e expulsão são eventos pouco frequentes em qualquer usuária e de que a diferença entre quem já pariu e quem não pariu pode não ter significado clínico. O manual técnico federal do dispositivo de cobre é ainda mais direto e afirma que mulheres que nunca engravidaram podem usá-lo. Categoria 2 quer dizer que se usa, com acompanhamento mais atento — não que se recusa.
A segunda é a menstruação. Não há dia do mês em que o dispositivo de cobre deixe de poder ser colocado; até doze dias do início do sangramento, sem qualquer exigência adicional, e depois disso desde que haja certeza razoável de que a mulher não está grávida. Em nenhuma das duas situações é preciso proteção adicional, porque a proteção do cobre é imediata. O dispositivo hormonal e o implante usam sete dias como marco, e depois desse prazo pedem sete dias de preservativo ou abstinência. Exigir que a mulher volte menstruada troca uma consulta por três e dá ao ciclo uma autoridade que ele não tem.
A terceira é o rastreio de infecção como pré-condição de laboratório. O que a régua de prática classifica como essencial antes de colocar um dispositivo intrauterino são duas coisas que se fazem na própria consulta: o exame pélvico e a estimativa do risco de infecção sexualmente transmissível, feita pela história e pelo exame físico. O rastreamento laboratorial de infecções e o hemograma ficam na classe seguinte, a das que contribuem quando disponíveis; a citologia oncótica, os exames de rotina e a medida de pressão ficam na classe das que não contribuem para o uso seguro e efetivo do método. A diferença entre avaliar risco e exigir exame é a diferença entre uma consulta e três.
A quarta é o sangramento irregular como sinal de falha. Nenhum dos três métodos avisa quando falha por meio do padrão menstrual, e nenhum dos três padrões descritos adiante indica que o método parou de funcionar. Tratar o escape como falha produz retirada precoce de método altamente eficaz por causa de um efeito esperado.
A quinta é a infertilidade futura. O retorno da fertilidade após retirar dispositivo ou implante é imediato, e a régua registra que nenhum método reversível causa infertilidade permanente. Entre os reversíveis, o injetável de depósito é o único que foge à regra, porque pode adiar a volta da ovulação por até um ano — e ele não é assunto deste capítulo.
A sexta é a idade. Da menarca aos vinte anos, os dois dispositivos são categoria 2; a partir dos vinte, categoria 1. Para o implante, a idade é categoria 1 da menarca em diante. Adolescente não é contraindicação a nada aqui; é, ao contrário, a faixa em que a diferença de eficácia entre os métodos tem a maior consequência.
A sétima é a infecção pelo vírus da imunodeficiência humana. Alto risco de infecção é categoria 1 para os dois dispositivos, doença clínica assintomática ou leve é categoria 2, e a terapia antirretroviral não interage com o dispositivo. A restrição existe apenas na doença clínica grave ou avançada, e mesmo aí é categoria 3 para iniciar e 2 para continuar. Vale a mesma frase da profilaxia pré-exposição, que é categoria 1 para todos os métodos deste capítulo.
Iniciar não é continuar, e é a coluna que decide na urgência
A régua tem duas colunas para várias condições, e a segunda quase nunca é lida. Iniciar é a decisão de colocar em quem não usa; continuar é a decisão sobre quem já usa e desenvolveu a condição. As duas respondem a perguntas diferentes, porque retirar um dispositivo tem custo próprio — um procedimento a mais, um intervalo desprotegido e, muitas vezes, uma mulher que não volta.
O exemplo que mais aparece no plantão é a infecção. Cervicite purulenta, clamídia ou gonorreia e doença inflamatória pélvica atual são categoria 4 para colocar e categoria 2 para continuar, com a orientação expressa de tratar a infecção com antibiótico apropriado e, em geral, não haver necessidade de retirar o dispositivo se a mulher quiser mantê-lo. Ou seja: a mesma infecção que impede colocar hoje não obriga a tirar o que já está lá. A conduta completa da doença inflamatória pélvica, incluindo esquemas e o momento de eventual retirada, pertence ao capítulo de doença inflamatória pélvica.
O mesmo desenho aparece em condições sem infecção nenhuma. Sangramento vaginal inexplicado suspeito de condição séria é categoria 4 para colocar e 2 para manter enquanto se investiga, com a nota de que não é preciso retirar antes da avaliação. Câncer de colo aguardando tratamento e câncer de endométrio seguem o mesmo par. Tuberculose pélvica é 4 para colocar e 3 para manter. Enxaqueca com aura, no dispositivo hormonal e no implante, é 2 para iniciar e 3 para continuar. Cardiopatia isquêmica atual ou passada, no implante e no dispositivo hormonal, é 2 para iniciar e 3 para continuar.
As quatro categorias e o que cada uma manda fazer são as mesmas de qualquer método, e a definição delas como sistema pertence ao capítulo de contracepção hormonal combinada. Duas consequências, porém, são próprias daqui. A primeira: como colocar um dispositivo é procedimento, a categoria 3 tem custo assimétrico — deixar de colocar hoje apenas adia, ao passo que retirar depois desfaz um ato. A segunda: onde há pouco recurso de julgamento clínico, a própria régua autoriza ler as quatro caixas como duas, e é nessa simplificação que a segunda categoria da nuliparidade se transforma, no balcão, numa recusa.
Quem tem detalhe próprio na régua
A puérpera. A janela é dupla e o meio dela é fechado: os dois dispositivos podem ser colocados nas primeiras 48 horas, inclusive logo após a saída da placenta e inclusive na cesariana, antes de fechar o útero; entre 48 horas e quatro semanas ficam na categoria que desaconselha, pelo risco de expulsão; e a partir de quatro semanas voltam à categoria 1. Sepse puerperal fecha a porta. O implante não tem essa janela fechada: pode ser colocado imediatamente, inclusive em lactante com menos de seis semanas de pós-parto. A contracepção do pós-parto não tem capítulo próprio neste nível, e a parte de longa duração é assumida aqui.
A lactante. Nenhum dos três interfere de forma demonstrada na amamentação, no crescimento ou no adoecimento do lactente, e essa é uma das poucas afirmações do capítulo que vem de revisão sistemática ampla. Há uma ressalva registrada na própria régua: um ensaio encontrou menor duração de amamentação com colocação imediata do dispositivo hormonal, enquanto outros dois, com métodos só de progestagênio, não mostraram diferença. Há também um aviso de procedimento: durante a lactação, o risco de perfuração na colocação intrauterina sobe.
A nulípara e a adolescente. A dificuldade real não é elegibilidade, é canal cervical: um colo mais fechado pode tornar a colocação mais demorada e mais dolorida. Isso é assunto de preparo e de analgesia, não de indicação, e as recomendações de 2025 sobre alívio da dor existem justamente por isso. Vale registrar o que fica em aberto: a régua internacional observa que mulheres jovens podem ter risco maior de expulsão do dispositivo de cobre que usuárias mais velhas, e o manual técnico federal afirma o contrário, que não há diferença por idade ou paridade. Nenhuma das duas afirmações muda a indicação; as duas mudam o que se diz na conversa.
A mulher anticoagulada ou com distúrbio de coagulação. A régua dá categoria 1 ao dispositivo de cobre em quem tem trombose e usa anticoagulante, e registra que a colocação do dispositivo hormonal não representa risco maior de sangramento nessas pacientes, além de ser útil no sangramento menstrual aumentado. O manual técnico federal, no entanto, desaconselha o dispositivo de cobre nessas mulheres pelo aumento provável do fluxo. As duas coisas convivem: a régua responde se é seguro, o manual responde se é confortável — e nessa mulher o dispositivo hormonal costuma resolver os dois.
A mulher na perimenopausa. O manual técnico federal fixa uma regra que quase ninguém conhece e que evita retirada precoce ou tardia: em usuária do dispositivo de cobre com menos de 50 anos, retirar dois anos após a última menstruação; com mais de 50 anos, após um ano de amenorreia; e registra que permanência mais prolongada depois da menopausa não causa problema. A terapia hormonal da menopausa é assunto do capítulo próprio.
A mulher com valvopatia. É o único ponto deste capítulo em que dois documentos oficiais dizem coisas opostas sobre uma conduta de sala: a régua internacional recomenda antibiótico profilático na colocação em valvopatia complicada, e o manual técnico federal afirma que não há indicação de profilaxia de endocardite na colocação do dispositivo. Esta apostila adota a profilaxia na colocação em valvopatia complicada, porque a linha da régua internacional de 2025 é escrita para essa mulher e o manual federal de 2018 fala da doença valvar sem separar a complicada; a posição do manual fica no bloco de divergências, datada e rotulada.
O sangramento de cada método, dito antes de colocar
Esta é a seção que decide a continuidade, e por isso ela pertence à apresentação do método e não ao seguimento. O padrão de sangramento é a principal causa de retirada precoce dos três métodos, é diferente em cada um, é previsível em faixas conhecidas e não indica falha em nenhum deles. Dito antes, vira expectativa; descoberto depois, vira retirada.
Dispositivo de cobre: o fluxo tende a aumentar e as cólicas a piorar, sobretudo nos três primeiros meses, com moderado aumento persistente em parte das mulheres. Manchas e sangramento leve são comuns nos três a seis primeiros meses e diminuem com o tempo. A frase a dizer é que o volume costuma aumentar, que isso cede na maioria, que existe tratamento para os dias de sangramento e que a retirada é uma opção legítima se ela achar que não vale a pena.
Dispositivo hormonal: manchas irregulares nos primeiros meses, seguidas de fluxo escasso e, com frequência, ausência de menstruação. A ausência de menstruação não exige tratamento nenhum e não é sinal de doença; exige conversa, porque parte das mulheres a considera inaceitável e retira o dispositivo por causa dela. Sangramento mais intenso ou mais prolongado pode ocorrer nos três a seis primeiros meses e costuma diminuir depois.
Implante: é o único dos três cujo padrão é francamente imprevisível e pode mudar ao longo do uso. Nos números que o Ministério da Saúde registra, cerca de quatro em cada cinco usuárias reduzem o número de episódios ao longo dos primeiros doze meses — sangram uma vez por mês ou menos, e algumas não sangram —, enquanto cerca de uma em cada cinco passa a sangrar mais vezes por mês ou por períodos que se prolongam. Uma em cada cinco não é exceção: é a faixa esperada, e é ela que precisa ser nomeada na consulta de inserção.
Há uma diferença de fundo entre os três que vale explicitar para a mulher. No dispositivo de cobre, o sangramento é o preço de não usar hormônio. No dispositivo hormonal, a redução do fluxo é um efeito desejado por muitas e recusado por outras. No implante, a imprevisibilidade é intrínseca ao mecanismo e não se corrige trocando de marca, porque só existe uma. Escolher entre eles é, em boa medida, escolher qual desses três padrões a mulher prefere conviver.
Como fechar o diagnóstico
Há um erro de formulação na pergunta com que este bloco costuma começar. Ela não é quais exames se pedem antes de colocar um dispositivo; é o que se precisa saber antes de colocar, e por qual caminho essa informação chega. Trocada assim, a resposta fica curta, verificável e quase toda ela acontece dentro da própria consulta.
A segunda troca é igualmente útil. Não se investiga uma doença aqui; investiga-se elegibilidade e, no caso dos dispositivos intrauterinos, condições de procedimento. O desfecho não é um diagnóstico: é uma categoria por método e uma decisão sobre colocar hoje ou não. Por isso uma investigação bem-feita nunca termina em nada a oferecer.
Os dois exames que a régua chama de obrigatórios
Em mulher saudável, os únicos exames essenciais e obrigatórios antes da colocação de um dispositivo intrauterino, de cobre ou hormonal, são o exame pélvico e genital e a estimativa do risco de infecção sexualmente transmissível, obtida pela história e pelo exame físico. Os dois são de consulta, não de laboratório, e essa é a informação que quase sempre se perde na tradução.
O exame pélvico não é formalidade e tem três alvos concretos: conteúdo vaginal anormal, que sugere infecção em curso; posição do útero, porque útero muito ante ou retrovertido não diagnosticado é fator de risco reconhecido de perfuração; e volume e forma do útero, que decidem se o dispositivo cabe. É o exame que evita a complicação mais grave da colocação, e ela acontece na colocação e em nenhum outro momento.
A avaliação de risco de infecção é uma conversa, não uma requisição. A própria régua registra o limite: os algoritmos de estimativa de risco têm baixo valor preditivo, o risco varia com o comportamento individual e com a prevalência local, e a evidência sugere que o risco de doença inflamatória pélvica após a colocação é baixo mesmo em mulheres de risco aumentado. A conclusão que ela tira é dupla e precisa ser lida inteira: muitas mulheres com risco aumentado podem colocar o dispositivo, e algumas, com probabilidade individual muito alta, não devem colocar até que se faça o teste e o tratamento apropriados. A categoria correspondente é ambígua de propósito, entre 2 e 3, e é uma das poucas linhas da régua que devolve a decisão ao julgamento clínico.
Para o implante não há sequer esses dois. O documento federal que organiza a oferta afirma que não são necessários exames para a inserção ou a retirada do implante subdérmico, salvo situações excepcionais como inserção profunda ou deslocamento do dispositivo. É preciso registrar a diferença com cuidado, porque ela costuma ser esticada: o que a norma dispensa para o implante não é a mesma coisa que a régua exige para o dispositivo intrauterino.
A lista do que não decide nada, e o preço de exigi-la
Citologia oncótica do colo do útero, exames laboratoriais de rotina, exame das mamas e medida de pressão arterial estão todos na classe das que não contribuem substancialmente para o uso seguro e efetivo do dispositivo intrauterino. Isso não quer dizer que sejam ruins: quer dizer que não decidem nada nesta consulta. O rastreamento do câncer do colo tem indicação, faixa etária e calendário próprios, e é assunto do capítulo de rastreamento do câncer do colo do útero; oferecê-lo na mesma consulta é bom cuidado, condicionar a colocação a ele é barreira de acesso com aparência de zelo.
Dosagem de hemoglobina e rastreamento laboratorial de infecções sexualmente transmissíveis ficam na classe intermediária: contribuem quando disponíveis, e a decisão de fazê-los depende do contexto do serviço, pesando o risco de não fazer contra o benefício de manter o método acessível. Contribuir quando disponível é o oposto de ser pré-requisito.
A ultrassonografia não é obrigatória antes nem depois da colocação. Antes, ela cabe em casos selecionados — suspeita de malformação uterina, investigação de sangramento uterino anormal sem diagnóstico. Depois, serve para confirmar o posicionamento se estiver disponível, e é o exame que responde as duas perguntas que aparecem no seguimento: onde está o dispositivo quando o fio sumiu, e onde ele está quando o fio ficou mais comprido do que era.
O custo de exigir não é apenas financeiro, e ele tem direção conhecida. Cada exame transformado em pré-requisito acrescenta uma ida ao serviço, uma coleta, uma espera por resultado e mais uma oportunidade de o vínculo se romper — e enquanto isso corre, ela segue sem método. Num país em que a maioria das gestações não é planejada, o exame desnecessário deixa de ser neutro e passa a ser fator de risco.
Há uma exceção que o manual técnico federal registra e que não é excesso: mulher com sangramento uterino anormal sem diagnóstico e com mais de 40 anos deve ter o endométrio investigado antes de se decidir pelo dispositivo de cobre. A investigação do sangramento pertence aos capítulos de sangramento uterino anormal e de sangramento depois da menopausa; o que fica aqui é o gatilho.
Certeza razoável de que ela não está grávida
Certeza razoável é a única condição verdadeiramente obrigatória fora da janela inicial do ciclo, e ela não é um exame. A régua de prática lista seis critérios, e basta um, desde que não haja sinal nem sintoma de gravidez: não ter tido relação desde a última menstruação normal; estar usando de forma correta e consistente um método confiável; estar nos primeiros sete dias do início da menstruação normal; estar até quatro semanas de pós-parto, em mulher que não amamenta; estar nos primeiros sete dias após abortamento ou perda gestacional; ou estar amamentando de forma exclusiva ou quase exclusiva, com amenorreia e menos de seis meses de pós-parto.
Os dois grupos que ficam de fora desses critérios são exatamente os que mais aparecem: a puérpera que não amamenta e a mulher amenorreica que não está no pós-parto. Para essas duas, a régua manda usar outro meio para determinar se há gravidez, e o meio disponível na unidade é o teste rápido, que sai na hora. A orientação nacional é objetiva no mesmo sentido: havendo dúvida sobre gestação, ofertar teste rápido de gravidez.
A janela do ciclo funciona de forma diferente em cada método, e confundir as três é fonte de erro. Dispositivo de cobre: até doze dias do início do sangramento, coloca-se sem mais nada; depois disso, coloca-se com certeza razoável de não gravidez, e em nenhum dos dois casos é preciso proteção adicional. Dispositivo hormonal: até sete dias, sem proteção adicional; depois, com certeza razoável e sete dias de preservativo ou abstinência. Implante: mesma regra do dispositivo hormonal, sete dias.
Quem já vem usando outro método hormonal de forma correta troca na hora, sem esperar menstruação. Do pós-abortamento de primeiro trimestre, os três podem ser iniciados imediatamente; de segundo trimestre, os dispositivos podem, em geral, ser colocados, com risco maior de expulsão; e depois de abortamento infectado nenhum dos dois dispositivos deve ser colocado. Vale ainda o registro que evita adiamento inútil: não se conhece dano à mulher, ao curso da gestação nem ao feto quando um método só de progestagênio acaba sendo usado numa gravidez ainda não descoberta.
A dor da colocação, que virou recomendação em 2025
Até a edição anterior, a dor da colocação não tinha recomendação nenhuma. A 4.ª edição das recomendações práticas trouxe quatro, todas condicionais, e o motivo declarado é de acesso: o medo da dor da colocação é uma barreira reconhecida ao método, do lado da mulher, e a dificuldade percebida de colocar é uma barreira do lado de quem coloca, sobretudo em quem nunca engravidou.
A primeira recomendação é de conversa: antes de colocar, toda pessoa deve ser aconselhada sobre a possibilidade de dor durante o procedimento, sobre os riscos e benefícios do dispositivo, sobre as alternativas e sobre as opções de manejo da dor, e o plano deve ser construído com ela. A segunda é sobre anti-inflamatório não esteroidal, que pode ser oferecido de rotina antes da colocação; a evidência sugere redução pequena a moderada da dor sem aumento de efeitos adversos. A terceira e a quarta são sobre anestésico local: onde houver anestésico e profissional treinado, o bloqueio paracervical pode ser oferecido de rotina; onde houver anestésico tópico, ele também pode. As quatro terminam com a mesma frase, e ela é a que importa num serviço com pouco recurso: o dispositivo não deve ser negado quando esses recursos não estiverem disponíveis.
Há também uma recomendação do que não fazer. O misoprostol não é recomendado para uso de rotina antes da colocação: a evidência não mostra redução de dor, de eventos adversos, de necessidade de dilatação nem melhora do sucesso do procedimento, e sugere que ele possa aumentar dor, cólica e diarreia antes da colocação. Ele guarda um lugar estreito, de uso seletivo, em quem teve uma tentativa de colocação frustrada recentemente.
Uma conferência de dose vale a pena antes de padronizar bloqueio paracervical no serviço, porque a faixa dos ensaios encosta no teto de segurança. Os ensaios que a régua reuniu usaram lidocaína a 1% em 10 a 20 mililitros, ou a 2% em 10 a 12 mililitros. A 2%, cada mililitro tem 20 miligramas: 12 mililitros são 240 miligramas. Numa mulher de 60 quilos, o teto usual de lidocaína sem vasoconstritor, de 4,5 miligramas por quilo, é de 270 miligramas — e numa mulher de 50 quilos é de 225, abaixo dos 240 do próprio esquema. A conta está no bloco de critérios; a consequência prática é simples: quem usa a concentração de 2% precisa calcular o volume pelo peso, e quem usa a de 1% tem margem folgada em qualquer das faixas.
Quem coloca, onde coloca e o que precisa estar escrito
Colocar e retirar dispositivo intrauterino e implante são atos que médicos e enfermeiros devidamente habilitados podem praticar, e essa é a posição expressa do Ministério da Saúde, apoiada na regulamentação da própria categoria de enfermagem. O argumento é de acesso e está escrito: a literatura invocada não mostra diferença de desempenho entre enfermeiros e médicos nas inserções habituais, inclusive as feitas após o parto e o abortamento, e a proporção de enfermeiros no país é cerca de três vezes a média internacional.
O serviço que coloca precisa de duas coisas além do insumo e da pessoa. A primeira é registro de consentimento livre e esclarecido, com modelo publicado pelo próprio Ministério da Saúde, entregue em via à mulher; os itens do modelo são a lista mínima do que se conversou, e incluem a duração, a probabilidade de falha, a probabilidade de complicação e onde procurar atendimento se ela ocorrer. A segunda é retaguarda: o estabelecimento que insere deve oferecer atendimento a intercorrências ou estar vinculado a um serviço que o faça, com acesso de urgência garantido todos os dias.
O registro do procedimento tem código próprio na tabela nacional, tanto para inserção quanto para retirada, e separado por método. Isso não é detalhe administrativo neste capítulo: o número de inserções registradas é o que sustenta a reposição do insumo e o que revela, num serviço, se a oferta está acontecendo ou apenas constando. No caso do implante, a norma exige ainda que o número de dispensações e o de inserções batam, que a inserção aconteça na própria unidade, e que se entregue à mulher um cartão com data de inserção, data-limite de retirada, lote e braço utilizado.
Quando o serviço não tem quem insira, o encaminhamento com data é oferta; a omissão não é. Vale dizer isso com todas as letras porque é o ponto em que a maior parte das mulheres se perde, e porque o intervalo entre a decisão e o procedimento é justamente o período desprotegido. Nesse intervalo, entregar preservativo e explicar a anticoncepção de emergência é parte da conduta, não cortesia.
Duas informações fecham o bloco e mudam o que se diz na porta. A lista nacional de medicamentos essenciais de 2024 traz, entre os insumos do componente básico, apenas o dispositivo intrauterino de cobre, no modelo T de 380 milímetros quadrados; nem o implante de etonogestrel nem o sistema intrauterino com levonorgestrel constam dela, conferido por busca exata sobre o texto normalizado em quatro cópias espelhadas. O implante passou a ser distribuído por incorporação posterior, de julho de 2025, e o dispositivo hormonal segue sem oferta nacional para contracepção, ainda que possa existir em relação municipal. Indicar o que a rede não distribui produz o mesmo resultado prático de não indicar coisa alguma, com aparência melhor.
Fluxos e tabelas
A tabela principal é a régua deste capítulo: condição, categoria de cada um dos três métodos e o que a categoria manda fazer. Ela não é a mesma dos métodos com estrogênio — várias condições que fecham a porta lá são categoria 1 aqui, e é justamente isso que faz destes métodos a saída de quem não pode usar estrogênio. As tabelas seguintes respondem as outras três perguntas da consulta: quando se pode colocar e se é preciso proteção nos primeiros dias; quanto cada método falha, quanto dura e como sangra; e as conversões que decidem na sala de inserção.
- 1Descubra em qual dos três encontros você está: alguém pediu o método, alguém precisa que ele seja oferecido, ou alguém quer tirar. Na retirada, a pergunta obrigatória é o que entra no lugar, hoje.
- 2Pergunte o que ela quer do método além de não engravidar: não depender de memória, não depender de negociação, sangrar menos, sangrar de forma previsível, não usar hormônio, poder engravidar em breve. Cada uma dessas respostas elimina ou elege um dos três.
- 3Diga a eficácia dos três em linguagem de contagem, com o comprimido ao lado para comparação, e diga a duração de cada um. Quem não ouviu o número não escolheu.
- 4Pergunte pelas condições que realmente restringem: gravidez, sangramento vaginal inexplicado ainda não avaliado, infecção genital em curso, doença inflamatória pélvica atual, parto ou abortamento recente e com que intervalo, malformação uterina ou mioma conhecido que deforme a cavidade, câncer de mama, doença trofoblástica em seguimento.
- 5Se a escolha for intrauterina, faça o exame pélvico e genital e estime o risco de infecção sexualmente transmissível a partir da história e do exame físico. Só esses dois a régua chama de essenciais, e ambos acontecem nesta consulta.
- 6Estabeleça certeza razoável de que ela não está grávida por um dos seis critérios; não havendo nenhum, ofereça teste rápido de gravidez na própria unidade.
- 7Leia a categoria na tabela, para o método escolhido, e separe iniciar de continuar. Categoria 1 ou 2: colocar. Categoria 3: não colocar, salvo sem alternativa disponível ou aceitável, com seguimento próximo. Categoria 4: não colocar.
- 8Antes de colocar, converse sobre a dor: diga que pode doer, ofereça anti-inflamatório não esteroidal e, onde houver anestésico local e profissional treinado, ofereça bloqueio paracervical ou anestésico tópico. Não adie a colocação por falta desses recursos.
- 9Não prescreva misoprostol de rotina para facilitar a colocação, e não prescreva antibiótico profilático de rotina. A profilaxia antibiótica cabe em serviço com alta prevalência de infecção cervical e pouca capacidade de rastreio, e na valvopatia complicada há divergência documentada, exposta adiante.
- 10Diga o padrão de sangramento esperado do método escolhido, com a faixa numérica, antes de colocar. É a intervenção que mais evita retirada precoce.
- 11Registre no prontuário o que foi feito, com o código do procedimento, e entregue o que é dela: via do termo de consentimento e, no caso do implante, cartão com data de inserção, data-limite de retirada, lote e braço. No dispositivo intrauterino, anote o comprimento em que o fio foi cortado.
- 12Ensine o autoexame do fio e o que fazer se ele sumir ou mudar de tamanho, e ensine os sinais que fazem voltar antes da data: febre, dor pélvica que não passa, corrimento com odor, sangramento muito intenso, atraso menstrual.
- 13Marque o retorno: primeira revisão após a primeira menstruação ou entre três e seis semanas da colocação intrauterina, e contato precoce no implante, para a conversa sobre sangramento antes que ela decida sozinha.
- 14Ofereça dupla proteção e diga por quê: nenhum dos três protege contra infecção sexualmente transmissível, e o preservativo é o único que protege dos dois lados.
- 15Se o serviço não insere, encaminhe com data escrita, entregue preservativos para o intervalo e explique a anticoncepção de emergência. Encaminhamento com data é oferta; encaminhamento sem data é recusa com outro nome.
| Condição | DIU de cobre | DIU com levonorgestrel | Implante de etonogestrel | O que a categoria manda fazer |
|---|---|---|---|---|
| Da menarca aos 19 anos | 2 | 2 | 1 | Colocar; a idade não restringe, e é a faixa em que a diferença de eficácia mais pesa |
| 20 anos ou mais | 1 | 1 | 1 | Colocar sem restrição por esse motivo |
| Nunca engravidou (nuliparidade) | 2 | 2 | 1 | Colocar; a régua registra que a diferença por paridade pode não ter significado clínico |
| Gravidez confirmada | 4 | 4 | Não se aplica | Não colocar dispositivo; no implante não há dano conhecido em uso acidental |
| Pós-parto, até 48 horas, inclusive pós-placentária e na cesariana | 1 | 2 se amamenta, 1 se não amamenta | 1 | Colocar; é a janela de maior aproveitamento, com risco maior de expulsão e sem aumento de perfuração ou infecção |
| Pós-parto, de 48 horas a menos de 4 semanas | 3 | 3 | 1 | Não colocar dispositivo nessa janela, pelo risco de expulsão; o implante permanece disponível |
| Pós-parto, 4 semanas ou mais | 1 | 1 | 1 | Colocar |
| Sepse puerperal | 4 | 4 | 1 | Não colocar dispositivo; a colocação pode piorar substancialmente a condição |
| Amamentando, menos de 6 semanas de pós-parto | 1 | 2 | 2 | Todos disponíveis; nenhum tem efeito consistente demonstrado sobre lactação ou crescimento do lactente |
| Pós-abortamento de 1.º trimestre / de 2.º trimestre | 1 / 2 | 1 / 2 | 1 / 1 | Colocar imediatamente; no 2.º trimestre o risco de expulsão é maior |
| Pós-abortamento infectado, imediato | 4 | 4 | 1 | Não colocar dispositivo; a colocação pode piorar substancialmente a condição |
| Doença inflamatória pélvica atual | 4 para iniciar, 2 para continuar | 4 para iniciar, 2 para continuar | 1 | Não colocar hoje; em quem já usa, tratar com antibiótico e, em geral, manter o dispositivo se ela quiser continuar |
| Cervicite purulenta, clamídia ou gonorreia atual | 4 para iniciar, 2 para continuar | 4 para iniciar, 2 para continuar | 1 | Tratar antes de colocar; em quem já usa, tratar sem retirar de rotina |
| Risco aumentado de infecção sexualmente transmissível | 2 ou 3 para iniciar, 2 para continuar | 2 ou 3 para iniciar, 2 para continuar | 1 | Julgamento clínico: muitas podem colocar; probabilidade individual muito alta pede testar e tratar antes |
| Doença inflamatória pélvica prévia, com gestação posterior / sem gestação posterior | 1 / 2 | 1 / 2 | 1 / 1 | Colocar |
| Vaginose bacteriana, tricomoníase, candidíase | 2 | 2 | 1 | Tratar; não é motivo para retirar nem para adiar |
| Alto risco de infecção pelo HIV / doença assintomática ou leve | 1 / 2 | 1 / 2 | 1 / 1 | Colocar; a terapia antirretroviral não interage com o dispositivo |
| Doença clínica grave ou avançada pelo HIV | 3 para iniciar, 2 para continuar | 3 para iniciar, 2 para continuar | 1 | Não colocar dispositivo enquanto grave; em quem já usa, manter com vigilância para infecção pélvica |
| Tuberculose pélvica | 4 para iniciar, 3 para continuar | 4 para iniciar, 3 para continuar | 1 | Não colocar dispositivo; a colocação pode piorar substancialmente a condição |
| Cavidade uterina distorcida por malformação ou por mioma submucoso | 4 | 4 | 1 | Não colocar dispositivo; a colocação e o posicionamento correto podem ser impossíveis |
| Mioma sem distorção da cavidade | 1 | 1 | 1 | Colocar |
| Estenose cervical ou laceração de colo, sem distorção da cavidade | 2 | 2 | 1 | Colocar, com preparo e analgesia |
| Sangramento vaginal inexplicado suspeito de condição séria, antes da avaliação | 4 para iniciar, 2 para continuar | 4 para iniciar, 2 para continuar | 3 | Avaliar antes de colocar; em quem já usa o dispositivo, não é preciso retirar antes da avaliação |
| Padrão irregular sem sangramento intenso / sangramento intenso ou prolongado | 1 / 2 | 1 / 1 para iniciar e 2 para continuar | 2 / 2 | Colocar; sangramento inesperadamente intenso levanta suspeita de condição subjacente |
| Dismenorreia intensa | 2 | 1 | 1 | O cobre pode intensificar a cólica; o hormonal costuma reduzi-la |
| Anemia ferropriva, talassemia ou doença falciforme | 2 | 1 | 1 | Colocar; no cobre há preocupação com aumento da perda sanguínea |
| Enxaqueca com aura, qualquer idade | 1 | 2 para iniciar, 3 para continuar | 2 para iniciar, 3 para continuar | O cobre não tem restrição; é a alternativa direta de quem perdeu o estrogênio |
| Trombose venosa profunda ou embolia pulmonar em atividade / história prévia | 1 / 1 | 3 / 2 | 3 / 2 | O cobre permanece sem restrição; na anticoagulada, a colocação do hormonal não representa risco maior de sangramento |
| Mutação trombogênica conhecida | 1 | 2 | 2 | Colocar; rastreamento de rotina não é apropriado |
| Pressão sistólica 140–159 ou diastólica 90–99 mmHg | 1 | 1 | 1 | Colocar; a medida de pressão não é materialmente relacionada ao uso seguro do dispositivo |
| Pressão sistólica ≥ 160 ou diastólica ≥ 100 mmHg, ou doença vascular | 1 | 2 | 2 | Colocar; o cobre não tem restrição em nenhuma faixa |
| Cardiopatia isquêmica ou acidente vascular cerebral, atual ou passado | 1 | 2 para iniciar, 3 para continuar | 2 para iniciar, 3 para continuar | O cobre não tem restrição |
| Valvopatia complicada | 2 | 2 | 1 | Colocar; há divergência documentada sobre antibiótico profilático — ver divergências |
| Lúpus com anticorpo antifosfolípide positivo ou desconhecido | 1 | 1 para iniciar, 3 para continuar | 3 | O cobre não tem restrição |
| Diabetes com nefropatia, retinopatia, neuropatia ou mais de 20 anos de doença | 1 | 2 | 2 | Colocar |
| Câncer de mama atual / passado sem doença por 5 anos | 1 / 1 | 4 / 3 | 4 / 3 | O cobre é a opção sem restrição |
| Câncer de colo aguardando tratamento / neoplasia intraepitelial cervical | 4 para iniciar e 2 para continuar / 1 | 4 para iniciar e 2 para continuar / 2 | 2 / 2 | No câncer aguardando tratamento, não colocar; em quem já usa, manter até o tratamento, porque até lá ela está exposta |
| Câncer de endométrio aguardando tratamento | 4 para iniciar, 2 para continuar | 4 para iniciar, 2 para continuar | 1 | Não colocar dispositivo; manter em quem já usa até o tratamento |
| Câncer de ovário | 3 para iniciar, 2 para continuar | 3 para iniciar, 2 para continuar | 1 | Preferir outro método enquanto aguarda tratamento |
| Doença trofoblástica com hormônio caindo ou indetectável / em platô, em ascensão ou maligna | 3 / 4 | 3 / 4 | 1 / 1 | A linha de cuidado nacional proíbe o dispositivo em todo o seguimento — ver divergências |
| Uso de anticonvulsivante indutor enzimático ou de rifampicina | 1 | 1 | 2 | Nos dispositivos não há perda de eficácia; no implante o indutor enzimático é motivo para preferir outro método |
| Cirrose descompensada, adenoma hepatocelular ou hepatoma | 1 | 3 | 3 | O cobre é a opção sem restrição |
| Obesidade, inclusive da menarca aos 18 anos | 1 | 1 | 1 | Colocar sem restrição por esse motivo |
| Tabagismo em qualquer idade e em qualquer quantidade | 1 | 1 | 1 | Colocar; é a diferença mais útil em relação aos métodos com estrogênio |
Quando colocar, e o que muda entre os três
| Situação | DIU de cobre | DIU com levonorgestrel | Implante de etonogestrel |
|---|---|---|---|
| Mulher com ciclos, dentro da janela inicial do sangramento | Até 12 dias do início: colocar, sem proteção adicional | Até 7 dias do início: colocar, sem proteção adicional | Até 7 dias do início: inserir, sem proteção adicional |
| Mulher com ciclos, fora da janela inicial | Colocar com certeza razoável de não gravidez; sem proteção adicional | Colocar com certeza razoável de não gravidez; 7 dias de preservativo ou abstinência | Inserir com certeza razoável de não gravidez; 7 dias de preservativo ou abstinência |
| Mulher amenorreica, fora do pós-parto | A qualquer momento, determinada a ausência de gravidez; sem proteção adicional | A qualquer momento, determinada a ausência de gravidez; 7 dias de proteção | A qualquer momento, com certeza razoável de não gravidez; 7 dias de proteção |
| Nas primeiras 48 horas do parto, inclusive após a saída da placenta e na cesariana | Colocar; expulsão menor quando feita nos primeiros 10 minutos e na cesariana | Colocar; mesma janela e mesma vantagem de momento | Inserir; sem restrição por esse motivo |
| De 48 horas a menos de 4 semanas de pós-parto | Não colocar, salvo sem alternativa | Não colocar, salvo sem alternativa | Inserir; é o método que cobre a janela fechada dos dispositivos |
| Puérpera que não amamenta, antes de 21 dias | Ver janelas acima | Ver janelas acima | Inserir sem proteção adicional; a ovulação nesse período é muito improvável |
| Logo após abortamento de 1.º trimestre | Colocar imediatamente | Colocar imediatamente | Inserir imediatamente, sem proteção adicional |
| Logo após abortamento infectado | Não colocar | Não colocar | Inserir; não há restrição |
| Troca a partir de método hormonal usado corretamente | Imediata, sem esperar menstruação, sem proteção adicional | Imediata; proteção conforme o dia do ciclo | Imediata, sem esperar menstruação |
| Depois de relação desprotegida, como anticoncepção de emergência | Até 5 dias da relação; ou além disso, se a ovulação puder ser estimada, desde que não passem 5 dias dela | Não recomendado para essa finalidade, por falta de dado robusto | Não se aplica |
| Depois de tomar levonorgestrel de emergência | Colocar imediatamente, afastada a gravidez | Aguardar a certeza de que não engravidou | Iniciar imediatamente, afastada a gravidez |
Falha, duração e padrão de sangramento: o que dizer antes de colocar
| Método | Falha em uso perfeito e em uso típico, por 100 mulheres no 1.º ano | Duração autorizada | Padrão de sangramento esperado | A frase que evita a retirada precoce |
|---|---|---|---|---|
| Implante de etonogestrel 68 mg | 0,1 e 0,1 | 3 anos pela bula brasileira; o protocolo nacional de anticoncepção após o parto atribui 5 anos | Imprevisível: em 12 meses, cerca de 4 em cada 5 reduzem o número de episódios, e algumas deixam de sangrar; cerca de 1 em cada 5 sangra mais vezes por mês ou por mais dias | Uma em cada cinco vai sangrar mais vezes ou por mais dias, e isso não é falha — é a faixa esperada, e vale a pena decidir agora o que fazer se acontecer com você |
| DIU com levonorgestrel 52 mg | 0,3 e 0,4 | 8 anos para contracepção pela bula brasileira atual; 5 anos quando usado para tratar sangramento | Manchas irregulares nos primeiros meses; depois fluxo escasso e, com frequência, ausência de menstruação | Você provavelmente vai menstruar muito pouco ou parar de menstruar, e isso não faz mal nem acumula nada — só quero saber se você aceita bem essa ideia |
| DIU de cobre TCu 380 A | 0,6 e 0,8 | 10 anos pelo manual técnico federal | Fluxo mais volumoso e cólicas mais fortes, sobretudo nos 3 primeiros meses; manchas e sangramento leve comuns nos 3 a 6 primeiros meses | Nos primeiros meses a menstruação costuma vir mais forte e com mais cólica, e depois melhora na maioria; se incomodar, tem remédio para os dias de sangramento |
| Comprimido combinado, para comparação | 0,3 e 7 | Enquanto for elegível | Escape nos primeiros ciclos, decrescente | Do jeito que as pessoas usam de verdade, 7 em cada 100 engravidam em um ano |
| Injetável trimestral, para comparação | 0,2 e 4 | Enquanto for elegível, com retorno a cada 3 meses | Sangramento irregular e, com o tempo, ausência de menstruação | Depende de voltar na data, e pode atrasar em até um ano a volta da ovulação depois que parar |
| Laqueadura tubária, para comparação | 0,5 e 0,5 | Definitiva | Sem mudança | Exige mais de 21 anos ou dois filhos vivos e 60 dias entre a manifestação de vontade e a cirurgia |
Conversões que decidem: carga hormonal, liberação e o que se prescreve na sala de inserção
| Item | A conta | O que ela decide |
|---|---|---|
| Implante de etonogestrel: carga liberada em 3 anos | Taxas da bula (cerca de 65 µg/dia caindo a 40 no 1.º ano, 40 a 35 no 2.º e 35 a 27,5 no 3.º) integradas ano a ano: 19,2 + 13,7 + 11,4 = 44,3 mg dos 68 mg carregados | Restam cerca de 24 mg, ou 35% da carga, no bastão retirado. É a razão física de a extensão de prazo ser plausível — não é prova de eficácia, que vem de ensaio e de decisão sanitária |
| DIU com levonorgestrel: por que a taxa nominal não pode ser constante | 20 µg/dia × 365 × 8 anos = 58,4 mg, contra os 52 mg carregados; a 20 µg/dia constantes, 52 mg acabariam em 7,1 anos | A liberação cai ao longo do uso. Quem calcular tempo de troca dividindo carga por taxa erra nos dois dispositivos, e em direções opostas |
| DIU de cobre TCu 380 A: de onde vem o número do nome | 314 mm² na haste vertical + 33 mm² em cada um dos dois braços = 380 mm² | O nome do dispositivo é a área de cobre exposta. A descrição do manual técnico federal, lida ao pé da letra, soma 446 mm² — ver notas |
| Lidocaína a 1% para bloqueio paracervical, mulher de 60 kg | 10 mg/mL; 10 a 20 mL = 100 a 200 mg; teto de 4,5 mg/kg = 270 mg | Toda a faixa dos ensaios cabe com folga: entre 37% e 74% do teto |
| Lidocaína a 2% para bloqueio paracervical | 20 mg/mL; 12 mL = 240 mg. Teto de 4,5 mg/kg: 270 mg aos 60 kg, 225 mg aos 50 kg | Aos 50 kg, 12 mL a 2% já passam do teto. Na concentração de 2%, o volume precisa ser calculado pelo peso |
| Anti-inflamatório antes da colocação | Ibuprofeno 600 mg = 1 comprimido; naproxeno 500 mg = 1 comprimido; cetorolaco 30 mg = 1 ampola de 1 mL | Dose única por via oral cerca de uma hora antes; efeito pequeno a moderado sobre a dor, sem aumento de efeitos adversos |
| Misoprostol, quando excepcionalmente indicado após falha de colocação | 400 µg = 2 comprimidos de 200 µg, por via vaginal, divididos em 200 µg 10 horas antes e 200 µg 4 horas antes | Uso seletivo, não de rotina: de rotina não reduz dor nem melhora o sucesso, e pode aumentar cólica e diarreia |
| Levonorgestrel de emergência, quando o intervalo até a inserção ficar desprotegido | 1,5 mg = 1 comprimido de 1,5 mg ou 2 comprimidos de 0,75 mg | Cobre o intervalo entre a decisão e o procedimento; o esquema e os prazos pertencem ao capítulo de contracepção hormonal combinada |
Qual régua o Brasil usa, e desde quando. Para elegibilidade e para prática de uso, a régua deste capítulo é a da Organização Mundial da Saúde: a 6.ª edição dos critérios médicos de elegibilidade e a 4.ª edição das recomendações práticas selecionadas, ambas de 2025. Nenhum documento brasileiro em uso adota essa edição. O protocolo de atenção básica de 2016 reproduz as tabelas de 2009 e 2010 e não tem coluna para o dispositivo com levonorgestrel nem para o implante — dois dos três métodos deste capítulo, um deles hoje distribuído pela rede pública. A nota técnica federal de 2025 que organiza a oferta do implante não cita edição nenhuma dos critérios de elegibilidade em suas referências. O protocolo de anticoncepção de emergência da federação brasileira, publicado em 2026, cita a 5.ª edição, de 2015, e a 3.ª das recomendações práticas, de 2016; o protocolo de anticoncepção após o parto, publicado meses depois pela mesma comissão, cita as edições de 2025. Onde há diferença, este capítulo aplica a edição de 2025.
O que a régua de 2025 diz sobre o implante que o Brasil tem. As recomendações práticas de 2025 abrem a seção de implantes declarando que se baseiam no implante de levonorgestrel de dois bastões e que não se sabe em que medida se aplicam aos implantes de etonogestrel. A seção de duração de uso é intitulada para implantes liberadores de levonorgestrel, dá regra por peso corporal apenas para eles, e sobre o etonogestrel limita-se a registrar o que a bula do produto diz. O implante que o Brasil incorporou é justamente o de etonogestrel. Isso não é motivo para deixar de oferecê-lo — a régua de elegibilidade trata os dois juntos, numa coluna só —, mas é a razão pela qual as regras de manejo do implante no Brasil vêm da bula e das notas do Ministério da Saúde, e não da recomendação internacional de prática.
Falha do dispositivo de cobre: quatro números oficiais para o mesmo dispositivo. A régua de 2025 traz 0,6 por 100 mulheres no primeiro ano em uso perfeito, 0,8 em uso típico nos Estados Unidos e 1,0 em uso típico em inquéritos populacionais internacionais. O protocolo de atenção básica de 2016 traz exatamente 0,6 e 0,8, e fecha. O manual técnico federal de 2018 traz taxas inferiores a 0,4%, ou 4 em cada mil, no primeiro ano. E a nota técnica conjunta de 2025 traz 0,2% ao ano. Entre 0,2 e 0,8 há um fator de quatro; entre 0,2 e o número internacional, de cinco. O valor de 0,2 é o que a literatura clássica atribui ao dispositivo com levonorgestrel, não ao de cobre — e o documento nacional mais recente é, nesse ponto, o mais distante da régua vigente.
A frase que a conta desmonta. A mesma nota técnica de 2025 conclui, a partir dos seus números, que os métodos de longa duração são mais eficazes que a laqueadura, cuja falha ela dá como 0,3% a 1%. Com o implante, a conclusão se sustenta: 0,1 contra 0,5 da cirurgia de tuba na régua de 2025, cinco vezes melhor. Com o dispositivo de cobre, ela se inverte: 0,8 em uso típico contra 0,5 é 1,6 vez pior, e não melhor. A conclusão só aparece porque o número usado para o cobre é 0,2. Isso importa numa consulta concreta: a mulher que hesita entre laqueadura e dispositivo de cobre precisa saber que, em eficácia, os dois são próximos, e que a diferença que decide não é essa — é reversibilidade, cirurgia e prazo legal.
Duração autorizada: três dispositivos, três divergências, e todas mudam o dia da troca. O implante de etonogestrel tem três anos na bula brasileira e cinco anos no protocolo brasileiro de anticoncepção após o parto publicado em 2026, que segue a extensão de prazo aprovada por agência estrangeira; a régua internacional de 2025 registra três anos, citando a bula. O sistema com levonorgestrel de 52 mg passou de cinco para oito anos de eficácia contraceptiva na bula brasileira, com a ressalva expressa de que continua sendo cinco anos quando a indicação é tratar sangramento uterino, adenomiose ou endometriose — a mesma mulher, o mesmo dispositivo, dois prazos conforme o motivo. E o dispositivo de cobre tem dez anos no manual técnico federal e doze anos no manual e no protocolo de anticoncepção de emergência da federação brasileira. Diante de uma usuária que chega no ano quatro do implante, no ano seis do hormonal ou no ano onze do de cobre, a resposta depende do documento que se abre.
A área de cobre que dá nome ao dispositivo. O manual técnico federal descreve o dispositivo como revestido com 314 mm² de cobre na haste vertical e dois anéis de 33 mm² de cobre em cada haste horizontal. Somando ao pé da letra: 314 mais dois anéis de 33 em cada um dos dois braços dá 446 mm², e o dispositivo se chama 380. A construção que fecha é 314 na haste mais um anel de 33 em cada braço, que dá exatamente 380 — e é essa a leitura correta, porque o número do nome é a área de cobre exposta. É erro de redação, não de dispositivo, mas é o tipo de frase que um interno copia para a prova e para o prontuário.
As duas cifras do mesmo manual, e a ficha que saiu incompleta. Na seção de efetividade, o manual técnico federal do dispositivo de cobre afirma taxas de gravidez inferiores a 0,4% no primeiro ano; catorze páginas depois, na seção que esclarece mitos, afirma que a efetividade é de 99,3%, o que corresponde a 0,7% de falha. As duas cifras estão no mesmo documento de 32 páginas, e diferem por um fator de 1,75. Vale registrar, junto, o estado de publicação da obra: a ficha catalográfica saiu sem número de ISBN, com o campo de título para indexação e o de normalização preenchidos por marcadores de espaço, e com um código de catalogação que é o de doença infecciosa por retrovírus — a lista nacional de medicamentos, para comparação, traz o código de farmacologia, e o protocolo de atenção básica traz o de saúde pública. A tiragem declarada é de 200 mil exemplares.
Sete dias de preservativo depois de colocar o dispositivo de cobre. O manual técnico federal orienta que a usuária use preservativo ou outro método contraceptivo durante sete dias após a colocação, chamando esse intervalo de período de adaptação do organismo. A régua internacional de prática, tanto na edição de 2016 quanto na de 2025, afirma o contrário nas duas situações possíveis: colocado até doze dias do início do sangramento, não é preciso proteção adicional; colocado depois disso, também não é. O cobre age sobre os gametas desde a colocação, e é exatamente por isso que ele serve como anticoncepção de emergência até cinco dias depois da relação. A orientação nacional não é perigosa — sete dias de preservativo não fazem mal —, mas ensina que o método demora a funcionar, e é dessa ideia que nascem a desconfiança e o abandono.
Expulsão: um acumulado que não pode ser menor que a sua primeira parcela. O manual de anticoncepção da federação brasileira afirma, na mesma página, que a expulsão ocorre em 2% a 10% das usuárias no primeiro ano e que o índice cumulativo em cinco anos para o dispositivo de cobre é de 6,7%. Um acumulado de cinco anos não pode ser menor que a taxa do primeiro ano, e 6,7 é menor que 10: as duas frases não podem ser verdadeiras ao mesmo tempo. O número federal é compatível com o acumulado — o manual técnico do Ministério da Saúde dá até 4% a 5% no primeiro ano, o que cabe dentro de 6,7% em cinco anos. Na conversa com a mulher, a ordem de grandeza que se sustenta é a de poucas em cada cem no primeiro ano, com risco maior em quem já expulsou um dispositivo antes.
Um prazo, duas respostas, quatro páginas. O protocolo brasileiro de anticoncepção de emergência afirma, entre os destaques da primeira página, que a evidência sugere que o levonorgestrel é ineficaz depois de 96 horas da relação desprotegida; na introdução e no quadro de doses do mesmo protocolo, o prazo é de até 120 horas, com menor eficácia. Vinte e quatro horas de diferença, ou 25% de janela a mais, no mesmo documento de quatro páginas. Uma coisa sobrevive às duas leituras e é o que interessa aqui: o prazo do dispositivo de cobre: até cinco dias da relação, ou além disso quando a data da ovulação puder ser estimada, desde que não passem cinco dias dela.
Contraindicações do manual federal que a régua gradua em categoria 3. O manual técnico do dispositivo de cobre lista como impedimento de inserção a doença pelo HIV em estágios clínicos 3 e 4, o câncer de colo do útero, e desaconselha o método em mulheres anticoaguladas ou com distúrbio de coagulação. A régua de 2025 gradua as três de outro modo: doença clínica grave ou avançada pelo HIV é categoria 3 para iniciar e 2 para continuar; câncer de colo aguardando tratamento é 4 para iniciar e 2 para continuar; e trombose em uso de anticoagulante é categoria 1 para o dispositivo de cobre, com a observação de que o hormonal pode ser útil no sangramento aumentado dessas mulheres. A diferença entre 3 e 4 não é acadêmica: é a diferença entre não usar salvo se não houver alternativa, e não usar de jeito nenhum.
A conversão que estoura o teto no bloqueio paracervical. Os ensaios reunidos pela régua de prática usaram lidocaína a 1% em 10 a 20 mililitros ou a 2% em 10 a 12 mililitros. A 2%, cada mililitro tem 20 miligramas, de modo que 12 mililitros são 240 miligramas. O teto usual de lidocaína sem vasoconstritor, de 4,5 miligramas por quilo, dá 270 miligramas numa mulher de 60 quilos e 225 numa de 50 — abaixo, portanto, dos 240 miligramas do próprio esquema. A 1%, toda a faixa cabe com folga, entre 37% e 74% do teto numa mulher de 60 quilos. Quem padronizar o bloqueio na concentração de 2% precisa calcular o volume pelo peso; quem padronizar a 1% não precisa.
As conferências que fecharam, e que dizem tanto quanto as que falharam. A extensão do dispositivo com levonorgestrel de cinco para oito anos apoia-se em 2 gestações em 10.216 ciclos de exposição nos anos 6 a 8: 10.216 ciclos correspondem a cerca de 786 mulheres-ano, o que dá 0,25 gestação por 100 mulheres-ano; mantida constante por três anos, a taxa acumulada seria de 0,76%, contra os 0,68% publicados — diferença compatível com o cálculo por tábua de vida, e a conta fecha. A área de cobre de 380 mm² fecha na construção correta. As duas edições de 2025 da régua concordam sobre o que mudou na amamentação: a de prática registra que apenas o injetável de depósito passou de categoria 3 para 2 em lactante com menos de seis semanas e que todo o resto foi mantido, o que é consistente com a tabela de mudanças da edição de elegibilidade, que imprime a linha inteira mesmo quando só uma célula mudou. E a busca exata sobre o texto normalizado das quatro cópias espelhadas da lista nacional de medicamentos essenciais de 2024, idênticas depois de normalizar espaço e hifenização, retorna duas ocorrências de dispositivo intrauterino e nenhuma de etonogestrel, implante subdérmico ou sistema intrauterino: o dispositivo de cobre está lá, os outros dois métodos deste capítulo não.
A conduta, hora a hora
Confirmar preferência, elegibilidade e possibilidade de excluir gravidez com segurança. Teste negativo isolado não afasta concepção muito recente. Se elegível, realizar o procedimento com profissional habilitado e orientar proteção adicional quando indicada para o método. Se for preciso adiar, oferecer cobertura provisória e retorno definido; não transformar o adiamento em perda de acesso.
Duas frases organizam a sequência. Uma: quem escolhe é ela, e quem atende informa, confere a régua e garante o acesso. Outra: aqui a decisão e o procedimento cabem na mesma consulta — e cada vez que eles se separam em duas datas, uma parte das mulheres se perde no meio.
Antes de qualquer coisa — a oferta, com números e com duração
Quem não ouviu falar não escolheu. Apresentar os três métodos de longa duração faz parte da conduta, inclusive a quem veio pedir outra coisa, e é obrigação escrita em norma: ofertar todos os métodos disponíveis, com informação sobre mecanismo, duração, uso, eventos adversos, sinais de alarme e direito de parar.
Prescrição- Dizer a eficácia em linguagem de contagem: em 100 mulheres que usam o comprimido por um ano, 7 engravidam; com o dispositivo de cobre, menos de 1; com o dispositivo hormonal, menos de 1; com o implante, cerca de 1 em cada 1.000 (critérios médicos de elegibilidade da OMS, 6. ed., 2025, Tabela 1.1).
- Dizer a duração de cada um, com a fonte do prazo: dez anos no dispositivo de cobre pelo manual técnico federal; oito anos de contracepção no dispositivo com levonorgestrel pela bula brasileira atual; três anos no implante pela bula brasileira, com registro de que o protocolo brasileiro de anticoncepção após o parto atribui cinco.
- Dizer o padrão de sangramento esperado de cada um antes de ela escolher, com a faixa numérica do implante — cerca de 80% com menos episódios em até 12 meses e cerca de 20% com sangramento mais frequente ou prolongado (Nota Técnica Conjunta nº 419/2025).
- Perguntar o que ela quer do método além de não engravidar: não depender de memória, sangrar menos, sangrar de forma previsível, não usar hormônio, engravidar em breve, ter sigilo. É essa resposta, e não a preferência de quem atende, que separa os três.
- Nomear o que a unidade tem hoje, e não o que existe no livro. A lista nacional de 2024 traz apenas o dispositivo de cobre entre os métodos deste capítulo; o implante entrou por incorporação de julho de 2025; o dispositivo hormonal pode existir por relação municipal e precisa ser conferido no próprio serviço (Rename 2024; Nota Técnica Conjunta nº 419/2025).
A conferência da régua — cinco perguntas e um exame
É curta e cabe na mesma consulta. Aqui se decide se o método escolhido é elegível hoje, e a maior parte das recusas deste capítulo cai justamente por não ter sido feita.
Prescrição- Perguntar por gravidez possível, por parto ou abortamento recente e há quanto tempo, por amamentação, por sangramento vaginal fora do padrão e por infecção genital em curso ou tratada recentemente (critérios médicos de elegibilidade da OMS, 6. ed., 2025).
- Perguntar pelas condições que restringem o hormônio: câncer de mama atual ou passado, doença hepática grave, trombose em atividade, lúpus com anticorpo antifosfolípide, uso de anticonvulsivante indutor enzimático ou de rifampicina — esta última relevante para o implante e irrelevante para os dois dispositivos (mesma fonte).
- Antes de colocar dispositivo intrauterino, fazer o exame pélvico e genital e estimar o risco de infecção sexualmente transmissível pela história e pelo exame físico. São os dois únicos itens classificados como essenciais e obrigatórios (recomendações práticas selecionadas da OMS, 4. ed., 2025, Tabela 5.1).
- Não solicitar citologia oncótica, exames de rotina, exame das mamas nem medida de pressão como condição para colocar: os quatro estão classificados como não contribuindo substancialmente para o uso seguro e efetivo do dispositivo (mesma fonte). Para o implante, a norma nacional dispensa exames prévios, salvo situação excepcional (Nota Técnica Conjunta nº 419/2025).
- Estabelecer certeza razoável de ausência de gravidez por um dos seis critérios; não havendo nenhum, ofertar teste rápido de gravidez na própria unidade (recomendações práticas selecionadas da OMS, 4. ed., 2025; Nota Técnica Conjunta nº 419/2025).
A sala de inserção — o que se faz antes de tocar no colo
As recomendações sobre a dor da colocação são de 2025 e nasceram de um problema de acesso, não de conforto: o medo da dor afasta mulheres do método e a dificuldade percebida de colocar afasta profissionais de oferecê-lo, sobretudo em quem nunca engravidou.
Prescrição- Aconselhar sobre a possibilidade de dor, sobre riscos e benefícios, sobre as alternativas e sobre as opções de manejo da dor, e montar o plano com ela (recomendações práticas selecionadas da OMS, 4. ed., 2025).
- Anti-inflamatório não esteroidal por via oral em dose única cerca de uma hora antes: ibuprofeno 600 mg ou naproxeno 500 mg por via oral, ou cetorolaco 30 mg por via intramuscular. Pode ser oferecido de rotina (mesma fonte).
- Onde houver anestésico local e profissional treinado, oferecer bloqueio paracervical com lidocaína a 1%, 10 a 20 mL — 100 a 200 mg, dentro do teto de 4,5 mg/kg em adulto. Usando lidocaína a 2%, calcular o volume pelo peso, porque 12 mL já são 240 mg (mesma fonte; conversão conferida neste capítulo).
- Onde houver anestésico tópico, ele também pode ser oferecido de rotina. Não adiar nem negar a colocação por falta de anestésico ou de anti-inflamatório (mesma fonte).
- Não usar misoprostol de rotina: não reduz dor, não reduz eventos adversos, não facilita o procedimento e pode aumentar cólica e diarreia. Ele tem lugar seletivo apenas após tentativa de colocação frustrada, em 400 µg por via vaginal divididos em duas tomadas (mesma fonte).
- Não usar antibiótico profilático de rotina. A profilaxia cabe em serviço com alta prevalência de infecção cervical e pouca capacidade de rastreio; na valvopatia complicada há divergência documentada entre a régua internacional e o manual técnico federal, exposta no bloco de divergências (mesma fonte; critérios médicos de elegibilidade da OMS, 6. ed., 2025; Manual Técnico DIU com Cobre TCu 380A, MS, 2018).
- Fazer exame especular e toque bimanual antes de colocar, procurando conteúdo vaginal anormal, posição do útero e volume uterino. Útero muito ante ou retrovertido não diagnosticado é fator de risco reconhecido de perfuração (Manual Técnico DIU com Cobre TCu 380A, MS, 2018).
Colocar, e no mesmo ato registrar
O registro deste capítulo não é burocracia: é o que permite responder, anos depois, três perguntas que a mulher vai fazer — o que eu tenho, até quando vale, e o fio estava assim mesmo.
Prescrição- No dispositivo intrauterino, anotar no prontuário o comprimento em que o fio foi cortado em relação ao orifício externo do colo. É esse registro que transforma a consulta seguinte numa comparação, e não num exame de imagem (Manual Técnico DIU com Cobre TCu 380A, MS, 2018).
- No implante, registrar no prontuário o braço escolhido, o lote e a validade, e entregar à mulher o cartão com data de inserção, data-limite de retirada, lote e braço, assinado (Nota Técnica Conjunta nº 419/2025).
- Registrar o procedimento com o código próprio da tabela nacional, separado por método e por inserção ou retirada. O número de inserções registradas é o que sustenta a reposição do insumo (Nota Técnica Conjunta nº 419/2025; Nota Técnica nº 31/2023).
- Registrar o termo de consentimento livre e esclarecido, com entrega de uma via à mulher, conforme o modelo publicado pelo Ministério da Saúde (Nota Técnica nº 31/2023).
- Ensinar o autoexame do fio na própria consulta, pedindo que ela sinta o colo e identifique o fio, e explicar que fio ausente, fio mais longo do que era ou plástico palpável são motivo para voltar (Manual Técnico DIU com Cobre TCu 380A, MS, 2018).
- Entregar preservativos e dizer a frase da dupla proteção: nenhum dos três métodos protege contra infecção sexualmente transmissível (critérios médicos de elegibilidade da OMS, 6. ed., 2025).
O pós-parto e o pós-abortamento — a janela que fecha e reabre
É o único momento deste capítulo com desenho de tempo, e o desenho tem um vão no meio. A regra existe por expulsão, não por infecção nem por perfuração, e a decisão de aproveitar a internação é uma decisão sobre a probabilidade de a mulher voltar.
Prescrição- Colocar o dispositivo, de cobre ou hormonal, nas primeiras 48 horas do parto, de preferência nos primeiros 10 minutos depois da saída da placenta; na cesariana, após a dequitação e antes de fechar o útero. A expulsão é maior que na colocação tardia, e menor quando feita nos primeiros minutos e na via abdominal (Protocolo Febrasgo nº 106, 2026; critérios médicos de elegibilidade da OMS, 6. ed., 2025).
- Não colocar dispositivo entre 48 horas e quatro semanas de pós-parto, salvo se não houver alternativa disponível ou aceitável. Nesse vão, o implante é a oferta que existe, e ele não tem restrição de janela (mesmas fontes).
- Não colocar dispositivo em sepse puerperal nem imediatamente após abortamento infectado. Nas duas situações, a colocação pode piorar substancialmente a condição (critérios médicos de elegibilidade da OMS, 6. ed., 2025).
- Colocar imediatamente após abortamento de primeiro trimestre; após o de segundo trimestre, em geral se pode colocar, com risco maior de expulsão (mesma fonte).
- Marcar revisão depois da colocação pós-parto, para conferir se houve expulsão e para encurtar o fio, que fica longo com a involução uterina (Protocolo Febrasgo nº 106, 2026).
- Avisar sobre o risco de perfuração durante a lactação, que é maior que no intervalo: cerca de 4,5 por mil inserções contra 0,4 a 1,4 por mil fora do puerpério — de três a onze vezes, conforme o extremo da faixa que se compare. Isso não contraindica; muda quem coloca e com que cuidado (mesma fonte).
- Não adiar a conversa para depois da alta. O retorno pós-parto é o que mais falha, e a contracepção depois do parto não tem capítulo próprio neste nível: a parte de longa duração é assumida aqui, e o restante segue os capítulos de contracepção hormonal combinada e de assistência ao trabalho de parto.
Sumiu o fio
É a queixa mais comum do seguimento e a que mais gera conduta desnecessária. Fio ausente ao exame especular não quer dizer expulsão: quer dizer que quatro situações precisam ser distinguidas, e a primeira delas tem prioridade sobre todas.
Prescrição- Excluir gravidez primeiro, com teste rápido ou dosagem, antes de qualquer manobra (Manual Técnico DIU com Cobre TCu 380A, MS, 2018).
- Tentar recuperar o fio do canal cervical com uma escova de coleta citológica introduzida no orifício, que resolve boa parte dos casos; se necessário, pinça longa no canal (mesma fonte; Manual de Anticoncepção da Febrasgo, 2015).
- Não recuperando, fazer ultrassonografia transvaginal para localizar o dispositivo. Dispositivo bem posicionado na cavidade, com a mulher assintomática: nenhuma ação é necessária, e ele pode ser mantido até a época da troca (Manual Técnico DIU com Cobre TCu 380A, MS, 2018).
- Não localizando o dispositivo à ultrassonografia, fazer radiografia de abdome e pelve, porque o dispositivo é radiopaco. Ausência em ambos os exames indica expulsão despercebida; presença fora do útero indica perfuração com migração (mesma fonte).
- Diante de perfuração com dispositivo em cavidade abdominal, encaminhar para retirada por videolaparoscopia ou laparotomia. Perfuração parcial, com o dispositivo ainda intracavitário e retirada frustrada por tração, é indicação de histeroscopia (mesma fonte; Manual de Anticoncepção da Febrasgo, 2015).
- Enquanto o dispositivo não estiver localizado, a mulher está sem método comprovado: ofertar método de intervalo e, havendo relação desprotegida, anticoncepção de emergência.
- Fio mais longo do que o registrado na inserção é o outro lado da mesma queixa: sugere descida do dispositivo pelo canal e pede ultrassonografia. Dispositivo com qualquer segmento abaixo do orifício interno está mal posicionado, e a conduta é retirar, podendo-se inserir outro na mesma consulta (Manual Técnico DIU com Cobre TCu 380A, MS, 2018).
Gravidez com o dispositivo no lugar
É rara e tem conduta escrita. Duas coisas precisam ser ditas à mulher antes de qualquer decisão, e a segunda é a que costuma ser omitida: manter o dispositivo aumenta risco, e retirá-lo também tem risco, embora menor.
Prescrição- Excluir gravidez ectópica. O uso do dispositivo reduz o risco absoluto de ectópica em relação a quem não usa método, mas quando a gravidez acontece com o dispositivo no lugar, a chance de ela ser ectópica é maior (recomendações práticas selecionadas da OMS, 4. ed., 2025; Manual de Anticoncepção da Febrasgo, 2015).
- Explicar que, mantido o dispositivo, aumentam os riscos de abortamento de primeiro e segundo trimestre, inclusive séptico, e de parto prematuro; que retirá-lo reduz esses riscos; e que a própria retirada tem pequeno risco de abortamento (recomendações práticas selecionadas da OMS, 4. ed., 2025).
- Fio visível ou dispositivo recuperável com segurança pelo canal cervical: orientar a retirada e, com a concordância dela, retirar por tração suave dos fios (mesma fonte).
- Fio não visível e dispositivo não recuperável com segurança: não tentar manobras endouterinas. Usar ultrassonografia para localizar; se o dispositivo não for localizado, considerar expulsão ou perfuração prévias (mesma fonte; Manual Técnico DIU com Cobre TCu 380A, MS, 2018).
- Retirado ou mantido, orientar que ela procure atendimento no mesmo dia se aparecerem sangramento volumoso, cólica forte, dor, corrimento diferente do habitual ou febre (recomendações práticas selecionadas da OMS, 4. ed., 2025).
Quando ela quer tirar
Tirar é direito dela, não se discute e não exige justificativa. O que exige conduta é o que entra no lugar, e a resposta padrão do serviço — voltar outro dia para escolher — é a que produz a gravidez que o método evitava.
Prescrição- Perguntar o motivo antes de retirar, sem tentar demovê-la: sangramento, dor, desejo de engravidar, mudança de plano, pressão de terceiros. Cada motivo leva a uma oferta diferente.
- Sendo sangramento, oferecer o manejo antes da retirada e dizer a faixa de tempo: no dispositivo de cobre, tratar os dias de sangramento com anti-inflamatório não esteroidal ou com ácido tranexâmico, nunca com ácido acetilsalicílico, que pode piorar o quadro; nos dois dispositivos, a maior parte do problema se concentra nos três a seis primeiros meses (recomendações práticas selecionadas da OMS, 4. ed., 2025).
- Persistindo e sendo inaceitável para ela, retirar — a própria régua diz que, não havendo causa ginecológica identificada e sendo o sangramento inaceitável para a mulher, o dispositivo deve ser retirado e ela deve ser ajudada a escolher outro método (mesma fonte).
- Iniciar o método substituto na mesma consulta, sem intervalo desprotegido. A troca a partir de método hormonal usado corretamente é imediata e não espera menstruação (mesma fonte).
- Sendo desejo de engravidar, informar que o retorno da fertilidade é imediato depois de retirar dispositivo ou implante e que nenhum dos três causa infertilidade, e passar ao assunto seguinte, que é pré-natal (critérios médicos de elegibilidade da OMS, 6. ed., 2025).
- Retirar o implante é procedimento ambulatorial curto; implante não palpável não é motivo para adiar a conversa, mas é motivo para encaminhar a quem tenha recurso de localização, porque a retirada às cegas é o que produz o dano (bula profissional do implante de etonogestrel, 2025; Nota Técnica Conjunta nº 419/2025).
Como saber se está funcionando
O que se persegue aqui é a ausência de um evento, e ausência não deixa registro. Daí a reavaliação não seguir nenhum parâmetro fisiológico: ela segue três outras coisas — se o dispositivo continua onde foi posto, se a mulher continua querendo, e se a data da troca está escrita em algum lugar que alguém vá abrir.
Duas perguntas resumem o bloco e devem ser feitas em voz alta. Para a mulher: como está o seu sangramento, e isso está sendo suportável? Para quem atende: eu sei quando este método vence, e ela sabe?
Esperado: Mulher assintomática, fio presente e com o mesmo comprimento registrado na inserção
Se não melhora: Fio ausente ou mais longo do que o anotado: excluir gravidez, tentar recuperar o fio do canal com escova de coleta citológica e, não recuperando, fazer ultrassonografia. Dispositivo bem posicionado e mulher assintomática não exigem ação. Qualquer segmento abaixo do orifício interno é mau posicionamento, e a conduta é retirar e, se ela quiser, colocar outro na mesma consulta
Esperado: No cobre, fluxo mais volumoso e cólica nos três primeiros meses, decrescendo; no hormonal, manchas irregulares dando lugar a fluxo escasso ou ausência de menstruação; no implante, redução do número de episódios em cerca de 80% das usuárias em até 12 meses
Se não melhora: Excluir causa ginecológica quando clinicamente indicado. No cobre, tratar nos dias de sangramento com anti-inflamatório não esteroidal ou ácido tranexâmico, nunca com ácido acetilsalicílico, e repor ferro quando necessário. No hormonal e no implante, manchas persistentes sem causa identificada não têm tratamento estabelecido. Persistindo e sendo inaceitável para ela, retirar e ajudar a escolher outro método na mesma consulta — o inaceitável é definido por ela, não por quem atende
Esperado: Mulher capaz de repetir, com as palavras dela, o que faz voltar antes da data
Se não melhora: Reensinar a lista: febre, dor pélvica aguda ou persistente, corrimento com odor, sangramento muito mais intenso que o habitual, atraso menstrual, fio que sumiu ou que ficou mais comprido, plástico palpável no colo. Febre com dor pélvica no primeiro mês depois da colocação é a apresentação que mais importa, e o diagnóstico e o tratamento pertencem ao capítulo de doença inflamatória pélvica
Esperado: Mulher ainda usando o método que escolheu, sem intervalo desprotegido desde a colocação
Se não melhora: Descobrir se retirou, se expulsou sem perceber ou se mudou de ideia. Expulsão parcial ou total pode ser assintomática; quando dá sintoma, aparece como corrimento, sangramento fora de hora, sangramento após relação ou dor durante a relação. Dispositivo expulso não se reintroduz: coloca-se um novo. Mudança de ideia se respeita, com outro método na mesma consulta
Esperado: Prontuário e cartão da mulher com a mesma data-limite de retirada, e a mulher sabendo qual é
Se não melhora: Sem data registrada, o método vira permanente por omissão, e é assim que uma mulher chega ao ano quatro do implante achando que está protegida. Onde os documentos divergem sobre a duração, registrar qual prazo foi adotado e por quê; a divergência entre a bula brasileira e o protocolo de sociedade é real e está descrita nas notas. Na perimenopausa, a data deixa de vir do dispositivo e passa a vir da mulher: no dispositivo de cobre, o manual técnico federal manda retirar dois anos após a última menstruação em quem tem menos de 50 anos e após um ano de amenorreia em quem tem mais de 50, e registra que permanência mais prolongada depois da menopausa não causa problema. Retirar cedo demais devolve a ela um risco de gravidez que já não queria correr; a terapia hormonal da menopausa é assunto do capítulo próprio
Esperado: Categoria de continuação confirmada para o método em uso
Se não melhora: Reler a coluna de continuação, que quase nunca é a mesma da de iniciar. Enxaqueca com aura que surgiu, cardiopatia isquêmica, acidente vascular cerebral e lúpus com anticorpo antifosfolípide movem o dispositivo hormonal e o implante para a categoria que exige julgamento, e não movem o dispositivo de cobre. Câncer de mama diagnosticado durante o uso é a condição que retira o hormonal e o implante da mesa e deixa o cobre
Esperado: Insumo em estoque, profissional habilitado em escala e número de inserções registradas compatível com o número de dispensações
Se não melhora: Se as dispensações de implante não batem com as inserções registradas, o problema é de controle de insumo e a norma exige explicar cada diferença. Se não há inserções, o problema é de agenda ou de habilitação: o método existir no estoque e não existir na agenda produz exatamente o mesmo resultado que não existir. Levar ao gestor com o número de mulheres que escolheram e não receberam no trimestre
Onde o erro machuca
O dano: São as três recusas mais comuns do capítulo e nenhuma delas está na régua. Nunca ter engravidado é categoria 2 para os dois dispositivos; não existe dia do mês em que o de cobre deixe de poder ser colocado; e os únicos exames essenciais antes da colocação são o pélvico e a estimativa de risco de infecção pela história e pelo exame físico, ambos de consulta. Cada recusa transforma uma consulta em três, e no intervalo a mulher está exposta — num país em que a maioria das gestações não é planejada, esse intervalo tem desfecho conhecido.
Como pegar a tempo: Diante de qualquer motivo para dizer não, abrir a tabela antes de responder. A pergunta a fazer a si mesmo é qual linha da régua sustenta a recusa; se não houver linha, não há recusa. E tratar o rastreamento do colo pelo que ele é, com indicação e periodicidade próprias, oferecido nesta consulta ou na próxima, sem que uma coisa fique presa à outra.
O dano: O padrão de sangramento é a principal causa de retirada precoce dos três métodos, e todos os três têm padrão conhecido e diferente. A mulher que não foi avisada de que o dispositivo de cobre aumenta o fluxo nos primeiros meses, de que o hormonal costuma reduzir a menstruação até quase desaparecer, ou de que uma em cada cinco usuárias de implante sangra mais vezes ou por mais dias, não tem como interpretar o que sente. Sem informação, a conclusão possível é que o método falhou ou está fazendo mal.
Como pegar a tempo: Dizer o padrão antes de colocar, com a faixa numérica e com o prazo em que costuma melhorar, e perguntar explicitamente se aquele padrão é aceitável para ela. É a conversa mais barata do capítulo e a que mais sustenta a continuidade.
O dano: O intervalo entre retirar um método e começar outro é o trecho mais arriscado de toda a vida contraceptiva dela, e o retorno que se promete na porta costuma não acontecer. É o mecanismo pelo qual uma conduta correta — retirar um dispositivo que a incomoda — produz a gravidez não planejada que o dispositivo evitava.
Como pegar a tempo: Decidir o substituto antes de retirar e iniciá-lo na mesma consulta. A troca a partir de método hormonal usado corretamente é imediata e não espera menstruação. Se o substituto escolhido também é de longa duração e a inserção é noutro dia, entregar preservativos, marcar com data escrita e explicar a anticoncepção de emergência.
O dano: Fio que não se vê tem quatro causas, e a expulsão é apenas uma delas: o fio pode ter enrolado no canal, o dispositivo pode ter perfurado e migrado, e pode haver gravidez. Presumir expulsão sem excluir gravidez é o erro que leva a manobra endouterina em mulher grávida; presumir expulsão sem procurar o dispositivo deixa um corpo estranho em cavidade abdominal.
Como pegar a tempo: Seguir a ordem: excluir gravidez, tentar recuperar o fio do canal com escova de coleta citológica, ultrassonografia se não recuperar, radiografia se a ultrassonografia não achar. Dispositivo bem posicionado em mulher assintomática não exige ação nenhuma — o fio é um cabo de retirada, não o método.
O dano: Sem data escrita, o método vira permanente por omissão, e a mulher passa a acreditar que está protegida quando já não está — situação frequente no implante, que não dá sinal nenhum quando vence. Sem o comprimento do fio anotado, a consulta seguinte não tem com o que comparar, e uma queixa que se resolveria com um exame especular vira pedido de ultrassonografia.
Como pegar a tempo: Anotar no prontuário o comprimento do fio na inserção e entregar à mulher, no implante, o cartão com data de inserção, data-limite, lote e braço. Registrar o procedimento com o código próprio: é esse registro que sustenta a reposição do insumo e revela se o serviço está de fato ofertando.
O dano: Encaminhamento sem data marcada tem, na prática, o mesmo resultado da recusa, com a diferença de que ninguém percebe. A mulher sai da consulta acreditando que a decisão foi tomada, atravessa semanas ou meses sem método e, quando volta, volta grávida ou não volta. É a forma mais silenciosa de barreira de acesso deste capítulo.
Como pegar a tempo: Encaminhar com data escrita, entregar preservativos para o intervalo e explicar a anticoncepção de emergência. E, quando o serviço tem insumo e não tem quem coloque, tratar isso como problema de agenda e de habilitação, e não como característica do território: a norma federal é expressa em reconhecer médicos e enfermeiros habilitados para inserir e retirar.
O que dizer ao paciente e à família
A conversa aqui não é acessório: é o próprio procedimento. Não há sintoma para aliviar nem exame para interpretar — há uma decisão que pertence à mulher, e ela só é boa se as informações certas tiverem sido ditas antes. Neste capítulo as informações certas são quatro: quanto o método falha, quanto ele dura, como ele faz sangrar e o que acontece se ela quiser tirar.
Duas armadilhas de linguagem estragam quase todas essas conversas. A primeira é o vocabulário do documento: categoria, elegibilidade, contraindicação relativa. A mulher não precisa da palavra categoria; precisa saber se pode, se não pode, e o que pode no lugar. A segunda é prometer o padrão de sangramento mais confortável em vez do mais provável — a promessa de que vai parar de menstruar é o que produz a retirada no quarto mês. As falas abaixo são para dizer, não para parafrasear.
Oferecer a quem não pediu, sem empurrar
“Antes de a gente decidir, quero te mostrar tudo o que existe aqui, inclusive o que você talvez não conheça. Tem o comprimido, que funciona bem quando é tomado todo dia no mesmo horário — do jeito que as pessoas usam de verdade, 7 em cada 100 engravidam em um ano. E tem três que duram anos e não dependem de você lembrar de nada: um dispositivo de cobre, que dura dez anos; um dispositivo com hormônio, que dura oito; e um implante no braço. Nesses três, menos de uma mulher em cem engravida por ano. Você escolhe — só quero que escolha sabendo que eles existem.”
Não diga: Falar só do que está na gaveta, ou insistir depois que ela escolheu. Apresentar não é convencer: se ela ouviu os números e prefere o comprimido, o comprimido é a escolha certa.
Ela diz que ouviu que não pode porque nunca teve filho
“Isso é uma ideia antiga e não é verdade. Quem nunca engravidou pode usar dispositivo, e a recomendação atual diz isso com todas as letras: os riscos são baixos em todas as mulheres, e a diferença entre quem já teve filho e quem não teve pode nem ter importância clínica. O que às vezes muda é a colocação em si: se o colo for mais fechado, o procedimento pode incomodar mais, e para isso a gente tem o que fazer — remédio antes e anestesia local. Não é motivo para você ficar sem o método.”
Não diga: Repetir a frase por hábito, ou dizer que 'é melhor esperar ter um filho'. É a recusa mais antiga do capítulo e a que mais tira mulheres jovens do método mais eficaz que existe.
Ela veio menstruada porque mandaram, ou pergunta se precisa esperar a menstruação
“Não precisa esperar. Não tem dia certo do mês para colocar o dispositivo de cobre; a única coisa de que a gente precisa ter certeza é de que você não está grávida — e para isso eu te faço umas perguntas e, se ficar dúvida, a gente faz o teste aqui mesmo, que sai na hora. Se der para colocar hoje, eu coloco hoje. Marcar para você voltar menstruada é fazer você vir duas vezes e ficar mais um mês sem nada.”
Não diga: Marcar a colocação para o próximo ciclo por rotina do serviço. Cada retorno marcado é uma chance de a mulher não voltar, e nesse intervalo o risco é de gravidez.
Dizer o padrão de sangramento do implante antes de inserir
“Preciso te contar como esse implante costuma mexer na menstruação, porque é a parte que mais faz gente arrepender. Em cerca de 8 de cada 10 mulheres, ao longo do primeiro ano, a menstruação vai diminuindo: vem uma vez por mês ou menos, e em algumas para de vir. Mas em cerca de 2 de cada 10 acontece o contrário — vem mais vezes, ou dura mais dias, e pode ser um sangramento fraquinho quase o tempo todo. Isso não é o implante falhando nem fazendo mal, é como ele funciona. Se acontecer com você, eu quero que você volte para a gente conversar, e não que você desista sozinha.”
Não diga: Dizer que ela vai parar de menstruar. É a promessa mais comum e a mais cara: quando o contrário acontece, a mulher conclui que algo deu errado e vem tirar.
Ela chegou para tirar por causa do sangramento
“Se você quiser tirar hoje, eu tiro hoje — isso é decisão sua e não precisa de justificativa. Antes disso, duas coisas: primeiro, tem remédio que ajuda nos dias de sangramento, e em boa parte das mulheres isso melhora sozinho nos primeiros meses; segundo, e mais importante, se você tirar hoje, eu não quero que você saia daqui sem nada. Então vamos combinar agora o que entra no lugar, para começar na mesma consulta. Ficar sem método por umas semanas é justamente o momento em que mais gente engravida sem querer.”
Não diga: Tentar demovê-la, ou tirar e marcar retorno para decidir depois. O retorno para decidir é a consulta que menos acontece.
Puérpera, ainda na maternidade, para quem a janela vai fechar
“Tem uma coisa que só dá para fazer agora, nas primeiras 48 horas, e é por isso que estou te perguntando hoje: se você quiser um dispositivo, este é o melhor momento de colocar. Depois disso, tem um período de umas quatro semanas em que não se coloca, e aí a gente teria que remarcar. O implante no braço não tem essa regra, pode ser colocado a qualquer momento e não atrapalha a amamentação. Nenhum dos dois atrapalha o leite. O que eu não quero é deixar para resolver depois e o depois não vir.”
Não diga: Adiar a conversa para a consulta de puerpério. O retorno pós-parto é o que mais falha, e a próxima vinda costuma ser com a gestação seguinte.
Ela pergunta se depois consegue engravidar
“Consegue, e sem espera. Tirando o dispositivo ou o implante, a fertilidade volta logo — pode ser já no ciclo seguinte. Não acumula nada no corpo, não precisa de limpeza nenhuma e nenhum desses métodos deixa mulher infértil. Se o seu plano é engravidar daqui a um tempo e você não quer ficar sem nada até lá, esses métodos servem bem, porque a gente tira no dia em que você decidir.”
Não diga: Responder que depende de cada mulher. A resposta é sabida, muda de um método para outro, e o medo de ficar infértil está entre as razões mais frequentes de recusa.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Fazer profilaxia — recomendação expressa da régua internacional
A régua de elegibilidade classifica a valvopatia complicada — hipertensão pulmonar, risco de fibrilação atrial, história de endocardite bacteriana subaguda — como categoria 2 para os dois dispositivos intrauterinos, e acrescenta, na própria linha, o esclarecimento de que se aconselha antibiótico profilático para prevenir endocardite na colocação. A régua de prática, ao dizer que a profilaxia não é recomendada de rotina, faz a ressalva de que as recomendações se aplicam a mulheres saudáveis e que quem tem condição que justifique profilaxia antibiótica para procedimentos invasivos pode também precisar dela na colocação. As duas edições de 2025 apontam para o mesmo lado.
Critérios médicos de elegibilidade para uso de contraceptivos, 6. ed. (OMS, 2025), seção 5.4.1, linha de valvopatia; Recomendações práticas selecionadas, 4. ed. (OMS, 2025), seção sobre antibiótico profilático
Não fazer — posição do manual técnico federal
O manual técnico do Ministério da Saúde para o dispositivo de cobre afirma, na seção de esclarecimento de mitos, que mulheres com doença cardíaca valvar podem utilizar o dispositivo, que ele não aumenta o risco de bacteremia nem de infecção pélvica, e que não há indicação para profilaxia de endocardite durante a inserção nessas mulheres. É o documento de treinamento distribuído às equipes que colocam o dispositivo na atenção primária brasileira, e não distingue valvopatia complicada de não complicada.
Manual Técnico para Profissionais de Saúde: DIU com Cobre TCu 380A (Ministério da Saúde, 2018), seção 20
Decida pela gravidade da valvopatia. Em valvopatia não complicada, as duas posições coincidem: não há profilaxia, e não há o que discutir. Na valvopatia complicada — hipertensão pulmonar, risco de fibrilação atrial, endocardite prévia —, esta apostila adota a profilaxia na colocação, e decide pelo escopo: a linha da régua internacional é escrita para essa mulher, enquanto o manual técnico federal responde à doença valvar em geral, numa seção de mitos, sem separar a complicada; a data, 2025 contra 2018, aponta para o mesmo lado. A posição do manual fica registrada como a de 2018 e continua valendo onde as duas coincidem. A valvopatia complicada é rara na agenda da atenção primária e quase sempre já tem cardiologista acompanhando — e é com esse cardiologista que se combina o esquema, porque ele depende do tipo de lesão, de prótese e de antecedente de endocardite, dados que não estão no seu prontuário. Nenhuma das duas posições sustenta adiar o método por causa da dúvida: a mulher com valvopatia complicada é justamente aquela para quem engravidar sem planejar representa perigo maior, e a régua registra isso num quadro próprio, que reúne as condições em que a gestação não pretendida deixa de ser risco aceitável. Registre no prontuário a profilaxia feita e o esquema combinado.
Não usar durante o seguimento, com exceção estreita — linha de cuidado nacional
A linha de cuidado brasileira para doença trofoblástica gestacional afirma que o dispositivo intrauterino, de cobre ou hormonal, não está indicado durante o seguimento pós-molar, especialmente com hormônio positivo, pelo risco de hemorragia e de perfuração uterina caso haja evolução para neoplasia trofoblástica; e recomenda que na alta hospitalar se prescreva contraceptivo efetivo com exceção do dispositivo. O mesmo documento abre uma janela estreita: em casos selecionados, o uso poderá ser considerado depois de a paciente atingir normalização do hormônio por pelo menos três semanas.
Linha de Cuidados para Doença Trofoblástica Gestacional (Ministério da Saúde, 2021, versão preliminar), seções 5 e 6
Graduar pela curva do hormônio — régua internacional
A régua de elegibilidade separa duas situações. Com o hormônio em queda ou indetectável, os dois dispositivos são categoria 3: não usar, salvo se não houver outro método disponível ou aceitável, e com seguimento próximo. Com hormônio persistentemente elevado ou doença maligna, são categoria 4. A régua registra ainda a evidência que sustenta essa graduação: dados limitados sugerem que mulheres que usam dispositivo após esvaziamento uterino por gestação molar não têm risco maior de desenvolver doença trofoblástica pós-molar em comparação com usuárias de outros métodos. Para os métodos só de progestagênio, inclusive o implante, a mesma régua dá categoria 1 nas duas situações.
Critérios médicos de elegibilidade para uso de contraceptivos, 6. ed. (OMS, 2025), seções 5.2.4 e 5.4.1
Esta apostila adota a graduação da régua internacional: com hormônio persistentemente elevado ou doença maligna, o dispositivo não entra; com hormônio em queda ou indetectável, só entra se nenhum outro método for disponível ou aceitável, e com seguimento próximo. Os dois documentos são escritos para essa mulher e, empatado o escopo, decide a data — 2025 contra a versão preliminar de 2021, que fica registrada com a sua exceção de três semanas de hormônio normalizado. Mesmo assim, não decida por conta própria: decida com o serviço que faz o seguimento. O seguimento pós-molar, a leitura da curva do hormônio e os critérios de neoplasia pertencem ao capítulo de doença trofoblástica gestacional e, na vida real, ao centro de referência que acompanha a paciente — e é dele a decisão sobre o dispositivo. O que cabe a você, na alta hospitalar ou na unidade básica, é o que as duas posições têm em comum e que é urgente: prescrever contracepção efetiva imediatamente após o esvaziamento, sem esperar o sangramento parar. O motivo é aritmético: se ela engravidar, a dosagem seriada deixa de distinguir doença de gestação, e o seguimento inteiro perde o sentido. As duas posições concordam também sobre a alternativa: os métodos hormonais são seguros nesse período, não aumentam o risco de evolução para neoplasia, e o implante de etonogestrel é nomeado entre as opções seguras pelos dois documentos. Numa mulher com dificuldade de adesão diária, isso resolve o caso sem tocar na divergência.
Três anos — bula brasileira, norma federal e régua internacional
A bula profissional aprovada pela agência sanitária brasileira em maio de 2025 afirma que o implante pode ser mantido por três anos e que não deve permanecer inserido por mais de três anos da data de inserção, e acrescenta que o médico pode considerar substituição em prazo menor em mulher com sobrepeso, porque as concentrações de etonogestrel são inversamente proporcionais ao peso corporal e a experiência no terceiro ano em mulheres de peso elevado é limitada. A nota técnica federal que organiza a oferta do método no sistema público repete os três anos, citando a bula. A régua internacional de elegibilidade, de 2025, também registra três anos para os implantes de etonogestrel.
Bula profissional do implante de etonogestrel 68 mg (aprovada pela Anvisa em 23 de maio de 2025); Nota Técnica Conjunta nº 419/2025-DGCI/DESCO/SAPS/MS, item 2.2.1; Critérios médicos de elegibilidade, 6. ed. (OMS, 2025), seção 5.2.3
Cinco anos — protocolo brasileiro de sociedade, publicado em 2026
O protocolo de anticoncepção após o parto da federação brasileira de ginecologia e obstetrícia, publicado em 2026 e elaborado pela comissão nacional de anticoncepção, descreve o implante subdérmico de etonogestrel como método de longa duração de cinco anos. O protocolo é documento oficial da federação, cita as duas edições de 2025 da régua internacional e é a referência de sociedade mais recente sobre o assunto no país. A extensão de prazo do implante de etonogestrel para até cinco anos foi aprovada por agência reguladora estrangeira, com base em estudo em que mulheres que já usavam o implante havia 36 meses seguiram por mais 24 meses.
Protocolo Febrasgo de Ginecologia nº 106 — Anticoncepção após o parto (Femina 2026;54(5):405-11), seção de métodos apenas com progestagênio
Decida pela mulher que está na sua frente e pelo que você vai escrever no cartão dela. Para quem está inserindo hoje, a data-limite a registrar é a da bula brasileira, porque é ela que vigora no país, é ela que a norma federal repete e é ela que sustenta a conduta se algo der errado: escrever cinco anos num cartão hoje é atribuir ao dispositivo um prazo que a autoridade sanitária brasileira ainda não autorizou. Para quem já está no ano quatro, o cálculo é outro e mais desconfortável: o implante venceu pelo prazo nacional, ela não está mais protegida por um prazo que se possa afirmar, e a conduta é trocar — não é razoável pedir a ela que confie num prazo estrangeiro. E há um detalhe que a bula registra e que pesa nas duas posições: a concentração de etonogestrel cai com o peso corporal, e a própria bula sugere considerar substituição antecipada em mulher com sobrepeso, o que empurra a decisão para o prazo mais curto justamente em quem mais aparece na consulta. Registre no prontuário qual prazo foi adotado, para que a próxima consulta não recomece do zero.
O raciocínio, em voz alta
Naiara Buriti tem 23 anos, é operadora de telemarketing, nunca engravidou e chega à unidade básica numa quarta-feira à tarde dizendo que quer o dispositivo intrauterino. Está no 19.º dia do ciclo. Fuma dez cigarros por dia. Tem dor de cabeça forte umas duas vezes por mês, e antes da dor enxerga riscos brilhantes em ziguezague que apagam parte da vista por uns vinte minutos. Já veio duas vezes por causa disso: da primeira mandaram voltar menstruada, da segunda pediram preventivo e exames de sangue. Trouxe os exames. A agenda tem mais sete pessoas.
O que penso antes de olhar os exames que ela trouxe
Ela veio três vezes pelo mesmo pedido, e nas duas primeiras a recusa não teve base clínica. Isso muda a ordem da consulta: a pergunta não é se ela pode, é o que impede de colocar hoje. Vou conferir a régua antes de qualquer outra coisa, porque se não houver linha que sustente o não, então é sim — e sim hoje, porque uma quarta chance de ela voltar não é garantida.
A aura, que muda o resto da consulta e não muda este método
O que ela descreve — riscos brilhantes em ziguezague, apagando um pedaço da vista, sempre antes de a dor começar — tem nome, e o nome é aura. Isso importa muito, mas não do jeito que ela espera: aura é risco inaceitável para qualquer método com estrogênio, em qualquer idade, e é assunto do capítulo de contracepção hormonal combinada. Para o que ela veio pedir, o dispositivo de cobre, aura é categoria 1 — sem restrição. Para o dispositivo com levonorgestrel e para o implante, é 2 para iniciar. Ou seja: a informação que fecharia a porta da pílula é justamente a que torna o método que ela escolheu a melhor escolha para ela.
O cigarro, que também não muda
Dez cigarros por dia aos 23 anos. Para o combinado, ainda seria categoria 2, e a partir dos 35 anos viraria 3 ou 4 conforme a quantidade. Para os três métodos deste capítulo, tabagismo é categoria 1 em qualquer idade e em qualquer quantidade. Registro o número mesmo assim, porque ele muda a conversa de outro assunto e porque ela fará 35 anos algum dia — mas não muda nada da decisão de hoje.
A nuliparidade, que é a razão de ela estar aqui pela terceira vez
Nunca ter engravidado é categoria 2 para os dois dispositivos: pode usar, com acompanhamento mais atento. A régua registra dois fatos: os riscos de gravidez, infecção, perfuração e expulsão são baixos em qualquer usuária, e a diferença entre quem já pariu e quem não pariu pode não ter importância clínica nenhuma. O manual técnico federal diz o mesmo com outras palavras, e afirma que quem nunca engravidou pode usar. O que a nuliparidade muda de verdade é operacional: o colo pode ser mais fechado, e a colocação pode doer mais. Isso é problema de analgesia, não de indicação.
O dia do ciclo, que também não impede
Dia 19. Passou dos doze dias do início do sangramento, e é exatamente por isso que ela foi mandada de volta duas vezes. A regra real é outra: passados os doze dias, o dispositivo de cobre pode ser colocado assim que a gravidez estiver razoavelmente afastada — e, em qualquer dos dois casos, sem necessidade de proteção adicional depois, porque o cobre age desde a colocação.
Como estabeleço a certeza razoável
São seis critérios, e basta um, na ausência de sinal ou sintoma de gravidez. Pergunto: teve relação desde a última menstruação? Teve, sem preservativo, há oito dias. Está usando algum método de forma correta e consistente? Não. Não estamos nos primeiros sete dias da menstruação, ela não é puérpera e não teve abortamento recente. Nenhum critério se aplica, então não presumo: ofereço o teste rápido de gravidez, que a unidade tem e que sai na hora. Negativo.
O que faço com os exames que ela trouxe
Olho, agradeço e digo a verdade: nenhum deles decide isto. Citologia oncótica, exames laboratoriais de rotina e exame das mamas estão todos classificados como não contribuindo substancialmente para o uso seguro e efetivo do dispositivo. O que a régua chama de essencial e obrigatório são duas coisas que estão nesta sala: o exame pélvico e genital e a avaliação de risco de infecção por história e exame físico. Faço as duas. Ela tem parceiro fixo há dois anos, sem sintoma, sem corrimento; ao especular, colo sem secreção purulenta; ao toque, útero em posição intermediária, de volume normal, sem dor à mobilização.
O risco de infecção, que é a única linha em que preciso julgar
A régua não me dá um número aqui: dá uma ambiguidade proposital. Risco aumentado de infecção sexualmente transmissível é categoria 2 ou 3 para colocar, com o esclarecimento de que muitas mulheres com risco aumentado podem colocar e que algumas, com probabilidade individual muito alta, não devem colocar até que se teste e trate. E acrescenta que os algoritmos de estimativa de risco têm baixo valor preditivo. No caso dela, nada aponta para probabilidade individual muito alta. Coloco, e ofereço os testes rápidos disponíveis na mesma consulta — como oferta, não como condição.
A dor, que é a parte que ela não perguntou e que decide a experiência
Explico que pode doer, que a dor varia muito de mulher para mulher e que existem coisas que a gente faz. Dou ibuprofeno 600 mg por via oral e espero cerca de uma hora — o efeito é de pequeno a moderado, mas é o que a evidência sustenta e não tem custo. A unidade tem lidocaína a 2%; se eu for fazer bloqueio paracervical, calculo o volume pelo peso, porque a 2% cada mililitro tem 20 miligramas e 12 mililitros já são 240, perto do teto de 4,5 miligramas por quilo. Não uso misoprostol: de rotina ele não reduz dor nem facilita o procedimento, e pode aumentar cólica e diarreia.
O que digo antes de colocar, sobre o sangramento
'Naiara, esse dispositivo não tem hormônio, e é justamente por isso que ele serve para você. O preço disso é a menstruação: nos primeiros meses ela costuma vir mais forte e com mais cólica, e em algumas mulheres continua um pouco mais volumosa depois. Na maioria melhora. Se incomodar, tem remédio para tomar nos dias de sangramento. Isso não quer dizer que ele parou de funcionar — nenhum sangramento aqui quer dizer isso. Se em algum momento você achar que não vale a pena, a gente tira, e tira no dia em que você decidir.'
O que registro, e o que entrego
Anoto: 23 anos, nuligesta, tabagista de dez cigarros por dia, enxaqueca com aura confirmada por pergunta em duas partes, teste rápido de gravidez negativo hoje, exame pélvico sem alteração, avaliação de risco de infecção sem sinal de probabilidade individual muito alta. Dispositivo de cobre colocado nesta data, fio cortado a três centímetros do orifício externo — esse número é o que a próxima consulta vai comparar. Registro o procedimento com o código próprio. Entrego a via dela do termo de consentimento, entrego preservativos, e escrevo a data-limite: dez anos, pelo manual técnico federal. Ensino o autoexame do fio ali mesmo, com ela tocando o próprio colo, e marco a revisão para depois da primeira menstruação.
O que teria acontecido no caminho mais provável
No caminho mais provável, ela teria ouvido pela terceira vez que não dá hoje. Sairia com um pedido novo, continuaria com preservativo quando o parceiro aceitasse, e a régua diria, o tempo todo, que ela era categoria 1. Repare no que custou fazer diferente: uma pergunta em duas partes sobre a dor de cabeça, um teste rápido, um exame especular e um toque bimanual. Nenhum exame de laboratório, nenhum retorno, nenhuma espera pela menstruação. O método mais eficaz que a unidade tem estava a quarenta minutos de distância, e o que separava os dois era uma lista de exigências que ninguém tinha conferido.
Variação do caso — resposta e reavaliação
Variação do retorno de Naiara: ela relata mudança esperada do sangramento, sem dor importante nem sinais de infecção. Conferir intensidade e impacto, explicar a evolução possível e discutir manejo ou troca se desejar. Permanecer com o método é uma escolha, não uma obrigação porque ele é eficaz.
Variação do caso — quando mudar o plano
Se aparecem dor intensa, febre, suspeita de expulsão ou teste de gravidez positivo, avaliar prontamente o método e a localização gestacional quando aplicável. Não atribuir qualquer dor à adaptação. Sintoma de alarme muda a consulta de orientação para investigação.
Faça você
Guiomar Vilhena tem 34 anos, dois filhos, e usa dispositivo intrauterino de cobre colocado há seis anos numa maternidade, logo depois do segundo parto. Chega à unidade básica dizendo que não sente mais o fio. Percebeu há umas três semanas, quando foi conferir depois de ler alguma coisa na internet. Está com a menstruação atrasada há doze dias — o ciclo dela é regular. Não tem dor, não tem febre, não tem corrimento. Nega sangramento anormal. Ao exame especular, o colo está limpo, sem secreção purulenta, e não se vê fio nenhum no orifício externo. Ao toque bimanual, útero de volume normal, indolor, sem massa anexial. A unidade tem teste rápido de gravidez, tem ultrassonografia com fila de três semanas e tem aparelho de radiografia no hospital de referência, a doze quilômetros.
Passo 1 — o que a ausência do fio pode significar
Fio que não se vê tem quatro causas possíveis, e elas exigem condutas diferentes: o dispositivo está bem posicionado e o fio se enrolou no canal cervical; o dispositivo foi expulso sem que ela percebesse; houve perfuração e ele migrou; ou há gravidez. As quatro precisam ser distinguidas, e uma delas tem prioridade absoluta sobre as outras três.
Passo 2 — o dado que muda a ordem de tudo
O atraso menstrual de doze dias em mulher de ciclo regular não é um detalhe da história: é o que decide qual exame vem primeiro e o que impede qualquer manobra dentro do canal antes de ser resolvido. Repare que os seis critérios de certeza razoável de ausência de gravidez não ajudam aqui — nenhum deles se aplica a essa mulher.
Passo 3 — decida você
Escreva seis coisas antes de ler a resposta. Primeira: qual é o primeiro exame, e por quê. Segunda: qual é a sequência completa de investigação se esse primeiro exame for negativo, incluindo a manobra de consultório que costuma resolver e o que fazer se a ultrassonografia não achar o dispositivo. Terceira: o que fazer se o dispositivo aparecer bem posicionado na cavidade, com ela assintomática. Quarta: se o primeiro exame for positivo, quais são as duas informações que ela precisa ouvir antes de qualquer decisão, e o que muda conforme o fio esteja ou não recuperável. Quinta: o que ela usa como método enquanto o dispositivo não estiver localizado. Sexta: o dispositivo tem seis anos e foi colocado no pós-parto imediato — escreva o que isso acrescenta ao caso.
Ver como fecharíamos
O primeiro exame é o teste rápido de gravidez, e ele vem antes de qualquer manobra: com atraso de doze dias em ciclo regular, nenhum dos seis critérios de certeza razoável de ausência de gravidez se aplica, e manobra endouterina em mulher grávida é o dano que se quer evitar. Sendo negativo, a sequência é: tentar recuperar o fio do canal cervical com uma escova de coleta citológica introduzida no orifício, manobra de consultório que resolve boa parte dos casos e que pode ser complementada com pinça longa; não recuperando, solicitar ultrassonografia transvaginal para localizar o dispositivo; e, se a ultrassonografia não o encontrar, radiografia de abdome e pelve, porque o dispositivo de cobre é radiopaco. Ausência nos dois exames significa expulsão despercebida; presença fora do útero significa perfuração com migração, e a conduta é encaminhar para retirada por videolaparoscopia ou laparotomia. Se o dispositivo aparecer bem posicionado na cavidade e ela estiver assintomática, nenhuma ação é necessária: ele pode ser mantido, e a retirada, quando chegar a época, será feita por histeroscopia. O fio é o cabo de retirada, não o método. Se o teste for positivo, as duas informações obrigatórias são: primeiro, é preciso excluir gravidez ectópica, porque, embora o dispositivo reduza o risco absoluto de ectópica em relação a quem não usa método, quando a gravidez acontece com ele no lugar a chance de ser ectópica é maior; segundo, manter o dispositivo aumenta o risco de abortamento de primeiro e segundo trimestre, inclusive séptico, e de parto prematuro, enquanto retirá-lo reduz esses riscos — embora a própria retirada tenha um pequeno risco de abortamento. Com fio visível ou dispositivo recuperável com segurança pelo canal, orienta-se a retirada e ela é feita por tração suave; com fio não visível e dispositivo não recuperável com segurança, não se tentam manobras endouterinas, usa-se ultrassonografia para localizar, e ela é orientada a procurar atendimento no mesmo dia se aparecerem sangramento volumoso, cólica forte, dor, corrimento diferente do habitual ou febre. Enquanto o dispositivo não estiver localizado, ela está sem método comprovado: oferta-se método de intervalo na mesma consulta e, havendo relação desprotegida recente, anticoncepção de emergência. Sobre os seis anos e a colocação no pós-parto imediato: o dispositivo de cobre tem dez anos de duração pelo manual técnico federal, de modo que seis anos não é razão para trocar; e a colocação pós-placentária tem taxa de expulsão maior que a de intervalo, o que torna a expulsão despercebida uma hipótese mais provável neste caso do que seria noutra mulher — razão a mais para procurar o dispositivo até achar, em vez de presumir. Vale registrar, por fim, o que este caso ensina sobre a consulta de seis anos atrás: se o comprimento em que o fio foi cortado tivesse sido anotado no prontuário, a comparação seria imediata.
Um teste urinário negativo oito dias após relação desprotegida pode ser precoce e não exclui gravidez. Sem outro critério que permita certeza razoável, adia-se a inserção do DIU, oferece-se método de ponte apropriado e programa-se reavaliação com testagem no momento adequado. Não é obrigatório aguardar uma menstruação se essa certeza puder ser estabelecida antes. O DIU de cobre pode ser usado como contracepção de emergência em janelas específicas, inclusive até cinco dias da ovulação quando estimável, mas os dados apresentados não comprovam essa elegibilidade. Nuliparidade e enxaqueca com aura não contraindicam o DIU de cobre; métodos com estrogênio são inadequados na enxaqueca com aura.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Escreva de memória, sem consultar: (1) os três mecanismos, em uma frase cada, e por que eles produzem três padrões de sangramento diferentes; (2) a lista real do que impede colocar um dispositivo intrauterino, e a lista, mais curta, do que impede o implante; (3) as sete recusas que não estão escritas em lugar nenhum; (4) os dois exames que a régua chama de essenciais antes de colocar um dispositivo, e os quatro que ela classifica como não contribuindo; (5) os seis critérios de certeza razoável de ausência de gravidez; (6) as janelas de colocação no pós-parto, incluindo o vão de 48 horas a quatro semanas e o método que cobre esse vão; (7) a sequência completa do fio que sumiu, na ordem certa; (8) a falha em uso típico e a duração autorizada dos três métodos, com a fonte de cada prazo. Confira depois pelas tabelas. Feito isso, vá ao serviço: abra a agenda do último mês na sua unidade, conte quantas mulheres em idade fértil foram atendidas e quantas inserções de dispositivo ou de implante saíram registradas com código. Aplicação comentada: Fios não visíveis significam necessariamente expulsão? Não. Avalie localização e contexto antes de concluir ou tentar remover.
Em 30 dias
Volte ao caso de Naiara, troque um dado de cada vez e responda em voz alta o que isso altera: e se ela estivesse no 4.º dia do ciclo; se tivesse corrimento purulento ao especular; se estivesse com 30 horas de pós-parto; se estivesse com 15 dias de pós-parto; se tivesse tido doença inflamatória pélvica tratada há dois meses; se estivesse em uso de carbamazepina e tivesse escolhido o implante; se tivesse câncer de mama tratado há três anos; se estivesse em seguimento pós-molar com hormônio caindo. Depois, escreva sem modelo o registro completo de uma colocação de dispositivo: o que vai no prontuário, o que vai no cartão da mulher, o que vai no código do procedimento e o que ela precisa saber repetir com as próprias palavras antes de sair. Por fim, revise os números que valem para o resto da vida profissional: 0,1 em uso típico no implante, 0,4 no dispositivo com levonorgestrel, 0,8 no de cobre e 7 no comprimido, todos por 100 mulheres no primeiro ano; dez, oito e três anos de duração autorizada; 12 dias de janela sem exigência no cobre e 7 nos outros dois; 48 horas e 4 semanas como as bordas do vão do pós-parto; e 5 dias como o prazo do dispositivo de cobre para anticoncepção de emergência.
Agora atenda
Agora atenda a consulta que este capítulo existe para consertar: a mulher que chega pedindo um método de longa duração, ou que chega sem saber que ele existe. Seu trabalho é decidir se dá para colocar hoje. Confira a régua antes de dizer não — e, se for dizer não, saiba apontar a linha que sustenta a recusa. Estabeleça certeza razoável de que ela não está grávida pelos seis critérios, e ofereça o teste rápido se nenhum se aplicar. Faça os dois exames que são obrigatórios de verdade, o pélvico e a avaliação de risco de infecção, e não peça os que não decidem nada. Diga o padrão de sangramento do método escolhido antes de colocar, com a faixa numérica, e pergunte se aquele padrão é aceitável para ela. Combine o manejo da dor. E registre o que a próxima consulta vai precisar: o comprimento do fio, a data-limite de retirada e o código do procedimento. Quatro armadilhas: recusar por nuliparidade, por dia do ciclo ou por exame pendente; prometer que ela vai parar de menstruar; retirar sem entregar outro método na mesma consulta; e encaminhar sem data quando o serviço não insere.
